cinco poemas do livro ‘Incabível’, de Dani Rosolen

capa_incabivel55 kg a 50 kg

Desenhar à la Botticelli
ou Picasso?
que nada
minha referência
desde a infância
foi sempre a mesma
mulher perfeita
mulher palito.

50 kg a 47 kg

O grunhido da barriga é meu despertador
mas ainda é cedo
não passaram três dias
volto a dormir
à espera da hora certa de comer
é preciso ter horários e ser regrada, dizem os nutricionistas
eu só obedeço.

47 Kg a 38 Kg

Sair com os amigos era assim divertido
eles pegavam seus fast food na praça de alimentação
eu, minhas pílulas coloridas no nécessaire
não dá pra dizer quem era mais saudável.

38 Kg a 55 Kg

O descontrole se apossa de um jeito de mim
muitas vezes me pega desprevenida
em outras, sei que está me espreitando há tempos
eu sinto
e sou pouco
pouquíssimo corajosa
não o enfrento de maneira alguma
me entrego fácil
pra minutos depois me arrepender
com a boca cheia
e o coração vazio.

55 Kg

Doutor, estou de alta?
não.
doutor, existe alta?
não.
então qual a prescrição?
alimentar-se de esperança
sem restrições.

| poemas do livro Incabível (Editora Patuá, 2019); saiba mais no site da editora [link]. |

Dani Rosolen, 32, jornalista de São Paulo, escreve para elaborar o mundo dentro de si. Incabível é seu primeiro livro solo. Uma forma que encontrou de compartilhar os desafios e os pensamentos vividos durante a anorexia e a compulsão alimentar. Participou das coletâneas: Não Pretendia Causar Discórdia (Giostri, 2017), Eros Ex Machina (Alink, 2018) e Era de Aquária (2019, Oito e Meio). É integrante dos coletivos literários Discórdia e KriptoKaipora.

cinco poemas de Margarida Patriota

capa_delacaotempo de delação

Vi o sopro embaciar o vidro
Para o dedo traçar no bafo
O coração do amor proibido

Vi a ponta do punhal
Escorchar o tronco adusto
Riscar o manacá que eu amava

O sol inflamou o céu
Não prestou qualquer socorro
Nem se importou com isso

Dentes rasgaram carnes
Desmembraram gomos
Deceparam cachos, que eu vi

Flagrei a noite atropelando o dia
Pelotões de nuvens ladras
A assaltarem o luar

Vi a neve deflorar a campina
A hera assediar o muro
O mar abusar do penhasco

Vi sem asco o que delato
Antes que prescreva em juízo
O ardor dos fatos

luto

Em horas pluviosas
Langorosas, baudelairianas
Recolho-me dócil
Ao boudoir do meu spleen

Beijo a esfinge no console
Bocejo solilóquios no divã
No leque de pavão afago plumas
Aspiro com volúpia buquês murchos

Ao tilintar da sineta
Chávenas de porcelana flutuam
São os meus mortos
A tomar chá comigo

convite

Viesses a mim
Pisarias na juta
Que atapeta o meu solar

Verias as flores
Que bosquejo a bico de pena
Os meus mares de aquarelas

Ouvirias meu relógio de parede
Bater horas como um gongo
A chaleira apitar qual trem fugindo

Verias minhas conchas, caramujos
Conjuntos de azulejos, souvenires de coletas
Escavações, prospecções, enfim…

Para bem do acervo
Bom seria que viesses
Num dia chuvoso

penhora

Quando vierem me arrestar os bens
Indicarei os valiosos

Na prateleira da aventura
O escafandro
Com que imergi nas funduras
E recolhi a dor das ostras

Na do método e disciplina
O vaso para bonsai
Em que forcei um junípero
A se entanguir

Na dos frissons
A lupa por meio da qual
Acendi fogos sem artifícios
Com um filete de sol

telepatia

Através das membranas retráteis
Que nos domam as transparências
Trocamos mensagens cristalinas

Confiantes na recompensa
Do mútuo contato visual
Elucidamo-nos sem sermões

No alargar e contrair das pupilas
Fios condutores nos unem
Dialogamos por osmose

E quando afirmas que sou
Tua “menina dos olhos”
Formamos um globo ocular

| poemas do livro Tempo de delação (Editora Ibis Libris, 2019). |

Margarida Patriota, carioca radicada em Brasília desde 1976, tem trinta livros publicados e foi professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília. Desde 1997 conduz e apresenta o programa Autores e Livros da Rádio Senado. É detentora, entre outros, do prêmio do Instituto Nacional do Livro, de romance, e do João de Barro de Literatura juvenil. De uns anos para cá, tem dirigido seu lirismo à apreciação do leitor formado, com os poemas de Laminário, de 2017, a prosa de Cárcere privado, de 2019, e Tempo de delação, seu segundo livro de poemas, recém-lançado pela Ibis Libris.

feridas, poema de Maria Jorgete Teixeira

Somos silhuetas desmembradas
num rio que corre esgarçado entre
o nevoeiro de pernas azuladas pelo frio.
As memórias são portas sem casa dentro, sem
enseadas onde se arrimem os ombros doloridos.

Deito-me sozinha entre cardos.

Não estendo a mão porque não te chego e
a consciência disso é cruel.
Deixei de invocar o teu corpo.
Não sei se por cansaço
ou se não me chegavam já as metáforas do poema.

Ainda me visita o sobressalto.
A teia de lamentos agudos como sal nas feridas.

Maria Jorgete Teixeira nasceu no Cunene, Angola. Professora aposentada, vive na cidade do Barreiro, Portugal. Obras publicadas: O coração é puta sempre à espera (prosa poética, Alfarroba, 2015); Mulher à beira de uma largada de pombos, à volta das canções de José Afonso (conto, Alfarroba, 2017); A solidão das dunas (poesia, Amazon, 2019). Participou em várias coletâneas e escreve em jornais e revistas locais.

dois poemas inéditos de Julia Raiz

s/título

Conheci o enfant terrible
quando ele ainda não era poeta ou músico ou carpinteiro
como José, o pai biológico de Jesus
Jesus Ricardo, o moleque aqui da rua de baixo
O enfant terrible foi do berço pro engatinho em 30 segundos
e já estava de pé mesmo que ainda chorasse
porque não podia confiar em suas pernas moles como
ficam as minhas se assisto Vertigo do Hitchcock
Ergueu os bracinhos de provolone trançado
e pediu ao mesmo tempo regaço e uma xícara cheia de café puro
Sem açúcar
Eu disse: isso vai te fazer mal
Ele respondeu: “eu quero” é a minha sentença
Existem outras, eu hesitei em busca de uma resposta mais precisa
“Eu agradeço”, por exemplo
mas nem eu acreditei no que estava dizendo
Ele teria dado de ombros
se já soubesse que o cinismo se dá principalmente
nos corpos que se movem pouco
Depois voltou ao chão e antes que fosse brincar com as ferramentas
passei repelente em suas perninhas de maria-mole
fazendo cócegas em seus pés o que me deu muito prazer
mas também plantou em minha mente uma cena perturbadora
de meu pai assistindo um vídeo meu dançando completamente nua
na praia fazendo movimentos que lembravam a postura do leão
na Hatha Yoga enquanto atrás de mim um velho
se dividia entre assistir a cena e segurar seu chapéu moralista
que teimava em ir embora
O enfant terrible agora desmontava pequenos objetos
e espalhava suas pecinhas férreas por todos os lados, destruíra:
o controle do som estéreo, meu par de brincos favorito e a pistola
que Rimbaud tinha usado em sua expedição pela Filadélfia
Já demonstrava o enfant terrible um impulso irrefreável
por desmontar coisas para refazê-las a seu próprio modo
O problema é que não sabia montá-las de volta
ou melhor
não sabia fazer delas algo mais eficaz do que tinham sido
Por isso enjoava rápido com uma careta que ia do sorriso
ao choro iminente e o tédio crescia mais veloz do que ele mesmo
Tudo parecia escrito numa lasca de vidro
Mas as fraldas de pano preto lhe caiam muito bem
e quando dormia era bonito como nada e heroico
como um verdadeiro Power Ranger

cleo, a cleptomaníaca

não queria começar com:
sou cleptomaníaca
mas minha estirpe é a da mais tosca
estão a salvo os isqueiros e biscuits
prefiro o que vocês têm rondando de moto a cabeça
entro onde estão à noite (não estão em suas camas, posso garantir)
e levo tudo, passo meu longo braço derrubando o que encontro
pra dentro de um saco de lixo azul-celeste que carrego no ombro
feito um ladrão da Turma da Mônica
pego de ímãs de geladeira à certidão de nascimento dos seus primogênitos
sei dos melhores horários porque sei quais de vocês
têm espíritos fortes que plainam por outras dimensões sozinhos
e quais levam companhia
quais têm liberdade de movimento
mas com materializações pequenas de alma
e quais continuam em vigília conversando com fantasmas
quando deveriam estar bem despertos
o amor não é nada mais do que o proveito da oportunidade
sinto quando abrem ou fecham suas pesadas portas na minha cara
ou quando dizem mentiras nadando com os amigos
em piscinas redondas e querem que eu assine contratos
que pingam no chão de mármore
por isso tenho cada vez menos pena de roubar de vocês
uma árvore também roubou de mim
porque cresci de frente pro bosque seus ramos vingavam fortes
se alimentando da minha energia vital
em troca não me dava coisa alguma
e quando eu subia alto em seus galhos
não fazia nada que pudesse me salvar de cair
as árvores não sentem remorsos
elas nem conversam entre si sobre isso
não têm a mesma preocupação que eu tenho
de escrever sobre o dia que um de vocês me lançou
um pedido de socorro:
“venha, leve tudo o que eu tenho, por favor,
não aguento mais todas essas coisas”
por isso eu acho que no final das contas
faço um favor a vocês
e por isso até deveria ser paga
talvez devesse ser essa mesma a minha profissão

Julia Raiz é escritora e pesquisadora dos estudos feministas da tradução. Edita os blogs literários totem & pagu, firma de poesia, e Pontes Outras, dedicado à tradução de literatura escrita por mulheres. Em Curitiba faz parte do coletivo de escrita membrana. Seu primeiro livro diário: a mulher e o cavalo saiu em 2017 pela ContraVento Editorial. Lançou o megamini p/ vc pela Editora 7Letras em 2019. [ @julia.raiz ]

três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).

alguns poemas de amor, de Ruy Espinheira Filho

EPIFANIA

Alguns anos não consigo
deixar nas águas do Lete:
os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete.
Muitas coisas se afogaram,
e rostos, e pensamentos,
e sonhos, e até paixões
que eram imortais…
_______________Porém,
os meus magros dezessete
e os teus catorze morenos
não entram nem em reflexo
nesse Rio do Esquecimento.

Que magia nos levou
a um espaço e a um momento
para que de nós soubéssemos:
tu, meus magros dezessete;
eu, teus catorze morenos?
Que astúcia do Imponderável
nos abriu aqueles dias
que permanecem tão claros
como quando nos surgiram?
Eu não sei. Mas sei que a vida
nunca mais me foi vazia.

Como não foi fácil, nunca,
por tanto me visitarem
os Arcanjos da Agonia.
Pois, se fui iluminado
por estarmos lado a lado
— os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete —,
seria fatal que também
viesse a sentir a alma
em chagas multiplicadas
por setenta vezes sete.

Ah, os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete!…
Quanto sofrimento fundo
— mas quanto sonho profundo
e alto!
_______________Que belo mundo
foi-me então descortinado,
porquanto me era dado
o privilégio preclaro
de penar de amor no claro,
no escuro, em todas as cores,
em todos os tons da vida,
dia e noite, noite e dia,
varrido ao vento das asas
dos Arcanjos da Agonia
(que eram, por algum prodígio,
os mesmos da Alegria!…).

Ah, que por mim chorem flautas,
pianos, violoncelos,
as cachoeiras, os céus
comovidos dos invernos…
Chorem, chorem, que mereço
essas lágrimas, porque
tudo sofri no mais pleno
de paraísos e infernos.
Que chorem…
_______________Mas eu, eu mesmo,
não choro… Como chorar,
se mereci essa dádiva
de um amor doer na vida
por setenta vezes sete
mais que qualquer outra dor,
mais que qualquer outro amor?
Só me cabe agradecer,
pois a vida perderia
(e, o que ainda é mais cruel,
sem nem saber que a perdia…)
se não provasse os enredos,
insônias, febres, venenos
que em meus magros dezessete
acendeu a epifania
dos teus catorze morenos!

SONETO DA NEGRA

a Maria da Paixão

A cor da suavidade é que a modula.
Nela se abisma a luz e se revela
incapaz de alterar nada daquela
penumbra que a atrai, absorve, anula.

Nessa paisagem que coleia, ondula
como um rio, ou o mar (e é dela e ela),
um vento violento me desvela
um animal que me trucida e ulula.

O tom da suavidade não se altera,
eleva um canto cálido e me diz
que são garras de amor, e é bela a fera.

E assim, em carne rubra e cicatriz,
entrego à cor profunda que me espera
estes despojos em que sou feliz.

VOO CEGO

Um pássaro te procura
na cidade adormecida.
Vai em voo cego: seus olhos
só verão quando te virem.

E onde te ver? Não sabe.
Só conhece o procurar,
indiferente às ressacas
do vento e ao seu cessar.

Pássaro, a noite já finda
e continuas trevado
pela flama que não viste
nos olhos da procurada!

Eis que retorna como em
outras tantas madrugadas,
trazendo nada da busca
em suas asas exaustas.

Frágil perfil, contra a aurora,
de um cinzento voo desfeito,
ele se transforma em vácuo
e se recolhe ao meu peito.

SONETO DO ANJO DE MAIO

Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me

o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida – e a mágoa desertou-me.

Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!

Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!

CAMPO DE EROS

Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.

E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.

E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),

o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes

a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.

Amor. Do extinto pássaro, o voo
prossegue, inexorável. Mas perdoo,

eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,

amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.

Ruy Espinheira Filho é baiano de Salvador. Poeta, cronista, contista, romancista, recebeu algumas das principais premiações literárias do país, como o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa (1981), o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia (1998), o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2006) e o Prêmio Jabuti de Poesia (2º lugar, 2006), entre outros. Aposentou-se como professor de Literatura Brasileira no Instituto de Letras de UFBA em 2010.

kalunga, auê, poema de Neide Almeida

Em nossos mares
ainda são muitos os navios malditos
imensos, sufocantes porões
odor de maresia e sangue
ainda inundam as memórias de nossa gente.
Essas águas não nos embalam
arrancam a vida de nossas entranhas
devoram nossos filhos
enlouquecem as mães de nossas crianças.

O fundo dos oceanos
está coberto de disformes pedras de sal
tíbias, mãos, crânios
fósseis curados por lágrimas,
vertidas das vísceras de nossos ancestres
que desde sempre permanecem
invocando as mãos de Xangô.
Encosta o ouvido na concha,
escuta o grito!

A areia das nossas praias
está repleta de banzo
corpos de nossa gente
estirados sob o sol
continuam sendo devorados.
Bandos de aves de rapina
roubam dos nossos
o pulso, as vértebras, o vigor.
Sente na pele o eco dessas dores!

As ondas dos mares que somos
estão sempre tão cheias
prenhes, reverberam indignação.
Arregalamos os olhos e nos lançamos nas águas mais turbulentas
nossas meninas, os meninos nossos
sendo surrados nos recifes
jogados em alto mar como redes de pesca
arrastados, esvaziados
extenuados,
ainda assim nos cabe
converter essas águas
Kalunga, auê
Kalunga, auê
kalunga, auê

Neide Almeida é escritora, poeta, produtora cultural pela Fio.de.Contas Produções.