cinco poemas de Reynaldo Damazio

1.

poema é um bicho que devora a vida
e se transforma toda vez que você
tenta guardar num canto só seu numa
caixa de memórias perecíveis ou num
dispositivo de efeitos para bem do espírito
poema não serve de guia nem guru suas
estrias queimam como gelo e nos
lembram que nada pode traduzir o que
as imagens corroem e corrompem as falas
inaudíveis na algazarra de festas e feiras
e festivais o poema nunca está onde o
querem onde explicam onde capturam
porque sua teimosia é seu pulmão e
ele resiste para que seu osso fure mas
não trinque seu grito enlouqueça seu olho
não se canse de ver pelo avesso o que
se sabe como falta ou excesso

2.

a gente aprende a ser ridículo
fingir que sabe o que não
dizer pelos cotovelos o nada
ferir e aprisionar com o desejo
a gente cospe no prato que
não sacia e esquece o sentido
de um pedido ou da despedida
é pouco o que fica guardado
o que a gente consegue trocar
antes que o ridículo nos fira

3.

carece de uma folha
em branco no meio da avenida
como um falso prognóstico
a greve geral
um grave registro por fazer
livros empacotados sem destino
a sonolência do amor interrompido
por um frase torta
essa doida sensação de que tudo desaba
porque você não está por perto
porque a fila não anda
a boca se fecha antes da vírgula
cão que salta sobre a cama
suco de melancia derramado
o universo não conspira, esquece
e a vida espera por relatórios
que o tempo apaga sem dó
um após o outro
os cacos do quadro pop
na angústia da parede
aquele texto do Cortázar
sem pontuação
perdido no redemoinho de mensagens
tão virtuais e quentes
como o hálito no começo da noite
lembrança de aroeira
a cicatriz rosa
no trânsito bloqueado

4.

esse rosto que você toca e
tenta rasgar pelo avesso
que você pega emprestado
e esquece na próxima curva
entre meneios e esgares
que desdenha e insinua
máscara das fases da lua
raízes do gozo e da dor
rabiscadas sutilmente
em rugas inexatas
testemunho viciado
para cativar ou seduzir
como máquina de sombras
um rosto no meio da multidão
descartável ou substituível
simulacro de semblantes
serpentes enredadas no cenho
rosto que fala pelo reflexo
que grita por frestas
e você diz que é mistério
como se o disfarce não fosse
a verdade do rosto
como se bem lá no meio das
incongruências do que o rosto
expressa não coubesse algo
do olhar que você suplica e
e sequestra

5.

bem de perto
as marcas na pele
são mapas de
viagens perdidas
ensaio sem o
canto de sereias
atalhos para
nervos e rastros
da batalha final
do grito original
um corte aberto
na epopeia de
arrepios até a fuga
noutro corpo

Reynaldo Damazio é editor, crítico literário e autor. Formado em Ciências Sociais pela USP. Foi coeditor do jornal Caderno de Leitura, da EdUSP, e colaborador do Guia de Livros da Folha de S.Paulo e das revistas Cult, Arte Brasileiros, Entrelivros, Mente e Cérebro, Nossa América e Literatura: Conhecimento Prático. É coordenador do Centro de Apoio ao Escritor do museu Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Autor de Poesia, linguagem (Memorial da América Latina), Nu entre nuvens (Ciência do Acidente), Horas perplexas (Editora 34), Com os dentes na esquina e trilhas, notas & outras tramas (Dobradura Editorial), entre outros. Traduziu Calvina (SM Editora), de Carlo Frabetti.

cinco poemas de Carol Sanches

a mudança

a casa era nova
o cheiro cheio de verniz
cheirava a vazio de memória
uma única pedra, quebrada
contornava o fogão a lenha
teria sido o calor?
ao primeiro sinal de vida
se quebrou,
repare.

os banheiros excedem os quartos
em número e intenções
o gesso o verniz
a tinta o batente
a pingadeira as portas
batem ao primeiro vento
as janelas ensaiam a chuva
a terra agora se molha
sob a tutela dos novos vizinhos
as telhas perdem a virgindade
enquanto, à noite,
os ruídos de amor acontecem uníssonos
aos estalos de madeira
em um ninho estranho

até o momento
cinco banheiros desistem
de ser limpos
três quartos esperam
sonos profundos

a casa
aguarda
a alma

o desabrochar

até o flamboyant floresceu
antes de você
disse enquanto espreguiçava
o comprido das árvores

a picada

há cerca de uma hora
vi uma picada na mata:
um pequeno ajuste
para conter árvores
perigosamente próximas

foi então que me lembrei
do último momento
em que você esteve presente:
a quatro passos de distância
aproximadamente segura

a notícia

uma fração de segundos
ela disse,
tudo acontece nesse trecho
miserável de tempo

continuou andando
cinco passos se ele de fato
havia morrido
tem certeza? ela disse
segure forte a minha mão
os dedos suados, o quadro,
mãe, você está me apertando
a essa altura o corpo já se derreteu
olha lá olha lá
não viemos comprar nada, querida
por que não me contou antes?
que diferença faria?
câncer, você disse?
talvez tenha sido o silêncio
os sonhos não vividos?
as palavras não ditas
solta, mãe

um homem vestido de caveira
com suas caveiretes
dança macarena
na feira hippie

a estática

2 corpos imóveis,
frente a frente,
36 graus e subindo

desça, por favor,
disse num ímpeto
de fricção

encostou uma das mãos
no lado esquerdo
do seu peito

você mora na minha garganta,
disse,
o tempo está seco
as moléculas, histéricas
desça daí
me toque
aqui
onde é úmido:

apertou a palma
contra as cortinas do coração;
com a mão que sobrava
manobrou suavemente
acima da testa
dos cabelos
num desejo espiritual
de desajustar miolos
eficientes

sentiu a densidade
descer pelos dedos
massageou as pontas
em movimentos circulares

levantou o olhar.

perceba, disse
mostrando-lhe os dedos:
ainda estalam
ainda são resultado
da nossa estática

Carol Sanches nasceu em Campinas em 5 de agosto de 1981. Tem poemas publicados em revistas digitais e é autora dos livros independentes Poesias pormenores (2008) e Toda diva tem divã (2009). Seu livro mais recente, Não me espere para jantar, com lançamento previsto pela Editora Patuá em 2019, recebeu menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018. Os poemas aqui publicados fazem parte de uma série inédita da autora sobre cotidianos escondidos.

seis poemas de Rubens Jardim

exercício de viagem

entre a via veneto
e a peixoto Gomide

existe um fosso
e nenhum castelo

existe um poço
e nenhuma água

existe eu posso?

albergue

Amor é
albergue
de
andorinha
:
coisa
arisca.

Quem se arrisca?

artimanha

A arte é
manha
de ver

A arte é
manha
de vir

A artimanha:
Viver

flagrante

O morto na avenida
está livre da sepultura.

Não sei se é desaforo
ficar assim estendido

no chão. Mas a morte
é a quebra de protocolo,

a entrega de uma carta
endereçada ao nada.

dedo em riste

Este poema não diz nada
da mesma forma
que a história não diz tudo.
Língua cortada:
este poema não fala
— falha.
E insiste
— dedo em riste.

pietá

Tão longe do meu olhar
fechada em si
e a si mesma devotada
a pedra na Pietá
adentra o gesto
adensa a face
no apedrar-se da luz
no apiedar-se da pedra

Rubens Jardim, 72 anos, jornalista e poeta. Publicou poemas em diversas antologias no Brasil e no exterior. É autor de cinco livros de poemas. Promoveu e organizou o Ano Jorge de Lima (1973) e publicou Jorge, 80 anos. Integrou o movimento Catequese Poética (1964), cujo lema era “O lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares”. Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008). Faz leitura pública de poemas, está presente em vários sites e possui o seu próprio espaço virtual: www.rubensjardim.com

dois poemas do livro ‘A serenidade do zero’, de Alexandra Vieira de Almeida

alfabeto transcendental

Para Raquel Naveira

Um alfabeto que silencia a escrita
Que faz das letras um atalho para uma estrada esburacada
No meio da lama, encontro uma joia de medos
O medo insípido da humanidade
Em soletrar um alfabeto de cemitérios
Busco a transcendência das formas das letras
Suas sobrevidas, seus fantasmas
As palavras se inauguram na sua disformidade
Não na sua incumbência de levar a outro signo
Que não os signos das estrelas
As letras do alfabeto desencarnadas da vida
Não se fazem corpo de memórias
Mas batismo de espíritos translúcidos
Nas águas da unidade em meio a qualquer diferença enganosa
A comunhão dos signos
Se faz pela hóstia do silêncio
Que traduz o que a boca não vê
Transcendência de nomescapa_serenidadeNo papel mágico da vida.

cápsula

Para Luiz Otávio Oliani

Introdutório — como uma cápsula essencial
Introdução dos mitos, ele se detém na lanterna
O que convém à florescência que emerge
como arquitetura do mistério
A cor que se debruça
nos lábios dos dois seres
costura o artefato do milagre
não em deter-se na antevisão dos ritos
mas por si só soçobrar qualquer sombra de certezas
O animal que se esconde na moita
já está preparado para morrer
E nós jogamos o jogo da sorte?
Introduz-se no ser
a altaneira madrugada dos tecidos
Vértebras que se carcomem
na poeira dos lençóis
O homem-ser de pano
se extravasa de dores
Saem os suores do corpo
Os temores da sombra
se amotinam na cama
A cápsula da essência interior
é seu remédio mais preciso
mais vidente que o sol que folgueia
com as árvores em penitência
Introdutório — o sorriso do ser-homem
ultrapassa a sorte para se fazer destino
no entreabrir dos versos desta cápsula insana
que é o mundo.

| poemas do livro A serenidade do zero (Editora Penalux, 2017). |

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente A serenidade do zero (Editora Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.

cinco poemas do livro ‘Faz sol mas eu grito’, de Leandro Rodrigues

capa_fsmegritogolpe

Um único golpe
E os dias sangram

Um único golpe
E as palavras sangram

Um único golpe
E o país sangra
__________feito poema.

poema obscuro

Cansaço
Olhos negros/ escuros
fechados/ turvos
como a noite
como o país.

representação

O mundo inteiro
invade a vidraça
__________num golpe

Retiramos do quarto a memória
Impregnada de mofo — assoalho
ar de fuligem

O mundo inteiro
é distante
pode ser servido
frio
___em prato raso

pode ter o gosto
ácido
___de chumbo

na toalha fina do desprezo.

1932

A guerra nos escorraçou
chão batido
formigas de suor
cálices de sangue amargo
guardamos as folhas com poemas
__________contra el-rei
mas, invadiram a fórceps nossa alma

andamos em desatados
__________nós contrários

§

puseram-nos em covas rasas
carne viva
atearam fogo em nossas palavras
_________________clandestinas

vieram os urubus,
carregaram nossos olhos
tão azuis em suas rapinas/
nossos versos
__________descolaram ao vento feito plumas.

ode imemorial

(as garras)
a morte estreita suas unhas
numa branca noite de lua
_______________disforme
no reflexo frio dos cacos do espelho
_______________retorcido

(os cortes)
a morte afia seus cabelos
qual lâmina obcecada e intacta
resguarda no grito — a revolução
e serra as grades
__________para o infinito
_______________esquecimento.

| poemas do livro Faz sol mas eu grito (Editora Patuá, 2018). |

Leandro Rodrigues (1976) nasceu em Osasco, São Paulo. É poeta e professor de Literatura. Lançou em 2016 o seu primeiro livro: Aprendizagem Cinza (Editora Patuá). Em 2017 participou do jornal de literatura O Casulo e da antologia Hiperconexões 3 (Editora Patuá). Faz Sol Mas Eu Grito, seu segundo livro, foi lançado em 2018 (Editora Patuá). Teve poemas traduzidos para o catalão e espanhol pelo poeta Joan Navarro para a revista série Alfa e outros traduzidos para o inglês para a revista americana Dusie Nº 21 da UCLA (Universidade da Califórnia). Já publicou também poemas em vários sites e revistas de literatura do Brasil e Portugal.

nove poemas do livro ‘O canto verde das maritacas’, de Edson Cruz

capa_maritacasbibliotecas

A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.

um ser
atônito feito um deus
absorto

em meu rosto
gotas de um mar
morto

palimpsesto

toda poesia já
escrita

não se equipara
a toda poesia

inscrita
a poesia jaz

insígnia

habito
este mundo

ave do paraíso
sem pernas

rascunho
que não pousa

nunca

epifania

um girassol ilumina
o silêncio

das coisas sem voz
dos seres sem vez

de tudo que nunca
veio a ser

zoom

Carpe diem.
A vida é
curta.
Carpas riem.
O azul do dia
zune.
O céu refletido
nas águas.
Lume.

de três dedos

Geometrias rasuradas
nos gramados
da memória.
Uma coruja sobre
um ângulo reto.
O gol vazio e quieto.

Poe lendo Heráclito

O rio continua fluindo.
O pássaro-preto bicando a porta.
O relógio tiquetaqueando.
E as perguntas, ainda sem respostas.

poesia

A dança das imagens entre as palavras.
A viagem de volta ao desconhecido.
Aquilo que concerne ao cerne do ser.
A linguagem dos pássaros sem voz.
A hesitação sem a redenção do êxito.
O enunciado do ser travestido em vocábulos.
A ordem do ente na desordem dos seres.
Emoção recuperada no deserto da história.
A ação e o efeito de fingir-se sendo.
Parcas arrependidas uivando pela vida.
Desígnio de deuses esquecidos.
A pureza selvagem do espúrio.
Tudo o que se perde com a conceituação.

| poemas da antologia poética O canto verde das maritacas (Editora Patuá, 2016). |

Edson Cruz é poeta, crítico e editor do portal MUSA RARA. Graduado em Letras pela USP, publicou quatro livros de poesia, uma adaptação em prosa do clássico indiano Mahâbhârata e um livro de depoimentos sobre o que seria a poesia, Musa Fugidia — a poesia para os poetas (Editora Moinhos). Seu poemário, Ilhéu (Editora Patuá), foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Lançou, em 2016, O canto verde das maritacas (Editora Patuá). Em 2019, lançou Trabucada (Editora Terracota), infantojuvenil para todas as idades. E-mail: sonartes@gmail.com

cinco poemas de Adri Aleixo

o recado do morro

O luar estava muito branco
um pedacinho de mata aparecia longe
dava para separar as flores azuis dos pau-terra

a vista era cansada
tinha lido muita coisa nessa vida
e nessa hora atalhava
ouvia tudo
o recado
se chove se faz sol
o morro fala
a cerração confirma
o gado espera
o tempo é quem faz tocaia
e sorrateiro avisa

A história é a mesma, embora já seja outra

sertão

este friso
entre
água e rio
morro, casa, curva
Este chão sempre de mim partindo

mulher na roca

Se o sol batesse nela
a essa hora do dia
teríamos a imagem de um jarro
as mãos em cálice amparando
o som os fios

olhando mais de perto, sentiríamos vivos

a casa, os móveis
as folhas de carvalho
onde vivem a neta, os filhos

falaríamos de coisas complicadas e outras elementares

de certo, eu acharia tudo doído
mas ela diria: é o ciclo

estiagem

Ela traz um rio no corpo
e o rio dentro dela
só quer ser mais fundo

retorno

Ontem foi a última vez
que seus olhos viram
isso que chamamos de vida
ela sorria, a pele cheirando a terra
o sol se demorando nela
a voz cheia de horizontes anunciava:
— a vida te prepara pra partir

Adri Aleixo é poeta, professora e mestranda pelo CEFET-MG em Literatura feminina. Participa das antologias Escriptonita, 30 anos do Psiu Poético, Contemporâneas, Planner 2018 e Poesia de Ouro. Tem textos publicados em sites e revistas como Suplemento Literário de Minas Gerais, Caderno Pensar do Jornal Estado de Minas, Zona da Palavra, Incomunidade, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou dois livros de poesia pela Editora Patuá: Des.caminhos (2014) e Pés (2016) e a Plaquete Impublicáveis em 2017. Integrou, no ano de 2018, o Circuito Arte da Palavra pelo Sesc Nacional. Em 2019, lançará pela Editora Ramalhete o livro Das muitas formas de dizer o tempo.