dois poemas de Rudá Ventura

sementes

Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
Castro Alves

O futuro em sementes:
Um fruto nasce ao forjar a terra…

Pode ferir-se a mão,
Pode sangrar a seiva,
Mas o desejo revela suas folhas:
Bandeiras contra a cela.

Enfim, o pranto seca,
As pedras somem
E os olhos contemplam a primavera.

preamar

Escreva meu nome na areia
Pra que nele habitem as linhas do Mar
E só o que diga a água
Ressoe em minha sorte,
Pelo sal que se estende aos olhos,
Pelas ondas que retêm meu ar.

Há um brilho de Lua no dia,
Há uma chama de Sol pela noite
E há um caminho de estrelas sobre as águas.

Escreva meu nome na areia
E deixa que as ondas me façam lembrar…

Eu sou da preamar
E eu trago em minha boca
A voz do Oceano.

Rudá Ventura é poeta, músico e educador paulistano. Autor do livro Preamar, lançado em 2017 pela editora Laranja Original, tem poemas publicados também em revistas literárias do Brasil e de Portugal. Encontrou na música a oportunidade de estender sua linguagem poética, tornando-se cantor e compositor. Comprometido com a arte-educação, realiza palestras e apresentações de poesia recitada em escolas e eventos literários.

dois poemas de Itamar Vieira Junior

méxico

Tudo que interessava nesta cidade
eram suas orillas
a crescerem em relevo
no que está além
não muito longe do vulcão

“su construcción fue uno de los pocos a resistir intacta”
diz o taxista olhando para o edifício
replicando o terremoto de 1985
quando alguma coisa aconteceu ao sul de meu corpo

uma placa tectônica engoliu outra placa
sete horas e dezenove minutos
chegou por aqui dois minutos depois de surgir no seu epicentro
e as palavras do trabalhador continuam a replicar
na chuva de outubro de 2014
culpa das correntes de ar que chegam do Pacífico

as orillas são gigantes
nelas estão os segredos sussurrados
o que nunca será ocultado
não há tempestade nem abalos
capazes de desfazê-las definitivamente
nada que as transforme em ruínas

um guarda-chuva gentil vem até a mim
naquela mesma noite de chuva
encolho para que nele se abriguem dois
em movimentos que provocam pequenos choques de corpos
e mesmo assim tudo permanece de pé

peso

caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
arrebentando
a terra
vou me despindo
de roupas
palavras
vou me desfazendo
de lágrimas
e sorrisos
corto as unhas
não quero mais nada
a tesoura chega à carne
o sangue
goteja quente
e flui
não seco
nada desejo
do que me deixa
fecho os olhos
e os pensamentos
remanescem
por mais que deseje
desfazê-los
insistentes
desobedecem
apenas caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
esmagando
o que não retorna

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Dois de seus contos foram traduzidos e publicados em revistas especializadas na França.

três poemas de Arthur Lungov

na cena final

A bala cruza a avenida
alcança Belmondo pelas costas
cabeça arremessada pra trás
os brações pendentes cipós
a ponta do sapato dobrada
tenta deter
a queda.

Um desenho em giz
no asfalto
não traz pistas
de Bogart.

O nome das coisas não dura mais
que o gesto de batismo
do nome que as coisas gostariam de ter
afunilando sílabas
até cingir uma mudez
brusca.

ele

ele não viu
ele não viu nada
ele não viu nada que não fosse a bala
cortando curiosa
um assovio leve e ligeiro
derrubando um garoto preto
no chão

ele não viu nada além de pele morena
vazando a camisa branca
lisa passada sem
manchas

ele mastigou raivoso um furo na tarde
que sugou fundo e forte
e deixou no centro de tudo o verbo vibrando
“morreu”

ele não viu ninguém

presságio

Quando a manada soltava larga
pela pradaria
e o búfalo não era um búfalo mas
um pistão a mais
castigando firme e duro o maquinário ruge da terra
os astecas em travessia abaixavam o rosto
e liam o mundo
nas rachaduras paridas
pelo som.

O silêncio vertical e liso
intocado
deixaria seus adivinhos
em pânico.

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da Lavoura, revista de literatura contemporânea. É autor dos livros Luzes fortes, delírios urbanos (Ed. Patuá, 2016) e Corpos (inédito). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias (Philos, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Raimundo, O Casulo, Poesia do poeta etc.). Foi curador convidado da Casa Philos na Flip 2018. Email para contato: albugelli@gmail.com

cinco poemas de Alexandre Guarnieri

a página marinha [excerto]

“e enquanto você lê/ o mar está virando suas
páginas escuras,/ virando/ suas páginas escuras”
Denise Levertov

~ /quatro ~

~ ( o labirinto intramarino ~ tremeluzindo
espelhos vivos ~ de vincos cor de vinho
~ murmúrios / marulho ) ~ o mar possui cristas
dorsais, que eriça ~ seus ladrilhos são
incorpóreos menires sob a fossa abissal ~
há cariátides de cristal decorando os
recônditos de seu salão principal ~ ( iemojah,
rainha dos redemoinhos ~ iemanjá manejando jangadas
na encruzilhada das águas) ~ há um pomar esquecido,
de astrolábios outrora dourados, agora tão
corroídos ~ náufraga morada dos astros ~ de uma
mínima astronomia de ostras / se estrelas-marinhas
são sóis irrisórios ~ nebulosas mergulham / e
polvos retorcem seus tentáculos constelares ) ~

penhasco

assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites

ilha na névoa

cercada pela tempestade que ameaça
______________sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
_____em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
________________________a mesma meta
__________correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
_____________________________é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
________________________entregue à queda

mágoa no sal

enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;

seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo

viagem fantástica

Para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza imaginável pelo homem,
conquistada ou ainda inexplorada,
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro de chiaroscuro, a esponjosa
massa cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

por quanto tempo seria capaz de estudar
nossas fossas abissais, internas,
nossas zonas de guerra, onde glóbulos
atacassem micróbios entre outros
vírus e furtivos inimigos batalhando
em tantas trincheiras de carne e nervo?

no fluido da medula, no sangue
que circula, tanto nautillus
quanto proteus completariam
a inusitada frota: as vinte mil
léguas submarinas enfim vencidas
na saliva sob nossas línguas…

| poemas do livro O sal do Leviatã (no prelo). |

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Lançou Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011), disponível gratuitamente [AQUI], Corpo de Festim, livro ganhador do 57º Jabuti, 2ª Edição pela Penalux, disponível gratuitamente [AQUI], e Gravidade Zero (Penalux, 2016), disponível gratuitamente [AQUI]. Em 2016, publicou pela Editora Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis), do qual foi um dos organizadores. O sal do leviatã (2019), seu livro mais recente, está no prelo.

assim falou Pablo Nietzsche Neruda: “Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar”, de Flávio Ricardo Vassoler

No Livro das perguntas (Cosac Naify, tradução de Ferreira Gullar), o poeta chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto (1903-1973), também conhecido como Pablo Neruda, se pergunta — e nos pergunta: “Onde está o menino que eu fui? Está dentro de mim ou se foi?”

Ao que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sob o ninho desgrenhado de seu bigodão, prontamente redargue:

— Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar.

É assim que, a bordo do tapete voador de Peter Pan, ensaiemos algumas respostas (alguns soslaios) para as perguntas de Pablo Nietzsche Neruda.

“A cratera é uma vingança ou um castigo da terra?”

Vingança? Não. Castigo da terra? Tampouco. A cratera é uma pegada.

“Como dizer à tartaruga que a supero em lentidão?”

Pergunte a Aquiles.

“É verdade que as esperanças devem regar-se com orvalho?”

“Com açúcar, com afeto” (Chico Buarque).

“Há alguma coisa mais triste no mundo que um trem imóvel na chuva?”

Observar o trem imóvel na chuva – entreouvir as gotas tamborilando pelo teto enferrujado dos vagões – ao lado de alguém que nunca mais vou abraçar.

“Em que janela fiquei olhando o tempo sepultado?”

Em que sepulcro fiquei olhando a janela do tempo?

“Onde o espaço termina se chama morte ou infinito?”

Onde a morte termina se chama espaço infinito.

“E como se chama este mês que fica entre dezembro e janeiro?”

Utopia.

“Como ganhou a liberdade a bicicleta abandonada?”

Abandono, liberdade perpétua — e condicional.

“De que ri a melancia quando a estão assassinando?”

Do condenado à forca que, após despencar do cadafalso, tem a mais rija de suas ereções e ejacula no momento mesmo em que expira.

“Por que os velhos esquecem as dívidas e as queimaduras?”

Esquecem mesmo?

“Por que as ondas batem na rocha com tanto vão entusiasmo? Não cansam de repetir sua declaração à areia?”

Porque é preciso imaginar Sísifo feliz — e livre.

“O outono não parece esperar que alguma coisa aconteça?”

Sísifo acredita que sim.

“Chega o outono legalmente ou é uma estação clandestina?”

Assim falou o Carimbador maluco, de Raul Seixas:

“5, 4, 3, 2…
Parem, esperem aí!
Onde é que vocês pensam que vão?

“Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!
Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!

“Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar

“Pra Lua: a taxa é alta
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim
Sim, sim, sim

“O seu Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!

“Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!

“Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado, rotulado se quiser voar!
Se quiser voar

“Pra Lua: a taxa é alta
Pro Sol: identidade
Mas já pro seu foguete viajar pelo universo
É preciso meu carimbo dando o sim
Sim, sim, sim

“Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!

“Plunct-plact-zum
Não vai a lugar nenhum!

“Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês
Aventura como essa eu nunca experimentei!
O que eu queria mesmo era ir com vocês
Mas já que eu não posso
Boa viagem, até outra vez
Agora
O Plunct-plact-zum
Pode partir sem problema algum

“Plunct-plact-zum
Pode partir sem problema algum
(Boa viagem, meninos
Boa viagem)”.

“Por que as árvores escondem o esplendor de suas raízes?”

“Quando fizer o bem, faça-o aos poucos; quando fizer o mal, faça-o de uma só vez” (Nicolau Maquiavel).

“Como se chama a tristeza em uma ovelha solitária?”

Bode expiatório.

“Por que os imensos aviões não passeiam com seus filhos?”

Pergunte à angústia suicida de Santos Dumont quando o pai vislumbrou o voo de seus filhos bombardeiros.

“A fumaça fala com as nuvens?”

Historicamente, a fumaça as asfixia.

“Onde deixa o punhal a águia quando se deita numa nuvem?”

“Mantenha seus amigos por perto; quanto aos inimigos, mantenha-os mais perto ainda” (Michael Corleone, também conhecido como o poderoso chefão).

“Por que Cristóvão Colombo não pôde descobrir a Espanha?”

O Pelo Punhal da Santa Cruz precisava de novos cemitérios.

“Que bandeira se agitou ali onde não me esqueceram?”

Em uma das faces, lemos “Eu te perdoo”; na outra, “Vou me vingar”.

“Por que o céu está vestido tão cedo com suas neblinas?”

O lugar mais escuro fica justamente embaixo da lâmpada (provérbio chinês).

“Para onde vão as coisas do sonho? Vão para o sonho dos outros?”

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem.

“Não vês que a macieira floresce para morrer na maçã?”

— Não! — exclama Isaac Newton.

“Quando lê a mariposa o que voa escrito em suas asas?”

“A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando” (Machado de Assis).

“Como se combina com os pássaros a tradução de seus idiomas?”

Como se combina com os idiomas a revoada de seus pássaros?

“Em que idioma cai a chuva sobre cidades dolorosas?”

O sofrimento é poliglota.

“De onde vem a tempestade com seus sacos negros de pranto?”

Neste mundo, ora, de onde ela não viria?

“As lágrimas que não choramos esperam em pequenos lagos? Ou serão rios invisíveis que correm para a tristeza?”

As lágrimas que não choramos esperam em pequenos lagos até desaguarem em rios invisíveis que correm para a tristeza.

“Sofre mais quem espera sempre ou quem nunca esperou ninguém?”

Sofre mais quem, ao dizer que nunca esperou, só faz esperar sempre.

“Caem pensamentos de amor dentro de vulcões extintos?”

Jazem pensamentos de amor dentro de vulcões extintos.

“Como se chamam os ciclones quando não se movimentam?”

Morte.

“Vês na caveira tua estirpe condenada a virar osso?”

Ser e não ser — eis a resposta.

“Não crês que a morte vive dentro do sol de uma cereja?”

“Vê-se muito da tristeza do mundo nos olhos de um cavalo” (Guimarães Rosa).

“Se já estou morto e não sei, a quem devo perguntar as horas?”

— A mim — proclama Mefistófeles de braços abertos.

“Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?”

Pergunte à icterícia de Van Gogh.

“Talvez uma estrela invisível seja o céu dos suicidas?”

— Na mosca! — exclama o homem ridículo, personagem dostoievskiana do conto “O sonho de um homem ridículo”.

“Que aprendeu da terra a árvore para conversar com o céu?”

— Pai, por que me abandonaste?

“Que significa persistir chegado ao beco da morte?”

“Creio porque é absurdo” (Tertuliano).

“Não será nossa vida um túnel entre duas vagas claridades? Ou não será uma claridade entre dois triângulos escuros? Ou não será a vida um peixe treinado para ser pássaro?”

Assim falou Dante Alighieri: nossa vida como uma claridade entre dois triângulos escuros: inferno; nossa vida como um peixe treinado para ser pássaro: purgatório; nossa vida como um túnel entre duas vagas claridades: céu.

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras O evangelho segundo Talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014) e Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), além de ter organizado o livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012) e, ao lado de Alexandre Rosa e Ieda Lebensztayn, a antologia Pai contra mãe e outros contos (Hedra, 2018), de Machado de Assis. Escreve, periodicamente, para o caderno literário “Aliás”, do jornal O Estado de S. Paulo. Página na internet: Portal Heráclito.

três poetas por Paula Vaz de Almeida: Alice Vieira, André Nogueira, Gabriela Farrabrás

Por Paula Vaz de Almeida

Outro dia uma jovem ensaísta muito talentosa e assertiva me disse: “eu curto no Facebook uma página chamada ‘a poesia tem que morrer’”. Eu, que levo muito a sério esse negócio de poesia, tive que alertar: o Stálin achava igual e tratou ele mesmo de fazer morrer a poesia na União Soviética (em plena terra de Púchkin). Foi visível que toquei seu coração trotskista, por isso ela se explicou muito bem. E talvez até esteja certa: “as pessoas escrevem como se fosse prosa, quebram aleatoriamente as frases e chamam de verso”. De fato, tem essa tendência e há também uma vulgarização. Mas será que a melhor arma contra a vulgarização seria a rejeição? Acho que não. Por isso à tão odiada pergunta enfrentada nesses bares de mesas na calçada: “você gosta de poesia, jovem?”, tenho sempre respondido: “sim, muito, e obrigada pelo jovem”. É possível que o nosso tempo esteja querendo nos dizer algo com esse mar de poetas que nos aparece, jovens ou nem tanto; talentosos ou de jeito nenhum. Nós não podemos ser intolerantes: é preciso escutar. Daí a ideia de apresentar à Gueto, revista que sabe ouvir e acolhe poesia, esses três poetas, jovens e talentosos, muito diferentes entre si. Eles têm muito a nos dizer. A seleção que apresento é um convite.

A Alice Vieira é refinada. As imagens, os sons, as referências, as quebras, tudo tão bem elaborado que coloca em dúvida os 24 anos da poeta. “Tenho 150 anos” — ela me disse. Faz sentido. Às vezes parece de verdade que se perdeu no milênio errado. Mas pode ser também porque, como poeta, a menina já nasceu pronta. Talvez por isso consiga ressignificar referências muito eruditas usando o meme da internet. Os versos de enfant terrible enredam e embaraçam; e quando você menos espera é que vem o xeque-mate.

Ler a poesia do André Nogueira é ir mergulhando cada vez mais fundo, mas não na água, e sim numa paisagem que só não é hostil porque podemos contar com seu escudo de poeta. Seus poemas são narrativos, plásticos, reflexivos. Vamos andando com ele, lado a lado; às vezes ele oferece seu braço e, no ritmo lento do seu passo, nos surpreende com uma observação de filósofo. Apresentei o André a um amigo, que confessou: se me dissessem que é um poeta russo, eu acreditaria. Concordei: “André Pasternak”.

Mais raro que poesia erótica escrita por mulher* é poesia libertina escrita por mulher, como as da Gabriela Farrarabrás. O trato sem recato, com o pudor de uma gata de rua, flerta com o pornô; mas sem nunca confundir seu sexo com aquele da indústria pornográfica. Seus poemas tratam da posse do corpo, do próprio e do outro, da insubmissão ao sexo burocrático, tomado aqui no seu sentido figurativo e pejorativo. Não ouse pensar que sua militância está subordinada à sua vida sexual, sua palavra é autonomia, acrescentada da arroba do Twitter.

*Não sei rara ou escondida.

lésbia, por Alice Vieira

aprende uma vez mais
e repete:_______eu sou

um menestrel
____________________errante

não um bardo
____________________da corte

ainda que eu ande pelo
vale da sombra da morte
nada temerei porque

hoje o tempo
está favorável:

o vento a chuva
o nada o choro
o poema oroboro

gota d’água: lésbia
morde fino a cauda

eu não tenho casa própria
escreve uma vez mais:

eu não sou um bardo
da corte
____________________no País de Gales

eu sou uma serpente

____________________que ama a própria raba

aprende uma vez mais
e repete: _______eu procuro

o Grande Tema aquilo
que fará da minha língua

a primeira língua a língua
Mater — fundante — mister

que os apóstolos aprendam
que as Sibilas reparem

— mas a contragosto a
língua estala e chia,

me diz um sonoro não
e eu me calo e escolho

dormir

porque não posso
escolher
____________________entre

corpo e linguagem

a viúva do jornal, por André Nogueira

Com o envelopinho pelo viaduto.

No envelopinho
uma passagem para Santa Rita do Sapucaí,
um trocado para um lanche e uma coca
e o santinho, com a prece pro anjo da guarda,
que comprei numa loja católica.

No viaduto
ela me disse: “Minha história
deu notícia no jornal.
Foi quase ontem:
cinco tiros por cem conto.
Meu marido nem chegou no hospital,
já me chutaram para a rua sem um puto”.

Com o envelopinho
pelo viaduto.

Deus te livre e guarde!
Amanhã pode ser tarde…
Hoje mesmo vou trazer essa passagem.
Tua mãezinha em Santa Rita
ainda chora de saudade
e minha Mãe, que é mãe tua,
é quem te guia na viagem.
Tu acredita? Eu te prometo
que tu vai sair da rua”.

Mas na loja católica
não achei um só livreto
em que Jesus não fosse branco
e Judas preto.
E na cidade o tempo voa,
é fila no banco,
guichê da Cometa
e com o aperto da garoa
fui direto para casa.

No outro dia eu rápido saí
para cuidar da minha causa.
Alcancei o viaduto…
A passagem pra Santa Rita do Sapucaí,
a prece e o trocado para o lanche,
no envelope estava tudo.

O velhinho do sinal
segurou na minha blusa
oferecendo-me um chiclete.
“Viúva do jornal?
Não sei, jornal só uso
pra cobrir minhas canelas.
Mas na ponte do outro lado,
vai saber tu acha ela,
tem um povo, uns colchonete…”.

Quando olhei, e vi piscando a viatura,
os dois guardas com revólver na cintura,
a pobre gente recolhendo suas tralhas,
eu à toda e sem pensar atravessei,
o busão não me pegou e foi por pouco,
“Que é isso!?”, protestei
com o coração na boca.

“Como assim, o que é isso?
É meu trabalho!”, falou o polícia.
“E tu, não trabalha?
A propósito, teu nome, tua idade
e documento”, e também disse
apontando o chão de pedra:
“Este lugar é um cartão postal da cidade,
aqui não cabe essa imundice.
Agora arreda!”

Assim tomei o meu caminho,
debaixo da chuva,
amassando em minha mão o envelopinho
e engolindo a seco minha prece.
Nunca mais vi a viúva…
Mas escuto a sua voz no viaduto
como a mim ela dissesse:
“Mamãezinha em Santa Rita me espera”.
E se me lembro da mãe minha,
que é mãe dela e mãe de toda gente pobre,
já no peito o coração me acelera,
mas a blusa ainda o cobre
e macia é sobre o leito minha queda.

Roga a Deus por tuas filhas
que se enrolam no jornal,
pois ninguém delas se apieda.
Como o pão que se partilha,
rasgo em dois o cartão postal.
Raios partam estas pontes,
caiam corpulentas pedras
e apinhem-nas aos montes
sobre os edredons dos maus.

Abril de 2017

tu me diz, por Gabriela Farrabrás

tu me diz artista
como se diz vadia
mas eu entendo como um elogio
eu entendo como entendo
a palavra vadia
e eu sorrio descarada
canto de boca
te encaro os olhos
queixo levantado
me insinuando
oferecida que sou
porque ela me disse
que pra começar
eu nem sou gente
sou inteira arte
e te devoro com olhos de poeta
te chupo com boca de poeta
te fodo com corpo de poeta
e te devoro com olhos de militante
te chupo com boca de militante
te fodo com boca de militante
porque quando tu me diz artista
não esqueça que sou militante
de esquerda
uma arte política
um corpo político

Paula Vaz de Almeida é tradutora; revisora. Pesquisa a prosa de Marina Tsvetáieva, dá aulas na Escola de Língua Russa para Bolchelindas/os e é doutora em cultura e literatura russas pela Universidade de São Paulo — USP.

três poemas de Thássio Ferreira

capa_desnudodesnudamento

Eis assim, vestido todo do que sou,
vestido de mim, que vou
a um desnudamento.
Desprotegido do que minto,
desarmado do que acuso,
enxuto e contrito
do que cantei e calei
em farsa, em falsete, em farisaísmo,
e com o que — turvo e estranho fluido
todo espinhos, embora líquido —
eu cobria meu corpo e meu espírito.

Eis então, vestido apenas do eu
que é
(cada um o seu),
que rumo a uma dissecação.
A pele ao rés da carne,
a voz ao rés da alma,
gestos ao rés do coração,
sem o que não me faz parte,
mas apenas boa impressão;
como uma palma
que, sem disfarce,
a vida inteira expõe na mão.

Eis-me, pois, completa e unicamente
vestido desta existência que me queima,
a me entregar ao sol do mundo.
Do que em mim não é verdade,
limpo;
do que em mim é sujidade,
sujo;
pleno da invenção
de ser.

baldio

Dentro do meu peito,
um pouco do lado esquerdo,
perto do pulmão,
há um terreno baldio,
onde esteve o coração.
Primeiro, templo vazio,
feito casa velha, abandonada.
Empoeirou-se — tão ampla, de quatro cômodos —
e o abandono, a falta de cuidado,
as chuvas dos sábados
fizeram-na desmanchar-se de vez.
Hoje, cresce mato
áspero, danoso, sem cor,
ali naquele espaço
onde ardia meu amor.

perscrutação de poeta

Em que pensa
enquanto mente
um poeta?
Que loucuras
elucubra
nos recessos
sem lua
de seu pensamento?

Que desejos sem freios
e que palavras sem dono
sem voz e sem nome
inventa?

Que poemas tão
mais intensos não
esconde?
(Que lamentos?)

| poemas do livro (DES)NU(DO). |

Thássio Ferreira. Radicado no Rio de Janeiro, é autor do livro de poemas (DES)NU(DO) e colaborador, curador e editor-associado da Revista Philos de Literatura. Tem poemas e contos premiados e publicados em diversas antologias e revistas, destacando-se a Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, como convidado da Liga Brasileira de Editoras, e em 2018 na Casa Philos, entre outros festivais literários (Flipoços, Flist e Filfi). Em setembro lançará seu segundo livro, Itinerários, obra vencedora do Concurso Literário da UFPR. Mantém a página facebook.com/thassioescritor e o perfil de Instagram @thassiof.