três poemas de Paulo Henriques Britto

dez sonetos sentimentais (X)

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.

(de Liturgia da matéria, 1982)

nenhum mistério (X)

Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços

de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.

Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.

É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.

(de Nenhum Mistério, 2018)

fim de verão (XIV)

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.

(de Fim de verão, com previsão de lançamento para 2022)

Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951) é professor de tradução e literatura na PUC-Rio. Publicou sete livros de poesia, dois de contos e três de ensaios. Traduziu mais de 120 livros do inglês, incluindo obras de ficcionistas como Jonathan Swift, William Faulkner, Henry James e Thomas Pynchon, e de poetas como Byron, Wallace Stevens e Elizabeth Bishop. Ganhou diversos prêmios literários, como o Portugal Telecom, o da Associação Paulista de Críticos de Arte e o da Fundação Biblioteca Nacional.

três poemas de Francisca Camelo

4:40

comportamento errante
foi por isso que ele a deixou
comportamento errante
e hoje aqui estamos
4:40
num bar onde as casas de banho
se transformam numa espécie de
casa de fados em cocaína
eu só bebo
mas ainda assim
inegável a beleza
de uma casa de fados
dentro do wc de um club
onde só passam techno
o saxofonista de jazz
apanhado a dançar
diz que gosta
esta repetição em loop
de alguma forma
recorda-lhe coltrane
hoje vim aqui
à procura de alguém
que não estava
há qualquer coisa que nietzsche escreveu
sobre o desejo da
necessidade a necessidade
do desejo (é demasiado tarde
para o citar em condições)
nos fados é obrigatório o desalento
e por isso a elaine dizia
98% dos dias não sei o que faço aqui
a sara dizia
a mim só me apetece chorar
e ela não falava da nostalgia do fado
de beber demasiado e tudo junto
referia-se sim a uma cicuta diária
essa espécie de vazio inconsequente
e por isso
interminável
teimosamente fingindo
saber o meu lugar no mundo
ignorante de bênçãos coroada de
amores sádicos mas tentando
recuperar as tropas
eu agarrava o copo e
explicava, ainda que
pisando armadilhas,
falhámos mas estamos aqui
falhámos mas olha para nós
tantos gatilhos
que nunca chegámos a apertar
isso só pode ser
uma vitória
uma meta
que nunca ninguém anunciou
o homem que eu queria
não apareceu
mas olha só
estou em casa sã
estou em casa salva
e afinal
não é o amor que resgata
sou eu
e o táxi que conseguiu aparecer
apesar da chuva torrencial

falta dizer o que
ninguém diz destas
mulheres errantes
é que a solidão é o preço
a pagar pela resistência:
a errância
está no adn
como língua nativa
às vezes seria mais fácil
aprender a brincar às donas de casa
ignorar o patriarca debaixo do tapete
e os anelares encontrados
debaixo da ponte
mas é mais difícil
matar um potro
que não foge em sentido único
e desse ponto de vista
o que nos mata
será também a única salvação.
sabes, o que não se diz
nunca sobre a errância
é que quando se diz errância
diz-se sobretudo:
liberdade.

a importância do pequeno-almoço

qualquer mulher sabe que
é preciso manter as tropas:
passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de
joelhos o sarro sai melhor
quem mais poderá explicar às crianças a ausência
do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe
o pão na mesa
se o sexo é político, imagina as lides da casa
lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue
fazer a cama quando vazia
reunir no prato os nutrientes necessários
para a capitalização do pai adúltero

depois de fazer o pequeno-almoço
as mulheres-âncora atracadas à enseada
assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o
primeiro / o anterior / o pai deste
para que agora – isto não é novo —
pelo menos quinze mil machos sigam audazes.
a ideia é a de sempre:
queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar
terras que já tinham nome
reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo
enterrar a semente bem funda no colo do útero
e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas
deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café
(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar
uma pirâmide de pó, não deixar que a água toque no funil, não
ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo
certo de ebulição, mas continuando,)
vertê-lo quente na chávena de manhã
sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa
colher fruta fresca valorizar a louça lavada
não regressar nunca
à sodoma abandonada
porque nessa
o café já esfriou

quem faz o pequeno-almoço
sabe de tudo isto
retorna a casa só e as mãos
sempre invisíveis
costuram dores como contas de rosário
nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios

só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:

é que sem elas
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.

quem me comeu a carne

era no tempo em que as famílias
ainda tinham arrecadações
limpavam os esqueletos mal dobrados
e pintavam as sebes antes
que os vizinhos vissem
ou que chegasse o outono

os filhos deitavam-se na palha
e enquanto dormiam
moíam dos pais a violência
pouco a pouco
como sementes de girassol
mal maturadas

às mulheres
cresciam enigmas vermelhos
nas pernas
e enquanto alastrava o verão
deixavam de saber andar
arqueadas com o peso da ira
que se deitava sobre elas

todas as noites
as mulheres rezavam:
meu deus
quem comeu a minha carne
os meus ossos
há-de roer.

(“4:40” e “a importância do pequeno-almoço” pertencem ao livro A importância do pequeno-almoço, Fresca Edições, 2020; “quem me comeu a carne” é inédito, 2021)

Francisca Camelo nasceu no Porto em 1990: é poeta e diseuse. É cofundadora d’A Bacana, contribuidora da Enfermeira 6 e tem poemas espalhados em diversas antologias e revistas em Portugal e no Brasil, tendo sido traduzida no México, Espanha e Alemanha. Autora de Cassiopeia (Apuro Edições, 2018); Photoautomat (Enfermaria 6, 2019); O quarto rosa (semifinalista do Prémio Oceanos 2019) e A Importância do pequeno-almoço (Fresca Edições, 2020).

seis poemas do livro ‘Ando caindo cada vez mais leve’, de Carla Andrade

morte

é essa navalha da sorte
(sem espada de São Jorge)
o mais incicatrizável corte
em quem não morre
é a culpa do mais forte
é o lorde de sangue porte
é a tripa que o vácuo torce
e nunca se contorce por si só

barricada

Do amor entulhei cada centímetro do fogo
cataloguei os arrepios bestiais
e a saliva escorre em vultos.
Mas agora as portas estão fechadas.
Com meu velotrol limpo o invisível entre os tacos
e os raios do sol asteca querem ser honrados
(esse sol também tão solitário).
Com medo, me lembro do poeta:
“Da vida não se sai pela porta:
só pela janela”.
E ela está escancarada.

os galos continuam tecendo a manhã

a criança pinta os pés
da galinha de esmalte
miúdos na bacia
de alumínio da mãe

o pai fala para o filho
que vai quebrar seu pescoço
se ele entrar no mar de novo

a criança quebra o pescoço da Barbie
a mãe fala que
não vai comprar outra
a mãe e a filha com as unhas pintadas

Os poetas não deixam em paz:
o mar
a galinha
as crianças
os pais

hoje, parece que os
galos cantaram menos.

depois da vacina

cortar as unhas afiadas
para escalar o poço da sarjeta
reconstituir todas as cabeças
oferecidas de bandeja
grudar os umbigos
no resto de placenta do planeta

destruir todos os espantalhos
esses que fingem ser humanos
não deixar atalho algum
de como voltar a este ano

carregar os ossos deslocados
de todos os antepassados
colar as partes em laços
nadar com os sargaços
fazer deles nossos braços
veias e passos

Aí, sim, encostar
as palmas das mãos
no rosto de Deus
e voltar como um raio
apenas um raio
mas não sozinha
viva pela primeira vez.

empatia mórbida

tenho a cabeça de alfinete
de uma abelha num repente
ao tentar cruzar
a porta translúcida
no poente de vidro
no chão
se acaba

tenho a cabeça espatifada
de um homem numa caraça
ao tentar puxar o ar puro
em caça à procura
com medo desse ar tão largo
e que na cama se acaba

somos parecidos
queremos trocar
no mais abissal
submarinos
venenos
ferrões

no pranayama
das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia
na arquitetura das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia

e andam varrendo todos os mortos
sem olharem para suas asas

besta

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo bicho dela senta
no canto do labirinto
do cérebro e se contorce
com o manto
de dez a quinze minotauros

Quando um homem bate em uma mulher
o olho dela vai pro canto
e tem a cor de azeitona
já mordida e com caroço

Quando um homem bate em uma mulher
todos os marimbondos do tórax
saem pela sua boca
mas ninguém vê

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo dela depena
e seu sangue ferve
numa bacia de prata
(os pedaços são dados aos cães
como se eles entendessem
o barulho minguado
da lua de suas tripas)

Quando um homem bate em uma mulher
ele sempre tem forma
de pino ou garrafa
e ela desfigurada

Quando o homem bate em uma mulher
ela sabe que jamais poderia ser um homem

| poemas do livro Ando caindo cada vez mais leve (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Carla Andrade é mineira e brasiliense, mas gostaria de ser do fundo do mar. Tem outros quatro livros publicados: Caligrafia das nuvens (Editora Patuá), Voltagem (Editora 7Letras), Artesanato de perguntas (Editora 7Letras) e Conjugação de pingos de chuva (LGE Editora). Alguns de seus poemas foram traduzidos para o italiano, espanhol e inglês. É jornalista e servidora pública.

poema de Maraíza Labanca

Do livro A terra O corpo (Cas’a edições, 2021).

O pensamento em sua origem
— aqueles núcleos obscuros,
mais vastos que a terra, dentro,
lentamente,
têm o máximo de intensidade —
o influxo, na dosagem
de calor.

Restava equiparar as manchas
à irradiação do grande astro, ao fastígio
torturado de uma e outra.

Em que pese a sua forma,
uma aproximação rigorosa,
uma causa.

Porque a complexidade imanente
aos fatos concretos se atém,
progredindo da natureza do solo
extensa
à definição do que quer que seja

— sem leis —

Sujeita às perturbações locais,
a reações mais amplas,
às correntes, à monção
dos planaltos interiores:

são, no estio, atraídos ao entrar
dezembro pelas costas, desnudo,
irradiando toda a umidade
absorvida na travessia dos mares.

Canaliza-a, correndo em direção
àquele vento — um dizer natural, fora
de limites, prolonga-se, até que reabre,
outra vez, este intervalo:

a longa faixa de calmas,

o lento oscilar em torno,

o zênite,

levando a borda até os extremos,
de leste a oeste.

De súbito, mais íntimo, o destino
agitado dos alísios — irremediável —
chega de improviso, desnuda
a sua própria intensidade.

Os ares aquecidos entram.

Entrechocadas, uma e outra, de tufões
violentos, alteiam-se, retalhadas
de raios, nublando, em minutos,
o firmamento todo,

desfazendo-se,
logo depois, em aguaceiros fortes

sobre os desertos.

CAPA NOVA-supremoMaraíza Labanca nasceu em 1984, em Belo Horizonte. É doutora em Literatura Comparada pela UFMG e uma das editoras da Cas’a edições. Trabalha também com oficinas de escrita literária no Espaço a’mais. De sua autoria, publicou os livros Refratário (2012), Rés — livro das contaminações (com Erick Costa, 2014), Partitura (2018), Exceto na região da noite (2019) e A terra O corpo (2021).

cinco poemas do livro ‘Quênia — Poemas de viagem’, de Michaela Schmaedel

* * *

Homem
do Kilimanjaro
eterno
recém-chegado
feito pedra
espreita o mundo.

Feito homem
sente a queda.

áfrica

A máscara
pendurada
na sala

que espanta
o mal infinito
que nos ronda

o agouro
que nos liga
ao divino

é também
uma maneira
de olhar
a boa sorte.

samburu

O barulho discreto
das folhas das árvores
junto ao rio.

Um elefante
come capim
no calor extremo
do pico-vulcão.

Homens consertam
a cerca entre risos
e observam:

a constância é uma
forma de resistência.

* * *

Círculos crescem
nas mãos das mulheres
do Quênia.
Lavam roupa
fazem comida
trabalham nas hortas
lojas mercados
de mel.
Levam o país nas mãos
as mulheres circulares
do Quênia.

nakuru

Árvores mortas
no lago
há muito tempo
a água parada
nenhum pássaro
ou ninho em andamento.

Desabitado coração
da paisagem.

capa_quenia| do livro Quênia — Poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), disponível no [link]. |

Michaela Schmaedel (1976) nasceu e mora em São Paulo, é editora de cultura e poeta. Autora dos livros Coração Cansado (Editora Penalux, 2020) e Quênia — poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), está presente na antologia As mulheres poetas na literatura brasileira (Editora Arribaçã, 2021). Escreve resenhas para jornais e revistas e faz a edição do podcast Poesia pros Ouvidos.

cinco poemas de Daniel Glaydson Ribeiro

não neste hoje depois de ontem

Chegou o momento de lembrar da fome
e da sede, porque ouviu-se uma orquestra
de estômagos e intestinos e das peles labiais
ressecadas e brancas, quebrando ao chão.

então foi preciso chamar os peixes,
trocar com eles uma ideia, encantá-los
e comê-los. e aprendeu-se a mergulhar
para colher as verduras submarinas.

e descobriu-se que havia carvão
e papel demais no convés,
e disso fizeram filtros e filtraram
a água do mar.

descobriu-se simultaneamente uma
infinidade de armas, munidas, enga
tadas, quase já miradas para suas
mesmas cabeças, mas nelas ninguém
tocou então, pois não havia polícia
nem milícia, juízes, tribunais, poderes
para acusá-les, então mantiveram-se sãos
e não houve assassínios.

deixaram-nas munidas, talvez mesmo
engatadas, para o caso de piratas,
companhias das índias ou marinhas.

esquizocapital

Era uma vez minha terra
tinha palmeira e palmares
hoje tudo queima
e a Flor-
esta
cinza pelos ares:

cinza que cobre estrelas
fumaça enforca dores
ouro-lama afoga gente
num rio tóxico
Rio Doce

os quilombos e as aldeias
que diziam “demarcadas”
são o intermitente cenário
de guerra das bandeiradas

minha terra, mina
nem sei mais se é terra ou veneno
e tudo continua sendo
para o progresso
de São Paulo.

distopia

o bicho banha-se no lixo
ornamenta seu peito com o perfume dos plásticos
faz-se distopia e viraliza

expõe o seu corpo para o estupro
nadando em milícias e metralhadoras
para compor novos mitos

sobrevoa a sobrevivência das paisagens
sapateando demência pelas aldeias
passando a boiada no vazio do gênesis

lágrima

o silêncio da voz que se fez lágrima
e foi
numa correnteza

como

…se ao poema coubesse ainda e apenas
lê-lo, com humana voz sem excesso
no ritmo puro do tempo disperso
como se houvesse raças e antenas,

numa ausência de qualquer artifício,
como se eu detrás duma cortina,
sumisse, e esta língua que imagina
já não fosse a máquina do início.

Tal como a luz do sol ou a da lua
as nuvens, os raios e tempestades
são sublime teatro-transcendência,

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;
língua é ruído de todas as vontades,
o poema: barulho-excesso-essência.

Daniel Glaydson Ribeiro é natural de Picos, Piauí; pai de Anita, Tarsila e Bento. Autor de Pulsão de língua (Recife: Selo Mirada, 2021). Coorganizou o Almanach Muda junto ao Grupo Ausgang de Teatro, quando publica o ensaio “Poesia Muda: Butes Ostranênio”. Outros diálogos, artigos e traduções constam em revistas e sítios no Brasil, Argentina, México e Cuba. Na tese de doutorado Carnifágia malvarosa: as violações na Suma Poética de Jorge de Lima (Teoria Literária e Literatura Comparada, FFLCH, USP), indicada ao Prêmio Capes, publica material renegado da Invenção de Orfeu. Hoje, é coordenador de Extensão e professor no Instituto Federal do Piauí, campus Cocal. Para um blog bissexto E-scritura.

dois poemas de Marcelo Torres

isso é hoje

A placenta em até uma hora
no mundo
bombas que atravessam
tudo em tramoias
intempestivas
pensamentos pendurados
no círculo
de rosas
essas mulheres
andam imersas
no líquido amniótico
de longos logradouros
os animais
nos lençóis
de sangue
uma festa junina
sem igrejas
a Sra. japonesa
com uma planta
imperfeita
corredores animados
com a vida saudável
não sabem
o quanto estão enganados
com seus trajes
amansados
de três cores
isso é hoje
catapulta/nauta
sem chamamentos
na noite precedente
estava em um despenhadeiro
quando uma travesti
esbarrou em mim
disse-me o quanto
meus olhos eram claros
como a morte

| poema do livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (Editora Córrego, 2020). |

* * *

se desejas
que os deuses voltem
invoque-os

na palavra bruta
na palavra essencial
na palavra fértil

na lavoura viva
o jorro do ser —
ferocidade, mel na noite

| poema do livro inédito A flama farta. |

Marcelo Torres publicou Vertigem de telhados (poemas, 2015) e nadar em cima da rua (poemas, 2015), pela Editora Kazuá, Páthos de fecundação e silêncio (poemas, 2017) e Poemas tímidos e gelatinosos (poemas, 2019), pela Editora Patuá. Sua obra mais recente é o livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (poemas, 2020), pela Editora Córrego. Nasceu em Pernambuco na cidade de Palmares no mês de março de 1984.

dois poemas de Alessandra Martins

capa_sankofarespeite as mina preta

Sou vista há mais de 500 anos
como só corpo, só prazer.
Ela é branca pra casar,
eu mulher preta
pra escondido comer.

Preto, sei que a igualdade racial
não chegou pra mim nem pra você,
mas por eu ser mulher preta aumentam
mais ainda os paranauê.

Se põe no meu lugar, pra você ver.

Tive quinze filhos,
sofria dentro de casa,
enquanto meu marido
por aí batia as asa.
Me traía, violentava e
ainda me xingava.

Maldita sociedade — só maldade.
Quanto maior a melanina,
mais se aumenta a solidão.
É solidão…
porque parece que só sirvo
para lavar suas roupas,
fazer sua comida,
ser comida,
limpar seu chão.

Meu beiço, meu nariz,
meu cabelo
te incomoda?
Na primeira oportunidade
me troca
por uma padrãozinho,
na moda.

Ascensão, high society,
crescimento profissional.
Não quer uma preta do lado,
pois pode pegar mal.

Não sou de confusão.
Não vim para arrumar “treta.”
Mas estou aqui para dizer.
Respeite as mina!
Respeite as mina preta!

orgulho negro

Tenho orgulho de mim,
deixei de ser prego,
agora sou marreta,
pois já senti o que é ser
rejeitada,
cuspida, negada, maltratada.
Somente por ser preta.

Tenho orgulho da minha pele,
da minha carapinha.
Do afro que uso, dos meus
traços marcantes.
Minhas origens espetaculares,
dos colares, turbantes.

Tenho orgulho dos
guerreiros, dos sábios,
rainhas e reis verdadeiros.
Das minhas tranças,
das crenças,
das danças, comidas
e extravagâncias.

Tenho orgulho da minha raça,
da luta do meu povo.
Da liberdade conquistada,
da briga pela igualdade,
da insistência, resistência.
Do ontem lembrado
com tristeza, mas com orgulho.

Resistiram e chegaram
Vivos ao cais.
Tenho orgulho da esperança,
Força e coragem
que tiveram
meus ancestrais.
Orgulho Negro!

| poemas do livro Voa, Sankofa, voa! (Chiado Books, 2021), disponível no [link]. |

Alessandra Martins é natural de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. É poeta, educadora e autora do livro Voa, Sankofa, voa!, publicado pela Chiado Books, em que usa a literatura marginal para denunciar o genocídio da população negra, a falsa democracia racial brasileira e os estigmas e estereótipos que são postos sobre o corpo negro em diáspora africana. No entanto, juntamente apresenta a exaltação da beleza negra, do orgulho e o regaste da ancestralidade.

três poemas de Carolina Rieger

dueto

o vento zomba da carne
espanca a pele e a anca
rasga à navalha a pelanca
o vento zumbe na cara
e esbraveja no ouvido
esfarrapa à farpa a entranha
vento e ventre a grunhir
vazando a víscera vazia
a fome e a noite fria

um uivo

ah, essa coisa de fazer poesia
e trazer tantos lobos para fora do covil
e lobas, todas no cio,
e tantos e tantos vazios
ah, essa coisa vã que é fazer poesia
e que não fala, uiva
e chora e sangra
estrangeira e nativa
numa ilha igual a todas as outras ilhas…
ah, essa coisa inútil que é fazer poesia
e ser um desnudamento tão íntimo
que de tão íntimo desnudamento
é igual em todos os falantes
ah, coisa inevitável
que é fazer poesia

as Mulheres e suas Crianças

desbravando o estreito do tempo
Elas ficam prenhes
não só de filhos
não só de amores
prenhes de sonhos
e de perpetuação
na barriga nascem cidades
as leis e seus reis
não há outro meio à força motriz
da barriga nasce a história
nasce toda a gente
nasce um país
o futuro é umbilical
seio e noite insone
em ladeiras pedregosas
caminham as Mulheres
suas Crianças a tiracolo
por ladeiras pedregosas
fogem dos algozes
as Mulheres e suas Crianças

Carolina Rieger nasceu em São Paulo, capital, e mora em Osasco. Formada em Filosofia pela USP, mestra e doutoranda em História da Educação pela PUC-SP. Publicou Irmãos Koch, think tank, coletivos juvenis — a atuação da rede libertariana sobre a educação (Edições 70, Editora Almedina, 2021). Publicou poemas e contos em coletâneas, fanzines e revistas. Seu primeiro solo de poemas é Carnaval (Editora Patuá, 2017), que lhe rendeu uma colocação entre os 10 finalistas do Prêmio Guarulhos de Literatura 2018. Em 2019, ficou em 3º lugar no mesmo prêmio. Está com seu próximo livro, De temer a morte, pela Caravana Editorial, no prelo. Estes três poemas são dele.

cinco poemas de Jéssica Iancoski

rolos de papel filme

como ybá
secando longe do pé

dedos esticados
pela ganância branca
formam uma linha
do polegar ao mundinho

movimentos de pinça
roubam a tangerina
tentando extrair
a seiva interina

sem que saibam
robôs descascam
o firmamento

frutos envoltos em etileno
enrolam horizontes
em rolos de papel filme

um só lamento para o soterramento

enquanto cipós
se lançam do alto
das copas
buscando
a semente

pessoas
trocam de nome
tentando aceitar
a mente

yby seria só a terra
mas homens infelizes
impuseram o chão

pilares

antes do sol
uma mãe
e os seus seis filhos
se levantam e
erguem as mãos
para um deus mudo.

sem que saibam
sustentam o peso do mundo
para que um dois ou três
homens sem rostos subam
até a tez
da lua.

enquanto suas
mulheres cantam agudo
sobre as noites mais escuras
de um eclipse profundo.

e os pobres escutam
com seus rostos evaporados
em multidões
enquanto aguardam
esmagados
a própria vez.

os dez dedos do silêncio

o silêncio
se agarra
com seus
dez dedos
de estrangular
às setes verte
bras cervicais
do pes
coço

entalado
como osso
nem sobe
nem desce
endurece
como carne
e como câncer
de laringe

pendurados
em correntões
refrigerados
em açougues
da freguesia
podre

plunct plact zum

paredes são concreto
e argamassa da mais
lisa indiferença
soldando nomes
em bloco de dígitos
e renda por cabeça.

chão é asfalto
e pixé da mais
espera violência
derretendo nomes
sob sóis sempre
mais quentes.

miolos são gente
e água da mais
juvenil anarquia
descarregando nomes
próprios entre portas
— tiros por pente
per capita.

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc.) e internacionais. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 16 anos de idade. É editora do Toma Aí Um Poema — o maior podcast lusófono de declamação de poesia e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Contato: www.jessicaiancoski.com | @Euiancoski