três poemas inéditos de Itamar Vieira Junior

, por exemplo,
não tem nada a ver
os fantasmas vestidos de branco
os ruídos das correntes
os homens sérios
sinto-me menos livre do que antes
atormentado
não mudaram nada
os ratos
continuam roendo o edifício
não se preocupam com o que me preocupo
poderia descansar um pouco do jogo
da brincadeira
do país
“agora venha tomar banho”
o que isso significa quando o que está em jogo é o que não compreendo?

roubei dinheiro
queimaram minhas mãos
todos estavam certos
era perfeitamente natural
sobrenatural
é a linguagem e dela me falam
há uma placa ali, mas nada diz
combina?
um, dois, três, um com o outro
um gozo múltiplo
só estou repetindo o que me dizem
e mudo a página
duzentos e quarenta e um
é a sua vez
é uma ideia estranha imaginar o que dizem
algo vai acontecer, sussurram
eu espero
pode ser não pode ser
no final podem dizer que é invenção
mas é claro que estou ali
que estou aqui
que sou palavra
já não posso imaginar
atiram uma, duas, três cabeças
por cima do muro
não há nada nosso nesse contexto
há o que o mundo exige
não há como dizer que tudo é um sonho
há fragmentos de referências

quando começo é o começo
gradualmente
é uma dimensão, uma estrutura
pouco a pouco vou me perdendo
uma ponte que atravessa de um abismo a outro
o que não vemos é de uma grande riqueza
cortado a alicate
esculpindo cristais
a organização, o método, o sistema, o comando, a hierarquia
a lista de coisas que exigem
a burocracia
para extinguir o possível

“eu tenho o que é preciso”
perdido em algum lugar daquele outro quarto
sem abandonar
há algo realmente puro?
o que equilibrar?
eu que estou condenado,
por exemplo,

escolhas

É preferível a casa violada
a casa cerrada
o sentimento acerca das coisas
às coisas cercadas de sentimentos
é preferível as pichações nas paredes
ao idiota limpando-a
ou o ponto de partida
ao ponto de chegada
é preferível a falsificação
à crucificação
quase sempre é preferível a mentira
à verdade
a criatura
ao criador
ou a personagem
ao autor
é preferível a página rasgada
a que está inteira
a paz solitária
ao amor que aprisiona
é preferível desferir o golpe
a oferecer a outra face
ou deixar tudo no começo
a terminar sem nada
é preferível a prisão da rotina
à liberdade vigiada
guardar um pensamento consigo
a revelá-lo como um poema

entre

Aventurar-se no espaço
entre a parede e a cama
tentando alcançar
o que pudesse ter entre as mãos
a luz tremula
desenhando sombras no domínio
a boca seca
silenciosa como o aviso
agoniza o corpo
entre a cama e o abismo
as mãos mais que nuas
sentem o acaso
entre os dedos cresce
o que colheu neste vão
sujo, o corpo refuga
o metal
entre o abismo e a correnteza
algo que se movimente
como o começo

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias, de 2012, vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco, de 2017, obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, e o romance Torto arado, vencedor do Prémio LeYa em 2018.

três poemas do livro ‘O enigma das ondas’, de Rodrigo Garcia Lopes

capa_enigmapós-verdade

Manhã de chuva, carrancuda
como um general russo.

Do nada, desanda a pensar:
a metalinguagem repôs (perigosa-

mente) o solipsismo do eu-lírico romântico.
Por que não o som do caminhão de lixo

ou a pitanga no bico do pássaro
contra um céu ardente ardósia?

A mancha de mostarda em sua blusa?
A menor distância entre dois pontos

não é você, Ego, seu tonto.
Céus, que luta mais inútil

se pode travar num papel?
Pra que se encalacrar com este encavalar

de palavras parvas que não levam a nada,
nenhum Valhala, Alamut, nenhuma Atlândida?

E o pior cego, insisto, é o que disse
que a vida não vale um alpiste

e que o dia é fake news e não existe.
Faça o seguinte, ou não faça:

Substitua a arrogante arte da recusa
pela simples e grata aceitação das coisas.

vontade de crer

Preso no inferno da torre
ou sem boia, em mar aberto.
Impossível curar este porre.
Tudo vai dar certo.

Nada será como nunca.
O real abraço e nada aperto.
Cansaço desta espelunca.
Tudo vai dar certo.

Estamos à beira do abismo.
O amor naufragou aqui perto.
Tempos de barbárie e cinismo.
Tudo vai dar certo.

Do nada, pessoas somem.
Nosso plano foi descoberto.
Deletaram nossos nomes.
Tudo vai dar certo.

Pior do que está pode ficar.
Dias sombrios, céu encoberto.
Mentiras turvam o ar.
Tudo vai dar certo.

Sem grana, cama, namorada.
Da janela só este deserto.
A espera deu em nada.
Tudo vai dar certo.

Patifes e assassinos por toda parte,
Hipócritas ditam o que é correto.
Só nos resta o agora, esta arte.
Tudo vai dar certo.

Acabou a caneta, o vinho tinto.
O esplendor será secreto.
O espelho nunca esteve tão sozinho.
Mas tudo vai dar certo.

breve história da solidão

No escuro de uma caverna,
nas paredes de Pompeia,

na superfície de um papiro,
na solidão de uma tela,

num grafite imprevisto
ou na imensidão sidérea,

esses escritos, frágeis rabiscos,
querem dizer apenas isto:

existo.

| poemas do livro O enigma das ondas (Editora Iluminuras, 2020), na loja virtual editora com 40% de desconto [link]. |

Rodrigo Garcia Lopes (Londrina, PR, 1965) é poeta, romancista, tradutor, compositor, ensaísta e jornalista. Publicou os livros de poesia Solarium (1994), Visibilia (1996), Polivox (2002), Nômada (2004), Estúdio realidade (2013), Experiências extraordinárias (2015) e O enigma das ondas (2020). É autor do romance policial O Trovador (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2015).

quatro poemas inéditos de Flávia Andrade

microversos da carne-viva

saber a perda antes da perda dói mais
pisar no tempo da cidade indolor
Procurar abrigo na pele rasgada pelo sentido

a mulher é o bicho que pisa o tempo
em carne-viva

microversos da presença metafórica

as duras palavras do silêncio esculpiram minha angústia
o reviver
a reminiscência do tempo do afeto voador

os dias sobem e descem e o pássaro da presença ausente sobrevoa meu tempo
ensaia um canto mas não pousa nos meus dedos

observa outras rotas
em meus sonhos tento pegá-lo
mas há penas que escorregam

nas asas ressentida imponência
cantos de mágoa e ferida aberta

Sobrevoos de partidas
que desejam vingar-se

entrelinhas de aves metafóricas
nomeiam afetos impossíveis

epiglote (pandemia)

agora o que resta?
nos tiraram o abraço
o ar
a fuga
se antes chorávamos os sem teto cobrindo
agora
além do choro da ausência do muro que protege
Choramos a rua
vetada
nos tiraram as estradas a calçada a vizinhança a feira
o mar

restam os devaneios
nos roubaram os sussurros em meio a barulhos de concreto duro
Aquele que nos carregava para nossas multidões
Antes invisíveis — agora desejáveis
Nas massas
o barulho disforme que antes nos obrigava a lamber ouvidos em palavras gritadas
cala agora desde dentro da nossa traqueia

resta ela
A traqueia
intubada

vetado o vento
resta o ar mecânico e as torres caras do oxigênio comprado
restam mãos cansadas
que pulsam bravamente os corações desistentes

restam corações sem respiradores
não foram sorteados na loteria dos vivos
desmerecidos
envelhecidos

nos tiraram avós e filhos
Nos levaram os abraços e as flores no cemitério de partidas
que já antes nos negavam

Choros?
Já diziam feios
os lutos?
Fraquezas de quem vive
Vetado o adeus
Agora e lá ontem
enterro do luto

lá e hoje
resta
a fraqueza resignada e a abafada perda
a traiçoeira perseguição da palavra trocada
se choraria a saudade de quem amo e foi
resta engolir e ficar
negação da dor
moral do declínio

restam as fugas para dentro
a deglutição obrigatória
do intolerável

nos levaram as ruas da revolta

Roubados os narcisismos
agora exaustivos

roubada a perspectiva
a ilusão da certeza
da planilha de meses vindouros

Restam memórias e pesadelos
agora bem-vindos

Restam
Os filtros do ar
olhos
o embaçado do vidro para ver o mundo
inacessível
e resta
o silêncio

na sala

Olhando esse tapete da sala
cada vez que me distraio
eu te vejo
e vou te ver
deitado e suado
cansado
fingindo menosprezo
sorriso de lado e essa timidez que se quer esconder em tabaco e excessos
nesse tapete
é sempre tua imagem alucinatória
E de ilusões e delírios se fazem minhas memórias imaginárias
eu em você
no teu sofá
Aquele que dá para tua rua
teu semblante e tua expressão de susto de minha imagem descarada
é sol é claro é dia
essa mulher sedenta
Montaria clara
Fome da tua carne que recusa convenções
a fome
não conhece as regras
e na tua cozinha estamos de novo
e num bar numa rua de paralelepípedos
e no caminho daquela universidade que não nomeio
no cerrado dos meus olhos
Pensamento aberto
É sempre você nesse tapete
é você essa música e esse corpo largado
Imaginário
Desejado
real
teu poema era para ser
pretensão de segredo
Toda vez que a gente sai
Falta
e na volta você fica
Rindo para mim
debochado e tímido
Espírito inquieto e sempre estranho
Tua estranheza se familiariza com a minha
Mais que muito
E depois de volta aqui
Com os acordes insones e esse violão roubado
no tapete da minha sala
E toda vez que você não vem
Falta
e toda vez que você não diz:
Vem
Falta

Flávia Andrade nasceu em São Paulo e é apaixonada pelas noites da cidade. Psicóloga, psicanalista e Mestre em Filosofia de formação, sente-se atraída desde cedo por arte, teatro e poesias. Quer colocar em verso aquilo que não pode ser racionalizado pelas vias formas do conhecimento e da compreensão humana. Faz da escrita seu caro divã. Não entende Hilda Hilst, Conceição Evaristo e Clarice Lispector com a razão, mas com os sentidos. Sente-se contemplada pelos sentimentos em letra dos grandes poetas e acredita que escrever poemas é condição de possibilidade da própria vida. É autora do livro A Cidade do tempo cão e outros poemas de fissuras, publicado pela Editora Patuá. Curadora da página Mulheres na poesia.

dois poemas do livro ‘Meia lua soco’, de Tomaz Amorim Izabel

bate a foto
em voo pobre
sem asas
um peito que não arfa
passa batido
sem compromisso
como um ônibus que não para
no ponto vazio
bate a foto de cima
vê como um cometa
gente prédios esquina
a cidade fervilha
mas sem charme que
na extensão do planeta
a distinga
está ali como também poderia
estar uma cordilheira
ou um bando de ondas
um ponto nublado no mapa
bate a foto
sem escutar nada
lá no alto ou embaixo
das milhares de árvores
só vê o granulado das copas
ovaladas
não vê embaixo de uma delas
em tarde clara de novembro
a barriga grávida
e cravejada
a primeira no galho
prestes a desabar

* * *

um casal sentado num banco
ela com cachos brilhantes
ele em camisa verde-oliva
interrompidos em seu romance
pelo romance maior com a lua
iluminada
de lá
de volta
olhar nenhum
pedras e poeira e luz solar
sem atmosfera que a reflita
lembrança de um outro mundo
o amor

Tomaz Amorim Izabel, 32, pesquisa sobre e escreve literatura. Meia lua soco é seu segundo livro de poemas e será lançado no fim deste mês pela Editora Primata.

sete haicais de Maria Valéria Rezende

Nasce toda verde,
vermelha renasce a folha,
logo será ouro.

* * *

Preso em saco plástico
último frêmito de asas —
morre a borboleta.

* * *

De ponta-cabeça
céu vira mar, mar é céu —
e o céu tem marola

* * *

A casa vazia
sem cheiro nem som, revive;
chegou a criança!

* * *

Ouço um chilrear —
há uma criança e há pássaros —
de quem esse canto?

* * *

Goiabas maduras —
corro a colhê-las — os pássaros
acordaram antes

* * *

Estrada longa
margeada de cajueiros
— água na boca.

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos, São Paulo, onde viveu até os 18 anos. Em 1965, entrou para a Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho. Dedicou-se sempre à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, no meio rural, até 1986 e, desde então, em João Pessoa, onde está até hoje. Compre os livros da autora em sua loja virtual no [link].

poema inédito de Constança Guimarães

um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três__________duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe

| poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |

Constança Guimarães é escritora mineira e jornalista, autora de Ombros caídos olhando pro Inferno (Editora Urutau, 2017) e A sereia da Contorno e outras histórias (Editora Leme, 2017). Tem poemas e contos em publicações como Revista Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em guerra) e Revista Torquato.

três poemas inéditos de Leonardo Tonus

enquanto berram pelos telhados
mitos fundantes de uma arte imperativa,

enquanto imaginam nacionalidades encasteladas
em seus bunkers genocidas,

sangram pelos pés de Paulo Nazareth
os gritos de uma memória
sem a memória
de seus gritos.

silêncio em pedra
de uma memória polida
(quase) sempre generosa,

exceto em meu país.

* * *

como se desvencilhar da filosofia que nada concebe,
que só concebe a vida, sem vida,
que não se concebe enquanto prática de vida?

estaremos condenados a nos equilibrar
em suas ridículas pernas de pau,
a nos arrastarmos, trôpegos, mundo afora
com seus eternos aforismos,
por acharmos a terra rude demais
selvagem demais
aos nossos confortáveis pés
moldados na rigidez de velhos conceitos?

dos sonhos despiram-se as palavras,
do gesto libertário que a literatura inspira:

a sua capacidade de imaginar.

* * *

desdobro das vogais
suas almas
indisciplinadas
e
do verso
ergo a palavra—
grito
por ainda não a saber,
palavra.

às vezes faltam às palavras
a coragem de simplesmente serem,

palavras.

Leonardo Tonus é professor em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesia intitulada Agora vai ser assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019).

três poemas de Armando Freitas Filho

Quem com ferro
__________alcança
os olhos abertos
da ferida.
_____Quem com os olhos
fura
_____a bandeira de vento
_____a blusa azul da manhã
_____que mesmo assim continua:
brisa ou
_____barco à vela
sobre o mar
_____ave, avião
com suas asas de viagem
voando como qualquer nuvem
de pensamentos no céu.
_____Quem com olhos
de ferro
_____procura
o rosto do meu corpo
quem com as feras
__________se lança
no rio do meu coração
em vão
_____quem com ferro?

* * *

Como um dia perdido
dentro da vida
__________como um dia
esquecido na lembrança
que abandona
__________todo o seu vento
o tanto de sol
que entra no pedaço da tarde
parada sobre o quintal
este dia
_____se repete
entre tantos
_____e chega
até a mim
_____repentino
com a sua sombra a esmo:
o mesmo vento
o mesmo sol que bate
na mesma tarde e anda
no chão de agora
__________perdido
como o dia de dentro
como o dia de antes
com a sua luz que alcança
a vida
__________deste momento.

* * *

Terra —
_____a nuvem se decifra no céu
o sono some no sonho
que logo se soma
a outro desenho, a outro
desígnio, cisne de signos
ou sino de neve
ou hino de névoa
no céu, as nuvens
seguem e cegam
o olho de mel do sol.

Terra —
_____aqui, no chão, a sombra
calça suas luvas
ao avesso, alça
nos ombros, armários de carvão
aqui, tão perto do coração
tão junto do peito
na beirada de pele e de pedra
do corpomar do planeta
minha vida se abraça com o espaço
de cada dia, e passa.

Armando Freitas Filho é poeta. em 2003 publicou Máquina de escrever — poesia reunida e revista (1963–2003), no qual comemora 40 anos de carreira. Recebeu, em 1986, com o livro 3×4, o Prêmio Jabuti e em 2000, com o livro Fio terra, o prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional. Em 2001 ganhou a Bolsa Vitae de Artes. Em 2006 publicou Raro mar. Em 1979, publicou o ensaio “Poesia vírgula viva”, no livro Anos 70 — Literatura, no qual faz um panorama da poesia brasileira desde os anos 50. É o organizador da obra de Ana Cristina César.

quatro poemas inéditos de Katia Marchese

mil impiedades por dia

Sob um céu
implacável,
o azul desolava
os rostos.

Ninguém plantou
as flores da morte
naqueles corpos de agosto.

artifícios da memória

O sangue explodia dos pulsos,
formava teias vermelhas
que subiam aos céus.
(na mesma hora
o estrondo da pedreira)
Eunice calou a cena,
pedra que aderna
dentro da cabeça.

No morro São Bento,
corre aquele silêncio,
que preenche as ruas
depois dos desaparecimentos.

repertório

Pavões azulando o espaço,
não me traga problemas, Eugenio.

As coisas são como são,
nenhum homem presta, Iracema.

istambul

O céu cobalto
sobre a mesquita.
A pino, o sol das dores
cintila a fina lua e a estrela.

Tira o punhal
e colhe jabuticabas.
É o que resta.

| poemas de O azul é vingativo, plaquete ainda em construção. |

Katia Marchese é de Santos, 1962. Está nas coletâneas Senhoras Obscenas I e III (Benfazeja, 2017 e Editora Patuá, 2019), Tanto Mar sem Céu — Laboratório de Criação Poética (Lumme, 2017), Casa do Desejo — A literatura que desejamos (Editora Patuá, Flip 2018), Poesia em Tempos de Barbárie — org. Claudio Daniel (Lumme, 2019), Hiltinianas vol.1 (Editora Patuá, 2019), entre outras. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Musa Rara, Portal Vermelho, Zunái, Ruído Manifesto, Jornal Tornado — Portugal e Jornal Rascunho. Participa do coletivo O Ateliê de Poesia. Publicou a Plaquete Por favor diga meu nome (produção gráfica Uva Costriuba, 2019). Fez o curso de Escritores do Clipe em 2019 na Casa das Rosas, Museu Haroldo de Campos de Poesia e Literatura SP. Contemplada no Edital do Governo do Estado de São Paulo Proac Poesia 2019, com o projeto do livro Mulheres de Hopper, e lançamento previsto para dezembro de 2020. Mora em Campinas.

transformação, poema de Bruno Ramalho de Carvalho

passei a tarde de sábado
____________________lendo
José de Ribamar Ferreira

parei de ler tarde sábado
a escrever
esquecendo
vírgulas pontos e por gosto
as maiúsculas

e peguei-me a esfregar
as mãos sobre o rosto
como tanto o vi
em fotos
com as quais me espantei

transformação

pseudônimo: um verbo
entendedores entenderão

num gesto
o grito dos ossos
um perfume de jasmim jamais
________________________sentido
e o barulho de uma rua Duvivier
onde oportunamente passei a morar

do que eu não sabia
em 5 de setembro de 2020
o acinte da poesia
____________________a me Gullar

Bruno Ramalho de Carvalho (1978, Rio de Janeiro, RJ) escreve poemas, diverte-se tocando despretensiosamente o flugelhorn e se interessa por filosofia. Médico ginecologista em Brasília, DF, atua na área da reprodução humana assistida. É autor dos livros A penúltima coisa que se faz (edição do autor, 1999); Do amor deveras e das quimeras (e-book, Emooby, 2011); e livra-me, poesia (Scortecci, 2019), todos de poesia. Tem poemas publicados em revistas e portais de literatura, como Cult, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto e Mirada. Tem, ainda, mais de 70 artigos publicados em periódicos científicos.