lockdown, seis poemas de Rafael Mendes

ensaio sobre a loucura — lockdown dia 4

Dividir as sílabas dos dias.
Abolir o tempo através dos cálculos:
faturar os cigarros, caloria dos petiscos,
pássaros nas antenas.
Observar gestos frívolos:
trocar os freios da bicicleta
enquanto estamos todos, máquinas
e condutores, no recesso da normalidade.
Terraças e seus ladrilhos cor de terra,
mesas vazias, flores mortas sendo regadas.
Camaradas: onde se escondem?
Nem mesmo o pássaro azul brinca no céu.
Observo o céu de ponta cabeça:
a beleza repousa na desordem.

o fim do mundo é agora — lockdown dia 6

Não caem bombas deste céu em guerra.
Nas ruas, de mãos dadas, milicos e republicanos.
Não há tanques nas ruas, nem automóveis.
Nas ruas apenas o vírus?
As quitandas fecham cedo.
A barbearia, a tabacaria, os bares: nem abriram.
São tristes essas ruas.
Os milicos mandam os republicanos para casa.
Não agridem. Mas ternura não é ensinado nos quartéis.
Aplaudem das terraças, soltam fogos, bradamos heróis.
Não conheço heróis, somos todos malditos.
São tristes esses balcões.
Há tantos mortos, somos todos estúpidos.
Não aprendemos contabilidade.
Algum dia aprende(re)mos algo?
Abro os dicionários, encontro três substantivos:
bomba, peste, merda.
Uma rosa feia rasgava o asfalto.
Veio o milico e pisou nela.

do nono andar — lockdown dia 9

Conheço um mundo pequeno.
Esquadrinho a janela com dois palmos e meio.
Cruzo a floresta do quarto, a planície da sala,
sertões da cozinha, litoral da varanda.
O mundo é isto: três prédios em frente da janela.
Os vizinhos não sorriem qualquer sorriso.
Ouvem tangos. Aceitam o funeral e cerram cortinas.
Partilhamos o sol. Não ousam olhar meu rosto.
O verão brilha qualquer calor fugaz.
As crianças vestem pijamas, tramam brincadeiras
futuras confabulando através das varandas.
É triste este mundo pequeno.

estudo sobre janelas III — lockdown dia 23

lá embaixo no térreo
o filho deitado na esteira de sol
enquanto o pai curvado talvez
ouça-o ou veja mesmas notícias
de todos os dias a filha acaricia
o cão pelo sedoso brilhante
pigmentação preta agente do caos
corre e busca qualquer objeto
de plástico a mãe rega plantas
são quatro ou oito no quintal
na altura da minha janela
um homem de barba e cabelos
branquíssimos senta com o caderno
aberto e me observa enquanto eu
o observo e assim nos observamos
ele não acena eu não aceno
vai escrevendo no caderno com um
lápis amarelo vou escrevendo com
uma bic preta sempre canetas pretas
será que ele também tem manias
escreve apenas com lápis amarelos
sobe um andar à direita o pai trabalha
no computador que eu não vejo
mas imagino e a mãe no quintal
ou varanda não sei se o tamanho
muda o substantivo usado mas
a mãe sim a mãe pula corda novamente
pula corda sempre ou só nestes dias
de anormalidade usando exercícios
para gastar energia dela e dos filhos
para não surtar surtar surtar surtar
eu ela filhos pais o velho escritor
loucura é buscar normalidade
dentro desta anomalia que é a vida
o vírus quantos mortos o impacto
econômico-social quantos mortos
quarenta antena na antena um
pássaro canta eu tenho medo da
liberdade dos pássaros loucos

estudo sobre janelas IV — lockdown dia 26

Resistiré, para seguir viviendo
cantamos todas as noites.
No grito da criança
repousa esperança dúbia.
Amanhã, quem sobreviver, cantará
uma vez mais: resistiré.
Que não falte ar.
Alguns, já entregues ao medo do outro,
permanecem com cortinas fechadas.
Nós, que mostramos o rosto,
olhamos uns aos outros para
manter viva qualquer camaradagem.
Cada aplauso golpeia o muro
da morte e desesperança.
A casa do horror virá abaixo.
Nos abraçaremos outra vez.

nas ruas — lockdown dia 51

Redescobrimos o capim, a erva daninha, o dente-de-leão,
entrelaçados aos bancos dispostos na rua.
Calculamos a distância, o raio de proteção.
Os seios das árvores, fartos e primaveris,
deram sempre esta máscara contra o sol?
Nas sarjetas, brilhando sobre os paralelepípedos,
laranjas ou mexericas, desconhecemos esta selva,
incham, apodrecem, são atravessadas por vermes.
Veja esta rua íngreme e estreita, era o que chamávamos solidão.
Nossos olhos ardem, tanta luz, tanto mundo para nomear.
Somos crianças novamente.
Apontamos para tudo e tentamos recordar os nomes.
Chamamos a praça—praça, lago—lago, loja—loja.
Nos olhamos, há incerteza nos olhos.
Usamos as palavras corretas para começar o novo mundo?
Os miseráveis ainda são miseráveis.
Quem são estes que caminham ao nosso lado?
Compramos pão e café.
Ainda têm o mesmo nome?
É preciso fundar uma nova língua.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

seis poemas para um fim de mundo, de Isabela Bosi

eu começo pelo fato de não poder me colocar em pé
(Tatsumi Hijikata)

I.
aprender a não falar
novos idiomas
traduzir o impossível
como toda poesia
que se arma
diante do abismo

II.
em meu ventre
um exército minúsculo
— mais fatal que a arma de fogo
carregada no teu bolso direito —
ameaça a tua coragem
que desaparece cada noite
com o calor de teu corpo
incapaz

III.
consumido
o pavio sustenta o resto da chama
como os ossos de um corpo desfeito
a sustentar a memória de um dia
ter sido

IV.
dependendo da direção do sopro
um incêndio pode ser evitado

V.
espera
se ainda espera
enquanto escuta
em silêncio
o som da tua respiração
sumir

VI.
o tempo segue
se bifurca sem parar
em incontáveis futuros
(im-possíveis)
num deles
sou eu o inimigo

Isabela Bosi é escritora, jornalista e doutoranda em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Nasceu no Rio de Janeiro, morou grande parte da vida em Fortaleza e, atualmente, vive em São Paulo. Autora dos livros Bar do Anísio: casa de liberdades (2013), Quase (2019) e Sobre viver (2019), além de uma série de vídeo-cartas e intervenções urbanas.

dois poemas de Cesar Cardoso

the new city

cães
lobos
hienas
abutres
nas ruas
elevadores
boxes dos banheiros
gavetas das calcinhas
com seus dentes
sua baba
seus estômagos
esquartejados
carcaças espalhadas
demarcando territórios
e nós obedientes
de casa para o cadafalso
do cadafalso para casa
talvez chova logo mais no centro

* * *

as atendentes de telemarketing os ejaculadores precoces os budistas radicais as skatistas os transgêneros os convulsivos os líderes das torcidas organizadas os amputados as figurantes de novela as maoistas as nadadoras do mar vermelho os catadores de papel os que vão fazer tomografia as ministras os porteiros os calígrafos as que fazem tricô
todos na fila

os mais felizes na frente
por favor

Cesar Cardoso (carioca de 1955) escreve contos, literatura infanto-juvenil, poesia e humor. Tem livros publicados em todas essas áreas. Suas últimas publicações foram Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (contos, Editora Oito e Meio) e A Copa do Mundo do Faz de Conta (lit. infantil, Editora Biruta). Escreve também para TV e mídia (revista Caros Amigos, jornais O Pasquim e O Planeta Diário, programas Tv Pirata, A Grande Família, Sai de Baixo e Zorra).

dois poemas de Armando Martinelli

o real e as palavras

Vago por entre prédios inacabados
Com seus ferros expostos ao céu
Feito garras
Feito estátuas que imploram sentidos

O cartaz no prédio das Letras tem a foto de um pássaro
Perdido
Com anilha
Procura-se

Vago por entre livros catalogados em inscrições numéricas
Por entre poetas a falarem sobre poetas
Por entre as palavras que Pina não diz serem suas
Por entre o real que ele não reconhece

Vago sem anilha
Sem inscrições numéricas
Sem tradução

Em paz.

o observador

O bote que se vê distante não é o bote que se vê agora
Atravessa a rua de costas
Avistá-los ao meio-dia é muito sem graça
Na hora do almoço para não atrasar o trabalho
O relatório das conformidades precisa chegar até as 14h15

Pinta o cenário com os dedos
Faíscas a contornarem segredos
Aponta o camelo a beijar o sol
Brilho difuso
Perfeitamente libidinoso
Perfeitamente natural

Fome não tem vírgula
Não tem respiração
Pausa é alimento de outra esfera
Diria o profeta embriagado

Na sociedade do espetáculo
Imagem e realidade dançam conforme o ângulo
Tudo imediato

O observador perde o sinal
Agradece em silêncio
Só quer deitar na rede estilo Macunaíma
Amar sem fronteiras
Bem longe de qualquer interferência.

Armando Martinelli é jornalista. Gosta de escrever poemas, contos, roteiros cinematográficos, peças de teatro, misturar ficção às realidades banais. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro livro, Recital das Reticências, saiu em 2018 pela Editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp; entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia, previsto para ser lançado até o final de 2020.

cinco poemas de Bruno Ramalho de Carvalho

paráfrases

Para Tito Leite

Leio os versos do Tito
e penso que os absorvo
com o tato do olho.

Nesse momento,
o olho é espelho que entende
a clareira de um sonho
no rosto.

E eu,
parafrasista,
insisto, ainda,
que o espelho também entende
a escuridão de um rosto
no sonho.

Assim, empresto-me
dos versos do Tito
e empresto-lhe ângulos
em que a minha visão
dispensa clareiras
ou escuridões.

É visão apenas.

Tal qual se faz,
a poesia se dissolve
entre os poetas e os sonhos.

E nos empresta o que há de si
em nós, e, ora,
certo lapso,
nos ocorre.

céu

O sol
é sempre
o mesmo.

O céu
nunca.

O seu
é sempre
o mesmo.

O sou
nunca.

aindas

O contraponto da solidão
é a liberdade.

É curiosa a impressão
de estar liberto
na saudade

e ver o que sobra de mim
quando falta alguém:

a dor de ser o herói
da dor que me faz refém.

É isso:
encho-me de mim
se não há mais ninguém.

É a coerência do tempo
que acidenta
e acalenta o que vem,

a oferecer perdas lindas,
e colorir de novas vindas
a partida dos sonhos,

e a dizer às coisas findas
que se vão contundentes jás,
que retornem sutis aindas…

meditação

Estar aqui
e agora é
deixar que essa vida cheia
de momentos fastios
preencha seu tempo de estios,
de um desapego
_______________que anseia.

Afinal,
o passado é areia
onde se firmam, pregos,
os brios
que espalham frágeis fios,
entre a coisa em mim
_______________e a alheia.

E o futuro
é o ver-me e
cegar-me em seguida;
é o atalho para muito além
do lugar que sou.
Uma entrada
_______________sem saída.

Agora
é melhor a palavra
para o tempo em que existe vida;
aqui, para o lugar
onde estou quem quero estar
sem rota
_______________presumida.

os poemas no papel

Um contraponto a Ana Martins Marques,
que não conheço, mas admiro.

Os poemas no papel
perecem
e ainda bem.

Resistiriam à chuva
se escritos no pano,

mas não à deriva do engano.

Sustentariam até prédios
se escritos na madeira,

mas faísca faria deles fogueira.

Seriam, enfim, eternos
se escritos na rocha,

mas não dariam brecha…

No papel,
permitem-se ser amassados,
rasgados,

findos, os poemas…

Não vejo coragem suicida
nos poemas
do papel.

Ao contrário,
a cada rasgo e emenda,

a poesia revive remida.

Bruno Ramalho de Carvalho é poeta e médico, arranha no flugelhorn e se interessa por filosofia. Ginecologista em Brasília, Distrito Federal, atua na área da reprodução humana. Publicou três livros de poesia: A penúltima coisa que se faz (edição do autor, 1999); Do amor deveras e das quimeras (Emooby, 2011); e livra-me, poesia (Editora Scortecci, 2019). Participou de diversas coletâneas poéticas. Hoje, dedica-se a seu próximo livro, ao qual dá, provisoriamente, o título de Poemas colaterais, em menção à poesia como efeito do dia-a-dia.

cinco poemas de Chris Herrmann

miragem

a imagem
burlou
a paisagem
do teu olhar

brincou
com o olho
de tolo da
imaginação

foi além
do ouro
convidou-te
à imagem
fração

nascente

do teu ventre
feneceu a esperança

dos teus lábios
calou-se o céu da boca

dos teus olhos
nasceu um rio

dos calos da tua mão
: o jardim

a outra

ela me balança
e eu não caio

quando não me
aguento
ela me carrega

quando ela me pesa
sou contrapeso
por natureza

juntas, balanceamos
nossas desmedidas
levezas

cachoeira

hipnotizada
ela não sabia
se deixava
a correnteza
amolecer
seus espinhos
ou se fugia

por um segundo
esqueceu-se
do frio da dor
do horror
das lágrimas
e salvou
o momento

passagem

meus sonhos
guardam minhas
passagens
mais secretas

meus medos
são concretos
a construir pontes
invisíveis

meus espelhos
o muro abjeto
com seus códigos
não decifrados

minhas verdades
minhas histórias
meus passos
em falso

enquanto passo
de um ambiente
a outro

aguarda-me a morte
me espreitando
não sei onde
não sei quando

transpassando
a maior viagem
o derradeiro
norte

Chris Herrmann é musicista, editora, escritora, poeta carioca, radicada na Alemanha desde 1996. No Brasil, estudou Literatura, Música e Webdesign. É pós-graduada em Musikgeragogik na Alemanha. Organizou e participou de diversas antologias de poesia. É autora dos livros de poesia Voos de Borboleta (Tubap/Clube de Autores, 2015), Na Rota do Hai y Kai (Tubap, 2015), Gota a Gota (Scenarium, 2016), Cara de Lua (Sangre Editorial/Mulheres Emergentes, 2019) e dos romances Borboleta — a menina que lia poesia (Editora Patuá, 2018) e Peccatum (Arribaçã Editora, 2020). Tem poemas publicados (em algumas também colaborou como autora) nas revistas eletrônicas Algo a Dizer (colaboradora), Zona da Palavra, Blocos Online (colunista), Revista Plural — Scenarium (colaboradora), Mallarmargens (colaboradora), Germina, Ruído Manifesto, Revista Caliban, Mirada, entre outras. É editora da Revista Ser MulherArte.

ruído de ventos e tambores, de Valeska Brinkmann

1. Agora
Vamos esquecer tudo
esta noite vai ser como
uma flor seca dentro de
um livro de poesia

Desculpa não ter ido embora /obrigado por ter ficado/ acho que eu precisava fugir não sei exatamente do que, e você veio como um refúgio, por isso fiquei, mas agora tenho que ir / acho que era eu quem precisava de… espera eu tomar um banho, vou até a rua contigo e tomamos um café. / não, melhor não.
Essa noite vai ser como uma flor seca dentro de um livro de poesia.
Eu te amo só hoje e acabou.

2. Antes
Era numa festa. A mulher sabia quem era aquele cara, mas nunca tinham conversado. Agora falavam, bebiam, dançavam. Ele, de repente passa mal, rodopia e cai de costas, tem que sair, quer ir embora da festa. Sorte que mora ali perto. A mulher o acompanha, o ajuda a subir as escadas. Abre a porta com as chaves que ele acaba de lhe entregar, tirando do bolso da jaqueta. Adentra aquele apartamento bonito, onde nunca esteve (ruído de vento e tambores, como no filme Giordano Bruno, na procissão). A mulher despe o homem e o senta em sua cama. Está meio que dormente, mas obedece os movimentos que ela lhe sinaliza: tirar os sapatos, as meias, desabotoar o cinto… Então a mulher se enternece daquele homem, e resolve ficar ali mais tempo, talvez passar a noite (mais tambores, desta vez dentro da barriga dela). Senta-se ao seu lado e acaricia seu rosto, como se fizesse massagem facial, explora cada traço, o nariz, o redor dos olhos, o queixo, a barba a crescer, o maxilar (cena do filme Cidade Pássaro). O homem abre os olhos, eles se beijam. Um beijo arreganhado, um beijo se comendo, longo, demorado, acumulado. Um beijo colosso. Ela deita-se ao lado dele (cena do filme Nosso amor de ontem). E aprova o tipo de travesseiro.

3. Depois
Não se viram nunca mais depois daquele encontro.
Mas pensaram muito um no outro.
Ele sofreu um acidente e não pode mais andar. Mudou de cidade.
Mas, as coincidências da vida. Um dia teve uma passeata um carnaval um bloco de rua, e os dois se cruzaram no meio da passagem.
Ele de cabelos grisalhos na cadeira de rodas, o mesmo sorriso. Ela na companhia do filho. cabelos mais curtos, óculos, o mesmo sorriso.
Oi quanto tempo/ pois é quanto tempo…
é seu filho? é a sua cara / é… (Risos, música Sinal Fechado, Paulinho da Viola).
Fugiram rapidamente do bloco, da passeata do carnaval. O filho tinha encontrado os amigos e seguido para a outra direção. Tchau mãe/tchau.
Foram para um boteco ali perto. Passaram o tempo pondo os dias em conversa. Era de novo a festa. Tocaram as mãos um do outro sobre a mesa de lata do boteco. Olharam-se nos olhos. Tomaram só cerveja, mas muita (música de Itamar Assumpção ou um outro samba de Paulinho da Viola).
A noite já seguia longa e escura e a rua estava quase deserta quando eles deixaram o bar. Ela com um braço ao redor de seu pescoço (ruído de ventos e tambores, num volume mais baixo).
Ela não contou que sempre abria o livro naquela página onde tinha um amor-perfeito.

Valeska Brinkmann, Santos, 1972. Estudou Radio e TV na FAAP (SP). Escreve contos e poemas. Textos em sites literários como Stadtsprache Magazin, Literaturabr, Escamandro (traduções de poesia alemã) e em diversas antologias. Publicou na Alemanha em 2016 o livro infantil bilíngue Pedrina — a perua que queria ser pavão, pela editora Bübül Verlag Berlin. É integrante do coletivo GLENSE — guerrilha literária espontânea na sala de estar e trabalha na emissora de Rádio e TV pública de Berlim, onde vive há 17 anos.

quatro poemas do livro ‘Férias na Disney’, de Bruno Molinero

açougue

não
não
o que eu ensinei naquele vídeo
foi a desossar um leitão inteiro
só isso
como posso ter culpa do que
aquela molecada aprontou?
rejeito
nego
recuso
afinal
todo mundo gosta de assistir
barriga de bicho sendo aberta
ver focinho em tigela gelada
enquanto escuta problemas
debate úlceras e amarguras
não gosta?
tenho mais
de cem mil
views e só
tentei aproveitar a audiência
unir a carcaça aos despojos
entende?
quando faca afiada de lâmina fina
corta superficialmente as costelas
tiradas osso a osso a osso a osso
é como se eu pegasse as cédulas
desviadas das nossas mil estatais
e escancarasse o sistema podre
berrando
vagabundos
canalhas
o porco escavado ao vivo
com suas miudezas flácidas
a coluna vertebral já extraída
garras ósseas feito crustáceos
dedos em menstruação suína
zurro
suado
mexido
quando foi a última vez que
você saiu de casa sem medo?
hein?
quando?
faz tempo?
os bandidos balançam na
ponta de inox que decepa
cada bochecha gorducha
do bacorinho destampado
rasgando ocos e articulações
as patas serradas e estáticas
lombo dilacerado rumo ao rabo
gume abrindo vasos como livros
o ísquio preso à cartilagem tenra
torcido até que o branco do nervo
fique visível e possa ser retirado
como todos os nossos políticos
devem ser extirpados deste país
esgoelo
escumo
besunto
mas nunca nunca podia pensar
que essa molecada tão jovem
faria uma barbaridade dessas
jesus
tão meninos tão menininhos
meus sentimentos à família
lamento
mas e daí?
como eu teria evitado?
não estava lá na hora
sequer conheço essas
crianças ou a vítima
só gravo vídeos
apenas isso
e desosso
leitões

não tenho nada contra

mas

um corpo

olha
olha ali, pai
uma sereia
berra o menino
sunguinha vermelha
dedo apontado pro
corpo roliço e cinza
lambuzado de areia
não
isso é um golfinho
aplaude o homem
as mãos no animal
buraco de respiração
abrindo e fechando
pupilas derretidas
guarda-sóis azuis
vitrais de igreja
veja, amor
o que achamos na beirinha
anuncia o pai de férias para
a mulher que afasta curiosos
melecados por breja e sacolé
ombro a ombro gesticulando
corre, tem um golfinho aqui
é meu
nem vem
nós vimos primeiro
trovoa a voz da mãe
na amarela maresia
o celular já preparado
ei
moço
tira uma foto nossa com
essa dádiva de deus?
mas a multidão de dedos e
bundas de biquíni fio-dental
leva pra longe a pele rachada
do bicho que balanga cheio
de protetor solar e amendoim
credo, achei que fosse cobra
guincha a velha de maiô rosa
pras crianças excitadíssimas
nossa, mas ele tem dentinhos!
barbatanas de mão em mão
o bico sorridente na internet
um homem põe dois dedos
e uma lata de cerveja
no orifício respiratório do corpo
que chega ao carrinho de mate
meio troncho, quase abalofado
mas tá morto essa desgraça
chuta o vendedor de fruta
aquele peso preto
filé milanesa
prato feito
urubu
boneco
empalhado
afastado
dos parças no futevôlei
da velha bêbada no maiô
das crianças baratas tontas
do chá gelado, meu bom?
do caldinho mais barato
e daquele menino
sunguinha vermelha
que desenterra
uma concha
olha
olha, pai
uma armadura

top

polegar e
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

posso
tentar
também
papai?

pequeno
polegar e
pequeno
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

papai
papai?
papai!

| poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo). |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido, livro que venceu o Prêmio Guavira de Literatura, e Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo).

quatro poemas do livro ‘Corvos contra a noite’, de Diego Vinhas

corvos_contra_a_noite_capababel

dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
_______________a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

da pós-verdade ao
pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

giallo

empunhar o cansaço como
uma espada de iansã, proteção contra
estar dentro de um filme italiano
em que do matador em série
aparecem apenas as luvas pretas
de couro. escolher as armas: livros e
amores (os mais queridos, de segunda
mão), além de imagens riscadas em
sonho, como o olhar de vidro dos
pescadores saudosos de algo que o mar
não devolve. como as guirlandas,
helênias, gérberas e outros nomes reais
ou inventados de flores ou de meninas
assassinadas. você sabe, esta casa
retrocede e dobra e se curva ao sabor
da fuga. só temos que voltar antes
que o filme acabe. por enquanto, pilhar
toda ninharia que componha o paiol —
uma península, uma paz tarja-preta, um
bestiário de figurinhas autocolantes,
o cheiro de chuva do seu cabelo.
escolher as armas na pressa, sob
o manto protetor do meu cansaço.
há mandíbulas em volta se fechando
em carniça, não há muito tempo.
você tem a chave, mas não é fácil ler
as linhas borradas do seu rosto.
daqui parece um sorriso

sesmarias

1% dos mais ricos do mundo detém a mesma
riqueza que o resto dos 99%.

seis brasileiros concentram a mesma renda
que 50% dos mais pobres.

nos EUA a média diária de consumo de água
per capita é de 575 litros enquanto na Etiópia
é de 15 litros.

dez multinacionais têm mais capital que 180 países.

mulheres recebem, em média, salários 30% menores
que os homens quando ocupam os mesmos cargos
e com a mesma formação.

o motorista do Dr. Mansur
é filho do motorista do pai do Dr. Mansur.

aquele zé-ninguém puxando conversa com a
madame. se o coronel manda apagar não dá nada.

advogados só podem despachar com magistrados
às 3as e 5as, das 14hs às 17hs (alguns
não atendem mesmo).

você sabe com que está falando?

pão nosso

com tanto amor
totalitário
pingando
de vossa excelência

este que vos fala

tão menor
tão merecedor
de amparo
piedade e esmola

só poderia

agora
na ágora
do corpo

replicar com
ódio

| poemas do livro Corvos contra a noite (Editora 7Letras, 2020). |

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza em 1980. É defensor público e participou de antologias do Brasil, EUA e Portugal, além de ter publicado em diversas revistas, como Inimigo Rumor, Cult, Sibila, Escamandro, Modo de Usar & Co, Gueto, Zunai, dentre outros. É autor dos livros de poemas Primeiro as coisas morrem (2004), Nenhum nome onde morar (2014) e Corvos contra a noite (2020), todos pela Editora 7Letras (RJ).

três poemas de Alice Vieira

BREVE GLOSSÁRIO DO INTRADUZÍVEL EM RUSSO

I

туча [tútcha]:

uma nuvem — carregada —
será a tristeza ou
um lance de dados
façam suas apostas se

um poema, um coágulo

II

Cоловей-Pазбойник [Soloviei-Razbôinik]:

teu nome, poeta
tua mão assassina
num imbróglio
homem-pássaro
fogem de ti
como da morte
tua canção avilta
teu silvo anuncia
uma sombra
um sabre de batalha

NUNCA ENTENDI QUEM ESCREVESSE ROMANCES

Nunca entendi quem escrevesse romances.

Canta, corpo
salvo você
quem me fabrica?
quem azula um risco
na cútis
quem afunila a matéria
suspensa
ao perigoso estrondo?

PROMETEU

quem perde o medo de morrer não perde
nada
puir o rosto e o invólucro
para exibição aos meus pares
espera-se que eu, às vezes,
me veja refletido
espera-se que eu, às vezes,
faça menos barulho
não atrapalhe
o sono dos outros
quem perde o medo de morrer
não reconhece
o fogo sagrado
não dá aos homens
dissolutas

mãos de pedra

Alice Vieira mora em Belo Horizonte desde 2009. É doutoranda em Estudos Literários pela UFMG. Tem poemas publicados nas revistas Germina (2016), Em Tese (2018), Gueto (2018) e Ruído Manifesto (2019). Publicou, em outubro de 2018, seu primeiro livro de versos, intitulado {Open Source}, pela Editora Penalux. Em 2019, fez parte da coletânea Poemas Reunidos I da revista portuguesa A Bacana.