três poemas do livro ‘grão, gota’, de Eduardo Rezende Pereira

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Me é estranho pensar que posso
ter o mundo em minhas mãos

— sendo eu rapaz
de pouco dinheiro e bens,
sem altos cargos de prestígio e poder,
sem passaporte ou documentos importantes
de livre acesso às fronteiras,
ou mesmo detentor das raras chaves
dos preceitos e amarras sentimentais.

Me é estranho,
mas não impossível.

Não se faz impossível quando me noto, emudecido,
com versos prontos desprendendo dos meus bolsos,
do céu azul de minha boca e do fundo quente da casa-forte
que se faz em eterna alvorada
dentro do meu peito imenso.

Dentro do meu peito imenso
habita uma palavra cara demais
aos homens do mundo:

liberdade

[na língua minha,
e em seus segredos de paladar e semântica,
traduz-se seu sinônimo
como vastidão]

quarentena I (Ou: Fissuras)

I. A primeira poesia de quarentena
tem gosto amargo
de própolis de dor de garganta
e de melancolia de dor de existência.

O vírus arrasa
meu país e meu povo.
Encurralados estamos sem nenhuma opção
resistindo à guerra microscópica.

Cinza amanheceu o dia
na alegoria e na concretude:
é como se o vírus conseguisse
carregar a melancolia minha
junto aos seus arrasos,
tropeços
e mortes gerais.

Esse apartamento
parece pequeno demais
para meu peito apartado
cheio d’água por cair;
para meu corpo
necessitado de apertados abraços;
para esse barulho
confinado em minha garganta fogo;
para meus ansiosos passos
movendo poeira e areia
às fissuras da madeira.

Quero na rua brincar feito criança
e ver a praça da Matriz de perto
cheia de gente, cor e cheiro: gente feliz, gente minha.

Quero a normalidade da vida
para além das panelas que batem na varanda
suplicando o fim desse governo de morte e medo.

II.
Já tirei o relógio do pulso:
que me importam as horas?
É o fim dos tempos — o apocalipse mundial.
Me questiono a duração desse maldito terror,
sabendo não saber a resposta.

Ao vírus não importam as etnias,
as histórias, as crenças, as fronteiras;
o vírus desfaz o teatro do atual sistema:
poderoso e visceral, governa os governos.

III.
O semáforo na esquina pisca toscamente:

Vermelho, amarelo, verde.

Ninguém passa. Não há ninguém para passar.

Os semáforos
não deviam trabalhar;
e nem as empregadas
e os porteiros do prédio vizinho.

Elas e eles até que bons sujeitos são;
deixar de trabalhar é que não é opção.

ipê-amarelo

I.
Eu sinto muito as dores do mundo,
a paleta de cores do nascer do dia
e o significado fatal do seu repouso.
Eu sinto muito cada gesto e lembrança
e cada começo, meio e fim.

E sinto tudo, ainda mais,
quando estou sentindo algo por alguém:

eu sinto a paixão chegar em mim
e estacionar-se em meus vazios,
preenchendo com calor cada canto solitário

— acampando, indeterminadamente, como tiver que ser.

II.
O muito sentir me faz pesado na leveza do que sou.

A inspiração é um arcanjo que nos leva às alturas do mundo,
e poeta que sou sempre enxergo a beleza em seus detalhes.

III.
Confesso que os ipês-amarelos são especiais,
e que também me encanta o cantor do quadro verde,
a fotografia do filme italiano de nome inglês
e a vista da janela se abrindo às cortinas da imensidão cinza.

[Eu poderia derrubar estrela por estrela
e prometer-te remendá-las depois no tecido da noite

— só para dançarmos nus, no semiescuro,
agraciados pelos brilhos dos cacos na varanda:
sem medo do tempo, do espaço
e dos sentimentos em colapso].

| poemas do livro grão, gota (Folhas de Relva Edições, 2020). |

Eduardo Rezende Pereira nasceu no interior paulista, no verão de 1996. É jornalista, jovem militante incansável, e cientista social formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Entre a primavera de 2014 e o inverno de 2016, publicou uma sequência de artigos sobre cultura, política e sociedade no jornal impresso em que trabalhou durante a sua adolescência. Além de muros, já escreveu em algumas seleções de poesia. grão, gota (2020) é sua primeira publicação impressa, feita pela Folhas de Relva Edições.

três poemas do livro ‘Essa palavra sem coração’, de Tatiana Fraga

capa_essapalavrao que nos sustenta é teia tênue

bordada de delicadezas
ponto cheio, nós, correntes
retalhos adormecidos
costurados
avesso emaranhado de fios
remendo no peito
cerzir onde passa o frio
coser sutilmente o
tecido gasto, proteger-se
com dedal de prata
o que nos acalenta é teia tênue
trançada mal traçada quente
rede que suporta o peso
manta que resiste ao tempo

* * *

tudo vermelho hoje

a noite vermelha
minha conta no vermelho
minha calcinha vermelha
hoje não verei as estrelas
atrás das sirenes
dos semáforos vermelhos
das luzes de freio
nem irei a lugar algum
— tenho contas a pagar —
tampouco farei um filho
tudo vermelho hoje
até mesmo o céu
o sangue e as maçãs

* * *

carta aos sobreviventes
para Nahum All

Sobrevive-se às distopias, sobrevive-se às
tragédias planejadas, às leis do desespero.
Sobrevive-se

porque há estrelas sobre nossas cabeças,
porque os deuses de hoje são os mesmos
do começo e do fim do mundo.

Quando a aeronave caiu a trinta e cinco mil
pés, você sorriu. Entre os destroços, me
plantou a memória de que caminhávamos
pela lua. Os sobreviventes do incêndio
brincam com as cinzas em suas mãos.
Elas são mornas e surpreendentes.

Sonhei que escrevia um poema sobre você
e sobre as conversas que tivemos.
Preferimos ser picados pela serpente a
morrer sem tocar as pedras preciosas.

Onde não há gravidade a pinhata não pode
ser destruída. Sobreviveremos brincando.

| poemas do livro Essa palavra sem coração (Selo Demônio Negro, 2021). |

Tatiana Fraga é poeta, jornalista e gestora de projetos educativos e culturais. Foi idealizadora e diretora do Espaço de Leitura no Parque da Água Branca, diretora do Projeto PraLer — Prazeres da Leitura e diretora cultural da Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campo de Poesia e Literatura. Atriz e cocriadora do espetáculo Anti-pássaro — poemas de Orides Fontela e autora dos livros Nino e Nina (Editora Mundo Mirim, 2012), Brasa (Editora Dulcinéia Catadora, 2009) e Espelho (edição da autora, 2008).

posta restante, poema inédito de Mariana Ianelli

Ainda estás aí? Em que recanto estás?
(Rainer Maria Rilke)

I.

Tornaremos a nos conhecer
Diferentes de quem fomos
Mas qual viagem não nos muda?
Esqueçamos os códigos criados
Para escoteiros doutro mundo
Esqueçamos a tristeza humana
Se já éramos como estranhos
Se o amor se nos antecipou na morte
Tornaremos a nos conhecer
Como corações de novo livres
Para um encontro às escuras
Será outro começo para o tato
Será uma nova intimidade nossa
Um presépio advindo de despojos
Será afinal o descanso da prosa
O riso debulhado de um corpo
Um canto em ondas uma fragrância
Estaremos na cidade das nossas sombras
Com lampiões molhando em calma
A pedra da ponte entre as ruas
E as lidas e as lutas da pequena vida
Não serão mais moinhos nossos
Nosso trabalho de ser girará
Nos arbustos doces de morangos
Na fabulosa proximidade da lua
Em caminhos de água e superfícies
Onde ainda agora se projeta a nossa dança

II.

Quisera te dizer que nada vibra
Que nada continua ao fechar-se o livro
Diria até que histórias terminadas
São histórias finalmente redimidas
Se por algum atalho te apazigua
Isso de um dia rebentarmos em nada
E toda dor de beleza ou de crueza
Perder seu eco entre estrelas goradas
Mas e se por acaso eu te dissesse
Que mesmo depois existe música
Depois de depois das mãos pensas
Depois de depois do fim do mundo
E se eu te dissesse que existe um arroio
Um pensar imparável de nuvens
Pétalas chovendo em outubro
Um gozo nosso gozando em outros corpos
E se eu te dissesse que existe um jorro
Depois de depois do sangue estanque
Depois de depois da casa oca
Que nenhuma solidão é sem testemunha
E que outros poetas também já o disseram
E outros ainda alcançaram pelo faro
Nosso pulso latejando transplantado
Meu rosto e o teu rosto em holograma
Sobre um rosto que ainda virá
Arruinaria teu suicídio e o meu
A respiração dessa vida além da paz?

III.

É a canção do eterno infante
É o alento que insufla essa canção
É a doçura final do soldado
Uma água dourada de chá com peixes
Onde todos nós bebemos mais a lua
É nossa chance adubada nos jardins
Entre cigarras e mariposas
Nosso longo amor fantasmagórico
Na aurora ainda úmida de escuro
Nosso brincar sem mais propósito
Como brinca a natureza quando isenta
Se regozijando por seus meneios e aromas
É minha alma errando por Amsterdam
É tua alma pelas tardes de Lisboa
Todos os nossos instantes miraculosos
Na corda bêbada continuando
É a ampla noite que nos inicia
Que nos alfabetiza na língua dos cânticos
É a nossa alma no ar salmeado de Ouro Preto
E nos mares dos poemas que amamos
No empíreo a partir de uma viola
No precipício à sombra de olhos mexicanos
Embora soe obscuro dizer
Expressar-nos será claro nesse idioma
Coincidirá com o vasto sono humano
Nesta madrugada sem palavras
Nuançada de um sem número de sons

Mariana Ianelli nasceu em São Paulo, em 1979. Em 2016, tornou-se mãe de Yolanda. É autora de onze livros de poesia, o mais recente deles Terra Natal (Editora Cousa, 2021). Tem três livros de crônicas e dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 e foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia. Escreve crônicas aos sábados na revista digital Rubem e no site do jornal Rascunho.

sabe com quem está falando?, poema de Bruno Molinero

você escolhe o melhor clube
paga quinhentos mil no título
as mensalidades em dia
vira a sócia responsável
pelas buchas do balé fitness
toma posse como conselheira
e ainda assim é barrada feito
cadela
só porque a neide não estava
toda de branco
francamente
uma vergonha
claro que fiz o maior barraco
disse que minha empregada
veste o que eu bem entender
e não deixo ela ser maltratada
até porque a lei está pesada
o que eu acho certíssimo
viu?
agora…
o clube quer mandar
mais do que eu nos
meus próprios funcionários?
era só o que me faltava
gritei na guarita
rodei a baiana
sabe com quem está falando?
porque precisei ir pra casa, né
não ia ficar lá sem ajuda da neide
cuidar de duas crianças sozinha
ainda mais com o zeca desse jeito
pré-adolescente
quer tudo na hora
mas eles vão ver
já mandei o estêvão procurar o dono
aquele cara que passou o ano novo
com a gente lá em trancoso
lembra?
esse mesmo
se quiser indico o seu nome
o clube é ótimo
dez piscinas
dezesseis quadras
sauna play
gente bonita
você vai amar

só um segundinho, amiga

neide
você
fala
por
tu
guês
?

disse
que
não
posso
mais
comer
açúcar
criatura!
traz o adoçante
pelo amor de deus

oi, flor
desculpa
ela trouxe um cafezinho delícia
pão de queijo bolo de cenoura
mas às vezes preciso ser dura
ou a neide vira a dona da casa

me parte o coração
você sabe

| mais quatro poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, 2020) no [link]. |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido (Editora Patuá, 2015), livro que venceu o prêmio Guavira de Literatura em 2016. Este poema faz parte de Férias na Disney, seu segundo livro, lançado no fim de 2020 pela mesma editora.

três poemas de Joana Futre

exercício

Exercita os teus demónios
Manda-os fazer o sagrado jogging matinal.
Avisa-os de que são os jokers do baralho,
Faz pouco deles
Mesmo que quebrar o gelo dê trabalho.
Que eles se ponham em bicos de pés,
Se multipliquem e sejas tu versus dez
Numa luta constante e desigual.

E por favor, diz-lhes para não romantizarem
O amor à primeira vista.
Já temos no mundo filmes suficientes
A explorarem essa temática irrealista.

Desejo que os demónios façam gazeta
Dentro da tua bonita cabeça.
Vão antes para a rua protestar de cartaz no ar
Perguntar porque é que o Estado nunca está do lado do artista.

um brinde

Inevitavelmente, brindamos
Ao que ainda temos,
Tanto à generosidade humana
Como aos deuses em que cremos
(Por igual, para não ficarem amuados).

Para evitarmos esquecermos
Que ainda não sabemos
Ressuscitar as almas,
Para que nos possam bater palmas
Quando merecemos e nas ocasiões certas.

O som e o silêncio
São como a mãe e a filha que caminham
De mão dada.
Lembro-me de ti como uma ferida
Que nunca será sarada.
Como aquela de que sinto mais falta
Mas que sei que ainda me guarda

Com o mesmo apreço, a mesma gentileza
Com que se esforçava para remover vestígios de tristeza.
Devo alguns dos melhores pedaços da vida íntima
A quem me ensinou o que era a verdadeira leveza.

Levo o teu espírito na algibeira
E bebo-o quando preciso.
Sabe-me a vinho tinto
Doce com a luz a que te pinto
Sempre que te apresento
A quem te é desconhecido.

Leve-leve é o lema
Só assim será divina a oferenda.
Mesmo depois de já não o vermos
O rosto de uma mãe
Será sempre, sempre um belo poema.

oferenda divina

Deixa-nos ser só um esboço.
Tu, velha lenda dos mares antigos
Eu, um conto esquecido e por ler;
Agora sinto só vergonha.
Afinal nunca fizemos por merecer
O amor que os Deuses em concílio
Nos resolveram oferecer.

Joana Futre é natural de Viseu, Portugal, e mudou-se para Lisboa para perseguir a sua paixão por Línguas, Literaturas e Culturas, acabando por tirar um Major em Estudos Ingleses. Ao abrigo do Programa Erasmus +, passou nove meses na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao regressar à capital, inscreveu-se no mestrado de Jornalismo. Atualmente trabalha como copywriter e content manager, aliando a investigação típica do jornalismo à criatividade necessária para ser feliz em indústrias criativas.

o nome de minha bisavó, poema de Tatiana Lazzarotto

descobri hoje o nome de uma de minhas bisavós

o espaço oco na árvore ganhou letras que deslizaram em minha boca de bisneta

Maria Rita

perguntei dela para uma tia, já muito velha, meia-irmã de minha avó

era cozinheira, me disse

ordeira, simples

e sozinha

pensei na bisavó que não conheci alimentando muitas bocas

deitando barriga num fogão quente de Recife

perdeu um filho cedo

a outra filha, minha avó, encaminhou-se para a morte também depressa

Maria Rita

um nome duplo que esconde a revoada de se ser só

morreu de câncer, assinalou minha tia

a língua pequena dizia que era pela quentura da cozinha

me apequeno sem saber não de quê, mas como ela partiu

se temia a doença desgraçada, se alguém segurava suas mãos mentindo que ia ficar tudo bem

se os médicos lançaram um olhar de lamento para o corpo com hora marcada de ser coberto

se ela sabia que eu existiria, mesmo em delírio

acendi uma vela para o nome que se descortinou nos galhos da minha ascendência

tentei atribuir um rosto ao nome envelhecido na certidão de óbito de minha avó materna

escrutinei em meu corpo qualquer traço do que me deixou Maria Rita

qualquer linha de expressão que ao bater o olho ela dissesse: essa é minha

ou será que é quando eu cozinho feito feitiçaria que Maria Rita vive em mim?

meia vela se consome sem respostas, eu me conformo com a imagem disforme da bisavó que concebi no peito

de posse do seu nome eu adentro a enfermaria abafada, confusa, com dois números que podem ser seu paradeiro

não me aborreço na procura, porque minha bisavó me sabe

cheguei com atraso, pergunto, pegando nas minhas a mão direita frágil que empunhou tantas colheres

é tempo, acolhe-me Maria Rita baixinho

a voz quase não sai, embargada pela doença, pelo reencontro que aboleta tempo e espaço

minha bisavó é pequena, mas se agiganta pelo fato de sermos duas

Silvas

o sol se põe e em meu invento não a deixo sozinha como passou a vida

percorro em seu rosto amarelado um sinal de que ela ainda se move

a mão que guiou as panelas me solta, como que me conduzindo ao fim do alento

foi quando descobri o nome de minha bisavó que me permiti encontrá-la morrer

Tatiana Lazzarotto é natural de São Lourenço do Oeste-SC e reside em São Paulo-SP desde 2011. É escritora, jornalista e mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). Participou da antologia independente Sós (2018) e é uma das integrantes do Clube da Escrita para Mulheres. Foi uma das contempladas pelo edital ProAC de Obras de Ficção 2020 e em 2021 publicará seu primeiro livro.

um haicai e dois poemas de Cida Pedrosa

Bicicletas voam
Na cidade que não vê.
Dor no app.

Haicai em Estesia, 2020.

* * *

rainha dos degredados

salve-me rainha
pois a vida não é doce nem misericordiosa

hoje só tem panela
e um pouco de maçunim

o marido se foi para as bandas do beberibe e vende caranguejo na feira de peixinhos

salve-me rainha
antes que os de eva morram
sem direito a maçãs ou coisa assim

o gás acabou
os jambeiros do cemitério de santo amaro desde ontem não safrejam
e minha filha menstruada
não pode frequentar o ponto hoje à noite

salve-me rainha e desterre
esta vontade de incendiar a vida e a dor que assola as mãos

Em Gris, 2018.

* * *

tereza

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza

quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa de varanda
e passar uma semana em bariloche

neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que se espremem nas algemas e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida no carro do iml
para exame de corpo de delito sob suspeita de estrangulamento

Em As filhas de Lilith, 2009.

Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, Sertão do Araripe Pernambucano, em 1963. Foi uma das militantes do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco na década de 1980 e daí vem seu gosto e experiência com a récita. Publicou dez livros de poemas, sendo os mais recentes Estesia (2020); Solo para vialejo (2019), Prêmio Jabuti (Livro do Ano e Livro de Poesia); Gris (2018); Claranã (2015); Miúdos (2011) e As filhas de Lilith (2009). Tem participação em antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior. Alguns de seus livros foram selecionados pelos prêmios Portugal Telecom e Prêmio Oceanos de Literatura. Está no seu primeiro mandato como vereadora eleita do Recife e fala sobre literatura no canal Fresta (youtube.com/cidapedrosa).

s/título, poema de Carlos Emilio Faraco

Eu sinto falta de um Deus
Que ordene ao deputado
Terrivelmente evangélico:
— Pega teu filho mais novo,
Retira-o à força de casa,
Leva-o ao alto de um prédio
E o sacrifica ao Senhor!

Eu sinto falta de um Deus
Que procurasse dez justos
No coração do poder
E, não os tendo encontrado,
Destruísse a cidade com fogo
E rios revoltos de enxofre,
Transformando os renitentes
Em brancas estátuas de sal.

Eu sinto falta de um Deus
Que tranque as portas da pátria
A todas as hostes fascistas,
Fazendo-as vagar a esmo
Sem ter casa e sem comida,
Por mais de quarenta anos
No mais adverso deserto.

Eu sinto falta de um Deus
Que em plena pandemia
Premiasse a teimosia
Com mil gigantescas crateras
Qu’ engolissem os debochados
E suas toscas ousadias.

Eu sinto falta de um Deus
Que exigisse da terra
E suas gentes folgadas,
O que exigiu do seu filho,
Ainda que para isso
Tivesse de transformar
O pouco que existe em nada.

Eu sinto falta de um deus…

Carlos Emilio Faraco é professor aposentado. Autor de obras educacionais e de um livro de poemas. Comete textos no Facebook. Ancião brasileiro (71 anos) esperando o gigante amanhecer.

sete poemas de ‘Cabeça do dragão’ (inédito), de Júlia de Carvalho Hansen

MEMÓRIA

Ao chegar numa festa
lotada você imagina
quem vê a festa sou eu
mas é a festa quem vê você.

JUVENTUDE

Já me refiro a ela como a outra.

MATURIDADE

Levei anos para aprender a gritar.
E agora que sou livre
estou dentro de casa.

TEMPO

Ainda não estou pronta
para escrever este poema.

ANCESTRAL

Mais antigo do que a morte
sábio que o esquecimento
dom do treino acumulado
adubo da metamorfose
trauma crônico
esperança de rebote
cordão helicoidal do umbigo
pó da atmosfera terrestre
fundo do mar, búzio celeste.

MÉTODO

Às vezes o poema
vai parar tão alto
a gente acha o poema
está tentando se esconder
se a gente sobe
tentando pegar
o poema cai por terra.

ÁRVORE

Fincar balanço
no rumo do sol
no céu, o ramo
a gênese.

O pescoço vem desde o pé
eu que só tenho olhos
a tua elegância de tronco e casca
eu que não tenho sequer raiz.

Deve fazer uns três mil anos
os meus antepassados não quiseram
entender os teus, eles utilizaram
a tua sabedoria como se fosse a minha.

Se você agora quisesse conversar
por que falaria comigo?
Que ainda não sou ninguém.
Que ainda envergo pouco.

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É poeta e dedica-se cotidianamente à astrologia. Autora de livros publicados no Brasil e em Portugal, sendo os mais recentes Seiva veneno ou fruto (2016) e Romã (2019), os dois publicados pela Chão da Feira.

dois poemas do livro ‘Um canto anaeróbico’, de Wellington Müller Bujokas

capa_bujokas

Conforme meu corpo sucumbe à fadiga, // mais meus pensamentos se afastam de Deus, e minha consciência se diluindo no mundo com o qual canhestramente convivo // pergunta-se o que devo fazer para voltar ao rumo quando a crença certa de que Deus é o rumo não encontra no corpo força para perseguir tal caminho mesmo como pedinte miserável, // sobretudo pelo receio de lançar-se de cabeça na miséria necessária / (caso recuse a miséria, ela se desenvolve em outras formas, porém).

Ainda que o corpo seja, em parte, desculpa. / Abandonar a crença em Deus: // provavelmente caminho viável e, em teoria, muito mais prático. Daria mesmo ao corpo um espírito relaxado, de quem já nada procura no mundo // (ou fora dele) // e flutua, flui com uma leveza (na mudança de mundo) que aliviaria, provavelmente, quase todo o fardo dos músculos.

Mesmo que Deus não exista, / a crença resiste, // pois a crença no modo de vida moldado nos ensinamentos bíblicos [foi difícil escrever a expressão, que soa tão canhestra, pelo medo de se misturar aos que esqueceram, num panfleto // (aqui se nota como sou dogmático), // seguir o próprio rumo] é, novamente em teoria, parâmetro único a me justificar a vida // (o que não significa que nego a existência de Deus para me assentar só em seus ensinamentos; // significa só não me perder no trabalho fútil e ingrato de usar os mecanismos errados para provar o impossível, em ambos os lados). / A solução óbvia e prática é uma quimera vaga e sempre inacabada, a exigir um esforço parecido ao de passar a andar com as mãos e comer com os pés, como quem se arraiga/se lança a uma moral instável mas translúcida.

O corpo, como se me perde. // Não é nada à parte, / e talvez pelo corpo bem se mostre que abandonar a crença é viável. // Ele a abandona e embaralha os pensamentos que não conseguem mais olhar ao longe, e sem o longe perdem também o perto, / o reto / (que não se afirma no bem, mas só numa decisão, com todas as suas fraquezas), // num movimento traumático, // sempre em mais de uma direção, não opostas ao não se tratar de ceder ao mal, // inimaginado na ausência do bem, mas necessariamente anulantes em alguma medida // (seria inexistência, não fosse traumático).

as vezes de quem não se leva a sério // (de fato, não levo, ainda que isso almejasse). // De fato, o poema é o poema, e a vergonha é grande demais para quem se move rumo a um só destino (com algumas ligeiras ramificações que se tornam cada vez mais pseudoeixos, enganos portanto solidificados e autorizados na ausência da pretendida rota reta).

foi descendo o rio rumo ao ar

Algum artifício sem explicação na vida te faz chorar?
Te faz chorar sem mesmo sentido?
Um choro que não exatamente da vida, concreta, palpável,
cuja explicação seja só o artifício.
Artifício que te carregue ao fundo do nada, um lugar abstrato,
exala tua decisão mais firme de viver neste mundo.

A descoberta do não não me faz chorar,
só a queda.
A descoberta não me move,
como não me bule a verdade.
Ambas concretas, ambas palpáveis,
certeza que não está no que afunda.

A queda me faz chorar,
artifício do que não se nota desespero do que não se entende,
não necessariamente uma agressão.

A verdade não me faz chorar.
Pelo menos não a verdade polida, azeitada, sem arestas,
como um ser divino e distante, inalcançável, hermético,
não reitera mais que a si.

Um chão sem metáfora.
Talvez uma verdade bruta, arestas ásperas, tocos quebrados.
Um mundo desolado por ter demais.
Onde encontrá-la?
Na morte, no vômito. Prefiro não.

O artifício pode ser hermético (mas não seu impacto, salvo pros que choram em atraso).
Não precisa ser.
Artifício um tanto quanto tudo, talvez mesmo somente técnica, se a técnica encerrar o abalo.

Artifício enquanto meio não me abala,
só instrumento, seria concreto como bala,
que fura e dói aguda, certa,
não a dor da dúvida.
Instrumento, é como desse maior valor à descoberta que a seu soco, de descoberta.

Por que escrever uma queda como revelação?
Iluminação?
Revelação (puro artifício) sem sentido, improvável
ao ponto de parecer apenas orgulho besta,
de quem não aceita impotente o absurdo, a mediocridade da própria vida.
Por que ansiar tanto pelo momento em que os outros chorem,
de ser um eco do choro, o abalo sentido?
Por que a ambição de ser elo do fraco, sensível (prazer da fraqueza?)?

A resposta, sempre uma desculpa, devia ter sido proibida,
tabu maior que o sorriso adolor duma moça sobre a ponte, curiosa suicida,
e ao mesmo tempo ufff-fuuuuuuuuuuu povoa, pulula, aos montes, (n)a cabeça.

Wellington Müller Bujokas nasceu em 1982 cresceu em Barão de Antonina, interior de São Paulo. Na juventude, transferiu-se para Curitiba, onde se formou em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Posteriormente tornou-se diplomata e mudou para Brasília. Trabalhou em Astana (hoje Nur-Sultan) no Cazaquistão, e em Moscou. Atualmente mora em Baku, no Azerbaijão. É autor de Estudos (Travessa dos Editores, 2012). Um canto anaeróbico (Editora Quelônio, 2021) é seu segundo livro de poemas. Wellington é ainda o tradutor de Vladimir Maiakovski na nossa coleção.