três poemas de Carolina Rieger

dueto

o vento zomba da carne
espanca a pele e a anca
rasga à navalha a pelanca
o vento zumbe na cara
e esbraveja no ouvido
esfarrapa à farpa a entranha
vento e ventre a grunhir
vazando a víscera vazia
a fome e a noite fria

um uivo

ah, essa coisa de fazer poesia
e trazer tantos lobos para fora do covil
e lobas, todas no cio,
e tantos e tantos vazios
ah, essa coisa vã que é fazer poesia
e que não fala, uiva
e chora e sangra
estrangeira e nativa
numa ilha igual a todas as outras ilhas…
ah, essa coisa inútil que é fazer poesia
e ser um desnudamento tão íntimo
que de tão íntimo desnudamento
é igual em todos os falantes
ah, coisa inevitável
que é fazer poesia

as Mulheres e suas Crianças

desbravando o estreito do tempo
Elas ficam prenhes
não só de filhos
não só de amores
prenhes de sonhos
e de perpetuação
na barriga nascem cidades
as leis e seus reis
não há outro meio à força motriz
da barriga nasce a história
nasce toda a gente
nasce um país
o futuro é umbilical
seio e noite insone
em ladeiras pedregosas
caminham as Mulheres
suas Crianças a tiracolo
por ladeiras pedregosas
fogem dos algozes
as Mulheres e suas Crianças

Carolina Rieger nasceu em São Paulo, capital, e mora em Osasco. Formada em Filosofia pela USP, mestra e doutoranda em História da Educação pela PUC-SP. Publicou Irmãos Koch, think tank, coletivos juvenis — a atuação da rede libertariana sobre a educação (Edições 70, Editora Almedina, 2021). Publicou poemas e contos em coletâneas, fanzines e revistas. Seu primeiro solo de poemas é Carnaval (Editora Patuá, 2017), que lhe rendeu uma colocação entre os 10 finalistas do Prêmio Guarulhos de Literatura 2018. Em 2019, ficou em 3º lugar no mesmo prêmio. Está com seu próximo livro, De temer a morte, pela Caravana Editorial, no prelo. Estes três poemas são dele.

cinco poemas de Jéssica Iancoski

rolos de papel filme

como ybá
secando longe do pé

dedos esticados
pela ganância branca
formam uma linha
do polegar ao mundinho

movimentos de pinça
roubam a tangerina
tentando extrair
a seiva interina

sem que saibam
robôs descascam
o firmamento

frutos envoltos em etileno
enrolam horizontes
em rolos de papel filme

um só lamento para o soterramento

enquanto cipós
se lançam do alto
das copas
buscando
a semente

pessoas
trocam de nome
tentando aceitar
a mente

yby seria só a terra
mas homens infelizes
impuseram o chão

pilares

antes do sol
uma mãe
e os seus seis filhos
se levantam e
erguem as mãos
para um deus mudo.

sem que saibam
sustentam o peso do mundo
para que um dois ou três
homens sem rostos subam
até a tez
da lua.

enquanto suas
mulheres cantam agudo
sobre as noites mais escuras
de um eclipse profundo.

e os pobres escutam
com seus rostos evaporados
em multidões
enquanto aguardam
esmagados
a própria vez.

os dez dedos do silêncio

o silêncio
se agarra
com seus
dez dedos
de estrangular
às setes verte
bras cervicais
do pes
coço

entalado
como osso
nem sobe
nem desce
endurece
como carne
e como câncer
de laringe

pendurados
em correntões
refrigerados
em açougues
da freguesia
podre

plunct plact zum

paredes são concreto
e argamassa da mais
lisa indiferença
soldando nomes
em bloco de dígitos
e renda por cabeça.

chão é asfalto
e pixé da mais
espera violência
derretendo nomes
sob sóis sempre
mais quentes.

miolos são gente
e água da mais
juvenil anarquia
descarregando nomes
próprios entre portas
— tiros por pente
per capita.

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc.) e internacionais. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 16 anos de idade. É editora do Toma Aí Um Poema — o maior podcast lusófono de declamação de poesia e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Contato: www.jessicaiancoski.com | @Euiancoski

não venhas sorrateiramente a nós…, poema de Rodrigo Novaes de Almeida

“Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.”
Dylan Thomas (!914-1953)

Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia,
Que os cantos e as danças avancem a tarde ainda;
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

E ele penderá sempre ao absurdo, fim da alegria,
Quando a humanidade já não for mais bem-vinda;
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.

É injusto o apagar da espécie cuja ousadia
Foi ferir gravemente o mundo e se colocar na berlinda?
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

Não é sem propósito destruir sua única moradia,
Matar a todos ao redor e deixar tudo cinza?
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.

A gravidade do tempo presente é a nossa comédia,
Outrora o calor de uma mãe a nos afagar, tão linda;
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

Conterá um mal com outro mal sem misericórdia:
Assim é a terra sem-par quando se faz desavinda.
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

São Paulo, 26 de julho de 2021.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020) e Do amor e de outras tristezas: histórias de violência e morte (Contos, Editora Urutau, 2021), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

três poemas de Demetrios Galvão

a sorte se esconde no amanhã

quando o motor pega no tranco
e o clima pesa sobre os ombros
penso na vida de minhas gatas
e imagino o que elas sonham
essa imagem preservo por dias
emolduro e guardo

calculo o que vejo
meço, peso, observo
a febre dos animais
a alegria dos peixes
a conversa das estrelas…

sei que as sementes da voz
se expandem na boca do tempo
e que não há fundamento maior que a coragem

— o amanhã traz uma sorte desconhecida.

farrapos da imprecisão

é privilégio dos vivos ter lembranças
coisas guardadas onde não sabemos onde:

de um avô, lampeja a velhice esbranquiçada em passos bem curtos
com palavras que não criavam raízes dentro da frase.
do outro, a matéria dos olhos assertivos-esverdeados
semeando a terra, plantando cajus e lutando contra as formigas.

de uma avó, ficou a potência de uma mãe de muitas mulheres
que não tiveram a sua mesma força.
da outra, a doçura-alegre de quem gostava de bananas
e nos enchia o bucho de coisas boas.

— o que fica, são os farrapos da imprecisão
alguns fleches não revelados da máquina.

reabitar 2

1

a esperança
desafia a gravidade
e levanta os mortos

reanima os segredos da casa
com o toque do invisível

perturbamos
os domínios da morte
com nossa felicidade.

2

o irromper da luz
e sua energia
intangível

magnetismo
que me faz
manter os olhos
no nascente

e imaginar um lugar
que deus
não conheça.

Demetrios Galvão (Teresina-PI) é poeta, editor e professor. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017), Reabitar (2019) e do objeto poético Capsular (2015). Tem poemas publicados em diversas antologias, revista literárias e é coeditor da revista Acrobata, em atividade desde 2013.

o que vale mais é a opinião de um brigadiano ou de uma árvore, poema de Adrian dos Delima

Um brigadiano é como chamam policia militar na minha cidade
de trânsito matador
Nele os policiais vem e vão
Vem e vão os caminhões
Uma árvore não fala senão por seus atos
Os atos de uma árvore são bons
Uma árvore não responde a perguntas de polícia nem juiz
Uma árvore não responde nem pelos seus atos e pode
ser julgada como incapaz
Uma árvore não pensa
Uma árvore mantêm muitos vivos
E cada árvore sem pensar faz falta demais para o todo
Essa podia ser atitude de polícia
Manter os vivos como estão no seu lugar no mundo
Os brigadianos bem podiam ter voz ativa
Brigadianos
respondem por seus atos
E como humanos os atos deles são perfeitos em nada
pensam
falam
fazem
Mas brigadianos uma linha de raciocínio militar os impede
de falar verdadeiramente
Não devem pensar mais que uma árvore
Não devem se mover senão por vontade alheia
Brigadianos em muitos aspectos são iguais a elas
Nunca foram melhores que árvores
Nunca vão ser
E no entanto
têm medo delas
Têm medo que alguém suba em alguma
Têm medo que elas matem
Brigadianos não sabem que árvores são a única vida
São proibidos de escutá-las
Saber que lugar de humano é numa boa árvore
no meio delas e respirando
embaixo
em cima de uma
sem caminhões fedorentos passando nem carros de polícia
Isso é viver no meio da morte
Das árvores descemos ficamos eretos e caminhamos
Acredito nisso porque isso parece uma verdade
Acredito que brigadas deviam ouvir mais a opinião muda das árvores
depois pensar
depois falar
depois agir de maneira boa como as árvores
até que voltem a haver muitas árvores e brigadas venham a ser desnecessárias
Ou seja TUDO
por enquanto depende das árvores
as incapazes
Mas muita coisa pode depender daquilo que um brigadiano ainda venha a ser capaz

| poema finalista do Prêmio Off Flip 2020. |

Adrian dos Delima (Canoas, RS, 1970), nome artístico de Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor; revisor, capista e diagramador. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal Falares, dos estudantes de letras da UFRGS. Foi pesquisador da poesia de João Cabral de Mello Neto. Seguindo seus estudos como autodidata, posteriormente publicou em revistas de papel e online, como Germina, Babel Poética, Gueto, Gente de Palavra, InComunidade, Sibila, Mallarmargens, Diversos Afins, Subversa, entre outras. É autor dos livros de poemas Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015), Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015) e O aqui fora olholhante (Vidráguas, 2017). Traduziu poemas de Joan Brossa para a Revista Gueto e de Reiner Kunze para ilustrar texto didático de livro de Geografia da Editora Moderna.

sobre uma canção do bob dylan, poema de Hugo Lima

quantos caminhos um homem deve percorrer
até ser considerado um homem?
quantos oceanos deve cruzar
antes de morrer na praia?
quantas balas de revólver serão atiradas
até que sejam banidas para sempre?
que respostas nos soprará o vento?

quanto tempo uma montanha pode existir
antes de ser tomada pelas águas?
quantos anos uma pessoa precisa viver
até conquistar sua própria liberdade?
quantas vezes nos encaramos no espelho
e não nos reconhecemos?
que respostas nos soprará o vento?

quantas vezes olhamos para cima
mas não reparamos no céu?
quantos ouvidos um líder deve ter
para ouvir o seu povo chorar?
quantos ainda precisarão morrer
até que façamos alguma coisa?
que respostas nos soprará o vento?

| poema do livro O corpo sublime (Editora Urutau, 2021). |

capa_sublimeHugo Lima é poeta, performer, educador, curador e especialista em artes plásticas e contemporaneidade. Suas pesquisas giram em torno da produção de artistas brasileiros contemporâneos — com publicações recentes sobre as obras de Letícia Parente, Edith Derdyk e Maíra Parula — e das intersecções entre corpo, linguagem e novas mídias. Já se apresentou em diversos eventos culturais. É autor de Nus, Florais & Ping-Pong (2014), Corpo dos Afetos (2015), Dois Quartos (2017), pela Crivo Editorial; Repeats & Bonus Tracks (2017), pela Coleção Leve1livro; e do livrobjeto A Linha Pensa (2017-2019), pela Casa Sana Edições.

versos para esquecer, poema de Diana Pilatti

capa_diafanasdas cinzas do dia
teu nome me insiste

ecoa cálido sibilo
entre os dentes da noite

te exorcizo nestes versos
Órion
visgo de estrelas

da minha boca
da minha pele
teu nome madrugada

com a mesma força
eflúvio e sede e devoção
a poesia que decomponho

e para meu alento [e sepultura] — parto
poeira de Lua e Tempo

no viés da palavra
[desfaço nós]
sem pronúncia: sou outra

“na curva extrema do caminho”
despedida
[e em teus adros
meu nome
totem profano]

| poema do livro Palavras Diáfanas (Editora Patuá, 2021). |

Diana Pilatti é professora da rede pública e poeta. Coorganizadora da Mostra Poetrix (2020-2021), participou das duas edições da Coleção de Livros de Bolso do Mulherio das Letras (2019-2020), além de ter vários poemas publicados em coletâneas e revistas literárias. Palavras Diáfanas é seu terceiro livro de poemas, lançado em 2021 pela Editora Patuá [ @dianapilatti ].

três poemas de Laís Araruna de Aquino

nós só compreendemos muito tempo depois

é perto das quatro, o sol incide
obliquamente sobre as palmeiras
o vento rege uma canção entoada pelos
pássaros e cigarras —
aquela que veio de nenhum passado

agora, uma ave branca cruza o silêncio
nós só compreendemos muito depois
esta paisagem, este corpo, esta travessia
compreendemos numa estação diversa
quando as folhas estão secas no chão
ou sabem à resina

tudo está calmo e quieto
mas ninguém sabe os mundos que o coração
do homem abriga
os bois se juntam no pasto
e tangem os rabos contra as moscas
também meu coração tange algo
que não sei nomear

estamos no presente como em um lago
onde pousamos os pés
e não sentimos o assoalho
e de repente se faz muito tarde

quando desejamos regressar
e abrimos a porta da memória,
há um caminho que muda
a cada entrada

então, na curva de tantos dias,
deixamos um pouco do passado
agora, o musgo cresceu
range a porta

damos talvez por uma falta
mas não saberíamos dizer
mesmo isto —
nós só compreendemos muito depois

o cheiro da tangerina

todas estas coisas são muito antigas
a tarde
o sol
a meio caminho do horizonte
um homem
sem outra companhia que seu pensamento
navegando na tarde imóvel

todas estas coisas são muito antigas
o cheiro da tangerina
impregnado nas unhas
as cortinas esvoaçando na sala
os poliedros de luz que o sol faz no assoalho

tudo isto é muito antigo
a tua silhueta
contra o anteparo da janela
o halo distante da lua
na noite ausente

muito antigos
um homem
e a vontade de núpcias
impossíveis com o universo

à luz da manhã todas estas coisas começarão mais uma vez
e a manhã e tu mesmo estarão sob o sol
sem o frescor da criação

meditação em Ouro Preto

chove
e ao tombar a chuva sequer descreve uma melodia
o silêncio do estio retumba em praças lúgubres
e o tempo escoa no ciciar da noite sem cortejo algum
as esferas estão vazias e nada acolhe o teu desejo
a tua carne jaz triste em um colchão de hotel
entre os pilares inexistentes do dia, não irrompe
um bocejo de tédio dos deuses ou dos bêbados
o coração do tempo se profanou definitivamente
escutas apenas uma pancada forte nas paredes
mas não há ninguém do lado de fora

são as paredes do teu corpo que estertoram

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É autora de Juventude (Editora Reformatório, 2018), vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2017.

nove, poema de Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida

Quem é que poderia imaginar que ela seria nove ao invés de dois. Que a vida seria a linha em redemoinho permanente. Que seu corpo seria o fio de um discurso muito longo girando ao redor do mesmo tema. Quem é que poderia imaginar que ela seria a única personagem do livro que eu escreveria. Quem é que poderia imaginar que assim é que ela viveria para sempre. Que sexo era só o que seria diversão. Quem é que poderia pensar que ela viria caminhando em direção oposta. Quem é que poderia imaginar que ela declamaria versos em voz alta. Quem é que poderia imaginar que ela voaria como pássaro selvagem na floresta não tão encantada assim. Quem é que poderia pensar que ela seria capaz de falar duas línguas ao mesmo tempo. Quem poderia pensar que ela se dedicaria à pesquisa de fundamentos básicos da sociologia. Que driblaria questões que não eram físicas. Que teria pleno domínio de arte e matemática. Quem poderia imaginar que ela tomaria duas doses de conhaque na primeira noite de inverno. Quem é que poderia imaginar que ela teria este longo cavanhaque. Que dela seria um cavalo chamado Oberon. Quem é que poderia imaginar que ela trocaria a noite pelo dia. Quem poderia imaginar que um dia ela vestiria quimonos e gravatas. Quem é que poderia imaginar que o que ela mais desejaria na vida era ter destino comum. Tal qual no primeiro dia em que saiu de casa para andar de bicicleta. Quem é que poderia imaginar que um homem inteiro não seria feito de meias palavras. Que o que ele diria ontem seria o que hoje ele silencia. Quem é que poderia imaginar que a casa é o que restaria onde ela já não mais estava. Quem é que poderia imaginar que haveria vento deslizando na superfície da terra. Quem é que algum dia poderia pensar que uma nuvem faria sombra na topografia. Quem é que algum dia poderia imaginar que haveria flores no jardim de todos. Quem é que poderia imaginar que dali a poucos minutos alguém partiria para nunca mais voltar. Quem é que poderia imaginar que ela seria um só. Que às vezes ela seria ele. Que ele nunca estaria fora dela. Quem diria que a vida seria feita de milhares de fragmentos. Quem diria que um dia isso tudo passaria. Quem é que poderia imaginar que haveria tanto drama na última hora. Quem é que poderia imaginar que ela teria o mínimo de disciplina. Para colocar talheres sobre a mesa. Para organizar livros na estante em ordem decrescente de tamanho. Para levantar hipóteses, para relembrar isso e aquilo outro. Quem diria que ele vestiria saia plissada no verão. Quem diria que dali a poucos dias seria um vestido verde. Quem diria que um dia ela ainda colecionaria pesos de papel. Quem é que poderia adivinhar que ela iria gostar de Picasso, mas não de Pissarro. Quem poderia pensar que não haveria regra sem exceção. Quem diria que o mínimo de perspectiva seria fundamental para atravessar a rua. Quem diria que o traço no desenho seria diagonal. Que qualquer julgamento seria sempre parcial. Que o sentimento seria mútuo ocasionalmente falando. Quem quer que fosse imperador. Quem é que poderia imaginar que ela não teria coragem. Quem é que poderia duvidar que ela teria medo. Que daqui para a frente nada seria como antes. Que ela não seria igual a ele. Quem diria que ela não teria cílios postiços. Quem é que poderia imaginar qual seria a cor dos olhos dele. Quem diria que não haveria mais tempo para pensar no primeiro dia do ano. Parábolas seriam feitas disso. Antenas parabólicas também. Quem é que poderia imaginar que ontem de madrugada ela voaria tão alto. Quem é que poderia imaginar que ela cairia da escada antes do final do dia. Que aquela que não era ela que ali estava na minha frente. Quem é que poderia imaginar que ela teria dois casamentos na vida. Que o amor também seria feito de desencanto. Desencontros seriam fenômenos relativamente comuns. Quem é que poderia imaginar quantos anéis ela teria nos dedos. Quem é que poderia pensar na luz acesa hoje cedo. Quem é que poderia ter lembrado disso. Quem é que poderia imaginar o que ele levaria no bolso do casaco. Quem é que poderia imaginar que ele sairia de casa para nunca mais voltar. Que deixaria um par de sapatos para trás. Além de quadros na parede traje esporte fino e outras recordações. Quem é que poderia pensar que ela embarcaria no próximo trem para Genebra. Quem diria que ela teria fôlego para atravessar a longitude do corredor. Quem é que poderia imaginar qual seria o resultado final do exame laboratorial. Quem poderia saber qual seria o diagnóstico final. Quem é que poderia imaginar que ela cruzaria um oceano inteiro a nado. Que haveria ritmo nas braçadas. Quem diria que ela não saberia de nada, mas que também não almejaria nada além disso. Quem é que poderia imaginar que ela viveria setenta e dois anos e dois dias. Que a vida passaria como um suspiro na janela. Que hoje ela teria um monóculo inglês na mão direita. Que depois o monóculo ficaria guardado na gaveta do aparador. Quem é que poderia pensar que ela também colecionaria mapas, além de pesos de papel. Quimeras e o que mais. Do que ela seria capaz se não tivesse medo. Quem é que poderia imaginar que sobraria sempre um minuto do tempo que se perdeu em pensamento. Que de antigas memórias viria uma jaqueta de veludo novinha em folha. Quem é que poderia pensar que ela escreveria uma carta tão longa em plena sexta. Quem diria que seria uma carta de amor monumental. Que o conteúdo da carta seria puramente sentimental. Que ela seria personagem principal. Quem é que poderia falar de seu próprio destino. Quem diria que ela ainda veria tantas crianças correndo no meio da rua. Quem seria a mulher com quem trocou meia dúzia de palavras hoje de manhã. Quem seria o homem que cuidava dela no hospital. Quem seríamos nós às cinco da tarde. Quem seríamos nós quando a noite cai. Quem é que morre quando o outro nasce. Quem poderia pensar que dali a meia hora já seria outro dia. Quem poderia pensar que ela não voltaria atrás. Quem é que poderia imaginar o que viria adiante. Quem é que poderia pensar no que sempre acontece de repente. Quem pensaria igual, quem pensaria diferente. Quem saberia dizer o que não sente. Quem ela pensaria que era ele agora mesmo. Quem poderia imaginar que ela não fosse dourada. Que não tivesse nuvens nos olhos. Quem é que poderia imaginar que ela não teria eira nem beira. No que pensaria ela ao abrir a janela do quarto. No que pensaria ela ao pensar nele e vice-versa. Quem é que poderia imaginar que ela seria mestre na arte de desaparecer sem dar notícia. Que faria um curso de caligrafia japonesa. Quem imaginaria que um dia ela seria assim. Quem seria ela despindo as roupas no banheiro. Quem seria ela fechando os olhos depois de apagar a luz. Quem seria ela nos braços dele. Quem seria ele aos olhos dela compasso e espera. Quem teria sido ele na noite passada. Quem é que poderia imaginar que ela não soubesse disso. Quem é que poderia pensar no que não faz falta. Quem é que poderia imaginar que ela faria uma anotação qualquer. Que depois disso ela apagaria a luz de novo. Quem é que poderia imaginar que ela ficaria em silêncio. Quem é que poderia imaginar qual seria a direção do vento. Quem é que poderia imaginar que um dia ela sairia correndo na direção do mar. Quem é que poderia imaginar qual seria a hora exata em que isso aconteceria. Quem poderia dizer que horas eram quando ela não voltou mais.

Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida é formada em Cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado — FAAP e funcionária do Itamaraty desde 1994. Já morou em Berlim e Nova York, atualmente reside em Londres. Colecionadora de palavras, profundamente interessada em tudo aquilo que acontece ao redor.

27 pássaros, poema inédito de Moema Vilela

minha amiga faz origamis
do outro lado do telefone
ela está no vigésimo sétimo pássaro
eu, no quarto dia sem fumar
numa casa sem eletricidade
estamos fazendo companhia uma a outra
esperando o fim dos tempos passar
_________em um grande rasante no céu

no viva-voz ouço sua respiração
as unhas marcam as dobras no papel
quando ela chegar a mil
_________poderá realizar um desejo
embora eu não esteja fazendo tsurus
também sigo concentrada
em não perder de vista meu desejo
_________e seus pássaros

vê que não é de cigarros que falo
ao convocar a imagem dessa grande abstinência
em que até a espera perdeu seu lastro
_________esperar o quê, pelo quê?
ficamos com o como
estamos fabricando o futuro
sem rasgar nem usar a tesoura
juntas até que a bateria acabe

enquanto o fim do mundo percorre sua trajetória
_________desenfreada entre os planetas e as estrelas
escuto a noite e a minha amiga
_________dedicada a não perder de vista
o que ainda temos

Moema Vilela é autora de A dupla vida de Dadá (Editora Penalux, 2019), Guernica (Edições Udumbara, 2017), Quis dizer (Edições Udumbara, 2017) e Ter saudade era bom (Editora Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura. Publicou contos e poemas em revistas e jornais e em coletâneas como De tudo fica um pouco (Editora Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da memória (Edipucrs, 2014), Antologia Um (Edipucrs, 2017), Mulherio das Letras (Costelas felinas, 2017), entre outras. Graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Doutora em Letras pela PUCRS, é professora nos cursos de Escrita Criativa e Letras na PUCRS.