em busca da terra sem mal, resenha de Dirce Waltrick do Amarante

carvao_capimGuilherme Gontijo Flores parece anunciar no seu mais novo livro de poesia, carvão :: capim, publicado em 2017 em Portugal e lançado agora no Brasil, a “terra sem mal” dos povos Tupi-Guarani, a qual deve ser buscada em vida; por isso a necessidade de migrar, de caminhar, de cruzar fronteiras, o que o poeta faz, passando por Beirute, Paris etc. Mas em vez da terra sem mal o que ele encontra é, na verdade, um mundo caótico, como o descrito em “Solo”, em que uma menina atravessa uma esquina “enquanto zunem/ centigramas de chumbo/ asfalto acima rumo a tudo/ que ela ainda considera/ chamar de terra”.

Numa das epígrafes do livro, Petxi Kisêdjê, indígena de língua Jê que vive no Parque Indígena do Xingu, diz: “neste lugar, sou índio e outro, mas falo pra vocês falo pra vocês envergonhadamente, falo pra vocês”. O poeta parece encarnar esse índio que se sente obrigado afalar, a narrar as situações cotidianas mais terríveis e absurdas: “E ele deixou quem berrava/ queimar em vão e sem combate serem cinzas/ enquanto o sol imerge e a noite roda o dia”, ou “felizes são os corpos/ daqueles mortos pelos inimigos/ que infectam águas de outros rios […]”.

Os versos tentam, à medida que avançam pelo mundo, alcançar alguma forma de “iluminação”, mas o xamã contemporâneo vê brotar diante dele, “por mágica do asfalto”, não uma flor, e sim “uma placa/ um prédio inteiro nascido/ empoeirado pelo tédio”.

A poesia atual de Gontijo Flores é política, sem abrir mão da pesquisa formal. Ela alerta para a morte de “pobres e pretos/ fuzilados pela polícia”, enquanto na “propaganda de desodorante” alguém “beija e é beijado”, como se nada impactasse seu marketing.

São muitas as vidas exemplares que carvão :: capim homenageia, numa tentativa de desobstruir o caminho: a de Roque Dalton, o poeta e ativista salvadorenho, que “foi morto nalgum canto/ pouco antes de ver/ os teus quarenta anos”; a de Bob Kaufman, poeta surrealista americano, negro, que viveu anos na pobreza em Nova York e sofreu com a perseguição da polícia, mas que, quando voltar, dizem os versos de Gontijo, as pessoas entonarão “o let my people go/ usando nuvens como alto falantes”; a da cantora negra brasileira, sempre à frente do seu tempo, Elza Soares, “a mulher do fim do mundo”; a do músico minimalista estoniano Arvo Pärt, que censura soviética obrigou a migrar para a Áustria; etc.

Num viés de autor fabulista (o poeta é tradutor de mestres gregos e latinos),são também protagonistas nessa poesia em ebulição animais inexistentes, doentes, ou fakes, saídos não da literatura clássica, mas de um delírio, como o alce vermelho cavalgado pela criança que “exibe no lombo de plástico inflado/ a possibilidade/ ainda que pequena// em seu vermelho plástico”; ou o inseto que termina cozido numa xícara de café expresso.

De repente, surge até “uma panela com patas”, e, quando parece que ela ganhará vida, remetendo à epifania ou ao perspectivismo ameríndio, o que se vê é que as patas são de um jabuti “fervido ainda vivo sem escolha”.

E ressurge a epígrafe de Kisêdjê nos versos finais de carvão :: capim: “você dizia índio & índio eu respondi/ & hesitamos perante as peles dos curtumes”.

Dirce Waltrick do Amarante é professora do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC, tradutora e ensaísta.

POEMA DO LIVRO

Solo

1

Prado cerrado soterra não tem corpo
a grama cresce em fúria
nos edifícios que ensaiamos
em construir nos edifícios
que preparamos por embasar
sobre edifícios que sonhamos
em erigir para edifícios
que agora tombam

erguido ao céu num rito
alegre das miradas
o AR15 entoa
e sob a cena os pés
acenam as passadas
um garoto acontece
de beijar o céu
excuse me while
a cena acaba`

2

Prata encerrada sob a terra não tem cor
a frase é velha vale pouco
perante a cara
que aparece nos jornais
velhacos das agendas
nacionais perante os pastos
que ensaiamos em sonhar

o ouro é preto e explode céu acima
nas gargantas metálicas das mídias
são hoje cento e quantos corpos
correntes nas esquinas
são toneladas de lama
a mesma sobre os rios
águas do rio ninguém bebe mais

3

Uma menina atravessa a esquina
e se concentra enquanto zunem
centigramas de chumbo
asfalto acima rumo a tudo
que ela ainda considera
chamar de terra

são clichês poesia será parca
sob a cena chumbo sem número
dos dias será fraca
diante dos instantes
metralhados nas câmeras será nula
nas feridas dos que expiram
sem sentido

4

A contagem dos corpos segue cega
na foz na fonte e nos estanques
alguém sussurra nomes como
senegal ou beirute ou meros nomes
alguém contou as pilhas pela síria
alguém mal fala porque
os anônimos se amontoam
num canto os anônimos
entoam novos cânticos
numa fumaça
são cânticos aos drones
a morte é um mestre em toda a terra
resta o carvão dos corpos

5

Minas não há mais
dali alguém responde minas
nunca houve
daqui alguém replica
o sangue é negro
e corre o sangue
e negro e chega
o sangue corre
e chega o sangue
chega e cantam
o mantra eterno
das religiões
quanto tempo
vai durar
meu choque
o sangue é seco
e sofre o manto
negro das religiões
o sangre é negro
e morre
no mantra seco
das religiões

6

Alguém volta correndo
a cena é lenta
alguém volta correndo
enquanto alguém espera
a cena é mais romântica
jovens que de pretos e pobres
ainda e sempre restam
por pobres e pretos
sempre restam
mesmo que nem tão
pobres e pretos
fuzilados pela polícia
alguém volta correndo
e num enlace envolve o braço
e beija e é beijado
a propaganda é de desodorante
alguém volta correndo
e sai beijado
por ciclones e queimadas
alguém volta correndo
as mãos se tocam num sorriso

7

Paris não é o fim do mundo
a lama explode além
e nunca pode ser a mesma
nunca entraremos na mesma terra
que sobe acesa pelo escapamento
ao raio opaco deste sol

escolas encerradas
se ocupam por garotos
que ocupam suas tardes
em descerrar as vidas
os corpos ganham corpo
frágil parco vivo
alguém procura por capim

8

Pasto surrado desterra não tem coro
se a lama abraça os braços
todos deste rio se este rio
teima e reteima em desaguar
no mar se nossos peixes
serenam sob as águas
um verso ainda

eu seria mulher da vida
eu corro nas entranhas do dia devagar
eu tenho filhos e não faz sentido
eu seria mulher do mundo
eu leio whitman para os desmembrados da manhã
eu cruzo serras e não faz sentido
eu seria a mulher do fim
eu canto quando a voz se arrasta
eu seria a mulher do fim do mundo
mas a voz não faz não chega à foz
a voz não traz não chega ao rés
a voz

9

Você constata triste

que já dinamitaram

a ilha de manhattan

talvez ainda reste voz

10

O sol no sal
alguém viu parece
alguma sauna
estalactites no concreto
estalam sobre máquinas
de costura entrelaçando
o nome sweatshop
a loja escorre o mesmo

beijamos novamente
as marcas de eldorado
achamos novamente
a terra sem mal
seguimos novamente
à terra de linchamentos

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e leciona latim na UFPR. Estreou com os poemas de Brasa Enganosa, em 2013, finalista do Portugal Telecom. Em 2014 lançou o poema-site Troiades — Remix para o Próximo Milênio. Essas obras deram início à tetralogia Todos os Nomes que Talvez Tivéssemos. Como tradutor, entre vários outros, publicou A Anatomia da Melancolia, de Robert Burton (2011-2013, premiado com APCA e Jabuti).

um universo circular no fluxo das águas, resenha de Nuno Rau

capa_wandaLA liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

1.

Adentrar um bom livro de poemas pela primeira vez nunca é uma aventura simples — é como entrar num espaço desconhecido que guarda surpresas em suas paisagens. A poesia convoca a um posicionamento do leitor, daquele que precisa ativar, com sua energia, o circuito impresso sobre o qual se assenta o conjunto de poemas, para, assim, atualizá-los em relação a si mesmo. No meu caso, considero instigante a busca sobre o que moveria a voz gravada nestes versos, que determinações a atravessam e o que ela nos abre em sua potência. A liturgia do tempo é um livro com muitas entradas, como se inúmeros pequenos afluentes nos levassem todos ao rio principal que é a poética de Wanda Monteiro, no exato momento em que ela se encontra, este aqui e este agora (sempre em curso contínuo). Wanda é uma poeta que nasceu em meio às águas da Amazônia, nelas se banhou, em seu entorno cresceu e delas carrega a marcante influência que seus poemas anunciam, uma poeta que já nos deu livros maduros e prenhes de questões como Anverso e Aquatempo, igualmente marcados a um só tempo por essa regionalidade e pela universalidade que nos aproxima de seus caminhos internos.

Interrogando essa voz, ela nos conta que roga pela “escuta de alguma voz/ voz que venha de todas as vozes” que enumera, então: a dos elementos — vento, céu, terra, fogo, águas —, a dos seres — as “coisas miúdas” —, a do mistério da vida e da morte, do sagrado e da ancestralidade. Estamos postos diante de uma cosmologia que se esboça por movimentos sutis, e precisamos interrogar a essa “voz do céu que guarda todas as vozes” por quais devires humanos (e, sem dúvida, também supra-humanos) seremos levados. Buscamos pistas, uma vez que estamos em meio a uma densa mata na qual pegadas são recobertas pelas folhas que caem incessantes, e atravessadas por rastros de outros animais, quando não lavadas pela chuva ou pelas aluviões delas decorrentes.

Não bastassem, como vimos acima, as interrogações acerca dos fluxos que atravessam e constituem esta poética (a um só tempo centrais e marginais em relação ao debate contemporâneo da poesia), observamos que o livro é construído por dois espectros de fala que, dialeticamente, não se mesclam, antes se diferenciam no diálogo que articulam entre si, comigo e com você, atônito leitor — é necessário desenvolver mecanismos para a escuta destas falas, localizar suas pistas. Um sinal nos acena da epígrafe: Heidegger se interroga sobre semelhança e oposição entre poesia e pensamento; entenda-se aqui pensamento, na mira do filósofo, como o responsável pelo triunfo da técnica na sociedade moderna e, por conseguinte, pela conversão da vida em simples procedimento burocrático dentro do aparato científico-tecnológico do Estado, tendo como resultante o esquecimento do ser. A poesia seria, então, esse caminho para o retorno à experiência original do pensamento — e esta experiência original é exatamente o que se persegue em A liturgia do tempo, por meio da própria linguagem e do lugar para onde ela se volta como ferramenta de representação e reflexão: ela busca lembrar o esquecido, isso que perdemos na contemporaneidade, no mergulho da vida urbana e, assim, superar essa crise e procurar reconstruir a experiência original do pensamento. Eis o abismo de que nos fala o filósofo, eis o abismo (ou um deles) que a poesia busca sobrepassar.

Tomando ainda a questão levantada pela leitura da epígrafe, podemos pensar sobre a querela entre Heidegger e o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX, especialmente com Saussure e Wittgenstein. Simplificando os termos deste debate para o contexto de nossa apreciação de A liturgia, podemos tomar do nominalismo linguístico o pressuposto de que o ser humano está diante de um incontornável esquecimento do ser, do qual a arbitrariedade do seu uso social e científico é o mais recente sintoma. Isso ocorre porque estamos imersos numa nuvem de signos, todos autorreferentes e dotados de legalidade própria e independente, e não fundados numa forma lógica ou na própria substância do mundo.

No lugar de buscar a superação da crise acima detalhada, reconstruindo, na medida de seu possível, a experiência fundante do pensamento tal qual se deu na Grécia antiga, perdemos o pouco potencial reflexivo que ainda possuíamos porque nos dedicamos a compreender e praticar as regras e a arbitrariedade do signo. É devido a isto que, para Heidegger, o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX é a forma mais recente, mais jovem, do estranho ou do estrangeiro se manifestar, ou seja, é a mais recente manifestação do esquecimento do Ser — caberia a nós, como alternativa, lembrar o esquecido: para Heidegger não são o cientista ou o administrador do Estado os cidadãos capazes de realizar a experiência da dignidade da palavra. Para tanto, só o poeta.

2.

Aqui tocamos o ponto de articulação entre a poética de Wanda Monteiro e a questão da linguagem, sua arbitrariedade. A poesia, como queria Heidegger, tenciona retomar o caminho até o Ser, ambiciona cumprir o arco entre o texto e a existência, de modo que nos reconectemos com esses princípios. Os poemas de Wanda nos aproximam desta ponte sobre o abismo pela via do que foi transmitido pelos povos ameríndios às populações ribeirinhas do Pará, determinando sua visão de mundo e, portanto, sua relação com a linguagem. Explico: desde que os gregos antigos disseram pela primeira vez a palavra physis (materializaram no próprio movimento do ar sendo soprado por entre os lábios que formam uma espécie de túnel estreito (pela forma da pronúncia), e articularam um vínculo entre o fenômeno descrito pela palavra e a materialidade de sua fala, que remete ao próprio movimento do ar (como se fosse um vento, fenômeno meteorológico) que, para aqueles gregos era uma substância que preenchia todo o universo, já que em sua forma de compreender o mundo não havia o vácuo; este “preencher” o universo explicava, entre outras coisas, a própria possibilidade e ocorrência dos movimentos dos seres e dos objetos. A forma com que os ameríndios articulam a fala e a relacionam com suas cosmologias não é, estruturalmente, tão diversa, e as palavras são sinais desta ligação originária que, para nós, está perdida pela forma arbitrária como aprendemos e reproduzimos a língua. Os poetas trabalham com uma espécie de arqueologia deste fenômeno primeiro, irremediavelmente perdido, e para quem, como Wanda Monteiro, tem uma relação com este mundo é impossível não espelhar em sua produção elementos atávicos.

Isto pode ser observado nas palavras e conceitos que comparecem nos poemas — por exemplo, o “solo”, que ora aparece como chão firme, ora como elemento fluído e mutável. É assim mesmo que as imagens da natureza afloram nos poemas de A liturgia do tempo, referindo o modo como a própria formação antiquíssima daquelas planícies se deu pelo carreamento de solo nas águas pretas dos rios. São muitas as águas por toda a Amazônia, aliás, um leque de formas líquidas que vai das águas claras às águas pretas, passando pelas águas míticas e pelas águas ancestrais que amnioticamente nos transmitem conteúdos. Os solos em meio a tantas águas reais e simbólicas não poderiam ser solos absolutamente estáveis, e se mostram móveis e dúcteis, passíveis de serem levados pelas aluviões que, desde o grande dilúvio, são mitos fundadores de nossa cultura — presentes também nas cosmologias ameríndias, como nos mostra Lévi-Strauss nas Mitológicas. Ressalta da leitura deste livro que a poeta trata reiteradamente da necessidade (ou da ausência) do chão, mas ao ler temos que ter em perspectiva que esse chão primevo é em tudo mobilidade e impermanência, além de arquivo de memórias densas.

E eis que Wanda nos apresenta que, em sua cosmologia, o corpo como a soma destes dois vetores, a impermanência absoluta das águas e a permanência provisória do chão, e desta dualidade extrai uma tensão que ilumina a leitura dos poemas. O que unificaria no corpo essa dualidade? Não poderia deixar de ser o tempo, intervalo em que se estendem a permanência e a impermanência, e nada nesta poética é gratuito, porque o solo levado pelas águas até formar novo chão nada mais é do que a matéria da memória que estes poemas nos apresentam, memória que nos vêm segundo o ritmo mesmo do fluir destas águas. É deste jogo na linguagem que nasce a liturgia, a necessidade do trabalho sagrado sobre a matéria do tempo, esse fluxo inapreensível, e seu conteúdo milionário de significados. Cabe aqui compreendermos melhor os sentidos do termo liturgia.

A palavra liturgia tem origem na língua grega e é composta de dois elementos: leitos (público) e érgein (fazer). Juntando estes dois pelo radical e acrescentando a eles o sufixo formador de substantivos, temos leit-o-erg-ia ou leitourgia. Leitos deriva da palavra léos, forma dialetal de láos, que significa povo. Érgein é um verbo que caiu em desuso na época clássica, mas que sobreviveu no substantivo érgon (trabalho). De leitourgia derivou litourgos (servidor público) e o verbo litourgein (exercer uma função pública). De láos (povo) se originaram as palavras laico, laical, leigo. Assim, liturgia, liturgo, lutúrgico, laico, leigo, laical pertencem a uma mesma família de palavras, pois todos procedem da raiz láos ou léos, povo. Mas liturgia passou a ter também, em nossa cultura, um significado religioso: liturgia é o serviço público oficial da Igreja e corresponde ao serviço oficial do templo. Abrange, pois, todo o conjunto de funções oficiais, os ritos, as cerimônias, orações e sacramentos.

Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que o nome-síntese deste novo livro de Wanda Monteiro articule estes dois sentidos da palavra liturgia e a ponha em relevo: o laico e o sagrado como faces de uma mesma coisa, e podemos supor, sem muita chance de equívoco, que a liturgia é, para a poeta, o próprio poema — nele se irmanam estes dois aspectos da existência. É por isto que a voz que nestes poemas fala não pretende “deixar de comover-se com o mundo”, o mundo que vem na aluvião de suas sonoridades e sentidos, e, deste modo, nos co-move.

Nuno Rau é poeta, professor de história da arte e arquiteto, tem poemas em diversas revistas e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Edita revista de literatura mallarmargens.com desde 2012, e em 2017 publicou Mecânica Aplicada (poemas), pela Editora Patuá, que foi finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura.

TRECHO DO LIVRO

A linguagem poética talvez seja o último refúgio da humanidade. A escritura poética restará — mesmo — como tesouro arqueológico da remota paisagem dos sentidos e percepções do humano.

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras
===
pisar no auto-exílio

no exato quando do entreato
o tempo nos toma de assalto
parte-nos ao meio
aloca-nos fronteiriços
imersos no espanto

olhos no passado
olhos no futuro
o presente carregado de impossibilidades

I

em leito outrora fecundo
línguas ondas quebravam sonantes
ao toque da lira
no-ágora-do-outrora
só há espectros
mudo-surdos
habitantes de um deserto
seco e demente
de palavras

II

no gargalo da garganta
ergue-se um mausoléu de asas
em santo sepulcro de palavras aladas

III

que presságios trás a mudez
do flagelo verbo
fugitivo de um poema em chamas
?

Wanda Monteiro é escritora e poeta, uma amazônida nascida às margens do Rio Amazonas, no coração da Amazônia, em Alenquer, Estado do Pará. Reside há mais de 25 anos no Rio de Janeiro, mas só se sente em casa quando pisa no leito de seu rio. Seu livro A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

sujeito sem verbo: a poética do impoder, por Carla Carbatti

despia-se de seu formato original para agora repousar no infinito nada
Fernando Rocha

Sujeito sem verbo é o título do primeiro livro de contos do paulistano Fernando Rocha. O que ficou conhecido como A hora da estrela é somente um dos 13 títulos alternativos que Clarice Lispector nos sugeriu para a sua última novela. Alguém já fez o exercício de entrar por outro título? Por exemplo “Assovio no vento escuro”? Eu já, já tentei entrar por todos os títulos, experimentar, no mínimo, 13 livros, mas isso é outra história. Agora estamos tentando entrar no livro do Fernando. É difícil. Mas o título oferece algumas pistas. Vejamos: sujeito sem verbo, sujeito sem ação, sujeito passivo, que não atua. Se trata, então, de sujeitos impotentes? Eu me atreveria a dizer que não, que são sujeitos sem poder, mas potentes. As personagens-sujeito do Fernando me invocaram o escrivão Bartleby, de Melville, o seu incansável refrão: I prefer not to. A associação não é simples, é mais bem complexa, há que construí-la.

Digamos de partida, como solo comum, que tanto os personagens do Sujeito sem verbo, quanto Bartlebly, compartilham uma linha de tensão que conduz o sentido ao seu limite. Bartleby repetindo sua fórmula “I prefer not to”, que não é nem sim nem não, mas justo uma zona tensional, indiscernível, que desnuda a linguagem, expõe sua linde, cartografa seu fora onde ela se abre a si mesma e se confronta com o silêncio. E as personagens do Sujeito sem verbo, com seus movimentos sem ação – uma espécie de grito silencioso – que promovem um estiramento do sentido que articula seu próprio sentido como um roçamento no sem sentido, numa impossibilidade.

Toda potência de ser ou de fazer algo é, para Aristóteles, sempre potência de não ser ou de não fazer, senão a potência se confundiria com o ato. Essa é a grande dificuldade de pensar a potência, porque haveria que pensar a potência do não, pensar a potência de não pensar. O que nos levaria a uma aporia, uma vez que o pensamento não poderia nem pensar nada nem pensar alguma coisa. Para sair dessa encruzilhada, Aristóteles enuncia a tese do pensamento que pensa a si mesmo, ponto de equilíbrio entre potência e ato. O pensamento que pensa a si mesmo, não pensa nem o nada nem alguma coisa, pensa sua potência. É nessa tensão que se articula a criação, ou seja, fazendo experiência do seu impoder, algo se torna possível. Ou ainda, é do impossível de onde deriva a criação. Bartleby reivindica esse impoder, como sua absoluta potência, é dizer, desestabiliza a ética-estética do possível anunciando-se como im-possível, como um tremor, uma rachadura no poder. Os sujeitos-personagens de Fernando são sem verbo, ou seja, suas potências não passam ao ato: é uma potência de poder não, um im-poder, portanto. Formulando de outra maneira, podemos dizer que suas personagens são desreferencializadora ou desterritorializadora, na medida em que produzem outros sentidos não assentados na lógico do possível (de poder), mas que transita na linha fina e tensa da potência.

Deleuze diz que a fórmula bartlebiana corta a linguagem de qualquer referência e faz do próprio Bartleby um ser sem referência, ou seja, ele abre uma zona de indiscernibilidade entre sim e não, preferir e não preferir, potência de ser e potência de não ser. É um clandestino, um passeante, o aparecimento de um desaparecer. Ao perder a referência, perde-se também a mirada, isto é, perde-se a estrutura da visão instituída como sujeito-objeto. O olhar, então, jorra-se, transborda-se: o observador é aquele que olha sendo, deixando de ser: não há sujeito, não há objeto, o que há são caminhos. E, nesses caminhos, o sujeito passa a ser o observador e esse deixa de observar porque todo ele está no caminho. Intersecionalmente, o sujeito sem verbo rochadiano é aquele que perdeu o poder de ver e ser para devir. Renunciou o verbo, o ato, o poder, o sentido para delirar nas bordas, no calor do contato. Experimentou seu impoder, seu vazio como extensão, difusão, impulsão de uma força motriz que, frágil e tênue, desvanece e se fortalece nas turbulências do mundo.

Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeta com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmargens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à antologia RelevO 5 anos, ao Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral Na Cadência do Caos, editado pela Urutau.

Esconde-esconde | breve conto do livro

Deixar o Eu que há em todo mim de lado seria possível? Um convite irrecusável, feito de maneira singela: – Conta um estória!

Os olhos que ainda não conseguiam decodificar as letras seguiam aquele amontoado de palavras, perguntando: Onde é que cê tá lendo?

O pai apontava o dedo para onde o olhar e a boca estavam.

Depois outro desejo: esconde-esconde!

Procurar, se esconder, achar. Olhos atentos, passos firmes: – Já vou!

Placas, senhas, números. Ela não conseguia se econtrar, o GPS em mãos a confundia mais. Precisava de uma voz familiar que lhe transmitisse calma, mas o silêncio dentro da sua cabeça era mais forte do que os ruídos que a cercavam.

Procurava um não sei que que sempre se escondia. Coisa esta que não se pode encontrar mas que por prazer se insiste em procurar.

| ROCHA, Fernando. Sujeito sem verbo. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2013. 100 p. |

um instrumento de signos entre nós: tocar ‘real e de viés’, por Carla Carbatti

E onde não queres nada, nada falta.
Caetano Veloso

Como entrar em um livro cuja capa já oferece um obstáculo: é uma porta cerrada? Cujo poema inicial, ‘iniciação’, já anuncia nos primeiros versos: “não me leiam / me esqueçam / se possível nem me conheçam”? Eu poderia começar dizendo que são metáforas da incomunicabilidade da linguagem, da poesia, mas penso que há outras vias muito mais vivas e gozosas para brechar.

A porta é porosa, como a pele — que não penetramos, mas acariciamos, deslizamos — cheia de estrias, de frestas, o sedutor buraco da fechadura: linhas de fuga: real e de viés. Sim, antes de seguir, há que saber isso: a escrita não é dada nem “dável“. Isso não quer dizer que não há ponto comum, não há comunidade na escrita, isso quer dizer que esse ponto comum não é concedido de antemão. Esse ponto comum é o que surge do encontro dos corpos (escrita e leitura e seus inumeráveis outros corpos). Em outras palavras, o ponto comum da escrita, ou ainda, o seu sentido, não está aí, não está aí para ser descoberto; o ponto comum da escrita são pontuações, pulsações, ritmos que se cria ao tocarmos um fonema, uma rima, um timbre atonal que nos desorienta e nos situa na linde entre o sentido e o sem sentido da linguagem.

Colo meu olho esquerdo numa das frestas: “mas, se eu soubesse / o que saberia?” Tudo em mim vibra, as sílabas sabem mais do que as palavras, diz-me a estrofe, elas são sopros, sons inomináveis, que não contêm uma certeza nem uma verdade, são intensidades que dançam e fazem dançar. Eu ouço ao longe a sonância de um trompete compondo hiâncias no ar: a arquitetura de uma queda. “e se eu não cair / que faço de mim / em pé / entre destroço?” E você aí dentro, quem é? Um homem erguido diante da própria ruína? As retinas alteradas pelas ondulações do desejo. Vejo: afino o olhar. E a distância: toco.

Um instrumento de madeira, de papiro, de signos entre nós: limite e transposição, interior e exterior: fronteira contaminada: textura compartilhada: a composição de um lugar esfugente. Ou escrever não é soltar pássaros de plumas pretas num céu em tormentas? Chuva nas páginas, borrão, uma profecia escura se revela sem revelar nada, só mais um buraco negro onde eu me afundo. “e se eu continuasse / dizendo coisas sem sentido / você diria: entre?”. Seria bonito ver a porta se abrindo, ver que a expansão da tinta, dos signos, não produz mais do que uma forma borrosa, indefinível. Mas a porta está cerrada, e desde o buraco da fechadura, eu só vejo pegadas de dedos, tateamento, vestígio. O homem, dentro, “excreve” ocos na porta, entre’visões, vieses, aberturas rizomáticas que forçam o olhar a vaguear como “uma abelha perdida rompe o crepúsculo zunindo até a exaustão”. A mulher, fora, aprende que toda entrada é também uma saída e deriva a saia e a mirada na materialidade onírica das palavras:

“[…] mas
ao invés
de um discurso
dizia: ah…
e voltava ao casulo oco de cadarços em grandes laços […]”

Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeta com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmargens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à antologia RelevO 5 anos, ao Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral Na Cadência do Caos, editado pela Urutau.

amor

dizem que o amor isso
o amor aquilo…
mas já é sexta-feira?
Já dá calafrio?
vai ter cerveja?

e se não for…
e se não for amor?
se for
salto alto
quadrúpede de pelúcia
e coração de estudante?

entupidos
de
álcool

imersos nesse aquário
esperando
o grande evento

sequer suspeitam
que os cavalos de Napaleão
não lutavam pela França

| OLIVEIRA, Leandro. Real e de viés. Juíz de Fora, Minas Gerais: Bartlebee, 2013. 117 p. |