cinco poemas de Tarso de Melo

hoje

Amanhã vai chover mais forte,
todos nós já sabemos.
E é estranha a calma dos rios.

Os guarda-chuvas seguem fechados,
os meteorologistas fingem não ter nada com isso,
o barro não demonstra qualquer apreensão,
o vento lambe as roupas secas no varal,
nenhuma janela ainda se fechou.

A água vai vir, forte, como sempre,
engolindo todo o sossego ao redor,
mas os buracos não confessam
as tristes poças de amanhã.

As casas, as coisas, as vidas,
o que sucumbirá ao mar inevitável
não dá sequer um suspiro,
não se despede de nós, de nada.

Plantamos no solo morto
esse esquecimento do futuro
— e tudo o que brota chamamos

hoje.

desencontros

foram apenas nove
talvez dez
os meus encontros
com Orides Fontela

no primeiro
ela me perguntou
como aprendi a voar
e eu expliquei
que foi da primeira vez
em que caí
de um de seus versos
e ela torceu o nariz
para meus voos

no segundo
e também no quinto
ela me explicou
que Kant não sabia amar
nem dizer
para que servem
os pássaros
e as asas de quem anda

no terceiro
improvisamos
um mapa-múndi na toalha
e os povos solitários
expulsos do poema
cruzavam os hemisférios
tropeçando em copos sujos
e migalhas de um pão
que não nos atrevemos
a comer

no quarto
nada além de silêncio
nada tecemos
nada trouxe comigo

no sexto encontro
ela jogava uma canção
de uma mão para a outra
esticava e amassava os versos
rasgava as palavras
e deixava cair
com os pedaços delas
tudo que eu fingia
e fingia entender

no sétimo
talvez no oitavo
Orides reclamava da forma
como o fotógrafo
insistia em buscar
detrás dos seus óculos pesados
alguém que já havia partido

Orides não apareceu
na nona ou décima vez
em que a esperei
na porta do prédio
sob o bronze da placa
cujas letras precárias
gritavam INVISÍVEL

foi apenas um
meu encontro
com Orides Fontela

: foi nenhum

tigre

triste-distante, diante
dos últimos
acontecimentos:

tempo de silêncio
concêntrico
nervos de aço
mar de papel

mente a mil
mas serena
quieta (espinha
ereta, coração
tranquilo)

como quem se prepara
(tigre, tigre, brilho, brasa
: um amanhã a cada manhã)
para as artes
infalíveis
do ataque

por que

retrair-se à agenda alheia — desistir
dos cinco sentidos — por que o relógio,
as distâncias que cria, o mover-se
a sua sombra — por que as chaves
giradas, o diário trancar-se com a família
— por que a gravata, esperar o fim do dia,
dos dias — por que o espelho, o asseio,
a rotina dos sapatos — por que as senhas,
os códigos, os telefones de emergência,
endereços — por que os passos, os prazos
exíguos, as datas consumidas
como aspirinas

matas

já tínhamos prometido não falar mais de poemas
pensei em pegar uma pá ou a marreta dos dias
quebrar as calçadas todas da cidade
até que se erga novamente o que enterramos

não é apenas sobre nós que cai todo esse sufoco

os antigos falam de um rio que corria bem aqui
e se espantam quando digo que apenas sete por cento
da mata antiga resistiu às serras do nosso desejo

e eu me espanto mais que eles quando penso
que nem mesmo sete por cento dos poemas
que cobrem como mata densa o que chamamos mundo
devem resistir ao silêncio atlântico que se projeta
daqui até a mais distante das línguas

Tarso de Melo é poeta e ensaísta, nascido em Santo André/SP em 1976. Lançou, entre outros, Íntimo desabrigo (2017), Dois mil e quatrocentos quilômetros, aqui (com Carlos Augusto Lima, 2018) e Alguns rastros (2018). Em breve lançará a antologia Rastros, reunindo grande parte dos poemas que publicou desde sua estreia, há vinte anos. Advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. Colaborador das revistas Cult e Quatro Cinco Um. É curador de “Vozes Versos” na Tapera Taperá (com Heitor Ferraz Mello), de “Passaporte: Literatura” no Goethe-Institut SP (com Marcelo Lotufo) e de “Algaravia! poesia na Mário e nos bairros”, da Biblioteca Mário de Andrade.

três poemas do livro inédito ‘A implantação de um trauma e seu sucesso’, de Ricardo Escudeiro

pole walk in planche

“[…] And you think love is to pray
But I’m sorry I don’t pray that way […]”
(In: The Golden age of grotesque, Marilyn Manson, 2003)

com Anastasia Sokolova

há registro de uma foto de um caso
semifamoso ou nada
de um sanatório em massachussetts
mil novecentos e vinte e oito
uma foto de seis mulheres
flutuando
contra uma parede
as seis bruxas irmãs uma das traduções
que encontrei pelos sítios de busca
pra six sister witches ou levitating portuguese witch sisters
e não na foto e nem nos sites
mas aqui quase era e é ainda audível elas
sussurrando
pro acabamento descascado da parede coisas como
erigir um muro de sentenças pra o depois derrubá-lo
produzir o que é importante no aço dos lábios
mas e a questão da foto ser uma fraude
nada
já era impossível não
enxergá-las como deusas
as deidades que tomam conta
das artes da gravidade anjos
da totalidade

sete

: nós queremos o fim imediato da brutalidade policial
e dos assassinatos de pessoas negras.

coloca pra passar aí alguma miséria
faz dela uma prenda
um objeto de estudo
um alívio cômico dentro do horário
nobre um linchamento desnecessário com fins lucrativos
e cada um encena um suspiro de gala enquanto só assiste
enquanto no enterro de mais
uma irmã de mais um irmão uma voz
segurando na oitava da outra canta
o fruto estranho a carne
mais barata do mercado é a carne negra

ah mas como é que faz pra ter vontade
pra agir

mas quem mesmo o monstro
que te crava nas costas os dentes e você
é quem sente o gosto
calçar os sapatos do outro nada disso funciona nem
basta
você imaginar numa barca de gente comercializada
tua boca pra sempre no grupo
das bocas em semi alegria forçada pra despistar açoite
nem basta você imaginar um capuz
branco enforcando pra sempre a tua pele
ao lado de uma cruz em chamas
nem basta você imaginar um capitão do mato
te usando pra sempre
de cobaia em exemplos de estrangulamentos
gratuitamente e com abuso desde as fazendas
até as filas dos caixas
nem
basta você imaginar um coturno
tático pisando seu rosto humano pra sempre
e você mesmo ao lado pra sempre um verme
passeando na calçada sua isenção ou elegância

ah mas pra mudar essas coisas leva tempo

é o que diz o branco
apresentador do programa vespertino
há uns quatrocentos anos mais ou menos

ao infinito e além

para L. L.

em meados dos anos noventa um grupo
de excelentes cineastas como hoje o sabemos
lançava toy story pela disney pixar e com um intervalo
de quatro anos era lançada a sequência da animação
no mesmo passo de tempo eu descobria antes mesmo
de usarem as palavras que hoje usam pra isso
meu primeiro amor
no mesmo passo de tempo eu passava pelo fundamental dois
e aprendia também com uma enchente
que arrastara todos os muros possíveis
do que eu chamava casa que arrastara
todos meus pertences que então eram uns gibis e uns brinquedos
aprendia sobre abandono e sobre acolhimento
aprendia podemos dizer
sobre o que pode carregar os bracinhos de um brinquedo
que não é só fobia e trauma que nos incitam os inanimados
aprendia uns usos específicos de algumas palavras
bom falarmos disso
assim damos jeito de incluir aqui algo sobre as linguagens
e evitamos situações de equívoco das leituras
como aquela onde ninguém que dissesse-nos
que de cada vez que se pronuncia
vida
é pouco ou nada provável que tenhamos
vida entre os lábios
é raro
aprendia o peso de alguém escrever o nome
na sola de nosso pé direito
como a criança fazia em seus brinquedos no desenho
e como hoje sei fazem parecido os legistas
e pode ser um defeito de nosso ritmo e direção de leitura
mas essa inscrição nada tinha a ver com posse
veja-se pela ordenação das cenas o que vinha primeiro
significava you’ve got a friend in me
como hoje o sabemos eu aprendia então
com meu primeiro amor dividindo
uns gibis e uns brinquedos comigo
um amor sem essa de pertencimentos

ow isso não é voar
isso é cair com estilo
isso
é um verdadeiro salto no tempo e presencio
com meus olhos de agora
um nosso primeiro beijo
o ruim de certas quedas é que o atrito seca a retina

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como editor na Fractal e assistente editorial na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Poesia Avulsa, entre outras. Traduziu poemas da poeta afro americana Nayyirah Waheed, que foram publicados para download livre, pelo selo gueto editorial, da Revista Gueto, em 2017. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias Os pastéis de nata ali não valem uma beata — antologia de 2017 (Enfermaria 6, 2018), 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015), Patuscada: antologia inaugural (Editora Patuá, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Punks Pôneis, 2016) e Poemas para ler nas ocupa (Editora Estranhos Atratores, 2016).

pescaria, poema de Clarissa Macedo

Na fila de emprego
me deram uma vara de pescar.

Contrariando as profecias,
não conquistei o universo.

Não havia isca
não havia lago
não havia nada.

Os peixes sumiram (!)
sugados por quem já sabia pescar,
por aqueles que pescam de família em família
com o mar à mão
e dedos ensinados;

será que têm varinha mágica?
Será por isso que não pesco?

Há tempos desato o ofício da pescaria
e nunca dá certo.

Faz anos também
que o cheiro do peixe invade as paredes, o catre, os sonhos, a minha oração.

Eu continuo: persisto,
de anzol gasto,
no exercício de dar de comer
à mãe, às filhas, às irmãs;
mas todas minguam
na tarefa diáfana
de enganar a fome
de soletrar a morte.

Por isso, no auge daquele dia,
convencida de que pescar
sem isca, peixe ou lago
não enganaria a dor, a miséria,
amarrei a linha no tronco mais rijo;
e lá, de corpo pendurado,
olhei pra sempre o açude vazio da minha casa.

Clarissa Macedo (Salvador-BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e o livro Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; em 2ª edição pela Editora Penalux, 2017; e traduzido ao espanhol por Verónica Aranda, Editorial Polibea, 2017). Integrou, em 2018, o Circuito de Escritores pelo Arte da Palavra, promovido pelo SESC. Lançará este ano o livro O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (poesia). Site: http://www.clarissamacedo.com.br/ 

três poemas de André Merez

outro poeta

O poeta sempre é outro
não esse que se propõe.
Não essa fissura aberta
no intermeio do verso,
não esse suposto vago.

O poeta é outro, sempre outro.

À parte da teogonia de Hesíodo,
só essa camada de fibras e folhas,
só um ser assim sem as premissas,
o poeta não é esse suposto e visto.

O poeta é outro, sempre novo.

É sempre esboço, tem de ser,
sempre garatuja que se mostra,
busca que se deixa exposta,
desencontro, aniquilamento.

O poeta não é todo sentimento,
às vezes ele é régua e compasso,
às vezes é aço, ferro e cimento,
pátio vazio, concreto em branco.

O poeta é outro, sempre torto.

Viés de caminho, voz de dentro,
oblíquo, adunco, gauche, penso.
A dissidência, a vida mundo, vida
poesia nos pedaços desse tempo.

outra balada do mangue

Eu também fui ao mangue,
não aquele
do passado dos passados,
mas outro,
mais possível, mais presente.

Um mangue dos meus dias,
das minhas horas estranhas,
das horas moucas,
as moças vencidas,
derrubadas à noite.

Beijei bocas frias,
abracei vontades.
Vi os olhos assustados e os cílios,
longos cílios postiços encarnados
das moças bem moças,
nos quintais da colônia.

Eu vi suas carnes, vi seus corpos,
vi suas infâncias e vi seus sonhos.
Tudo vibrava de um azul noturno,
um frio de vento sobre o concreto,
um frio de dor, uma dor ventania.

Eu também fui ao mangue,
e vi o dia seguinte aparecer
vencido de álcool e alcaloide
enquanto a luz varria a noite.

No alto,
lá no fio,
pousa uma última estrela,
sozinha.

artigo 149 do Código Penal

A sombra de um homem,
seu trabalho. Sua sombra
projetada oblíqua no chão.

Um sol torrando tudo,
olhos tão horizontais
que a vista anula a vida.

A vida anulada pelo sol,
o sol e as suas sombras,
sobras da vida anulada.

Seus olhos, sem visão,
veem um risco de luz,
um fio de vida oblíqua.

O sol em seus olhos,
a vida em sua sombra,
a cegueira do trabalho.

A sombra de um homem,
com sua visão enviesada,
Já não vê sua escravidão.

André Merez cursou Letras e fez pós-graduação em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na graduação realizou pesquisa sobre o discurso do poder na obra de Plínio Marcos e na pós-graduação defendeu tese sobre as relações entre o processo inferencial e as questões de interpretação de texto na verificação de aproveitamento de leitura. Leciona Teoria da Literatura e Gramática há mais de 15 anos e desenvolve pesquisas sobre música, artes plásticas e poesia. Autor dos livros Vez do Inverso (Ed. Patuá, 2017) e Perfeição Acidental (inédito).

cinco poemas de Fabiano Calixto

REGNUM IRAE

faz uma lua sanguínea lá fora
o vento morno lambe a figueira
desaba um figo e engole o agora
último fio da imensa noite inteira
o sol, embriagado de tanto outrora,
chega vomitando pelas calçadas
os primeiros pedaços da aurora

JUGULAR

o gato afia as espadas de samurai
em cada uma de suas patas

nada escapa de tal arte atroz:
da jugular da tarde
salta um sangue viscoso
para dentro da noite veloz

QUANTO,

entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
cultivando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contragosto,
frio,
no fundo do poço,
raiva cobrindo
o corpo
todo,
contas a pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre do rato,
tifoide,
deixando de lado
o amor
(sopro
cosmo
humano)
disenteria,
erros calculados,
a poesia?

AUTOBIOGRAFIA

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question.
Charles Baudelaire

Paranapiacaba. Avenida Fox. Perto da meia-noite, quatro caçadores de recompensa desembarcam de um carro preto, que parara dentro do silêncio noturno da Vila Inglesa. O frio é de quebrar a caveira. Um disse: Deus — outro: vida — outro: êxtase — o último: caos. Um trazia, como oferenda à noite imensa, uma garrafa de conhaque — outro, quatro báuras — o terceiro, alguns poemas — o último, a sede de todos os outros. Apenas três viam o pequeno menino de meias azuis que os observava sentado no capô do carro, segurando Mjolnir. Apenas um via a gravura Die Schaffendem, de Max Kaus, no poste de madeira à esquerda, emoldurada por setenta & sete bruxas. Dois viam um menino, não no cara do carro, mas equilibrando-se no meio-fio, & cantando baixinho uma velha canção de Alice Cooper. Ninguém via a estrela ao fundo, apagando em si o sono da eternidade em alguns segundos. Os quatro magos vagabundos continuaram a andar & voltaram a ser os quatro caçadores de recompensa. Um deles, após jogar um dente de latão sobre o telhado de uma casa abandonada onde se escutava risadas de crianças, disse ao outro: sou o único homem a bordo do meu barco. Continuaram palmilhando vagamente, enquanto a voz de Chet Baker, guardada no tempo, se misturava ao som de seus sapatos, furados & sujos. Que recompensa era essa? Ao passarem perto de uma velha & grande coruja pousada numa caixa de correios, um deles se assombrou. O que vinha mais atrás disse: Sabe o que Philippe Beck diria, ao observar essa cena, meu camarada? Após a negativa do amigo, completou: O gosto pelo espanto não é suficiente. Outro, bolando uma ode como João Cabral a uma antiode, olhou & riu (a primeira recompensa). O seguinte, capote preto & longas tranças, um rasgo na calça à altura do joelho direito, observava Andrômeda no reflexo de uma lagoa imaginária & sabia que todas as galáxias não pesam mais que as mãos de uma criança. No norte aquele que, bêbado como uma capivara, falava de poesia (outra recompensa). Caminhavam & imaginavam florestas azuis armadas com mármore, jaspe & ágata. Caminhavam. A máquina do absurdo se abriu & ela era um mundo moderato & cantabile. Organizaram um mantra (burning bright burning bright burning bright burning bright) àquela majestosa & desvairada delícia face de mistérios — in the forest of the night. Abriu-se pacífica & pura, convidando-os à contradança como antídoto aos mesmos sem roteiros tristes périplos. Apliquem-se à esfera perdida da natureza mística das coisas, disse-lhes, mas canto algum, vaticínio ou verso vicinal atestasse que alguém de Marte ou Roma ali se fizesse trunfo na noite de bruma. O que procuram em vocês ou fora & jamais se mostrou, disse a fabularia noturna, educa os cincos sentidos com sexto, ausculta, carbura: essa riqueza hermética, esse total êxtase da vida, abram as portas da percepção & dividam-na. Então, como se outros espíritos, não os que lhes habitavam a carcaça mal lavrada, transformassem suas caixas cranianas em pinturas de Monet, onde cada flor abraçasse & repelisse; como se um organista tocasse guarânias numa sacristia & se chamasse José Oiticica & vestisse uma camiseta onde Jesus Cristo joga truco com Mallarmé, os visse de longe & viesse correndo ao encontro deles. & chegasse suado como um frade bêbado. Sorrisse, desapertasse sua gravata que era uma floresta de signos & dissesse: Música, amigos? Todos então mobiliaram o pensamento com tal oferta &, a máquina do absurdo guardada, se foi maravilhosamente recompondo & as mãos do mundo, antes pensas, jogavam, à vista vasta, fliperama de estrelas. Após tal partida, um deles, uma espécie de Théophile Gautier italiano, falava de um poema que estava escrevendo — sobre sombras & plátanos nas pernas de uma garota. O outro falava com seu amigo imaginário. Uma nave extraterrena pairava sobre a vila — os relâmpagos tentavam iluminá-la com seus braços de fogo, sem sucesso. Um, mais quieto, queria comer pastel de queijo, mas não havia, àquela hora, nenhum bar aberto. Todos slow boat to China. Quando um deles mostrou ao seu amigo imaginário as casas geminadas mais ao fundo. & estendeu aos outros três. Olhem mais a fundo, onde nada pode se ver! Que ruínas são estas? É uma vida esquecida? A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, & branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha desejo de correr aquela solidão. A imagem perfeita do mundo espocava aqui & ali, dentre as árvores, as construções, as ruas, a sintaxe, os fantasmas, a noite imensa. Deram aos seus pés o privilégio de tomar lições de tempo do chão. Viram o cantor das ruas, doente, agachado em frente ao Antigo Mercado, segurando seu próprio coração. & lhe deram um pedaço do bolo que traziam — um bolo feito de meses de abril, versos de Shelley, licor de anis, névoa da estação, alguns malabarismos de saltimbancos & água de riachos envelhecidos. No que o cantor das ruas respondeu: Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de guerra em chamas à borda de Orion. Via brilhar a luz do farol no escuro, no portão de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva. Com a mão esquerda cheia de sangue, apontou para uma inscrição minúscula no muro de uma casa do outro lado da rua. Com uma lupa, um dos caçadores de recompensa leu em voz alta para os outros: Há algo dentro de mim que não se mostra, & o que aqui aparece é apenas a roupa do infortúnio. Continuaram a caminhada, a busca, então o Gautier italiano disse, depois de despejar na noite fria uma quente baforada de fumaça, que há mais poesia nestes paralelepípedos que em todas as livrarias do mundo juntas. Era uma ação entre amigos, lisonjear o delírio & ajeitar a alma na carcaça. A grande sinfonia da viagem alargava sua cátedra. Uma palavra tatuada na língua: im platt — um enigma guardado dentro da morte que chora sobre as flores decompostas & passa o dia inteiro no cinema quando morre uma criança. Ao chegar à ponte que liga as duas metades da vila inglesa, pararam. Abriram a garrafa de conhaque de gengibre & acenderam um paião. O mais louco de todos, que queria ler & se embriagar mais ainda, pediu ao mais triste & estranho que lesse o poema que trouxe — & este recusou, pois estava em Marrakesh, observando Kenneth Rexroth disputar uma partida de sinuca com Carlito Azevedo na casa de um velho poeta argentino que jamais publicara livro algum & foi para o Marrocos imediatamente após o golpe militar de 24 de março de 1976. Então, pegou o papel dobrado & passou adiante, pedindo que passassem, em contrapartida, a bola. O poema falava sobre silêncio & dicionários, chuva, biblioteca, canção & cartas não escritas. Ouviram o Pentagram executando “Forever My Queen” — & há sinos sangrentos nos ouvidos do poeta que vagueia num barco & diz que a lua é um “globo de louça”, de um poeta que escreveu os sonhos todos em Mauá. Os membros da tripulação andam de um lado para outro como fantasmas de séculos extintos — diz Edgar Allan Poe, enquanto acende uma labareda & toda a fumaça verde do mundo invade os pulmões dos caçadores de recompensa. Lembram-se do Gastão, o primo do Donald? Com tamanha sorte, encontraria, sem dúvida, o que tanto almejamos — talvez num soluço, talvez num tombaço — disse um deles, bem baixinho. O outro então respondeu: Antigamente, acreditava que se uma pessoa morria a gente poderia colocá-la embaixo do chuveiro quente, bem quente, & esperar que a água lhe esquentasse & amolecesse a carne & lhe desse novamente a vida. Mas depois, tentando, vi que isso não acontece. Eles apenas ficam lá, quietos. Chorando a nossa lágrima. O último corvo come carniça sobre as jurubebas. Os nuncamais da parcial matemática buscam o oráculo num susto de chuva. And The Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting. Amamos o deserto, os pomares abrasados, as lojas decadentes, os bares de esquina, as bebidas quentes. Nos arrastávamos pelos becos fedorentos &, de olhos fechados, nos oferecíamos o sol, de fogo, ao deus de fogo. Talvez a recompensa fosse mesmo abrir a vida aos sentidos — como aos livros, na sala de leitura do inferno.

calisto_poema

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns (PE), em 8 de junho de 1973. É poeta, editor e professor. Vive na cidade de São Paulo com Natália Agra. Doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Música possível (CosacNaify/7Letras, 2006), Sanguínea (Editora 34, 2007), A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Córrego/Corsário-Satã/Pitomba, 2014). Fliperama, seu próximo livro, será publicado pela editora Corsário-Satã no segundo semestre deste ano.

dois poemas de ‘Cavalo que passa devagar’, de Jorge Vicente

capa_cavalo1.
primeiro exorcismo: transformar figuras de linguagem em rituais mágicos de combustão.

segundo exorcismo: escrever sempre um corpo gira sobre si próprio até ao limite das suas páginas.

terceiro exorcismo: uma palavra vale sempre mais do que duas palavras desalinhadas.

quarto exorcismo: nada vale o quotidiano se não deixar entre-ver uma pequena vivência e uma pequena dialéctica de linguagens.

quinto exorcismo: viver é a dupla matéria de escrever.

sexto exorcismo: no interior da metáfora, não há aconchego para a vivência.

sétimo exorcismo: não tenhas medo de te transformar em mito de ti próprio.

oitavo exorcismo: a escrita é a matéria escura do universo.

2.
tenho um pássaro a voar sobre o meu nascimento
asas abertas sobre um corpo que se contorce de vida
essa vida [e esse mar tão estranho
como estranha a maternidade que me enche de luz

esse pássaro
ser-de-madrugada e de palavras livres
pássaro quase-materno e quase-feliz
com as asas abertas sem metáforas
e sem língua para escrever,

pássaro que abre o sol
e que olha com profundo amor
esse primeiro choro

__________[rio subtil entre duas mãos].

| para comprar o livro Cavalo que passa devagar, escreva para voltadmar@gmail.com ou acesse https://www.facebook.com/voltadmareditora e https://voltadmar.tumblr.com/ |

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último Cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2018).

cinco poemas de Linaldo Guedes

carrossel de silêncio

meu filho fala sozinho

no meio das crianças
brinca com ninguém

finge-se de gato
imita o cachorro

au
au
au
autista

(e o mundo finge que ele não existe).

4 estações

as estações mudam:
o que era primavera de chuva
torna-se inverno quente

ou vício sem verso
sem poesia
na hora em que as coisas se benzem na ausência de orações

as estações mudam:
o que era outono florido
torna-se verão frio

ou verso sem o vício
da poesia
debulhando rituais adormecidos na hora do ângelus.

girassóis do mangue

foi quando passei da ponte do Sanhauá
que vi restos da orelha de Van Gogh
(sangrando o rio)

mangues de diálogos com zola
girassóis de caranguejos
meninos e as mãos. E a lama!

ladainha

um oásis se constrói com desertos

perto
(ou)
longe

um oásis se constrói em desertos

perto
(e)
longe

um oásis se constrói
(e os desertos?).

libação

difícil para um mortal entender uma deusa
decifrar seu olhar lento, em direção ao mistério

e o mortal ali: calado, inquieto, agoniado
como se fosse uma onda querendo rebentar o mar

mas sem uma quilha, é quase impossível navegar

ainda mais quando suas mãos agem

(e elas agem)
num estranho ritual de libação

enquanto o mortal zera a bússola
e descansa na terra firme daquele pulsar.

Linaldo Guedes é jornalista, poeta e editor. Como poeta, lançou os livros Os zumbis também escutam blues e outros poemas (1998), Intervalo Lírico (2005), Metáforas para um duelo no sertão (2012) e Tara e outros otimismos (2016). Lançou, ainda, Receitas de como se tornar um bom escritor (2015), Padre Rolim em quadrinhos (2018) e O Nirvana do Eu: Os diálogos entre a poesia de Augusto dos Anjos e a doutrina budista (2018), entre outros. Editor na Arribaçã Editora, é formado em Letras e mestre em Ciências da Religião, pela Universidade Federal da Paraíba.