há tantos anos, em babilônia

Quando vocês iam lá
procurar sentido
razão e sensibilidade nas muralhas da cidade
eu já estava voltando
cansado de tanto andar.

Cada passeio pela cidade
— esta cidade, hoje —
me faz lembrar a Babilônia
dos meus tempos de criança:
a feira livre
frutas e legumes
e tantos badulaques
batuques
marduk, me lembro bem
este era um deus

e aquele lá, no canto, era eu
nem venerado nem desprezado
mas quieto no meu canto
atento a qualquer coisa
porque então
— como hoje —
já se sabia
que manda quem pode
obedece quem tem juízes
vigiando seu percurso

Hoje passei em frente à uma igreja
entrei e acendi uma vela
não para santos
nem para esse deus
torturado e morto quando a Babilônia não era mais
nem um retrato na parede
nem doía.
A vela eu acendi pra lembrar
da minha mãe,
que há tantos anos perdi
nas margens de dois rios
— o Lete, do esquecimento, o Estige, do além.
quem
quem me ajudará agora?

Não me deem ouvidos.
são apenas palavras
e a Babilônia agora só existe
nas minhas lembranças.

Fábio Fernandes nasceu em 1966, no Rio de Janeiro, e vive em São Paulo. Professor e tradutor, é autor dos livros Interface com o Vampiro, Os Dias da Peste e L’Imitatore. Tem contos publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, Romênia e Itália. Ganhou duas vezes o Prêmio Argos de Literatura Fantástica (Brasil). Traduziu, entre outros livros, Laranja Mecânica e Neuromancer, além de poemas de e.e.cummings. Estudou na Clarion West Writers Workshop de Seattle, tendo como instrutores Neil Gaiman e Samuel Delany, entre outros.

sobre o mar de cabedelo

A distinção
do peso-tábua
d’uma canoa
pro aço pátrio
de um cargueiro

Se este acolhe
ferro e centeio
Na outra a fome
do mês inteiro

Em contramão
o casco feio
de um cargueiro
e o tronco sujo
d’uma canoa

Na proa a bronha
das oito horas
Nas tábuas homem
filho e patroa

Severino Figueiredo escreve em Triste, mas curto e mora em Cabedelo-PB, seu ateliê.

três poemas

sem título

Morremos ontem
Quando você entrou no banho.
Sempre morremos debaixo d’ água
Sempre morremos no domingo
Morremos na água.
— Um rito sagrado
Da sexta até o domingo
Percorremos todo o caminho
E morremos ontem.
Viveremos doentes
Até renascermos num sol mexicano
Mas ontem, morremos.
Antecipamos o desfile
De los muertos
E carregaremos até o Caribe
Um eclipse
“no mais suave crepúsculo das coisas”

esboço nº 1 (autorretrato)

Um carvalho ao vento
Era eu
Um pássaro negro
Desenho vermelho profundo
Uma floresta apagada
E desmundo

biombos

A mutilação do primitivo segue-se
A violação da veracidade do brutal,
Que num golpe de ar
[A vastidão
Apresenta-se como artifício do entendimento
Do fígado degradado que mitifica o amor.

Sob essa construção, edifica-se a aparência.
Reflexo sem cerne, que no âmago pétrea carne é.
A violência acaba no frio da vista
Que se depara com a calma do próprio olhar
Que de um golpe o grotesco atingirá.

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros das áreas de história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico Caminhos da Mantiqueira (2011), de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

as boas práticas

A implementação de soluções que possam atender
Os clientes tradicionais ao longo do tempo
Afinal, conveniência e praticidade têm um preço,
O valor agregado, a lista de preferências
Antes de comprar um produto
Isso não é tão diferente
De fórmulas que funcionavam e não funcionam mais
A acessibilidade pode ser definida como os processos que facilitam a venda
“A simplicidade é o último estágio da complexidade”
Não é por outra razão que os dispositivos da Apple tornaram-se símbolos
A manipulação é simples e intuitiva
Os consumidores também acreditam
E os entrevistados concordam, indubitavelmente
Alguns pontos críticos, disfarçamos não estar todos à deriva
Para saber não saber não fingir
Cada ação do usuário deve ser seguida de uma reação
De modo a fornecer ao cliente uma resposta com alta usabilidade
Regras ou princípios são as boas práticas do desenvolvimento de interfaces
Visibilidade do status do sistema ou feedback
O sistema deve falar sua própria linguagem e evitar situações de erro
Retornando ao estado anterior,
E se realmente vai entregar o que diz vender são outros quinhentos
Os consumidores também acreditam
E os entrevistados concordam, indubitavelmente

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.