dois poemas do livro ‘Meia lua soco’, de Tomaz Amorim Izabel

bate a foto
em voo pobre
sem asas
um peito que não arfa
passa batido
sem compromisso
como um ônibus que não para
no ponto vazio
bate a foto de cima
vê como um cometa
gente prédios esquina
a cidade fervilha
mas sem charme que
na extensão do planeta
a distinga
está ali como também poderia
estar uma cordilheira
ou um bando de ondas
um ponto nublado no mapa
bate a foto
sem escutar nada
lá no alto ou embaixo
das milhares de árvores
só vê o granulado das copas
ovaladas
não vê embaixo de uma delas
em tarde clara de novembro
a barriga grávida
e cravejada
a primeira no galho
prestes a desabar

* * *

um casal sentado num banco
ela com cachos brilhantes
ele em camisa verde-oliva
interrompidos em seu romance
pelo romance maior com a lua
iluminada
de lá
de volta
olhar nenhum
pedras e poeira e luz solar
sem atmosfera que a reflita
lembrança de um outro mundo
o amor

Tomaz Amorim Izabel, 32, pesquisa sobre e escreve literatura. Meia lua soco é seu segundo livro de poemas e será lançado no fim deste mês pela Editora Primata.

sete haicais de Maria Valéria Rezende

Nasce toda verde,
vermelha renasce a folha,
logo será ouro.

* * *

Preso em saco plástico
último frêmito de asas —
morre a borboleta.

* * *

De ponta-cabeça
céu vira mar, mar é céu —
e o céu tem marola

* * *

A casa vazia
sem cheiro nem som, revive;
chegou a criança!

* * *

Ouço um chilrear —
há uma criança e há pássaros —
de quem esse canto?

* * *

Goiabas maduras —
corro a colhê-las — os pássaros
acordaram antes

* * *

Estrada longa
margeada de cajueiros
— água na boca.

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos, São Paulo, onde viveu até os 18 anos. Em 1965, entrou para a Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho. Dedicou-se sempre à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, no meio rural, até 1986 e, desde então, em João Pessoa, onde está até hoje. Compre os livros da autora em sua loja virtual no [link].

poema inédito de Constança Guimarães

um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três__________duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe

| poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |

Constança Guimarães é escritora mineira e jornalista, autora de Ombros caídos olhando pro Inferno (Editora Urutau, 2017) e A sereia da Contorno e outras histórias (Editora Leme, 2017). Tem poemas e contos em publicações como Revista Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em guerra) e Revista Torquato.

três poemas inéditos de Leonardo Tonus

enquanto berram pelos telhados
mitos fundantes de uma arte imperativa,

enquanto imaginam nacionalidades encasteladas
em seus bunkers genocidas,

sangram pelos pés de Paulo Nazareth
os gritos de uma memória
sem a memória
de seus gritos.

silêncio em pedra
de uma memória polida
(quase) sempre generosa,

exceto em meu país.

* * *

como se desvencilhar da filosofia que nada concebe,
que só concebe a vida, sem vida,
que não se concebe enquanto prática de vida?

estaremos condenados a nos equilibrar
em suas ridículas pernas de pau,
a nos arrastarmos, trôpegos, mundo afora
com seus eternos aforismos,
por acharmos a terra rude demais
selvagem demais
aos nossos confortáveis pés
moldados na rigidez de velhos conceitos?

dos sonhos despiram-se as palavras,
do gesto libertário que a literatura inspira:

a sua capacidade de imaginar.

* * *

desdobro das vogais
suas almas
indisciplinadas
e
do verso
ergo a palavra—
grito
por ainda não a saber,
palavra.

às vezes faltam às palavras
a coragem de simplesmente serem,

palavras.

Leonardo Tonus é professor em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesia intitulada Agora vai ser assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019).

três poemas de Armando Freitas Filho

Quem com ferro
__________alcança
os olhos abertos
da ferida.
_____Quem com os olhos
fura
_____a bandeira de vento
_____a blusa azul da manhã
_____que mesmo assim continua:
brisa ou
_____barco à vela
sobre o mar
_____ave, avião
com suas asas de viagem
voando como qualquer nuvem
de pensamentos no céu.
_____Quem com olhos
de ferro
_____procura
o rosto do meu corpo
quem com as feras
__________se lança
no rio do meu coração
em vão
_____quem com ferro?

* * *

Como um dia perdido
dentro da vida
__________como um dia
esquecido na lembrança
que abandona
__________todo o seu vento
o tanto de sol
que entra no pedaço da tarde
parada sobre o quintal
este dia
_____se repete
entre tantos
_____e chega
até a mim
_____repentino
com a sua sombra a esmo:
o mesmo vento
o mesmo sol que bate
na mesma tarde e anda
no chão de agora
__________perdido
como o dia de dentro
como o dia de antes
com a sua luz que alcança
a vida
__________deste momento.

* * *

Terra —
_____a nuvem se decifra no céu
o sono some no sonho
que logo se soma
a outro desenho, a outro
desígnio, cisne de signos
ou sino de neve
ou hino de névoa
no céu, as nuvens
seguem e cegam
o olho de mel do sol.

Terra —
_____aqui, no chão, a sombra
calça suas luvas
ao avesso, alça
nos ombros, armários de carvão
aqui, tão perto do coração
tão junto do peito
na beirada de pele e de pedra
do corpomar do planeta
minha vida se abraça com o espaço
de cada dia, e passa.

Armando Freitas Filho é poeta. em 2003 publicou Máquina de escrever — poesia reunida e revista (1963–2003), no qual comemora 40 anos de carreira. Recebeu, em 1986, com o livro 3×4, o Prêmio Jabuti e em 2000, com o livro Fio terra, o prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional. Em 2001 ganhou a Bolsa Vitae de Artes. Em 2006 publicou Raro mar. Em 1979, publicou o ensaio “Poesia vírgula viva”, no livro Anos 70 — Literatura, no qual faz um panorama da poesia brasileira desde os anos 50. É o organizador da obra de Ana Cristina César.

quatro poemas inéditos de Katia Marchese

mil impiedades por dia

Sob um céu
implacável,
o azul desolava
os rostos.

Ninguém plantou
as flores da morte
naqueles corpos de agosto.

artifícios da memória

O sangue explodia dos pulsos,
formava teias vermelhas
que subiam aos céus.
(na mesma hora
o estrondo da pedreira)
Eunice calou a cena,
pedra que aderna
dentro da cabeça.

No morro São Bento,
corre aquele silêncio,
que preenche as ruas
depois dos desaparecimentos.

repertório

Pavões azulando o espaço,
não me traga problemas, Eugenio.

As coisas são como são,
nenhum homem presta, Iracema.

istambul

O céu cobalto
sobre a mesquita.
A pino, o sol das dores
cintila a fina lua e a estrela.

Tira o punhal
e colhe jabuticabas.
É o que resta.

| poemas de O azul é vingativo, plaquete ainda em construção. |

Katia Marchese é de Santos, 1962. Está nas coletâneas Senhoras Obscenas I e III (Benfazeja, 2017 e Editora Patuá, 2019), Tanto Mar sem Céu — Laboratório de Criação Poética (Lumme, 2017), Casa do Desejo — A literatura que desejamos (Editora Patuá, Flip 2018), Poesia em Tempos de Barbárie — org. Claudio Daniel (Lumme, 2019), Hiltinianas vol.1 (Editora Patuá, 2019), entre outras. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Musa Rara, Portal Vermelho, Zunái, Ruído Manifesto, Jornal Tornado — Portugal e Jornal Rascunho. Participa do coletivo O Ateliê de Poesia. Publicou a Plaquete Por favor diga meu nome (produção gráfica Uva Costriuba, 2019). Fez o curso de Escritores do Clipe em 2019 na Casa das Rosas, Museu Haroldo de Campos de Poesia e Literatura SP. Contemplada no Edital do Governo do Estado de São Paulo Proac Poesia 2019, com o projeto do livro Mulheres de Hopper, e lançamento previsto para dezembro de 2020. Mora em Campinas.

transformação, poema de Bruno Ramalho de Carvalho

passei a tarde de sábado
____________________lendo
José de Ribamar Ferreira

parei de ler tarde sábado
a escrever
esquecendo
vírgulas pontos e por gosto
as maiúsculas

e peguei-me a esfregar
as mãos sobre o rosto
como tanto o vi
em fotos
com as quais me espantei

transformação

pseudônimo: um verbo
entendedores entenderão

num gesto
o grito dos ossos
um perfume de jasmim jamais
________________________sentido
e o barulho de uma rua Duvivier
onde oportunamente passei a morar

do que eu não sabia
em 5 de setembro de 2020
o acinte da poesia
____________________a me Gullar

Bruno Ramalho de Carvalho (1978, Rio de Janeiro, RJ) escreve poemas, diverte-se tocando despretensiosamente o flugelhorn e se interessa por filosofia. Médico ginecologista em Brasília, DF, atua na área da reprodução humana assistida. É autor dos livros A penúltima coisa que se faz (edição do autor, 1999); Do amor deveras e das quimeras (e-book, Emooby, 2011); e livra-me, poesia (Scortecci, 2019), todos de poesia. Tem poemas publicados em revistas e portais de literatura, como Cult, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto e Mirada. Tem, ainda, mais de 70 artigos publicados em periódicos científicos.

resposta a Kaváfis, poema de Rafael Mendes

se os bárbaros não vierem, se os bárbaros
não mais existirem — seremos nós
a envenenar gatos pretos, a açoitar
a infância, a destruir as cidadelas antigas,
a esfumar pulmões, a espalhar arbítrio e peste.

se os bárbaros não vierem, se os bárbaros
não mais existirem — seremos nós
a desplumar os pássaros, a atirar nos olhos,
a erigir muros, a proibir canções e poemas.

se os bárbaros não vierem, se os bárbaros
não mais existirem — seremos nós
narcisos e judas, a bomba, o cogumelo e a merda.

se os bárbaros não vierem, se os bárbaros
não mais existirem — seremos nós
a reinventar os bárbaros.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

quatro poemas de Juliana Maffeis

1.
cartografar um labirinto
é coisa simples, meu bem
primeiro saiba o que tem
nas mãos: porra nenhuma
depois perceba como o som
dos nossos corpos é suave
como um acidente sem
vítimas e como o asfalto
é líquido quando deita
e derrama suas bordas
mornas pelas avenidas
de mão única: somos
esquinas da mesma
rua sem saída e esse
é o nosso ponto
de referência

2.
não quero teu tempo colado no meu
saber quais teus compromissos
se já tomou o remédio das seis nem quero
saber como foi a aula de pilates que você
prometeu seguir em frente depois
que os quarenta revelaram dois piás
de vinte peleando pela cama
mais alta do beliche
não quero estar contigo por tudo
o que há de vir como naquelas juras
antigas nem vou te chamar de melhor
amigo depois que nossa relação couber
numa gaveta do tamanho das horas
que esvaziaram o arquivo extinto
pelo último patrão que não pagou
teu décimo terceiro e por isso
não fomos à praia naquele verão
que juntou nossos corpos entre suor
e pânico enquanto ríamos do carnaval
da televisão do isopor do pó do samba
do enredo tudo tão precário que dava
gosto de ver como conseguimos
subir tantos degraus de escada
em um prédio sem elevador
e olhar um para o outro
como quem insiste em
manter uma planta longe do sol
um método inovador usado
para sustentar o fracasso até
o dia que o tempo morde a língua
numa fala mole quase sem saliva
pra secar no guardanapo sobre a mesa
o saleiro é uma ampulheta
entupida de grão de arroz
jamais cozido

3.
colecionamos dores nas têmporas
e roxos nas pernas das noites
que não sabemos como acabam
ou se acabam dentro da mesma ideia
de eternidade: esse lugar que cuspimos
longe pra mostrar como as guria são braba
só revelam como magoam aqueles garçons
bonitos quando fingem indiferença sem
perceber nosso aceno que é também
um grito um pedido de socorro um
suplício quase em carne viva amanhã
vai ser diferente juramos beijando
a ponta dos nossos dedinhos
sujos de menstruação tô fazendo
amor com outra pessoa, baby,
mas meu coração
você mastiga e engole
com caroço

4.
minhas mãos
guardam teus
dedos num gesto
de não vai embora
nada adianta ler
linhas cruzadas
em palmos de pele
quando às quatro
e vinte você dobra
a esquina e lembro
que ainda tenho
duas mãos
pra que
não sei

(quando
volta de mãos
no bolso devolve
minha vontade
vestida de dedos
e gestos e linhas
e peles e
quando)

Juliana Maffeis é educadora popular e escritora. Licenciada, mestra e doutoranda em Letras, na área de Escrita Criativa (PUCRS). Pesquisa sobre as relações sociais entre imagem e poesia, e é autora de Solitária companhia de teatro (Editora Patuá, 2017).

três poemas de André Siqueira

quarentena

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

o cabide

O cabide quase
terno de precisas
curvas e despidas,
na ausência do terno
mostra o figurino
vazado, vazio
de nada. Percebo
na estranheza tão
guardada que posso,
atento, vestir
a roupa de magra
vista do cabide
discreto, guardado,
dispensado só.

cama, mesa e banho

a fome não repousa
em cama pula e grita
em casa já relustra
os buracos da boca
de modorra morada
mas que se atiça agora
sedento peixe trêmulo
no ardor de nada ver
ômega apenas quieto
mas estrala a madeira
da cama mais e mais
de fome cancro unguento
limpa textura e lenta
secura a minha fome

André Siqueira mora em Jacareí, interior de São Paulo. Já publicou em diversas revistas, jornais, coletâneas, blogues e, atualmente, é colaborador da revista de arte e literatura Pixé. Lançou recentemente seu primeiro livro de poesia intitulado As manhãs fechadas, pela Editora Gataria. Cursou a faculdade de Letras, porém não concluiu.