escritor barato, tradução de r.l.almeida

“Paperback writer”, 1966. John Lennon & Paul McCartney

Dear Sir or Madam, will you read my book
It took me years to write, will you take a look?
It’s based on a novel by a man named Lear and I need a job
So I want to be a paperback writer!

_____It’s a dirty story of a dirty man
_____And his clinging wife doesn’t understand
_____His son is working for the Daily Mail, it’s a steady job
_____But he wants to be a paperback writer!

It’s a thousand pages, give or take a few
I’ll be writing more in a week or two,
I can make it longer if you like the stile, but I need a break
And I want to be a paperback writer!

“Escritor barato”. Outono de 2018. r.l.almeida @846r3

Senhoras e senhores levei tempo pra escrever
Está aqui meu livro, será que já viram vender?
É adaptação de teatro de um tal de rei Lear,
Preciso de um trabalho mas só sei ser é escritor barato

_____É uma história suja cheia de traição
_____A esposa e duas filhas o trancam, louco, no porão!
_____O filho dele, ele trabalhava no jornal
_____Um trabalho legal e ele larga tudo e vai ser escritor barato

Tem um milhar de folhas não pode pular nenhuma
Levo um tanto de tempo para escrever mais algumas
Posso aumentar os capítulos se lhe agradar uma porção
Escrevo qualquer outra coisa se for pra ser escritor barato

sobre o projeto

Site: https://pilulasdeperolasliterarias.wordpress.com/

Numa proposta de quebrar o código em que foi escrito, levando junto a regra que só é possível cantar o velho e bom rocknroll se você sabe inglês, é que surgiu a motivação para traduzir para o português as 193 músicas da banda de rock britânico The Beatles. Para o processo, que levou mais de 5 anos em imersão com os discos de estúdio, foram utilizadas as ferramentas da transcriação dos irmãos Campos, a teoria literária de Ezra Pound, e as experiências em língua portuguesa de Eduardo Bueno, Antonio Bivar e Lúcia Brito com o Pé na estrada, de Jacques Kerouac, e do professor Donaldo Schuler, com o Finícius revém, de James Joyce, e as várias versões em português das Flores do Mal: o que diferencia estes trabalhos é a excelência na tradução de um texto completo. Ainda, como baliza do processo, também foi feito uma primeira versão em português de outros musicistas, peças soltas da produção de Jimmy Hendrix, David Bowie, Bob Dylan, Bob Marley e Pink Floyd. Experiências livres, sem levar em consideração o contexto da peça que está inserido: o fonograma comercial.

sobre a música

“Paperback writer” é uma canção da dupla Paul McCartney e John Lennon, com primeira gravação no single de 1966. Foi canção-título do single, dividindo o disco com “Rain”, outra canção que também nunca chegou a nenhum dos 13 discos que o grupo The Beatles lançou, durante sua existência. A música tem 2 min e 25 s de duração, e é composta de refrão-nome da faixa, e três versos, em que se discorre o cotidiano do mais simples ao mais erudito literófilo, que também é escritor: a dicotomia escritor X leitor.

É uma alusão aos primeiros anos de formação da banda, quando estavam em turnê pelos bares de Hamburgo, na Reeperbahn. “Paperback” é o que está nas ruas, e a mais barata encadernação do mercado, tendo em mente a relação custo/benefício na impressão de folhetins. E de enlatados. O “escritor barato”, no caso, é a figura do que escreve muito, prolixamente, sem um motivo maior do que as moedas do soldo. Aqui, ele pirateia até mesmo Shakespeare. Ou melhor dizendo: ele começa sua jornada com isto.

r.l.almeida atua em plataformas de som, filme, dramaturgia e literatura. Professor em tempo integral, é pesquisador em línguas e literaturas como aluno ouvinte em programas de pós-graduação, e também agente cultural pela Prefeitura Municipal de São Carlos. Bacharel em Letras e Literatura pela UNESP/FCLAr, em sua produção junta o apreço pelo texto às outras plataformas. Estreou em tradução em 2010 com Rolíúdi, de Charles Bukowski.

fragmento de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, de 18/31 de maio de 1920*

18/31 мая 1920 г. Письмо к Вячеславу

Персписываю, чтобы потом не забыть, как любила.

[…]

Теперь о другом. Одно меня в Вас сегодня как-то растравительно тронуло: «много страдал — люблю жизнь — но как-то отрешенно»… Го-спо-ди! — Ведь это — живая я. Потому так всё и встречаю, что уже наперед рассталась. Издалека люблю, à vol d’oiseau люблю, хотя как будто в самой толще жизни.

Когда я с Вами сегодня шла, у меня было чувство, что иду не с Вами, а за Вами, даже не как ученик, а как собака, хорошая, преданная, веселая — и только одного не могущая: уйти.

Много собак за Вами ходило следом, дорогой В. И., но — клянусь богом! — такой веселой, удобной, знающей время и место собаки у Вас еще не было. — Купите собачий билет и везите во Флоренцию! — Но Вы уедете! уедете! уедете!

Здесь в Москве я спокойна, я всегда могу Вам написать (злоупотреблять не буду, хотя — 3-ья страница! — уже злоупотребляю!) — могу окликнуть Вас на каком-нибудь вечере, услышать Ваш старинно-коварно-ласковый голос, — да просто сознание, что по одним арбатским переулкам ходим, — я дом Ваш знаю, — значит Вы есть!

А во Флоренции я и мысленно не смогу ходить за Вами следом, я ни одной улицы не знаю, я во Флоренции не была! Сейчас глубокая ночь, Вы спите. — Кто это был в красном платьице? — Ваш сын? — Он Алин однолеток, о нем мне когда-то восторженно рассказывала мать Макса.

Шлю Вам привет — кладу Вам — по собачьи — голову в колени. — Не сердитесь! Я не буду Вам надоедать, я Вас слишком люблю.
МЦ.

Tradução de Paula Vaz de Almeida

Copio, para depois não esquecer como eu amava.

[…]

Agora, uma outra coisa. Hoje, de alguma maneira, algo no senhor abriu em mim uma ferida: “sofri muito — amo a vida — mas de um modo ensimesmado”. Deus! — Afinal — estou viva. Pois também são assim meus encontros, já me despedindo de antemão. Amo de longe, à vol d’oiseau**, amo, ainda que seja a parte mais densa da vida.

Quando estive, hoje, com o senhor, tive a sensação de que ia não consigo, mas atrás de si, até nem como uma aluna, mas como uma cachorrinha, boazinha, fiel, alegre — só que uma cachorrinha não sabe: partir.

Muitos cãezinhos andam em fila atrás do senhor, querido V. I., mas — juro por Deus! — uma assim tão alegre, amigável, que conhece seu tempo e seu lugar de cãozinho, o senhor nunca teve. Compre passagens para a cachorrinha e a leve a Florença!

Mas o senhor vai partir! ah, vai! se vai!

Estou tranquila aqui em Moscou, posso escrever-lhe sempre (não vou abusar!, embora — 3ª página! – já esteja abusando!) — posso gritar-lhe uma noite dessas, ouvir sua voz experiente-capciosa-carinhosa — e basta a consciência de que vamos caminhando pelas travessas da Arbat — eu conheço sua casa — significa que você existe!

Em Florença, nem em pensamento posso andar atrás do senhor, não conheço nenhuma rua, nunca fui a Florença! Agora é tarde da noite, o senhor está dormindo. — Quem era aquele de roupinha vermelha? Seu filho? Ália e ele são da mesma idade, um dia a mãe do Max me falou dele com entusiasmo.

Envio-lhe saudações — deitando a cabeça — como um cachorrinho — no seu colo. Não se zangue! Não vou aborrecê-lo, amo demais o senhor.

M.T.

*A tradução que aqui se publica foi feita a partir do original disponível em <http://www.tsvetayeva.com/prose/pr_8zap_11>. O fragmento corresponde ao trecho final de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, constante de seu caderno de notas dos anos de 1920-1921. Não há registros de que a carta tenha sido enviada.
**Em francês, no original: “em linha reta”.

Marina Tsvetáieva (1892-1941) | Poeta. Seu destino esteve imbricado nos principais acontecimentos políticos do século XX. Além das duas Grandes Guerras, foi testemunha da Revolução Russa. Emigrou em 1922 e viveu na França de 1925 a 1939, ano em que retorna à URSS; a filha, Ariadna Efron, retornara em 1935, e o marido, Serguei Efron, em 1937. Ex-iúnker tornado agente stalinista, Efron se envolve no assassinato de Ignace Reiss, comunista polonês que rompe com Ióssif Stálin em 1937 e previne os trotskistas da perseguição que se armava contra eles em âmbito internacional. A poeta ficara sozinha, em Paris, com o filho mais novo, Gueórgui, apelidado de Mur. Seja em virtude dos ataques da chamada comunidade Branca da emigração russa, do isolamento a que foi levada a poeta, das sucessivas investidas das polícias francesa e suíça, seja por pressões de agentes soviéticos ou por total falta de meios para garantir seu sustento e o do filho, podemos dizer que seu retorno, como de muitos outros russos, está relacionado ao contexto maior dos Processos de Moscou. Tsvetáieva estava envolta, talvez sem que soubesse, já que defendeu a inocência do marido até o fim, e ainda contra tudo e todos, em um plano que, apesar de o objetivo da eliminação de Reiss atingido, tinha sido fracassado, pois fora descoberto. Quando chega a Moscou, é imediatamente conduzida a uma datcha de propriedade do NKVD (sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Internos), órgão que vinha desempenhando desde 1934, entre outras funções, a de polícia política. A essa altura a poeta, certamente, já tomara consciência da gravidade da situação de sua família e dos demais moradores da datcha de Bolchevo, amigos que conheceram em Paris e que ingressaram no serviço secreto pelas mãos de Efron. Ficaram ali, em uma espécie de prisão domiciliar, por 5 meses, para serem, em seguida, aprisionados na Lubianka. A poeta foi poupada: estava, novamente, sozinha com o filho e, outra vez, passa a se virar como pode para sobreviver. Quando, em 1941, em meio à ofensiva nazista sobre Moscou, a cidade é evacuada, a poeta é levada, juntamente com outros escritores considerados de segunda categoria, à Elabuga, cidade russa da República Tártara, onde se suicida no último dia de agosto de 1941.

Viatcheslav Ivánov (1866-1949) | Poeta; crítico literário. Foi o principal teórico do Simbolismo russo. Homem erudito, manteve em seu apartamento, no início do século XX, um salão literário que ficou conhecido como “Torre” (Башня/Báchnia, em russo), por onde passou quase toda a Idade de Prata da poesia russa. Recebe autorização para trabalhar na Itália em 1921, onde permanecerá até sua morte.

Paula Vaz de Almeida | Tradutora; revisora. Pesquisa a prosa de Marina Tsvetáieva, dá aulas na Escola de Língua Russa para Bolchelindas/os e é doutora em cultura e literatura russas pela Universidade de São Paulo — USP.

when was i born? (quando eu nasci?), de Bhuchung D. Sonam e tradução de Claudia Santana Martins

When was I Born?
Bhuchung D. Sonam

Mother, when was I born?
In the year the river dried

When was that?
That was the year when crops failed And we went hungry for many days We
feared that you would never survive

Was that the year we moved to a new house?
That was the year when they confiscated our house And divided it among the
patriotic Party members We were banished to the cowshed where you were born

What year was that?
That was the year when they destroyed the monastery Melted all the bronze
images to make bullets You were born when dust filled the sky

Was that the year grandpa went away?
That was the year when they sent your grandfather to prison Where he cleaned
shit and butchered insects in the fields You were born when there were no men in
our house

Was I born in the year the walls were pulled down?
That was the year when they ripped apart the prayer hall Wooden beams were
hammered to splinters and frescoes soiled You were born when a crazy wind blew
from the east

What year was that?
That was the year they burnt scriptures in the village square And sang
revolutionary songs in praise of the Party
You were born when blades of grass refused to grow

Was it the year you stopped singing?
It was the year they took our neighbour to the hard labour camp When she sang a
traditional song while digging a canal You were born when people disappeared
one after another

When was that?
That was the year they wrote the big red slogan on the walls ‘Heads that stick out
will be hammered down’ You were born when the sun shied away from our sky

When was that?
That was the year when your father… your father

Quando eu nasci?
Tradução de Claudia Santana Martins

Mãe, quando eu nasci?
No ano em que o rio secou

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que as colheitas se perderam E passamos fome por muitos dias Temíamos que você não sobrevivesse

Foi nesse ano que nos mudamos para uma nova casa?
Esse foi o ano em que eles confiscaram nossa casa E a dividiram entre os patrióticos membros do Partido Nós fomos expulsos para o estábulo onde você nasceu

Que ano foi esse?
Esse foi o ano em que eles destruíram o mosteiro Derreteram todas as estátuas de bronze para fazer balas Você nasceu quando a poeira cobriu o céu

Foi nesse ano que vovô foi embora?
Esse foi o ano em que eles mandaram o seu avô para a prisão Onde ele limpava a merda e exterminava insetos nos campos Você nasceu quando não havia homens em nossa casa

Eu nasci no ano em que as paredes foram demolidas?
Esse foi o ano em que eles destroçaram a sala de oração Vigas de madeira foram estilhaçadas a golpes de martelo e os afrescos vandalizados Você nasceu quando um vento insano soprou do leste

Que ano foi esse?
Esse foi o ano em que eles queimaram escrituras na praça da vila E entoaram canções revolucionárias em louvor ao Partido
Você nasceu quando os rebentos de relva se recusavam a crescer

Foi nesse ano que você parou de cantar?
Foi o ano em que eles levaram nossa vizinha para o campo de trabalhos forçados Porque ela cantou uma canção tradicional enquanto cavava um canal Você nasceu quando as pessoas desapareciam uma após a outra

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que eles escreveram o grande slogan vermelho nos muros “As cabeças que se sobressaírem levarão marteladas” Você nasceu quando o sol fugiu de nosso céu

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que o seu pai… o seu pai

Bhuchung D. Sonam é autor tibetano de diversos livros, entre os quais Yak Horns: Notes on Contemporary Tibetan Writing, Music, Film and Politics; e Songs of the Arrow. Organizou o livro Muses in Exile: An Anthology of Tibetan Poetry e compilou e traduziu Burning the Sun’s Braids: New Poetry from Tibet. Seus artigos são publicados no Journal of Indian Literature, HIMAL Southasian, Hindustan Times e Tibetan Review, entre outros jornais e periódicos. Sua residência permanente lhe foi roubada. Ele vive no exílio na Índia.

Cláudia Santana Martins é doutora em Letras na área de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde atualmente é pesquisadora de pós-doutorado em Estudos de Tradução.