Brasil: (im)possíveis diálogos #17

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

“E daí?”

“Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa. Assim, na humanidade não para de morrer. Se você fala em vida, do outro lado tem morte. E as pessoas ficam ‘ó, ó, ó’. Por quê?” (Regina Duarte)

Por Angélica Amâncio

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Vitor Rocha

Por que
esse vírus
raivoso
parece latir
rumo ao porão,
ao precipício,
ao fundo do poço?

Treze de maio
132 anos depois
da canetada de Isabel, a princesa,
o número de negros
mortos
de coronavírus
no Brasil
quintuplica.

Faz dois meses
apenas
a primeira vítima
partia:
empregada doméstica
cento e vinte quilômetros
por dia
de Miguel Pereira
até o Leblon.

A patroa
recém-chegada da Itália
não mencionara
trazer na mala
como souvenir
um vírus.
Afinal, para quê mostrar
resultado de exame
para a gentalha, meu Deus?

Enquanto isso,
no Norte,
onde a floresta
continua a virar sertão,
o número de mortos
entre os indígenas
cresceu
em duas semanas
800%.

Longe dali,
em carros que custam
600 vezes
o valor
do auxílio emergencial,
marionetes desfilam
pelo fim
do confinamento
dos pobres
em verde-e-amarelo
alheias, insensíveis
à dança incessante
das escavadeiras.

É preciso
que cavem
velozes
que varram
para debaixo
da terra
os corpos
tantos, tantos
para que passem
a morte
como passaram
a vida
subnotificados
anônimos
atônitos
empilhados
uns sobre os outros.

Se tivéssemos
como presidente
um bom coveiro
e não um fake messias
talvez ao menos
no sepulcro
o abismo
que nos divide
não fosse tão profundo.

(13 de maio de 2020).

Angélica Amâncio é doutora em Literatura Comparada pela UFMG, em cotutela com a Université Paris Diderot — Paris 7. É pós-doutora em Literatura francesa, pela USP, e em Literatura lusófona, pela Université Sorbonne Nouvelle. Atualmente, é leitora de português na École Normale Supérieure, em Lyon, e chargée de cours no departamento de Estudo Ibéricos e Latinos-Americanos (EILA) e na l’ESIT (École supérieure d’interprètes et de traducteurs) — Paris 3. Suas pesquisas são voltadas, sobretudo, para as relações entre Literatura, outras artes e mídias. É também poeta, autora do livro Adagio ma non troppo e outras canções sem palavras (2015).

Brasil: (im)possíveis diálogos #13

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Descartes

Por Lúcia Bettencourt

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Vitor Rocha

Penso
logo não posso existir
como me querem
submissa
como as feras

Penso
e com isso surgem os problemas
O natural, a natureza
não correspondem
aos anseios
e receios

Penso
Ato tão pequeno
que ninguém explica
Deus e a Filosofia
debatendo entre si
minha agonia

Penso
E se o corpo é fêmea,
o que é a mente?
Talvez ilusão
mito da serpente
Pura sedução

Penso
Se isso é normal
outra é a falha
Ou talvez a culpa
seja de Descartes
por acrescentar
Existo

Penso
E não existo
Somente assim
Posso me explicar
Nesse momento
Não sou
Penso
Não existo
Penso
Logo, me crio

Lúcia Bettencourt escreve contos, romances, ensaios, livros infantis e poemas. É formada em Português-Literaturas pela UFRJ, com Masters em Spanish and Portuguese em Yale, e doutorado na UFF (Universidade Federal Fluminense). Colabora em jornais e revistas literárias. Seus contos estão traduzidos e publicados em revistas de língua inglesa, francesa e espanhola. Dentre os prêmios recebidos destacam-se ABL e Sesc.

Brasil: (im)possíveis diálogos #11

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horas rosas

Por Leonardo Tonus

a Pierre Seel, sobrevivente do campo de concentração de Schirmeck-Vorbrück, deportado por ser homossexual

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Vitor Rocha

tu és pedra
és alma
tu és relva—alva,
água malva—
viva de pai
mãe e filha.
tu és de Marília
a invertida,
eros travestida em prosa
de uma vida prosa
por tua ventura maligna,
pérfida pétala
de fim de mundo
neste fim do mundo
em que tu resides.
mundo em flor
mundo e flor
tu és minha flor
minha rosa,
rosamundo
de um mundo rosa
mundo em rosa
sem as rosas
de Rosa.
Rrosa judia
tu és a vadia,
minha asquerosa Selavy.
tu és seio em devaneio
de minhas noites carmim
em minhas noites escarlate
sem o esmalte
que lasca
que falta
pelos dias afins.
tu, a que se perde,
a boca oca
da elipse rota
da brecha púrpura sem fim.
do avesso ao avesso
pelo avesso
tu és a informe
o avesso disforme
que não se concebe
que nada concebe.
tu que pelos claustros erravas
que os mastros navegavas
os astros
até o astro-rosa
que ao peito levavas.
antes que os cães te devorassem
teus beiços arrancassem
os pelos lambessem
do teu pênis
de teus braços
do que foram abraços
que foram corpo
fora do corpo
hoje morto.
teu corpo,
pedra—alma,
pedra e alma,
cujos olhos ainda exalam o azul dos icebergs,
e as borrascas do Alasca!

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal, Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (poesia, Editora Nós, 2019).

Brasil: (im)possíveis diálogos #9

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Primavera

Por Aciomar Fernandes de Oliveira

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Vitor Rocha

Ainda haverá uma primavera
Mesmo que por hora eu não possa ver as flores
Deixo florescer minhas sacadas
Com a poesia que há na vida

Ainda haverá uma primavera
Enquanto se achem corações atrevidos
Para sonhar alegrias por vir

Alegrias e sorrisos
Desses que desafiam a lógica da existência

Ainda haverá uma primavera
Se houver paixões a serem vividas
Dessas que inspiraram Tristão e Isolda
E tantos amantes
Cujas palavras jamais dão conta de narrar

Esses amores além da palavra
Que os poetas insistem em fingir e imitar
São também uma primavera

E que haja versos
Pulsando como estrelas
Cujo brilho perdura
Anos luz após o seu findar
Desafiando a lógica do tempo
Existindo
Quando humanamente não é possível

Que haja primavera
Onde o solo e a matéria dizem não
Nestes territórios improváveis do viver
Já que a vida
é a eterna e divina lembrança
de que a primavera sempre retorna

E a vida
Guerreira mítica
Impondo-se como revés d
as mais brilhantes teorias
Se refaz das cinzas
Essa é a sua natureza

Após o vento
A tempestade
O frio
E o calor
Ainda haverá uma primavera

Aciomar Fernandes de Oliveira é palestrante, escritor, professor do Departamento de Letras da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). Mestre em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (2010). Atua na equipe de pesquisa do Neia — Núcleo de estudos da Alteridade da UFMG. Coordena o NIEHLAFRO — Núcleo de estudos em diáspora. É auxiliar de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. Membro colaborador da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB MG. Atua na comissão editorial da Revista Bantu, da UEMG. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: Poesia Contemporânea, Literaturas de Diásporas, Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, Produção de textos. É professor da rede estadual de ensino fundamental e médio de MG.

Brasil: (im)possíveis diálogos #7

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Janaína

Por Flávia Rocha

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Vitor Rocha

Janaína talvez perca
a guarda dos filhos. Distraiu-se
e o bebê se queimou
na prancha de alisar o cabelo.
Dali foi um pulo. Nunca
terminou de encher a banheira
para lavar as crianças.
O medo do leva
não leva ao médico
escreve negligência
num formulário, interpreta
como estatística o que se sabe
de uma mãe: negra
solteira, pobre. Que ela ame
os filhos é circunstancial
que os filhos a amem
é alguma esperança.

Neblina de fumo

Por Flávia Rocha

Tambores despertam santos
na neblina de fumo.

Entramos —

galhos cruzados fechando as estrelas.

Minhas mãos sobre os seus ombros
no túnel da infância.

Tambor pausa.
A entidade se aproxima.

Na voz escura
a entidade se acriança

solta os fios dos cabelos
com seus dedos invisíveis

acha graça de estarmos ali.

A mãe diz espera

Velas tremulam no escuro,
abrem os olhos dos santos.

Tumulto no altar de perfumes.

Tambor pausa —

Que coisa linda. Que coisa linda.

O pêndulo de mistério rosna e brada.
A mãe chama os santos em torno.

Poesia — Poesia —

Flávia Rocha é autora de três livros de poemas: A Casa Azul ao Meio-Dia (Travessa dos Editores, 2009), Quartos Habitáveis (Confraria do Vento, 2011) e Um País (Confraria do Vento, 2005). Seus poemas, traduções e ensaios foram publicados em diversas revistas brasileiras e internacionais. Tem mestrado em Escrita Criativa pela Columbia University, e por 13 anos foi editora da revista literária americana Rattapallax. É também jornalista e roteirista. Atualmente vive em Portland, Oregon, Estados Unidos.

quatro poemas para o livro de um amigo, de Jozias Benedicto

[1]

“Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.”
(Wisława Skymborska)

um livro sobre o voo
sobre o tempo e suas artimanhas
sobre o passado
e sobre um futuro que logo é presente e logo é passado

é um livro sobre um cubo e ele tem asas
— um cubo ao qual chamamos de casa —
solo, pátria, mãe, moradia, lume
um livro sobre mecanismos para contar o tempo

este é um livro sobre pássaros
e suas rotas
sobre paisagens terrenas divinizadas

é um livro sobre conter o tempo
sobre buscas e reencontros,
um livro sobre o desejo.

[2]

“O tempo o mesmo tempo de si chora.”
(Luís de Camões)

o livro é como uma bala prateada sobrevoando a cidade
sobre todas as cidades e moradias humanas
sobre amores e ansiedades
cristalinos iconoclastas

este livro é sobre navegantes e navegadores
sobre os sete mares dos sete vezes sete universos
sobre risos e lágrimas, sobre o farfalhar
de miríades de borboletas todas chamadas “tempo”

ah, este vagar por espaços
por tempos
por amores e por eternidades,

este querer ser dois e ser um,
este querer guardar e querer gastar,
este eu de mim mesmo chorando.

[3]

“Vivem de pouco pão e luar.”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

lembro das lições de caligrafia
lembro das agendas rasuradas e esquecidas
lembro de línguas mortas e beijos ocultos
da lua cheia que nos enlouquecia

o mar ao longe, as ondas pálidas, o reflexo
ardente da lua nas águas
as passagens que a nenhum lugar levavam
rezas anáguas novenas jejuns e confissões

as recordações, as nuvens, o cheiro de chuva
flores que duravam apenas um dia
cantos sussurros e segredos

ruas de pedras, sobrados e azulejos
memórias
luar

[4]

“Vê-se, como tão rápido anoiteço.”
(Sousândrade)

se as manhãs trouxeram a vida e o amor
o sol dos dias
os dias que se seguem aos dias
como soldados marchando incessantes sob o sol

se as tardes vieram com flores e humores,
chás e febres
visitas inesperadas e sinos ao longe
cheiro de bolo de laranja e canela

as noites trouxeram perigos —
o esperar de alguém que nunca chega
a gargalhada descompassada ao longe

mas trouxeram também
a paciência e a temperança
as memórias guardadas nas folhas de um livro.

| os “Quatro poemas para o livro de um amigo” foram escritos para o livro Minhas verdades incompletas, do fotógrafo Denilson Machado (2020). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, com especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Participou da XVI Bienal de São Paulo, em 1981. Trabalha com videoinstalações, performances e pinturas que unem literatura e artes visuais. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas (Editora Apicuri, 2013), foi finalista do Concurso Sesc de Literatura 2012/2013. Como não aprender a nadar (Editora Apicuri, 2016) conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 na categoria Contos e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Recebeu, ainda, premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção, sendo editado pela Editora Patuá. Em 2019 lançou, pela Editora Urutau, um livro de poesia, Erotiscências & embustes.

sete poemas de Rodrigo Garcia Lopes

um sonho

Nas ruínas dos shoppings, nas ruas vazias
de uma metrópole em miniatura, sem nome,
o mato dominando tudo. Ruídos estranhos.

Vitrines quebradas lembrando teias de aranha,
caixas de produtos, bolor, pôsteres manchados
de sangue. Um telefone público tocando para ninguém.

Elevadores, escadas rolantes (ainda funcionam)
E você alcança o quarto 2014 através
das barbas-de-velho e goteiras nos corredores.

Labirinto de imagens, HOTEL HADES, fantasmas
da amnésia afetiva. Você não só jamais esteve aqui
Como percebe um bilhete diante da porta

a seus pés, onde se lê:
Faltam só mais alguns segundos
para Nada acontecer.

quarto escuro

O detetive avança pela desordem do estúdio.
A mobília está calada como testemunha.
Lá fora folhas se reviram, se estudam.

O telefone calado como um caramujo.
Um ano depois e todas as pistas
Deram em becos sem saída e luto.

“Nada disso está acontecendo, escuto
meus próprios passos sobre o escuro.
Dois gatos negros transando num muro.”

E o criminoso ali perto,
pronto para revelar quase tudo.
E na pequena floresta da biblioteca

O verde é um código secreto.
O detetive deita e cai num sono profundo.
E a carta o tempo todo sobre o criado-mudo.

a última viagem

Pisou na praia
pela primeira vez
em séculos —
Gaivotas o vigiavam.
Olor de algas.
O vento salino, ardente e Sul.
Odisseu desceu
da balsa murmurando
alguma coisa para si
num dialeto quase extinto.
Arrumou os remos, poucos peixes,
sob a música de um alto-falante
contra um por de sol salmão.
Depois, viu as lâmpadas frouxas
piscando nas casas do povoado.
Maresia de maconha alcançou suas narinas.
Funk.
Risadas altas.
Nenhum pescador o reconheceu.
Penélope nunca existira.
Aquela não era sua lenda.
Ítaca nunca existira.
Odisseu virou-se para a praia sem história
e nada disse:
acendeu um cigarro e contemplou
o azul escuro absurdo do mar noturno
contra as linhas brancas incansáveis
da arrebentação.

tempos de celebridade

Carlos, na próxima encadernação
Nascerei filho de alguém famoso.
E então, como um cão raivoso,
Não largarei meu precioso osso.

Quem disse que é preciso ler,
Ter talento? Não seja ridículo.
Esforço é coisa de otário.
Meu sobrenome será meu currículo.

Vou escrever uns poemas fofos
Umas cançõezinhas ordinárias
Com uma certeza: o Brasil nunca saiu
Das capitanias hereditárias.

et in Arcadia ego era seu lema

Viveu anos isolado no mato
Acreditando ser seu próprio mito.
Gordas gaivotas eram suas pastoras, Egito,
sua sala de estar. Amigos,
quase não tinha. Sua amante,
a escrita.
Termópilas, a caminhada pela trilha
até a praia do dia.
Por um tempo praticou a arte
da invisibilidade.
Levitação.
Hipnose de ondas.
Bibliomancia.
Com a natureza aprendeu a ficar mudo.
Fazia poesia sem receio, de tudo.
Da natureza aprendeu a ter apenas medo
Ou um imenso respeito.
Et in Arcadia Ego era seu lema.
Do que escreveu, ninguém se lembra,
Queimaram tudo.
Mas sua vida virou objeto de estudo.

Manasota Key

Nas páginas do mar
pelicanos em linha
escrevem as sombras de seus peitos
ao quase tocarem uma onda.
O sol rascunha rubros
bilhetes de despedida, toda tarde.
Golfinhos, suas barbatanas
relatam os rudes caminhos
pela pradaria das baleias.
Mergulhões redigem sua escrita kamikaze,
suicida, invisível por instantes.

Nas páginas da areia
(cujas conchas são suas obras completas)
fósseis negros de dentes de tubarão
escrevem a autobiografia
de dois milhões de anos.
Rastro de guaxinim,
seu romance de aventura
da duna à estrada.
Um siri deixa sua assinatura
sobre marcas de pneus de um SUV.
Garrafa com uma mensagem, um pen drive
com a história de um naufrágio.

Nas páginas do céu
nuvens ancestrais e sempre-novas relatam
suas viagens sobre o mundo, infinitas.
Furacões emplacam best-sellers
sobre o Golfo do México
enquanto folhas de outono caligrafam no ar
ideogramas precisos,
memórias do vento.
Satélites traçam haicais de luz.
A lua amarelo-limão descreve seu brilho solene
sobre as palmeiras da Flórida.

Eu não escrevo nada.

romance policial

A lanterna da lua banhava o morto.
No rosto do detetive, nenhum sopro
A não ser o ar pesado do mangue, o corpo
Caído, espesso sangue, e o pouco
Dito pelo policial com cara de mau
Que agora segurava um castiçal
Interrogando a loira de olhos negros
Que trabalhava para um restaurante grego
Da grana e dos bilhetes estranhos no porta-luvas,
Do estranho esgar de sorriso, do sangue em sua luva.
E antes que a canção no rádio acabe
Ele diz: “Para salvá-la, só um milagre”.
Nas mãos, a carta rasgada ao meio, garrafa de uísque
Pela metade. Mas ainda é cedo para que ele se arrisque.
Nada ficou claro nos depoimentos, de como essa sereia
Foi encontrada pela estrada à lua cheia:
“Do que não se pode falar, deve se calar”,
Ela disse, bem no momento dele virar
E ser beijado por seus lábios fatais.
A lua aumentava seus cristais.
Seguiu-se um minuto de silêncio
E os grilos pontuavam um indício. Ela disse:
“As pistas estão em toda parte, em seu diário,
No dia dezesseis em vermelho no calendário”.
Enquanto o detetive revistava a lua
A loira derramou uma poção branca na sua
Garrafinha de uísque. “Nessa profissão, é preciso jeito
Para resolver este quase crime perfeito”.
Ela não dizia nada, ou quase nada, só o olhava
Sabendo que a verdade estava em cada palavra.
A esta altura, tudo parecia bem nítido
E agora ele a forçava a beber o líquido.

Rodrigo Garcia Lopes é poeta, compositor, romancista, jornalista e tradutor (Walt Whitman, Sylvia Plath, Arthur Rimbaud, Laura Riding, The Seafarer, entre outros). Em 2011 seu poema “Stanzas in Meditation” foi publicado no best-seller Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século 20 (Editora Objetiva). É Mestre em Humanidades Interdisciplinares pela Arizona State University, com tese sobre William Burroughs, e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre Laura Riding. Em 1997 lançou Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Iluminuras), com 19 entrevistas com nomes como William Burroughs, John Cage, Charles Bernstein, Marjorie Perloff, Chick Corea, Meredith Monk e Allen Ginsberg. Em 2018 lançou Epigramas, de Marco Valério Marcial (Ateliê Editorial) e Roteiro Literário Paulo Leminski (Biblioteca Pública do Paraná). Experiências Extraordinárias (poesia, 2015) e O Trovador (romance policial, 2014), foram finalistas do prêmio Oceanos de Literatura. O Trovador foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.

Facebook: https://www.facebook.com/RGLoficial/

Site oficial: www.rgarcialopes.wix.com/site

seis poemas de Adriane Garcia

mandrágoras

Nas profundezas escolho e colho
Tem que ser muito fêmea
Pra saber lavoura
Pedra, praga, erva daninha
Terra que não ajuda, chuva pouca

Nada de alfaces, a folha verde e suave:
Eu só arranco tubérculos.

a teia

Presa
A aranha
Tece

o tamanho da fila

Olhe para trás
Sua fila
Todos esperam
O que você não tem
E você não diz
Eles têm olhos pedintes
E você quer fugir
A fila persegue

Olhe para trás
Melhore ou piore
A fila é insensível
E estendem a mão
E você não dorme
Tem pesadelos
A fila penetra
Seus sonhos

Você quer explodir
Quer mandar ao alto
A fila em pedaços
Mas o vendedor
Da nitroglicerina
Também vai para a fila

Você olha para os lados
Vê a fila dos outros
E vê você próprio
Várias vezes
Noutras filas.

o ovo

A Solidão botou um ovo
Azul, grande, esperançoso

A Solidão sonhou em ser
Para sempre acompanhada

A Solidão chocou sozinha
Meses, anos, séculos a fio

Seu mudo ovo gorado.

esculturas vivas

Repare nas mães
Tendo ao colo filhos dormindo:
Pietás de carne e osso
Carregando destinos.

necrose

Tem coisa que dá errada
É certo
É saber escrever, dar ponto
Final com linha cirúrgica
Torcer que feche e ajudar
Não abrindo com os dedos
Ferida
Mas cheia de apego, a memória
Quer a sobra do amor
E gangrena.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Editora Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Editora Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Editora Confraria do Vento, 2015), Enlouquecer é ganhar mil pássaros (e-book pela Vida Secreta, no Issuu, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Editora Penalux, 2018) e Arraial do Curral del Rey (Conceito Editorial, 2019).

cinco poemas de Mário Alex Rosa

a dimensão das coisas

Tenho por ela
a dimensão das coisas:
à noite, as estrelas aventuradas
contadas como segredo revelado.
O céu que se expande
no amor que se ganha
amplia o toque das mãos
enlaçadas por instantes de afetos
demorados na eternidade.
Tenho por ela
o que não se pode perder:
o silêncio das manhãs de cafés
a cor viva da laranja que convida
a palavra repartida na ponta da língua
a dar ao dia sua melhor fatia.
Tenho por ela
o que não se dimensiona
a começar pelo começo
que já é infinito.

poetry

Escrever preto no preto
não na imagem branca do branco
árido de luz branca que se ofende
ao dar a escrever preto no branco
vazio de infiltração?
Escrever com a luz negra da ponta
do lápis firme na sua empreitada
divergente à luz pálida do branco.
Escrever no escuro do preto
contra e sem ver você.

dúvidas apócrifas de JCMN

Sempre quis evitar a si,
Mas evitando um eu,
Outros apareceram:
Pernambucou-se e sevilhizou-se.
Não há de quê não testemunhar
Que se seu pudor cabralizou-se
Na confissão que por avesso se impôs
Habitado por fora o que se esconde por dentro?
Entre a palavra e a pedra, o poeta
Quis falar da coisa em si,
Substantivo concreto ou mineral
Quem não duvida era o (in)certo?
Não há como saber,
Mas sabendo por saber
Que diante de tantas coisas
Contrárias em si não seria a mesma coisa?

catar o sujo

Fazer o poema
é varrer o sujo da casa
acumulado por todos os cantos
da quina dos quartos
ao fundo das gavetas
abarrotadas de mundos
impróprios.
Fazer o poema
é refazer o sujo
habitado na incômoda
cômoda estacionada
no quarto do passado.
Fazer o poema
é catar o sujo de onde mais
se esconde o oculto presente.
É olhar no espelho de frente
a impureza do poema.

três palavras

Tenho três palavras:
alegria, felicidade e amor.
E nada sei delas e nem elas de mim.
Se for para compor um poema sobre a primeira,
Bastaria apenas dizer: alegria.
E nada seria diferente com a segunda: felicidade.
Já o amor, essa sim demoraria o infinito
Para sabê-la numa só palavra
Que por si só o poema bastaria.

Mário Alex Rosa é natural de São João Del Rei. Licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Universidade de São Paulo, com dissertação sobre o livro Farewell de Carlos Drummond de Andrade, e Doutor em Literatura Brasileira também pela USP, com tese sobre a poesia de Armando Freitas Filho. É autor dos livros infantis ABC futebol clube (Editora Aletria, 2015) e Formigas (Cosac Naify, 2013); dos livros de poesia Ouro Preto (Editora Scriptum, 2012) e Via Férrea (Editora Cosac Naify, 2013). É editor na editora Scriptum — BH e da coleção Lição de coisas — Tipografia do Zé — Belo Horizonte.

Brasil: (im)possíveis diálogos #3

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Dois poemas s/título

Por Manuella Bezerra de Melo

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Esperar um anjo com sua trombeta
esperar cuspir as pérolas antes de engolir
os rubis na areia
a areia em cascalhos
os pés sujos de pixe
o pixe sujo de cobiça
as pérolas cagadas dos porcos

Esperar uma noite bonita
um momento sublime
a luz ideal de velas
do lustre
do sorriso do gato
do breu
do silêncio que precede a guerra

Esperar que cresça o filho
um ano tem 365 dias
um filho viverá muitos anos
até que você voltará a dormir
uma noite parcial
nunca mais voltará
nunca mais voltará a dormir

Esperar pelo verão três estações inteiras
tempo é o que dura um terço de um ano
folhas secas animais mortos
pelos de gato nas almofadas
há uma primavera no entremeio
adubo aduba tudo
tudo morreu até você

Esperar que estanque o sangue
contemplar o fim da sangria na jarra
beber o vinho do escuro de um céu
e dançar com o homem coxo
o fado da sereia minhota
sob uma pedra azul brilhante
trazida na valsa de uma águia

Esperar que cresçam os cabelos
os fios do cabelo precisam do sol do verão
não crescem porque são cortados
são cortados por não crescem
queria-os longos mas os corto
como corto minha língua
minhas asas e meus punhos

* * *

Um dia qualquer, num sonho com a morte
extraviavam miolos numa intangível nau
que boiava ao mar soprada no vento às velas
até alcançar a branca areia latina

Nas imagens desconexas como sonhar o sonho
ou como a dor do sonho e da vida
avistava acordada os sonhos de dormida
e vomitava sob a cama a vontade dos lençóis
em minutos era infeliz e insatisfeita
foi tão forte que doeu a vida inteira

As amigas estavam mortas
e seus corpos foram sepultados neste corpo
condenado a carregá-los no ventre
e as gerar inteiras, restos e suas cóleras

Como mãe, sangrei nas pernas estas vidas mortas
mas como mãe celebrei a glória do gestar
um feto despejado do seu alojamento local
depois esqueci-me do sonho mas fiz notas
nas folhas de uma agenda do ano passado
amassada, foi ao lixo junto as fezes do gato

Manuella Bezerra de Melo é licenciada em Jornalismo, pós-graduada em Literatura e Interculturalidade e mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas. Publicou Desanônima (Editora Autografia, 2017), Existem Sonhos na Rua Amarela (Editora Multifoco, 2018) e Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Editora Urutau, 2019). Participa do coletivo Palavra Voa, onde opera como facilitadora, moderadora e realizadora em atividades literárias. Já teve seus poemas publicados em portais, blogs e revistas literárias brasileiras e portuguesas, entre elas Etudes Lusophones, Incomunidade, Escamandro, Germina, Revista Pixé, Revista Gueto, Revista Palavra Comum e Mulheres que Escrevem.