Brasil: (im)possíveis diálogos #27

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Uma rede cor de palha

Por Christiane Angelotti

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Vitor Rocha

Um aroma inebriante de bolo recém tirado do forno tomava conta da casa. Enquanto o bolo esfriava e Dulce preparava a cobertura de brigadeiro, era imediatamente transportada para cinquenta anos atrás, em que ela, aos seis anos, se equilibrava na ponta dos pés para ver a mãe retirando a panela de brigadeiro do fogão, ansiando em ajudar a enrolá-los, embora a mãe soubesse que não era bem essa a única intenção da menina. Era uma época feliz, da qual Dulce lembrava com nostalgia e resignação. Ela acreditava que na vida todos têm sua cota de felicidade e a dela havia sido consumida em alguns períodos da infância.

Dante, seu cachorro, estava completando onze anos e, como todos os anos, Dulce preparava um bolo para comemorar. Ele era um cão vira-latas que ela adotou quando tinha aproximadamente um ano, magro, bege encardido e de olhar triste. Ele tinha uma história de maus tratos em sua antiga casa. Foi resgatado após uma denúncia e foi parar em um lar temporário, na casa de Eduarda, colega de trabalho de Dulce. Eduarda contou para ela que o cão morava em uma casa de praia e passava fome, pois só era alimentado quando seus donos iam para lá. Ficava trancado em um pequeno quintal sem cobertura. Ao relento. Tomava sol e chuva. Passava frio e calor. Não tinha interação com seres humanos e apenas quando o casal, dono da casa, chegava, mais ou menos de quinze em quinze dias para passar o final de semana ou uma temporada, ele recebia ração e água fresca que ficavam lá ao relento até que acabasse. Ninguém compreendia como ele não havia morrido ainda. Dulce, ao conhecer um cãozinho tão novo com essa história, logo se apaixonou. E se reconheceu nele. Ela também era uma sobrevivente.

Quando criança, pouco tempo depois do seu aniversário que ficaria marcado em sua memória como um momento feliz, sua mãe desapareceu misteriosamente junto com seu irmão caçula de apenas cinco meses. Ela nunca esquecera a sensação e o desespero de chegar em casa e não encontrar a mãe. O pai, que fora buscá-la na escola após o expediente de trabalho, ficou transtornado. Procurou a mulher pelo sobrado em que moravam várias vezes. Checou se o telefone estava funcionando. Ligou para os sogros, para alguns amigos e nenhuma notícia. Saiu chorando pela rua, com Dulce em seu colo. Perguntou aos vizinhos, mas ninguém tinha visto sua esposa. Ao anoitecer ligou para a polícia, que só registrou o desaparecimento no dia seguinte. Horas se passaram. Depois dias, semanas… E nenhum sinal. A investigação policial registrou a denúncia como abandono do lar, uma vez que ela havia levado malas com roupas dela e do pequeno José.

Dulce jamais superou essa ausência. Nunca deixou de sentir que foi preterida pela sua mãe, que só levara o bebê com ela. Seus avós maternos ficaram abalados e brigaram na justiça contra o seu pai para ficar com a sua guarda. Mas a briga demorou muito. Enquanto isso, a menina convivia com períodos de tranquilidade do pai e outros em que ele perdia a luta contra o alcoolismo. Como o cachorrinho Dante, Dulce conhecia muito bem o que era ficar trancada em casa sem comida por alguns dias. Sozinha e assustada. Conhecia o medo, a rejeição e até a dor de ser espancada, sem compreender o motivo. Cresceu com o pai a chamando de “karma” e “castigo”, e reforçando que “nem a sua mãe te quis”. Quando estava sóbrio ele pedia desculpas, tentava agradar, mas a ferida já estava aberta. E sangrava.

A pequena Dulce passou uma parte da infância em um lar temporário, onde ficava a maior parte do tempo sozinha, pois as crianças mais velhas a agrediam. Voltou para a casa do pai quando ele se casou e mudou de vida, mas já não era bem-vinda. Morou com os avós maternos dos quinze aos vinte anos, época feliz, mas a jovem Dulce já não se permitia sentir felicidade e se isolava.

Aos vinte e cinco anos começou a trabalhar como revisora em um jornal. Não foi ao enterro do pai. Aos trinta, quando sua avó morreu, ela não chorou. Ficaram só ela e o avô, que encontrava somente em casa à noite e não tinham assunto. Quando ele ficou muito doente, Dulce internou-o em um asilo. Não gostava de visitá-lo, o lugar tinha cheiro de urina e mofo. Três anos depois ele faleceu.

Dulce agora era sozinha no mundo.

* * *

Dante demorou para fazer amizade com Dulce. Para ela, um mês pareceu um ano. Por outro lado, em pouco tempo o pequeno cão já tinha outra aparência. Estava gordinho, seu pelo bege ficou macio e brilhante. E até o seu olhar foi enchendo-se de vida e alegria. Dulce levava Dante impreterivelmente a cada quinze dias ao pet shop. Ele era um cão de dentro de casa e precisava estar sempre muito bem cuidado. Dulce e Dante moravam em uma pequena casa de vila que ela comprou havia quinze anos.

Dulce nunca se casou e não teve filhos. Também não tinha amigos, tinha colegas, como ela gostava de reforçar para si mesma.

Antes de se aposentar almoçava com os colegas de trabalho. Sempre reservada e fechada. Muitos deles não gostavam dela, diziam que Dulce não sorria, não falava de sua vida. Só conversava de coisas pontuais de trabalho, mas por algum motivo Eduarda gostava de Dulce. Por quase doze anos se sentou ao seu lado no trabalho. Era a única pessoa que ainda insistia em arrancar opiniões da colega. Era a única também que a chamava para almoçar.

Eduarda foi também a única visita que Dulce recebera em casa. Foram duas vezes, quando ela fez uma cirurgia no dente e outra no aniversário de onze anos de Dante. Foi uma tarde agradável em que ela riu, se divertiu, ficou sabendo histórias da redação do jornal, dos poucos funcionários antigos que ainda estavam na ativa, e recebeu uma crítica educada de sua colega:

— Dulce, você é muito nova para ficar em casa trancada com um cachorro. Você não faz uma atividade física, não interage com outras pessoas, não sai, não viaja. Não é possível que seja feliz assim!

Dulce não gostou. Achou extremamente ofensivo o comentário de Eduarda. Desconversou e tratou de apressar a comemoração. Decidiu que não convidaria mais a colega para ir à sua casa. Ninguém tinha o direito de julgá-la.

A vila na qual Dulce morava tinha dez casas. Eram pequenas casas coloridas, todas de mesmo tamanho e padrão. Casas planas com dois quartos, banheiro, sala, cozinha, uma área na parte de trás e uma pequena varanda logo na entrada, onde Dulce pendurava diariamente uma rede cor de palha, mas que nunca usava. Passou a fazer parte de uma espécie de ritual pendurar a rede e no final do dia enrolá-la e guardá-la. Alguns vizinhos reparavam nisso e imaginavam que ela poderia estar sempre esperando alguém. Quando ela foi morar lá havia um jardim florido, que diariamente ela regava. Flores perfumadas, uma pequena área gramada e verde. Aos poucos, Dulce parou de cuidar do jardim, que foi ficando seco, sem vida, abandonado. E um pouco antes de Dante chegar em sua vida, ela mandou cimentar tudo e aproveitou para pintar a casa toda de branco. No meio das casinhas coloridas da vila a de Dulce destoava. Era branca, sem jardim, com a janela e porta da sala sempre fechadas, dando sinal de que estava ocupada somente pela rede cor de palha na varanda.

Os dias passavam. Dulce saía com Dante para passear e levá-lo ao petshop. Ia ao mercado, cozinhava e comia sozinha. Corria com uma vassoura na mão para espantar as crianças que tocavam a campainha e fugiam. Xingava o vizinho que insistia em estacionar o carro na sombra da árvore de sua calçada. Mandou cortar a árvore.

Certa vez, alguém garantiu ter visto Dulce e Dante deitados na rede da varanda balançando. Ouviram-se risadas e latidos.

Dante viveu até os quinze anos. Tempo bom para um cãozinho vira-lata que poderia não ter passado do seu primeiro ano de vida.

Após a última ida ao hospital veterinário Dulce nunca mais foi vista. Diziam que ela havia enlouquecido. Podia ter adotado outro cachorro, pensavam os vizinhos.

A rede cor de palha, porém, continuava estendida na varanda.

Christiane Angelotti é escritora, fonoaudióloga, especialista em Distúrbios da Comunicação / Neurorreabilitação, editora de livros de literatura, literatura infantojuvenil e educação. Desde 2002 trabalha com conteúdo para sites infantis. Tem textos publicados em livros didáticos e sites de educação. É produtora de conteúdo, pesquisadora em infância e educação, fundadora do portal Para Educar.

Brasil: (im)possíveis diálogos #26

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Alerta Brasil

Por Mariana Salomão Carrara

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Vitor Rocha

Nunca trabalhe
nem tome um café sozinho
onde houver uma escola um recreio.
As crianças têm mania de gargalhadas
sem merenda sem pai sem país
Nunca trabalhe
com as gargalhadas ao fundo
espicaçando a sua tarde
sem merenda sem país
O seu ouvido paralisado
gargalhadas
Sua mão gigante:
o gira-gira paralisado
paralisado o pega-pega
Silêncio! o seu grito
o recreio paralisado:
Atenção, crianças,
o futuro acabou.

Mariana Salomão Carrara é paulistana, Defensora Pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos (Delicada uma de nós — Off-Flip, 2015), e os romances Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017), e Se deus me chamar não vou (Editoras Nós, 2019). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-Flip (2012), Sesc-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, Josué Guimarães e Ignácio de Loyola Brandão. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar. Integra o Coletivo literário Água na Peneira.

Brasil: (im)possíveis diálogos #25

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Resíduo

Por Ana Squilanti

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Vitor Rocha

Toca o interfone na cozinha e eu já me preparo para dizer que não pedimos comida, nem estamos esperando alguém. Seu Geraldo sonda se está tudo certo aqui. Vi vocês na câmera de segurança subindo as escadas do prédio, chinelos nos pés e moletom, os moletons surrados desbotados que usamos para ficarmos em casa. Ultimamente só ficamos em casa.

Vi pelo visor você e a Marina subindo correndo, pulando degrau e parando em frente ao 82, a Marina levando uma vassoura na mão, o morador para fora do apartamento, a outra moradora mulher mãe da criança, ela e a criança deviam estar para dentro. Elas estavam dentro? Sim, estavam bem.

Deu para ver o lábio dele sangrando também, Geraldo? Deu nada, a imagem aqui é preto e branco, de baixa qualidade, feito TV antiga em visor de pouca polegada. Ele sangrava, cortou a gengiva, sabe se lá como, escorria fino pelo canto da boca, ele só foi perceber quando indiquei. Manchou a manga da camiseta limpando.

Subimos ao ouvirmos os gritos, mais de um, em sequência espaçada. Marina dançava ao som da música enquanto cozinhava, quando um PARA foi dito e não fazia parte do texto. Depois soaram umas batidas descompassadas da bateria, percussão essa banda não usa, falei: diminui. Ela desligou a caixa e ouvimos uma porta ser esmurrada, um grito outro, VAI EMBORA. Não esperamos dizerem SOCORRO para subirmos com qualquer coisa que virasse arma. Era voz de mulher. VAI EMBORA. Mandando homem para fora. VAI EMBORA, GUILHERME.

Só que quem sangrava era o Guilherme, que eu acabara de descobrir o nome, o lábio rosado o olhar assustado, desculpa, meninas, ele pediu e abaixou a cabeça quando nos viu aparecer na esquina do hall. Foi uma briga acalorada demais, o fogo chegou em vocês lá embaixo, no… 63? Desculpa.

Deu para ouvir os gritos aqui mais embaixo também, Geraldo me conta. Alguns vizinhos ligaram na portaria saber o que acontecia. Eu me pergunto por que somente nós socorremos? Briga de marido e mulher, ele talvez respondesse. Foram seis denúncias no prédio nos últimos tempos.

Seis? Seis casos de violência doméstica. A polícia veio em dois, eu chamei em um. Em três foi verbal, nos outros foi para o físico. Vaso quebrado, garrafa jogada pela janela, um braço luxado. Os casais não têm conseguido conviver direito na quarentena, é tempo junto forçado demais.

No 15 a briga começou por louça e no 94 pela velocidade que um deles trocava de canal. O 123 está com vazamento no cano do banheiro, mas quem brigou entre si foi o 113. Está tudo bem aí, meninas, com vocês? Sim, está. Mulher com mulher não tem dessas, né? Até tem, não aqui. Eu olho de esgueio para a Marina, que divide o interfone comigo, duas orelhas para o alto-falante, os corpos perto. Ela aperta minha cintura.

Geraldo soa preocupado do outro lado, sinto ele tirando as pelinhas laterais à unha enquanto fala. Se você quiser ligar para saber como as pessoas realmente estão tem que ser em código, Geraldo, ou então a verdade se perde, mal acha caminho.

Treinamos. Desligo o interfone. Ele toca novamente.

— Alô! Aqui é da portaria.

— Oi, seu Geraldo.

— Oi! Tivemos alguns casos de violência no prédio, estou ligando para saber se você está bem. Quando eu perguntar do seu lixo domiciliar, você diz que pode continuar a descer com ele, se estiver tudo ok com a senhora, e se não estiver, me diz que prefere que busquemos no andar, aí a gente vê o que pode fazer. Você precisa que peguemos o lixo?

— Obrigada, Geraldo, eu cuido dele.

— Certo! Boa tarde.

Coloco o fone no gancho, a orelha feliz de ficar longe dali, doída do tempo pendurada, doída de tudo que ouviu. Marina tem a orelha vermelha também, tem a mão ainda na minha cintura, a mão que agora treme e desce pro punho, aperta minha palma, a ponta dos dedos. Ela estica as duas mãos para os restos de fruta na pia, passados demais para virarem suco, para a caixinha vazia de leite, e eu vou ao banheiro e trago a sacolinha de lá, pego umas garrafas e embalagens de salgadinho do pé do sofá.

Jogamos tudo no saco preto de cem litros no latão, até o imaterial que despejamos há pouco uma na outra, depois de presenciarmos a briga dois andares acima. Damos dois, três nós, bem fortes, na boca do saco, checamos se nada dali escorre, e descemos juntas com o lixo.

Ana Squilanti nasceu em Indaiatuba, interior de São Paulo, em 1989. É escritora, roteirista e farmacêutica. Seu primeiro livro Costuras para fora (Editora Nós, 2019) foi contemplado pelo Edital de Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de SP.

Brasil: (im)possíveis diálogos #24

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Luzia

Por Maira Garcia

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Vitor Rocha

Ela atendeu o último cliente e ascende a luz amarela atrás do Sol que faltou naquele quarto. O olho borrado vai manchar o lençol. Quando for uma hora, a mãe dela vai ligar para falar como anda a menina, o que aprontou na escola, o que descobriu sem ter ela por perto. O quarto deserto recolhe as sombras do dia. Perto das duas horas, depois do choro, toma um banho, esfrega o azeite no olho e aproveita pra tirar a maquiagem. Toma um leite morno, veste o short de malha e a blusa de gorro e apaga o Sol ao se esconder debaixo da manta bordada da avó. Pede pra sonhar com a filha, e que Deus a proteja que amanhã ainda é dia.

* * *

O mundo está acabando,
disse uma matéria
do jornal
que embrulhava o peixe
Na feira.
O mundo está acabando
e quando acabar
eu quero ver você
pra gente arrumar
a casa que a gente vai morar.
A casa que vai receber o jornal
dizendo que o mundo não acabou.
Que era tudo fake news.

* * *

Você tem dormido
comigo e não sabe,
sinto sua batata
da perna
quando abraço
suas costas,
sinto outras coisas
mas dizer seria
um embaraço,
não importa.
Então continue dormindo
comigo,
eu agradeço a preferência,
tem sido a alegria
da minha quarentena
contar com a sua perna
e presença.

* * *

Ouço o barulho
lá fora,
Sinto medo.
O barulho lá fora,
E você aqui dentro
É silêncio.

Maira Garcia nasceu em Ribeirão Pires, uma das cidades que integram a Grande São Paulo. Formada em Propaganda pela Eca-USP, é uma das mediadoras da Roda de Poesia e do Sarau Constelação Poética do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú, onde também é voluntária na Comunicação. Redatora, cantora e compositora, se assumiu poeta depois dos 40. Em 2011 começa o blog Depois da Lua de Ontem, hoje com mais de 3.100 textos escritos dentro do trem que sai do ABC para São Paulo. Em 2019, lança seu livro pela Editora Patuá, Depois da Lua de Ontem, onde se transfigura também em loba, astronauta e alienígena. No mesmo ano participa de mediações em rodas de poesia no Sesc São Paulo, nas unidades Interlagos, Itaquera e no Senac Aclimação. Em 2020 é selecionada para o Clipe de Poesia da Casa das Rosas e é convidada para a Primavera Literária Brasileira em Paris e Braga.

Brasil: (im)possíveis diálogos #23

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Errância: Late Afternoon

Por Carolyne Wright

(Anna Maria Maiolino, “Errância Poética” — from Da Terra Series)

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Vitor Rocha

Their footprints lead away from the brick kiln
past storage urns of pummeled, thumb-pressed clay
waiting in darkness for the potter. Their tracks
stray across the cobbled patio and studio garden
where the tortoise family feeds on mango pulp
and overripe papaya round a terracotta plate.

They move through the palm grove’s fallen coconuts
and into shade of the wide, whitewashed veranda
where they kick off flip-flops and unfasten sandal straps.
Bare-soled and empty-handed, they let themselves out
through the heavy grille-work gate, over dune grass
and onto the narrow, plank-work pier that crosses

the tidal stream. At the pier’s end, their naked feet
press into the ladder’s splintered rungs. They let go
and drop to the sand, where the praia extends a mile
at low tide into the Bay of All Saints.
Sun declining in the tropic sky, how far to wander,
they ask themselves, as evening shorebirds fly low

over the tide’s returning swell and night mists gather?

Publication credit:

First published by Hauser & Wirth New York, 2018, on a gallery “take-away” card for the exhibit, Errância Poética (Poetic Wanderings), of work by Anna Maria Maiolino (14 Nov — 22 Dec 2018). In collaboration with the Poetry Society of America.

Errância: à Tardinha

(Anna Maria Maiolino, “Errância Poética” — from Da Terra Series)

Suas pegadas levam para longe do forno à lenha
passando urnas de estocagem de argila socada
_____e desenhada a dedos
esperando na escuridão pelo oleiro. Suas trilhas
vagueiam pelo pátio de paralelepípedos e o jardim do estúdio
onde a família de tartarugas devora polpa de manga
e mamão passado em volta de um prato de terracota.

Movem-se entre os cocos caídos do palmeiral
e para dentro da sombra da larga varanda caiada
onde chutam chinelos e soltam tiras de sandália.
De solas nuas e mãos vazias, deixam-se sair
através do pesado portão gradeado, sobre a grama
de dunas e no cais estreito de tábua que cruza

o fluxo das marés. No final do cais, seus pés descalços
pressionam nas lascas dos degraus da escada. Soltam-se
e pousam de pé na areia, onde a praia se estende
meia légua na maré baixa da Baía de Todos os Santos.
O sol declinando no céu tropical, até onde vagar,
perguntam-se, enquanto as aves costeiras da noite voam baixo

sobre o retorno inchaço da maré e as névoas noturnas se reúnem.

Tradução para o Português da autora com Emanuella Leite Rodrigues de Moraes, Décio Torres e Marcelo Thomaz.

Crédito da primeira publicação:

O poema no inglês original foi publicado pela primeira vez por Hauser & Wirth New York, 2018, em um cartão da galeria “take-away” (para levar) para a exposição Errância Poética (Poetic Wanderings), de arte de Anna Maria Maiolino (14 de novembro a 22 de dezembro de 2018). Em colaboração com a Poetry Society of America.

About the Origin of This Poem — by Carolyne Wright

In October 2018, I was invited by Hauser & Wirth Gallery in NYC (in conjunction with the Poetry Society of America) to write a poem in response to a work of art in their upcoming exhibit, Errância Poética (Poetic Wanderings), from Da Terra series, by Italian-born Brazilian artist Anna Maria Maiolino. The poem would be printed on a take-away card featuring the artwork on one side and the poem on the other, and it would be free to gallery visitors. Since I had just spent two months in Bahia, Brazil, on an Instituto Sacatar Artist Residency, my thoughts were full of imagery from Bahia, and the sounds and rhythms of Bahian Portuguese. The poem’s errância takes place on the island of Itaparica in Bahia, and incorporates terms and materials from the artwork–tactile images, shapes, and textures–as well as the human inhabitants, possibly artists of Sacatar, who are moving through the landscape of the poem.

Sobre a origem deste poema — por Carolyne Wright

Em outubro de 2018, fui convidada pela Hauser & Wirth Galeria em Nova York (em conjunto com a Poetry Society of America) para escrever um poema em resposta a uma obra de arte em uma nova exposição, Errância Poética (Poetic Wanderings), da série Da Terra, da artista brasileira nascida na Itália, Anna Maria Maiolino. O poema seria impresso em um cartão para os visitantes levarem, e apresentaria a obra de arte de um lado e o poema do outro e estaria de graça para os visitantes da galeria. Desde que eu acabei de passar dois meses na Bahia, Brasil, em uma Residência Artística do Instituto Sacatar, os meus pensamentos estavam cheios de imagens da Bahia e dos sons e ritmos do português baiano. A errância do poema acontece na Ilha de Itaparica, na Bahia, e incorpora termos e materiais da obra – imagens, formas e texturas táteis – bem como a vida animal e os habitantes humanos, possivelmente artistas do Sacatar, que estão se movendo pela paisagem do poema.

Carolyne Wright’s most recent books are This Dream the World: New & Selected Poems (Lost Horse Press, 2017), whose title poem received a Pushcart Prize and appeared in The Best American Poetry 2009; and the bilingual volume by Chilean poet Eugenia Toledo, Trazas de mapa, trazas de sangre / Map Traces, Blood Traces (Mayapple Press, 2017). Carolyne spent a year in Chile on a Fulbright Study Grant and also traveled throughout Brazil. She returned to Brazil in 2018 on an Instituto Sacatar artists residency on the Island of Itaparica in Bahia. Since then, from her home in Seattle, she has been writing about Bahia and translating poetry from Portuguese, including the work of Leonardo Tonus.

Carolyne Wright. Seus livros mais recentes são This Dream the World: New & Selected Poems (Lost Horse Press, 2017), cujo poema título recebeu um Prêmio Pushcart e apareceu em The Best American Poetry 2009; e o volume bilíngue da poeta chilena Eugenia Toledo, Trazas de mapa, trazas de sangre / Map Traces, Blood Traces (Mayapple Press, 2017). Carolyne passou um ano no Chile em uma Bolsa de Estudo Fulbright, e também viajou pelo Brasil. Ela voltou ao Brasil em 2018 em uma residência artística do Instituto Sacatar na Ilha de Itaparica, Bahia. Desde então, da sua casa em Seattle, ela escreve sobre a Bahia e traduz poesia do português, inclusive a obra de Leonardo Tonus.

Brasil: (im)possíveis diálogos #22

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

520, um monólogo

Por Fred Di Giacomo

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Vitor Rocha

— Bróder, posso falar uma coisa entre nós?

— Claro!

— Esse lance de copiar os Estados Unidos em tudo…

— Ah, a gente é muito colonizado, né?

— Tipo, não existe mais racismo no Brasil, tá ligado?

— Em que Brasil?

— No nosso Brasil, pô! Aqui nunca foi que nem nos Estados Unidos, que nem na Alemanha, essas porras de forno e câmara de gás, saca? Não foi um troço oficial.

— Sei lá, mano, sempre convivi com racismo.

— Mas você é branco, cara.

— Por isso mesmo. Sempre convivi com racistas, ué.

— Ih, lá vem.

— Lembra quando meu irmão ficou com uma menina negra na festa de RP?

— Não lembro, não. Ficou, é?

— Ficou, ficou.

— Seu irmão também era pegador pra caramba, hein?

— Eu lembro que vocês disseram que ela parecia o Kanu.

— Kanu?

— Aquele jogador da Nigéria.

— Falamos?

— Sim, pô, não lembra?

— Ha, ha, ha, nóis é foda… Devia ser baranga também, né? Ah, fala sério, não pode falar quando mulher é feia agora? Se fosse baranga branca a gente zoava também.

— Mas não foi só com essa. Quase todas mulheres negras do nosso estágio tinham apelidos secretos: Predador, Macunaíma, Aquático…

— Pô, não é bem assim. Olha só, cê já trepou com uma neguinha? Aposto que não. Todo esse discurso e… Bom, eu trepei e gostei, viu?

— Olha, aí, tô falando…

— Mas tô dizendo que gostei da mina, porra!

— Posso dar um exemplo?

— Manda.

— Trabalhei como jornalista dez anos antes de ganhar o Jabuti, né?

— Claro, puta orgulho, passou pelas maiores revistas do Brasil. Vários prêmios e tal. Avanhandavense mais famoso do país!

— Pois é, e não podia ter negro na capa das revistas.

— Como assim?

— Falavam que não vendia, que o público não se identificava com o negro.

— Ah, duvido, isso é teoria da conspiração, vai.

— Aconteceu comigo, cara, tô falando. Comigo e com meus colegas.

— Pô, mas isso não é racismo, é a lei do mercado. Você mesmo disse que negro na capa não vende revista. O dono vai fazer o quê? Caridade? É a mesma coisa que você obrigar as pessoas a comprarem um jiló pra cada três tomates. Ninguém gosta de jiló.

— Mas, mano, pensa: se você escolhe quem pode ou não aparecer em capa de revista, você cria uma realidade paralela, onde o negro não existe fora das notícias policiais.

— Pode ser, sei lá, não manjo dessas coisas cabeça.

— Cara, e não é só uma questão de capa de revista. Fui produzir um ensaio com várias modelos pra um site; ensaio sensual, saca?

— Ha, ha, ha, cê é safadão, igualzinho seu irmão.

— Então, o fotógrafo selecionou as seis modelos mais gatas da agência. Aí, me ligou e perguntou “Tem uma das meninas aqui que é morena. Tem problema?” E eu falei “Como assim?” E ele: “Não me leve a mal, eu não sou racista, mas é que tive muito problema aí com modelo negra, sabe? O pessoal não gosta.”

— E você?

— Mandei fotografar, claro. Eu não ia conseguir ficar no trabalho se tivesse cortado alguém só por causa da cor.

— Porra, cara, do jeito que você tá falando parece que é mais difícil um negro sair na capa de uma revista do que entrar numa universidade.

— Se bem que nossa universidade era pública, mas tinha no máximo o quê? Dois negros pra cada 40 alunos?

— Mas era faculdade em São Paulo, né? Um estado mais branco, questão de porcentagem.

— 40% da população é negra em São Paulo. 40%, cara. Dois alunos por sala dá só 5%.

— Ah, mano, sei lá, não curto discutir política, manja? Tudo isso que você falou é verdade mesmo? Por que você nunca escreveu um conto sobre isso antes?

— Pô, mas vou escrever um conto sobre essas fitas? Depois nunca mais arrumo emprego.

— Sei lá, pelo menos aprovaram a redução da maioridade penal, né?

— É…

— Ih, que foi? Ah, para, isso não tem nada a ver com direita e esquerda. Fala a verdade, não é bom?

— Pô, não consigo entender como a redução da maioridade penal vai resolver o problema da violência no Brasil.

— Para, cara, quero ver quando alguém da sua família for estuprado por um traficante menor de idade. Você vai chorar pra quem? Pro Batman? Pro Boulos?

— Será que o Thor vai rodar agora?

— Ah, ele atropelou um tiozinho, não foi bem “matar matar”, né?

— Atropelou e matou, ué.

— Mas ele não tinha a intenção, coitado, tomou o maior susto. Tá até hoje a base de Rivotril.

— Mas pelo novo estatuto ele deveria ser preso. Ainda mais dirigindo em alta velocidade e bêbado.

— Tá louco, cara, imagina o Thor na cadeia? Aquilo é um inferno, não é pra gente que nem nós. Pensa, cara, ele só cometeu um erro. Imagina estragar a vida dele bem agora que ele vai fazer intercâmbio no Canadá? Thor é irmão da Poli, bróder, nossa amiga. Para!

— Ué, mas você não é a favor da redução?

— Eu sou, mas pra bandido—bandido saca? Aqueles filhas da puta que ficam estuprando, matando, com cara de ruim. O Thor tinha cara de gente normal.

— Tipo o filho do Luciano Castro.

—Pô, que que tem ele? O Castro é um dos empresários que mais acredita nesse país. Sabe o tanto de gente que ele emprega aqui na região? Os caras levam o Brasil nas costas, bróder.

— Mas você lembra que o filho dele chapou uma menina e forçou ela depois?

— Ah, para, cara, ele tinha 14 anos, nem sabia o que estava fazendo. E não foi bem estupro-estupro, né?

— Sério?

— Pô, estupro-estupro é quando entra um neguinho na sua casa e espanca sua mulher e come ela na marra, entende? Hoje em dia, também, tudo é estupro. Daqui a pouco até eu vou virar estuprador.

— Como assim?

— Ah, cara, isso aí é meio que histeria feminista. Estuprador-estuprador não é gente que nem eu e você. Esses Champinha aí da vida tem que castrar, mesmo, jogar na cadeia pra virar mulherzinha.

— Cara, você lembra do Breno que morava em Glicério?

— Putz, meio que lembro.

— Lembra de uma história em que ele ficava com uma mina que era a fim dele, mas ele não queria mais nada e a mina não desgrudava?

— Pode crê, a mina era mó chiclete,né? Toda romântica e o Brenão só querendo putaria.

— Aí, um dia ele falou que só ficava com ela, se ela des…

— Ha, ha ,ha, o Brenão era safo. Aquele era malandro.

— Pois é, a mina não queria, ele pressionou, ela acabou topando e, na hora h, machucou, sangrou, aí ele mandou ela ir embora, xingando de porca, nojenta…

— Foi meio pesado.

— Meio?!

— Ah, bróder, eu entendi seu ponto, mas é que o Brenão era um cara bem retardado. A gente não é assim, vai.

— Claro que é, velho, se liga, toda pornografia que a gente vê, é tudo meio estupro.

— Bróder, fale por você: eu tô namorando minha novinha tranquilo. Nem punheta tô batendo. Quando quero sexo é só jogar uma ideia.

— Mas mesmo namorando, quantas vezes você não forçou a barra?

— Ah, mano, mas é namoro, né? Meio que faz parte do combinado. Se for assim, então, até eu já fui estuprador?

Conversavam há horas ou há dias, nunca saberemos. Conversavam há 520 anos e estariam conversando, ainda hoje, sem perceber o mar vermelho que se acumulava sob seus pés ameaçando afogá-los. O santo tentava com amor convencer o anjo caído de seus pecados. Pelo diálogo, pelo sermão, pelo exemplo; um dia esses dois irmãos haveriam de se reconciliar. Tão distantes, mas tão próximos.

Debatiam ou apenas olhavam-se no espelho? A voz que vinha da direita, máscula e grave, não se diferia plenamente da voz que convergia pela esquerda.

Quando a sombra se aproximou da dupla, eles não a perceberam. Aqualtune ressurgiu, altiva, de lança prata na mão e varou os pálidos siameses. Ao que era mal espetou pelas costas, sem concessões. O que se absteve, que foi cúmplice, foi atravessado no peito, mas teve a chance de vislumbrá-la. Morreu com um alívio no rosto.

Sobre a montanha de músculos daqueles homens sangrados, ergueu-se, enfim, alguma justiça.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista; caipira punk nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê e escreve na coluna Arte fora dos centros do portal UOL.

Brasil: (im)possíveis diálogos #21

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Cripta-Domingos

Por Kátia Bandeira de Mello Gerlach

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Vitor Rocha

Hoje é domingo e amanhã, que é hoje, é domingo. Neste movimento em que os anos perdem os seis sentidos, como se se livrassem de dedos, uma semana de domingos se somará a semanas dominicais, e juntando as peças miúdas, o calendário será preenchido por domingos. Em inglês ou alemão, Sunday oder Sonntag, dia solar musculoso e maiúsculo. Bom domingo, repete o vizinho ou o pensamento. As vozes se confundem: sou eu o vizinho, ou o pensamento começou a inventar vizinhos, ou os vizinhos inventam pensamentos que flutuam no ar como jatos nocivos de aerossol.

Um mar de nuvens paira sobre as montanhas desejoso de aterrissar sobre a cabeça abalada por pensamentos e vizinhos e o que se repete é a saudação de um bom domingo, gratidão pelo domingo que anoitece e amanhece sem parar. O céu preserva-se intacto, os jardins resignaram-se a semear domingos, e nunca será tarde para reparar nas árvores e plantas transformadas em seres dominicais, arrebentando o ar numa sequência de sermão eucarístico. Os acontecimentos insistem na fixação dominical, um entra e sai do altar; quem comunga o pãozinho matinal absorve a inviabilidade de uma segunda-feira ou o retorno de uma semana litúrgica completa, munida de dias densos como o caldo de lembranças acumuladas no lobo pré-frontal e no hipocampo do cérebro.

Um ou mais vírus voam pelas asas de pequenos morcegos aventureiros, replicando o processo da polinização, dispensando as abelhas ameaçadas de extinção. Conhecedores profundos das noites e das estrelas e, antes relegados a coadjuvantes em filmes de terror, os morcegos acabaram por aceitar o papel de protagonistas. Stephen King não se surpreenderia se o morcego número um, o principal propagador de uma epidemia em 2020, ganhasse a estatueta do Oscar galardoada ao “Parasita” de 2019.

Corona, o vírus de sequência decodificada em laboratório, é populista e pode alcançar a dimensão de um Alexandre, o Grande. A história contemporânea mostra a atração do eleitor comum (este ser cheio de incógnitas raramente desvendadas por pesquisas e gráficos) por líderes com personalidades, no mínimo, desagradáveis como resfriados, ou nos quadros extremos, graves infecções pulmonares. Líderes explosivos, sem papas nas línguas, sacodem a poltrona do eleitor comum, distraem-no das séries televisivas. O par incurável do populismo com o narcisismo nutre pragas que permeiam a humanidade, inclusive a vindoura praga dos livros sobre a praga. Quando o império do Corona sucumbir, incendeiem-se estas páginas e deixem O Decamerão de Boccaccio reinar supremo em seu altar. Há coisas do passado nas quais não se mexe, é brincar com o fogo.

Sobre livros: para os leitores que encomendam exemplares pelo correio real, pois que saibam que os livros, como os humanos, precisam ser desinfectados e depositados num canto de quarentena. Debate-se como melhor expurgar livros já que, como a medicação contra malária aplicada de forma errada no corpo doente, os livros podem ser destruídos e virarem pó no processo.

Sobre o pó: enquanto os caixões são fumigados por um soldado na igreja de San Giuseppe em Seriate na Itália, o combate se estende pós-morte na China, onde os cadáveres saem dos necrotérios hospitalares para crematórios e nunca se vendeu tantas urnas. À guisa dos indivíduos pulverizados em fornos, as urnas são iguais, produzidas em massa. As orquestras sinfônicas tocam, cada músico com seu instrumento num quadrado virtual. YoYoMa exibiu um concerto de cello solo.

Sobre o fogo: escritores do ramo de Franz Kafka, um profeta, devem considerar queimar páginas preenchidas pela sépia, ou cepa, da pandemia. Não se recomenda perpetuar no papel isto que se vê, é preferível a folha em branco, a cegueira intermitente de Saramago, a gota serena da qual se cria cidades e habitantes invisíveis, como se saísse de um estado de comatose. Remete-se ao filme “Goodbye, Lenin” passado na Berlim de 1989, quando a mãe despende o tempo da queda do muro sedada e desperta numa cidade inexistente simulada pelo filho a fim de evitar o choque da transformação do leste em oeste. As chamas que desintegram os corpos mutilados pelo Corona podem levar consigo os livros provocadores de pânico e terror aos vivos. Muitos estão prestes a morrer de medo ou a testemunhar uma catarse universal. Uns temem os domingos, outros temem as sombras dos domingos. Esta vontade de fogo advém da pressa do indivíduo em retornar ao pó e interromper a visão do sofrimento estampado nas manchetes de jornais domingueiros preguiçosos.

De modo inusitado, o Corona trouxe os hospitais e comunidades marginalizadas para as primeiras páginas das edições parrudas de domingo. Os moradores de rua, vetores de transmissão como os morcegos, começaram a incomodar e foram armazenados em ónibus inoperantes nos depósitos periféricos. Quando antes se ignorava a falta de saneamento e recursos básicos da maioria da população, ou as filas de quarteirões ao redor de hospitais públicos, as eternas macas nos corredores da morte, os doentes sem acesso a um lençol para cobrir o corpo, o advento deste vírus contagioso estremeceu as centrais de emergência. No metrô de Nova York, em abril, incendiários acendiam centelhas nos trilhos. Suspeita-se que fossem escritores obcecados livrando-se de seus livros e enaltecendo a coragem de Anna Karenina ao atirar-se em frente ao trem de Chirico e encerrar o seu percurso como personagem de Tolstói. No New York Presbyterian Hospital, um paciente com câncer suicidou-se ao receber o diagnóstico do Corona em plena invasão das suas vísceras, enforcou-se com os lençóis que faltam aos doentes nos hospitais públicos brasileiros.

Um bravo nova-iorquino atirou-se da janela de um edifício downtown e no Queens, em Throggs Neck, um anónimo pulou da ponte. O corpo permaneceu estirado na margem do rio, os que caminhavam naquela manhã esqueceram do distanciamento social imposto e se aproximaram do defunto. Queriam tocá-lo, sentir a sua humanidade esfriada pela água e pela morte. Camus não apenas escreveu sobre A Peste, tratou dos suicídios em seus escritos. A médica chefe do ambulatório se envenenou por não suportar a impotência de Sísifo diante da força destruidora do Corona. Antes da mais recente pandemia viral, discutia-se em certos círculos a pandemia de suicídios entre os jovens universitários americanos, os menos vulneráveis à pandemia do Corona; haveria o Corona retardado os suicídios juvenis.

Para contrastar com a brancura de uma cidade de fábula nórdica, feita de neve e tábuas de madeira, os pássaros que proliferam são os corvos contemplados por Poe. Os corvos distinguem-se dos urubus pelo seu porte elegante, o seu bico pontiagudo, olhos acesos. Nas praias dos trópicos, nos balneários, observa-se os urubus que devoram os restos dos peixes deixados por pescadores. Naquelas praias, o pescador arranca as partes que lhe interessam do peixe e joga os restos na areia e isso faz parte da abundância que a natureza brasileira oferece, sobra para alimentar os urubus. Em lugares de escassez, como no interior do sertão nordestino, uma cabeça de peixe alimenta uma família inteira com um bom pirão de farinha de mandioca, a única farinha que não se consegue comprar no supermercado da cidade imaginária. Na prateleira do supermercado, encontra-se uma fileira de farinhas: de trigo, de milho, de amêndoas, de nozes, de avelãs, de fécula de batata etc. etc. mas a farinha de mandioca não chega à profundeza do hemisfério norte. Um senhor de cabelo grisalho que arruma as alfaces de manhã calça luvas e veste máscara. O Corona marcha, lança-se nas caravelas de Sagres e busca-se um Camões para elaborar versos dignificando os dois astronautas da tripulação da SpaceX. Após um lançamento interrompido pelas névoas, estes homens completaram uma semana de dias úteis na estação espacial internacional, onde esquecem que, na terra, ninguém escapa do magnetismo dos domingos.

Felizardos os que possuem janelas abertas para as ruas ou varandas no ano lunar do Rato. Das janelas, quando as luzes da cidade se apagam, a estação espacial que orbita o planeta há vinte e dois anos, pode ser avistada como uma estrela. Uma estrela que brilha de horizonte em horizonte. Uma estrela intrusa, acesa aos olhos do cosmos pela vontade intelectual humana. Das varandas, italianos cantam réquiens, franceses rezam com Piaf e Aznavour e brasileiros embalam as almas com samba, música sertaneja, forró, frevo, o ritmo que for, para além dos cultos e sermões dominicais. Há quem se exaspere com a bateria de sons e vislumbre confinar-se num silêncio inteiro, quase ou totalmente divino. Ana Branco fotografa aqueles que veem a vida passar debruçados sobre os umbrais das janelas e varandas. Nara Leão e a banda partiram precocemente.

Sobre “A Festa no Céu”: corvos e urubus não funcionam como pombos correio ou morcegos transmissores, não atravessam a estratosfera, sequer circundam o mundo, e jogam poeira nos olhos como elementos do vento. Desistiu-se de treinar pombos para carregarem mensagens de amor nestes tempos absolutamente antirromânticos. Os pombos, cujos filhotes nunca são vistos até que se confundam com suas mimeses adultas, espalham-se em matizes cinzentas e desenvolvem manchas coloridas nos pescoços conforme envelhecem e escurecem os seus bicos como bocas humanas violetas. O segredo dos borrachos se guarda nos ninhos em penhascos e cavernas, ou lugares que se assemelhem às rochas que os alcunham de “pombos das rochas”. Há uma sabedoria nestes esconderijos armados pelos pais para que os filhotes se fortaleçam, efeito comparável ao do isolamento humano exigido para achatar curvas epidemiológicas. Sob o comando do Corona, inverte-se a regra porque a necessidade de abrigo se faz mais prevalente entre os progenitores, os borrachos são superiormente resistentes. Ademais, a despreocupação bíblica com a fome é marcante entre ovíparos. Estes seres que não vivem de sermões dominicais, existem numa definição de fé diferente da humana, confiam em domingos luscos.

Desconhece-se se acaso as aves sonham ou se a ciência que as acusa de descendentes de dinossauros é correta. Apenas um filósofo como Swedenborg seria capaz de comprovar a ligação entre os anjos, as almas e os pássaros errantes. Assistido pelas lentes do binóculo, o escritor americano Jonathan Franzen corria mundo para avistar aves raras até que os aviões pararam de voar. Na prática da ioga, o corpo é a casa, e a casa é o corpo. As cavidades do coração se expandem com amor e compaixão. O menino de doze anos chega ao parque, ouve os sons ao redor e magicamente localiza sobre a copa da árvore corujas e águias e, num dos galhos remotos, aponta para o casal de cardeais vermelhos. Ele abre mão do binóculo, basta-lhe intuição.

Antecipando uma vacina contra a Terceira Guerra Mundial, centenas de cientistas trabalham de domingo a domingo à caça de anticorpos, usam plasmas de antigos enfermos. Os cientistas colaboraram no desfecho da segunda guerra mundial inventivamente. Camus construiu “A Peste” como a metáfora sobre a doença do fascismo, que antecede o capitalismo de estado vigente. O carismático Corona surge como furúnculos na pele de infectados e reivindica o realinhamento da participação do estado na economia, os mais árduos defensores capitalistas, as corporações, estendem o pires aos governos para obterem os frutos do suor dos operários da modernidade. As máquinas que imprimem dinheiro de papel equivalem a respiradores hospitalares. Eis que os morcegos de domingo giram em torno de cripta-moedas, cripta-ideologias e balões de oxigênio, sendo que o vitorioso Corona vive anaeróbico por horas insondáveis, enquanto os humanos sufocam em menos de um minuto com um joelho alheio fincado no peito.

Kátia Bandeira de Mello Gerlach, natural do Rio de Janeiro, é escritora-poeta-artista visual radicada em Nova York desde 1998. Seu trabalho é fortemente marcado pelo movimento surrealista e pela patafísica. É curadora da Revista Philos. Os seus livros, dentre eles Colisões Bestiais (Particula)res, são publicados pela Confraria do Vento. Foi homenageada pela Flipoços 2019 como escritora sem fronteiras, pelo seu trabalho de divulgação internacional da literatura brasileira e compõe o elenco de escritores do Clube de Leitura do Instituto Moreira Salles em Poços de Caldas, organizado pelo professor Sérgio Montero Aguiar.

Brasil: (im)possíveis diálogos #20

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Lockdown

Por Lucius de Mello

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Vitor Rocha

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito — não fosse pelos meus sonhos ruins.” (Shakespeare, Hamlet)

O pôr do sol engaiolado está ainda mais distante da lua mascarada. Estrelas em quarentena pouco se expõem à sacada do Cosmos para ver a posse do verme na cova rasa, ainda quente. Trôpega, a larva à terra desce cavoucando delícias, sob a rampa de torrões pisados e remexidos, até alcançar o berço esplêndido na escuridão. Só ali, bem no fundo, as margens parecem plácidas. Na superfície, em raios fúlgidos, a imagem da tristeza resplandece. Uma luz artificial estica as horas com holofotes intensos. A claridade postiça termina de apagar o crepúsculo de cores laranja, ouro, quindim, rouge com violeta que desaparece no horizonte. Horizonte? Onde? No buraco, responde uma voz masculina ao ouvir o lamento de um filho que acabara de enterrar o pai. Enterramos o seu Brás, grita para todos ouvirem. Gigante pela própria natureza, o defunto é grande, precisa dessas centenas e de outras milhares de sepulturas para o descanso final. Paz no futuro? E a vergonha do passado? Cada corpo que eu sepultei hoje aqui é um pedaço do Brasil, proclama o homem ao levar a pá ao peito. Horizonte, onde? Cadê? E daí? Enquanto isso, o verme, dono de impávida indiferença, começa o farto e sinistro banquete.

O impacto do vírus mortal abre crateras ao luar. São Jorge de gesso guarda uma delas. Antes da meia-noite o cemitério não fecha. Ainda falta terminar o serviço funerário de pelo menos dez vítimas da Covid-19. Comovido com o destino do seu Brás o orador está ali para trabalhar. Conta que acabara de ser contratado, temporariamente, pela prefeitura de São Paulo para reforçar o exército de coveiros no movimentado sepulcrário. Que era pago só para enterrar números, mas impressionado com o genocídio e com a conta que nunca fecha, decide fazer do “bico” no reino do corvo papel bem mais complexo do que o de assistente da morte. E naquela arena sombria improvisa um revolucionário monólogo: Todos os crânios enterrados esses dias no Brasil sou eu! Vou falar por eles! Defendê-los desse crime bárbaro contra a humanidade! Sou o velho e a vovó da casa de repouso, o morador da favela, o negro, o índio, o morador de rua, o médico, a técnica de enfermagem, o motorista do ônibus, o motoboy, a sua mãe, seu irmão, sua namorada, seu marido, a professora, o pipoqueiro, o bêbado e o equilibrista, o Blanc, o Sérgio Sant’Anna, o cientista… O crânio que ainda não veio… Ou aquele que nem sabe quem é… Essas valas não representam o fim. Elas são trincheiras! O discurso só parava quando o companheiro de cena dava um cutucão: Oh, maluco, quer ser demitido? Vamos cavoucar!

O coveiro de 24 anos tem um grupo de teatro amador na periferia paulistana. Foi obrigado a trancar a faculdade de filosofia por não ter condições financeiras para pagar as mensalidades. Branco, magro, com cabelos pretos e longos até os ombros, usa uma barba rala e um cavanhaque que lembram um homem do século XVI. Beleza elisabetana florescida em semente paraibana que, na maior parte do tempo, fica escondida sob o figurino de plástico e tecido branco celeste. Mesmo na cápsula de segurança o coveiro, mais oráculo que angélico, empenha-se em confortar os parentes dos mortos e fazê-los entender que muitas vidas poderiam ter sido salvas não fosse a prepotência do presidente do Brasil e de alguns políticos em não dar crédito à voz da ciência e tratar a pandemia como uma gripezinha. Daria tempo de ter salvo milhares de brasileiros, milhares, se o mal fosse encarado como inimigo real antes de ter chegado por aqui. Apesar da armadura sufocar o som, o coveiro-ator consegue projetar a voz e se fazer ouvir.

Ele não hesita em se jogar nos braços das ideias e das palavras. Conversa baixinho com os fantasmas dos mortos. A verdade precisa ser conhecida. Sim, era fake news, dona Maria! A tragédia quer um prólogo póstumo! Os colegas dizem que é loucura, imaginação, circo. Mas ele sabe que precisa intervir na cena, que tem mais talento para artista do que para ilusionista de cadáveres. Naquele teatro de mil fossos, o ator emociona-se com as famílias e procura conhecer e interagir com seus dramas. Dribla o chefe, o relógio, as novas regras da necrópole, busca acolher aquelas pessoas entristecidas, machucadas pelo adeus fugaz e glacial; arrisca-se para tratá-las com a nobreza que elas merecem. Quer restituir-lhes a tão apagada coroa da dignidade.

Brilho mesmo tem as luzes dos drones e helicópteros que estão muito acima das cabeças. Os enterros em série são transmitidos on-line e podem ser assistidos na palma da mão. Triste ironia para quem chora os seus mortos e que mal pode chegar próximo ao caixão lacrado. Alguns coveiros comentavam os bastidores da cena vendo tudo no próprio celular. Já o subversivo funcionário tinha os olhos voltados às famílias quebradas, incompletas, muitas vezes representadas por uma única pessoa.

— Por favor, me deixe ficar mais cinco minutos perto da minha mãe, não consegui me despedir dela. Gravei uma mensagem de áudio e enviei para o celular do médico da UTI, pedi para colocarem pertinho do leito para que assim minha mãe pudesse me ouvir mas não sei se de fato atenderam ao me pedido. Seja gente, seu coveiro, implora uma filha inconsolável…

Todos que pedem, ele atende. Discute com os colegas, produz argumentos, coloca o emprego e a vida em risco. E o caixão lacrado da dona Albani fica alguns minutos a mais sob o olhar da herdeira desolada. A mulher pergunta pelo nome do funcionário solidário, quer levá-lo no coração. Mas ele se recusa a revelar: Minha identidade? Pode me chamar de Lockdown — sou poeira da poeira do barro das botinas dos coveiros de Hamlet. O personagem que represento aqui nessa tragédia é a minha humilde homenagem aos dois assistentes da morte que nasceram da pluma de Shakespeare e, com humor e sagacidade, ajudaram o príncipe a pensar, refletir, diz seriamente, cuspindo terra, atolado entre crânios.

O próximo! ordena o chefe dos coveiros. Lockdown logo pergunta: Era sua noiva? 22 anos! Como se chamava a sua musa? Beatriz. Era trabalhadora da saúde. Será minha rainha eternamente, nos casaríamos mês que vem, respondeu o jovem completamente abalado. Ela se contaminou no hospital e em uma semana morreu, mesmo no respirador. Eu tive mais sorte. Também sou enfermeiro. Só você veio acompanhar o enterro? Eu e a irmã dela… A ordem é chegar e enterrar mas vamos dar dez minutos para a última cena dessa história romântica. O noivo se aproxima do caixão e, baixinho, faz uma emocionada declaração de amor. Os colegas de Lockdown aproveitam para beber um copo de água e ele improvisa uma trilha sonora para a cena derradeira de Marcelo e Beatriz. Interpreta Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc. O compositor também tinha morrido, naquele mesmo dia, vítima da pandemia do coronavírus:

“Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Mas fico sem jeito, calado e ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei. Num dia azul de verão, sinto o vento. E há folhas no meu coração, é o tempo… Recordo um amor que perdi, ele ri… Diz que somos iguais, se eu notei… Pois não sabe ficar e eu também não sei… E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro, sozinhos. Respondo que ele aprisiona, eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto. E o Tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver…”

Viva Beatriz! Palmas para a enfermeira, pede o coveiro às poucas pessoas que estavam espalhadas pelo cemitério e os minguados aplausos acontecem. Era o que faltava para completar o teatro de Lockdown que pensa no bis e também é atendido. Alguém ainda brada: bravíssima! Quanta apoteose no apocalipse. O ator se enfia na cova e, de lá do fundo, reverencia sua rara plateia. Lembrem-se, há algo de maligno no reino do Brasil! finaliza com tom professoral.

Antes da descida do caixão de Beatriz, Marcelo pede ao coveiro para retirar do fundo da vala um objeto que lhe causa estranheza. O que é isso? pergunta o noivo. Lockdown pega, limpa bem com as mãos e esclarece: O que sobrou do crânio de uma vaca! O bicho deve ter morrido aqui há muitos anos. Toma! Segura! E joga a cabeça da ossada bovina para o enfermeiro. Marcelo olha fixamente para a máscara branca de gado e, envolvido por um breve silêncio, parece hipnotizado por aquele fóssil composto de cálcio e fósforo. Acorda, Hamlet! Sua Ofélia vai partir, instiga Lockdown. O rapaz coloca a caveira ao lado dos próprios pés e joga margaridas sobre o caixão da amada.

A enfermeira é enterrada. Sem olhar para trás, Marcelo e a cunhada deixam o trágico teatro. Lockdown pega novamente o crânio da vaca e observa os ossos tortuosos e cheios de fissuras, os côncavos que assinalam o lugar dos olhos, das narinas ofegantes, os vazios agora escavados na face… Se você ainda tiver alguma dúvida pode perguntar que eu esclareço, diz ele ao fragmento de ossada com prazerosa ironia. Depois, prende a cara descarnada do animal numa pequena cruz de madeira sob os olhares da próxima família e começa outro monólogo: Precisamos corrigir nossos caminhos, mudar a rota que nos trouxe a esse inferno. Seguir o rastro da poesia, as pegadas dos poetas… Quem, de fato, matou esses brasileiros? O vírus ou a indiferença desse governo?

De mãos dadas com o teatro e a morte, Lockdown deixa o cemitério à meia-noite com o pelotão de coveiros. Alguns vão embora de carona na van da prefeitura, outros de moto ou de bicicleta. Lockdown segue a pé e solitário porque mora perto do trabalho. Chega em casa, toma um banho frio, bebe uma cerveja, come um sanduíche e vai deitar na rede da varanda. Fuma o último cigarro daquele longo dia, até ensaia abrir um livro mas, morto de cansaço, adormece pensando no amor roubado de Beatriz e no reino de esqueletos chamado Brasil.

Lucius de Mello é doutorando em Letras na Sorbonne Université — Paris e na Universidade de Sao Paulo. Escritor e jornalista. Segundo lugar no Prêmio Jabuti (2003), na categoria melhor reportagem/biografia, com o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro (Objetiva, 2002; Planeta, 2015), obra em processo de adaptação para série de TV, nos Estados Unidos, renomeada Madame Eny, em co-produção brasileira e americana para plataforma de streaming. Autor do ensaio Dois irmãos e seus precursores — o mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum (Humanitas, 2014), resultado da dissertação de mestrado defendida na USP (2013). Sua pesquisa de doutorado investiga o sonho de Balzac de escrever uma Bíblia Mundana, tomando como base as influências e as conexões entre A Comédia Humana e a narrativa bíblica. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (LEER-USP). Autor convidado da Primavera Literária, Paris (2020).

Brasil: (im)possíveis diálogos #19

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Delação

Por Rodrigo Novaes de Almeida

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Vitor Rocha

Eu tinha 12 anos de idade quando me interessei por escutar as histórias dos outros, para os adultos, uma criança não eram ouvidos que se dessem importância, mal sabiam, esses homens da narrativa que estou prestes a contar, que de histórias reveladas em um restaurante de um clube naval, uma delação seria feita cerca de trinta anos depois. Talvez estejam todos mortos hoje, o meu pai, médico ginecologista obstetra e um dos mais jovens do grupo de amigos que jogavam tênis duas, às vezes três vezes por semana no clube, está morto há dez anos. Outro homem, um senhor já naquele tempo, alemão que dividia o ano em seis meses no Brasil e outros seis na Alemanha, não sei o seu ramo de negócio, eu costumava observar com mais atenção, talvez por ser um dos poucos estrangeiros que conhecia, um dos poucos homens com barba e cabelos ruivos que conhecia, e ter um sotaque estranho ao falar sobre a segunda grande guerra e a prisão depois de seu avião ser abatido pelas forças aliadas, talvez no espaço aéreo entre a França e a Inglaterra (o campo de prisioneiros era neste país), quando tinha 19 anos. Recrutado aos 17, ele dizia que muitas vezes acontecia de pilotos inimigos em voos de reconhecimento balançarem as asas do avião para informar ao inimigo que não estavam dispostos a travar uma batalha naquele dia. Não era sempre que funcionava. Não sei o que devo considerar anedota de um velho prisioneiro de guerra, mentiras ou exageros de um adolescente numa memória de quarenta anos atrás ou o que são verdades históricas em seus relatos, enquanto eu e meus irmãos mais novos jantávamos frango à la Kiev, as esposas falavam a respeito de frivolidades, e esses homens de meia-idade conversavam sem se importarem comigo; eu os escutava sobre seus trabalhos, suas vidas, que àquela altura, naquele tempo, me pareciam muito mais interessantes do que as de qualquer outro grupo, como as de suas mulheres banais. Evidentemente, eu não entendia tudo o que diziam. Havia em especial um homem baixo, gordo, para mim com rosto e jeito antipáticos, que era quem eu menos compreendia, apesar do alemão com sotaque carregado e de suas histórias fantásticas, era este outro um homem que, anos depois, conhecendo melhor os tipos humanos (e não necessariamente suas almas), eu o classificaria como desses que gostam de contar vantagens, assumir publicamente as próprias safadezas como conquistas respeitáveis, dignas de homens inteligentes que sabem aproveitar uma oportunidade, e se deleitam com isso; e os amigos, se não ouviam com admiração e um pouco de inveja, hoje eu especulo, ficavam instigados a compreender melhor como este país, dentre todos, realmente fazia as suas engrenagens públicas e privadas funcionarem há muitas e muitas décadas sempre iguais. Eram meados dos anos de 1980, a transição da ditadura acontecia de forma gradual e lenta como explicava o missal, como se espera de uma nação que investe em manter a memória do que é importante morta acima de tudo, o homem das oportunidades acabara de chegar a um posto de diretor de uma das mais promissoras empresas petroleiras do mundo, pública, nacional, filha de um país continental e mãe de centenas de cidadãos premiados, diplomados, fluentes em línguas de alto e baixo clero, especialistas no comércio exterior e no submundo do crime do colarinho branco. O digníssimo recém-empossado diretor vangloriava-se da nova casa na região serrana, era lá que todos os executivos dos esquemas da companhia compravam suas mansões, em condomínios fechados, e conversavam sobre como eram absolutamente homens especiais em um país como o deles. Cerca de vinte anos depois, eu conheceria outro diretor da mesma empresa, quatro ou cinco presidentes civis da República depois, com casa em um dos mesmos condomínios. Havia mais sofisticação, é claro. Mais dinheiro em jogo, também. O país era mais rico, o roubo maior. Este homem de negócios mantinha escritório em cobertura de prédio tombado da antiga capital federal, cidade da verdadeira sede da empresa, de onde podia ir e vir a pé, escritório no país mais rico do mundo e postos avançados em regiões de miséria da África, que davam milhões às empresas lobistas dele e de sócios ex-funcionários da estatal. “Mas antes eram outros tempos”, diriam homens de fala e gesto mansos, “agora os tempos mudaram e não vamos tolerar isso!” Esse outro diretor foi um dos presos durante uma das maiores investigações federais sobre corrupção de compra e venda de uma refinaria que mal poderia ser vendida a um ferro-velho, segundo os jornais. “Os tempos mudaram”, havia anos não comíamos mais frango à la Kiev, o diretor atarracado e antipático dos anos de 1980 já devia estar aposentado ou morto, os esquemas eram conhecidos por todos e replicados nas empresas privadas, setores inteiros concebidos dentro delas para a corrupção, uma corrupção civil-militar desde o início (tal como hoje, neste final de mundo interminável sobre esta terra devastada pela peste e pelos homens). Entretanto, eram tempos em que já estávamos um pouco distantes da anti-civilização dos antigos porões contra a ameaça comunista, o velho fantasma que amedrontava as noites de toda a gente mediana deste país. Tais bárbaros viriam depois, novamente, com crucifixos, o antigo testamento debaixo de um braço e a legislação importada do outro, pois a nação caíra nas mãos de um partido que se voltava para questões difíceis, complicadas, que nunca deveriam ser mexidas, feridas que não tocamos — “a miséria é um bem nacional e a senzala só mudou de nome há cento e trinta e um anos” é uma ladainha popular da pátria. A oportunidade para derrubar um governo, qualquer governo, ainda mais um nessas condições, e de rapinar todo um país outra vez todo o tempo esteve aí e o departamento de estado estrangeiro que contribuiu durante décadas para as ditaduras e as republiquetas de bananas do continente, como se tornaram de modo folclórico conhecidas em todo o mundo, sempre soube disso. Só que agora o ouro negro jorraria em abundância e havia uma tecnologia avançada para extrair um oceano de óleo de debaixo da terra e do mar. Então, aconteceu. A história, pelo menos esta, todos afirmam saber, independentemente do nome que dão. Mas as demais histórias todos também sabiam, dos tenentes e capitães aos generais, brigadeiros e almirantes, dos vereadores aos deputados, senadores e presidentes, dos engenheiros aos diretores das grandes empresas público-privadas, porque nada neste país é apenas público ou apenas privado, como nada da memória é guardado por muito tempo, mesmo em seus porões, mesmo hoje aqui, diante de vocês, deste tribunal, ao fazer minha delação, com mais de trinta anos de atraso, a delação de menino de 12 anos que adorava comer frango à la Kiev e ouvir histórias.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Formado em Comunicação Social — Jornalismo, com pós-graduação em Publishing e passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática e Estação Liberdade. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, no prelo), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

Brasil: (im)possíveis diálogos #18

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Peteca

Por João Maria Cícero

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Vitor Rocha

“Me forçaram a falar português.”

Forçaram-me, eu pensei… Mas quem fala assim hoje em dia? Ela falava bem, ela se comunicava. Não é assim a abordagem comunicativa? Nós só percebíamos que não era brasileira na famosa ‘peteca’ quando ela dizia palavras que começam com p, t e c (com som de k). Peteca é um símbolo que estudamos na aula de fonética do inglês. É uma sutileza do inglês que não existe em português e fica bem marcado quando não somos nativos. Esses três sons em inglês são aspirados. Falamos ‘time’ com uma aspiração do ‘t’, quase como uma tomada de ar. E a peteca marca bem a diferença entre brasileiros e americanos quando falamos a língua um do outro.

Enquanto ela ia explicando a experiência no Brasil, eu ia buscando falhas no seu português para que minha posição de poder pudesse ainda ter algum efeito. Os alunos quando voltavam do Brasil, chegavam senhores da língua — da minha língua. E dentro da minha posição de poder, eu precisava encontrar maneiras de garantir meu espaço de ‘learned’ e os alunos de ‘learners’ como se dizia em inglês arcaico.

“Não foi difícil. As pessoas no Brasil são muito simpáticas e todo mundo achava que eu era brasileira. Acho que pela minha raça…”

Ninguém usa a palavra raça no Brasil. Ninguém fala de raça no Brasil, mas todo mundo tem uma opinião sobre a sua cor, especialmente se você é estrangeiro. Ainda assim, quando ela fala ‘raça’ algo soa estranho no meu ouvido. Talvez seja o meu racismo internalizado, algo que ainda habita no meu corpo branco brasileiro privilegiado. No mesmo grupo, uma aluna me disse que eu era ‘branco’ — pausa — ‘brasileiro’. “Brazilian white”, ela disse em inglês. Afinal tal categoria não existia em português. Eu era branco, mas não white de acordo com ela.

“A parte mais difícil foram as aulas…” Interessante como a aspiração não aparece quando há um ‘r’ antes do ‘t’. Porém ela voltou com esse sotaque carioca, estava até falando ‘merrrmo’. Quem fala assim? Que som é esse? Eu poderia ensiná-los a não falar assim antes que fossem ao Brasil. Nós evitamos o uso do ‘r’ caipira, por que não evitar o ‘merrmo’? Porém, o ‘r’ capira está dominando São Paulo, até a capital… O refúgio do nosso ‘r’ cantado estava sendo tomado pelo ‘r’ caipira. O que será de mim na velhice? Eu vou ser aqueles velhinhos que falam engraçado, como quando eu era criança e achava graça dos velhinhos que ainda falavam o ‘r’ inicial como se fosse espanhol. “roda”.

“Durante as aulas eu fiquei muito perdida sobre o que fazer. Os professores não explicam a lição de casa….”

Lição de casa é bem infantil. Ninguém usa o termo na faculdade, mas aqui nos Estados Unidos, a universidade é um pouco (ou bastante) infantilizada e os alunos precisam de lição de casa toda aula. Eles precisam saber quantas páginas por dia precisam ler. Eu preciso dar lição de casa todo dia. Não existe aquele sistema de chegar e falar, falar, falar por horas. Os alunos pagam muito caro e precisam participar das aulas. Eles precisam sentir o produto pedagógico como um objeto físico que se pode tocar. Eu não sou suficiente. Os meus livros expostos no meu escritório para que os alunos admirem durante as minhas office hours, as palestras gravadas online, os textos publicados em algum jornal de prestígio. A aprendizagem é concreta nos Estados Unidos, é o preço do mercado educacional que cobra quase um quarto de um milhão de dólares por quatro anos em uma universidade de prestígio.

“Eu passei as duas primeiras semanas perdida sem saber muito bem o que fazer nas aulas. Era tudo tão fácil para todo mundo. Até que um outro estudante me ajudou e começamos a organizar as leituras dos textos da aula de História do Brasil. Era um curso muito bom. Eu aprendi muito sobre a história do Brasil. Muitas coisas que já tínhamos falado no nossa aula…”

NA nossa aula. Os alunos vão terminar o curso ainda trocando o gênero gramatical das coisas. Logo no início eu explico a diferença entre gênero social e gênero gramatical, mas algumas palavras vão até o final do curso sendo trocadas. Mensagem, ponte, leite, aula e classe, tema (na verdade todas as palavras que terminam em -ema e -ção). Apesar disso ela falava muito bem. Eu estava impressionado com a fluência dela.

“Falamos muito de ditadura, tropicalismo, democracia, golpes políticos… O Brasil é um desastre.”

Essa foi a primeira vez que eu interferi na apresentação. Ela disse ‘um desastre’ e deu um sorrisinho maroto. Como se ela tivesse preparado esse momento para dizer na minha frente. Ela sabia onde estava pisando. Ela sabia que não podia criticar o brasileiro, mesmo com o desastre do atual governo. Ela sabia que mencionar a palavra desastre tão perfeitamente pronunciada para o mais insatisfeito brasileiro seria um ataque. E ela ainda disse desastre como eu, paulistano, diria. Ela esqueceu a pronúncia do ‘s’ chiado carioca na minha frente.

Desastre…

“O que você quer dizer com desastre?” Ela estava preparada para a minha pergunta. A apresentação dela estava milimetricamente preparada. Ela havia inclusive pensado no tempo necessário para as perguntas.

“Not very diferente from us here in the U.S, né?” Enquanto ela comparava com os Estados Unidos, ela avançou um slide na apresentação e colocou uma foto dela com os colegas de curso. Ela era a única mulher no grupo de estudantes de Economia. Ela usava uma gravata, símbolo da faculdade. Ela era a única pessoa ‘de cor’ na foto, no meio de uns trinta ‘white brazilians’. Ela sabe que eu conheço a expressão em inglês “a picture is worth a Thousand words”. Ela sabe que eu sei que o Brasil é um desastre…

“Pode continuar de onde você parou a sua apresentação.”

João Maria Cícero é escritor e parte do professor João Nemi Neto. Ele mora em Nova York e dá aulas de português. Como poeta, ele já fez parte da coletânea Tente Entender o que tento dizer. Poesia: HIV/ AIDS organizado pelo poeta Ramon Nunes Melo (Bazar do Tempo, 2018). Ele também colaborou com um coletivo de escritores latino-americanos para o livro The US without us (Sangría Editores, 2016). Seu último livro Corpo(s) (2017) foi publicado pela Editora Giostri em São Paulo. Como professor, ele escreve sobre sobre Pedagogia e teoria queer com foco em sexualidade e gênero. Seus artigos já saíram nas Revistas Foreign Policies, Intellectus entre outras. Seu próximo livro, Anthropophagic Queer: Contemporary Brazilian Cinema, sai em 2020 pela Wayne State University Press nos Estados Unidos.