cinco poemas de Ludmila Rodrigues

domingo

também estou com saudade dela, frida
eu digo triste
com uma resignação própria de quem sabe
que cachorros não entendem língua de gente
é fim de tarde, eu fumo na janela
trago seu bilhete nas mãos
que diz fique calma, tudo é passageiro e ainda podemos
morar numa casa com piso de madeira etc.
já reli vinte vezes
e ainda não consegui compreender nada
exceto a parte de que tudo é passageiro
penso numa casa com o piso de madeira
vejo a cidade de cima
tá tudo dourado
e ninguém percebe que eu grito

maldição

eu passei a minha vida inteira
rindo sem vontade
de tudo que homens falavam
aceitando impertinências
e tentando, a qualquer custo
ser palatável a suas goelas frágeis
minha vida inteira pedindo desculpas
pelo que quer que fosse
e sentindo o estômago embrulhar
por nunca ser boa o suficiente
eu passei minha vida inteira tentando
caber no que haviam planejado
rompendo contratos, jogando roupas pela janela
tendo crises intempestivas dentro do carro
em movimento
dormindo ao lado de monstros tenebrosos
ou contando as folhas secas do chão
por sempre estar de cabeça baixa
e eu não me lembro de ter atinado
em nenhum momento
para o fato de que as coisas absolutamente
não precisavam ser daquele jeito
hoje, de um lugar calmo e quieto
eu passo noites inteiras tentando
suportar acordada
a tortura de rever minha vida nessa espécie
de filme maldito
que teima em me exibir
agonizante
durante anos a fio
sufocada do lado de dentro
da minha própria pele

sputnik 2

o que será que a gente pensa
quando planeja um ano inteiro num bloco de papel
faz xis no calendário
quando tem insônia e afaga o cachorro
quando toma café pra ficar acordada depois da madrugada?
o que a gente pensa
quando comemora nossos aniversários
compra livros, faz listas
estipula metas?
e quando para de comer carne, o que a gente pensa?
o que será que a gente pensa, por deus
quando lamenta o suicídio alheio
e jamais admite que um atropelo em plena quarta-feira
também pode ser chamado de salvação?
quem nós pensamos que somos
quando dizemos que buscamos vida em outros cantos do universo
mas na verdade o que buscamos são pessoas como nós?
ou quando mandamos a outros planetas
cachorros, cadeiras, bonecos e aparelhos com informações
sobre nós mesmos
para que daqui a um bilhão de anos alguém saiba quem éramos
do que gostávamos e que música ouvíamos?
quando a gente olha pro céu e vê bilhões de pontos brilhantes de luz
num azul-marinho quase preto
é aterrador como nem assim a gente percebe
que nossos caminhos são tão extremamente desimportantes
tão diminutos quanto essa formiga que, agora, no parapeito de mármore
luta contra uma piscina de água do tamanho de uma moeda
essa formiga que eu só consigo ver porque estou bem do lado da janela

namorada

uma vez conheci uma mulher
que me fazia rir de coisas inimagináveis
para minha natureza indolente
como por exemplo
o cu de um gato
gargalhávamos na cama enquanto o gato descansava apático
nos azulejos frios embora fosse verão
não conseguíamos olhar para o gato
porque desmanchávamos e nos contorcíamos na cama
perdíamos o ar e enfim respirávamos fundo
vencidas
mas isso foi há muito tempo
dentro de um quarto com paredes verdes
que ficava parecendo um grande aquário de peixes
quando entravam as primeiras fendas de luz
da manhã

o corvo

já faz muito tempo
que existe um pequeno corvo no meu ventre
não sei como ele se instalou tão firme
em um corpo ainda jovem e quente
um dia simplesmente estava lá
e desde então se alimenta do meu sangue
e da minha força
enquanto convalesço calada
com os olhos trincados e as pálpebras frias
sem entender muito bem
o que ele faz aqui e por que eu
por que minhas vísceras e não outras
por que meu sangue e não outro
quando ele bate as asas dentro de mim
e perfura minhas entranhas com seu bico fino
eu me aquieto e deixo que ele se alimente
(embora doa um pouco
depois do corvo quase tudo me é indiferente)
ele me faz acumular papéis não lidos
cancelar encontros
e não querer lavar os cabelos
(não importa se o sol está escaldante)
repito, ele não é grande
mas é inexplicavelmente forte
e parece pesar uma tonelada
mesmo quando só repousa

Ludmila Rodrigues é formada em Letras pela Universidade Federal da Bahia e mora em Salvador. Publicou os livros O rosto na xícara e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes e mantém o blog http://medium.com/@ludmilardgs.

tesão substantivo feminino, poemas de Sofia Vietchie

Um puta medo,
esta puta tesão:

Errada

Agora tenho uma pasta
no meu computador
(velho)
com teu nome
(feio).

Agora tenho tesão
no teu texto.

— Que fase.

Incerta

Agora tenho tesão nos pelos do teu braço,
na tua mão quando pegas a caneta do bolso
e nos teus dedos quando seguras os óculos
(as unhas impecáveis).

Imagino-a pegando a minha bunda,
depois dos cabelos.

Imagino-os tocando a minha vulva,
depois dos mamilos.

Imagino os pelos dos teus braços nas minhas costas,
depois sobre meus seios.

Exatamente assim: me penetrando
e me dando bronca no ouvido.

Correta

A tesão agora é na tua boca e nos teus olhos,
nos lábios carnudo-finos da boca pequena,
nos olhos vivos sob as sobrancelhas pretas.

Não é por que sejas bonito:

é porque me imagino te vendo de cima,
tua língua, tua boca, que já não vejo,
mas cujo desenho sei
de cor;

é porque me imagino te vendo de cima,
os fios raros da tua cabeça que já não evito
tocar e pego e seguro
com as duas mãos.

É porque te imagino me vendo de baixo,
teus olhos, como quando pensas,
para conferir já fora de ti
o intangível.

É porque tento fugir da boca que avança,
com ainda mais voracidade a cada fuga,
mãos nas nádegas, prevendo
minha falta

de saída,

é porque espremida entre a cabeceira e a imagem
agarro-me ao travesseiro que primeiro encontro
e deixo fluir o mel que soubeste
extrair,

entre minhas pernas,

ausente.

Concreta

Eu estava perdida
nos pelos bem pretos do teu braço direito,
tua pele bem branquinha mais macia que a minha,
em contraste com a madeira da mesa.

— Deusa, que bonito…

Eu pensava,
quando vi:
aquelas três pintinhas,
sob o pelo preto,
sobre a pele branca.

Arrepiei,
quis beijar as três pintinhas,
tua mão,
tua boca,
teus olhos.

Se assentisses, eu continuaria:
no teu colo, de frente:
tua orelha,
teu pescoço,
teu peito.

(Como são teus pelos ali?)

Aos teus pés, eu louvaria o que em mim é falta:
teu pau duro
eu beijaria,
com carinho,
com dedinhos,
até o fim.

Não é porque sejas bonito,
não és;
és gostoso, como o diabo
gosta.

| extraído do livro Ela está no bolso e escrito sob o efeito do doce e dele. |

Sofia Vietchie nasceu numa aldeia onde passeava de bicicleta por aleias de areia, mas sempre foi atraída pela cidade grande. Escreve poesia descabeçada quando não tem outro jeito, quando não dá para disfarçar o lirismo ou precisa sublimar desejos tão inconfessáveis quanto impossíveis. Os poemas vieram em sonho, mas foram lapidados para a revista gueto.

três poemas de Casé Lontra Marques

uma intensidade que caminhe

Uma intensidade que caminhe
perto da leveza,
na rota (se possível)
do pescoço:
intensidade tornada
aldeia
— língua começando,
os primeiros
ossos respiram em águas
muito
mais estreitas.

imergir em seu fôlego

Imergir em seu fôlego;
as mãos,
as línguas todas estendidas —
ato que começa
e recomeça no miolo
das moléculas,
na palma (ou placenta)
de
cada partícula:
em doses
densas.

um gozo tem muitos gumes

Um gozo tem muitos gumes,
além de incontáveis
gatilhos; um gozo: exercício
(demorado
e exímio) de demolição —
seus ácidos
digerem a altura
do desamparo.

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou O som das coisas se descolando, Enquanto perder for habitar com exatidão e Mares inacabados, entre outros. Reúne o que escreve no blog: [link]

mulher, poema de Rita Maria Kalinovski

não era casa
mas tapera.
o uivo do vento
vinha do inferno
e passava pelos buracos.
o sol inclemente
de cima se jogava inteiro
na única peça.
ela em trapos vestida
não enfeitava em nada
o espaço conseguido.
com o quinto fruto
da violência na barriga
sequer pensava
em como-mudar-essa-vida.
acostumada a nada receber
sabia que desejar
não muda nada.
mas fazia da vida
nem uma luta
não ansiava
apenas olhava
e esperava.

Rita Maria Kalinovski é curitibana e autora de Aonde vai o que eu sinto (Editora Dimensão), A chacoalhada no céu (Editora Dimensão), Por um Triz — Poemas minimalistas (edição independente), entre outros.

três poemas do livro ‘corvos contra a noite’, de Diego Vinhas

outra cidade invisível

quando se chega pelas estradas afluentes, demora-se a perceber quando ela começa, pois sua relação com a ruína é circular: a cidade está sempre sendo desativada e reinaugurada. mas os processos se espalham simultaneamente em seu tecido social, como cânceres rivais ou crianças em uma gincana paranoica. seu nome parece ter sido de uma fortificação, mas talvez o nome também fora desabitado, tangido para um outro bairro distante e em seu lugar um outro nome mais moderno e lucrativo (que rende muitos empregos temporários) foi apresentado em uma grande festa de inauguração. quem sabe a cidade agora se chame Aquário ou Viaduto ou Mormaço. as construções, por sua vez, não demoram a sentir o fantasma obsoleto à espreita, e nem as ruínas envelhecem em paz, pois alguém quer sempre lhes comprar um novo rosto. há quem argumente que uma crise bipolar entre praia e sertão explique esta guerra intestina, ou que tanta luz, o ano inteiro, acabe por desbotar cores do pensamento (e que alguns povos do mar e povos do mangue sejam, também eles, cores se apagando). não há por lá dia sem festa, muitos visitantes, corpos vendidos, corpos desovados. na vertigem entre os movimentos de demolir e edificar, seus habitantes parecem tomados de um jet lag permanente, de terem nascidos na década errada (para o futuro ou passado). alguns, mais desajustados, repetem, em ares de conspiração, um mantra silencioso: o melhor da cidade é o céu, e também acreditam que, vista de algum lugar afastado, ela é na verdade um grande deserto. mas tudo é especulação, ó grande Gengis Khan, já que se eu, Marco Polo, estiver contaminado pela alma volante do lugar, minha lembrança da cidade pode estar em obras ou abandonada, sem nunca se saber ao certo – a certeza, porém, é que as pessoas ali desembocam qualquer conversa em risos. eles devem ter muito medo, já que riem tanto.

pertenças

o sal da terra. a terra do nunca. o bico do corvo. o fio da navalha. a navalha de Occam. o ouro do tolo. o sexo dos anjos. o anjo da História. o amigo da onça. o mistério da fé. a palavra da salvação. o discurso do ódio. a paz de Westfália. o som do silêncio. o barqueiro do Aqueronte. a alma do negócio. a escola das facas. o silêncio dos inocentes. o livro do ponto. o sinal dos tempos. o x da questão. a efígie da moeda. o nome da rosa. a era dos extremos. as meninas dos olhos. o olho da rua. a rua da amargura. o dobre dos sinos. a roda da fortuna. a arte da guerra. a guerra dos mundos. a vitória de Pirro. o circo dos horrores. a cinza das horas. o país do futuro. o cu do mundo. o pau da obra. a garota do Fantástico. o sul do paraíso. o sono dos justos. o Cristo da parede. a ressurreição dos mortos. o conto do vigário. o capitão-do-mato. o senhor das moscas. o hino de Duran. o rato da Disney. a febre do rato. o fantasma da máquina. a escolha de Sofia. a zona do crepúsculo. o rés do chão. a teoria do caos. a alegoria da caverna. as brechas da lei. a lei do cão. a cova dos leões. o cordeiro de Deus. a oficina do diabo. the number of the beast. o efeito da borboleta. o canto do cisne. a mosca da sopa. o touro de Wall Street. os escravos de Jó. o fim da picada. o boca do Inferno. a música das esferas. a fome do abismo. o lance dos dados. a fuga do tema. o leite da pedra. o contra-ataque do império. o império dos sentidos. a moral das bombas. o fio da meada. o boi das piranhas. a extensão do dano. o ingênuo da raça. a bacia das almas. as botas de Judas. a mão do mercado. a bucha do canhão. os ossos do ofício. os cantos de Maldoror. a espada de Dâmocles. a casa de Usher. o Vale do Silício. a duração do deserto. o avesso do avesso. a nudez do rei. o outono do patriarca. os homens de Atenas. a tradição da família. os filhos da puta. as chuteiras da pátria.

da ciência jurídica

desentranhado do clássico
“O Homem Delinquente”
de Cesare Lombroso

os dementes morais são infelizes com a demência no sangue, contraída no ato da concepção; nutrida no seio materno. nasceram para cultivar o mal e para cometê-lo. da união dessas almas perversas brota um fermento maligno que faz ressaltar as tendências selvagens (…) os miolos são predispostos por má nutrição desde o nascimento, e depois neles se radica e cresce uma daquelas mil tendências mórbidas que se manifestam em quase todos nós numa má hora do dia (…) impedir a conjunção fecunda dos alcoólatras e dos criminosos seria pois a única prevenção do delinquente nato, que, quando é tal, nunca se mostra suscetível de cura. (…) se se pudesse extrair uma média da potência intelectual dos delinquentes com a segurança com que se obtém da medida do crânio, encontrar-se-ia uma média inferior ao normal. (…) os caracteres do homem criminoso: mandíbulas volumosas, assimetria facial, orelhas desiguais, falta de barba nos homens, fisionomia viril nas mulheres, ângulo facial baixo. (…). não falta a preguiça para o trabalho nos dementes morais, em contraste com a atividade exagerada nas orgias e no mal. a mendicidade e a vadiagem são a vocação deles. (…) a aversão ao trabalho é uma caraterística também das prostitutas; nove entre dez nada fazem durante o dia(…). não se pode identificar a atenção delas; não se pode conseguir que façam um raciocínio longo (…) . as prostitutas têm um amor que as distingue das mulheres normais. são apaixonadas pela dança. pelas flores e pelo jogo. são dadas ao tribalismo. (…) . não há, penso, selvagem que não seja mais ou menos tatuado (…) o lugar da tatuagem, e sobretudo o número, provam a vaidade instintiva que é característica no criminoso. (…). todos os amores anômalos e monstruosos, como quase todas as tendências criminosas, têm princípio na primeira idade. (…) a crueldade é, de fato, um dos caracteres mais comuns do menino (…). foi um menino que inventou a gaiola de junco, a ratoeira, a rede para borboletas, e mil outros engenhos de destruição (…). acredita-se há muito tempo que os delinquentes sejam todos irreligiosos, pois que a religião parece ser o freio mais potente dos delitos. (…) N. R., de imaginação quente, amava a beleza, mas desdenhava Deus. aos 9 anos, as excessivas masturbações provocaram inchaço na vulva. experimentou as chicotadas, mas estas a tornaram estúpida, falsa e feia, sem proveito. (…) Vasco, com 19 anos, matou uma família inteira: “creio que agora verão meus colegas da escola se eram justos quando diziam que eu jamais seria alguma coisa na vida” (…) por uma aguardente, um negro selvagem vende não só os compatriotas, mas até a mulher e os filhos. (…) os ciganos, embora industriosos, são sempre pobres, porque não gostam de trabalhar (…). parece constante a reincidência nas mulheres. na América as moças dadas à delinquência são muito mais incorrigíveis do que os rapazes (…) . veremos nas mulheres, porém, inclinação para males domésticos (…) um ladrão milanês me disse: “e, além do mais, não roubam os advogados, os negociantes? porque só a mim acusam e não a eles?” (…) as primeiras formas de penas legalizadas foram duelos ou batalhas contra um culpado presumido como se nota nos animais: rixas de um ou de poucos, transformadas depois em rituais jurídicos.(…) foi só do dano geral causado pela prepotência de poucos que deve ter nascido a primeira ideia da justiça e da lei . (…) pode-se concluir que a moralidade e a pena nasceram, em grande parte, do crime (…).quem poderá saber quantas sentenças terão sido provocadas pela gula, pelo apetite por um bife humano?

| os poemas aqui reunidos são inéditos e integram o livro Corvos contra a noite, no prelo. |

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza em 1980 e publicou os livros de poemas Primeiro as coisas morrem (7Letras, 2004) e Nenhum nome onde morar (7Letras, 2014).

poema s/título, de Bruna Mitrano

*com Nick Drake

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

Bruna Mitrano nasceu (1985) e vive na periferia do Rio de Janeiro. É escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou o livro Não (Editora Patuá, 2016).

três poemas de Leonardo Chioda

secessão

hoje acordei tão forte
e bem feito para o mundo
em dia com a ausência
e presente
à luz do acaso
tão futuro e passado à limpo em folha de ouro
repleto de água e sombra fresca

que hoje acordei bem colocado
como um quadro de Klimt
na rua mais clara de Damasco

queda

não pare o mundo que eu não quero descer
mas se for pra descer
que seja ao mais claro fosso
em que os ratos dançam e dominam o mundo
por baixo e por entre

e bem amputado o rabo da esperança
o mundo não para
ainda que eu desça à obra
mansa e rasgada que é o meu canto
sobreposto ao nervo
sobretudo ao tutano do braço apoiado à mesa

e se é para descer
que seja ao recesso mais puro
rente ao inferno
que de tão mal dito o tempo
eu esteja bem disposto
a cair ao centro
de um abismo do tamanho do meu país

lá embaixo
morto e nu
com os ossos escritos
envolto em sangue
sobre a bandeira verde
dou adeus com a boa mão esquerda

não pare nem o mundo
nem o fundo
que agora o poema sobe
e como ninguém é insubstituível
no meu lugar
alguma coisa acende
e se vinga

eu sei que hoje uma nova figura se alumia

zen
para Thich Nhat Hanh

posso morrer hoje
como morrem uma abelha depois de picar a criança
como vibra por dentro a xícara
tão esquecida sobre a pilha de livros de poemas
no silêncio da manhã

morrer sem pressa
enquanto morrem a louça, o papel, as abelhas
e a criança, tão alérgica
na cor da parede

morrer de morte corrida
sabendo que bebo [como um bom budista]
a grande alta nuvem de bilhões e bilhões
que hoje é a minha cerveja

posso morrer como se uma fagulha no vento
ou quando se morre uma estrela
— o mesmo brilho de qualquer fogo & o mesmo breu
que acende a ursa maior

morrer é verbo irregular
transitável como a favela, as canas ou o jardim imperial
dito hoje reto
em bom tom:
morrer pela alta costura do acaso
soltas as linhas e desfeito o pacto
no gerúndio
pela agulha de repente

da vida nunca se leva nada
mas a vida que se leva
é sempre o dia certo para morrer
por isso o mundo não espera [aprendi com os monges]:
até segunda ordem, o mundo fica
ele todo se equivalendo para que não acabe
— e tudo nele tão bem pensado
para que caiba a morte num ferrão

supremo poder de poder morrer hoje
— único objeto da minha atenção
sobre a maneira certa de se espalhar no universo
de morrer talvez à maneira cega
[derradeiramente] e tão à vontade

ainda assim posso, flexionado, mover o corpo
como quem dá meia volta
contra uma parede
encaminhado para o fim
e estudar a parede
como se estudasse a origem de tudo
— entrar inteiro nela
como quem torna a ser feto
[de fato]
e tão perto dos bilhões e bilhões:
ser a parte toda de uma parede
até que morrer
seja ser por toda a parte

para morrer escolho o verbo estar com eles
[os bons motivos], um de cada vez
sem pressa
com toda a tensão de quem vem a este mundo
para vibrar no momento mais propício
desde sempre

se posso morrer hoje,
então como vivo este último dia da minha vida?

Leonardo Chioda (Jaboticabal, 1986) é um escritor italo-brasileiro. Graduado em Letras pela Universidade Estadual Paulista, também estudou literatura, história do teatro e língua italiana na Università degli Studi di Perugia e na Università Ca’Foscari de Veneza. Atualmente é aluno de mestrado em poéticas de expressão portuguesa na Universidade de São Paulo. Escreveu Tempestardes (Editora Patuá, 2013) e POTNIΛ (Selo Demônio Negro + Hedra, 2017), apresentado na 15ª edição da Flip — Festa Literária Internacional de Paraty.

when was i born? (quando eu nasci?), de Bhuchung D. Sonam e tradução de Claudia Santana Martins

When was I Born?
Bhuchung D. Sonam

Mother, when was I born?
In the year the river dried

When was that?
That was the year when crops failed And we went hungry for many days We
feared that you would never survive

Was that the year we moved to a new house?
That was the year when they confiscated our house And divided it among the
patriotic Party members We were banished to the cowshed where you were born

What year was that?
That was the year when they destroyed the monastery Melted all the bronze
images to make bullets You were born when dust filled the sky

Was that the year grandpa went away?
That was the year when they sent your grandfather to prison Where he cleaned
shit and butchered insects in the fields You were born when there were no men in
our house

Was I born in the year the walls were pulled down?
That was the year when they ripped apart the prayer hall Wooden beams were
hammered to splinters and frescoes soiled You were born when a crazy wind blew
from the east

What year was that?
That was the year they burnt scriptures in the village square And sang
revolutionary songs in praise of the Party
You were born when blades of grass refused to grow

Was it the year you stopped singing?
It was the year they took our neighbour to the hard labour camp When she sang a
traditional song while digging a canal You were born when people disappeared
one after another

When was that?
That was the year they wrote the big red slogan on the walls ‘Heads that stick out
will be hammered down’ You were born when the sun shied away from our sky

When was that?
That was the year when your father… your father

Quando eu nasci?
Tradução de Claudia Santana Martins

Mãe, quando eu nasci?
No ano em que o rio secou

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que as colheitas se perderam E passamos fome por muitos dias Temíamos que você não sobrevivesse

Foi nesse ano que nos mudamos para uma nova casa?
Esse foi o ano em que eles confiscaram nossa casa E a dividiram entre os patrióticos membros do Partido Nós fomos expulsos para o estábulo onde você nasceu

Que ano foi esse?
Esse foi o ano em que eles destruíram o mosteiro Derreteram todas as estátuas de bronze para fazer balas Você nasceu quando a poeira cobriu o céu

Foi nesse ano que vovô foi embora?
Esse foi o ano em que eles mandaram o seu avô para a prisão Onde ele limpava a merda e exterminava insetos nos campos Você nasceu quando não havia homens em nossa casa

Eu nasci no ano em que as paredes foram demolidas?
Esse foi o ano em que eles destroçaram a sala de oração Vigas de madeira foram estilhaçadas a golpes de martelo e os afrescos vandalizados Você nasceu quando um vento insano soprou do leste

Que ano foi esse?
Esse foi o ano em que eles queimaram escrituras na praça da vila E entoaram canções revolucionárias em louvor ao Partido
Você nasceu quando os rebentos de relva se recusavam a crescer

Foi nesse ano que você parou de cantar?
Foi o ano em que eles levaram nossa vizinha para o campo de trabalhos forçados Porque ela cantou uma canção tradicional enquanto cavava um canal Você nasceu quando as pessoas desapareciam uma após a outra

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que eles escreveram o grande slogan vermelho nos muros “As cabeças que se sobressaírem levarão marteladas” Você nasceu quando o sol fugiu de nosso céu

Quando foi isso?
Esse foi o ano em que o seu pai… o seu pai

Bhuchung D. Sonam é autor tibetano de diversos livros, entre os quais Yak Horns: Notes on Contemporary Tibetan Writing, Music, Film and Politics; e Songs of the Arrow. Organizou o livro Muses in Exile: An Anthology of Tibetan Poetry e compilou e traduziu Burning the Sun’s Braids: New Poetry from Tibet. Seus artigos são publicados no Journal of Indian Literature, HIMAL Southasian, Hindustan Times e Tibetan Review, entre outros jornais e periódicos. Sua residência permanente lhe foi roubada. Ele vive no exílio na Índia.

Cláudia Santana Martins é doutora em Letras na área de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde atualmente é pesquisadora de pós-doutorado em Estudos de Tradução.

três poemas do livro ‘os gigantes atravessam o eufrates’, de Geovanne Otavio Ursulino

geovannemaafa

há muito tempo disse
pro senhor arkaikea
q algo profundo mudou em nós
somos o q somos

dizia o senhor arkaikea
mas eu sentia na pele
nos olhos nariz boca orelhas
sentia em cada fio de cabelo

q algo profundo mudou em nós
quando entramos naquele barco
nem quando torramos
no sol conseguimos

mostrar pro senhor arkaikea
q algo profundo mudou em nós
eu sentia em cada osso
nosso nome foi esquecido

nossa língua se perdeu
quando entramos naquele barco
sentia em cada fio de cabelo
mas o senhor arkaikea

não dizia nada além de
somos o q somos
por isso chegando aqui
falamos nossa língua

como não tivesse se perdido
adoramos nossos deuses
como não tivessem nos deixado
dizíamos uns pros outros

somos o q somos
como dizia o senhor arkaikea
mas nada trazia harmonia
pra nenhum de nós

q vivemos como bestas
q dormimos como bestas
q comemos como bestas
nem morrendo como bestas

conseguimos mostrar
pro senhor arkaikea
q algo profundo mudou em nós
quando entramos naquele barco

sinto na pele nos olhos
nariz boca orelhas
sinto em cada osso
em cada fio de cabelo

mas continuamos vivendo
comendo dormindo falando
como se não tivéssemos
entrado naquele barco

como se não tivéssemos
esquecido nosso nome
como se não tivéssemos
perdido nossa língua

há muito tempo disse
pro senhor arkaikea
mas aprendemos a repetir
somos o q somos

o nome de todas as coisas

quando o céu foi separado da terra
quando a terra foi separada do céu
quando o nome de todas as coisas
foi determinado

parecia q tudo era harmonia
pairando sobre as águas
doces salgadas frias quentes
parecia q não existiam mistérios

quando o céu foi separado da terra
construímos nossas casas
construímos nossas cidades
todas as coisas cada vez maiores

plantamos nossos grãos
criamos nosso gado
fundimos nossos metais
parecia q tudo era harmonia

protegidos por nossos deuses
rios senhores protegidos
por todo lado protegidos
de todas as coisas

engordamos mais q o gado
plantamos mais do q comemos
dormimos mais do q precisamos
bebemos mais do q podemos

esquecemos q
quando o céu foi separado da terra
quando o nome de todas as coisas
foi determinado

tantos nomes se perderam
sentamos nas praças
ouvimos poemas no anoitecer
olhando as águas do grande rio

parecia q tudo era harmonia
olhando pralém do horizonte
pra onde nunca fomos
de onde ninguém nunca voltou

esquecemos q
quando a terra foi separada do céu
quando o nome de todas as coisas
foi determinado

recebemos o nome de servo
pra servir os senhores
q nos deram nosso nome
mas engordamos mais q o gado

plantamos nossos grãos
construímos nossas cidades
fundimos nossos metais
bebemos mais do q podemos

sentados nas praças
olhando pralém do horizonte
olhando as águas do grande rio
avistamos as imensas bestas

vindas de onde ninguém nunca voltou
parecia q não existiam mistérios
mas nossos senhores
q nos deram nosso nome

nos fizeram lembrar q
quando o nome de todas as coisas
foi determinado
recebemos o nome de servo

o garum de pompeia

é processo demorado
q diz de nós aquilo q somos
mesmo quando o chão treme
mesmo quando o chão afunda

encontrar atum fresco
é a primeira parte
tudo se aproveita
vísceras couro espinhas

em grandes vasos virgens
de cerâmica q só nós fazemos
juntamos ao atum fresco
água do mar azeite ou vinho

tampamos os vasos levamos
pras encostas do vesúvio
q a cada dia tremem mais
q a cada dia são mais quentes

por meses os vasos
fermentam sob o sol
q só brilha nessas terras
q só nasce em nosso céu

é processo demorado
q diz de nós aquilo q somos
depois de meses fermentando
esprememos tudo

quebramos os vasos
q serviram seu destino
em pequenos vasos virgens
de cerâmica q só nós fazemos

juntamos o primeiro líquido
devidamente salgado
mesmo quando o chão treme
mesmo quando o chão afunda

juntamos o primeiro líquido
devidamente apimentado
é processo demorado
o melhor molho do império

dizem os q provam
com pão e alho
o melhor molho do império
dizem os q provam

com carne de borrego
com muita salsa e vinho
mesmo quando o chão treme
mesmo quando o chão afunda

porq só com o atum dessa bahia
pode preparar nosso molho
porq só nossa cerâmica
pode abrigar nosso molho

devidamente salgado
devidamente apimentado
é processo demorado
q diz de nós aquilo q somos

porq só o calor e o tremor
cada vez maiores das encostas
do vesúvio podem preparar
o melhor molho do império

| o lançamento será na segunda metade do mês de maio | no espaço cultural La Rosa Mossoró, em Maceió, no bairro do Jaraguá. |

Geovanne Otavio Ursulino vive em Maceió. Historiador. Editor da revista Alagunas. Publica no blog Amorfo Poema. Publicou o livro de poemas como num inferno pra marinheiros (Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2017) e, agora, os gigantes atravessam o eufrates (São Paulo: Editora Patuá, 2018). Contato: ursulino@alagunas.com.