quatro poemas de Jussara Santos

Há muitos desastres desenhados sobre a cama
dois corpos nem sempre se traduzem em leves movimentos
algumas tatuagens registram o peso de certa mão
nós no lençol e não é o som do acordeão que te acorda.
A fronha afronta e salva sua dignidade.

* * *

O deserto
repousa em minha boca
verto a aspereza
de suas tempestades de areia
nós: sinônimo de abismo.

* * *

Quem se interessa pelo indigente
quem procura saber seu nome
a ele cabe a cova rasa
o tecido roxo para cobrir seu corpo
não lhe cabem mausoléus
nem a linha divisória
entre nascimento e morte
às vezes,
o que mais quero é ser indigente.

* * *

O que me resta
além da vermelhidão
do abismo
já que os muitos pássaros
que me habitam
se orgulham das asas
que não têm.

Jussara Santos é professora , escritora, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. Formada em Letras pela UFMG. Mestre e Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC-Minas. Pesquisadora da produção literária afrodescendente. Idealizadora do Projeto LATEMA (Lata poema). Publicou: De flores artificiais (Contos, 2002), Com afago e margaridas (Contos, 2006, Quarto Setor Editorial), Minas em mim (poesia, Prêmio BDMG Cultural), Crespim (Infanto-juvenil, 2013, Impressões de Minas), De Minas (Poesia, 2015, Impressões de Minas) e Samba de Santos (Poesia, 2015, Impressões de Minas) Indira (novela infanto-juvenil, 2019, selo autoral Azeviche).

três poemas de Geraldo Lavigne de Lemos

essa imagem refletida

a verdade reflete
na superfície áquea,
visão que se mostra
raramente nítida.

atravessada por seres
sob as ondas dos pingos
e cousas caídas na água cortada
e deslocada por barcos e correntes.

a verdade não repousa no fundo das águas límpidas,
tampouco paira suspensa nas túrbidas.

tão frágil que a aura deforma,
tão tímida que a folha encobre,
tão irresoluta que a névoa eclipsa.

a verdade,
essa imagem refletida,
até sermos líquidos noutra vida.

pesadelo em abril de 2020

era noite
o frio invadia os lares
e retorcia o sossego

vozes tomavam os cômodos

era noite
corpos eram entregues
como oferenda

pessoas se chocavam

era noite
a morte arrastava multidões
fora de época

pessoas se atiravam

era noite

era noite aqui
e ninguém mais dormia

o dia da mentira

no dia 1º de abril de 1964 contaram uma mentira
que durou 20 anos e 11 meses

ainda vivemos o rescaldo dessa tragédia
e já ventilam outras petas

como a de uma revolução que nunca revolucionou
(mas que causou 434 mortes e desaparecimentos
reconhecidos pela comissão nacional da verdade,
afora os relatos de pelo menos 1.918 prisioneiros políticos
torturados por 283 formas diferentes descritas
e estimativas que ultrapassam 20.000 pessoas)

a mentira tem perna curta (como teve a de 64)
e vida longa (como a de 64)

não quero. com n
de não. que os ratos continuem nos porões,
os choques nos quartéis, as pimentinhas nos molhos, os
dragões nas lendas, as geladeiras nas cozinhas e
os afogamentos nos acidentes, não em nossos corpos e
cabeças.

chega de história mal contada.

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus-BA), Fuxico (Feira de Santana-BA) e A Gazeta (Vitória-ES) e no blogue LiteraturaBR.

seis poemas de Diana Pilatti

diário de uma palavra antiga

I
o poema já estava vivo
antes do primeiro bípede sobre a terra
o poema já era tempestade
_______________dente-de-leão
_______________líquido entre as guelras

o poema era o instante-navalha
perfurando silêncio
pouco antes do sol
descobrir-se horizonte

II
são relíquias do tempo
essas palavras que a memória silenciou

numa pedra qualquer
um nome
sobre a rocha vulcânica
meu corpo

e a poesia que se de.compõe
pregressa à rudeza do mundo
é a mesma poesia flórea
entre os dedos da minha ruína

a casa

desprende-se
da parede mofada
a palavra-tempo

silenciosa
observa a poeira em nado lento
entre os filetes de luz
preguiçosos a entrar nos vãos da sala

cheia de histórias não contadas
cada cômodo dilata-se
submerso em ausências

“Houve muito amor nessa casa.”
sussurra contemplativo algum fantasma
estático
entre um espelho quebrado e um porta-retrato

mas à Palavra pouco importa o passado

evidências

sob os pés da noite
a eternidade
e as horas sem sabor na boca —
pedras de gelo e tempo

a cidade calada
fecha seus olhos para os seres noturnos
igualmente mudos
na esquina
sob a marquise
atrás do muro
multidão
anônimos
na lentidão
homônima

e a fome devora o verbo nos olhos catatônicos

paradoxo

o verão desliza morno entre os lençóis no varal

um frescor de mãe quebra o mormaço das horas a morrer no vão da tarde

a beleza hipnótica desse movimento — caleidoscópio perfumado

há realmente um lapso no tempo
entre o viés rosado do tecido que chicoteia
e o refrão de Chico que a mãe assovia

eu-menina
estática
em queda livre
neste paradoxo de verão

saliva

a palavra dilui-se entre os versos
seiva
visgo
primeira chuva

na boca
o verso nunca dito espreita
entre as presas
desliza e escapa
pela ponta da língua

eu
na agonia das horas
desfaleço
descompasso

ela
a palavra-outra
na minha ausência
me sonha

palavra invisível

anônima
uma palavra vagueia pelas ruas
cheira suor e urina

bastarda
uma palavra se esconde nos becos da noite
treme a cada estampido

estática
com a mão estendida
uma palavra invisível
me encara
acelerar o carro e virar a esquina

Diana Pilatti é professora e poeta. Nasceu em Foz do Iguaçu-PR, mas mora em Campo Grande-MS desde os três anos de idade. Formada em Letras pela UCDB e Mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS. Autora dos livros Palavras avulsas (2019) e Palavras póstumas (2020) e coorganizadora da Mostra Poetrix (2020). Divulga poesia em seu blog pessoal e nas redes sociais @dianapilatti.

cinco poemas para Georgia O’Keeffe, de Guilherme Dearo

I

as flores são pequenas ninguém
tem tempo de vê-las os nova-iorquinos
atarefados correm com suas agendas
não podem parar para agachar e
observar uma pequena flor que
porventura esclareça seu tedioso
caminho isso dizia georgia o’keeffe:
por isso pinto flores para que parem
de ter ideias sobre flores e possam
de fato olhar para as flores pinto-as
imensas para demorarem mais tempo
e meterem o rosto lá no fundo os lábios
roçarem os estigmas mordiscarem
os receptáculos feito abelhas gigantes
de óculos e cigarros e lambuzados
fossem a realidade-flor de cheiro-flor
não o homem que inventou a palavra-flor.

II

às vezes não bastam boas intenções e
o tino para o cheiro das tintas quando
se quer pintar flores flores banais com
formas e cores porque os críticos podem
enxergar outras coisas georgia o’keeffe
por exemplo chorou diante do primeiro
crítico que via vulvas não flores eram vulvas
e vaginas não flores como lírios rosas ou
magnólias mas não tem nada de sexual
meu senhor são flores não vulvas se projeta
vulvas em sua cabeça que se entenda com
a harmonia das formas comuns vá ao divã
deite-se com sua mulher que se abandone
com a matemática da natureza e seus uivos
noturnos.

III

arrancam as flores porque no
campo de flores há milhares
e se estão presas ao vaso
matam-nas de sede porque
são flores preferem palavras
e convicções os olhos tremem
e seus narizes não funcionam mais
mas sentam à mesa ao nosso lado
oferecem-nos a palma da mão
e requerem bons arranjos centrais
às empregadas então é urgente
pintar a flor imaculada ser a
prova de que há
curvas e
cores: lá fora elas dançam e resistem.

IV

não há flores na virginia como em
chicago assim como no metrô
de chicago faltam as lapelas floridas
dos cafés úmidos da virginia.

assim ela em roupas modernas vai
à rua atrás de um buquê colorido
e vasto como virginia woolf mandou
fazer mrs. dalloway por algumas horas.

e aos estudantes manda que pintem
um quadro por dia pela prática e pelos
vastos suplementos disponíveis:
há tantas flores quanto quadros.

portanto não faltam temas e se
as pinceladas não são perfeitas
não é questão porque perfeitas
também as flores não são.

além disso os expressionistas
abstratos descobriram a masturbação
e se anunciam nodosos na esquina
dispostos a destruir os vasos de angústia.

V

no novo méxico não há o novo
ou o méxico mas estou só e ouço
o deserto e o sol e pinto
estou só e não há críticos não há
homens e pinto
poucas são as flores não há
flores mas há cores e pinto
e o cheiro bem reto alisa a planície
há belzebus caídos e galhadas
há a lua e a escada
e pinto
não há alfred
mas há o nariz e minhas mãos
que são as mesmas
mas decaem e trabalham mas
há silêncio e pinto.
agnes martin talvez me entenda
entenda como tudo é liso
taos albuquerque e sim
manhattan, chicago,
embora não admitam mas
respiro e é reto.

Guilherme Dearo (São Paulo, 1989), é poeta e dramaturgo. Escreveu os livros de poemas Cabeça de touro (Editora Garupa, 2019), contemplado com edital da Secretaria de Cultura de São Paulo, e Duas hipóteses para um acontecimento (Editora Giostri, 2014). Publicou poemas em revistas como 7Faces, Gueto e Ruído Manifesto. Escreveu as peças O mar além (Festival Satyrianas 2013), Câmara escura (Festival Satyrianas 2014 e Janela de Dramaturgia de Belo Horizonte 2016), Obscenos gestos avulsos (Festival Satyrianas 2015) e Terminal Princesa Isabel (Festival Satyrianas 2020). Atualmente, estuda Letras na FFLCH-USP como segunda graduação e pesquisa arte e fotografia.

fragmentos do poema dramático ‘O passo do macaco’, de Sérgio Medeiros

O passo do macaco (Cultura e Barbárie Editora, 2021)

capa_medeirosSe o mundo se esmigalhasse, só sobrariam pedacinhos. Só isso, não é mesmo? Digamos que uns poucos artistas possam ter testemunhado a cena (enquanto ascendiam um a um do mundo, o qual não existe mais). Depois, decidiram, aqui chegando, escrever (para nosso deleite?) o que viram ou vislumbraram então. E onde escreveriam, se não houvesse mais papéis? Ora, nas paredes desta galeria de arte esvaziada de obras, aonde vieram se abrigar os referidos espíritos artísticos. Depois, cada espírito leria em voz alta e eventualmente corrigiria diante de nós (se fosse o caso) a sua visão do que sucedera na Terra. Se o mundo se esmigalhasse, mas esta sala fosse preservada, a arte poética poderia nos mostrar algo crucial: que o mundo antigo foi substituído pelo mundo da arte atual, abrigado nesta casa empoeirada. Na beira de uma das migalhas do mundo, numa migalha flutuando a esmo no cosmos, iríamos a uma galeria para testemunhar a arte refazer o que foi fulminado quando o mundo se esmigalhou. Talvez a galeria, qual uma estação espacial, paire agora quase sem trepidações sobre os destroços do mundo. Talvez esta sala, esta galeria de arte, este ateliê contemporâneo, onde certas sombras estão reunidas, seja o único décor a que se pode aspirar agora…

* * *

Mas talvez esses hieróglifos queiram dizer que / quando o mundo estremeceu / o calor subiu / uma moto passou com rapidez pilotada pelo senhor que usava apenas um calção frouxo / o qual expunha a impoluta brancura das suas coxas e das suas costas curvas // uma mulher rechonchuda vestindo um casaco marrom fechado até o pescoço e uma calça bege apertada também avançou / bem vagarosa / pilotando uma moto menor /// com as pernas no ar bem esticadas para a frente / um homem de preto usando uma máscara também preta / sobressaía numa moto mais ampla e mais baixa do que as outras duas / e deslizava no asfalto escaldante como se estivesse num trenó na neve.

* * *

— o totem esganiçado da madrugada me pediu que eu aceitasse a minha nova identidade (a de recém-chegado a terras estrangeiras) a fim de poder seguir em frente com as minhas próprias pernas //
— da perspectiva totêmica o risco que eu corria era ficar hesitando entre o passo bem dado e o passo mal dado sem me deslocar verdadeiramente pela Cidade Luz //
— como se eu ainda andasse em círculos no meu cubículo na Cidade Morena //
— então o totem me chamou e me fez andar.
O
Totem
Me
Chamou
E
Me
Ensinou
O
Passo do macaco… e depois…
* * *
E depois…

Sérgio Medeiros nasceu em Bela Vista-MS e vive atualmente em Florianópolis-SC, onde leciona literatura na Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC. É poeta, contista, dramaturgo, ensaísta e tradutor. Publicou, entre outros livros de poesia, A idolatria poética ou a febre de imagens (Prêmio Biblioteca Nacional 2017) e Trio pagão. Traduziu, com Gordon Brotherston, o poema maia PopolVuh e a crônica histórica A retirada da Laguna, do Visconde de Taunay, escrita originalmente em francês. Publicou, entre outros ensaios, A formiga-leão e outros animais na Guerra do Paraguai. Como dramaturgo, reuniu três obras satíricas no volume As emas do general Stroessner e outras peças. Colabora no jornal O Estado de S. Paulo.

uma viagem, poema inédito de Yuri Pires

E se não ir for
não querer voltar
a um estado já
não natural do ser?

E se ficar for já
estar onde não
se pode ver
que ir é voltar já
a um estado
de querer não ser?

E se ficar não for
não ir e sim voltar?

E se cada viagem
for só uma imagem
dum outro querer?

E se voltar
não tiver a ver
com ser ou não ser?

E se a vida for
ser e não ser?

Yuri Pires é recifense, professor de Literatura e escritor. Autor dos livros Artifício (Intermeios, 2016) e A Pedra (Lote 42, 2017), entre outros.

três poemas de Jussara Resende

quase um andor

os segundos são aves disfarçadas
por vezes leves e ágeis
noutras
trazem consigo toda uma eternidade

há humanos que controlam o tempo
e suas ansiedades
nunca me dei para essas contagens
muito embora parte de mim
seja ânsia de um porvir
que nem sempre chegou
chega ou chegará

o meu passar do tempo
segue envolto em mistério
tem de tal sorte vida própria
que me curvo humilde
diante dele

assim tenho sido
por ele surpreendida
ao longo da estrada
como agora
em que me dou conta
de que cada semana dos últimos três meses
revela-se a mim como um ano inteiro
anos desapercebidos

da fronteira que atravessei
no carnaval
sentindo a juventude
com que a montanha sempre me enfeita
acordo
passado o corpus christi
uma senhora ancorada
numa espécie de padiola
sozinha e sem ornamentos
restam memórias
alguns lamentos
e a certeza de que
a contagem dos anos deva ser
daqui para frente invertida

alguma verdade há de vir
deste tormento
e se verdades não há
luzes iluminarão
o que sempre fiz questão de ver brilhar
até mesmo na escuridão

enquanto isso
refaço questionamentos:
quantos anos ainda tenho?
o que deixei de fazer
que ainda acredito deva ser feito?
com quantos afetos se prepara e tempera?
amargos adocicados pelo olhar

se para ver
não mais dispenso os óculos
para sentir
basta-me viva.

no tempo dos homens

amanheceu a segunda-feira
no tempo dos homens
no meu calendário…
meu calendário está perdido
na gaveta das lembranças
experiências que me compõem

mas meu relógio soa ligeiro
de hora em hora
a me gritar pelo espelho

às vezes, faço-me de tonta
e ignoro solene
isso que chamam
de passar do tempo

melhor era passar anel
como fazíamos
quando crianças
inocentes dos muitos mundos
que há no mundo
e o maior mistério
era a descoberta
da mão certa
hoje procuro as mãos
talvez não as certas
mas as afetuosas
que me apoiem
e nas quais
eu possa me apoiar
não será preciso
que me conduzam
os caminhos saberão
por onde nos levar

mas careço do sorriso
do olhar amigo
de abraços que acolhem
e aplacam as angústias:
angústias divididas
que nos tornam iguais
na dor e na busca
por uma razão para tudo isto
a que chamam vida.

tempo

há muito tenho notado
a presença de um artista
tatuando em meu corpo
silencioso
trabalha linha a linha
formando teias
verdadeiros bordados
que uns chamam de estrias

prefiro tratar por linhas
ou traços
dos quais retiro versos
entoando rimas
que brotam como um sopro
em olhos de células
nada inflamadas: espertas
vestem-se de tecido vivo
e aparecem para a festa

neste corpo feito ao leite
transformado pelo vento
em cacau setenta por cento
os dias das vergonhas
passam longe
ruga, estria, celulite
sim, eu as tenho, todas
obra de arte
do tempo artista
que me presenteia
quase todos os dias
também com pintas lindas
pretinhas e branquinhas
nos braços, no peito
e nas canelas

altas horas
quando todos dormem
elas dançam
comigo
o balé da vida.

Jussara Resende é brasiliense, graduada em Comunicação Social e Direito. Faz da escrita sua morada pessoal e profissional. Seus poemas, contos e crônicas transitam por temas que vão desde as relações afetivas à filosofia do cotidiano, marcados pela realidade e pela composição urbanística de Brasília. A poeta divulga seus textos nas redes sociais, contando com algumas publicações em revistas eletrônicas.

quatro poemas de Regina Azevedo

pitangas

olha
cansei de chorar
as pitangas
da tua ausência
o cão que abanava o rabo
virou gata no cio
que saudade tenho
do teu corpo
sobre o meu
coladosuado
cruzaria o continente
só pra ter o gostinho
de sentar de novo na tua cara

maria

meu nome é maria
terra vermelha
banho, prece
vela sempre acesa

o coração pesa
na hora de voltar
pra casa
mas ela me disse
pra pisar firme

ela sabe
que tudo passa
no balanço da maraca

e eu sou mesmo
muitas mulheres,
um país

cavernas curadas
com água e palavra

na veia
é mãe luiza, ceará mirim,
riacho da palha e potengi

sei o caminho
porque elas mostram a mim

resiste

gostava de se olhar
como se carregasse uma bomba
debaixo do braço gostava de se olhar
e imaginar a palavra sovaco sendo lida
na academia gostava de se olhar
como se seus olhos revelassem
o paradeiro de deus gostava
de se olhar como se pudesse falar
e ser ouvida além de ser olhada
gostava de se olhar e pensar
em uma coisa dentro de outra coisa
uma música dentro de um vidro ou
ele dentro dela vidrado
gostava de se olhar
como se fosse a linha de frente
gostava de se olhar
e imaginar que a palavra
era um superpoder gostava de se olhar
como se seu cabelo fosse
uma lamparina gostava de se olhar
e imaginar a terra
tomada de volta de assalto
gostava de se olhar
e se imaginar rocha,
pele, pólvora
piolho é um bicho que existe
mesmo que ninguém se importe
mesmo que ninguém acredite
gostava de se olhar e se imaginar
vulcão
melhor: mulher
bicho que aprende a andar
e a derrubar

com licença, vandal

eu te amo e eu não vou falar
de novo eu te amo
e amo desde o caos, os pulos
desde os teus poros, teus polos
teus beijos-polga
as explosões
as coisas químicas
os mil minerais
que tu acha no meu rosto
a reencarnação de basquiat
e as dúvidas sobre deus
o calção preto, as camisas sujas
os pelos
as descobertas
as cobertas
do escuro
as coisas escondidas
em plena luz do dia
teus medos,
tua coragem de ser
teus jeitos de dizer
de novo
o teu barulho
teus gritos no pé douvido
as pinturas e as músicas
ainda na cabeça
os cochichos, os sustos
tua mão molhada
e o meu peito pronto
tua cabeça e o meu ombro
teu cabelo e meu cabelo
crescendo juntos
teu jeito de chegar
como quem finalmente chega
teu jeito de ir
como quem precisa voltar
eu te amo e eu não vou falar
de novo

Regina Azevedo nasceu em Natal-RN, em janeiro de 2000, e é poeta, técnica em Multimídia pelo IFRN e graduanda em Letras — Língua Portuguesa na UFRN. Publicou os livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso, Pirueta e Vermelho fogo. Seus livros podem sem adquiridos no site da própria autora [link].

três poemas de Thiago Alexandre Tonussi

a-mar/é

não desejo que saiba quem eu fui
nem meu nome espero que pronuncie

que celebre o dia do meu aniversário
ou relembre o dia de minha morte,

mas que seja o seu nós o seu amar
e o seu dizer amo seu afirmar somos.

de resto eu vim para ser um pingo;
ainda que não pareça, acredito:

um dia o rio do amor se tornará mar
do amar… neste dia eu estarei lá

na beira da praia, como poeta, só
só esperando pela maré alta.

crepúsculo

É hora, voltemos.

O tempo não se cansa
e o mudar de tudo é nossa mudança.
A terra na Terra é sangrada por bandeiras.

É hora, partamos.

Sem pedir desculpa ou licença;
não olhemos suas festas e guerras.
Sigamos nossa tristeza.

É hora!

Deixemos a sós os homens com sua efêmera beleza.
Não olhemos para trás. Para nós é finito.
Lembremos de quem somos, olhando para o infinito.

carne brasileira

Sangue de veias abertas sem mãos que o acolham colore
o negro corpo finalmente em repouso. Osso transparecendo
e roto é alvo de fotos e nenhum soluço. É todo ele só forma
escura rabiscada sobre o quente do asfalto que velozmente
será limpado: passam carros e carros e carros e mais carros
e outros carros e caminhões apagando qualquer passado
manchado e qualquer sangue jorrado daquele traço inexistente
enquanto sendo traçado. Quadro inacabado ao fim do retrato
não identificado. Não há rosto para a boca sem dentes desse
que já foi criança, para muitos, pivete; e hoje não é lembrança,
para muitos, bem feito.

Thiago Alexandre Tonussi nasceu em Uberlândia-MG, cresceu em Piracicaba-SP e vive em Londres, na Inglaterra. Formado em Línguas Modernas (Português & Espanhol) e com um mestrado em Literatura Comparativa, ambos pela universidade Birkbeck College de Londres. Tradutor de poesia contemporânea de língua portuguesa e inglesa, é criador e organizador, junto dxs poetas Nuno Rau e Amanda Vital, da mallarsérie “To Be Tupi” na revista Mallarmargens. Mundo na boca é o seu primeiro livro de poemas. Vive com Juliana C. Mazzero Tonussi e Bella, suas melhores amigas, grandes amantes e únicas namoradas.

quatro poemas de Davi Koteck

não apenas mastigar
salivas queimadas e o gosto
de fórmica no canto da língua
você dirigindo na contramão
com os faróis apagados
é noite e
enfrentamos fantasmas feitos de areia
há muito pela frente
tudo que me for possível, ou menos

* * *

antes de partir me conta
sobre teorias absurdas
a psicanálise selvagem
lê os poemas da tua vida
e se não souber dizer
escreve um agora
conta sobre a tua infância
um barco pequeno e branco
o guaíba pintado de blues
os amores descascados
mapeia tuas cicatrizes
mais de mil vezes
até que eu possa contar tudo de novo pra ti

* * *

viajo porque preciso volto porque te amo

sentamos no chão do aeroporto
imaginando destinos prováveis para
o resto dos passageiros
você com a mala pequena
uma caixa de sapato enterrada
com segredos embaixo da terra
quem irá abrir um clube de jazz
na periferia de Paris
quem visitará um filho perdido
no dia dos pais
o título daquele filme que assisti
num dia cansado
se você for mesmo olha para trás
repetiremos outra cena comum

* * *

e se acordasse dizendo
que não sinto mais tua falta
e se só sentisse saudade agora
do teu gato amarelo e gordo
ou da maneira que você se concentra
em frente ao computador
mas não de você
de gritar mazel tov quando a louça quebrar
ainda que agora eu só use copos descartáveis
e mesmo que agora eu só beba água da torneira
hoje é o terceiro dia que acordo sem sede

Davi Koteck nasceu em Porto Alegre (RS) em 1995. Publicou o livro O que acontece no escuro (Editora Taverna), e participou da antologia Qualquer Ontem (Editora Bestiário). Tem contos e poemas publicados na São Paulo Review, Ruído Manifesto, Etudes Lusophones (França), Revista Travessa em Três Tempos, Mallarmargens, e outros. Edita a Revista Rusga. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel (Editora 7letras, 2020) é sua estreia na poesia.