três poemas de Everardo Norões

fractais

Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).

A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.

a música
Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…

pampas
Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.

Everardo Norões nasceu no Crato, Ceará (Brasil). Viveu na França, Argélia, Moçambique. Atualmente reside em Portugal. É autor de vários livros de poesia, entre os quais A rua do padre inglês, Retábulo de Jerônimo Bosch e Poeiras na réstia. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais o Portugal Telecom da Língua Portuguesa 2014 pelo livro de contos Entre moscas. Publicado em várias revistas literárias, como Granta (edição brasileira), Gare Maritime e Bacchanales (França), Quimera (Espanha), Martín (Peru), entre outras. Seus poemas foram traduzidos em francês, inglês, italiano, espanhol, catalão e quíchua.

três poemas de Luamba Muinga

estes caminhos do medo
Pelas manifestações em Luanda

Agradecemos a formação de pessoas à rua
Agradecemos o medo formado e o fulgor tomado;
o retrocesso circunspecto que não se suporta tenderá ao irreal, ao feroz segredo
E os prisioneiros da tarde ascenderão heroicos quando brotar a noite limítrofe
E os opressores por estes caminhos do medo saberão que a fome não se vence somente com a cantata e a poesia.
E os canais das sarjetas formarão suas secretas fontes enquanto pela fronte ninguém passa
Por este alvorecer de jubilo e caça.

a mulher do bar

“Está fechado”, dizes. Mas eles batem.
Não batem apenas a porta de um bar fechado, batem também a porta do teu cansaço, da tua inconstância e do teu medo latente.
Batem e desfazem a força do cigarro que o teu filho pedirá para apagar quando for manhã, mas ainda assim o fumo circunda-me enquanto deixamos um bar fechado, sem a alma brilhante da madrugada.
Batem enquanto repuxas lembranças tuas ao meu ouvido,
Batem enquanto me pedes o sexo e eu calado para te não molestar ainda mais.
Batem e eu me pergunto pela impermanência desta intimidade (fechamos o bar?)
Continuarão a bater mesmo que já tenhas aberto o teu quarto a um tipo que apenas te ouviu.

Batem porque é a policia quem ordenou.

funeral para um elevador

O mijo que suplanta o beijo
O medo na encosta da rodovia
As salas das prisões que refreiam a crueldade
A ternura dos missionários católicos
A decifração da idade que embeleza a juventude na sua brava crença
Os campos límpidos e cultivados pelos sangues inocentes
Serás tu que negarás a beleza da baba dos recém-nascidos e aceitarás o seu crescimento, o passo seguinte, mas negarás a sua idade adulta, a adolescência fervente, pois são fezes fora do teu fruto.
O sofrimento das religiões e o suborno de uma branda adoração, o que te servirá?
Campos límpidos retratados nas pinturas holandesas, e ninguém te lembrará que no vidro dos elevadores perdem todos os sentidos

Luamba Muinga nasceu em Luanda, Angola, na última década do século XX. É crítico cultural, produtor e também curador de arte. É cofundador da revista eletrónica Palavra&Arte, centrada na produção artística emergente em Angola. Em 2018 dirigiu o minidoc Capitães Vulneráveis — A vida de crianças em situação de rua. A sua produção artística passa pela prosa, poesia e textos performáticos.

três poemas inéditos de Laura Erber

erber_img
Laura Erber ©

circunstância da luz

estamos voando em círculos
os pássaros também
presos
nos feixes de luz
exaustos
sem saber
que rodeiam
a própria morte

tartarugas perderam o horizonte
ao nascer ficam tontas
desbussoladas
vão errantes pela praia
morrem demais

não só a falta
o excesso
de luz
também
liquida
diz a cientista das estrelas
diz o guardião da noite escura
diz o vendedor de um novo tipo
de luz amiga das tartarugas
diz o pesquisador das consequências do azul no olho
diz a especialista em ossos de passarinhos
diz o homem contra postos de gasolina
mais claros que a luz do dia

aquela noite em Budapeste
agora sei
não eram morcegos
em dança notívaga
mas bandos de pássaros
presos na luz dos holofotes

por inépcia
dificuldade
ou cálculo
as coisas mudam
bem devagar

uma cigana me disse
nem sempre vale mais
o que magoa menos
vi estrelas tatuadas no seu braço
foi na Avenida Rio Branco
antes de uma grande inundação

o mundo tem tantos problemas
a poeta nem consegue ser boêmia
abstratora sismógrafa coletora
de quintessências fenomenais

não quero falar dos bichos abatidos
mas da raposa-poema
nascendo noite após noite
das páginas de um livro

vem e pousa ao meu lado
vamos ver as hortênsias
o opala da noite
o sentimento modulado
o ano inteiro
a vida inteira

outras circunstâncias

o poema depende
de coisas pequenas
conseguir
esperar
ver
o animal saindo
da fábula real
tabaco prosa
raposa ao relento
passos de veludo
o melro derrotado
dentro de um quadro
coisas girando
no desespero
de outro livro
tudo depende
de pequenas coisas
um olho machucado
intensidade do talvez
o animal pequeno
rasgando o poema
enrolando nomes
em folhas de tabaco

você também vai flutuar
sumir do filme
irretocável do que quase
nada segue sendo sempre
espera
inundação
estrago
dedo enfiado na ferida
todas as palavras
que trocamos
moedas sujas
o poema não depende
de nós
de mão em mão
as imagens
voltarão a circular
entre o fosso e o postigo
depois do fim do tempo
das coisas girando
guerra do doce
contra o amargo
a impressão de tudo
se apagando ao redor
até discretamente
sumir
sumiremos também
nas letras
furos
no alfabeto

versos de circunstância

gosto quando nas aulas
alunas desatentas
despertam do profundo cansaço
como deidades muito antigas
em ondas de sobrevivência
a vida numa certa idade se parece um pouco ao cansaço mítico
— um comboio comprido passando depressa
mas devagar demais depressa —
e dizem de uma só vez toda a verdade
sobre os textos que não leram
(uma amiga diz que
coisas mágicas acontecem
em sala de aula
mas também coisas súbitas
como pessoas
pedindo licença ajuda
mostrando cicatrizes
receitas
e depois sumindo
para sempre)
gosto quando nas aulas
alunos muito atentos
fazem as perguntas
que mais gosto de fingir
saber responder
o que é anacronismo?
o que significa signo?
gosto quando nas variações da vida
que são as aulas
me perco no meio de uma frase
perco todas as palavras
peço ajuda às alunas cansadas
distantes em seus comboios
infinitos vagarosos porém frenéticos
e ninguém ousa dizer
professora não temos a vida toda
ande com essa frase precisamos dormir
fazer xerox sofrer
transar e outras coisas
menos palpáveis
voluptuosas
ande com isso que não temos
a menor ideia da sua ideia
de frase
às vezes me salvam dos lapsos
às vezes me jogam dentro deles
um pouco mais
profundamente
às vezes não quero ser salva
há dias — todos os dias — em que sei que sou
o professor de natação
sem água

Laura Erber nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É escritora, editora e pesquisadora. Publicou Os corpos e os dias (Editora de Cultura, 2008), A retornada (Relicário Edições, 2016) e Theadoro Theodor (Editora Quelônio, 2018). Dirige a Zazie Edições, editora independente, sem fins lucrativos, que publica livros digitais em sistema de open access. Atualmente vive em Copenhague.

novena para rezar gritando, poema inédito de Jozias Benedicto

As mãos dele, ensanguentadas, sujas.
Com muita revolta quero gritar
a morte tão sofrida e dolorosa
de todos estes e de muitos mais:

A morte da empregada doméstica prestativa
É dele
A morte do feirante engraçado
É dele
A morte do desenhista de histórias infantis
É dele
A morte da atriz de novelas, aposentada
É dele

A morte do maior escritor do país
É dele
A morte do jornalista, radialista e advogado
É dele
A morte do político reacionário
É dele
A morte da dona de casa entediada
É dele

A morte do segundo maior escritor do país
É dele
A morte da criança autista do prédio ao lado
É dele
A morte do político progressista
É dele
A morte do político centrista descentrado
É dele

A morte da pastora e cantora gospel
É dele
A morte da médica pós-graduada
É dele
A morte do maestro e da maestrina
É dele
A morte do surfista e ator pornô tatuado
É dele

A morte da artista obesa e diabética
É dele
A morte da socialite enturmada
É dele
A morte do segurança do metrô com três filhos
É dele
A morte do sem-teto esfomeado
É dele

A morte do empresário bem sucedido
É dele
A morte do economista renomado
É dele
A morte do sogro de meu melhor amigo
É dele
A morte do porteiro bem apessoado
É dele

A morte da sonhadora professora de inglês
É dele
A morte do poeta premiado
É dele
A morte da mulher do galerista
É dele
A morte do cirurgião plástico conceituado
É dele

A morte dos padres de nossa senhora aparecida
É dele
A morte do compositor visceral engajado
É dele
A morte do programador de computadores
É dele
A morte do halterofilista bombado
É dele

A morte do neto de meu colega de trabalho
É dele
A morte do filósofo aburguesado
É dele
A morte do rápido motoboy
É dele
A morte da modelo siliconada
É dele

A morte da mãe do prefeito eleito
É dele
A morte do estudante descuidado
É dele
A morte do idoso que eu via pela janela
É dele
A morte da gerente de RH estressada
É dele

A morte do artista visual modernista
É dele
A morte do motorista descompensado
É dele
A morte da avó da primeira-dama
É dele
A morte do adolescente ensimesmado
É dele

A morte do compositor de samba enredo
É dele
A morte do dramaturgo desbundado
É dele
A morte da cantora intimista
É dele
A morte do caixeiro viajante desempregado
É dele

A morte de tantos e tantas iguais a mim ou a você
É dele
Cada morte
Cada uma destas mortes
É dele

(Repita mais de 200 mil vezes e mais e mais
E grite
Use sua indignação ou desespero
Sua raiva
Sua voz
Como uma arma
Até que o amém se transforme
De “assim seja” em “assim não seja mais”,
nunca mais)

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Tem especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Suas videoinstalações, performances e pinturas que unem literatura e artes visuais foram apresentadas em seis mostras individuais e em exposições como a XVI Bienal de São Paulo e o Salão Nacional de Artes Plásticas. Atua também como curador independente. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas, foi finalista do Concurso Sesc de Literatura 2012-2013. Como não aprender a nadar conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 (Contos) e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Recebeu premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção, publicado pela Editora Patuá em 2020. Além disso, publicou dois livros de poesia, Erotiscências & embustes (2019) e A ópera náufraga (2020), ambos pela Editora Urutau.

quatro poemas de Cândido Rolim

círculo

Vale dizer o mesmo
círculo turvo de conjeturas
a exaustiva prática dos mesmos
atos tipo andar
criteriosamente em círculo sem
ir a parte alguma repetindo
olhando mesmo campo
o cumprimento automático do
mesmo percurso nada disso é
privilégio dos encarcerados

anti estirpe

Nem pai nem filho
nem as ínguas do pai
nem gorgulho da prole
nem testa de casta

Nem natureza materna
nem mácula de finado
nem blindado na lisura
de ascendente invocável

Nem perspicácia avoenga
nem padrão de laico
nem semente de víbora
ou vitalícia bondade

Nem exemplo de fibra
nem próximo ao abastado
nem enfeite de mobília
tampouco besta de carga

estofo moral do desjejum

Sente o ouro da migalha
na mesa reservada onde
ceiam mandonas pós modorra
vincos roçando os
espaldares

Repare a prole roliça
pervagueia entre rações
balanceadas de inúteis
advertências
tudo cintado a um
jugo invisível de ante
pasto

fui

Aquele menino a quem o mestre
vicente duba guardava aos pés
das fornalhas do engenho
para lhe contar piadas impróprias
palavrões desaforos — tudo em
troca da imagem crepuscular de
sua corcunda sob o vapor
adocicado das caldeiras e
a risada quase sem dentes

Cândido Rolim nasceu na cidade de Várzea Alegre, interior do estado do Ceará, nordeste do Brasil, em 1965. É poeta, crítico, fotógrafo e músico amador, reside atualmente em Fortaleza. Alguns livros publicados: Arauto (1988, Editora Dubolso, Sabará-MG), Exemplos alados (1997, Editora Letra & Música, Fortaleza-CE), Pedra habitada (2002, Editora AGE, Porto Alegre-RS), Fragma (2007, Editora Secult, Fortaleza-CE), Camisa qual (2008, Editora Éblis, Porto Alegre-RS), Orumuro & Remerzbau (2017, Editora Butecanis, Florianópolis-SC), em parceria com Ronald Augusto e Ricardo Pedrosa Alves, e Sutur (2018, Editora Texto Território, Rio de Janeiro-RJ), Miniaturas, Carnaval Press, Londres, 2018, tradução ao inglês por Virna Teixeira e Piedra Habitada, Amotape, Lima, Peru, 2013, tradução de Oscar Limache e Alfredo Ruiz.

quatro poemas de Felipe Pauluk

poema em três partes, mas é um só

escalando o tempo provisório
a mão salta para pedra mais próxima
do meu olho que te afaga
e tudo vira saltos e agulhas
ou salto-agulha
e entra pela minha veia da testa
e escreve teu nome
em uma hemácia
e pronto
abarrota meu sangue
infla meu peito

nem todo caminho de volta
é uma trilha do passado

era o que eu queria escrever
quando falei sobre o tempo

penicilina do diabo

dos corações
sangram grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na cutícula
minhas costelas dão corda no tempo
& os dedos cravam na carne de uma carpa virtual
nas entranhas encontro você
nas ovas têm um bebê-deus e um estado laico
eu fabrico poesia aos sábados
dentro de uma mesquita que me devora em sexo
todos os ratos desta cidade
dizem coisas boas sobre teu nome
a penicilina do diabo
é a saudade que mora entre o crânio e a poesia
como um cordeiro imolado
meu coração sangra grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na tua cutícula [f.p.]

crua

a risada mais crua do que nua
tão crua que se vê o vazio
um pouco de espaço
entre as paredes
e o cinza engolindo
o azul do teu olho esquerdo

nunca a solidão foi tão bem pintada
por você
sem tela alguma
sem carros ou cavalos
prédios ou vidros embaçados

a coronha da tua saliva
esfarelando a maça do meu rosto
dando cabo ao vento
e chão aos aviões

nunca a solidão foi tão bem pintada
por você

minotauro

se o tempo
me é gastura
e para o mel da tua boca
não me há o tempo
erroneamente existo

dissolvo-me em cigarros
como um deus-menino
descalço no ladrilho da sala de jantar
cometendo o crime do resfriado
pneumonia de ti

ancoro meus navios-tristezas
em lombos de minotauros
medo me assola
nesta barriga gélida
solidão do demônio

Felipe Pauluk é um curitibano residente em Londrina, jogou na loteria da vida e, numa quina, tirou o menor prêmio, a literatura. Lançou seu primeiro livro, Meu Tempo de Carne e Osso, em 2011. Hit The Road, Jack, romance, em 2012. Em 2015, Town, outro romance. Comida di butequim e Tórax de São Sebastião foram seus dois livros de poemas publicados em 2016. Em 2017, lançou pela Bar Editora Manual Prático de Perna Mecânica para Cantores. Felipe também é roteirista.

três poemas de Leandro Rodrigues

capa_quedas

Ícaro

A Ícaro seu voo
rente ao sol asas de cera
a queda brusca e inevitável
ruflada sombra ao precipício

A Ícaro a palavra
no tempo de vela derretida
as penas descoladas
a alada simetria da chama
__________resiste ao vento

A Ícaro o canto do pássaro
o vértice do outro limite
__________o solo de nuvem
____________o solo de nuvem
___do instante
____________de todo instante

Isadora dança

Isadora Duncan
mesmo morta
ainda dança na contraluz
da Lua

Isadora ousa precipita-se
num passo solto
e profundo
padedê precipício

Então salta num voo
livre tênue
pasodoble
frágil-infinito.

Leila livre Leila

apenas em sua liberdade
esse azul vai além
de espanhas e holandas.

| poemas do livro Todas as quedas são livres (Editora Penalux, 2020). |

Leandro Rodrigues (Osasco, 1976) publicou os livros Aprendizagem cinza (2016), Faz sol mas eu grito (2018) e Todas as quedas são livres (2020), além de participar de diversas coletâneas: Hiperconexões (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019), 70XCaio (2019), Clausura (2020) etc. Teve poemas traduzidos e publicados na Espanha e nos Estados Unidos. Participou da Antologia de poesia brasileira contemporânea da revista DUSIE nº 21 da UCLA.

s/título, poema de Jussara Salazar

UM MAR COR DE JADE
MAR NEGRO
PEDRAS ANJOS
NAVIOS DE PASSAGEM

| REMIX |
Um close-reading expõe uma quantidade de corpos
um falso bloco de nudistas
algaravias noturnas sob um azul violento
que se divide em fatias
cortadas com esmero ao vento
bajo el sol de una faca cabralina, oh João!
— o mar azul, o céu azul —
duas lâminas, duas medidas.
Uma só cicatriz. A cidade desnuda. A cidade definha.

Entre as manobras do prático
as redes
hoje vão capturar uma colheita magra de peixes
e algumas carcaças humanas abandonadas por algum predador marítimo.

Não falarei da cidade
mas da mulher negra

Direi ao mar: os teus peixes morrem. Mas o mar não escutará
e moverá as negras ondas as negras mãos líquidas que não gesticulam
mas gritam palavras desconhecidas em línguas diabolicamente estranhas

Não falarei enquanto falo ao mar
E ouço nomes que se assemelham ao nome dela. Mar
O querubim de olhos engraçados e sem um braço repete também esse nome
como um mantra
uma loa
um poema monótono
um poema bélico.
Não falarei sobre a dúvida ou
as bifurcações impossíveis das quadras em forma de triângulo
que se amontoam nas ruas de um bairro sujo e distante
Das pequenas ondas lentas, mornas e cinzas com a chuva monótona
E tampouco falarei das ondas. Nunca as ondas
roçando o teu torso macio de anjo pelas ruas
agora vagando sem rumo, mutilado, boiando
apodrecendo nesse vaivém das águas
A cidade é o cão do poeta. Hoje a cidade está nua
_____NOLI ME TANGERE
Soa a palavra escura. Incompreensível
Não caminho mas caminho
hoje escrevo sobre tuas cinzas. Escrevo
sem um pássaro para ouvir ou cantar
Só o silêncio e a pedra antiga me escutam
Escrevo para a dúvida
corpo em abismo. Escrevo
para construir um céu ou um pomar
para tingir um vestido
Cantar a morte ou derrubar um obelisco
E desescrevo e o céu desaparece
como tu desapareceste na noite
entre as balas dos que não te querem. Escrevo
para desdizer o poema nunca escrito
e que venham os espíritos
os cães vadios ditem palavras
bebam o veneno
roam o osso
e depois cantem
aquela ária retorcida sobre o teu corpo
Para escrever palavras santas sento ao lado do senhor
abro a janela para nunca mais sair
e brincar e furiosamente. Serei um cão
Filha da palavra escura. Incompreensível. Sou. És as cinzas
Escrevo
Para costurar tua mortalha com agulha sombra e silêncio
ir do fim ao princípio alinhavando
_____Cantar para o corpo
_____unindo o algodão branco
_____e o visgo do barro negro
_____à sombra do verso torto

Para desmanchar o poema dobro o sudário
porque amanheceu e as luzes se apagaram
e a rua sangra sob o massacre
Sob a luz não: nenhuma dor
Guardo teu corpo. Agulha sombra e silêncio para as cruzes de agosto.
Escrevo
Para esquecer o poema às 5
enquanto lavo o rosto
e visto o casaco
e o século acaba sem velas acesas
Pés descalços sigo teu cortejo
que passa
oh jardins destruídos. Entre cadeiras ensolaradas caminho
beirando os muros da cidade
E quando o sol surgir espalharei tuas cinzas entre flores
sobre esse mar cor de jade

Jussara Salazar é escritora e artista visual. Publicou Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008), Carpideiras (2011) com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (2014) e Fia (2016). Tem sua obra publicada em diversas revistas e traduzida para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão. É doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná.

quatro poemas do livro ‘Enigmas de Jaguar e Jasmim’, de Mariana Varela

capa_enigmas

construção

Da montanha vejo escorrer
o cimento febril e diário.

Ouço, enquanto caminho
o som das moedas
caindo do cofre.

Cada minuto, uma moeda
cada horizonte, um centímetro cúbico
e todo o aparato imobiliário.

Caem ações
em construções de luxo.

E refletores de prata
anunciam corredores
de mineração pesada.

Salto na água
o barco é do tempo.

Cada centímetro anuncia
a engrenagem nova que fizeram
com o vento.

artimanha

Aberta, a fresta deixa escapar
o salto do gato sedento.

A língua bebe a água
a água engole a língua.

Especialista da sede
a língua exalta as frestas
abertas pela palavra.

Palavra-maga
Fresta aberta.

Água, língua
Porta, gato.

Em toda fresta
_______um salto

mínimo vasto

Dentro do olho mágico
a tua casa quase inteira.

E a roda da carroça que contém em si
a magia da velocidade.

Meus olhos contém o mundo, quando abertos
e fechados insinuam ainda
surrealistas composições.

Na seda em que me deito
está o bicho
está China
está a Pérsia

Adoráveis folhas e sementes
de papoulas.

No chip que carrego está também
a mão de obra chinesa
vietnamita, talvez, mais barata
a tecnologia alemã
— Toda a divisão internacional do trabalho.

Sim, quando toco tua mão
também posso sentir

Astros, planetas,
constelações dominicais

O mesmo incêndio permanente
dos signos cardinais.

Sim, não é preciso viajar
para conhecer os mares

Vales, montes e lagos
— nada disso preciso.

Cada coisa contém em si
outros mosaicos

E nada está só
nem sozinho é forjado.

Recolho-me,
contente em saber
que a mais pequena fechadura

contém em si
a composição mais mínima e perfeita
da abertura.

ouronomachia

Na noite indesejada,
passa de novo por mim a serpente
Há anos sei que vem
e em silêncio vejo-a passar.

Tudo que passa traz a mensagem
maior que sua superficial imagem.

São símbolos,
minerais fundamentais da vertigem
venenos que convocam a maré cheia.

Aberta, o rio me atravessa
Deserta, o rio me envenena.

O fogo flecha o signo
e me transporta à origem
da sua imagem mediada:

Tudo é mais que nome
tudo é mais que imagem.

Tudo é símbolo
tudo é viagem.

| poemas do livro Enigmas de Jaguar e Jasmim (Editora Urutau, 2020). |

Mariana Varela é paulistana, vivendo actualmente em Lisboa. É poeta e mestre em Sociologia. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim em 2020 pela Editora Urutau.

três poemas inéditos de Tito Leite

* * *

Tirei do girassol
as suas cores matinais
e sentei a existência
num vagão embriagado.

Na angústia-férrea
de primaveras e gestos
impensáveis, extrapolei
e perdi a estação.

Nas entrelinhas
do silêncio, a palavra
pesa e o sangue não pondera.
Entre bétulas e trilhos
a loucura é bilíngue.

A mecânica
dos bons costumes
não é injetável
e o limo petrificado
do sujeito normal
não me apraz.

* * *

Um poema retirado
das entranhas, da madureza
de uma árvore, que sobrevive
às estações mais infaustas.

Um poema febril,
com a coragem de um homem
que luta contra Deus e olha
para um mundo em rascunho

e diz: farei mais poemas
que o número das estrelas
do céu. O poeta e sua

inadequação, no pescado
das palavras os cavalos
do motor do seu coração.

* * *

Antes do sol
se esvair
serenamente
nos olhos salinos
do ocaso

quero sentir
a cada momento
o poema
que deriva

do sal das águas
que banham
a minha alma.

Tito Leite nasceu em Aurora-CE (1980). É poeta e monge beneditino, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de ensino de Filosofia. É autor dos livros de poemas Digitais do Caos (Selo Edith, 2016) e Aurora de Cedro (Editora 7letras, 2019). Participou das antologias Sob a pele da língua — breviário poético brasileiro (org. Floriano Martins, Arc Edições, 2019), Revista Gueto: edição impressa n.1 (org. Rodrigo Novaes de Almeida, Editora Patuá, 2019). É curador da revista gueto. Tem poemas publicados em revistas impressas e digitais.