Brasil: (im)possíveis diálogos #17

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

“E daí?”

“Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa. Assim, na humanidade não para de morrer. Se você fala em vida, do outro lado tem morte. E as pessoas ficam ‘ó, ó, ó’. Por quê?” (Regina Duarte)

Por Angélica Amâncio

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Vitor Rocha

Por que
esse vírus
raivoso
parece latir
rumo ao porão,
ao precipício,
ao fundo do poço?

Treze de maio
132 anos depois
da canetada de Isabel, a princesa,
o número de negros
mortos
de coronavírus
no Brasil
quintuplica.

Faz dois meses
apenas
a primeira vítima
partia:
empregada doméstica
cento e vinte quilômetros
por dia
de Miguel Pereira
até o Leblon.

A patroa
recém-chegada da Itália
não mencionara
trazer na mala
como souvenir
um vírus.
Afinal, para quê mostrar
resultado de exame
para a gentalha, meu Deus?

Enquanto isso,
no Norte,
onde a floresta
continua a virar sertão,
o número de mortos
entre os indígenas
cresceu
em duas semanas
800%.

Longe dali,
em carros que custam
600 vezes
o valor
do auxílio emergencial,
marionetes desfilam
pelo fim
do confinamento
dos pobres
em verde-e-amarelo
alheias, insensíveis
à dança incessante
das escavadeiras.

É preciso
que cavem
velozes
que varram
para debaixo
da terra
os corpos
tantos, tantos
para que passem
a morte
como passaram
a vida
subnotificados
anônimos
atônitos
empilhados
uns sobre os outros.

Se tivéssemos
como presidente
um bom coveiro
e não um fake messias
talvez ao menos
no sepulcro
o abismo
que nos divide
não fosse tão profundo.

(13 de maio de 2020).

Angélica Amâncio é doutora em Literatura Comparada pela UFMG, em cotutela com a Université Paris Diderot — Paris 7. É pós-doutora em Literatura francesa, pela USP, e em Literatura lusófona, pela Université Sorbonne Nouvelle. Atualmente, é leitora de português na École Normale Supérieure, em Lyon, e chargée de cours no departamento de Estudo Ibéricos e Latinos-Americanos (EILA) e na l’ESIT (École supérieure d’interprètes et de traducteurs) — Paris 3. Suas pesquisas são voltadas, sobretudo, para as relações entre Literatura, outras artes e mídias. É também poeta, autora do livro Adagio ma non troppo e outras canções sem palavras (2015).

Brasil: (im)possíveis diálogos #16

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Confabulação

Por Virna Teixeira

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Vitor Rocha

Sentaram-se à mesa de jantar da enfermaria para a reunião usando máscaras. Movimentos gestuais. A linguagem das máscaras é intransitiva? Ela não lembra do acidente. O hipocampo foi lesado no começo da pandemia.

Sentada à mesa sem máscara diante da equipe. Como se estivesse nua e vulnerável, a boca e o nariz expostos. Os rostos recobertos, sentados em distância geometricamente precisa, estão fixados nela. Sua perplexidade não é neurológica, é real.

Este é um sonho ruim? Uma espécie de inquisição?

Amnésia anterógrada. As datas não significam nada. Há notícias sobre este vírus em toda parte.

Ela quer sair para fumar. Ela não lembra da admissão. Seu corpo mudou. Antes caminhava pelos corredores como uma escultura de Giacometti, os braços longos e pendulares. Agora precisa de roupas novas, mais largas. Manequim 38.

Lembra que estava numa livraria em Nova Iorque, em agosto de 2019, mas isto foi muito antes. Pensa que meu nome é Doctor Maria, porque sou latina.

No dia do acidente eu descia a rua com cervicalgia, após uma tração súbita e recente nas costas. Estava tonta e com choques descendo pelos braços. Tive delírios de neurologista com minha coluna. Imaginei que perderia meus movimentos. Quando alcancei o metrô tinha palpitações e suava.

Não sei quanto tempo passei no metrô. Eu estava fora da realidade, eu olhava para algumas pessoas com máscara e tinha medo. Concentrei na respiração. No trajeto, fui me acalmando. Era um ataque de pânico.

Cheguei em tempo para a reunião, foi um dia longo, que culminou com o acidente. Corremos. Lembro dos gritos, da garota anoréxica que chorava sem lágrimas, porque estava muito desidratada.

Mas ela sobreviveu. E esqueceu de tudo. Na semana seguinte, começou a quarentena.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. Poeta, tradutora, contista e editora. Seus livros de poesia foram publicados na América Latina, Portugal e Reino Unido. Virna tem um trabalho prolífico como tradutora, e publicou títulos de poesia escocesa, sul americana e francesa; numerosas traduções de língua inglesa; e versões de poesia brasileira para o inglês. Vive em Londres e dirige um projeto editorial independente, Carnaval Press, além de editar a revista bilingue Theodora. Ela também é médica e trabalha em hospital psiquiátricos no NHS.

Brasil: (im)possíveis diálogos #15

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Despedida

Por Leonardo Valente

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Vitor Rocha

— Eu queria poder lhe dar um abraço bem forte nesse momento tão difícil, mas não vai ser possível. Seu marido acaba de partir aqui do meu lado — contou chorosa a médica intensivista do hospital de campanha no Estádio do Maracanã, em videochamada da tela de seu tablet para o smartphone do primo.

O mundo que ameaçava desmoronar em etapas desabou por inteiro de repente. Tudo ficou turvo, sem sentido e aquelas palavras não pareciam conexas. Como assim ele morreu? Dez anos mais novo, 32, saudável, uma vida pela frente. Lindo. Engenheiro civil bem-sucedido, amante das artes, sensível. Como assim o casamento de um ano e meio terminou? Aquele casamento com uma festa inesquecível para as duas famílias na beira de uma praia paradisíaca ao pôr-do-Sol, como ele ousou ir embora? Quem vai fazer o jantar depois de um dia cansativo de trabalho? Quem vai se jogar no sofá, sorrir e falar sobre as bobagens e problemas do dia? Quem vai envelhecer junto e organizar a aposentadoria para morar em Portugal? Como ele tem coragem de interromper planos tão pequenamente grandiosos, tão doces e tão dependentes dos dois?

— Você precisa ser forte, primo, muito forte — pediu dessa vez aos prantos a médica, que precisou respirar fundo para continuar — você não pode sair do seu apartamento porque com certeza está contaminado, só não tem os sintomas. Não temos mais testes para confirmar, não temos mais equipamentos de segurança, não temos mais nada, nem sei como conseguiram montar essa UTI aqui no estádio, o hospital era para ter só leitos de enfermaria, mas a situação está muito grave, muita gente doente jogada nas calçadas, muita gente morrendo em casa. Seu filho está bem na casa da sua mãe, deixe-o lá por mais umas duas semanas, pelo menos, nem ele nem ela podem ter contato com você, e nem podem ir à rua, para o bem deles.

O filho. O que será do filho? O menino de três anos adotado e que chegou para alegrar a família quatro meses antes da pandemia. Como será criado só por um em vez de dois? Como é que se paga sozinho a prestação do apartamento? E a pequena poupança que está na conta dele? E o carro que está em nome da sogra, mas que é de ambos? E a conta no Instagram com fotos da família dignas de novela, quem tem a senha? E o amor, e o companheirismo, e os cinemas às sextas, teatros aos sábados e restaurantes aos domingos? Quem foi que morreu? Não pode ser ele, é algum engano, com certeza não faz o menor sentido, a TV tem denunciado muito erro desse tipo.

— Ele foi embora dormindo, nós o mantivemos em coma induzido. Foi tudo muito rápido, apenas três dias de UTI. Pelo menos não sofreu muito — tentou consolar a médica.

Meu Deus, três dias. Só três dias. Cinco de enfermaria de hospital e três de UTI. Semana passada ele estava em casa, fazendo risoto no meio da quarentena quando começou a tossir. Ponta de febre, coisa leve. Dormiu bem, acordou com um pouco de falta de ar e achou melhor ir ao médico. Ficou internado por precaução, ligava para casa duas vezes por dia, perguntava como estava o menino, como estava tudo. Parou de ligar quando piorou e foi transferido do hospital superlotado em Copacabana para a UTI no Maracanã. A prima disse que ele era forte e que ficaria bem, que daria notícias toda hora, que já já voltava para casa. Cadê as notícias sobre o estado dele? Ela está devendo. Quando ele volta? Por que não pode falar no celular?

— Assim que você me ligou para falar da transferência, vim para cá e me ofereci como voluntária, eles estão sem médicos e cuidei dele cada minuto. Você tem comida em casa, primo? Paracetamol? Tem Rivotril? Você vai precisar tomar. Ninguém pode ficar aí com você, ninguém vai poder te abraçar, te consolar e dar o ombro para você chorar. Você precisa segurar essa barra sozinho, mas nossa família está com você mesmo à distância. Se passar mal ou tiver falta de ar avise e corra para um hospital. Quer que eu peça para deixarem compras na portaria? Prefere comida pronta? O que você está precisando, olha para mim, fala alguma coisa, pelo amor de Deus. Eu também vou precisar de você agora, de sua ajuda, por ele.

Comida? Pra que comida? Comida em quarentena engorda. Alguém tem que ligar para a mãe dele que mora em Roma, ela nunca atende o telefone. O maldito genocida que está no Planalto não disse que era só uma gripezinha? Ela votou nele, filha da puta! Como se contrata funeral sem sair de casa? Ele precisa de um funeral digno, precisa de tudo de bom e do melhor que se pode oferecer, de carinho, de companhia, de alguém que atravesse essa barra junto, que segure as pontas porque tudo vai passar, sempre passa. Ele precisa de uma linda coroa de flores, quem vai trocar a roupa e fazer a maquiagem? Ele é muito vaidoso, não pode parecer abatido no funeral. Como pega atestado de óbito? INSS dá direito à pensão para casal homoafetivo? Ele vai precisar tomar uma sopa quando chegar em casa. Sem sair de casa fica difícil comprar as coisas para a sopa que tanto gosta, de repente ela pode realmente deixar algumas compras na portaria.

— Não vai ter funeral, primo. O corpo vai ser levado em caixão fechado para ser cremado em outra cidade. O caminhão do Exército vai levar. Aqui não tem mais como. O lado de fora do estádio está cheio de caixões, as calçadas do bairro estão lotadas também, só na entrada do metrô tem uns trinta. Eu preciso de você, primo, eu preciso que seja forte, porque a gente precisa liberar o corpo, é o que a gente pode fazer de mais digno para ele neste momento. Quanto mais rápido a gente liberar o corpo, melhor para ele, menos tempo vai ficar por aqui. Você me ajuda, meu querido? Vou resolver tudo, mas preciso de você.

O apartamento acabou de ser pintado, está novinho. O quarto do filho está todo decorado. Ele cuidou dos papéis de parede, escolheu a dedo, tanto o do canto da sala, preto e branco, quanto o do quarto do menino, todo azul. O imóvel de três quartos, com uma suíte e uma varanda, está lindo. Os tempos são muito duros, ninguém sabe quem vai segurar o emprego, o Brasil tem um governo insano e perdido que vai matar mais que o vírus, mas um casal unido e que se ama supera tudo. Não tem problema, as férias programadas para a Europa, por exemplo, vão virar férias no Nordeste os três serão muito felizes nessa viagem. Praia, Sol, pousada, comida típica, forró à noite, vai dar para fazer tudo. Essa doença maldita vai passar, serão necessários alguns sacrifícios e muita solidariedade, mas todos sairão mais fortes dessa. É horrível ficar em casa sozinho, mas é para o bem da família e essa fase vai acabar. O menino está seguro na casa da avó que mora no Rio, e que fica a duas quadras. Ele mesmo pegou o carro e o levou, para em seguida ir para o hospital. Tudo está bem e continuará bem.

— Meu querido, fala comigo, você não disse uma palavra, fala alguma coisa, por favor — pediu a médica ainda chorosa e muito preocupada com o primo. — Eu vou virar o tablet e vou mostrar o rosto dele para você, tudo bem? Não vai demorar. Eu mostro e você me diz sim, é ele, ou só faz um sinal de positivo com a mão, está certo? Ele está bem, não está inchado, está como se estivesse dormindo, só com os lábios um pouquinho roxeados e o rosto um pouquinho mais pálido, mas ele é lindo assim mesmo. Sempre foi muito bonito, está tão bonito quanto no dia do casamento de vocês. Assim, você também se despede dele, meu amor. Você manda um beijo, diz que o ama. Tenho certeza de que ele vai te ouvir, pode ser?

Sim! Todo mundo ouviu o aceite emocionado em alto e bom som naquela cerimônia inesquecível. Um casamento entre iguais que se amam é sempre um evento histórico, um recado de que há algo mais forte a unir os homens do que apenas a vontade dos hipócritas. Ali, todo mundo tinha certeza de que seria para sempre, “até que a morte os separe”, como disse o juiz. Quanto tempo ainda de quarentena? Por que o ministro da Saúde cada dia recomenda uma coisa diferente? Haverá uma guerra depois disso tudo? Como estará o país quando chegarem as bodas de prata? Como é que se corta o cabelo no meio dessa confusão toda se os salões estão fechados? E o funeral, ela não explicou o que é preciso fazer para organizar o funeral, é tão difícil nessas horas. Não! Espera! Parece que a construtora em que ele trabalha tem auxílio funeral, eles organizam tudo, mas será que está valendo, mesmo com o corte de metade do salário? Se cortaram o plano de saúde no meio da pandemia, podem ter cortado ao auxílio funeral também, as empresas não se importam com ninguém. Será que ele conseguirá segurar o emprego?

— Querido, olha ele aqui — disse a médica, apontando a câmera do tablet para o corpo do rapaz em cima da maca de UTI, com um avental azul e uma placa de metal bem sobre o peito com o número 2020 — Ele está sereno, ele está bem, primo. Ele precisa ir, outros estão esperando essa vaga aqui, tem muita gente precisando, tem fila de gente morrendo. É hora de se despedir. É ele? Diz para mim ou só faz um ok com a mão.

— Não é ele! Sou eu!

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou os romances Charlotte Tábua Rasa (2016), O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo: 2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, e a antologia Apoteose (Editora Mondrongo 2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura. É junto com Carol Proner organizador da coletânea Antifascistas (Editora Mondrongo 2020), que reúne 32 autores que formam parte relevante da literatura lusófona contemporânea. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados para a Primavera Literária Brasileira 2019 e 2020, na Europa.

Brasil: (im)possíveis diálogos #14

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Escalda-pés

Por Deborah Dornellas

Brasília, 29 de fevereiro de 2020.

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Vitor Rocha

Querido Maurício,

perdão pelo meu longo silêncio. Não tive condições de lhe escrever. Muitas coisas andam acontecendo por aqui.

Hoje é sábado. O último sábado de fevereiro de 2020, ano bissexto. O carnaval passou sem que eu prestasse muita atenção. Só vi partes do desfile das escolas do Rio pela TV, como costumávamos fazer juntos. Penso em você todos os dias, mas nas manhãs de sábado sua lembrança me vem mais vívida. Tenho saudade de tudo. De nós, das nossas caminhadas pela quadra e além.

Já não caminho mais na quadra. Nem à padaria consigo ir. Não sei se é artrose ou desencanto.

Na última vez que saí fui à farmácia. Devagar, com dificuldade. Como uma velha. A velha que sou. No balcão, uma moça muito maquiada e com longos e grossos cílios me atendeu. Pedi o remédio para regular a pressão e ela, quase tropeçando nas pestanas, foi buscar duas caixas nas estantes de dentro. Voltou sem pressa, com o medicamento nas mãos, sem sequer notar que eu não tirava os meus olhos cansados dos seus. Quando fui pagar, a moça do caixa, sem maquiagem e com cílios de tamanho normal, tentou me empurrar uma porção de tranqueiras: latinha de Vick Vapo-rub, bastões para proteger os lábios, creme para as mãos, que a seca foi braba, cortador de unhas e um novo antiácido que é tiro e queda. Deve ter me achado mais velha do que sou. Dessas senhorinhas a quem acham fácil enganar. A mim não enganam assim. Já perdi muita coisa na vida, minha filha, disse a ela, mas o juízo e o discernimento ainda estão aqui.

Nunca imaginei que viveria tantos anos depois que você se foi, Maurício. Nos últimos dias, passo horas ouvindo rádio ou consumindo meus olhos na frente da TV de plasma que Renato me deu antes de ir embora, em novembro passado. É assim que tento driblar a solidão e desviar minha atenção dos pensamentos incômodos que me assombram. Não me afeiçoei ao computador, por mais que Renato insistisse. Assisto às novelas como nunca fiz antes. E a programas que mostram a vida selvagem nas florestas, essas coisas. Vida selvagem tem sido a nossa aqui. Ando até evitando o noticiário nacional. Nem os jornais eu leio todos os dias. Parei de assinar. Todos contam o que não quero saber. Não quero saber mais nada sobre este país. Não reconheço este lugar. Esta cidade. Nem mesmo a nossa quadra eu reconheço. Não se veem mais crianças brincando debaixo dos blocos. A banca de jornais fechou. Os jardins estão abandonados, cheios de mato, e o parquinho agora é um quadrado tristonho com areia imunda e brinquedos enferrujados. Estamos todos enferrujados, Maurício. Paralisados. Somos espectadores inertes de nós mesmos. Não nos levantamos do sofá nem para mudar o canal da TV. Vivemos no planeta do controle remoto. Como robôs repetindo tarefas. Eu sei que envelheci. E Brasília envelheceu junto comigo. Estamos ambas exaustas, com a pintura descascada. Nossas juntas doem porque não nos movimentamos mais. Emperramos em algum lugar que, de tanto renegar o passado, parece não ter futuro.

Como eu disse em cartas anteriores, o Teatro Nacional está em ruínas há anos, a agora a Esplanada e a Praça dos Três Poderes foram ocupadas por micróbios da pior espécie. Nem o Itamaraty escapou. Estão destruindo tudo. Os gramados da cidade não rebrotaram depois da seca de 2019, e os ipês estão desistindo de nós. Não ouço mais as cigarras ciciando nas árvores, mas talvez tenha ficado meio surda sem perceber. Você ficaria devastado se estivesse aqui, neste cenário de fim de mundo. Apesar de eu ser uma década e meia mais velha do que Brasília, acho que tenho lidado melhor com a decrepitude. Mas voltei a ter medo. Um medo indistinto, diferente daquele que eu tinha antigamente, quando tudo estava no limite. Pensávamos que aquilo nunca iria acabar, não é? Mas acabou. Às custas de muitas vidas, inclusive de parte da sua. Agora querem trazer o pesadelo de volta, atualizado.

Depois de muito tempo sem sonhar com o horror, ontem tive um sonho com aquele dia em que os soldados da PE o levaram. Acordei como se tivesse revivido a cena inteira. Renato era recém-nascido e estava dormindo no quarto, depois da primeira mamada do dia. Era domingo. Lembro bem o dia porque eu estava na cozinha, fazendo o almoço como só fazia aos domingos, quando os homens espancaram a porta dos fundos. Eles sempre preferem a porta dos fundos. Você estava no sofá da sala, lendo jornal. Os soldados foram entrando aos berros, tentei impedir, Renato acordou e começou a chorar, fiquei desorientada, não sabia se corria até o quarto para acudir meu filho ou se tentava impedir que a PE levasse meu marido. Enquanto eles o carregavam com violência, olhei nos seus olhos e não vi medo, somente uma sombra, uma tristeza por saber que estava nos deixando por tempo indeterminado, sem saber o que fariam com você e conosco. No meu sonho de agora, era Renato, já adulto, quem estava sendo levado preso, mas eu não chorava como chorei naquele domingo de 1970 e ao longo dos meses todos que se seguiram à sua prisão. No sonho, eu enfrentava os soldados com os olhos secos e a força das mães. Quando você voltou, Renato já tinha os dois dentes da frente e caminhava pelo apartamento, com o passinho trôpego dos bebês. Você voltou tão cansado, Maurício. E mais calado do que de costume. Quando vi sua mão esquerda toda deformada, senti náuseas e quase vomitei. Seus dedos quebrados em todas as falanges, mal calcificados, foram a visão mais triste da minha vida. Nunca lhe disse isso com todas as palavras porque sabia que doía em você. Em mim ainda dói. Renato sempre quis saber como papai tinha machucado a mão. Inventamos uma história qualquer e ele acreditou. Ou fingiu acreditar. Mesmo depois que você se foi, Renato e eu pouco falamos sobre isso.

Foi boa sua ideia de se fingir de canhoto enquanto esteve preso. Os homens deixaram sua mão esquerda completamente inoperante, achando que assim você nunca mais escreveria uma linha ou desenharia uma charge sequer contra o regime. Mas você era ambidestro e usava muito bem a mão direita. Lembra quando você ensinou Renato a desenhar com as duas mãos? Tenho todos os desenhos, dele e seus, guardados. Os artigos publicados e os censurados também. Mas as letras e traços estão sumindo nos papéis amarelados. Vou mandar digitalizar os desenhos e transcrever os textos, para reunir tudo num livro. Renato vai me ajudar, mesmo de longe. Será um belo presente nosso para você.

Foi uma travessia penosa para mim, mas consegui rever todo o material. E nem o sonho ruim me fez desistir da ideia do livro.

Acho um privilégio ainda poder usar as mãos. Mas suponho que em breve não consiga mais fazer muita coisa com elas. A artrose me atropelou. Por isso as cartas estão rareando tanto. Esta me custou quase uma semana para terminar e passar a limpo. Minhas mãos doem muito quanto começo a escrever, e logo tenho que parar, alongar, passar unguentos. Olho para as minhas mãos deformadas e me lembro da sua mão esquerda. Isso o traz mais para perto de mim de um jeito estranho.

Espero ainda conseguir escrever mais algumas cartas. Na próxima vou lhe contar mais detalhes sobre um novo vírus que surgiu na China em dezembro e está matando muitas pessoas, principalmente velhos. Chamaram de coronavírus, porque o formato da molécula parece uma esfera coroada. Esse vírus já existia e agora veio numa versão 2019, mais agressiva. Vi na TV que isolaram uma cidade chinesa inteira, para tentar conter o contágio, que é muito rápido. Mas o tal vírus já viajou para fora da China. Há muitos casos na Itália e em outros países da Europa, e há três dias noticiaram o primeiro caso no Brasil. Um homem trouxe o vírus de avião, direto da Lombardia para São Paulo. Espero que essa virose não viceje aqui. Já há muita infecção neste país. Não precisamos de mais vírus letais. Temos muitos. Um deles é o atual presidente. Mas não vou falar dele. Hoje não. É sábado.

Sinto sua falta, Maurício. Muito. Como se as décadas não se tivessem passado. Minhas lembranças não sumiram na voragem do tempo. Estão todas aqui dentro. A memória remota é uma das poucas coisas que me restam. Estas cartas, que jamais serão lidas pelo destinatário, são meu único antídoto para as manhãs solitárias, as tardes chuvosas e as noites frias. Ainda há noites frias em Brasília, sabe? Nelas, minhas mãos e pés doem ainda mais. Quando os pés doem muito, penso em fazer escalda-pés, como os que você fazia para mim, depois das nossas caminhadas. Perfumados com camomila. Mas não seria a mesma coisa.

Saudade eterna,
Gilda

Deborah Dornellas, carioca criada em Brasília, é escritora, jornalista, tradutora e aprendiz de artista plástica. É formada em Letras (PUCCamp, 1981) e Comunicação (Jornalismo, UnB, 1992), mestra em História (UnB, 2001) e pós-graduada em Formação de Escritores (ISE-Vera Cruz-SP, 2014). Em 2012, publicou Triz (In House), uma reunião de poemas. Desde 2013, integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro e tem participado de todas as publicações do grupo. Foi uma das autoras convidadas a participar do Printemps Litteráire 2020. Por cima do mar, seu romance de estreia, foi o vencedor do Prêmio Literário Casa de las Américas 2019, na categoria Literatura Brasileira.

Brasil: (im)possíveis diálogos #13

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Descartes

Por Lúcia Bettencourt

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Vitor Rocha

Penso
logo não posso existir
como me querem
submissa
como as feras

Penso
e com isso surgem os problemas
O natural, a natureza
não correspondem
aos anseios
e receios

Penso
Ato tão pequeno
que ninguém explica
Deus e a Filosofia
debatendo entre si
minha agonia

Penso
E se o corpo é fêmea,
o que é a mente?
Talvez ilusão
mito da serpente
Pura sedução

Penso
Se isso é normal
outra é a falha
Ou talvez a culpa
seja de Descartes
por acrescentar
Existo

Penso
E não existo
Somente assim
Posso me explicar
Nesse momento
Não sou
Penso
Não existo
Penso
Logo, me crio

Lúcia Bettencourt escreve contos, romances, ensaios, livros infantis e poemas. É formada em Português-Literaturas pela UFRJ, com Masters em Spanish and Portuguese em Yale, e doutorado na UFF (Universidade Federal Fluminense). Colabora em jornais e revistas literárias. Seus contos estão traduzidos e publicados em revistas de língua inglesa, francesa e espanhola. Dentre os prêmios recebidos destacam-se ABL e Sesc.

Brasil: (im)possíveis diálogos #12

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Sítio Dois Irmãos

Por Márcio Benjamin Costa Ribeiro

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Vitor Rocha

— Valha-me, Deus.

Dona Ceiça acordou sufocada. Se sentou na cama dura, passando a mão na cara banhada de suor. Levantou-se devagar, ainda tonta de sono e foi tomar um gole do resto da água que sobrava na quartinha de barro do quarto apoucado.

Devagar, a respiração foi voltando pro lugar, enquanto a frieza da caneca de alumínio lhe arrepiava os beiços enrugados.

Mais um sonho. Agora com o marido novo, os dois na festa de casamento, ainda na fazenda antiga, antes do sítio. Ela também moça, arrumada, comendo tanto do bolo tão branco, sabendo que ia desarranjar. Ernesto jovem também. Tão bonito, meu Deus. Tanta gente, e aquele cheiro de vida.

E de repente ela se dava conta que não era não, que agora era mentira. Aí acordava agoniada, com aquele silêncio lhe doendo os ouvidos, sentindo a camisola velha subir e descer nas costelas magras como sendo a lona de um circo.

Eita da coisa linda era um circo. Tanto do bicho. O coração transpassava quando viam anunciar na cidade. Uma ruma de moça bonita, como ela, quando jovem, no casamento.

Fazia tanto tempo.

Dona Ceiça foi pra janela em busca de um pouco de ar. Já nem sentia mais o cheiro de podre, sempre em algum lugar.

Lentamente o sol insistia, manchando de um vermelho desmaiado o céu ainda escuro.

Ela achava que era a pior hora. Acostumada, sempre acordava antes do raiar, ou antes do galo cantar, como se dizia antes. Há quanto tempo?

Ali já não se fazia sentido.

Tinha muito que bicho deixou de ser. Os mais novos que sobreviveram nem se lembravam mais como era o cantar do galo. Claro que encontravam foto, filmagem, mas a lembrança andava sumida, como a fumaça preta do meio da rua subindo pro firmamento.

Na casa vazia, as chinelas estalavam cortando o calado.

Já tinha desistido de falar sozinha fazia era tempo.

Com medo de ficar doida de vez, se prendia à rotina.

Arrumar as gavetas.

Dobrar a roupa.

Acender as velas do oratório.

Tirar a poeira escura dos móveis gastos.

Se esconder debaixo da cama quando batiam palmas do portão sempre trancado.

Lembrou-se do susto lapeando o coração quando tentaram entrar, se dizendo do governo. A senhora tomou coragem, apeou na janela a espingarda velha do marido e acertou um, que saiu pingando sangue pra dentro do carro.

Nunca mais.

Suspirou enquanto abria um dos últimos pacotes prateados da ração deixada na porta, carimbados com o brasão da Federação.

Fazia quanto tempo, minha Nossa Senhora?

Que dia era hoje?

Marrom e pastosa, só tinha era sabor de comida de bicho.

Quando tinha.

Dona Ceiça ainda sentia cheiro? Ainda provava gosto?

Lambendo os dedos grudentos, se lembrou de quando andava de cavalo por dentro da fazenda velha, experimentando embaixo das pernas o calor firme do animal.

Tinha acontecido mesmo? Ou era o diabo daqueles sonhos de novo?

Cuidadosa, levou o pacote pra pia e lavou, dobrando e guardando junto com os outros no armário da cozinha, os símbolos em pé lado a lado como sendo uma tropa.

Não esperava sentido.

Nada mais fazia sentido não.

E veio a dor, como vinha sempre depois que comia. Era doença? Ou o governo andava querendo envenenar os velhos aos poucos, como se matava gato?

Sorriu ao se lembrar dos tantos gatos da fazenda.

Chane, chane, chanim…

Esfregou os dedos chamando, chamando, mas quem disse?

Haveria de ter vingado algum, em outro lugar que fosse?

Dona Ceiça já nem percebia a falta, era como se o peito fosse assim um relógio velho, faltando mola, corda. Que andasse pendurado na parede por preguiça de tirarem.

Já não tinha vontade de deixar o sítio, de tentar contato com outros. E se fossem ruins, como foram os poucos que ela espantou à bala?

— Ração condenada, meu Deus — disse, quando a dor lhe apertou às tripas.

Bebeu um pouco mais da água de poço, segura, e pediu que lhe tirassem aquele sofrimento, acalentando-se ao se lembrar da rocinha acanhada, escondida em cima da casa, feita das sementes intocadas, que logo iriam germinar.

Será se antes de acabar a ração?

Perguntou a outra Ceiça, dentro da sua cabeça, uma mais velha e mais doida, que lhe encarava de dentro do espelho, com as tetas murchas.

Tudo veio tão rápido, aconteceu tão agoniado.

E logo não havia mais bichos, abraços, gente.

Dona Ceiça sacudiu os pensamentos como quem vasculha o teto de uma casa.

Pensar já não ajudava.

Preferiu se lembrar dos afazeres.

Da rotina.

Catou a faquinha afiada do quintal e foi pra janela.

Ao longe, já se juntavam, todos eles; se arrastando.

E Dona Ceiça se lembrou do sonho, do marido vivo, dos vizinhos, do bolo na festa de casamento.

Abriu a mão, com a palma marcada de cicatrizes e empurrou a faca afiada, que logo fez brotar um filete vermelho.

Vivo.

Apertou com força, deixando o sangue escorrer.

E como faziam dia sim, dia não, bem dizer, vieram todos, se acotovelar embaixo de sua janela, brigando pelas poucas gotas.

Já nem bicho. Nem gente.

“Ernesto?”, Ceiça sempre pensava em falar, mas com o tempo descobriu como engolir as palavras.

Já não se tinha o que dizer afinal, pensou, enquanto via a poeira do terreiro subir.

Márcio Benjamin Costa Ribeiro é um natalense do Estado do Rio Grande do Norte de 40 anos, que trabalha como advogado, formado pela UFRN, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Autor de romances e livros de contos folclóricos (Maldito Sertão, Fome e Agouro), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Figura tarimbada em projetos do Sesc (Arte da Palavra, Mostra Sesc de Culturas, Mostra Sesc Cariri, Flipelô), representou o Estado em Feiras Nacionais (Bienal do Livro do Ceará) e Internacionais (Primavera Literária de Paris e Feira do Livro de Paris), tendo sido convidado, inclusive, pelas Universidade de Brown (Providence) e Columbia (Nova York), ambas nos Estados Unidos, para a Primavera Literária de 2020, onde palestrará e apresentará a tradução do seu livro Maldito Sertão para o inglês, chamado “Cursed Badlands”. É roteirista de webséries (Flores de Plástico, Holísticos, Dê seus pulos e Crisinha e Graça) e curtas — metragens (Erva Botão, Linha de Trem e Pela Última Vez), e agora trabalha no roteiro de seu primeiro longa-metragem, Quebrando o gelo. Gosta de pensar que pode escrever pra sempre. Pelo menos é o que prometem as vozes em sua cabeça.

Brasil: (im)possíveis diálogos #11

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

horas rosas

Por Leonardo Tonus

a Pierre Seel, sobrevivente do campo de concentração de Schirmeck-Vorbrück, deportado por ser homossexual

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Vitor Rocha

tu és pedra
és alma
tu és relva—alva,
água malva—
viva de pai
mãe e filha.
tu és de Marília
a invertida,
eros travestida em prosa
de uma vida prosa
por tua ventura maligna,
pérfida pétala
de fim de mundo
neste fim do mundo
em que tu resides.
mundo em flor
mundo e flor
tu és minha flor
minha rosa,
rosamundo
de um mundo rosa
mundo em rosa
sem as rosas
de Rosa.
Rrosa judia
tu és a vadia,
minha asquerosa Selavy.
tu és seio em devaneio
de minhas noites carmim
em minhas noites escarlate
sem o esmalte
que lasca
que falta
pelos dias afins.
tu, a que se perde,
a boca oca
da elipse rota
da brecha púrpura sem fim.
do avesso ao avesso
pelo avesso
tu és a informe
o avesso disforme
que não se concebe
que nada concebe.
tu que pelos claustros erravas
que os mastros navegavas
os astros
até o astro-rosa
que ao peito levavas.
antes que os cães te devorassem
teus beiços arrancassem
os pelos lambessem
do teu pênis
de teus braços
do que foram abraços
que foram corpo
fora do corpo
hoje morto.
teu corpo,
pedra—alma,
pedra e alma,
cujos olhos ainda exalam o azul dos icebergs,
e as borrascas do Alasca!

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal, Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (poesia, Editora Nós, 2019).

Brasil: (im)possíveis diálogos #10

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

ph neutro

Por Rafa Carvalho

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Vitor Rocha

se eu soubesse antes. de onde estaria hoje. talvez tivesse andado diferente.

será que a gente mudaria mesmo o presente se soubesse o futuro. será que cheguei àquela idade de que meus pais e os demais falavam e parecia ser um tempo que jamais chegaria a mim. e o passado se mudasse. mudaria consigo este instante.

talvez. talvez não desse pra chegar aqui por outra via e mudar a via fosse o mesmo que mudar todo o destino. ou vai ver que todos os caminhos levem mesmo pra roma. o problema neste caso é que toda língua tem sua maldição. à minha física corpórea por exemplo a maldição é a ausência do silêncio tantas vezes. e a ausência do beijo. da lambida na pele alheia orelha cangote axila costelas. cristas ilíacas. glandes e clítoris. e cus. foram essas as minhas maldições de língua até aqui. essas e queimá-la todo santo domingo de pressa à lasanha da nonna. quando ainda menino.

mas a maldição da língua portuguesa ou pelo menos uma delas é ser o amor roma ao contrário. assim todos os caminhos de repente nos levassem ao avesso do amor. o seu completo oposto. por isto camões afundou dinamene. é uma língua que desvia. converte as apostas dos poetas.

de fato para amar em roma precisei sair um pouquinho. era uma pasquetta e fomos a um lago. bem nas beiras à cidade. senti a textura da calcinha de benedetta. era como a de muriel muitos anos antes. e não vi a cor mas imaginei madrepérola. enquanto a de muriel num relance das luzes do poste em recorte e viés pelos vidros do carro eram de um laranja meio róseo. um salmão forte exagerando o tom de alguns mamilos e pequenos lábios. algumas pessoas veriam ali qualquer coisa um pouco mais branda de iansã.

rosana tinha uma calcinha verde-limão com uma careta engraçada na bunda. foi tirando essa que tivemos nossa primeira vez. depois as calcinhas na dinamarca se puseram tão diferentes. e a joana me ensinou em lisboa que eram na verdade cuecas.

eu fiz um fado com isso.

e pensando melhor hoje. tive mesmo um fado com calcinhas. sempre desconfiei que fossem mais confortáveis. minhas amigas adolescentes fãs de spice girls diziam que o beckham usava. e me incentivavam a fazer o mesmo claro. o estranho é que tinha já provado os sutiãs e saltos altos de minha mãe. batom. mas uma calcinha nunca.

sempre amei as rendas. sempre amei as cores. as verde-limão inclusive. amava também as lúdicas com caretas e outras gracinhas. a calcinha comestível sabor abacaxi que um amigo trouxe a meu pai do paraguai. lembro que a comemos em família e era como uma sacola de mercado derretendo pela boca. as calcinhas da hello kitty de mimiko. as samba-canções. aquelas que lembravam boxers ou shortinhos muito curtos. seus diferentes tecidos cortes texturas. amei as que existiam para seduzir. e as que seduziam por existir tão confortável corriqueira e não pretensiosamente. as esgarçadas e bege. as de domingo e das férias. a sem costura de sara. a inexistente em aline. aquela da gisela sempre pronta. com zíper.

mais ou menos práticas. algumas caríssimas. e as que vinham das baciadas lá do brás. aliás. lembro que do apartamento por são paulo eu mirava as janelas das áreas de serviço. pequenas lavanderias basculantes de banheiro. observava as roupas dos varais de suas donas. masculinas femininas não importava. imaginando suas personalidades como fossem astros as calcinhas e outras peças marcando mapas no céu arranhado da urbes.

e cheirava as de minhas casas usadas de saudade. e brincava com as esquecidas por ou sem querer nos meus encontros.

mas aí a vida passa. e súbito é ela que vai se esgarçando. perdem-se as cores as formas. texturas. algumas memórias começam por se apagar e já não há mais tempo presente para o memorável. parece um piscar de olhos e estamos já num conto do calvino. onde o mundo do trabalho ou da sobrevivência humana. o mundo exploratório dos mais ricos sempre criminosos molda nossos rostos com as caras mais xoxas dos últimos séculos. roubando-nos todas as piadas e coragens. logo estamos ali. almoçando com pressa. esquecendo que a dança é um ingrediente imprescindível do preparo. comprando comida pronta. deixando de transar depois do almoço em posições leves que se emendem na conchinha de uma sesta digna. tomando o tinto só nos fins de semana pois não há ensejo em dias úteis. nem dinheiro há.

agora penso que não é o casamento que é difícil. mas sim o passar do tempo nele. a resistência insuficiente que oferecemos às opressões de nossa era. e pode ser que seja até muito mais duro aos seus sozinhos inclusive. pois disto eu já não sei.

casar afinal me trouxe todas as calcinhas suas. não são tão diversas quanto o mundo que conheci mas formam o bonito universo de alguém único. infinito em seus limites. num misto de comum e raridade que conforma-nos humanos. e finalmente eu também cheguei com todas as minhas cuecas de uma vez. sendo como sempre fui e agora vejo. muito especial e medíocre. como qualquer um.

muitas das suas calcinhas já se foram. outras que chegaram. e a intimidade só aumenta.

quando acreditava ser poeta eu dizia que só a intimidade poderia salvar o mundo humano. depois entendi que a nossa linguagem é maldita porque não alcança. nunca tange a intimidade. o tempo passa neste conto que por fim não é escrito por calvino senão aos nossos punhos próprios. e leva todas as vantagens. todos os motivos. fica só a vaia em nossas bocas.

é assim. nos vestimos de textos. têxteis. mesmo quando toda poesia impressa fora de um corpo poderia se afogar tranquilamente sem danos reais ao humano. mas nada é de se estranhar pois estamos indo para roma. não para o amor. não é à toa que para nos sentirmos frágeis num esforço inconsciente nós sonhamos que estamos só de calcinha ou cueca nas diversas situações. aliás. eu não sei se pensaria uma aliança melhor de compromisso para além do nosso corpo que essas nossas roupas íntimas.

há uma sina nisso que contudo sempre me acompanhou. a das calcinhas penduradas pelos boxes de banheiro. puxadores da janela. torneiras do chuveiro. desse hábito de lavá-las ali à mão e deixá-las por lá mesmo pra secarem.

eu já achei inútil. um comportamento padrão meio esquisito como as idas conjuntas ao toalete dos lugares. depois achei inteligente prático. reconheci que tantos homens deviam fazer piada disso mas tendo por trás uma mulher que lavava as suas próprias cuecas fedidas marcadas desde sempre. homens que jamais tinham lavado uma única cueca sua. daí dei-me conta que por anos tive as minhas lavadas por uma. e que ainda em outras vezes por outras mulheres em minha história isso também se repetia.

meu devir com as calcinhas assim fez-me ver e viver muitas coisas. transformar outras. aprendi. cheguei a lavar minhas cuecas nalguns banhos embora ainda prefira máquinas e tanques para elas. e quando nasceu nosso filho fiz questão que aquelas fraldas de pano de mijo e de merda fossem lavadas também pelo homem. pai do menino.

no fim eu achava muito lindo aquelas mulheres todas lavando suas calcinhas ao banho. tinha um quê de unidade nelas. um traço ancestral que deixava aquilo um tipo de reza ritual. meditação. vê-las de perto. de dentro. ou pelos vidros embaçados entre as gotículas e o vapor. era a pura poesia. uma beleza uma dignidade. que não caberiam nos homens.

mas nem tudo são flores e eu metódico com vênus marte em virgem sempre me irritei muito com o acúmulo delas nos banheiros em que convivia. não foram poucas as vezes que contei umas quatro cinco secas mais a última molhada formando quase um mostruário no cômodo miúdo. quase um trocador de loja em que a pessoa provou tudo não gostou de nada e foi embora. dava vontade de intervir escrevendo promoção num cartaz. pague três leve cinco. moça bonita não guarda. mas também não leva. a vontade nos apartamentos era jogar pela janela e nesse sentido foi bom estar casado numa casa depois de tudo. um impulso a menos.

é. o tempo passa. o futuro fica uma utopia cada vez mais distante como as viagens e venturas duma aposentadoria que muito provavelmente nunca virão. o passado transmutado nessa espécie de sentença. condenação. e o presente num impasse.

talvez nem calvino nos escreveria assim. século vinte e um. com tudo exagerando nesta pandemia. uma quarentena humana. com o mundo rodando o mesmo. mas distinto.

a correia não diminuiu em nada surpreendentemente ou não. e muitas coisas não mudaram mesmo. as calcinhas acumulando no banheiro por exemplo seguem firmes. mas seria absurdo pensar que tudo ficaria igual. de repente uma miudeza muda. de repente faça toda a diferença. ou então seja logo uma coisa imensa de uma vez. algo elementar a que nossos pais não tivessem conseguido reparar pelo tempo passando deles.

as flores floriram no norte. o ocaso encheu de mágica o sul. desocupamos as praias por decreto. nos empurramos mais às nossas profundezas de improviso. e as tartarugas marinhas voltaram pras beiras das águas antes tão cheias de nós à mesma medida em que opressões terrenas se afastaram um pouco dos nossos antigos vazios. vimos o imperador de cueca por acaso. a roupa nova do rei num desfile que talvez não estivesse programado. e ainda por cima. de vez em quando. há um silêncio.

o almoço foi um requentado de ontem mais uma salada rápida de acelgas. mesmo assim pôde haver dança. não sabemos o que vamos comer no mês que vem se tudo continuar assim mas os dias úteis finais de semana perderam sentido nessa distinção. e temos bebido o vinho de todos os dias. como quem vive. ou morre. feliz.

senti a renda de sua calcinha depois de comermos. e quando a desci era vermelha. nossas línguas físicas se abençoaram em nossos corpos. redimimos a raça humilhamos a língua portuguesa fizemos os anjos e o espírito santo orgulhosos de nós. transamos leves e gostoso pra depois nos juntarmos ao sono meigo do filho. uma sesta digna dos resistentes. na esperança.

já mais tarde. quando fui só tomar banho. topei com a calcinha vermelha ainda sem lavagem pendurada por dentro ao puxador do box. contida contudo das secreções viscosas translúcidas esbranquiçadas. dos corrimentos lubrificações de mulher. e minha porra.

nada me restava a fazer senão pegar um pouco daquele sabão cremoso.

e lavá-la.

Rafa Carvalho é um poeta brasileiro que carrega em seu corpo raízes do mundo inteiro e a poesia como raiz de todas as artes e gêneros literários, como da vida em si. Soma 16 anos de carreira, com trabalhos em arte e educação por mais de 20 países. Integrou o coletivo Poetas del 15 Mayo na Espanha em 2011, tendo parte em sua antologia homônima. É autor de auto-mar (poesia; Editora Patuá) lançado no Brasil e em Angola; e contas de mar (contos; Editora Pontes). Finalista do Prêmio Sesc de Literatura, tem forte atuação social em sua comunidade periférica de origem e por onde esteja. Curador do projeto “papos de versos”, idealizador do Sarau da Dalva, é um forte representante do fundamento antropofágico e cada vez mais considerado por sua capacidade de criar pontes, entre o aparente incompatível.

Brasil: (im)possíveis diálogos #9

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Primavera

Por Aciomar Fernandes de Oliveira

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Vitor Rocha

Ainda haverá uma primavera
Mesmo que por hora eu não possa ver as flores
Deixo florescer minhas sacadas
Com a poesia que há na vida

Ainda haverá uma primavera
Enquanto se achem corações atrevidos
Para sonhar alegrias por vir

Alegrias e sorrisos
Desses que desafiam a lógica da existência

Ainda haverá uma primavera
Se houver paixões a serem vividas
Dessas que inspiraram Tristão e Isolda
E tantos amantes
Cujas palavras jamais dão conta de narrar

Esses amores além da palavra
Que os poetas insistem em fingir e imitar
São também uma primavera

E que haja versos
Pulsando como estrelas
Cujo brilho perdura
Anos luz após o seu findar
Desafiando a lógica do tempo
Existindo
Quando humanamente não é possível

Que haja primavera
Onde o solo e a matéria dizem não
Nestes territórios improváveis do viver
Já que a vida
é a eterna e divina lembrança
de que a primavera sempre retorna

E a vida
Guerreira mítica
Impondo-se como revés d
as mais brilhantes teorias
Se refaz das cinzas
Essa é a sua natureza

Após o vento
A tempestade
O frio
E o calor
Ainda haverá uma primavera

Aciomar Fernandes de Oliveira é palestrante, escritor, professor do Departamento de Letras da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). Mestre em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (2010). Atua na equipe de pesquisa do Neia — Núcleo de estudos da Alteridade da UFMG. Coordena o NIEHLAFRO — Núcleo de estudos em diáspora. É auxiliar de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. Membro colaborador da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB MG. Atua na comissão editorial da Revista Bantu, da UEMG. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: Poesia Contemporânea, Literaturas de Diásporas, Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, Produção de textos. É professor da rede estadual de ensino fundamental e médio de MG.

Brasil: (im)possíveis diálogos #8

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

A vizinha

Por Rosângela Vieira Rocha

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Vitor Rocha

Marlene conhecia a menina desde pequena. Praticamente a viu nascer, quando morou naquele edifício pela primeira vez. Depois se mudou, alugou para outra pessoa, passou anos em outra cidade, mas acabou retornando.

Liliane já era adolescente e surpreendentemente mal-educada. Discutia alto com a mãe, xingando-a de vaca, além de arrastar móveis de madrugada, ouvir música até tarde, bater portas, andar de sapatos de saltos altos no piso de cerâmica antes das sete da manhã, correr pelo apartamento chorando, quando estava irritada. Como morava no andar de baixo e cuidando da própria mãe com Alzheimer, Marlene vivia cansada. Resolveu mandar fazer isolamento acústico em dois cômodos: no quarto de dormir e no que usava como escritório. A firma encarregada do serviço foi taxativa: o ruído diminuiria apenas uns 60%, pois esse tipo de providência deve ser tomado na construção do edifício ou feito no piso do apartamento de cima. No teto, o efeito é significativamente menor. O teto foi rebaixado e o espaço, preenchido com caixas de isopor, mantas de proteção e borrachas sintéticas. O apartamento teve de receber nova pintura e, no final, foi um rombo no seu orçamento.

Tanto a mãe quanto a filha não gostavam de Marlene, embora ela não soubesse o motivo. Era tratada com frieza e até mesmo desconfiança, quando se encontravam no elevador. Mesmo depois do isolamento acústico, ela teve de fazer reclamações, pedir a intervenção do síndico, mas tudo em vão. Não havia confrontos; tampouco soluções.

Além de cuidar da mãe — supervisionando o trabalho das cuidadoras, entre outras tarefas —, tinha horários rígidos no banco onde trabalhava e contava os dias para a aposentadoria, que ainda demoraria.

Certa manhã, quando foi abrir a porta do carro, ao pegar na maçaneta, sujou as mãos com um líquido vermelho e levou susto, achando que era sangue. Voltou ao apartamento para lavá-las e então percebeu que se tratava de ketchup. Pegou um pano, limpou cuidadosamente o local e foi para o trabalho, atrasada quinze minutos. O chefe lhe lançou um olhar gelado, quando a viu, como se dissesse atrasada de novo, dona Marlene?

Intuía que só podia ser obra das vizinhas, talvez da jovem, mas não havia provas. Como o prédio não tinha garagem, passou a procurar vagas cada vez mais longe, até em edifícios próximos, fugindo da estranha sanha.

Meses depois, certa noite, só conseguiu estacionar exatamente embaixo do apartamento. Quase vomitou quando viu o ovo recém-quebrado no capô do automóvel, com a gema escorrendo sobre o para-brisa, na hora exata de levar a mãe ao médico. O porteiro se prontificou a limpar rapidamente a sujeira e as duas conseguiram chegar a tempo.

Daquela vez, não se conteve e procurou o síndico. Tudo indicava que o ovo teria sido jogado da área de serviço do apartamento 801, disse. Ninguém viu, mas o síndico, zeloso, bateu de porta em porta, pedindo mais educação aos moradores. O responsável não apareceu, como era de se esperar.

Todos naquela entrada conheciam o capricho de Marlene. Apaixonada por decoração, possuía móveis bonitos, miniaturas de cristal, pratinhos de porcelana, tapetes orientais — embora os tivesse guardado depois da doença da mãe, com medo de que tropeçasse. As janelas eram limpas todas as semanas pela diarista e reluziam.

Numa tarde, voltando do trabalho, sua ajudante avisou-a de que havia um tipo de sujeira diferente nas janelas, que não saía de modo algum, por mais que se esforçasse. As duas examinaram detidamente os vidros e concluíram que se tratava de uma mistura de cinza de cigarro com algum tipo de cola. Como as janelas abriam para a frente — não eram de correr — os vidros eram alvos perfeitos para receber a sujeira jogada de cima. Esses episódios se repetiram por anos. Paciente, a diarista chegou a usar inclusive água rás, mas as janelas nunca mais voltaram a ser limpíssimas como antes. Sempre havia um restinho, um respingo, uma gota a empanar o senso estético e o gosto de Marlene pela limpeza.

Quando sua mãe faleceu, ela anunciou a venda do carro, pois pretendia fazer uma longa viagem. Queria visitar primas que moravam no litoral, tomar banhos de mar, distrair-se um pouco, aproveitando a licença a que tinha direito e um período de férias. A vizinha lhe pediu prioridade e lhe ofereceu um valor justo pelo veículo. Fecharam a venda; tudo parecia correr bem.

Durante alguns anos, mãe e filha a trataram de maneira civilizada, quase cordial. Cautelosa, Marlene não se aproximou muito, mas acreditou que o fato de utilizarem o carro que havia lhe pertencido representava um acordo de paz, uma espécie de bandeira branca. Foi um alívio, pois tudo que queria era viver em paz e não arrumar arengas com a vizinhança.

Depois veio o ano dos panelaços contra Dilma e ela nunca viu nenhuma manifestação das vizinhas, enquanto outros moradores quase lhe furaram os tímpanos, com a barulhada. Marlene votou na ex-presidente, sempre achou que houve golpe, mas se manteve quieta durante as manifestações.

Às vezes perguntava a si mesma o motivo da rejeição de mãe e filha. Nunca lhes fizera nada de mal e por isso não conseguia entender. Mas, pensando no passado, lembrou-se da existência de episódios do mesmo tipo, inclusive do bullying de que foi vítima na escola fundamental, por causa de suas notas altas. Coisas da vida, pensava. No mundo, há casos incompreensíveis, tudo pode ocorrer.

Eleito o novo presidente, de quem Marlene nunca gostou, chegou o dia do início dos panelaços contra ele. Indignada com a vergonhosa gestão, Marlene não suportava a figura e resolveu, pela primeira vez na vida, pegar sua panela. Munida de colher de pau, foi para a janela da sala. O barulho, bem mais discreto que o do passado, quase foi abafado pelo vizinho do lado, que tocou o hino nacional na clarineta. Irritada, ousou até gritar: Lula, Lula, viva o Lula!

Quando voltou ao quarto usado como escritório, onde passava a maior parte das horas quando estava em casa, reparou que nas janelas havia respingos de cinza misturados com cola, aquela mesma gosma nojenta que tanto a incomodou em outros tempos. Agora seria pior, pois dispensou temporariamente a diarista, embora continue a depositar o valor dos serviços. Teve de aderir à quarentena imposta para evitar a transmissão da Covid-19, uma doença transmitida por um vírus que está matando milhares de pessoas no mundo inteiro. Então, entendeu: era o preço pago por bater panelas contra o presidente. As vizinhas deviam ser suas fãs incondicionais. O frágil equilíbrio pelo qual tanto lutara, tentando se conter e suportando as ofensas calada, sempre visando a harmonia e a paz, se rompera.

Indignada, Marlene pensou em reclamar, mas foi tomada pela mesma impotência de antes. Iriam negar, é claro. E talvez acrescentar que ela via coisas inexistentes, que ficou muito solitária depois da morte da mãe, esses argumentos pseudopsicológicos que as pessoas miúdas, inseguras e mesquinhas usam para projetar o seu lado sombrio e malévolo sobre as outras, feitas de bodes expiatórios. Gentinha — termo muito antigo, usado por sua avó, um tanto preconceituoso, mas aplicável ao caso — nunca assume nada. Distorce a realidade, age às escuras, fazendo caras e bocas e passando por santinha. Do pau oco, óbvio. Recusa-se a ver sua própria imagem no espelho. A covardia é a sua principal característica.

Nas crises, tanto políticas quanto sanitárias, demônios internos de toda ordem parecem vir à tona. Tanto o ódio disseminado por políticos irresponsáveis quanto as desigualdades — sociais, econômicas, educacionais e culturais — são terrenos férteis para a prática das grandes e pequenas maldades.

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem treze obras publicadas, seis para adultos (cinco romances e um livro de contos) e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Publicou o romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017) e Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019). Participou de diversas coletâneas de contos. É Mestre em Comunicação, escritora, advogada, jornalista e professora aposentada da FAC/UnB. Colunista da revista digital literária Germina, já participou de várias comissões julgadoras de concursos literários.