três microcontos

a geringonça

Deu entrevero de gente. Todos queriam ver o resultado de mais de trinta dias de trabalho. Foi um tal de cavouca daqui, cavouca dali… Homens, mulheres e crianças, de olhos arregalados, formavam um imenso círculo. No centro, um dos engenheiros desatarraxava a cabecinha da geringonça. Eu era guri e fiquei impressionado: como podia caber tanta água dentro daquilo que os doutores chamavam de torneira…

taedium vitae

não oferecerei resistência. não serei eu a desviar o curso dos caprichos divinos. não que me falte vontade. não que não me sobre indignação. apenas tenho tédio. falta-me ânimo. ficarei aqui sentado enquanto este bafo quente varre o terreiro, enquanto os vermes resfolegam na carne de pêssegos maduros que se desprendem do pé, enquanto moscas azuladas e gordas cumprem seu destino de depositar ovos em cães, homens e outros bichos, enquanto o charque seca no varal, enquanto o charco se forma de água, terra e bosta de galinhas que pisam e repisam seu fadário burro… não serei eu a levantar daqui, a quebrar este encantamento de coisas e animais que como que hipnotizados vivem e morrem, são e estão, sem saber como nem porquê, quem apodrece e quem viceja, quem é que escolhe isto ou aquilo… estou aqui sentado. não resisto. não por mim, é que isto já foi decidido. então sigo parado, quieto. só o meu pensar é que pulsa, mas isto não tem importância. de que vale o pensamento se o esboço já vem de antes traçado? só me resta esparramar-me, ocupar um lugar até que seja, de fato, obra conclusa sob um revoar de corvos crocitantes: carne podre sobre terra fétida…

o primo agnes

Éramos crianças e não sei por que cargas-d’água brincávamos daquilo. Ou temo saber. Eu era a mamãe pro papai que chegava do serviço. Deitado, barriga no chão, sentia o corpo dele pesando sobre o meu e seu pau, sob as calças, duro, e o meu endurecendo. Sentia seu calor e seu hálito morno e seus lábios roçando nos meus. Depois seria minha vez de chegar cansado pra mamãe que me esperaria. Pra ele era indiferente ser o papai ou a mamãe. Pra mim não. E ele nem desconfiava…

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé-RS. Tem diversos livros publicados.

quatro microcontos

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

o querido ouvinte

Adoro ouvir histórias. É a única hora em que não tenho pressa nenhuma. Se levar o dia inteiro, aí é que eu me divirto mesmo. Quando eu era pequeno, toda noite minha avó me contava uma história. Aqui é a mesma coisa. E todo mundo conta. Cada uma melhor que a outra. Ah! Como eles inventam. Mesmo que no começo eu precise incentivar, com choque elétrico, palmatória e afogamento.

classificados 2 — o especialista

O salário é ótimo, sem dúvida. E os horários, bastante flexíveis. Terei total autonomia para definir a ordem e o cronograma de todas as etapas. Me garantiram que há grandes possibilidades de ascensão na empresa e se dispuseram a arcar com as despesas de um pós-doutorado no exterior. E o melhor de tudo, as armas, a munição e os atestados de óbito, eles mesmos fornecem.

yeah, yeah, yeah

Para Natercia Rossi e Claudia Fernandes

Como sempre, não há quase nenhum movimento na rua. Os quatro rapazes chegam na esquina, com suas roupas coloridas, brincam muito uns com os outros e atravessam a rua cantando. O fotógrafo ri e vai pedir calma, pois ainda nem montou sua câmera. Mas não há tempo, um caminhão de mudanças dobra a esquina, avança o sinal e atropela os quatro.

Foi uma pena, não só pela dor das famílias, mas porque todos ali em Abbey Road dizem que eles levavam muito jeito pra música.

sim

Todos os dias, um pouco depois das seis da tarde, ela vai até o quarto, abre o guarda-roupa e tira de lá o traje, que veste com cuidado. As meias finas, o longo vestido armado, as mangas de renda, os sapatos também brancos, o véu e a grinalda.

Então senta-se em frente à janela e aguarda. Quando os sinos no campanário da igreja em frente tocam as sete horas, ela se levanta e, feliz, joga o buquê pela janela do oitavo andar.

| estes contos estão no livro Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (Editora Oito e Meio, 2017) |

Cesar Cardoso (Rio de Janeiro,1955) publicou os livros de contos As Primeiras Pessoas e Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (Editora Oito e Meio). Escreve para TV e mídia (revista Caros Amigos, jornais O Pasquim e O Planeta Diário, programas Tv Pirata, A Grande Família, Sai de Baixo, Toma Lá Dá Cá, Zorra etc). Também tem publicados livros infantojuvenis. Seu conto “Ai de Mim, Copacabana” saiu na coletânea Para Copacabana, Com Amor (Editora Oito e Meio) e no livro The Book of Rio, lançado pela Editora Comma Press, em Londres, na Inglaterra. Participou da Coletânea Prêmio Off Flip de Literatura — em 2009 com o poema “Carochinhas brazileiras” e, em 2015, com o conto “O Veredito”. Também em 2015 lançou coisa diacho tralha (poesias, Editora Texto Território). É editor do blog Patavina’s.

dois microcontos

revolução de 30
(Trecho de uma carta encontrada nos pertences da minha vó.)

Amália,

A escrita, commo  podes ver, vai torta, diversa da de antes, não por me encontrar trêmulo no mommento por cauza da metralha, das grannadas, do transtorno que é viver essa tempestade das idéas, mas por me restar, meo amor, somente a esquerda, posto que a destra levou-a a fera da guerra. Ainda assim ella diz tudo, do amor e da saudade que trago em mim, pensando em ti agora, e se ao te rever não correr desembalado rumo aos teus braços, não será por falta de vontade, mas tão-somente por ter me levado uma das pernas a bôca faminta d’uma grannada.

(…)

* * *

demência

Do umbigo do tempo até este presente, despraticando a circunspecção da linguagem, obscurecendo-a luminosamente, discursando para o nada. Sem um interlocutor à altura da sua retórica fantástica, seu exercício de semear o incomunicável, seu despir-se de todos.

Dizem no bojo do máximo espanto: alimenta-se da carne das palavras, umas com o estranho poder de eternizá-lo. Creio nesse mistério também: o modo como o tempo o tem poupado reforça a crença. Petrificou-se. Divinizou-se. Aere perennius. Não adoece, não envelhece, não carece de ninguém. A solidão é, portanto, sua trincheira absoluta. Onde o real ergue muros, lá ele principia, sem limites.

Sempre consigo mesmo, inacessível. Desavença constante com algo que inexiste. Aparentemente.  Basta entender que, o que para ele existe, existe imenso. Olhos comuns assim, dados ao mínimo, nada penetram, nada discernem.

Dizem, no entanto, ávidos de clareza:  espíritos mandam nele.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, Baque (conto, LGE Editora), UM (romance, LGE Editora) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org. por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial, 2004), Todos os portais: realidades expandidas (antologia de contos de ficção científica org. por Nelson de Oliveira, Terracota, 2012), e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013). Tem textos publicados em jornais, revistas impressas e revistas eletrônicas. É autor do roteiro do longa O colar de Coralina — direção de Reginaldo Gontijo. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br

perdi você de vista ao anoitecer

Eu sempre suspeitei que Rafael tivesse uma forte identificação com a morte. Todas as suas falas mórbidas de poeta maldito, todo aquele ar de sofrimento impregnado em seu ser, tanta tristeza. Era fácil prever que isso aconteceria uma hora ou outra, mas a gente sempre pensa que sentimento exagerado pelo o que quer que seja é frescura. Ser surpreendida com seu corpo pendente, balançando levemente como um galho arejado pela brisa suave, me deixou atônita, eu não soube como reagir no primeiro instante! Minha reação nada convencional foi pegar uma garrafa de uísque que ele mantinha guardada dentro de uma gaveta junto com uma papelada de documentos e beber um gole guloso que me desceu queimando pela garganta até incendiar meu estômago. Sentei-me na poltrona e contemplei por um momento breve o corpo feito o pêndulo de um relógio antigo, marcando o momento exato da transição do crepúsculo para a noite.

Mikaelly Andrade é contista e poeta. Responsável pela criação de dois projetos literários: o Mulheres na Literatura e o Escritoras Cearenses. Integra a Antologia de Contos Literaturabr (Editora Moinhos, 2016) e em breve lançará seu primeiro livro. Assina o blog Mika Escreve.

chão de pregos em brasa

Era um chão de pregos em brasa. Na medida em que corria, os pregos cravavam nas solas descalças dos meus pés, que já estavam que era uma ferida só. Não sei se o que doía mais era o enterrar dos pregos ou o queimar dos pregos. Corria desesperadamente e na medida em que dava um passo à frente, o chão atrás de mim ia desmoronando, abrindo um imenso precipício. Era uma sensação terrível, aflitiva, e eu estava muito cansado, quase que não aguentando a carreira contra o tempo e contra o chão que ruía. E tinha os pregos que me causavam dor sobre-humana. Foi quando ouvi a voz que me disse que eu já poderia fazer uso de minhas asas…

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados.

rainha em trapos

“Rainha em trapos”, chamavam-na. Antes andarilha, assentava-se agora em trono xexelento, lixo cenográfico de alguma companhia de teatro. A qualquer que passasse perto dela, encarando-a, concedia retribuir um sorriso condescendente e um aceno de mão, entendendo que a ela agradeciam algum favor.

Antes da aurora, levantava-se e ordenava ao sol que amanhecesse; antes do ocaso, o contrário: que anoitecesse. Em certa data, por capricho, decidiu que não haveria nem raiar nem cessar de raiar naquele dia, e ordenou ao Sol que nem ousasse despontar. Negou-se o Sol a obedecer simplesmente cumprindo seu diuturno trajeto.

— A esse rebelde, matem-no!

Daniel Batista de Siqueira trabalha atualmente como professor da rede pública do Estado de São Paulo.

antropofágico

Eu estava preso pela pele a um gancho de aço, pendurado num cano de metal que atravessava o ambiente de fora a fora. Eu estava nu e atrás de mim havia outro pendurado e atrás do outro havia mais outro e atrás daquele outro, outro e outro. Meu corpo todo doía. Mexia os olhos e via ao meu redor o que identifiquei como sendo o interior de uma espécie de caminhão frigorífico. Tomava muito cuidado para não sacudir o corpo que tinha a pele como que se desprendendo da carne, se rasgando lenta e silenciosa. Estava vivo ainda, sentia o curso do sangue nas veias. Quando o caminhão rodava de um lugar a outro e meu corpo balançava, a dor era terrível. E sempre novos corpos eram nele depositados. A cada parada pelo menos um novo corpo era trazido para dentro. Com o passar do tempo minha pele ia ressecando e os membros paralisando. Os novos corpos iam sendo colocados à frente. De vez em quando um deles entrava no frigorífico e tirava uma lasca de carne do corpo que pela ordem sempre era o de trás. Quando este já estava quase só ossos, excetuando-se a parte posterior do pescoço, por onde éramos pendurados, aí, então, passavam a descarnar o próximo. Não sei se comiam a carne ou se davam de alimentar a algum bicho. Logo seria minha vez. Já estava bem no fundo do caminhão. De olhos fechados rezava para morrer congelado antes de começar a ser destrinchado.

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados.