quatro poemas de Roberta Tostes Daniel

s/título

A batalha começa
nas duas crateras
do meu rosto.

Quieta
é preciso
incidir

sobre o
hostil

com o impulso de
Tales
navegar

todas as coisas.
Órficas, Sáficas —

o tempo ancestral
é a semente de que preciso

para tanger este lado impossível
e presente

que não é retroceder
à anti-paisagem humana.

Achar um nome
pras coisas duras

ainda menores que dores.
Ao mundo diminuto

me resta esburacado
o rosto

o fosso da boca
incapaz de mapear

as avarias do poder.
Ao desértico de um corpo

que se sabe pórtico
e ouviu: você me abre

os braços e a gente
faz um país

entrincheirado
do lado de cá

do outro lado do mundo.

fenomenologia

Não há nada sendo dito dentro do costume.
O hábito é um império extinto
e sem arejamento.
O costume não tem irmãos
mas correias que prendem Anaxágoras
ou as mãos do homem que pensa
e pensa porque tem mãos
desfeitas para o hábito.

órion

Falo de um mundo decadente
concluído na emancipação do sangue
um mundo sem nome
um mundo sem mim
onde pouso, pairando
minha própria decadência
espécie fúlgida
desalinhada em dedos
veias abertas da entrega
possuída.

s/título

Encontro a nudez
com que vestir
este nada:
velame de horas
e êxtases
— teresas ávidas;
e pés que naufragam
este tempo insondável.

Roberta Tostes Daniel é poeta, autora de Uma casa perto de um vulcão (Ed. Patuá 2018) e Ainda ancora o infinito (Ed. Moinhos, 2019). Tem participações em coletâneas e revistas literárias, impressas e digitais. Blogue [link]

plano-piloto v.2222, de Stella Paterniani

i.
era uma vez uma família
que foi morar embaixo do toldo azul
da comercial da 215 norte
uma vez rui
me chegou pedindo um prato de comida
eu comia sete corações de galinha
num prato branco me engasguei
vomitei quatro galinhas
cheias de pena de baba
e com casquinhas de feijão
se empoleiraram no rui
que se enroscou nos fios de couve
e levitou

ii.
na 105 sul o latido do cachorro lembrou
meu pai fazendo da mão uma conchinha e
assoprando
não era uivo silvo badalada brinde sirene
era eu agora embaixo d’água

e agora as superquadras submersas
acolhiam no playground um presépio
pequenos postes sinalizadores
amarelo sobre preto
pequenos cones bicolores
todas cores sobre preto
dançariam soltinhos
na gravidade subaquática

desprezando mijos de cachorros
desprezando beija-flores caramujos comemorações

e o cine brasília era um grande bolsão
de pouso submarino
pista de corrida de obstáculos pra peixes-palhaços
ponto de descanso de ouriços
cavalos-marinhos fazendo troça
e humanos brancos achando graça
em descobrir lavar polir verificar catalogar
nova espécie de coral

Stella Paterniani é antropóloga, professora, pesquisadora e traduz e escreve poesia. Tem se dedicado a pesquisar desafios a enquadramentos modernos com pessoas que lutam por um lugar para morar. Tem se dedicado também a traduzir poetas decoloniais. Já publicou na Revista Lavoura, traduções de Safia Elhillo na Pontes Outras e outras traduções no Ponto Virgulina. “plano-piloto v.2222” é inédito.

três poemas de Maria João Cantinho

abate diário

1.

porque só se pode sonhar
no lugar de um outro, escrevo
e ainda assim sucumbo
numa mudez sem saída
porque a língua não salva o olhar
nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te.

Percorres, de olhos no chão,
essa linha traçada pela promessa
pela qual trocaste todo o dinheiro
trazendo os filhos,
a quem, sorrindo, falaste
de um novo mundo
longe da guerra longe da fome

esperaste longos dias à deriva
enquanto a criança morria nos braços da mãe
e a terra se avistava ao longe

cantaste, baixinho, enquanto choravas
e vestias a mortalha do olhar
deus, esse deus, onde estava agora?
Nenhum canto nenhum salmo
o vento calou-se sob o mar

Mais tarde seria um outro
no lugar de um outro, sem fim,
a luz do mar é cruel, senhor
e a terra está cada vez mais próxima
mas os lábios secam, a fome devasta
as noites são frias frias
deus, esse deus, o deus dos outros, onde estava agora?

A terra está tão perto
os olhos cegaram-me
de tanto olhar a luz deste mar
a promessa fez-se noite
e canto, baixinho, um salmo
à espera que ele nos responda

deus, esse deus, abandonou-nos?

A terra estava tão perto. À distância de um sonho.

2.

Vieram do norte e ocuparam o seu lugar
estenderam uma manta negra
tão grande que tapou o sol
e o mundo mergulhou na sombra

o ar que as mulheres respiravam era fétido
e as crianças ficavam doentes
e de olhos vazios, com males estranhos
e os pássaros fugiram, não se sabe para onde
mesmo na Primavera não regressaram
porque a sombra não desaparecia
e a sombra estendia-se cada vez mais

agora não era só a terra, mas havia também o mar
que já nem era claro e transparente
e os peixes davam à costa, sem vida.

Os homens procuravam o esquecimento
nos braços das mulheres e nos bares
enquanto o velho pescador lhes falava
do mar antes da chegada da sombra.

Os homens cansavam-se das palavras do velho
esse louco preso ao passado
mas qualquer coisa os levava
todos os dias ao bar
a ouvir as histórias do velho

lá fora era o vento, sabiam,
o silvo do mal, essa sombra ininterrupta
que trazia doenças e escuridão.

Qualquer coisa os fazia acreditar
um fio longínquo que os trazia de volta
ao tempo dos nomes
ao tempo de um silêncio cheio
e sem medo.

Pode um homem sonhar, ainda,
enquanto as asas do mal o assaltam?

afrin
Para Hussein Hasbach

Dizem que o pesadelo dos soldados do Estado Islâmico
é ser morto por uma mulher,
dizem que não terão as 72 virgens
nesse paraíso sonhado que os espera.

E elas, peshmerga, enfrentando a morte,
olhos de tigre, saltam-lhes ao caminho como demónios
livres e sem véus, implacáveis,
elas que, no amor e nos filhos, respiram a ternura
e a salvação.

Ceylan matou-se com a última bala de que dispunha,
talvez tivesse tido medo nessa hora,
mas o tempo não é para medos nem delongas
e Ceylan também não sabe ser heroína
que isso é para as ocidentais plasmadas
No tédio das suas vidas vazias,
entregues à contemplação de miragens,
criadas pelos que vendem a morte
em longínquas paragens.

Arin fez-se explodir, para não cair em mãos inimigas,
O seu corpo matou tantos quanto pôde,
em nome de um povo, que só na alma e no coração
conhece a sua pátria,ardendo
no olhar das suas crianças, quietas,
à espera do futuro, que silva entre as balas
e o sangue, as vísceras dos seus mortos.

Aqui, em Efrin, só a morte canta,
só ela floresce, petrificando,
diante da nossa indiferença gelada, muda.

*

na terra do meu pai corria um rio
e não era ainda o do tempo
nem eu nadara nas múltiplas
águas de Heraclito, um rio
onde a sombra e o riso
acolhiam o nosso corpo
ainda intacto
no incêndio da manhã

na terra do meu pai havia laranjas
e chão, havia sol
e nós ouvíamos a respiração da noite
por dentro das raízes das árvores
e o rio falava com as pedras
e com a luz
e nós corríamos
ou éramos levados pelo vento

na terra do meu pai não havia medo
só um rio
e os homens tinham nome
era um rio por coração
era um nome
para um homem.

savana

Se eu te pedisse a demora, pai,
De um corpo adiado, ainda,
e te contasse de novo as viagens
que fazíamos no tempo antigo
e as minhas palavras pudessem
aquecer o teu olhar, trazê-lo de novo
ao meu chão, às minhas mãos,
como as histórias que me contavas
e depois ríamos inteiros.

Se eu te pedisse a demora, pai
para recomeçar a vida, para recompor
a ruína, juntar todos os ossos
para te devolver a luz da savana
e a respiração das árvores, o inexaurível canto
da terra, do rio que havia
e do olhar bravio das gazelas
no fulvo dorso da madrugada.

Se eu te pedisse a demora, pai
para recomeçar tudo de novo,
infância e areia correndo por nós,
só a música e o segredo da savana
o fogo da tribo, a dança
e sempre o tempo
o da fala antiga
o que se anela com deuses
e com o pó.

Maria João Cantinho nasceu em 1963, em Lisboa. Viveu em África durante a sua infância e licenciou-se em Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea, pela Universidade Nova de Lisboa (com co-orientação da Université Marc Bloch de Strasbourg). É ensaísta, poeta e tem colaborado em inúmeras publicações académicas e literárias, em Portugal, França, Espanha, Brasil, Índia. Publicou um livro de ensaio, livros colectivos em que participou e co-organizou (sobre Celan, Benjamin, Levinas), três livros de poesia e duas obras de ficção e foi nomeada finalista do prémio Telecom no ano de 2006. Actualmente é professora do Ensino Secundário e também do IADE (Creative University of Lisbon), membro integrado do Centro de Filosofia da Universidade de Letras de Lisboa, onde tem organizado congressos e conferências. Colabora regularmente com revistas de literatura e crítica literária (Colóquio-Letras, Golpe d’asa, PensarDiverso, Letras com Vida, etc.) e tem integrado várias antologias de poesia, bem como organizou algumas. Tem no prelo uma obra colectiva sobre Walter Benjamin (Brasil) que co-organizou com Amon Pinho e um livro colectivo sobre Paul Celan, em co-organização com Carlos João Correia, Cristina Beckert e Ricardo Gil Soeiro. É membro da Direcção do Pen Clube Português e da APCL (Associação Portuguesa dos Críticos Literários).

três poemas de calí boreaz

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#dia25 | falha geográfica

esta noite não sei
o mundo, arrepiado,
está entrando aos trambolhões
todo pela rachadura que se abriu
à latitude -22.9 com longitude
-43.1 ali mais coisa
menos coisa na altura
do posto 5 mais concretamente
a 20 passos da linha do Atlântico
exatamente no ponto em que
é possível caber entre braços
toda a paisagem indecente
quântico interstício
de tudo
que é íntimo e ausente e eu não sei
o mundo, arrepiado, está
todo indo por ali abaixo
num vício biográfico
danado
o pior minha gente
é que a fenda tem luz própria
é toda colorida de açaí e acerola
e tem um barulhinho
lá no fundo
espera aí
é uma caixa de fósforo
tem alguém batendo nela
a cadência nova do samba
o mundo tá doido
o mundo tá doído
quer chegar junto
chega mais cabe mais
e não há controle
não há respeito
é trambolhão mesmo
o mundo está desaparecendo
aos poucos esta noite
a rachadura fechará
pontualmente antes que eu chegue
para ligar o dia
e avaliar os danos
é assim desde que a geografia nos falhou

ps: este domingo
passa lá no posto 5
para eu te ver passar
vou estar lá na areia
a 20 passos da linha do
atlântico
com os pés firmes
no magma azul
pulmões expandidos para a avalanche
quântica de oxigênio
de binóculos
ou telescópio
só para te ver passar
no equilibrismo óptico
de te encontrar entre milhões
de meteoros secundários
e depois, o mundo
o calendário o mar os luzeiros
talvez se entendam
vou estar lá na areia
para te ver passar

dedicatória

vai ficando tarde
tardo. estou abotoando
minha coragem
mudei de casa, de estação
mas de saudade não, não mudei
bem tentei, nos classificados nos bondes
mas teu olho esquerdo é tão
diferente do teu olho direito
ninguém mais desobediente
do que o confuso de peito
está ficando tarde. ok.
tenta apreciar o manuseio de horizontes
o plantio de um novo planeta
ainda intermitente
antes, te dedico a leve chuva
que rodeia os templos

fóton

isso era no tempo em que
a luz de maio entrava
pontualmente
às quatro da tarde naquela
avenida da Urca com aquela
soberba dourada bêbeda de américa
e se refratava nos recortes
insuspeitos dos troncos dos coqueiros
do alcatrão malemolente
para finalmente se alojar
em algum indício corpóreo
de uma microexplosão
e durava quatro minutos
precisamente — a luz dos maios rotos
e logo mais à frente
o verde dos morros
a respirar nuvens

isso era no tempo
em que maio explodia e éramos jovens
de nós — e logo esplendia
pelos ralos tudo que escrevíamos
com luz

| poemas do livro outono azul a sul (2018), publicado em Portugal e no Brasil pela editora Urutau [editoraurutau.com.br], com ilustrações de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira e posfácio de João Almino. |

calí boreaz nasceu no outono, em Portugal. de origem parte do Ribatejo, parte da Beira Baixa, estudou Direito em Lisboa em meio às noites de fado, depois aventurou-se a leste, viveu um tempo em Bucareste, onde estudou Língua e Literatura Romena, e também Tradução Literária, até que atravessa o Atlântico rumo ao sul, no virar de 2009 para 2010, para viver no Rio de Janeiro, onde estudou [e continua a estudar, e a realizar] o ofício do Teatro. Na literatura, traduziu do romeno os romances O Regresso do Hooligan (Ed. ASA, Portugal), de Norman Manea, e Lisboa para sempre (Ed. Thesaurus, Brasil), de Mihai Zamfir. Seu livro de estreia, outono azul a sul (2018), marca sua luso-brasilidade e tem uma extensão fotonarrativa no instagram @caliboreaz — ferramenta dinâmica que complementa o livro com as imagens que o inspiraram e as que seguem precedendo novas escritas. Seus poemas foram expostos em forma de videopoemas no Hyderabad Literary Festival 2019, na Índia. Site: www.caliboreaz.com

três poemas de Ellen Maria Vasconcellos

se eu me sinto latino-americana?

Se me roubam a prata como às uruguaias
Se me matam de fome como às peruanas
Se me secam de sede como às bolivianas
Se me arrancam a língua como às paraguaias
Se me tiram os olhos como às jamaicanas
Se me desaparecem as veias como às panamenhas
Se me queimam a pele como às dominicanas
Se me comem a carne como às brasileiras
Se me querem distante como às cubanas
Se me querem invisível como às guianas
Se me querem pequena como às equatorianas
Se me querem muda como às nicaraguenses
Se me querem surda como às salvadorenhas
Se me querem puta como às porto-riquenhas
Se me querem escrava como às mexicanas
Se me querem pobre como às haitianas
Se me querem morta como às guatemaltecas,
Sim, me sinto latino-americana
e inclusive depois de morta
seguirei sendo desta terra.

gravidade

onde caem as maçãs
jaz a teoria
quanto pesa um corpo
quando ainda é
semente?

a poesia viverá

ainda que ninguém me escute
e veja a escuridão
ainda que a água siga subindo
e me doa o corpo
ainda que a rejeição se misture ao esquecimento
e nasçam ratos
ainda que me peçam caos
e se abra um buraco no chão
ainda que eu morra na fuga
e alguém me chame
ainda que eu veja a luz
e a água siga baixando
ainda que me doa a alma
e o abraço se misture à memória
ainda que nasçam flores
e me peçam silêncio
ainda que se faça amor no chão
e eu morra na espera
A poesia viverá

Ellen Maria Vasconcellos veio de Santos e mora em SP. É autora dos livros Gravidade (2018) e Chacharitas e Gambuzino (2015, edição bilíngue), ambos publicados pela Ed. Patuá. Editora de livros didáticos de inglês e espanhol, é doutoranda em literatura hispano-americana contemporânea na Universidade de São Paulo, além de tradutora freelancer de literatura em inglês e espanhol. Tem traduções e poemas publicados em diversas antologias e revistas literárias nacionais e internacionais. Contato e portfolio: [link]

cinco poemas de André Luiz Pinto

Poemas do livro Migalha (Editora 7Letras, 2019)

I

Passaram-se os dias
e só agora você pergunta
o que acabou
com a sua poesia
Você realmente quer saber
sonha que eu diga
do galo que matou a madrugada
do lobo que preferiu
a vovozinha? Mas você insiste
e como insiste. Sorte a sua
sorte a minha, que temos um
ao outro, temos a família
Continue assim

II

Aquela emoção
que se tem com os amigos…
As coisas são o que são
e não adianta refletir sobre elas
Sempre pensei
em comprar uma arma
Quer saber?
Comprei
Dizem que só funciona
nos filmes

…mas prefiro descobrir da minha maneira

III

Ironia? Sem dúvida, mas sem cicuta.
Cada um sonha com a revolução que merece
Revolução sem sair da poltrona.
Amor em não sair do lugar.
Um post em repúdio à ação da polícia.
Sonho (apenas sonho) com muitas formas de rebeldia.

duas coisas

É muito importante que você saiba
que precisa começar a quimio o mais rápido possível

e que para uma pizza pré-cozida
são dez minutos
no forno.

V

Hortênsia é a flor mais viva
maldade que age devagar
Luzeiro que corrói as entranhas
Saboreia uma
Os postes piscam
brindam das janelas as mulheres
políticos abrem as contas
para que vasculhem qualquer indício
e eles sabem que vão encontrar
Hortênsia é assim, réstia de luz talvez
Sei que tem esse efeito
vi naqueles que comeram
nos que lambuzaram
com a sua graça.

André Luiz Pinto é doutor em Filosofia e autor de Flor à margem (edição particular, 1999), Primeiro de Abril (Ed. Hedra, 2004), Ao léu (Ed. Bem-te-vi, 2007), Terno novo (Ed. 7letras, 2012), Nós, os dinossauros (Ed. Patuá, 2016), entre outros.

três poemas de André Nogueira

capa_presidente

Poemas do livro O Presidente me quer morto (Editora Urutau, 2019)

esses filhos de uma loba

Dirigi à arquibancada
meu rugido incompreendido
para os filhos de uma loba.
Ao chegar em seus ouvidos
o clamor da minha boca,
eles saíram —
os patrícios, os plebeus,
de seus liceus, de seus hospícios
ou detrás de uma fontana.
E lotando o coliseu
para escutar a minha ira,
nem sequer a pulga coube
atrás de orelhas em abano.
Já o respeitável público
em júbilo ovaciona
o cesáreo adestrador:
“Eeeu…
sou romaaano…
com muito orguuulho…
e muito amoooor…”

Quanto a mim, fui das savanas
um temido caçador.
Da minha África querida
me trouxeram acorrentado,
e para mim mais dolorido
do que grades e grilhões
é lembrar como esse roubo
me custou a minha juba.
Esses filhos de uma loba!
E outra vez o meu rugido,
glória última, ecoou:
“Se arrebento estas argolas
na arquibancada subo,
estraçalho o domador,
mijo na porta do Senado
e de Roma tomo o trono.
No correr dos trinta anos
de meu régio de tirano
terá tempo de crescer a minha juba”.
E responderam-me os romanos:
“Vai pra Cuba!”

Nero, o imperador, fez um aceno
ordenando que soltassem na arena
a fera e o gladiador.
Ouvi rugir meus camaradas
leões de cabeça raspada,
a lamentar no calabouço
a agravada minha pena
pela hiena engravatada.
Eu clamava por socorro
mas o povo com os punhos
agitava por, supunha-se, um osso.
Implorei também a Deus
que retirasse minha alcunha
de Senhor dos animais.
Mas inflamavam-se os ânimos
e unânime ecoava o coliseu:
“Todo poder a Barrabás!”

Pensei num novo plano:
amolecer os corações,
e desarmar o rei romano
com uma revolução da paz…
Deitei com a barriga para cima,
como um dócil felino,
e levantei a minha pata
oferecendo-me aos demais.
O gladiador parou estupefato,
a multidão guardou silêncio
e Nero desmaiou como uma menina
nos braços de seus serviçais.
Ergueu-se o portão de uma garagem
e de lá saiu à toda
um andar da carruagem
em desgovernado consenso,
guinando para a direita.
O gladiador bateu com o globo
incrustado de espetos,
e esses filhos de uma loba
enfim gozaram satisfeitos
mamando nas mesmas tetas,
tudo do mesmo jeito,
mas eu levo para sempre
um golpe de globo no peito.

Maio 2016

a viúva do jornal

Com o envelopinho pelo viaduto.

No envelopinho
uma passagem para Santa Rita do Sapucaí,
um trocado para um lanche e uma coca
e o santinho, com a prece pro anjo da guarda,
que comprei numa loja católica.

No viaduto
ela me disse: “Minha história
deu notícia no jornal.
Foi quase ontem:
cinco tiros por cem conto.
Meu marido nem chegou no hospital,
já me chutaram para a rua sem um puto”.

Com o envelopinho
pelo viaduto.

Deus te livre e guarde!
Amanhã pode ser tarde…
Hoje mesmo vou trazer essa passagem.
Tua mãezinha em Santa Rita
ainda chora de saudade
e minha Mãe, que é mãe tua,
é quem te guia na viagem.
Tu acredita? Eu te prometo
que tu vai sair da rua”.

Mas na loja católica
não achei um só livreto
em que Jesus não fosse branco
e Judas preto.
E na cidade o tempo voa,
é fila no banco,
guichê da Cometa
e com o aperto da garoa
fui direto para casa.

No outro dia eu rápido saí
para cuidar da minha causa.
Alcancei o viaduto…
A passagem pra Santa Rita do Sapucaí,
a prece e o trocado para o lanche,
no envelope estava tudo.

O velhinho do sinal
segurou na minha blusa
oferecendo-me um chiclete.
“Viúva do jornal?
Não sei, jornal só uso
pra cobrir minhas canelas.
Mas na ponte do outro lado,
vai saber tu acha ela,
tem um povo, uns colchonete…”.

Quando olhei, e vi piscando a viatura,
os dois guardas com revólver na cintura,
a pobre gente recolhendo suas tralhas,
eu à toda e sem pensar atravessei,
o busão não me pegou e foi por pouco,
“Que é isso!?”, protestei
com o coração na boca.

“Como assim, o que é isso?
É meu trabalho!”, falou o polícia.
“E tu, não trabalha?
A propósito, teu nome, tua idade
e documento”, e também disse
apontando o chão de pedra:
“Este lugar é um cartão postal da cidade,
aqui não cabe essa imundice.
Agora arreda!”

Assim tomei o meu caminho,
debaixo da chuva,
amassando em minha mão o envelopinho
e engolindo a seco minha prece.
Nunca mais vi a viúva…
Mas escuto a sua voz no viaduto
como a mim ela dissesse:
“Mamãezinha em Santa Rita me espera!”
E se me lembro da mãe minha,
que é mãe dela e mãe de toda gente pobre,
já no peito o coração me acelera,
mas a blusa ainda o cobre
e macia é sobre o leito minha queda.

Roga a Deus por tuas filhas
que se enrolam no jornal,
pois ninguém delas se apieda.
Como o pão que se partilha,
rasgo em dois o cartão postal.
Raios partam essas pontes!
E aos montes caiam pedras
sobre os edredons dos maus.

Abril 2017

o presidente me quer morto

O presidente me quer morto.
E mais quarenta e seis por cento,
e meu pai, meus avós e meus tios
me querem morto sem saber.
Nem de longe lhes ocorre ao pensamento
que amanhã sob o fuzil
pode ser eu, ou ser você…

Da guarita o rosto redondo
do porteiro, acenando com a mão,
o bom velhinho joga aos pombos
na praça farelos de pão,
e conversando alegremente
motorista e passageiros,
a bordo do bonde,
que sorriem com bondade
e me respondem: “Boa tarde!”
Nem de longe
lhes ocorre
ao pensamento! —
se é esta realmente
a vontade
que eles todos compartilham.
Penso, e talvez
esteja errado,
que todos são bons,
mas quando for a minha vez
de ser levado
ao paredão,
haverá quem aperte o gatilho
e quem chore tendo entregue
o próprio filho.

Está difícil de se amar a humanidade,
e mesmo assim eu insisto,
com um misto
de terror e apatia,
e ando sem norte
pelas ruas da cidade,
a pensar que minha morte
é a vontade
da absoluta maioria.

Mas eu sei que não é isso
o que pensam realmente,
e também sei como é difícil
não ceder à sintonia
urgente do rádio,
ao ódio servido
em cada banca de jornal.
Meus queridos!
Eu sei que nenhum de vocês
me quer mal!
Mas quando for a minha vez,
já não lhes dará ouvidos
carcereiro ou general.

Outubro 2018

André Nogueira nasceu em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Tradutor, poeta, ensaísta. Autor de O Presidente me quer morto (Ed. Urutau, 2019).