cinco poemas de Fabiano Calixto

REGNUM IRAE

faz uma lua sanguínea lá fora
o vento morno lambe a figueira
desaba um figo e engole o agora
último fio da imensa noite inteira
o sol, embriagado de tanto outrora,
chega vomitando pelas calçadas
os primeiros pedaços da aurora

JUGULAR

o gato afia as espadas de samurai
em cada uma de suas patas

nada escapa de tal arte atroz:
da jugular da tarde
salta um sangue viscoso
para dentro da noite veloz

QUANTO,

entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
cultivando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contragosto,
frio,
no fundo do poço,
raiva cobrindo
o corpo
todo,
contas a pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre do rato,
tifoide,
deixando de lado
o amor
(sopro
cosmo
humano)
disenteria,
erros calculados,
a poesia?

AUTOBIOGRAFIA

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question.
Charles Baudelaire

Paranapiacaba. Avenida Fox. Perto da meia-noite, quatro caçadores de recompensa desembarcam de um carro preto, que parara dentro do silêncio noturno da Vila Inglesa. O frio é de quebrar a caveira. Um disse: Deus — outro: vida — outro: êxtase — o último: caos. Um trazia, como oferenda à noite imensa, uma garrafa de conhaque — outro, quatro báuras — o terceiro, alguns poemas — o último, a sede de todos os outros. Apenas três viam o pequeno menino de meias azuis que os observava sentado no capô do carro, segurando Mjolnir. Apenas um via a gravura Die Schaffendem, de Max Kaus, no poste de madeira à esquerda, emoldurada por setenta & sete bruxas. Dois viam um menino, não no cara do carro, mas equilibrando-se no meio-fio, & cantando baixinho uma velha canção de Alice Cooper. Ninguém via a estrela ao fundo, apagando em si o sono da eternidade em alguns segundos. Os quatro magos vagabundos continuaram a andar & voltaram a ser os quatro caçadores de recompensa. Um deles, após jogar um dente de latão sobre o telhado de uma casa abandonada onde se escutava risadas de crianças, disse ao outro: sou o único homem a bordo do meu barco. Continuaram palmilhando vagamente, enquanto a voz de Chet Baker, guardada no tempo, se misturava ao som de seus sapatos, furados & sujos. Que recompensa era essa? Ao passarem perto de uma velha & grande coruja pousada numa caixa de correios, um deles se assombrou. O que vinha mais atrás disse: Sabe o que Philippe Beck diria, ao observar essa cena, meu camarada? Após a negativa do amigo, completou: O gosto pelo espanto não é suficiente. Outro, bolando uma ode como João Cabral a uma antiode, olhou & riu (a primeira recompensa). O seguinte, capote preto & longas tranças, um rasgo na calça à altura do joelho direito, observava Andrômeda no reflexo de uma lagoa imaginária & sabia que todas as galáxias não pesam mais que as mãos de uma criança. No norte aquele que, bêbado como uma capivara, falava de poesia (outra recompensa). Caminhavam & imaginavam florestas azuis armadas com mármore, jaspe & ágata. Caminhavam. A máquina do absurdo se abriu & ela era um mundo moderato & cantabile. Organizaram um mantra (burning bright burning bright burning bright burning bright) àquela majestosa & desvairada delícia face de mistérios — in the forest of the night. Abriu-se pacífica & pura, convidando-os à contradança como antídoto aos mesmos sem roteiros tristes périplos. Apliquem-se à esfera perdida da natureza mística das coisas, disse-lhes, mas canto algum, vaticínio ou verso vicinal atestasse que alguém de Marte ou Roma ali se fizesse trunfo na noite de bruma. O que procuram em vocês ou fora & jamais se mostrou, disse a fabularia noturna, educa os cincos sentidos com sexto, ausculta, carbura: essa riqueza hermética, esse total êxtase da vida, abram as portas da percepção & dividam-na. Então, como se outros espíritos, não os que lhes habitavam a carcaça mal lavrada, transformassem suas caixas cranianas em pinturas de Monet, onde cada flor abraçasse & repelisse; como se um organista tocasse guarânias numa sacristia & se chamasse José Oiticica & vestisse uma camiseta onde Jesus Cristo joga truco com Mallarmé, os visse de longe & viesse correndo ao encontro deles. & chegasse suado como um frade bêbado. Sorrisse, desapertasse sua gravata que era uma floresta de signos & dissesse: Música, amigos? Todos então mobiliaram o pensamento com tal oferta &, a máquina do absurdo guardada, se foi maravilhosamente recompondo & as mãos do mundo, antes pensas, jogavam, à vista vasta, fliperama de estrelas. Após tal partida, um deles, uma espécie de Théophile Gautier italiano, falava de um poema que estava escrevendo — sobre sombras & plátanos nas pernas de uma garota. O outro falava com seu amigo imaginário. Uma nave extraterrena pairava sobre a vila — os relâmpagos tentavam iluminá-la com seus braços de fogo, sem sucesso. Um, mais quieto, queria comer pastel de queijo, mas não havia, àquela hora, nenhum bar aberto. Todos slow boat to China. Quando um deles mostrou ao seu amigo imaginário as casas geminadas mais ao fundo. & estendeu aos outros três. Olhem mais a fundo, onde nada pode se ver! Que ruínas são estas? É uma vida esquecida? A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, & branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha desejo de correr aquela solidão. A imagem perfeita do mundo espocava aqui & ali, dentre as árvores, as construções, as ruas, a sintaxe, os fantasmas, a noite imensa. Deram aos seus pés o privilégio de tomar lições de tempo do chão. Viram o cantor das ruas, doente, agachado em frente ao Antigo Mercado, segurando seu próprio coração. & lhe deram um pedaço do bolo que traziam — um bolo feito de meses de abril, versos de Shelley, licor de anis, névoa da estação, alguns malabarismos de saltimbancos & água de riachos envelhecidos. No que o cantor das ruas respondeu: Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de guerra em chamas à borda de Orion. Via brilhar a luz do farol no escuro, no portão de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva. Com a mão esquerda cheia de sangue, apontou para uma inscrição minúscula no muro de uma casa do outro lado da rua. Com uma lupa, um dos caçadores de recompensa leu em voz alta para os outros: Há algo dentro de mim que não se mostra, & o que aqui aparece é apenas a roupa do infortúnio. Continuaram a caminhada, a busca, então o Gautier italiano disse, depois de despejar na noite fria uma quente baforada de fumaça, que há mais poesia nestes paralelepípedos que em todas as livrarias do mundo juntas. Era uma ação entre amigos, lisonjear o delírio & ajeitar a alma na carcaça. A grande sinfonia da viagem alargava sua cátedra. Uma palavra tatuada na língua: im platt — um enigma guardado dentro da morte que chora sobre as flores decompostas & passa o dia inteiro no cinema quando morre uma criança. Ao chegar à ponte que liga as duas metades da vila inglesa, pararam. Abriram a garrafa de conhaque de gengibre & acenderam um paião. O mais louco de todos, que queria ler & se embriagar mais ainda, pediu ao mais triste & estranho que lesse o poema que trouxe — & este recusou, pois estava em Marrakesh, observando Kenneth Rexroth disputar uma partida de sinuca com Carlito Azevedo na casa de um velho poeta argentino que jamais publicara livro algum & foi para o Marrocos imediatamente após o golpe militar de 24 de março de 1976. Então, pegou o papel dobrado & passou adiante, pedindo que passassem, em contrapartida, a bola. O poema falava sobre silêncio & dicionários, chuva, biblioteca, canção & cartas não escritas. Ouviram o Pentagram executando “Forever My Queen” — & há sinos sangrentos nos ouvidos do poeta que vagueia num barco & diz que a lua é um “globo de louça”, de um poeta que escreveu os sonhos todos em Mauá. Os membros da tripulação andam de um lado para outro como fantasmas de séculos extintos — diz Edgar Allan Poe, enquanto acende uma labareda & toda a fumaça verde do mundo invade os pulmões dos caçadores de recompensa. Lembram-se do Gastão, o primo do Donald? Com tamanha sorte, encontraria, sem dúvida, o que tanto almejamos — talvez num soluço, talvez num tombaço — disse um deles, bem baixinho. O outro então respondeu: Antigamente, acreditava que se uma pessoa morria a gente poderia colocá-la embaixo do chuveiro quente, bem quente, & esperar que a água lhe esquentasse & amolecesse a carne & lhe desse novamente a vida. Mas depois, tentando, vi que isso não acontece. Eles apenas ficam lá, quietos. Chorando a nossa lágrima. O último corvo come carniça sobre as jurubebas. Os nuncamais da parcial matemática buscam o oráculo num susto de chuva. And The Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting. Amamos o deserto, os pomares abrasados, as lojas decadentes, os bares de esquina, as bebidas quentes. Nos arrastávamos pelos becos fedorentos &, de olhos fechados, nos oferecíamos o sol, de fogo, ao deus de fogo. Talvez a recompensa fosse mesmo abrir a vida aos sentidos — como aos livros, na sala de leitura do inferno.

calisto_poema

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns (PE), em 8 de junho de 1973. É poeta, editor e professor. Vive na cidade de São Paulo com Natália Agra. Doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Música possível (CosacNaify/7Letras, 2006), Sanguínea (Editora 34, 2007), A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Córrego/Corsário-Satã/Pitomba, 2014). Fliperama, seu próximo livro, será publicado pela editora Corsário-Satã no segundo semestre deste ano.

dois poemas de ‘Cavalo que passa devagar’, de Jorge Vicente

capa_cavalo1.
primeiro exorcismo: transformar figuras de linguagem em rituais mágicos de combustão.

segundo exorcismo: escrever sempre um corpo gira sobre si próprio até ao limite das suas páginas.

terceiro exorcismo: uma palavra vale sempre mais do que duas palavras desalinhadas.

quarto exorcismo: nada vale o quotidiano se não deixar entre-ver uma pequena vivência e uma pequena dialéctica de linguagens.

quinto exorcismo: viver é a dupla matéria de escrever.

sexto exorcismo: no interior da metáfora, não há aconchego para a vivência.

sétimo exorcismo: não tenhas medo de te transformar em mito de ti próprio.

oitavo exorcismo: a escrita é a matéria escura do universo.

2.
tenho um pássaro a voar sobre o meu nascimento
asas abertas sobre um corpo que se contorce de vida
essa vida [e esse mar tão estranho
como estranha a maternidade que me enche de luz

esse pássaro
ser-de-madrugada e de palavras livres
pássaro quase-materno e quase-feliz
com as asas abertas sem metáforas
e sem língua para escrever,

pássaro que abre o sol
e que olha com profundo amor
esse primeiro choro

__________[rio subtil entre duas mãos].

| para comprar o livro Cavalo que passa devagar, escreva para voltadmar@gmail.com ou acesse https://www.facebook.com/voltadmareditora e https://voltadmar.tumblr.com/ |

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último Cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2018).

cinco poemas de Linaldo Guedes

carrossel de silêncio

meu filho fala sozinho

no meio das crianças
brinca com ninguém

finge-se de gato
imita o cachorro

au
au
au
autista

(e o mundo finge que ele não existe).

4 estações

as estações mudam:
o que era primavera de chuva
torna-se inverno quente

ou vício sem verso
sem poesia
na hora em que as coisas se benzem na ausência de orações

as estações mudam:
o que era outono florido
torna-se verão frio

ou verso sem o vício
da poesia
debulhando rituais adormecidos na hora do ângelus.

girassóis do mangue

foi quando passei da ponte do Sanhauá
que vi restos da orelha de Van Gogh
(sangrando o rio)

mangues de diálogos com zola
girassóis de caranguejos
meninos e as mãos. E a lama!

ladainha

um oásis se constrói com desertos

perto
(ou)
longe

um oásis se constrói em desertos

perto
(e)
longe

um oásis se constrói
(e os desertos?).

libação

difícil para um mortal entender uma deusa
decifrar seu olhar lento, em direção ao mistério

e o mortal ali: calado, inquieto, agoniado
como se fosse uma onda querendo rebentar o mar

mas sem uma quilha, é quase impossível navegar

ainda mais quando suas mãos agem

(e elas agem)
num estranho ritual de libação

enquanto o mortal zera a bússola
e descansa na terra firme daquele pulsar.

Linaldo Guedes é jornalista, poeta e editor. Como poeta, lançou os livros Os zumbis também escutam blues e outros poemas (1998), Intervalo Lírico (2005), Metáforas para um duelo no sertão (2012) e Tara e outros otimismos (2016). Lançou, ainda, Receitas de como se tornar um bom escritor (2015), Padre Rolim em quadrinhos (2018) e O Nirvana do Eu: Os diálogos entre a poesia de Augusto dos Anjos e a doutrina budista (2018), entre outros. Editor na Arribaçã Editora, é formado em Letras e mestre em Ciências da Religião, pela Universidade Federal da Paraíba.

três poemas de Luiz Antônio Gusmão

antiode à via estrutural

df-095 estrada parque ceilândia vulgo via estrutural

foi-se o parque, ficou a estrada, mas
não te cansas de nos passar na cara
a verdade das tuas placas
soberanas destas faixas invertidas
— aqueles que vão correr vos saúdam!
e tome ultrapassagens pela direita, reduções bruscas etc. e tal.

df-095 estrada parque ceilândia vulgo via estrutural

onde vi um dia a espatifada carcaça
de uma rotunda melancia no asfalto
absorto no sentido plano piloto
onde incontáveis cães foram eliminados
com a passagem das rodas acelerando
o tempo de sua decomposição natural.

df-095 estrada parque ceilândia vulgo via estrutural

chegará o dia em que não mais te percorreremos
ex-gladiadores do asfalto em carroças tomarão
como zumbis macilentos as marginais
mas tuas pistas repletas de ondulações e buracos
permanecerão sob a halógena luz do vapor de sódio
emanada pelos homéricos postes de teu canteiro central.

df-095 estrada parque ceilândia vulgo via estrutural

ao longo de teus nítidos dezesseis quilômetros
deste rodoviário rosário que se cumpre
entre microtransumâncias e mínimas imanências
a oitenta, então a sessenta, agora a noventa por hora
vamos deixando estes escassos minutos de vida
em velozes prestações rumo ao destino final.

até que não

cubram os sinais
derrubem as placas;
confundam, troquem,
apaguem as faixas.
rasquem o chão e
cuspam-nos na cara
seu barro vermelho
— peguem em armas.
digam que o dia é
noite e a noite nossa
comunhão. maculem
as palavras que nos
enleiam todos os
dias. voltem nossos
antolhos ao passado:
estes corpos vos
obedecerão
até que alguma
mente afoita não.

pro nobis

e não perseguimos mais os rastros
das alegrias e das dores
vamos pelo mesmo rumo podre
cortando caminhos de ratos.
e atravessamos sonolentos
a luz dos dias estúpidos
esquecidos dos conventos
em que, ruidosos e cúpidos,
entoamos nossos discursos.
e somos todos meio a meio:
meio humanos, meio nulos
depositamos os corpos inteiros
nas mãos desses homens brutos.
e devoramos deformidades
e perdoamos nossos donos
se não estamos mais lúcidos
tampouco temos sonhos.

| poemas do livro inédito Cidade na carne (título provisório). |

Luiz Antônio Gusmão, 37 anos, nasceu em Recife e vive em Brasília. É servidor público federal com formação em relações internacionais e ciência política. Traduziu poemas e ensaios publicados em dEsErEnDoS e (n.t.) nota do tradutor, além da antologia O terceiro andar sombrio e outros contos de fantasma, de Ellen Glasgow (Amazon-Kindle, 2018), e do romance O pergaminho Lázaro, de Jonas Cobos (Babelcube, 2018).

seis poemas do livro ‘p:l:a:n:g:e:p:l:a:n:g:e’, de Claudia Abeling

capa_plangesp, cacofonia da metrópole [1]
(thesaurus)

jardins verticais condomínios horizontais
parques lineares
edifícios espelhados
arco do futuro
eixo norte-sul
cruzamentos de avenidas ruas travessas vielas
ruas de paralelepípedo
meio-fio
estacionamento a 45º

sp, cacofonia da metrópole [2]
(reality show)

grades antimendigo + bancos antimendigo
= qualidade de vida

sp, cacofonia da metrópole [3]
(real estate)

jornal do sábado, página b21 (caderno economia & negócios), ¾ de página. Futuro lançamento na vila romana: “autoral. atemporal. absoluto. passado e futuro reunidos no presente. projeto clássico que traz a essência da inovação e modernidade para seus futuros moradores. lazer completo: pool; gym; outdoor fit; barbecue place; party hall; shared laundry; art lounge; view lounge; kids place; pet place; relax place”.

sp, cacofonia da metrópole [4]
(dicionário de inglês imobiliário)

open garden. s.m. 1 nova alameda repleta de gentilezas urbanas da cidade. 2 espaço do lado de fora.

sp, cacofonia da metrópole [5]
(matrioska)

o apartamento fechado a sete chaves dentro do prédio com elevador codificado, dentro do condomínio cercado, dentro do bairro diferenciado, dentro da zona que prescinde de metrô, dentro da cidade linda, dentro do estado locomotiva-da-nação, dentro da região separatista, dentro do país que anda pra trás.

sp, cacofonia da metrópole [6]
(voyeuse)

foi legal assisti-la (#sqn)
o insulfilme protegia a espectadora (#sqn)
na rua a menina rodopiava a sainha suja
_______________da fantasia que alguém largou por aí
e se sentia a branca de neve (#sqn)

| link: https://www.quelonio.com.br/product-page/plange-plange-claudia-abeling |

Claudia Abeling (São Paulo, 1965) cursou Editoração na ECA/USP e trabalhou em diversas editoras paulistanas; há alguns anos, dedica-se à tradução literária do alemão. p:l:a:n:g:e:p:l:a:n:g:e (Editora Quelônio, 2019) é seu primeiro livro.

sete poemas do livro ‘Aurora de Cedro’, de Tito Leite

capa_cedroespanto

Que demônio emana do homem

enquanto
___peixes segregam

suas
___barbatanas?

Madrugada
em poço escuro:

lavamos
___os nossos

rostos
___depurando

o que nos estranha.

O que é
distante nos é semelhante.

Pessoas
___oceânicas,

qual
___santos em extinção,

tiram
algo raro de suas façanhas

como
___se respirassem

sobre uma lâmina katana.

Sabem
___amolar alicates

e salvar-se dos sociopatas

ou deixar saliente um livro
de receitas.

Poetas
___intensos,

no silêncio mais inquietante,

fazem
___de cada estorvo

uma canção.

ondina

Bebo estrelas

e locomotivas
com álcool,

em vermelho devaneio:

as pupilas
se dilatam.

Em cores vulcânicas

penso
no meu amor
que gosta

de montanhas

e nos olhos,
dois oceanos.

Que deflagrem
seus cabelos

ou o próximo tinteiro
no meu peito.

fármacos

A psiquiatria ganha lugar
na feira de liquidação.
Na alegria imediata
do simulacro:
adestrar psicopatas.

Antidepressivos
para curar as feridas
da alma
ou esquecer a amada
[que antes
do beijo toca fogo
nos lábios].

Na cabeça, uma ampulheta,
nas mãos, borboletas fugidias,
em todos os caminhos,
nenhum destino:
apertar o botão abismo.

circular

O poeta
do caos urbano
salta no circular
atravessando
as ruas que mordem
o seu drama.

No absurdo
da vida, nem sempre
bela, a lua passa
de pés descalços.

Eu, que não
tenho moeda, ofereço
meu chapéu,
como quem acena:
evoé, poeta!

infindo
À Elizabeth Hazin

Não sabemos da validade
do fogo.

Febre luminosa
de um poema,
diagnóstico
póstumo.

Falar da casca não duradoura
dos amores que nascem
e se findam, qual infindo orvalho
na face sem alento
do espelho:

como se fosse
pedra na morte
lenta da espécie.

É como abrir as portas
da morada de Deus
e no íntimo do seu
ínfimo não entrar.

Vão-se pétalas
e relicários
e o que temos de sagrado
se esgarça.

curva

Não há estrada certa
ou verdades incontestes.

Até no céu o joio cresce,
só no insólito Deus por perto.

Caminhos, noites abertas
num albergue em deserto.

recusa

Há beleza no apagamento
de fronteiras.

A cada poema uma negação,
a mão
na lâmina, no chão,
na lama, nos molares,
a rasgar a maquinaria
que mata o dia.

Nos motores do porvir
o desconhecido
é bem-vindo.
Sabemos
de Sousândrade
que sentia saudade
do futuro.

A liberdade é um androceu
que se faz carne.

| link para comprar o livro no site da editora: http://www.7letras.com.br/aurora-de-cedro.html |

Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo Edith, 2016). Poeta e monge beneditino, é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Curador da revista Gueto. Aurora de Cedro (Editora 7Letras, 2019) é sua mais recente obra.

cinco poemas inéditos do livro ‘Casa’ (Editora Urutau, no prelo), de Roberto Dutra, jr.

composição

quero seu poema pela manhã
ele é o café que aquece a fala
a luz que entra na sala
quando nos servimos
olhos inventando o dia
sensual alegria
de mãos se encontrando
na mesa.

quero seu poema como uma foto
rápido direto
com a realidade em foco
como se nada mais fosse correto
mostrando as partes
como o todo
e o todo um regalo
— essa parte de nós.

quero seu poema no rosto
suave carícia
a canela tempera uma parte
nossas bocas
anunciam outra arte.

— eu quero seu poema meu norte!

quero seu poema meu gole
amargo e forte
lavando a mágoa
e intenso
com uma leve pausa
tão lento
que agora
a língua

_____para.

do desejo

Desejo-clarão-de-raios
Desejo-cegueira-de-nomes
Desejo-morte-e-vida
Desejo inteiro
Levante de nuvens
ribombando insurreição
Desejo-fome
Verso e anunciação na carne
Sulcos d’água e sangue
Via líquida do instante

__________Apaga a vida
__________Acende a alma

samovar

entro em sua casa,
sentamos no chão.

chá nos basta.
dividir a água,
infusão amarga.

sorrindo, você relaxa.
em mim,
a mesma casa.

temos chá,
sorrir nos basta.

brisa

clara coisa
_____na rua

a brisa corria
_____sua língua

absurda
enchendo de vida
_____sabor
_____odor
_____amor do dia em plena avenida

invento o poema
_____e a vida

[molhada na tinta da brisa]

vale a pena

(eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo

Roberto Dutra, jr. é carioca e insulano, nascido nos anos 1970. Usa máquina de escrever, revisa com lápis e mantém as ideias em blocos de nota. Teve seus poemas publicados nas antologias: Escriptonita (Editora Patuá, 2016) e Porremas (Mórula Editorial, 2018). É colunista regular do blog literário Zonadapalavra. Seu novo livro de poemas, Casa, está no prelo e sairá pela Editora Urutau, ainda este ano.