três poemas de Joana Futre

exercício

Exercita os teus demónios
Manda-os fazer o sagrado jogging matinal.
Avisa-os de que são os jokers do baralho,
Faz pouco deles
Mesmo que quebrar o gelo dê trabalho.
Que eles se ponham em bicos de pés,
Se multipliquem e sejas tu versus dez
Numa luta constante e desigual.

E por favor, diz-lhes para não romantizarem
O amor à primeira vista.
Já temos no mundo filmes suficientes
A explorarem essa temática irrealista.

Desejo que os demónios façam gazeta
Dentro da tua bonita cabeça.
Vão antes para a rua protestar de cartaz no ar
Perguntar porque é que o Estado nunca está do lado do artista.

um brinde

Inevitavelmente, brindamos
Ao que ainda temos,
Tanto à generosidade humana
Como aos deuses em que cremos
(Por igual, para não ficarem amuados).

Para evitarmos esquecermos
Que ainda não sabemos
Ressuscitar as almas,
Para que nos possam bater palmas
Quando merecemos e nas ocasiões certas.

O som e o silêncio
São como a mãe e a filha que caminham
De mão dada.
Lembro-me de ti como uma ferida
Que nunca será sarada.
Como aquela de que sinto mais falta
Mas que sei que ainda me guarda

Com o mesmo apreço, a mesma gentileza
Com que se esforçava para remover vestígios de tristeza.
Devo alguns dos melhores pedaços da vida íntima
A quem me ensinou o que era a verdadeira leveza.

Levo o teu espírito na algibeira
E bebo-o quando preciso.
Sabe-me a vinho tinto
Doce com a luz a que te pinto
Sempre que te apresento
A quem te é desconhecido.

Leve-leve é o lema
Só assim será divina a oferenda.
Mesmo depois de já não o vermos
O rosto de uma mãe
Será sempre, sempre um belo poema.

oferenda divina

Deixa-nos ser só um esboço.
Tu, velha lenda dos mares antigos
Eu, um conto esquecido e por ler;
Agora sinto só vergonha.
Afinal nunca fizemos por merecer
O amor que os Deuses em concílio
Nos resolveram oferecer.

Joana Futre é natural de Viseu, Portugal, e mudou-se para Lisboa para perseguir a sua paixão por Línguas, Literaturas e Culturas, acabando por tirar um Major em Estudos Ingleses. Ao abrigo do Programa Erasmus +, passou nove meses na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao regressar à capital, inscreveu-se no mestrado de Jornalismo. Atualmente trabalha como copywriter e content manager, aliando a investigação típica do jornalismo à criatividade necessária para ser feliz em indústrias criativas.

o nome de minha bisavó, poema de Tatiana Lazzarotto

descobri hoje o nome de uma de minhas bisavós

o espaço oco na árvore ganhou letras que deslizaram em minha boca de bisneta

Maria Rita

perguntei dela para uma tia, já muito velha, meia-irmã de minha avó

era cozinheira, me disse

ordeira, simples

e sozinha

pensei na bisavó que não conheci alimentando muitas bocas

deitando barriga num fogão quente de Recife

perdeu um filho cedo

a outra filha, minha avó, encaminhou-se para a morte também depressa

Maria Rita

um nome duplo que esconde a revoada de se ser só

morreu de câncer, assinalou minha tia

a língua pequena dizia que era pela quentura da cozinha

me apequeno sem saber não de quê, mas como ela partiu

se temia a doença desgraçada, se alguém segurava suas mãos mentindo que ia ficar tudo bem

se os médicos lançaram um olhar de lamento para o corpo com hora marcada de ser coberto

se ela sabia que eu existiria, mesmo em delírio

acendi uma vela para o nome que se descortinou nos galhos da minha ascendência

tentei atribuir um rosto ao nome envelhecido na certidão de óbito de minha avó materna

escrutinei em meu corpo qualquer traço do que me deixou Maria Rita

qualquer linha de expressão que ao bater o olho ela dissesse: essa é minha

ou será que é quando eu cozinho feito feitiçaria que Maria Rita vive em mim?

meia vela se consome sem respostas, eu me conformo com a imagem disforme da bisavó que concebi no peito

de posse do seu nome eu adentro a enfermaria abafada, confusa, com dois números que podem ser seu paradeiro

não me aborreço na procura, porque minha bisavó me sabe

cheguei com atraso, pergunto, pegando nas minhas a mão direita frágil que empunhou tantas colheres

é tempo, acolhe-me Maria Rita baixinho

a voz quase não sai, embargada pela doença, pelo reencontro que aboleta tempo e espaço

minha bisavó é pequena, mas se agiganta pelo fato de sermos duas

Silvas

o sol se põe e em meu invento não a deixo sozinha como passou a vida

percorro em seu rosto amarelado um sinal de que ela ainda se move

a mão que guiou as panelas me solta, como que me conduzindo ao fim do alento

foi quando descobri o nome de minha bisavó que me permiti encontrá-la morrer

Tatiana Lazzarotto é natural de São Lourenço do Oeste-SC e reside em São Paulo-SP desde 2011. É escritora, jornalista e mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). Participou da antologia independente Sós (2018) e é uma das integrantes do Clube da Escrita para Mulheres. Foi uma das contempladas pelo edital ProAC de Obras de Ficção 2020 e em 2021 publicará seu primeiro livro.

um haicai e dois poemas de Cida Pedrosa

Bicicletas voam
Na cidade que não vê.
Dor no app.

Haicai em Estesia, 2020.

* * *

rainha dos degredados

salve-me rainha
pois a vida não é doce nem misericordiosa

hoje só tem panela
e um pouco de maçunim

o marido se foi para as bandas do beberibe e vende caranguejo na feira de peixinhos

salve-me rainha
antes que os de eva morram
sem direito a maçãs ou coisa assim

o gás acabou
os jambeiros do cemitério de santo amaro desde ontem não safrejam
e minha filha menstruada
não pode frequentar o ponto hoje à noite

salve-me rainha e desterre
esta vontade de incendiar a vida e a dor que assola as mãos

Em Gris, 2018.

* * *

tereza

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza

quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa de varanda
e passar uma semana em bariloche

neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que se espremem nas algemas e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida no carro do iml
para exame de corpo de delito sob suspeita de estrangulamento

Em As filhas de Lilith, 2009.

Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, Sertão do Araripe Pernambucano, em 1963. Foi uma das militantes do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco na década de 1980 e daí vem seu gosto e experiência com a récita. Publicou dez livros de poemas, sendo os mais recentes Estesia (2020); Solo para vialejo (2019), Prêmio Jabuti (Livro do Ano e Livro de Poesia); Gris (2018); Claranã (2015); Miúdos (2011) e As filhas de Lilith (2009). Tem participação em antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior. Alguns de seus livros foram selecionados pelos prêmios Portugal Telecom e Prêmio Oceanos de Literatura. Está no seu primeiro mandato como vereadora eleita do Recife e fala sobre literatura no canal Fresta (youtube.com/cidapedrosa).

s/título, poema de Carlos Emilio Faraco

Eu sinto falta de um Deus
Que ordene ao deputado
Terrivelmente evangélico:
— Pega teu filho mais novo,
Retira-o à força de casa,
Leva-o ao alto de um prédio
E o sacrifica ao Senhor!

Eu sinto falta de um Deus
Que procurasse dez justos
No coração do poder
E, não os tendo encontrado,
Destruísse a cidade com fogo
E rios revoltos de enxofre,
Transformando os renitentes
Em brancas estátuas de sal.

Eu sinto falta de um Deus
Que tranque as portas da pátria
A todas as hostes fascistas,
Fazendo-as vagar a esmo
Sem ter casa e sem comida,
Por mais de quarenta anos
No mais adverso deserto.

Eu sinto falta de um Deus
Que em plena pandemia
Premiasse a teimosia
Com mil gigantescas crateras
Qu’ engolissem os debochados
E suas toscas ousadias.

Eu sinto falta de um Deus
Que exigisse da terra
E suas gentes folgadas,
O que exigiu do seu filho,
Ainda que para isso
Tivesse de transformar
O pouco que existe em nada.

Eu sinto falta de um deus…

Carlos Emilio Faraco é professor aposentado. Autor de obras educacionais e de um livro de poemas. Comete textos no Facebook. Ancião brasileiro (71 anos) esperando o gigante amanhecer.

sete poemas de ‘Cabeça do dragão’ (inédito), de Júlia de Carvalho Hansen

MEMÓRIA

Ao chegar numa festa
lotada você imagina
quem vê a festa sou eu
mas é a festa quem vê você.

JUVENTUDE

Já me refiro a ela como a outra.

MATURIDADE

Levei anos para aprender a gritar.
E agora que sou livre
estou dentro de casa.

TEMPO

Ainda não estou pronta
para escrever este poema.

ANCESTRAL

Mais antigo do que a morte
sábio que o esquecimento
dom do treino acumulado
adubo da metamorfose
trauma crônico
esperança de rebote
cordão helicoidal do umbigo
pó da atmosfera terrestre
fundo do mar, búzio celeste.

MÉTODO

Às vezes o poema
vai parar tão alto
a gente acha o poema
está tentando se esconder
se a gente sobe
tentando pegar
o poema cai por terra.

ÁRVORE

Fincar balanço
no rumo do sol
no céu, o ramo
a gênese.

O pescoço vem desde o pé
eu que só tenho olhos
a tua elegância de tronco e casca
eu que não tenho sequer raiz.

Deve fazer uns três mil anos
os meus antepassados não quiseram
entender os teus, eles utilizaram
a tua sabedoria como se fosse a minha.

Se você agora quisesse conversar
por que falaria comigo?
Que ainda não sou ninguém.
Que ainda envergo pouco.

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É poeta e dedica-se cotidianamente à astrologia. Autora de livros publicados no Brasil e em Portugal, sendo os mais recentes Seiva veneno ou fruto (2016) e Romã (2019), os dois publicados pela Chão da Feira.

dois poemas do livro ‘Um canto anaeróbico’, de Wellington Müller Bujokas

capa_bujokas

Conforme meu corpo sucumbe à fadiga, // mais meus pensamentos se afastam de Deus, e minha consciência se diluindo no mundo com o qual canhestramente convivo // pergunta-se o que devo fazer para voltar ao rumo quando a crença certa de que Deus é o rumo não encontra no corpo força para perseguir tal caminho mesmo como pedinte miserável, // sobretudo pelo receio de lançar-se de cabeça na miséria necessária / (caso recuse a miséria, ela se desenvolve em outras formas, porém).

Ainda que o corpo seja, em parte, desculpa. / Abandonar a crença em Deus: // provavelmente caminho viável e, em teoria, muito mais prático. Daria mesmo ao corpo um espírito relaxado, de quem já nada procura no mundo // (ou fora dele) // e flutua, flui com uma leveza (na mudança de mundo) que aliviaria, provavelmente, quase todo o fardo dos músculos.

Mesmo que Deus não exista, / a crença resiste, // pois a crença no modo de vida moldado nos ensinamentos bíblicos [foi difícil escrever a expressão, que soa tão canhestra, pelo medo de se misturar aos que esqueceram, num panfleto // (aqui se nota como sou dogmático), // seguir o próprio rumo] é, novamente em teoria, parâmetro único a me justificar a vida // (o que não significa que nego a existência de Deus para me assentar só em seus ensinamentos; // significa só não me perder no trabalho fútil e ingrato de usar os mecanismos errados para provar o impossível, em ambos os lados). / A solução óbvia e prática é uma quimera vaga e sempre inacabada, a exigir um esforço parecido ao de passar a andar com as mãos e comer com os pés, como quem se arraiga/se lança a uma moral instável mas translúcida.

O corpo, como se me perde. // Não é nada à parte, / e talvez pelo corpo bem se mostre que abandonar a crença é viável. // Ele a abandona e embaralha os pensamentos que não conseguem mais olhar ao longe, e sem o longe perdem também o perto, / o reto / (que não se afirma no bem, mas só numa decisão, com todas as suas fraquezas), // num movimento traumático, // sempre em mais de uma direção, não opostas ao não se tratar de ceder ao mal, // inimaginado na ausência do bem, mas necessariamente anulantes em alguma medida // (seria inexistência, não fosse traumático).

as vezes de quem não se leva a sério // (de fato, não levo, ainda que isso almejasse). // De fato, o poema é o poema, e a vergonha é grande demais para quem se move rumo a um só destino (com algumas ligeiras ramificações que se tornam cada vez mais pseudoeixos, enganos portanto solidificados e autorizados na ausência da pretendida rota reta).

foi descendo o rio rumo ao ar

Algum artifício sem explicação na vida te faz chorar?
Te faz chorar sem mesmo sentido?
Um choro que não exatamente da vida, concreta, palpável,
cuja explicação seja só o artifício.
Artifício que te carregue ao fundo do nada, um lugar abstrato,
exala tua decisão mais firme de viver neste mundo.

A descoberta do não não me faz chorar,
só a queda.
A descoberta não me move,
como não me bule a verdade.
Ambas concretas, ambas palpáveis,
certeza que não está no que afunda.

A queda me faz chorar,
artifício do que não se nota desespero do que não se entende,
não necessariamente uma agressão.

A verdade não me faz chorar.
Pelo menos não a verdade polida, azeitada, sem arestas,
como um ser divino e distante, inalcançável, hermético,
não reitera mais que a si.

Um chão sem metáfora.
Talvez uma verdade bruta, arestas ásperas, tocos quebrados.
Um mundo desolado por ter demais.
Onde encontrá-la?
Na morte, no vômito. Prefiro não.

O artifício pode ser hermético (mas não seu impacto, salvo pros que choram em atraso).
Não precisa ser.
Artifício um tanto quanto tudo, talvez mesmo somente técnica, se a técnica encerrar o abalo.

Artifício enquanto meio não me abala,
só instrumento, seria concreto como bala,
que fura e dói aguda, certa,
não a dor da dúvida.
Instrumento, é como desse maior valor à descoberta que a seu soco, de descoberta.

Por que escrever uma queda como revelação?
Iluminação?
Revelação (puro artifício) sem sentido, improvável
ao ponto de parecer apenas orgulho besta,
de quem não aceita impotente o absurdo, a mediocridade da própria vida.
Por que ansiar tanto pelo momento em que os outros chorem,
de ser um eco do choro, o abalo sentido?
Por que a ambição de ser elo do fraco, sensível (prazer da fraqueza?)?

A resposta, sempre uma desculpa, devia ter sido proibida,
tabu maior que o sorriso adolor duma moça sobre a ponte, curiosa suicida,
e ao mesmo tempo ufff-fuuuuuuuuuuu povoa, pulula, aos montes, (n)a cabeça.

Wellington Müller Bujokas nasceu em 1982 cresceu em Barão de Antonina, interior de São Paulo. Na juventude, transferiu-se para Curitiba, onde se formou em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Posteriormente tornou-se diplomata e mudou para Brasília. Trabalhou em Astana (hoje Nur-Sultan) no Cazaquistão, e em Moscou. Atualmente mora em Baku, no Azerbaijão. É autor de Estudos (Travessa dos Editores, 2012). Um canto anaeróbico (Editora Quelônio, 2021) é seu segundo livro de poemas. Wellington é ainda o tradutor de Vladimir Maiakovski na nossa coleção.

quatro poemas de Jussara Santos

Há muitos desastres desenhados sobre a cama
dois corpos nem sempre se traduzem em leves movimentos
algumas tatuagens registram o peso de certa mão
nós no lençol e não é o som do acordeão que te acorda.
A fronha afronta e salva sua dignidade.

* * *

O deserto
repousa em minha boca
verto a aspereza
de suas tempestades de areia
nós: sinônimo de abismo.

* * *

Quem se interessa pelo indigente
quem procura saber seu nome
a ele cabe a cova rasa
o tecido roxo para cobrir seu corpo
não lhe cabem mausoléus
nem a linha divisória
entre nascimento e morte
às vezes,
o que mais quero é ser indigente.

* * *

O que me resta
além da vermelhidão
do abismo
já que os muitos pássaros
que me habitam
se orgulham das asas
que não têm.

Jussara Santos é professora , escritora, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. Formada em Letras pela UFMG. Mestre e Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC-Minas. Pesquisadora da produção literária afrodescendente. Idealizadora do Projeto LATEMA (Lata poema). Publicou: De flores artificiais (Contos, 2002), Com afago e margaridas (Contos, 2006, Quarto Setor Editorial), Minas em mim (poesia, Prêmio BDMG Cultural), Crespim (Infanto-juvenil, 2013, Impressões de Minas), De Minas (Poesia, 2015, Impressões de Minas) e Samba de Santos (Poesia, 2015, Impressões de Minas) Indira (novela infanto-juvenil, 2019, selo autoral Azeviche).

três poemas de Geraldo Lavigne de Lemos

essa imagem refletida

a verdade reflete
na superfície áquea,
visão que se mostra
raramente nítida.

atravessada por seres
sob as ondas dos pingos
e cousas caídas na água cortada
e deslocada por barcos e correntes.

a verdade não repousa no fundo das águas límpidas,
tampouco paira suspensa nas túrbidas.

tão frágil que a aura deforma,
tão tímida que a folha encobre,
tão irresoluta que a névoa eclipsa.

a verdade,
essa imagem refletida,
até sermos líquidos noutra vida.

pesadelo em abril de 2020

era noite
o frio invadia os lares
e retorcia o sossego

vozes tomavam os cômodos

era noite
corpos eram entregues
como oferenda

pessoas se chocavam

era noite
a morte arrastava multidões
fora de época

pessoas se atiravam

era noite

era noite aqui
e ninguém mais dormia

o dia da mentira

no dia 1º de abril de 1964 contaram uma mentira
que durou 20 anos e 11 meses

ainda vivemos o rescaldo dessa tragédia
e já ventilam outras petas

como a de uma revolução que nunca revolucionou
(mas que causou 434 mortes e desaparecimentos
reconhecidos pela comissão nacional da verdade,
afora os relatos de pelo menos 1.918 prisioneiros políticos
torturados por 283 formas diferentes descritas
e estimativas que ultrapassam 20.000 pessoas)

a mentira tem perna curta (como teve a de 64)
e vida longa (como a de 64)

não quero. com n
de não. que os ratos continuem nos porões,
os choques nos quartéis, as pimentinhas nos molhos, os
dragões nas lendas, as geladeiras nas cozinhas e
os afogamentos nos acidentes, não em nossos corpos e
cabeças.

chega de história mal contada.

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus-BA), Fuxico (Feira de Santana-BA) e A Gazeta (Vitória-ES) e no blogue LiteraturaBR.

seis poemas de Diana Pilatti

diário de uma palavra antiga

I
o poema já estava vivo
antes do primeiro bípede sobre a terra
o poema já era tempestade
_______________dente-de-leão
_______________líquido entre as guelras

o poema era o instante-navalha
perfurando silêncio
pouco antes do sol
descobrir-se horizonte

II
são relíquias do tempo
essas palavras que a memória silenciou

numa pedra qualquer
um nome
sobre a rocha vulcânica
meu corpo

e a poesia que se de.compõe
pregressa à rudeza do mundo
é a mesma poesia flórea
entre os dedos da minha ruína

a casa

desprende-se
da parede mofada
a palavra-tempo

silenciosa
observa a poeira em nado lento
entre os filetes de luz
preguiçosos a entrar nos vãos da sala

cheia de histórias não contadas
cada cômodo dilata-se
submerso em ausências

“Houve muito amor nessa casa.”
sussurra contemplativo algum fantasma
estático
entre um espelho quebrado e um porta-retrato

mas à Palavra pouco importa o passado

evidências

sob os pés da noite
a eternidade
e as horas sem sabor na boca —
pedras de gelo e tempo

a cidade calada
fecha seus olhos para os seres noturnos
igualmente mudos
na esquina
sob a marquise
atrás do muro
multidão
anônimos
na lentidão
homônima

e a fome devora o verbo nos olhos catatônicos

paradoxo

o verão desliza morno entre os lençóis no varal

um frescor de mãe quebra o mormaço das horas a morrer no vão da tarde

a beleza hipnótica desse movimento — caleidoscópio perfumado

há realmente um lapso no tempo
entre o viés rosado do tecido que chicoteia
e o refrão de Chico que a mãe assovia

eu-menina
estática
em queda livre
neste paradoxo de verão

saliva

a palavra dilui-se entre os versos
seiva
visgo
primeira chuva

na boca
o verso nunca dito espreita
entre as presas
desliza e escapa
pela ponta da língua

eu
na agonia das horas
desfaleço
descompasso

ela
a palavra-outra
na minha ausência
me sonha

palavra invisível

anônima
uma palavra vagueia pelas ruas
cheira suor e urina

bastarda
uma palavra se esconde nos becos da noite
treme a cada estampido

estática
com a mão estendida
uma palavra invisível
me encara
acelerar o carro e virar a esquina

Diana Pilatti é professora e poeta. Nasceu em Foz do Iguaçu-PR, mas mora em Campo Grande-MS desde os três anos de idade. Formada em Letras pela UCDB e Mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS. Autora dos livros Palavras avulsas (2019) e Palavras póstumas (2020) e coorganizadora da Mostra Poetrix (2020). Divulga poesia em seu blog pessoal e nas redes sociais @dianapilatti.

cinco poemas para Georgia O’Keeffe, de Guilherme Dearo

I

as flores são pequenas ninguém
tem tempo de vê-las os nova-iorquinos
atarefados correm com suas agendas
não podem parar para agachar e
observar uma pequena flor que
porventura esclareça seu tedioso
caminho isso dizia georgia o’keeffe:
por isso pinto flores para que parem
de ter ideias sobre flores e possam
de fato olhar para as flores pinto-as
imensas para demorarem mais tempo
e meterem o rosto lá no fundo os lábios
roçarem os estigmas mordiscarem
os receptáculos feito abelhas gigantes
de óculos e cigarros e lambuzados
fossem a realidade-flor de cheiro-flor
não o homem que inventou a palavra-flor.

II

às vezes não bastam boas intenções e
o tino para o cheiro das tintas quando
se quer pintar flores flores banais com
formas e cores porque os críticos podem
enxergar outras coisas georgia o’keeffe
por exemplo chorou diante do primeiro
crítico que via vulvas não flores eram vulvas
e vaginas não flores como lírios rosas ou
magnólias mas não tem nada de sexual
meu senhor são flores não vulvas se projeta
vulvas em sua cabeça que se entenda com
a harmonia das formas comuns vá ao divã
deite-se com sua mulher que se abandone
com a matemática da natureza e seus uivos
noturnos.

III

arrancam as flores porque no
campo de flores há milhares
e se estão presas ao vaso
matam-nas de sede porque
são flores preferem palavras
e convicções os olhos tremem
e seus narizes não funcionam mais
mas sentam à mesa ao nosso lado
oferecem-nos a palma da mão
e requerem bons arranjos centrais
às empregadas então é urgente
pintar a flor imaculada ser a
prova de que há
curvas e
cores: lá fora elas dançam e resistem.

IV

não há flores na virginia como em
chicago assim como no metrô
de chicago faltam as lapelas floridas
dos cafés úmidos da virginia.

assim ela em roupas modernas vai
à rua atrás de um buquê colorido
e vasto como virginia woolf mandou
fazer mrs. dalloway por algumas horas.

e aos estudantes manda que pintem
um quadro por dia pela prática e pelos
vastos suplementos disponíveis:
há tantas flores quanto quadros.

portanto não faltam temas e se
as pinceladas não são perfeitas
não é questão porque perfeitas
também as flores não são.

além disso os expressionistas
abstratos descobriram a masturbação
e se anunciam nodosos na esquina
dispostos a destruir os vasos de angústia.

V

no novo méxico não há o novo
ou o méxico mas estou só e ouço
o deserto e o sol e pinto
estou só e não há críticos não há
homens e pinto
poucas são as flores não há
flores mas há cores e pinto
e o cheiro bem reto alisa a planície
há belzebus caídos e galhadas
há a lua e a escada
e pinto
não há alfred
mas há o nariz e minhas mãos
que são as mesmas
mas decaem e trabalham mas
há silêncio e pinto.
agnes martin talvez me entenda
entenda como tudo é liso
taos albuquerque e sim
manhattan, chicago,
embora não admitam mas
respiro e é reto.

Guilherme Dearo (São Paulo, 1989), é poeta e dramaturgo. Escreveu os livros de poemas Cabeça de touro (Editora Garupa, 2019), contemplado com edital da Secretaria de Cultura de São Paulo, e Duas hipóteses para um acontecimento (Editora Giostri, 2014). Publicou poemas em revistas como 7Faces, Gueto e Ruído Manifesto. Escreveu as peças O mar além (Festival Satyrianas 2013), Câmara escura (Festival Satyrianas 2014 e Janela de Dramaturgia de Belo Horizonte 2016), Obscenos gestos avulsos (Festival Satyrianas 2015) e Terminal Princesa Isabel (Festival Satyrianas 2020). Atualmente, estuda Letras na FFLCH-USP como segunda graduação e pesquisa arte e fotografia.