três poemas de Maíra Vasconcelos

há uma casa no alto
antiga e desabitada
à espera de um corpo vivente
uma casa tão lúcida
da necessidade de alguém
que nem sei se existe
tamanho trabalho e ousadia:
a casa precisa ser repensada.

* * *

como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
e batem nas paredes
nos móveis ficam acurralados
a respiração abafada e o coração muito rápido
como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
assim elas falavam das lembranças
de cenas não-imóveis
como tudo o que está fora das casas
esse princípio das asas.

* * *

não há garantia alguma
se onde estão os pés descalços estaremos
posicionados em luz.
olhe, por exemplo, aqueles barcos e as águas do rio
posicionados em luz
como se nunca pudessem nos afogar, mas apenas nos banhar.

Maíra Vasconcelos, escritora e jornalista, de Belo Horizonte. Escreve crônicas, desde 2014, para o Jornal GGN. Um quarto que fala (Editora Urutau, 2018) é seu primeiro livro de poemas. Reside em Buenos Aires, e é aluna do mestrado em Estudos Literários, na Universidade de Buenos Aires (UBA).

cinco poemas de Esther Alcântara

longilínea

Longa é a linha
onde meu corpo
longilíneo
se aninha

Contorna
um (uni)verso
sanguíneo
por um fio

Verbo a dançar
na carne
pasmada de
silêncios

regresso

Nas mãos
que trabalham
estremece
a bandeira

Por ordem
mulas estimulam
o progresso
das liteiras

habeas corpus

Quis sair
mas só havia
in-concreto
vias de
abscesso

Acessos de
sexta concepção
por um triz
no cérebro de
segunda

A vida desanda
convulsa
e grita sonâmbula
o direito a seu
corpus

s/título

Um dia havemos de acordar
com a ressequida seiva
das árvores queimadas
doendo em nosso tronco oco
Ardendo em nada

então a amargura da saliva
nos dará notícia
de nosso rastro na Terra:
um sinal de fumaça

desvio — via Bandeira

Eu choro
como quem faz versos
no vão
entre as palavras
v(il)ãs
decapitadas
de senso e sonho

E sonho
em capítulos soltos
no desvio
das ruas
entre a literatura
e o meio fio
da página

Esther Alcântara é poeta e por vezes cronista. Paulista, hoje vive em Salvador (BA). Atua há 27 anos na área editorial como editora e revisora de textos e está à frente da editora Carpe Librum. Dedica-se, ainda, à encadernação artesanal e flerta com livros de artista: em 2015 participou da exposição de livros de artista “Entre a dobra e a obra: memórias” na Biblioteca Mário de Andrade (SP) com a obra Raízes; em 2016 publicou o minilivro Vinte poemas para serem lidos com lupa; em 2019 promoveu oficinas de livros artesanais na Casa de Castro Alves, em Salvador. Participa de saraus e promove o Sarau Vosz. Tem textos publicados em antologias no Brasil e em Portugal, e em revistas e sites como Mallarmargens, Cult, Escambau, Gueto e Crônicas da Copa. Em 2017 lançou o livro de poemas Piracema. Em 2019 organizou e editou a coletânea A mulher e o livro — uma relação em prosa e verso, lançada na Flip do mesmo ano. No momento prepara nova obra poética.

discípulos da madrugada, poema de Maria João Cantinho

Que a sombra desça e nos tome
no seu mistério, em que tudo
é passagem e limiar, presença
furtiva e incandescente.

O rio flui e nele se submerge
o teu rosto, a tua voz,
talvez a memória de outros rostos
e de outras vozes
cruzando-se na dobra do tempo
aparentando-se na escuridão,
talvez não sejam senão destroços
de um antigo sonho
ou de uma visão em sobressalto
do eterno.

Maria João Cantinho nasceu em Lisboa em 1963. É doutorada em filosofia contemporânea e professora. Tem cinco livros de ficção publicados, quatro livros de poesia e dois de ensaio. É crítica literária e colabora regularmente em revistas e jornais. É investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Centre d’Études Juives da Universidade da Sorbonne IV. É membro do PEN clube, da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários).

cinco poemas de Maria Esther Maciel

a vida ao redor

Os ramos do pé de jasmim
__________de Madagascar
sobem pelo tronco
da palmeira ao lado
rumo às tiras de madeira
que cobrem
__________o terraço.

Já as pimenteiras fazem
um leque vivo
__________de cores
com o roxo das verbenas
e o vermelho das bromélias
enquanto as avencas
pendem da prateleira
__________à meia-sombra
protegidas do sol febril
que entra
__________pela janela.

De repente
uma ave
__________pousa na pedra:

é um bem-te-vi
de olhos tácitos
e pose rara

que parece me trazer
__________(com insolência alegre)

algum presságio.

conto de jardim

A pequena lagarta
que caiu da samambaia
sobre o meu braço
se movia em desespero

e quando a levei
__________de volta
ao vaso da planta
minha amiga Tereza
__________falou, sem pejo:

— jogue na lixeira,
lagartas são pragas
e estragam as folhas
do jardim inteiro.

Mas eu não podia
matar uma larva
tão verde e tão perplexa
como aquela

tampouco tive coragem
de jogá-la pela janela.

Desci até o jardim do prédio
e a coloquei sobre uma pedra

pois tudo o que é vivo
e me pede vida com medo
me enternece.

__________E sempre cedo.

temporal

Pelo vidro fumê
da porta do prédio
vejo a chuva espessa
que aflige a avenida
enquanto mulheres
de sombrinhas pretas
e amarelas
passam
_____depressa
pela calçada alagada
ou se encolhem
_____(em desamparo)
sob a marquise

No espelho que reflete
as imagens líquidas
_____vindas do vidro
os carros deslizam
sob meu rosto
pouco nítido

enquanto a chuva
_____(agora granizo)
castiga o asfalto
_____incisiva

quinta-feira

Na despedida
o abraço

com todos os ossos
e nervos
músculos, artérias
e veias

pele com pele
dos pés à cabeça
numa teia
_____de afetos
e segredos

É quando o amor
feito só de palavras
se expressa
_____em silêncio
e de corpo inteiro

lux vivens

Um fio de luz no escuro
traz um brilho oblíquo
ao recinto onde
__________(em vigília)
a viúva de olhos tristes
ouve uma sonata
__________de Bach
para piano e violino
e vibra por dentro
__________rediviva

Num improviso
__________de alegria
(um quase extravio)
ela amplia o volume
ao máximo possível
e levíssima
__________quase levita

Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas (MG) e vive em Belo Horizonte. Poeta, ensaísta, ficcionista e professora de literatura, publicou 14 livros, entre eles, Literatura e animalidade (ensaio, 2016), A vida ao redor (crônicas, 2014), O livro dos nomes (ficção, 2008), A memória das coisas (ensaios, 2004) e Triz (poesia, 1998). Lançará em breve o volume Longe, aqui. Poesia incompleta 1998-2019 pela editora mineira Quixote + Do. É diretora editorial da revista Olympio — literatura e arte.

poema para a fiandeira de Remedios Varo em ‘Les feuilles mortes’, de Francesca Cricelli

não há de ser
só escuro o lado
de dentro do muro
o avesso do viço esse pesar

é a retina
que rege o furor das coisas

sob o descompasso da neblina
há terra úmida que germina —
o coração do ventre
mora no olhar

há de se descortinar o céu de si
vento estrela aurora boreal
arrancar da própria costela a mulher que ali habita
morrer-se a cada dia um tanto
concha
semente
pranto
navegar além do canto (e do silêncio)
das sereias do pensamento

Ribeirão Preto, maio 2019.

Francesca Cricelli é poeta, tradutora e pesquisadora. Cresceu entre o Brasil, a Itália e a Malásia. Publicou os livros de poemas Repátria no Brasil e na Itália (Selo Demônio Negro, 2015 e Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 nos EUA (edição de autora, 2017), na Islândia (Sagarana forlag, 2017) e na China (Museu Minsheng, 2018), além da plaquette As curvas negras da terra / Las curvas negras de la tierra (edição bilíngue, Nosotros Editorial, 2019). Suas crônicas de viagem e uma breve prosa de autoficção foram reunidas no livro Errância (Edições Macondo e Sagarana forlag, 2019). Participou de inúmeros festivais internacionais, entre eles a edição de 2019 de Printemps Littéraire Brésilien em Colônia e Zurique. Traduziu para editoras brasileiras escritoras italianas como Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016), Igiaba Scego (Nós, 2018) e o primeiro livro em italiano de Jhumpa Lahiri (Biblioteca Azul, 2020) além de retraduzir Fernando Pessoa para o italiano (Interno Poesia, 2020). É doutora em Letras Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo, em sua pesquisa descobriu um acervo inédito de cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco. Atualmente vive em Reykjavík, a capital mais ao norte do mundo, na Islândia.

quatro poemas de João Augusto

I

Não sei soletrar a palavra mundo
sem abrir nela uma rosa, uma infância.
Queria fazer da vida um objeto de arte.
Fazer de cada passo um passo com alguém.
Como se cada derrota sobrevivesse a si mesma,
e um balão subtraísse do ar a solidão que voa
entre mim e você.
Me isolo num verso que não vem.
Escavo um poema de meu tempo.
A palavra só existe onde o silêncio permite.
É preciso amadurecer, como algumas palavras,
como essa barba que se vai desenhando branca.
O motor dos dias esconde de ti a cidade,
o reino, as fadas.
Sou menor que todas as coisas que
ainda não existem.
Porque cumpre em qualquer nascimento
alguma alegria.
Toda a minha vida está incomunicável.
Preciso desembrulhar o rosto do mundo
e dar um nome ao que desconheço.
Preciso fazer da loucura um pouso para o amor.
Preciso soletrar a palavra mundo
sem abrir nela uma partida.
E, mesmo se partir,
levar nas mãos alguma aurora.

4 de julho de 2012.

VI

“Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.”
(Edgar Allan Poe, em )

Como Poe, amei sozinho,
o que sozinho me restava amar.
A vida começa atrasada.
Tinha, no irrespirável das noites sem ar,
uma secura de estrelas no peito.
Carregava duas cores no bolso,
o branco e o nada.
O pouco era longo e farto.
Na madeira gasta dos olhos,
um arco-íris de carvão sustentava o céu
que era impossível inventar.
A vida, irreconstruível do fim para o começo.
Na alucinação dos dias,
a admirável lentidão do amor,
que nunca florescia.
Amar sozinho é escrever para o silêncio.
De dentro dos olhos pretos da vida,
uma rosa explode o escuro,
tão universal como a fome,
como o ódio,
como o homem.
A vida que delira e inflama,
lenta e sozinha,
como um punhado de amor,
deixado pelo caminho.

XIX

A vida falha em mim quando não estende estrelas pelo lado de dentro. Sou alguma coisa entre o mundo e o verso, que vomita o amor e apaga o destino. Mas escrever me oferece um começo. Ainda há vagas para palavras desempregadas. O mistério natural de tudo que não poderá ser claro. Uma fantasia colhida no tempo certo pode se revelar a mais lúcida verdade. É para isso que escrevo: ranhurar na morte alguma ilusão. Vende-se a parte limpa da vida. O abraço, que ainda ontem inaugurou o amor. Meu coração pensa o que a nova ciência ignora. O tato antigo da fala com a fala. A biografia lenta do gosto dos lábios. A antiga tecnologia dos olhos, como as águas, que nunca se perdem; como os rios, que sempre se encontram.

Beirute, 28 de dezembro de 2017.

XXIX

Tarde as tendas da alma se abrem ao sol. Tudo é tão perto, e distante o amor, paralisado. Escrevo desarmado de palavras, como quem planta abraços de papel. Aqui assento meus pensamentos. A inatingível espera da vida que não és. A cidade está vencida, as flores, os ídolos, a vida vencida. Deixa que alguma luz limpe o teu rosto. Que o sal marinho queime as tuas tardes de melancolia. Não, o tempo não chegou de completa justiça. Somos todos inocentes. Seres de avolumados cabelos, pernas e tônus muscular. Temos olhos e tato. E fábricas onde se fabricam cartazes e sobremesas de medo. Onde te escondes mais, é ali que existes. Guardo uma canção antiga num peito cansado. Guardo apenas o ar necessário para encerrar este poema. Minha casa é a rua, a ruína, o relento. Mas meu corpo ainda respira, e deseja amar.

João Augusto já foi premiado em concursos de prosa e poesia. Tem alguns livros publicados. O mais recente, de poemas, A última estrela tropical (Editora Patuá). É um dos curadores da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Já escreveu para cinema, produziu e dirigiu documentários. Tem peças inéditas de teatro. Na imprensa, atuou como produtor, revisor, repórter, editor de jornal, gerente de reportagem, diretor e apresentador de rádio e TV. Casado com a professora Elaine, João é pai da Letícia, estudante de Medicina, e do músico Gabriel. João escreve porque ama.

cinco poemas de Daniela Delias

fúria

sobrevive-se à fúria extrema das manhãs
à memória das portas que abríamos em silêncio
desejando que o amor nos ensinasse a cair

não tão alto, dizíamos
não tão longe

depois, alinhávamos as pernas
estendíamos mil pontes
e partíamos e partíamos
como se destinados ao cume

sobrevive-se, suponho
às cidades exiladas de nossos olhos
e à lembrança das janelas
que encostávamos um pouco
toda vez que distraíamos a morte

desterro

se todas as previsões estiverem corretas
amanhã ainda teremos chuva
e milhares de mulheres e homens
partirão de seus desterros
sorrindo ferozmente pro escuro

que importa se um homem de olhos terríveis
afunda suas garras e botas
contra seus rostos insones?

se todas as previsões estiverem corretas
amanhã não comerão os restos
não descerão aos fossos
não dobrarão os joelhos
a um deus que fale tão pouco

caixa

desinventar a estrada
que vai dar nas mesmas ilhas
partir com os dedos
as ruas que vão restando
reter entre os lábios
o mapa onde escondíamos
a palavra eletricidade
dizer outra vez teu nome
e te ver guardar o meu
entre as coisas mais selvagens

pele

a verdade
é que meu ombro não comporta
um pássaro negro

já tenho este mapa
tatuado em minhas costas
este céu de linhas vermelhas
este corpo tornado templo
de todo desejo e selvageria

e você sabe:
palavra alguma detém a jaula
palavra alguma impele o voo
palavra alguma alcança a porta

é sempre do olho o último grito

lanças

aconteceu de chover tanto
que cogumelos imensos
nasceram no concreto

justo hoje que não diria
dos punhais sobre o sonho
vesti minhas luvas
cerquei-me de lanças
vi meu coração partido

há coisas
que simplesmente nascem:
não se pode dissuadir a vida
de sua natureza terrível

Daniela Delias nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Autora dos livros de poesia Boneca Russa em Casa de Silêncio (Editora Patuá, 2012), Nunca estivemos em Ítaca (Editora Patuá, 2015) e Alice e os dias (Concha Editora, 2019). Tem poemas publicados no Livro da Tribo, em revistas literárias e no blog de poesia Sombra, Silêncio ou Espuma. É psicóloga e professora na Universidade Federal do Rio Grande. Mora na Praia do Cassino, em Rio Grande.

cinco poemas de Fiori Esaú Ferrari

apesar das flores

Haverá um dia, apesar das flores,
mais seco,
avesso ao carinho,
afiado e áspero.

Ele nascerá incólume,
totem.

Alguma esperança
será esmagada
e na praia populações inteiras
recolherão seus poucos costumes,
canções de trabalho,
o lado tenaz dos símbolos.

Haverá um dia de mais atrito,
quase nenhuma suavidade,
em que apoiaremos a cabeça
no banco de mármore
pra chorar.

E o que diremos
serão sílabas de vocábulos
quebrados,
extratos de uma pronúncia inaudível,
pequenas dispersões de radicais
no palato, nos lábios, na rua.

E estilhaços de um verso
incompreensível
pontilharão
o mar alto,
sementes em terra líquida.

Eu aprendi que toda lágrima é irmã mais nova do oceano.

sem parada

Eu escapei uma vez, a par de tudo.
Fugi com a franqueza
dos que sentem o primeiro
frêmito da morte
e não reconhecem a irmã que chega,
fugi às margens
do dia,
carregando um livro,
palavras dispersas e um arquétipo do futuro,
deixando fragmentos de mim,
meu corpo em estranho
gesto na esquina,
hemistíquios onde a cesura
ainda silencia minha vida,
e silencia agora,
a respiração no terço das mãos do meu pai,
a pausa triste das mulheres da igreja
diante do mistério mais doloroso
que é sempre Verônica
e o sangue da face do amado
eterno no tecido,
fragmentos de lágrimas,
de canções no quintal e das amoras,
viver foi as frases replicadas
de um nascimento,
as pessoas chegando e partindo
e o presente sobre o roçado,
o presente sobre a ação humana,
o estar porque não há a essência,
o estar na praça, na história,
na colina,
tão pontiaguda flor,
o nascimento de deus
e o que fazer com isto,
e o que fazer com isto?

pablo

A conversa incerta na esquina
onde poucas folhas
confessavam o outono.

Eu reunia gravetos,
construía com calma
e indiferença meu ninho,
ações da longínqua Cuba
eram a voz de Pablo Milanés
forjando ternura,
a esperança no muro.

Ainda que os porões se contorcessem
de terror e sombras,
ainda que a batida
da ordem
monocórdica
monocromática
fizesse da minha infância
lugares de ouvir a distância
e ver profundezas
abissais,
eu criei na face grandes olhos
de peixes tristes.

Atravessava o azul, vulto.

Mas, no breve espaço da ausência,
(e a sinto tanto hoje)
Pablo Milanés
me dava a dispersão da luz,
a decantação da lágrima
e surgia o diamante puro.

É lógico que eu era assíduo das pétalas.

aqueles dias

Eu posso até dizer
que as coisas
demoradamente
se tornam densas
e neutras
alongam as sombras,
este arreio,
a embocadura,
as tralhas.

Quem colocou ruído nisso tudo,
a montaria de um cavalo solto
que sabe da fazenda e da ternura,
um meio de sonhar
no desespero do latifúndio?

Como não mastigar esse fruto
através
sem situar alguma queda,
uns brinquedos que não deram certo,
o deslocamento míope dos olhos
que se enganaram de envelhecer
ainda em criança?

À solidão da lâmpada do quarto
juntavam
vozes baixas de cuidado
no corredor.

Ao pegar da noite,
nas coisas rarefeitas,
as ações do dia iam se acalmando,
se tornando mitos,
se despindo de política e terno.

O traçado de lã,
que as agulhas envolviam
e dançavam
e teciam,
aplacava as violências
dos costumes e das regras.

Concluíram:
— Este menino tem verme.

Parecia doença.
Era solidão.

artesão

Facas dançam.
Lâminas solares,
lanças atiradas
no azul
e o verde
timidamente
preparando o fruto.

O artesão do plantio
atravessa o campo
e sua roupa vermelha
é um toque de terra
na tela ainda em outono.

Borboletas destrincham
um saber longínquo
gestado no casulo.

Morrem breves.

Borboletas nascem no outono.

Fiori Esaú Ferrari nasceu em Itapetininga. Professor de Literatura pela Uneafro e professor efetivo de Língua Portuguesa na prefeitura de São Paulo. Seu último livro, Variações do Exílio, 2019, foi lançado pela Editora Penalux.

quatro poemas de Jeanne Callegari

diagnóstico diferencial

não é possível que não haja um nome
alguém deve ter estudado analisado
catalogado
no dsm-5 deve existir uma categoria só para você
e pessoas do seu tipo
que fazem as coisas que você faz
e dizem as coisas que você diz

pessoas como você não devem ser muitas
mas com certeza estão por aí
alguém ficou encucado ensimesmado
tomando notas
pensando de si para si
que interessante
como quem olha imparcial uma jararaca
prestes a dar o bote

não é possível que não haja um nome
eu não sei qual é, mas deve haver um nome
tenho certeza que há
um nome
para o que você é
e não é um nome muito bonito

agora fobia

já não lembro o calor
de sua pele
a pressão exata de seus dedos
o cheiro dos seus cabelos
a curva do ar no seu peito
exausto ao lado

eu tive medo, sim
tive saudade
mas inútil tentar deter com as unhas
a corrente
reter, com apelos
a luz da tarde

: um segundo de silêncio, então
pelo instante decisivo
do qual chegamos rente
e saímos sem alarde

depois percorrer os dias
noites e nostalgias
até um novo nome
onde hoje o seu arde

educada

não é que eu não queira
são indecentes essas coxas
e você sabe
o mínimo de tecido
que a sociedade aceita
alonga as pernas
de ginasta ouvindo
chet baker
e se eu não te mordo é por ter
boas maneiras
convém não atacar
quem nos dá casa
mas tome tenência
: mais dessa mirada
e eu esqueço
a etiqueta

syagrus coronata

assim como são usadas
todas as partes do licuri
syagrus coronata
palmeira de cocos
pequeninos da caatinga
e se faz
das sementes óleo, do miolo
do tronco, farinha
dos frutos alimentos colares
elixir
para a vista

e como
ao enjoar dos colares
as pessoas tiram e comem
puras
as sementes
uma
a uma
conta
por
conta
como quem
reza um terço

ocupar cada milímetro
do teu corpo — as pernas
gangorras que nos alçam ao teto
os braços
ganchos de nos atar à cama
as mãos operando o baile
em minhas frestas
os cabelos
dossel negro
em nossos olhos
o suor
a nos dar liga
e tempero
a boca um atlântico
— sede água
a expandir
dos meus lábios
as fronteiras

Jeanne Callegari é poeta, artista sonora, jornalista e produtora cultural. Publicou os livros Amor eterno 2 (Garupa e Pitomba!, 2019, contemplado com o ProAC — criação literária de poesia 2018), Botões (Corsário-Satã, 2018) e Miolos Frescos (Editora Patuá, 2015), os três de poemas, e Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Em suas apresentações ao vivo, pesquisa a relação entre palavra, ruído e paisagens sonoras. É criadora, curadora e poeta residente do Macrofonia!, evento de poesia e audiovisual ao vivo realizado desde 2017 em São Paulo.

ao menino refugiado, poema de Maurício Simionato

Hoje,
cruzei mais uma fronteira,
____________________sem querer.
Alguém me puxou por cima da cerca.
Alguém me segurou do outro lado.
Alguém quis me jogar de volta.

Aqui,
pessoas carregam sacos plásticos com miudezas sem sentido,
Pedaços de coisas mudas
E malas esfarrapadas como o que restou da vida.

Nestes dias,
os abraços
São mais dolorosos
Porque há o desabraço.

Nestes dias,
Os olhares
Tornam-se um pouco mais tristes.
Porque há o desolhar.

Nestes dias,
O aperto no peito
Aperta diferente.
Pois há também
A indiferença.

Nestes dias,
O destino
Rejeita-nos de antemão.

Maurício Simionato nasceu em Assis-SP em 1973 e reside em Campinas-SP, é poeta e jornalista. Lançou os livros de poesia Impermanência (2012, premiado pelo Fundo Municipal de Cultura de Campinas) e Sobre Auroras e Crepúsculos (Editora Multifoco, 2017). Tem poemas publicados em sites como Ruído Manifesto e A Bacana, de Portugal, e em coletâneas. Como repórter, foi correspondente na Amazônia por três anos.