três poemas de Charles Bukowski

tradução de Thaís Fernandes

seja gentil

sempre nos pedem
para entender o ponto de vista
do outro
não importa o quanto
antiquado,
insensato ou
tolo.

nos pedem
para enxergar
com
flexibilidade
as suas falhas,
o desperdício das suas vidas,
especialmente se eles forem
idosos.

a velhice, porém, é fruto de
tudo que fazemos.
eles envelheceram
mal
porque
viveram
fora do eixo,
eles se recusaram a
perceber.

não é culpa deles?
de quem é a culpa?
minha?

pedem-me para esconder
deles o meu
ponto de vista
por temer os próprios
medos.

envelhecer não é um crime,

mas a vergonha
de ter uma vida
propositalmente
desperdiçada,

entre tantas
outras vidas,
deliberadamente
desperdiçadas

sim.

be kind

we are always asked
to understand the other person’s
viewpoint
no matter how
out-dated
foolish or
obnoxious.

one is asked
to view
their total error
their life-waste
with
kindliness,
especially if they are
aged.

but age is the total of
our doing.
they have aged
badly
because they have
lived
out of focus,
they have refused to
see.

not their fault?
whose fault?
mine?

I am asked to hide
my viewpoint
from them
for fear of their
fear.

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.

alienígenas

pode ser que você não acredite
mas há pessoas
que passam pela vida com
muito pouco
atrito ou
aflição.
elas se vestem bem, comem
bem, dormem bem.
são felizes em
família, e
com a vida.
elas têm momentos
tristes,
apesar disso,
não são perturbadas.
muitas vezes, sentem-se
bem.
quando falecem
é uma morte
leve, naturalmente
dormindo.
pode ser que você não acredite
nisso,
mas pessoas desse tipo
existem.
não sou uma
delas.
claro que eu não sou uma
delas!
sequer chego perto
de ser
uma delas,
pois elas estão

e eu…
aqui.

the aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction or
distress.
they dress well, eat
well, sleep well.
they are contented with
their family
life.
they have moments of
grief
but all in all
they are undisturbed
and often feel
very good.
and when they die
it is an easy
death, usually in their
sleep.
you may not believe
it
but such people do
exist.
but I am not one of
them.
oh no, I am not one
of them,
I am not even near
to being
one of
them
but they are
there
and I am
here.

verão cruel

não é tão ruim quanto o seu, Fante,
mas o suficiente. Saindo e entrando
no hospital, dentro e fora
do consultório médico, pendurado
por um fio: “você está em
remissão clínica… não, espere. 2 novas
células aqui… e suas
plaquetas estão baixas…
tem bebido?
provavelmente nós faremos
outro exame da medula óssea,
é possível…”
o médico está ocupado na
sala de espera da ala de câncer,
a enfermaria está lotada. Pessoas
leem Time, outras leem
People
e as enfermeiras são simpáticas, fazendo
graça comigo.
que legal! Soltando piadas
à beira da minha morte.
ao meu lado, a minha
esposa.
sinto muito por ela, sinto
muito pelas esposas de todos
os outros.
e então no estacionamento,
minha mulher e eu,
às vezes ela dirige,
outras sou eu,
como agora…
o verão foi cruel.
“talvez você devesse ir dar um mergulho”,
ela
disse.
o dia está mais quente como
de costume.
“sim”, respondo e deixo
o pátio.
ela é uma mulher de coragem, e age
como tudo é
naturalmente,
mas agora devo pagar por todos
aqueles anos esbanjados;
e foram quantos
deles!
o vencimento da fatura chegou
e aceita-se apenas
um tipo de
pagamento.
eu poderia muito bem
ir dar um mergulho.

cold summer

not as bad as yours, Fante,
but bad enough: in and out
of the hospital, in and out of
the doctor’s office, hanging
by a thread: “you’re in
remission… no, wait, 2 new
cells here… and your
platelets are way down…
you been drinking?
we’ll probably have to take
another bone marrow…
we’ll probably…”
the doctor is busy, the
waiting room in the cancer
ward is crowded: people
Reading Time, people reading
People…
the nurses are pleasant, they
joke with me.
I think that’s nice, joking in the
shadow of death.
my wife is with me.
I am sorry for my wife, I am
sorry for everybody’s
wife.
then we are down in the
parking lot.
she drives sometimes.
I drive sometimes.
I drive then.
it’s been a cold summer.
“maybe you should take a
little swim we get home,”
suggests my
wife.
it’s a warmer day than
usual.
“sure,” I say and pull out of
the parking lot.
she’s a brave woman, she
acts like everything is
as usual.
but now I’ve got to pay for all
those profligate years;
there were so many of
them.
the bill has come due
and they’ll accept only
one type of
payment.
might as well take a
swim.

Thaís Fernandes é professora, tradutora e pós-graduanda em Letras (Língua e Literatura Inglesas). Tem poemas e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Meta/Phor(e)/Play, Poem Hunter, Tuck Magazine e no jornal japonês, The Asahi Shimbun. Traduziu, entre outros, ensaios de Ralph Waldo Emerson e de Robert Louis Stevenson, além de poemas de Maya Angelou.

três poemas da escritora indiana Shelly Bhoil

tradução de Camila Assad Quintanilha

relembrando

Nos buracos do tempo, as mãos se tornam mais curtas.
a memória é velha demais para se lembrar daquela primeira coisa.
as coisas são finas. mas o ar está denso com sombras. dos sonhos a vovó relembrava como ele olhava e olhava para ela. dos sonhos recordo como ela olhava e olhava para ele olhando para ela. Relembrando em eclipses a partir de onde estamos.

recalling

In the holes of time, hands get shorter.
memory is too old to remember that first something.
things are thin. but air is thick with shadows. from dreams
the grandma recalled how he looked and looked at her.
from dreams I recall how she looked and looked at him look
at her. Recalling is in eclipses from where we are.

em um canto

lá em um canto
ela se senta
e debaixo da cama
ela dorme

alimentando-se do próprio estômago
ela respira
pela chaminé da cozinha
flui para dentro e para fora
da soleira da porta

que ela nutre à sombra
da abóbora do quintal
e floresce
com a fragrância do solo

ela é a nossa história esquecida
de uma promessa não cumprida
vivendo unicamente para a matéria

in a corner

there in a corner
she sits
and under the bed
she sleeps

fueling from her own stomach,
she breathes
from the kitchen-chimney
flows in and out
from the doorsill

she nurtures in shade
of the backyard pumpkin
and flourishes
with fragrance of the soil

she is our forgotten story
of an unfulfilled promise
living within without

nada a temer
(para Amogh)

Não há nada a temer, meu pequeno
— tudo vai por aí
da água ao pó, da traição à confiança
você precisa apenas reconhecer o alfabético a
e distingui-lo do A
observando a pressão nos dedos que escrevem
Você deve traçar contornos no casulo onde você se encosta
e tudo virá para você

Não procure por nós quando não estivermos à volta
nós somos a lua tremendo
sobre o lago noturno
e durante o dia a sombra das marionetes
aparecendo desaparecendo além de nós

Nós não somos os únicos para você, mas somos um de você
— as árvores que anseiam pelas raízes
assim como anseiam pelo céu elevado
Você deve dormir, meu querido
sob o cobertor quente da sua pele
beijando o ar profundo e acorde com os braços
feito raios solares, levando o mundo em seu enlace caloroso

nothing to fear
(for Amogh)

there is nothing to fear, my little one —
everything comes around
from water to dust, betrayal to trust
you have to just recognise the alphabet a
and distinguish it from A
observing the pressure on the fingers that write
trace you must contours
on the bark you lean on to
and it will all come to you

do not look for us when we are not around
we are the moon quivering
upon the night’s lake
and in day the puppet shadows
appearing disappearing
beyond us

we are not the ones for you, but one of you
we are the trees that long for the roots
as much yearn the high sky
sleep you must, my child
under the warm blanket of your skin
kissing the air deep and wake up with arms
open like sunrays, taking the world in your warm embrace

Shelly Bhoil é uma escritora indiana, residente em São Paulo, Brasil. Seus próximos livros incluem um volume sobre o Narrativos do Tibete com a Lexington Books. Em 2016, ela recebeu uma menção honrosa no All India Poetry Competition e o terceiro prêmio no Rabindranath Tagore International Poetry; em 2011, foi ganhadora do primeiro prêmio no concurso internacional de escrita Tahoe Safe Alliance, assim como uma menção honrosa no concurso FLEFF Checkpoint Story 2011 na Universidade de Ithaca, EUA.

Camila Assad Quintanilha nasceu em 1988 em Presidente Prudente-SP. Escreve, traduz, desenha e pinta. É autora do livro de poemas Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017) e de Desterro, projeto contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo/2018, a ser lançado no próximo ano.

escritor barato, tradução de r.l.almeida

“Paperback writer”, 1966. John Lennon & Paul McCartney

Dear Sir or Madam, will you read my book
It took me years to write, will you take a look?
It’s based on a novel by a man named Lear and I need a job
So I want to be a paperback writer!

_____It’s a dirty story of a dirty man
_____And his clinging wife doesn’t understand
_____His son is working for the Daily Mail, it’s a steady job
_____But he wants to be a paperback writer!

It’s a thousand pages, give or take a few
I’ll be writing more in a week or two,
I can make it longer if you like the stile, but I need a break
And I want to be a paperback writer!

“Escritor barato”. Outono de 2018. r.l.almeida @846r3

Senhoras e senhores levei tempo pra escrever
Está aqui meu livro, será que já viram vender?
É adaptação de teatro de um tal de rei Lear,
Preciso de um trabalho mas só sei ser é escritor barato

_____É uma história suja cheia de traição
_____A esposa e duas filhas o trancam, louco, no porão!
_____O filho dele, ele trabalhava no jornal
_____Um trabalho legal e ele larga tudo e vai ser escritor barato

Tem um milhar de folhas não pode pular nenhuma
Levo um tanto de tempo para escrever mais algumas
Posso aumentar os capítulos se lhe agradar uma porção
Escrevo qualquer outra coisa se for pra ser escritor barato

sobre o projeto

Site: https://pilulasdeperolasliterarias.wordpress.com/

Numa proposta de quebrar o código em que foi escrito, levando junto a regra que só é possível cantar o velho e bom rocknroll se você sabe inglês, é que surgiu a motivação para traduzir para o português as 193 músicas da banda de rock britânico The Beatles. Para o processo, que levou mais de 5 anos em imersão com os discos de estúdio, foram utilizadas as ferramentas da transcriação dos irmãos Campos, a teoria literária de Ezra Pound, e as experiências em língua portuguesa de Eduardo Bueno, Antonio Bivar e Lúcia Brito com o Pé na estrada, de Jacques Kerouac, e do professor Donaldo Schuler, com o Finícius revém, de James Joyce, e as várias versões em português das Flores do Mal: o que diferencia estes trabalhos é a excelência na tradução de um texto completo. Ainda, como baliza do processo, também foi feito uma primeira versão em português de outros musicistas, peças soltas da produção de Jimmy Hendrix, David Bowie, Bob Dylan, Bob Marley e Pink Floyd. Experiências livres, sem levar em consideração o contexto da peça que está inserido: o fonograma comercial.

sobre a música

“Paperback writer” é uma canção da dupla Paul McCartney e John Lennon, com primeira gravação no single de 1966. Foi canção-título do single, dividindo o disco com “Rain”, outra canção que também nunca chegou a nenhum dos 13 discos que o grupo The Beatles lançou, durante sua existência. A música tem 2 min e 25 s de duração, e é composta de refrão-nome da faixa, e três versos, em que se discorre o cotidiano do mais simples ao mais erudito literófilo, que também é escritor: a dicotomia escritor X leitor.

É uma alusão aos primeiros anos de formação da banda, quando estavam em turnê pelos bares de Hamburgo, na Reeperbahn. “Paperback” é o que está nas ruas, e a mais barata encadernação do mercado, tendo em mente a relação custo/benefício na impressão de folhetins. E de enlatados. O “escritor barato”, no caso, é a figura do que escreve muito, prolixamente, sem um motivo maior do que as moedas do soldo. Aqui, ele pirateia até mesmo Shakespeare. Ou melhor dizendo: ele começa sua jornada com isto.

r.l.almeida atua em plataformas de som, filme, dramaturgia e literatura. Professor em tempo integral, é pesquisador em línguas e literaturas como aluno ouvinte em programas de pós-graduação, e também agente cultural pela Prefeitura Municipal de São Carlos. Bacharel em Letras e Literatura pela UNESP/FCLAr, em sua produção junta o apreço pelo texto às outras plataformas. Estreou em tradução em 2010 com Rolíúdi, de Charles Bukowski.

fragmento de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, de 18/31 de maio de 1920*

18/31 мая 1920 г. Письмо к Вячеславу

Персписываю, чтобы потом не забыть, как любила.

[…]

Теперь о другом. Одно меня в Вас сегодня как-то растравительно тронуло: «много страдал — люблю жизнь — но как-то отрешенно»… Го-спо-ди! — Ведь это — живая я. Потому так всё и встречаю, что уже наперед рассталась. Издалека люблю, à vol d’oiseau люблю, хотя как будто в самой толще жизни.

Когда я с Вами сегодня шла, у меня было чувство, что иду не с Вами, а за Вами, даже не как ученик, а как собака, хорошая, преданная, веселая — и только одного не могущая: уйти.

Много собак за Вами ходило следом, дорогой В. И., но — клянусь богом! — такой веселой, удобной, знающей время и место собаки у Вас еще не было. — Купите собачий билет и везите во Флоренцию! — Но Вы уедете! уедете! уедете!

Здесь в Москве я спокойна, я всегда могу Вам написать (злоупотреблять не буду, хотя — 3-ья страница! — уже злоупотребляю!) — могу окликнуть Вас на каком-нибудь вечере, услышать Ваш старинно-коварно-ласковый голос, — да просто сознание, что по одним арбатским переулкам ходим, — я дом Ваш знаю, — значит Вы есть!

А во Флоренции я и мысленно не смогу ходить за Вами следом, я ни одной улицы не знаю, я во Флоренции не была! Сейчас глубокая ночь, Вы спите. — Кто это был в красном платьице? — Ваш сын? — Он Алин однолеток, о нем мне когда-то восторженно рассказывала мать Макса.

Шлю Вам привет — кладу Вам — по собачьи — голову в колени. — Не сердитесь! Я не буду Вам надоедать, я Вас слишком люблю.
МЦ.

Tradução de Paula Vaz de Almeida

Copio, para depois não esquecer como eu amava.

[…]

Agora, uma outra coisa. Hoje, de alguma maneira, algo no senhor abriu em mim uma ferida: “sofri muito — amo a vida — mas de um modo ensimesmado”. Deus! — Afinal — estou viva. Pois também são assim meus encontros, já me despedindo de antemão. Amo de longe, à vol d’oiseau**, amo, ainda que seja a parte mais densa da vida.

Quando estive, hoje, com o senhor, tive a sensação de que ia não consigo, mas atrás de si, até nem como uma aluna, mas como uma cachorrinha, boazinha, fiel, alegre — só que uma cachorrinha não sabe: partir.

Muitos cãezinhos andam em fila atrás do senhor, querido V. I., mas — juro por Deus! — uma assim tão alegre, amigável, que conhece seu tempo e seu lugar de cãozinho, o senhor nunca teve. Compre passagens para a cachorrinha e a leve a Florença!

Mas o senhor vai partir! ah, vai! se vai!

Estou tranquila aqui em Moscou, posso escrever-lhe sempre (não vou abusar!, embora — 3ª página! – já esteja abusando!) — posso gritar-lhe uma noite dessas, ouvir sua voz experiente-capciosa-carinhosa — e basta a consciência de que vamos caminhando pelas travessas da Arbat — eu conheço sua casa — significa que você existe!

Em Florença, nem em pensamento posso andar atrás do senhor, não conheço nenhuma rua, nunca fui a Florença! Agora é tarde da noite, o senhor está dormindo. — Quem era aquele de roupinha vermelha? Seu filho? Ália e ele são da mesma idade, um dia a mãe do Max me falou dele com entusiasmo.

Envio-lhe saudações — deitando a cabeça — como um cachorrinho — no seu colo. Não se zangue! Não vou aborrecê-lo, amo demais o senhor.

M.T.

*A tradução que aqui se publica foi feita a partir do original disponível em <http://www.tsvetayeva.com/prose/pr_8zap_11>. O fragmento corresponde ao trecho final de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, constante de seu caderno de notas dos anos de 1920-1921. Não há registros de que a carta tenha sido enviada.
**Em francês, no original: “em linha reta”.

Marina Tsvetáieva (1892-1941) | Poeta. Seu destino esteve imbricado nos principais acontecimentos políticos do século XX. Além das duas Grandes Guerras, foi testemunha da Revolução Russa. Emigrou em 1922 e viveu na França de 1925 a 1939, ano em que retorna à URSS; a filha, Ariadna Efron, retornara em 1935, e o marido, Serguei Efron, em 1937. Ex-iúnker tornado agente stalinista, Efron se envolve no assassinato de Ignace Reiss, comunista polonês que rompe com Ióssif Stálin em 1937 e previne os trotskistas da perseguição que se armava contra eles em âmbito internacional. A poeta ficara sozinha, em Paris, com o filho mais novo, Gueórgui, apelidado de Mur. Seja em virtude dos ataques da chamada comunidade Branca da emigração russa, do isolamento a que foi levada a poeta, das sucessivas investidas das polícias francesa e suíça, seja por pressões de agentes soviéticos ou por total falta de meios para garantir seu sustento e o do filho, podemos dizer que seu retorno, como de muitos outros russos, está relacionado ao contexto maior dos Processos de Moscou. Tsvetáieva estava envolta, talvez sem que soubesse, já que defendeu a inocência do marido até o fim, e ainda contra tudo e todos, em um plano que, apesar de o objetivo da eliminação de Reiss atingido, tinha sido fracassado, pois fora descoberto. Quando chega a Moscou, é imediatamente conduzida a uma datcha de propriedade do NKVD (sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Internos), órgão que vinha desempenhando desde 1934, entre outras funções, a de polícia política. A essa altura a poeta, certamente, já tomara consciência da gravidade da situação de sua família e dos demais moradores da datcha de Bolchevo, amigos que conheceram em Paris e que ingressaram no serviço secreto pelas mãos de Efron. Ficaram ali, em uma espécie de prisão domiciliar, por 5 meses, para serem, em seguida, aprisionados na Lubianka. A poeta foi poupada: estava, novamente, sozinha com o filho e, outra vez, passa a se virar como pode para sobreviver. Quando, em 1941, em meio à ofensiva nazista sobre Moscou, a cidade é evacuada, a poeta é levada, juntamente com outros escritores considerados de segunda categoria, à Elabuga, cidade russa da República Tártara, onde se suicida no último dia de agosto de 1941.

Viatcheslav Ivánov (1866-1949) | Poeta; crítico literário. Foi o principal teórico do Simbolismo russo. Homem erudito, manteve em seu apartamento, no início do século XX, um salão literário que ficou conhecido como “Torre” (Башня/Báchnia, em russo), por onde passou quase toda a Idade de Prata da poesia russa. Recebe autorização para trabalhar na Itália em 1921, onde permanecerá até sua morte.

Paula Vaz de Almeida | Tradutora; revisora. Pesquisa a prosa de Marina Tsvetáieva, dá aulas na Escola de Língua Russa para Bolchelindas/os e é doutora em cultura e literatura russas pela Universidade de São Paulo — USP.