interesses, de T. K. Pereira

capa_TKÉ o inferno de sempre. O senhor me desculpe a demora, mas nem o GPS está dando conta desse trânsito hoje. Tomara que não esteja com pressa. Tem água gelada e balinhas de menta, coisa boa, não essas porcarias de ambulante em sinaleira. Fique à vontade. O ar-condicionado deu defeito ontem, eu ainda não tive tempo de arrumar. Desculpe por isso também. Ainda bem que hoje está fresco, céu azul, dia bonito. A gente tem que ser grato, viu? Ô clima bom o nosso. Às vezes esquenta, mas fazer o quê? É um país tropical — nada a ver com essa conversa fiada de aquecimento global. Mas já vi climas piores, viu? No norte da África, por exemplo, o sujeito até sufoca de tão quente e seco que é. Trabalhei lá por um tempo, conheci aquilo tudo, até o Saara. Faz tempo, foi em setenta, eu era almoxarife em mineradora, veja você.

Conheci o povo, aqueles muçulmanos filhos da puta. São como os evangélicos daqui. Pensa naquele tipo bem pelinha, de culto em sede velha de boteco, fanático mesmo. O muçulmano é dez vezes pior. Povo maluco. Eles têm isso lá de ter várias mulheres, a gente até imagina, mas ver é outra coisa. Tinha esse colega que tinha três esposas. Não sei como, eu mal dei conta de uma, mandei logo pastar. Eles escolhem elas, daí cortam fora o clitóris, que mulher lá é pra procriar, não pode sentir nada. Mulher lá não goza! O senhor me desculpe aí o popular, mas é isso mesmo: elas não gozam, é proibido. Dizem que o homem também corta a cabecinha, que é pra facilitar, afinar. Muçulmano é tudo assim, barbado da pistola longa e fina.

Eu já vi cada coisa nesse mundo… O problema é a religião, essa coisa de igreja, fé, isso ferra com a cabeça de gente pobre, e o povo de lá é miserável, acaba ficando na mão dos osamas e saddams. O Brasil fica longe disso não, aqui só falta explosão porque morte tem até demais; a fé é negócio, é política, tudo misturado. A corja daqui não manda derrubar prédio com avião porque o que interessa é dinheiro. E o pobre segue na miséria, sofrendo com fé. É dureza essa vida de sempre correr atrás e ficar preso em trânsito, fila, burocracia.

Acabaram de avisar no celular: tem manifestação fechando a avenida lá na frente. Tinha me esquecido. Bem na véspera de feriadão. Típico. Datas esse povo sabe escolher, né? Centro é complicado demais, qualquer coisinha entulha tudo, chuva, obra, manifestante. Eu nem acho errado, sabe? Tem mais é que manifestar mesmo, reclamar, esse país está uma zona. Mas tem que saber fazer, não pode atrapalhar a vida de gente decente, trabalhadora. Também não pode sair por aí quebrando tudo porque quem paga é a gente mesmo. Tem que raciocinar, aprender a lutar. Todo mundo sabe que a corrupção é um problema, mas parece que ninguém aprende: políticos roubam, roubam, roubam, e ainda conseguem ser eleitos. As pessoas vendem o voto por uma cesta básica, aí fica difícil. Mas é problema de quê? Falta de educação, é claro, tem que educar o povo. Não é só melhorar escola. Eu mesmo, que só tenho segundo grau, graças a Deus, sou educado, conheço os problemas.

No Brasil a política é para enriquecer. Só ver os safados de sempre: é coronel do Maranhão, bilionário que não larga osso, presidente papa-poupança que cai e volta, deputado, governador e senador com nome sujo, e ainda no cargo. É denúncia, propina, golpe, contragolpe. Tem que acompanhar, ficar por dentro pra poder fazer sua parte. E tem que reconhecer quando a merda explode; vê o caso do impeachment da presidente — e digo presidente mesmo, que presidenta é o escambau; além de roubar ainda querem matar o português? Votei nela, não tenho vergonha de dizer. Até achei que ela não tinha feito nada errado, que todo mundo é inocente até provar, não é assim? Pois é, agora nem sei. Se todo mundo parece ter o rabo preso, se até o Lula traiu o Brasil, ela deve ter culpa também. Fico puto porque pra mim é tão simples: se recebo uma denúncia, o que faço? Mando investigar, porra. Tomo atitude, chego lá para os companheiros e aperto, digo que vou investigar todo mundo suspeito e quem estiver envolvido vai cair feio, que no meu partido não fica corrupto nem safado. Chamava a imprensa no mesmo dia, falava das denúncias recebidas, “nosso governo vai investigar e punir os responsáveis”. Mas político é tudo burro, prefere ficar quieto, fingir de morto. Hoje em dia nada mais fica escondido. Esse povo não aprende, por isso que o país está nessa merda, nesse vai-não-vai do caralho.

Você me desculpe o mau jeito, mas é de dar ódio. Você tenta se manter antenado, tenta votar com consciência, daí esses canalhas te traem. É tudo treta de partido, não tem um que presta, essa é que é a verdade. Tem que resolver a corrupção, povo tem que se unir, fazer petição, que hoje é bem fácil, pega lá um monte de assinatura rapidinho na Internet, faz logo uma lei nova. Fosse por mim era até mais simples, três coisas para resolver. Primeiro: político envolvido em corrupção tem que ser julgado como cidadão comum, sem essa de imunidade parlamentar, de foro privilegiado, nada disso. Segundo: condenado ou não, o político não pode se candidatar a mais nada, perde o direito de participar da política. Terceiro: todo o dinheiro roubado deve ser devolvido em até quarenta e oito horas. Isso aí, simples. Não tem por que complicar.

Entendo dos problemas, e nem é porque vejo TV ou leio muito — faço isso também porque a gente tem de estar ligado —, mas sinto nas ruas, sabe? A gente entende o país é pelas pessoas. A maioria delas não está nem aí, é tudo interesse próprio. Empresários, por exemplo: tratam o empregado como escravo. Eu sei por que já vivi muito isso, mas me libertei. Hoje, acima de mim só Deus e avião.

Outro dia eu estava carregando um empresário bem escroto: ele disse que, com crise ou sem crise, é preciso jogar duro, que na empresa dele funcionário tem que dar lucro, senão é rua; se não fosse por lei, ele não pagaria direito nenhum. Porque o empregado é importante, mas é o empresário que carrega o país nas costas, ele disse. Acredita? Até tentei argumentar, mas sabe como é esse tipo de gente. Ouvinte bom e atencioso assim como o senhor está em falta.

Se me permite, em quem o senhor votou no ano passado? Tudo bem se não quiser dizer. Na verdade, tenho evitado falar disso, a pergunta é difícil, as pessoas estão muito sensíveis. Mas o senhor me parece bem racional. Tremendo pega pra capar, nunca vi eleição como essa, até facada em candidato teve. Se bem que eu truco essa história aí. Já viu facada sem sangue? O homem lá é malandro, e tem que ser mesmo: os comunistas são desonestos. Tem que fazer o jogo deles. Votei neles a vida toda, hoje sei a verdade e me arrependo — nem vermelho eu uso mais, queimei tudo. Quando chegaram lá eles me traíram, traíram o Brasil. Tanta coisa errada pra consertar e ficavam de nhe-nhe-nhe de ideologia, plano-gay, do tal marxismo de cultura. E a coisa ia piorar: vi esse filósofo na internet alertando contra a invasão muçulmana. Você acha que essa história de migração na Europa é a troco de nada? É pra destruir o capitalismo. Eles são farinha do mesmo saco. Graças a Deus que o homem lá não morreu, já pensou? Mais quatro anos nas mãos dos calhordas? Não senhor, chega, esses daí não me enganam mais. Nem adiantou tentarem fraudar as urnas, a voz do povo falou mais alto. O Brasil precisa é de ordem, pulso, gente nova que não está aí pela mamata, que quer colocar o país no rumo. Eu me informo, sei o que dizem por aí do presidente, mas é como eu disse, tem que ouvir as ruas e não dar trela para fake new — é assim que fala, né? O povo está cansado de roubalheira, da violência, impunidade. Quero ver ligar pra gay, índio, feminista e o escambau com uma arma enfiada na cara, desempregado, passando fome, sem-teto. Eu sei bem como é, mas a violência é o pior. E já que o governo não dá jeito, que pelo menos me deixe garantir minha segurança. Pode apostar que vou me sentir bem mais seguro dirigindo por aí com uma arma a tiracolo.

Agora, se o homem trair a gente também, sem problema, é só manifestar, que nem da outra vez, pôr pressão. Mas duvido que precise. Ele não é burro; não vai chegar em Brasília e ficar mandando matar gay, índio, acho mesmo é que ele não tá nem aí para eles, só quer tirar o país da lama. E quem é que não tem preconceito, não é verdade? Não importa o que ele pensa ou deixa de pensar, desde que não prejudique ninguém. Tenho lá as minhas birras, mas cuido da minha vida. Que cada um cuide da sua. E olhe que não concordo em tudo com o homem: acho que empresário tem regalia demais, tem que ajudar é o trabalhador, mas se, para sair da crise, a gente tiver que fazer sacrifícios… Eu sou contra extremismos, mas, às vezes, pra melhorar tem que piorar antes.

Vai descer por aqui mesmo? Ainda estamos longe… Mas do jeito que o trânsito está, é capaz de o senhor chegar mais rápido a pé. É até melhor pra saúde. Se pudesse largava o carro por aqui, mas sabe como é, a gente tem que ganhar a vida. Desculpe qualquer coisa. Vou encerrar aqui a viagem do senhor. Tome aí: cinco estrelas. Se puder retribuir… Tenha um bom dia e vá com Deus, que é brasileiro, mas não dá jeitinho.

| conto do livro Vozes (Editora Caos & Letras, 2019), que será lançado quarta-feira que vem, dia 6 de novembro, em Belo Horizonte [link]. |

T. K. Pereira é autor de Vozes (Caos e Letras, 2019). Organizador do projeto 7 coisas que aprendi, acervo com mais de 100 depoimentos de escritores. Publicou contos em várias antologias. Siga o autor em seu site oficial: https://tkpereira.com.br

sábado, de Natalia Timerman

rachaduras_natália timermannome: MAYKON ROMUALDO SEVERIANO DA SILVA
mãe: CRISTIANE SEVERIANO DA SILVA
pai: IGNORADO
nascimento: 10/02/1988
matrícula: 1.220.872

Lógico que era ele, quem duvida?, a gente já reconhece de longe, pelo passo, pelo andar, bandido que é bandido solta cheiro, aí chegou perto, pronto, aquelas tatuagens, pronto, confirmou, são anos de prática, dona, tava na cara, tem gente que tem cara de bandido mesmo e pronto, revistei e num deu outra, tava ali, um toletão desse tamanho, 50 gramas na pesagem, disseram, agora é muita cara de pau o sujeito achar que a gente é trouxa, que a Justiça é trouxa, a gente é a porta de entrada da Justiça, falou tá dito, é assim mesmo que tem que ser, ou você acha que a juíza vai acreditar mais no malandro que em nós?, aqui é anos de estudo, um salário a zelar, nada de outro mundo, né?, mas tem o garantido no fim do mês, quase tudo tem família, tudo na honestidade, criminoso são eles, já vem com cara de canalha, e mentem, mentem bem, viu?, se a senhora visse, num faz escola mas vai tudo pra escola da vida, é lá que aprendem o crime, a malandragem, tem que pagar por isso, é dever nosso, limpar a sociedade, cadeia é pra isso, oi?, e se não foi ele?, tá duvidando da minha palavra, dona?, olha lá, hein, eu num faltei o respeito com a senhora não, tô te dizendo, tava ali no bolso, se ele ia ser burro a esse ponto?, ué, mas foi, vou fazer o quê, tô só cumprindo o meu papel, não teve violência nem nada, tudo na medida, na medida certa, se a gente chega bonzinho também os cabra num respeita, tem que impor a autoridade, mas sem exagero, tudo dentro dos treinamentos, gritar faz parte, botar o cara de joelho é somente a técnica, vou fazer o que se o cara tava resistindo?, eu fui bonzinho, ele podia ter pego desacato, mas não quis sujar pra ele não, da próxima a dona vai ver aonde é que as coisas podem chegar.

Eu nunca passei por isso, por essa humilhação, era sábado, eu deito a cabeça de noite e passa o filme todo na minha cabeça, não durmo, não acredito, eu converso com os caras aí e eles dizem que tráfico é no mínimo cinco anos, eu volto pra cá e choro, eu não fiz nada, não era meu, quem acredita? Era sábado, eu tava com dinheiro da funilaria, te disse que tô aprendendo funilaria e pintura, né? Faz três meses, tô no EJA também, tava, eu tava, era sábado, eu tava com cinquenta reais, minha mãe disse pro policial que era meu o dinheiro, e ele, não, isso aí é de venda que eu sei, eu nunca passei por isso, eu tenho como provar, mas na audiência de custódia a juíza nem quis me escutar direito, tava comigo, pronto, é meu, foi assim. Era sábado, deixei minha namorada no ponto, às vezes eu durmo na casa dela mas nesse dia eu tava em casa, fui só deixar ela no ponto, abracei ela, beijei, despedi. Fui andando, 50 reais no bolso, não, 40, eu dei 10 reais pra ela, passei na padaria e comprei um saco de pão doce e um danone, fui comendo no caminho, aí eu fui comprar maconha, eu num sou santo, né? Sou usuário, usuário de maconha, mas o que eu faço eu assumo, eu nunca trafiquei, tem um ponto perto de casa, um ponto de droga, tava lá, já me avisaram da movimentação, uma vizinha disse que tinha polícia na área, aquele clima estranho, a gente num sabe como, por quê, mas tem alguma coisa estranha, quem sai pra fora fica pouco. Era sábado, o traficante chegou, eu queria cinco reais, ele disse pra eu segurar o bagulho que ia ver se tava tudo limpo, colocou no meu saco de pão doce, eu não vi, essa hora não, não era muito, só vi depois quando o policial pegou e jogou em cima do carro, eu fui ouvindo os passos e achei que era o cara voltando, mas era o polícia, dei bom dia, eu nunca fiz coisa errada, quer dizer, sou usuário, eu não achei que ele ia vir pra cima de mim, ele achou logo o bagulho, eu disse que não era meu, era do menino ali. Era sábado, a vizinha já foi chamando minha mãe, a cara dela, eu nunca fiz isso, as lágrimas escorrendo na cara dela, acho que ela achou que eu tinha feito sim, aí o polícia chutou minha perna por trás e eu caí de joelho, muita humilhação, chutou minha costela, veio outro e bateu mais, eu quieto, eu quieto, olhei pro lado quando alguém passou, era sábado, e me bateram mais, pra eu olhar pra baixo, as mãos pra trás, aí ele disse pra gente passar na minha casa pra pegar meu RG, de viatura, de viatura, eu nunca passei por isso, minha mãe vendo eu lá dentro, ela veio vindo atrás, chegamos antes, minha irmãzinha tava em casa, de 10 anos, eu disse, Rai, pega meu RG na bolsa da mãe. Ela chama Raiane, eu chamo ela assim, Eu num sei onde tá, a Rai disse, já tava assustada, eu naquela situação, que vergonha, mas como é que eu vou ter vergonha de alguma coisa que eu não fiz, mas tenho, como se eu tivesse feito, o polícia aí gritou, gritou com a voz alta, Como é que você não sabe onde tá a bolsa da sua mãe? Aí eu perdi a cabeça, xinguei mesmo, Cê tá louco?, num tá vendo que ela é só uma criança?, e se ela fosse tua filha?, e o polícia transtornou, disse que eu tava fudido, que ia dar desacato também, nisso minha mãe chegou, tava chorando, esfolegante, decepcionada, a decepção estampada na cara dela, eu nunca fiz nada disso, eu nunca passei por isso, mas aí na cara dela eu vi que podia ter sido eu, duvidei de mim, mas nem deu tempo, quando vi o RG já tava com o polícia e nós tava dentro da viatura. Era sábado. Ele e o outro na frente. Eu atrás.

| conto do livro Rachaduras (Editora Quelônio, 2019), com lançamento dia 29, terça-feira, em São Paulo [link do evento]. |

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia pela USP e escritora. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017), acerca das vivências no hospital penitenciário onde trabalha desde 2012, em São Paulo.

trecho do romance ‘O beijo da Pombagira’, de Leonardo Valente

capa_pombagirao assassino

Odeio o barulho dos atabaques. Produzem um som primitivo que em vez de tocarem a alma, como são capazes de fazer com maestria os violinos e os pianos, estimulam nossos instintos animalescos. Não é para menos, um tambor com nome árabe e que é usado como instrumento musical sagrado em danças religiosas africanas não pode realmente ser algo que preste.

Não reconheço o sagrado, nem tampouco presto a ele alguma deferência. Trata-se de uma bobagem oriunda da fé, palavra esta que alço ao lugar mais alto do pódio das misérias da Humanidade. A fé é tão tosca e sem sentido que o criador, se é que realmente ele ou ela existe, sequer um dia precisou tê-la. Por que alguém que tudo criou necessitaria ter fé na própria criação? A fé é o recurso das criaturas incompetentes. O Universo existe para ser constatado e não para ser alvo da crença infantil dos fracos e dos incapazes de compreendê-lo de fato. Para estes, o que resta para que o cérebro crie algum sentido sobre a própria vida é essa imaginação mitológica medíocre e que serve de alicerce para as religiões inebriantes e inúteis.

O que sinto por aquela desgraçada desencarnada não tem relação alguma com fé, muito menos com o sagrado. É apenas paixão, completamente incontrolável, doentia, e que começou para meu azar e ironia em meio ao ruído primitivo daqueles malditos atabaques. Nunca havia me apaixonado, sempre achei esse tipo de sentimento um descontrole dos mais fracos e dos emocionalmente dependentes. Nascemos e morremos sozinhos, e por que diante de tão inexorável caminho precisamos gastar energia vital para criarmos um laço de dependência tão forte em relação a outro ser qualquer que um dia desses nos deixará? Só agora, no entanto, percebi que a paixão não é uma escolha, é um distúrbio.

a vítima-algoz

Sempre achei que o momento da morte deveria ser como aquelas últimas cenas tão comuns das telenovelas que os vivos de hoje em dia tanto gostam. Todas as pessoas que passaram por sua vida: amigas, inimigas, protagonistas, coadjuvantes e figurantes, reunidas em festa, não mais vestidas do papel que tiveram com quem está prestes a partir, bebendo, se abraçando e confraternizando com sorrisos largos e sensação de dever cumprido, de trabalho concluído, de ter seguido à risca seu script na vida do outro que naquele momento se despede. O fim marcado em letras garrafais em primeiro plano na tela, com todos ao fundo, meio que já desfocados, cravaria a passagem e o encerramento de uma história sem dívidas, rancores ou amores, pois nenhum papel deve extrapolar sua trama, transgredir as fronteiras de seu universo narrativo. Sair da vida seria, então, como deixar um papel e uma história sem mágoas, paixões ou grandes saudades, pois estas seriam do campo das personagens e não dos atores e das atrizes que as interpretam.

Tive pena de mim por não ter morrido assim. De não ter sido apenas uma personagem de mim mesma durante a vida, e de não ter feito a viagem sem malas, somente com a roupa do corpo, sem o peso quase insuportável de tudo o que não é esquecido.

o último encontro

Voltei, meu amor (de “Poesias Baratas e rimas pobres”)

Voltei, meu amor
Quem diria, eu voltei
Você jamais contaria
Com meu cheiro novo de naftalina

Voltei para azedar a sua sopa
Para manchar a sua roupa e estragar a sua festa
Nem todo mundo que some, presta
Nem todo mundo que fica, resta

Sou prova viva de seu passado esperançoso
Verdadeiro céu perto do seu presente insosso
Não vim buscar o que não é mais meu
Nada que tenha hoje me interessa

Apareci apenas como um encosto matreiro
Para te mostrar que quando se esquece o passado, ele volta ainda mais safado
Pronto para te pegar e te sangrar na alma de repente
E te mostrar que você ainda não é gente

Voltei, meu amor

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou o romance Charlotte Tábua Rasa, em 2016, e a antologia Apoteose, finalista do Prêmio Sesc de Literatura, em 2018. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados da Primavera Literária Brasileira 2019, na França e na Bélgica, um dos mais importantes eventos de literatura brasileira na Europa.

O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo, 2019) será lançado na próxima quinta-feira, 5 de setembro, na Bienal do Rio, e foi finalista da Segunda Edição do Prêmio Rio de Literatura. Saiba mais no [link].

quatro poemas do livro ‘Erotiscências & embustes’, de Jozias Benedicto

67162232_1199205776926392_319728562493980672_oO lançamento é neste domingo, 4 de agosto, na Casa Quintal de Artes Cênicas, no Rio de Janeiro. Mais informações [link]

autorretrato 3 por 4

(adolescentepoema
quatro versos
sem rima
nem métrica

um retrato
trêsporquatro
adolescentes
embustes

um caderno
poemas datilografados em noites insones
depois anos e anos e anos até
o fogo:)

_______________olho esquerdo inquisidor
_______________o direito, acolhedor
_______________orelhudo, surdo, mudo
_______________ante a vida ante tudo

(um pequeno poema queimado para sempre em um incêndio
e recuperado no meio das trevas de um sonho:
o sonho dos monstros produz
razão)

uma fábula

Era uma vez.

Tive um analista
que repetia
e repetia
repetia:
“Por que as pessoas só querem plantar arroz
em terreno onde não nasce arroz?”

Penso em minha vida e vejo isso,
sempre isso:
arroz
em terreno
onde não
nasce
arroz.

Mas afinal estou vivo, com arroz ou sem arroz.

E ele, o analista,
já morreu há muito tempo,
já não deve mais nem ter carne nem pele nem ossos no caixão dele,
muito menos
arroz.

erotiscências VII (impenetrabilidades)

Penso em: vencer o tempo.
E o espaço.
A distância,
reduzi-la a zero.
Aquela lei da física — é a primeira ou a segunda lei daquele tal de newton? —,
dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço,
para mim, para nós, é pura bobagem.
Podemos sim, ser um,
um universo infinito.
Digo estas coisas de forma meio
atabalhoada
confusa
olhos úmidos
(bêbado).

Você apenas
sorri.

Talvez, talvez,
talvez seja possível, um dia,
esta impossibilidade.

Também sorrio, e mudo de assunto.

Chove.

valongo II (barco de refugiados)

As portas e os mares já estão fechados
com lutas insanas. Trilhas de sangue
no mapa-múndi dos refugiados
escrito em dor que só a morte extingue.

Por que foges assim, barco ligeiro?
O peso que carregas é tamanho,
se naufragas, já não és o primeiro
a levar pro fundo tua carga humana:

homens, mulheres, crianças — fugindo
da guerra, da morte, a paz buscando
no exílio; mas num barco submergindo

no frio mar; a foice veio célere
ceifar quem nada vale, existindo:
uma praia coberta de cadáveres.

| poemas do livro Erotiscências & embustes (Editora Urutau, 2019). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual nascido em São Luís, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pós-graduado em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. Publicou os livros de contos Estranhas criaturas noturnas (2013, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e Como não aprender a nadar (2016, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura). Em 2018 recebeu premiações pelos livros de contos ainda inéditos Um livro quase vermelho (Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Governo do Estado do Maranhão). Teve contos publicados nas antologias Sábado na Estação (2012, organizada por Luiz Ruffato) e Contágios (2016, organizada por José Castello). Em artes visuais, entre outras mostras, participou da XVI Bienal de São Paulo. Erotiscências & embustes é seu primeiro livro de poesia.

blattaria, de Eduardo Sabino

capa_alucinatoriosConto do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019).

Antes eram só encontros noturnos. Eu ia à cozinha beber água, acendia a luz, e lá estava a intrusa no azulejo, correndo pra detrás da geladeira. Ia ao banheiro fazer xixi e via duas antenas nojentas balançando no ralo da pia — dava um grito e abria a torneira no máximo. Foi quando percebi que não estávamos sozinhos. Havia uma cidade inteira vivendo nas frestas da nossa casa; as bichinhas à espreita, aguardando a gente dormir pra ir à caça de nossos restos. Como são as coisas: se antes essa ideia me dava calafrios e insônia, agora seria a vida ideal: as baratas andando pela casa no escuro em busca de comida; eu, mamãe, papai e Hugo apagados, felizes, sem dar conta de nada.

Tudo bem que havia conflitos antes da infestação. Mamãe não gostava da casa. Queria morar em um apartamento ou em uma casinha mais nova, que não estivesse, e aí vinha a expressão que deixava papai nervoso, caindo aos pedaços. Ele a chamava de ingrata, dizia que não havia casa melhor no bairro. “Vocês são privilegiados!” Eu e Hugo observávamos mudos e tendíamos a ficar do lado de papai: morar ali não me incomodava; pra falar a verdade, era bem legal chegar ao casarão com as amigas da escola: elas sempre se impressionavam, tiravam até foto dos lustres da sala. “Sua casa parece casa de filme, Maria”, diziam. Um dia, lá pelo século dezenove, todas as casas eram iguais na rua. Quem fundou nosso bairro foram os ingleses que vieram para o Brasil como funcionários de uma companhia de mineração. Hoje as minas estão desativadas, e boa parte das construções dos imigrantes, das pontes às igrejas, foram reformadas com uma estética mais barroca-interiorana, sem graça. Sobrou a nossa casa. O telhado enorme em formato de choupana, dois andares, cômodos espaçosos, janelões brancos, o azul desbotado nas paredes e no toldo da varanda, o gradil quadriculado nos corrimões — tudo de madeira, madeira em toda parte. Sem contar aquelas coisas meio fora de lugar: um piano fodidinho que papai jamais se interessou em consertar, a chaminé de tijolos e a lareira de todo tamanho na sala de visitas — quem precisa de lareira numa cidade quente como a nossa, meu Deus? Acho que nunca a usamos.

O problema de crescer nessa casa é que ela nos denunciava, sempre: primeiro a mim, depois, quando cresci, a Hugo. Mamãe o colocava pra dormir, ele dava um tempinho e saía, andando de meia, descendo a escada nas pontas dos pés, louco pra ver tevê na sala. Nunca conseguiu completar a travessia no corredor. De madrugada, qualquer passinho, até de criança, fazia a madeira ranger, e mamãe logo lhe dava um flagrante. Pra não fazer barulho em nossa casa era preciso ser leve e ágil como as baratas: elas sim eram livres à noite. Talvez o ódio de mamãe pela casa já era, nesse tempo, uma premonição do ódio que ela sentiria pelas agregadas, sofrendo por antecipação os males que elas nos trariam. Quando o assunto de vender a casa entrava na conversa do jantar, brincávamos de dublar a fala de papai, que já sabíamos de cor:

“Essa casa foi de meu pai, e do pai do pai de meu pai. Nossa família está aqui há várias gerações, e daqui não arredo o pé.”

Mamãe dava um suspiro de esvaziar os pulmões e ficava encarando a sopa. Acho que tinha vontade de enfiar a cara no prato fundo e tapar a respiração do nariz.

“Se ao menos a gente pagasse uma empregada. Uma faxineira uma vez por semana. Mas não: estou sozinha com tudo. Essa casa vai me matar.”

Papai desconversava. Dizia que o jardim estava por sua conta. Limpeza pesada. Além das coisas estragadas esperando conserto — sempre havia muita coisa para consertar lá em casa: telhado, gavetas, descargas, portas de armário e fechaduras. Empregada estava fora de cogitação, sentenciava, a aposentadoria era boa mas não dava pra tanto. “Mais um motivo pra vendermos essa casa”, mamãe insistia. Papai bufava, dizia que a culpa era dela. Se saísse do emprego de vendedora de farmácia — vendedora não é emprego que vale a pena, mulher — os dois dariam conta de todo o serviço.

“Se eu sair, quem vai pagar a escola de Hugo?”

“Já tá na hora de ele ir pra pública…”

“E a faculdade de Maria, você banca?”

“Maria é inteligente. Vai passar na Federal.”

Mamãe chegava a engasgar de ódio.

“Você conta com o ovo no cu da galinha, Antônio.”

Levantava num tranco, nem terminava de jantar. Guardava o prato na geladeira, dizia que tinha perdido o apetite, e subia correndo pro quarto. Ficavam sem conversar por dois, três dias, depois se ajeitavam. Essas coisas me faziam perder o sono, remoendo as mesmas perguntas: o que seria de mim e Hugo quando eles se separassem?

Apesar de tudo não consigo lembrar dessa época como um tempo ruim. Éramos quatro e ainda tínhamos a ilusão de sermos os únicos moradores da casa. As brigas eram pouquinhas, insignificantes, e havia bons momentos. Almoços sem gritaria, televisão em família: novelas e programas de humor. Usávamos a varanda nos nossos aniversários e no Natal papai tocava violão até mais tarde.

Então vieram os bárbaros, elas deram o ar da graça: começaram a surgir durante o dia, pregadas nas portas que acabávamos de abrir, camufladas nos bolores da madeira, embaixo dos tapetes e atrás das cortinas. As piores eram as voadoras. Davam mergulhos rasantes de kamikaze e avançavam contra nós, depois se colavam em outra parede e as asas se juntavam rentinhas em suas costas como se nem existissem.

Eu tinha curiosidade em saber mais sobre elas, como tinha curiosidade por todos os tipos de ser vivo — já sonhava em ser bióloga. Vivia observando de perto cigarras, formigas, abelhas e até lagartixas mas das baratas não conseguia me aproximar nem nessa situação terrível em que elas tomavam a iniciativa. Tinha muito medo de agarrarem no meu cabelo. Passei a andar com ele preso dentro de casa. Quando aparecia uma das grandes, eu me trancava no banheiro. Um dia, me sentei no vaso, ofegante, e dei de cara com outra maior escalando o vidro do boxe, sinal de que estavam perdendo mesmo a vergonha ou já não cabiam em suas tocas.

Mamãe também era um desespero só. Chamava por Hugo onde as encontrasse. O pequeno ia correndo, chinelo em punho, Deixa comigo, e se divertia exterminando os insetos. Uma vez, ele me salvou de duas que me encurralaram na cozinha. Vi aquela tripinha seca pisoteando as baratas e fiquei até constrangida.

“Você não tem vergonha, maninha? Olha seu tamanho e o tamanho delas. Elas que deviam ter medo.”

Hugo estava certo, e eu precisava daquela sacolejada. Passei a atacá-las com raiva e coragem e, como era de se esperar, levava a melhor. As baratas não tinham muitas opções: recolhiam-se às tocas ou morriam esmagadas. Papai observava tudo com indiferença. Era o único que as baratas não tiravam do sério. Dava instruções a distância, preocupado com a casa.

“Calma, Hugo, espane ela pro chão. Não vá sujar a parede.”

“Mas ela vai fugir, papai. A vagabunda vai fugir. Olha ali o buraco no teto!”

“Deixa fugir.”

A primeira bronca mesmo quem levou foi mamãe quando destroçou sozinha uma barata que pousou no tapete. Seu primeiro confronto. Bateu tanto na bicha, e com tanta violência, que o inseto se achatou e pregou igual chiclete gosmento na sola da sandália. Papai balançou a cabeça, inconformado: “É só uma baratinha, Cleusa. Porra, precisava disso?”.

Mamãe, a terceira a ganhar coragem, e agora éramos um trio de exterminadores de baratas. O medo se foi e veio a vontade de estudá-las, saber de que eram feitas e quais os limites de um ser que tinha sobrevivido a eras tão extremas e parecia, no entanto, tão frágil. Como a seleção natural as moldou para as tornar tão adaptáveis?

Identifiquei cinco espécies vivendo conosco. A americana era a predominante. Marrom-avermelhada, media cerca de trinta milímetros. Depois vinha sua gêmea menor (metade da envergadura), a germânica, popularmente chamada de baratinha. Em menor contingente, a oriental, vinte e cinco milímetros, negra como uma barata fantasiada de besouro, e a australiana, duas manchas amarelas na extremidade superior das costas que me lembravam os olhos do Black Kamen Rider, seriado japonês que Huguinho adorava assistir na tevê. Outra que às vezes saía das frestas de madeira era a virgínica, miudinha, um centímetro quando adulta, não chegava a ser bonita mas não me dava tanto asco como a mandante do pedaço: a americana, barata tropical, a mais adaptada ao nosso clima. Por ser grande e numerosa, e interagir conosco com mais frequência, virou minha cobaia preferida. Mantive um criadouro por semanas num aquário abandonado no porão. Impressionante como comiam de tudo. Insetos mortos, verduras, carne estragada, as próprias fezes, pedaços de fiações velhas. De uma que prendi com um copo na cozinha decepei a cabeça. Achei que viraria alimento de formiga naquele mesmo dia. Para minha surpresa, ficou vagando decapitada por uma semana no quarto vazio onde a soltei. Não precisasse da cabeça para comer, resistiria mais tempo.

Mamãe não gostou de minha dedicação científica. Enquanto eu analisava baratas com lupas, ela e Hugo enfrentavam sozinhos a onipresença das americanas. Papai gostava de ver meu interesse e se aproximava, folheava por alto os artigos que eu imprimia da internet e ostentava seu senso comum sobre o assunto.

“Você sabia que na China as pessoas comem baratas?”

“Nem todas as pessoas, né, pai!”

“Pois sim senhora. Os chineses comem de tudo. Barata, então, é uma iguaria.”

Uma iguaria exótica. Ajudou muita gente a sobreviver durante a Grande Fome, mas hoje não é um costume tão generalizado assim. Tinha lido sobre uma minoria étnica, na província de Yunnan, que fazia esse espetáculo para turistas nas feiras em via pública, degustando e oferecendo a todos baratas, lacraias, cigarras e outros insetos. Talvez haja outras etnias que preservem o costume, daí a ser um prato típico da culinária chinesa, corre um oceano. Eu queria dizer isso a papai, que ele estava errado. Mas conhecia seu jeito. Iria teimar, elevar o tom de voz, dizer que não se pode confiar na internet nem nos livros, que conversou com um chinês não sei quando nem sei onde e ele não podia ter mentido. Melhor evitar a fadiga e não render assunto, fiz um “oh” de surpresa, “Jura, papai?”, e ele falou mais umas abobrinhas: “Barata no prato na China, minha filha, é nosso filé de frango”. Achei graça e caí na risada. Um bilhão e trezentos milhões de habitantes na China: todo mundo comendo baratas, ao menos uma vez ao dia, isso que é controle de praga.

Apesar de seus exageros, papai estava lúcido. A noite escura de sua alma não tinha chegado. Um arrependimento não ter levado as baratas a sério quando poderíamos ter o seu apoio. De ter achado divertido fazer experimentos, persegui-las, exterminá-las. Três pessoas não podem contra uma multidão de baratas. Não armadas apenas com chinelos e boa vontade. Óbvio que um dia o cansaço nos pegaria de jeito e elas iriam se aproveitar.

Passamos meses inteiros assim: em guerra, mas tranquilos, com a segurança de sermos mais fortes. Matando baratas sob os olhos indiferentes de papai. Depois, veio o surto: das baratas e do velho.

Ele começou a se retirar mais cedo do jantar e a nos tratar com rispidez na hora do telejornal. “Quietos, nenhuma palavra.” Se levantássemos do sofá para matar uma barata que interrompia a programação com sua presença asquerosa, papai se enfezava. Chegou a dar uma chinelada em Hugo um dia, o que rendeu uma discussão comigo e mamãe. O pequeno só queria nos proteger.

Então um dia eu o peguei observando uma barata asiática no pilar da garagem. Tirei a sandália pra esmagá-la e ele me impediu. Alegou que ela estava na dela, sem fazer mal a ninguém, do lado de fora da casa. Ali a nossa lei não valia.

“Você só pode estar de brincadeira, papai.”

Não rendeu assunto. Apenas me deu as costas e fez a segurança da barata enquanto a miserável escalou o pilar e entrou num buraco do toldo.

Andava mais silencioso por aqueles dias, ouvindo rádio, vendo tevê o dia inteiro e, à noite, ainda antes de mamãe chegar da farmácia, ele já tinha posto o caçula para dormir, prendendo-o no quarto. Dizia que era castigo, que o menino estava fazendo bagunça, mas coisíssima nenhuma, Hugo apenas matava baratas.

O problema ficou mais claro na manhã de sábado em que acordei cedo para fazer um trabalho em grupo. Do banheiro, a porta entreaberta, enquanto escovava dentes, vi papai na sacada de seu quarto. Ele estava com as mãos em concha e agachado. Murmurava palavras carinhosas, apanhando um passarinho que se chocou contra o vidro da janela, mas essa foi a minha primeira impressão, a imagem observada de relance e deturpada na inocência de um olhar lógico: você pode imaginar o que ele realmente apanhava, o que ele tinha nas mãos, o que ele ergueu e soltou no ar, debruçado no corrimão. Mamãe já tinha saído para o trabalho e quase não acreditou quando a contei.

“Tem certeza que não era um passarinho?”

“Mãe, acorda. Eu sei diferenciar uma barata de um passarinho.”

Dona Cleusa colocou as mãos no rosto e sentou-se no sofá da sala, “Oh, meu Deus! Antônio enlouqueceu.” Disse que ele havia se levantado de madrugada, falando sozinho no corredor, tratando um bicho por meu bem, e que talvez não fosse o gato.

Decidimos dar um basta nisso assim que subiram os créditos da edição do jornal da noite. Nós duas contra papai. Nem citamos a barata-passarinha. Fomos direto ao ponto. “As baratas estão passando do limite. Precisamos dedetizar esta casa.” Ele se levantou, um medo estranho nos olhos, e tentou deixar a sala. Fomos no seu encalço. “Vocês é que estão passando do limite”, disse baixinho. Mamãe ganhou sua frente, impediu que subisse as escadas e mentiu, disse que já tinha ligado para o serviço de dedetização. Papai interrompeu a fuga, como uma barata que de repente tivesse tomado coragem.

“Ninguém vai dedetizar porra nenhuma!”

Um baita de um berro. Ficamos atônitas. Ele prosseguiu:

“A casa é minha, sou eu que pago as contas dela. Vou vigiar o portão. Aqui ninguém entra com veneno.”

“Mas pai, as baratas…”

“Não tem mais nem menos, Maria. Não quero saber de matança nessa casa. Um bicho inofensivo desse. Que mal as baratas fizeram para nós?”

Eu não acreditava no que ouvia.

“Hein, me digam?”

Quis levá-lo até o computador na sala, mostrar os artigos que eu tinha favoritado na noite anterior.

“Pai, elas podem transmitir um monte de doenças. Podem contaminar alimentos. Estamos correndo um risco danado.”

“Isso é balela.”

“Não é. Pode acreditar. Elas carregam microrganismos nas patas e nas fezes.”

“Que nojeira!”, disse mamãe, se benzendo.

Puxei o celular, dei uma googada, e comecei a ler.

“As baratas são consideradas perigosas para a saúde dos seres humanos. Podem transmitir febre tifoide, tuberculose, conjuntivite, infecção urinária, pneumonia e lepra.”

Papai começou a rir, irônico.

“Nunca ouvi falar de ninguém com febre tifoide por causa de barata, e a lepra já foi extinta. Não acredite em nada da internet, minha filha.”

Sabia que sua reação seria essa, mas eu tive que tentar.

“E tem mais”, continuou, “na minha frente ninguém mais mata essas criaturinhas de Deus. É um ser vivo. Um dos mais antigos do mundo, e merece respeito.”

“Puta que o pariu!”, mamãe estourou. “Pois você vai ter que escolher, Antônio, ou elas ou nós. Desse jeito não dá pra viver.”

Ele olhou para a porta da sala, o rosto agora sereno e abobalhado.

“A escolha é de vocês. A porta da rua é serventia da casa.”

Disse isso e se mandou para o jardim. Um sacana. Sabia muito bem que mamãe não tinha condições de se virar sem ele. Ficamos imóveis na sala por uns minutos, eu olhando a tela do celular e mamãe revoltada, ele veria só, ela iria dar entrada no divórcio e alugar um apartamento para nós, mas eu sabia que falava da boca pra fora. Seus olhos se encheram d’água e ela saiu de meu campo de visão, correndo para a varanda a tempo de esconder seu pranto. “Está vindo uma tempestade”, disse com voz embargada, “Me ajude a fechar as janelas e abaixar os toldos, Maria.”

Naquela noite, tive um sonho horrível. Sonhei que uma enchente nos levava pela rua, nós quatro, e o fluxo era de baratas, não de água. Os insetos saindo de nossas bocas, infestando nossos cabelos, cobrindo nossos corpos, a gente se afundando e emergindo, entre troncos de árvore e carros flutuantes. As baratas se movimentavam como gotas enormes e amarronzadas, umas sobre as outras, caoticamente, uma China inteira delas, fazendo o rio correr rua abaixo. Acordei agitada, ouvi um farfalhar de asas no escuro, acendi a luz e estapeei a parede no ponto aonde a calhorda remanescente do meu sonho pousou. A palma da mão ardeu e ela levantou voo, escapando pela janela.

Nos dias seguintes, papai cumpriu à risca suas ameaças. Ele nunca havia me agredido fisicamente, mas algo em mim, e naqueles olhos insanos, me dizia que ele seria capaz, e decidi não o confrontar. A partir de então, quando estávamos reunidos no sofá, uma barata podia atravessar a sala e cagar no tapete sem temer pela própria vida. Difícil suportar aquela ousadia. Huguinho fechava os olhos, rangendo os dentes. Eu e mamãe costumávamos sair da sala, enojadas. Com o tempo, mudamos a tática e continuamos a resistir. Cada um ia para um setor da casa. Avisávamos um ao outro, por SMS, onde papai estava e a quem ele estava vigiando. Elas tinham menos baixas, mas sofriam mais, uma morte mais lenta: um prazer inigualável senti-las rompendo as vísceras sob as nossas sandálias, tudo porque o impacto não podia fazer barulho, era necessário matá-las sem uso excessivo de força e sumir rapidamente com o cadáver.

Uma noite quem sumiu foi papai e eu o procurei em todo o casarão, até nos cômodos que não utilizávamos, mas não conseguia encontrá-lo. Acendi a luz do corredor do primeiro andar e sacudi a cabeça, tentando afastar a lembrança da enchente de baratas. Então ouvi uma música antiga, de banda marcial, o hino de algum clube de futebol, talvez do país, e o som me levou ao porão, o alçapão aberto. Tirei os chinelos e desci alguns degraus, para dar uma olhada. Tive de tapar a boca para sufocar o som do meu grito. Papai estava numa cadeira de balanço, ouvindo a vitrola antiga de vovô e fumando um cachimbo. Ao seu redor, baratas, dezenas de baratas, baratas de todas as espécies que cataloguei. Estavam imóveis como num círculo satânico, vivas e quietinhas como que dopadas. Olhei bem e mal podia acreditar: a maior de todas que eu já tinha visto estava pousada no seu dedo e ele a suspendia como a um falcão adestrado. Havia também uma barata no seu ombro, empoleirada como um papagaio de pirata, e outras duas no joelho. Um São Francisco de Assis do inferno, era o que ele tinha se tornado.

Não consegui sufocar o segundo grito. Papai quase caiu da cadeira e as baratas se dispersaram. Saí correndo chorando e me tranquei no quarto. Ele bateu na minha porta mais tarde, quis se desculpar, disse que eu havia entendido errado, me perguntou o que eu tinha visto e eu disse para ele ir embora. Não queria saber de conversa.

Pensei comigo mesma: nós perdemos papai, e elas o ganharam. Ele está apaixonado e isso talvez seja irreversível. Contaria tudo a mamãe? Arrumaria minhas coisas e fugiria o mais rápido possível daquela casa antes que ele nos fizesse algum mal? Remoí essas perguntas por dias, e o que fiz: deixei os dias me levarem como o rio de baratas. Segui a vida e tentei esquecer o que papai fazia no porão da casa todas as noites antes de mamãe chegar da farmácia. Achei que ele não tinha mais jeito, que nunca mais se daria conta de suas ações, mas eu estava enganada. Seus dias de São Francisco de Assis tiveram fim, e então veio o martírio. Porque papai acordou. Acordou e começou a trucidar baratas, aos berros, em todos os cantos que as encontrava. Acordou e ligou para o Serviço de Dedetização, três dias depois do incidente. A mamãe nada disso importava mais, nem a mim, mas ainda tive forças para descobrir a razão de nosso infortúnio, ler tudo a respeito e jogar as informações na cara do velho.

Titylus serratus, escorpião amarelo, predador de insetos. Brilha no escuro, mas dormíamos. Nossa casa devia estar para ele como a casa de doces para João e Maria. Nunca saberemos quantas baratas ele detectou, quantas baratas ele devorou, quantas baratas ele perseguiu até entrar no quarto de Hugo, ferroar o seu braço e o tirar de nós.

| o lançamento do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019) será sábado que vem, 27 de julho, em Belo Horizonte: [link]. | página da Editora Caos e Letras: [link]. |

Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, em Minas Gerais, no ano de 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016) e Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009). Trabalhou com edição e revisão de textos para revistas e jornais nas áreas de educação, comunicação e literatura. Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto “Sombras”. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.

fragmento do livro ‘Nessa boca que te beija’, de Leonardo Almeida Filho

capa_nbocaDo capítulo “O grande autor”, do romance Nessa boca que te beija (Editora Patuá, 2019).

Levantou-se arqueado. Observando a estante, delirou ante os volumes lidos e desejados na esperança de que, em algum deles, pudesse estar a receita. Quanto entulho! pensou babento enquanto sonhava em aparar as unhas, depois de estraçalhar os ratos. Buzinaram um escapamento pipocou lá fora e entrou pela janela os carros saracoteiam uma puta é arrastada por policiais na 12ª DP barulho de garrafas e pigarro e alegria ébria vêm do Pavão Azul vento de pré-chuva levanta poeira e folhas secas pela rua arrasta grãos de areia na praça Sezerdelo no Posto 3 levam os jornais que cobriam um sem-teto na Domingos Ferreira o delírio, o delírio, o delírio… pardais avoaçando penas de pulgas e parasitas que as titicas desovam na calçada escarrada pelo senhor tísico das aulas de latim no seminário de meninos crentes e quentes nas camas do monsenhor que se atira na campanha anti teologia da libertação e reza seu terço de pedras verdes como os olhos da serpente que inocula credos e peçonha na bundinha de Ela que não reza e que não sabe um terço da missa que não frequento e que o diabo cospe de lado e malha o casco nas costas de um povo que masca a coca-cola e os bublegummers dos fuzis AR15 interceptados por colecionadores que assinam a gazeta mercantil para melhor negociar as almas das senhoras que contam e recortam os bingos das tevês insones que preenchem a existência de funcionários públicos em dias de jogos da seleção canarinho que também tem seus vermes e parasitas expostos na titica dos hotéis baratos e ruelas de crack e merla e merda e coca e camisinhas e sonhos rarefeitos e desfeitos e refeitos sem dó ou pena dos desejos assanhados e presos nas tranças da menina ruiva protestante cujo pai estupra toda noite em que a mãe sai para distribuir revistas de testemunhas de um deus omisso como muito pai e Ela que se encolhe na própria sina de ser apenas Ela um monstro górgona e seu mistério que decifro e leio num versículo de palavras que atribui ao Salvador dessa porra em que comemos e amamos e bebemos e cagamos e criamos e destruímos e matamos e elegemos e derrubamos e sorrimos e choramos e broxamos e mentimos e mesmotonamos e barbarizamos e confudízimos e neobramos e persistimos toscos e lânguidos e crédulos e perfídicos e tresfódicos e amórficos e amásicos e trôpegos e brasilúdicos e atávicos e serpentílicos e baboseiricos como nenhum outro povo antes ou mesmo porque somos o depois de quilos insondáveis de éter afrofortespérbano mergulhados à força e sob a benção de um Deus de carne e osso palestino no caldo tupinicosmicoriginário redemuinizados no caldeirão medieval do branco ibérico e mouro protetor da pele branca e destruidor das cores que lhe afrontam o bolso e o tesouro que se entregará logo ao novo testamento do planeta que caminha inexoravelmente para o buraco do Quasar de Campos e concretos com validade vencida e vazios feito a pança enorme do menino de Uganda que era e é um negro a mais que se vai sem deixar a marca possível da grandeza da alma humana na aventura desumana do útero à sepultura assim sem grandes travessias e destinos epopéicos além das serpentes no cabelo da moça que vende o corpo para pais estressados com a preocupação que lhes dá a filha namoradeira e Ela e Ela e Ela e o namorado noiado que masca o rock and roll enquanto vende Bach e Telleman para um interceptador paraguaio que coça o saco e barrocamente pigarreia o negro fumo que alimenta o câncer da mulher do deputado que nos vende e tripudia sobre os pequenos barrigudos do Vale do Ribeira sem eira nem mesmo que se queira e se vão aos bandos para as beiras beiradas na periferia onde Maria se prostituía antes de cair doente aos pés da cama e da cruz dos crentes que arrecadam montanhas maométicas do vil metal para as grades dos apartamentos e sobrados que abrigam senhores e senhoras e filhotes de senhores e senhoras e o circo típico das relações furadas da burguesia e suas crises conjugais sem romeus ou julietas além do fogo das bocetas ardendo na hípica e no Iate Clube repleto de machos e fêmeas não parideiras que como Ela jogam jogos das carnes que não se vendem nos açougues portugueses onde os patrícios riem de nossas piadas como rimos de nossos pais esclerosados e prostrados e abatidos e mastigados e derrotados e frustrados e tão sós quanto nós mesmos nessa fila infinita de personagens vivas de suas próprias e insignificantes histórias que são lidas nas certidões e nada consta e fichas de ocorrência policial e diplomas e fotografias de santinhos de missa de sétimo dia ou espalhadas pelos cantos de nossas casas alugadas ou mesmo sob pontes e viadutos e sobre lagoas fétidas que quase se equilibram espelhadas nas encostas das montanhas que frequentemente se derretem como trágicos sorvetes de lama e limo e lodo que nos cobrem e nos aliviam da dor e da alegria de estarmos e sermos ou mesmo até pensarmos que estamos ou que somos e por isso mesmo o rádio do automóvel cantou desesperado quando um escapamento pipocou pela janela e o café de Vitória é bom como a saliva de Ela… de Ela, ele sorriu, tocou-se, respirou profundamente de olhos fechados. Ela, Ela.

| para comprar o livro no site da editora [link]. |

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano, como Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poemas em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira, como Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesia Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinquentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Publicou em 2018 o volume de poesia Babelical, pela Editora Patuá. E-mail: leo.almeidafilho@gmail.com

capítulo 1 do romance ‘O pior dia de todos’ (Tordesilhas, 2019), de Daniela Kopsch

capa_opiordiaDois dias depois do meu aniversário de 14 anos, um homem invadiu minha escola e matou 12 crianças. Foi tudo muito rápido. Eu sei que as histórias trágicas sempre começam assim: Foi tudo muito rápido. Mas não estou exagerando. Às 8 horas, começamos uma aula de Língua Portuguesa, e às 8h15, tudo estava terminado.

Não vi quando ele entrou na sala de aula. Eu estava de olhos fechados porque a luz da janela era insuportável, assim como o barulho da turma e o cheiro doce do desinfetante que passaram no chão antes de a gente entrar. Tentei manter minha cabeça imóvel. Ela doía e parecia a ponto de explodir a qualquer momento. Por isso, eu estava quieta, deitada sobre os braços e não vi como foi que tudo começou. Talvez ninguém tenha visto. Os primeiros minutos de aula são sempre tomados por uma agitação generalizada e eu também estaria ocupada conversando com Natália, mas não naquele dia. Naquele dia, nós não estávamos nos falando.

Natália e eu somos primas. Estudamos juntas desde o primeiro ano e vivemos na mesma casa desde que nascemos. Talvez eu pudesse dizer que somos irmãs. Ou quase isso. Com certeza absoluta, somos melhores amigas. Nós também dividimos o quarto, de maneira que acordamos juntas todos os dias, quando o despertador toca às 6 horas. Naquela quinta-feira, levantamos sem dizer uma palavra, vestimos o uniforme, tomamos o café da manhã, descemos a ladeira levemente curva da nossa rua, passamos em frente ao mercadinho, que estava abrindo as portas naquele momento e, depois de mais ou menos 1 quilômetro, chegamos à escola. Há quatro anos percorríamos aquele trajeto e eu poderia fazê-lo de olhos fechados. Sei onde desviar para não esbarrar no poste que fica bem no meio da calçada, sei que é necessário tomar cuidado para não levar uma bolada na cara quando passamos pelo terreno baldio, também chamado de terrenão (às vezes, os meninos miram nos pedestres de propósito, considere-se avisado), e também sei evitar a rachadura na calçada onde as pessoas sempre tropeçam. Passando tudo isso, você chega à escola em segurança. Ou pelo menos era o que pensávamos.

Esse é um caminho de apenas 15 minutos, mas, naquele dia, levamos quase o dobro. Caminhávamos em silêncio e muito devagar. Paramos várias vezes, e em todas esperei que Natália me falasse algo. Mais de uma vez, eu mesma abri a boca com essa intenção. Ficava parada na calçada, com uma frase se formando quase pronta para sair, mas logo a ideia escapulia, incompleta, e eu não dizia nada. Foi assim durante todo o percurso, até que chegamos atrasadas para a primeira aula.

Então, eu estava sentada ao lado da minha prima-talvez-irmã-com-certeza-melhor-amiga me perguntando quando é que aquele dia horrível ia terminar. Eu só precisava esperar, era o que eu pensava, e logo as coisas voltariam a ser como antes. Agora, sabemos que eu estava errada. Como todos, aliás, quando acham que sabem o que vai acontecer. Nada voltaria a ser como antes. Nunca. Minha turma estava na mira de um homem que queria atirar todo o seu passado sobre nós. Em breve, seríamos massacrados. Não gosto dessa palavra, mas foi como chamaram. O Massacre de Realengo.

Eu chamo de O Pior Dia de Todos.

[sobre a autora do livro]

Assim como Natália, personagem deste romance, Daniela Kopsch começou seu caminho na literatura em um concurso de redação. Aos 8 anos, ela escreveu uma história e ficou impressionada com a força de vê-la publicada. “Guarde esse recorde de jornal para seu currículo de escritora”, a professora disse. Memorizou a frase e a reproduziu neste seu livro de estreia.

Desde a infância, Daniela estudou em escola pública, em Balneário Piçarras, pequena cidade de Santa Catarina Percebeu que escrever tinha algo de mágico, algo que poderia fazer as coisas acontecerem. Agarrou esse recurso com força. Entrou na faculdade de Jornalismo e, depois de formada, chegou ao Rio de Janeiro para trabalhar como repórter.

Na cobertura do Massacre de Realengo enquanto entrevistava as meninas que sobreviveram à tragédia, Daniela se perguntava quem elas eram, o que faziam antes de aquele entrar na sala atirando em todo mundo — de certa forma, este romance começou a ser escrito naquele dia. O relato jornalístico se perde no tempo; na literatura a autora reconstruiu a matéria da memória. Ela quer que essas meninas sobrevivam, não apenas as de Realengo, mas todas que conheceu e procurou retratar aqui.

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um universo circular no fluxo das águas, resenha de Nuno Rau

capa_wandaLA liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

1.

Adentrar um bom livro de poemas pela primeira vez nunca é uma aventura simples — é como entrar num espaço desconhecido que guarda surpresas em suas paisagens. A poesia convoca a um posicionamento do leitor, daquele que precisa ativar, com sua energia, o circuito impresso sobre o qual se assenta o conjunto de poemas, para, assim, atualizá-los em relação a si mesmo. No meu caso, considero instigante a busca sobre o que moveria a voz gravada nestes versos, que determinações a atravessam e o que ela nos abre em sua potência. A liturgia do tempo é um livro com muitas entradas, como se inúmeros pequenos afluentes nos levassem todos ao rio principal que é a poética de Wanda Monteiro, no exato momento em que ela se encontra, este aqui e este agora (sempre em curso contínuo). Wanda é uma poeta que nasceu em meio às águas da Amazônia, nelas se banhou, em seu entorno cresceu e delas carrega a marcante influência que seus poemas anunciam, uma poeta que já nos deu livros maduros e prenhes de questões como Anverso e Aquatempo, igualmente marcados a um só tempo por essa regionalidade e pela universalidade que nos aproxima de seus caminhos internos.

Interrogando essa voz, ela nos conta que roga pela “escuta de alguma voz/ voz que venha de todas as vozes” que enumera, então: a dos elementos — vento, céu, terra, fogo, águas —, a dos seres — as “coisas miúdas” —, a do mistério da vida e da morte, do sagrado e da ancestralidade. Estamos postos diante de uma cosmologia que se esboça por movimentos sutis, e precisamos interrogar a essa “voz do céu que guarda todas as vozes” por quais devires humanos (e, sem dúvida, também supra-humanos) seremos levados. Buscamos pistas, uma vez que estamos em meio a uma densa mata na qual pegadas são recobertas pelas folhas que caem incessantes, e atravessadas por rastros de outros animais, quando não lavadas pela chuva ou pelas aluviões delas decorrentes.

Não bastassem, como vimos acima, as interrogações acerca dos fluxos que atravessam e constituem esta poética (a um só tempo centrais e marginais em relação ao debate contemporâneo da poesia), observamos que o livro é construído por dois espectros de fala que, dialeticamente, não se mesclam, antes se diferenciam no diálogo que articulam entre si, comigo e com você, atônito leitor — é necessário desenvolver mecanismos para a escuta destas falas, localizar suas pistas. Um sinal nos acena da epígrafe: Heidegger se interroga sobre semelhança e oposição entre poesia e pensamento; entenda-se aqui pensamento, na mira do filósofo, como o responsável pelo triunfo da técnica na sociedade moderna e, por conseguinte, pela conversão da vida em simples procedimento burocrático dentro do aparato científico-tecnológico do Estado, tendo como resultante o esquecimento do ser. A poesia seria, então, esse caminho para o retorno à experiência original do pensamento — e esta experiência original é exatamente o que se persegue em A liturgia do tempo, por meio da própria linguagem e do lugar para onde ela se volta como ferramenta de representação e reflexão: ela busca lembrar o esquecido, isso que perdemos na contemporaneidade, no mergulho da vida urbana e, assim, superar essa crise e procurar reconstruir a experiência original do pensamento. Eis o abismo de que nos fala o filósofo, eis o abismo (ou um deles) que a poesia busca sobrepassar.

Tomando ainda a questão levantada pela leitura da epígrafe, podemos pensar sobre a querela entre Heidegger e o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX, especialmente com Saussure e Wittgenstein. Simplificando os termos deste debate para o contexto de nossa apreciação de A liturgia, podemos tomar do nominalismo linguístico o pressuposto de que o ser humano está diante de um incontornável esquecimento do ser, do qual a arbitrariedade do seu uso social e científico é o mais recente sintoma. Isso ocorre porque estamos imersos numa nuvem de signos, todos autorreferentes e dotados de legalidade própria e independente, e não fundados numa forma lógica ou na própria substância do mundo.

No lugar de buscar a superação da crise acima detalhada, reconstruindo, na medida de seu possível, a experiência fundante do pensamento tal qual se deu na Grécia antiga, perdemos o pouco potencial reflexivo que ainda possuíamos porque nos dedicamos a compreender e praticar as regras e a arbitrariedade do signo. É devido a isto que, para Heidegger, o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX é a forma mais recente, mais jovem, do estranho ou do estrangeiro se manifestar, ou seja, é a mais recente manifestação do esquecimento do Ser — caberia a nós, como alternativa, lembrar o esquecido: para Heidegger não são o cientista ou o administrador do Estado os cidadãos capazes de realizar a experiência da dignidade da palavra. Para tanto, só o poeta.

2.

Aqui tocamos o ponto de articulação entre a poética de Wanda Monteiro e a questão da linguagem, sua arbitrariedade. A poesia, como queria Heidegger, tenciona retomar o caminho até o Ser, ambiciona cumprir o arco entre o texto e a existência, de modo que nos reconectemos com esses princípios. Os poemas de Wanda nos aproximam desta ponte sobre o abismo pela via do que foi transmitido pelos povos ameríndios às populações ribeirinhas do Pará, determinando sua visão de mundo e, portanto, sua relação com a linguagem. Explico: desde que os gregos antigos disseram pela primeira vez a palavra physis (materializaram no próprio movimento do ar sendo soprado por entre os lábios que formam uma espécie de túnel estreito (pela forma da pronúncia), e articularam um vínculo entre o fenômeno descrito pela palavra e a materialidade de sua fala, que remete ao próprio movimento do ar (como se fosse um vento, fenômeno meteorológico) que, para aqueles gregos era uma substância que preenchia todo o universo, já que em sua forma de compreender o mundo não havia o vácuo; este “preencher” o universo explicava, entre outras coisas, a própria possibilidade e ocorrência dos movimentos dos seres e dos objetos. A forma com que os ameríndios articulam a fala e a relacionam com suas cosmologias não é, estruturalmente, tão diversa, e as palavras são sinais desta ligação originária que, para nós, está perdida pela forma arbitrária como aprendemos e reproduzimos a língua. Os poetas trabalham com uma espécie de arqueologia deste fenômeno primeiro, irremediavelmente perdido, e para quem, como Wanda Monteiro, tem uma relação com este mundo é impossível não espelhar em sua produção elementos atávicos.

Isto pode ser observado nas palavras e conceitos que comparecem nos poemas — por exemplo, o “solo”, que ora aparece como chão firme, ora como elemento fluído e mutável. É assim mesmo que as imagens da natureza afloram nos poemas de A liturgia do tempo, referindo o modo como a própria formação antiquíssima daquelas planícies se deu pelo carreamento de solo nas águas pretas dos rios. São muitas as águas por toda a Amazônia, aliás, um leque de formas líquidas que vai das águas claras às águas pretas, passando pelas águas míticas e pelas águas ancestrais que amnioticamente nos transmitem conteúdos. Os solos em meio a tantas águas reais e simbólicas não poderiam ser solos absolutamente estáveis, e se mostram móveis e dúcteis, passíveis de serem levados pelas aluviões que, desde o grande dilúvio, são mitos fundadores de nossa cultura — presentes também nas cosmologias ameríndias, como nos mostra Lévi-Strauss nas Mitológicas. Ressalta da leitura deste livro que a poeta trata reiteradamente da necessidade (ou da ausência) do chão, mas ao ler temos que ter em perspectiva que esse chão primevo é em tudo mobilidade e impermanência, além de arquivo de memórias densas.

E eis que Wanda nos apresenta que, em sua cosmologia, o corpo como a soma destes dois vetores, a impermanência absoluta das águas e a permanência provisória do chão, e desta dualidade extrai uma tensão que ilumina a leitura dos poemas. O que unificaria no corpo essa dualidade? Não poderia deixar de ser o tempo, intervalo em que se estendem a permanência e a impermanência, e nada nesta poética é gratuito, porque o solo levado pelas águas até formar novo chão nada mais é do que a matéria da memória que estes poemas nos apresentam, memória que nos vêm segundo o ritmo mesmo do fluir destas águas. É deste jogo na linguagem que nasce a liturgia, a necessidade do trabalho sagrado sobre a matéria do tempo, esse fluxo inapreensível, e seu conteúdo milionário de significados. Cabe aqui compreendermos melhor os sentidos do termo liturgia.

A palavra liturgia tem origem na língua grega e é composta de dois elementos: leitos (público) e érgein (fazer). Juntando estes dois pelo radical e acrescentando a eles o sufixo formador de substantivos, temos leit-o-erg-ia ou leitourgia. Leitos deriva da palavra léos, forma dialetal de láos, que significa povo. Érgein é um verbo que caiu em desuso na época clássica, mas que sobreviveu no substantivo érgon (trabalho). De leitourgia derivou litourgos (servidor público) e o verbo litourgein (exercer uma função pública). De láos (povo) se originaram as palavras laico, laical, leigo. Assim, liturgia, liturgo, lutúrgico, laico, leigo, laical pertencem a uma mesma família de palavras, pois todos procedem da raiz láos ou léos, povo. Mas liturgia passou a ter também, em nossa cultura, um significado religioso: liturgia é o serviço público oficial da Igreja e corresponde ao serviço oficial do templo. Abrange, pois, todo o conjunto de funções oficiais, os ritos, as cerimônias, orações e sacramentos.

Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que o nome-síntese deste novo livro de Wanda Monteiro articule estes dois sentidos da palavra liturgia e a ponha em relevo: o laico e o sagrado como faces de uma mesma coisa, e podemos supor, sem muita chance de equívoco, que a liturgia é, para a poeta, o próprio poema — nele se irmanam estes dois aspectos da existência. É por isto que a voz que nestes poemas fala não pretende “deixar de comover-se com o mundo”, o mundo que vem na aluvião de suas sonoridades e sentidos, e, deste modo, nos co-move.

Nuno Rau é poeta, professor de história da arte e arquiteto, tem poemas em diversas revistas e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Edita revista de literatura mallarmargens.com desde 2012, e em 2017 publicou Mecânica Aplicada (poemas), pela Editora Patuá, que foi finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura.

TRECHO DO LIVRO

A linguagem poética talvez seja o último refúgio da humanidade. A escritura poética restará — mesmo — como tesouro arqueológico da remota paisagem dos sentidos e percepções do humano.

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras
===
pisar no auto-exílio

no exato quando do entreato
o tempo nos toma de assalto
parte-nos ao meio
aloca-nos fronteiriços
imersos no espanto

olhos no passado
olhos no futuro
o presente carregado de impossibilidades

I

em leito outrora fecundo
línguas ondas quebravam sonantes
ao toque da lira
no-ágora-do-outrora
só há espectros
mudo-surdos
habitantes de um deserto
seco e demente
de palavras

II

no gargalo da garganta
ergue-se um mausoléu de asas
em santo sepulcro de palavras aladas

III

que presságios trás a mudez
do flagelo verbo
fugitivo de um poema em chamas
?

Wanda Monteiro é escritora e poeta, uma amazônida nascida às margens do Rio Amazonas, no coração da Amazônia, em Alenquer, Estado do Pará. Reside há mais de 25 anos no Rio de Janeiro, mas só se sente em casa quando pisa no leito de seu rio. Seu livro A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

tânatos, do livro ‘A balada do cálamo’, de Atiq Rahimi

Capa - Balada do calamo.inddA Balada do Cálamo, de Atiq Rahimi. Tradução e notas de Leila de Aguiar Costa (Editora Estação Liberdade, 2018)

Imaginem, em seguida, o mesmo jovem diante da grandeza do mausoléu do Taj Mahal, um monumento como prova de amor que o imperador mongol Shah Jahan fez construir em memória de sua esposa Arjumand Banou Begum, falecida em 1631. Ela repousa aqui, no coração desta obra-prima arquitetônica que combina as artes islâmica, persa, otomana, indiana e italiana. De uma brancura etérea, este mausoléu é decorado com vinte e duas passagens do Alcorão em árabe, caligrafadas com pedras negras, magistralmente incrustadas no mármore. Nenhuma imagem de ser humano, nenhuma escultura está presente. Abstração absoluta, exceto os motivos florais. Aqui, a divindade é sem rosto, sem corpo, sem sexo, sem desejo… A única mimese que pode ser encontrada neste edifício é o reflexo do jardim celeste, como ele é descrito pelo grande místico árabe Ibn Arabi, em seu livro As iluminações da Meca, e sugerido por aquele verseto do Alcorão que embeleza o pórtico da entrada do mausoléu como que para acolher devotamente os visitantes:

Ó alma apaziguada! Volta para teu
Senhor satisfeito e agregado! Entra para
meus servidores! Entra em meu paraíso!

Que desafio para construir sobre terra a obra celeste de Deus, um paraíso para os mortos!

letra_atiq

Entre essas duas maravilhas do mundo, o jovem afegão vê diante de si abrirem-se duas vias distintas:

Uma convida a conhecer a divindade através da vida; a outra, através da morte.

Uma torna visível a Verdade; a outra a deixa invisível.

É então que ele compreende o sentido daquelas duas anedotas frequentemente ouvidas em seu país e na Índia:

Uma noite, todas as borboletas do mundo reuniram-se ao redor de uma vela para explicar umas às outras o segredo de sua atração pela chama da Verdade. Uma se levantou, voou, deu a volta em torno da vela e voltou para exclamar:

— Porque é luz!

Uma segunda fez o mesmo caminho e falou:

— Porque é quente!

Uma terceira:

— Porque dança, como nós!

Uma quarta:

— Porque é efêmero, como nós!

Uma quinta,

Uma sexta…

Enfim, cada uma teve sua própria interpretação. Com exceção da última, que se jogou na chama e morreu. Todas as outras então se disseram:

— Aí está a única que compreendeu por que, mas ela levou o segredo consigo.

Em seguida, esta outra, uma velha lenda indiana:

Houve um tempo em que todos os seres humanos eram deuses, todos seguravam a Verdade divina na mão. E dela abusavam. Brahma, o mestre dos deuses, não apreciou nem um pouco a arrogância deles. Decidiu então retirar-lhes a Verdade e escondê-la em um lugar que lhes seria inacessível. Mas onde?, interrogou Ele os deuses menores.

Um propôs:

— Enterremo-la!

Brahma refletiu, em seguida disse:

— Eles cavarão a terra e a encontrarão.

— Escondemo-la no fundo do oceano!

— Eles explorarão um dia as profundezas dos mares e acabarão por encontrá-la.

Desesperados, os deuses menores concluíram que não haveria parte alguma nesta terra para escondê-la. Brahma então disse:

— É preciso escondê-la o mais profundamente neles próprios, pois é o único lugar onde os homens nunca pensarão em procurá-la!

Meu jovem afegão preferiu buscar a Verdade no fundo de si mesmo e em sua vida terrestre, mais do que conhecê-la nos céus, após sua morte — uma busca incerta, quase inútil!

Entretanto, há algo de sublime que o fascina neste templo de Tânatos. Alguma coisa que nada tem a ver com a carga teológica do lugar. Ela forçosamente reside na coerência estética entre sua concepção, sua arquitetura, seu meio, sua história, sua matéria, suas cores, suas caligrafias… E tudo isso graças a uma perfeita simbiose de diferentes artes, oriundas de diferentes civilizações.

Do mesmo modo que os jogos e as jogadas geopolíticos as separam, a arte as reúne.
Ele deixa, pois, o mausoléu prometendo-se não mais pertencer a política alguma, a religião alguma. Ele gostaria de gritar aqueles versos que seu pai atribuía a Rumi:

Setenta e duas nações ouvirão de
nós seu segredo
Nós tocamos a ária de duzentas religiões
em uma única nota de nay

Foi essa a minha promessa de juventude. Mesmo assim, isso não me impediu de conhecer as religiões. Pelo contrário, ela abriu-me outra via para melhor apreendê-las. Com distância. E sem dogma.

Não buscava mais ali uma verdade, mas um segredo, aquele que engendrou toda divindade, toda crença, e que reside, desde a noite dos tempos, em nosso âmago.

Ele está aí,
no coração de nossos temores,
no limiar de nossas dúvidas,
no abismo de nossas falhas…
Ele aí está para me fazer dizer:
Sou budista, porque creio em minha fraqueza.
Sou cristão, porque confesso minha fraqueza.
Sou judeu, porque rio de minha fraqueza.
Sou muçulmano, porque combato minha fraqueza.
E sou ateu, se Deus é todo-poderoso.

| saiba mais sobre a obra no site da editora: [link] | outras obras do autor em português: [link] |

Atiq Rahimi (1962, Cabul, Afeganistão) iniciou sua carreira na França, após fugir de seu país durante a guerra civil na década de 1980. Formado em letras e cinema, participou da FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty em 2009. É autor de Syngué Sabour, Maldito seja Dostoiévski, Terra e cinzas, As mil casas do sonho e do terror, entre outros.

capítulo do romance ‘Desta Terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela’, de Ignácio de Loyola Brandão

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Capítulo disponível em PDF para leitura em [link]

Jovens negros, mulheres e periferia tem 73% a mais de chances de serem assassinados e estuprados.

CÂMERAS COPIAM OS VÍDEOS RESTAURADOS NO ESTÚDIO DE ANDREATO, HACKER QUE RESOLVE TUDO. COMO SE SABE, HOJE CADA UM TEM SEU HACKER PRIVADO, ASSIM COMO ENTRE OS ANOS 1950 E 1970 HAVIA O CONTRABANDISTA DE UÍSQUE ESCOCÊS; O TRAFICANTE QUE MARCAVA ENTREGAS EM PONTOS DIFERENTES E LONGÍNQUOS; O FORNECEDOR DE LSD; O CIRURGIÃO PLÁSTICO QUE RESTAURAVA HIMENS; A CAFETINA QUE AGENCIAVA MENINAS DE COLÉGIOS OU MULHERES DE PROGRAMA, SÓSIAS DE ATRIZES FAMOSAS, PARA EXECUTIVOS, EMPRESÁRIOS, HOJE CEOS, BANQUEIROS. EM DÉCADAS POSTERIORES VIERAM O DOLEIRO PARTICULAR; O TRAFICANTE DE DROGAS DELIVERY; O NEGOCIADOR DE DELAÇÕES — O QUE FIZ DE ERRADO E O QUE FUI OBRIGADO A FAZER? —, O ENTREGADOR DE PROPINAS EM CAIXAS DE SAPATOS, MALAS E PRINCIPALMENTE EM MOCHILAS; O LOBISTA SECRETO; O ASSASSINO DE ALUGUEL.

ENIGMA JAMAIS SOLUCIONADO DA HUMANIDADE

— Felipe, te cuida, não facilita. Aqueles vídeos estão bombando.

— Obras-primas.

— Para quem? Para os de cá, os Nós? E os Eles? Esqueceu? Acha que gostaram de terem sido expostos? Querem te comer o rabo.

— Só mostrei o que acontece.

— Quem quer saber do que acontece? Ou saia metendo o pau em tudo ou envie postagens estupidas com cachorrinhos, pratos caros, animais de estimação, tendências de moda, frescuras, bocetas depiladas. Acorda, amigo. A qualquer momento, batem na sua porta.

— A Federal?

— A Federal, o CSI, o FBI, a Polinter, a Interpol, Scotland Yard, a KGB, a Stasi, Marlowe, Poirot, o inspetor Maigret…

— KGB? Stasi? Isso é passado, coisas que acabaram. Só historiadores lembram.

— Tudo que a gente pensa que acabou renasce, fica congelado na história. Olha a censura, o medo, as patrulhas, a inquisição!

— Inquisição?

— Espere só para ver a forca dessas igrejas novas, o dinheiro que movimentam. Preste atenção nos tais Movimentos de Rua Pelo Brasil Democrático Avançando. Olha em volta! Ataques a exposições, filmes, teatro, homofobia, exorcismos pela televisão, o medo de Satanás…

— Os vídeos! Você consegue?

— Tudo se recupera no mundo tecnológico. Até um peido que você deu na infância vem com cheiro.

— Será que recupero o amor de Clara?

— Tira da cabeça! Marina, aquela amiga da qual ela não se desgruda, me disse que Clara nem pode ouvir teu nome.

— Os vídeos.

— Vai dar trabalho. Estão em algum arquivo nas nuvens. Sabe como sumiram? Veja só, as coisas somem quando interessam a Eles. Fui hackeado. Não é irônico? Um hacker hackeado!

— Vai conseguir ou não?

— Só quero lembrar, Felipe, que é foda. São centenas de papéis, o lobby dos cartórios é eterno, um país que não se move, medieval. Pedem até carimbos, imagine. Carimbos no final deste século. Vou apelar para a Lei de Translucidez, antiga da Transparência. Funcionários públicos demoram, há níveis variados de propinas. Vai ouvindo o velho Luiz Gonzaga, “O último pau de arara”: “A vida aqui só é ruim/ Quando não chove no chão/ Mas se chover dá de tudo/ Fartura tem de montão/ Tomara que chova logo/ Tomara, meu deus, tomara.”

Quatro horas depois:

— Consegui.

— Demorou pra caralho!

— A gravação é ruim, estragou nas transcrições. A tecnologia de ponta em nosso país é a pior do mundo, cara. Lenta, sujeita a qualquer tipo de hacker, como eu. A gravação é defeituosa, faltam palavras, cenas. O texto, pelo que se sabe, foi traduzido para não sei quantas línguas, do inglês ao quíchua, sindi, decani, panjabi, cearês, akan, curdo, e para as gírias de todas as favelas nacionais — mais de 20 mil, contando apenas as de grande porte, com mais de 100 mil habitantes… Olha aí! Já mandei.

Felipe abriu o arquivo. Gravações, semiarruinadas pelo muito que foram vistas/ouvidas por advogados, procuradores, desembargadores, advogados de acusação e defesa, ministros e juízes. Informações superficiais, às vezes confusas, do mesmo teor que as hoje chamadas Decanas Gravações Obtidas no Porão do Palácio do Governo em passado remotíssimo, que todos preferem não citar.

O narrador:

O Brasil foi catalogado entre os grandes enigmas de todos os tempos. Um desafio. Mistérios como a mente inacessível dos juízes; a existência da Atlântida; a realidade do sorriso da Mona Lisa; a vida depois da morte; as vozes gravadas no além; as duas notas dissonantes jamais percebidas na Sinfonia número 4 — Opus 60, de Beethoven; o cemitério das estrelas cadentes; por que neste país as pessoas importantes, gradas, com altos cargos, condenadas pela lei, nunca são levadas à prisão?; por que malas contendo milhares de reais em cédulas não são provas para a Justiça?; a bunda de um neném que despeja quando menos se espera; a queda dos cabelos dos anjos; as nevascas no deserto do Saara; o nascimento de crianças do quarto e do sétimo sexo e a verdade em torno da frase: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana”.

Há ainda a conclusão, que tem provocado batalhas entre intelectuais de níveis variados, foco de intensas discussões nos últimos 34 anos, e tida por muitos como um axioma: a comprovação de que 91% dos Astutos brasileiros — lembrem-se, antigamente dizia-se políticos — nascem despidos de valores morais, éticos e ausência de pâncreas e vasos linfáticos. Mais do que isso, não têm alma e consciência.

Consultorias históricas de renome internacional, aliadas a brasileiros de bom senso, contrataram auditores e analistas, mas eles embarcaram de volta, exaustos e perplexos, confessando que não há conclusão. Desolados, afirmaram que, mesmo usando modernos métodos e toda a tecnologia de ponta, jamais definiram que tipo de povo o brasileiro é, como conseguiu formar uma nação, o que esse povo quer, como age e vive. São desconhecidos seus projetos e sonhos e por que mantém tanto humor, picardia, talento repentista, ironia e aceita tudo. Principalmente por que e do que vive.

Uma coisa é segura, todos vivem à espera do que vai acontecer, sabendo que nunca acontecerá. Vivem do que gostariam que acontecesse. Há cinco séculos espera-se e adia-se a transformação de estruturas populares.

Comprovou-se que, a partir de certa época, 87,5% de nossos Astutos passaram a nascer sem o DiCPF, ou aquilo que a ciência conhece como o Córtex Pré-Frontal Dorsolateral, cuja função é inibir os impulsos perigosos que nascem nas partes mais retrógradas, preconceituosas, anticivilizatórias e criminosas da mente, eliminando consciência, ética, moral, dever, fidelidade, probidade, responsabilidade, credibilidade e sociabilidade. A extinção do DiCPF foi obtida após pesquisas ordenadas pelo último Ministério da Saúde que existiu no país. Ausente o DiCPF, deu-se o surgimento da primeira classe de Astutos — sempre com maiúscula —, que efetuou a Reforma Profunda da antiga política.

Essa reforma começou com as dissidências dentro das legendas. Descontentes se retiravam, formavam um partido próprio. Ou três, quatro, sessenta. Assim que formadas, surgiam novas divergências, sob o lema: fazer política é enriquecer e ganhar cargos? Dessa maneira, os partidos foram se multiplicando como bactérias nocivas.

Foram criadas legendas e mais legendas, em tal velocidade que, em pouquíssimo tempo, havia mais de mil partidos. Então, cada Astuto sozinho criou sua plataforma. As plataformas e propostas diferiam das antigas em dois pontos, um ponto e vírgula, quatro interrogações, dois advérbios não fóricos, seis orações substantivas em função apositiva e duas letras maiúsculas quando tudo indicava que deveriam ser minúsculas. A primeira parte determinava: os direitos do povo serão sagrados. Em seguida, vinham 666 páginas de discussão sobre o que é o povo.

Como cada facção podia indicar um candidato à Presidência da República, a possibilidade gerou a cobiça desenfreada, de maneira que, quando se viu, havia no Brasil 1.080 partidos, com seus líderes ambicionando o poder máximo.

Repassando, o Brasil teve 1.080 candidatos a presidente da República. No entanto, pode haver mais. De um momento para outro surge novo partido, novo candidato, os números flutuam. Esses dados vieram do trabalho de um grupo que se debruçou sobre a estrutura da Reforma Absoluta e Definitiva, posta em movimento um mês depois do impeachment sucessivo de 113 presidentes.

Foram anos de pesquisas, nas quais trabalharam milhares de professores em disponibilidade após a extinção do Ensino. Quando o governo desistiu de manter o Sistema Educacional, alegando que, para haver liberdade e poder formar a cidadania que leva à verdadeira democracia, cada um deve estudar como quiser, onde quiser, o que quiser, como puder, se puder, foi erguido o Monumento Comemorativo ao Fim do Ensino, no mesmo lugar onde foi construído em 1945 um moderno Ministério da Educação, hoje um destroço entre as ruínas do Rio de Janeiro.

Aliás, no Rio de Janeiro, que agora faz parte da Grande Nova Maricá, tornado país independente, após um movimento de libertação, notam-se fatos auspiciosos. Recuperadas as praias de Copacabana, Leme, Arpoador, Ipanema e Leblon, que por anos tinham se transformado em lixões, dos quais viviam milhares de pessoas, a música voltou às noites, barzinhos são reabertos. Sabe-se que a cidade, muito bonita, belíssima, mais do que isso, maravilhosa, terra de encantos mil, foi capital do país antes de Brasília, antes de levarem o Distrito Federal para Cruzilia, em seguida Uiramutã, Ponta do Seixas, Santa Vitória do Palmar até chegar à atual, Mâncio Lima.

As constantes mudanças, com consequentes gastos astronômicos, se dão por motivo de segurança, após o fracasso da tentativa de transferir a capital do país para Miami, sonho de alguns gestores. Graças ao bom senso de Portugal, a proposta de fazer de Lisboa a capital de um novo Reino Unido foi igualmente repelida por lusos bem pensantes, com medo de o vírus Corruptela Pestifera invadir o país e se propagar pela Europa, que ainda discute o Brexit 19.

O que se sabe é que depois de sucessivos impeachments na história do país, a classe Astuta e parte da população tomaram gosto e passaram a apoiar um impeachment atrás do outro. Para os parlamentares foi um alto negócio. A cada pedido de impeachment, o presidente acuado passava a comprar os votos, disfarçados em emendas necessárias ao desenvolvimento da nação. O impeachment tornou-se o negócio mais rendoso, com ações nas bolsas de Nova York, Frankfurt, Tóquio, Pequim, Dubai, Boliqueime.

A coisa chegou a tal ponto que se decidiu construir a Arena do Impedimento. Foi erguido luxuoso edifício para votações, com apartamentos para repouso, restaurantes, motéis, spas, camarins para maquiadores e cabelereiros para tingir cabelos, e muitos bares e botecos, sinucas, lotéricas, cassinos, uma vez que a Arena é terra de foro privilegiado, território fora do perímetro alcançado pelas leis.

Nesse prédio, certa época, havia labirintos estreitos, pelos quais passava apenas uma pessoa. Cada Astuto seguia, ultrapassava uma catraca, entrava em uma saleta. Ali encontrava um pacote de dinheiro envolto em papel pardo, cada vez acondicionado de forma diferente. Eram os pagamentos, subornos, propinas — como se dizia — por emendas, votos, leis e projetos. Essas salas secretas tiveram inspiração naquilo que na era terciária remota ficou conhecido como o Porão do Tuiuiú, ou tuiuguaçu, ou do tuiupara, ou do tuim-de-papo-vermelho. Desconhecem-se os motivos da denominação. Os votos contra os impeachments de presidentes custavam verdadeiras fortunas aos cofres públicos, equivalentes a 12 mil malas com 6 milhões de cédulas novas da Casa da Moeda. Estas também podiam surgir misteriosamente na casa dos Astutos na calada da noite, ou em dias de nevoeiro, tempestades de areia, sol inclemente em terras ardentes, quando ninguém sai às ruas, apenas cachorros e turistas ingleses.

Com o tempo, a maior parte dos Astutos perdeu a vergonha (também só usavam carros oficiais, triblindados, vidros negros), sumiram receios e temores, o medo da opinião pública e das prisões e os pagamentos passaram a ser feitos diretamente nos caixas drive-thru das lanchonetes das multinacionais, mediante senhas especiais, cobiçadas pelos hackers.

Para conseguir governar, cada presidente eleito recebe de imediato milhares de reivindicações de verbas, doações, obséquios, contribuições, vintenas, óbolos, espórtulas, gratificações, dotações, donativos, esmolas, recursos, dádivas, ofertas, tributos, o que seja, solicitadas por cada político, juiz, delegado, de cada estado, município, vilarejo, vila, comunidade, taba, povoado, capital, estância, arraial, aldeia, acampamento, quilombo, propriedade, lugarejo, condomínio, assentamento, subúrbio, antro, covil, viveiro, barracas de sem-terra, de sem-teto, de sem-emprego, de sem-vergonha, de sem-caráter.

Cada localidade/modalidade/gênero humano exigiu um representante na Câmara Alta. Assim, ganharam partidos os brancos, pardos, mulatos, amarelos, albinos, pretos, afrodescendentes, anões, verticalmente prejudicados, índios, padres e pastores, héteros e gays, lésbicas, virgens, semivirgens, banguelas, portadores de fraldas geriátricas, transexuais, assexuados, loiras, juízes, portadores de lábios leporinos, surdos, semigrávidas, mudos, surdos-mudos, diplomatas encanecidos, deficientes físicos e mentais, analfabetos, portadores de micro e macrocefalia, dores lombares, incontinência verbal, fecal, urinária, portadores de gonorreia e também os da doença de Huntington, o que se possa imaginar. Sem esquecer o número cada vez maior de indesejáveis, e agregados e associais, categorias nas quais você pode entrar de um momento para outro.

Por anos foram memoráveis as manifestações de rua compostas pela facção do Nós, em oposição aos Eles, havendo divisões como os Estes, os Aqueles, os De Cá, os De Lá, com banners, trios elétricos, kombis, memes, redes sociais, grafites, jingles, faixas de algodãozinho (os mais primitivos e pobres, os agregados), fuscas, bikes, vans, Porsches, Ferraris, Aston Martins, faixas, bottons, distribuição de sanduíches de mortadela, de salaminho, quentinhas com lagostas e escargots ou couve, linguiça e torresmo.

Essa a razão pela qual há 1.080 partidos e, portanto, também há 1.080 Astutos na Câmara Alta. A curiosidade é que existe presidente, mas não há vice. É o único país do mundo em que não há vice-presidente. Por causa da chamada Maldição do Vice, mistério que remonta ao final dos anos 2010. Há um medo terrível do vice, ninguém quer ser. Autores que se dedicaram ao estudo dessa maldição morreram misteriosamente de AVC, HPV, infartos, variados tipos de câncer, Corruptela Pestifera, lepra, hemorroidas. Assim como os antigos arqueólogos que no Egito abriram as tumbas dos faraós e acabaram morrendo, punidos pelo sacrilégio feito aos deuses.

Acrescentem-se os suplentes, os assessores dos Astutos e os agregados dos suplentes. Daí as centenas de megaedifícios construídos para abrigar a multidão de apaniguados, como assessores de imprensa, de imagem, personal stylists, personal trainers, médicos, dentistas, proctologistas, dermatologistas, homeopatas, assistentes financeiros, jurídicos, penais, leitores. Custaram uma fortuna, as estatais financiaram por meio do sistema de propinas Caixas 18, 23 e 27, legalizadas pelo Areópago.

O que se sabe é que a capital é um reduto protegido, vigiado. Os Astutos ali nada sabem do país. Não ouvem noticiários, não leem mensagens, o país não interessa a eles, a capital é uma ilha. Saliente-se que, a certa altura, o povo (seja o que quer que signifique), desiludido, passou a fazer pouco de tudo e de todos. Veio o afastamento das eleições. Abstenção total ou votos nulos ou em branco. No dia do voto, as salas ficavam às moscas, os mesários dormiam, o povo ia para as praias, spas, cassinos, bingos, concursos de videogame, casas de campo, Bariloche, Aspen, Mônaco, Creede.

Chegou-se a tal ponto que um dia houve 100% de abstenções e em lugar de ficarem indignados, buscando saber a razão, os membros do Areópago Supremo, que reúne os juízes da mais alta categoria, decidiram que a melhor solução seria o voto entre eles, nomeando o presidente. Afinal representavam o povo. Novos conchavos, confabulações, negociações. Venceu a proposta de se cancelarem as eleições e se escolher o presidente por turnos de 47 dias. Mal empossado, o presidente é processado por um tribunal. Por necessidade de transplante de cérebros já foram afastados 219 presidentes. A altura mínima de um presidente é, por lei, onze centímetros.

Sabe-se que desde o 113º impeachment, quando alguns juízes foram mortos pela multidão furiosa, construiu-se um novo Areópago, de granito negro, que poucos sabem onde se localiza. Sabe-se que há dezessete anos não se vê um único juiz dessa suprema casa. Não há fotos deles, para que possam viver uma vida normal.

Por outro lado, tornou-se impossível promover campanhas eleitorais, uma vez que não há mais uma só empresa, construtora, empreiteira, multinacional, termoelétrica, investidora financeira, laticínio, granja de pintos de um dia, engarrafadora de caldo de cana, fabricante de palitos de dente de plástico, de carta de baralho, iogurtes, orgânicos, biscoitos de polvilho, sacolés, bancos, lotéricas, pipoqueiros, apresentadores de cruzamentos, ensacadores de carvão para churrasco, food trucks, empórios, quitandas, padarias, feiras livres, falsificadores de aguas minerais, assopradores de camisinhas para transformar em balõezinhos, lavadores de carvão, enxugadores de gelo, limpadores de cu, produtores de saquinhos plásticos para apanhar bosta de cachorro nas calçadas, fabricantes de cachimbinhos de crack — faturam uma enormidade —, impressoras de boletos de jogos lotéricos (são mais de 40 mil jogos federais, estaduais, municipais, sem contar os ilegais), adulteradores de imagens sacras roubadas de museus e igrejas de Minas Gerais e da Bahia para serem entregues a receptadores, que se arrisque a contribuir, uma vez que os Sacro Tribunais Eleitorais vivem atentos, investigando as maneiras de chegar ao dinheiro que sustenta as bases políticas e as gastanças. O lema “siga o dinheiro” foi substituído por “siga o delinquente”.

Sabe-se que o dinheiro vem de formas nebulosas, misteriosas, labirínticas. Entre a extinta Brasília e Uberaba, em Minas Gerais, foram construídas centenas de apartamentinhos térreos, cada um pertencente a um político, nos quais, de tempos em tempos, aparecem misteriosamente malas com cédulas novas que não se sabe de onde vem, nem para onde irão, uma vez que se determinou que malas não são provas suficientes para processos.

O país parou. Mal há tempo para um presidente ser empossado. A cerimônia de posse demora dois dias, as festas são exuberantes, decreta-se feriado nacional, de modo que na realidade cada presidente governa por apenas 37 dias. Logo vem uma tarefa insana, a de desnomear os indicados pelo antecessor, analisar os pedidos de cargos públicos, receber as propinas dos indicados e dos indicadores, e renomear, fazer reuniões para organizar o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, centésimo escalão, e seu tempo está terminado.

Muitos entregam o governo com semanas de atraso, de modo que hoje ainda faltam 360 presidentes — o que significa um período de quarenta anos — até completar o círculo de 1.080 e se retornar à base. Quanto aos ministérios, vão se arranjando, fazendo aqui, ali, todo mundo se esqueceu deles, importante é sentar-se na cadeira presidencial. Cada presidente, assim que assume, comunica ao povo que o governo anterior dilapidou o erário, o mesmo tendo feito o anterior do anterior, e o anterior do anterior do anterior, até chegarem ao descobrimento e acusarem Portugal, cujo governo se indignou.

Para obter o silêncio e calar as manifestações de rua, criaram leis, distribuindo Bônus Filhos Legítimos, Bônus Indigentes, Bônus Loucos de Pedra, Bônus dos Brochas, Bônus Avós Mais Queridas, Bolsas Velhos Gagas, Bônus Compadres, Bônus Filhos Bastardos, Bônus Amantes, Bônus para Bundudas, Bônus Beijinho no Ombro, Bônus Chupa-Pau, Bônus Bocetinhas de Ouro, Bolsa Ex-Sogras, Bônus Filhodaputas, Bônus Cornos, Bônus Adúlteros, Bônus para Quem é Servo do Senhor, para Quem é da Milésima Igreja do Milésimo Deus, Deus do Mundo, Deus do Universo, Berço Esplêndido, Bônus para Quem Delata o Vizinho, o Amigo, o Parente, o Filho, o Pai, a Cunhada, o Padeiro, o Guarda Noturno, Quem Estaciona em Local Proibido, Quem Está com o Pneu Descalibrado, Quem Não Fez Cambagem dos Pneus, Quem Anda a Pé na Ciclovia, Quem Mija em Lugares Públicos, Quem Peida no Elevador, Quem Grita FORA ou Usa o Artifício de Dizer em Inglês, OUT, em público. As palavras em língua estrangeira são malvistas.

Foi criada A lista fundamental de palavras condenadas — que se renovam a cada segundo, como os antigos painéis luminosos de impostos que revelavam quanto os governos estavam ganhando com taxas. Atrevemo-nos a publicar brevíssima lista: boceta, vagina, perereca, mata-homem, periquita, xoxota, bater cana, boca em pé, caralho, caceta, rola, macaxeira de homem, maçarico, majestoso, cu, binga, pica, pirocão, foder, meter, chupar e milhares de outras.

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Tais listas são divulgadas em escala nacional pelas redes, telejornais e Polícia Federal. Proibidas definitivamente de serem ditas, usadas, citadas, mencionadas, sugeridas, pensadas, devendo ser extirpadas definitivamente dos dicionários, romances, contos, crônicas, notas, artigos, teses, reportagens, o que seja.

Além dos salários, cada político recebe os BNDES, ou seja, Benefícios Nacionais De Estímulos Sociais. São: mensalidade para alimentação; para o banho (sabonetes, óleos para a pele, cremes adstringentes, xampus); para transar, foder, meter; para combater artroses. Cada Astuto recebe uma caixa de cem camisinhas por semana. Há inclusive um negócio à parte dentro da Câmara Alta — porque no país o que mais há são os negócios à parte ou informais —, com Astutos que não usam mais camisinhas — porque brocharam com tanta cocaína e bajulação — e os que usam demais, para os quais a camisinha tornou-se moeda valiosa. Há a mensalidade do vinho, da vodca, da poire, da grapa, do Carpano, do gim, do leite para os filhinhos, da compra de castanhas-de-caju, do algodão-doce para netos e bisnetos, do salário de cozinheira, copeira, arrumadeira, faxineira, jardineiro, pintor de paredes, do ticket transporte, dos gastos com táxi, avião, do pagamento de férias, décimo terceiro, décimo quarto, quinto, sexto, vigésimo. Auxílio pé de moleque, ovo de galinha caipira, salsicha empanada, ovo quente colorido, medicamentos de qualquer espécie, verba para polir a prata, repor louça quebrada, comprar milho para os pombos de Veneza (se acaso o político viajar para aquela cidade), comprar lixas para polir unhas, papel higiênico suave para não assar os delicados traseiros, chicletes de hortelã para refrescar o hálito.

Sabe-se que os Astutos têm mau hálito tenebroso, o que contribui para a atmosfera poluída dos plenários. O fedor das bocas provém também principalmente dos discursos que fazem e das declarações de votos nos grandes momentos da história. O povo tomou gosto, e as transmissões em rede, quando das votações dos parlamentares, atingem normalmente 100% de audiência.

Os votos aos microfones da Câmara em geral não passam de demonstrações de ignorância, burrice, estupidez, demagogia, cafajestada, burrice, religiosidade, idiotices, cretinices, racismos, preconceitos, apedeutismos, miopias, incompetências, latinórios, disparates, despautérios, incoerências, asneiras, cacaborradas. Principalmente cacaborradas.

Há, todavia, uma esperança em uma questão fundamental, a estatura… Geneticistas vêm estudando as razões da diminuição da altura dos Astutos brasileiros. Estão abaixo do padrão dos pigmeus da Oceania ou da África Equatorial, que oscilam entre um metro e trinta e um metro e cinquenta. Os Astutos de nosso país estão na média de noventa centímetros e um metro e dez. Quando iniciam a carreira, tem altura normal, de um metro e setenta e cinco a um metro e oitenta e cinco — nosso povo vem crescendo. Assim que um sujeito entra na política, adere a uma legenda e recebe uma propina, perde dez centímetros. A cada nova propina, menos 2,1 centímetros. Há centenas de casos de Astutos que simplesmente desapareceram, tantas reduções sofreram. Mas todos preferem ser pequenos, tampinhas, do que ser honestos. Espera-se que a ganância tenha um efeito benéfico, provocando a extinção dos políticos. Digo, dos Astutos.

Há décadas não se vê um Astuto em público. Em casos extremos, utilizam sósias de altura normal. Cada Astuto tem direito a quatro sósias perfeitos, com um metro e oitenta e dois. São funcionários pagos pelo parlamento. Natural, os Astutos escondem-se para não serem agredidos, mortos. Diminutos, muitos foram pisados pela multidão, em fúrias ocasionais. Houve casos pitorescos de malas de dinheiro que caíram sobre um e outro, que se viram esmagados pelas propinas. Não circulam, não se deixam ver (como os supremos juízes do Areópago), ficam entocados em seus carros blindados, os vidros espessos cobertos com insulfilm negro, chegam ao parlamento por vias desconhecidas. Quando há alguma transmissão televisiva, são focalizados em close-ups. Acredita-se que muitos usam máscaras com rostos diferentes, como aquelas usadas por assaltantes em filmes. Tão perfeitas são essas máscaras, que nem mesmo os Astutos distinguem quem é quem dentro do parlamento.

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Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara em 1936. Jornalista e escritor, passou pelas redações de Última hora, Claudia, Realidade, Planeta, Lui, Ciência e vida e Vogue. Tem mais de 40 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, viagens (Cuba e Alemanha) e infantis. Entre seus romances mais conhecidos, estão Bebel que a cidade comeu, Zero, Não verás país nenhum, O beijo não vem da boca, Dentes ao sol, O anjo do adeus e O anônimo célebre. Seus livros estão traduzidos em inglês, alemão, italiano, espanhol, húngaro, tcheco e coreano do sul. Com o infantil O menino que vendia palavras, ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ficção de 2008. Em 2016, Ignácio de Loyola Brandão recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.