trecho do romance ‘Ao pó’, de Morgana Kretzmann

Romãs e Cigarros

ao_poA mãe da sua mãe era uma pessoa amarga que sabia fazer bolinhos fritos como ninguém. Tinha cabelos cinzas e tetas grandes. Gostava de usar vestidos com estampa de florais pequenos em cores delicadas. Sempre usava saia de baixo bege com uma pequena renda na ponta que ficava à mostra quando ela subia escadas ou se sentava. Falava alto mesmo quando queria apenas sussurrar.

A velha se chateava muito; se chateava com a filha, se chateava com o marido da filha, mas se chateava ainda mais com a filha da sua filha, que sempre lhe pareceu uma aberração, uma guria que ia ao encontro de algo terrível, mundano, descendo apressada os degraus da degeneração.

Sua avó tinha um lindo pé de romãzeira que ficava afastado da casa. Era um único e lindo pé de romã cercado por pés de laranja do céu. E foi lá, próximo à árvore que floresce na primavera projetando sua exuberante coloração vermelha, onde tudo começou, onde a tragédia deu seu primeiro sopro.

A tal senhora não entendia que a neta tinha apenas nove anos e que era uma menininha solitária, sem amigos na escola, sem nenhum garoto do bairro que gostasse dela e com o desprezo dos seus primos, que nos almoços de finais de semana sempre a deixavam apenas com a televisão. Não entendia que ela era uma criança tímida e cheia de medos. Teimava em afirmar que a menina era má e pervertida.

Um dia a velha encontrou a neta fumando um cigarro Shelton longo, embaixo da árvore de romã. A menina estava de salto alto, uns cinco ou seis números maiores que seu pé, com uma carteira grande azul celeste embaixo do braço e usava um batom cor de laranja. Quando foi descoberta foi como se uma nuvem escura pousasse na sua cabeça, só lembrava das palavras, pervertida, porca, demônio, enquanto seu cabelo era violentamente puxado. Depois de muito choro, a cumplicidade perversa: este é um segredo meu e teu, se tu andar na linha, e fizer o que eu pedir, ninguém nunca vai saber de nada.

A menina se viu obrigada a seguir o catecismo da avó para não correr o risco de passar pela vergonha de seus primos, colegas e vizinhos de bairro ficarem sabendo do que aconteceu.

A criança passou a ter que aceitar a companhia da avó na ida e na volta do colégio, todas as sextas-feiras. Também recebia visitas surpresas no recreio quando era humilhada pelas constantes chacotas proferidas por ela. Além disso, foi obrigada a aceitar todos os convites para ir aos cultos na igreja e passar as tardes de sábados na casa da velha. Nunca se queixou, nunca se negou a nada, continuou obedecendo submissamente.

A avó queria provar que não estava errada. Acreditava que a neta era má, era pervertida. Por isso deixou a revista pornográfica de sexo explícito exposta em cima da estante naquele sábado, assim como deixou de propósito aquele maço de notas de cinquenta em cima da sua penteadeira e não a convidou para ir ao culto naquela tarde, dizendo que ela poderia ficar vendo televisão e comendo bolinhos fritos.

A criança sozinha na casa, com apenas nove anos, foi ao antigo quarto da tia, pegou os sapatos de salto alto, passou blush, sombra, batom. Revirou o roupeiro atrás de uma bolsa de pedras coloridas da qual tanto gostava. Encontrou. Roubou um cigarro e o isqueiro que estavam na gaveta da cômoda. Foi até a sala, pegou a revista pornô, colocou na bolsa. Quando estava para sair, olhou para dentro do quarto e viu aquele monte de dinheiro, passou reto, saiu da casa em direção ao pé de romã. Sentou sob a copa fazendo uma pose sensual, imitando uma das mulheres da revista, acendeu o cigarro, começou a folhear a revista.

A avó entrou silenciosa dentro da casa. Pé por pé, foi até a sala, não havia ninguém. A revista havia sumido. Foi até seu quarto, pegou o dinheiro e contou. Nenhuma nota roubada. Saiu tentando não pisar em galhos nem folhas secas, foi até o pé de romã. Lá encontrou a neta com um cigarro numa mão, seu ainda inexistente seio na outra e a revista pornográfica aberta no chão. Ao invés da fúria, as risadas descontroladas e a sentença: eu sabia.

A garotinha saiu fugida deixando os sapatos para trás com seus saltos cravados na terra. Entrou na casa e guardou a bolsa onde a pegou. Escondeu a revista dentro da estante bem atrás dos volumes da enciclopédia Barsa. Mudou de ideia e pegou a revista de volta. Foi até o quarto da avó. Entrou, encostou a porta e ficou escondida.

A sua avó nunca foi uma mulher fácil. Seu marido era um bom homem, mas parecia triste quando ela estava por perto. Seus cinco filhos não a suportavam, era visível. Mas seguiam vindo nos finais de semana para uma visita. Promessa feita ao pai antes dele morrer. Nem por isso, como todos diziam, ela merecia morrer do modo que morreu. Esmagada por aquele roupeiro gigante de madeira maciça. Diziam que era de carvalho. Diziam também que ela pode ter morrido por asfixia, já que o socorro demorou muito a chegar, pois a única pessoa que estava com ela naquela tarde, brincava em baixo do pé de romã e só voltou para casa quando começou a escurecer.

A netinha até hoje diz não ter escutado o barulho do roupeiro caindo, mas diz lembrar da avó segurando um maço de notas de cinquenta, pedindo para que ela se sentasse em seu colo para lerem juntas uma revista que ela própria nunca tinha visto na vida. E foi assim que a encontraram quando conseguiram tirar o roupeiro de cima dela: com o crânio esmagado e segurando um maço de notas de cinquenta e uma revista pornográfica.

| trecho do romance Ao pó (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Morgana Kretzmann nasceu na cidade de Tenente Portela, interior do Rio Grande do Sul, hoje vive em São Paulo, é escritora, atriz, roteirista e produtora cultural, com prêmios nacionais e regionais. É editora da revista cultural RevistaRia, da Ria Livraria. Também é formada em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Santa Catarina. Ao pó é seu romance de estreia.

lançamento do livro ‘A clareira e a cidade’, de Rodrigo Novaes de Almeida

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Clique na imagem para comprar o livro no site da Editora Urutau.

A Editora Urutau e o autor apresentam o livro A clareira e a cidade, já disponível para venda no [link]. E sábado, dia 11 de julho, teremos uma live de lançamento. Veja mais detalhes no [link].

* * *

A clareira e a cidade é o quinto livro de Rodrigo Novaes de Almeida, sendo sua primeira antologia poética. O título remete ao pensamento de Martin Heidegger — para este, a linguagem é a morada do Ser e cabe aos poetas e pensadores habitar nessa morada.

No entanto, as questões levantadas na obra que o leitor tem em mãos não são metafísicas, e sim aquelas que exigem uma práxis que liberte o homem da vida massificada. A proposta heideggeriana é ontológica. As inquietações filosóficas do poeta buscam um pensamento que não atropele os movimentos sociais e ao mesmo tempo dialogue com as questões atuais. De modo especial, uma antropologia.

Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.

(Tito Leite para o posfácio de A clareira e a cidade)

DO FILHO MALSUCEDIDO

há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)

um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz

como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si

SOBRE O QUE SONHAM MONÓCEROS?

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

_____(mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
_____em que erramos em tudo,
_____em que nunca estivemos tão tristes,
_____e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.)

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

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Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

coletânea ‘Antifascistas’ — entrevistas na TV 247

O primeiro de oito programas de entrevistas na TV 247 teve a participação da nossa editora Christiane Angelotti e Cinthia Kriemler, Cristina Serra e José Eduardo Agualusa.

O quarto programa teve as participações de Rodrigo Novaes de Almeida, nosso editor-chefe, Cristina Judar e Jeferson Tenório.

A mediação dos dois programas foi de Regina Zappa e Leonardo Valente. A coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020) está à venda no site da editora [link]. Os demais programas podem ser vistos no canal da TV 247 no Youtube [link].

 

o homem do pôr do sol

Pôr do sol CAPA

O homem do pôr do sol, de Antenor Antônio

ISBN: 978-85-92788-09-4
Formato: 12 x 18 cm
Número de páginas: 194
Ano de lançamento: 2018
Gênero: Literatura brasileira, poesia
Projeto gráfico e arte capa: Carlos H. C. Gonçalves

Texto de apresentação

Escrito por Antenor Antônio ou, como se autoproclama, pelo “maior poeta da América Latina… quiçá do Brás”, O homem do pôr do sol é uma narrativa poética sobre o amor. Não se basta em si mesmo como um relicário de lembranças e tais. É uma provocação pela descoberta ou revisão desse sentimento que leva o autor a um embate consigo mesmo.

O pôr do sol aparece como força simbólica, metáfora de um homem envelhecido que sofre com a desilusão amorosa. “Um homem que vê o fim se aproximar e se agarra a um discurso de prestação de contas que o levou a apostar em uma catarse dos enganos cometidos: medos, incertezas, sombras…”.

Logo de início o autor adverte: “Este é um livro escrito para ninguém”. Contudo, é justamente o contrário. Ele é escrito a todos aqueles que procuram um sentido maior nas relações interpessoais. E um convite a também travar esse embate.

Três poemas do livro

No quarto vazio, o silêncio me olha
Não me indisponho contra ele
O silêncio é muito poderoso
Sei de minhas frágeis forças testadas em
caminhos de pedra
Com a derrota e com o prêmio ao meu vencedor
No quarto vazio, o silêncio me olha.

Silêncio, vem refugiar-se comigo
Sem tormento.

Lá fora passa o vento.

* * *

Somos os inconcebíveis herdeiros de um nada.
Para desenhar o perfil de um homem
Foi criado um Deus – nosso pai
Que eternamente se esconde
Onde?

As luzes iluminam horizontes intermináveis
O infinito apenas começa ali.

O Aqui tem correntes de aço a prender nossos braços
Como com Prometeu.
Ser criança é a ilusão de um dia
Pular o muro, mentir e trair alguém
Roubar fruta do conde
E dizer que foi o vizinho.

* * *

Foi também lido
Eu espanto o silêncio
De meu ouvido.

Saiba mais sobre a obra no site da editora [link]

contos de quarentena: release

capa (1)

Quando a realidade limita os horizontes, a literatura convida para passear. Essa foi a semente para a criação da antologia Contos de Quarentena. Organizada por Mauro Paz, a antologia tem como objetivo levar a literatura contemporânea para aqueles que estão em casa na luta contra a proliferação do CoviD-19. A publicação tem distribuição gratuita no site da Revista Vício Velho e na Amazon Brasil entre 31/03 e 04/04. Depois de 04/04, na Amazon, terá o valor simbólico de R$ 1,99.

Entre os autores estão alguns dos mais inquietos e talentosos nomes da literatura brasileira produzida hoje: Ana Squilanti, Camilla Loreta, Camilo Gomide, Débora Ferraz, Eltânia André, Gabriela Silva, Gustavo Melo Czekster, Helena Terra, Henrique Balbi, Jeferson Tenório, Jessica Cardin, Marcelo Ariel, Marcelo Conde, Marcos Vinícius Almeida, Maria Fernanda Elias Maglio, Mariana Salomão Carrara, Mauro Paz, Mayara Floss, Natalia Timerman, Rodrigo Novaes de Almeida, Rodrigo Tavares, Ronaldo Cagiano, Tiago Germano, Tobias Carvalho, Vera Saad e Walther Moreira Santo.

Fique em casa e boa viagem.

Revista Vício Velho | Download free nos formatos PDF e Epub.
[link]

Amazon | Por R$ 1,99. Entre 31/03 e 04/04 por R$ 0,00.
[link]

coletânea ‘Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência’

Coletânea terá pré-lançamento em março na Printemps Littéraire Brésilien e trará eventos com mesas e debates em várias cidades do Brasil

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Capa de Claudio Duarte

A gueto divulga com exclusividade a capa da coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020), organizada por Carol Proner e Leonardo Valente, uma das publicações de literatura política mais aguardadas deste ano. Com 32 escritores e escritoras de Brasil, Portugal e Angola, a obra apresenta contos, poemas e crônicas críticos não apenas aos desmandos de governos de extrema direita e que flertam com o fascismo, como também contestadores de uma sociedade cada vez mais dominada pelo conservadorismo, pelo radicalismo e pelo preconceito.

“Tendo como base a proposta geral da obra, foi dada liberdade temática, estilística e de formato a todas as escritoras e escritores convidados. Se necessário, crônicas poderiam extravasar seus limites para flertarem com artigos e ensaios, contos podiam parecer crônicas, e crônicas se aproximarem de contos, poemas ganharam carta branca para figurarem como desejassem seus poetas nas páginas, e ficção e realidade tiveram permissão para chegarem de mãos dadas ou bem separadas. A livre expressão em todas as suas dimensões foi mais um contraponto proposital ao engessamento conservador, limitador e classificador típico do fascismo de ontem e de hoje”, diz um trecho do texto de apresentação do livro.

A capa, um alerta para a volta da censura e da repressão de tempos sombrios, é assinada pelo ilustrador, caricaturista e designer gráfico Claudio Duarte, vencedor do Prêmio Esso na categoria Artes Gráficas, sete vezes premiado pela The Society for News Design (SND) e com diversos trabalhos em grandes editoras e jornais brasileiros.

Agenda de lançamentos

Banner Lançamento Mondrongo livro Antifacistas
Arte de Claudio Duarte

Dois eventos de pré-lançamento da coletânea acontecerão em março em Paris, França, e em Braga, Portugal, durante a Primavera Literária Brasileira, maior evento de literatura brasileira no exterior. No Brasil, todos os eventos de lançamento contarão com mesas e debates sobre autoritarismo, censura, capitalismo pós-democrático, literatura política e vários outros temas, com a participação dos escritores e das escritoras que colaboraram com a obra. Entre as cidades já confirmadas estão Salvador, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo e Belo Horizonte. A agenda completa, que deve se estender durante todo o ano, será divulgada em breve.

Participam da coletânea André Diniz, Bárbara Caldas, Carol Proner, Christiane Angelotti, Cinthia Kriemler, Cristina Judar, Cristina Serra, Eliane Potiguara, Fernando Molica, Gustavo Felicíssimo, Hildeberto Barbosa Filho, Jeferson Tenório, João Ximenes Braga, José Eduardo Agualusa, Juliana Neuenschwander, Leonardo Tonus, Leonardo Valente, Luis Fernando Veríssimo, Marcelo Moutinho, Marcia Denser, Maria Valéria Rezende, Micheliny Verunsky, Nívia Maria Vasoncelos, Pilar de Río, Regina Zappa, Rodrigo Novaes de Almeida, Rosângela Vieira Rocha, Sylvio Back, Stella Maris Rezende, Urariano Mota, Valter Hugo Mãe e Wanda Monteiro.

Links com os trabalhos e contatos de Claudio Duarte:
[ http://www.claudioduarteilustracao.com/ ]
[ https://www.instagram.com/ilustradorclaudioduarte/ ]

três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).

resenha do romance ‘Essa gente’, de Chico Buarque

Por Leonardo Valente

capa_buarqueMuitos gigantes vivem em um Chico Buarque, mas dois que sempre se destacaram de forma especial, ainda que em caminhos e estilos distintos, o compositor e o escritor, em Essa gente (Companhia da Letras, 2019), o mais recente e em minha opinião seu melhor romance, são convertidos em um só. Trata-se da obra do romancista que mais se aproxima do compositor. Aproximação na temática, onde a crítica sofisticada e ao mesmo tempo incisiva ao fascismo e ao elitismo colonialista de nossos dias remete ao Chico que se levantou contra a Ditadura Militar; aproximação no estilo narrativo, não raro sonoro e melodioso como suas músicas. Essa gente é um romance ao mesmo tempo simples e multifacetado, e sua história principal pode ser comparada a um rio carioca e caudaloso que desemboca no oceano profundo da formação social brasileira, e nas contradições, superficialidades e hipocrisias sui generis de suas elites.

Os pequenos capítulos seguem tendência da prosa literária contemporânea, especialmente a urbana, e a construção deles como um diário, o que permite com certa facilidade idas e vindas na história, concede dinâmica e facilidade de leitura a um texto denso, musical e ao mesmo tempo áspero, de vocabulário notoriamente bem calculado e repleto de camadas interpretativas. O resultado é um livro que pode agradar a leitores com diferentes níveis de exigência e de expectativa (alguma semelhança com as músicas do outro Chico gigante?), assim como provocar diferentes reações.

Duarte é o escritor decadente protagonista, sem dinheiro, mas sem perder a pose, destruído afetivamente, e que poderia se encaixar tanto em um livro de literatura policial quanto em um estudo de caso antropológico sobre nossa Casa Grande contemporânea. O Leblon é bairro nobre carioca protagonista e igualmente decadente, que no retrato de Chico consegue resumir em si todas as mazelas e tristezas de uma elite responsável pelos erros do passado e pelas mazelas distópicas do agora brasileiro. Duarte é o que Chico poderia ter sido, é o que muitos Chicos provavelmente viraram, seres indiferentes emocionalmente e ignorantes intelectualmente em relação ao país que despenca sobre suas próprias cabeças. Personagem que parece o avesso de seu criador, mas o avesso, apesar de ser o oposto, é muito mais próximo do que distante, pois está colado do outro lado. Duarte tem muito de Chico e é ao mesmo tempo tudo o que ele nunca foi. Já o Leblon é o que o Brasil queria ter sido, e Essa gente também mostra o quanto os desfavorecidos se deformam em valores e compromissos ao desejarem tornarem-se iguais aos que lá vivem; Essa gente, por mais que doa constatar, é formada tanto pelas dondocas e garanhões do bairro, quanto pelos passeadores de cães e moradores de comunidades que por ali circulam. Nossa elite é prodigiosa em converter Chicos potenciais em Duartes reais, e o Leblon em fazer com que os pobres aspirem uma sociedade ainda pior do que a que já temos.

Não se trata, contudo, de um romance político no sentido estrito do termo, nem de um romance histórico, apesar da enorme contribuição para o entendimento sobre o tempo presente. Assim como suas músicas que tocam nas feridas da Ditadura Militar, Essa gente é muito mais do que um texto crítico sobre nosso momento político, é antes de tudo, e principalmente, uma história sobre as relações humanas.

Ter o Rio e suas mazelas como cenário principal de uma obra com essa proposta também é extremamente significativo, traz de volta uma de suas características mais peculiares e há algum tempo perdida: a de se tentar compreender o país por meio de suas veias e de sua gente. Joga ainda a cidade — que por vários motivos andava meio distante da cena literária relevante do Brasil de hoje — no olho do furacão da produção ficcional e, consequentemente, no centro das atenções. Chico e seu novo romance têm força suficiente para produzirem esse movimento, ainda que por um tempo.

Essa gente é a primeira obra ficcional publicada, de peso e notoriedade, a se passar no desgoverno de Jair Bolsonaro e a retratar as relações sociais e afetivas nesses tempos sombrios. Bom que tenha vindo de Chico o primeiro romance com essa característica, e justamente o seu melhor livro. Sinal de que, assim como suas músicas, a obra extravasará sua função primeira e se tornará um grande instrumento na disputa futura pela narrativa e pelos afetos, tão fundamental para que essa gente não volte a fazer o que hoje faz com o Brasil.

Leonardo Valente é escritor, jornalista, cientista político, e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. É autor do romance O beijo da Pombagira (2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, da antologia Apoteose (2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura, e do romance Charlotte Tábua Rasa (2016). É um dos autores da primeira edição impressa da revista gueto, com o conto “criogenia do inconsciente ou manifesto pelos prazeres perdidos”, além de ter participado de outras antologias e coletâneas. Participou da Primavera Literária Brasileira, na França em 2019, e é um dos autores convidados para a edição 2020.

fragmento do romance inédito ‘Brasília’, de Ricardo Lísias

1.

O paciente morreu algumas semanas depois. Mesmo assim, o primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi considerado um enorme sucesso. O professor Euryclides de Jesus Zerbini, chefe da equipe que esteve à frente do procedimento, preocupava-se sobretudo com uma possível rejeição do órgão, problema debatido em inúmeros cursos e congressos pelo mundo e que ainda não havia obtido nenhuma solução satisfatória pela comunidade médica. Não foi o que aconteceu. João Boiadeiro, o receptor, recuperou-se bem. O cuidado da equipe médica o protegeu do assédio e seu quarto no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo permaneceu um lugar calmo, em que as pessoas sorriam e falavam com ele em voz baixa e pausada.

— Que bom que agora está tudo bem, João — uma enfermeira repetia de vez em quando, com um sorriso sincero no rosto. — O transplante deu certo, parabéns.

Segundo os jornais, João Boiadeiro na verdade não sabia o que é um transplante. Ninguém se preocupou em lhe explicar e ele, com alguma esperança e muita resignação, não quis perguntar. Deu certo.

Talvez as coisas não tenham sido bem assim. A equipe do doutor Zerbini, sempre ciosa e com a voz baixa, conversou muitas vezes entre si perto dele, tanto antes quanto depois da operação. Alguns alunos (apenas os melhores) também ouviram inúmeras explicações naqueles dias. Meu tio, por exemplo, olhou diversas vezes para o paciente, que parecia acompanhar tudo muito atento. Ele entendia muita coisa, sim.

Cientes do histórico de depressão do primeiro brasileiro que recebeu um transplante de coração, médicos e enfermeiros sempre o animavam e, com a voz cheia de orgulho, cumprimentavam-no pelo sucesso da equipe. Quando o quarto ficava vazio, antes de dormir muitas vezes João imaginava a cena que os doutores descreviam uns para os outros: o coração saiu do doador e foi direto para ele, ainda batendo na bandeja. Não houve espera e muito menos qualquer tipo de parada cardíaca. Deu muito certo.

* * *

O prontuário médico de João Ferreira da Cunha, o nosso João Boiadeiro, tem apenas informações clínicas. Enquanto a imprensa francesa noticiava o apaziguamento das revoltas naquele final de maio, com uma gigantesca manifestação em apoio a de Gaulle, a nossa aqui deu bastante destaque ao transplante. Não houve, porém, nenhum tipo de esforço para conhecer a vida pregressa do rapaz melancólico e calado que viveu 28 dias com o coração de outra pessoa pela primeira vez no Brasil.

Até ali, diversas cirurgias haviam sido realizadas em cães. Nenhum passou mais de duas horas respirando com o coração de outro animal. O que fez a equipe do doutor Zerbini ter fé nesse tipo de transplante em humanos vivos no Brasil foi o sucesso com que o doutor Christiaan Barnard realizou o mesmo procedimento, no final de 1967, na África do Sul.

Zerbini se impressionou com o resultado. Muito infelizmente, Louis Washkansky, o primeiro homem a viver com o coração de outro, morreu 18 dias depois da operação, vítima de uma infecção. Esse incidente, por favor, não deve desanimar os outros médicos daqui em diante, repetiam todos. O caminho é a natural evolução do procedimento e dos remédios que, posteriormente, garantirão a vida dos pacientes. Foi o que aconteceu.

Se o colega do outro lado do oceano tinha conseguido, o que nos impediria também de ter o mesmo sucesso? Afinal de contas, a África do Sul nunca foi exatamente uma vanguarda na medicina, lembro-me do meu tio repetir isso com o rosto meio ambíguo. Normalmente as pessoas não viam a menor graça nesse tipo de tirada. Ele, por outro lado, às vezes quase engasgava de tanto rir. Quando ele morreu, fiquei triste de verdade, apesar de tudo.

João Boiadeiro deu entrada no Hospital das Clínicas depois de tentar se suicidar no Albergue Alegria, onde estava morando desde que chegara a São Paulo, dois ou três meses antes. O prontuário não diz como ele tentou tirar a própria vida, mas aponta um quadro depressivo causado por uma fraqueza. Ele a descrevia como cada vez mais crescente. Nos últimos meses, ondas de cansaço súbito o impediam de trabalhar na fazenda onde vivia no Mato Grosso com a irmã. Essa última informação não está no prontuário, mas sim nos jornais que meu tio guardou.

O Albergue Alegria teve o mesmo destino que seus hóspedes. É bastante difícil encontrar informações precisas sobre ele. Segundo os poucos registros que constam no Arquivo Público do Estado de São Paulo, funcionava em um galpão adaptado para receber pessoas que chegavam a São Paulo de trem na Estação da Luz e não tinham exatamente para onde ir. Algumas davam sorte e encontravam um parente com um cantinho na sala, outros percebiam que não conseguiriam nada melhor do que já tinham antes e voltavam para a sua cidade depois de uma semana no Albergue Alegria. Vários passavam meses ali, atrás de emprego, conversando e jogando cartas ou dominó. Certos moradores só saíam da cama quando os poucos funcionários os incitavam. No geral, iam dormir por ali mesmo, na calçada, já que a região era sua única referência. A depressão, portanto, era corriqueira. Dois homens procurados pela polícia política passaram três meses em segurança, depois de terem a feliz ideia de se misturar àquelas pessoas. Dali, foram transportados para a fronteira com a Bolívia e depois de subornar dois guardinhas sonolentos, fugiram do Brasil.*

Algumas coisas nunca mudam por aqui.

* Caso haja algum interesse sobre os dois e, mais ainda, quanto a esse tipo de ação durante a ditadura, quem os transportou foi a escritora Maria Valéria Rezende, que naquele momento tinha um documento diplomático emitido pelo Vaticano.

Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Publicou em 1999 o romance Cobertor de estrelas (Editora Rocco), traduzido para o espanhol e o galego. Em 2001 publicou Capuz (Editora Hedra), e, em 2004, Dos Nervos (Editora Hedra). Duas praças (Editora Globo, 2005) foi o terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006. É autor também do livro de contos Anna O. e outras novelas (Editora Globo, 2007), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, e O livro dos mandarins (Editora Alfaguara, 2009), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010. É autor ainda dos livros infantis: Sai da Frente, Vaca Brava (Editora Hedra, 2001), Greve Contra a Guerra (Editora Hedra, 2005) e A Sacola Perdida (DSOP, 2014).

três poemas do livro ‘Poemas do Golpe’, de Andri Carvão

Um povo que não enterra os seus mortos vive remoendo o passado.
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Um
povo
que
não
enterra
os
seus
mortos
vive
sendo
assombrado.
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Um povo que não enterra os seus mortos,
vive?

| elite miserável |

Cidadão
Cristão
Brasil
Servil

Herança rural
Questão cultural
Regime colonial
Atraso industrial
Casa senhorial
Sociedade patriarcal
Identidade nacional

Burocrata
Escravocrata
Primata

Política
Paleolítica

Da servidão
Da escravidão
Da prisão
Dentre outras formas de opressão

Pobre é povo
Classe média é povo
Povo é povo
Teleguiado por uma elite miserável

| na casa de armas |

— olá!
— eu quero uma arma, eu preciso de uma arma, eu quero uma arma!
— pra quê você quer uma arma?
— pra mataaar!
— pra matar o quê?
— uma arma de caça, pra caçar…
— pode ser mais específico? que tipo de caça?
— passarinhos e borboletas… brincadeira. ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…
— mas não temos estes bichos no Brasil…
— …
— mas que tipo de arma você quer? um rifle?
— um rifle, pode ser um rifle, eu quero um rifle de caça.
— olha, temos este aqui…
— aahh, que lindo! bela arma…
— …e também temos esta daqui (um pouco mais cara) alemã, uma similar, a vovozinha desta, foi usada durante a Segunda Guerra Mundial para matar judeus, homossexuais, ciganos, comunistas…
— agora eles vão ver uma coisa!
— eles quem, amigo?
— ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…

capa_golpe| poemas do livro Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019) | com lançamento sábado, 7 de dezembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há textos do autor nas seguintes publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, entre outras; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal, ambas pela Editora Appaloosa, e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos [um manifesto contra o fascismo], organizado por Rojefferson de Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos, também pela Appaloosa, O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s, ambos pela Scenarium, Um Sol para cada montanha (Chiado Books, 2018) e Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019).