cinco poemas de Luci Collin

alinho

É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece

é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia

voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.

Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.

É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho

e saborear
o estremecimento.

de se fazer

quando desenlouqueceu
amélia pôs-se a queimar a comida
a adoçar a sopa
a ter vaidades ruidosas

queria dançar mazurcas
quadrilha___tango___burlesca
o que fosse______o que desse

queria pintar-se___alçar-se
exercer-se

viu sua cara no espelho
deu sua cara a bater

banhou-se___perfumou-se
batizou-se

e tratou de aprumar
as asas que a vida lhe deu

aquilo sim é que era voo de verdade

peça

o homem
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes

a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada

a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher

o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras

aos pés da letra

não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto

não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago

não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho

pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto

declaração

que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema

não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta

sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade

sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci

Luci Collin, poeta e ficcionista curitibana, tem diversos livros publicados entre os quais A árvore todas (contos), Querer falar (poesia, finalista do Prêmio Oceanos 2015), Nossa Senhora D’Aqui (romance) e A Palavra Algo (Editora Iluminuras, 2016), premiado com a segunda colocação na 59ª Edição do Prêmio Jabuti, na categoria Poesia. Participou de antologias nacionais (como Geração 90 — os transgressores e 25 Mulheres que estão fazendo a literatura brasileira), e internacionais (nos EUA, Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Peru e México). Também já traduziu Gertrude Stein, E. E. Cummings, Gary Snyder, Eiléan Ní Chuilleanáin, entre outros. Leciona Literaturas de Língua Inglesa na UFPR.

quatro poemas de Artur Gomes

capa_patriaindigesta

ê fome negra incessante
febre voraz gigante
ê terra de tanta cruz

onde se deu primeira missa
índio rima com carniça
no pasto pros urubus

oh! myBrazyl
ainda em alto mar
Cabral quando te viu
foi logo gritando:
terra à vista!
e de bandeja te entregando
pra união democrática ruralista.

por aqui nem só beleza
nesses dias de paupéria
nação de tanta riqueza
país de tanta miséria

moenda

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço
e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam

:
o saldo e o lucro

olho de lince

onde engendro
a Sagarana

invento
a Sagaranagem

entre a vertigem
e a voragem

na palavra
de origem

entre a língua
e a miragem
São Bernardo e Diadema

mordendo: o vírus da linguagem
no olho de lince do poema

poética 93

Tenho nojo do Agro
Negócio que me dá asco
por tanta perversidade

quem planta veneno
é carrasco
assassino da humanidade

| do livro Pátria A(r)mada (Editora Desconcertos, 2019). |

Artur Gomes é poeta, ator, videomaker e produtor cultural. Tem diversos livros publicados, sendo os mais recentes Juras Secretas (Editora Penalux, 2018) e Pátria A(r)mada (Editora Desconcertos, 2019). Dirigiu a Oficina de Artes Cênicas do Instituto Federal Fluminense de em Campos dos Goytacazes-RJ de 1975 a 2002. Em 1983, criou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira e, em 1993, idealizou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira Mário de Andrade — 100 anos — realizada pelo SESC São Paulo. Atualmente, leciona Poéticas no Curso Livre de Teatro em Campos dos Goytacazes-RJ e coordena o Sarau dos Pretos e das Pretas na Casa Criativa Santa Paciência. Acaba de gravar no home studio Fil Buc — Produções o disco Poesia Para Desconcertos, com produção de seu filho Filipe Buchaul.

do que sei sobre antifascismo, poema de Priscilla Campos

(poema escrito no Recife, em setembro de 2018, dias antes do primeiro turno das eleições)

na minha terra dizem que fascista não ganha
porque a gente sabe com exatidão onde
dói o abismo são linhas de conhecimento
muito duras e tantos anos entra a água
e a seca absoluta nos ensinaram a valorizar
a força de um não diante da ameaça mais
perigosa e medonha possível

diante do horror um pé vai na água
e o outro no inferno a gente se sustenta
no balanço dos que conseguem pisar
ligeiro no mangue mesmo quando tudo
indica que afundar será a próxima cena
na sequência dos dias desta primavera

aqui também me contam que o desejo é tão forte
quanto a nossa imagem no espelho
um corpo para o qual o tempo passa depressa
e o outro onde ainda se encontram novas marcas
você me pergunta sobre as três feridas
e eu respondo não faço a menor ideia de onde
elas surgiram porque sinto que a minha memória
apaga
todas as formas de voltar para casa
todas as formas de arranhar com carinho

não importa se faz muito calor ao meio-dia
na rua do hospício
ou se você me diz que nós podemos ter
intervalos no tempo
da madrugada aberta

quando eu defendo meu corpo
também defendo o meu território
e aqui sem nenhum amparo sozinha
mesmo que você repita não durma
eu entendo por que a minha terra
sempre será a palavra de ordem
contra tantas forem as chances
de invasão.

Priscilla Campos nasceu no Recife. É jornalista, crítica literária, poeta e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana da USP. Publicou o ensaio Nenhum muro à altura do peito (Macondo, 2019) e a plaquete O gesto (Nosotros, Editorial, 2019, edição bilíngue).

seis haicais de Carlos Seabra

capa_seabraI.

caído, um corpo
acabado, um sonho
imóvel, um morto

II.

gente sem terra,
corrupção, desemprego:
mundo em guerra

III.

jornal aberto,
café, leite e sangue:
guerra de perto

IV.

dia de eleição
primeiro o seu voto
depois a traição

V.

deu no jornal:
economia vai bem
o povo vai mal

VI.

crianças mortas —
mundo que escreve mal
por linhas tortas

| do livro Haicais e que tais (Massao Ohno Editor, 2005). |

Uma versão digital do livro está disponível na Amazon [link].

Carlos Seabra é poeta e escritor de microcontos, criador de jogos de tabuleiro (como Zener e War II) e autor de livros infanto-juvenis. Diretor de Desenvolvimento da Zoom Education, editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, consultor e coordenador de projetos de tecnologia educacional. Trabalhou também na FTD Educação, na TV Cultura, no Senac São Paulo e na Escola do Futuro da USP. Entre outras atividades, foi vice-presidente da União Brasileira de Escritores de 2006 a 2008.

cinco poemas de Tatiana Pequeno

Os três primeiros poemas são inéditos. [N.E.]

abençoados

a primeira vez em que vi uma
mulher nua foi na rua uranos
próximo da casa de minha
amiga letícia cujo nome ela
repetia significava alegria
e a alegria nos anos oitenta
era mais importante que u
ma benção
o borracheiro ficava em
ramos do lado oposto da
linha do trem onde os homens
seguravam mangueiras livre
mente e a primeira mulher
que eu vi nua posava com
seios maiores mais claros
que os meus que sequer e
xistiam sob o sol refletido
no rio faria timbó e sobre o
espelho do meu quarto
mulher adulta cabelos lisos
roberta close diziam
até que um dos homens disse
toco uma todo dia para ela
e todos riram menos eu
que aos sete anos não entendia
a alegria das graxas sobre os
sexos malditos e não entendia o riso
atrapalhado e firme dos homens
mas sabia do enigma que aquela
jovem moça roberta close trazia
porque aquele sorriso litoral
distante naquele corpo de bruxa
era familiar como o meu
& nesta época
os subúrbios preferiam mais livres
a alegria
hoje eles dormem mais silentes
amortecidos pelas explosões
pelas igrejas e pelos saques
mas da roberta close eu guardo
a boca enigmática daquela alegria
que eu também perdi
por ser adulta agora nesta
hora que parece infinita e repleta
desta saudação cheia de infernos
para tantos
todos infelizmente abençoados

sobrenomes

você tinha falado na hipótese
de um ou outro golpe
vindo pelo lado direito e o peri
férico avisando que vinha chum
bo grosso morteiros quedas das
moedas assunto vigoroso para o
nosso cansaço mas
você sabe que sorrir é algo que a
gora parece estranho você sabe
que negar esta volta no tempo é
vexatório você sabe que ficamos
parados e as nossas mãos estão
secas feito o interior do nordeste
você não sabe o que é o interior
do nordeste você só tem essa pele
demaquilada você só sabe sorrir
passeando com sacolas dentro
desta cidade de vidro nome rio sul
você janta e sabe que se quiser
em breve poderá partir

para Cristiana

acordei na madrugada, amor, e havia tiros que circulavam atrás da nossa janela sombreando a mandala da colcha que resolvemos usar como cortina.
faz barulho lá fora e em breve você acorda no sentido santa cruz e eu permaneço aqui, atenta e ouvinte da fisiologia dos gatos
compreendendo a lógica feroz dos
nossos vizinhos e celebrando minhas pequenas vitórias de testemunha
viva do que todos os dias permanece
sendo a vida incompreensível.
já já amanhece, amor, e eu vou
vendo no tempo meu espelho
descobrindo um outro cabelo branco
ou um desgaste obstinado da pintura
perto da parede que há um ano era lisa.
os tiros não param.
não vou mais fazer aquela pergunta
sobre o tempo porque a adriana calcanhotto disse que não interessava
a visão política dos poetas então
eu fico aqui insone neste bairro da zona norte ouvindo rajadas das muitas vidas separadas do morro da outra rua eu penso nas crianças lá em cima no
morro dos macacos eu penso que
a minha profissão é uma utopia
eu penso que gostaria de dividir com você um mundo justo (eu prometi a mim mesma que escreveria este poema sem a palavra mundo ou tempo mas eu falhei, me desculpem os poetas que são expertises em tudo em que sou fraca, desculpem os críticos, as adrianas, amigos ou irmãos feéricos da poesia)
em que todo fim de mês não precisassem existir brigas em função das contas ou que sempre conseguíssemos decorar o que dizer ou fazer para o casal que nos pede dinheiro na entrada do supermercado
(o bebê está sempre com remelas)
enfim, amor, como poderíamos bem respirar
diante de tanta disparidade, como conseguimos comer peixe sabendo que há os tiros e as crianças e o casal
como eu posso dormir se a minha beleza fraqueja diante dessa inaptidão dos poetas?

uma vez eu te disse, amor, tuas mãos são saúde e as
minhas têm uma espécie de maldição
que é dedilhar o caos, saber o relevo e o tamanho da crosta das cascas que é olhar a mandala e só ver os tiros, amor, você e essa palavra que preciso repetir para não adoecer, amor, os tiros, as crianças, teu sono cansado, as fissuras, a tarde imensa da minha solidão, o som dos tiros invadindo a nossa cama , o passado a meu lado, minha memória
nem amanhece e o que há é a guarita do teu sono pesando firme o desejo de outra madrugada com menos tiros tão próximos de nós,
amor, outro tempo, outro mundo,
outra forma de traduzir a falência
que brilha na remela da criança,
vou repetir o vocativo que me
sugeriram retirar da poesia, amor
outro tempo, outro mundo
para nós.

carta para Mariana, depois dos protestos

penso sobre o seu silêncio e escuto agora
uma artilharia pesada de gás e de choques
como se aguardasse o impossível gesto
que você prometeu nunca me direcionar.
guardo a sua face pelo rosto lavado de sal
da última despedida e nada do que fomos nos
quartos onde sistematicamente nos despe
dimos repara os mais de mil quilômetros do
litoral que percorro há meses para chegar
no movimento central das reivindicações e
na marcha correta dos aflitos e dos protestos.
os dias têm sido tentativas ignorantes
de ver como é sagrada a depredação e os
ajustes, mais por você que por mim pois re-
tive da última internação outros monolitos
que não posso e não consigo devolver ou
simplesmente fazer deslizar rápido pelos
néfrons. porque é por meio deles que não
amo e não serei capaz de amar outros senão
vândalos e hereges — tu mesmo esquecida
acenando entre bandeiras e táxis a perda dos
empregos para os quais não se nasce ou sobre
vive. de ti, Mariana, apenas a réstia de imagem
depois da revista da guarda a caminho de uma
filiação médica (ou militar) em Madureira: algo
como uma página escondida sob mãos desfeitas
e desenlaçadas num inverno de muito medo
e combate.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2013.

| do livro Aceno, 2014. |

teoria de poesia

correndo vinha búfala
caminhada em punho
tronco pesado de gado
eu vinha bovina
correndo vinha rinoceronte
pisava forte como arma
até concreto de chão
coagulava e mexia
correndo vinha a galope
na sina de advertir espantalhos
marchando com vontade
a sutileza das vindas
correndo nasci mamute
tronco grande animal
médico para ensinar
subir e descer com leveza
nascendo cresci mamute
pronta para as famílias
no plural
e eis que se espantaram com as minhas entranhas
dei à luz um menino
— elefante extinguido
passado como fóssil
íntimo dos intestinos
mamute, rinoceronte
búfalo ancestral
quando morri
recebi de presente
a pisada de um mamute
fiquei esmagada
na humaneza
preferi ser mesmo animal
agora meu menino se foi
o pai danou-se pela selva
fiquei colecionando presas íntimas
sagradas antropológicas
correndo vigilante
totêmica búfala e tabu

| do livro Onde estão as bombas, 2019. |

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem três livros publicados: réplica das urtigas (2009), Aceno (2014) e Onde estão as bombas (2019). Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

três poemas de Clarissa Macedo

outlet

Os sonhos em promoção:
o mundo à venda
mas nada se realiza.
Só este vazio com desconto
preenche de gordura a mercadoria.

noturno n. 4

À noite,
No descanso das injustiças e das fraquezas,
Eles decretam no palácio a tua próxima fome.

Quando amanhece, o sol não nos fala
Nele, uma cortina de 100 dólares ponta de estoque

Em nós, o medo e o mito do silêncio.

Bronze o dia as aflições pelo trabalho e pelo sono

E quando enfim madruga e a jornada de tantas horas parece que chega ao fim
Eles dizem que haverá mais

Que haverá mais porque é preciso cansaço para os nossos olhos
É preciso sangue
Para que não se possa meditar

Para que sigamos
Máquina aos moinhos
A moer tudo aquilo que somos, tudo aquilo que não podemos ser.

electron global ltda.

a mídia é uma era
e em poucos minutos
estaremos mais surdas/os,
mais cegas/os das luzes
das telas e flashs
com moças de biquíni
a promessa do melhor sexo
da juventude eterna
o melhor ângulo
a melhor mentira da miséria
contada aos turistas

e em poucas horas
seremos mais mudas/os
congeladas/os pra sempre
no sonho do grande remédio
que salvará os tempos
que enganará a morte

tudo isto por apenas:
R$ milhões de vidas,90!
ou em todas as prestações
do seu cartão de crédito —
cifra que nunca paga
o delírio de ser consumo
de não ser você

ah…
se pudesse compraria o mundo
e faria uma grande selfie sideral
do que sobrou daquilo
do que um dia conhecemos
por terra, um éden machucado
ferido de grifes e passarelas
do que ninguém comeu, bebeu,
viajou, teve, fudeu, gozou, amou,
sentiu, viveu, morreu
do que ninguém é (mas quer)
e que nunca será

Clarissa Macedo (Salvador-BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e o livro Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; em 2ª edição pela Editora Penalux, 2017; e traduzido ao espanhol por Verónica Aranda, Editorial Polibea, 2017). Integrou, em 2018, o Circuito de Escritores pelo Arte da Palavra, promovido pelo SESC. Lançará este ano o livro O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (poesia). Site: [link] Contato: clarissamonforte@gmail.com

anunciação, poema inédito de Rafael Zacca

quando eu tinha 5 anos
minha mãe lia comigo
os livros de Ezequiel e Isaías,
e o Livro das Lamentações,
meu coração se enchia de graça
e eu tinha certeza:
eles me anunciavam

eu era Jesus quando tinha pena
dos animais ou quando olhava
por baixo das saias
de minhas tias, quando jogava
bola de gude ou me trancava
no quarto e gemia

eu era Jesus quando acertei
a cabeça do Rodolfo com um ralo
de ferro e também quando chorava
no banheiro eu era Jesus
e as minhas partes mais baixas
luziam

eu pedia pra minha mãe
ler o evangelho de Lucas

eu estava vidrado na minha vida
de menino, os milagres
não impressionavam
(verter água em vinho
não é nada se o seu pai
inventou as substâncias)

sei que é Jesus que abre as pernas
para lavá-las no chuveiro
cobertas de sangue, quando
emerjo do sexo, as mãos
também vermelhas
como quem escalpelou
um bicho.

Rafael Zacca (1987) vive no Méier. É poeta e crítico. Ministra oficinas de criação literária na Coart/UERJ. É professor de Teoria Literária na UFRJ. Foi co-articulador da Oficina Experimental de Poesia (2013-2018). Publicou Kraft (Cozinha Experimental), Mini Marx (Editora 7Letras), Mega Mao (Editora Caju) e A estreita artéria das coisas (Edições Garupa).