três poemas de Edimilson de Almeida Pereira

PORTRAIT DE FAMILLE

1

pela escarificação no rosto
cada um se dá a ler
como um jornal diário

em verdade, os textos
nessa pocilga rascunham
um lugar em trânsito

uma sílaba traindo a outra
coloca no mesmo ringue
francisco e licutã

pelejam em nome do
_____ab al
_____to
_____em língua selada
esfolam-se francisco e licutã

para salvar o crânio
_____e seus dividendos
afiam a conversa no sangue

cada um de seu canto
não mede que está no outro
talvez, por isso,

se devorem
_____para ler-se desde dentro

2

sob a escarificação outra
_____miragem
esperando a mão
tocar-lhe as vértebras

outra que não a urina
_____e as fezes
nem a coleira do cão — outra

que sitiando os piolhos
escala os anônimos — outra

CAMPO GRANDE

brumado

guinda_____careca

sapucaí__________cabaça
ibituruna

inficionado_____ambrósio

caraça

marcília__________isidoro

diversa de si — todo-o-avesso
revés que se serve
do zero
para informar o mundo

3

das cáries nenhuma
escreve mais
que o esquecimento

raros os fatos
que dão origem a uma
nova dor

_____nem o tendão
exposto da mãe, nem
o rapto, a morte — sim,

em outra língua, sobra
no inventário
de hostilidades

apesar dela o rosto
ao se desfazer
inaugura uma promessa

os mortos que foram
_____perdas
dobram a página para
viver nos livros

pela escarificação
das heranças
pouco se decifra, mas
uma vértebra
_____(o que basta)
prenuncia o corpo

PRAIA DO NÃO RETORNO

1

o cuidado de ulisses
com seu cão se explica a quem
antevê

um braço
a mais no escorpião: parentesco
que tece
a aflição da mulher

porque está ocupado, ulisses
tateia o pulso
de outro corpo “disseram

que a sombra de achiles
deteria o inimigo”

mas o bicho de
estimação já se habituara
ao zero
como destino

2

estendem a olisseo um
abismo
e em recompensa
os farelos

— há-de ser um mergulho,
insistem,
para que nenhuma
cifra o recupere

há-de ser fortuna esquecer
os músculos
e a estatura da palmeira

3

olisseo escreve o selo
do pai
o selo que ao pai dispersa

o mater selo, em
circuito fechado, nas
trevas

o zelo de olisseo contra
o selo
: à sua volta se acumulam

fendas uivos
sombras que na praia
ardem

olisseo se instrui
no pó
contra a incisão no carpo

— o mater selo do pai
recua
ante a fricção do mar

olisseo se lança, aporta
ao som
dos búzios

à deriva se dá, entre
signos
a que não se pode amarrar

(os signos
não plantados e que, no
entanto,

vingam em matas
livros_____mortos_____em rios
vogais)

oeco olisseo, de si
inteirado,
apruma-se salta-se elide-se

: para ser não se imprime,
olisseo,
o osso navio

4

olisseo carda a palavra
_____okoenda

sob a usura do assalto
_____se despe
_____se veste
em outra pele: cuendá
_____ulisses d’oro
arvorado argonauta

_____o eco

_____onde vais
_____where are you
_____où est-il

o devolve à planície
onde o leopardo não caça
por ser malhado

na linguagem quem captura
__________o
__________l
__________i
__________s
__________s
__________e
__________o
filho do se?

VOYAGES

de passagem por esta cidade — irmã das nossas pelo comércio, danos & cia — roeram-me o fígado as lisas pedras do cais.

tantos pés as desposaram que faltando um dentre os navios sentem-se viúvas. e rosnam e urdem vinganças. “o Especulador nos deve

COFFEE COTTON CLUB. o Boa Viagem GOLD TOBACCO COOL. o Flor do Brasil COTTON CACHAÇA BLOOD”. nós, que vemos as nossas,

vemos também esta cidade endividada em vítimas. qualquer especulador, por mais dura seja a viagem, colhe sua flor sua fortuna.

os caibros dos navios têm cãibras, as notas fiscais não. na seara de usura e cana pousa a constelação arfante o

p__________l__________a
_____u__________s__________r

o_____n o t u r n o_____d e_____n e t u n o

quem especula :___[dor]
quem recupera : ___[___]
[dor] ___tenta : ___quem
[___]___vinga : ___quem
ninguém coopera [d’or]

por esta cidade, irmão, as âncoras se cravam em nós, nos hinos que atiramos aos ouvidos. já não há passagem se do mar chegam notícias

de morte. e a morte mesma desnuda, a morte em festa, em sua mais cara face, a que não se paga e nos indaga: não danças?

Edimilson de Almeida Pereira é poeta, ensaísta, professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Estes poemas foram extraídos do livro homeless publicado pela Mazza Edições, de Belo Horizonte, em 2010. A respeito da obra comentou Steven White, poeta, tradutor e professor de Literatura Hispanoamericana da St. Lawrence University (Canton, USA), 2012:

capa_homeless“Por ser integralmente ligado à diáspora africana, o trabalho abrangente de Edimilson Pereira precisa ser considerado em relação a autores de descendência africana através das Américas que publicam em línguas variadas e se inspiram em tradições orais, eventos históricos relacionados à escravidão, e o poder musical de spirituals, blues e jazz por sua energia. Nos Estados Unidos, tais escritores incluiriam, entre outros, Lucille Clifton, Nathaniel Mackey e, com certeza, Kevin Young, cuja persona poética em Ardency: A Chronicle of the Amistad Rebels ressuscita um coro de vozes que busca por liberdade através dos mares do tempo. Onde fica o lar das vítimas da diáspora e de seus descendentes? Como habitantes forçados à adaptação a novas terras e sempre prontos a transformarem línguas impostas com vestígios do que ficou para trás, o lar está na própria palavra. Os poemas de homeless de Edimilson de Almeida Pereira formam não apenas um refúgio literário, como também uma comunidade conectada a outras comunidades. Eles são cartografias, tão importantes quanto qualquer legislação, para navegar do passado para o futuro.”

três poemas de Ernesto Moamba

cicatrizes
(À minha mãe África esquecida)

Mãe
Tuas dores me lembram a escravidão
Quando éramos violentados nas senzalas vestidas de escuridão

Teus olhos recordam-me a opressão
Quando éramos maltratados sem perdão
Como cães vadios desta nação, minha mãe.

as sequelas e navalhas na carne do negro

Minha mãe
Se me procurar e não me achardes onde estou
Mergulhado no sangue da África,
Ontem cuspido da boca do Negro,
não desista
Continue com as suas buscas,
peça reforço nos países vizinhos,
Bloqueia as fronteiras, os aeroportos e caminhos de ferro

Se possível ajoelha e faça acordo com Deus
Somente por um instante
Para que não me deixe atravessar os céus, minha mãe

Se procurar e não me achardes, não chores
Procure-me mesmo nos lugares sombrios,
Onde a noite não se transforma em dia
Onde foram enterrados restos dos meus ancestrais
Que no tempo da colónia se quer foram achados, minha mãe

Se me procurardes e não me achardes onde estou
Não fique lamentando pelas costas da cidade
Sai para os campos, revista-me no interior das palhotas
Nas antigas bases, onde nos escondíamos dos inimigos cessando as armas
E bravamente massacrando os inocentes
Como se fosse caças furtivas, minha mãe

Se me procurardes e não me achardes
Percorra a grandes revistas e jornais
Difunda à meios de comunicação
Faça denúncia ao Balanço Geral
E deixa a Polícia e a PIC trabalhar

E se não conseguirem trazer os factos, minha mãe
Não pense em desistir
Mas somente perdoe a mim
Desde o início fui tão covarde
Esqueci-me de informa-te, que já não estou entre vós
Que a escravidão tirou-me completamente a vida.

terra de tristeza e sangue

Sou a cultura
Condenada sem legítima defesa
Sou África
Costurado de Xigubo e azagaia
Sou miserável e incógnito
Escolhido para contar a história esquecida do meu Povo
Que está gente má,
Clandestinamente força-me calar.

Ernesto António Moamba, conhecido também como Filho da África (1994), é poeta e escritor moçambicano, nascido em Cidade de Maputo. Facebook: [link].

AA, poema de André Luiz Pinto

Bom dia, meu nome é André Luiz.
Bom dia André Luiz.

Há dez dias não acabo na igreja
nem nas mãos de um pastor. Eu tocava o terror, não havia passo
que eu desse sem consentimento, mas agora
a ignomínia não me satisfaz. Busco outra coisa, alegria
que o dinheiro não compra. Pouco importa se amigos e familiares
concordem. Bom dia, meu nome é André Luiz.
Bom dia André Luiz. E estou há dez dias sem escrever.
Venho me esforçando em não ceder às palavras
como na última vez. Podia estar fazendo sol ou chuva,
eu sentia em tudo a agrura do verso. A mãe podia estar sendo
enterrada ou o sobrinho nascendo, estava eu lá,
atrás do Graal. Nesse ponto, sou adicto.
Um poema não faz mal a ninguém, por que
ele faria comigo? Enfim… Meu nome é André Luiz.

Bom dia André Luiz. E estou há dez dias sem dinheiro.
Descobri que dinheiro não paga o pato e a gula não apaga o tédio,
e de fato é de cor esvoaçante a fome. Aprendi
a não me dar por inteiro, mas a cada instante; e é por isso
que cheguei aqui no grupo de apoio
dos Andrés Anônimos. Está claro para mim
que, em cada um de nós, o eu precisa controlar o ego,
ente maravilhoso que costuma cair em bueiros e escapa de serpentes.

Bom dia, eu me chamo André Luiz.
Bom dia André Luiz.

Já faz dez dias
que estamos sem acidentes.

André Luiz Pinto é doutor em Filosofia e autor de Flor à margem (edição particular, 1999), Primeiro de Abril (Editora Hedra, 2004), Ao léu (Editora Bem-te-vi, 2007), Terno novo (Editora 7letras, 2012), Nós, os dinossauros (Editora Patuá, 2016), entre outros.

três poemas de Danielle Magalhães

para cima

I

só que às vezes tudo
que vai
não volta
para cima
ao atingir uma certa altura
a velocidade do projétil cai
a zero
ele despenca
como se fosse uma pedra
pequena mas a resistência
do ar
não deixa a bala passar
de 270 km/h
no fim
do trajeto
para perfurar
o tecido
do corpo
ela precisa atingir pelo menos 350 km/h
a situação complica quando o tiro é disparado
em ângulos menores o projétil traça
um arco no céu sem chegar a
parar
boa parte da velocidade inicial
é mantida para piorar
como a bala sai
do cano girando ela fura
o ar como se fosse uma broca
acaba caindo com a ponta
virada para baixo
quase sem perder
o pique
o drama
é que uma bala atirada
de um 38 parte a 1.042 km/h
o projétil de um fuzil AR-15 é ainda mais veloz
atinge 3.500 km/h mesmo que elas percam
metade da velocidade
no trajeto o tiro dado para cima
ainda pode ser letal

II

hoje me vi dizendo
de dentro do carro não aponta
para a polícia
enquanto eu passava pela mangueira
lembrei da minha avó dizendo
não aponta
para as estrelas
porque dá verruga nos dedos
entre as estrelas
e as minhas verrugas
caem todas as balas perdidas
como quase tudo que aponta
para cima
todos os dias
só não cai
o que aponta nas mãos
da polícia

linhagem

meu pai foi assassinado
o assassino do meu pai foi assassinado
a mãe do assassino do meu pai
teve o filho assassinado
minha avó teve o filho assassinado
dois primos meus tiveram o pai assassinado
dois primos meus foram assassinados
um prima minha teve o pai assassinado
três primas minhas tiveram o irmão assassinado
uma tia minha teve o filho assassinado
uma prima minha teve o filho assassinado
dois primos meus tiveram o irmão assassinado
dois primos meus tiveram o sobrinho assassinado
minha mãe teve dois sobrinhos assassinados
minha avó teve dois netos assassinados
meus primos tiveram os primos
da prima deles assassinados
marinete teve uma filha assassinada
a outra filha de marinete teve uma irmã assassinada
a neta de marinete teve uma mãe assassinada
maria rita teve o filho assassinado
a outra filha de maria
teve o irmão assassinado
o neto de maria carlos augusto
teve o pai assassinado
alexandre teve a companheira assassinada
thais teve a mãe assassinada
uéverton teve a mãe assassinada
pâmela teve a mãe assassinada
pablo teve a mãe assassinada
além dos quatro filhos
há também quatro sobrinhos
adotados ângelo samuel alexandre
e caio tiveram a tia ou a mãe assassinada
vanessa teve a filha assassinada
adegilson teve a filha assassinada
airton teve a neta assassinada
katia teve a filha assassinada
renata teve o filho assassinado
mônica teve o filho assassinado
bruna teve o filho assassinado
josé teve o filho assassinado
a filha de bruna e de josé
teve o irmão assassinado
as duas avós da filha de bruna e de josé
tiveram o neto assassinado
elisa teve o avô assassinado
isabela teve o namorado assassinado
isabela teve a sogra assassinada
isabela teve o sogro assassinado
camilla teve o irmão assassinado
camilla teve a mãe assassinada
camilla teve o pai assassinado
ágatha teve o companheiro assassinado
o filho de ágatha teve o pai assassinado
dulcineia teve o companheiro assassinado
o filho de dulcineia teve o pai assassinado
oito meses depois dulcineia e seu filho
também foram assassinados
e os pais já mortos de dulcineia
tiveram a filha assassinada
e o neto assassinado
aikyry teve o pai assassinado
valdelice teve o pai assassinado
ládio teve o pai assassinado
genilton teve o pai assassinado
marcos teve o pai assassinado
rosângela teve a filha assassinada
sônia teve o filho assassinado
gabe teve a irmã assassinada
salacione teve a filha assassinada
zilda teve a filha assassinada
jackson teve a filha assassinada
edna teve a filha assassinada
marli teve a filha assassinada
luiz antônio teve a filha assassinada
hildegard teve o irmão assassinado
zuleika teve o filho assassinado
cinco anos depois zuleika foi assassinada
hildegard teve a mãe assassinada
dona santinha teve o filho assassinado
lola teve a filha assassinada
álvaro teve a filha assassinada
gabriel teve a filha assassinada
gabriela teve a amiga assassinada
pérola teve o amigo assassinado
patrícia teve o amigo assassinado
maycon teve o irmão assassinado
a avó de maycon teve o outro neto assassinado
elizabete teve o companheiro assassinado
onze irmãos tiveram o irmão assassinado
uma empregada doméstica teve o filho assassinado
um pescador teve o filho assassinado
seis filhos tiveram o pai assassinado
anderson teve o pai assassinado
milena teve o pai assassinado
mais quatro irmãos tiveram o pai assassinado
michele teve o tio assassinado
luana teve a irmã assassinada
jorge teve a filha assassinada
jessylen teve a cunhada assassinada
jefferson teve a namorada assassinada
mônica teve a companheira assassinada
ana teve o companheiro assassinado
a amiga do cláudio
teve o companheiro assassinado
a amiga do amigo do meu companheiro
teve o companheiro assassinado
a companheira do amigo de laércio
teve o companheiro assassinado
o filho do amigo de laércio
teve o pai assassinado
laércio teve o amigo assassinado
patrícia teve a amiga assassinada
heloisa teve a amiga assassinada
a amiga de heloisa teve a amiga
da amiga
assassinada
a amiga da namorada
do meu primo assassinado
teve o namorado da amiga
assassinado
o amigo do meu primo
teve o sobrinho do amigo
assassinado
a tatiana teve o tio assassinado
a cristiana teve o tio da companheira
assassinado
a minha amiga teve o tio assassinado
dizer a minha amiga teve o tio assassinado
é o mesmo que dizer eu tenho uma amiga
que teve o tio assassinado
é o mesmo que dizer eu tive
o tio da minha amiga
assassinado
é o mesmo que dizer eu também
pertenço à linhagem
dos assassinados
eu também
sou afetada pelo assassinato
eu também
carrego o peso do verbo ter
um assassinado ou uma assassinada
marcado ou marcada
no histórico da minha vida
o histórico da minha vida
também é um obituário
o histórico da minha vida
é marcado por nomes
mais próximos ou mais distantes
apagados da vida
nesse histórico
a amiga da anielle
teve a irmã da amiga
filha de marinete
assassinada
eu não conheço a anielle
mas um dia estive lado a lado
com sua irmã
eu não conheço a anielle
mas pessoas que eu conheço
conheceram sua irmã
eu não conheço a anielle
mas muitas pessoas a conhecem
e para sempre vão conhecer sua irmã
eu me chamo danielle
eu pertenço a uma linhagem
de assassinados
nós todos
estamos ligados
por uma linhagem de assassinados
como você eu pertenço
a uma linhagem de assassinados
como a maioria das pessoas
que sabem e como a maioria das pessoas
que ainda não sabem
da pessoa assassinada mais próxima
ou mais distante
a quem ela está vinculada
como essas pessoas
eu não fui
ou ainda não fui
assassinada
como todos esses nomes
que carregamos sem saber
como todos esses nomes
que trazem outros nomes
que todos nós temos
a responsabilidade
de dizer

legado

o meu pai dizia
que me amava
mas era escroto
com mulheres
na rua e em casa
o meu avô dizia
que me amava
mas era escroto
com mulheres
na rua e em casa
um dia vi meu avô
fechando o punho
para bater na minha avó
ele só não o fez
porque eu estava presente
um dia vi meu avô
atravessando a rua
aos berros xingando
saltando em direção
à minha mãe
para bater nela
ele só não o fez
porque os vizinhos o impediram
nesse momento
eu estava presente
e nem a minha presença
foi suficiente
nesse momento eu acabei
fazendo xixi nas calças
de medo e de nervoso
nesse momento minha mãe
saiu correndo
comigo no colo
para dentro de casa
anos depois eu soube
o meu avô
quis me tirar
da minha mãe
após a morte do meu pai
um dia meu pai
ameaçou minha mãe
meu pai andava armado
a serviço do estado
um dia ele disse que
se algum homem na rua
olhasse para a minha mãe
ele ia matar ela e o homem
mas meu pai me amava muito
e o pai dele também
hoje
só hoje
eu faço jus ao legado
que meu pai e meu avô me deixaram
nem hoje nem nunca mais
vou me sentir culpada
por não lamentar
a morte de ambos

Danielle Magalhães nasceu em 1990 e vive no Rio de Janeiro. É formada em História (UFF) e faz doutorado em Teoria Literária (UFRJ). Atua como poeta e crítica, publicando poemas e ensaios em diversos periódicos e revistas eletrônicas. Lançou o livro de poemas Quando o céu cair, pela Editora 7Letras, em 2018.

cinco poemas de Mailson Furtado Viana

migração

foi Maria
foi José
foi Rosana
Lílian foi também
e foram todos

foram
porque o Marcos foi
a Rosário
o Pedro Augusto
e também fulano de tal

alguns voltaram
ficaram
outros de férias

nessa via dupla
há perdidos
feridos
e há quem abalroou a morte


a vida parece longe

* * *

sou menino de rio
não de mar
não sei pegar ondas
não cabem em minhas mãos

no rio ninguém pega nada
e tudo cabe
quando se vê
já passou

* * *

I.

ele foi criança
há tempos

sei pelos álbuns de retrato
que certo dia vi

não me lembro mais

ele talvez

II.

outra vez foi jovem
embora sem fotos pra lembrar

foi pra escola
graduou-se pra vida

e jovem
nunca mais

* * *

das lápides

uma de minhas quatro bisavós
virou nome de rua
por ter uma neta rica na cidade

um avô de quinta geração
morreu assassino
por ser contra o presidente da província
e seu nome sumiu de nossas certidões

um outro bisavô
virou escola
já demolida há anos
(sobrou-lhe a experiência
de ter se deteriorado duas vezes)

* * *

da luz sem pressa
(a 300.000.000 km depois da hora)

há anos-luz
aquela estrela
— uma fotografia
de um calendário já dito

eu vi
eu vi
o passado eu vi
ainda lá. olha.

Mailson Furtado Viana é escritor, ator, diretor, produtor cultural e cirurgião-dentista. Com seu livro à cidade foi vencedor nas categorias de livro do ano e de poesia no Prêmio Jabuti 2018. Em Varjota, zona norte do Ceará, é produtor cultural da Casa de Arte CriAr, e desenvolve trabalhos como ator, diretor e dramaturgo e, atualmente, lidera a CIA teatral Criando Arte.

cinco poemas de Jorge Ivam Ferreira

berimbau
Para Mestre Jequié

Unindo as duas pontas dum cajado,
Um resistente fio de aço de pneu,
Cuja borracha o fogo derreteu,
Mantém-se para sempre esticado.

Para o som desse fio ser ampliado
E ficar belo como foi o de Orfeu,
Lixa-se até tirar-lhe a cor de breu.
Assim fica vibrante ao ser tocado.

Ata-se uma cumbuca de cabaça,
Serrada mais ou menos na metade
Como se fosse o bojo de uma taça.

Pondo ritmo, ginga e muita raça,
Pode-se percuti-lo com vontade.
Sua música gera transe e graça.

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Primeiro, a águia chega ao nosso toco
Com muita simpatia e assanhamento
E diz que é mister, nesse momento,
Preenchermos o branco oco do coco.

Depois nos aparece de mascate
Com muita lábia e muito atrevimento
E, para o referido preenchimento,
Nos quer vender caroço de abacate.

Contando com nossa credulidade,
Demonstra como a esférica semente
Se encaixa com total facilidade

No âmago da amêndoa carnuda,
Porém, se se apossar da nossa mente,
Nos venderá até de joio muda.

destinos

Se queria abater uma galinha,
Minha mãe apontava a escolhida
E me indicava um jeito, uma medida,
Para que a ave entrasse na cozinha.

Eu me aproximava da coitadinha,
Com um pouco de migalhas de pão
Que eu, devagar, ia atirando no chão,
Da forma ardilosa que me convinha.

A galinha acabava na panela.
Assim, acontece conosco um dia:
Sonhando com alguma bagatela,

Nós seguimos por falsas passarelas
E, por inexplicável ironia,
Terminamos a jazer entre velas.

cuidado com o cão

Spike, acamado num trapo,
A uma passada do umbral,
Dilui-se no breu da noite
Vigiando o meu quintal.

Embora seja um cão sagaz,
Não se oculta por astúcia,
Já que é cor de guarda-chuva
A sua nobre pelúcia.

Às vezes, ao abrir a porta,
Tropeço em sua negrura,
E ele se afasta ganindo,
Com ressentida amargura.

No átimo, peço desculpas
E esconjuro o desastrado
Que pusera o tal farrapo
Onde o cão ficou deitado.
(8/11/2008)

fordismo na floresta

Um pica-pau, outro beija-flor
Um papa-terra, outro papa-mel.
Um pintassilgo, outro pintarroxo.
Um rola-bosta, outro caga-sebo,
Um arranha-gato, outro assa-peixe
Um papa-capim, outro louva-a-deus.

Jorge Ivam Ferreira nasceu em Iaçu-BA em 1959. Mudou-se para a cidade de São Paulo em janeiro de 1978 e depois para Ubatuba, onde mora desde 1999. É casado, tem quatro filhos. Graduou-se em Letras, fez especialização em Literatura e mestrado em Linguística Aplicada. Atualmente é aposentado como professor da rede estadual de São Paulo e leciona em uma escola técnica municipal em Ubatuba. É coautor do livro de poemas SERTÃOMAR, publicação independente, e autor de Travessuras do Curupira, narrativa em versos, destinada ao público infantil — edição também independente. Adaptou e publicou em um livreto de cordel quatro lendas de Ubatuba. Foi premiado em algumas edições do concurso literário da FundArt de Ubatuba, participando com poemas, contos e crônicas.

três poemas de Diana Pilatti

sem nome

a Loucura se avizinha
fica me olhando
imóvel
da esquina

fecho a janela
apago as luzes

está parada ali
Louca
no meio da rua
amarelada
intermitente
como o poste de lua

— Que estou dizendo?!
minha boca me sussurra

está aqui dentro
na minha cama
a Loucura

quer que eu tome cerveja
quer que eu fique nua
quer ser minha amante
a Loucura pálida insone
no meu ouvido canta aerada
seu verdadeiro nome…

alvéolo

raso
pensamento róseo
no desejo mínimo
amenidades

no leito último
essa poesia fútil
urgente
— Logo aos cravos, por favor!
e me deixem
útil
verso húmus
ao silêncio
e larva
e só

— A sete palmos
o poeta
eclode
eternidade.

tercetos sobre a Palavra e o Tempo

meu corpo cede
erodido
tempo precede

na palavra puída
tempo
um poema preludia

salobra rima
nos corais dos teus olhos
na ferrugem dos dias

impronunciável
a palavra
de ausências corroída

submerso
o verso encara
no olho do Kraken: seu destino

lenta (entre) ondula
maré e palavra
verso ferrugem

na preamar dos meus olhos
um sonho antigo
oxida

Diana Pilatti. Paranaense criada em Campo Grande-MS. Professora e aprendiz de poeta. Formada em Letras (UCDB) e Mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS. Autora do livro Palavras Avulsas, volume 7 da Primeira Coleção do Mulherio das Letras, 2019. Participou de algumas coletâneas e revistas literárias. Publica poemas também nas redes sociais [@dianapilatti].