três poemas do livro ‘Poemas do Golpe’, de Andri Carvão

Um povo que não enterra os seus mortos vive remoendo o passado.
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Um
povo
que
não
enterra
os
seus
mortos
vive
sendo
assombrado.
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Um povo que não enterra os seus mortos,
vive?

| elite miserável |

Cidadão
Cristão
Brasil
Servil

Herança rural
Questão cultural
Regime colonial
Atraso industrial
Casa senhorial
Sociedade patriarcal
Identidade nacional

Burocrata
Escravocrata
Primata

Política
Paleolítica

Da servidão
Da escravidão
Da prisão
Dentre outras formas de opressão

Pobre é povo
Classe média é povo
Povo é povo
Teleguiado por uma elite miserável

| na casa de armas |

— olá!
— eu quero uma arma, eu preciso de uma arma, eu quero uma arma!
— pra quê você quer uma arma?
— pra mataaar!
— pra matar o quê?
— uma arma de caça, pra caçar…
— pode ser mais específico? que tipo de caça?
— passarinhos e borboletas… brincadeira. ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…
— mas não temos estes bichos no Brasil…
— …
— mas que tipo de arma você quer? um rifle?
— um rifle, pode ser um rifle, eu quero um rifle de caça.
— olha, temos este aqui…
— aahh, que lindo! bela arma…
— …e também temos esta daqui (um pouco mais cara) alemã, uma similar, a vovozinha desta, foi usada durante a Segunda Guerra Mundial para matar judeus, homossexuais, ciganos, comunistas…
— agora eles vão ver uma coisa!
— eles quem, amigo?
— ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…

capa_golpe| poemas do livro Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019) | com lançamento sábado, 7 de dezembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há textos do autor nas seguintes publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, entre outras; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal, ambas pela Editora Appaloosa, e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos [um manifesto contra o fascismo], organizado por Rojefferson de Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos, também pela Appaloosa, O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s, ambos pela Scenarium, Um Sol para cada montanha (Chiado Books, 2018) e Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019).

o fogo o fogo, poema de Alberto Lins Caldas

● [o fogo o fogo — a agonia do fogo — seu tumor — ●
● a fumaça — o fogo o fogo — fogo dentro e fora — ●
● antes e sempre — devora cidades — florestas ●
● universos — fogo — a loucura fiel do fogo — o fogo ●
● o fogo — a fumaça — respirar fumaça — respirar ●
● o fogo o fogo — a carne dura do fogo — o fogo ●
● o fogo — a fome — a gula — do fogo o fogo o fogo] ●

● inexistente o tempo o fluxo amolece as carnes ●
● como doem as juntas — caem cabelos brancos ●
● como merda de pombos nos bancos das praças — ●
● a vida não brinca — a vida não ri — a vida é foda — ●
● trilhos entre rochas q se esmigalham — o corpo — ●
● trilhos q se enferrujam — mergulham na terra — ●
● nem os largos dias de prazer e alegria — a dor ●

● desabados como bonecos de palha no campo — ●
● cheios de baratas vermes ratos carrapatos — ●
● desejos mortos do sol ocultos na escuridão — ●
● olhando paredes sonhando o grande nada — ●
● não vimos q a beleza é só isca fraca e fútil — ●
● quando abrimos os olhos é hora morrer e só — ●
● resta se dissolver — deixar de ser — nonata e não ●

● nem minha morte — toda morte — morte gelada ●
● do escorpião — jamais existente o tempo beija ●
● meus olhos — a boca — as mãos — o caralho — ●
● a ponta dos peitos — os joelhos — pés e dedos ●
● dos pés o vazio — o vazio como esperma seco — ●
● depois depois nem isso — jamais jamais — não — ●
● sem deus sem anjos sem paraíso ou inferno ●

● nada juntara pedaços — as cinzas — o pó o pó — ●
● tudo só espalhara mais e mais e nem o nada — ●
● nem o aroma de flores mortas no outono — não — ●
● nem a lama de neve das ruas em ruínas — não — ●
● jamais a primavera — as chuvas — o vento — não — ●
● nem o perfume morno das vulvas vibrando — ●
● nem a desarmonia infinita do desejo — nada ●

● [o fogo o fogo — a agonia do fogo — seu tumor — ●
● o fogo o fogo — a carne dura do fogo o fogo ●
● o fogo — a fome — a gula do fogo o fogo o fogo ●
● antes e sempre — devora cidades — universos — ●
● o fogo — a fumaça — respirar fumaça — respirar ●
● o fogo — o fogo o fogo — dentro — dentro e fora ●
● o fogo o fogo — a loucura fiel do fogo — o fogo] ●

Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001), Wyk (Bagaço, Recife, 2007), Gorgonas (Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2008); os romances senhor krauze (Revan, Rio de Janeiro, 2009), Veneza (Penalux, Guaratinguetá, 2016) e a grande morte do conselheiro esterházy (Penalux, Guaratinguetá, 2018), as trinta metamorfoses de on foya (JusttFiction, Riga-Estônia, 2018). Os livros de poemas No Interior da Serpente (Pindorama, Recife, 1987), Minos (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e De Corpo Presente (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), 4×3 — Trílogo in Traduções (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014) com Tavinho Paes e João José de Melo Franco, a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016), minha pessoa sob o domínio dos bárbaros (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2018), tântalo (Flan deTal, Vila do Conde-Portugal, 2019).

Blog: http://poemasalbertolinscaldas.blogspot.com/

três poemas do livro ‘a implantação de um trauma e seu sucesso’, de Ricardo Escudeiro

contra conjunto ou neon sobre fumaça

o olhar mais se detém mesmo é quando falha
noutras vistas as minhas
descansadas param com essa coisa de

ultrapassa pelo acostamento
vai

tatear os mundos pelas suas córneas e pelas suas cordas
pois

dói na garganta o tanto seu nome nos pulmões
e nos descansos
e nos cenários
e numas pedras com umas sílabas
à tiracolo

ficar perguntando pra janela
quando a gente nem tá mais no carro

já chegou já chegou

não não
faltam ainda alguns aniversários

ver mais mesmo é quando longe

leio
claro tipo
um miopismo inexato

na fumaça do cigarro todas as esquivas tragadas
o cotovelo na mesa a cabeça entre os tabacos
como num balãozinho de hq daqueles de pensamento sabe
uma interrogativa
ou uma inlabial desleitura

faz quanto tempo desde a última
vez que sua boca nunca

poema tirado de uma notícia de portal

“anti sementes”
segundo Angharad, a esplêndida

e se é de degredo que arguimos
falemos então aqui
do degredo enquanto extermínio

por extensão
afastamento
voluntário ou compulsório de um contexto social
a fúria que recai sobre certas estradas
a fúria que recai sobre certos homens nessas estradas
de forma quase drônica muito étnica muito específica

falemos
da balística enquanto desplantio

sobre distância disseram perto o suficiente para queimar
as bordas do buraco aberto na camisa
cauterizar os panos
do uniforme escolar
desnecessário inserirmos aqui um por exemplo

falemos
do projétil diagnosticado como perdido

esse atingiu a barriga e saiu pelas costas
como a extensão
formal
e anti lírica
de um braço colonial de um capitão desses de mato
não desbravando e sim destruindo
tudo o que no trajeto
e não no caminho
era o corpo preto
de um menino
quantas mais das vezes matado também e até antes
nos comentários

cão das lágrimas

mas por que esperar alguma cegueira
para aprender
pelas mãos um rosto

capa_a_implantacao| poemas do livro a implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá e Editora Fractal, 2019) | com lançamento sábado que vem, 30 de novembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas a implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá e Editora Fractal, 2019), rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”, dividido em três temporadas. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

três poemas de Penélope Martins

capa_queculpaessanotícias populares

ela geme
ela grita
ela diz que vai morrer.
— eu morro.
joão tem um metro e oitenta e quatro, teresa não
passa de uma mulher de estatura pequena
contrário de maria, mulher longilínea feito
égua para antônio
ele puxa pelos seus cabelos, ela empina
— geme, grita, diz que vai morrer!
— eu morro.
pedro manipula os dias,
não dorme a noite conceição, os dedos
no gatilho, a senha bancária, a vizinhança que diz
— assim mesmo,
homem é assim mesmo.
ela geme, ela grita
ela diz que vai morrer.
— eu morro.
lúcio perde a razão
escandaliza na porta da seção
o chefe acena na despedida
— faz vergonha, rita
vê se não geme, vê se não grita.
morrer é melhor saída.

canção de origem

eu pretendia fazer isso.
eu tinha uma vaga ideia das coisas.
fazíamos empréstimos nos bancos.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu ia aos cafés atrás de um cigarro.
eu perambulava as faixas dos discos.
fazíamos reuniões nas livrarias.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu usava aqueles sapatos.
eu comia sem desconfiança.
fazíamos de conta torpor e entusiasmo.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu evitava olhar vitrines.
eu tomava suco ao invés de álcool.
fazíamos um debate equivocado.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
adotaria algum otimismo. talvez.
algum.

os planos para a manhã de hoje

os planos para a manhã de hoje
enquanto se vê o noticiário
a xícara de café na seringa que corre as ruas
a torrada integral sem demarcação de terra
a taça de iogurte para crianças mortas a bala
os pedaços de fruta sobre mulheres violentadas
a fatia de queijo derretida na apologia à tortura
os planos para a manhã de hoje
enquanto se vê o noticiário

| poemas do livro Que culpa é essa? (Editora Patuá, 2018). |

Penélope Martins (Mogi das Cruzes, 1973) é escritora, narradora de histórias e articuladora em projetos de fomento da palavra escrita e falada. Pós-graduada em Direitos Humanos pela PUC-Campinas, dedica-se à formação de novos leitores desde 2006, produzindo conteúdo para encontros presenciais e plataformas digitais. Colabora com a articulação de reflexões sobre a leitura com a Editora do Brasil e outras instituições. Participou de coletivos de mulheres com poesia autoral e faz a curadoria do projeto Mulheres que Leem Mulheres, com ações em diversas instituições culturais como o Sesc. Entre suas obras publicadas estão Minha vida não é cor-de-rosa (2018), 1º lugar na categoria Literatura Juvenil do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2019, e Que amores de sons! (2018), ambos pela Editora do Brasil, Poemas do jardim (2013), Editora Cortez, Quintalzinho (2014), Editora Bolacha Maria, e As aventuras de Pinóquio (2018), Panda Books. Integrou a antologia Sete, de poetas contemporâneas, organizada pela Editora Essencial, e é autora do livro de poesia Que culpa é essa? (2018), pela Editora Patuá.

cinco poemas de Fábio Pessanha

carnívoro

quando os dentes se chocam uns com os outros,
os ossos se acrescentam dum inventário
de rachaduras. tal como raízes,
suas rupturas vão fundo no
destino das ruínas e se dão
com os restos em suas imperfeições.

morde-se com força a própria
boca, num exercício de
procurar rastros. depois,
afiam-se os incisivos,
a fim de cravá-los em
seu pedaço mais macio
de carne. é forte o sabor
ácido do sangue ao se
ter tão íntimo a saliva
derramada por diversas
fomes ao longo do tempo.

por horas, a digestão
soa como um carnaval
onde todos estão sem
máscaras… e os dentes à
mostra naquela mordida
sem refúgio e nem alívio…

quebra-se em partes iguais cada fêmur
para que qualquer pedaço talhado
caiba bem cuidadosamente dentro
do sacrifício da saciedade.
ninguém testemunha essa eficiência…

… e todos saem satisfeitos.

* * *

distante como se abrisse
uma janela durante
as horas de frio. o vento
na cara, a rua lá fora.

a sensação seca de uma
paisagem no meio do
peito — ausente —, desde que a
noite se estendeu e se

deu por escurecer mais
tarde… com isso, os invernos
ganharam outro contorno.
a lua cheia foi vista

do meio de uma varanda
esquecida, com a certeza
de que a noite se escondera
numa estação sem retorno.

* * *

desde que se faça tarde é deserto
nervo incerto atacado pela fome

em forma de gente a ferocidade
das palavras acoberta a nervura

verbal do espanto o corpo se consagra
pela violência da secura da

espessura do poema largado
ao excesso despovoado de

costelas carne pele sangue e dentes
nada sobrou após seu abandono

* * *

para Daniele Negreiros
(em resposta a um poema seu)

como se cada passo fosse um céu
repleto de noite. a lua brilhasse
forte no passado enquanto o futuro
jamais surgisse aos viajantes desse
rito. não se pode mesmo olhar o
devir. futuro é o que nos resta de
assombro aos tempos diurnos do engano.
enquanto minhas fadas tramam contra
a velocidade das horas, lanço-me
ao estômago dos deuses para, juntos,
alcançarmos o latrocínio do
sol. toda a verdade será contada
aos meus descendentes e o que nos falta
de vida para a vida será então
o crível enredo ao nascimento dos
meus dias. eternidade é o que me
banha a boca desde cada palavra
tomada por destinos, mas existo.
e insisto no tempo cobrindo minha
cabeça, cobrando a sagrada bênção
pelas manhãs aquecidas em minhas
letras. minha alvorada é quando acordo
no meu corpo quase eterno — poema.

* * *

de dentro de uma tristeza
sem nome ou tamanho que não
corrói mas instala a vida
sem cores ou cheiros o
poema conforta como
a ponte por onde não
se anda e compõe o mais belo
lugar perdido dos sonhos

aquele lugar que se
busca desde antes de
todas as dores que existe
desde antes os olhos se
fecharem todos em flores

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Autor do livro A hermenêutica do mar — Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento. Assina a coluna “palavra : alucinógeno” [link] na Revista Vício Velho, além de participar como ensaísta em outros livros e periódicos.

cinco poemas de Aline Martins

capa_graoNietzsche

lágrima tem gosto de sal
eu sei
mas pode ter de sangue
e de morte também

eles contam os meus dias
pelos meus vales
mas eu
pelos meus montes

e lá de cima vejo os que me contam
tão pequenos me contam
tão sedentos me contam

e se atolam no lodo dos meus vales
e se banham na água fedida dos meus vales
mas não saem dali
não querem ir

não sabem que já me elevei
não podem me ver

caboclo bardo

caboclo bardo
de língua-foice
e o sangue estancado correu
pelo fio do riso
um rio se fez à margem dos olhos, então
e me coagulou assim de pena
numa travessia silenciosa
que o teu mar viu passar
viu o teu riso meu rio derramar
e mesmo bardo
caboclo não quis me salvar

calafeto

esse buraco no teu olho pr’eu tapar
mas minha estopa não dá

passa um vento frio
soprador que secou o rio
e nenhuma lágrima borda a face
nenhum disfarce
que triste

olho morto agora não me vaza mais
vento que varreu o meu cais

comunhão

madrugada fria
sinos badalam o silêncio

minha capela tem as portas cerradas
e dentro uma santa

quer pecar comigo
quer sujar o altar
vou comungar com ela

natureza morta

o seio nu
exposto
agora peça-mármore em tua sala
não te saliva mais a boca
não te lasciva mais os olhos
e nem te desespera mais o cio

resta a palavra

| poemas do livro Grão (Macabéa Edições, 2019). |

Aline Martins, poeta, também escritora de contos e prosa, nasceu em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 1970. Em 1992, mudou-se para a cidade carioca, onde cursou a Faculdade de Direito e estabeleceu-se definitivamente.

Mais em: https://www.macabeaedicoes.com/