trecho do romance ‘O beijo da Pombagira’, de Leonardo Valente

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Odeio o barulho dos atabaques. Produzem um som primitivo que em vez de tocarem a alma, como são capazes de fazer com maestria os violinos e os pianos, estimulam nossos instintos animalescos. Não é para menos, um tambor com nome árabe e que é usado como instrumento musical sagrado em danças religiosas africanas não pode realmente ser algo que preste.

Não reconheço o sagrado, nem tampouco presto a ele alguma deferência. Trata-se de uma bobagem oriunda da fé, palavra esta que alço ao lugar mais alto do pódio das misérias da Humanidade. A fé é tão tosca e sem sentido que o criador, se é que realmente ele ou ela existe, sequer um dia precisou tê-la. Por que alguém que tudo criou necessitaria ter fé na própria criação? A fé é o recurso das criaturas incompetentes. O Universo existe para ser constatado e não para ser alvo da crença infantil dos fracos e dos incapazes de compreendê-lo de fato. Para estes, o que resta para que o cérebro crie algum sentido sobre a própria vida é essa imaginação mitológica medíocre e que serve de alicerce para as religiões inebriantes e inúteis.

O que sinto por aquela desgraçada desencarnada não tem relação alguma com fé, muito menos com o sagrado. É apenas paixão, completamente incontrolável, doentia, e que começou para meu azar e ironia em meio ao ruído primitivo daqueles malditos atabaques. Nunca havia me apaixonado, sempre achei esse tipo de sentimento um descontrole dos mais fracos e dos emocionalmente dependentes. Nascemos e morremos sozinhos, e por que diante de tão inexorável caminho precisamos gastar energia vital para criarmos um laço de dependência tão forte em relação a outro ser qualquer que um dia desses nos deixará? Só agora, no entanto, percebi que a paixão não é uma escolha, é um distúrbio.

a vítima-algoz

Sempre achei que o momento da morte deveria ser como aquelas últimas cenas tão comuns das telenovelas que os vivos de hoje em dia tanto gostam. Todas as pessoas que passaram por sua vida: amigas, inimigas, protagonistas, coadjuvantes e figurantes, reunidas em festa, não mais vestidas do papel que tiveram com quem está prestes a partir, bebendo, se abraçando e confraternizando com sorrisos largos e sensação de dever cumprido, de trabalho concluído, de ter seguido à risca seu script na vida do outro que naquele momento se despede. O fim marcado em letras garrafais em primeiro plano na tela, com todos ao fundo, meio que já desfocados, cravaria a passagem e o encerramento de uma história sem dívidas, rancores ou amores, pois nenhum papel deve extrapolar sua trama, transgredir as fronteiras de seu universo narrativo. Sair da vida seria, então, como deixar um papel e uma história sem mágoas, paixões ou grandes saudades, pois estas seriam do campo das personagens e não dos atores e das atrizes que as interpretam.

Tive pena de mim por não ter morrido assim. De não ter sido apenas uma personagem de mim mesma durante a vida, e de não ter feito a viagem sem malas, somente com a roupa do corpo, sem o peso quase insuportável de tudo o que não é esquecido.

o último encontro

Voltei, meu amor (de “Poesias Baratas e rimas pobres”)

Voltei, meu amor
Quem diria, eu voltei
Você jamais contaria
Com meu cheiro novo de naftalina

Voltei para azedar a sua sopa
Para manchar a sua roupa e estragar a sua festa
Nem todo mundo que some, presta
Nem todo mundo que fica, resta

Sou prova viva de seu passado esperançoso
Verdadeiro céu perto do seu presente insosso
Não vim buscar o que não é mais meu
Nada que tenha hoje me interessa

Apareci apenas como um encosto matreiro
Para te mostrar que quando se esquece o passado, ele volta ainda mais safado
Pronto para te pegar e te sangrar na alma de repente
E te mostrar que você ainda não é gente

Voltei, meu amor

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou o romance Charlotte Tábua Rasa, em 2016, e a antologia Apoteose, finalista do Prêmio Sesc de Literatura, em 2018. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados da Primavera Literária Brasileira 2019, na França e na Bélgica, um dos mais importantes eventos de literatura brasileira na Europa.

O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo, 2019) será lançado na próxima quinta-feira, 5 de setembro, na Bienal do Rio, e foi finalista da Segunda Edição do Prêmio Rio de Literatura. Saiba mais no [link].

quatro poemas do livro ‘Erotiscências & embustes’, de Jozias Benedicto

67162232_1199205776926392_319728562493980672_oO lançamento é neste domingo, 4 de agosto, na Casa Quintal de Artes Cênicas, no Rio de Janeiro. Mais informações [link]

autorretrato 3 por 4

(adolescentepoema
quatro versos
sem rima
nem métrica

um retrato
trêsporquatro
adolescentes
embustes

um caderno
poemas datilografados em noites insones
depois anos e anos e anos até
o fogo:)

_______________olho esquerdo inquisidor
_______________o direito, acolhedor
_______________orelhudo, surdo, mudo
_______________ante a vida ante tudo

(um pequeno poema queimado para sempre em um incêndio
e recuperado no meio das trevas de um sonho:
o sonho dos monstros produz
razão)

uma fábula

Era uma vez.

Tive um analista
que repetia
e repetia
repetia:
“Por que as pessoas só querem plantar arroz
em terreno onde não nasce arroz?”

Penso em minha vida e vejo isso,
sempre isso:
arroz
em terreno
onde não
nasce
arroz.

Mas afinal estou vivo, com arroz ou sem arroz.

E ele, o analista,
já morreu há muito tempo,
já não deve mais nem ter carne nem pele nem ossos no caixão dele,
muito menos
arroz.

erotiscências VII (impenetrabilidades)

Penso em: vencer o tempo.
E o espaço.
A distância,
reduzi-la a zero.
Aquela lei da física — é a primeira ou a segunda lei daquele tal de newton? —,
dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço,
para mim, para nós, é pura bobagem.
Podemos sim, ser um,
um universo infinito.
Digo estas coisas de forma meio
atabalhoada
confusa
olhos úmidos
(bêbado).

Você apenas
sorri.

Talvez, talvez,
talvez seja possível, um dia,
esta impossibilidade.

Também sorrio, e mudo de assunto.

Chove.

valongo II (barco de refugiados)

As portas e os mares já estão fechados
com lutas insanas. Trilhas de sangue
no mapa-múndi dos refugiados
escrito em dor que só a morte extingue.

Por que foges assim, barco ligeiro?
O peso que carregas é tamanho,
se naufragas, já não és o primeiro
a levar pro fundo tua carga humana:

homens, mulheres, crianças — fugindo
da guerra, da morte, a paz buscando
no exílio; mas num barco submergindo

no frio mar; a foice veio célere
ceifar quem nada vale, existindo:
uma praia coberta de cadáveres.

| poemas do livro Erotiscências & embustes (Editora Urutau, 2019). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual nascido em São Luís, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pós-graduado em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. Publicou os livros de contos Estranhas criaturas noturnas (2013, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e Como não aprender a nadar (2016, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura). Em 2018 recebeu premiações pelos livros de contos ainda inéditos Um livro quase vermelho (Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Governo do Estado do Maranhão). Teve contos publicados nas antologias Sábado na Estação (2012, organizada por Luiz Ruffato) e Contágios (2016, organizada por José Castello). Em artes visuais, entre outras mostras, participou da XVI Bienal de São Paulo. Erotiscências & embustes é seu primeiro livro de poesia.

blattaria, de Eduardo Sabino

capa_alucinatoriosConto do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019).

Antes eram só encontros noturnos. Eu ia à cozinha beber água, acendia a luz, e lá estava a intrusa no azulejo, correndo pra detrás da geladeira. Ia ao banheiro fazer xixi e via duas antenas nojentas balançando no ralo da pia — dava um grito e abria a torneira no máximo. Foi quando percebi que não estávamos sozinhos. Havia uma cidade inteira vivendo nas frestas da nossa casa; as bichinhas à espreita, aguardando a gente dormir pra ir à caça de nossos restos. Como são as coisas: se antes essa ideia me dava calafrios e insônia, agora seria a vida ideal: as baratas andando pela casa no escuro em busca de comida; eu, mamãe, papai e Hugo apagados, felizes, sem dar conta de nada.

Tudo bem que havia conflitos antes da infestação. Mamãe não gostava da casa. Queria morar em um apartamento ou em uma casinha mais nova, que não estivesse, e aí vinha a expressão que deixava papai nervoso, caindo aos pedaços. Ele a chamava de ingrata, dizia que não havia casa melhor no bairro. “Vocês são privilegiados!” Eu e Hugo observávamos mudos e tendíamos a ficar do lado de papai: morar ali não me incomodava; pra falar a verdade, era bem legal chegar ao casarão com as amigas da escola: elas sempre se impressionavam, tiravam até foto dos lustres da sala. “Sua casa parece casa de filme, Maria”, diziam. Um dia, lá pelo século dezenove, todas as casas eram iguais na rua. Quem fundou nosso bairro foram os ingleses que vieram para o Brasil como funcionários de uma companhia de mineração. Hoje as minas estão desativadas, e boa parte das construções dos imigrantes, das pontes às igrejas, foram reformadas com uma estética mais barroca-interiorana, sem graça. Sobrou a nossa casa. O telhado enorme em formato de choupana, dois andares, cômodos espaçosos, janelões brancos, o azul desbotado nas paredes e no toldo da varanda, o gradil quadriculado nos corrimões — tudo de madeira, madeira em toda parte. Sem contar aquelas coisas meio fora de lugar: um piano fodidinho que papai jamais se interessou em consertar, a chaminé de tijolos e a lareira de todo tamanho na sala de visitas — quem precisa de lareira numa cidade quente como a nossa, meu Deus? Acho que nunca a usamos.

O problema de crescer nessa casa é que ela nos denunciava, sempre: primeiro a mim, depois, quando cresci, a Hugo. Mamãe o colocava pra dormir, ele dava um tempinho e saía, andando de meia, descendo a escada nas pontas dos pés, louco pra ver tevê na sala. Nunca conseguiu completar a travessia no corredor. De madrugada, qualquer passinho, até de criança, fazia a madeira ranger, e mamãe logo lhe dava um flagrante. Pra não fazer barulho em nossa casa era preciso ser leve e ágil como as baratas: elas sim eram livres à noite. Talvez o ódio de mamãe pela casa já era, nesse tempo, uma premonição do ódio que ela sentiria pelas agregadas, sofrendo por antecipação os males que elas nos trariam. Quando o assunto de vender a casa entrava na conversa do jantar, brincávamos de dublar a fala de papai, que já sabíamos de cor:

“Essa casa foi de meu pai, e do pai do pai de meu pai. Nossa família está aqui há várias gerações, e daqui não arredo o pé.”

Mamãe dava um suspiro de esvaziar os pulmões e ficava encarando a sopa. Acho que tinha vontade de enfiar a cara no prato fundo e tapar a respiração do nariz.

“Se ao menos a gente pagasse uma empregada. Uma faxineira uma vez por semana. Mas não: estou sozinha com tudo. Essa casa vai me matar.”

Papai desconversava. Dizia que o jardim estava por sua conta. Limpeza pesada. Além das coisas estragadas esperando conserto — sempre havia muita coisa para consertar lá em casa: telhado, gavetas, descargas, portas de armário e fechaduras. Empregada estava fora de cogitação, sentenciava, a aposentadoria era boa mas não dava pra tanto. “Mais um motivo pra vendermos essa casa”, mamãe insistia. Papai bufava, dizia que a culpa era dela. Se saísse do emprego de vendedora de farmácia — vendedora não é emprego que vale a pena, mulher — os dois dariam conta de todo o serviço.

“Se eu sair, quem vai pagar a escola de Hugo?”

“Já tá na hora de ele ir pra pública…”

“E a faculdade de Maria, você banca?”

“Maria é inteligente. Vai passar na Federal.”

Mamãe chegava a engasgar de ódio.

“Você conta com o ovo no cu da galinha, Antônio.”

Levantava num tranco, nem terminava de jantar. Guardava o prato na geladeira, dizia que tinha perdido o apetite, e subia correndo pro quarto. Ficavam sem conversar por dois, três dias, depois se ajeitavam. Essas coisas me faziam perder o sono, remoendo as mesmas perguntas: o que seria de mim e Hugo quando eles se separassem?

Apesar de tudo não consigo lembrar dessa época como um tempo ruim. Éramos quatro e ainda tínhamos a ilusão de sermos os únicos moradores da casa. As brigas eram pouquinhas, insignificantes, e havia bons momentos. Almoços sem gritaria, televisão em família: novelas e programas de humor. Usávamos a varanda nos nossos aniversários e no Natal papai tocava violão até mais tarde.

Então vieram os bárbaros, elas deram o ar da graça: começaram a surgir durante o dia, pregadas nas portas que acabávamos de abrir, camufladas nos bolores da madeira, embaixo dos tapetes e atrás das cortinas. As piores eram as voadoras. Davam mergulhos rasantes de kamikaze e avançavam contra nós, depois se colavam em outra parede e as asas se juntavam rentinhas em suas costas como se nem existissem.

Eu tinha curiosidade em saber mais sobre elas, como tinha curiosidade por todos os tipos de ser vivo — já sonhava em ser bióloga. Vivia observando de perto cigarras, formigas, abelhas e até lagartixas mas das baratas não conseguia me aproximar nem nessa situação terrível em que elas tomavam a iniciativa. Tinha muito medo de agarrarem no meu cabelo. Passei a andar com ele preso dentro de casa. Quando aparecia uma das grandes, eu me trancava no banheiro. Um dia, me sentei no vaso, ofegante, e dei de cara com outra maior escalando o vidro do boxe, sinal de que estavam perdendo mesmo a vergonha ou já não cabiam em suas tocas.

Mamãe também era um desespero só. Chamava por Hugo onde as encontrasse. O pequeno ia correndo, chinelo em punho, Deixa comigo, e se divertia exterminando os insetos. Uma vez, ele me salvou de duas que me encurralaram na cozinha. Vi aquela tripinha seca pisoteando as baratas e fiquei até constrangida.

“Você não tem vergonha, maninha? Olha seu tamanho e o tamanho delas. Elas que deviam ter medo.”

Hugo estava certo, e eu precisava daquela sacolejada. Passei a atacá-las com raiva e coragem e, como era de se esperar, levava a melhor. As baratas não tinham muitas opções: recolhiam-se às tocas ou morriam esmagadas. Papai observava tudo com indiferença. Era o único que as baratas não tiravam do sério. Dava instruções a distância, preocupado com a casa.

“Calma, Hugo, espane ela pro chão. Não vá sujar a parede.”

“Mas ela vai fugir, papai. A vagabunda vai fugir. Olha ali o buraco no teto!”

“Deixa fugir.”

A primeira bronca mesmo quem levou foi mamãe quando destroçou sozinha uma barata que pousou no tapete. Seu primeiro confronto. Bateu tanto na bicha, e com tanta violência, que o inseto se achatou e pregou igual chiclete gosmento na sola da sandália. Papai balançou a cabeça, inconformado: “É só uma baratinha, Cleusa. Porra, precisava disso?”.

Mamãe, a terceira a ganhar coragem, e agora éramos um trio de exterminadores de baratas. O medo se foi e veio a vontade de estudá-las, saber de que eram feitas e quais os limites de um ser que tinha sobrevivido a eras tão extremas e parecia, no entanto, tão frágil. Como a seleção natural as moldou para as tornar tão adaptáveis?

Identifiquei cinco espécies vivendo conosco. A americana era a predominante. Marrom-avermelhada, media cerca de trinta milímetros. Depois vinha sua gêmea menor (metade da envergadura), a germânica, popularmente chamada de baratinha. Em menor contingente, a oriental, vinte e cinco milímetros, negra como uma barata fantasiada de besouro, e a australiana, duas manchas amarelas na extremidade superior das costas que me lembravam os olhos do Black Kamen Rider, seriado japonês que Huguinho adorava assistir na tevê. Outra que às vezes saía das frestas de madeira era a virgínica, miudinha, um centímetro quando adulta, não chegava a ser bonita mas não me dava tanto asco como a mandante do pedaço: a americana, barata tropical, a mais adaptada ao nosso clima. Por ser grande e numerosa, e interagir conosco com mais frequência, virou minha cobaia preferida. Mantive um criadouro por semanas num aquário abandonado no porão. Impressionante como comiam de tudo. Insetos mortos, verduras, carne estragada, as próprias fezes, pedaços de fiações velhas. De uma que prendi com um copo na cozinha decepei a cabeça. Achei que viraria alimento de formiga naquele mesmo dia. Para minha surpresa, ficou vagando decapitada por uma semana no quarto vazio onde a soltei. Não precisasse da cabeça para comer, resistiria mais tempo.

Mamãe não gostou de minha dedicação científica. Enquanto eu analisava baratas com lupas, ela e Hugo enfrentavam sozinhos a onipresença das americanas. Papai gostava de ver meu interesse e se aproximava, folheava por alto os artigos que eu imprimia da internet e ostentava seu senso comum sobre o assunto.

“Você sabia que na China as pessoas comem baratas?”

“Nem todas as pessoas, né, pai!”

“Pois sim senhora. Os chineses comem de tudo. Barata, então, é uma iguaria.”

Uma iguaria exótica. Ajudou muita gente a sobreviver durante a Grande Fome, mas hoje não é um costume tão generalizado assim. Tinha lido sobre uma minoria étnica, na província de Yunnan, que fazia esse espetáculo para turistas nas feiras em via pública, degustando e oferecendo a todos baratas, lacraias, cigarras e outros insetos. Talvez haja outras etnias que preservem o costume, daí a ser um prato típico da culinária chinesa, corre um oceano. Eu queria dizer isso a papai, que ele estava errado. Mas conhecia seu jeito. Iria teimar, elevar o tom de voz, dizer que não se pode confiar na internet nem nos livros, que conversou com um chinês não sei quando nem sei onde e ele não podia ter mentido. Melhor evitar a fadiga e não render assunto, fiz um “oh” de surpresa, “Jura, papai?”, e ele falou mais umas abobrinhas: “Barata no prato na China, minha filha, é nosso filé de frango”. Achei graça e caí na risada. Um bilhão e trezentos milhões de habitantes na China: todo mundo comendo baratas, ao menos uma vez ao dia, isso que é controle de praga.

Apesar de seus exageros, papai estava lúcido. A noite escura de sua alma não tinha chegado. Um arrependimento não ter levado as baratas a sério quando poderíamos ter o seu apoio. De ter achado divertido fazer experimentos, persegui-las, exterminá-las. Três pessoas não podem contra uma multidão de baratas. Não armadas apenas com chinelos e boa vontade. Óbvio que um dia o cansaço nos pegaria de jeito e elas iriam se aproveitar.

Passamos meses inteiros assim: em guerra, mas tranquilos, com a segurança de sermos mais fortes. Matando baratas sob os olhos indiferentes de papai. Depois, veio o surto: das baratas e do velho.

Ele começou a se retirar mais cedo do jantar e a nos tratar com rispidez na hora do telejornal. “Quietos, nenhuma palavra.” Se levantássemos do sofá para matar uma barata que interrompia a programação com sua presença asquerosa, papai se enfezava. Chegou a dar uma chinelada em Hugo um dia, o que rendeu uma discussão comigo e mamãe. O pequeno só queria nos proteger.

Então um dia eu o peguei observando uma barata asiática no pilar da garagem. Tirei a sandália pra esmagá-la e ele me impediu. Alegou que ela estava na dela, sem fazer mal a ninguém, do lado de fora da casa. Ali a nossa lei não valia.

“Você só pode estar de brincadeira, papai.”

Não rendeu assunto. Apenas me deu as costas e fez a segurança da barata enquanto a miserável escalou o pilar e entrou num buraco do toldo.

Andava mais silencioso por aqueles dias, ouvindo rádio, vendo tevê o dia inteiro e, à noite, ainda antes de mamãe chegar da farmácia, ele já tinha posto o caçula para dormir, prendendo-o no quarto. Dizia que era castigo, que o menino estava fazendo bagunça, mas coisíssima nenhuma, Hugo apenas matava baratas.

O problema ficou mais claro na manhã de sábado em que acordei cedo para fazer um trabalho em grupo. Do banheiro, a porta entreaberta, enquanto escovava dentes, vi papai na sacada de seu quarto. Ele estava com as mãos em concha e agachado. Murmurava palavras carinhosas, apanhando um passarinho que se chocou contra o vidro da janela, mas essa foi a minha primeira impressão, a imagem observada de relance e deturpada na inocência de um olhar lógico: você pode imaginar o que ele realmente apanhava, o que ele tinha nas mãos, o que ele ergueu e soltou no ar, debruçado no corrimão. Mamãe já tinha saído para o trabalho e quase não acreditou quando a contei.

“Tem certeza que não era um passarinho?”

“Mãe, acorda. Eu sei diferenciar uma barata de um passarinho.”

Dona Cleusa colocou as mãos no rosto e sentou-se no sofá da sala, “Oh, meu Deus! Antônio enlouqueceu.” Disse que ele havia se levantado de madrugada, falando sozinho no corredor, tratando um bicho por meu bem, e que talvez não fosse o gato.

Decidimos dar um basta nisso assim que subiram os créditos da edição do jornal da noite. Nós duas contra papai. Nem citamos a barata-passarinha. Fomos direto ao ponto. “As baratas estão passando do limite. Precisamos dedetizar esta casa.” Ele se levantou, um medo estranho nos olhos, e tentou deixar a sala. Fomos no seu encalço. “Vocês é que estão passando do limite”, disse baixinho. Mamãe ganhou sua frente, impediu que subisse as escadas e mentiu, disse que já tinha ligado para o serviço de dedetização. Papai interrompeu a fuga, como uma barata que de repente tivesse tomado coragem.

“Ninguém vai dedetizar porra nenhuma!”

Um baita de um berro. Ficamos atônitas. Ele prosseguiu:

“A casa é minha, sou eu que pago as contas dela. Vou vigiar o portão. Aqui ninguém entra com veneno.”

“Mas pai, as baratas…”

“Não tem mais nem menos, Maria. Não quero saber de matança nessa casa. Um bicho inofensivo desse. Que mal as baratas fizeram para nós?”

Eu não acreditava no que ouvia.

“Hein, me digam?”

Quis levá-lo até o computador na sala, mostrar os artigos que eu tinha favoritado na noite anterior.

“Pai, elas podem transmitir um monte de doenças. Podem contaminar alimentos. Estamos correndo um risco danado.”

“Isso é balela.”

“Não é. Pode acreditar. Elas carregam microrganismos nas patas e nas fezes.”

“Que nojeira!”, disse mamãe, se benzendo.

Puxei o celular, dei uma googada, e comecei a ler.

“As baratas são consideradas perigosas para a saúde dos seres humanos. Podem transmitir febre tifoide, tuberculose, conjuntivite, infecção urinária, pneumonia e lepra.”

Papai começou a rir, irônico.

“Nunca ouvi falar de ninguém com febre tifoide por causa de barata, e a lepra já foi extinta. Não acredite em nada da internet, minha filha.”

Sabia que sua reação seria essa, mas eu tive que tentar.

“E tem mais”, continuou, “na minha frente ninguém mais mata essas criaturinhas de Deus. É um ser vivo. Um dos mais antigos do mundo, e merece respeito.”

“Puta que o pariu!”, mamãe estourou. “Pois você vai ter que escolher, Antônio, ou elas ou nós. Desse jeito não dá pra viver.”

Ele olhou para a porta da sala, o rosto agora sereno e abobalhado.

“A escolha é de vocês. A porta da rua é serventia da casa.”

Disse isso e se mandou para o jardim. Um sacana. Sabia muito bem que mamãe não tinha condições de se virar sem ele. Ficamos imóveis na sala por uns minutos, eu olhando a tela do celular e mamãe revoltada, ele veria só, ela iria dar entrada no divórcio e alugar um apartamento para nós, mas eu sabia que falava da boca pra fora. Seus olhos se encheram d’água e ela saiu de meu campo de visão, correndo para a varanda a tempo de esconder seu pranto. “Está vindo uma tempestade”, disse com voz embargada, “Me ajude a fechar as janelas e abaixar os toldos, Maria.”

Naquela noite, tive um sonho horrível. Sonhei que uma enchente nos levava pela rua, nós quatro, e o fluxo era de baratas, não de água. Os insetos saindo de nossas bocas, infestando nossos cabelos, cobrindo nossos corpos, a gente se afundando e emergindo, entre troncos de árvore e carros flutuantes. As baratas se movimentavam como gotas enormes e amarronzadas, umas sobre as outras, caoticamente, uma China inteira delas, fazendo o rio correr rua abaixo. Acordei agitada, ouvi um farfalhar de asas no escuro, acendi a luz e estapeei a parede no ponto aonde a calhorda remanescente do meu sonho pousou. A palma da mão ardeu e ela levantou voo, escapando pela janela.

Nos dias seguintes, papai cumpriu à risca suas ameaças. Ele nunca havia me agredido fisicamente, mas algo em mim, e naqueles olhos insanos, me dizia que ele seria capaz, e decidi não o confrontar. A partir de então, quando estávamos reunidos no sofá, uma barata podia atravessar a sala e cagar no tapete sem temer pela própria vida. Difícil suportar aquela ousadia. Huguinho fechava os olhos, rangendo os dentes. Eu e mamãe costumávamos sair da sala, enojadas. Com o tempo, mudamos a tática e continuamos a resistir. Cada um ia para um setor da casa. Avisávamos um ao outro, por SMS, onde papai estava e a quem ele estava vigiando. Elas tinham menos baixas, mas sofriam mais, uma morte mais lenta: um prazer inigualável senti-las rompendo as vísceras sob as nossas sandálias, tudo porque o impacto não podia fazer barulho, era necessário matá-las sem uso excessivo de força e sumir rapidamente com o cadáver.

Uma noite quem sumiu foi papai e eu o procurei em todo o casarão, até nos cômodos que não utilizávamos, mas não conseguia encontrá-lo. Acendi a luz do corredor do primeiro andar e sacudi a cabeça, tentando afastar a lembrança da enchente de baratas. Então ouvi uma música antiga, de banda marcial, o hino de algum clube de futebol, talvez do país, e o som me levou ao porão, o alçapão aberto. Tirei os chinelos e desci alguns degraus, para dar uma olhada. Tive de tapar a boca para sufocar o som do meu grito. Papai estava numa cadeira de balanço, ouvindo a vitrola antiga de vovô e fumando um cachimbo. Ao seu redor, baratas, dezenas de baratas, baratas de todas as espécies que cataloguei. Estavam imóveis como num círculo satânico, vivas e quietinhas como que dopadas. Olhei bem e mal podia acreditar: a maior de todas que eu já tinha visto estava pousada no seu dedo e ele a suspendia como a um falcão adestrado. Havia também uma barata no seu ombro, empoleirada como um papagaio de pirata, e outras duas no joelho. Um São Francisco de Assis do inferno, era o que ele tinha se tornado.

Não consegui sufocar o segundo grito. Papai quase caiu da cadeira e as baratas se dispersaram. Saí correndo chorando e me tranquei no quarto. Ele bateu na minha porta mais tarde, quis se desculpar, disse que eu havia entendido errado, me perguntou o que eu tinha visto e eu disse para ele ir embora. Não queria saber de conversa.

Pensei comigo mesma: nós perdemos papai, e elas o ganharam. Ele está apaixonado e isso talvez seja irreversível. Contaria tudo a mamãe? Arrumaria minhas coisas e fugiria o mais rápido possível daquela casa antes que ele nos fizesse algum mal? Remoí essas perguntas por dias, e o que fiz: deixei os dias me levarem como o rio de baratas. Segui a vida e tentei esquecer o que papai fazia no porão da casa todas as noites antes de mamãe chegar da farmácia. Achei que ele não tinha mais jeito, que nunca mais se daria conta de suas ações, mas eu estava enganada. Seus dias de São Francisco de Assis tiveram fim, e então veio o martírio. Porque papai acordou. Acordou e começou a trucidar baratas, aos berros, em todos os cantos que as encontrava. Acordou e ligou para o Serviço de Dedetização, três dias depois do incidente. A mamãe nada disso importava mais, nem a mim, mas ainda tive forças para descobrir a razão de nosso infortúnio, ler tudo a respeito e jogar as informações na cara do velho.

Titylus serratus, escorpião amarelo, predador de insetos. Brilha no escuro, mas dormíamos. Nossa casa devia estar para ele como a casa de doces para João e Maria. Nunca saberemos quantas baratas ele detectou, quantas baratas ele devorou, quantas baratas ele perseguiu até entrar no quarto de Hugo, ferroar o seu braço e o tirar de nós.

| o lançamento do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019) será sábado que vem, 27 de julho, em Belo Horizonte: [link]. | página da Editora Caos e Letras: [link]. |

Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, em Minas Gerais, no ano de 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016) e Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009). Trabalhou com edição e revisão de textos para revistas e jornais nas áreas de educação, comunicação e literatura. Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto “Sombras”. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.

fragmento do livro ‘Nessa boca que te beija’, de Leonardo Almeida Filho

capa_nbocaDo capítulo “O grande autor”, do romance Nessa boca que te beija (Editora Patuá, 2019).

Levantou-se arqueado. Observando a estante, delirou ante os volumes lidos e desejados na esperança de que, em algum deles, pudesse estar a receita. Quanto entulho! pensou babento enquanto sonhava em aparar as unhas, depois de estraçalhar os ratos. Buzinaram um escapamento pipocou lá fora e entrou pela janela os carros saracoteiam uma puta é arrastada por policiais na 12ª DP barulho de garrafas e pigarro e alegria ébria vêm do Pavão Azul vento de pré-chuva levanta poeira e folhas secas pela rua arrasta grãos de areia na praça Sezerdelo no Posto 3 levam os jornais que cobriam um sem-teto na Domingos Ferreira o delírio, o delírio, o delírio… pardais avoaçando penas de pulgas e parasitas que as titicas desovam na calçada escarrada pelo senhor tísico das aulas de latim no seminário de meninos crentes e quentes nas camas do monsenhor que se atira na campanha anti teologia da libertação e reza seu terço de pedras verdes como os olhos da serpente que inocula credos e peçonha na bundinha de Ela que não reza e que não sabe um terço da missa que não frequento e que o diabo cospe de lado e malha o casco nas costas de um povo que masca a coca-cola e os bublegummers dos fuzis AR15 interceptados por colecionadores que assinam a gazeta mercantil para melhor negociar as almas das senhoras que contam e recortam os bingos das tevês insones que preenchem a existência de funcionários públicos em dias de jogos da seleção canarinho que também tem seus vermes e parasitas expostos na titica dos hotéis baratos e ruelas de crack e merla e merda e coca e camisinhas e sonhos rarefeitos e desfeitos e refeitos sem dó ou pena dos desejos assanhados e presos nas tranças da menina ruiva protestante cujo pai estupra toda noite em que a mãe sai para distribuir revistas de testemunhas de um deus omisso como muito pai e Ela que se encolhe na própria sina de ser apenas Ela um monstro górgona e seu mistério que decifro e leio num versículo de palavras que atribui ao Salvador dessa porra em que comemos e amamos e bebemos e cagamos e criamos e destruímos e matamos e elegemos e derrubamos e sorrimos e choramos e broxamos e mentimos e mesmotonamos e barbarizamos e confudízimos e neobramos e persistimos toscos e lânguidos e crédulos e perfídicos e tresfódicos e amórficos e amásicos e trôpegos e brasilúdicos e atávicos e serpentílicos e baboseiricos como nenhum outro povo antes ou mesmo porque somos o depois de quilos insondáveis de éter afrofortespérbano mergulhados à força e sob a benção de um Deus de carne e osso palestino no caldo tupinicosmicoriginário redemuinizados no caldeirão medieval do branco ibérico e mouro protetor da pele branca e destruidor das cores que lhe afrontam o bolso e o tesouro que se entregará logo ao novo testamento do planeta que caminha inexoravelmente para o buraco do Quasar de Campos e concretos com validade vencida e vazios feito a pança enorme do menino de Uganda que era e é um negro a mais que se vai sem deixar a marca possível da grandeza da alma humana na aventura desumana do útero à sepultura assim sem grandes travessias e destinos epopéicos além das serpentes no cabelo da moça que vende o corpo para pais estressados com a preocupação que lhes dá a filha namoradeira e Ela e Ela e Ela e o namorado noiado que masca o rock and roll enquanto vende Bach e Telleman para um interceptador paraguaio que coça o saco e barrocamente pigarreia o negro fumo que alimenta o câncer da mulher do deputado que nos vende e tripudia sobre os pequenos barrigudos do Vale do Ribeira sem eira nem mesmo que se queira e se vão aos bandos para as beiras beiradas na periferia onde Maria se prostituía antes de cair doente aos pés da cama e da cruz dos crentes que arrecadam montanhas maométicas do vil metal para as grades dos apartamentos e sobrados que abrigam senhores e senhoras e filhotes de senhores e senhoras e o circo típico das relações furadas da burguesia e suas crises conjugais sem romeus ou julietas além do fogo das bocetas ardendo na hípica e no Iate Clube repleto de machos e fêmeas não parideiras que como Ela jogam jogos das carnes que não se vendem nos açougues portugueses onde os patrícios riem de nossas piadas como rimos de nossos pais esclerosados e prostrados e abatidos e mastigados e derrotados e frustrados e tão sós quanto nós mesmos nessa fila infinita de personagens vivas de suas próprias e insignificantes histórias que são lidas nas certidões e nada consta e fichas de ocorrência policial e diplomas e fotografias de santinhos de missa de sétimo dia ou espalhadas pelos cantos de nossas casas alugadas ou mesmo sob pontes e viadutos e sobre lagoas fétidas que quase se equilibram espelhadas nas encostas das montanhas que frequentemente se derretem como trágicos sorvetes de lama e limo e lodo que nos cobrem e nos aliviam da dor e da alegria de estarmos e sermos ou mesmo até pensarmos que estamos ou que somos e por isso mesmo o rádio do automóvel cantou desesperado quando um escapamento pipocou pela janela e o café de Vitória é bom como a saliva de Ela… de Ela, ele sorriu, tocou-se, respirou profundamente de olhos fechados. Ela, Ela.

| para comprar o livro no site da editora [link]. |

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano, como Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poemas em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira, como Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesia Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinquentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Publicou em 2018 o volume de poesia Babelical, pela Editora Patuá. E-mail: leo.almeidafilho@gmail.com

capítulo 1 do romance ‘O pior dia de todos’ (Tordesilhas, 2019), de Daniela Kopsch

capa_opiordiaDois dias depois do meu aniversário de 14 anos, um homem invadiu minha escola e matou 12 crianças. Foi tudo muito rápido. Eu sei que as histórias trágicas sempre começam assim: Foi tudo muito rápido. Mas não estou exagerando. Às 8 horas, começamos uma aula de Língua Portuguesa, e às 8h15, tudo estava terminado.

Não vi quando ele entrou na sala de aula. Eu estava de olhos fechados porque a luz da janela era insuportável, assim como o barulho da turma e o cheiro doce do desinfetante que passaram no chão antes de a gente entrar. Tentei manter minha cabeça imóvel. Ela doía e parecia a ponto de explodir a qualquer momento. Por isso, eu estava quieta, deitada sobre os braços e não vi como foi que tudo começou. Talvez ninguém tenha visto. Os primeiros minutos de aula são sempre tomados por uma agitação generalizada e eu também estaria ocupada conversando com Natália, mas não naquele dia. Naquele dia, nós não estávamos nos falando.

Natália e eu somos primas. Estudamos juntas desde o primeiro ano e vivemos na mesma casa desde que nascemos. Talvez eu pudesse dizer que somos irmãs. Ou quase isso. Com certeza absoluta, somos melhores amigas. Nós também dividimos o quarto, de maneira que acordamos juntas todos os dias, quando o despertador toca às 6 horas. Naquela quinta-feira, levantamos sem dizer uma palavra, vestimos o uniforme, tomamos o café da manhã, descemos a ladeira levemente curva da nossa rua, passamos em frente ao mercadinho, que estava abrindo as portas naquele momento e, depois de mais ou menos 1 quilômetro, chegamos à escola. Há quatro anos percorríamos aquele trajeto e eu poderia fazê-lo de olhos fechados. Sei onde desviar para não esbarrar no poste que fica bem no meio da calçada, sei que é necessário tomar cuidado para não levar uma bolada na cara quando passamos pelo terreno baldio, também chamado de terrenão (às vezes, os meninos miram nos pedestres de propósito, considere-se avisado), e também sei evitar a rachadura na calçada onde as pessoas sempre tropeçam. Passando tudo isso, você chega à escola em segurança. Ou pelo menos era o que pensávamos.

Esse é um caminho de apenas 15 minutos, mas, naquele dia, levamos quase o dobro. Caminhávamos em silêncio e muito devagar. Paramos várias vezes, e em todas esperei que Natália me falasse algo. Mais de uma vez, eu mesma abri a boca com essa intenção. Ficava parada na calçada, com uma frase se formando quase pronta para sair, mas logo a ideia escapulia, incompleta, e eu não dizia nada. Foi assim durante todo o percurso, até que chegamos atrasadas para a primeira aula.

Então, eu estava sentada ao lado da minha prima-talvez-irmã-com-certeza-melhor-amiga me perguntando quando é que aquele dia horrível ia terminar. Eu só precisava esperar, era o que eu pensava, e logo as coisas voltariam a ser como antes. Agora, sabemos que eu estava errada. Como todos, aliás, quando acham que sabem o que vai acontecer. Nada voltaria a ser como antes. Nunca. Minha turma estava na mira de um homem que queria atirar todo o seu passado sobre nós. Em breve, seríamos massacrados. Não gosto dessa palavra, mas foi como chamaram. O Massacre de Realengo.

Eu chamo de O Pior Dia de Todos.

[sobre a autora do livro]

Assim como Natália, personagem deste romance, Daniela Kopsch começou seu caminho na literatura em um concurso de redação. Aos 8 anos, ela escreveu uma história e ficou impressionada com a força de vê-la publicada. “Guarde esse recorde de jornal para seu currículo de escritora”, a professora disse. Memorizou a frase e a reproduziu neste seu livro de estreia.

Desde a infância, Daniela estudou em escola pública, em Balneário Piçarras, pequena cidade de Santa Catarina Percebeu que escrever tinha algo de mágico, algo que poderia fazer as coisas acontecerem. Agarrou esse recurso com força. Entrou na faculdade de Jornalismo e, depois de formada, chegou ao Rio de Janeiro para trabalhar como repórter.

Na cobertura do Massacre de Realengo enquanto entrevistava as meninas que sobreviveram à tragédia, Daniela se perguntava quem elas eram, o que faziam antes de aquele entrar na sala atirando em todo mundo — de certa forma, este romance começou a ser escrito naquele dia. O relato jornalístico se perde no tempo; na literatura a autora reconstruiu a matéria da memória. Ela quer que essas meninas sobrevivam, não apenas as de Realengo, mas todas que conheceu e procurou retratar aqui.

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um universo circular no fluxo das águas, resenha de Nuno Rau

capa_wandaLA liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

1.

Adentrar um bom livro de poemas pela primeira vez nunca é uma aventura simples — é como entrar num espaço desconhecido que guarda surpresas em suas paisagens. A poesia convoca a um posicionamento do leitor, daquele que precisa ativar, com sua energia, o circuito impresso sobre o qual se assenta o conjunto de poemas, para, assim, atualizá-los em relação a si mesmo. No meu caso, considero instigante a busca sobre o que moveria a voz gravada nestes versos, que determinações a atravessam e o que ela nos abre em sua potência. A liturgia do tempo é um livro com muitas entradas, como se inúmeros pequenos afluentes nos levassem todos ao rio principal que é a poética de Wanda Monteiro, no exato momento em que ela se encontra, este aqui e este agora (sempre em curso contínuo). Wanda é uma poeta que nasceu em meio às águas da Amazônia, nelas se banhou, em seu entorno cresceu e delas carrega a marcante influência que seus poemas anunciam, uma poeta que já nos deu livros maduros e prenhes de questões como Anverso e Aquatempo, igualmente marcados a um só tempo por essa regionalidade e pela universalidade que nos aproxima de seus caminhos internos.

Interrogando essa voz, ela nos conta que roga pela “escuta de alguma voz/ voz que venha de todas as vozes” que enumera, então: a dos elementos — vento, céu, terra, fogo, águas —, a dos seres — as “coisas miúdas” —, a do mistério da vida e da morte, do sagrado e da ancestralidade. Estamos postos diante de uma cosmologia que se esboça por movimentos sutis, e precisamos interrogar a essa “voz do céu que guarda todas as vozes” por quais devires humanos (e, sem dúvida, também supra-humanos) seremos levados. Buscamos pistas, uma vez que estamos em meio a uma densa mata na qual pegadas são recobertas pelas folhas que caem incessantes, e atravessadas por rastros de outros animais, quando não lavadas pela chuva ou pelas aluviões delas decorrentes.

Não bastassem, como vimos acima, as interrogações acerca dos fluxos que atravessam e constituem esta poética (a um só tempo centrais e marginais em relação ao debate contemporâneo da poesia), observamos que o livro é construído por dois espectros de fala que, dialeticamente, não se mesclam, antes se diferenciam no diálogo que articulam entre si, comigo e com você, atônito leitor — é necessário desenvolver mecanismos para a escuta destas falas, localizar suas pistas. Um sinal nos acena da epígrafe: Heidegger se interroga sobre semelhança e oposição entre poesia e pensamento; entenda-se aqui pensamento, na mira do filósofo, como o responsável pelo triunfo da técnica na sociedade moderna e, por conseguinte, pela conversão da vida em simples procedimento burocrático dentro do aparato científico-tecnológico do Estado, tendo como resultante o esquecimento do ser. A poesia seria, então, esse caminho para o retorno à experiência original do pensamento — e esta experiência original é exatamente o que se persegue em A liturgia do tempo, por meio da própria linguagem e do lugar para onde ela se volta como ferramenta de representação e reflexão: ela busca lembrar o esquecido, isso que perdemos na contemporaneidade, no mergulho da vida urbana e, assim, superar essa crise e procurar reconstruir a experiência original do pensamento. Eis o abismo de que nos fala o filósofo, eis o abismo (ou um deles) que a poesia busca sobrepassar.

Tomando ainda a questão levantada pela leitura da epígrafe, podemos pensar sobre a querela entre Heidegger e o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX, especialmente com Saussure e Wittgenstein. Simplificando os termos deste debate para o contexto de nossa apreciação de A liturgia, podemos tomar do nominalismo linguístico o pressuposto de que o ser humano está diante de um incontornável esquecimento do ser, do qual a arbitrariedade do seu uso social e científico é o mais recente sintoma. Isso ocorre porque estamos imersos numa nuvem de signos, todos autorreferentes e dotados de legalidade própria e independente, e não fundados numa forma lógica ou na própria substância do mundo.

No lugar de buscar a superação da crise acima detalhada, reconstruindo, na medida de seu possível, a experiência fundante do pensamento tal qual se deu na Grécia antiga, perdemos o pouco potencial reflexivo que ainda possuíamos porque nos dedicamos a compreender e praticar as regras e a arbitrariedade do signo. É devido a isto que, para Heidegger, o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX é a forma mais recente, mais jovem, do estranho ou do estrangeiro se manifestar, ou seja, é a mais recente manifestação do esquecimento do Ser — caberia a nós, como alternativa, lembrar o esquecido: para Heidegger não são o cientista ou o administrador do Estado os cidadãos capazes de realizar a experiência da dignidade da palavra. Para tanto, só o poeta.

2.

Aqui tocamos o ponto de articulação entre a poética de Wanda Monteiro e a questão da linguagem, sua arbitrariedade. A poesia, como queria Heidegger, tenciona retomar o caminho até o Ser, ambiciona cumprir o arco entre o texto e a existência, de modo que nos reconectemos com esses princípios. Os poemas de Wanda nos aproximam desta ponte sobre o abismo pela via do que foi transmitido pelos povos ameríndios às populações ribeirinhas do Pará, determinando sua visão de mundo e, portanto, sua relação com a linguagem. Explico: desde que os gregos antigos disseram pela primeira vez a palavra physis (materializaram no próprio movimento do ar sendo soprado por entre os lábios que formam uma espécie de túnel estreito (pela forma da pronúncia), e articularam um vínculo entre o fenômeno descrito pela palavra e a materialidade de sua fala, que remete ao próprio movimento do ar (como se fosse um vento, fenômeno meteorológico) que, para aqueles gregos era uma substância que preenchia todo o universo, já que em sua forma de compreender o mundo não havia o vácuo; este “preencher” o universo explicava, entre outras coisas, a própria possibilidade e ocorrência dos movimentos dos seres e dos objetos. A forma com que os ameríndios articulam a fala e a relacionam com suas cosmologias não é, estruturalmente, tão diversa, e as palavras são sinais desta ligação originária que, para nós, está perdida pela forma arbitrária como aprendemos e reproduzimos a língua. Os poetas trabalham com uma espécie de arqueologia deste fenômeno primeiro, irremediavelmente perdido, e para quem, como Wanda Monteiro, tem uma relação com este mundo é impossível não espelhar em sua produção elementos atávicos.

Isto pode ser observado nas palavras e conceitos que comparecem nos poemas — por exemplo, o “solo”, que ora aparece como chão firme, ora como elemento fluído e mutável. É assim mesmo que as imagens da natureza afloram nos poemas de A liturgia do tempo, referindo o modo como a própria formação antiquíssima daquelas planícies se deu pelo carreamento de solo nas águas pretas dos rios. São muitas as águas por toda a Amazônia, aliás, um leque de formas líquidas que vai das águas claras às águas pretas, passando pelas águas míticas e pelas águas ancestrais que amnioticamente nos transmitem conteúdos. Os solos em meio a tantas águas reais e simbólicas não poderiam ser solos absolutamente estáveis, e se mostram móveis e dúcteis, passíveis de serem levados pelas aluviões que, desde o grande dilúvio, são mitos fundadores de nossa cultura — presentes também nas cosmologias ameríndias, como nos mostra Lévi-Strauss nas Mitológicas. Ressalta da leitura deste livro que a poeta trata reiteradamente da necessidade (ou da ausência) do chão, mas ao ler temos que ter em perspectiva que esse chão primevo é em tudo mobilidade e impermanência, além de arquivo de memórias densas.

E eis que Wanda nos apresenta que, em sua cosmologia, o corpo como a soma destes dois vetores, a impermanência absoluta das águas e a permanência provisória do chão, e desta dualidade extrai uma tensão que ilumina a leitura dos poemas. O que unificaria no corpo essa dualidade? Não poderia deixar de ser o tempo, intervalo em que se estendem a permanência e a impermanência, e nada nesta poética é gratuito, porque o solo levado pelas águas até formar novo chão nada mais é do que a matéria da memória que estes poemas nos apresentam, memória que nos vêm segundo o ritmo mesmo do fluir destas águas. É deste jogo na linguagem que nasce a liturgia, a necessidade do trabalho sagrado sobre a matéria do tempo, esse fluxo inapreensível, e seu conteúdo milionário de significados. Cabe aqui compreendermos melhor os sentidos do termo liturgia.

A palavra liturgia tem origem na língua grega e é composta de dois elementos: leitos (público) e érgein (fazer). Juntando estes dois pelo radical e acrescentando a eles o sufixo formador de substantivos, temos leit-o-erg-ia ou leitourgia. Leitos deriva da palavra léos, forma dialetal de láos, que significa povo. Érgein é um verbo que caiu em desuso na época clássica, mas que sobreviveu no substantivo érgon (trabalho). De leitourgia derivou litourgos (servidor público) e o verbo litourgein (exercer uma função pública). De láos (povo) se originaram as palavras laico, laical, leigo. Assim, liturgia, liturgo, lutúrgico, laico, leigo, laical pertencem a uma mesma família de palavras, pois todos procedem da raiz láos ou léos, povo. Mas liturgia passou a ter também, em nossa cultura, um significado religioso: liturgia é o serviço público oficial da Igreja e corresponde ao serviço oficial do templo. Abrange, pois, todo o conjunto de funções oficiais, os ritos, as cerimônias, orações e sacramentos.

Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que o nome-síntese deste novo livro de Wanda Monteiro articule estes dois sentidos da palavra liturgia e a ponha em relevo: o laico e o sagrado como faces de uma mesma coisa, e podemos supor, sem muita chance de equívoco, que a liturgia é, para a poeta, o próprio poema — nele se irmanam estes dois aspectos da existência. É por isto que a voz que nestes poemas fala não pretende “deixar de comover-se com o mundo”, o mundo que vem na aluvião de suas sonoridades e sentidos, e, deste modo, nos co-move.

Nuno Rau é poeta, professor de história da arte e arquiteto, tem poemas em diversas revistas e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Edita revista de literatura mallarmargens.com desde 2012, e em 2017 publicou Mecânica Aplicada (poemas), pela Editora Patuá, que foi finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura.

TRECHO DO LIVRO

A linguagem poética talvez seja o último refúgio da humanidade. A escritura poética restará — mesmo — como tesouro arqueológico da remota paisagem dos sentidos e percepções do humano.

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras
===
pisar no auto-exílio

no exato quando do entreato
o tempo nos toma de assalto
parte-nos ao meio
aloca-nos fronteiriços
imersos no espanto

olhos no passado
olhos no futuro
o presente carregado de impossibilidades

I

em leito outrora fecundo
línguas ondas quebravam sonantes
ao toque da lira
no-ágora-do-outrora
só há espectros
mudo-surdos
habitantes de um deserto
seco e demente
de palavras

II

no gargalo da garganta
ergue-se um mausoléu de asas
em santo sepulcro de palavras aladas

III

que presságios trás a mudez
do flagelo verbo
fugitivo de um poema em chamas
?

Wanda Monteiro é escritora e poeta, uma amazônida nascida às margens do Rio Amazonas, no coração da Amazônia, em Alenquer, Estado do Pará. Reside há mais de 25 anos no Rio de Janeiro, mas só se sente em casa quando pisa no leito de seu rio. Seu livro A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

tânatos, do livro ‘A balada do cálamo’, de Atiq Rahimi

Capa - Balada do calamo.inddA Balada do Cálamo, de Atiq Rahimi. Tradução e notas de Leila de Aguiar Costa (Editora Estação Liberdade, 2018)

Imaginem, em seguida, o mesmo jovem diante da grandeza do mausoléu do Taj Mahal, um monumento como prova de amor que o imperador mongol Shah Jahan fez construir em memória de sua esposa Arjumand Banou Begum, falecida em 1631. Ela repousa aqui, no coração desta obra-prima arquitetônica que combina as artes islâmica, persa, otomana, indiana e italiana. De uma brancura etérea, este mausoléu é decorado com vinte e duas passagens do Alcorão em árabe, caligrafadas com pedras negras, magistralmente incrustadas no mármore. Nenhuma imagem de ser humano, nenhuma escultura está presente. Abstração absoluta, exceto os motivos florais. Aqui, a divindade é sem rosto, sem corpo, sem sexo, sem desejo… A única mimese que pode ser encontrada neste edifício é o reflexo do jardim celeste, como ele é descrito pelo grande místico árabe Ibn Arabi, em seu livro As iluminações da Meca, e sugerido por aquele verseto do Alcorão que embeleza o pórtico da entrada do mausoléu como que para acolher devotamente os visitantes:

Ó alma apaziguada! Volta para teu
Senhor satisfeito e agregado! Entra para
meus servidores! Entra em meu paraíso!

Que desafio para construir sobre terra a obra celeste de Deus, um paraíso para os mortos!

letra_atiq

Entre essas duas maravilhas do mundo, o jovem afegão vê diante de si abrirem-se duas vias distintas:

Uma convida a conhecer a divindade através da vida; a outra, através da morte.

Uma torna visível a Verdade; a outra a deixa invisível.

É então que ele compreende o sentido daquelas duas anedotas frequentemente ouvidas em seu país e na Índia:

Uma noite, todas as borboletas do mundo reuniram-se ao redor de uma vela para explicar umas às outras o segredo de sua atração pela chama da Verdade. Uma se levantou, voou, deu a volta em torno da vela e voltou para exclamar:

— Porque é luz!

Uma segunda fez o mesmo caminho e falou:

— Porque é quente!

Uma terceira:

— Porque dança, como nós!

Uma quarta:

— Porque é efêmero, como nós!

Uma quinta,

Uma sexta…

Enfim, cada uma teve sua própria interpretação. Com exceção da última, que se jogou na chama e morreu. Todas as outras então se disseram:

— Aí está a única que compreendeu por que, mas ela levou o segredo consigo.

Em seguida, esta outra, uma velha lenda indiana:

Houve um tempo em que todos os seres humanos eram deuses, todos seguravam a Verdade divina na mão. E dela abusavam. Brahma, o mestre dos deuses, não apreciou nem um pouco a arrogância deles. Decidiu então retirar-lhes a Verdade e escondê-la em um lugar que lhes seria inacessível. Mas onde?, interrogou Ele os deuses menores.

Um propôs:

— Enterremo-la!

Brahma refletiu, em seguida disse:

— Eles cavarão a terra e a encontrarão.

— Escondemo-la no fundo do oceano!

— Eles explorarão um dia as profundezas dos mares e acabarão por encontrá-la.

Desesperados, os deuses menores concluíram que não haveria parte alguma nesta terra para escondê-la. Brahma então disse:

— É preciso escondê-la o mais profundamente neles próprios, pois é o único lugar onde os homens nunca pensarão em procurá-la!

Meu jovem afegão preferiu buscar a Verdade no fundo de si mesmo e em sua vida terrestre, mais do que conhecê-la nos céus, após sua morte — uma busca incerta, quase inútil!

Entretanto, há algo de sublime que o fascina neste templo de Tânatos. Alguma coisa que nada tem a ver com a carga teológica do lugar. Ela forçosamente reside na coerência estética entre sua concepção, sua arquitetura, seu meio, sua história, sua matéria, suas cores, suas caligrafias… E tudo isso graças a uma perfeita simbiose de diferentes artes, oriundas de diferentes civilizações.

Do mesmo modo que os jogos e as jogadas geopolíticos as separam, a arte as reúne.
Ele deixa, pois, o mausoléu prometendo-se não mais pertencer a política alguma, a religião alguma. Ele gostaria de gritar aqueles versos que seu pai atribuía a Rumi:

Setenta e duas nações ouvirão de
nós seu segredo
Nós tocamos a ária de duzentas religiões
em uma única nota de nay

Foi essa a minha promessa de juventude. Mesmo assim, isso não me impediu de conhecer as religiões. Pelo contrário, ela abriu-me outra via para melhor apreendê-las. Com distância. E sem dogma.

Não buscava mais ali uma verdade, mas um segredo, aquele que engendrou toda divindade, toda crença, e que reside, desde a noite dos tempos, em nosso âmago.

Ele está aí,
no coração de nossos temores,
no limiar de nossas dúvidas,
no abismo de nossas falhas…
Ele aí está para me fazer dizer:
Sou budista, porque creio em minha fraqueza.
Sou cristão, porque confesso minha fraqueza.
Sou judeu, porque rio de minha fraqueza.
Sou muçulmano, porque combato minha fraqueza.
E sou ateu, se Deus é todo-poderoso.

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Atiq Rahimi (1962, Cabul, Afeganistão) iniciou sua carreira na França, após fugir de seu país durante a guerra civil na década de 1980. Formado em letras e cinema, participou da FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty em 2009. É autor de Syngué Sabour, Maldito seja Dostoiévski, Terra e cinzas, As mil casas do sonho e do terror, entre outros.