anotações sobre escrita-vida, poema de Felipe Teodoro

você pode escrever sobre o canto dos pássaros.

você pode escrever sobre a última chuva do ano.

você pode escrever sobre o casal que viu brigando na esquina minutos antes da meia-noite.

você pode escrever sobre o cão assustado com os fogos de fim de ano que acabou pulando de uma janela do quinto andar.

você pode escrever sobre a mulher espancada pelo marido duas quadras da tua casa que cansou da vida e fugiu uma semana antes do Natal e ninguém sabe onde é que ela foi parar e tá todo mundo aqui na vila comentando.

você pode escrever sobre a criança desaparecida daquela reportagem que você viu enquanto esperava na fila do açougue torcendo pra que sobre alguma carne boa na tua vez porque você deixou pra ir no mercado no último dia na véspera do feriado e você sempre faz isso e diz pra si mesmo que na próxima não vou deixar tudo pra última hora sem perceber o quão idiota é essa tua preocupação pq pelo menos você tem tempo e dinheiro.

você pode escrever sobre o homem-bomba que explodiu dentro de um ônibus e matou trinta e sete pessoas lá do outro lado do mundo ou sobre a bomba que atingiu uma maternidade e o teu vizinho comentando esse povo merece tudo isso porque toda essa desgraça é culpa deles e da religião que não é igual a nossa porque lá eles não acreditam em Jesus Cristo, cê sabia?

você pode escrever sobre os que foram bater panela com camiseta da CBF e agora estão quietos como se nada tivesse acontecendo porque na realidade pra eles poucas coisas vão mudar pelo menos agora a princípio e dá até pra trocar de carro nesse começo de ano esse negócio de crise e desemprego é papo furado só não trabalha quem não quer veja bem se eu te mostrar os relatórios lá da empresa vai ver que não tá tão ruim assim na verdade até deu uma melhorada em relação ao tempo daquela anta da Dilma* mas viu agora mudando de assunto e a viagem pra Europa? (*escrevi esse trecho em dezembro de 2017, e olha só, hoje o caos ainda é maior o preço da gasolina ainda é maior, será que agora eles ainda vão viajar para Europa? Será?)

você pode escrever sobre os índios sendo massacrados no Amazonas mas você nem sabia que ainda existia índio no Brasil né? a não ser aqueles que hora ou outra você vê no centro da cidade vendendo balaio bala doce pedindo dinheiro aqueles com as roupas sujas e as caras sujas aqueles que tão sempre andando tudo junto geralmente uma mulher gorda e mais quatro ou cinco crianças todas magras porque diabos ter tanto filho meu Deus ? e tem uns que até tentam ganhar dinheiro de forma honesta esses dias mesmo eu vi um tocando um negócio que parecia uma flauta e vendendo CD’s lá no centro no calçadão e a música até que não era ruim mas eu fiquei pensando quem é que vai parar e comprar um CD de um índio? quem diabos compra CD hoje em dia? é mais fácil vender bala e balaio é mais fácil pedir dinheiro tem gente que dá eu não dou mas tem gente que dá agora CD de música ninguém mais usa e ninguém escuta música de índio.

você pode escrever sobre o presidente golpista e todo um governo podre que ri do povo se fodendo mas que sempre nos anos de eleição dá aquela disfarçada e tem político que desce nas vilas e vai conversar com o povo pra saber o que tão precisando e nesse final de ano até carta eu recebi do George o vereador do povo gente como a gente e vou até ficar esperto que hora ou outra ele pode me chamar pra um dos churrascos que sempre rola em ano de eleição aposto que o George não deixa pra comprar carne na última hora na verdade acho que ele nem deve enfrentar fila nos mercados.

você pode escrever sobre a redução do salário dos professores e do povo que acha que professor já ganha demais ou sobre o governador Beto Richa que falou na entrevista que se o salário não tá bom é só não se inscrever no processo seletivo afinal é opcional se você não quiser não precisa fazer é simples é fácil não tem porque estressar.

você pode escrever sobre os mendigos, as putas, os bandidos e os favelados e quando você tiver escrito sobre tudo isso você vai repetir e vai escrever de novo e de novo e de novo e quem sabe você morra fazendo isso e nunca realmente tenha escrito algo que preste algo que funcione algo que atravesse você mesmo e te transforme e que em algum momento possa fazer isso com um outro.

e se você levar sorte e se você além de escrever ler e viver a vida (e ler vivendo a vida) você perceba que o problema da tua escrita sempre foi esse “sobre” o “sobre” é o que te fode e é o que fode a maioria daqueles que escrevem.

o “sobre” é uma grande prisão e é extremamente difícil deixar de escrever “sobre”

é muito fácil olhar o outro de longe é muito fácil escrever na própria pele.

escrever na própria pele é sempre um escrever sobre. sempre uma ponte para si mesmo.

abandonar o sobre deve ser o movimento mais importante esse é o grande objetivo deixar o “sobre” diluir o teu ponto de vista romper a própria pele e transformar a escrita (e a vida e a vida-escrita) numa grande travessia num caminhar nômade numa eterna metamorfose para o fora.

abandonar o sobre é abandonar o EU é dissolver o corpo dissolver tua própria língua teu jeito de falar teu jeito de pensar é caminhar em direção ao limite e cuspir as palavras naquele entre-lugar no limiar da vida e da morte e andar na corda bamba sempre buscando um novo limite pois há sempre como chegar mais perto do abismo há sempre como avançar mais e dar aquela olhadinha antes que tudo exploda há sempre como voltar-se um pouco mais para o Caos.

e assim você em vez de escrever sobre o canto dos pássaros quem sabe uma hora dessas você não acaba abrindo a janela e depois os ouvidos e aí fecha os olhos e deixa o mundo entrar e deixa-se ser o próprio canto mesmo que ainda não seja isso — completamente?

Felipe Teodoro (1993 — Ponta Grossa/PR) tem textos publicados em diversas antologias nacionais, participou das revistas literárias Gueto, Literatura & Fechadura, Ruído Manifesto e Vacatussa. Seu primeiro livro Onde Os Pássaros Cantam Doentes (Editora Fractal) tem lançamento previsto para o segundo semestre de 2018. Contato: felipets9@hotmail.com.

poema-manifesto, de Lizandra Magon de Almeida

Poema-manifesto do selo Ferina

Talvez um dia retornem
as flores e borboletas
Um dia em que não seja preciso
falar de cortes e cicatrizes
Talvez até fosse o caso
de falar de flores e borboletas
Mas ainda precisamos afiar nossos bicos
abrir nossas asas
Mergulhar no poço
da nossa sombra
Arrebatar do lodo
versos incômodos
Palavras
são garras

Lizandra Magon de Almeida é editora, jornalista, tradutora e poeta, nessa ordem, atividades que exerce desde 2001 na Pólen Editorial, que hoje também publica seus próprios títulos, a Pólen Livros. É diretora editorial do selo Ferina, em parceria com a escritora e cordelista Jarid Arraes.

quatro poemas, três poetas | literatura é resistência 2

do tiro, de Wanda Monteiro

antes fosse o destino de uma guerra
mas é o tiro do escárnio
o que atinge a face da fome

a fome deitada sobre calçadas
a fome acolhida por fétidas marquises
a fome secando nos seios de uma pietá
na casca do andrajo

uma pietá feita de infortúnios
à espera de um deus

no acalanto de seus braços
a fome do filho
atira seu silêncio
no vazio da indiferença

assim, feito corrente, de Tiago D. Oliveira

deitaram ao chão
a moça vendada
de espada na mão.
deitaram-na ainda
incrédula
nos braços dados,
cédula,
entregues
na correnteza — ó:
não houve canção, nem
corações abertos, só
o silêncio a espreitar
antes do golpe final.
deitada ainda, a arfar,
como quem quisesse
perdoar o mal,
[manequeísmo quase
ficcional] rompante,
seu grito teceu
o véu da liberdade —
E agora, José?

s/título, de Jean Sartief

Não há Fake News
No sangue jorrando nas ruas.

questão de ordem, de Jean Sartief

A única questão de ordem
É desligar a tv.
É unir-se
Depois de tantos cacos.
Depois de tantos partos.
Depois de tantos golpes.
A única questão de ordem
É amar e lutar
Porque sem amor não há luta que valha
Sem luta não há amor que resista.

nove poemas, oito poetas | literatura é resistência 1

sopro no coração, de Tiago D. Oliveira

carrego do carrasco a paz.
não sinto o tempo,
não sei olhar para trás.
sou feito daquele vento,

náfego e fim. não
entendo o arrepio. não
sei de onde vim. não
vejo o fio que o cão

carrega na distância entre
o uivo e o latido,
mas guardo vivo, ventre.

do carrasco, a paz marinha,
o querer linear e ferido,
dentes felizes sobre a rinha

carteira de trabalho, de Tito Leite
Para André Luiz Pinto

Folha de prata
que cai,
qual raiz no húmus
inferno capital.
Ínfima
renda per capita.

Todo dia
o mesmo esquartejamento.

Em limo
o lobo rapina
o sol, bois
& relhas riscam
o pasto.

Cidades sepulcrais,
não faltam homens
que comem feno.

Adão, tu ganhas o pão
com o suor da tua tarde,
mas muitos dos teus filhos
comem a nossa carne.

o que fazer, de Paulo Laurindo

o que fazer, senhores,
diante do soberano arbítrio
e a timidez,
e a hesitação
e a insegurança da massa
em escolher um rumo próprio
a interdependência
e viver a delícia
a beleza e os riscos
de uma nova construção?

(e no entando
é preciso inventar provérbios
outras mitologias
novos enigmas
prodigiosos mistérios…
atenção:
qualquer cochilada
na leitura dessa
e de outras histórias
nos arrastará
de volta
àquele velho orfanato
àquele velho porão
esquecido da morte
onde até os vermes vicejam
à espreita
imersos na suposta obrigação
de manter o mundo limitado
àquelas quatro paredes
a alimentarem com carne humana
os cães raivosos
que lhes vigia o umbral)

o que fazer, senhores
diante do fim de tudo
e seus arautos
a esfregarem em nossos olhos
o medo espúrio da transigência e,
sob tutela imposta
baraço
pregação
diariamente
em horário nobre
nos declaram bastardos
e nos condenam a esse beco sem saída
até que, submetidos a essa vontade,
imploremos perdão ao irascível deus
antes que se dissolva
o último dos nossos torturados átomos?

o que fazer, senhores
quando tudo se resume a uma herança
manutenção de privilégios,
troca de favores, pecúnia
impossibilidade de fazer amigos
e influenciar pessoas?

o que esperar
senão a impossibilidade
de nossas mãos vazias?

então, confiemos
confiemos nas cantigas de roda
na arte
na dúvida
na curiosidade
e se verdugos abominam poesia
cantemos
cantemos às cinco da tarde
na contramão do inferno

democracia, de Brunno Vianna

Avenida Rio Branco
Em prantos, ela pulou
Por saudades do Jango
Se jogou do vigésimo e sétimo andar
Perdeu a vida e as vontades
Morreu a liberdade
A moça era jovem
E até bonita
Vestia luto
E sofria todos os dias
Teu nome, democracia.

BRAZILABRIL.U, de Guilherme Salla

São tantos ódios e
só um medo.
São tantos outros e
só eu mesmo.
São tantos ódios.

instante de delírio, de Milton Rezende

Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.

Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.

E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.

Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.

Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.

Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.

Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.

A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.

vala, de Leandro Rodrigues

ponteiros de dias perdidos
barbáries
já não há mais jardim,
nem casa,
nem voz

o esqueleto do nosso medo
seca na vala comum

abismo, de Leandro Rodrigues

substantivo masculino

1.
grande depressão ou cavidade natural, quase vertical, de fundo frequentemente inexplorado; precipício, profundeza.
2.
lugar escarpado, íngreme; despenhadeiro.
3.
Brasil

guerra civil, de Rodrigo Novaes de Almeida

Só se lembrarão de como terminou a guerra
não saberão dizer em que momento ela começou
Teria sido com as bombas caindo sobre a primeira cidade a trair a República?
— ou seria ela a última cidade a defender os ideais republicanos?
Não saberão dizer

Antes irromperam os grupos paramilitares nas ruas
Antes atingiram-nos o arbítrio e as execuções
Antes sobreveio o esfacelamento das instituições democráticas
Antes deram-se os arranjos e a pilhagem
Não saberão dizer

Depois que os poderes ruíram
sobraram os homens de farda para impor a ordem
e estes trouxeram a mordaça e o azorrague
seguiram-se fome, cólera-morbo, malária
Os filhos do solo batidos, emudecidos
Contudo, só se lembrarão de como terminou a guerra
« Tudo aconteceu muito rápido », dirão os mansos