Clarice Lispector, 100 anos

feliz-aniversario-clariceEm 2020, centenário de nascimento de Clarice Lispector, completam-se também 60 anos da publicação de Laços de família, seu mais célebre livro de contos. Para essa dupla comemoração, 27 ficcionistas brasileiros dialogam com a obra da escritora e a homenageiam, nesta coletânea que traz narrativas inspiradas em cada um dos contos de Laços de família. Intertextuais ou não, as recriações têm pontos de vista bem diferentes ou mesmo opostos. São, em geral, duas por conto de Clarice, uma escrita por mulher e outra por homem, quase sempre de estados e idades distantes, numa amostragem da rica e diversificada literatura brasileira contemporânea. Enriquecem o volume depoimentos de cada um dos autores sobre a “gênese dos contos”.

“Seja qual for o ponto irradiador, a escrita nova abre-se em perspectivas múltiplas, em que os laços de família e outros laços possíveis no campo das relações humanas são aqui revisitados na sua complexidade e no seu mistério. Eis um modo ao mesmo tempo instrutivo e divertido de se reinventar Clarice, numa demonstração de que seu legado, precioso, continua bem vivo entre nós.” (Nádia Battella Gotlib)

Autores: Álvaro Cardoso Gomes | Ana Cecília Carvalho | Anna Maria Martins | Beatriz de Almeida Magalhães | Bruna Brönstrup | Francisco de Morais Mendes | Guiomar de Grammont | Hugo Almeida | Itamar Vieira Junior | Jádson Barros Neves | Jeosafá Fernandez Gonçalves | Jeter Neves | Letícia Malard | Lino de Albergaria | Mafra Carbonieri | Marilia Arnaud | Marta Barbosa Stephens | Mayara La-Rocque | Raimundo Neto | Stella Maris Rezende | Rodrigo Novaes de Almeida | Ronaldo Cagiano | Ronaldo Costa Fernandes | Sandra Lyon | Tarisa Faccion | Valdomiro Santana | W. J. Solha

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Feliz aniversário, Clarice
Contos inspirados em Laços de família
Editora Autêntica, 2020
Hugo Almeida (Organização)

Em breve nas livrarias! Ou receba um aviso por e-mail quando este livro estiver disponível no [link].

infierno, de Fábio Mariano

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Comecei a trabalhar no buffet por acaso. Um amigo meu me ligara falando sobre a vaga, e era uma época na qual os buffets infantis apareciam em cada esquina de Cartago de uma semana para outra. De repente, então, a equipe de adolescentes mal remunerados de um deles evaporava, e era necessário pedir aos restantes que ligassem para seus amigos. Eu queria ter algum dinheiro — começava a descobrir que queria cozinhar, mas era impossível pedir os ingredientes que eu queria provar à minha mãe. Surgia, diante de mim, a chance de contornar o veto da inutilidade daquele gasto (a questão não era falta de dinheiro) pelo módico preço de tolerar algumas crianças por algumas horas e dormir mal algumas noites — nada que eu já não tivesse feito sem ganhar dinheiro algum.

Era a primeira vez que eu trabalhava, e minha intuição nunca fora muito boa, de modo que não compreendi por que meu amigo me deixava de canto para conversar com todos os outros. Ele me explicou que, ali, nos organizávamos em grupos: salgadinhos, bebidas, pula-pula, piscina de bolinhas e cama elástica. Mudávamos de grupo no meio da noite, e também de um dia para o outro, e quando as festas terminavam todos faziam juntos a limpeza e a organização. Como eu morava perto do buffet (ao contrário da grande maioria das pessoas, inclusive de meu amigo), ia embora a pé. Cumpria as obrigações e ficava no meu canto, sem conversar muito, e embora soubesse os nomes dos meus colegas, não tinha qualquer outra relação com eles.

Na quinta semana em que estava trabalhando lá, meu amigo me chamou num canto. Eu estava com os salgadinhos, e ele, com as bebidas. “Você percebeu?”, me perguntou, empolgado, sem que eu tivesse a mínima noção do que ele dizia. Vendo minha cara de dúvida, sussurrou “Do lado do pula-pula, mas olha sem dar bandeira”, saindo para levar mais uma bandeja cheia de copos de refrigerante. Enquanto alinhava as coxinhas na minha bandeja, repassei, um a um, os rostos da festa. E quando estava para decidir que nada me era familiar percebi que havia, de fato, algo no rosto daquela moça ao lado do pula-pula. Só aí o sorriso que se estampava no rosto de meu amigo me contagiou.

A moça era Amanda Sky.

Terminado nosso serviço, meu amigo me pediu que ficasse. Disse que fariam uma festinha na casa de um dos meninos. “Vão todos: o Tigão, o Pingo, a Babi, a Isa, o Dedé…”, e depois, sussurrando para mim, “tenho certeza de que a Isa vai”. Eu, que nem reparara direito em quem fosse a Isa, tomei aquela informação como crucial. Perguntei a ele o que eles comeriam. “Sei lá, pedimos alguma coisa”. Minha reação imediata, antes que eu pudesse me controlar, foi perguntar se eu poderia cozinhar. “Acho que vai ter muita gente”, ao que respondi “Para mim é perfeito. E eu banco”. Meu amigo foi até André, o dono da casa, e confirmou minha autorização.

Pingo me disse que me daria uma carona até o mercado — iríamos os dois. No caminho, me informou que o André tinha gostado de eu bancar tudo, mas que, se eu precisasse, eles também ajudariam. Pensei que não seria necessário, mas no fim, acabei me excedendo um pouco. Não que eu tivesse comprado nada caro, mas pensei que não poderia faltar comida. O resto do dinheiro que estava com Pingo, que era da vaquinha do pessoal, foi para as bebidas.

Quando chegamos à casa do André me dirigi direto à cozinha, sem pegar nem mesmo uma latinha de cerveja. Os pais dele tinham viajado, e a casa era grande e cheia de livros. Ali, dois amigos dele de outro lugar já estavam sentados em dois pufes discutindo calorosamente sobre Marx, Nietzsche e Darwin; e enquanto um deles falava alto, mas sóbrio, com movimentos de mão firmes e bem desenhados, o outro parecia se atropelar, como se as ideias fluíssem em sua cabeça a uma velocidade muito maior do que a das suas palavras, de modo que, se não era um gaguejo, havia uma espécie de interrupção abrupta no meio de suas frases. Era óbvio que os dois eram muito amigos, e decidi que eles seriam as primeiras pessoas que eu serviria, se eu pudesse escolher. De dentro da cozinha ouvia uma voz esganiçada tentando cantar e uns dedos desajeitados tentando tocar violão, que foram imediatamente substituídos por alguém que só podia estar bêbado havia muito tempo, embora tocasse e cantasse com perfeição. Enquanto preparava espetinhos de muçarela de búfala envolvida em bacon usando como espetos os ramos de alecrim, macarrão com queijo e abobrinhas e tomates recheados, fui aos poucos perdendo o contato com o que acontecia ali dentro. Cruzou minha cabeça o olhar de Amanda Sky, se ela gostaria dessa refeição… Como passei a segunda metade do serviço na piscina de bolinhas (o que me permitiu um ponto de observação privilegiado), percebi apenas o amor dela diante de uma criança que obviamente não era sua filha, e seu olhar, tão diferente daquele ao qual eu estava acostumado a ver nos vídeos. A voz, no entanto, era inconfundível.

“Não era ela?”, disse meu amigo, irrompendo na sala com o braço enlaçado na cintura de Tigão. “Era óbvio que era ela, estou falando!”. Os dois debatedores entraram na cozinha, o mais calmo dizendo, “impossível, cozinheiro, é isso mesmo? Vocês viram a Amanda Sky hoje? E não fizeram nada?”, “e iam fazer o quê, ô, o que você acha, né, que eles iam, sei lá, perguntar se ela tava sem calcinha?”, questionou o outro, ao que todos rimos. Antes que eu pudesse confirmar, percebi que eles haviam saído da cozinha. André veio até mim, então, me perguntando se estava tudo bem e se eu precisava de algo. Me abriu uma lata de cerveja antes que eu pudesse responder — eu respondia às panelas –, me abraçou e agradeceu por eu estar lá. Disso me lembrou bem: ele não me agradeceu por estar cozinhando; me agradeceu por estar lá. Tomei um gole da cerveja, agradeci, pedi que ele levasse alguns espetinhos já prontos para a sala e continuei.

Alguns segundos depois, ouvi uma voz dizendo “você não tem nada para mim?”. Olhei para a mão que se apoiava no balcão da cozinha. Era a mão de Amanda. Aquela mesma mão, com o mesmo esmalte, os mesmos dedos tortos, aquela mão que eu reconhecera imediatamente ao olhar Amanda erguer sua sobrinha ou afilhada ou a filha de sua melhor amiga até o pula-pula. Mas a voz não era a de Amanda; era a de Isa, que me perguntava se eu cozinhava alguma coisa que não tivesse bacon, “ou nenhuma carne, na verdade”. Puxando um prato que não sabia se poderia usar (àquela altura eu sabia que isso já não fazia a menor diferença), montei com o macarrão o prato mais bonito que pude — que, obviamente, não era nada demais. Isa riu um pouco do meu esforço, agradeceu pegando na minha mão, e ia saindo dali olhando para mim, quando pedi que ela esperasse. Adicionei um tomate recheado ao prato. “Não tem carne nenhuma também”. Ela me olhou, como se não entendesse o que eu dizia, mas sorrindo, e ainda sorrindo foi embora.

Depois de cozinhar, me lembro de pouca coisa. Liguei para casa dizendo que dormiria na casa do amigo que me arranjara o emprego — embora obviamente fosse dormir ali mesmo, se pudesse, e não estivesse muito preocupado com isso. E então, com todos elogiando minha comida, me lembro de declarar que eu teria um restaurante, onde, um dia, todos eles iriam. “Vai se chamar Sky”, disse uma voz (a memória se turva aqui) ao que um outro respondeu que isso seria muito comum. Houve risos. “Se eu botar esse nome, vou ter que convidar a Amanda”, disse finalmente. Não me lembro de tudo o que tomei. Lembro-me, sim, da corrida até o banheiro, e das mãos de Isa em algum momento. Foi um dos dias mais felizes que vivi.

No dia seguinte faltei à escola (coisa que nunca fazia), e, chegando em casa no meio da manhã, pensei em como iria me justificar. Minha mãe estava sentada na mesa da sala, mas meu pai a acompanhava — o que, via de regra, não deveria acontecer. Ele olhava para baixo como quem houvesse sofrido uma derrota. O rosto de minha mãe estava enfurecido, e me preparei para uma bronca como nunca havia tomado, para uma expulsão de casa, para qualquer coisa. Mas minha mãe esfregava nervosamente as mãos nas coxas enquanto tamborilava os dedos. Seu olhar era descrente e cansado. Meu pai havia sido agraciado com uma escolha. Deveria se transferir para o escritório de Buenos Aires ou então procurar outro emprego. Ele aceitara a transferência. Minha mãe se separaria dele um ano depois, voltando para o Brasil — para Cartago — no dia da assinatura dos papéis do divórcio.

Liguei para meu amigo dizendo que não trabalharia mais no buffet. Ele entendeu, e nunca mais nos falamos. Fiquei em Buenos Aires com meu pai e lá estudei gastronomia. Lembrava-me sempre dos dois debatedores daquela festa ao ver os argentinos discutindo sua política e suas letras. Continuei cozinhando, estagiei com o mais famoso dos chefs argentinos, fiz carreira. Visitava minha mãe, que agora se orgulhava de ter um filho chef, com frequência. Ela ia bem, se casara de novo e entrara no ramo imobiliário. Continuei, também, acompanhando a carreira de Amanda Sky, quase sempre de passagem. No ano da festa ela ganhara um prêmio de melhor atriz pornô do mundo, o que a levara, por um breve período, aos Estados Unidos. Mas talvez, como minha mãe, ela sentisse falta do Brasil — nunca soube se ela morava em Cartago ou estava só de passagem — e me lembro de ter visto mais uma porção de vídeos dela. Num certo momento, no entanto, ela desistiu da carreira, e conseguiu trabalho em algum canal de TV. De uma certa maneira, ela se recusou a envelhecer no cinema pornográfico e seguir o caminho comum, botar silicone e passar a fazer filmes nos quais seu papel é o da mulher mais velha. Creio que ela foi fazer um curso para trabalhar na parte da produção, mudar de vida. Fui tentando pescar notícias, mas era difícil. Eu mantinha um arquivo no computador no qual digitava o que encontrava, mas num certo momento desisti. Pensei que nunca mais a veria.

Quando tinha juntado algum dinheiro, e estava com tudo pronto para buscar um estágio na Europa, meu pai me disse que eu deveria abrir meu próprio restaurante. Ele e minha mãe haviam conversado sobre isso quando eu decidira me tornar chef, e haviam guardado dinheiro sem que eu soubesse desde então. Ele me disse, no entanto, que isso não poderia acontecer em Buenos Aires, porque o tumulto político, as constantes desvalorizações da moeda e as crises sucessivas tornariam meu negócio muito vulnerável. Também me disse que estava de mudança para a França, onde eu poderia, se quisesse, ir visitá-lo e fazer meu estágio. Foi assim que retornei para Cartago e abri, lá, o Cielo.

Como já saíra do Brasil havia muito tempo, não esperei ninguém conhecido na inauguração — e estava certo ao pensar isso. Mas duas semanas depois da inauguração, o dono da casa, André, e Isa, vieram ao restaurante. Por sorte tive de atender uma dúvida de meu sommelier, de modo que pude reconhecer as mãos de Isa — pensando, primeiramente, que eram as mãos de Amanda. Fiz questão de ir até os dois e de enviar a eles uma entrada especial. Era algo que só entraria no cardápio algum tempo depois, um conjunto de três tomates recheados diferentemente — nenhum deles levando qualquer tipo de carne. Isa compreendeu. Pensei em pedir aos dois que me esperassem até o fim do serviço, mas achei melhor convidá-los para chegar mais cedo no dia seguinte, uma hora e meia antes que o restaurante abrisse. Eles vieram, e conversamos muito. Esclareceram que, originalmente, deveriam ter vindo os dois debatedores também — João e Marcelo eram os nomes deles — mas os dois estavam fazendo seus doutorados na Alemanha. André me contou que Pingo havia morrido dois anos antes de leucemia, e que meu amigo, pouco tempo depois, fora demitido do buffet e brigara com todo o grupo. Babi se tornara produtora no jornal local.

Ao saber daquilo, não pude me conter. Pedi logo o telefone de Babi, mas sabia que minha esperança podia ser infundada. Ofereci aos dois que jantassem novamente no restaurante, dessa vez sem pagar, e embora eles tenham aceitado o convite para o jantar, fizeram questão de pagar. Pude presenteá-los, ao menos, com uma garrafa de vinho. Antes de ir, Isa me mandou uma mensagem me dizendo que fora muito atencioso fazer um prato em homenagem a ela, e que Babi estava de licença maternidade, afastada do trabalho. Isa era a madrinha de sua filha.

O contato com Babi não foi de todo infrutífero. Consegui descobrir que Amanda G. S. de C., a pessoa que eu procurava, havia trabalhado com ela por um curto período de tempo. Por algum motivo não parecera se adequar — Babi chutava que o chefe canalha das duas estivesse por trás da demissão da colega. A coisa toda ocorrera no meio de uma série de cortes que a emissora fazia, então era difícil definir o que era arbitrariedade e o que era necessidade, ou ainda quem estava sendo retaliado. “Havia menos retaliações naquela época do que hoje, com certeza”, ela me disse, “e pode apostar que vai haver mais nos próximos anos. É uma época difícil para ser jornalista, e eu e a Lili estamos pensando em dar no pé.” Perguntei se alguma das duas falava francês e, tendo sido informado que o francês de ambas era muito melhor que o meu, enviei a elas o contato de meu pai, que talvez pudesse ajudar. As duas se mudaram com a filha para a França uns dois anos depois.

Continuei conversando com Isa por algum tempo, majoritariamente por mensagens no celular. Houve um hiato, no qual ela teve um namorado e, portanto, não nos falamos mais. Mas depois recebi uma nova mensagem dela e retomamos a troca normalmente. Eu estava tão imerso no trabalho que, talvez, não tenha percebido o quão chateado eu ficara. Meus cozinheiros me dizem que eu era intratável naquele período, mas contam isso agora em tom de brincadeira. Antes que ela arranjasse esse namorado, me perguntara uma vez — também em tom de brincadeira — se eu havia convidado Amanda Sky para a inauguração. Nunca soube se, naquele momento, ela sabia de minha conversa com Babi. Neguei, adicionando que não pude encontrá-la, mas que, se pudesse, teria enviado o convite.

Quando o restaurante fez três anos, tirei as primeiras férias. Eu percebia uma mudança no perfil da clientela, e conforme eu me consolidava, crescia meu medo do tipo de conversa que circulava ali dentro. Babi já havia ido embora, e eu pensava no quão bem fizera. O número de casais homossexuais começou a diminuir sensivelmente, e eu mesmo tive de expulsar um grupo de seis clientes que ofendera um casal assíduo. Eu virara manchete de jornal na cidade — Cartago tinha dessas coisas — e minha mãe, por sorte, sempre me apoiara. O Cielo se tornava mais famoso, e pessoas de outras cidades começavam a fazer reservas. Eu crescia, mas tinha medo. Foi então que decidi chamar Isa para ir comigo à França, visitar meu pai. Ela me perguntou o que aquela viagem significava. Eu disse que não sabia, ao que ela respondeu que, quando eu soubesse, podia convidá-la. Sem mágoa, e com razão, creio.

Antes de entrar no avião, procurei por ela. Talvez por ter visto séries ou filmes demais. Meu susto, ao ver alguém que falava nervosamente no celular, ao ver suas mãos, foi tanto que pedi, por um momento, que a moça da companhia aérea esperasse. Obviamente não era Isa. Mas antes que eu pudesse perceber a diferença da cor dos olhos, dos cabelos, da voz, o que percebi foi o olho roxo, o braço enfaixado, o nervosismo. Amanda G. S. de C. tremia. Sem maquiagem, vestindo roupa de frio, Amanda estava ali, e era a minha chance de convidá-la para o restaurante. Seu nervosismo se intensificava, ela olhava ao redor, e tive a impressão, a nítida impressão, de ver que homens a olhavam de pontos diferentes daquele saguão. A moça da companhia aérea ralhava comigo — eu nem conhecia Amanda G. S. de C., e nem mesmo Amanda Sky — mas eu precisava ir até lá. Amanda, então, parecendo mais calma, se dirigiu a outro portão. Os homens a seguiam com o olhar. E eu tive de entrar, tive de entrar no avião.

Amanda nunca foi ao Cielo. Nunca mais a vi. Mas sei que é a história dela, e não a minha, a que deveria ser contada.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP. É autor de O Gelo dos Destróieres (Contos, 2018) e Habsburgo (Novela, 2019), ambos pela Editora Patuá. Numa parceria entre Patuá e Ofícios Terrestres, publica agora Ruído Branco (Contos), uma realização do ProAC 2019, no qual se encontra “Infierno”.

quatro poemas do livro ‘o movimento dos pássaros’, de Micheliny Verunschk

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* * *

Toda superfície serve à palavra
o vidro da manhã por exemplo
ainda que úmido pelos humores da noite
e quebradiço por sua natureza fractal
ainda assim serve à palavra.

Serve à palavra a pedra da tarde
sua face rugosa e irregular
sua porosidade que leva
ao centro dela mesma
toda tinta toda dor e flexão.

Toda superfície serve à palavra
mesmo o voo da noite
insubmisso e imprevisível
suas asas negras compondo fúria e ventania.

A palavra
ela vem
ela é.

sobre o poema

Não necessito de outro chão
para andar
que não este poema.

A pedra do vocábulo
que ultrapasso
fere meu dedo
com seu aguilhão de zargun.

Este poema
território aberto
para além do mapa.

este poema
me alerta.

a porcelana de todas as coisas

para Assionara Souza

o pássaro retirado das garras do gato
sua pequena vida paralisada por um instante
paciente e forte
sem compreender o curativo precário
sobre o estômago delicado
pedrinhas e sementes à vista
o vermelho vibrante do sangue
e talvez um raio do sol de inverno
o atravessando.

hoje morreu uma estrela
gás e poeira em direções opostas
a mais de um milhão de quilômetros por hora
supernova que alimentará outros grupos de estrelas.

eu sei que o anjo da morte inventou essa tristeza de ser gente
e de saber da porcelana de todas as coisas.

mas o pássaro voou apesar da ferida
e a luz da estrela brilha sobre nós em nossa frágil eternidade.

sobre o antipássaro

essa caixa de guardar absurdos.
essa caixa de gerar esquecimentos.
essa caixa de ossos e lamentos.
essa caixa labirinto de ventrículos.
essa caixa de caminhos esquecidos.
essa caixa de linhas esticadas.
essa caixa de tudo tão pesada.
essa caixa essa caixa essa caixa.
teu nome dentro dela uma ave.

uma ave a bater desencontrada.

| poemas do livro o movimento dos pássaros (Martelo Casa Editorial, 2020), em pré-venda no [link]. |

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. Foi membro de vários corpos de jurados de concursos literários brasileiros, entre eles o Prêmio Jabuti e o Prêmio Sesc de Literatura.

primeiro capítulo do romance ‘Você me espera para morrer?’, de Maria Fernanda Elias Maglio

SEIS ANOS

Ilana arranca um chumaço de grama e coloca na panelinha vermelha, despeja um pouco da água que está no pote de margarina, mexe com um graveto, tá pronto o papá, nenê, agora come. Fala com a boneca de olhos vidrados de azul, o rosto rabiscado de caneta, um tufo de cabelo amarelo, quase branco, saindo do alto da cabeça. A boneca não tem roupa nenhuma, ainda assim não está pelada, porque não tem o que faz menina estar pelada. Abre as perninhas de plástico e olha: nenhum risco, nenhuma coisa escondida. Desce a saia e a calcinha até a altura dos joelhos, abre as pernas que não são de plástico e olha: o risco e as coisas escondidas. Encosta o indicador em algo que lembra um botão, o corpo se retrai, em seguida ela ri, sem barulho. Toca de novo e dessa vez nem se contrai, só o riso que ninguém ouve. Escuta a voz da mãe na cozinha e puxa saia, calcinha, a boneca ainda de pernas escancaradas, sem nada para mostrar, a comidinha de grama ao lado, nenê danada, nem comeu o papá. Leva o indicador embaixo do nariz e sente o cheiro do lugar que a mãe chama de lá. A mãe diz, lava direitinho lá, tem que lavar bem lá pra não cheirar, e sempre cheira, não importa o quanto sabonete esfregue (e é bom esfregar lá), sempre um cheiro de uma coisa que ela não sabe. A irmã tem o mesmo lá e ela queria perguntar, Line, quando você passa sabonete lá, fica cheiro de sabonete?

Mistura o resto da água do pote de margarina na terra, enrola brigadeiros de lama, pensa em fazer um bolo, uma festa para a filha que não tem lá.

Aline chega e diz, posso brincar, Lana? Ã hã, Ilana responde. Aline é mais alta, a tia Dodora sempre fala que nem parecem gêmeas. Todo mundo diz que Aline aparenta ser mais velha, até os tios de São José dos Campos que vieram no natal passado, uma mesa bonita com uva, azeitona espetada no palito, mortadela, cereja, pensa em cereja e lembra do bolo de lama. Diz para a irmã, tem que fazer um bolo, Line, é aniversário da nenê. Aline olha a boneca no cimento, as pernas para cima formando um triângulo sem fechar, os pés apontando para o céu sem nuvens, essa boneca é muito feia, Lana, faz de conta que é o nosso aniversário. Ilana não gosta que a irmã tenha dito que a filha é feia, porque ainda que seja feia, é filha. Queria que a mãe pensasse assim também, que, ainda que os cabelos sejam grossos e as unhas roídas todas, é filha. Pega a boneca do chão, a pele de plástico quente do sol, dá um abraço e cochicha: você é bonita, nenê. A mãe nunca diz nada dessas coisas, só fala, vem almoçar, vem jantar, vai tomar banho. A tia Dodora sim, fala umas coisas que dá vontade de chorar, mas não é de triste, ela diz, você parece uma princesa, Lana, quer um leite com chocolate, faço um quentinho pra você. Se a tia Dodora fosse a mãe, certeza que ia contar o nome verdadeiro do lá.

Aline está com a mão direita mergulhada no balde azul, mexe o punho como se fosse colher, estou fazendo o nosso bolo, Lana, vai ter três andares. Ilana toma coragem e pergunta: como chama de verdade o lá, Line? Aline diz, lá onde, Lana? O lá de menina e aponta o indicador roído para o meio das próprias pernas. Ah, chama perereca, não sabia? Ilana faz, ã hã, para encerrar o assunto com a irmã, precisa pensar, perereca, perereca. Ela tem medo de perereca, quando aparece uma no banheiro do sítio, corre e chama a tia Dodora, o tio Valter diz, não faz nada, Lana, é só bicho da natureza. Agora não vai ter mais medo, porque perereca é bom da gente colocar o dedo e uma vez colocou um batom dentro da calcinha, encostando no botãozinho, passou o dia inteiro e uma hora a mãe desconfiou, porque Ilana cruzava muito as pernas. A mãe deu bronca e puxou o cabelo com força, onde já se viu botar as coisas lá, deixa seu pai te pegar de sem-vergonhice. Ela gosta quando o pai não está em casa, só a mãe, o cheiro da cebola fritando no óleo, melhor ainda quando ela e a irmã estão de férias no sítio, sem a mãe, nem o pai, a tia Dodora mexendo doce no tacho, ariando panela, o tio Valter cuidando dos porquinho bebês, cavoucando a terra para mostrar minhocas, olha essa que bitela, parece cobra, e Aline pergunta para o tio como elas não sufocam debaixo da terra e o tio Valter explica que a terra é o ar delas.

Aline terminou o bolo que seca ao sol, uma vela de graveto espetada na lama, será que boto umas folhas, Lana, pra enfeitar? Ilana faz, ã hã, e continua enrolando os brigadeiros, tem um monte, tenta contar, mas se perde, não sabe o que vem depois do dezessete, acha que o dezenove, mas não tem certeza. A mãe grita, vem almoçar, e Aline diz, vamos cantar parabéns bem rápido, Lana. Em um minuto cantam parabéns, dizendo, viva a Lana, viva a Line, sopram a vela, sem fogo nenhum, e juntas seguram um pauzinho para cortarem o bolo. Aline sussurra no ouvido da irmã, vamos fazer um pedido, Lana, um só pra nós duas, e Ilana pergunta, o que a gente pede? A gente vai pedir pra uma não morrer antes da outra.

* * *

Estão sentadas, já lavaram as mãos e os braços, o pai não gosta de sujeira na hora da refeição. A panela está na mesa, o que tem dentro é macarrão, porque hoje é domingo, a mãe fez laranjada e salada de tomate com orégano e óleo. A mãe não abre a panela e nem serve a laranjada para as meninas, porque o pai ainda não sentou. A porta do banheiro encostada, escutam o jato de urina caindo na água da privada, um jorro contínuo e depois duas golfadas, barulho da descarga, torneira aberta. O pai senta e não diz nada, ainda tem sono nos olhos e na roupa amarrotada. Ilana pensa que deve ter dormido de roupa, ouviu a mãe contar para a tia Dodora que de sábado o pai chega para amanhecer o dia e deita de roupa e tudo, sem nem lavar os dentes. Ilana não sabe o que a tia Dodora respondeu, passou um caminhão na rua bem na hora e quando acabou o vrum de tremer as paredes, a mãe já tinha voltado a mexer o arroz doce e a tia falava, o cheiro tá bom, Ana.

O pai tem a boca tão cheia que é preciso abri-la para dar conta de engolir a comida. Ilana olha com o rabo do olho a boca do pai muito aberta, os dentes do fundo pintados de prateado. A dentista em que a mãe levou chama de estrelinha, Ilana tem uma e Aline, três. Doeu muito para pintar a estrelinha no dente, antes uma máquina com barulho de abelha fazendo zuuuuuuuu e abrindo um buraco, a dentista dizendo, peraí que o bicho tá saindo, e um cheiro que não é de lugar nenhum, Ilana pensou que pudesse ser de osso. O tio Valter contou que dente é osso, mas ela acha que não, porque osso fica escondido na carne e dente aparece quando a gente ri ou enche muito a boca de macarrão.

A mãe recolhe os pratos, copos, a jarra com três dedos de laranjada e diz, vão brincar, sem barulho, o pai foi descansar. Aline fala, vamos desenhar, Lana, eu faço um desenho de bicho e você adivinha, depois a gente troca. Ã hã.

* * *

Aline desenhou leão, girafa, cachorro e jacaré e Ilana só não adivinhou o jacaré. É a vez de Ilana desenhar e a ponta do lápis vermelho quebrou, justo quando desenhava a asa da borboleta e Aline não sabe ainda que é uma borboleta, era só o começo do desenho, pega apontador, Lana, tem um na gaveta do telefone que eu vi.

Não tinha nenhum apontador na gaveta, só duas bics azuis, uma lista telefônica, três clipes, um pedaço de papel escrito alguma coisa que ela não sabe, ainda não aprendeu a ler. Pensa que quando aprender, vai entender tudo e vai escrever muitas vezes, perereca, perereca, perereca. A porta do quarto do pai está encostada, nenhuma fresta. Para em frente à porta e escuta o barulho do ronco, imagina a língua mole, os dentes prateados mastigando o macarrão, ela perguntou para o tio Valter porque vaca mastiga sem parar e ele respondeu que vaca não tem o que fazer da vida, então fica mastigando. Ela quer ter o que fazer da vida, não quer ficar mastigando e não quer mais nenhuma estrela, não quer sentir nunca o cheiro de osso de novo. O que você tá fazendo aí, Lana? Ilana se assusta com a voz da irmã, dá um pulo para a frente, em direção à porta encostada, que abre em uma fresta, revelando o pai deitado de barriga para cima, está só de cueca, o ventilador em cima da cômoda, o corpo coberto por uma transpiração de gordura, já passa da uma da tarde e um calor que só pode fazer nesta terra, é o que diz a tia Dodora quando está muito quente e está muito quente todos dias. Aline solta uma risada, segurando a boca com a mão, olha o coiso dele, Lana. E Ilana vê: a cueca do pai estufada feito sonho de padaria, lotada de creme até quase estourar. O pai ronca, a boca muito aberta, o ventilador zunindo, a colcha vermelha, a cueca gorda. Ilana tem vontade de chorar, o pai ali brilhante de suor, olhando assim não parece mau, não parece capaz de fazer ruindade, judiar de criação e ela ouviu o tio Valter dizer que quem judia de criação é gente ruim. O que estão fazendo aí? As duas se assustam com a chegada da mãe e soltam dois gritos idênticos, o mesmo tom agudo, nunca parecem tão gêmeas como quando são involuntárias. O pai acorda com o barulho e diz, que é isso, com a boca de muitos dentes e língua mole. A mãe fala, nada não, João, pode tornar a dormir, e o pai olha em direção à própria cueca estufada de creme, faz um movimento com a cabeça, as meninas não percebem. A mãe manda as duas para o quintal, entra no quarto e elas escutam a chave rodando, um trec metálico.

* * *

Quer brincar de amarelinha, Lana, a gente desenha de tijolo? Ilana não quer, está sentada no chão e raspa um graveto do cimento, pensa sobre uma infinidade de coisas, dentista, perereca, sonho de padaria, queria perguntar uma coisa para a irmã, mas não sabe o que. Aline pula uma amarelinha invisível, alternando um pé, dois pés, um pé, dois pés, deixa de ser boba, Lana, vem pular. De repente sabe o que queria falar para a irmã. Antes de perguntar diz, senta, Line, para de pular igual cabrita. Aline se assusta com a ordem da irmã, que não é de dar ordens, e se senta no chão de cimento. Por que você pediu aquilo, Line, da gente morrer igual? Aline ri e diz, foi só uma coisa da minha cabeça, Lana, bobeira. Ilana diz, eu gostei, isso de uma morrer quando a outra morrer. Ilana quer explicar, mas não consegue, só entende que gostou. Combinado, Line, quando eu morrer você morre também? Tá combinado, Lana, só não vai morrer agora. As duas riem e Aline convida de novo para pular amarelinha, Ilana agora aceita.

A irmã pega o tijolo e desenha um círculo imenso e não escreve nada dentro, só desenha uma nuvem e ambas sabem que é o céu e que na outra ponta, dentro da bola, vai ter um tridente que será o inferno e Ilana tem medo de inferno, capeta, essas coisas todas, queria combinar com a irmã de, quando morrerem no mesmo dia, no mesmo segundo, irem direto para o céu. Aline procura uma pedra no canteiro e já deve ter esquecido de que vão morrer no mesmo dia, tomara que de mãos dadas, para nenhuma sentir medo, com sorte demora muitos anos, muitos, muitos, tantos que ela nem sabe contar, depois do dezessete vem o dezoito, agora ela se lembra.

O sol arde a pele das meninas, o cimento, a boneca, o pote de margarina, o barro endurecido, os riscos de tijolo da amarelinha. O céu é de um azul impossível. Um avião passa alto, as irmãs param o jogo e balançam as mãos em tchau.

| o livro concorre ao Prêmio Kindle de Literatura e está disponível na Amazon. |

Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP, em agosto de 1980. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, Enfim, imperatriz (Editora Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria Contos. Publicou também o livro de poesia 179. Resistência (Editora Patuá, 2019).

trecho do romance ‘O coração pensa constantemente’, de Rosângela Vieira Rocha

capa_coracaoNo ano que passou, vi repetidas vezes nos seus olhos a vontade de ter liberdade para viajar como eu, mostrando seus quadros e suas esculturas. A série de comentários meio ácidos que me dirigiu também não me passou despercebida. Viajando de novo? Mas você não para, mal acabou de chegar. Como assim, vai de novo para o Nordeste? Pensando em se mudar para lá? Não vai, não, senhora.

Eu ficava calada, mas sentia desconforto, urgência em sair de perto dela. Aquelas exclamações me perturbavam muito. Reconhecia a emoção que usualmente chamamos de inveja. Sentia tristeza, como se de repente tivesse ficado desprotegida, sozinha no mundo. Tive vontade de conversar sobre o assunto, mas faltou-me coragem. Podia parecer um golpe baixo, uma jogada de má-fé desfiar tema tão complexo com alguém nas suas condições. Mas me sentia injustiçada, pois ninguém melhor do que ela conhecia o meu esforço para chegar até aqui. Como é do meu feitio, fui pesquisar; só através do conhecimento consigo superar as fases ruins. O que é, afinal, a inveja? O que representa, que significado possui? Por que é tão malvista e ao mesmo tempo tão banal, se dela ninguém está livre? Quem pode ficar eternamente imune ao canto dessa sereia que nos puxa, nos puxa sempre para o fundo de nós mesmos?

As explicações de psicanalistas e psicólogos não me pareceram suficientes. A literatura também não ofereceu grande contribuição. Shakespeare confundiu ciúme com inveja, enfatizando o primeiro. O verdadeiro vilão não era Otelo, o ciumento, embora tenha cometido um crime, e, sim, Iago, o invejoso intrigante. Sem as mentiras de Iago, Otelo não teria matado Desdêmona. Seu ciúme foi tecido por Iago, fio por fio, de caso pensado. A prevalência do ciúme sobre a inveja e a confusão estabelecida criaram até uma alcunha para o ciúme, “o monstro de olhos verdes”. Resolvi buscar na filosofia, e encontrei em São Tomás de Aquino definições mais compreensíveis. Para os tomistas, o ciúme é diferente da inveja por exigir sempre três elementos, diferentemente da inveja, que exige dois. Invejar não é desejar o que o outro possui, material ou espiritualmente, como estamos habituados a pensar. Se não houver o desejo de retirar o bem do outro, de lhe fazer mal, trata-se de cobiça. Quanto à inveja, não existe “inveja boa”, “invejinha” ou “inveja branca”. É uma emoção que não admite adjetivos.

A questão da inveja se tornou complicada demais porque recebeu um julgamento moral desde o início dos tempos. Tão humana quanto qualquer outra, já que atinge todos, é uma emoção que pode ser sentida várias vezes ao dia. Por si só, não faz mal ao outro, como estamos habituados a pensar. “Olho gordo” é superstição, não tem valor real. E, segundo os tomistas, na maioria dos casos o que sentimos não é inveja e sim cobiça. Desejamos em muitos momentos imitar e assegurar para nós a qualidade do outro, o talento do outro, sua beleza, sua sorte, seus bens e tudo aquilo que nele valorizamos. Mas isso não significa que queremos subtrair-lhe algo. Cobiça seria o fruto de uma admiração profunda. Não cobiçamos nada que não admiramos. Sem o fascínio, é impossível cobiçar.

O investimento ético-moral que se fez no termo inveja dificulta muito as relações. Ninguém reconhece que a sente, a inveja é sempre do outro, pertence ao outro, nós a afastamos como se fosse indigno senti-la. Quando temos a coragem de reconhecê-la, enfrentamos a ressaca moral, o sentimento de culpa, nos sentimos seres sujos e de segunda categoria. Para nos defendermos dela, a projetamos quase sempre no outro, considerado o malvado, o invejoso, o pecador. O fato de ser considerada um dos sete pecados capitais fez com que se tornasse socialmente ainda mais reprovável.

Percebi a inveja — para dizer corretamente, a cobiça — de Rubi. Mas quem não a sentiria, consciente de que está no limiar da morte, diante de uma irmã mais jovem e saudável? Que espécie de supermulher seria essa, que vê as conquistas tão palpáveis do outro e não gostaria de estar também na mesma situação? Quem não quereria continuar vivo e fazendo o que gosta?

Passado o susto inicial de me sentir alvo de sua cobiça, e depois de compreender o que essa emoção realmente significa, senti compaixão e uma vontade imensa de dividir com ela minhas realizações, não as contar apenas, mas fazê-las também suas. Percebi que ela sofria muito por sentir o que sentia, mas não soube como lhe dizer que compreendia, que a “absolvia”, não tinha importância nenhuma, e que meu amor continuava absolutamente inalterado.

| trecho do romance O coração pensa constantemente, a ser lançado no final deste mês, pela Editora Arribaçã, PB. |

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. O coração pensa constantemente é o seu 6º romance para o público adulto. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente, no prelo. Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.

trecho do livro ‘Maravalha’, de Cláudio B. Carlos

capa_maravalhaMe aparece, esbaforido, o Romualdo — 20h45: entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio.

(…)

Romualdo era um tipo magrizel, aloirado, lábios finos e boca murcha — típico teuto-rio-grandense. O risco e o fedor. A boca murcha lhe rendeu o apelido de “Cu de Galinha”, que foi sofrendo alterações até chegar no afrancesado “Dirrã” — diminuição de “Cu di Rã”. O Romualdo, naturalmente, não gostava de ser chamado de Cu de Galinha, nem de Dirrã, nem de Cu di Rã, e, evidentemente que por isso mesmo, os apelidos, todos, pegaram. Eu, por sermos mui amigos, não o chamava assim. Pensava, às vezes, mas não falava. Outra coisa, que de vez em quando pensava, é que se o Romualdo soubesse o verdadeiro significado de “dirrã”, poderia adotar o apelido, e, ainda se sair bem. Mas é claro que ele não sabia. Eu mesmo só descobri por acaso, quando folheava uma revista na sala de espera do dentista. A publicação apresentava uma matéria sobre as moedas do mundo, e, aí entrou o “dirrã”: moeda de prata usada em Portugal no início do domínio mouro — ou qualquer coisa assim. Bueno, o fato é que, me aparece, esbaforido, o Romualdo. Entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio. 20h45 — eu já disse, né?

Vem direto à minha mesa, se acotovelando no adensado de gente. Diz:

— Oi.

Respondo:

— Oi.

Romualdo se senta, e com um gesto, pede um copo. Acendo um cigarro, em silêncio. Naquela época eu só fumava Carlton, ou Free (era a modinha do momento). Estava estranho, o Romualdo: os olhos esbugalhados, mais quieto que guri cagado. Dou uma longa tragada no careta e pergunto:

— E aí?

Olha para os lados, e responde:

— Cara, que foda, meu.

Indago:

— Hã?

— Nem te conto — ele disse.

Pego o maço de cigarros com a mão direita e bato-o levemente no indicador esquerdo para que se afrouxem dentro da carteira, e lhe ofereço um. Ele pega. Acendo (eu só acendia cigarros com isqueiro Bic, ou com fósforo: era o que se tinha para o momento). Romualdo dá uma tragada nervosa, soltando a fumaça pelo nariz. Com o copo na mão, olha para os lados (mais uma vez) e dispara:

— Acabo de matar um cara.

— Quê? — pergunto.

— Um cara — responde. — Acabo de matar um cara — reforça.

— Como? — quero saber.

— Atropelado — diz.

— Quem? — interrogo.

— O Maravalha — fala.

— O Maravalha? — digo.

| em pré-venda no site da Editora Coralina, o livro é uma publicação da Saraquá Edições: [link] |

Cláudio B. Carlos é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS.

trecho do romance ‘Calote’, de Leonardo Valente

O dia da insubordinação civil

Capítulo 1

capa_caloteDavid Scheidt era um homem bom. Jamais deixou de pagar o valor total da fatura de seu cartão de crédito black, modalidade sem limite pré-estabelecido para despesas e inacessível à maioria dos mortais. Tamanha virtude lhe rendeu, entre vários outros benefícios, o direito de trafegar com seu utilitário importado e movido a diesel em uma faixa exclusiva para cidadãos íntegros como ele na Avenida Paulista, coração da maior cidade do Brasil. A pista seletíssima, gerida pela administradora da bandeira de seu cobiçado passaporte de plástico com microchip de ouro, foi construída no lugar de uma velha ciclovia, e por contrato com a antiga Prefeitura jamais poderia ser bloqueada, permanecendo livre de congestionamentos. Quem dirigia por ela também não precisava parar em sinais de trânsito e tinha direito a quase o dobro do limite de velocidade das outras faixas. Os demais seres não tão virtuosos que passavam pelo local a pé só podiam cruzá-la quando não houvesse nenhum carro a uma distância de pelo menos cem metros. Não se tratava de tarefa difícil, contudo, especialmente por serem poucos os veículos que detinham o direito de por ali trafegarem, uma vez que o mundo dos ungidos e dos bem-sucedidos, ao contrário do enxame vergonhoso dos inglórios, nunca fora populoso. Todo o resto da frota, inclusive os táxis, ônibus, carros de polícia e ambulâncias de hospitais que carregam moribundos com perfil de crédito inferior precisavam se esmagar nos engarrafamentos intermináveis, no parco espaço que ainda lhes cabia, no mundo tão pequeno para tantos deles.

A faixa foi criada há alguns anos para que pessoas de bem não fossem prejudicadas pelas manifestações dos baderneiros, que durante muito tempo foram quase diárias e que provocaram, segundo os que ditam o certo e o errado, inúmeros transtornos para quem desejava trabalhar e ajudar o país a crescer. David, no entanto, um dos poucos clientes seletos que pela avenida passavam todos os dias, nunca viu um desses protestos desde que chegou a São Paulo, sem um tostão no bolso. Foram extintos há algum tempo.

As massas cansaram. Exauridas pelas medidas punitivas, pelo cerco implacável aos descontentes na vida real e na virtual, pela condenação moral, e dominadas pela sensação de impotência que lhes foi entranhada, dispersaram silenciosamente. Cederam à luta diária pela sobrevivência. Renderam-se a uma mais-valia feroz que não dava chance de conforto, proteção ou ascensão social, mas que todos os dias prometia a glória que ninguém conquistaria, e que quase todo mundo passou a acreditar ser possível. São Paulo tornou-se uma gigante pacífica, adestrada e adoradora da meritocracia, sua verdadeira padroeira, pobre apóstolo tardio cujo nome cristão acabou por batizar aquele lugar cuja alma fora a leilão de privatização, e com lance inicial muito abaixo do que valia.

São Paulo viu fechar quase tudo o que um dia foi chamado de público, e o que sobrou virou comércio honrado, empreendimento inovador ou contrato arrojado. O verde do maior parque da cidade passou a cobrar de seus habitantes a sua visita, em nem um só banheiro de toda a metrópole deixou de ter uma máquina de cartões de crédito e débito em sua entrada. Até as praças ganharam seus planos de negócios e seus executivos estressados com o balanço, não o de brinquedo, mas aquele que deveriam apresentar ao final de cada ano para seus acionistas. As massas converteram-se em indivíduos e os cidadãos em clientes. A noção de bem comum foi reduzida a performances estatísticas de pesquisa de satisfação e o sentimento de pertencimento por identidade e pelo compartilhamento de direitos foi trocado pelo vazio.

As massas perderam sua identidade na cerimônia de coroação do Mercado como o novo Soberano de São Paulo, a mais nova cidade-feudo obediente do liberalismo radical, e desobediente a tudo o que não parecesse com liberdade irracional. Alçado à referência maior de seus pobres habitantes, o Mercado derrubou com truculência e velocidade impressionantes o empoeirado e já sem credibilidade Estado, condenado por corrupção e por atraso. Graças ao novo Soberano, a maior cidade do país passou a ter um gerente no lugar de um prefeito, e um conselho de acionistas onde uma vez figurou uma Câmara Municipal, cuja entrada ganhou ares de multinacional. Um modelo, passaram a pregar os paulistanos mais entusiasmados, que se espalharia rapidamente pelo Brasil, ou pelo menos pela parte menos indolente dele. Uma cidade-empresa capaz de gerar lucro a seus acionistas só poderia ser um plano fadado ao sucesso e aos investimentos vultuosos dos estrangeiros, admirados e ávidos por participarem de tamanha empreitada.

O sucesso do novo déspota e de seus asseclas, contudo, passou a depender tanto da credibilidade dos investidores, quanto da imbecilidade dos moradores. E para manter o segundo, foi preciso rasgar a Constituição e impor a nova Carta local do individualismo e da pretensa premiação pelo esforço pessoal. A nova lei criminalizou a solidariedade, demoveu da sociedade a capacidade de atribuir importância à res pública, de entender e de aceitar o fracasso, e de ver utilidade no tempo livre e no aprendizado desinteressado. O privado tornou-se cláusula pétrea, uma espécie de primeira emenda, além de centro da existência. O lucro, por sua vez, ganhou status de atividade essencial e parâmetro de todas as coisas: o princípio, o meio e o fim. Tudo passou a ser feito por ele e para ele, amém.

Na cidade-feudo e modelo de negócios não havia mais espaço nas mentes e nos corações para manifestações e por isso David nunca as viu na Paulista. Se as visse, teria franzido as grossas sobrancelhas de sua face com traços árabes, em evidente reprovação, mesmo na época em que dependia da avó, morava em São Caetano do Sul e levava na mochila velha um sanduíche de mortadela para substituir o almoço durante as aulas da faculdade de finanças no centro da cidade. Não há dúvidas, no entanto, que depois do que aconteceu, preferiria ter visto aquelas manifestações moribundas diariamente atrapalhando o tráfego dos pobres, porque nem de longe elas tinham o poder que outra, muito pior, silenciosa, inesperada e de natureza desconhecida passou a ter.

| trecho do romance Calote (Editora Mondrongo, 2020). |

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Tem diversos livros publicados, como o romance Charlotte Tábua Rasa, de 2016, e a antologia Apoteose, finalista do Prêmio Sesc de Literatura de 2018.

[ Quem comprar o livro em pré-venda, poderá se inscrever, sem custo, no curso online “A construção do ideário neoliberal na mídia brasileira”, que terá três encontros. Dois com exposições teóricas e históricas, e o terceiro para discutir as personagens de Calote à luz do que for exposto nos dois primeiros encontros. O curso tratará de temas como as razões do neoliberalismo por trás da imprensa, meritocracia, sociedade de consumo, austeridade de gastos, geopolítica do Estado mínimo, entre outros, e acontecerá nos dias 22/10, 29/10 e 05/11, sempre das 19h às 21h. As vagas são limitadas.

Pré-venda e inscrições: https://www.mondrongo.com.br/ ]

trecho do romance ‘Ao pó’, de Morgana Kretzmann

Romãs e Cigarros

ao_poA mãe da sua mãe era uma pessoa amarga que sabia fazer bolinhos fritos como ninguém. Tinha cabelos cinzas e tetas grandes. Gostava de usar vestidos com estampa de florais pequenos em cores delicadas. Sempre usava saia de baixo bege com uma pequena renda na ponta que ficava à mostra quando ela subia escadas ou se sentava. Falava alto mesmo quando queria apenas sussurrar.

A velha se chateava muito; se chateava com a filha, se chateava com o marido da filha, mas se chateava ainda mais com a filha da sua filha, que sempre lhe pareceu uma aberração, uma guria que ia ao encontro de algo terrível, mundano, descendo apressada os degraus da degeneração.

Sua avó tinha um lindo pé de romãzeira que ficava afastado da casa. Era um único e lindo pé de romã cercado por pés de laranja do céu. E foi lá, próximo à árvore que floresce na primavera projetando sua exuberante coloração vermelha, onde tudo começou, onde a tragédia deu seu primeiro sopro.

A tal senhora não entendia que a neta tinha apenas nove anos e que era uma menininha solitária, sem amigos na escola, sem nenhum garoto do bairro que gostasse dela e com o desprezo dos seus primos, que nos almoços de finais de semana sempre a deixavam apenas com a televisão. Não entendia que ela era uma criança tímida e cheia de medos. Teimava em afirmar que a menina era má e pervertida.

Um dia a velha encontrou a neta fumando um cigarro Shelton longo, embaixo da árvore de romã. A menina estava de salto alto, uns cinco ou seis números maiores que seu pé, com uma carteira grande azul celeste embaixo do braço e usava um batom cor de laranja. Quando foi descoberta foi como se uma nuvem escura pousasse na sua cabeça, só lembrava das palavras, pervertida, porca, demônio, enquanto seu cabelo era violentamente puxado. Depois de muito choro, a cumplicidade perversa: este é um segredo meu e teu, se tu andar na linha, e fizer o que eu pedir, ninguém nunca vai saber de nada.

A menina se viu obrigada a seguir o catecismo da avó para não correr o risco de passar pela vergonha de seus primos, colegas e vizinhos de bairro ficarem sabendo do que aconteceu.

A criança passou a ter que aceitar a companhia da avó na ida e na volta do colégio, todas as sextas-feiras. Também recebia visitas surpresas no recreio quando era humilhada pelas constantes chacotas proferidas por ela. Além disso, foi obrigada a aceitar todos os convites para ir aos cultos na igreja e passar as tardes de sábados na casa da velha. Nunca se queixou, nunca se negou a nada, continuou obedecendo submissamente.

A avó queria provar que não estava errada. Acreditava que a neta era má, era pervertida. Por isso deixou a revista pornográfica de sexo explícito exposta em cima da estante naquele sábado, assim como deixou de propósito aquele maço de notas de cinquenta em cima da sua penteadeira e não a convidou para ir ao culto naquela tarde, dizendo que ela poderia ficar vendo televisão e comendo bolinhos fritos.

A criança sozinha na casa, com apenas nove anos, foi ao antigo quarto da tia, pegou os sapatos de salto alto, passou blush, sombra, batom. Revirou o roupeiro atrás de uma bolsa de pedras coloridas da qual tanto gostava. Encontrou. Roubou um cigarro e o isqueiro que estavam na gaveta da cômoda. Foi até a sala, pegou a revista pornô, colocou na bolsa. Quando estava para sair, olhou para dentro do quarto e viu aquele monte de dinheiro, passou reto, saiu da casa em direção ao pé de romã. Sentou sob a copa fazendo uma pose sensual, imitando uma das mulheres da revista, acendeu o cigarro, começou a folhear a revista.

A avó entrou silenciosa dentro da casa. Pé por pé, foi até a sala, não havia ninguém. A revista havia sumido. Foi até seu quarto, pegou o dinheiro e contou. Nenhuma nota roubada. Saiu tentando não pisar em galhos nem folhas secas, foi até o pé de romã. Lá encontrou a neta com um cigarro numa mão, seu ainda inexistente seio na outra e a revista pornográfica aberta no chão. Ao invés da fúria, as risadas descontroladas e a sentença: eu sabia.

A garotinha saiu fugida deixando os sapatos para trás com seus saltos cravados na terra. Entrou na casa e guardou a bolsa onde a pegou. Escondeu a revista dentro da estante bem atrás dos volumes da enciclopédia Barsa. Mudou de ideia e pegou a revista de volta. Foi até o quarto da avó. Entrou, encostou a porta e ficou escondida.

A sua avó nunca foi uma mulher fácil. Seu marido era um bom homem, mas parecia triste quando ela estava por perto. Seus cinco filhos não a suportavam, era visível. Mas seguiam vindo nos finais de semana para uma visita. Promessa feita ao pai antes dele morrer. Nem por isso, como todos diziam, ela merecia morrer do modo que morreu. Esmagada por aquele roupeiro gigante de madeira maciça. Diziam que era de carvalho. Diziam também que ela pode ter morrido por asfixia, já que o socorro demorou muito a chegar, pois a única pessoa que estava com ela naquela tarde, brincava em baixo do pé de romã e só voltou para casa quando começou a escurecer.

A netinha até hoje diz não ter escutado o barulho do roupeiro caindo, mas diz lembrar da avó segurando um maço de notas de cinquenta, pedindo para que ela se sentasse em seu colo para lerem juntas uma revista que ela própria nunca tinha visto na vida. E foi assim que a encontraram quando conseguiram tirar o roupeiro de cima dela: com o crânio esmagado e segurando um maço de notas de cinquenta e uma revista pornográfica.

| trecho do romance Ao pó (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Morgana Kretzmann nasceu na cidade de Tenente Portela, interior do Rio Grande do Sul, hoje vive em São Paulo, é escritora, atriz, roteirista e produtora cultural, com prêmios nacionais e regionais. É editora da revista cultural RevistaRia, da Ria Livraria. Também é formada em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Santa Catarina. Ao pó é seu romance de estreia.

lançamento do livro ‘A clareira e a cidade’, de Rodrigo Novaes de Almeida

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Clique na imagem para comprar o livro no site da Editora Urutau.

A Editora Urutau e o autor apresentam o livro A clareira e a cidade, já disponível para venda no [link]. E sábado, dia 11 de julho, teremos uma live de lançamento. Veja mais detalhes no [link].

* * *

A clareira e a cidade é o quinto livro de Rodrigo Novaes de Almeida, sendo sua primeira antologia poética. O título remete ao pensamento de Martin Heidegger — para este, a linguagem é a morada do Ser e cabe aos poetas e pensadores habitar nessa morada.

No entanto, as questões levantadas na obra que o leitor tem em mãos não são metafísicas, e sim aquelas que exigem uma práxis que liberte o homem da vida massificada. A proposta heideggeriana é ontológica. As inquietações filosóficas do poeta buscam um pensamento que não atropele os movimentos sociais e ao mesmo tempo dialogue com as questões atuais. De modo especial, uma antropologia.

Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.

(Tito Leite para o posfácio de A clareira e a cidade)

DO FILHO MALSUCEDIDO

há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)

um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz

como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si

SOBRE O QUE SONHAM MONÓCEROS?

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

_____(mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
_____em que erramos em tudo,
_____em que nunca estivemos tão tristes,
_____e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.)

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

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Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

coletânea ‘Antifascistas’ — entrevistas na TV 247

O primeiro de oito programas de entrevistas na TV 247 teve a participação da nossa editora Christiane Angelotti e Cinthia Kriemler, Cristina Serra e José Eduardo Agualusa.

O quarto programa teve as participações de Rodrigo Novaes de Almeida, nosso editor-chefe, Cristina Judar e Jeferson Tenório.

A mediação dos dois programas foi de Regina Zappa e Leonardo Valente. A coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020) está à venda no site da editora [link]. Os demais programas podem ser vistos no canal da TV 247 no Youtube [link].