cinco poemas inéditos de Alberto Bresciani

habitat I

Guardei sob a pele
todos os peixes, as conchas,
anêmonas, veleiros antigos
e recuperados aos sargaços

Ninguém conheceu
os oceanos que devoravam
as moças e os rapazes
de olhos castanhos

O silêncio da maré baixa
sabe o doce
de frutas selvagens,
um mundo híbrido,
primeiro, anfíbio

À custa de nomes marinhos,
sobrevivo
Aprendi a respirar na água.

epifania para terça-feira

O nosso voo nesta manhã,
o sol de agosto purificando o ar

O nosso voo daqui a pouco
não será nada e, no entanto,

entre os galhos retorcidos,
não temos mais nenhum segredo.

cerejeira e flor

Quando não precisava,
foi amor

Com o tempo, o caminho
vazio e sem sol

Talvez, como Li-Po,
cantasse os grous,

escuras penas sempre
em céu de inverno

Rosto e aves
perdidas, distantes

No ideograma,
seu nome ainda é a flor.

nomes escritos às ostras

Estamos acostumados
às impossibilidades:
os antídotos e as armas
são os mesmos
e não nos lembraremos
de que o mundo acaba tantas vezes
(já não importa)

Estamos acostumados
a nenhum país,
às cidades cegas,
corpos que nunca
nos pertenceram

Os dias caem

— um a um —

e a alegria,
nas imperfeições dos rostos,
é retrato antigo.

desolação

I
Tiraram-nos o sol,
as mãos, a pele.
Estão secos os campos
de trigo.

Nesta baía,
a água não vive.
Repete a última
e desoladora palavra.

II
Somos o povo
sem destino e herança
: surdos, cegos, vergados

III
À porta do templo,
os dentes dos lobos
nos raspam os ossos.

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011) e de Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura — Poesia de 2015). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa — Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, edition spéciale — Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

quatro poemas inéditos de Luci Collin

lida

nesse dia mesmo
em que se é pura perda
em que se sofre saques e ludíbrio
_____catar os cacos
porque seguem tendo a mesma feição do todo
_____ajuntar migalha e estilhaço
e conjugar em modo subjuntivo
porque se quer depurar o que nos diz
o exórdio das rosas de inédito semanticismo

e não se pode demorar tempo
porque instaura-se um limo impeditivo
e mirram-se asas e expiram voos
e não se queira demorar tempo
porque precisa-se de quem cuspa firme à distância
de quem preste-se a ter os pés queimados pela brasa
de quem espane o logro dos discursos ferrugentos
e delate a rigidez das pétalas dissimuladas
de quem cutuque de quem esgaravate
porque nesse dia mesmo
não se pode mais tomar como acalanto
a ode espúria dos cínicos
e não se pode mais tingir de falso rubro
o fundamento do sangue
e não se pode permitir que façam gorar
a pulsão apta e evoluída
flórea e vigorosa
do verso

acontecido

buscava a outra claridade
aquilo do invisível que o gato vê
aquilo de esmero na confusão do jardim

buscava o outro ouro
aquilo do magma no exercício de fundir-se
aquilo do frescor num recitar juramento

buscava o outro final da saga
aquilo de soprar deixas no escuro
aquilo de fundar os dogmas juntos

buscava a outra simetria
aquilo de imortal na ode ao rosário
aquilo de avocar a rescisão das jaulas

além de tudo buscava
cavalos já saciados numa fortuna
de pasto_____de verão_____e de afago

além de tudo buscava
a mesma boca a mesma sede fecunda
no querer da mesma água
num só trago

incombinados

essa algazarra dentro do peito
essa noite longuíssima
o sinal que fecha
e eu tanta pressa
essa valsa em que se tropeça
eu tentando segurar as águas
querendo soltar as rédeas
regando o que quer que seja que fosse
e esse estar alheio a tudo que é de fora
esse dia cheio de tantas horas
o sinal que abre e eu a marcha lentíssima
cena editada esse iceberg no meio da estrada
tal o inesperado abraço no vagão do metrô
e vem taquicardia mas é retrô e só rima
fanfarra tal gambiarra no meu peito
essa prece indébita tal mal súbito
a alforria que foi parar no lixo
esse lapso esse colapso
a praxe do trocadilho
esse não faz isso
esse está feito
esse vício

saque

sim, eu roubei duas três mil imagens
e pensei em fazer a melhor ponte do continente
sempre fui ingênua
pensei em fazer a melhor estrada para o rebanho
sim, com imagens apropriadas
sempre fui de uma pretensão sinistra
eu espiei aqui e ali e sorrateiramente
surrupiei as imagens enquanto uns dormiam
enquanto se espreguiçavam
e pensei em fazer uma trilha nos impenetráveis
sempre fui lunática
e pensei em estabelecer uma senda
sempre fui esquizoide e enfermiça
e pensei em fazer uma sentença
reunindo inconciliáveis
e pensei em fazer brotar surpresas
e atmosferas únicas e limpas
mas sempre fui provisória e insubmissa
é o que sempre disseram de mim
já que afanei usurpei extraí
uma imagem e apenas
uma
talvez do altar
talvez do nicho onde as relíquias
ou talvez aquela uma frágil e guardada só
no gesto
sem reprise

Luci Collin, poeta e ficcionista curitibana, tem diversos livros publicados entre os quais A árvore todas (contos), Querer falar (poesia, finalista do Prêmio Oceanos 2015), Nossa Senhora D’Aqui (romance) e A Palavra Algo (Editora Iluminuras, 2016), premiado com a segunda colocação na 59ª Edição do Prêmio Jabuti, na categoria Poesia. Participou de antologias nacionais (como Geração 90 — os transgressores e 25 Mulheres que estão fazendo a literatura brasileira), e internacionais (nos EUA, Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Peru e México). Também já traduziu Gertrude Stein, E. E. Cummings, Gary Snyder, Eiléan Ní Chuilleanáin, entre outros. Leciona Literaturas de Língua Inglesa na UFPR.

dois poemas inéditos de Severino Figueiredo

prelúdio

i.

desque sentimos
o cheiro de merda
não passamos um dia
sem olhar as solas
de nossas chinelas

desque sentimos
pensamos: já passa ventania
como ao nariz de pó
e voltaremos ao cheiro de lama
da nossa continental mariana

mas continuamos sentindo
trocando de havaianas
comprando bom ar
quilos de goiaba madura
pra pôr na fruteira

ii.

muito depois
é que viemos notar
o rabo de nossos pais
a boca de nossas mães
unhas
dos ex-colegas do médio

filetes de merda
na cueca
por entre canais e caninos
nas mãos que se davam com estas

então tentamos
com rolos e rolos de papel
escova acetona cepacol
entupir esse cheiro de merda
com o cheiro de um bolo de leite
com o cheiro de uma buceta molhada
com o cheiro de johnsons baby
até com o cheiro de lama
da ao menos democrática mariana

iii.

agora
desque nos pisar a merda
ela não vai passar um dia
sem olhar as solas
de suas chinelas

análogo

deram então de beber a ló
naquela caverna daquele monte
longe de zoar segundo gênesis 19

lá ló não viu coisa mais alguma
nem quando as filhas sentaram
em sua pica pra garantir gerações

deus assistiu a tudo caladinho
como quando assistimos à filha
do vizinho no mallandrinhas.net

Severino Figueiredo mora em Cabedelo-PB. Embucetismos (edição do autor, 2019) é seu primeiro livro e trata do tal “cidadão de bem”. Para adquirir um exemplar (valor R$10,00 + R$5,00 de frete), contatar o autor pelo e-mail: osevfig@gmail.com

sobre o que sonham monóceros?, poema inédito de Jerome Knoxville

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

______[mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
______em que erramos em tudo,
______em que nunca estivemos tão tristes,
______e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.]

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.

três poemas de Renan Porto

uma viagem à savana
Para Catherine

Para chegar naquele cerro destampado e íngreme
não se viaja sozinho. Dentre as elevações pedregosas
que os pés tateiam em busca de apoio
e as mãos — quão melhor seriam
se cobertas de bronze? — deslizam as paredes rochosas,
enquanto os olhos, por sua vez, calculam cegamente
o próximo passo ignorando o abismo.

Ora, por que se meter entre as fendas deste declínio?
Mas, meu amor, quem questionaria a lógica de um clavicórdio
quando tocado pelas mãos certas? É a força do som que nos eleva
e não o grito o que nos derruba. E se com nossas quatro mãos atadas
costuramos entre nossos dedos as bordas opostas do Pacífico,
O que não fariam nossos antebraços alavancando-nos
de pedra em pedra?
Mais forte é o espanto de ver do alto
o destino.

O que fazer no alto de um monte,
no seu cume pontiagudo,
se não ver de longe todo o caminho ainda a percorrer?
Do alto deste cerro avistamos a savana.
Quão raro é conquistar sob os olhos seu encanto
com suas árvores espaçadas pelo sol
sua terra coberta de cobre
e seus leões com torso de sabre
Qual deles teria entre a juba os olhos turvos de sonho
e a vítrea retina inebriada de luz?
Qual martiriza entre os dentes o tenro peito de um acauã
que no entreato de sua devoração murmura
seu ralentado canto ao ver tua imagem esvanecendo
entre as vibrações vermelhas do ocaso

a escrita diante do espelho

escrever como suicídio em potência, virtual e inatual, do sujeito petulante. quem no fundo no fundo pretende ser lido 2 mil anos depois. já sem mundo nem leitores nem gente também estúpida. se um texto sobrevive milênios é porque respondeu tão bem ao seu tempo que passou a ser um componente da história. “escrevo para apagar meu nome”, Bataille. neste momento escrevo senão para que minha respiração volte ao normal. fugido duma cabine de biblioteca onde meus pensamentos tumultuavam. milhares de ratos tentando fugir por um cano onde só passava um por vez. mordiam reciprocamente suas caldas, nucas e orelhas e a única coisa que passava era o sangue rico em leptospirose. eu era cada rato e o sangue e a bactéria. leptospira interrogansa. a escrita zerada em Artaud: pra que, por que, como, o que escrever quando toda escrita é porcaria. numa tarde de sábado abro a porta e me deparo com uma andorinha que pendulava entre a vidraça e um grande espelho na saída do meu quarto. sem nenhum acanho ou temor metia a cara no espelho tentando lançar seu corpo para outra realidade. percebeu que não passava de uma repetição e fugiu pelo corredor. lembrei do meu gato quando filhote que de frente pro espelho atacava sua imagem refletida. escrever como destruição de si. encarar-se como outro e tentar feri-lo. adentrar a mata à noite sem lanterna e caçar cada identidade e espancá-la. dormir sobre raízes tendo uma pedra como travesseiro. quando o primeiro raio de luz secar a baba no pescoço, buscar os restos e vesti-los como uma nova pele. escrever inescrupulosamente como experimentação de si. santificar a escrita. pois para isso servem os santos: denunciar sutilmente as consciências tranquilas do seu rebanho para quem quer devorá-lo.

maquinação do poema

desatado do mundo
significante de si
o poema intervém:
máquina de transmutas
peregrino no deserto
disposto às tentações de satanás:
I: negado o pão, a pedra vira arma
II: aceita o império para derrubá-lo em pedrada
III: precipita-se alheio aos anjos e morre.
cheio do espírito seu cálice transborda.
recusa do paraíso
desce ao hades para
ser o inferno do inferno
dos contos de canterbury
ressurreto não sobe aos céus
não deixa missão nem discípulos
servo de si lava
seus próprios pés e segue
com sua gagueira fazendo o milagre
das transformações incorpóreas
das coisas do mundo

Nota do autor: Os poemas “A Escrita Diante do Espelho” e “Maquinação do Poema” foram escritos em 2015 e revisados no início deste ano. Embora não tenham entrado no livro recém-publicado, O Cólera A Febre, são poemas que anteciparam a criação dos poemas deste livro e demonstram a concepção de escrita poética e o tipo de busca que resultou no livro.

Renan Porto, baiano de Jequié, é ensaísta e poeta. Escreve ensaios que perpassam estética e política, filosofia e literatura, abordando temas como as relações entre corpo e tecnologias, transformações do capitalismo contemporâneo, etc. Está concluindo o mestrado em Filosofia do Direito na UERJ com uma dissertação sobre ética e justiça a partir do Grande Sertão: Veredas, romance de João Guimarães Rosa. Publicou poemas nas revistas Escamandro, R. Nott Magazine, Libertinagem e Zunái. É autor do livro de poemas O Cólera A Febre, que foi seu livro de estreia publicado em 2018 pela editora Urutau.

hipótese, poema inédito de Laís Araruna de Aquino

Saberíamos nós viver à luz tépida do dia
ou sob a sombra amena, felizes, na festa dos sentidos,
enquanto rumamos, a despeito do curso, ao oceano
onde tudo se nulifica?

Poderíamos nós, tal como somos, clarividentes do fim,
renunciar ao significado e transbordar como as flores efêmeras
das árvores em explosão de cor e forma —
textura aberta ao contato do mundo?

Desejaríamos, leves como o pó, ser carregados na língua do vento
e sepultar o insepulto livro babélico do universo,
que vigeria em uma plena abertura —
livre de portas e entradas?

Ou somos nós senão o desvio de Deus ante o silêncio
cansado do eterno? E, nesse desvio, teríamos de nos cumprir
como quem vê no labirinto o indício de uma face
que não se mostra?

Ou haverá um tempo em que os jogadores deitaremos
ao tabuleiro a nossa condição, exauridos de traçar, entre os pontos
aleatórios do caminho, um novo dédalo —
desígnio para um sentido de que apenas se falou?

Nessa última hipótese, Deus é devolvido ao tédio primeiro,
mas livra-se do pensamento dos homens.

Quanto a nós, afundamos no instante de pássaros e estações,
devolvidos a uma vida não abstrata, apreensível —
como uma língua
____________________que nada enunciasse

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Procuradora do Município do Recife. Autora de Juventude (Ed. Reformatório, 2018), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia 2017.

dois poemas inéditos e dois poemas do livro ‘Geografia particular’, de Inês Campos

s/título

o canto enlouqueceu os quadris

ele se derramou para o húmus
fugindo do calcanhar paterno
sem memória do tempo peneirado
enquanto a mãe servia o caldo dos dias

como sentar ao lado do seu som marinho
e comer sopa com garfos?

galochas

não se importava
com o vestido engomado
foi bordado em França?
não queria o branco
não queria o laço
iria com galochas
pronta para as tempestades
andaria na incerteza do lodo
ainda que o vestido se desmanchasse
ainda que as tias gritassem seu nome
seguraria meninos e velocípedes
seus laços como garras
enraizada por galochas lilases
e pela aposta feita
sim! Também podia
sim! Era a teimosia
que a vestia

em sevilha ou lisboa

teus olhos oceanos
em fugidias línguas
cantos de baleias
para boi dormir

ana me alerta sobre navios atracados
ou altos-mares particulares
seu diário úmido
preso entre algas

náufraga de terra firme
aguada de samambaias
arrasto âncoras com falsa nobreza
invejo descobridores

trás-os-montes

apesar disso
o sol se esparramou
atrás dos montes

em algum momento
comovida pela urgência
sacudi minhas penas
e ameacei
um voo

esqueci: ninguém voa assim
impunemente

então guardei minhas asas
fechei as janelas
e liguei a TV

| são do livro Geografia particular (Editora Cas’a’screver, 2017): “Em Sevilha ou Lisboa” e “Trás-os-Montes”. |

Inês Campos nasceu em Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. É poeta e advogada. Geografia particular (Editora Cas’a’screver, 2017) é seu primeiro livro. Atualmente trabalha na finalização de seu segundo livro de poemas.