três poemas de Laís Araruna de Aquino

nós só compreendemos muito tempo depois

é perto das quatro, o sol incide
obliquamente sobre as palmeiras
o vento rege uma canção entoada pelos
pássaros e cigarras —
aquela que veio de nenhum passado

agora, uma ave branca cruza o silêncio
nós só compreendemos muito depois
esta paisagem, este corpo, esta travessia
compreendemos numa estação diversa
quando as folhas estão secas no chão
ou sabem à resina

tudo está calmo e quieto
mas ninguém sabe os mundos que o coração
do homem abriga
os bois se juntam no pasto
e tangem os rabos contra as moscas
também meu coração tange algo
que não sei nomear

estamos no presente como em um lago
onde pousamos os pés
e não sentimos o assoalho
e de repente se faz muito tarde

quando desejamos regressar
e abrimos a porta da memória,
há um caminho que muda
a cada entrada

então, na curva de tantos dias,
deixamos um pouco do passado
agora, o musgo cresceu
range a porta

damos talvez por uma falta
mas não saberíamos dizer
mesmo isto —
nós só compreendemos muito depois

o cheiro da tangerina

todas estas coisas são muito antigas
a tarde
o sol
a meio caminho do horizonte
um homem
sem outra companhia que seu pensamento
navegando na tarde imóvel

todas estas coisas são muito antigas
o cheiro da tangerina
impregnado nas unhas
as cortinas esvoaçando na sala
os poliedros de luz que o sol faz no assoalho

tudo isto é muito antigo
a tua silhueta
contra o anteparo da janela
o halo distante da lua
na noite ausente

muito antigos
um homem
e a vontade de núpcias
impossíveis com o universo

à luz da manhã todas estas coisas começarão mais uma vez
e a manhã e tu mesmo estarão sob o sol
sem o frescor da criação

meditação em Ouro Preto

chove
e ao tombar a chuva sequer descreve uma melodia
o silêncio do estio retumba em praças lúgubres
e o tempo escoa no ciciar da noite sem cortejo algum
as esferas estão vazias e nada acolhe o teu desejo
a tua carne jaz triste em um colchão de hotel
entre os pilares inexistentes do dia, não irrompe
um bocejo de tédio dos deuses ou dos bêbados
o coração do tempo se profanou definitivamente
escutas apenas uma pancada forte nas paredes
mas não há ninguém do lado de fora

são as paredes do teu corpo que estertoram

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É autora de Juventude (Editora Reformatório, 2018), vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2017.

nove, poema de Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida

Quem é que poderia imaginar que ela seria nove ao invés de dois. Que a vida seria a linha em redemoinho permanente. Que seu corpo seria o fio de um discurso muito longo girando ao redor do mesmo tema. Quem é que poderia imaginar que ela seria a única personagem do livro que eu escreveria. Quem é que poderia imaginar que assim é que ela viveria para sempre. Que sexo era só o que seria diversão. Quem é que poderia pensar que ela viria caminhando em direção oposta. Quem é que poderia imaginar que ela declamaria versos em voz alta. Quem é que poderia imaginar que ela voaria como pássaro selvagem na floresta não tão encantada assim. Quem é que poderia pensar que ela seria capaz de falar duas línguas ao mesmo tempo. Quem poderia pensar que ela se dedicaria à pesquisa de fundamentos básicos da sociologia. Que driblaria questões que não eram físicas. Que teria pleno domínio de arte e matemática. Quem poderia imaginar que ela tomaria duas doses de conhaque na primeira noite de inverno. Quem é que poderia imaginar que ela teria este longo cavanhaque. Que dela seria um cavalo chamado Oberon. Quem é que poderia imaginar que ela trocaria a noite pelo dia. Quem poderia imaginar que um dia ela vestiria quimonos e gravatas. Quem é que poderia imaginar que o que ela mais desejaria na vida era ter destino comum. Tal qual no primeiro dia em que saiu de casa para andar de bicicleta. Quem é que poderia imaginar que um homem inteiro não seria feito de meias palavras. Que o que ele diria ontem seria o que hoje ele silencia. Quem é que poderia imaginar que a casa é o que restaria onde ela já não mais estava. Quem é que poderia imaginar que haveria vento deslizando na superfície da terra. Quem é que algum dia poderia pensar que uma nuvem faria sombra na topografia. Quem é que algum dia poderia imaginar que haveria flores no jardim de todos. Quem é que poderia imaginar que dali a poucos minutos alguém partiria para nunca mais voltar. Quem é que poderia imaginar que ela seria um só. Que às vezes ela seria ele. Que ele nunca estaria fora dela. Quem diria que a vida seria feita de milhares de fragmentos. Quem diria que um dia isso tudo passaria. Quem é que poderia imaginar que haveria tanto drama na última hora. Quem é que poderia imaginar que ela teria o mínimo de disciplina. Para colocar talheres sobre a mesa. Para organizar livros na estante em ordem decrescente de tamanho. Para levantar hipóteses, para relembrar isso e aquilo outro. Quem diria que ele vestiria saia plissada no verão. Quem diria que dali a poucos dias seria um vestido verde. Quem diria que um dia ela ainda colecionaria pesos de papel. Quem é que poderia adivinhar que ela iria gostar de Picasso, mas não de Pissarro. Quem poderia pensar que não haveria regra sem exceção. Quem diria que o mínimo de perspectiva seria fundamental para atravessar a rua. Quem diria que o traço no desenho seria diagonal. Que qualquer julgamento seria sempre parcial. Que o sentimento seria mútuo ocasionalmente falando. Quem quer que fosse imperador. Quem é que poderia imaginar que ela não teria coragem. Quem é que poderia duvidar que ela teria medo. Que daqui para a frente nada seria como antes. Que ela não seria igual a ele. Quem diria que ela não teria cílios postiços. Quem é que poderia imaginar qual seria a cor dos olhos dele. Quem diria que não haveria mais tempo para pensar no primeiro dia do ano. Parábolas seriam feitas disso. Antenas parabólicas também. Quem é que poderia imaginar que ontem de madrugada ela voaria tão alto. Quem é que poderia imaginar que ela cairia da escada antes do final do dia. Que aquela que não era ela que ali estava na minha frente. Quem é que poderia imaginar que ela teria dois casamentos na vida. Que o amor também seria feito de desencanto. Desencontros seriam fenômenos relativamente comuns. Quem é que poderia imaginar quantos anéis ela teria nos dedos. Quem é que poderia pensar na luz acesa hoje cedo. Quem é que poderia ter lembrado disso. Quem é que poderia imaginar o que ele levaria no bolso do casaco. Quem é que poderia imaginar que ele sairia de casa para nunca mais voltar. Que deixaria um par de sapatos para trás. Além de quadros na parede traje esporte fino e outras recordações. Quem é que poderia pensar que ela embarcaria no próximo trem para Genebra. Quem diria que ela teria fôlego para atravessar a longitude do corredor. Quem é que poderia imaginar qual seria o resultado final do exame laboratorial. Quem poderia saber qual seria o diagnóstico final. Quem é que poderia imaginar que ela cruzaria um oceano inteiro a nado. Que haveria ritmo nas braçadas. Quem diria que ela não saberia de nada, mas que também não almejaria nada além disso. Quem é que poderia imaginar que ela viveria setenta e dois anos e dois dias. Que a vida passaria como um suspiro na janela. Que hoje ela teria um monóculo inglês na mão direita. Que depois o monóculo ficaria guardado na gaveta do aparador. Quem é que poderia pensar que ela também colecionaria mapas, além de pesos de papel. Quimeras e o que mais. Do que ela seria capaz se não tivesse medo. Quem é que poderia imaginar que sobraria sempre um minuto do tempo que se perdeu em pensamento. Que de antigas memórias viria uma jaqueta de veludo novinha em folha. Quem é que poderia pensar que ela escreveria uma carta tão longa em plena sexta. Quem diria que seria uma carta de amor monumental. Que o conteúdo da carta seria puramente sentimental. Que ela seria personagem principal. Quem é que poderia falar de seu próprio destino. Quem diria que ela ainda veria tantas crianças correndo no meio da rua. Quem seria a mulher com quem trocou meia dúzia de palavras hoje de manhã. Quem seria o homem que cuidava dela no hospital. Quem seríamos nós às cinco da tarde. Quem seríamos nós quando a noite cai. Quem é que morre quando o outro nasce. Quem poderia pensar que dali a meia hora já seria outro dia. Quem poderia pensar que ela não voltaria atrás. Quem é que poderia imaginar o que viria adiante. Quem é que poderia pensar no que sempre acontece de repente. Quem pensaria igual, quem pensaria diferente. Quem saberia dizer o que não sente. Quem ela pensaria que era ele agora mesmo. Quem poderia imaginar que ela não fosse dourada. Que não tivesse nuvens nos olhos. Quem é que poderia imaginar que ela não teria eira nem beira. No que pensaria ela ao abrir a janela do quarto. No que pensaria ela ao pensar nele e vice-versa. Quem é que poderia imaginar que ela seria mestre na arte de desaparecer sem dar notícia. Que faria um curso de caligrafia japonesa. Quem imaginaria que um dia ela seria assim. Quem seria ela despindo as roupas no banheiro. Quem seria ela fechando os olhos depois de apagar a luz. Quem seria ela nos braços dele. Quem seria ele aos olhos dela compasso e espera. Quem teria sido ele na noite passada. Quem é que poderia imaginar que ela não soubesse disso. Quem é que poderia pensar no que não faz falta. Quem é que poderia imaginar que ela faria uma anotação qualquer. Que depois disso ela apagaria a luz de novo. Quem é que poderia imaginar que ela ficaria em silêncio. Quem é que poderia imaginar qual seria a direção do vento. Quem é que poderia imaginar que um dia ela sairia correndo na direção do mar. Quem é que poderia imaginar qual seria a hora exata em que isso aconteceria. Quem poderia dizer que horas eram quando ela não voltou mais.

Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida é formada em Cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado — FAAP e funcionária do Itamaraty desde 1994. Já morou em Berlim e Nova York, atualmente reside em Londres. Colecionadora de palavras, profundamente interessada em tudo aquilo que acontece ao redor.

27 pássaros, poema inédito de Moema Vilela

minha amiga faz origamis
do outro lado do telefone
ela está no vigésimo sétimo pássaro
eu, no quarto dia sem fumar
numa casa sem eletricidade
estamos fazendo companhia uma a outra
esperando o fim dos tempos passar
_________em um grande rasante no céu

no viva-voz ouço sua respiração
as unhas marcam as dobras no papel
quando ela chegar a mil
_________poderá realizar um desejo
embora eu não esteja fazendo tsurus
também sigo concentrada
em não perder de vista meu desejo
_________e seus pássaros

vê que não é de cigarros que falo
ao convocar a imagem dessa grande abstinência
em que até a espera perdeu seu lastro
_________esperar o quê, pelo quê?
ficamos com o como
estamos fabricando o futuro
sem rasgar nem usar a tesoura
juntas até que a bateria acabe

enquanto o fim do mundo percorre sua trajetória
_________desenfreada entre os planetas e as estrelas
escuto a noite e a minha amiga
_________dedicada a não perder de vista
o que ainda temos

Moema Vilela é autora de A dupla vida de Dadá (Editora Penalux, 2019), Guernica (Edições Udumbara, 2017), Quis dizer (Edições Udumbara, 2017) e Ter saudade era bom (Editora Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura. Publicou contos e poemas em revistas e jornais e em coletâneas como De tudo fica um pouco (Editora Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da memória (Edipucrs, 2014), Antologia Um (Edipucrs, 2017), Mulherio das Letras (Costelas felinas, 2017), entre outras. Graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Doutora em Letras pela PUCRS, é professora nos cursos de Escrita Criativa e Letras na PUCRS.

o itinerário da bala perdida, poema de Leandro Rodrigues

capa_domofoa bala perdida
não tem nada de perdida

tem alvo certo
gps
endereço

a bala perdida
nunca se perde

_______rasga a noite
_______é medida
_______distância e opressão

_______cala o grito
_______da pobreza

_______está na pele negra
_______e se veste de não

a bala perdida
sempre encontra

_______o corpo vivo
_______da escravidão

| poema do livro Do Mofo & Suas Simetrias (Editora Patuá, 2021). |

Leandro Rodrigues (Osasco, 1976) publicou os livros Aprendizagem Cinza (Editora Patuá, 2016), Faz Sol Mas Eu Grito (Editora Patuá, 2018) e Todas As Quedas São Livres (Editora Penalux, 2020), além de participar de diversas antologias: O Casulo (2016), Hiperconexões 3 (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019), 70XCaio (2019), Clausura (2020), entre outras. Em 2020 venceu o 4º Prêmio Guarulhos de Literatura na categoria Poesia com Do Mofo & Suas Simetrias (então inédito). Teve poemas traduzidos e publicados na Espanha e nos Estados Unidos (Antologia de poesia brasileira contemporânea da revista DUSIE nº 21 da UCLA).

três poemas do livro ‘grão, gota’, de Eduardo Rezende Pereira

grao_gota_capablues

Me é estranho pensar que posso
ter o mundo em minhas mãos

— sendo eu rapaz
de pouco dinheiro e bens,
sem altos cargos de prestígio e poder,
sem passaporte ou documentos importantes
de livre acesso às fronteiras,
ou mesmo detentor das raras chaves
dos preceitos e amarras sentimentais.

Me é estranho,
mas não impossível.

Não se faz impossível quando me noto, emudecido,
com versos prontos desprendendo dos meus bolsos,
do céu azul de minha boca e do fundo quente da casa-forte
que se faz em eterna alvorada
dentro do meu peito imenso.

Dentro do meu peito imenso
habita uma palavra cara demais
aos homens do mundo:

liberdade

[na língua minha,
e em seus segredos de paladar e semântica,
traduz-se seu sinônimo
como vastidão]

quarentena I (Ou: Fissuras)

I. A primeira poesia de quarentena
tem gosto amargo
de própolis de dor de garganta
e de melancolia de dor de existência.

O vírus arrasa
meu país e meu povo.
Encurralados estamos sem nenhuma opção
resistindo à guerra microscópica.

Cinza amanheceu o dia
na alegoria e na concretude:
é como se o vírus conseguisse
carregar a melancolia minha
junto aos seus arrasos,
tropeços
e mortes gerais.

Esse apartamento
parece pequeno demais
para meu peito apartado
cheio d’água por cair;
para meu corpo
necessitado de apertados abraços;
para esse barulho
confinado em minha garganta fogo;
para meus ansiosos passos
movendo poeira e areia
às fissuras da madeira.

Quero na rua brincar feito criança
e ver a praça da Matriz de perto
cheia de gente, cor e cheiro: gente feliz, gente minha.

Quero a normalidade da vida
para além das panelas que batem na varanda
suplicando o fim desse governo de morte e medo.

II.
Já tirei o relógio do pulso:
que me importam as horas?
É o fim dos tempos — o apocalipse mundial.
Me questiono a duração desse maldito terror,
sabendo não saber a resposta.

Ao vírus não importam as etnias,
as histórias, as crenças, as fronteiras;
o vírus desfaz o teatro do atual sistema:
poderoso e visceral, governa os governos.

III.
O semáforo na esquina pisca toscamente:

Vermelho, amarelo, verde.

Ninguém passa. Não há ninguém para passar.

Os semáforos
não deviam trabalhar;
e nem as empregadas
e os porteiros do prédio vizinho.

Elas e eles até que bons sujeitos são;
deixar de trabalhar é que não é opção.

ipê-amarelo

I.
Eu sinto muito as dores do mundo,
a paleta de cores do nascer do dia
e o significado fatal do seu repouso.
Eu sinto muito cada gesto e lembrança
e cada começo, meio e fim.

E sinto tudo, ainda mais,
quando estou sentindo algo por alguém:

eu sinto a paixão chegar em mim
e estacionar-se em meus vazios,
preenchendo com calor cada canto solitário

— acampando, indeterminadamente, como tiver que ser.

II.
O muito sentir me faz pesado na leveza do que sou.

A inspiração é um arcanjo que nos leva às alturas do mundo,
e poeta que sou sempre enxergo a beleza em seus detalhes.

III.
Confesso que os ipês-amarelos são especiais,
e que também me encanta o cantor do quadro verde,
a fotografia do filme italiano de nome inglês
e a vista da janela se abrindo às cortinas da imensidão cinza.

[Eu poderia derrubar estrela por estrela
e prometer-te remendá-las depois no tecido da noite

— só para dançarmos nus, no semiescuro,
agraciados pelos brilhos dos cacos na varanda:
sem medo do tempo, do espaço
e dos sentimentos em colapso].

| poemas do livro grão, gota (Folhas de Relva Edições, 2020). |

Eduardo Rezende Pereira nasceu no interior paulista, no verão de 1996. É jornalista, jovem militante incansável, e cientista social formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Entre a primavera de 2014 e o inverno de 2016, publicou uma sequência de artigos sobre cultura, política e sociedade no jornal impresso em que trabalhou durante a sua adolescência. Além de muros, já escreveu em algumas seleções de poesia. grão, gota (2020) é sua primeira publicação impressa, feita pela Folhas de Relva Edições.

três poemas do livro ‘Essa palavra sem coração’, de Tatiana Fraga

capa_essapalavrao que nos sustenta é teia tênue

bordada de delicadezas
ponto cheio, nós, correntes
retalhos adormecidos
costurados
avesso emaranhado de fios
remendo no peito
cerzir onde passa o frio
coser sutilmente o
tecido gasto, proteger-se
com dedal de prata
o que nos acalenta é teia tênue
trançada mal traçada quente
rede que suporta o peso
manta que resiste ao tempo

* * *

tudo vermelho hoje

a noite vermelha
minha conta no vermelho
minha calcinha vermelha
hoje não verei as estrelas
atrás das sirenes
dos semáforos vermelhos
das luzes de freio
nem irei a lugar algum
— tenho contas a pagar —
tampouco farei um filho
tudo vermelho hoje
até mesmo o céu
o sangue e as maçãs

* * *

carta aos sobreviventes
para Nahum All

Sobrevive-se às distopias, sobrevive-se às
tragédias planejadas, às leis do desespero.
Sobrevive-se

porque há estrelas sobre nossas cabeças,
porque os deuses de hoje são os mesmos
do começo e do fim do mundo.

Quando a aeronave caiu a trinta e cinco mil
pés, você sorriu. Entre os destroços, me
plantou a memória de que caminhávamos
pela lua. Os sobreviventes do incêndio
brincam com as cinzas em suas mãos.
Elas são mornas e surpreendentes.

Sonhei que escrevia um poema sobre você
e sobre as conversas que tivemos.
Preferimos ser picados pela serpente a
morrer sem tocar as pedras preciosas.

Onde não há gravidade a pinhata não pode
ser destruída. Sobreviveremos brincando.

| poemas do livro Essa palavra sem coração (Selo Demônio Negro, 2021). |

Tatiana Fraga é poeta, jornalista e gestora de projetos educativos e culturais. Foi idealizadora e diretora do Espaço de Leitura no Parque da Água Branca, diretora do Projeto PraLer — Prazeres da Leitura e diretora cultural da Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campo de Poesia e Literatura. Atriz e cocriadora do espetáculo Anti-pássaro — poemas de Orides Fontela e autora dos livros Nino e Nina (Editora Mundo Mirim, 2012), Brasa (Editora Dulcinéia Catadora, 2009) e Espelho (edição da autora, 2008).

posta restante, poema inédito de Mariana Ianelli

Ainda estás aí? Em que recanto estás?
(Rainer Maria Rilke)

I.

Tornaremos a nos conhecer
Diferentes de quem fomos
Mas qual viagem não nos muda?
Esqueçamos os códigos criados
Para escoteiros doutro mundo
Esqueçamos a tristeza humana
Se já éramos como estranhos
Se o amor se nos antecipou na morte
Tornaremos a nos conhecer
Como corações de novo livres
Para um encontro às escuras
Será outro começo para o tato
Será uma nova intimidade nossa
Um presépio advindo de despojos
Será afinal o descanso da prosa
O riso debulhado de um corpo
Um canto em ondas uma fragrância
Estaremos na cidade das nossas sombras
Com lampiões molhando em calma
A pedra da ponte entre as ruas
E as lidas e as lutas da pequena vida
Não serão mais moinhos nossos
Nosso trabalho de ser girará
Nos arbustos doces de morangos
Na fabulosa proximidade da lua
Em caminhos de água e superfícies
Onde ainda agora se projeta a nossa dança

II.

Quisera te dizer que nada vibra
Que nada continua ao fechar-se o livro
Diria até que histórias terminadas
São histórias finalmente redimidas
Se por algum atalho te apazigua
Isso de um dia rebentarmos em nada
E toda dor de beleza ou de crueza
Perder seu eco entre estrelas goradas
Mas e se por acaso eu te dissesse
Que mesmo depois existe música
Depois de depois das mãos pensas
Depois de depois do fim do mundo
E se eu te dissesse que existe um arroio
Um pensar imparável de nuvens
Pétalas chovendo em outubro
Um gozo nosso gozando em outros corpos
E se eu te dissesse que existe um jorro
Depois de depois do sangue estanque
Depois de depois da casa oca
Que nenhuma solidão é sem testemunha
E que outros poetas também já o disseram
E outros ainda alcançaram pelo faro
Nosso pulso latejando transplantado
Meu rosto e o teu rosto em holograma
Sobre um rosto que ainda virá
Arruinaria teu suicídio e o meu
A respiração dessa vida além da paz?

III.

É a canção do eterno infante
É o alento que insufla essa canção
É a doçura final do soldado
Uma água dourada de chá com peixes
Onde todos nós bebemos mais a lua
É nossa chance adubada nos jardins
Entre cigarras e mariposas
Nosso longo amor fantasmagórico
Na aurora ainda úmida de escuro
Nosso brincar sem mais propósito
Como brinca a natureza quando isenta
Se regozijando por seus meneios e aromas
É minha alma errando por Amsterdam
É tua alma pelas tardes de Lisboa
Todos os nossos instantes miraculosos
Na corda bêbada continuando
É a ampla noite que nos inicia
Que nos alfabetiza na língua dos cânticos
É a nossa alma no ar salmeado de Ouro Preto
E nos mares dos poemas que amamos
No empíreo a partir de uma viola
No precipício à sombra de olhos mexicanos
Embora soe obscuro dizer
Expressar-nos será claro nesse idioma
Coincidirá com o vasto sono humano
Nesta madrugada sem palavras
Nuançada de um sem número de sons

Mariana Ianelli nasceu em São Paulo, em 1979. Em 2016, tornou-se mãe de Yolanda. É autora de onze livros de poesia, o mais recente deles Terra Natal (Editora Cousa, 2021). Tem três livros de crônicas e dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 e foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia. Escreve crônicas aos sábados na revista digital Rubem e no site do jornal Rascunho.

sabe com quem está falando?, poema de Bruno Molinero

você escolhe o melhor clube
paga quinhentos mil no título
as mensalidades em dia
vira a sócia responsável
pelas buchas do balé fitness
toma posse como conselheira
e ainda assim é barrada feito
cadela
só porque a neide não estava
toda de branco
francamente
uma vergonha
claro que fiz o maior barraco
disse que minha empregada
veste o que eu bem entender
e não deixo ela ser maltratada
até porque a lei está pesada
o que eu acho certíssimo
viu?
agora…
o clube quer mandar
mais do que eu nos
meus próprios funcionários?
era só o que me faltava
gritei na guarita
rodei a baiana
sabe com quem está falando?
porque precisei ir pra casa, né
não ia ficar lá sem ajuda da neide
cuidar de duas crianças sozinha
ainda mais com o zeca desse jeito
pré-adolescente
quer tudo na hora
mas eles vão ver
já mandei o estêvão procurar o dono
aquele cara que passou o ano novo
com a gente lá em trancoso
lembra?
esse mesmo
se quiser indico o seu nome
o clube é ótimo
dez piscinas
dezesseis quadras
sauna play
gente bonita
você vai amar

só um segundinho, amiga

neide
você
fala
por
tu
guês
?

disse
que
não
posso
mais
comer
açúcar
criatura!
traz o adoçante
pelo amor de deus

oi, flor
desculpa
ela trouxe um cafezinho delícia
pão de queijo bolo de cenoura
mas às vezes preciso ser dura
ou a neide vira a dona da casa

me parte o coração
você sabe

| mais quatro poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, 2020) no [link]. |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido (Editora Patuá, 2015), livro que venceu o prêmio Guavira de Literatura em 2016. Este poema faz parte de Férias na Disney, seu segundo livro, lançado no fim de 2020 pela mesma editora.

três poemas de Joana Futre

exercício

Exercita os teus demónios
Manda-os fazer o sagrado jogging matinal.
Avisa-os de que são os jokers do baralho,
Faz pouco deles
Mesmo que quebrar o gelo dê trabalho.
Que eles se ponham em bicos de pés,
Se multipliquem e sejas tu versus dez
Numa luta constante e desigual.

E por favor, diz-lhes para não romantizarem
O amor à primeira vista.
Já temos no mundo filmes suficientes
A explorarem essa temática irrealista.

Desejo que os demónios façam gazeta
Dentro da tua bonita cabeça.
Vão antes para a rua protestar de cartaz no ar
Perguntar porque é que o Estado nunca está do lado do artista.

um brinde

Inevitavelmente, brindamos
Ao que ainda temos,
Tanto à generosidade humana
Como aos deuses em que cremos
(Por igual, para não ficarem amuados).

Para evitarmos esquecermos
Que ainda não sabemos
Ressuscitar as almas,
Para que nos possam bater palmas
Quando merecemos e nas ocasiões certas.

O som e o silêncio
São como a mãe e a filha que caminham
De mão dada.
Lembro-me de ti como uma ferida
Que nunca será sarada.
Como aquela de que sinto mais falta
Mas que sei que ainda me guarda

Com o mesmo apreço, a mesma gentileza
Com que se esforçava para remover vestígios de tristeza.
Devo alguns dos melhores pedaços da vida íntima
A quem me ensinou o que era a verdadeira leveza.

Levo o teu espírito na algibeira
E bebo-o quando preciso.
Sabe-me a vinho tinto
Doce com a luz a que te pinto
Sempre que te apresento
A quem te é desconhecido.

Leve-leve é o lema
Só assim será divina a oferenda.
Mesmo depois de já não o vermos
O rosto de uma mãe
Será sempre, sempre um belo poema.

oferenda divina

Deixa-nos ser só um esboço.
Tu, velha lenda dos mares antigos
Eu, um conto esquecido e por ler;
Agora sinto só vergonha.
Afinal nunca fizemos por merecer
O amor que os Deuses em concílio
Nos resolveram oferecer.

Joana Futre é natural de Viseu, Portugal, e mudou-se para Lisboa para perseguir a sua paixão por Línguas, Literaturas e Culturas, acabando por tirar um Major em Estudos Ingleses. Ao abrigo do Programa Erasmus +, passou nove meses na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao regressar à capital, inscreveu-se no mestrado de Jornalismo. Atualmente trabalha como copywriter e content manager, aliando a investigação típica do jornalismo à criatividade necessária para ser feliz em indústrias criativas.

o nome de minha bisavó, poema de Tatiana Lazzarotto

descobri hoje o nome de uma de minhas bisavós

o espaço oco na árvore ganhou letras que deslizaram em minha boca de bisneta

Maria Rita

perguntei dela para uma tia, já muito velha, meia-irmã de minha avó

era cozinheira, me disse

ordeira, simples

e sozinha

pensei na bisavó que não conheci alimentando muitas bocas

deitando barriga num fogão quente de Recife

perdeu um filho cedo

a outra filha, minha avó, encaminhou-se para a morte também depressa

Maria Rita

um nome duplo que esconde a revoada de se ser só

morreu de câncer, assinalou minha tia

a língua pequena dizia que era pela quentura da cozinha

me apequeno sem saber não de quê, mas como ela partiu

se temia a doença desgraçada, se alguém segurava suas mãos mentindo que ia ficar tudo bem

se os médicos lançaram um olhar de lamento para o corpo com hora marcada de ser coberto

se ela sabia que eu existiria, mesmo em delírio

acendi uma vela para o nome que se descortinou nos galhos da minha ascendência

tentei atribuir um rosto ao nome envelhecido na certidão de óbito de minha avó materna

escrutinei em meu corpo qualquer traço do que me deixou Maria Rita

qualquer linha de expressão que ao bater o olho ela dissesse: essa é minha

ou será que é quando eu cozinho feito feitiçaria que Maria Rita vive em mim?

meia vela se consome sem respostas, eu me conformo com a imagem disforme da bisavó que concebi no peito

de posse do seu nome eu adentro a enfermaria abafada, confusa, com dois números que podem ser seu paradeiro

não me aborreço na procura, porque minha bisavó me sabe

cheguei com atraso, pergunto, pegando nas minhas a mão direita frágil que empunhou tantas colheres

é tempo, acolhe-me Maria Rita baixinho

a voz quase não sai, embargada pela doença, pelo reencontro que aboleta tempo e espaço

minha bisavó é pequena, mas se agiganta pelo fato de sermos duas

Silvas

o sol se põe e em meu invento não a deixo sozinha como passou a vida

percorro em seu rosto amarelado um sinal de que ela ainda se move

a mão que guiou as panelas me solta, como que me conduzindo ao fim do alento

foi quando descobri o nome de minha bisavó que me permiti encontrá-la morrer

Tatiana Lazzarotto é natural de São Lourenço do Oeste-SC e reside em São Paulo-SP desde 2011. É escritora, jornalista e mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). Participou da antologia independente Sós (2018) e é uma das integrantes do Clube da Escrita para Mulheres. Foi uma das contempladas pelo edital ProAC de Obras de Ficção 2020 e em 2021 publicará seu primeiro livro.