rainha em trapos

“Rainha em trapos”, chamavam-na. Antes andarilha, assentava-se agora em trono xexelento, lixo cenográfico de alguma companhia de teatro. A qualquer que passasse perto dela, encarando-a, concedia retribuir um sorriso condescendente e um aceno de mão, entendendo que a ela agradeciam algum favor.

Antes da aurora, levantava-se e ordenava ao sol que amanhecesse; antes do ocaso, o contrário: que anoitecesse. Em certa data, por capricho, decidiu que não haveria nem raiar nem cessar de raiar naquele dia, e ordenou ao Sol que nem ousasse despontar. Negou-se o Sol a obedecer simplesmente cumprindo seu diuturno trajeto.

— A esse rebelde, matem-no!

Daniel Batista de Siqueira trabalha atualmente como professor da rede pública do Estado de São Paulo.

antropofágico

Eu estava preso pela pele a um gancho de aço, pendurado num cano de metal que atravessava o ambiente de fora a fora. Eu estava nu e atrás de mim havia outro pendurado e atrás do outro havia mais outro e atrás daquele outro, outro e outro. Meu corpo todo doía. Mexia os olhos e via ao meu redor o que identifiquei como sendo o interior de uma espécie de caminhão frigorífico. Tomava muito cuidado para não sacudir o corpo que tinha a pele como que se desprendendo da carne, se rasgando lenta e silenciosa. Estava vivo ainda, sentia o curso do sangue nas veias. Quando o caminhão rodava de um lugar a outro e meu corpo balançava, a dor era terrível. E sempre novos corpos eram nele depositados. A cada parada pelo menos um novo corpo era trazido para dentro. Com o passar do tempo minha pele ia ressecando e os membros paralisando. Os novos corpos iam sendo colocados à frente. De vez em quando um deles entrava no frigorífico e tirava uma lasca de carne do corpo que pela ordem sempre era o de trás. Quando este já estava quase só ossos, excetuando-se a parte posterior do pescoço, por onde éramos pendurados, aí, então, passavam a descarnar o próximo. Não sei se comiam a carne ou se davam de alimentar a algum bicho. Logo seria minha vez. Já estava bem no fundo do caminhão. De olhos fechados rezava para morrer congelado antes de começar a ser destrinchado.

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados.

próximas instruções

Faz três dias que recebi a mensagem, por telegrama, como antigamente:

Hoje contar passos
Amanhã contar piscadas
Depois agradecer durante todo o dia a nossa infinita bondade
Aguardar próximas instruções

Refleti: seria arriscado não fazer o que Eles recomendaram. Mas achei muita ousadia, tanto que desde então não me movo, reduzi as piscadas ao mínimo possível e todo santo dia amaldiçoo a infinita bondade dos meus algozes.

No mais, apenas aguardo as próximas instruções. Isso deve atenuar a minha pena, seja ela qual for.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: Claudio Parreira

das madres e de suas crias

Tinha passado dos trinta e morava com a mãe. Comida e roupas lavadas e passadas. Apesar da boa vida, trabalhava. Era mulherengo e isto custava dinheiro. Um dia, levou para casa a estagiária na hora do almoço para tirar a sua virgindade. O lençol sujo de sangue fez a mãe pensar em nova crise de hemorroida do filho:

— Coitado.

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.

a língua do profeta

Era um homem alto, magro, cabelos desgrenhados até o ombro, vestia uma fantasia de profeta do apocalipse suja. Estava numa esquina do centro da cidade, dia útil, final de tarde. Gritava:

— Deus mandou avisar que vocês todos vão para o inferno com línguas de fogo no rabo por toda a eternidade.

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.