homem-gaveta, poema de Richard Plácido

calibrações, bicicletas, terremotos
uma pilha de concreto se fazendo de morta
construções da China chegando ao Brasil
na aurora a vida
ainda
na aurora
pretos dançando na chuva
e sem querer ser firme no lampejo
não há mais o que se dizer em dez minutos
não há mais necessidades fisiológicas
o mundo se encerrou
fecharam-se as pastas
o expediente continua apenas para Carlos
tirar leite das pedras e doar à caridade
dobrar lençóis questionáveis
dividir a feira em 3x no visa ou master
e mesmo assim
mesmo quando tudo em estiver em jogo
a escuridão ameaça a tela do computador
o arquivo a salvar
os pratos batendo na cozinha, riscos pela manhã
indícios da caça
são eles
os inomináveis
fazem a festa novamente
deslizam no prato sujo e se penduram nos pequenos canos
cheiram a tua roupa, passam a pequena língua no teu seio
e mordem confusamente os teus pés
não encontram nada
encontram apenas remorsos, culpa e dívidas
partem rápido pelo lençol
o único rastro
é o seu canto

Richard Plácido é escritor. Em 2016, publicou o livro entre ratos & outras máquinas orgânicas, pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Em 2019, publicou o livro de contos Da casa o nome, pela Ofélia Edições. Contato: richardplacido.com | placidorichard@gmail.com.

três poemas de Maíra Vasconcelos

há uma casa no alto
antiga e desabitada
à espera de um corpo vivente
uma casa tão lúcida
da necessidade de alguém
que nem sei se existe
tamanho trabalho e ousadia:
a casa precisa ser repensada.

* * *

como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
e batem nas paredes
nos móveis ficam acurralados
a respiração abafada e o coração muito rápido
como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
assim elas falavam das lembranças
de cenas não-imóveis
como tudo o que está fora das casas
esse princípio das asas.

* * *

não há garantia alguma
se onde estão os pés descalços estaremos
posicionados em luz.
olhe, por exemplo, aqueles barcos e as águas do rio
posicionados em luz
como se nunca pudessem nos afogar, mas apenas nos banhar.

Maíra Vasconcelos, escritora e jornalista, de Belo Horizonte. Escreve crônicas, desde 2014, para o Jornal GGN. Um quarto que fala (Editora Urutau, 2018) é seu primeiro livro de poemas. Reside em Buenos Aires, e é aluna do mestrado em Estudos Literários, na Universidade de Buenos Aires (UBA).

cinco poemas de Esther Alcântara

longilínea

Longa é a linha
onde meu corpo
longilíneo
se aninha

Contorna
um (uni)verso
sanguíneo
por um fio

Verbo a dançar
na carne
pasmada de
silêncios

regresso

Nas mãos
que trabalham
estremece
a bandeira

Por ordem
mulas estimulam
o progresso
das liteiras

habeas corpus

Quis sair
mas só havia
in-concreto
vias de
abscesso

Acessos de
sexta concepção
por um triz
no cérebro de
segunda

A vida desanda
convulsa
e grita sonâmbula
o direito a seu
corpus

s/título

Um dia havemos de acordar
com a ressequida seiva
das árvores queimadas
doendo em nosso tronco oco
Ardendo em nada

então a amargura da saliva
nos dará notícia
de nosso rastro na Terra:
um sinal de fumaça

desvio — via Bandeira

Eu choro
como quem faz versos
no vão
entre as palavras
v(il)ãs
decapitadas
de senso e sonho

E sonho
em capítulos soltos
no desvio
das ruas
entre a literatura
e o meio fio
da página

Esther Alcântara é poeta e por vezes cronista. Paulista, hoje vive em Salvador (BA). Atua há 27 anos na área editorial como editora e revisora de textos e está à frente da editora Carpe Librum. Dedica-se, ainda, à encadernação artesanal e flerta com livros de artista: em 2015 participou da exposição de livros de artista “Entre a dobra e a obra: memórias” na Biblioteca Mário de Andrade (SP) com a obra Raízes; em 2016 publicou o minilivro Vinte poemas para serem lidos com lupa; em 2019 promoveu oficinas de livros artesanais na Casa de Castro Alves, em Salvador. Participa de saraus e promove o Sarau Vosz. Tem textos publicados em antologias no Brasil e em Portugal, e em revistas e sites como Mallarmargens, Cult, Escambau, Gueto e Crônicas da Copa. Em 2017 lançou o livro de poemas Piracema. Em 2019 organizou e editou a coletânea A mulher e o livro — uma relação em prosa e verso, lançada na Flip do mesmo ano. No momento prepara nova obra poética.

discípulos da madrugada, poema de Maria João Cantinho

Que a sombra desça e nos tome
no seu mistério, em que tudo
é passagem e limiar, presença
furtiva e incandescente.

O rio flui e nele se submerge
o teu rosto, a tua voz,
talvez a memória de outros rostos
e de outras vozes
cruzando-se na dobra do tempo
aparentando-se na escuridão,
talvez não sejam senão destroços
de um antigo sonho
ou de uma visão em sobressalto
do eterno.

Maria João Cantinho nasceu em Lisboa em 1963. É doutorada em filosofia contemporânea e professora. Tem cinco livros de ficção publicados, quatro livros de poesia e dois de ensaio. É crítica literária e colabora regularmente em revistas e jornais. É investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Centre d’Études Juives da Universidade da Sorbonne IV. É membro do PEN clube, da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários).

cinco poemas de Maria Esther Maciel

a vida ao redor

Os ramos do pé de jasmim
__________de Madagascar
sobem pelo tronco
da palmeira ao lado
rumo às tiras de madeira
que cobrem
__________o terraço.

Já as pimenteiras fazem
um leque vivo
__________de cores
com o roxo das verbenas
e o vermelho das bromélias
enquanto as avencas
pendem da prateleira
__________à meia-sombra
protegidas do sol febril
que entra
__________pela janela.

De repente
uma ave
__________pousa na pedra:

é um bem-te-vi
de olhos tácitos
e pose rara

que parece me trazer
__________(com insolência alegre)

algum presságio.

conto de jardim

A pequena lagarta
que caiu da samambaia
sobre o meu braço
se movia em desespero

e quando a levei
__________de volta
ao vaso da planta
minha amiga Tereza
__________falou, sem pejo:

— jogue na lixeira,
lagartas são pragas
e estragam as folhas
do jardim inteiro.

Mas eu não podia
matar uma larva
tão verde e tão perplexa
como aquela

tampouco tive coragem
de jogá-la pela janela.

Desci até o jardim do prédio
e a coloquei sobre uma pedra

pois tudo o que é vivo
e me pede vida com medo
me enternece.

__________E sempre cedo.

temporal

Pelo vidro fumê
da porta do prédio
vejo a chuva espessa
que aflige a avenida
enquanto mulheres
de sombrinhas pretas
e amarelas
passam
_____depressa
pela calçada alagada
ou se encolhem
_____(em desamparo)
sob a marquise

No espelho que reflete
as imagens líquidas
_____vindas do vidro
os carros deslizam
sob meu rosto
pouco nítido

enquanto a chuva
_____(agora granizo)
castiga o asfalto
_____incisiva

quinta-feira

Na despedida
o abraço

com todos os ossos
e nervos
músculos, artérias
e veias

pele com pele
dos pés à cabeça
numa teia
_____de afetos
e segredos

É quando o amor
feito só de palavras
se expressa
_____em silêncio
e de corpo inteiro

lux vivens

Um fio de luz no escuro
traz um brilho oblíquo
ao recinto onde
__________(em vigília)
a viúva de olhos tristes
ouve uma sonata
__________de Bach
para piano e violino
e vibra por dentro
__________rediviva

Num improviso
__________de alegria
(um quase extravio)
ela amplia o volume
ao máximo possível
e levíssima
__________quase levita

Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas (MG) e vive em Belo Horizonte. Poeta, ensaísta, ficcionista e professora de literatura, publicou 14 livros, entre eles, Literatura e animalidade (ensaio, 2016), A vida ao redor (crônicas, 2014), O livro dos nomes (ficção, 2008), A memória das coisas (ensaios, 2004) e Triz (poesia, 1998). Lançará em breve o volume Longe, aqui. Poesia incompleta 1998-2019 pela editora mineira Quixote + Do. É diretora editorial da revista Olympio — literatura e arte.

poema para a fiandeira de Remedios Varo em ‘Les feuilles mortes’, de Francesca Cricelli

não há de ser
só escuro o lado
de dentro do muro
o avesso do viço esse pesar

é a retina
que rege o furor das coisas

sob o descompasso da neblina
há terra úmida que germina —
o coração do ventre
mora no olhar

há de se descortinar o céu de si
vento estrela aurora boreal
arrancar da própria costela a mulher que ali habita
morrer-se a cada dia um tanto
concha
semente
pranto
navegar além do canto (e do silêncio)
das sereias do pensamento

Ribeirão Preto, maio 2019.

Francesca Cricelli é poeta, tradutora e pesquisadora. Cresceu entre o Brasil, a Itália e a Malásia. Publicou os livros de poemas Repátria no Brasil e na Itália (Selo Demônio Negro, 2015 e Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 nos EUA (edição de autora, 2017), na Islândia (Sagarana forlag, 2017) e na China (Museu Minsheng, 2018), além da plaquette As curvas negras da terra / Las curvas negras de la tierra (edição bilíngue, Nosotros Editorial, 2019). Suas crônicas de viagem e uma breve prosa de autoficção foram reunidas no livro Errância (Edições Macondo e Sagarana forlag, 2019). Participou de inúmeros festivais internacionais, entre eles a edição de 2019 de Printemps Littéraire Brésilien em Colônia e Zurique. Traduziu para editoras brasileiras escritoras italianas como Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016), Igiaba Scego (Nós, 2018) e o primeiro livro em italiano de Jhumpa Lahiri (Biblioteca Azul, 2020) além de retraduzir Fernando Pessoa para o italiano (Interno Poesia, 2020). É doutora em Letras Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo, em sua pesquisa descobriu um acervo inédito de cartas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco. Atualmente vive em Reykjavík, a capital mais ao norte do mundo, na Islândia.

quatro poemas de João Augusto

I

Não sei soletrar a palavra mundo
sem abrir nela uma rosa, uma infância.
Queria fazer da vida um objeto de arte.
Fazer de cada passo um passo com alguém.
Como se cada derrota sobrevivesse a si mesma,
e um balão subtraísse do ar a solidão que voa
entre mim e você.
Me isolo num verso que não vem.
Escavo um poema de meu tempo.
A palavra só existe onde o silêncio permite.
É preciso amadurecer, como algumas palavras,
como essa barba que se vai desenhando branca.
O motor dos dias esconde de ti a cidade,
o reino, as fadas.
Sou menor que todas as coisas que
ainda não existem.
Porque cumpre em qualquer nascimento
alguma alegria.
Toda a minha vida está incomunicável.
Preciso desembrulhar o rosto do mundo
e dar um nome ao que desconheço.
Preciso fazer da loucura um pouso para o amor.
Preciso soletrar a palavra mundo
sem abrir nela uma partida.
E, mesmo se partir,
levar nas mãos alguma aurora.

4 de julho de 2012.

VI

“Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.”
(Edgar Allan Poe, em )

Como Poe, amei sozinho,
o que sozinho me restava amar.
A vida começa atrasada.
Tinha, no irrespirável das noites sem ar,
uma secura de estrelas no peito.
Carregava duas cores no bolso,
o branco e o nada.
O pouco era longo e farto.
Na madeira gasta dos olhos,
um arco-íris de carvão sustentava o céu
que era impossível inventar.
A vida, irreconstruível do fim para o começo.
Na alucinação dos dias,
a admirável lentidão do amor,
que nunca florescia.
Amar sozinho é escrever para o silêncio.
De dentro dos olhos pretos da vida,
uma rosa explode o escuro,
tão universal como a fome,
como o ódio,
como o homem.
A vida que delira e inflama,
lenta e sozinha,
como um punhado de amor,
deixado pelo caminho.

XIX

A vida falha em mim quando não estende estrelas pelo lado de dentro. Sou alguma coisa entre o mundo e o verso, que vomita o amor e apaga o destino. Mas escrever me oferece um começo. Ainda há vagas para palavras desempregadas. O mistério natural de tudo que não poderá ser claro. Uma fantasia colhida no tempo certo pode se revelar a mais lúcida verdade. É para isso que escrevo: ranhurar na morte alguma ilusão. Vende-se a parte limpa da vida. O abraço, que ainda ontem inaugurou o amor. Meu coração pensa o que a nova ciência ignora. O tato antigo da fala com a fala. A biografia lenta do gosto dos lábios. A antiga tecnologia dos olhos, como as águas, que nunca se perdem; como os rios, que sempre se encontram.

Beirute, 28 de dezembro de 2017.

XXIX

Tarde as tendas da alma se abrem ao sol. Tudo é tão perto, e distante o amor, paralisado. Escrevo desarmado de palavras, como quem planta abraços de papel. Aqui assento meus pensamentos. A inatingível espera da vida que não és. A cidade está vencida, as flores, os ídolos, a vida vencida. Deixa que alguma luz limpe o teu rosto. Que o sal marinho queime as tuas tardes de melancolia. Não, o tempo não chegou de completa justiça. Somos todos inocentes. Seres de avolumados cabelos, pernas e tônus muscular. Temos olhos e tato. E fábricas onde se fabricam cartazes e sobremesas de medo. Onde te escondes mais, é ali que existes. Guardo uma canção antiga num peito cansado. Guardo apenas o ar necessário para encerrar este poema. Minha casa é a rua, a ruína, o relento. Mas meu corpo ainda respira, e deseja amar.

João Augusto já foi premiado em concursos de prosa e poesia. Tem alguns livros publicados. O mais recente, de poemas, A última estrela tropical (Editora Patuá). É um dos curadores da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Já escreveu para cinema, produziu e dirigiu documentários. Tem peças inéditas de teatro. Na imprensa, atuou como produtor, revisor, repórter, editor de jornal, gerente de reportagem, diretor e apresentador de rádio e TV. Casado com a professora Elaine, João é pai da Letícia, estudante de Medicina, e do músico Gabriel. João escreve porque ama.