sete poemas de Michaela v. Schmaedel

destruição

Nada de novo no fogo
nada a declarar no amor.
Tudo fugiu muito rápido.
Só ficaram as palavras:
desejo
morte
sobrevivência.

aturdida

Para Bartolomeu Campos de Queirós

Aturdida é uma palavra da qual gosto muito.
Aturdida com a cidade.
Aturdida com as lojas.
Aturdida com os bares.
Aturdida com os carros.
Aturdida com as buzinas.
Aturdida com as crianças.
Aturdida com os amigos.
Aturdida com os irmãos.
Aturdida com os pais.
Aturdida com os desconhecidos.
aturdida eternamente.
Até a morte.
Amém, amém.

solo

“— Imagino que as canções de Bob Dylan
existam para nos fazer suportar dias
como este —” (Fabiano Calixto)

Esqueça aquela gaitinha,
concentre-se nas guitarras
distorcidas.
São dias difíceis,
my friend,
nem Bob Dylan dá conta.

lição (II)

Arrumar a gaveta como quem arruma o coração:
deixando sempre espaço para uma certa desordem.

estratégias para entrar e sair de crises

Entre na crise
saia da crise
entre na crise
saia da crise
entre na crise
saia para beber.

correio

Um postal cotidiano
para você que está
no país distante.

Um postal cotidiano
para contar das montanhas
do sol daqui
do azul absurdo.

Um postal cotidiano
para falar da saudade
num texto curto
não-sentimental.

pai (II)

“Não há mortos que morram tanto como os nossos”
(Gonçalo M. Tavares)

Não há dia em que não pense em ti.
Dias felizes,
dias tristes,
dias normais.
Minto.
Não há ainda dias felizes
nem dias normais.

Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, tem três filhos, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia. Atualmente, cursa o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e também escreve resenhas para jornais e revistas sobre o assunto. Seu primeiro livro de poesia, Coração cansado, está em fase de edição.

caderno das miragens, poema de Mar Becker

I

educar os olhos; cegá-los

aprender tudo pelo mar, que espelha o céu — que não tem fim

deus é a terceira margem
a partícula de sal, o grão de areia

os chineses colocavam pérolas nas bocas de seus mortos, para que fizessem boa travessia

no mesmo mar de eternamente, da pérola de eternamente, o barco não cessa de partir

há no méxico uma espécie de borboleta que tem asas transparentes; chama-se “greta oto”

tudo terá valido a pena se antes de morrer eu puder ver um segundo de mundo pela asa de uma borboleta

II

vento sobre vento: é o que diz o i ching, hexagrama 57

li em algum lugar que o i ching está entre os livros mais antigos da humanidade, tendo pelo menos três mil anos de existência

a libélula some do meu campo de vista

uma das hipóteses sobre a origem do nome “libélula” é de que ele viria do termo latino “liber”. também daí surgiu “livro”

vento sobre vento

na palavra, o silêncio: amar e morrer

o ideal de um livro é que seja escrito numa asa

III

o fim de uma estação

as janelas semiabertas, as casas. a chuva, que parou há pouco

o céu nascendo e morrendo tantas vezes à superfície de uma poça d’água, na calçada
os espelhos

a promessa de dias novos orientando aquele que atravessa uma cidade ou um deserto

os rostos, os rastros

as cinzas dos nossos mortos espargidas
o pó que se espalha no voo da mariposa

Mar Becker (Marceli Andresa Becker) nasceu em Passo Fundo (RS) e atualmente mora em São Paulo (SP). Tem formação em Filosofia (UPF) e Especialização em Epistemologia e Metafísica (UFFS). Ainda não publicou livro.

cinco poemas de Viviane Nogueira

não tenho corpo pra fazer carão
minha pele cansa meus ossos
moem de desanimo a cada psiu
e estalo o pescoço mal ajustado
na beira da cama
não vou nunca ser uma velha safa
da nunca ser uma velha
não vou segurar essas pernas
esse sexo esses seios de menina

não por muito tempo

* * *

estou o cúmulo do mau humor
zero cal
cansaço, meu bem
quando morre uma espera?
Pergunte___pergunte aos pássaros
_____aos aviões
pois não me beija pra ver___passar a paisagem
limpar o suor ardendo os olhos
o ponto final sem morte
quando morre uma espera mas
estou muito longe
de mim
estou muito longe e justo hoje
um dia lindo para um encontro
matar o tempo no chocolate
como cortar os cabelos sem saber
onde devo ir
queimo em febre, meu bem
atolo-me no que há de ser feito
as nossas pequenas tão sozinhas no interior
just don’t leave me não me leve de mim

* * *

eu gosto de como o acaso toma as rédeas às vezes eu gosto do acaso eu sento sozinha na cama e quero arrancar a página cinquenta e um do livro de faces grudadas de yasmin. não cai uma folha sequer. nenhum acidente me acontece. eu e você não estamos sentados na grama não encosto não alcanço a altura de tua testa. eu testo as lâmpadas eu testo as lâminas eu olho de canto de olho e não esbarro de novo contigo. não temo nada, mas o acaso não me persegue.

* * *

[match made in heaven]

eu vi o céu e as nuvens
fodendo

* * *

[after a match made in heaven]

se lembre do café
da manhã na padaria da beira
da praia
se lembre do café
da tarde na padaria da principal
avenida do bairro
se lembre do café
coado um a um no fundo do
copo americano
se lembre do café
repassado requentado
na cafeteira
eventualmente se esqueça
por quem
_____sua casa
estava sendo tomada

Viviane Nogueira tem 23 anos, paulistana crescida no interior. É poeta e graduanda em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco. Em 2018, participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), na Casa das Rosas. É autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, ilustrações de Steffano Lucchini). Em setembro lança seu primeiro livro, Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

doutrina da insegurança nacional, poema de Marcus Vinicius

sequestram
a memória dos vencidos
como se interrompe
o curso de
um rio
com uma barragem de mil
novecentos e setenta e quatro
removendo corpos
vivos
como se caçam
animais vivos
para a morte

intimam a defesa
dos que veem o voo
de um pássaro
com seus olhos de silêncio
comprimindo-se em ausência
fuga do alvo
:
este pássaro te ensinou a resistir?

armam rojões
bombas e balas
numa manhã de sombras
nefastas
como são todas as manhãs
que nascem em quartéis
escuras salas
leis em livros fechados
ou nas camas
onde o outro deixou
a lembrança da eterna noite passada
e o coração em disparo:
serei eu o próximo?

Marcus Vinicius nasceu em Juazeiro, no ano de 1988. Escreveu O cacto não cresceu (editora Moinhos, 2018) e Ontem estive cálido (editora Urutau, 2018). Tem trabalhos publicados em revistas e blogs de poesia e compartilha alguns de seus poemas no ig @poesiademarcus. Atualmente, mora na cidade de Recife.

um deus foragido olha do cimo da destruição, poema de Wanda Monteiro

Um círio infindo de punhos acesos
coturnos raivosos em marcha
um rebanho desembesta em fúria e a esmo
uma revoada de abutres sobre um campo
coalhado de ossos e vísceras
À margem esquerda
olhos atônitos nem sequer esboçam mínima reação
nem sequer vicejam a luta
e sucumbem à opressão
toda vociferação converte-se em murmúrio
imprecação e silêncio
No abrasar das horas
o tempo reflui num leito de açoites
No pouso do medo
toda réstia de luz coabita o breu
o medo cai como pedra no fundo de cada dia
e a desesperança cintila à boca de cada noite
O poder no cio
fecha as janelas de um passado
fincado em irremovível paisagem
— o poder tem os olhos de uma noite sem fim
A violência é a ordem do dia — o veneno
que entorpece e contagia
abre fendas radioativas onde corre a larva do ódio
Algo inominável deflagra a combustão das horas
interdita o tempo
o tempo partido
o país partido
a cidade partida
o humano partido ao meio
Toda gente se extingue para além das casas
e dos muros
a sobrevida pulsa em ilhas dentro de ilhas
Sob a mira do fuzil
a carne negra
a carne índia
a cor vermelha
A descrença é a ferida aberta
o cancro incurável
A segregação é a flor sanguínea de verbo coagulado
e toda esperança desfolha aos ventos
que chicoteiam brancas bandeiras
A intolerância forja a gangrena
seus raios de dor são o traçado
que revela a geometria do terror
No átrio espelhado de ocasos
a besta de esporas e chifres faz a festa
dança — gargalha
e vomita sobre a clareira côncava
que engole os cânones dos justos
Nesse reino escuro o frio arde
e queima ao estio do sol
vergam-se os girassóis
e gárgulas saem de seus buracos de sangue
para lamber as feridas da paz
Mulheres e homens que teimam
reinar em si a íntima liberdade de pensar
decretam o autoexílio
todas ilhadas
todos ilhados
ilhados e tristes
terrivelmente tristes
Um deus foragido olha do cimo da destruição
contempla o ataúde da fé
e chora sobre as ruínas do humano
em seus gestos finais de autofagia
a sobrehumana desordem de sentidos precede o golpe fatal:
a morte da liberdade.

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas, em Alenquer no Estado do Pará. Exerceu por vários anos o cargo de procuradora do Estado do Pará no Instituto de Terras do Pará/ITERPA. Participa ativamente em vários projetos de incentivo à leitura em várias regiões do país, tem centenas de textos poéticos publicados em importantes revistas literárias, impressa e digitais, como Mallarmargens, Revista Gueto, Acrobata, Diversos & Afins, Relevo, Lavoura, Zona da Palavra, Vício Velho, entre outras. Escreve ensaios e crônicas para várias revistas em defesa do Estado Democrático de Direito e é colaboradora da Revista Alfarrábios RJ. Obras publicadas: O beijo da chuva (Editora Amazônia, 2008), Anverso (Editora Amazônia, 2011), Duas mulheres entardecendo (em parceria com a escritora Maria Helena Latinni, Editora Tempo, 2015), Aquatempo (Editora Literacidade, 2016), A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019).

cinco poemas do livro ‘Fundamentos de ventilação e apneia’, de Alberto Bresciani

capa_apneiapânico

O pássaro sobre o galho,
hipnotizado pelo gato,
pela serpente, preso
como se houvesse visgo
sobre o ramo comum
Uma ave sem voo,
pronta ao voo,
os olhos esbugalhados
de medo do ofídio, do felino
que nunca existiram.

girafa

I
À jovem girafa foge o caminho
É cercada pelo bando de leões
Está presa entre acácias e garras

É visível o desespero, medo,
a antecipação da desgraça
em seus doces olhos negros

Logo, são muitos os ferimentos
Saltam sobre ela os predadores
treinados ao abate

A girafa exausta cai
Suas manchas inundam
de sangue a savana

II
Tinha cinco anos
quando assisti
a um atropelamento

São iguais as cenas
O velho sob o ônibus,
suas peras, laranjas,

os cabelos brancos do velho
e a pele da girafa, vermelhos,
mortos na savana-asfalto

III
A girafa morta e o atropelado,
agora silenciosos, em esquecimento,
revelam o destino de quase tudo

O destino
deste poema.

tropel

Os cavalos soltos no sangue, na garganta,
incontidos, o rebater dos cascos em seixos,
como dançarinos de flamenco, os cavalos
vêm de longe, de onde tudo se entrega
à extensão do que é extremo, suor,
e nunca se quebra, sim, os cavalos
correm do longe ao longe, lugar de corpos
reais, rudes e comestíveis ao gosto do desejo
Os cavalos sobem à boca, soltos, suas crinas
deixam rastros, mas chegam à boca e na boca
o passo emperra, os cavalos são então um som
apagado, oco, nenhum som, são pedra.

corvos

Não via os corvos,
mas eram corvos,
prendendo o tempo
E eu criava pombos

Quando você saiu,
as sombras
tinham penas negras
e ficaram pela casa,
pela garganta,
as suas penas

Ontem entendi
e acendi a luz.

desapego

I
O vagão desenfreado atravessa meia cidade,
mata pais e seus filhos, descemos os olhos
e nos voltamos à clarividência da postagem
desse último profeta em triste rede mundial

Claro, não seremos cegos, lamentaremos
um pouco, bem mais talvez do que insetos,
cruzando antenas por outros esmagados
em combate, e ainda assim continuam,
e ainda assim continuaremos,
porque nenhuma rota é segura,
e os livros, os ansiolíticos não salvam

II
A despeito das lanças, dos desastres naturais,
o duque de Mântua, sem filhos e parentes,
pagou o próprio resgate, livrou-se do dever
de salvar dinastia, gravar seu nome em pendões,
portões e vitrais: sentava-se leve, com seu pêssego,
seu sonho, à janela da estação
Era só o vento que contava, era o que comia.

| poemas do livro Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019), saiba mais no [link]. |

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011), de Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura — Poesia de 2015) e de Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa — Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, edition spéciale — Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

sete poemas do livro ‘Pés pequenos pra tanto corpo’, de Manuella Bezerra de Melo

A guerra reage ao nada com muitas coisas e
a piedade nos distrai pra que nos sintamos úteis
Inúteis, sobrevivemos da fome de morte
deitamo-nos fora de nós por exaustão
A guerra sacode nossos dejetos e nos renega
lápides; recorda o quão ninguém somos nem
fomos nem hemos de ser — controlados vivos
redesenhados úteis bélicos e sem querer servir servimos
auscultados pela indústria cardiogramáticamente
pulsamos jus às balas evocadas bombas explodidas
e ouro gerado dessa desgraça de sermos em carne
ou ossos o engenho vivo e morto da guerra

* * *

capa_pespequenos

Para José Gil

chegaram as marcas na cara e
correspondeu a mim meu retrato
nele desenhado os versos
do escudo de Aquiles
deixei de ser juventude
meu rosto não é território
é multidão

* * *

Dormem os cumes das montanhas de Álcman
e lá os macacos e saguins; dorme a esfinge
de Gizé as lembranças de paz as mulheres
deprimidas e exaustas seus filhos raquíticos
os homens bêbados de testa nas mesas das
tabernas e as prostitutas entorpecidas das
suas camas insalubres. Dormem os rios em
seu leito, a foz que não desagua, os abissais
nas profundezas, serpentes de todas espécimes
humanas dormem nas árvores que também cochilam
aproveitando o vendo da tarde; dormem como
crianças batedores de panela e dormem também
as crianças, porque essas devem mesmo dormir.
Dorme mais ainda a revolução e dormem todos
os outros à rivotril ou prozac; menos o poeta

* * *

Esta paixão é um jabuti de apartamento
corre quatro cômodos em quarenta dias
fecha o mês ocultado pela samambaia
com saldos de alfaces velhas às patas

* * *

Disseram quando nasci nem chorei
gritei como hiena e pequena
já a postos com escudo e armadura
a me proteger de você à minha frente
cá prostrada de peito pro alto
esqueci o formato das nuvens
ouço dos pássaros as ultimas histórias
débeis sobre dribles em gatos
fui percebida e quase desviei do coice
do céu faustoso mas não foi possível hoje
demente segui com as marcas da pata
celeste na caixa torácica duas ferraduras
do lado esquerdo do peito

* * *

Despertar-te nu horizonte rigidez
pulso vibrante cilindro rosado
sangue nas passagens sementes
explosivas na extremidade, sementes
são seres humanos perigosos
não se sabe o que esperar delas

* * *

Meti a poeta na jaula
como macaca brava de circo
rosnava assustadoramente
faminta e incontornável
poetas devem ser sublimes
não feias, vulgares, mondrongas
poeta é tênue, intocável
não disforme, buguio, cacajao
Vez por outra escapava
pra me encher de culpa pelo poema
que não paga as contas do mercado
a comunista me viu acabrunhada
Reclamou:
— Você é poeta. O demônio tem medo
da poesia!
Taí a função da poeta primata

| saiba mais sobre o livro no site da Editora Urutau [link]. |

Manuella Bezerra de Melo, jornalista nascida em Pernambuco, foi repórter e especializou-se em Literatura Brasileira e Interculturalidade. É poeta, cronista de rede social e autora infanto-juvenil. Quando viveu nas Serras de Córdoba, na Argentina, publicou sua primeira obra, Desanônima (Autografia, 2017). Já em Portugal, publicou Existem Sonhos na Rua Amarela (Multifoco, 2018) e Pés pequenos pra tanto corpo (Urutau, 2019) e participou da antologia Pedaladas Poéticas (Aquarela Brasileira, 2017). Mora em Guimarães e dedica-se a um mestrado em Teoria da Literatura na Uminho.