Brasil: (im)possíveis diálogos #10

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

ph neutro

Por Rafa Carvalho

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Vitor Rocha

se eu soubesse antes. de onde estaria hoje. talvez tivesse andado diferente.

será que a gente mudaria mesmo o presente se soubesse o futuro. será que cheguei àquela idade de que meus pais e os demais falavam e parecia ser um tempo que jamais chegaria a mim. e o passado se mudasse. mudaria consigo este instante.

talvez. talvez não desse pra chegar aqui por outra via e mudar a via fosse o mesmo que mudar todo o destino. ou vai ver que todos os caminhos levem mesmo pra roma. o problema neste caso é que toda língua tem sua maldição. à minha física corpórea por exemplo a maldição é a ausência do silêncio tantas vezes. e a ausência do beijo. da lambida na pele alheia orelha cangote axila costelas. cristas ilíacas. glandes e clítoris. e cus. foram essas as minhas maldições de língua até aqui. essas e queimá-la todo santo domingo de pressa à lasanha da nonna. quando ainda menino.

mas a maldição da língua portuguesa ou pelo menos uma delas é ser o amor roma ao contrário. assim todos os caminhos de repente nos levassem ao avesso do amor. o seu completo oposto. por isto camões afundou dinamene. é uma língua que desvia. converte as apostas dos poetas.

de fato para amar em roma precisei sair um pouquinho. era uma pasquetta e fomos a um lago. bem nas beiras à cidade. senti a textura da calcinha de benedetta. era como a de muriel muitos anos antes. e não vi a cor mas imaginei madrepérola. enquanto a de muriel num relance das luzes do poste em recorte e viés pelos vidros do carro eram de um laranja meio róseo. um salmão forte exagerando o tom de alguns mamilos e pequenos lábios. algumas pessoas veriam ali qualquer coisa um pouco mais branda de iansã.

rosana tinha uma calcinha verde-limão com uma careta engraçada na bunda. foi tirando essa que tivemos nossa primeira vez. depois as calcinhas na dinamarca se puseram tão diferentes. e a joana me ensinou em lisboa que eram na verdade cuecas.

eu fiz um fado com isso.

e pensando melhor hoje. tive mesmo um fado com calcinhas. sempre desconfiei que fossem mais confortáveis. minhas amigas adolescentes fãs de spice girls diziam que o beckham usava. e me incentivavam a fazer o mesmo claro. o estranho é que tinha já provado os sutiãs e saltos altos de minha mãe. batom. mas uma calcinha nunca.

sempre amei as rendas. sempre amei as cores. as verde-limão inclusive. amava também as lúdicas com caretas e outras gracinhas. a calcinha comestível sabor abacaxi que um amigo trouxe a meu pai do paraguai. lembro que a comemos em família e era como uma sacola de mercado derretendo pela boca. as calcinhas da hello kitty de mimiko. as samba-canções. aquelas que lembravam boxers ou shortinhos muito curtos. seus diferentes tecidos cortes texturas. amei as que existiam para seduzir. e as que seduziam por existir tão confortável corriqueira e não pretensiosamente. as esgarçadas e bege. as de domingo e das férias. a sem costura de sara. a inexistente em aline. aquela da gisela sempre pronta. com zíper.

mais ou menos práticas. algumas caríssimas. e as que vinham das baciadas lá do brás. aliás. lembro que do apartamento por são paulo eu mirava as janelas das áreas de serviço. pequenas lavanderias basculantes de banheiro. observava as roupas dos varais de suas donas. masculinas femininas não importava. imaginando suas personalidades como fossem astros as calcinhas e outras peças marcando mapas no céu arranhado da urbes.

e cheirava as de minhas casas usadas de saudade. e brincava com as esquecidas por ou sem querer nos meus encontros.

mas aí a vida passa. e súbito é ela que vai se esgarçando. perdem-se as cores as formas. texturas. algumas memórias começam por se apagar e já não há mais tempo presente para o memorável. parece um piscar de olhos e estamos já num conto do calvino. onde o mundo do trabalho ou da sobrevivência humana. o mundo exploratório dos mais ricos sempre criminosos molda nossos rostos com as caras mais xoxas dos últimos séculos. roubando-nos todas as piadas e coragens. logo estamos ali. almoçando com pressa. esquecendo que a dança é um ingrediente imprescindível do preparo. comprando comida pronta. deixando de transar depois do almoço em posições leves que se emendem na conchinha de uma sesta digna. tomando o tinto só nos fins de semana pois não há ensejo em dias úteis. nem dinheiro há.

agora penso que não é o casamento que é difícil. mas sim o passar do tempo nele. a resistência insuficiente que oferecemos às opressões de nossa era. e pode ser que seja até muito mais duro aos seus sozinhos inclusive. pois disto eu já não sei.

casar afinal me trouxe todas as calcinhas suas. não são tão diversas quanto o mundo que conheci mas formam o bonito universo de alguém único. infinito em seus limites. num misto de comum e raridade que conforma-nos humanos. e finalmente eu também cheguei com todas as minhas cuecas de uma vez. sendo como sempre fui e agora vejo. muito especial e medíocre. como qualquer um.

muitas das suas calcinhas já se foram. outras que chegaram. e a intimidade só aumenta.

quando acreditava ser poeta eu dizia que só a intimidade poderia salvar o mundo humano. depois entendi que a nossa linguagem é maldita porque não alcança. nunca tange a intimidade. o tempo passa neste conto que por fim não é escrito por calvino senão aos nossos punhos próprios. e leva todas as vantagens. todos os motivos. fica só a vaia em nossas bocas.

é assim. nos vestimos de textos. têxteis. mesmo quando toda poesia impressa fora de um corpo poderia se afogar tranquilamente sem danos reais ao humano. mas nada é de se estranhar pois estamos indo para roma. não para o amor. não é à toa que para nos sentirmos frágeis num esforço inconsciente nós sonhamos que estamos só de calcinha ou cueca nas diversas situações. aliás. eu não sei se pensaria uma aliança melhor de compromisso para além do nosso corpo que essas nossas roupas íntimas.

há uma sina nisso que contudo sempre me acompanhou. a das calcinhas penduradas pelos boxes de banheiro. puxadores da janela. torneiras do chuveiro. desse hábito de lavá-las ali à mão e deixá-las por lá mesmo pra secarem.

eu já achei inútil. um comportamento padrão meio esquisito como as idas conjuntas ao toalete dos lugares. depois achei inteligente prático. reconheci que tantos homens deviam fazer piada disso mas tendo por trás uma mulher que lavava as suas próprias cuecas fedidas marcadas desde sempre. homens que jamais tinham lavado uma única cueca sua. daí dei-me conta que por anos tive as minhas lavadas por uma. e que ainda em outras vezes por outras mulheres em minha história isso também se repetia.

meu devir com as calcinhas assim fez-me ver e viver muitas coisas. transformar outras. aprendi. cheguei a lavar minhas cuecas nalguns banhos embora ainda prefira máquinas e tanques para elas. e quando nasceu nosso filho fiz questão que aquelas fraldas de pano de mijo e de merda fossem lavadas também pelo homem. pai do menino.

no fim eu achava muito lindo aquelas mulheres todas lavando suas calcinhas ao banho. tinha um quê de unidade nelas. um traço ancestral que deixava aquilo um tipo de reza ritual. meditação. vê-las de perto. de dentro. ou pelos vidros embaçados entre as gotículas e o vapor. era a pura poesia. uma beleza uma dignidade. que não caberiam nos homens.

mas nem tudo são flores e eu metódico com vênus marte em virgem sempre me irritei muito com o acúmulo delas nos banheiros em que convivia. não foram poucas as vezes que contei umas quatro cinco secas mais a última molhada formando quase um mostruário no cômodo miúdo. quase um trocador de loja em que a pessoa provou tudo não gostou de nada e foi embora. dava vontade de intervir escrevendo promoção num cartaz. pague três leve cinco. moça bonita não guarda. mas também não leva. a vontade nos apartamentos era jogar pela janela e nesse sentido foi bom estar casado numa casa depois de tudo. um impulso a menos.

é. o tempo passa. o futuro fica uma utopia cada vez mais distante como as viagens e venturas duma aposentadoria que muito provavelmente nunca virão. o passado transmutado nessa espécie de sentença. condenação. e o presente num impasse.

talvez nem calvino nos escreveria assim. século vinte e um. com tudo exagerando nesta pandemia. uma quarentena humana. com o mundo rodando o mesmo. mas distinto.

a correia não diminuiu em nada surpreendentemente ou não. e muitas coisas não mudaram mesmo. as calcinhas acumulando no banheiro por exemplo seguem firmes. mas seria absurdo pensar que tudo ficaria igual. de repente uma miudeza muda. de repente faça toda a diferença. ou então seja logo uma coisa imensa de uma vez. algo elementar a que nossos pais não tivessem conseguido reparar pelo tempo passando deles.

as flores floriram no norte. o ocaso encheu de mágica o sul. desocupamos as praias por decreto. nos empurramos mais às nossas profundezas de improviso. e as tartarugas marinhas voltaram pras beiras das águas antes tão cheias de nós à mesma medida em que opressões terrenas se afastaram um pouco dos nossos antigos vazios. vimos o imperador de cueca por acaso. a roupa nova do rei num desfile que talvez não estivesse programado. e ainda por cima. de vez em quando. há um silêncio.

o almoço foi um requentado de ontem mais uma salada rápida de acelgas. mesmo assim pôde haver dança. não sabemos o que vamos comer no mês que vem se tudo continuar assim mas os dias úteis finais de semana perderam sentido nessa distinção. e temos bebido o vinho de todos os dias. como quem vive. ou morre. feliz.

senti a renda de sua calcinha depois de comermos. e quando a desci era vermelha. nossas línguas físicas se abençoaram em nossos corpos. redimimos a raça humilhamos a língua portuguesa fizemos os anjos e o espírito santo orgulhosos de nós. transamos leves e gostoso pra depois nos juntarmos ao sono meigo do filho. uma sesta digna dos resistentes. na esperança.

já mais tarde. quando fui só tomar banho. topei com a calcinha vermelha ainda sem lavagem pendurada por dentro ao puxador do box. contida contudo das secreções viscosas translúcidas esbranquiçadas. dos corrimentos lubrificações de mulher. e minha porra.

nada me restava a fazer senão pegar um pouco daquele sabão cremoso.

e lavá-la.

Rafa Carvalho é um poeta brasileiro que carrega em seu corpo raízes do mundo inteiro e a poesia como raiz de todas as artes e gêneros literários, como da vida em si. Soma 16 anos de carreira, com trabalhos em arte e educação por mais de 20 países. Integrou o coletivo Poetas del 15 Mayo na Espanha em 2011, tendo parte em sua antologia homônima. É autor de auto-mar (poesia; Editora Patuá) lançado no Brasil e em Angola; e contas de mar (contos; Editora Pontes). Finalista do Prêmio Sesc de Literatura, tem forte atuação social em sua comunidade periférica de origem e por onde esteja. Curador do projeto “papos de versos”, idealizador do Sarau da Dalva, é um forte representante do fundamento antropofágico e cada vez mais considerado por sua capacidade de criar pontes, entre o aparente incompatível.

Brasil: (im)possíveis diálogos #9

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Primavera

Por Aciomar Fernandes de Oliveira

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Vitor Rocha

Ainda haverá uma primavera
Mesmo que por hora eu não possa ver as flores
Deixo florescer minhas sacadas
Com a poesia que há na vida

Ainda haverá uma primavera
Enquanto se achem corações atrevidos
Para sonhar alegrias por vir

Alegrias e sorrisos
Desses que desafiam a lógica da existência

Ainda haverá uma primavera
Se houver paixões a serem vividas
Dessas que inspiraram Tristão e Isolda
E tantos amantes
Cujas palavras jamais dão conta de narrar

Esses amores além da palavra
Que os poetas insistem em fingir e imitar
São também uma primavera

E que haja versos
Pulsando como estrelas
Cujo brilho perdura
Anos luz após o seu findar
Desafiando a lógica do tempo
Existindo
Quando humanamente não é possível

Que haja primavera
Onde o solo e a matéria dizem não
Nestes territórios improváveis do viver
Já que a vida
é a eterna e divina lembrança
de que a primavera sempre retorna

E a vida
Guerreira mítica
Impondo-se como revés d
as mais brilhantes teorias
Se refaz das cinzas
Essa é a sua natureza

Após o vento
A tempestade
O frio
E o calor
Ainda haverá uma primavera

Aciomar Fernandes de Oliveira é palestrante, escritor, professor do Departamento de Letras da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). Mestre em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (2010). Atua na equipe de pesquisa do Neia — Núcleo de estudos da Alteridade da UFMG. Coordena o NIEHLAFRO — Núcleo de estudos em diáspora. É auxiliar de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. Membro colaborador da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB MG. Atua na comissão editorial da Revista Bantu, da UEMG. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: Poesia Contemporânea, Literaturas de Diásporas, Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, Produção de textos. É professor da rede estadual de ensino fundamental e médio de MG.

Brasil: (im)possíveis diálogos #8

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A vizinha

Por Rosângela Vieira Rocha

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Vitor Rocha

Marlene conhecia a menina desde pequena. Praticamente a viu nascer, quando morou naquele edifício pela primeira vez. Depois se mudou, alugou para outra pessoa, passou anos em outra cidade, mas acabou retornando.

Liliane já era adolescente e surpreendentemente mal-educada. Discutia alto com a mãe, xingando-a de vaca, além de arrastar móveis de madrugada, ouvir música até tarde, bater portas, andar de sapatos de saltos altos no piso de cerâmica antes das sete da manhã, correr pelo apartamento chorando, quando estava irritada. Como morava no andar de baixo e cuidando da própria mãe com Alzheimer, Marlene vivia cansada. Resolveu mandar fazer isolamento acústico em dois cômodos: no quarto de dormir e no que usava como escritório. A firma encarregada do serviço foi taxativa: o ruído diminuiria apenas uns 60%, pois esse tipo de providência deve ser tomado na construção do edifício ou feito no piso do apartamento de cima. No teto, o efeito é significativamente menor. O teto foi rebaixado e o espaço, preenchido com caixas de isopor, mantas de proteção e borrachas sintéticas. O apartamento teve de receber nova pintura e, no final, foi um rombo no seu orçamento.

Tanto a mãe quanto a filha não gostavam de Marlene, embora ela não soubesse o motivo. Era tratada com frieza e até mesmo desconfiança, quando se encontravam no elevador. Mesmo depois do isolamento acústico, ela teve de fazer reclamações, pedir a intervenção do síndico, mas tudo em vão. Não havia confrontos; tampouco soluções.

Além de cuidar da mãe — supervisionando o trabalho das cuidadoras, entre outras tarefas —, tinha horários rígidos no banco onde trabalhava e contava os dias para a aposentadoria, que ainda demoraria.

Certa manhã, quando foi abrir a porta do carro, ao pegar na maçaneta, sujou as mãos com um líquido vermelho e levou susto, achando que era sangue. Voltou ao apartamento para lavá-las e então percebeu que se tratava de ketchup. Pegou um pano, limpou cuidadosamente o local e foi para o trabalho, atrasada quinze minutos. O chefe lhe lançou um olhar gelado, quando a viu, como se dissesse atrasada de novo, dona Marlene?

Intuía que só podia ser obra das vizinhas, talvez da jovem, mas não havia provas. Como o prédio não tinha garagem, passou a procurar vagas cada vez mais longe, até em edifícios próximos, fugindo da estranha sanha.

Meses depois, certa noite, só conseguiu estacionar exatamente embaixo do apartamento. Quase vomitou quando viu o ovo recém-quebrado no capô do automóvel, com a gema escorrendo sobre o para-brisa, na hora exata de levar a mãe ao médico. O porteiro se prontificou a limpar rapidamente a sujeira e as duas conseguiram chegar a tempo.

Daquela vez, não se conteve e procurou o síndico. Tudo indicava que o ovo teria sido jogado da área de serviço do apartamento 801, disse. Ninguém viu, mas o síndico, zeloso, bateu de porta em porta, pedindo mais educação aos moradores. O responsável não apareceu, como era de se esperar.

Todos naquela entrada conheciam o capricho de Marlene. Apaixonada por decoração, possuía móveis bonitos, miniaturas de cristal, pratinhos de porcelana, tapetes orientais — embora os tivesse guardado depois da doença da mãe, com medo de que tropeçasse. As janelas eram limpas todas as semanas pela diarista e reluziam.

Numa tarde, voltando do trabalho, sua ajudante avisou-a de que havia um tipo de sujeira diferente nas janelas, que não saía de modo algum, por mais que se esforçasse. As duas examinaram detidamente os vidros e concluíram que se tratava de uma mistura de cinza de cigarro com algum tipo de cola. Como as janelas abriam para a frente — não eram de correr — os vidros eram alvos perfeitos para receber a sujeira jogada de cima. Esses episódios se repetiram por anos. Paciente, a diarista chegou a usar inclusive água rás, mas as janelas nunca mais voltaram a ser limpíssimas como antes. Sempre havia um restinho, um respingo, uma gota a empanar o senso estético e o gosto de Marlene pela limpeza.

Quando sua mãe faleceu, ela anunciou a venda do carro, pois pretendia fazer uma longa viagem. Queria visitar primas que moravam no litoral, tomar banhos de mar, distrair-se um pouco, aproveitando a licença a que tinha direito e um período de férias. A vizinha lhe pediu prioridade e lhe ofereceu um valor justo pelo veículo. Fecharam a venda; tudo parecia correr bem.

Durante alguns anos, mãe e filha a trataram de maneira civilizada, quase cordial. Cautelosa, Marlene não se aproximou muito, mas acreditou que o fato de utilizarem o carro que havia lhe pertencido representava um acordo de paz, uma espécie de bandeira branca. Foi um alívio, pois tudo que queria era viver em paz e não arrumar arengas com a vizinhança.

Depois veio o ano dos panelaços contra Dilma e ela nunca viu nenhuma manifestação das vizinhas, enquanto outros moradores quase lhe furaram os tímpanos, com a barulhada. Marlene votou na ex-presidente, sempre achou que houve golpe, mas se manteve quieta durante as manifestações.

Às vezes perguntava a si mesma o motivo da rejeição de mãe e filha. Nunca lhes fizera nada de mal e por isso não conseguia entender. Mas, pensando no passado, lembrou-se da existência de episódios do mesmo tipo, inclusive do bullying de que foi vítima na escola fundamental, por causa de suas notas altas. Coisas da vida, pensava. No mundo, há casos incompreensíveis, tudo pode ocorrer.

Eleito o novo presidente, de quem Marlene nunca gostou, chegou o dia do início dos panelaços contra ele. Indignada com a vergonhosa gestão, Marlene não suportava a figura e resolveu, pela primeira vez na vida, pegar sua panela. Munida de colher de pau, foi para a janela da sala. O barulho, bem mais discreto que o do passado, quase foi abafado pelo vizinho do lado, que tocou o hino nacional na clarineta. Irritada, ousou até gritar: Lula, Lula, viva o Lula!

Quando voltou ao quarto usado como escritório, onde passava a maior parte das horas quando estava em casa, reparou que nas janelas havia respingos de cinza misturados com cola, aquela mesma gosma nojenta que tanto a incomodou em outros tempos. Agora seria pior, pois dispensou temporariamente a diarista, embora continue a depositar o valor dos serviços. Teve de aderir à quarentena imposta para evitar a transmissão da Covid-19, uma doença transmitida por um vírus que está matando milhares de pessoas no mundo inteiro. Então, entendeu: era o preço pago por bater panelas contra o presidente. As vizinhas deviam ser suas fãs incondicionais. O frágil equilíbrio pelo qual tanto lutara, tentando se conter e suportando as ofensas calada, sempre visando a harmonia e a paz, se rompera.

Indignada, Marlene pensou em reclamar, mas foi tomada pela mesma impotência de antes. Iriam negar, é claro. E talvez acrescentar que ela via coisas inexistentes, que ficou muito solitária depois da morte da mãe, esses argumentos pseudopsicológicos que as pessoas miúdas, inseguras e mesquinhas usam para projetar o seu lado sombrio e malévolo sobre as outras, feitas de bodes expiatórios. Gentinha — termo muito antigo, usado por sua avó, um tanto preconceituoso, mas aplicável ao caso — nunca assume nada. Distorce a realidade, age às escuras, fazendo caras e bocas e passando por santinha. Do pau oco, óbvio. Recusa-se a ver sua própria imagem no espelho. A covardia é a sua principal característica.

Nas crises, tanto políticas quanto sanitárias, demônios internos de toda ordem parecem vir à tona. Tanto o ódio disseminado por políticos irresponsáveis quanto as desigualdades — sociais, econômicas, educacionais e culturais — são terrenos férteis para a prática das grandes e pequenas maldades.

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem treze obras publicadas, seis para adultos (cinco romances e um livro de contos) e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Publicou o romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017) e Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019). Participou de diversas coletâneas de contos. É Mestre em Comunicação, escritora, advogada, jornalista e professora aposentada da FAC/UnB. Colunista da revista digital literária Germina, já participou de várias comissões julgadoras de concursos literários.

Brasil: (im)possíveis diálogos #7

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Janaína

Por Flávia Rocha

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Vitor Rocha

Janaína talvez perca
a guarda dos filhos. Distraiu-se
e o bebê se queimou
na prancha de alisar o cabelo.
Dali foi um pulo. Nunca
terminou de encher a banheira
para lavar as crianças.
O medo do leva
não leva ao médico
escreve negligência
num formulário, interpreta
como estatística o que se sabe
de uma mãe: negra
solteira, pobre. Que ela ame
os filhos é circunstancial
que os filhos a amem
é alguma esperança.

Neblina de fumo

Por Flávia Rocha

Tambores despertam santos
na neblina de fumo.

Entramos —

galhos cruzados fechando as estrelas.

Minhas mãos sobre os seus ombros
no túnel da infância.

Tambor pausa.
A entidade se aproxima.

Na voz escura
a entidade se acriança

solta os fios dos cabelos
com seus dedos invisíveis

acha graça de estarmos ali.

A mãe diz espera

Velas tremulam no escuro,
abrem os olhos dos santos.

Tumulto no altar de perfumes.

Tambor pausa —

Que coisa linda. Que coisa linda.

O pêndulo de mistério rosna e brada.
A mãe chama os santos em torno.

Poesia — Poesia —

Flávia Rocha é autora de três livros de poemas: A Casa Azul ao Meio-Dia (Travessa dos Editores, 2009), Quartos Habitáveis (Confraria do Vento, 2011) e Um País (Confraria do Vento, 2005). Seus poemas, traduções e ensaios foram publicados em diversas revistas brasileiras e internacionais. Tem mestrado em Escrita Criativa pela Columbia University, e por 13 anos foi editora da revista literária americana Rattapallax. É também jornalista e roteirista. Atualmente vive em Portland, Oregon, Estados Unidos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #6

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Bem-aventurados os que choram II

Por Paulo Dutra

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Vitor Rocha

Bem-aventurados os que choram. Deus, em sua infinita sabedoria, deixou, por meio dos evangelistas que discorreram sobre o assunto, no famoso sermão da montanha, sentença de suma importância. Tudo isso pensava diariamente Didico, no trajeto Caxias-Fundão, já se vão uns dez ou vinte anos. Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados nunca chegou a ser a bem-aventurança favorita na época da escola bíblica; sempre gostou mais do bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus, sem saber ao certo o porquê. Primeiro foram os textos sagrados, depois os seculares, mas sempre nos textos buscou respostas para os questionamentos que “Chico o herói” preferia não perquirir. Do Gênesis ao Apocalipse. Das bulas papais aos tratados de São Tomás de Aquino. De Ellen G. White ao Livro de Mórmon. Do Conde Lucanor à Conceição Evaristo. Do Facundo a Boquitas Pintadas. Filosofia que não fosse antiga e grega só por intermédio e filtro cultural de cor local de Machado de Assis, Kafka, Rosario Castellanos, Cervantes, pra não perder tempo valioso com bobagens de puxa-sacos. Ainda assim, nada, inútil a filosofia pseudo-universal branca e grega. Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados. Didico pensava. O maior mistério de todos. Há quem diga que o maior mistério é como diabos Noé aguentou tanto bicho dentro da arca, porque o porquê de eles não terem devorado uns aos outros o padre Antônio Vieira já explicou. Há os que dizem que o maior mistério é de onde saíram as mulheres de Caim e Abel. Para outros o maior de todos os mistérios é como um camelo passa por uma agulha (e há ainda os que acreditam que o maior mistério é quem matou a praga da Odete Roitman). E, aqui, soma-se o mistério contemporâneo de onde está um fulano que rima com nós, “mais não é nois, táligado?”. Todos mistérios para os quais há respostas fáceis, e elaboradas também. Basta ir na casa desse povo que tem 20 gatos dentro de casa por exemplo ou na casa de um fumante para descobrir que há explicações científicas para o mistério de Noé; e porque quase ninguém quis entrar na Arca. Concluía Didico. Isso pra não falar dos milagres porque já estaríamos entrando em outro problema. Afinal de contas, quando descobriu que Machado não era branco, Harold Bloom disse que ele era um milagre. Carlos Fuentes também disse isso, mas não sei se sabia ou não que Machado não era branco. Milagre? Tá certo, tá certo, tá certo. Branco escritor é obra da natureza, preto escritor é milagre. De chorar. Didico divagava. Cada um desses mistérios já tinha sido mistério e deixado de ser alguma vez na cabeça de Didico. Assim como a dúvida se Vida Boheme voltou em casa ou não afinal. “Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados”, porém era mistério indecifrável. E não é porque há causa e efeito na sentença, mas sim pelo simples fato de que, ora bolas, se choram é para serem consolados e se serão consolados é porque choram. Didico não chorava. Não é que não tivesse chorado nunca, mas fazia já uns 10 ou 20 anos que não chorava. Devia ter chorado quando nasceu já que é o que todo mundo diz. Pra mamar não deve ter chorado porque a mãe dizia que nunca gostou de leite. Como nada disso adiantava, dedicou-se então a lembrar das vezes que chorou. Do físico ao emocional. Da causa negativa à causa positiva. Esforçou-se para lembrar. Um corte no pé, um soco no olho, um soco na boca do estômago, um arranhão no joelho, um chute no saco de vez em quando, uma pirraça aqui, uma chinelada ali, uma mordida de cachorro, uma bola de couro de presente, um Atari, uma piada bem contada, uma “bezetacil”, a primeira dura da PM, a última dura da Civil. Chegou à conclusão de que chorou muito na vida. De dor, de raiva, de tristeza, de alegria, de tanto rir, de fome, de gulodice, de remorso, de compaixão, de mentirinha, de solidão, de vergonha (naquela vez que não quis comer no prato de lata de goiabada), de acanhamento (daquela vez que comeu no prato de lata de goiabada), de medo, de saudade, de se mijar todo, de desespero, de dor de cotovelo, de soluçar, de molhar as páginas do conto que reescrevia. Finda a tarefa de lembrar não somente as vezes que tinha chorado como também as forças motrizes por trás de cada uma delas, restava apenas repetir uma por uma cada situação. Método científico, aceito pela comunidade internacional (ou seja: o que a empreitada colonial estabeleceu), mais óbvio para chegar a uma conclusão. Começou pela física. Infligiu-se um corte no pé encima da cicatriz original. Um corte que não havia doído e por isso quando apercebeu-se da quantidade de sangue desabou em choro convulsivo. Com o caco de vidro ainda fincado no pé viu o rio de sangue aumentar a poça ao redor do pé. Nada. Nem uma lágrima sequer. Nem na hora da anestesia para a sutura necessária. Curado o ferimento, continuou científica e sistematicamente esgotando a lista. Numa briga de trânsito, provocada, obviamente, eliminou da lista o soco no olho, o soco no estômago e o chute no saco de uma só vez, além de uma costela quebrada que veio de brinde. Nada. Nem uma lágrima sequer. Eliminadas as causas físicas passou às emocionais. Entre as coisas que já tinham provocado o choro proveniente de sentimento de raiva, cogitou uma final de campeonato em que o Flamengo perdesse por burrice do treinador mas isso implicaria esperar por um evento sobre o qual não teria nenhum controle e que, além do mais, já tinha testado mesmo que involuntariamente, portanto descartou a ideia. Como uzHômi hoje em dia anda de fuzil e circula “na rua com uma descrição que é parecida com a sua cabelo cor ou feição” (e idade, interseccionalidade! vejam só!), pulou essa parte e resolveu então praticar a subida de elevador na zona sul do Rio de Janeiro, não sem antes reler o “Fala, Fera”. Por uma semana, três vezes ao dia, tentava subir nos elevadores sociais de Copacabana e o resultado sempre era a insistência do porteiro em que usasse o elevador de serviço e raiva profunda que dele se apossava. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Lembrou do personagem do Rubem Fonseca que via televisão para aumentar a raiva (ou era o ódio?), mas preferia desistir da empreitada a submeter-se à tamanha tortura; fazia já uns 5 ou 10 anos que tinha se livrado do vicio da televisão. Como solução, passou então a ler crítica literária para aumentar a raiva. Leu e leu o máximo que pôde as bajulações hiperbatônicas de praxe aos textos ficcionais, escritas por homens brancos na faixa etária de 30 a 55 anos, e publicadas no eixo Rio-São Paulo, que formam o grosso da tão nobre disciplina. Náusea imensa, mas nenhuma lágrima sequer. Matou uma cambaxirra com uma pedrada certeira, matou outra com requintes de crueldade, e, para quem já fazia uns 10 ou 15 anos que literalmente não matava nem insetos (pegava com uma folhinha de papel e colocava pra fora do recinto) o remorso foi colossal. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Isolou-se de tudo e de todos e a saudade doeu, virou desespero. Fez greve de fome. Comeu arroz com feijão e usou lata de goiabada como prato na calçada do copo-sujo na central do Brasil. Ganhou um concurso de quem comia mais cachorro quente depois de reler O Rapto do Menino Dourado, a indigestão foi quase fatal. Nada. Nenhuma lágrima. Viu e reviu os shows do Richard Pryor riu e rerriu e gargalhou. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Terminadas todas as possibilidades da lista voltou aos textos, não sem antes reescrever aquele conto mais uma vez. Nada. Revistou textos antigos e contemporâneos. Releu o Dom Quixote e a frustração de que até Amadis de Gaula tinha fama de chorão criou uma sensação inexplicável. Releu Insubmissas Lágrimas de Mulheres. Leu pela primeira vez uma tradução de “Boquinha” que encontrou por acaso (será que ele chorou depois da coça que levou da coroa?). Releu “Diante da lei” e depois O processo todo de novo e depois María, com toda aquela agonia que se sente. Releu as últimas páginas de enquanto os dentes. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Releu o capítulo “Das negativas” e lembrou que também não alcançou celebridade com aquele conto, não foi ministro, nem califa. Nessa busca textual por uma resposta ao grande mistério foi que, nos vais e vens entre textos antigos e contemporâneos, tropeçou em Sor Juana. Por que diabos só se lê a “Respuesta” nas aulas e nunca os textos que deram origem ao acontecido? Manuel Bandeira tinha feito um comentário sobre a tal “Carta Atenagórica” mas isso não importa para a crítica literária e, como, não acrescenta nada de emoção ao conto, melhor deixar pra lá. Deu graças a Deus pelo padre Antônio Vieira, pelo barroco e pela existência do silogismo. E foi então, não sem antes usar o método de Pierre Menard para entender Sor Juana (aprender o espanhol do século 16, aprender a fé católica etc, reler Quevedo (meus deus que cara arrogante), Góngora, e o padre Antônio Vieira (meu deus que sujeito marrento), que se dedicou novamente à prática para desvendar o mistério. Deu graças a Deus por Sor Juana comprovar, enquanto destrinchava os silogismos do marrento Padre Antônio Vieira e destroçava seu argumento, que a dor que dá lugar ao pranto é menor, enquanto que a maior de todas embarga o pranto. Descoberta a consequência, faltava descobrir a causa. Dedicou-se então a desvendar o segredo de qual seria essa dor maior. A dor que suplantava a todas as demais. Como não tinha estômago nem pra psicanálise nem pra psicologia, nem cogitou procurar nessas disciplinas respostas, afinal das contas Fanon nunca foi bem recebido, na verdade, nem recebido, pelos cândidos defensores da “universalidade”. Já sabia que acharia um universalizante trauma de infância de gente branca como possível causa, bla bla bla. Dias e dias examinou a memória e a consciência em busca da solução. Mas a consciência e a memória vinham dos livros e da escola bíblica. Voltou aos livros e à bíblia. E não porque quizesse acrescentar um versículo ao evangelho. Tinha horror à formulas gastas e, afinal de contas, o bem-aventurados os que não descem sempre pareceu caô de defunto beijoqueiro. Bem-aventurados os que não descem … pode até ser … sei lá … mas e os que descem? Os que não descem ficam lá em cima e, portanto, Bem-aventurados os que sim descem porque deles são as areias da praia de Copacabana nos dias de real grandeza tudo azul o mar turquesa a la Istambul enchendo os olhos dos que não descem. Leu e releu. Leu e releu. Lia e relia obstinadamente e já não fazia outra coisa. E não é que Hermes fosse culpado não. E não é que Hermes fosse culpado não, afinal de contas o coitado do Hermes não tem culpa se a hermenêutica foi universalizada apesar de insuficiente e limitada (e aqui sou eu que tô dizendo, não é o Didico não, “quem é preto como eu já tá ligado qual é”, mas talvez seja melhor explicar para quem é preto, mas não como eu: Hermes não conhecia Esu), Hermes não conhecia Esu… , Hermes não conhecia Esu… nem eu naquela época, pensava Didico. Como na leitura não achava resposta, decidiu voltar a reescrever aquele conto enquanto continuava sua agora incansável Esu‐’tufunaalo para interpretar o mistério. Decidiu voltar a reescrever aquele conto, mas começou a se arrepender porque lembrou que o senão de um conto, o maior defeito dele é você leitor, é você leitora. Você ama a narração aprumada e nutrida de símbolos positivos da negritude e referências aos orixás bem explícitos, o estilo regular e fluente da estrutura do conto tradicional-moderno (inventada pelo Edgar Alan Poe ou pelo Horácio Quiroga, diga-se de passagem), o despertar de emoções à flor da pele, e, ainda por cima (mais costume que amor), infestada de pretéritos-mais-que-perfeitos simples e pronomes oblíquos átonos nunca presentes nas bocas de ninguém a não ser (inconscientemente) na dos narradores e narradoras dos autores e das autoras que, por ganharem o prêmio Jabuti (ou vice-versa), são (inconscientemente) reproduzidos em qualquer literatura, independente(mente) da cor, e, claro, na daquele narrador (tá lá um corpo estendido no chão) de futebol da TVE; e este conto e o meu estilo são como os temulentos, guinam à destra e à sinistra, caminham e empacam, murmuram, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e desabam… se estabacam! E não é que eu “quero chorar! Não tenho lágrimas…” como naquele samba. Eu tenho. E te daria uma lágrima, talvez assim você achasse emoção no conto e chorasse comigo no final. Didico se emocionava e se animava com a ideia de chorarmos todos e todas, juntos, no final. Crescia nele uma expectativa e pensava no insólito dessa técnica narrativa que faz com que em vez de o narrador manipular o personagem e ação para criar expectativa na leitora e no leitor é o leitor e a leitora que criavam no personagem a expectativa de chorarmos todos e todas, juntos, no final. Lembrou daquela parada que o professor Jorge falou no boteco aquela vez. Fora da sala de aula o professor Jorge era Jorge Makumba e botava a mão na boca com o indicador estirado ao lado do nariz e dizia “ô rapá! É o seguinte: navio negreiro não dá ré não aí”. Mas lembrou que isso foi a mó tempão.

— Há um tempão!
— É… isso mesmo que eu disse! Foi a muito tempo.
— Há!
— Não é isso que tô dizendo?
— Não. Você disse a um tempão.
— Então! Foi a muito tempo!
— Foi Há Muito Tempo!
— O que que eu disse?
— Que foi a muito tempo.
— E qual o problema? Não foi a mó tempão, não?
— Não é foi a muito tempo, é foi há muito tempo. E é vício, não vicio.
— Que? Cumé?
— É VÍCIO! Não vicio! É quisesse, não quizesse! E é a fórmulas não à formulas!
— Iá! Ô bichão! Traz a conta aqui!

Foi nisso que o Buiu passou batendo um samba antigo na caixinha de fósforo “a minha alegria atravessou o mar… levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar contra o mal olhado carrego meu patuá”. Assim, de repente, “a minha alegria atravessou o mar”, que uma fagulha acendeu lá dentro, “a minha alegria”, e apagou, “o mar”, toda a memória e a consciência, “é hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar”, e finalmente, num reboot, numa (re)tomada de consciência (e nem foi como a Rigoberta Menchú não) gritou Ttufunaalo!!!!! e entendeu o mistério das lágrimas que não se manifestam e aqueles versos “cabe em um olho e pesa uma tonelada”. No mesmo dia abriu uma janela em direção ao leste e desde esse dia em diante nunca mais leu nem escreveu. De dia sentava no tamborete na encruzilhada, de noite sentava no parapeito da janela. Mudou de nome, não no R.G., claro. Contemplava o horizonte por longas horas e escutava, escutava, escutava, escutava até achar que escutava algo mesmo e que eram histórias e histórias e histórias muitas histórias todas as histórias em línguas tão bonitas tão bonitas já contadas e depois roubadas contrabandeadas e patenteadas em outras épocas e paralelos… então os olhos marejavam e marejavam e marejavam. Mas, nada, nenhuma lágrima sequer se aventurava a deixar o berço, a fazer a travessia. Elas ficaram do lado de lá. Este era seu B.O. pra eternidade: ficar ali sentado dia-e-noite ou levantar e ir ao encontro das lágrimas.

Paulo Dutra, fluminense de São João de Meriti, é doutor em literatura latino-americana, Purdue University (EUA), e assistant professor na University of New Mexico (EUA). É autor do livro de contos Aversão oficial: resumida (Malê, 2018) e do livro de poemas abliterações (Malê, 2019). Instagram: poetapaulodutra.

Brasil: (im)possíveis diálogos #5

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

As reinvenções de si e a vulnerabilidade como resistência

Por Raimundo Neto

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Vitor Rocha

O medo ensinou-me muito sobre mim. Não havia uma dinâmica de perversidade na casa em que nasci, sempre prestes a cair e a ensinar a todas as mulheres e poucos homens que o amor era capaz de arrancar pedaços. Existia um aprendizado de que os sacrifícios e os eternos papéis parentais/filiais eram imutáveis, e que todo amor devia prender, sufocar, desgastar e depois morrer. Parecia-me que o amor era uma porta sempre fechada, e dentro, um lugar escuro e apavorante.

Nasci numa cidade rural do interior do Piauí. Batalha. Eu e alguns dos meus amigos crescemos no armário. Ou fomos empurrados para lá. As cenas de berros de “viado”, bicha, puta, mulherzinha, baitola, foram persistentes ao longo da nossa infância. As escolas que frequentamos foram os espaços mais cruéis. Não entendíamos o que tornava os meninos/jovens/homens incontroláveis em suas raivas, aqueles olhos famintos, aquelas mãos duras, aqueles gritos estridentes.

Nosso corpo tinha gestos desconhecidos para nós. Só começamos a perceber muito tarde que aqueles gritos/risadas/berros chegavam de fora também porque éramos bichas no Piauí. A bicha era tudo que um homem masculino-macho jamais seria. Uma bicha era/é um corpo tipo como promíscuo, sujo, vil, que corrompe, seduz; pernicioso. A experiência da bicha começa(va) e termina(va) no abjeto, até morrer, até hoje.

Éramos crianças. Não fazia sentido os gritos, as risadas dos outros sobre nós. Eles diziam algo sobre nós que era incompreensível. As injúrias começavam na escola, percorriam reproduzidas pela vizinhança, circulavam em casa, e voltavam para nós, aterrorizadas. Tudo o que não entendíamos sobre nós, em algum momento, autorizou jovens homens mais velhos a, além dos gritos, a usarem nosso corpo para algo que, neles, pelo que diziam, era incontrolável. Foi o período da vida em que nós, crianças, bichas, fomos mastigados, tocados, virados ao avesso, sangrados, expostos, pelas mãos, língua, e tudo mais que aqueles homens tinham em seu domínio. E eles contavam isso para outros jovens homens mais velhos. Isso só parou quando alguns de nós trancaram-se em casa, no armário. O que chegava a ser ridículo. Era impossível escapar do que éramos.

No meu caso, minha mãe sabia de algo. Acho que por isso gritava tanto “Fala como homem, caminha como homem, seja homem”. Dos treze aos vinte e dois anos, isso tudo continuou em outras escalas e aspectos. As piadas tornaram-se mais amplas. As mãos ainda vinham de meninos mais velhos que eu, e depois as injúrias circulavam nas rodas de conversas/fofocas, sobre a bicha que tirava as melhores notas na escola, mas que era bicha.

Aos vinte anos eu sabia que queria ir para longe, ou simplesmente sumir. Tentei morrer duas vezes. Para ir embora eu precisaria aprender a contar outra história sobre a minha vida; eu precisaria que as narrativas sobre mim fossem escritas por mim. Mas como se escreve sobre si e sobre o mundo com medo? Eu achava, mesmo, que era preciso apenas coragem, integral e permanente, para escrever-me.

Enquanto vivi na casa do meu nascimento, o medo era de que alguém me arrancasse do armário, o lugar onde supostamente eu estava seguro. Mas, se era esconderijo, por que todas as pessoas diziam aspectos graves sobre mim que eu desconhecia? Afeminado, veado, molenga, maricas, putinha, frouxo, bicha, bicha, bicha, bicha.
Eu tinha medo que tudo caísse, que todas as pessoas da minha casa morressem, as mulheres que me nasceram. De Batalha a Teresina, meu caminho foi entre injúrias e os cuidados maternos. Uma mãe preocupada e afetiva, e que se incomodava com aquele filho que jamais seria o homem que disseram que ela deveria esperar; porque também esperavam muito daquela mãe como mulher. O discurso das casas vizinhas à nossa, da igreja, da escola, esperava muito de mim e da minha mãe.

As experiências que meus desejos provaram foram me levando para além do corpo. Pessoal e profissionalmente. Eu começava a entender que família não era apenas a ideia mantida e sustentada por muitas instituições, definindo e organizando corpos, desejos, sexualidades e identidades; que dentro daquele espaço familiar acontecem muitas violências, provocando tantos medos; que o amor não brotava com naturalidade como se houvesse uma essência registrada nos genes. Havia algo muito mais complexo. Havia outros tipos de relações e afetos, construídos, elaborados, sobrevivendo para além das naturalizações e essencializações de mãe/pai/filhos/filhas/homem/mulher.

Nesses caminhos, eu não largava a Literatura. Descobri primeiro um refúgio, depois entendi que podia ser uma saída. Eu me escondia nas bibliotecas que fui descobrindo. Foram os únicos lugares em que me senti protegido. Todas aquelas narrativas, todas aquelas palavras. Depois Guimarães Rosa, Mario Faustino, Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, João Gilberto Noll, Cassandra Rios, Michael Cunningham, Hilda Hilst, Virginia Woolf, Oscar Wilde, João Silvero Trevisan, James Baldwin. Ao ler todos aqueles corpos e afetos, que eu nunca tinha lido antes, senti alívio, alegria, desespero, angústia; senti que era possível seguir sem morrer sempre um pouco mais.

Depois, muito depois, fui pelos caminhos da escrita. Inventei pessoas e futuros. Havia medo em todas aquelas histórias. Eu escrevia invenções sobre mim e, só muito depois, entendi que era sobre outros também. Foi assim que Literatura, memória, vivências e escrita, cruzaram-se diante e dentro de mim, encontrando meus medos. E assim comecei a perceber que, de algum modo, eu não escrevia sozinho. Havia todas as memórias, as minhas e as das minhas amigas, nossas histórias que se cruzaram; havia as casas que caíram e as famílias tornadas ruínas; havia muitos gritos e pedidos de pessoas antes de nós, especialmente as bichas e corpos abjetos invisibilizados. Havia todas as histórias de medo que nos antecederam. E essa mesma escrita do medo proporcionava encontros, quando pessoas desconhecidas se reconheciam naqueles medos.

Entendi muito mais tarde que voltar para o armário era impossível, e também um ato político, como bicha que conquistou alguns privilégios. Voltar para o armário seria me ocultar, e isso reproduziria um princípio heteronormativo de gestão de subjetividades, corpos e desejos.

Em São Paulo, algumas injúrias e violências ocorreram. Eu sentia esse medo me acompanhando, e acompanhando pessoas próximas a mim. Comecei a refletir que o medo também foi um dos caminhos para as minhas lembranças.

Do armário onde vivi durante anos, até a saída da porta da minha primeira casa, depois chegar a São Paulo e suas diversidades, foi um caminho longo; construir uma linguagem contada pelos sentidos daqueles Brasis que eu vivia e também pelo corpo-bicha escapando das normas foi um dos modos de ser político e resistência. Foi inicialmente um processo um tanto intuitivo de investigar escrita, identidade, memória e afetos.

Quando me aproximei das leituras de Didier Eribon, Butler, Orham Pamuk, Foucault, Silviano Santiago, Elvira Vigna, Nicole Krauss, James Baldwin, Toni Morrison, comecei a refletir sobre identidade, escrita e literatura:

1. “A injúria não é apenas uma fala que descreve. Ela não se contenta em me anunciar o que sou. Se alguém me xinga de ‘viado nojento’ (ou negro nojento ou judeu nojento), ou até simplesmente de viado, ele não procura me comunicar uma informação sobre mim mesmo. Aquele que lança a injúria me faz saber que tem domínio sobre mim, que estou em poder dele. E esse poder é primeiramente o de me ferir. De marcar a minha consciência com essa ferida ao inscrever a vergonha no mais fundo da minha mente. Essa consciência ferida, envergonhada de si mesma, torna-se um elemento constitutivo da minha personalidade. A injúria me diz o que sou na medida em que me faz ser o que sou.” Para Eribon, um dos princípios estruturantes das subjetividades gays e lésbicas consistiria em procurar os meios de fugir da injúria e da violência, que isso costuma passar pela dissimulação de si mesmo ou pela emigração para lugares mais clementes.

2. O resultado das últimas eleições revelou (revelou para quem?) os conservadorismos e violências sempre presentes. Ou talvez pessoas privilegiadas em suas vivências cis, masculinas, brancas, hetenormativas, sudestinas, tenham percebido com outros olhos e ouvidos tudo que era feito e dito sobre gays, lésbicas, homens e mulheres trans, travestis, negros, mulheres cis, índias e índios, por exemplo. Mas se noticiou aparentemente mais casos de violências especialmente contra pessoas LGBTQIA. Brasil, o país que mais mata LGBTs no mundo, provavelmente continuaria liderando esse ranking, infelizmente.

Refletindo sobre ideias de Orham Pamuk e Nicole Krauss, concordo que um romance é uma segunda vida, e que quando se escreve um romance descobre coisas sobre si mesmo que eram desconhecidas. Para Nicole Krauss, precisamos ter algo a dizer sobre quem somos, e também por isso estamos escrevendo o tempo todo sobre o fardo das nossas heranças, o que nos disseram/contaram sobre nós; propondo a ideia da escrita como ficção do Eu, quando assumimos também reescrever quem somos, e contar as narrativas sobre nós de outro modo: contar a história sobre nós do nosso ponto de vista.

3. Ouvi a escritora Elvira Vigna falar sobre seu processo de escrita uma vez, pessoalmente. E acompanhei tudo que foi publicado, e também tudo que foi dito por ela sobre os seus processos de escrita em entrevistas e vídeos. Ao ser questionada sobre literatura e escrita, ela dissera, entre outros detalhes, que só escrevia o que lhe batia muito forte, o que a fazia doer: “Eu exijo de mim uma presença emocional brutal, porque senão não serve. Se eu quero chegar ao outro, eu tenho que me apresentar como apta emocionalmente a chegar perto desse outro. Escrever é um troço duríssimo, te modifica. O que eu busco é o humano. Para mim, Literatura é uma forma de você de dividir, compartilhar experiências humanas.”

Partindo disso e do medo das violências, das injúrias como produtoras/definidoras de subjetividades (particulares e coletivas, resguardadas as devidas interseccionalidades), das memórias de infância, vivências e marcas, das possibilidades de assumir as narrativas sobre o Eu e (reinventar-se) e esse devir e potência, e da escrita e literatura como uma forma de proporcionar encontros, iniciei esse caminho do que também poderia chamar de investigação e produção de algum tipo de linha de fuga, por assim dizer. Embora o começo disso tudo tenha sido intuitivo, só muito depois se tornou algo mais consciente e elaborado.

Assim, se a linguagem inventa mundos, faz sentido dizer que escrever sobre corpos, identidades, sexualidades divergentes das normas vigentes, sobre deslocamentos e diferenças, é possibilitar que outras pessoas se aproximem dessas vidas tão diversas e que durante muitos anos estiveram escondidas e silenciadas, o que possibilitou criar as linguagens e narrativas das personagens que escrevi numa casa/família desmoronando, aprendendo o amor pelo sacrifício e violência, um filho “bicha” que tenta escapar; a linguagem das personagens tentam inventar-se para além do que a norma diz que são. As personagens estão também inventando outras casas, outras famílias e afetos: Todo esse amor que inventamos para nós.

De algum modo, comecei a refletir que a escrita e essa Literatura poderiam ser também processos de investigação, em que as vozes contando as narrativas começavam a se contar na minha história, e por isso a marca autobiográfica (mas talvez não confessional). Deborah Levi me ajudou a pensar um pouco sobre isso com seu ensaio “Coisas que não quero saber”, quando disse que quando uma escritora leva uma personagem para o centro de sua investigação literária (…) “e essa personagem começa a projetar sombra e luz por toda parte, ela precisa encontrar uma linguagem em parte relacionada ao aprendizado de como se tornar um sujeito e não uma ilusão, e em parte relacionada ao desenlace de como ela mesma foi construída pelo sistema social, antes de tudo.”

Contar ficções buscando quais personagens contarão aquelas narrativas é pensar também as reinvenções que somos, e pensar como fomos construídos socialmente, que sistemas criaram normas reguladoras de famílias e corpos, produzindo “anormalidades”, dissonâncias, violências, e muito medo.

Considero, portanto, que escrever sobre o medo é narrar diferenças e reinvenções de si, é contar o caminho do armário até o cosmopolitismo aparentemente dissidente de uma cidade grande, é construir narrativas em que as personagens contam-se diversas, portas abertas, inventando outros afetos, escritos ou não por pessoas que se identificam a partir dessas dissidências. Escrever sob o medo é também promover encontros, resgatar humanidades, que é uma das muitas possibilidades da Literatura e da escrita; promover encontros entre diferenças, entre pessoas, e que esses encontros possibilitem outras descobertas e outros caminhos.

Escrever, mesmo com medo, como a possibilidade de transformação, não para produzi-lo ou reforçá-lo, mas para enfrentá-lo, à medida que nos reinventamos. Escrever o medo para resistir.

O meu medo nasceu no armário. Havia uma instituição contando algo sobre o meu corpo e meus afetos, dizendo-me inadequado. As vozes ao redor aprenderam sobre corpos abjetos e empurraram tantas outras bichas para dentro do armário ou para dentro de casa, aquelas que sobreviveram. O medo vive dentro de casa também, reproduzido, reproduzindo, camuflado como amor.

Escrever o medo é assumir o que nos falta, o que nos dói, partindo de incertezas, mas a observar urgências e dissidências indomesticáveis, e entregar-se ao impossível; é reinventar-se e seguir; é seguir rumo ao Eu em construção que sou/somos e que pode ser tantos outros e outras. É inventar estéticas com as palavras, comunicando-se com todas as produções artísticas nos muitos Brasis que existem, é também questionar regimes de identidade à medida que esses criam silenciamentos e marginalizações.

Escrever o medo é assumir os riscos, incorporar resistências e inventar uma casa nova e outros afetos; é inventar o amor que queremos para nós, todos os dias, antes de quase morrer mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, todo dia.

Escrever sob o medo, com o terror à espreita, é também criar linhas de fuga, buscar coerência entre falar/agir, manter encontros potentes e honestos com pessoas e afetos, a assumir vulnerabilidades para identificar modos de resistir, e seguir, seguir, seguir.

Raimundo Neto nasceu em Batalha, no Piauí, onde viveu até 2014. Venceu o Prêmio Paraná de Literatura com o seu livro de contos Todo esse amor que inventamos para nós (Editora Moinhos), e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura com romance inédito. Integra a antologia brasileira escritas por LGBTQs A resistência do vaga-lumes (Editora Nós) e a coletânea de contistas piauienses Caçuá (Fundapi). Foi colaborador da revista eletrônica São Paulo Review. Mora em São Paulo e trabalha como psicólogo e garantia de direitos de crianças e adolescente no Tribunal de Justiça do Estado.

Brasil: (im)possíveis diálogos #4

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Merda

Por Alexandre Marques Rodrigues

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Vitor Rocha

“Com catástrofes a gente não precisa verdadeiramente de se preocupar, elas surgem com certeza. Mas talvez haja necessidade de as provocar, de vez em quando, porque para virem por si próprias leva muito tempo.” (Thomas Bernhard)

Nós não somos mais um país, o Ruivo disse, saiu da cama: andou pelo quarto a procurar a roupa, o pau insistia ainda em ficar duro, o suor no corpo era um acaso; a televisão ligada, na sala, arremessava o noticiário contra as paredes, os apresentadores, a fingir histerias, se esparramavam pela porta sem pedir Com licença, sem perguntar Posso entrar. Victor recobrava o fôlego; deitado, seguia o Ruivo com os olhos, revezava os ouvidos entre as notícias e a frase dele, já repetida tantas vezes, Nós não somos mais um país. Por que você sempre sai da cama com tanta pressa, perguntou, disse Eu odeio isso; o Ruivo encontrou a cueca na sala, Era mais fácil quando trepávamos naquele seu ateliê, comentou, ficava tudo junto: a cama, as tintas, as telas, a cozinha, a sua poltrona: eu não perdia minha roupa um pouco em cada lado. Victor resmungou Realmente odeio isso, o Ruivo se assustou O quê, sugeriu Que a casa fique toda junta, e o outro precisou explicar o óbvio, Que você esteja aí na sala, disse, a procurar sua roupa, e não aqui na cama, junto comigo —

ainda assim, o Ruivo resistiu: não voltou para o quarto. Ficou postado diante da televisão. A imagem na tela mostrava uma multidão a se alastrar pela cidade; um jornalista tentava explicar alguma daquelas coisas que eles nunca conseguem explicar, o rei Alberto pega a mesma arma que arranjou na época das bombas, a arma com que brincou de roleta russa com Jacqueline — pega a mesma arma, balança a cabeça como quem lamenta, olha para Larissa. Ela chora; entendeu que não há solução: seja para o mundo ou para a vida, não há solução, é chegado o reino da merda, não há para onde fugir, não dá para passar uma porta, ir para o lado de fora com quem sai de um bar para fumar um cigarro na calçada; e o tempo não ajuda, não pode, com um soluço, não implanta Larissa de volta para o colo da mãe, para os passeios que dava na praia, segurando a mão do pai, cheia de orgulho por passear com aquele homem que apenas por um acaso era o seu pai. O rei Alberto diz Você já entendeu, Victor ruminou Eu era uma fraude, disse depois em voz alta Eu era uma fraude, Larissa não responde, o Ruivo perguntou O que você quer dizer com isso, continuou a olhar na televisão as pessoas que protestavam mais uma vez. Como se recordasse outra vida, Victor se lembrava, se lembrou, Já quando aquele seu amigo me encomendou as cópias dos quadros, disse, se corrigiu Falsificações, retomou do início, Já quando aquele seu amigo me encomendou as falsificações todo mundo viu, pôde ver: eu era uma fraude, não conseguia nem fazer umas bandeirinhas de merda coloridas com tinta óleo. O Ruivo vestiu a camisa, de volta ao quarto, vestiu a camisa e ficou de pé junto à cama, a velar um morto que tinham plantado dentro de um caixão imenso,

o rei Alberto insiste com Larissa, repete a pergunta, que não é uma pergunta, Você já entendeu, ele repete, ela concorda Sim. Eu olho a janela: você me disse Vai chover a semana inteira, e chove a semana inteira, por isso Larissa continua a chorar, chora com a inevitabilidade das leis da física — suas lágrimas caem como a entropia aumenta, como a inércia impõe a falta de fim ao movimento —; me perguntou O que vai fazer no domingo, me perguntou e eu não sei o que vou fazer no domingo, não sei o que faço hoje, mas Da próxima vez sou eu quem prepara o jantar, me explicou. Você não era uma fraude, o Ruivo disse para o caixão, para a cama, para Victor, que não se levantou, os mortos não se levantam; Apenas se cansou da pintura, o Ruivo ponderou, concluiu É isso, depois citou Igual Roberto se cansou do banco, igual eu me cansei da. Não foi em Natacha que ele pensou, é claro que não: o rei Alberto assente É isso mesmo, Larissa acende um cigarro, ele diz Não dá mais, como quem diagnostica É um câncer, ou É preciso operar, diz Não dá mais; anda de um lado para o outro na sala, não mais a sala onde Larissa tinha escrito na parede uma frase da Ulrike Meinhof —

o rei Alberto anda de um lado para o outro da sala, a arma na mão, de um lado para o outro, a arma que engatilha e desengatilha, de um lado para o outro, engatilha e desengatilha. Acha mesmo que não tem outro jeito, Larissa pergunta. Eu odeio esse seu otimismo — você me disse Vai passar, me mandou ouvir os discos do Glenn Gould e me disse Vai passar —, Eu odeio esse seu otimismo, rebateu Victor, reforçou Odeio, montou o deboche sobre a cara, imitou o Ruivo, disse em falsete A-pe-nas-se-can-sou-da-pin-tu-ra, depois perguntou com jeito de quem repreende, ou mesmo repreendeu Que merda você entende de pintura e de se cansar da pintura; o Ruivo se sentou na cama: pôs os sapatos, Nós não somos mais um país, disse outra vez, a apontar com o queixo na direção da sala, da televisão, das notícias, Não somos mais a porra de um país. Você me emprestou o Torga, eu perguntei se o Houellebecq tinha ficado na sua casa, Larissa duvida Acha mesmo que vai conseguir — O mundo é tudo o que é o caso, Wittgenstein escreveu, abriu com essa sura o Tractatus que você lia ontem —; Ele tem seguranças, ela continua, deve usar um colete a prova de balas, com certeza agora sempre usa um colete a prova de balas,

As bombas não adiantaram, o Ruivo disse cheio de pena, como quem se lembra das flores que se desfizeram quando o vaso caiu da mesa, As bombas não adiantaram de nada. Vê se pega na cozinha alguma coisa para a gente beber, pediu Victor, de repente um morto muito exigente, refastelado em seu caixão cheio de lençóis a imitar a seda, pediu E desliga essa televisão, pelo amor de deus; Eu preciso tentar, o rei Alberto contesta, mostra a arma para Larissa, É o que eu quero, explica, é o que todos querem: é o que eu espero, o que você espera, o que todos esperam. Eu perguntei se você já sabia, você me respondeu Sim, mas não me respondeu, não me disse Sim, apenas acenou com a cabeça, desviou os olhos para o chão, o rei Alberto argumenta Para que aquela gente toda foi às ruas, argumenta sem esperar qualquer resposta de Larissa, ela sentencia Você não vai conseguir, o Ruivo saiu do quarto, foi na direção da cozinha para pegar água, suco, whisky, vinho, chá, qualquer coisa para Victor beber — mas não conseguiu, não passou da sala:

parou outra vez na frente da televisão: olhou a multidão que a câmera, de dentro de um helicóptero, mostrava cheia de semelhanças com qualquer coisa que não era mais humana — a multidão era uma floresta, ou um rio, ou um mar, um deserto imenso a avançar suas dunas sobre a cidade. Não vai resolver, o Ruivo disse, disse É preciso algo mais, disse Desse jeito não vai mais resolver; em dezembro eu era um homem carregando um bonsai dentro do metrô, você se lembra, o rei Alberto recita Eu vou fazer, recita cheio de ênfases, como se dizer fosse já metade do gesto, Eu vou fazer, completa Vou matar o filho da puta. Victor perdeu a paciência, Quando é que você vai me chupar direito, perguntou para o Ruivo, se ergueu na cama como se tivesse chegado o terceiro dia, Quando é que vai me chupar até o final;

É preciso fazer alguma coisa, o rei Alberto insiste, o Ruivo voltou para o quarto, É preciso fazer qualquer coisa, voltou para o quarto sem água, sem suco, sem whisky, sem vinho, sem chá. Acha mesmo que vai ser assim — foi o que você me perguntou, e eu não sabia: não sei. Sentado na cama, Victor pediu Conversa comigo, pediu para o Ruivo, Larissa olha a arma que o rei Alberto muda de mão, mas não põe sobre a mesa, pede Conversa comigo, você também, Conversa comigo, me pede. É tão simples. Nós não somos mais um país, o Ruivo repete, Victor contesta Nós não somos mais um casal, o rei Alberto pergunta O que há ainda para conversar, você concorda com ele, concorda comigo, Tem razão, diz — Larissa para de chorar, Estou tão cansada, ela suspira —, o Ruivo desvia os olhos de Victor, os arremessa pela janela atrás da cama, onze andares para baixo, você me abre a porta, ele murmura, devagar, uma sílaba de cada vez, murmura

Merda.

Alexandre Marques Rodrigues é autor de Porca (Editora Record, 2019), Entropia (Editora Record, 2016; Teodolito, 2017) e Parafilias (Editora Record, 2014; Editora Teodolito, 2018).

Brasil: (im)possíveis diálogos #3

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Dois poemas s/título

Por Manuella Bezerra de Melo

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Vitor Rocha

Esperar um anjo com sua trombeta
esperar cuspir as pérolas antes de engolir
os rubis na areia
a areia em cascalhos
os pés sujos de pixe
o pixe sujo de cobiça
as pérolas cagadas dos porcos

Esperar uma noite bonita
um momento sublime
a luz ideal de velas
do lustre
do sorriso do gato
do breu
do silêncio que precede a guerra

Esperar que cresça o filho
um ano tem 365 dias
um filho viverá muitos anos
até que você voltará a dormir
uma noite parcial
nunca mais voltará
nunca mais voltará a dormir

Esperar pelo verão três estações inteiras
tempo é o que dura um terço de um ano
folhas secas animais mortos
pelos de gato nas almofadas
há uma primavera no entremeio
adubo aduba tudo
tudo morreu até você

Esperar que estanque o sangue
contemplar o fim da sangria na jarra
beber o vinho do escuro de um céu
e dançar com o homem coxo
o fado da sereia minhota
sob uma pedra azul brilhante
trazida na valsa de uma águia

Esperar que cresçam os cabelos
os fios do cabelo precisam do sol do verão
não crescem porque são cortados
são cortados por não crescem
queria-os longos mas os corto
como corto minha língua
minhas asas e meus punhos

* * *

Um dia qualquer, num sonho com a morte
extraviavam miolos numa intangível nau
que boiava ao mar soprada no vento às velas
até alcançar a branca areia latina

Nas imagens desconexas como sonhar o sonho
ou como a dor do sonho e da vida
avistava acordada os sonhos de dormida
e vomitava sob a cama a vontade dos lençóis
em minutos era infeliz e insatisfeita
foi tão forte que doeu a vida inteira

As amigas estavam mortas
e seus corpos foram sepultados neste corpo
condenado a carregá-los no ventre
e as gerar inteiras, restos e suas cóleras

Como mãe, sangrei nas pernas estas vidas mortas
mas como mãe celebrei a glória do gestar
um feto despejado do seu alojamento local
depois esqueci-me do sonho mas fiz notas
nas folhas de uma agenda do ano passado
amassada, foi ao lixo junto as fezes do gato

Manuella Bezerra de Melo é licenciada em Jornalismo, pós-graduada em Literatura e Interculturalidade e mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas. Publicou Desanônima (Editora Autografia, 2017), Existem Sonhos na Rua Amarela (Editora Multifoco, 2018) e Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Editora Urutau, 2019). Participa do coletivo Palavra Voa, onde opera como facilitadora, moderadora e realizadora em atividades literárias. Já teve seus poemas publicados em portais, blogs e revistas literárias brasileiras e portuguesas, entre elas Etudes Lusophones, Incomunidade, Escamandro, Germina, Revista Pixé, Revista Gueto, Revista Palavra Comum e Mulheres que Escrevem.

Brasil: (im)possíveis diálogos #2

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Empregadas

Por Tiago Germano

Para Leandro Assis e Triscila Oliveira

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Vitor Rocha

“Na família da minha mãe nós somos os mais ricos…”

Ela abriu a cueca branca entre os dedos e pediu que eu colocasse uma perna de cada vez.

“…mas na do meu pai eu já não sei dizer.”

Fez o mesmo com a calça jeans, fechando depois o zíper.

“Talvez os segundos… ou terceiros…”

Colocou o primeiro botão da camisa em sua casa. Deixou que eu tentasse abotoar o resto.

“O tio Duda tem dois carros, então acho que ele é o primeiro mais rico…”

Eu cheguei no botão da gola e percebi que alguma coisa estava errada.

“… e o tio Mário tem duas televisões.”

Ela me mostrou que eu havia pulado uma casa. Tirou os botões das casas erradas e guiou os meus dedos pelas certas.

“Isso sem contar o Master System do Rafa, né?”

Ela penteou o meu cabelo para frente. Depois para trás dividindo no meio.

“Mas aqui na rua sem dúvida nós somos os mais ricos.”

Eu ainda não precisava usar desodorante, então ela colocou a colônia, uma gota de cada vez, bem atrás das minhas orelhas.

“O vizinho pensa que é mais rico só porque tem uma antena parabólica no jardim.”

Ela me fez sentar na cama e calçou os meus tênis.

“No jardim! Você já viu?”

Eu nunca soube como ela fazia aquele nó tão fácil de desfazer, mas que não desmanchava nunca.

“E do que que adianta ter tanto canal só de boi?”

Ela recolheu a roupa suja e fez uma trouxa delas na toalha molhada.

“Na sua casa também tem canal de boi?”

Ela me deu as costas e saiu do meu quarto.

* * *

“São tempos difíceis. Tá quase impossível encontrar alguém de confiança…”

Minha mãe havia se aposentado mas não conseguia dar conta sozinha da casa. Uma diarista vinha uma vez por semana para ajudar na limpeza.

“…e comer de marmita todo dia você sabe como é, né, o seu pai reclama.”

Havíamos recém comprado uma máquina de lavar. Meu pai culpava a função de secagem por ter, segundo ele, encolhido suas camisas de linho.

“Eu já tenho que aguentar a obsessão dele com os fios de cabelo no chão e a poeira nos móveis.”

Meu pai passava os dedos nos móveis para conferir se estavam limpos. Já havia demitido mais de uma empregada por causa disso.

“Isso porque a Cida é limpinha e deixa tudo tinindo na segunda.”

Minha mãe o havia proibido de fazer o mesmo com a Cida.

“Mas sabe como é, né, uma vez por semana… consegue imaginar o tanto de poeira que entra por essas janelas?”

Havia uma obra no terreno da frente. O prédio começava a tomar a nossa vista para o mar.

“Lembra o drama que foi com a Zefa, na época da casa?”

Zefa: melhor bife da infância. Não sabia o que era a parmegiana mas acertou de primeira porque, quando viu a receita, disse que fazia pros filhos com ovo e queijo, sempre que dava pra comprar.

“Cozinhava direitinho aquela, mas era porca. Seu pai dava um chilique todo dia que passava o dedo no balcão da cozinha.”

Zefa tinha vergonha de comer na mesa mesmo depois de nós. Para falar a verdade, eu nunca tinha visto a Zefa comer.

“Mas pelo menos não roubava, né. Lembra daquela que escondia as coisas de vocês no quintal e depois pulava o muro de noite, pra pegar pros filhos?”

Neide: tinha voltado de São Paulo, grávida aos dezesseis. Foi a maior decepção da minha mãe quando engravidou de novo, ninguém sabia de quem. Meu pai pagou até a licença-maternidade e achou aquele roubo uma falha imperdoável, logo que ela voltou a trabalhar para nós.

“Sabe que a menina dessa Neide passou na Federal agora?

Eu gostava da Neide.

“Cotas, né? E a gente tendo que pagar faculdade particular por causa disso.”

Eu gostava na verdade da vitamina de abacate da Neide.

“Ah, mas a pior de todas foi aquela Nina, lembra, aquela com espírito de rica, que se metia nas conversas?”

Nina, a que mais havia durado. Deu banho de álcool em meu irmão pra baixar a febre e dormiu todas noites em nossa casa quando meus pais viajaram para fora pela primeira vez.

“Aquela eu nem quero saber por onde anda.”

Nina sempre resmungava quando tinha que arrumar a nossa cama.

“A gente sempre teve o dedo meio sujo pra empregada.”

Nina hoje tinha um pequeno ateliê de costura.

* * *

A Cida tinha acabado de ser demitida num acesso de fúria do meu pai, antes de sair para o trabalho.

“Eu digo, a gente só pode ter o dedo podre.”

Na área de serviço, a máquina de lavar ainda terminava o ciclo rápido com todas as minhas roupas acumuladas ao longo da semana. Eu já podia finalmente me vestir e ir para a faculdade também. Eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente da minha mãe, então fui para a dependência de empregada.

“Você não se lembra, mas a única que deu certo com a gente pediu demissão quando vocês eram ainda pequenos.”

Troquei primeiro a cueca suja por outra limpa, quentinha, ainda com o calor da máquina.

“Aquela sim, era uma pessoa digna… simples, mas digna. Nunca tive do que reclamar.”

Sacudi a calça jeans ainda meio amassada e a vesti. Primeiro uma perna, depois a outra.

“Era a única que conseguia tirar você da cama de manhã e arrumar a tempo de chegar no colégio.”

Conferi o cheiro das minhas axilas antes de colocar a camisa, ainda com o aroma do amaciante.

“Só que teve esse dia, você não vai lembrar. Ela levou vocês pra escola, fez o serviço da casa, deixou tudo impecável, mas saiu sem dizer nada e encontrei um bilhete dela pedindo desculpas, dizendo que tinha que ir embora e que a gente não precisava se preocupar com o pagamento dos últimos dias.”

Demorei a desfazer o nó cego dos sapatos e a colocá-los nos pés.

“Nunca entendi porque ela foi embora.”

Penteei os cabelos no espelho da sala.

“Engraçado… Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o nome dela.”

Me despedi da minha mãe e só na porta percebi que tinha pulado um botão da camisa.

Tiago Germano é escritor e jornalista paraibano. Autor do romance A Mulher Faminta (Editora Moinhos, 2018) e da coletânea de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), vencedora do Prêmio Minuano e indicada ao Prêmio Jabuti. Mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é bolsista do Programa de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da Universidade de East Anglia (UEA), em Norwich (Inglaterra), por onde já passaram escritores como Ian McEwan e Kazuo Ishiguro. Seu romance O Que Pesa no Norte será lançado ainda este ano pela Editora Moinhos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #1

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Sentença de morte

Por João Marcos Buch

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Vitor Rocha

Eu não sei se quero mais ficar nisso! Com essa afirmação, feita para uma amiga juíza também da execução penal, de outro estado, iniciei um dos dias mais quentes do verão de Joinville, e também um dos mais difíceis. A sensação térmica chegaria aos 49 graus. Tinha passado a noite me virando na cama, o que para mim era muito novo. Não lembrava da última vez que o sono me havia faltado. Sempre tivera muita facilidade para dormir. O motivo da falta de sono, porém, não era o calor. Um apenado havia sido morto dentro da unidade prisional. Detentos morrem o tempo todo, podem dizer. Ocorre que, a não ser que estejamos entorpecidos, nenhuma morte passa por nós impunemente, é da natureza humana fazer uma revisão da caminhada percorrida quando a finitude se impõe ao redor. Ainda assim, se em outras ocasiões eu não perdera o sono, por que agora isso tinha ocorrido? E se eu disser que minha caneta assinou a sentença de morte daquele detento, isso seria o suficiente?

Fazia uns anos que estava sob minha responsabilidade a execução penal de Carlos — nome fictício, mas que agora usarei, não quero mais me referir a ele como detento ou apenado. Numa determinada etapa, tendo Carlos alcançado o direito ao regime semiaberto, não encontrando vaga em local adequado, eu lhe deferi prisão domiciliar. Carlos desta maneira passou a cumprir a nova modalidade de pena, seguindo todas as ordens da justiça. Entretanto, houve recurso sobre essa decisão, que foi provido, ou seja, Carlos deveria voltar para a cadeia. Foi assim que mandei expedir a ordem de recaptura. Sabendo da determinação, Carlos fugiu, desapareceu. Meses depois acabou sendo localizado, preso e recolhido na unidade prisional. Passados poucos dias da recaptura, numa noite qualquer, a mãe de Carlos telefonou para a prisão. Ela dizia que iam matar seu filho. Quando os agentes foram fazer a verificação, encontraram apenas o corpo inerte de Carlos, embaixo de um chuveiro, com perfurações em vários lugares, sem vida. Soube da morte poucas horas após e resolvi que no dia seguinte iria até a unidade prisional. Como juiz corregedor do sistema prisional eu devia olhar para os detentos, para os trabalhadores do sistema, para a prisão.

Foi o que fiz, após a conturbada noite de sono. Sob impiedoso sol, acompanhado de um assessor, cheguei na penitenciária e me dirigi à sala do diretor. Lá conversamos sobre a cadeia e o porquê da minha inspeção. Em seguida fomos todos ao pavilhão dos fatos. Quando a porta da galeria se abriu, um bafo quente soprou de dentro para fora, fazendo com que sentíssemos o cheiro da prisão, aquele cheiro característico e que só experimentamos em depósitos humanos desprovidos de saneamento, ventilação e insolação. O cheiro tão bem retratado no filme vencedor do Óscar “Parasita”, e tão sensivelmente decifrado pela admirável desembargadora paulista Kenarik [Kenarik Boujikian], em artigo para o site Justificando.

Sem mais, entramos no corredor da galeria. Os primeiros detentos que me viram logo chamaram os demais, avisando que o “Buch” estava na casa. Em segundos, dezenas deles se agruparam na grade que nos separava. Expliquei-lhes que minha presença se devia à morte de Carlos, mas que não estava lá para investigar, para tratar de descobrir o(s) autor(es) do homicídio e sim para ver se eles estavam seguros. Pedi que pensassem na aflição que as famílias deles, mães, pais, filhos, cônjuges, estavam sofrendo, temendo pela vida deles. Por isso eu lá estava, para tentar compreender a situação e assim exigir das autoridades providências. Respondi a várias perguntas é claro, sobre os processos de cada um, sobre saídas temporárias, progressões ao regime aberto, visitas etc. E ouvi muitas reclamações, em especial quanto a vestuário e alimentação. Por fim, perguntei se eu poderia entrar na galeria, no corredor e nas celas onde eles estavam. Todos concordaram. Mandei abrir a grade e entrei, na verdade, entramos, o diretor e o assessor entraram comigo, mas prefiro descrever a experiência no singular, porque ela foi singular.

Assim que pisei no lado de dentro, a grade logo se fechou atrás de mim. Por breves minutos, respeitadas todas as proporções, eu senti como era estar preso, com a sensação de que meu direito de ir e vir não mais existia e meus passos não mais me pertenciam. Um detento, mais à vontade, falou-me que fazia três meses que andava por aquele corredor, de lá para cá, à espera de uma autorização para trabalho externo durante o dia. Anotei o nome para verificar o processo. Não ingressei totalmente nas celas, pois percebi o constrangimento dos detentos, sempre educados. Por mais que eles me mostrassem as falhas da estrutura, apontando seus dedos para o teto e para os cantos, eu não poderia invadir sua morada. Fiquei sempre na porta, com meio corpo para dentro. Depois fui até o final do corredor e, no banheiro coletivo, sem ninguém nele, entrei. Lá, por entre azulejos quebrados das paredes, fiações expostas no teto e nos canos de água, atrás de uma cortina de plástico eu vi o exato local onde o corpo de Carlos foi encontrado. Fotos já tinham sido enviadas ao processo e eu delas tomara conhecimento. Por isso eu não vi só o local, eu vi o próprio Carlos. Lá estava ele, caído na minha frente, em desespero, retorcendo-se e pedindo por socorro. Era tarde demais, eu chegara tarde demais.

Esse é o sistema de justiça criminal. Mando pessoas para a prisão e as condeno à morte. Quem está preso está sob a custódia do estado! Foi o estado que criou as facções, foi a cegueira e a complacência, com doses intensas de violência e absoluto desprezo pelos requisitos mínimos para uma vida digna no cárcere que fez nascer os grupos para-legais que tomaram as cadeias em todo o Brasil. Como não assumimos essa responsabilidade? Todos os dias detentos são assassinados país afora. São pretos, são pardos, são pobres. São jovens, muito jovens. Por isso não sei se quero ficar mais nisso, pertencer a esse sistema cruel, violento, desgraçado. Lembro do Valois, meu amigo e irmão, juiz em Manaus, que passou pelo que passou, e ainda está lá, enfrentando o Leviatã. Não sou tão forte.

Comecei a escrever este texto para me salvar. Estou em casa e já é tarde da noite. A esta altura cheguei a uma inexorável conclusão. Minha escrita é irrelevante, minhas escritas são irrelevantes. Nada pode me salvar, nada pode modificar o passado e o que escrevo pouco importará ao futuro. Está sendo assim durante estes anos em que tenho construído essas narrativas. Nada melhorou, nada! Pelo contrário, tudo piorou, todo o sistema, toda a violência, todo o ódio. Escrevo porque sou egoísta, porque o pássaro azul de Bukowski que vive em meu peito me obriga, nada além disso.

Olho pela janela. A rua lá embaixo está deserta. O ar continua abafado. Os galhos das árvores, os arbustos não se movem. Não há uma brisa sequer. Penso em Carlos, na mãe de Carlos. E penso na prisão. Eu saí dela, mas ela não saiu de mim.

João Marcos Buch tornou-se juiz aos 24 anos. Nos últimos anos à frente da vara de execuções penais da Comarca de Joinville-SC, por meio de projetos culturais como literatura no cárcere, música e arte, mais diálogos em todos os ambientes, provocou mudanças de pensamento na sociedade, que passou a demandar investimentos no sistema prisional como condição para respeito à dignidade da pessoa humana e redução da violência. Mestre em hermenêutica constitucional, pós graduado em criminologia e política criminal, com livros técnicos publicados, já visitou penitenciárias na Alemanha, Itália, França e EUA, onde pode avaliar as políticas públicas relativas aos direitos fundamentais, é formador da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, lecionando para juízes recém ingressos em vários Tribunais do país. Pautado pela ética, é autor de livros técnicos, romance, novela e livros de crônicas sobre sua vida como juiz.

OBRAS PUBLICADAS

Jurídicas:
O novo regime da prisão cautelar a partir da lei n. 12.403/11: O paradigma constitucional garantista (Editora Conceito); Execução penal e dignidade da pessoa humana (Coleção Para entender Direito, Estúdio Editores.com); Execução penal aplicada: Anotações para redução de danos (Editora Giostri).

Literárias:
Encontre-me no café em Paris (Editora Insular); Crônicas relatos vivências (Editora Giostri); Diário de bordo de um juiz das causas humanas (Editora Giostri); Retroceder jamais (Editora Giostri); Juiz de si juiz do mundo (Editora Giostri); Juiz achado na rua (Editora Giostri); Tortura (Editora Giostri); Crônicas de um juiz que solta (Editora Giostri); Um juiz na era do ódio (Editora Giostri).