fragmento do romance ‘Elas marchavam sob o sol’, de Cristina Judar

Elas marchavam sob o sol (Editora Dublinense, 2021)

capa_sob_solMortas podem ser as pessoas, mortas podem ser ideias e revoluções enterradas às pressas, antes que floresçam e mudem definitivamente a ordem das coisas.

Mortas podem ser as mulheres, enterradas vivas pelo fato de não serem vistas, quando, de fato, elas são os planetas, as deidades, o fundo do mar, tudo o que é incontável ou impossível de se medir.

Uma lenda que trago comigo: em um passado remoto, havia uma velha, ela vivia em um deserto e soprava ossadas que encontrava pelo caminho. Havia velas acesas no interior do seu corpo antigo.

Ao despejar sobre as ossadas o calor das suas entranhas, a velha as preenchia com carnes e narrativas que delineavam formas nada correspondentes às necessidades de consumo dos homens.

Desertos são oceanos extintos: os esqueletos se transformavam em conchas e somente depois se tornavam corpos. Esse era o seu pequeno milagre.

Ela sempre se assombrava com o acúmulo de ossos sobre o chão. Em posições variadas, eram favoráveis ao reconhecimento de que haviam pertencido a mulheres.

A velha caminhava entre eles como quem não quer pisar em ovos, ela era uma jardineira de flores calcificadas. Naquele canteiro sem água, havia um registro raro e diversificado. A secura pode conter germinações e reter temporalidades, embora sejamos convencidos a acreditar no contrário.

Dia a dia, a velha regava suas joias inertes com o ar e o fogo, com um passear ritmado e um canto que, de tão rouco, parecia ter nascido no início do mundo. Naquele lugar em que todos os acontecimentos são ideias não projetadas na realidade linear, pólen em suspensão, raio de sol sem parada fixa. Ela observava as ossadas como se as acariciasse.

Exalava chamas e reconstituía o que estava perdido — não apenas os corpos, mas a beleza oceânica deles, aquela que está contida no movimento e os define na ausência de limitação, na geometria dinâmica das ondas, no cheiro do sal.

Elas marchavam sob o sol, lançado 4 anos depois de seu último romance, apresenta narrativa sobre aprisionamentos relacionados ao feminino e a corpos dissidentes. Saiba mais no [link].

Cristina Judar nasceu em São Paulo, é escritora e jornalista, autora do romance Oito do Sete, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano. Escreveu o livro de contos Roteiros para uma vida curta (Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e as HQs Lina e Vermelho, vivo. Seus textos curtos também figuraram em diversas antologias publicadas no Brasil e no exterior. Elas marchavam sob o sol é o seu segundo romance.

lançamento do Projeto Migra 2021

Capturar

Entre abril e outubro de 2021, mais de 80 escritores, artistas, cineastas, dramaturgos, ilustradores, pesquisadores e atores da sociedade civil participarão do Projeto Migra (2021) que visa, entre outros, estabelecer um diálogo transnacional e transdisciplinar sobre as vivências da migrância nos dias de hoje. Debates, leituras, jornadas acadêmicas, encontros com estudantes e lançamentos de livros serão organizados através de nossos canais Youtube e Facebook em parceria com diversas instituições brasileiras e internacionais. O conjunto das atividades compreende uma comissão organizadora composta por pesquisadores, docentes e atores do mundo cultural no Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

Todos os debates serão transmitidos de forma gratuita no YouTube e Facebook do Projeto Migra.

Próximo programa:

20 de abril às 11h do Brasil e às 16h da França e da Alemanha (em português, inglês, francês e alemão). “A comunidade errante: ensaios de literatura e exílio” (lançamento do livro em presença dos organizadores), com Keli Pacheco (UEPG), André Cechinel (UNESC) e Leonardo Tonus, idealizador do projeto.

O programa será atualizado mensalmente.

A gueto é uma das parceiras.
Saiba mais em: https://www.projetomigra.com/

três poemas de Ellen Lima

lima_capaA gueto publica com exclusividade três poemas do livro Ixé ygara voltando para `y’kûá (Canoa voltando pra enseada do rio), da escritora Ellen Lima, brasileira de origem na etnia indígena Wassu, que reside em Portugal e escreve em português e tupi antigo. Uma publicação da Editora Urutau (editora brasileira com sede em Portugal e Galícia).

“Tem uma força política muito grande publicar em Portugal uma escritora de origem indígena. É necessário divulgar os debates e as epistemologias produzidas por estes povos não só internamente, mas principalmente em Portugal, que tem a história entrelaçada a nossa, e mais ainda aos originários. A voz poética criada pela Ellen no livro remonta os sentimentos mais íntimos de uma indígena contemporânea não aldeada, trata-se da vida de milhares de pessoas que precisam lidar com a desumanização de seu povo ao mesmo tempo que entendem ser necessário reafirmar-se enquanto indígena mais do que nunca neste momento”, explica o editor Wladimir Vaz. A obra está disponível para venda no site da editora Urutau [link].

Retraterritorialidade

Há dias em que me retrato, e nada.
Há dias em que o retrato

retrata tudo que as lentes não sabem ler.
as dores, os amores, as saudades.
Às vezes até minhas outras três vidas.
Tem dias que o retrato mostra a moça Wassu.
E tem dias que o retrato é coberto por ilusões ocidentais.
Tem dias que sou, e nada mais.
Tem dias que… é só um rosto, vazio e mais nada.

Outro erro de português

Peró chegou e mandou que parasse o
nhen, nhen, nhen.
A-nhe’eng abé
Oro-nhe’eng também,
nhen, nhen, nhen,
nhen, nhen, nhen,
nhen, nhen, nhen.
De castigo, cortaram nossa língua
no tempo e no espaço.
Suspenderam os cafunés e abraços
da voz dessa mãe daqui.
Mas um dia,
ainda cortamos a tua língua
e oro-karu com abati.

ÍNDICE TUPI
nhen, nhen, nhen — é uma expressão popular na língua portuguesa que significa falatório ou murmúrio (quase sempre sugerindo que quem fala é monótono ou está a aborrecer o interlocutor). A expressão “deixar de nhen, nhen nhen” quase sempre sugere que o outro pare de queixar-se e execute uma tarefa que lhe foi dada.
nhe’eng — verbo falar em tupi antigo.
peró — português / homem branco.
a-nhe’eng — eu falo.
oro-nhe’eng — nós falamos.
abé — também / igual.
oro-karu — nós comemos / abati — milho.

Yby, ́Y,Ybytu, Tatá

Ixé ygara voltando para `y’kûá.
Ixé ybyrá de raízes que voam.
Xe r-oka é o vento,
Xe r-oka é a água.
A-guatá pelo mundo,
Às vezes longe de casa,
Às vezes perto de mim.
Xe r-oka é a terra
Da floresta, da ilusão do ocidente,
estrada, fumaça ou curupira.
Longe ou perto de casa
sou yby r-aîyra.

ÍNDICE TUPI
poranduba — pergunta / mamõ-pe ere-îkobé — de onde você é / onde.
você vive? / a-ikobé — eu venho / seu moro / pupé — em / dentro de.

Ellen Lima é professora, artista, poeta e mestra em Artes. Nasceu no Rio de Janeiro e é indígena de origem Wassu Cocal (Maceió-AL). Atualmente cursa o doutoramento em Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade do Minho, em Braga, onde mora.

jazz band na sala da gente, uma ode ao artista, por Ivam Cabral

jazz_band_capaJazz band na sala da gente, romance de estreia de Alexandre Staut, relançado, agora, dez anos depois pela Folhas de Relva Edições, é um livro que você deveria ler.

O enredo se passa em uma pequena cidade do interior paulista, Espírito Santo do Pinhal, nos anos 1940, precisamente no terrível 1945. A história gira em torno de uma família, pai judeu alemão e mãe italiana, donos da única funerária da cidade. O pai, Eduardinho Staut, flautista da Pinhal Jazz Band, vive às turras com sua mulher, a conservadora Ondina, que tem repulsa pelo trabalho artístico do marido. Como pano de fundo, a época de ouro da música, suas cantoras, o rádio e a perseguição aos judeus no fim da Segunda Guerra Mundial.

A narrativa da obra é construída através do olhar do filho do casal, também chamado Eduardinho, que não entende o ódio da mãe pela música do pai; nem porque sua casa é procurada pelo pessoal da cidade aos prantos e sempre em desespero.

Bonito como o autor trabalha as diferenças de personalidades entre o casal Staut. De um lado, a delicadeza e refinamento de Eduardinho; de outro, o temperamento da esposa, extremamente religiosa e questionadora da arte do marido que, na sua opinião, é para os desocupados.

Ponto alto do livro, os concertos secretos que Eduardinho faz para os filhos quando Ondina não está em casa. Enquanto a mulher se preocupa o tempo todo em procurar ajuda para mudar o nome da família — afinal, em tempos de perseguição aos judeus, ter um sobrenome semita não é lá visto com muita tranquilidade — o patriarca, que tem orgulho de seu sobrenome, “procurava mesmo era encher a casa de música”. Nesses dias, “o tempo parava quando o som da flauta invadia a casa”.

Eduardinho, que não cuida dos mortos, mas do “último suspiro dos vivos”, é uma personagem apaixonante. E Alexandre Staut constrói um livro que, além de ser uma ode ao artista, discute temas delicados como o preconceito, por exemplo. E é exatamente aí que Jazz band na sala da gente atinge seu cimo. A relação de Ondina com Buduçu, jovem negra que vem trabalhar com a família, faz parte desses bons momentos do livro. É de uma aspereza que primeiro impressiona, depois emociona.

O autor faz ratificação, ainda de que maneira discreta e subliminar, ao papel dos judeus no cenário musical mundial. Benny Goodman, Gene Krupa e Artie Shaw, só para citar três foram nomes importantes do jazz, considerada por muitos uma música de tradição puramente negra.

Alexandre Staut é autor de diversos livros, entre eles, Paris-Brest e O incêndio, além de ser o idealizador e o editor da revista literária São Paulo Review e da Folhas de Relva Edições.

Ivam Cabral é ator, diretor, dramaturgo e cineasta. É fundador da Cia. de Teatro Os Satyros, ao lado de Rodolfo Garcia Vázquez. É Doutor em Pedagogia do Teatro e Mestre em Artes Cênicas pela ECA-USP. Já recebeu inúmeros prêmios e escreveu dezenas de textos traduzidos para o espanhol e o alemão. Atualmente, acumula o cargo de diretor executivo da SP Escola de Teatro — Centro de Formação das Artes do Palco.

capítulo do romance ‘Descanso’, de Rafaela Riera

Selo Auroras, Editora Penalux 2020.

Capítulo 20: Eugênio Dahl

capa_descansoSempre fui um covarde para dor. Lembro quando caí da minha bicicleta, ainda moleque. A dor é instantânea, mas você demora para reconhecer. Entender que aquele queimado que de repente esquentou toda a sua perna e que transborda calor para fora dela é dor. Que o calor são seus nervos e o seu sangue expostos. Antes que você entenda isso, já caiu com o rosto na terra e rolou colina abaixo. E novamente, a dor é rápida, mas nosso entendimento é lerdo. Você não entende que a perna prendeu na correia, que a bicicleta tombou e você rolou agarrado nela. Sendo “esfaqueado” pelo guidão, pelo arame da roda e até pelo metal do freio que quase atravessa a palma da sua mão. Você só entende isso quando já parou de cair. Quando tenta mexer o seu corpo e nota que ele se fundiu no metal. Seu corpo é duplo. Foi só aí, vendo meu sangue empapuçar a terra que entendi que tudo aquilo era dor. Ela já existia antes de eu ser capaz de dar um nome para ela. Por isso que sei que a dor é a sensação mais primitiva de todas. E é por conhecer ela tão bem, que sempre fugi de um reencontro.

Por isso, me animei em ter uma morte bem longe dela. Mas até isso, esse mundo me negou. Durante dois anos tentei fazer meu requerimento para o Descanso. Foram cinco inscrições canceladas ou negadas. A morte pura não era para mim. Eles haviam decidido e eu não podia fazer mais nada além de esperar que a natureza tivesse a piedade que o homem não teve.

Quando sua primeira opção de morte é negada, você precisa arranjar outra. Mas não é fácil escolher algo assim. Principalmente quando todas as opções envolvem dor. No começo, tentei fazer longas corridas pelo bairro. Um coração tão acabado como o meu não deveria aguentar muito. Esperei um infarto, mas só me mantive saudável e vivo por mais tempo.

Pensei em veneno. Mas o desespero de ter meu estômago destruído enquanto vomitava o resto de mim não me pareceu algo muito bom. Lembrei dos ratos que comiam chumbinho na minha casa. Minha mãe tinha pena de recolher os corpinhos e meu pai nunca estava em casa. Era eu que pegava, um por um, e colocava na lixeira. Os olhinhos pretos estavam sempre esbugalhados. Não quero isso para mim.

Depois, pensei em me enforcar. Afinal, é uma das formas mais famosas de suicídio. Porém, imaginar meu pescoço quebrando enquanto luto para respirar é algo horrível. Além disso, me contaram que algumas pessoas se cagam ou se mijam quando morrem assim. Não. Muito deprimente.

Um tiro resolveria fácil. Mas imagina se eu erro! No lugar da morte rápida vou encontrar um labirinto de miolos e dor que preciso atravessar até achar a paz. Arriscado demais.

Estava quase desistindo, até que um dia, fazendo minha janta, a ideia perfeita surgiu. O fogão. É claro. O gás do fogão era tudo de que eu precisava. Fechei todas as portas e respirei fundo. Tossi várias vezes. Meu corpo amoleceu e eu senti um sono horrível. Mas os bombeiros entraram antes que eu pudesse vencer. Fiquei uma semana internado. E foi lá, enquanto lutavam para me salvar, que achei a minha parceira. Uma enfermeira novinha. Sempre que vinha até mim, me olhava bem demorado. Achei que era pena. Comecei a odiar sua presença. Até que me entregou um cartão.

“Eles podem ajudar o senhor”.

“No quê?”

“No que o senhor quer”.

Não esperava isso dela, com aquele jeitinho de boa moça.

“Você não deveria tentar me salvar?”

“Eu salvo quem pode ser salvo. Eu sei que o senhor vai tentar até conseguir”.

Só liguei para o número quando cheguei em casa. O homem que falava era seco e direto. Isso teria um preço. Um valor que eu não podia pagar.

“Não existe outro jeito?”

“Existe”.

E agora estou aqui, olhando essa porta. Achei que seria um lugar mais bonito. Soube que nos Centros de Descanso, as paredes têm girassóis pintados, grandes janelas e um jardim. Aqui, temos areia, cimento e uma casa que fede a bolor. Aperto a campainha e na mesma hora um homem aparece. Ele é tão grande que diminuo.

— Nome?

— Eugenio Dahl.

— O que você quer aqui?

— Comprar uma moto. Vi um anúncio. Falei com o Elder no telefone.

Era esse o código que eles me repetiram incontáveis vezes no telefone. O gigante me deixa passar. A sala é pequena e o corredor comprido. Atravessamos um lugar que um dia foi jardim e hoje é apenas areia. Meu fim vai acontecer na casinha dos fundos. É difícil dar esses últimos passos. Lembro de mim, pequeno, tendo que andar até em casa depois de cair no morro. Cada passo exigia a força de uma vida.

Assim que entramos na casa, me pedem para colocar uma camisola. Ela está amassada e me pergunto quantas pessoas a vestiram antes de mim. Vou até um quarto pequeno e ponho a minha roupa nova, estou com medo. E assim como a dor, eu só o percebo bem depois, quando já me dominou.

— Senhor Eugênio?

Uma moça de branco me chama. Ela me estende a mão como uma mãe e eu seguro forte nela.

— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com o senhor.

Finalmente terei o que quero. E eles terão o que querem também. Como não tinha o dinheiro, entrei em outra categoria de “serviço”. Não tomarei o remédio usado no Descanso. Serei sedado, como em uma cirurgia. E ali, apagado, meus órgãos serão retirados e entregues para quem tem dinheiro para comprar. Uns pagam verdadeiras fortunas para sobreviver, e outros fazem o mesmo para morrer.

Eu limpo as lágrimas com vergonha. Era o que eu queria. Pra que chorar? E no fim, ainda vou fazer o bem para alguém que quer a vida mais do que eu. Mas continuo tremendo. Vamos para uma nova sala, vejo muitas pessoas com roupas cirúrgicas. Todos me olham.

— Bom dia, senhor Eugênio. Sou o Dr. Montes. Vamos deitar?

Os dois me ajudam, as luzes são fortes e doem o olho. Uma outra mulher procura a minha veia. Não solto a mão que me segura. Penso que vou salvar uma criança. Até imagino uma. Loirinha, olhos claros e a cabeça branca cheia de cachos. Uma criança que vai poder fazer muitas coisas. Brincar, aprender e crescer. Ter uma vida melhor que a minha. Uma que terá um sentido.

— Senhor Eugênio, eu sou a Mônica. Vou colocar você pra dormir. Vamos fazer desse jeito: assim que o remédio entrar no seu corpo vamos contar juntos até dez. De trás pra frente. Me avisa quando estiver pronto?

Não existem girassóis. Nem jardim. Nem uma última refeição. A sala cheira a álcool e tudo é azul. Minha vida vai acabar. E eu venci a dor, ela não vai me alcançar. Vou morrer em paz. Solto a mão da enfermeira e agarro a de Mônica. Com a outra mão, ela segura a seringa conectada ao tubo que sai da minha veia. Meu coração bate bem forte. A sala toda se enche com o seu som. Não precisa lutar mais, passarinho. Em breve, você sairá dessa gaiola feita de ossos. E eu também.

— Pronto.

Sinto um gelado na minha veia que vai subindo até o fim do braço.

— Vamos lá, Eugênio. Conte comigo.

— Dez, nove, oito…

Rafaela Riera nasceu em Curitiba, em 1991, e vive em São Paulo. É formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Positivo e trabalhou como redatora publicitária por sete anos. Hoje, o que ela mais gosta de fazer é escrever, se dedicar à literatura, com o projeto Novas Clarices, e ser mãe da Helena, de quatro anos. Descanso é o seu primeiro livro.

Clarice Lispector, 100 anos

feliz-aniversario-clariceEm 2020, centenário de nascimento de Clarice Lispector, completam-se também 60 anos da publicação de Laços de família, seu mais célebre livro de contos. Para essa dupla comemoração, 27 ficcionistas brasileiros dialogam com a obra da escritora e a homenageiam, nesta coletânea que traz narrativas inspiradas em cada um dos contos de Laços de família. Intertextuais ou não, as recriações têm pontos de vista bem diferentes ou mesmo opostos. São, em geral, duas por conto de Clarice, uma escrita por mulher e outra por homem, quase sempre de estados e idades distantes, numa amostragem da rica e diversificada literatura brasileira contemporânea. Enriquecem o volume depoimentos de cada um dos autores sobre a “gênese dos contos”.

“Seja qual for o ponto irradiador, a escrita nova abre-se em perspectivas múltiplas, em que os laços de família e outros laços possíveis no campo das relações humanas são aqui revisitados na sua complexidade e no seu mistério. Eis um modo ao mesmo tempo instrutivo e divertido de se reinventar Clarice, numa demonstração de que seu legado, precioso, continua bem vivo entre nós.” (Nádia Battella Gotlib)

Autores: Álvaro Cardoso Gomes | Ana Cecília Carvalho | Anna Maria Martins | Beatriz de Almeida Magalhães | Bruna Brönstrup | Francisco de Morais Mendes | Guiomar de Grammont | Hugo Almeida | Itamar Vieira Junior | Jádson Barros Neves | Jeosafá Fernandez Gonçalves | Jeter Neves | Letícia Malard | Lino de Albergaria | Mafra Carbonieri | Marilia Arnaud | Marta Barbosa Stephens | Mayara La-Rocque | Raimundo Neto | Stella Maris Rezende | Rodrigo Novaes de Almeida | Ronaldo Cagiano | Ronaldo Costa Fernandes | Sandra Lyon | Tarisa Faccion | Valdomiro Santana | W. J. Solha

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Feliz aniversário, Clarice
Contos inspirados em Laços de família
Editora Autêntica, 2020
Hugo Almeida (Organização)

Em breve nas livrarias! Ou receba um aviso por e-mail quando este livro estiver disponível no [link].

infierno, de Fábio Mariano

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Comecei a trabalhar no buffet por acaso. Um amigo meu me ligara falando sobre a vaga, e era uma época na qual os buffets infantis apareciam em cada esquina de Cartago de uma semana para outra. De repente, então, a equipe de adolescentes mal remunerados de um deles evaporava, e era necessário pedir aos restantes que ligassem para seus amigos. Eu queria ter algum dinheiro — começava a descobrir que queria cozinhar, mas era impossível pedir os ingredientes que eu queria provar à minha mãe. Surgia, diante de mim, a chance de contornar o veto da inutilidade daquele gasto (a questão não era falta de dinheiro) pelo módico preço de tolerar algumas crianças por algumas horas e dormir mal algumas noites — nada que eu já não tivesse feito sem ganhar dinheiro algum.

Era a primeira vez que eu trabalhava, e minha intuição nunca fora muito boa, de modo que não compreendi por que meu amigo me deixava de canto para conversar com todos os outros. Ele me explicou que, ali, nos organizávamos em grupos: salgadinhos, bebidas, pula-pula, piscina de bolinhas e cama elástica. Mudávamos de grupo no meio da noite, e também de um dia para o outro, e quando as festas terminavam todos faziam juntos a limpeza e a organização. Como eu morava perto do buffet (ao contrário da grande maioria das pessoas, inclusive de meu amigo), ia embora a pé. Cumpria as obrigações e ficava no meu canto, sem conversar muito, e embora soubesse os nomes dos meus colegas, não tinha qualquer outra relação com eles.

Na quinta semana em que estava trabalhando lá, meu amigo me chamou num canto. Eu estava com os salgadinhos, e ele, com as bebidas. “Você percebeu?”, me perguntou, empolgado, sem que eu tivesse a mínima noção do que ele dizia. Vendo minha cara de dúvida, sussurrou “Do lado do pula-pula, mas olha sem dar bandeira”, saindo para levar mais uma bandeja cheia de copos de refrigerante. Enquanto alinhava as coxinhas na minha bandeja, repassei, um a um, os rostos da festa. E quando estava para decidir que nada me era familiar percebi que havia, de fato, algo no rosto daquela moça ao lado do pula-pula. Só aí o sorriso que se estampava no rosto de meu amigo me contagiou.

A moça era Amanda Sky.

Terminado nosso serviço, meu amigo me pediu que ficasse. Disse que fariam uma festinha na casa de um dos meninos. “Vão todos: o Tigão, o Pingo, a Babi, a Isa, o Dedé…”, e depois, sussurrando para mim, “tenho certeza de que a Isa vai”. Eu, que nem reparara direito em quem fosse a Isa, tomei aquela informação como crucial. Perguntei a ele o que eles comeriam. “Sei lá, pedimos alguma coisa”. Minha reação imediata, antes que eu pudesse me controlar, foi perguntar se eu poderia cozinhar. “Acho que vai ter muita gente”, ao que respondi “Para mim é perfeito. E eu banco”. Meu amigo foi até André, o dono da casa, e confirmou minha autorização.

Pingo me disse que me daria uma carona até o mercado — iríamos os dois. No caminho, me informou que o André tinha gostado de eu bancar tudo, mas que, se eu precisasse, eles também ajudariam. Pensei que não seria necessário, mas no fim, acabei me excedendo um pouco. Não que eu tivesse comprado nada caro, mas pensei que não poderia faltar comida. O resto do dinheiro que estava com Pingo, que era da vaquinha do pessoal, foi para as bebidas.

Quando chegamos à casa do André me dirigi direto à cozinha, sem pegar nem mesmo uma latinha de cerveja. Os pais dele tinham viajado, e a casa era grande e cheia de livros. Ali, dois amigos dele de outro lugar já estavam sentados em dois pufes discutindo calorosamente sobre Marx, Nietzsche e Darwin; e enquanto um deles falava alto, mas sóbrio, com movimentos de mão firmes e bem desenhados, o outro parecia se atropelar, como se as ideias fluíssem em sua cabeça a uma velocidade muito maior do que a das suas palavras, de modo que, se não era um gaguejo, havia uma espécie de interrupção abrupta no meio de suas frases. Era óbvio que os dois eram muito amigos, e decidi que eles seriam as primeiras pessoas que eu serviria, se eu pudesse escolher. De dentro da cozinha ouvia uma voz esganiçada tentando cantar e uns dedos desajeitados tentando tocar violão, que foram imediatamente substituídos por alguém que só podia estar bêbado havia muito tempo, embora tocasse e cantasse com perfeição. Enquanto preparava espetinhos de muçarela de búfala envolvida em bacon usando como espetos os ramos de alecrim, macarrão com queijo e abobrinhas e tomates recheados, fui aos poucos perdendo o contato com o que acontecia ali dentro. Cruzou minha cabeça o olhar de Amanda Sky, se ela gostaria dessa refeição… Como passei a segunda metade do serviço na piscina de bolinhas (o que me permitiu um ponto de observação privilegiado), percebi apenas o amor dela diante de uma criança que obviamente não era sua filha, e seu olhar, tão diferente daquele ao qual eu estava acostumado a ver nos vídeos. A voz, no entanto, era inconfundível.

“Não era ela?”, disse meu amigo, irrompendo na sala com o braço enlaçado na cintura de Tigão. “Era óbvio que era ela, estou falando!”. Os dois debatedores entraram na cozinha, o mais calmo dizendo, “impossível, cozinheiro, é isso mesmo? Vocês viram a Amanda Sky hoje? E não fizeram nada?”, “e iam fazer o quê, ô, o que você acha, né, que eles iam, sei lá, perguntar se ela tava sem calcinha?”, questionou o outro, ao que todos rimos. Antes que eu pudesse confirmar, percebi que eles haviam saído da cozinha. André veio até mim, então, me perguntando se estava tudo bem e se eu precisava de algo. Me abriu uma lata de cerveja antes que eu pudesse responder — eu respondia às panelas –, me abraçou e agradeceu por eu estar lá. Disso me lembrou bem: ele não me agradeceu por estar cozinhando; me agradeceu por estar lá. Tomei um gole da cerveja, agradeci, pedi que ele levasse alguns espetinhos já prontos para a sala e continuei.

Alguns segundos depois, ouvi uma voz dizendo “você não tem nada para mim?”. Olhei para a mão que se apoiava no balcão da cozinha. Era a mão de Amanda. Aquela mesma mão, com o mesmo esmalte, os mesmos dedos tortos, aquela mão que eu reconhecera imediatamente ao olhar Amanda erguer sua sobrinha ou afilhada ou a filha de sua melhor amiga até o pula-pula. Mas a voz não era a de Amanda; era a de Isa, que me perguntava se eu cozinhava alguma coisa que não tivesse bacon, “ou nenhuma carne, na verdade”. Puxando um prato que não sabia se poderia usar (àquela altura eu sabia que isso já não fazia a menor diferença), montei com o macarrão o prato mais bonito que pude — que, obviamente, não era nada demais. Isa riu um pouco do meu esforço, agradeceu pegando na minha mão, e ia saindo dali olhando para mim, quando pedi que ela esperasse. Adicionei um tomate recheado ao prato. “Não tem carne nenhuma também”. Ela me olhou, como se não entendesse o que eu dizia, mas sorrindo, e ainda sorrindo foi embora.

Depois de cozinhar, me lembro de pouca coisa. Liguei para casa dizendo que dormiria na casa do amigo que me arranjara o emprego — embora obviamente fosse dormir ali mesmo, se pudesse, e não estivesse muito preocupado com isso. E então, com todos elogiando minha comida, me lembro de declarar que eu teria um restaurante, onde, um dia, todos eles iriam. “Vai se chamar Sky”, disse uma voz (a memória se turva aqui) ao que um outro respondeu que isso seria muito comum. Houve risos. “Se eu botar esse nome, vou ter que convidar a Amanda”, disse finalmente. Não me lembro de tudo o que tomei. Lembro-me, sim, da corrida até o banheiro, e das mãos de Isa em algum momento. Foi um dos dias mais felizes que vivi.

No dia seguinte faltei à escola (coisa que nunca fazia), e, chegando em casa no meio da manhã, pensei em como iria me justificar. Minha mãe estava sentada na mesa da sala, mas meu pai a acompanhava — o que, via de regra, não deveria acontecer. Ele olhava para baixo como quem houvesse sofrido uma derrota. O rosto de minha mãe estava enfurecido, e me preparei para uma bronca como nunca havia tomado, para uma expulsão de casa, para qualquer coisa. Mas minha mãe esfregava nervosamente as mãos nas coxas enquanto tamborilava os dedos. Seu olhar era descrente e cansado. Meu pai havia sido agraciado com uma escolha. Deveria se transferir para o escritório de Buenos Aires ou então procurar outro emprego. Ele aceitara a transferência. Minha mãe se separaria dele um ano depois, voltando para o Brasil — para Cartago — no dia da assinatura dos papéis do divórcio.

Liguei para meu amigo dizendo que não trabalharia mais no buffet. Ele entendeu, e nunca mais nos falamos. Fiquei em Buenos Aires com meu pai e lá estudei gastronomia. Lembrava-me sempre dos dois debatedores daquela festa ao ver os argentinos discutindo sua política e suas letras. Continuei cozinhando, estagiei com o mais famoso dos chefs argentinos, fiz carreira. Visitava minha mãe, que agora se orgulhava de ter um filho chef, com frequência. Ela ia bem, se casara de novo e entrara no ramo imobiliário. Continuei, também, acompanhando a carreira de Amanda Sky, quase sempre de passagem. No ano da festa ela ganhara um prêmio de melhor atriz pornô do mundo, o que a levara, por um breve período, aos Estados Unidos. Mas talvez, como minha mãe, ela sentisse falta do Brasil — nunca soube se ela morava em Cartago ou estava só de passagem — e me lembro de ter visto mais uma porção de vídeos dela. Num certo momento, no entanto, ela desistiu da carreira, e conseguiu trabalho em algum canal de TV. De uma certa maneira, ela se recusou a envelhecer no cinema pornográfico e seguir o caminho comum, botar silicone e passar a fazer filmes nos quais seu papel é o da mulher mais velha. Creio que ela foi fazer um curso para trabalhar na parte da produção, mudar de vida. Fui tentando pescar notícias, mas era difícil. Eu mantinha um arquivo no computador no qual digitava o que encontrava, mas num certo momento desisti. Pensei que nunca mais a veria.

Quando tinha juntado algum dinheiro, e estava com tudo pronto para buscar um estágio na Europa, meu pai me disse que eu deveria abrir meu próprio restaurante. Ele e minha mãe haviam conversado sobre isso quando eu decidira me tornar chef, e haviam guardado dinheiro sem que eu soubesse desde então. Ele me disse, no entanto, que isso não poderia acontecer em Buenos Aires, porque o tumulto político, as constantes desvalorizações da moeda e as crises sucessivas tornariam meu negócio muito vulnerável. Também me disse que estava de mudança para a França, onde eu poderia, se quisesse, ir visitá-lo e fazer meu estágio. Foi assim que retornei para Cartago e abri, lá, o Cielo.

Como já saíra do Brasil havia muito tempo, não esperei ninguém conhecido na inauguração — e estava certo ao pensar isso. Mas duas semanas depois da inauguração, o dono da casa, André, e Isa, vieram ao restaurante. Por sorte tive de atender uma dúvida de meu sommelier, de modo que pude reconhecer as mãos de Isa — pensando, primeiramente, que eram as mãos de Amanda. Fiz questão de ir até os dois e de enviar a eles uma entrada especial. Era algo que só entraria no cardápio algum tempo depois, um conjunto de três tomates recheados diferentemente — nenhum deles levando qualquer tipo de carne. Isa compreendeu. Pensei em pedir aos dois que me esperassem até o fim do serviço, mas achei melhor convidá-los para chegar mais cedo no dia seguinte, uma hora e meia antes que o restaurante abrisse. Eles vieram, e conversamos muito. Esclareceram que, originalmente, deveriam ter vindo os dois debatedores também — João e Marcelo eram os nomes deles — mas os dois estavam fazendo seus doutorados na Alemanha. André me contou que Pingo havia morrido dois anos antes de leucemia, e que meu amigo, pouco tempo depois, fora demitido do buffet e brigara com todo o grupo. Babi se tornara produtora no jornal local.

Ao saber daquilo, não pude me conter. Pedi logo o telefone de Babi, mas sabia que minha esperança podia ser infundada. Ofereci aos dois que jantassem novamente no restaurante, dessa vez sem pagar, e embora eles tenham aceitado o convite para o jantar, fizeram questão de pagar. Pude presenteá-los, ao menos, com uma garrafa de vinho. Antes de ir, Isa me mandou uma mensagem me dizendo que fora muito atencioso fazer um prato em homenagem a ela, e que Babi estava de licença maternidade, afastada do trabalho. Isa era a madrinha de sua filha.

O contato com Babi não foi de todo infrutífero. Consegui descobrir que Amanda G. S. de C., a pessoa que eu procurava, havia trabalhado com ela por um curto período de tempo. Por algum motivo não parecera se adequar — Babi chutava que o chefe canalha das duas estivesse por trás da demissão da colega. A coisa toda ocorrera no meio de uma série de cortes que a emissora fazia, então era difícil definir o que era arbitrariedade e o que era necessidade, ou ainda quem estava sendo retaliado. “Havia menos retaliações naquela época do que hoje, com certeza”, ela me disse, “e pode apostar que vai haver mais nos próximos anos. É uma época difícil para ser jornalista, e eu e a Lili estamos pensando em dar no pé.” Perguntei se alguma das duas falava francês e, tendo sido informado que o francês de ambas era muito melhor que o meu, enviei a elas o contato de meu pai, que talvez pudesse ajudar. As duas se mudaram com a filha para a França uns dois anos depois.

Continuei conversando com Isa por algum tempo, majoritariamente por mensagens no celular. Houve um hiato, no qual ela teve um namorado e, portanto, não nos falamos mais. Mas depois recebi uma nova mensagem dela e retomamos a troca normalmente. Eu estava tão imerso no trabalho que, talvez, não tenha percebido o quão chateado eu ficara. Meus cozinheiros me dizem que eu era intratável naquele período, mas contam isso agora em tom de brincadeira. Antes que ela arranjasse esse namorado, me perguntara uma vez — também em tom de brincadeira — se eu havia convidado Amanda Sky para a inauguração. Nunca soube se, naquele momento, ela sabia de minha conversa com Babi. Neguei, adicionando que não pude encontrá-la, mas que, se pudesse, teria enviado o convite.

Quando o restaurante fez três anos, tirei as primeiras férias. Eu percebia uma mudança no perfil da clientela, e conforme eu me consolidava, crescia meu medo do tipo de conversa que circulava ali dentro. Babi já havia ido embora, e eu pensava no quão bem fizera. O número de casais homossexuais começou a diminuir sensivelmente, e eu mesmo tive de expulsar um grupo de seis clientes que ofendera um casal assíduo. Eu virara manchete de jornal na cidade — Cartago tinha dessas coisas — e minha mãe, por sorte, sempre me apoiara. O Cielo se tornava mais famoso, e pessoas de outras cidades começavam a fazer reservas. Eu crescia, mas tinha medo. Foi então que decidi chamar Isa para ir comigo à França, visitar meu pai. Ela me perguntou o que aquela viagem significava. Eu disse que não sabia, ao que ela respondeu que, quando eu soubesse, podia convidá-la. Sem mágoa, e com razão, creio.

Antes de entrar no avião, procurei por ela. Talvez por ter visto séries ou filmes demais. Meu susto, ao ver alguém que falava nervosamente no celular, ao ver suas mãos, foi tanto que pedi, por um momento, que a moça da companhia aérea esperasse. Obviamente não era Isa. Mas antes que eu pudesse perceber a diferença da cor dos olhos, dos cabelos, da voz, o que percebi foi o olho roxo, o braço enfaixado, o nervosismo. Amanda G. S. de C. tremia. Sem maquiagem, vestindo roupa de frio, Amanda estava ali, e era a minha chance de convidá-la para o restaurante. Seu nervosismo se intensificava, ela olhava ao redor, e tive a impressão, a nítida impressão, de ver que homens a olhavam de pontos diferentes daquele saguão. A moça da companhia aérea ralhava comigo — eu nem conhecia Amanda G. S. de C., e nem mesmo Amanda Sky — mas eu precisava ir até lá. Amanda, então, parecendo mais calma, se dirigiu a outro portão. Os homens a seguiam com o olhar. E eu tive de entrar, tive de entrar no avião.

Amanda nunca foi ao Cielo. Nunca mais a vi. Mas sei que é a história dela, e não a minha, a que deveria ser contada.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP. É autor de O Gelo dos Destróieres (Contos, 2018) e Habsburgo (Novela, 2019), ambos pela Editora Patuá. Numa parceria entre Patuá e Ofícios Terrestres, publica agora Ruído Branco (Contos), uma realização do ProAC 2019, no qual se encontra “Infierno”.

quatro poemas do livro ‘o movimento dos pássaros’, de Micheliny Verunschk

capa_passaros

* * *

Toda superfície serve à palavra
o vidro da manhã por exemplo
ainda que úmido pelos humores da noite
e quebradiço por sua natureza fractal
ainda assim serve à palavra.

Serve à palavra a pedra da tarde
sua face rugosa e irregular
sua porosidade que leva
ao centro dela mesma
toda tinta toda dor e flexão.

Toda superfície serve à palavra
mesmo o voo da noite
insubmisso e imprevisível
suas asas negras compondo fúria e ventania.

A palavra
ela vem
ela é.

sobre o poema

Não necessito de outro chão
para andar
que não este poema.

A pedra do vocábulo
que ultrapasso
fere meu dedo
com seu aguilhão de zargun.

Este poema
território aberto
para além do mapa.

este poema
me alerta.

a porcelana de todas as coisas

para Assionara Souza

o pássaro retirado das garras do gato
sua pequena vida paralisada por um instante
paciente e forte
sem compreender o curativo precário
sobre o estômago delicado
pedrinhas e sementes à vista
o vermelho vibrante do sangue
e talvez um raio do sol de inverno
o atravessando.

hoje morreu uma estrela
gás e poeira em direções opostas
a mais de um milhão de quilômetros por hora
supernova que alimentará outros grupos de estrelas.

eu sei que o anjo da morte inventou essa tristeza de ser gente
e de saber da porcelana de todas as coisas.

mas o pássaro voou apesar da ferida
e a luz da estrela brilha sobre nós em nossa frágil eternidade.

sobre o antipássaro

essa caixa de guardar absurdos.
essa caixa de gerar esquecimentos.
essa caixa de ossos e lamentos.
essa caixa labirinto de ventrículos.
essa caixa de caminhos esquecidos.
essa caixa de linhas esticadas.
essa caixa de tudo tão pesada.
essa caixa essa caixa essa caixa.
teu nome dentro dela uma ave.

uma ave a bater desencontrada.

| poemas do livro o movimento dos pássaros (Martelo Casa Editorial, 2020), em pré-venda no [link]. |

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. Foi membro de vários corpos de jurados de concursos literários brasileiros, entre eles o Prêmio Jabuti e o Prêmio Sesc de Literatura.

primeiro capítulo do romance ‘Você me espera para morrer?’, de Maria Fernanda Elias Maglio

SEIS ANOS

Ilana arranca um chumaço de grama e coloca na panelinha vermelha, despeja um pouco da água que está no pote de margarina, mexe com um graveto, tá pronto o papá, nenê, agora come. Fala com a boneca de olhos vidrados de azul, o rosto rabiscado de caneta, um tufo de cabelo amarelo, quase branco, saindo do alto da cabeça. A boneca não tem roupa nenhuma, ainda assim não está pelada, porque não tem o que faz menina estar pelada. Abre as perninhas de plástico e olha: nenhum risco, nenhuma coisa escondida. Desce a saia e a calcinha até a altura dos joelhos, abre as pernas que não são de plástico e olha: o risco e as coisas escondidas. Encosta o indicador em algo que lembra um botão, o corpo se retrai, em seguida ela ri, sem barulho. Toca de novo e dessa vez nem se contrai, só o riso que ninguém ouve. Escuta a voz da mãe na cozinha e puxa saia, calcinha, a boneca ainda de pernas escancaradas, sem nada para mostrar, a comidinha de grama ao lado, nenê danada, nem comeu o papá. Leva o indicador embaixo do nariz e sente o cheiro do lugar que a mãe chama de lá. A mãe diz, lava direitinho lá, tem que lavar bem lá pra não cheirar, e sempre cheira, não importa o quanto sabonete esfregue (e é bom esfregar lá), sempre um cheiro de uma coisa que ela não sabe. A irmã tem o mesmo lá e ela queria perguntar, Line, quando você passa sabonete lá, fica cheiro de sabonete?

Mistura o resto da água do pote de margarina na terra, enrola brigadeiros de lama, pensa em fazer um bolo, uma festa para a filha que não tem lá.

Aline chega e diz, posso brincar, Lana? Ã hã, Ilana responde. Aline é mais alta, a tia Dodora sempre fala que nem parecem gêmeas. Todo mundo diz que Aline aparenta ser mais velha, até os tios de São José dos Campos que vieram no natal passado, uma mesa bonita com uva, azeitona espetada no palito, mortadela, cereja, pensa em cereja e lembra do bolo de lama. Diz para a irmã, tem que fazer um bolo, Line, é aniversário da nenê. Aline olha a boneca no cimento, as pernas para cima formando um triângulo sem fechar, os pés apontando para o céu sem nuvens, essa boneca é muito feia, Lana, faz de conta que é o nosso aniversário. Ilana não gosta que a irmã tenha dito que a filha é feia, porque ainda que seja feia, é filha. Queria que a mãe pensasse assim também, que, ainda que os cabelos sejam grossos e as unhas roídas todas, é filha. Pega a boneca do chão, a pele de plástico quente do sol, dá um abraço e cochicha: você é bonita, nenê. A mãe nunca diz nada dessas coisas, só fala, vem almoçar, vem jantar, vai tomar banho. A tia Dodora sim, fala umas coisas que dá vontade de chorar, mas não é de triste, ela diz, você parece uma princesa, Lana, quer um leite com chocolate, faço um quentinho pra você. Se a tia Dodora fosse a mãe, certeza que ia contar o nome verdadeiro do lá.

Aline está com a mão direita mergulhada no balde azul, mexe o punho como se fosse colher, estou fazendo o nosso bolo, Lana, vai ter três andares. Ilana toma coragem e pergunta: como chama de verdade o lá, Line? Aline diz, lá onde, Lana? O lá de menina e aponta o indicador roído para o meio das próprias pernas. Ah, chama perereca, não sabia? Ilana faz, ã hã, para encerrar o assunto com a irmã, precisa pensar, perereca, perereca. Ela tem medo de perereca, quando aparece uma no banheiro do sítio, corre e chama a tia Dodora, o tio Valter diz, não faz nada, Lana, é só bicho da natureza. Agora não vai ter mais medo, porque perereca é bom da gente colocar o dedo e uma vez colocou um batom dentro da calcinha, encostando no botãozinho, passou o dia inteiro e uma hora a mãe desconfiou, porque Ilana cruzava muito as pernas. A mãe deu bronca e puxou o cabelo com força, onde já se viu botar as coisas lá, deixa seu pai te pegar de sem-vergonhice. Ela gosta quando o pai não está em casa, só a mãe, o cheiro da cebola fritando no óleo, melhor ainda quando ela e a irmã estão de férias no sítio, sem a mãe, nem o pai, a tia Dodora mexendo doce no tacho, ariando panela, o tio Valter cuidando dos porquinho bebês, cavoucando a terra para mostrar minhocas, olha essa que bitela, parece cobra, e Aline pergunta para o tio como elas não sufocam debaixo da terra e o tio Valter explica que a terra é o ar delas.

Aline terminou o bolo que seca ao sol, uma vela de graveto espetada na lama, será que boto umas folhas, Lana, pra enfeitar? Ilana faz, ã hã, e continua enrolando os brigadeiros, tem um monte, tenta contar, mas se perde, não sabe o que vem depois do dezessete, acha que o dezenove, mas não tem certeza. A mãe grita, vem almoçar, e Aline diz, vamos cantar parabéns bem rápido, Lana. Em um minuto cantam parabéns, dizendo, viva a Lana, viva a Line, sopram a vela, sem fogo nenhum, e juntas seguram um pauzinho para cortarem o bolo. Aline sussurra no ouvido da irmã, vamos fazer um pedido, Lana, um só pra nós duas, e Ilana pergunta, o que a gente pede? A gente vai pedir pra uma não morrer antes da outra.

* * *

Estão sentadas, já lavaram as mãos e os braços, o pai não gosta de sujeira na hora da refeição. A panela está na mesa, o que tem dentro é macarrão, porque hoje é domingo, a mãe fez laranjada e salada de tomate com orégano e óleo. A mãe não abre a panela e nem serve a laranjada para as meninas, porque o pai ainda não sentou. A porta do banheiro encostada, escutam o jato de urina caindo na água da privada, um jorro contínuo e depois duas golfadas, barulho da descarga, torneira aberta. O pai senta e não diz nada, ainda tem sono nos olhos e na roupa amarrotada. Ilana pensa que deve ter dormido de roupa, ouviu a mãe contar para a tia Dodora que de sábado o pai chega para amanhecer o dia e deita de roupa e tudo, sem nem lavar os dentes. Ilana não sabe o que a tia Dodora respondeu, passou um caminhão na rua bem na hora e quando acabou o vrum de tremer as paredes, a mãe já tinha voltado a mexer o arroz doce e a tia falava, o cheiro tá bom, Ana.

O pai tem a boca tão cheia que é preciso abri-la para dar conta de engolir a comida. Ilana olha com o rabo do olho a boca do pai muito aberta, os dentes do fundo pintados de prateado. A dentista em que a mãe levou chama de estrelinha, Ilana tem uma e Aline, três. Doeu muito para pintar a estrelinha no dente, antes uma máquina com barulho de abelha fazendo zuuuuuuuu e abrindo um buraco, a dentista dizendo, peraí que o bicho tá saindo, e um cheiro que não é de lugar nenhum, Ilana pensou que pudesse ser de osso. O tio Valter contou que dente é osso, mas ela acha que não, porque osso fica escondido na carne e dente aparece quando a gente ri ou enche muito a boca de macarrão.

A mãe recolhe os pratos, copos, a jarra com três dedos de laranjada e diz, vão brincar, sem barulho, o pai foi descansar. Aline fala, vamos desenhar, Lana, eu faço um desenho de bicho e você adivinha, depois a gente troca. Ã hã.

* * *

Aline desenhou leão, girafa, cachorro e jacaré e Ilana só não adivinhou o jacaré. É a vez de Ilana desenhar e a ponta do lápis vermelho quebrou, justo quando desenhava a asa da borboleta e Aline não sabe ainda que é uma borboleta, era só o começo do desenho, pega apontador, Lana, tem um na gaveta do telefone que eu vi.

Não tinha nenhum apontador na gaveta, só duas bics azuis, uma lista telefônica, três clipes, um pedaço de papel escrito alguma coisa que ela não sabe, ainda não aprendeu a ler. Pensa que quando aprender, vai entender tudo e vai escrever muitas vezes, perereca, perereca, perereca. A porta do quarto do pai está encostada, nenhuma fresta. Para em frente à porta e escuta o barulho do ronco, imagina a língua mole, os dentes prateados mastigando o macarrão, ela perguntou para o tio Valter porque vaca mastiga sem parar e ele respondeu que vaca não tem o que fazer da vida, então fica mastigando. Ela quer ter o que fazer da vida, não quer ficar mastigando e não quer mais nenhuma estrela, não quer sentir nunca o cheiro de osso de novo. O que você tá fazendo aí, Lana? Ilana se assusta com a voz da irmã, dá um pulo para a frente, em direção à porta encostada, que abre em uma fresta, revelando o pai deitado de barriga para cima, está só de cueca, o ventilador em cima da cômoda, o corpo coberto por uma transpiração de gordura, já passa da uma da tarde e um calor que só pode fazer nesta terra, é o que diz a tia Dodora quando está muito quente e está muito quente todos dias. Aline solta uma risada, segurando a boca com a mão, olha o coiso dele, Lana. E Ilana vê: a cueca do pai estufada feito sonho de padaria, lotada de creme até quase estourar. O pai ronca, a boca muito aberta, o ventilador zunindo, a colcha vermelha, a cueca gorda. Ilana tem vontade de chorar, o pai ali brilhante de suor, olhando assim não parece mau, não parece capaz de fazer ruindade, judiar de criação e ela ouviu o tio Valter dizer que quem judia de criação é gente ruim. O que estão fazendo aí? As duas se assustam com a chegada da mãe e soltam dois gritos idênticos, o mesmo tom agudo, nunca parecem tão gêmeas como quando são involuntárias. O pai acorda com o barulho e diz, que é isso, com a boca de muitos dentes e língua mole. A mãe fala, nada não, João, pode tornar a dormir, e o pai olha em direção à própria cueca estufada de creme, faz um movimento com a cabeça, as meninas não percebem. A mãe manda as duas para o quintal, entra no quarto e elas escutam a chave rodando, um trec metálico.

* * *

Quer brincar de amarelinha, Lana, a gente desenha de tijolo? Ilana não quer, está sentada no chão e raspa um graveto do cimento, pensa sobre uma infinidade de coisas, dentista, perereca, sonho de padaria, queria perguntar uma coisa para a irmã, mas não sabe o que. Aline pula uma amarelinha invisível, alternando um pé, dois pés, um pé, dois pés, deixa de ser boba, Lana, vem pular. De repente sabe o que queria falar para a irmã. Antes de perguntar diz, senta, Line, para de pular igual cabrita. Aline se assusta com a ordem da irmã, que não é de dar ordens, e se senta no chão de cimento. Por que você pediu aquilo, Line, da gente morrer igual? Aline ri e diz, foi só uma coisa da minha cabeça, Lana, bobeira. Ilana diz, eu gostei, isso de uma morrer quando a outra morrer. Ilana quer explicar, mas não consegue, só entende que gostou. Combinado, Line, quando eu morrer você morre também? Tá combinado, Lana, só não vai morrer agora. As duas riem e Aline convida de novo para pular amarelinha, Ilana agora aceita.

A irmã pega o tijolo e desenha um círculo imenso e não escreve nada dentro, só desenha uma nuvem e ambas sabem que é o céu e que na outra ponta, dentro da bola, vai ter um tridente que será o inferno e Ilana tem medo de inferno, capeta, essas coisas todas, queria combinar com a irmã de, quando morrerem no mesmo dia, no mesmo segundo, irem direto para o céu. Aline procura uma pedra no canteiro e já deve ter esquecido de que vão morrer no mesmo dia, tomara que de mãos dadas, para nenhuma sentir medo, com sorte demora muitos anos, muitos, muitos, tantos que ela nem sabe contar, depois do dezessete vem o dezoito, agora ela se lembra.

O sol arde a pele das meninas, o cimento, a boneca, o pote de margarina, o barro endurecido, os riscos de tijolo da amarelinha. O céu é de um azul impossível. Um avião passa alto, as irmãs param o jogo e balançam as mãos em tchau.

| o livro concorre ao Prêmio Kindle de Literatura e está disponível na Amazon. |

Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP, em agosto de 1980. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, Enfim, imperatriz (Editora Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria Contos. Publicou também o livro de poesia 179. Resistência (Editora Patuá, 2019).

trecho do romance ‘O coração pensa constantemente’, de Rosângela Vieira Rocha

capa_coracaoNo ano que passou, vi repetidas vezes nos seus olhos a vontade de ter liberdade para viajar como eu, mostrando seus quadros e suas esculturas. A série de comentários meio ácidos que me dirigiu também não me passou despercebida. Viajando de novo? Mas você não para, mal acabou de chegar. Como assim, vai de novo para o Nordeste? Pensando em se mudar para lá? Não vai, não, senhora.

Eu ficava calada, mas sentia desconforto, urgência em sair de perto dela. Aquelas exclamações me perturbavam muito. Reconhecia a emoção que usualmente chamamos de inveja. Sentia tristeza, como se de repente tivesse ficado desprotegida, sozinha no mundo. Tive vontade de conversar sobre o assunto, mas faltou-me coragem. Podia parecer um golpe baixo, uma jogada de má-fé desfiar tema tão complexo com alguém nas suas condições. Mas me sentia injustiçada, pois ninguém melhor do que ela conhecia o meu esforço para chegar até aqui. Como é do meu feitio, fui pesquisar; só através do conhecimento consigo superar as fases ruins. O que é, afinal, a inveja? O que representa, que significado possui? Por que é tão malvista e ao mesmo tempo tão banal, se dela ninguém está livre? Quem pode ficar eternamente imune ao canto dessa sereia que nos puxa, nos puxa sempre para o fundo de nós mesmos?

As explicações de psicanalistas e psicólogos não me pareceram suficientes. A literatura também não ofereceu grande contribuição. Shakespeare confundiu ciúme com inveja, enfatizando o primeiro. O verdadeiro vilão não era Otelo, o ciumento, embora tenha cometido um crime, e, sim, Iago, o invejoso intrigante. Sem as mentiras de Iago, Otelo não teria matado Desdêmona. Seu ciúme foi tecido por Iago, fio por fio, de caso pensado. A prevalência do ciúme sobre a inveja e a confusão estabelecida criaram até uma alcunha para o ciúme, “o monstro de olhos verdes”. Resolvi buscar na filosofia, e encontrei em São Tomás de Aquino definições mais compreensíveis. Para os tomistas, o ciúme é diferente da inveja por exigir sempre três elementos, diferentemente da inveja, que exige dois. Invejar não é desejar o que o outro possui, material ou espiritualmente, como estamos habituados a pensar. Se não houver o desejo de retirar o bem do outro, de lhe fazer mal, trata-se de cobiça. Quanto à inveja, não existe “inveja boa”, “invejinha” ou “inveja branca”. É uma emoção que não admite adjetivos.

A questão da inveja se tornou complicada demais porque recebeu um julgamento moral desde o início dos tempos. Tão humana quanto qualquer outra, já que atinge todos, é uma emoção que pode ser sentida várias vezes ao dia. Por si só, não faz mal ao outro, como estamos habituados a pensar. “Olho gordo” é superstição, não tem valor real. E, segundo os tomistas, na maioria dos casos o que sentimos não é inveja e sim cobiça. Desejamos em muitos momentos imitar e assegurar para nós a qualidade do outro, o talento do outro, sua beleza, sua sorte, seus bens e tudo aquilo que nele valorizamos. Mas isso não significa que queremos subtrair-lhe algo. Cobiça seria o fruto de uma admiração profunda. Não cobiçamos nada que não admiramos. Sem o fascínio, é impossível cobiçar.

O investimento ético-moral que se fez no termo inveja dificulta muito as relações. Ninguém reconhece que a sente, a inveja é sempre do outro, pertence ao outro, nós a afastamos como se fosse indigno senti-la. Quando temos a coragem de reconhecê-la, enfrentamos a ressaca moral, o sentimento de culpa, nos sentimos seres sujos e de segunda categoria. Para nos defendermos dela, a projetamos quase sempre no outro, considerado o malvado, o invejoso, o pecador. O fato de ser considerada um dos sete pecados capitais fez com que se tornasse socialmente ainda mais reprovável.

Percebi a inveja — para dizer corretamente, a cobiça — de Rubi. Mas quem não a sentiria, consciente de que está no limiar da morte, diante de uma irmã mais jovem e saudável? Que espécie de supermulher seria essa, que vê as conquistas tão palpáveis do outro e não gostaria de estar também na mesma situação? Quem não quereria continuar vivo e fazendo o que gosta?

Passado o susto inicial de me sentir alvo de sua cobiça, e depois de compreender o que essa emoção realmente significa, senti compaixão e uma vontade imensa de dividir com ela minhas realizações, não as contar apenas, mas fazê-las também suas. Percebi que ela sofria muito por sentir o que sentia, mas não soube como lhe dizer que compreendia, que a “absolvia”, não tinha importância nenhuma, e que meu amor continuava absolutamente inalterado.

| trecho do romance O coração pensa constantemente, a ser lançado no final deste mês, pela Editora Arribaçã, PB. |

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. O coração pensa constantemente é o seu 6º romance para o público adulto. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente, no prelo. Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.