esses bichos querem salvar a Terra

Irmãs crianças têm corpos de velhas.
Rapaz prende namorada em poço por dez meses para ficar rico.
Casa atormentada por demônios é demolida.
Homem engravida da namorada, os dois são transgêneros.
Pai é suspeito de organizar sequestro e tortura do filho.
Cansada de apanhar, mulher mata marido a marretadas.
Macaco acusado de roubo é amarrado e torturado.
Outro macaco, bêbado, ameaça clientes de bar com peixeira.
Um terceiro macaco é flagrado no Japão tentando copular com veado, e isto intriga cientistas.
Tênis encontrado com pé dentro.
Porco nasce com testículo no lugar dos olhos.
Motorista dá de cara com dinossauro gigante no meio da via.
Filhote de golfinho morre após ser tirado do mar para selfies.
Roupa curta pode chamar demônio.
Cadela vira mamãe de ninhada de gambás órfãos.
Estudo revela que mulheres de bumbum grande são mais inteligentes e vivem mais.
Padre mostra som de demônio sendo queimado vivo.
Chinês decide defecar em balde dentro de ônibus.
Suposta porta no sol sugere que estrela seja oca e abrigue aliens.
Famosos revelam seus fetiches sexuais.
Bode fica pendurado em cabos telefônicos.
Bola de vômito de baleia pode deixar casal rico.
Tops mostram vida fácil de modelo.
Cobra sai da privada e morde homem bem no pênis.
Dá pra melhorar o gosto do sêmen?
Mulher larga o emprego para amamentar o namorado.
Chocolates de ânus são o presente da moda neste dia dos namorados.
Mulher cria roupas com pelos pubianos de desconhecidos.
Superbactéria desencadeia apocalipse zumbi na Sibéria.
Repórter vê jovem morrendo e faz entrevista.
Mãe espirra leite após críticas por amamentar em público.
Como se forma o pum vaginal?
Mães transformam cordão umbilical em arte para recordar.
Galo gigante é do tamanho de uma criança de nove anos e detém recorde nacional.
Homem afirma ter encontrado cadáver de sereia à beira-mar.
Vídeo flagra alma saindo do corpo de mulher atropelada.
Sexo com robôs será mais popular do que entre humanos, diz cientista.
Indiano faz cirurgia e tira cauda de dezoito centímetros.
Homem acidentado é encontrado vivo em necrotério.
Mulheres têm dúvidas sobre o tipo ideal de vulva.
Síndrome provoca até cem orgasmos por dia.
Pedófilo flagrado com cento e trinta e sete mil imagens indevidas de crianças é poupado da prisão e vai começar uma família.
Homem perde seu membro sexual após prendê-lo em uma garrafa.
Após cirurgia, menina que nasceu sem vagina conta como foi perder a virgindade.
Mãe mata filho de sete anos quando ele descobre caso entre ela e avô.
Com promessa de fazer crescer, pastor agarra pênis de fiéis.
Criança de quatro anos é sacrificada em ritual de magia.
Esses bichos querem salvar a Terra fazendo amor com ela.

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.

começo

Melhor seria voltar ao começo.
Mas como? se nossas calças
antigas xadrezes lilás não servem
mais como os sapatos brancos

agora muito sujos de barro
lama feno poeira molho graxa.
Melhor seria voltar ao começo.
Mas como? nossa idade canta

e já desenhamos mapas trenas
mensuram esta aguda distância
com a qual direcionamos aflitos
o tempo da espera, os lóbulos

da orelha já estão queimados.
Melhor seria voltar ao começo
retroceder a sequência da corda
os mecanismos roldanas teclas

agora a substituir os sentidos
as janelas a história esta chave.
Neste meio, seguimos órbitas
na esfera da gravidade posta.

Laís Ferreira Oliveira nasceu em 1992, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Atualmente, é mestranda em Comunicação na UFF. É graduada em comunicação social pela UFMG. Em 2015, publicou o seu primeiro livro de poemas, Caderno de Bolsa, pela Chiado Editora, com edições em Portugal e no Brasil. Foi finalista de diversos concursos literários, como o Concurso Nacional Novos Poetas, da Vivara Editora, com o poema “O Beco número 2”, em 2014.

entropé

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.”
(O Livro dos Itinerários)

sobre what’s up

o violinista no telhado
on the other hand
a secreta vida de walter mitty mais naquela partinha
que toca space oddity
as duas partes das relíquias
da morte
a caminhada solitária pra estação que nunca
mais é sem seu passo
a letra de canção que tem uma única frase lembrada
e o resto só murmúrio de voz incendiada
o apito de madeira de um avô à mão
entalhada herança repassada
o livro artesanal à quatro braços costurado
biblioteca comunitária entre dois
a trilha sonora do top gun no pen drive contaminado
cavalo de tróia e presente de dia dos namorados
a partida de uma e da outra o aniversário
avós compartilhadas
a queda de patins que nem rola
apoio e pernas e braços únicos em corpos distintos
o tapete de sala o chuveiro apertado as camas de cada
na carne de um o cobertor que ao outro faltava

pode ser uma lista

mas também pode ser a palma
da mão de namorada
aberta
encostada aqui na face
linha da vida escancarada
como quiromancia dissesse pra aquele
que nela inacredita

na sua cara

mas também pode ser uma ambiguidade
tipo luneta
ter e não ter a lua

mas também pode ser rever
o filme de ficção
científica que diz

não estamos sós

e reentender o recado
tá ali o astronautinha
pendurado me lembrando

mas também pode ser a tristeza
de que cada vez que o bane
racha o chão de gotham
de cada vez que um amigo
imaginário é apagado

de cada vez que o elefante completa o itinerário
e tem pés no caso patas arrancadas

filmes a rever coisas
nem desfeitas por fazer
ou que nem se quer mais espectar
l’écume des jours
un cuento chino

intouchables

pode ser uma lista mas também pode

pode ser do grego
da wiki
da gente
ela
é que me ensinou significado

mão a aprendeu e agora vivem cheias
essas mãos sem nada

ei
solta esse controle
não precisa mais ficar passando os canais

é en tro o quê
mesmo hein

pia

mas também pode ser lugar
onde uma mesma vida acaba e principia
zerando
qualquer entrada de dicionário
esfacelando e retornando muito mais

que átomo

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é autor dos livros de poemas rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como assistente editorial na Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Mallarmargens, Germina, Jornal RelevO, LiteraturaBr, Revista 7faces, Flanzine (Portugal), entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015), Patuscada: antologia inaugural (Editora Patuá, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Punks Pôneis, 2016) e Poemas para ler nas ocupa (Editora Estranhos Atratores, 2016).

louco e distante

Louco e distante
acendi os olhos faróis

e cantos gregorianos
soaram soterrando sorrisos.

A nós
a gravidade breve dos lírios.

Dois sóis embriagados
de pés descalços

de maus lençóis

a correnteza dos rios.

Fogos mudos
são lágrimas que caem pra cima

na face da escuridão
da noite

a faca
na neblina do dia sangra

de todo amor que não ama

como música sem rima.

Yuri Hícaro é escritor potiguar, formado em letras pela UERN, e mestrando na área de Literatura Marginal. Editor do blog Poemas da estrada. Autor do livro Um Canto Conforme a Noite (independente, 2013).

domados

Surtos curtos de ímpetos abruptos
Sustos afoitos de corpos revoltos
Suspiros, respiros dos amantes mundos
Soltos, loucos de mar sem porto

Nascem, morrem, reconstroem e doem

Puros clamores de ardentes coros
Risos tímidos, sem promessa nem votos
Espelhos, relevos, suor de todos os poros
Sumos, vozes de silêncios loucos

Cantam, clamam e até sambam.

| do livro Palavras Ressentidas, Editora Giostri, 2015 |

Vanessa Dourado é escritora e feminista latino-americana. É autora do livro Palavras Ressentidas e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires.