kalunga, auê, poema de Neide Almeida

Em nossos mares
ainda são muitos os navios malditos
imensos, sufocantes porões
odor de maresia e sangue
ainda inundam as memórias de nossa gente.
Essas águas não nos embalam
arrancam a vida de nossas entranhas
devoram nossos filhos
enlouquecem as mães de nossas crianças.

O fundo dos oceanos
está coberto de disformes pedras de sal
tíbias, mãos, crânios
fósseis curados por lágrimas,
vertidas das vísceras de nossos ancestres
que desde sempre permanecem
invocando as mãos de Xangô.
Encosta o ouvido na concha,
escuta o grito!

A areia das nossas praias
está repleta de banzo
corpos de nossa gente
estirados sob o sol
continuam sendo devorados.
Bandos de aves de rapina
roubam dos nossos
o pulso, as vértebras, o vigor.
Sente na pele o eco dessas dores!

As ondas dos mares que somos
estão sempre tão cheias
prenhes, reverberam indignação.
Arregalamos os olhos e nos lançamos nas águas mais turbulentas
nossas meninas, os meninos nossos
sendo surrados nos recifes
jogados em alto mar como redes de pesca
arrastados, esvaziados
extenuados,
ainda assim nos cabe
converter essas águas
Kalunga, auê
Kalunga, auê
kalunga, auê

Neide Almeida é escritora, poeta, produtora cultural pela Fio.de.Contas Produções.

cinco poemas de Carlos Barbosa

queda

ainda caminho de lado,
com as mãos na parede
para não cair,
como fazia na primeira infância,
já corroída na memória

caminho de lado
para não cair
definitivamente em mim

a porta no chão

a John Irving

há duas portas em meus olhos,
do tipo corta-fogo
há uma dura mão-de-pilão
em meu coração

minhas mãos,
toda manhã,
colhem o orvalho que cobre meu peito

há sempre uma porta no chão,
meu eterno tropeço

o menino e eu

tenho dor, obrigações e conta bancária

o menino tem fantasia
e histórias pra contar

por isso me consumo em fortalecê-lo:
quando eu partir, ele prosseguirá

o poste de ferro

o poste de ferro cantava,
quando nele a gente batia,
toda vez que passava
no caminho da escola

o poste de ferro era
um violão sem cordas

meio-dia,
o poste ainda cantava
uma canção aflita,
de órfão desnudo,
no areão fincado

desligado do mundo,
o poste de ferro aguardava pelo toque,
todo dia,
para lembrar o tempo
em que bem servia ao telégrafo

o tempo em que vingava
seu bom ferro,
em que não cantava aflito,
cravado no areão,
mas sustentava, sim,
o doce milagre
de sinais e vozes viajantes
e bandos de andorinhas
num sempiterno verão

borboletas baianas

tomo conhecimento das borboletas baianas,
não das que vejo nos jardins,
mas daquelas que voejam em casamentos

nossas borboletas fazem sucesso
em casórios Brasil afora
viajam de avião,
em caixinhas com furos para ventilação

as borboletas são exigência de noivos românticos:
querem com elas embelezar
suas histórias de amor

mas são caras nossas borboletas,
muito caras
precisam ser contadas
para o devido pagamento
e para tanto,
colocam as caixas por um tempinho em geladeiras:
é que assim as borboletas desmaiam
e é possível então fazer a contagem

por fim, as caixas são levadas ao pé do altar
e lá aguardam pelo grande momento,
as sobreviventes

após o beijo do novo casal,
as borboletas são soltas
mas estão fragilizadas, tontas, combalidas

então o pessoal dá o último toque ao show:
batem nas caixas para espantar as borboletas
que se projetam no ar
em arquejo final de vida,
para morrer em seguida em pleno voo

ou onde quer que pousem,
depois de obterem o aplauso da plateia
e ares de extremo contentamento
dos nubentes,
aquele batalhão de borboletas baianas

borboletas que viajaram de avião
e desmaiaram no gelo
em suas curtas vidas de tortura e horror
para beleza e glória do amor

| poemas que integram Inventário da triste figura, livro inédito. |

Carlos Barbosa nasceu no sertão do São Francisco, interior da Bahia (1958), e vive hoje em Salvador. Graduado em Jornalismo e Direito, tem romances, livros de contos, de minicontos e de poemas publicados desde 1998. Tem participado de antologias e coletâneas de contos. Mantém um blog, Minicontos, no qual publica textos inéditos e comentários sobre livros cuja leitura recomenda. Segue em dúvidas e dívidas, longe de divididas, em cultivo de amizades.

quatro poemas de Natasha Tinet

mice follies

nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.

* * *

você, outra
ou
Daniele Cristyne

você, outra
porcelana fria que se quebra
ao vento, trevo de três folhas
nascida indesejada
raiz frouxa sobre a terra.

Você, outra
encharpe dada por mamãe
delicada trama de rayon
tecida ppor máquinas nostálgicas
da era das orquestras no cinema mudo.

você, outra
que se entende pedra
compreende o adeus das folhas
que não morreram, mas vão indo
fazendo cócegas nas rótulas pontudas das poetas.

* * *

Não tem geometria que explique
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.

* * *

Evelyn McHale não podia se casar
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.

| todos os poemas foram extraídos do Veludo Violento, com exceção de “Você, outra” que é inédito. |

Natasha Tinet (1988) é escritora e ilustradora. Nasceu em Palmeira dos Índios, Alagoas e reside em Curitiba desde 2014. É integrante da grupa de escrita Membrana e coedita a Totem & Pagu firma de poesia com a poeta Julia Raiz. Veludo Violento é seu livro de estreia e conquistou o 2º lugar no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional 2019 na categoria Poesia.

a fera, primeira parte, poema de Prisca Agustoni

Caronte é uma esfinge
e é também camaleão,
já andou na estrada
de ferro e canhão,

cruzou o continente
de leste a oeste
nas trilhas de escombros
e sapatos solitários

expulsou a máquina
do mundo pra fora
do caule da existência
mais dilacerada

descalço avança
com sua cadência
e seu disfarce,

toca vagaroso a litania
nas vértebras inflamadas
de Vladimir e Dante,

cospe nas rimas,
na espinha de sangue
e concreto de Ossip
Mandelstam

tripudia dos ossos
da raiva do fogo
nas ruas ele ri
da cartilagem das horas

que despencam
pela fuligem
pelos gases
lacrimogénios

seu riso é um escárnio
feroz e lancinante
como bala insuspeita
adentrando na carne

seu palco é a derrocada
do humano, do átomo
no descampado
da alegria deformada

amoral é este cão
que agoniza na estrada,
a pomba suja feita
ratazana no verso
de Donizete Galvão

indecente é o gozo
diante da unha encravada,
o nítido projeto
de um país estrangulado

mas a ardência do grito
preso no peito
se espalha como mancha
de petróleo no oceano

até um dia ser esse inchaço
essa pústula infecciosa
uma força represada

e da agonia dos gagos
forjar enfim o novo dicionário
que defina a fúria
e a combustão
de uma língua alucinada

Prisca Agustoni é poeta, tradutora e professora. Escreve e se auto traduz em português, italiano e francês. Suas obras mais recentes são: Un ciel provisoire (Genebra, Samizdat, 2015), finalista do Prêmio Lettres-Frontière; animal extremo (São Paulo, Patuá, 2017) e Casa dos ossos (Juiz de Fora, Macondo, 2017), semifinalista do Prêmio Oceanos. Tem no prelo duas coletâneas de poemas a sair na Itália em 2020. Este poema foi extraído do livro de poemas que está no prelo para início de 2020 com a Editora Quelônio, de São Paulo.

cinco poemas de Matheus Guménin Barreto

o que vale um poema

O que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a fala menos
do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos
mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república.

* * *

descobrir as palavras eu te amo

pesar na mão cada uma, medir
sua massa numa mão
n’outra
articular a língua os lábios dentes como
pela primeira vez
um homem o fez
um homem o fez a outro homem
testar o que abarca cada letra, o que deixa, o que fala
testar cada som e sombra que acaso fique
nas arestas do a, do e

descobrir as palavras eu te amo
e a violência que é usá-las.

* * *

primeiro

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

* * *

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

— se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

* * *

manhã

a —
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
_______________fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

b —
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

c —
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

Matheus Guménin Barreto (1992— ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs — subárea tradução —, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se textos seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Revista Escriva [PUC-RS], Opiniões [USP], Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

três poemas de Manuella Bezerra de Melo

mil marias

Quando Maria nasceu
a roda da vida parou
miúda de tão pequena
no parto convulsionou
mas forte era Maria
teimosa ela viveu
pra perceber que seu
plano de vida prevaleceu
Maria não tinha nada
de coisas nem de valor
mas tinha no seu esteio
sua família e amor
Maria foi à escola
disseram que ela podia
pra que se enchesse de
sonhos pensando que merecia
Maria foi alvejada
três tiros no meio da quadra
Maria não era turista
sofreu violência classista
Corpo de menina acostado
promovido pelo estado
assassino genocida
de todo preto e favelado
Maria nem se deu conta
seu corpo mal sentiu dor
mas a comunidade sabe
que o preço da vida tem cor
Maria não é estatística
é uma menina emblema
e em nome da sua memória
Maria virou poema

| poema do livro Desanônima (Autografia, 2017). |

* * *

Tereza olhou-me
meteu medo até em xangô
como um rio e seu poder
adentrou em mim
aventurou-se de mim
Nos olhos lustrados de Tereza
centelhas podem ferir
seu flanco não é mais o mesmo
não é mais do mesmo
seu flanco é todo ele meu flanco
meu flanco nunca será o mesmo
depois de suar sob o teu
Seu beiço vasto decretava
a ascendência que salva
o mundo da feiura
pelo cabelo aproximei-me
ajoelhei, pedi uma benção
Tereza, isto é uma carta:
— Quero beijar-te agora.
Salva-me!

* * *

Envenenei o céu pra que você
não visse morrer a segunda filha
o socialismo é um programa
é uma fenda no meu umbigo
é uma pasta de grão de bico
sob uma torrada com azeite
cancelei o café diário
que equivale ao suicídio sem extremismos
quantos estômagos são necessários
pra digerir a graxa que você passou?
quantos fígados precisas
pra filtrar todo álcool necessário
de seguir viva?
Perguntam-me como estou?
efetivamente viva
por vezes, nem tanto
quase sempre
esta parte, omito
omissão é a caverna eficiente dos ineficientes
não se compartilha maledicências
dores amargores brotoejas
feridas abertas são constrangedoras
e já não há mais ninguém em condições
tenha selfies sorridentes e esbeltas
braços abertos, rei do mundo
as minorias se adequam
ou desaparecem
antagonismos a parte
o socialismo é um programa

Manuella Bezerra de Melo, jornalista nascida em Pernambuco, foi repórter e especializou-se em Literatura Brasileira e Interculturalidade. É poeta, cronista de rede social e autora infanto-juvenil. Quando viveu nas Serras de Córdoba, na Argentina, publicou sua primeira obra, Desanônima (Editora Autografia, 2017). Já em Portugal, publicou Existem Sonhos na Rua Amarela (Editora Multifoco, 2018) e Pés pequenos pra tanto corpo (Editora Urutau, 2019) e participou da antologia Pedaladas Poéticas (Editora Aquarela Brasileira, 2017). Mora em Guimarães e dedica-se a um mestrado em Teoria da Literatura na Uminho.

três poemas do livro ‘Poemas do Golpe’, de Andri Carvão

Um povo que não enterra os seus mortos vive remoendo o passado.
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Um
povo
que
não
enterra
os
seus
mortos
vive
sendo
assombrado.
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Um povo que não enterra os seus mortos,
vive?

| elite miserável |

Cidadão
Cristão
Brasil
Servil

Herança rural
Questão cultural
Regime colonial
Atraso industrial
Casa senhorial
Sociedade patriarcal
Identidade nacional

Burocrata
Escravocrata
Primata

Política
Paleolítica

Da servidão
Da escravidão
Da prisão
Dentre outras formas de opressão

Pobre é povo
Classe média é povo
Povo é povo
Teleguiado por uma elite miserável

| na casa de armas |

— olá!
— eu quero uma arma, eu preciso de uma arma, eu quero uma arma!
— pra quê você quer uma arma?
— pra mataaar!
— pra matar o quê?
— uma arma de caça, pra caçar…
— pode ser mais específico? que tipo de caça?
— passarinhos e borboletas… brincadeira. ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…
— mas não temos estes bichos no Brasil…
— …
— mas que tipo de arma você quer? um rifle?
— um rifle, pode ser um rifle, eu quero um rifle de caça.
— olha, temos este aqui…
— aahh, que lindo! bela arma…
— …e também temos esta daqui (um pouco mais cara) alemã, uma similar, a vovozinha desta, foi usada durante a Segunda Guerra Mundial para matar judeus, homossexuais, ciganos, comunistas…
— agora eles vão ver uma coisa!
— eles quem, amigo?
— ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…

capa_golpe| poemas do livro Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019) | com lançamento sábado, 7 de dezembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há textos do autor nas seguintes publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, entre outras; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal, ambas pela Editora Appaloosa, e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos [um manifesto contra o fascismo], organizado por Rojefferson de Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos, também pela Appaloosa, O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s, ambos pela Scenarium, Um Sol para cada montanha (Chiado Books, 2018) e Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019).