Brasil: (im)possíveis diálogos #20

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Lockdown

Por Lucius de Mello

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Vitor Rocha

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito — não fosse pelos meus sonhos ruins.” (Shakespeare, Hamlet)

O pôr do sol engaiolado está ainda mais distante da lua mascarada. Estrelas em quarentena pouco se expõem à sacada do Cosmos para ver a posse do verme na cova rasa, ainda quente. Trôpega, a larva à terra desce cavoucando delícias, sob a rampa de torrões pisados e remexidos, até alcançar o berço esplêndido na escuridão. Só ali, bem no fundo, as margens parecem plácidas. Na superfície, em raios fúlgidos, a imagem da tristeza resplandece. Uma luz artificial estica as horas com holofotes intensos. A claridade postiça termina de apagar o crepúsculo de cores laranja, ouro, quindim, rouge com violeta que desaparece no horizonte. Horizonte? Onde? No buraco, responde uma voz masculina ao ouvir o lamento de um filho que acabara de enterrar o pai. Enterramos o seu Brás, grita para todos ouvirem. Gigante pela própria natureza, o defunto é grande, precisa dessas centenas e de outras milhares de sepulturas para o descanso final. Paz no futuro? E a vergonha do passado? Cada corpo que eu sepultei hoje aqui é um pedaço do Brasil, proclama o homem ao levar a pá ao peito. Horizonte, onde? Cadê? E daí? Enquanto isso, o verme, dono de impávida indiferença, começa o farto e sinistro banquete.

O impacto do vírus mortal abre crateras ao luar. São Jorge de gesso guarda uma delas. Antes da meia-noite o cemitério não fecha. Ainda falta terminar o serviço funerário de pelo menos dez vítimas da Covid-19. Comovido com o destino do seu Brás o orador está ali para trabalhar. Conta que acabara de ser contratado, temporariamente, pela prefeitura de São Paulo para reforçar o exército de coveiros no movimentado sepulcrário. Que era pago só para enterrar números, mas impressionado com o genocídio e com a conta que nunca fecha, decide fazer do “bico” no reino do corvo papel bem mais complexo do que o de assistente da morte. E naquela arena sombria improvisa um revolucionário monólogo: Todos os crânios enterrados esses dias no Brasil sou eu! Vou falar por eles! Defendê-los desse crime bárbaro contra a humanidade! Sou o velho e a vovó da casa de repouso, o morador da favela, o negro, o índio, o morador de rua, o médico, a técnica de enfermagem, o motorista do ônibus, o motoboy, a sua mãe, seu irmão, sua namorada, seu marido, a professora, o pipoqueiro, o bêbado e o equilibrista, o Blanc, o Sérgio Sant’Anna, o cientista… O crânio que ainda não veio… Ou aquele que nem sabe quem é… Essas valas não representam o fim. Elas são trincheiras! O discurso só parava quando o companheiro de cena dava um cutucão: Oh, maluco, quer ser demitido? Vamos cavoucar!

O coveiro de 24 anos tem um grupo de teatro amador na periferia paulistana. Foi obrigado a trancar a faculdade de filosofia por não ter condições financeiras para pagar as mensalidades. Branco, magro, com cabelos pretos e longos até os ombros, usa uma barba rala e um cavanhaque que lembram um homem do século XVI. Beleza elisabetana florescida em semente paraibana que, na maior parte do tempo, fica escondida sob o figurino de plástico e tecido branco celeste. Mesmo na cápsula de segurança o coveiro, mais oráculo que angélico, empenha-se em confortar os parentes dos mortos e fazê-los entender que muitas vidas poderiam ter sido salvas não fosse a prepotência do presidente do Brasil e de alguns políticos em não dar crédito à voz da ciência e tratar a pandemia como uma gripezinha. Daria tempo de ter salvo milhares de brasileiros, milhares, se o mal fosse encarado como inimigo real antes de ter chegado por aqui. Apesar da armadura sufocar o som, o coveiro-ator consegue projetar a voz e se fazer ouvir.

Ele não hesita em se jogar nos braços das ideias e das palavras. Conversa baixinho com os fantasmas dos mortos. A verdade precisa ser conhecida. Sim, era fake news, dona Maria! A tragédia quer um prólogo póstumo! Os colegas dizem que é loucura, imaginação, circo. Mas ele sabe que precisa intervir na cena, que tem mais talento para artista do que para ilusionista de cadáveres. Naquele teatro de mil fossos, o ator emociona-se com as famílias e procura conhecer e interagir com seus dramas. Dribla o chefe, o relógio, as novas regras da necrópole, busca acolher aquelas pessoas entristecidas, machucadas pelo adeus fugaz e glacial; arrisca-se para tratá-las com a nobreza que elas merecem. Quer restituir-lhes a tão apagada coroa da dignidade.

Brilho mesmo tem as luzes dos drones e helicópteros que estão muito acima das cabeças. Os enterros em série são transmitidos on-line e podem ser assistidos na palma da mão. Triste ironia para quem chora os seus mortos e que mal pode chegar próximo ao caixão lacrado. Alguns coveiros comentavam os bastidores da cena vendo tudo no próprio celular. Já o subversivo funcionário tinha os olhos voltados às famílias quebradas, incompletas, muitas vezes representadas por uma única pessoa.

— Por favor, me deixe ficar mais cinco minutos perto da minha mãe, não consegui me despedir dela. Gravei uma mensagem de áudio e enviei para o celular do médico da UTI, pedi para colocarem pertinho do leito para que assim minha mãe pudesse me ouvir mas não sei se de fato atenderam ao me pedido. Seja gente, seu coveiro, implora uma filha inconsolável…

Todos que pedem, ele atende. Discute com os colegas, produz argumentos, coloca o emprego e a vida em risco. E o caixão lacrado da dona Albani fica alguns minutos a mais sob o olhar da herdeira desolada. A mulher pergunta pelo nome do funcionário solidário, quer levá-lo no coração. Mas ele se recusa a revelar: Minha identidade? Pode me chamar de Lockdown — sou poeira da poeira do barro das botinas dos coveiros de Hamlet. O personagem que represento aqui nessa tragédia é a minha humilde homenagem aos dois assistentes da morte que nasceram da pluma de Shakespeare e, com humor e sagacidade, ajudaram o príncipe a pensar, refletir, diz seriamente, cuspindo terra, atolado entre crânios.

O próximo! ordena o chefe dos coveiros. Lockdown logo pergunta: Era sua noiva? 22 anos! Como se chamava a sua musa? Beatriz. Era trabalhadora da saúde. Será minha rainha eternamente, nos casaríamos mês que vem, respondeu o jovem completamente abalado. Ela se contaminou no hospital e em uma semana morreu, mesmo no respirador. Eu tive mais sorte. Também sou enfermeiro. Só você veio acompanhar o enterro? Eu e a irmã dela… A ordem é chegar e enterrar mas vamos dar dez minutos para a última cena dessa história romântica. O noivo se aproxima do caixão e, baixinho, faz uma emocionada declaração de amor. Os colegas de Lockdown aproveitam para beber um copo de água e ele improvisa uma trilha sonora para a cena derradeira de Marcelo e Beatriz. Interpreta Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc. O compositor também tinha morrido, naquele mesmo dia, vítima da pandemia do coronavírus:

“Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Mas fico sem jeito, calado e ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei. Num dia azul de verão, sinto o vento. E há folhas no meu coração, é o tempo… Recordo um amor que perdi, ele ri… Diz que somos iguais, se eu notei… Pois não sabe ficar e eu também não sei… E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro, sozinhos. Respondo que ele aprisiona, eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto. E o Tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver…”

Viva Beatriz! Palmas para a enfermeira, pede o coveiro às poucas pessoas que estavam espalhadas pelo cemitério e os minguados aplausos acontecem. Era o que faltava para completar o teatro de Lockdown que pensa no bis e também é atendido. Alguém ainda brada: bravíssima! Quanta apoteose no apocalipse. O ator se enfia na cova e, de lá do fundo, reverencia sua rara plateia. Lembrem-se, há algo de maligno no reino do Brasil! finaliza com tom professoral.

Antes da descida do caixão de Beatriz, Marcelo pede ao coveiro para retirar do fundo da vala um objeto que lhe causa estranheza. O que é isso? pergunta o noivo. Lockdown pega, limpa bem com as mãos e esclarece: O que sobrou do crânio de uma vaca! O bicho deve ter morrido aqui há muitos anos. Toma! Segura! E joga a cabeça da ossada bovina para o enfermeiro. Marcelo olha fixamente para a máscara branca de gado e, envolvido por um breve silêncio, parece hipnotizado por aquele fóssil composto de cálcio e fósforo. Acorda, Hamlet! Sua Ofélia vai partir, instiga Lockdown. O rapaz coloca a caveira ao lado dos próprios pés e joga margaridas sobre o caixão da amada.

A enfermeira é enterrada. Sem olhar para trás, Marcelo e a cunhada deixam o trágico teatro. Lockdown pega novamente o crânio da vaca e observa os ossos tortuosos e cheios de fissuras, os côncavos que assinalam o lugar dos olhos, das narinas ofegantes, os vazios agora escavados na face… Se você ainda tiver alguma dúvida pode perguntar que eu esclareço, diz ele ao fragmento de ossada com prazerosa ironia. Depois, prende a cara descarnada do animal numa pequena cruz de madeira sob os olhares da próxima família e começa outro monólogo: Precisamos corrigir nossos caminhos, mudar a rota que nos trouxe a esse inferno. Seguir o rastro da poesia, as pegadas dos poetas… Quem, de fato, matou esses brasileiros? O vírus ou a indiferença desse governo?

De mãos dadas com o teatro e a morte, Lockdown deixa o cemitério à meia-noite com o pelotão de coveiros. Alguns vão embora de carona na van da prefeitura, outros de moto ou de bicicleta. Lockdown segue a pé e solitário porque mora perto do trabalho. Chega em casa, toma um banho frio, bebe uma cerveja, come um sanduíche e vai deitar na rede da varanda. Fuma o último cigarro daquele longo dia, até ensaia abrir um livro mas, morto de cansaço, adormece pensando no amor roubado de Beatriz e no reino de esqueletos chamado Brasil.

Lucius de Mello é doutorando em Letras na Sorbonne Université — Paris e na Universidade de Sao Paulo. Escritor e jornalista. Segundo lugar no Prêmio Jabuti (2003), na categoria melhor reportagem/biografia, com o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro (Objetiva, 2002; Planeta, 2015), obra em processo de adaptação para série de TV, nos Estados Unidos, renomeada Madame Eny, em co-produção brasileira e americana para plataforma de streaming. Autor do ensaio Dois irmãos e seus precursores — o mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum (Humanitas, 2014), resultado da dissertação de mestrado defendida na USP (2013). Sua pesquisa de doutorado investiga o sonho de Balzac de escrever uma Bíblia Mundana, tomando como base as influências e as conexões entre A Comédia Humana e a narrativa bíblica. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (LEER-USP). Autor convidado da Primavera Literária, Paris (2020).

Brasil: (im)possíveis diálogos #19

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Delação

Por Rodrigo Novaes de Almeida

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Vitor Rocha

Eu tinha 12 anos de idade quando me interessei por escutar as histórias dos outros, para os adultos, uma criança não eram ouvidos que se dessem importância, mal sabiam, esses homens da narrativa que estou prestes a contar, que de histórias reveladas em um restaurante de um clube naval, uma delação seria feita cerca de trinta anos depois. Talvez estejam todos mortos hoje, o meu pai, médico ginecologista obstetra e um dos mais jovens do grupo de amigos que jogavam tênis duas, às vezes três vezes por semana no clube, está morto há dez anos. Outro homem, um senhor já naquele tempo, alemão que dividia o ano em seis meses no Brasil e outros seis na Alemanha, não sei o seu ramo de negócio, eu costumava observar com mais atenção, talvez por ser um dos poucos estrangeiros que conhecia, um dos poucos homens com barba e cabelos ruivos que conhecia, e ter um sotaque estranho ao falar sobre a segunda grande guerra e a prisão depois de seu avião ser abatido pelas forças aliadas, talvez no espaço aéreo entre a França e a Inglaterra (o campo de prisioneiros era neste país), quando tinha 19 anos. Recrutado aos 17, ele dizia que muitas vezes acontecia de pilotos inimigos em voos de reconhecimento balançarem as asas do avião para informar ao inimigo que não estavam dispostos a travar uma batalha naquele dia. Não era sempre que funcionava. Não sei o que devo considerar anedota de um velho prisioneiro de guerra, mentiras ou exageros de um adolescente numa memória de quarenta anos atrás ou o que são verdades históricas em seus relatos, enquanto eu e meus irmãos mais novos jantávamos frango à la Kiev, as esposas falavam a respeito de frivolidades, e esses homens de meia-idade conversavam sem se importarem comigo; eu os escutava sobre seus trabalhos, suas vidas, que àquela altura, naquele tempo, me pareciam muito mais interessantes do que as de qualquer outro grupo, como as de suas mulheres banais. Evidentemente, eu não entendia tudo o que diziam. Havia em especial um homem baixo, gordo, para mim com rosto e jeito antipáticos, que era quem eu menos compreendia, apesar do alemão com sotaque carregado e de suas histórias fantásticas, era este outro um homem que, anos depois, conhecendo melhor os tipos humanos (e não necessariamente suas almas), eu o classificaria como desses que gostam de contar vantagens, assumir publicamente as próprias safadezas como conquistas respeitáveis, dignas de homens inteligentes que sabem aproveitar uma oportunidade, e se deleitam com isso; e os amigos, se não ouviam com admiração e um pouco de inveja, hoje eu especulo, ficavam instigados a compreender melhor como este país, dentre todos, realmente fazia as suas engrenagens públicas e privadas funcionarem há muitas e muitas décadas sempre iguais. Eram meados dos anos de 1980, a transição da ditadura acontecia de forma gradual e lenta como explicava o missal, como se espera de uma nação que investe em manter a memória do que é importante morta acima de tudo, o homem das oportunidades acabara de chegar a um posto de diretor de uma das mais promissoras empresas petroleiras do mundo, pública, nacional, filha de um país continental e mãe de centenas de cidadãos premiados, diplomados, fluentes em línguas de alto e baixo clero, especialistas no comércio exterior e no submundo do crime do colarinho branco. O digníssimo recém-empossado diretor vangloriava-se da nova casa na região serrana, era lá que todos os executivos dos esquemas da companhia compravam suas mansões, em condomínios fechados, e conversavam sobre como eram absolutamente homens especiais em um país como o deles. Cerca de vinte anos depois, eu conheceria outro diretor da mesma empresa, quatro ou cinco presidentes civis da República depois, com casa em um dos mesmos condomínios. Havia mais sofisticação, é claro. Mais dinheiro em jogo, também. O país era mais rico, o roubo maior. Este homem de negócios mantinha escritório em cobertura de prédio tombado da antiga capital federal, cidade da verdadeira sede da empresa, de onde podia ir e vir a pé, escritório no país mais rico do mundo e postos avançados em regiões de miséria da África, que davam milhões às empresas lobistas dele e de sócios ex-funcionários da estatal. “Mas antes eram outros tempos”, diriam homens de fala e gesto mansos, “agora os tempos mudaram e não vamos tolerar isso!” Esse outro diretor foi um dos presos durante uma das maiores investigações federais sobre corrupção de compra e venda de uma refinaria que mal poderia ser vendida a um ferro-velho, segundo os jornais. “Os tempos mudaram”, havia anos não comíamos mais frango à la Kiev, o diretor atarracado e antipático dos anos de 1980 já devia estar aposentado ou morto, os esquemas eram conhecidos por todos e replicados nas empresas privadas, setores inteiros concebidos dentro delas para a corrupção, uma corrupção civil-militar desde o início (tal como hoje, neste final de mundo interminável sobre esta terra devastada pela peste e pelos homens). Entretanto, eram tempos em que já estávamos um pouco distantes da anti-civilização dos antigos porões contra a ameaça comunista, o velho fantasma que amedrontava as noites de toda a gente mediana deste país. Tais bárbaros viriam depois, novamente, com crucifixos, o antigo testamento debaixo de um braço e a legislação importada do outro, pois a nação caíra nas mãos de um partido que se voltava para questões difíceis, complicadas, que nunca deveriam ser mexidas, feridas que não tocamos — “a miséria é um bem nacional e a senzala só mudou de nome há cento e trinta e um anos” é uma ladainha popular da pátria. A oportunidade para derrubar um governo, qualquer governo, ainda mais um nessas condições, e de rapinar todo um país outra vez todo o tempo esteve aí e o departamento de estado estrangeiro que contribuiu durante décadas para as ditaduras e as republiquetas de bananas do continente, como se tornaram de modo folclórico conhecidas em todo o mundo, sempre soube disso. Só que agora o ouro negro jorraria em abundância e havia uma tecnologia avançada para extrair um oceano de óleo de debaixo da terra e do mar. Então, aconteceu. A história, pelo menos esta, todos afirmam saber, independentemente do nome que dão. Mas as demais histórias todos também sabiam, dos tenentes e capitães aos generais, brigadeiros e almirantes, dos vereadores aos deputados, senadores e presidentes, dos engenheiros aos diretores das grandes empresas público-privadas, porque nada neste país é apenas público ou apenas privado, como nada da memória é guardado por muito tempo, mesmo em seus porões, mesmo hoje aqui, diante de vocês, deste tribunal, ao fazer minha delação, com mais de trinta anos de atraso, a delação de menino de 12 anos que adorava comer frango à la Kiev e ouvir histórias.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Formado em Comunicação Social — Jornalismo, com pós-graduação em Publishing e passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática e Estação Liberdade. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, no prelo), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

Brasil: (im)possíveis diálogos #18

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Peteca

Por João Maria Cícero

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Vitor Rocha

“Me forçaram a falar português.”

Forçaram-me, eu pensei… Mas quem fala assim hoje em dia? Ela falava bem, ela se comunicava. Não é assim a abordagem comunicativa? Nós só percebíamos que não era brasileira na famosa ‘peteca’ quando ela dizia palavras que começam com p, t e c (com som de k). Peteca é um símbolo que estudamos na aula de fonética do inglês. É uma sutileza do inglês que não existe em português e fica bem marcado quando não somos nativos. Esses três sons em inglês são aspirados. Falamos ‘time’ com uma aspiração do ‘t’, quase como uma tomada de ar. E a peteca marca bem a diferença entre brasileiros e americanos quando falamos a língua um do outro.

Enquanto ela ia explicando a experiência no Brasil, eu ia buscando falhas no seu português para que minha posição de poder pudesse ainda ter algum efeito. Os alunos quando voltavam do Brasil, chegavam senhores da língua — da minha língua. E dentro da minha posição de poder, eu precisava encontrar maneiras de garantir meu espaço de ‘learned’ e os alunos de ‘learners’ como se dizia em inglês arcaico.

“Não foi difícil. As pessoas no Brasil são muito simpáticas e todo mundo achava que eu era brasileira. Acho que pela minha raça…”

Ninguém usa a palavra raça no Brasil. Ninguém fala de raça no Brasil, mas todo mundo tem uma opinião sobre a sua cor, especialmente se você é estrangeiro. Ainda assim, quando ela fala ‘raça’ algo soa estranho no meu ouvido. Talvez seja o meu racismo internalizado, algo que ainda habita no meu corpo branco brasileiro privilegiado. No mesmo grupo, uma aluna me disse que eu era ‘branco’ — pausa — ‘brasileiro’. “Brazilian white”, ela disse em inglês. Afinal tal categoria não existia em português. Eu era branco, mas não white de acordo com ela.

“A parte mais difícil foram as aulas…” Interessante como a aspiração não aparece quando há um ‘r’ antes do ‘t’. Porém ela voltou com esse sotaque carioca, estava até falando ‘merrrmo’. Quem fala assim? Que som é esse? Eu poderia ensiná-los a não falar assim antes que fossem ao Brasil. Nós evitamos o uso do ‘r’ caipira, por que não evitar o ‘merrmo’? Porém, o ‘r’ capira está dominando São Paulo, até a capital… O refúgio do nosso ‘r’ cantado estava sendo tomado pelo ‘r’ caipira. O que será de mim na velhice? Eu vou ser aqueles velhinhos que falam engraçado, como quando eu era criança e achava graça dos velhinhos que ainda falavam o ‘r’ inicial como se fosse espanhol. “roda”.

“Durante as aulas eu fiquei muito perdida sobre o que fazer. Os professores não explicam a lição de casa….”

Lição de casa é bem infantil. Ninguém usa o termo na faculdade, mas aqui nos Estados Unidos, a universidade é um pouco (ou bastante) infantilizada e os alunos precisam de lição de casa toda aula. Eles precisam saber quantas páginas por dia precisam ler. Eu preciso dar lição de casa todo dia. Não existe aquele sistema de chegar e falar, falar, falar por horas. Os alunos pagam muito caro e precisam participar das aulas. Eles precisam sentir o produto pedagógico como um objeto físico que se pode tocar. Eu não sou suficiente. Os meus livros expostos no meu escritório para que os alunos admirem durante as minhas office hours, as palestras gravadas online, os textos publicados em algum jornal de prestígio. A aprendizagem é concreta nos Estados Unidos, é o preço do mercado educacional que cobra quase um quarto de um milhão de dólares por quatro anos em uma universidade de prestígio.

“Eu passei as duas primeiras semanas perdida sem saber muito bem o que fazer nas aulas. Era tudo tão fácil para todo mundo. Até que um outro estudante me ajudou e começamos a organizar as leituras dos textos da aula de História do Brasil. Era um curso muito bom. Eu aprendi muito sobre a história do Brasil. Muitas coisas que já tínhamos falado no nossa aula…”

NA nossa aula. Os alunos vão terminar o curso ainda trocando o gênero gramatical das coisas. Logo no início eu explico a diferença entre gênero social e gênero gramatical, mas algumas palavras vão até o final do curso sendo trocadas. Mensagem, ponte, leite, aula e classe, tema (na verdade todas as palavras que terminam em -ema e -ção). Apesar disso ela falava muito bem. Eu estava impressionado com a fluência dela.

“Falamos muito de ditadura, tropicalismo, democracia, golpes políticos… O Brasil é um desastre.”

Essa foi a primeira vez que eu interferi na apresentação. Ela disse ‘um desastre’ e deu um sorrisinho maroto. Como se ela tivesse preparado esse momento para dizer na minha frente. Ela sabia onde estava pisando. Ela sabia que não podia criticar o brasileiro, mesmo com o desastre do atual governo. Ela sabia que mencionar a palavra desastre tão perfeitamente pronunciada para o mais insatisfeito brasileiro seria um ataque. E ela ainda disse desastre como eu, paulistano, diria. Ela esqueceu a pronúncia do ‘s’ chiado carioca na minha frente.

Desastre…

“O que você quer dizer com desastre?” Ela estava preparada para a minha pergunta. A apresentação dela estava milimetricamente preparada. Ela havia inclusive pensado no tempo necessário para as perguntas.

“Not very diferente from us here in the U.S, né?” Enquanto ela comparava com os Estados Unidos, ela avançou um slide na apresentação e colocou uma foto dela com os colegas de curso. Ela era a única mulher no grupo de estudantes de Economia. Ela usava uma gravata, símbolo da faculdade. Ela era a única pessoa ‘de cor’ na foto, no meio de uns trinta ‘white brazilians’. Ela sabe que eu conheço a expressão em inglês “a picture is worth a Thousand words”. Ela sabe que eu sei que o Brasil é um desastre…

“Pode continuar de onde você parou a sua apresentação.”

João Maria Cícero é escritor e parte do professor João Nemi Neto. Ele mora em Nova York e dá aulas de português. Como poeta, ele já fez parte da coletânea Tente Entender o que tento dizer. Poesia: HIV/ AIDS organizado pelo poeta Ramon Nunes Melo (Bazar do Tempo, 2018). Ele também colaborou com um coletivo de escritores latino-americanos para o livro The US without us (Sangría Editores, 2016). Seu último livro Corpo(s) (2017) foi publicado pela Editora Giostri em São Paulo. Como professor, ele escreve sobre sobre Pedagogia e teoria queer com foco em sexualidade e gênero. Seus artigos já saíram nas Revistas Foreign Policies, Intellectus entre outras. Seu próximo livro, Anthropophagic Queer: Contemporary Brazilian Cinema, sai em 2020 pela Wayne State University Press nos Estados Unidos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #17

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“E daí?”

“Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa. Assim, na humanidade não para de morrer. Se você fala em vida, do outro lado tem morte. E as pessoas ficam ‘ó, ó, ó’. Por quê?” (Regina Duarte)

Por Angélica Amâncio

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Vitor Rocha

Por que
esse vírus
raivoso
parece latir
rumo ao porão,
ao precipício,
ao fundo do poço?

Treze de maio
132 anos depois
da canetada de Isabel, a princesa,
o número de negros
mortos
de coronavírus
no Brasil
quintuplica.

Faz dois meses
apenas
a primeira vítima
partia:
empregada doméstica
cento e vinte quilômetros
por dia
de Miguel Pereira
até o Leblon.

A patroa
recém-chegada da Itália
não mencionara
trazer na mala
como souvenir
um vírus.
Afinal, para quê mostrar
resultado de exame
para a gentalha, meu Deus?

Enquanto isso,
no Norte,
onde a floresta
continua a virar sertão,
o número de mortos
entre os indígenas
cresceu
em duas semanas
800%.

Longe dali,
em carros que custam
600 vezes
o valor
do auxílio emergencial,
marionetes desfilam
pelo fim
do confinamento
dos pobres
em verde-e-amarelo
alheias, insensíveis
à dança incessante
das escavadeiras.

É preciso
que cavem
velozes
que varram
para debaixo
da terra
os corpos
tantos, tantos
para que passem
a morte
como passaram
a vida
subnotificados
anônimos
atônitos
empilhados
uns sobre os outros.

Se tivéssemos
como presidente
um bom coveiro
e não um fake messias
talvez ao menos
no sepulcro
o abismo
que nos divide
não fosse tão profundo.

(13 de maio de 2020).

Angélica Amâncio é doutora em Literatura Comparada pela UFMG, em cotutela com a Université Paris Diderot — Paris 7. É pós-doutora em Literatura francesa, pela USP, e em Literatura lusófona, pela Université Sorbonne Nouvelle. Atualmente, é leitora de português na École Normale Supérieure, em Lyon, e chargée de cours no departamento de Estudo Ibéricos e Latinos-Americanos (EILA) e na l’ESIT (École supérieure d’interprètes et de traducteurs) — Paris 3. Suas pesquisas são voltadas, sobretudo, para as relações entre Literatura, outras artes e mídias. É também poeta, autora do livro Adagio ma non troppo e outras canções sem palavras (2015).

Brasil: (im)possíveis diálogos #16

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Confabulação

Por Virna Teixeira

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Vitor Rocha

Sentaram-se à mesa de jantar da enfermaria para a reunião usando máscaras. Movimentos gestuais. A linguagem das máscaras é intransitiva? Ela não lembra do acidente. O hipocampo foi lesado no começo da pandemia.

Sentada à mesa sem máscara diante da equipe. Como se estivesse nua e vulnerável, a boca e o nariz expostos. Os rostos recobertos, sentados em distância geometricamente precisa, estão fixados nela. Sua perplexidade não é neurológica, é real.

Este é um sonho ruim? Uma espécie de inquisição?

Amnésia anterógrada. As datas não significam nada. Há notícias sobre este vírus em toda parte.

Ela quer sair para fumar. Ela não lembra da admissão. Seu corpo mudou. Antes caminhava pelos corredores como uma escultura de Giacometti, os braços longos e pendulares. Agora precisa de roupas novas, mais largas. Manequim 38.

Lembra que estava numa livraria em Nova Iorque, em agosto de 2019, mas isto foi muito antes. Pensa que meu nome é Doctor Maria, porque sou latina.

No dia do acidente eu descia a rua com cervicalgia, após uma tração súbita e recente nas costas. Estava tonta e com choques descendo pelos braços. Tive delírios de neurologista com minha coluna. Imaginei que perderia meus movimentos. Quando alcancei o metrô tinha palpitações e suava.

Não sei quanto tempo passei no metrô. Eu estava fora da realidade, eu olhava para algumas pessoas com máscara e tinha medo. Concentrei na respiração. No trajeto, fui me acalmando. Era um ataque de pânico.

Cheguei em tempo para a reunião, foi um dia longo, que culminou com o acidente. Corremos. Lembro dos gritos, da garota anoréxica que chorava sem lágrimas, porque estava muito desidratada.

Mas ela sobreviveu. E esqueceu de tudo. Na semana seguinte, começou a quarentena.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. Poeta, tradutora, contista e editora. Seus livros de poesia foram publicados na América Latina, Portugal e Reino Unido. Virna tem um trabalho prolífico como tradutora, e publicou títulos de poesia escocesa, sul americana e francesa; numerosas traduções de língua inglesa; e versões de poesia brasileira para o inglês. Vive em Londres e dirige um projeto editorial independente, Carnaval Press, além de editar a revista bilingue Theodora. Ela também é médica e trabalha em hospital psiquiátricos no NHS.

Brasil: (im)possíveis diálogos #15

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Despedida

Por Leonardo Valente

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Vitor Rocha

— Eu queria poder lhe dar um abraço bem forte nesse momento tão difícil, mas não vai ser possível. Seu marido acaba de partir aqui do meu lado — contou chorosa a médica intensivista do hospital de campanha no Estádio do Maracanã, em videochamada da tela de seu tablet para o smartphone do primo.

O mundo que ameaçava desmoronar em etapas desabou por inteiro de repente. Tudo ficou turvo, sem sentido e aquelas palavras não pareciam conexas. Como assim ele morreu? Dez anos mais novo, 32, saudável, uma vida pela frente. Lindo. Engenheiro civil bem-sucedido, amante das artes, sensível. Como assim o casamento de um ano e meio terminou? Aquele casamento com uma festa inesquecível para as duas famílias na beira de uma praia paradisíaca ao pôr-do-Sol, como ele ousou ir embora? Quem vai fazer o jantar depois de um dia cansativo de trabalho? Quem vai se jogar no sofá, sorrir e falar sobre as bobagens e problemas do dia? Quem vai envelhecer junto e organizar a aposentadoria para morar em Portugal? Como ele tem coragem de interromper planos tão pequenamente grandiosos, tão doces e tão dependentes dos dois?

— Você precisa ser forte, primo, muito forte — pediu dessa vez aos prantos a médica, que precisou respirar fundo para continuar — você não pode sair do seu apartamento porque com certeza está contaminado, só não tem os sintomas. Não temos mais testes para confirmar, não temos mais equipamentos de segurança, não temos mais nada, nem sei como conseguiram montar essa UTI aqui no estádio, o hospital era para ter só leitos de enfermaria, mas a situação está muito grave, muita gente doente jogada nas calçadas, muita gente morrendo em casa. Seu filho está bem na casa da sua mãe, deixe-o lá por mais umas duas semanas, pelo menos, nem ele nem ela podem ter contato com você, e nem podem ir à rua, para o bem deles.

O filho. O que será do filho? O menino de três anos adotado e que chegou para alegrar a família quatro meses antes da pandemia. Como será criado só por um em vez de dois? Como é que se paga sozinho a prestação do apartamento? E a pequena poupança que está na conta dele? E o carro que está em nome da sogra, mas que é de ambos? E a conta no Instagram com fotos da família dignas de novela, quem tem a senha? E o amor, e o companheirismo, e os cinemas às sextas, teatros aos sábados e restaurantes aos domingos? Quem foi que morreu? Não pode ser ele, é algum engano, com certeza não faz o menor sentido, a TV tem denunciado muito erro desse tipo.

— Ele foi embora dormindo, nós o mantivemos em coma induzido. Foi tudo muito rápido, apenas três dias de UTI. Pelo menos não sofreu muito — tentou consolar a médica.

Meu Deus, três dias. Só três dias. Cinco de enfermaria de hospital e três de UTI. Semana passada ele estava em casa, fazendo risoto no meio da quarentena quando começou a tossir. Ponta de febre, coisa leve. Dormiu bem, acordou com um pouco de falta de ar e achou melhor ir ao médico. Ficou internado por precaução, ligava para casa duas vezes por dia, perguntava como estava o menino, como estava tudo. Parou de ligar quando piorou e foi transferido do hospital superlotado em Copacabana para a UTI no Maracanã. A prima disse que ele era forte e que ficaria bem, que daria notícias toda hora, que já já voltava para casa. Cadê as notícias sobre o estado dele? Ela está devendo. Quando ele volta? Por que não pode falar no celular?

— Assim que você me ligou para falar da transferência, vim para cá e me ofereci como voluntária, eles estão sem médicos e cuidei dele cada minuto. Você tem comida em casa, primo? Paracetamol? Tem Rivotril? Você vai precisar tomar. Ninguém pode ficar aí com você, ninguém vai poder te abraçar, te consolar e dar o ombro para você chorar. Você precisa segurar essa barra sozinho, mas nossa família está com você mesmo à distância. Se passar mal ou tiver falta de ar avise e corra para um hospital. Quer que eu peça para deixarem compras na portaria? Prefere comida pronta? O que você está precisando, olha para mim, fala alguma coisa, pelo amor de Deus. Eu também vou precisar de você agora, de sua ajuda, por ele.

Comida? Pra que comida? Comida em quarentena engorda. Alguém tem que ligar para a mãe dele que mora em Roma, ela nunca atende o telefone. O maldito genocida que está no Planalto não disse que era só uma gripezinha? Ela votou nele, filha da puta! Como se contrata funeral sem sair de casa? Ele precisa de um funeral digno, precisa de tudo de bom e do melhor que se pode oferecer, de carinho, de companhia, de alguém que atravesse essa barra junto, que segure as pontas porque tudo vai passar, sempre passa. Ele precisa de uma linda coroa de flores, quem vai trocar a roupa e fazer a maquiagem? Ele é muito vaidoso, não pode parecer abatido no funeral. Como pega atestado de óbito? INSS dá direito à pensão para casal homoafetivo? Ele vai precisar tomar uma sopa quando chegar em casa. Sem sair de casa fica difícil comprar as coisas para a sopa que tanto gosta, de repente ela pode realmente deixar algumas compras na portaria.

— Não vai ter funeral, primo. O corpo vai ser levado em caixão fechado para ser cremado em outra cidade. O caminhão do Exército vai levar. Aqui não tem mais como. O lado de fora do estádio está cheio de caixões, as calçadas do bairro estão lotadas também, só na entrada do metrô tem uns trinta. Eu preciso de você, primo, eu preciso que seja forte, porque a gente precisa liberar o corpo, é o que a gente pode fazer de mais digno para ele neste momento. Quanto mais rápido a gente liberar o corpo, melhor para ele, menos tempo vai ficar por aqui. Você me ajuda, meu querido? Vou resolver tudo, mas preciso de você.

O apartamento acabou de ser pintado, está novinho. O quarto do filho está todo decorado. Ele cuidou dos papéis de parede, escolheu a dedo, tanto o do canto da sala, preto e branco, quanto o do quarto do menino, todo azul. O imóvel de três quartos, com uma suíte e uma varanda, está lindo. Os tempos são muito duros, ninguém sabe quem vai segurar o emprego, o Brasil tem um governo insano e perdido que vai matar mais que o vírus, mas um casal unido e que se ama supera tudo. Não tem problema, as férias programadas para a Europa, por exemplo, vão virar férias no Nordeste os três serão muito felizes nessa viagem. Praia, Sol, pousada, comida típica, forró à noite, vai dar para fazer tudo. Essa doença maldita vai passar, serão necessários alguns sacrifícios e muita solidariedade, mas todos sairão mais fortes dessa. É horrível ficar em casa sozinho, mas é para o bem da família e essa fase vai acabar. O menino está seguro na casa da avó que mora no Rio, e que fica a duas quadras. Ele mesmo pegou o carro e o levou, para em seguida ir para o hospital. Tudo está bem e continuará bem.

— Meu querido, fala comigo, você não disse uma palavra, fala alguma coisa, por favor — pediu a médica ainda chorosa e muito preocupada com o primo. — Eu vou virar o tablet e vou mostrar o rosto dele para você, tudo bem? Não vai demorar. Eu mostro e você me diz sim, é ele, ou só faz um sinal de positivo com a mão, está certo? Ele está bem, não está inchado, está como se estivesse dormindo, só com os lábios um pouquinho roxeados e o rosto um pouquinho mais pálido, mas ele é lindo assim mesmo. Sempre foi muito bonito, está tão bonito quanto no dia do casamento de vocês. Assim, você também se despede dele, meu amor. Você manda um beijo, diz que o ama. Tenho certeza de que ele vai te ouvir, pode ser?

Sim! Todo mundo ouviu o aceite emocionado em alto e bom som naquela cerimônia inesquecível. Um casamento entre iguais que se amam é sempre um evento histórico, um recado de que há algo mais forte a unir os homens do que apenas a vontade dos hipócritas. Ali, todo mundo tinha certeza de que seria para sempre, “até que a morte os separe”, como disse o juiz. Quanto tempo ainda de quarentena? Por que o ministro da Saúde cada dia recomenda uma coisa diferente? Haverá uma guerra depois disso tudo? Como estará o país quando chegarem as bodas de prata? Como é que se corta o cabelo no meio dessa confusão toda se os salões estão fechados? E o funeral, ela não explicou o que é preciso fazer para organizar o funeral, é tão difícil nessas horas. Não! Espera! Parece que a construtora em que ele trabalha tem auxílio funeral, eles organizam tudo, mas será que está valendo, mesmo com o corte de metade do salário? Se cortaram o plano de saúde no meio da pandemia, podem ter cortado ao auxílio funeral também, as empresas não se importam com ninguém. Será que ele conseguirá segurar o emprego?

— Querido, olha ele aqui — disse a médica, apontando a câmera do tablet para o corpo do rapaz em cima da maca de UTI, com um avental azul e uma placa de metal bem sobre o peito com o número 2020 — Ele está sereno, ele está bem, primo. Ele precisa ir, outros estão esperando essa vaga aqui, tem muita gente precisando, tem fila de gente morrendo. É hora de se despedir. É ele? Diz para mim ou só faz um ok com a mão.

— Não é ele! Sou eu!

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou os romances Charlotte Tábua Rasa (2016), O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo: 2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, e a antologia Apoteose (Editora Mondrongo 2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura. É junto com Carol Proner organizador da coletânea Antifascistas (Editora Mondrongo 2020), que reúne 32 autores que formam parte relevante da literatura lusófona contemporânea. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados para a Primavera Literária Brasileira 2019 e 2020, na Europa.

Brasil: (im)possíveis diálogos #14

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Escalda-pés

Por Deborah Dornellas

Brasília, 29 de fevereiro de 2020.

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Vitor Rocha

Querido Maurício,

perdão pelo meu longo silêncio. Não tive condições de lhe escrever. Muitas coisas andam acontecendo por aqui.

Hoje é sábado. O último sábado de fevereiro de 2020, ano bissexto. O carnaval passou sem que eu prestasse muita atenção. Só vi partes do desfile das escolas do Rio pela TV, como costumávamos fazer juntos. Penso em você todos os dias, mas nas manhãs de sábado sua lembrança me vem mais vívida. Tenho saudade de tudo. De nós, das nossas caminhadas pela quadra e além.

Já não caminho mais na quadra. Nem à padaria consigo ir. Não sei se é artrose ou desencanto.

Na última vez que saí fui à farmácia. Devagar, com dificuldade. Como uma velha. A velha que sou. No balcão, uma moça muito maquiada e com longos e grossos cílios me atendeu. Pedi o remédio para regular a pressão e ela, quase tropeçando nas pestanas, foi buscar duas caixas nas estantes de dentro. Voltou sem pressa, com o medicamento nas mãos, sem sequer notar que eu não tirava os meus olhos cansados dos seus. Quando fui pagar, a moça do caixa, sem maquiagem e com cílios de tamanho normal, tentou me empurrar uma porção de tranqueiras: latinha de Vick Vapo-rub, bastões para proteger os lábios, creme para as mãos, que a seca foi braba, cortador de unhas e um novo antiácido que é tiro e queda. Deve ter me achado mais velha do que sou. Dessas senhorinhas a quem acham fácil enganar. A mim não enganam assim. Já perdi muita coisa na vida, minha filha, disse a ela, mas o juízo e o discernimento ainda estão aqui.

Nunca imaginei que viveria tantos anos depois que você se foi, Maurício. Nos últimos dias, passo horas ouvindo rádio ou consumindo meus olhos na frente da TV de plasma que Renato me deu antes de ir embora, em novembro passado. É assim que tento driblar a solidão e desviar minha atenção dos pensamentos incômodos que me assombram. Não me afeiçoei ao computador, por mais que Renato insistisse. Assisto às novelas como nunca fiz antes. E a programas que mostram a vida selvagem nas florestas, essas coisas. Vida selvagem tem sido a nossa aqui. Ando até evitando o noticiário nacional. Nem os jornais eu leio todos os dias. Parei de assinar. Todos contam o que não quero saber. Não quero saber mais nada sobre este país. Não reconheço este lugar. Esta cidade. Nem mesmo a nossa quadra eu reconheço. Não se veem mais crianças brincando debaixo dos blocos. A banca de jornais fechou. Os jardins estão abandonados, cheios de mato, e o parquinho agora é um quadrado tristonho com areia imunda e brinquedos enferrujados. Estamos todos enferrujados, Maurício. Paralisados. Somos espectadores inertes de nós mesmos. Não nos levantamos do sofá nem para mudar o canal da TV. Vivemos no planeta do controle remoto. Como robôs repetindo tarefas. Eu sei que envelheci. E Brasília envelheceu junto comigo. Estamos ambas exaustas, com a pintura descascada. Nossas juntas doem porque não nos movimentamos mais. Emperramos em algum lugar que, de tanto renegar o passado, parece não ter futuro.

Como eu disse em cartas anteriores, o Teatro Nacional está em ruínas há anos, a agora a Esplanada e a Praça dos Três Poderes foram ocupadas por micróbios da pior espécie. Nem o Itamaraty escapou. Estão destruindo tudo. Os gramados da cidade não rebrotaram depois da seca de 2019, e os ipês estão desistindo de nós. Não ouço mais as cigarras ciciando nas árvores, mas talvez tenha ficado meio surda sem perceber. Você ficaria devastado se estivesse aqui, neste cenário de fim de mundo. Apesar de eu ser uma década e meia mais velha do que Brasília, acho que tenho lidado melhor com a decrepitude. Mas voltei a ter medo. Um medo indistinto, diferente daquele que eu tinha antigamente, quando tudo estava no limite. Pensávamos que aquilo nunca iria acabar, não é? Mas acabou. Às custas de muitas vidas, inclusive de parte da sua. Agora querem trazer o pesadelo de volta, atualizado.

Depois de muito tempo sem sonhar com o horror, ontem tive um sonho com aquele dia em que os soldados da PE o levaram. Acordei como se tivesse revivido a cena inteira. Renato era recém-nascido e estava dormindo no quarto, depois da primeira mamada do dia. Era domingo. Lembro bem o dia porque eu estava na cozinha, fazendo o almoço como só fazia aos domingos, quando os homens espancaram a porta dos fundos. Eles sempre preferem a porta dos fundos. Você estava no sofá da sala, lendo jornal. Os soldados foram entrando aos berros, tentei impedir, Renato acordou e começou a chorar, fiquei desorientada, não sabia se corria até o quarto para acudir meu filho ou se tentava impedir que a PE levasse meu marido. Enquanto eles o carregavam com violência, olhei nos seus olhos e não vi medo, somente uma sombra, uma tristeza por saber que estava nos deixando por tempo indeterminado, sem saber o que fariam com você e conosco. No meu sonho de agora, era Renato, já adulto, quem estava sendo levado preso, mas eu não chorava como chorei naquele domingo de 1970 e ao longo dos meses todos que se seguiram à sua prisão. No sonho, eu enfrentava os soldados com os olhos secos e a força das mães. Quando você voltou, Renato já tinha os dois dentes da frente e caminhava pelo apartamento, com o passinho trôpego dos bebês. Você voltou tão cansado, Maurício. E mais calado do que de costume. Quando vi sua mão esquerda toda deformada, senti náuseas e quase vomitei. Seus dedos quebrados em todas as falanges, mal calcificados, foram a visão mais triste da minha vida. Nunca lhe disse isso com todas as palavras porque sabia que doía em você. Em mim ainda dói. Renato sempre quis saber como papai tinha machucado a mão. Inventamos uma história qualquer e ele acreditou. Ou fingiu acreditar. Mesmo depois que você se foi, Renato e eu pouco falamos sobre isso.

Foi boa sua ideia de se fingir de canhoto enquanto esteve preso. Os homens deixaram sua mão esquerda completamente inoperante, achando que assim você nunca mais escreveria uma linha ou desenharia uma charge sequer contra o regime. Mas você era ambidestro e usava muito bem a mão direita. Lembra quando você ensinou Renato a desenhar com as duas mãos? Tenho todos os desenhos, dele e seus, guardados. Os artigos publicados e os censurados também. Mas as letras e traços estão sumindo nos papéis amarelados. Vou mandar digitalizar os desenhos e transcrever os textos, para reunir tudo num livro. Renato vai me ajudar, mesmo de longe. Será um belo presente nosso para você.

Foi uma travessia penosa para mim, mas consegui rever todo o material. E nem o sonho ruim me fez desistir da ideia do livro.

Acho um privilégio ainda poder usar as mãos. Mas suponho que em breve não consiga mais fazer muita coisa com elas. A artrose me atropelou. Por isso as cartas estão rareando tanto. Esta me custou quase uma semana para terminar e passar a limpo. Minhas mãos doem muito quanto começo a escrever, e logo tenho que parar, alongar, passar unguentos. Olho para as minhas mãos deformadas e me lembro da sua mão esquerda. Isso o traz mais para perto de mim de um jeito estranho.

Espero ainda conseguir escrever mais algumas cartas. Na próxima vou lhe contar mais detalhes sobre um novo vírus que surgiu na China em dezembro e está matando muitas pessoas, principalmente velhos. Chamaram de coronavírus, porque o formato da molécula parece uma esfera coroada. Esse vírus já existia e agora veio numa versão 2019, mais agressiva. Vi na TV que isolaram uma cidade chinesa inteira, para tentar conter o contágio, que é muito rápido. Mas o tal vírus já viajou para fora da China. Há muitos casos na Itália e em outros países da Europa, e há três dias noticiaram o primeiro caso no Brasil. Um homem trouxe o vírus de avião, direto da Lombardia para São Paulo. Espero que essa virose não viceje aqui. Já há muita infecção neste país. Não precisamos de mais vírus letais. Temos muitos. Um deles é o atual presidente. Mas não vou falar dele. Hoje não. É sábado.

Sinto sua falta, Maurício. Muito. Como se as décadas não se tivessem passado. Minhas lembranças não sumiram na voragem do tempo. Estão todas aqui dentro. A memória remota é uma das poucas coisas que me restam. Estas cartas, que jamais serão lidas pelo destinatário, são meu único antídoto para as manhãs solitárias, as tardes chuvosas e as noites frias. Ainda há noites frias em Brasília, sabe? Nelas, minhas mãos e pés doem ainda mais. Quando os pés doem muito, penso em fazer escalda-pés, como os que você fazia para mim, depois das nossas caminhadas. Perfumados com camomila. Mas não seria a mesma coisa.

Saudade eterna,
Gilda

Deborah Dornellas, carioca criada em Brasília, é escritora, jornalista, tradutora e aprendiz de artista plástica. É formada em Letras (PUCCamp, 1981) e Comunicação (Jornalismo, UnB, 1992), mestra em História (UnB, 2001) e pós-graduada em Formação de Escritores (ISE-Vera Cruz-SP, 2014). Em 2012, publicou Triz (In House), uma reunião de poemas. Desde 2013, integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro e tem participado de todas as publicações do grupo. Foi uma das autoras convidadas a participar do Printemps Litteráire 2020. Por cima do mar, seu romance de estreia, foi o vencedor do Prêmio Literário Casa de las Américas 2019, na categoria Literatura Brasileira.

Brasil: (im)possíveis diálogos #13

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Descartes

Por Lúcia Bettencourt

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Vitor Rocha

Penso
logo não posso existir
como me querem
submissa
como as feras

Penso
e com isso surgem os problemas
O natural, a natureza
não correspondem
aos anseios
e receios

Penso
Ato tão pequeno
que ninguém explica
Deus e a Filosofia
debatendo entre si
minha agonia

Penso
E se o corpo é fêmea,
o que é a mente?
Talvez ilusão
mito da serpente
Pura sedução

Penso
Se isso é normal
outra é a falha
Ou talvez a culpa
seja de Descartes
por acrescentar
Existo

Penso
E não existo
Somente assim
Posso me explicar
Nesse momento
Não sou
Penso
Não existo
Penso
Logo, me crio

Lúcia Bettencourt escreve contos, romances, ensaios, livros infantis e poemas. É formada em Português-Literaturas pela UFRJ, com Masters em Spanish and Portuguese em Yale, e doutorado na UFF (Universidade Federal Fluminense). Colabora em jornais e revistas literárias. Seus contos estão traduzidos e publicados em revistas de língua inglesa, francesa e espanhola. Dentre os prêmios recebidos destacam-se ABL e Sesc.

Brasil: (im)possíveis diálogos #12

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Sítio Dois Irmãos

Por Márcio Benjamin Costa Ribeiro

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Vitor Rocha

— Valha-me, Deus.

Dona Ceiça acordou sufocada. Se sentou na cama dura, passando a mão na cara banhada de suor. Levantou-se devagar, ainda tonta de sono e foi tomar um gole do resto da água que sobrava na quartinha de barro do quarto apoucado.

Devagar, a respiração foi voltando pro lugar, enquanto a frieza da caneca de alumínio lhe arrepiava os beiços enrugados.

Mais um sonho. Agora com o marido novo, os dois na festa de casamento, ainda na fazenda antiga, antes do sítio. Ela também moça, arrumada, comendo tanto do bolo tão branco, sabendo que ia desarranjar. Ernesto jovem também. Tão bonito, meu Deus. Tanta gente, e aquele cheiro de vida.

E de repente ela se dava conta que não era não, que agora era mentira. Aí acordava agoniada, com aquele silêncio lhe doendo os ouvidos, sentindo a camisola velha subir e descer nas costelas magras como sendo a lona de um circo.

Eita da coisa linda era um circo. Tanto do bicho. O coração transpassava quando viam anunciar na cidade. Uma ruma de moça bonita, como ela, quando jovem, no casamento.

Fazia tanto tempo.

Dona Ceiça foi pra janela em busca de um pouco de ar. Já nem sentia mais o cheiro de podre, sempre em algum lugar.

Lentamente o sol insistia, manchando de um vermelho desmaiado o céu ainda escuro.

Ela achava que era a pior hora. Acostumada, sempre acordava antes do raiar, ou antes do galo cantar, como se dizia antes. Há quanto tempo?

Ali já não se fazia sentido.

Tinha muito que bicho deixou de ser. Os mais novos que sobreviveram nem se lembravam mais como era o cantar do galo. Claro que encontravam foto, filmagem, mas a lembrança andava sumida, como a fumaça preta do meio da rua subindo pro firmamento.

Na casa vazia, as chinelas estalavam cortando o calado.

Já tinha desistido de falar sozinha fazia era tempo.

Com medo de ficar doida de vez, se prendia à rotina.

Arrumar as gavetas.

Dobrar a roupa.

Acender as velas do oratório.

Tirar a poeira escura dos móveis gastos.

Se esconder debaixo da cama quando batiam palmas do portão sempre trancado.

Lembrou-se do susto lapeando o coração quando tentaram entrar, se dizendo do governo. A senhora tomou coragem, apeou na janela a espingarda velha do marido e acertou um, que saiu pingando sangue pra dentro do carro.

Nunca mais.

Suspirou enquanto abria um dos últimos pacotes prateados da ração deixada na porta, carimbados com o brasão da Federação.

Fazia quanto tempo, minha Nossa Senhora?

Que dia era hoje?

Marrom e pastosa, só tinha era sabor de comida de bicho.

Quando tinha.

Dona Ceiça ainda sentia cheiro? Ainda provava gosto?

Lambendo os dedos grudentos, se lembrou de quando andava de cavalo por dentro da fazenda velha, experimentando embaixo das pernas o calor firme do animal.

Tinha acontecido mesmo? Ou era o diabo daqueles sonhos de novo?

Cuidadosa, levou o pacote pra pia e lavou, dobrando e guardando junto com os outros no armário da cozinha, os símbolos em pé lado a lado como sendo uma tropa.

Não esperava sentido.

Nada mais fazia sentido não.

E veio a dor, como vinha sempre depois que comia. Era doença? Ou o governo andava querendo envenenar os velhos aos poucos, como se matava gato?

Sorriu ao se lembrar dos tantos gatos da fazenda.

Chane, chane, chanim…

Esfregou os dedos chamando, chamando, mas quem disse?

Haveria de ter vingado algum, em outro lugar que fosse?

Dona Ceiça já nem percebia a falta, era como se o peito fosse assim um relógio velho, faltando mola, corda. Que andasse pendurado na parede por preguiça de tirarem.

Já não tinha vontade de deixar o sítio, de tentar contato com outros. E se fossem ruins, como foram os poucos que ela espantou à bala?

— Ração condenada, meu Deus — disse, quando a dor lhe apertou às tripas.

Bebeu um pouco mais da água de poço, segura, e pediu que lhe tirassem aquele sofrimento, acalentando-se ao se lembrar da rocinha acanhada, escondida em cima da casa, feita das sementes intocadas, que logo iriam germinar.

Será se antes de acabar a ração?

Perguntou a outra Ceiça, dentro da sua cabeça, uma mais velha e mais doida, que lhe encarava de dentro do espelho, com as tetas murchas.

Tudo veio tão rápido, aconteceu tão agoniado.

E logo não havia mais bichos, abraços, gente.

Dona Ceiça sacudiu os pensamentos como quem vasculha o teto de uma casa.

Pensar já não ajudava.

Preferiu se lembrar dos afazeres.

Da rotina.

Catou a faquinha afiada do quintal e foi pra janela.

Ao longe, já se juntavam, todos eles; se arrastando.

E Dona Ceiça se lembrou do sonho, do marido vivo, dos vizinhos, do bolo na festa de casamento.

Abriu a mão, com a palma marcada de cicatrizes e empurrou a faca afiada, que logo fez brotar um filete vermelho.

Vivo.

Apertou com força, deixando o sangue escorrer.

E como faziam dia sim, dia não, bem dizer, vieram todos, se acotovelar embaixo de sua janela, brigando pelas poucas gotas.

Já nem bicho. Nem gente.

“Ernesto?”, Ceiça sempre pensava em falar, mas com o tempo descobriu como engolir as palavras.

Já não se tinha o que dizer afinal, pensou, enquanto via a poeira do terreiro subir.

Márcio Benjamin Costa Ribeiro é um natalense do Estado do Rio Grande do Norte de 40 anos, que trabalha como advogado, formado pela UFRN, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Autor de romances e livros de contos folclóricos (Maldito Sertão, Fome e Agouro), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Figura tarimbada em projetos do Sesc (Arte da Palavra, Mostra Sesc de Culturas, Mostra Sesc Cariri, Flipelô), representou o Estado em Feiras Nacionais (Bienal do Livro do Ceará) e Internacionais (Primavera Literária de Paris e Feira do Livro de Paris), tendo sido convidado, inclusive, pelas Universidade de Brown (Providence) e Columbia (Nova York), ambas nos Estados Unidos, para a Primavera Literária de 2020, onde palestrará e apresentará a tradução do seu livro Maldito Sertão para o inglês, chamado “Cursed Badlands”. É roteirista de webséries (Flores de Plástico, Holísticos, Dê seus pulos e Crisinha e Graça) e curtas — metragens (Erva Botão, Linha de Trem e Pela Última Vez), e agora trabalha no roteiro de seu primeiro longa-metragem, Quebrando o gelo. Gosta de pensar que pode escrever pra sempre. Pelo menos é o que prometem as vozes em sua cabeça.

Brasil: (im)possíveis diálogos #11

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

horas rosas

Por Leonardo Tonus

a Pierre Seel, sobrevivente do campo de concentração de Schirmeck-Vorbrück, deportado por ser homossexual

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Vitor Rocha

tu és pedra
és alma
tu és relva—alva,
água malva—
viva de pai
mãe e filha.
tu és de Marília
a invertida,
eros travestida em prosa
de uma vida prosa
por tua ventura maligna,
pérfida pétala
de fim de mundo
neste fim do mundo
em que tu resides.
mundo em flor
mundo e flor
tu és minha flor
minha rosa,
rosamundo
de um mundo rosa
mundo em rosa
sem as rosas
de Rosa.
Rrosa judia
tu és a vadia,
minha asquerosa Selavy.
tu és seio em devaneio
de minhas noites carmim
em minhas noites escarlate
sem o esmalte
que lasca
que falta
pelos dias afins.
tu, a que se perde,
a boca oca
da elipse rota
da brecha púrpura sem fim.
do avesso ao avesso
pelo avesso
tu és a informe
o avesso disforme
que não se concebe
que nada concebe.
tu que pelos claustros erravas
que os mastros navegavas
os astros
até o astro-rosa
que ao peito levavas.
antes que os cães te devorassem
teus beiços arrancassem
os pelos lambessem
do teu pênis
de teus braços
do que foram abraços
que foram corpo
fora do corpo
hoje morto.
teu corpo,
pedra—alma,
pedra e alma,
cujos olhos ainda exalam o azul dos icebergs,
e as borrascas do Alasca!

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal, Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (poesia, Editora Nós, 2019).