quatro poemas do livro ‘Férias na Disney’, de Bruno Molinero

açougue

não
não
o que eu ensinei naquele vídeo
foi a desossar um leitão inteiro
só isso
como posso ter culpa do que
aquela molecada aprontou?
rejeito
nego
recuso
afinal
todo mundo gosta de assistir
barriga de bicho sendo aberta
ver focinho em tigela gelada
enquanto escuta problemas
debate úlceras e amarguras
não gosta?
tenho mais
de cem mil
views e só
tentei aproveitar a audiência
unir a carcaça aos despojos
entende?
quando faca afiada de lâmina fina
corta superficialmente as costelas
tiradas osso a osso a osso a osso
é como se eu pegasse as cédulas
desviadas das nossas mil estatais
e escancarasse o sistema podre
berrando
vagabundos
canalhas
o porco escavado ao vivo
com suas miudezas flácidas
a coluna vertebral já extraída
garras ósseas feito crustáceos
dedos em menstruação suína
zurro
suado
mexido
quando foi a última vez que
você saiu de casa sem medo?
hein?
quando?
faz tempo?
os bandidos balançam na
ponta de inox que decepa
cada bochecha gorducha
do bacorinho destampado
rasgando ocos e articulações
as patas serradas e estáticas
lombo dilacerado rumo ao rabo
gume abrindo vasos como livros
o ísquio preso à cartilagem tenra
torcido até que o branco do nervo
fique visível e possa ser retirado
como todos os nossos políticos
devem ser extirpados deste país
esgoelo
escumo
besunto
mas nunca nunca podia pensar
que essa molecada tão jovem
faria uma barbaridade dessas
jesus
tão meninos tão menininhos
meus sentimentos à família
lamento
mas e daí?
como eu teria evitado?
não estava lá na hora
sequer conheço essas
crianças ou a vítima
só gravo vídeos
apenas isso
e desosso
leitões

não tenho nada contra

mas

um corpo

olha
olha ali, pai
uma sereia
berra o menino
sunguinha vermelha
dedo apontado pro
corpo roliço e cinza
lambuzado de areia
não
isso é um golfinho
aplaude o homem
as mãos no animal
buraco de respiração
abrindo e fechando
pupilas derretidas
guarda-sóis azuis
vitrais de igreja
veja, amor
o que achamos na beirinha
anuncia o pai de férias para
a mulher que afasta curiosos
melecados por breja e sacolé
ombro a ombro gesticulando
corre, tem um golfinho aqui
é meu
nem vem
nós vimos primeiro
trovoa a voz da mãe
na amarela maresia
o celular já preparado
ei
moço
tira uma foto nossa com
essa dádiva de deus?
mas a multidão de dedos e
bundas de biquíni fio-dental
leva pra longe a pele rachada
do bicho que balanga cheio
de protetor solar e amendoim
credo, achei que fosse cobra
guincha a velha de maiô rosa
pras crianças excitadíssimas
nossa, mas ele tem dentinhos!
barbatanas de mão em mão
o bico sorridente na internet
um homem põe dois dedos
e uma lata de cerveja
no orifício respiratório do corpo
que chega ao carrinho de mate
meio troncho, quase abalofado
mas tá morto essa desgraça
chuta o vendedor de fruta
aquele peso preto
filé milanesa
prato feito
urubu
boneco
empalhado
afastado
dos parças no futevôlei
da velha bêbada no maiô
das crianças baratas tontas
do chá gelado, meu bom?
do caldinho mais barato
e daquele menino
sunguinha vermelha
que desenterra
uma concha
olha
olha, pai
uma armadura

top

polegar e
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

posso
tentar
também
papai?

pequeno
polegar e
pequeno
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

papai
papai?
papai!

| poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo). |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido, livro que venceu o Prêmio Guavira de Literatura, e Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo).

quatro poemas do livro ‘Corvos contra a noite’, de Diego Vinhas

corvos_contra_a_noite_capababel

dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
_______________a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

da pós-verdade ao
pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

giallo

empunhar o cansaço como
uma espada de iansã, proteção contra
estar dentro de um filme italiano
em que do matador em série
aparecem apenas as luvas pretas
de couro. escolher as armas: livros e
amores (os mais queridos, de segunda
mão), além de imagens riscadas em
sonho, como o olhar de vidro dos
pescadores saudosos de algo que o mar
não devolve. como as guirlandas,
helênias, gérberas e outros nomes reais
ou inventados de flores ou de meninas
assassinadas. você sabe, esta casa
retrocede e dobra e se curva ao sabor
da fuga. só temos que voltar antes
que o filme acabe. por enquanto, pilhar
toda ninharia que componha o paiol —
uma península, uma paz tarja-preta, um
bestiário de figurinhas autocolantes,
o cheiro de chuva do seu cabelo.
escolher as armas na pressa, sob
o manto protetor do meu cansaço.
há mandíbulas em volta se fechando
em carniça, não há muito tempo.
você tem a chave, mas não é fácil ler
as linhas borradas do seu rosto.
daqui parece um sorriso

sesmarias

1% dos mais ricos do mundo detém a mesma
riqueza que o resto dos 99%.

seis brasileiros concentram a mesma renda
que 50% dos mais pobres.

nos EUA a média diária de consumo de água
per capita é de 575 litros enquanto na Etiópia
é de 15 litros.

dez multinacionais têm mais capital que 180 países.

mulheres recebem, em média, salários 30% menores
que os homens quando ocupam os mesmos cargos
e com a mesma formação.

o motorista do Dr. Mansur
é filho do motorista do pai do Dr. Mansur.

aquele zé-ninguém puxando conversa com a
madame. se o coronel manda apagar não dá nada.

advogados só podem despachar com magistrados
às 3as e 5as, das 14hs às 17hs (alguns
não atendem mesmo).

você sabe com que está falando?

pão nosso

com tanto amor
totalitário
pingando
de vossa excelência

este que vos fala

tão menor
tão merecedor
de amparo
piedade e esmola

só poderia

agora
na ágora
do corpo

replicar com
ódio

| poemas do livro Corvos contra a noite (Editora 7Letras, 2020). |

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza em 1980. É defensor público e participou de antologias do Brasil, EUA e Portugal, além de ter publicado em diversas revistas, como Inimigo Rumor, Cult, Sibila, Escamandro, Modo de Usar & Co, Gueto, Zunai, dentre outros. É autor dos livros de poemas Primeiro as coisas morrem (2004), Nenhum nome onde morar (2014) e Corvos contra a noite (2020), todos pela Editora 7Letras (RJ).

três poemas de Alice Vieira

BREVE GLOSSÁRIO DO INTRADUZÍVEL EM RUSSO

I

туча [tútcha]:

uma nuvem — carregada —
será a tristeza ou
um lance de dados
façam suas apostas se

um poema, um coágulo

II

Cоловей-Pазбойник [Soloviei-Razbôinik]:

teu nome, poeta
tua mão assassina
num imbróglio
homem-pássaro
fogem de ti
como da morte
tua canção avilta
teu silvo anuncia
uma sombra
um sabre de batalha

NUNCA ENTENDI QUEM ESCREVESSE ROMANCES

Nunca entendi quem escrevesse romances.

Canta, corpo
salvo você
quem me fabrica?
quem azula um risco
na cútis
quem afunila a matéria
suspensa
ao perigoso estrondo?

PROMETEU

quem perde o medo de morrer não perde
nada
puir o rosto e o invólucro
para exibição aos meus pares
espera-se que eu, às vezes,
me veja refletido
espera-se que eu, às vezes,
faça menos barulho
não atrapalhe
o sono dos outros
quem perde o medo de morrer
não reconhece
o fogo sagrado
não dá aos homens
dissolutas

mãos de pedra

Alice Vieira mora em Belo Horizonte desde 2009. É doutoranda em Estudos Literários pela UFMG. Tem poemas publicados nas revistas Germina (2016), Em Tese (2018), Gueto (2018) e Ruído Manifesto (2019). Publicou, em outubro de 2018, seu primeiro livro de versos, intitulado {Open Source}, pela Editora Penalux. Em 2019, fez parte da coletânea Poemas Reunidos I da revista portuguesa A Bacana.

mais um lapso, poema de Ellen Maria M Vasconcellos

Eu tenho medo
que eu desapareça
não só por um tempo
o que já é uma ideia ruim
mas totalmente compreensível
que você se esqueça de mim por um par de semanas
faz parte do rebuliço diário
um esboço efêmero do que seria ser um corpo finado

mas pelo bem da verdade
ninguém quer ser visto ou lembrado
o tempo todo
nenhum homem ou mulher
merece sofrer de lucidez eterna
(um viva aos lapsos mnemônicos)
até eu mesma me escondo
de mim mesma às vezes
e também me esqueço tantas vezes
perdida em outros trajetos
mais interessantes

o que é curioso pensar:
a consciência como algo que nos impomos
para lembrar de si e não se perder
para sempre nos outros
nos percursos entre as palavras e as coisas

mas só de pensar já me estremece
a ideia de desaparecer
não o corpo (este
o perdemos sem nenhum mistério)
mas o pensamento
que você me perca
que eu não exista em nenhum
pensamento

o para sempre mesmo
não me interessa
ninguém vive para sempre
nem mesmo as obras primas das obras
são primas para todas

o para sempre real mesmo
nem realmente existe
o planeta não dura esse tanto
e o tempo é uma teoria que não resiste
fora do nosso contexto histórico

(li em algum lugar
que o calendário dos despertos
é tão arbitrário quanto o tempo dos sonhos
para quem está dormindo é outro regimento
ainda que o corpo por dentro siga contando
para outras tribos é outra coisa)

o que eu estava dizendo
é que tenho medo que eu desapareça
mas não é nem bem isso
ou mas não é só isso
porque eu posso não desaparecer
mas me converter em outra coisa
uma vez falamos sobre a possibilidade
era uma lei da física
o corpo que se desintegra e vira adubo
para outra matéria
e nada é como antes

tampouco quero ser certo tipo de lembrança
como cada vez que você pensa no seu passado
(e nós não pensamos nele tanto assim
porque a vida é mesmo urgente)
quando você pensa nos livros que leu
no período de tanto a tanto dos anos x e x+1
vem uma notinha do editor ao pé da página
para o período em que ela
— no caso eu —
também esteve lá

os livros emboloram
(vivemos num país úmido)
e caem para outras prateleiras
e se perdem voluntariamente
entre caixas de mudança
ou às vezes desejamos
com toda nossa vontade
que um livro se perca sozinho
e ele se perde como países

tem as teorias que caem também
em desuso porque nascem outras
que combinam melhor com o novo tempo
um pensamento muito capitalista e enciclopédico
um pensamento muito de seu tempo

daí também existe ainda outro risco
que na verdade é o risco mais provável
que eu seja substituída
e isso já é praticamente uma consequência
do meu desaparecimento
uma substituição é atributo
de quem aparece o tempo todo
ou ao menos
muito mais tempo do que eu presumo

que meu medo é um medo justo
e tal como são todos os medos
ele desaparece às vezes
quando me vejo em algum verso
de algum texto seu
e ganho forma

e aí me vem um pensamento
o contrário de medo não é coragem
mas convicção
de que eu ainda existo
de que eu não desapareci
e nesse momento
eu volto a ocupar a fileira
da biblioteca que fica bem diante
dos meus e seus olhos (úmidos)

todo medo é genuinamente
pessoal e intransferível
e por isso a convicção é tão tola
quanto o próprio medo

meu medo
é que eu deixe de ocupar
um espaço e um tempo
como às vezes se deixa
de acreditar na ideia
do amor infinito
uma utopia é sempre baseada na realidade
apesar de tudo o que em contra
já foi dito e feito

o meu medo do desaparecimento parece
(como tudo o que nos move
não pra frente mas pra cima)
sem querer querendo mais um desejo
de mesmo que mínimo, mas não mísero
de vez em quando ainda
te causar um assombro
um arrombamento.

Ellen Maria M Vasconcellos nasceu em Santos e atualmente vive em Brasília. É doutoranda em literatura latino-americana pela USP, mestra, graduada e licenciada em Letras português e espanhol pela mesma universidade. Além de tradutora literária freelancer, é editora de materiais didáticos e literatura em línguas estrangeiras (espanhol e inglês). Também é autora dos livros de poemas Chacharitas & gambuzinos (edição bilingue, 2015) e Gravidade (2018), ambos publicados pela Editora Patuá. Contato: [link]

lançamento do livro ‘A clareira e a cidade’, de Rodrigo Novaes de Almeida

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Clique na imagem para comprar o livro no site da Editora Urutau.

A Editora Urutau e o autor apresentam o livro A clareira e a cidade, já disponível para venda no [link]. E sábado, dia 11 de julho, teremos uma live de lançamento. Veja mais detalhes no [link].

* * *

A clareira e a cidade é o quinto livro de Rodrigo Novaes de Almeida, sendo sua primeira antologia poética. O título remete ao pensamento de Martin Heidegger — para este, a linguagem é a morada do Ser e cabe aos poetas e pensadores habitar nessa morada.

No entanto, as questões levantadas na obra que o leitor tem em mãos não são metafísicas, e sim aquelas que exigem uma práxis que liberte o homem da vida massificada. A proposta heideggeriana é ontológica. As inquietações filosóficas do poeta buscam um pensamento que não atropele os movimentos sociais e ao mesmo tempo dialogue com as questões atuais. De modo especial, uma antropologia.

Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.

(Tito Leite para o posfácio de A clareira e a cidade)

DO FILHO MALSUCEDIDO

há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)

um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz

como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si

SOBRE O QUE SONHAM MONÓCEROS?

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

_____(mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
_____em que erramos em tudo,
_____em que nunca estivemos tão tristes,
_____e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.)

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

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Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

três poemas do livro ‘Midiaserável’, de Delalves Costa

1 CAPA Midiaserável 2020 Editora Patuámade in Brazil

O catador pão-dormido então acordou
envolto ao frio e vento
sob notícias do jornal.
O café matinal é farto:
folhados, quinhentos-queijos café
expresso londrino pães
leite suíço (vacas azuis)
e sucos do laranjal tipo export.
Made in Brazil, a fome à farta
mesa tupiniquim: suor
de sol a sol bordado com petróleo
e estampa canavieira.
Enquanto isso, brasil
(de ruas viadutos calçadas)
vaga à revelia empurrando
recicru i fasso linpesa,
a língua-urgência de quem quer comer.

o cobertor-jornal

E de quebranto, o céu da minha boca
conheceu a Noite. A criança
levada de rua, pelos cabelos
arrastada posta aos olhos do caos.
Sempre que nos sepultam
neste mundo vaidoso, condolente,
um súbito mau-olhado desalinha-
se os gritos a infância toda
pede socorro a quem cerra os dentes.
Quer-se fôlego? Suplica-se!
Lua, estrelas de férias no bocejo
não iluminam o cobertor-jornal
sobre o feto já sem útero.
Nessas horas ninguém vê nada:
até vento atravessa a rua
para não acordar a pátria
entre as notícias que já não sonham.

ousa — dia de nascer

Se se sabia que era impossível? Ora,
existir é para quem ousa
e planta penso no útero,
resistência para a letal inconstância,
às g(estações do tempo)
que alimenta pensantes
e mata homemporâneos.
Refletida em alto-relevo,
seca, é cor terra a mente
eis um dia viva semente
no torto voo do pássaro
dos monstros, liberte-me
e faça in(tenso amor comigo). Ora
gauche, ora genética. Eis
que o verso nasce, e finjo
disfarço invento e insurjo
para os tortos filhos (sobre trilhos)
falarem de ética no caos!

| poemas do livro Midiaserável (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Delalves Costa (13 de dezembro, 1981 — Osório, RS), poeta e escritor com vários livros editados. Obras recentes: extemporâneo (Editora Coralina, 2019), Midiaserável (Editora Patuá, 2020) e Óculos de princesa (Papo Abissal, 2020, infantil). Em 2019, foi um dos 60 autores selecionados para o Projeto Autor Presente, do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Mestre em Educação (Uergs). Graduação em Letras Português e Literatura Portuguesa (Unicnec). É professor de Língua Portuguesa, Literatura, Metodologia de pesquisa e Linguagens Aplicadas na rede pública estadual de ensino do RS.

s/título, poema de Mariana Godoy

I.

a primeira morte acontece
quando a infância se torna vida passada
e reencarnamos adultos

ainda que pareça impossível tamanha dor
não chega a ser pior que a segunda

quando acordamos idosos
e começamos a procurar nossos rostos
nos rostos dos nossos filhos.

II.

será que quando morremos voltamos
como filhos dos nossos netos?

pode ser essa a tragédia humana afinal:
estar sempre na mesma casa
com as mesmas pessoas
limpando a mesma estante de vidro.

eu não ficaria surpresa
em ser a piada de deus.

Mariana Godoy nasceu no interior de São Paulo em outubro de 1996. É poeta, atriz e pesquisadora da educação. Publicou o livro de poemas O afogamento de Virginia Woolf, pela Editora Patuá, em 2019. Tem publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Arribação, Mallarmargens, entre outras.

cinco poemas de Nic Cardeal

anatomia

Pesquisadores descobriram que os ossos dos camaleões brilham no escuro através da pele.
Os peixes têm ossos finos chamados espinhas.
As borboletas são revestidas por uma espécie de armadura que segura suas asas.
Os ossos dos homens quebram fácil com o passar dos anos.

Camaleões mudam de cor.
Peixes mudam de águas.
Borboletas mudam de flor.
Homens mudam de ideia.

Os camaleões fazem coisas absurdas com os olhos.
Os peixes fazem coisas absurdas com as brânquias.
As borboletas fazem coisas absurdas com as asas.
Os homens fazem coisas absurdas com os homens.

Camaleões são solitários.
Peixes morrem pela boca.
Borboletas são lagartas a caminho do céu.
Pesquisadores não sabem por que os homens demoram tanto para ver com o coração.

comportamento

Cientistas descobriram que borboletas bebem as lágrimas das tartarugas,
as lagartixas conseguem regenerar a cauda perdida para o predador,
os pinguins são capazes de se consolar uns aos outros, diante da perda dos companheiros,
humanos não sabem para que serve a empatia.

Tartarugas não têm nenhuma pressa em viver,
lagartixas são hai-cais de jacarés,
pinguins vivem toda a vida com o mesmo amor,
borboletas vivem duas vidas consecutivas,
poetas são colecionadores de esperanças.

Tartarugas gostam tanto de ficar em casa, que carregam a sua nas costas,
borboletas ficam em casa/casulo, quietinhas, durante boa parte da vida, sem reclamar,
pinguins sabem a importância de um abraço quando perdem o amor/sua casa,
os homens não entendem o que significa ficar em casa.

— Cientistas não sabem dizer se haverá futuro depois de amanhã —

quase agora

Depois a gente esfrega o chão
recolhe os tapetes
ergue os varais com as toalhas e os lençóis
corta a grama que já extrapolou os limites
abre as persianas e deixa chegar outro sol

depois a gente corta o fio
afia a navalha
estende o cordão entre as paredes
pendura as fotografias que sobrarem no baú
precisaremos afinar o olhar — o jeito certo de olhar —
para não perder nenhuma palavra desviada
daqueles olhares estancados da vida
como meros ingredientes do nada

depois a gente chora
enxuga o leite derramado
diz o amor engolido a sete chaves
corre o risco de perder a hora, o trem, a viagem depois do fim
e recolhe cada um dos abraços deixados de lado
na cama, na poltrona, na cadeira da cozinha, sobre o armário
empilha um por um, dobrados e cobrados,
nunca dados, os beijos desejados

por ora, resta-nos a máscara
o lábio amargo
a garganta seca
luvas guardando dedos sem anéis
em mãos mil vezes lavadas em água, sabão e desespero

por ora, já é quase agora
essa pobre senhora desconhecida
estendida no varal entre razões escusas
a vida — por um fio.

ao sair, apague a luz

O país em delírio coletivo
o rei, insano, proferindo brados loucos,
carregando consigo vassalos ensandecidos,
enquanto nós, parecendo poucos,
nada conseguimos,
estáticos, trancafiados em nossos desesperos tantos.

De que adianta a minha casa guardada
se lá fora tanta gente dando a cara ao tapa
da morte — já tão forte —
procurando-nos de porta em porta?

A vida suplicando trégua,
a vida sussurrando rouca:
— haverá melhor caminho para o nada?

subnotificado

Onde um corpo se deita não há mais lugar para a esperança,
nem espaço suficiente para a coleção de ontens,
lembranças já não servem ao corpo findo,
roupas novas, sapato gasto, gravata apertada,
a rosa, o girassol, o cravo, a margarida
— que serventia têm flores mortas atiradas sobre um corpo que se deita? —

Um corpo é só mais um corpo
deitado na solidão perene,
sem saber do dia ou da noite,
a que horas passa a lua céu acima,
ou se águas caem céu abaixo regando a terra.

Um corpo é mais um corpo
entre corpos e mais corpos e outros corpos,
sem dizeres, sem lágrimas, nem lápides,
sem a reza, nem o credo ou o poema derradeiro,
um corpo é mais um nu sem a alma
— a quantas saudades de distância fica a história desse ‘mais um’ corpo que se deita? —

Nic Cardeal, catarinense radicada em Curitiba/PR, é autora de Sede de céu — poemas (Editora Penalux, 2019), e aguarda a publicação de seu próximo livro, de contos e crônicas, em fase de costuras e remendos. Já publicou textos em 29 antologias/coletâneas — 24 no Brasil, 4 em Portugal e 1 na Alemanha. É integrante do movimento Mulherio das Letras desde a sua criação. Possui textos publicados em diversas revistas e/ou blogs eletrônicos, tais como: Scenarium Plural; Blog do Menalton — Literatura; Revista Gueto; Germina — Revista de Literatura e Arte; Revista Virtual Cultural Carlos Zemek; além de atuar, como autora/colaboradora, na Revista Feminina de Arte Contemporânea Ser MulherArte. Escreve porque, assim como são imensas as suas insuficiências, também é profunda a necessidade de dizê-las.

o canto rouco, poema de Ricardo Carranza

I
_______________A noite é azul
na cidade vazia; e do túmulo do deus
imolado se desprendeu, como fogo-fátuo, um
rouco sussurro —
_____precário é o mundo do homem.
Levando Napoleão, Amarílis vai
às compras; à sua passagem o ar
enlanguesce de odor convincente e
pólen flutuante.[1] Antes, à mesa do café
da manhã, ela suspirou, solitária,
esfregando o rosto com as duas mãos
como se
a maquiagem da vida lhe pesasse
como chumbo. Já ouvi as sereias
cantando, umas às outras. Creio
que para mim não vão cantar.[2]
Inseparável
de seu cãozinho de estimação —
au,
au-au,
Amarílis vai ao supermercado.
_____Precário é o mundo do homem.
Maurício tem o atrito diário
com a mãe de oitenta e oito anos —
Você não sossega enquanto não me vê estendida numa cama!
Logo Maurício reina absoluto. Assiste a TV
num volume mais alto. Bate as cinzas do cigarro
no tapete. Anda nu pela casa e ninguém
mais pode com ele: ninguém.
_____Precário é o mundo do homem.
Dona Violeta sabe como é perfeitamente viável pensar
na morte enquanto a roupa centrifuga na máquina de lavar.
Todas as formações são passageiras, e aquele que se compenetra
bem dessa verdade
fica livre da dor.[3]
_____Precário é o mundo do homem.
O mendigo habitual,
mão em concha no ouvido esquerdo,
vai e vem na frente da farmácia
rente a uma linha reta imaginária.
Dona Violeta lhe estende generosa
fatia de bolo de fubá
num saquinho plástico reciclável.
Benedito lhe sorri, grato,
com cada um dos dentes da boca.
_____Precário é o mundo do homem.
No quarto cinza como a manhã
de chuva, ela alcança o que lhe pedem
com o olhar. Conhece bem esse olhar. Depois
de turnos de doze horas, até o raiar da íris
do paciente ela sabe tão bem quanto o seu.
Esse olhar que se orienta, ao mesmo tempo,
para duas direções opostas,[4] vai com ela,
passos de seda até o canto onde mora, até a
cama onde o seu corpo
treme
do repulsivo sonho mau. Esse
olhar, do homem que ora apoia o lápis contra
a folha de papel, ainda a faz esperar. E
a escandir a discórdia, o ponteiro do tempo
oscila. Pensa um pouco então no capricho
daquele homem, não pode deixar de julgar
aquele último gesto —
pois também ela não é feliz, enquanto anota
a hora da nossa morte, aquele olhar na borda
do insondável. Foi-se enfim, ela suspira. Agora
livre, tem de volta um nome, ressuscita
dos mortos e cuida das linhas de expressão
de um rosto cansado; tem sua água quente,
doce como carícias passageiras pelo
ventre estéril e flácido, e com dois travesseiros
nas costas, engole o comprimido com a xícara
de chá, depois de cruzar por avaras janelas
aos dias e noites gravados a fogo
em mãos tão pequeninas.
__________Noite
__________de outono no hemisfério sul,
__________ela perdeu o seu amor,
__________da janela de sua casa,
__________transparente, espaciosa e fria.
__________E teve o copo com
__________água até o limite;
__________foi o preço pago —
__________pela inépcia vestida de ousadia.
__________Quando se decidiu, enfim, percebeu,
__________pelo poema,
__________que seria uma lágrima auspiciosa
__________aquela gota.
_____Precário é o mundo do homem.
A relva leve se estendeu sobre teu leito
e te beijou com mil línguas de grama.
Porém não tu a mim.[5]
Ó inconsistência perplexa,[6]
ouça do coração de vosso pó:
_____precário
_____é o mundo
_____a escandir
_____sua íntima
_____discórdia.[7]

Notas:

1. Ulisses, Joyce. p.471. São Paulo: Círculo do Livro, 1975.
2. A canção de amor de J. Alfred Prufrock, Eliot. p.29. Lisboa: Assírio e Alvim, 1985.
3. As palavras do Buddha. As três características, p. 61. São Paulo: José Olympio, 1948.
4. Ideia de prosa, Agamben. p.32. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
5. A tumba de AKR ÇAAR, Ezra Pound Poesia, p.61. São Paulo: Hvcitec, 1985.
6. Meditações, John Donne. p.13. São Paulo: Landmark, 2007.
7. Ideia de prosa, Agamben. p.31. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

Ricardo Carranza — São Paulo, 1953. Escritor, Editor. Publicações — Scortecci, Sesc DF, Cult, Clesi MG, Zunái, Stéphanos, Germina, Cult, Mallarmargens, Cronópios, O arquivo de Renato Suttana, Triplov, &Escritas.org., Gueto, Ruído Manifesto, Pensador, Pixé. Poe-sia: Sexteto, SP, 2010; A Flor Empírica, SP, 2011; Dramas, SP, 2012; Centelha de Inverno, SP, 2019. Artigos e Ensaios in http://revista5.arquitetonica.com/ desde 2005.

quatro poemas de Andri Carvão

boeda gum dariz endubido

U beu dariz esbirrou e voi
Ranho ba dudo gue é lado
U beu dariz esbirrou e voi
Esdrondoso ba garaio
U beu dariz esbirrou e voi
Uba lava vulgâniga zó
Um jado dal bus e zuor

U beu dariz esgorrendo
Bingou no gavé da banhã
U beu dariz esgorrendo
Bingou no jhá da darde
U beu dariz esgorrendo
Bingou na binha gobida
E desdemberou binha vida

U beu dariz endubido
Gomo bia ou vaso zanidário
U beu dariz endubido
E os olhos lagribejando
U beu dariz endubido
E uba boleza no gorbo
Boribundo é beio bordo

Esbirro em gis
Ai o beu dariz
Eu zou veliz
Bor um driz
Be diga be diz
U gue gue eu viz
Eu berezo blease
U bal bela raiz
Arranga beu dariz
Zeu desinveliz

Um rolo de babel no vim
Um rolo de babel usado
Um rolo de babel no zesdo
Um rolo de babel esgrebinhado

o tempo e o vento
para uma cantora brasileira

O vento veeem
O vento vaaai

O vento também pode sambar [3x]
Só pra mim sopra você
[sopro do vento com a boca]

Se você vem
Eu vou também
Vamos de trem
Uai

Tá tudo bem
Tô tao tão zen
Te amo amém
Ai ai

O meu seu gen
Vira neném
Quando alguém
Me sai

Eu sou de quem
Sou de ninguém
E o quê que tem
Meu pai

Me leva além
Quem vai aquém
Só vou a cem
Bye bye

guömundsdòttir

na praia entre as pedras
Guömundsdòttir canta um canto triste e visceral
sua voz singular de timbres incomuns
textura vocal límpida e cristalina
voz de peito médio-grave cavernosa
linguagem própria
Guömundsdòttir voz e visual
seus parangolés multicolores esvoaçantes ao vento
sua expressão corporal
seu magnetismo no olhar
de seu corpo emana a música das esferas
e no horizonte distante gaivotas sobrevoam o farol

Guömundsdòttir não cabe em si
por isso se lacera e se
desdobra em um duplo de Guömundsdòttir
como um espelho do sol a refletir
nas águas em círculos concêntricos a reverberar
numa divisão tripartite de Guömundsdòttir
uma profusão de vozes sobrepostas como o zoar
de uma nuvem de insetos
a domar e a dominar mentes humanas
nossas almas mundanas e capturá-las
para o interior de si

imerso no alagado
somos conduzidos pelas mãos de Guömundsdòttir
da lama da terra rachada
ao buraco da cratera da gruta
no centro do túnel que se abre
no coração das trevas e somos
deixados sós ali
cravados
petrificados
largados lá
de um lado o lado sombrio
do lado oposto o lado iluminado
o lado iluminado nos chama e pensamos
em correr até ele o mais rápido possível
o mais rápido que pudermos
mas não
no lado sombrio uma horda invisível nos observa
qualquer
passo em falso
respiração opressa
movimento brusco
pulsação
por menor que seja
é um belo motivo para o ataque
por isso não nos movemos
não não nos atrevemos
estáticos e elétricos
hipnotizados pelo canto gutural de Guömundsdòttir

Guömundsdòttir
some e reaparece
some e desaparece
pisca na nossa frente
grita e silencia por SOS
chama e se distancia
nos envolve nos abraça
nos acolhe
nos toca depois foge
se encolhe e explode

a gruta é o canal da laringe de Guömundsdòttir
escorregamos como num tobogã língua adentro
que nos conduz da sua voz direto ao seu coração
e de lá até o útero
origem do homem
origem do fruto
origem do mundo

e então renascemos
revigorados
envoltos na placenta do fundo do mar
rochas flutuantes como águas vivas medusas
ilhas em formação
Guömundsdòttir
vulva voadora vulva sonora
que vibra e nos olha
G I G A N T E
que gesticula e ejacula vida verdejante

você me lava feito um vulcão

o poeta pobre

O poeta pobre era o preferido de Hitler.
O poeta miserável, o poeta faminto.
O poeta devia morrer dormindo.
Mas o poeta se suicida.
O poeta se embriaga e se mata,
bebe até cair na sarjeta,
bebe até morrer.
O poeta é a ponte.
O poeta usa a corda como gravata.
O poeta dá um tiro no peito.
O poeta dá um tiro na boca.
O poeta dá um tiro na ideia.
O poeta é um passarinho de chafariz,
presa fácil para os gaviões.
O poeta que consegue viver da escrita
escreve prosa.
O poeta boêmio. O poeta solteiro.
De preferência sem filhos.
O poeta sem eira nem beira.
O poeta que só dá conta de si e das coisas do espírito.
O poeta pé sujo dorme na rua.
O poeta depende da caridade dos amigos
e dos conhecidos. O poeta na pior
grato por saber que podia ser pior.
O poeta lido por outros poetas,
poetas amigos e detratores.
O poeta é um bicho estranho,
é um troço, um treco esquisito,
um sem lugar.
Poeta bom é poeta morto.
A poesia tem que acabar.

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há colaborações do autor nas publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, O RelevO, Bibliofilia, Escrita Droide, Germina, Mallarmargens; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal (ambas pela Editora Appaloosa), 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos (nº 1: um manifesto contra o fascismo e nº 3: edição do caos), organizadas por Rojefferson de Moraes, do livro homenagem a Rubens Jardim, e Antologia Ruínas (Editora Patuá). Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos (Editora Appaloosa), O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s (ambos pela Scenarium), Um Sol Para Cada Montanha (Chiado Books) e Poemas do Golpe (Editora Patuá). Integra o Coletivo de Literatura Glauco Mattoso, criado pelo prof.º Antonio Vicente Seraphim Pietroforte.