dois poemas de Alessandra Martins

capa_sankofarespeite as mina preta

Sou vista há mais de 500 anos
como só corpo, só prazer.
Ela é branca pra casar,
eu mulher preta
pra escondido comer.

Preto, sei que a igualdade racial
não chegou pra mim nem pra você,
mas por eu ser mulher preta aumentam
mais ainda os paranauê.

Se põe no meu lugar, pra você ver.

Tive quinze filhos,
sofria dentro de casa,
enquanto meu marido
por aí batia as asa.
Me traía, violentava e
ainda me xingava.

Maldita sociedade — só maldade.
Quanto maior a melanina,
mais se aumenta a solidão.
É solidão…
porque parece que só sirvo
para lavar suas roupas,
fazer sua comida,
ser comida,
limpar seu chão.

Meu beiço, meu nariz,
meu cabelo
te incomoda?
Na primeira oportunidade
me troca
por uma padrãozinho,
na moda.

Ascensão, high society,
crescimento profissional.
Não quer uma preta do lado,
pois pode pegar mal.

Não sou de confusão.
Não vim para arrumar “treta.”
Mas estou aqui para dizer.
Respeite as mina!
Respeite as mina preta!

orgulho negro

Tenho orgulho de mim,
deixei de ser prego,
agora sou marreta,
pois já senti o que é ser
rejeitada,
cuspida, negada, maltratada.
Somente por ser preta.

Tenho orgulho da minha pele,
da minha carapinha.
Do afro que uso, dos meus
traços marcantes.
Minhas origens espetaculares,
dos colares, turbantes.

Tenho orgulho dos
guerreiros, dos sábios,
rainhas e reis verdadeiros.
Das minhas tranças,
das crenças,
das danças, comidas
e extravagâncias.

Tenho orgulho da minha raça,
da luta do meu povo.
Da liberdade conquistada,
da briga pela igualdade,
da insistência, resistência.
Do ontem lembrado
com tristeza, mas com orgulho.

Resistiram e chegaram
Vivos ao cais.
Tenho orgulho da esperança,
Força e coragem
que tiveram
meus ancestrais.
Orgulho Negro!

| poemas do livro Voa, Sankofa, voa! (Chiado Books, 2021), disponível no [link]. |

Alessandra Martins é natural de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. É poeta, educadora e autora do livro Voa, Sankofa, voa!, publicado pela Chiado Books, em que usa a literatura marginal para denunciar o genocídio da população negra, a falsa democracia racial brasileira e os estigmas e estereótipos que são postos sobre o corpo negro em diáspora africana. No entanto, juntamente apresenta a exaltação da beleza negra, do orgulho e o regaste da ancestralidade.

piromaníaca, de Laura Elizia Haubert

capa_furacaoEla sentia intenso prazer quando via alguma coisa queimando à sua frente. Havia algo naquilo, aquela cor que só o fogo tem, aquela imensidão que só o fogo tem. Como é que as outras pessoas não ficavam assim, hipnotizadas? Como resistiam à vontade insana, que a fazia coçar os pulsos, de querer queimar tudo? Aquele instinto desgovernado era mais forte que ela, um negócio primitivo que se remexia por dentro e a fazia ficar mal quando não conseguia queimar. Se ela não queimasse algo não se sentia viva. Chegou ao ponto de não poder dormir à noite.

Não se recordava direito de como aquela obsessão tinha começado. E isso importava? Talvez não mais. O que importava é que, como os pequenos hábitos de infância que se tornam importantes, ele se manteve pelo resto de sua vida. E provavelmente a última coisa na qual pensaria antes de morrer, dali a 67 anos, é que ela gostaria de ser devorada pelas chamas de vez.

Se não se lembrava do começo, pelo menos se lembrava, com certo prazer, de quando recolhia as folhas de árvores e papéis do lixo caídos no quintal, até formar uma pilha enorme para queimar. E arder, arder, arder. E ninguém estranhava, ninguém imaginava o prazer que ela ocultava, o que acontecia à noite, ali do lado de casa, no terreno baldio, onde ela se infiltrava escondida para jogar o saco de lixo no latão gigante e, com muito furor, acender um fósforo e lançá-lo para o fundo, vendo as chamas estalarem.

Às vezes, quando estava assistindo o fogo crepitar, sentava-se tão paralisada que parecia uma escultura. O que ela via de tão fascinante? Não se sabe. Mas seus olhos tinham interesse pelo fogo, e seu corpo era desejo de fogo, e ela inteira queria ser fogo, bem lá no fundo, embora soubesse que não era possível ser assim tão quente.

Quando se esgueirava para entrar no terreno, tomava cuidado para não ser vista nem antes, nem durante, e nem depois. Não queria ter de explicar o que não conseguia explicar sequer a si mesma. Não queria ter de acalmar a mãe dizendo que não estava doida para matá-los à noite, muito menos se defender dos vizinhos que comentavam sobre os prováveis drogadinhos que vinham ali usar o espaço vazio para se aquecer e fumar ou injetar.

— Coisa de drogadinho, isso aí. Você sabe, agora que eles se espalharam pela cidade, a gente não tem mais sossego — dizia Dona Lurdes, indignada, toda vez que passava na frente do terreno baldio.

E ela, muito quieta, via que Dona Lurdes tinha uma coisa má à sua própria maneira; por isso nunca dava nenhuma resposta, por mais que desejasse.

Sua vida ia seguindo, até que um dia, lá por novembro, alguém levou seu latão embora. E ela não queria se arriscar a queimar os papéis e folhas direto no solo, porque o fogo poderia se espalhar pelo mato seco e logo estaria queimando o terreno inteiro, e quem sabe acabasse por queimar sua casa.

Aquela tinha sido uma semana perturbadora. Ficou amuada, seus sonhos não eram sonhos, eram pesadelos, e quando acordava se deparava com a infelicidade. Nos primeiros dias, resistiu com bravura, mas foi se deixando levar, o humor caiu, a esperança caiu, e ninguém conseguiu entender por que ela estava daquele jeito. Ninguém, exceto seu pai.

Ela não sabia, mas o pai conhecia seu hábito escondido. Ela não sabia, mas quando ia se deitar, o pai jogava água fria nas cinzas e ficava à espreita para ter certeza de que o latão não ia virar e botar fogo no mato, e botar fogo na casa, e botar fogo no bairro todo.

Então, quando levaram o latão embora, ele com discrição tratou de arranjar outro. No sábado, convidou a filha desanimada para tomar um sorvete e fez questão de passar na frente do terreno, mesmo a sorveteria sendo para o outro lado, para que ela pudesse ver o novo objeto. E ela viu, e ela sorriu, e ele sorriu, e ninguém disse nada.

| conto do livro Doce olho do furacão e outras fúrias (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia na Universidad Nacional de Córdoba. Graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Já participou de várias revistas literárias, entre elas Revista Subversa, Revista Gueto, Revista Ruído Manifesto e a Revista Ponto do SESI-SP. Publicou, em 2017, pela Editora Patuá, o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul; em 2019, Memórias de uma vida pequena, pela Quintal Edições; e, em 2021, pela Editora Penalux, Doce olho do furacão e outras fúrias. Atualmente, vive em Córdoba, na Argentina.

‘Goethe e seu tempo’ (Editora Boitempo, 2021), de György Lukács

goethe_tempoGoethe e seu tempo, de György Lukács, traz um conjunto de cinco ensaios do filósofo húngaro escritos durante a década de 1930 e dedicados à obra de Johann Wolfgang von Goethe.

Considerado um dos pontos culminantes da literatura humanista burguesa, Goethe tem sua trajetória esmiuçada e contraposta à de outros contemporâneos seus, em uma análise engajada do grande romance moderno e de seu conteúdo progressista.

Os dois primeiros textos tratam de obras específicas de Goethe e sua construção, ao passo que os três seguintes discutem o contexto social e literário no qual o escritor estava imerso, propondo percepções originais a respeito das motivações, contradições e desafios enfrentados por sua obra.

Trecho de “A teoria schilleriana da literatura moderna” (p. 123)

“A teoria da literatura moderna, da fundamentação de suas particularidades e da razão de ser dessas particularidades, desenvolveu-se, desde o aparecimento da classe burguesa, sempre em estreita conexão com a teoria da Antiguidade. Seria preciso que o domínio da classe burguesa estivesse bem consolidado, que tivesse se tornado óbvio, para poder produzir uma teoria da literatura moderna sem esse paralelo histórico, puramente a partir das condições externas e internas do surgimento dessa literatura. Contudo, no momento em que as bases econômicas da sociedade burguesa se tornaram óbvias, a ideologia burguesa já estava ingressando no período da apologética: ela não dispunha mais de suficiente desenvoltura e intrepidez para investigar de modo cientificamente imparcial as possibilidades ideológicas e artísticas de sua literatura com base em uma análise crítica de seus pressupostos e suas condições sociais. O grande período da teoria burguesa da literatura, que chega a um término com a poderosa síntese histórico-mundial da história da literatura e da arte na Estética de Hegel, baseia-se do começo ao fim na concepção da Antiguidade como o cânon da arte, como o modelo inacessível de toda arte e literatura.”

Continua a leitura do trecho em PDF [AQUI]

Ficha técnica

Título: Goethe e seu tempo
Título original: Goethe und seine Zeit
Autor: György Lukács
Tradução: Nélio Schneider, colaboração de Ronaldo Vielmi Fortes
Revisão da tradução: José Paulo Netto e Ronaldo Vielmi Fortes
Editora: Boitempo
Ano de lançamento: 2021
Mais informações no site da editora [AQUI]

lançamento do livro ‘Do amor e de outras tristezas’, de Rodrigo Novaes de Almeida

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O nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida, lança novo livro de contos, que está em pré-venda esta semana (até 22/08) com 15% de desconto no site da editora.

Link: https://bit.ly/doamor_urutau

Editora Urutau, pré-venda:

“Nos treze contos desta coletânea, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida traz mais uma vez sua escrita brutal e precisa para colocar diante de nós a dura e por vezes implacável realidade dos nossos dias, sem deixar de lado o humor ácido e as reflexões existenciais característicos em sua ficção. Aqui podemos vislumbrar um escritor maduro, ciente do seu trabalho e com voz própria, afirmando-se como um dos principais nomes do conto contemporâneo brasileiro.”

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor e editor. Trabalhou nas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática e Estação Liberdade. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

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Pré-venda de Do amor e de outras tristezas: histórias de violência e morte, de Rodrigo Novaes de Almeida. Disponível no site da Editora Urutau (usar o cupom: doamor), entrega em até 30 dias.
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Voe! Evoé!

selecionados da edição impressa n.2 da revista gueto

capa_gueto_impressa_2Em novembro de 2021 a Gueto completa 5 anos. Neste período, publicamos novos autores e autores consagrados, com o objetivo de divulgar a literatura contemporânea em língua portuguesa. Selecionamos 20 autoras e 20 autores, em poesia e em prosa, publicados no portal no biênio 2019-2020. Esta será, como a primeira, uma edição comemorativa de um trabalho coletivo entre escritores, poetas, curadores e editores.

Agradecemos aos editores Eduardo Lacerda e Pricila Gunutzmann da Editora Patuá pela parceria mais uma vez e ao artista visual Leonardo Mathias pela capa desta segunda edição.

A seguir, os selecionados:

CONTO

1. Adriane Garcia | #Minicontos para futuro nenhum
2. Alexandre Arbex | O ofício da fome
3. Ana Bárbara Pedrosa | Num motel em Loures
4. Christiane Angelotti | Mais uma Maria
5. Dirce Waltrick do Amarante | A diplomacia em banho-maria
6. Fábio Mariano | Infierno
7. Fred Di Giacomo | Ypy
8. Hugo Almeida | Ó
9. Laura Elizia Haubert | Laços
10. Liliane Prata | A culpa é dos poetas
11. Marcelo Maluf | Nada para contemplar
12. Myriam Campello | Obscura Veneza
13. Natalia Timerman | Sábado
14. Rafael Gallo | A única estação
15. Roberto Menezes | De quando a verdade me levantou do chão
16. Rosângela Vieira Rocha | O trovador de Toledo
17. Sergio Leo | Tarzan, o filho do alfaiate
18. Sérgio Tavares | Cruzadismo
19. Tiago Germano | Germes
20. Veronica Stigger | Fantasmas

POESIA

1. Alberto Bresciani | Nomes escritos às ostras
2. Alice Vieira | Prometeu
3. Andri Carvão | O poeta pobre
4. Carlos Emilio Faraco | s/título
5. Francesca Cricelli | Poema para a fiandeira de Remedios Varo em Les feuilles mortes
6. Isabella Martino | Começos
7. Laura Erber | Circunstância da luz
8. Leonardo Tonus | Notas esparsas para um mundo áspero
9. Manuella Bezerra de Melo | s/título
10. Marcelo Labes | A fábrica
11. Maria Esther Maciel | A vida ao redor
12. Maria João Cantinho | Abate diário
13. Matheus Guménin Barreto | O que vale um poema
14. Prisca Agustoni | A fera, primeira parte
15. Rafael Mendes | Resposta a Kaváfis
16. Reynaldo Damazio | s/título
17. Rodrigo Novaes de Almeida | Tocata e Fuga funestas
18. Susanna Busato | Entre
19. Tatiana Pequeno | Abençoados
20. Tito Leite | Acaso

A edição está em pré-venda no site da Editora Patuá neste [link]

fragmento do romance ‘Elas marchavam sob o sol’, de Cristina Judar

Elas marchavam sob o sol (Editora Dublinense, 2021)

capa_sob_solMortas podem ser as pessoas, mortas podem ser ideias e revoluções enterradas às pressas, antes que floresçam e mudem definitivamente a ordem das coisas.

Mortas podem ser as mulheres, enterradas vivas pelo fato de não serem vistas, quando, de fato, elas são os planetas, as deidades, o fundo do mar, tudo o que é incontável ou impossível de se medir.

Uma lenda que trago comigo: em um passado remoto, havia uma velha, ela vivia em um deserto e soprava ossadas que encontrava pelo caminho. Havia velas acesas no interior do seu corpo antigo.

Ao despejar sobre as ossadas o calor das suas entranhas, a velha as preenchia com carnes e narrativas que delineavam formas nada correspondentes às necessidades de consumo dos homens.

Desertos são oceanos extintos: os esqueletos se transformavam em conchas e somente depois se tornavam corpos. Esse era o seu pequeno milagre.

Ela sempre se assombrava com o acúmulo de ossos sobre o chão. Em posições variadas, eram favoráveis ao reconhecimento de que haviam pertencido a mulheres.

A velha caminhava entre eles como quem não quer pisar em ovos, ela era uma jardineira de flores calcificadas. Naquele canteiro sem água, havia um registro raro e diversificado. A secura pode conter germinações e reter temporalidades, embora sejamos convencidos a acreditar no contrário.

Dia a dia, a velha regava suas joias inertes com o ar e o fogo, com um passear ritmado e um canto que, de tão rouco, parecia ter nascido no início do mundo. Naquele lugar em que todos os acontecimentos são ideias não projetadas na realidade linear, pólen em suspensão, raio de sol sem parada fixa. Ela observava as ossadas como se as acariciasse.

Exalava chamas e reconstituía o que estava perdido — não apenas os corpos, mas a beleza oceânica deles, aquela que está contida no movimento e os define na ausência de limitação, na geometria dinâmica das ondas, no cheiro do sal.

Elas marchavam sob o sol, lançado 4 anos depois de seu último romance, apresenta narrativa sobre aprisionamentos relacionados ao feminino e a corpos dissidentes. Saiba mais no [link].

Cristina Judar nasceu em São Paulo, é escritora e jornalista, autora do romance Oito do Sete, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano. Escreveu o livro de contos Roteiros para uma vida curta (Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e as HQs Lina e Vermelho, vivo. Seus textos curtos também figuraram em diversas antologias publicadas no Brasil e no exterior. Elas marchavam sob o sol é o seu segundo romance.

lançamento do Projeto Migra 2021

Capturar

Entre abril e outubro de 2021, mais de 80 escritores, artistas, cineastas, dramaturgos, ilustradores, pesquisadores e atores da sociedade civil participarão do Projeto Migra (2021) que visa, entre outros, estabelecer um diálogo transnacional e transdisciplinar sobre as vivências da migrância nos dias de hoje. Debates, leituras, jornadas acadêmicas, encontros com estudantes e lançamentos de livros serão organizados através de nossos canais Youtube e Facebook em parceria com diversas instituições brasileiras e internacionais. O conjunto das atividades compreende uma comissão organizadora composta por pesquisadores, docentes e atores do mundo cultural no Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

Todos os debates serão transmitidos de forma gratuita no YouTube e Facebook do Projeto Migra.

Próximo programa:

20 de abril às 11h do Brasil e às 16h da França e da Alemanha (em português, inglês, francês e alemão). “A comunidade errante: ensaios de literatura e exílio” (lançamento do livro em presença dos organizadores), com Keli Pacheco (UEPG), André Cechinel (UNESC) e Leonardo Tonus, idealizador do projeto.

O programa será atualizado mensalmente.

A gueto é uma das parceiras.
Saiba mais em: https://www.projetomigra.com/

três poemas de Ellen Lima

lima_capaA gueto publica com exclusividade três poemas do livro Ixé ygara voltando para `y’kûá (Canoa voltando pra enseada do rio), da escritora Ellen Lima, brasileira de origem na etnia indígena Wassu, que reside em Portugal e escreve em português e tupi antigo. Uma publicação da Editora Urutau (editora brasileira com sede em Portugal e Galícia).

“Tem uma força política muito grande publicar em Portugal uma escritora de origem indígena. É necessário divulgar os debates e as epistemologias produzidas por estes povos não só internamente, mas principalmente em Portugal, que tem a história entrelaçada a nossa, e mais ainda aos originários. A voz poética criada pela Ellen no livro remonta os sentimentos mais íntimos de uma indígena contemporânea não aldeada, trata-se da vida de milhares de pessoas que precisam lidar com a desumanização de seu povo ao mesmo tempo que entendem ser necessário reafirmar-se enquanto indígena mais do que nunca neste momento”, explica o editor Wladimir Vaz. A obra está disponível para venda no site da editora Urutau [link].

Retraterritorialidade

Há dias em que me retrato, e nada.
Há dias em que o retrato

retrata tudo que as lentes não sabem ler.
as dores, os amores, as saudades.
Às vezes até minhas outras três vidas.
Tem dias que o retrato mostra a moça Wassu.
E tem dias que o retrato é coberto por ilusões ocidentais.
Tem dias que sou, e nada mais.
Tem dias que… é só um rosto, vazio e mais nada.

Outro erro de português

Peró chegou e mandou que parasse o
nhen, nhen, nhen.
A-nhe’eng abé
Oro-nhe’eng também,
nhen, nhen, nhen,
nhen, nhen, nhen,
nhen, nhen, nhen.
De castigo, cortaram nossa língua
no tempo e no espaço.
Suspenderam os cafunés e abraços
da voz dessa mãe daqui.
Mas um dia,
ainda cortamos a tua língua
e oro-karu com abati.

ÍNDICE TUPI
nhen, nhen, nhen — é uma expressão popular na língua portuguesa que significa falatório ou murmúrio (quase sempre sugerindo que quem fala é monótono ou está a aborrecer o interlocutor). A expressão “deixar de nhen, nhen nhen” quase sempre sugere que o outro pare de queixar-se e execute uma tarefa que lhe foi dada.
nhe’eng — verbo falar em tupi antigo.
peró — português / homem branco.
a-nhe’eng — eu falo.
oro-nhe’eng — nós falamos.
abé — também / igual.
oro-karu — nós comemos / abati — milho.

Yby, ́Y,Ybytu, Tatá

Ixé ygara voltando para `y’kûá.
Ixé ybyrá de raízes que voam.
Xe r-oka é o vento,
Xe r-oka é a água.
A-guatá pelo mundo,
Às vezes longe de casa,
Às vezes perto de mim.
Xe r-oka é a terra
Da floresta, da ilusão do ocidente,
estrada, fumaça ou curupira.
Longe ou perto de casa
sou yby r-aîyra.

ÍNDICE TUPI
poranduba — pergunta / mamõ-pe ere-îkobé — de onde você é / onde.
você vive? / a-ikobé — eu venho / seu moro / pupé — em / dentro de.

Ellen Lima é professora, artista, poeta e mestra em Artes. Nasceu no Rio de Janeiro e é indígena de origem Wassu Cocal (Maceió-AL). Atualmente cursa o doutoramento em Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade do Minho, em Braga, onde mora.

jazz band na sala da gente, uma ode ao artista, por Ivam Cabral

jazz_band_capaJazz band na sala da gente, romance de estreia de Alexandre Staut, relançado, agora, dez anos depois pela Folhas de Relva Edições, é um livro que você deveria ler.

O enredo se passa em uma pequena cidade do interior paulista, Espírito Santo do Pinhal, nos anos 1940, precisamente no terrível 1945. A história gira em torno de uma família, pai judeu alemão e mãe italiana, donos da única funerária da cidade. O pai, Eduardinho Staut, flautista da Pinhal Jazz Band, vive às turras com sua mulher, a conservadora Ondina, que tem repulsa pelo trabalho artístico do marido. Como pano de fundo, a época de ouro da música, suas cantoras, o rádio e a perseguição aos judeus no fim da Segunda Guerra Mundial.

A narrativa da obra é construída através do olhar do filho do casal, também chamado Eduardinho, que não entende o ódio da mãe pela música do pai; nem porque sua casa é procurada pelo pessoal da cidade aos prantos e sempre em desespero.

Bonito como o autor trabalha as diferenças de personalidades entre o casal Staut. De um lado, a delicadeza e refinamento de Eduardinho; de outro, o temperamento da esposa, extremamente religiosa e questionadora da arte do marido que, na sua opinião, é para os desocupados.

Ponto alto do livro, os concertos secretos que Eduardinho faz para os filhos quando Ondina não está em casa. Enquanto a mulher se preocupa o tempo todo em procurar ajuda para mudar o nome da família — afinal, em tempos de perseguição aos judeus, ter um sobrenome semita não é lá visto com muita tranquilidade — o patriarca, que tem orgulho de seu sobrenome, “procurava mesmo era encher a casa de música”. Nesses dias, “o tempo parava quando o som da flauta invadia a casa”.

Eduardinho, que não cuida dos mortos, mas do “último suspiro dos vivos”, é uma personagem apaixonante. E Alexandre Staut constrói um livro que, além de ser uma ode ao artista, discute temas delicados como o preconceito, por exemplo. E é exatamente aí que Jazz band na sala da gente atinge seu cimo. A relação de Ondina com Buduçu, jovem negra que vem trabalhar com a família, faz parte desses bons momentos do livro. É de uma aspereza que primeiro impressiona, depois emociona.

O autor faz ratificação, ainda de que maneira discreta e subliminar, ao papel dos judeus no cenário musical mundial. Benny Goodman, Gene Krupa e Artie Shaw, só para citar três foram nomes importantes do jazz, considerada por muitos uma música de tradição puramente negra.

Alexandre Staut é autor de diversos livros, entre eles, Paris-Brest e O incêndio, além de ser o idealizador e o editor da revista literária São Paulo Review e da Folhas de Relva Edições.

Ivam Cabral é ator, diretor, dramaturgo e cineasta. É fundador da Cia. de Teatro Os Satyros, ao lado de Rodolfo Garcia Vázquez. É Doutor em Pedagogia do Teatro e Mestre em Artes Cênicas pela ECA-USP. Já recebeu inúmeros prêmios e escreveu dezenas de textos traduzidos para o espanhol e o alemão. Atualmente, acumula o cargo de diretor executivo da SP Escola de Teatro — Centro de Formação das Artes do Palco.

capítulo do romance ‘Descanso’, de Rafaela Riera

Selo Auroras, Editora Penalux 2020.

Capítulo 20: Eugênio Dahl

capa_descansoSempre fui um covarde para dor. Lembro quando caí da minha bicicleta, ainda moleque. A dor é instantânea, mas você demora para reconhecer. Entender que aquele queimado que de repente esquentou toda a sua perna e que transborda calor para fora dela é dor. Que o calor são seus nervos e o seu sangue expostos. Antes que você entenda isso, já caiu com o rosto na terra e rolou colina abaixo. E novamente, a dor é rápida, mas nosso entendimento é lerdo. Você não entende que a perna prendeu na correia, que a bicicleta tombou e você rolou agarrado nela. Sendo “esfaqueado” pelo guidão, pelo arame da roda e até pelo metal do freio que quase atravessa a palma da sua mão. Você só entende isso quando já parou de cair. Quando tenta mexer o seu corpo e nota que ele se fundiu no metal. Seu corpo é duplo. Foi só aí, vendo meu sangue empapuçar a terra que entendi que tudo aquilo era dor. Ela já existia antes de eu ser capaz de dar um nome para ela. Por isso que sei que a dor é a sensação mais primitiva de todas. E é por conhecer ela tão bem, que sempre fugi de um reencontro.

Por isso, me animei em ter uma morte bem longe dela. Mas até isso, esse mundo me negou. Durante dois anos tentei fazer meu requerimento para o Descanso. Foram cinco inscrições canceladas ou negadas. A morte pura não era para mim. Eles haviam decidido e eu não podia fazer mais nada além de esperar que a natureza tivesse a piedade que o homem não teve.

Quando sua primeira opção de morte é negada, você precisa arranjar outra. Mas não é fácil escolher algo assim. Principalmente quando todas as opções envolvem dor. No começo, tentei fazer longas corridas pelo bairro. Um coração tão acabado como o meu não deveria aguentar muito. Esperei um infarto, mas só me mantive saudável e vivo por mais tempo.

Pensei em veneno. Mas o desespero de ter meu estômago destruído enquanto vomitava o resto de mim não me pareceu algo muito bom. Lembrei dos ratos que comiam chumbinho na minha casa. Minha mãe tinha pena de recolher os corpinhos e meu pai nunca estava em casa. Era eu que pegava, um por um, e colocava na lixeira. Os olhinhos pretos estavam sempre esbugalhados. Não quero isso para mim.

Depois, pensei em me enforcar. Afinal, é uma das formas mais famosas de suicídio. Porém, imaginar meu pescoço quebrando enquanto luto para respirar é algo horrível. Além disso, me contaram que algumas pessoas se cagam ou se mijam quando morrem assim. Não. Muito deprimente.

Um tiro resolveria fácil. Mas imagina se eu erro! No lugar da morte rápida vou encontrar um labirinto de miolos e dor que preciso atravessar até achar a paz. Arriscado demais.

Estava quase desistindo, até que um dia, fazendo minha janta, a ideia perfeita surgiu. O fogão. É claro. O gás do fogão era tudo de que eu precisava. Fechei todas as portas e respirei fundo. Tossi várias vezes. Meu corpo amoleceu e eu senti um sono horrível. Mas os bombeiros entraram antes que eu pudesse vencer. Fiquei uma semana internado. E foi lá, enquanto lutavam para me salvar, que achei a minha parceira. Uma enfermeira novinha. Sempre que vinha até mim, me olhava bem demorado. Achei que era pena. Comecei a odiar sua presença. Até que me entregou um cartão.

“Eles podem ajudar o senhor”.

“No quê?”

“No que o senhor quer”.

Não esperava isso dela, com aquele jeitinho de boa moça.

“Você não deveria tentar me salvar?”

“Eu salvo quem pode ser salvo. Eu sei que o senhor vai tentar até conseguir”.

Só liguei para o número quando cheguei em casa. O homem que falava era seco e direto. Isso teria um preço. Um valor que eu não podia pagar.

“Não existe outro jeito?”

“Existe”.

E agora estou aqui, olhando essa porta. Achei que seria um lugar mais bonito. Soube que nos Centros de Descanso, as paredes têm girassóis pintados, grandes janelas e um jardim. Aqui, temos areia, cimento e uma casa que fede a bolor. Aperto a campainha e na mesma hora um homem aparece. Ele é tão grande que diminuo.

— Nome?

— Eugenio Dahl.

— O que você quer aqui?

— Comprar uma moto. Vi um anúncio. Falei com o Elder no telefone.

Era esse o código que eles me repetiram incontáveis vezes no telefone. O gigante me deixa passar. A sala é pequena e o corredor comprido. Atravessamos um lugar que um dia foi jardim e hoje é apenas areia. Meu fim vai acontecer na casinha dos fundos. É difícil dar esses últimos passos. Lembro de mim, pequeno, tendo que andar até em casa depois de cair no morro. Cada passo exigia a força de uma vida.

Assim que entramos na casa, me pedem para colocar uma camisola. Ela está amassada e me pergunto quantas pessoas a vestiram antes de mim. Vou até um quarto pequeno e ponho a minha roupa nova, estou com medo. E assim como a dor, eu só o percebo bem depois, quando já me dominou.

— Senhor Eugênio?

Uma moça de branco me chama. Ela me estende a mão como uma mãe e eu seguro forte nela.

— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com o senhor.

Finalmente terei o que quero. E eles terão o que querem também. Como não tinha o dinheiro, entrei em outra categoria de “serviço”. Não tomarei o remédio usado no Descanso. Serei sedado, como em uma cirurgia. E ali, apagado, meus órgãos serão retirados e entregues para quem tem dinheiro para comprar. Uns pagam verdadeiras fortunas para sobreviver, e outros fazem o mesmo para morrer.

Eu limpo as lágrimas com vergonha. Era o que eu queria. Pra que chorar? E no fim, ainda vou fazer o bem para alguém que quer a vida mais do que eu. Mas continuo tremendo. Vamos para uma nova sala, vejo muitas pessoas com roupas cirúrgicas. Todos me olham.

— Bom dia, senhor Eugênio. Sou o Dr. Montes. Vamos deitar?

Os dois me ajudam, as luzes são fortes e doem o olho. Uma outra mulher procura a minha veia. Não solto a mão que me segura. Penso que vou salvar uma criança. Até imagino uma. Loirinha, olhos claros e a cabeça branca cheia de cachos. Uma criança que vai poder fazer muitas coisas. Brincar, aprender e crescer. Ter uma vida melhor que a minha. Uma que terá um sentido.

— Senhor Eugênio, eu sou a Mônica. Vou colocar você pra dormir. Vamos fazer desse jeito: assim que o remédio entrar no seu corpo vamos contar juntos até dez. De trás pra frente. Me avisa quando estiver pronto?

Não existem girassóis. Nem jardim. Nem uma última refeição. A sala cheira a álcool e tudo é azul. Minha vida vai acabar. E eu venci a dor, ela não vai me alcançar. Vou morrer em paz. Solto a mão da enfermeira e agarro a de Mônica. Com a outra mão, ela segura a seringa conectada ao tubo que sai da minha veia. Meu coração bate bem forte. A sala toda se enche com o seu som. Não precisa lutar mais, passarinho. Em breve, você sairá dessa gaiola feita de ossos. E eu também.

— Pronto.

Sinto um gelado na minha veia que vai subindo até o fim do braço.

— Vamos lá, Eugênio. Conte comigo.

— Dez, nove, oito…

Rafaela Riera nasceu em Curitiba, em 1991, e vive em São Paulo. É formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Positivo e trabalhou como redatora publicitária por sete anos. Hoje, o que ela mais gosta de fazer é escrever, se dedicar à literatura, com o projeto Novas Clarices, e ser mãe da Helena, de quatro anos. Descanso é o seu primeiro livro.