contos de quarentena: release

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Quando a realidade limita os horizontes, a literatura convida para passear. Essa foi a semente para a criação da antologia Contos de Quarentena. Organizada por Mauro Paz, a antologia tem como objetivo levar a literatura contemporânea para aqueles que estão em casa na luta contra a proliferação do CoviD-19. A publicação tem distribuição gratuita no site da Revista Vício Velho e na Amazon Brasil entre 31/03 e 04/04. Depois de 04/04, na Amazon, terá o valor simbólico de R$ 1,99.

Entre os autores estão alguns dos mais inquietos e talentosos nomes da literatura brasileira produzida hoje: Ana Squilanti, Camilla Loreta, Camilo Gomide, Débora Ferraz, Eltânia André, Gabriela Silva, Gustavo Melo Czekster, Helena Terra, Henrique Balbi, Jeferson Tenório, Jessica Cardin, Marcelo Ariel, Marcelo Conde, Marcos Vinícius Almeida, Maria Fernanda Elias Maglio, Mariana Salomão Carrara, Mauro Paz, Mayara Floss, Natalia Timerman, Rodrigo Novaes de Almeida, Rodrigo Tavares, Ronaldo Cagiano, Tiago Germano, Tobias Carvalho, Vera Saad e Walther Moreira Santo.

Fique em casa e boa viagem.

Revista Vício Velho | Download free nos formatos PDF e Epub.
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Amazon | Por R$ 1,99. Entre 31/03 e 04/04 por R$ 0,00.
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coletânea ‘Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência’

Coletânea terá pré-lançamento em março na Printemps Littéraire Brésilien e trará eventos com mesas e debates em várias cidades do Brasil

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Capa de Claudio Duarte

A gueto divulga com exclusividade a capa da coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020), organizada por Carol Proner e Leonardo Valente, uma das publicações de literatura política mais aguardadas deste ano. Com 32 escritores e escritoras de Brasil, Portugal e Angola, a obra apresenta contos, poemas e crônicas críticos não apenas aos desmandos de governos de extrema direita e que flertam com o fascismo, como também contestadores de uma sociedade cada vez mais dominada pelo conservadorismo, pelo radicalismo e pelo preconceito.

“Tendo como base a proposta geral da obra, foi dada liberdade temática, estilística e de formato a todas as escritoras e escritores convidados. Se necessário, crônicas poderiam extravasar seus limites para flertarem com artigos e ensaios, contos podiam parecer crônicas, e crônicas se aproximarem de contos, poemas ganharam carta branca para figurarem como desejassem seus poetas nas páginas, e ficção e realidade tiveram permissão para chegarem de mãos dadas ou bem separadas. A livre expressão em todas as suas dimensões foi mais um contraponto proposital ao engessamento conservador, limitador e classificador típico do fascismo de ontem e de hoje”, diz um trecho do texto de apresentação do livro.

A capa, um alerta para a volta da censura e da repressão de tempos sombrios, é assinada pelo ilustrador, caricaturista e designer gráfico Claudio Duarte, vencedor do Prêmio Esso na categoria Artes Gráficas, sete vezes premiado pela The Society for News Design (SND) e com diversos trabalhos em grandes editoras e jornais brasileiros.

Agenda de lançamentos

Banner Lançamento Mondrongo livro Antifacistas
Arte de Claudio Duarte

Dois eventos de pré-lançamento da coletânea acontecerão em março em Paris, França, e em Braga, Portugal, durante a Primavera Literária Brasileira, maior evento de literatura brasileira no exterior. No Brasil, todos os eventos de lançamento contarão com mesas e debates sobre autoritarismo, censura, capitalismo pós-democrático, literatura política e vários outros temas, com a participação dos escritores e das escritoras que colaboraram com a obra. Entre as cidades já confirmadas estão Salvador, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo e Belo Horizonte. A agenda completa, que deve se estender durante todo o ano, será divulgada em breve.

Participam da coletânea André Diniz, Bárbara Caldas, Carol Proner, Christiane Angelotti, Cinthia Kriemler, Cristina Judar, Cristina Serra, Eliane Potiguara, Fernando Molica, Gustavo Felicíssimo, Hildeberto Barbosa Filho, Jeferson Tenório, João Ximenes Braga, José Eduardo Agualusa, Juliana Neuenschwander, Leonardo Tonus, Leonardo Valente, Luis Fernando Veríssimo, Marcelo Moutinho, Marcia Denser, Maria Valéria Rezende, Micheliny Verunsky, Nívia Maria Vasoncelos, Pilar de Río, Regina Zappa, Rodrigo Novaes de Almeida, Rosângela Vieira Rocha, Sylvio Back, Stella Maris Rezende, Urariano Mota, Valter Hugo Mãe e Wanda Monteiro.

Links com os trabalhos e contatos de Claudio Duarte:
[ http://www.claudioduarteilustracao.com/ ]
[ https://www.instagram.com/ilustradorclaudioduarte/ ]

três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).

resenha do romance ‘Essa gente’, de Chico Buarque

Por Leonardo Valente

capa_buarqueMuitos gigantes vivem em um Chico Buarque, mas dois que sempre se destacaram de forma especial, ainda que em caminhos e estilos distintos, o compositor e o escritor, em Essa gente (Companhia da Letras, 2019), o mais recente e em minha opinião seu melhor romance, são convertidos em um só. Trata-se da obra do romancista que mais se aproxima do compositor. Aproximação na temática, onde a crítica sofisticada e ao mesmo tempo incisiva ao fascismo e ao elitismo colonialista de nossos dias remete ao Chico que se levantou contra a Ditadura Militar; aproximação no estilo narrativo, não raro sonoro e melodioso como suas músicas. Essa gente é um romance ao mesmo tempo simples e multifacetado, e sua história principal pode ser comparada a um rio carioca e caudaloso que desemboca no oceano profundo da formação social brasileira, e nas contradições, superficialidades e hipocrisias sui generis de suas elites.

Os pequenos capítulos seguem tendência da prosa literária contemporânea, especialmente a urbana, e a construção deles como um diário, o que permite com certa facilidade idas e vindas na história, concede dinâmica e facilidade de leitura a um texto denso, musical e ao mesmo tempo áspero, de vocabulário notoriamente bem calculado e repleto de camadas interpretativas. O resultado é um livro que pode agradar a leitores com diferentes níveis de exigência e de expectativa (alguma semelhança com as músicas do outro Chico gigante?), assim como provocar diferentes reações.

Duarte é o escritor decadente protagonista, sem dinheiro, mas sem perder a pose, destruído afetivamente, e que poderia se encaixar tanto em um livro de literatura policial quanto em um estudo de caso antropológico sobre nossa Casa Grande contemporânea. O Leblon é bairro nobre carioca protagonista e igualmente decadente, que no retrato de Chico consegue resumir em si todas as mazelas e tristezas de uma elite responsável pelos erros do passado e pelas mazelas distópicas do agora brasileiro. Duarte é o que Chico poderia ter sido, é o que muitos Chicos provavelmente viraram, seres indiferentes emocionalmente e ignorantes intelectualmente em relação ao país que despenca sobre suas próprias cabeças. Personagem que parece o avesso de seu criador, mas o avesso, apesar de ser o oposto, é muito mais próximo do que distante, pois está colado do outro lado. Duarte tem muito de Chico e é ao mesmo tempo tudo o que ele nunca foi. Já o Leblon é o que o Brasil queria ter sido, e Essa gente também mostra o quanto os desfavorecidos se deformam em valores e compromissos ao desejarem tornarem-se iguais aos que lá vivem; Essa gente, por mais que doa constatar, é formada tanto pelas dondocas e garanhões do bairro, quanto pelos passeadores de cães e moradores de comunidades que por ali circulam. Nossa elite é prodigiosa em converter Chicos potenciais em Duartes reais, e o Leblon em fazer com que os pobres aspirem uma sociedade ainda pior do que a que já temos.

Não se trata, contudo, de um romance político no sentido estrito do termo, nem de um romance histórico, apesar da enorme contribuição para o entendimento sobre o tempo presente. Assim como suas músicas que tocam nas feridas da Ditadura Militar, Essa gente é muito mais do que um texto crítico sobre nosso momento político, é antes de tudo, e principalmente, uma história sobre as relações humanas.

Ter o Rio e suas mazelas como cenário principal de uma obra com essa proposta também é extremamente significativo, traz de volta uma de suas características mais peculiares e há algum tempo perdida: a de se tentar compreender o país por meio de suas veias e de sua gente. Joga ainda a cidade — que por vários motivos andava meio distante da cena literária relevante do Brasil de hoje — no olho do furacão da produção ficcional e, consequentemente, no centro das atenções. Chico e seu novo romance têm força suficiente para produzirem esse movimento, ainda que por um tempo.

Essa gente é a primeira obra ficcional publicada, de peso e notoriedade, a se passar no desgoverno de Jair Bolsonaro e a retratar as relações sociais e afetivas nesses tempos sombrios. Bom que tenha vindo de Chico o primeiro romance com essa característica, e justamente o seu melhor livro. Sinal de que, assim como suas músicas, a obra extravasará sua função primeira e se tornará um grande instrumento na disputa futura pela narrativa e pelos afetos, tão fundamental para que essa gente não volte a fazer o que hoje faz com o Brasil.

Leonardo Valente é escritor, jornalista, cientista político, e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. É autor do romance O beijo da Pombagira (2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, da antologia Apoteose (2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura, e do romance Charlotte Tábua Rasa (2016). É um dos autores da primeira edição impressa da revista gueto, com o conto “criogenia do inconsciente ou manifesto pelos prazeres perdidos”, além de ter participado de outras antologias e coletâneas. Participou da Primavera Literária Brasileira, na França em 2019, e é um dos autores convidados para a edição 2020.

fragmento do romance inédito ‘Brasília’, de Ricardo Lísias

1.

O paciente morreu algumas semanas depois. Mesmo assim, o primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi considerado um enorme sucesso. O professor Euryclides de Jesus Zerbini, chefe da equipe que esteve à frente do procedimento, preocupava-se sobretudo com uma possível rejeição do órgão, problema debatido em inúmeros cursos e congressos pelo mundo e que ainda não havia obtido nenhuma solução satisfatória pela comunidade médica. Não foi o que aconteceu. João Boiadeiro, o receptor, recuperou-se bem. O cuidado da equipe médica o protegeu do assédio e seu quarto no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo permaneceu um lugar calmo, em que as pessoas sorriam e falavam com ele em voz baixa e pausada.

— Que bom que agora está tudo bem, João — uma enfermeira repetia de vez em quando, com um sorriso sincero no rosto. — O transplante deu certo, parabéns.

Segundo os jornais, João Boiadeiro na verdade não sabia o que é um transplante. Ninguém se preocupou em lhe explicar e ele, com alguma esperança e muita resignação, não quis perguntar. Deu certo.

Talvez as coisas não tenham sido bem assim. A equipe do doutor Zerbini, sempre ciosa e com a voz baixa, conversou muitas vezes entre si perto dele, tanto antes quanto depois da operação. Alguns alunos (apenas os melhores) também ouviram inúmeras explicações naqueles dias. Meu tio, por exemplo, olhou diversas vezes para o paciente, que parecia acompanhar tudo muito atento. Ele entendia muita coisa, sim.

Cientes do histórico de depressão do primeiro brasileiro que recebeu um transplante de coração, médicos e enfermeiros sempre o animavam e, com a voz cheia de orgulho, cumprimentavam-no pelo sucesso da equipe. Quando o quarto ficava vazio, antes de dormir muitas vezes João imaginava a cena que os doutores descreviam uns para os outros: o coração saiu do doador e foi direto para ele, ainda batendo na bandeja. Não houve espera e muito menos qualquer tipo de parada cardíaca. Deu muito certo.

* * *

O prontuário médico de João Ferreira da Cunha, o nosso João Boiadeiro, tem apenas informações clínicas. Enquanto a imprensa francesa noticiava o apaziguamento das revoltas naquele final de maio, com uma gigantesca manifestação em apoio a de Gaulle, a nossa aqui deu bastante destaque ao transplante. Não houve, porém, nenhum tipo de esforço para conhecer a vida pregressa do rapaz melancólico e calado que viveu 28 dias com o coração de outra pessoa pela primeira vez no Brasil.

Até ali, diversas cirurgias haviam sido realizadas em cães. Nenhum passou mais de duas horas respirando com o coração de outro animal. O que fez a equipe do doutor Zerbini ter fé nesse tipo de transplante em humanos vivos no Brasil foi o sucesso com que o doutor Christiaan Barnard realizou o mesmo procedimento, no final de 1967, na África do Sul.

Zerbini se impressionou com o resultado. Muito infelizmente, Louis Washkansky, o primeiro homem a viver com o coração de outro, morreu 18 dias depois da operação, vítima de uma infecção. Esse incidente, por favor, não deve desanimar os outros médicos daqui em diante, repetiam todos. O caminho é a natural evolução do procedimento e dos remédios que, posteriormente, garantirão a vida dos pacientes. Foi o que aconteceu.

Se o colega do outro lado do oceano tinha conseguido, o que nos impediria também de ter o mesmo sucesso? Afinal de contas, a África do Sul nunca foi exatamente uma vanguarda na medicina, lembro-me do meu tio repetir isso com o rosto meio ambíguo. Normalmente as pessoas não viam a menor graça nesse tipo de tirada. Ele, por outro lado, às vezes quase engasgava de tanto rir. Quando ele morreu, fiquei triste de verdade, apesar de tudo.

João Boiadeiro deu entrada no Hospital das Clínicas depois de tentar se suicidar no Albergue Alegria, onde estava morando desde que chegara a São Paulo, dois ou três meses antes. O prontuário não diz como ele tentou tirar a própria vida, mas aponta um quadro depressivo causado por uma fraqueza. Ele a descrevia como cada vez mais crescente. Nos últimos meses, ondas de cansaço súbito o impediam de trabalhar na fazenda onde vivia no Mato Grosso com a irmã. Essa última informação não está no prontuário, mas sim nos jornais que meu tio guardou.

O Albergue Alegria teve o mesmo destino que seus hóspedes. É bastante difícil encontrar informações precisas sobre ele. Segundo os poucos registros que constam no Arquivo Público do Estado de São Paulo, funcionava em um galpão adaptado para receber pessoas que chegavam a São Paulo de trem na Estação da Luz e não tinham exatamente para onde ir. Algumas davam sorte e encontravam um parente com um cantinho na sala, outros percebiam que não conseguiriam nada melhor do que já tinham antes e voltavam para a sua cidade depois de uma semana no Albergue Alegria. Vários passavam meses ali, atrás de emprego, conversando e jogando cartas ou dominó. Certos moradores só saíam da cama quando os poucos funcionários os incitavam. No geral, iam dormir por ali mesmo, na calçada, já que a região era sua única referência. A depressão, portanto, era corriqueira. Dois homens procurados pela polícia política passaram três meses em segurança, depois de terem a feliz ideia de se misturar àquelas pessoas. Dali, foram transportados para a fronteira com a Bolívia e depois de subornar dois guardinhas sonolentos, fugiram do Brasil.*

Algumas coisas nunca mudam por aqui.

* Caso haja algum interesse sobre os dois e, mais ainda, quanto a esse tipo de ação durante a ditadura, quem os transportou foi a escritora Maria Valéria Rezende, que naquele momento tinha um documento diplomático emitido pelo Vaticano.

Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Publicou em 1999 o romance Cobertor de estrelas (Editora Rocco), traduzido para o espanhol e o galego. Em 2001 publicou Capuz (Editora Hedra), e, em 2004, Dos Nervos (Editora Hedra). Duas praças (Editora Globo, 2005) foi o terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006. É autor também do livro de contos Anna O. e outras novelas (Editora Globo, 2007), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, e O livro dos mandarins (Editora Alfaguara, 2009), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010. É autor ainda dos livros infantis: Sai da Frente, Vaca Brava (Editora Hedra, 2001), Greve Contra a Guerra (Editora Hedra, 2005) e A Sacola Perdida (DSOP, 2014).

três poemas do livro ‘Poemas do Golpe’, de Andri Carvão

Um povo que não enterra os seus mortos vive remoendo o passado.
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Um
povo
que
não
enterra
os
seus
mortos
vive
sendo
assombrado.
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Um povo que não enterra os seus mortos,
vive?

| elite miserável |

Cidadão
Cristão
Brasil
Servil

Herança rural
Questão cultural
Regime colonial
Atraso industrial
Casa senhorial
Sociedade patriarcal
Identidade nacional

Burocrata
Escravocrata
Primata

Política
Paleolítica

Da servidão
Da escravidão
Da prisão
Dentre outras formas de opressão

Pobre é povo
Classe média é povo
Povo é povo
Teleguiado por uma elite miserável

| na casa de armas |

— olá!
— eu quero uma arma, eu preciso de uma arma, eu quero uma arma!
— pra quê você quer uma arma?
— pra mataaar!
— pra matar o quê?
— uma arma de caça, pra caçar…
— pode ser mais específico? que tipo de caça?
— passarinhos e borboletas… brincadeira. ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…
— mas não temos estes bichos no Brasil…
— …
— mas que tipo de arma você quer? um rifle?
— um rifle, pode ser um rifle, eu quero um rifle de caça.
— olha, temos este aqui…
— aahh, que lindo! bela arma…
— …e também temos esta daqui (um pouco mais cara) alemã, uma similar, a vovozinha desta, foi usada durante a Segunda Guerra Mundial para matar judeus, homossexuais, ciganos, comunistas…
— agora eles vão ver uma coisa!
— eles quem, amigo?
— ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…

capa_golpe| poemas do livro Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019) | com lançamento sábado, 7 de dezembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há textos do autor nas seguintes publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, entre outras; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal, ambas pela Editora Appaloosa, e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos [um manifesto contra o fascismo], organizado por Rojefferson de Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos, também pela Appaloosa, O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s, ambos pela Scenarium, Um Sol para cada montanha (Chiado Books, 2018) e Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019).

o feitiço, de Julie Dorrico

Conto do livro Eu sou macuxi e outras histórias, que a Editora Caos & Letras lançará dia 14 de dezembro [link].

A bisa sentou confortavelmente na sua cadeira de palha. A Ada já estava passando um chá de capim santo, ela já sabia que na boca da noite minha bisa se preparava para contar mais uma de suas histórias. Ada já se ajeitava também pra traduzir pra mim a história no mesmo tom da vó, como sempre fazia.

A Ada antes de chegar junto e se sentar perto de nós, mexeu na lenha do fogão de barro. Enquanto vovó contava sua história que depois seria nossa, o som dos toquinhos da madeira estalavam como se acompanhassem o enredo assustador que eu iria ouvir.

O fogo, atento, escutava a memória da bisa. As gentes-fumaça envolviam todos os aposentos da casa que, apesar de ter divisórias nos quartos, parecia uma grande e tradicional maloca. As gentes-fumaça criaram um cenário de suspense à história contada pela minha velha matriarca.

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A história a seguir aconteceu com a nossa família.

Um dia um homem tentou cortejar a mulher mais bonita da comunidade. Ela não quis. Ela amava seu marido. Não queria namorar na roça com outro homem, não.

O homem ficou tão ressentido que recorreu à prática da feitiçaria. Numa noite de lua cheia, esse macuxês foi na floresta e procurou lugares onde a gente-onça, onde a gente-cobra, onde a gente-anta haviam dormido.

Ao encontrar vestígios dos repousos, o macuxês deitou-se em cada um dos lugares para vestir a pele dessas gentes não humanas, que no passado eram conhecidos como animais ancestrais da primeira humanidade.

Depois de vestido tomou a forma da onça, da cobra e da anta, e desejou que a mulher adoecesse. Ofertou a stekaton dela, a sua alma, aos omá:kon, os espíritos-seres do mundo intermediário, que são caçadores das almas de homens e mulheres macuxi.

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Contam os antigos que eles aparecem sob a forma de animais de caça ou na forma de humanos com unhas e cabelos muito longos e falas inarticuladas. Eles ensinam aos macuxês lições de morte. Só quem pode resgatar as stekaton deles são os xamãs com ações terapêuticas bem ritualizadas: os piatzán são iniciados desde cedo nos ritos de cura.

Ao terminar o feitiço, o macuxês vestiu novamente sua pele de homem e desapareceu no bananal. Desapareceu na floresta e nunca mais ninguém ouviu falar dele.

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A mãe era ainda criança quando a vó ficou doente. Aos poucos ela foi ficando fraca, e a mãe não sabia o que era, mas sabia que a vó estava morrendo. Os médicos já tinham desistido dela, eles só sabiam curar o corpo. Não sabiam que a doença da vó era doença de espírito.

A mãe viu todo o feitiço agonizar os últimos dias da vó, que, com uma dor profunda, resistiu à morte, por alguns dias. O feitiço lançado na vó era aquele que ia quebrando seus ossos aos pouquinhos, quebrando o corpo todo, tirando toda força de querer viver nesse mundo.

As forças da vó se esvaíram e ela rapidamente ficou presa à cama, último reduto de sua vida. A essa altura ninguém podia tocar naquela mulher, jovem e enferma, os tios e a mãe já não podiam pedir damurida, nem pedir ajuda com a roça, nem com as lições da vida.A vó não faria mais panela de barro.

Não sabemos onde está a alma da vó, se ficou presa com os omá:kon, ou se descansa em paz. Sem xamãs corremos o risco de não sabermos para onde vão nossos ancestrais.

A mãe se despediu da vó com um beijo na cabeça, a cabeça era o único lugar que o feitiço não tinha chegado, os cabelos macuxi têm a força de Makunaima.

Quando a bisavó terminou de contar a história do feitiço, eu vi a saudade subir na sua garganta e marejar os seus olhos idosos. Ela olhou pro lado, talvez procurando a alma da vó, talvez só sentindo saudade da filha que tinha partido há muito tempo.

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A mãe me contou uma vez só, quando eu era criança, da despedida dela e da vó, de seu último beijo.

Mais tarde eu descobri que ali na região entre Roraima e Guiana, ali no que hoje é conhecido como fronteira entre Bonfim e Lethen, os feitiços são praticados com frequência, por isso é preciso sempre cantar e dançar pra mandar pra longe os espíritos ruins.

Já tarde da noite, as gentes-fumaça começaram a se retirar, assim como nós. Naquela noite eu vi a bisa sentir saudade da filha, lembrei da saudade longa que minha mãe sentia da sua, e eu senti saudade da minha, que estava nessa época nos afluentes do rio Madeira, bem longe de nós, como parece querer a vida.

O fogo aos poucos se despediu, deixando somente as cinzas no fogão de barro. A pouca luz que ele projetava se apagou, escurecendo de vez nossa maloca. Nós três nos recolhemos, e eu fui dormir pensando em todos os tipos de gentes não humanas, no que se transformavam durante a noite, quem eram e como se chamavam na língua de Makunaima.

Hoje, sinto saudades da bisa, que fez a passagem para o mundo dos ancestrais. De lá ela me espia, esperando o tempo certo de me encontrar em sonho e contar mais uma de suas histórias, insistindo pelo dia que também serei avó. Eu sempre acordo nessa parte do sonho. Toda colheita tem seu tempo.

Verdes verdes verdes

As pimentas dançam nos meus sonhos

Verdes vermelhas amarelas

Julie Dorrico nasceu nas terras da cachoeira pequena, mais conhecida como Guajará-Mirim. Mas foi às margens do Rio Madeira que cresceu ouvindo a mãe contar as memórias da família, dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas. Um dia atravessaram esse rio gigante e foram conhecer os parentes em Boa Vista, em Bonfim (RR) e em Lethen (Guiana). Essa travessia, feita ainda na infância, foi, por meio da sua bisavó, o seu encontro com Makunaima e com o povo macuxi. Escreveu esse livro, objeto usado por não indígenas para contar por muitos séculos nossas histórias, para ocupar esse lugar de autoria, tão caro aos sujeitos indígenas. Também é doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Saiba mais sobre a obra no [link].

interesses, de T. K. Pereira

capa_TKÉ o inferno de sempre. O senhor me desculpe a demora, mas nem o GPS está dando conta desse trânsito hoje. Tomara que não esteja com pressa. Tem água gelada e balinhas de menta, coisa boa, não essas porcarias de ambulante em sinaleira. Fique à vontade. O ar-condicionado deu defeito ontem, eu ainda não tive tempo de arrumar. Desculpe por isso também. Ainda bem que hoje está fresco, céu azul, dia bonito. A gente tem que ser grato, viu? Ô clima bom o nosso. Às vezes esquenta, mas fazer o quê? É um país tropical — nada a ver com essa conversa fiada de aquecimento global. Mas já vi climas piores, viu? No norte da África, por exemplo, o sujeito até sufoca de tão quente e seco que é. Trabalhei lá por um tempo, conheci aquilo tudo, até o Saara. Faz tempo, foi em setenta, eu era almoxarife em mineradora, veja você.

Conheci o povo, aqueles muçulmanos filhos da puta. São como os evangélicos daqui. Pensa naquele tipo bem pelinha, de culto em sede velha de boteco, fanático mesmo. O muçulmano é dez vezes pior. Povo maluco. Eles têm isso lá de ter várias mulheres, a gente até imagina, mas ver é outra coisa. Tinha esse colega que tinha três esposas. Não sei como, eu mal dei conta de uma, mandei logo pastar. Eles escolhem elas, daí cortam fora o clitóris, que mulher lá é pra procriar, não pode sentir nada. Mulher lá não goza! O senhor me desculpe aí o popular, mas é isso mesmo: elas não gozam, é proibido. Dizem que o homem também corta a cabecinha, que é pra facilitar, afinar. Muçulmano é tudo assim, barbado da pistola longa e fina.

Eu já vi cada coisa nesse mundo… O problema é a religião, essa coisa de igreja, fé, isso ferra com a cabeça de gente pobre, e o povo de lá é miserável, acaba ficando na mão dos osamas e saddams. O Brasil fica longe disso não, aqui só falta explosão porque morte tem até demais; a fé é negócio, é política, tudo misturado. A corja daqui não manda derrubar prédio com avião porque o que interessa é dinheiro. E o pobre segue na miséria, sofrendo com fé. É dureza essa vida de sempre correr atrás e ficar preso em trânsito, fila, burocracia.

Acabaram de avisar no celular: tem manifestação fechando a avenida lá na frente. Tinha me esquecido. Bem na véspera de feriadão. Típico. Datas esse povo sabe escolher, né? Centro é complicado demais, qualquer coisinha entulha tudo, chuva, obra, manifestante. Eu nem acho errado, sabe? Tem mais é que manifestar mesmo, reclamar, esse país está uma zona. Mas tem que saber fazer, não pode atrapalhar a vida de gente decente, trabalhadora. Também não pode sair por aí quebrando tudo porque quem paga é a gente mesmo. Tem que raciocinar, aprender a lutar. Todo mundo sabe que a corrupção é um problema, mas parece que ninguém aprende: políticos roubam, roubam, roubam, e ainda conseguem ser eleitos. As pessoas vendem o voto por uma cesta básica, aí fica difícil. Mas é problema de quê? Falta de educação, é claro, tem que educar o povo. Não é só melhorar escola. Eu mesmo, que só tenho segundo grau, graças a Deus, sou educado, conheço os problemas.

No Brasil a política é para enriquecer. Só ver os safados de sempre: é coronel do Maranhão, bilionário que não larga osso, presidente papa-poupança que cai e volta, deputado, governador e senador com nome sujo, e ainda no cargo. É denúncia, propina, golpe, contragolpe. Tem que acompanhar, ficar por dentro pra poder fazer sua parte. E tem que reconhecer quando a merda explode; vê o caso do impeachment da presidente — e digo presidente mesmo, que presidenta é o escambau; além de roubar ainda querem matar o português? Votei nela, não tenho vergonha de dizer. Até achei que ela não tinha feito nada errado, que todo mundo é inocente até provar, não é assim? Pois é, agora nem sei. Se todo mundo parece ter o rabo preso, se até o Lula traiu o Brasil, ela deve ter culpa também. Fico puto porque pra mim é tão simples: se recebo uma denúncia, o que faço? Mando investigar, porra. Tomo atitude, chego lá para os companheiros e aperto, digo que vou investigar todo mundo suspeito e quem estiver envolvido vai cair feio, que no meu partido não fica corrupto nem safado. Chamava a imprensa no mesmo dia, falava das denúncias recebidas, “nosso governo vai investigar e punir os responsáveis”. Mas político é tudo burro, prefere ficar quieto, fingir de morto. Hoje em dia nada mais fica escondido. Esse povo não aprende, por isso que o país está nessa merda, nesse vai-não-vai do caralho.

Você me desculpe o mau jeito, mas é de dar ódio. Você tenta se manter antenado, tenta votar com consciência, daí esses canalhas te traem. É tudo treta de partido, não tem um que presta, essa é que é a verdade. Tem que resolver a corrupção, povo tem que se unir, fazer petição, que hoje é bem fácil, pega lá um monte de assinatura rapidinho na Internet, faz logo uma lei nova. Fosse por mim era até mais simples, três coisas para resolver. Primeiro: político envolvido em corrupção tem que ser julgado como cidadão comum, sem essa de imunidade parlamentar, de foro privilegiado, nada disso. Segundo: condenado ou não, o político não pode se candidatar a mais nada, perde o direito de participar da política. Terceiro: todo o dinheiro roubado deve ser devolvido em até quarenta e oito horas. Isso aí, simples. Não tem por que complicar.

Entendo dos problemas, e nem é porque vejo TV ou leio muito — faço isso também porque a gente tem de estar ligado —, mas sinto nas ruas, sabe? A gente entende o país é pelas pessoas. A maioria delas não está nem aí, é tudo interesse próprio. Empresários, por exemplo: tratam o empregado como escravo. Eu sei por que já vivi muito isso, mas me libertei. Hoje, acima de mim só Deus e avião.

Outro dia eu estava carregando um empresário bem escroto: ele disse que, com crise ou sem crise, é preciso jogar duro, que na empresa dele funcionário tem que dar lucro, senão é rua; se não fosse por lei, ele não pagaria direito nenhum. Porque o empregado é importante, mas é o empresário que carrega o país nas costas, ele disse. Acredita? Até tentei argumentar, mas sabe como é esse tipo de gente. Ouvinte bom e atencioso assim como o senhor está em falta.

Se me permite, em quem o senhor votou no ano passado? Tudo bem se não quiser dizer. Na verdade, tenho evitado falar disso, a pergunta é difícil, as pessoas estão muito sensíveis. Mas o senhor me parece bem racional. Tremendo pega pra capar, nunca vi eleição como essa, até facada em candidato teve. Se bem que eu truco essa história aí. Já viu facada sem sangue? O homem lá é malandro, e tem que ser mesmo: os comunistas são desonestos. Tem que fazer o jogo deles. Votei neles a vida toda, hoje sei a verdade e me arrependo — nem vermelho eu uso mais, queimei tudo. Quando chegaram lá eles me traíram, traíram o Brasil. Tanta coisa errada pra consertar e ficavam de nhe-nhe-nhe de ideologia, plano-gay, do tal marxismo de cultura. E a coisa ia piorar: vi esse filósofo na internet alertando contra a invasão muçulmana. Você acha que essa história de migração na Europa é a troco de nada? É pra destruir o capitalismo. Eles são farinha do mesmo saco. Graças a Deus que o homem lá não morreu, já pensou? Mais quatro anos nas mãos dos calhordas? Não senhor, chega, esses daí não me enganam mais. Nem adiantou tentarem fraudar as urnas, a voz do povo falou mais alto. O Brasil precisa é de ordem, pulso, gente nova que não está aí pela mamata, que quer colocar o país no rumo. Eu me informo, sei o que dizem por aí do presidente, mas é como eu disse, tem que ouvir as ruas e não dar trela para fake new — é assim que fala, né? O povo está cansado de roubalheira, da violência, impunidade. Quero ver ligar pra gay, índio, feminista e o escambau com uma arma enfiada na cara, desempregado, passando fome, sem-teto. Eu sei bem como é, mas a violência é o pior. E já que o governo não dá jeito, que pelo menos me deixe garantir minha segurança. Pode apostar que vou me sentir bem mais seguro dirigindo por aí com uma arma a tiracolo.

Agora, se o homem trair a gente também, sem problema, é só manifestar, que nem da outra vez, pôr pressão. Mas duvido que precise. Ele não é burro; não vai chegar em Brasília e ficar mandando matar gay, índio, acho mesmo é que ele não tá nem aí para eles, só quer tirar o país da lama. E quem é que não tem preconceito, não é verdade? Não importa o que ele pensa ou deixa de pensar, desde que não prejudique ninguém. Tenho lá as minhas birras, mas cuido da minha vida. Que cada um cuide da sua. E olhe que não concordo em tudo com o homem: acho que empresário tem regalia demais, tem que ajudar é o trabalhador, mas se, para sair da crise, a gente tiver que fazer sacrifícios… Eu sou contra extremismos, mas, às vezes, pra melhorar tem que piorar antes.

Vai descer por aqui mesmo? Ainda estamos longe… Mas do jeito que o trânsito está, é capaz de o senhor chegar mais rápido a pé. É até melhor pra saúde. Se pudesse largava o carro por aqui, mas sabe como é, a gente tem que ganhar a vida. Desculpe qualquer coisa. Vou encerrar aqui a viagem do senhor. Tome aí: cinco estrelas. Se puder retribuir… Tenha um bom dia e vá com Deus, que é brasileiro, mas não dá jeitinho.

| conto do livro Vozes (Editora Caos & Letras, 2019), que será lançado quarta-feira que vem, dia 6 de novembro, em Belo Horizonte [link]. |

T. K. Pereira é autor de Vozes (Caos e Letras, 2019). Organizador do projeto 7 coisas que aprendi, acervo com mais de 100 depoimentos de escritores. Publicou contos em várias antologias. Siga o autor em seu site oficial: https://tkpereira.com.br

sábado, de Natalia Timerman

rachaduras_natália timermannome: MAYKON ROMUALDO SEVERIANO DA SILVA
mãe: CRISTIANE SEVERIANO DA SILVA
pai: IGNORADO
nascimento: 10/02/1988
matrícula: 1.220.872

Lógico que era ele, quem duvida?, a gente já reconhece de longe, pelo passo, pelo andar, bandido que é bandido solta cheiro, aí chegou perto, pronto, aquelas tatuagens, pronto, confirmou, são anos de prática, dona, tava na cara, tem gente que tem cara de bandido mesmo e pronto, revistei e num deu outra, tava ali, um toletão desse tamanho, 50 gramas na pesagem, disseram, agora é muita cara de pau o sujeito achar que a gente é trouxa, que a Justiça é trouxa, a gente é a porta de entrada da Justiça, falou tá dito, é assim mesmo que tem que ser, ou você acha que a juíza vai acreditar mais no malandro que em nós?, aqui é anos de estudo, um salário a zelar, nada de outro mundo, né?, mas tem o garantido no fim do mês, quase tudo tem família, tudo na honestidade, criminoso são eles, já vem com cara de canalha, e mentem, mentem bem, viu?, se a senhora visse, num faz escola mas vai tudo pra escola da vida, é lá que aprendem o crime, a malandragem, tem que pagar por isso, é dever nosso, limpar a sociedade, cadeia é pra isso, oi?, e se não foi ele?, tá duvidando da minha palavra, dona?, olha lá, hein, eu num faltei o respeito com a senhora não, tô te dizendo, tava ali no bolso, se ele ia ser burro a esse ponto?, ué, mas foi, vou fazer o quê, tô só cumprindo o meu papel, não teve violência nem nada, tudo na medida, na medida certa, se a gente chega bonzinho também os cabra num respeita, tem que impor a autoridade, mas sem exagero, tudo dentro dos treinamentos, gritar faz parte, botar o cara de joelho é somente a técnica, vou fazer o que se o cara tava resistindo?, eu fui bonzinho, ele podia ter pego desacato, mas não quis sujar pra ele não, da próxima a dona vai ver aonde é que as coisas podem chegar.

Eu nunca passei por isso, por essa humilhação, era sábado, eu deito a cabeça de noite e passa o filme todo na minha cabeça, não durmo, não acredito, eu converso com os caras aí e eles dizem que tráfico é no mínimo cinco anos, eu volto pra cá e choro, eu não fiz nada, não era meu, quem acredita? Era sábado, eu tava com dinheiro da funilaria, te disse que tô aprendendo funilaria e pintura, né? Faz três meses, tô no EJA também, tava, eu tava, era sábado, eu tava com cinquenta reais, minha mãe disse pro policial que era meu o dinheiro, e ele, não, isso aí é de venda que eu sei, eu nunca passei por isso, eu tenho como provar, mas na audiência de custódia a juíza nem quis me escutar direito, tava comigo, pronto, é meu, foi assim. Era sábado, deixei minha namorada no ponto, às vezes eu durmo na casa dela mas nesse dia eu tava em casa, fui só deixar ela no ponto, abracei ela, beijei, despedi. Fui andando, 50 reais no bolso, não, 40, eu dei 10 reais pra ela, passei na padaria e comprei um saco de pão doce e um danone, fui comendo no caminho, aí eu fui comprar maconha, eu num sou santo, né? Sou usuário, usuário de maconha, mas o que eu faço eu assumo, eu nunca trafiquei, tem um ponto perto de casa, um ponto de droga, tava lá, já me avisaram da movimentação, uma vizinha disse que tinha polícia na área, aquele clima estranho, a gente num sabe como, por quê, mas tem alguma coisa estranha, quem sai pra fora fica pouco. Era sábado, o traficante chegou, eu queria cinco reais, ele disse pra eu segurar o bagulho que ia ver se tava tudo limpo, colocou no meu saco de pão doce, eu não vi, essa hora não, não era muito, só vi depois quando o policial pegou e jogou em cima do carro, eu fui ouvindo os passos e achei que era o cara voltando, mas era o polícia, dei bom dia, eu nunca fiz coisa errada, quer dizer, sou usuário, eu não achei que ele ia vir pra cima de mim, ele achou logo o bagulho, eu disse que não era meu, era do menino ali. Era sábado, a vizinha já foi chamando minha mãe, a cara dela, eu nunca fiz isso, as lágrimas escorrendo na cara dela, acho que ela achou que eu tinha feito sim, aí o polícia chutou minha perna por trás e eu caí de joelho, muita humilhação, chutou minha costela, veio outro e bateu mais, eu quieto, eu quieto, olhei pro lado quando alguém passou, era sábado, e me bateram mais, pra eu olhar pra baixo, as mãos pra trás, aí ele disse pra gente passar na minha casa pra pegar meu RG, de viatura, de viatura, eu nunca passei por isso, minha mãe vendo eu lá dentro, ela veio vindo atrás, chegamos antes, minha irmãzinha tava em casa, de 10 anos, eu disse, Rai, pega meu RG na bolsa da mãe. Ela chama Raiane, eu chamo ela assim, Eu num sei onde tá, a Rai disse, já tava assustada, eu naquela situação, que vergonha, mas como é que eu vou ter vergonha de alguma coisa que eu não fiz, mas tenho, como se eu tivesse feito, o polícia aí gritou, gritou com a voz alta, Como é que você não sabe onde tá a bolsa da sua mãe? Aí eu perdi a cabeça, xinguei mesmo, Cê tá louco?, num tá vendo que ela é só uma criança?, e se ela fosse tua filha?, e o polícia transtornou, disse que eu tava fudido, que ia dar desacato também, nisso minha mãe chegou, tava chorando, esfolegante, decepcionada, a decepção estampada na cara dela, eu nunca fiz nada disso, eu nunca passei por isso, mas aí na cara dela eu vi que podia ter sido eu, duvidei de mim, mas nem deu tempo, quando vi o RG já tava com o polícia e nós tava dentro da viatura. Era sábado. Ele e o outro na frente. Eu atrás.

| conto do livro Rachaduras (Editora Quelônio, 2019), com lançamento dia 29, terça-feira, em São Paulo [link do evento]. |

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia pela USP e escritora. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017), acerca das vivências no hospital penitenciário onde trabalha desde 2012, em São Paulo.

trecho do romance ‘O beijo da Pombagira’, de Leonardo Valente

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Odeio o barulho dos atabaques. Produzem um som primitivo que em vez de tocarem a alma, como são capazes de fazer com maestria os violinos e os pianos, estimulam nossos instintos animalescos. Não é para menos, um tambor com nome árabe e que é usado como instrumento musical sagrado em danças religiosas africanas não pode realmente ser algo que preste.

Não reconheço o sagrado, nem tampouco presto a ele alguma deferência. Trata-se de uma bobagem oriunda da fé, palavra esta que alço ao lugar mais alto do pódio das misérias da Humanidade. A fé é tão tosca e sem sentido que o criador, se é que realmente ele ou ela existe, sequer um dia precisou tê-la. Por que alguém que tudo criou necessitaria ter fé na própria criação? A fé é o recurso das criaturas incompetentes. O Universo existe para ser constatado e não para ser alvo da crença infantil dos fracos e dos incapazes de compreendê-lo de fato. Para estes, o que resta para que o cérebro crie algum sentido sobre a própria vida é essa imaginação mitológica medíocre e que serve de alicerce para as religiões inebriantes e inúteis.

O que sinto por aquela desgraçada desencarnada não tem relação alguma com fé, muito menos com o sagrado. É apenas paixão, completamente incontrolável, doentia, e que começou para meu azar e ironia em meio ao ruído primitivo daqueles malditos atabaques. Nunca havia me apaixonado, sempre achei esse tipo de sentimento um descontrole dos mais fracos e dos emocionalmente dependentes. Nascemos e morremos sozinhos, e por que diante de tão inexorável caminho precisamos gastar energia vital para criarmos um laço de dependência tão forte em relação a outro ser qualquer que um dia desses nos deixará? Só agora, no entanto, percebi que a paixão não é uma escolha, é um distúrbio.

a vítima-algoz

Sempre achei que o momento da morte deveria ser como aquelas últimas cenas tão comuns das telenovelas que os vivos de hoje em dia tanto gostam. Todas as pessoas que passaram por sua vida: amigas, inimigas, protagonistas, coadjuvantes e figurantes, reunidas em festa, não mais vestidas do papel que tiveram com quem está prestes a partir, bebendo, se abraçando e confraternizando com sorrisos largos e sensação de dever cumprido, de trabalho concluído, de ter seguido à risca seu script na vida do outro que naquele momento se despede. O fim marcado em letras garrafais em primeiro plano na tela, com todos ao fundo, meio que já desfocados, cravaria a passagem e o encerramento de uma história sem dívidas, rancores ou amores, pois nenhum papel deve extrapolar sua trama, transgredir as fronteiras de seu universo narrativo. Sair da vida seria, então, como deixar um papel e uma história sem mágoas, paixões ou grandes saudades, pois estas seriam do campo das personagens e não dos atores e das atrizes que as interpretam.

Tive pena de mim por não ter morrido assim. De não ter sido apenas uma personagem de mim mesma durante a vida, e de não ter feito a viagem sem malas, somente com a roupa do corpo, sem o peso quase insuportável de tudo o que não é esquecido.

o último encontro

Voltei, meu amor (de “Poesias Baratas e rimas pobres”)

Voltei, meu amor
Quem diria, eu voltei
Você jamais contaria
Com meu cheiro novo de naftalina

Voltei para azedar a sua sopa
Para manchar a sua roupa e estragar a sua festa
Nem todo mundo que some, presta
Nem todo mundo que fica, resta

Sou prova viva de seu passado esperançoso
Verdadeiro céu perto do seu presente insosso
Não vim buscar o que não é mais meu
Nada que tenha hoje me interessa

Apareci apenas como um encosto matreiro
Para te mostrar que quando se esquece o passado, ele volta ainda mais safado
Pronto para te pegar e te sangrar na alma de repente
E te mostrar que você ainda não é gente

Voltei, meu amor

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou o romance Charlotte Tábua Rasa, em 2016, e a antologia Apoteose, finalista do Prêmio Sesc de Literatura, em 2018. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados da Primavera Literária Brasileira 2019, na França e na Bélgica, um dos mais importantes eventos de literatura brasileira na Europa.

O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo, 2019) será lançado na próxima quinta-feira, 5 de setembro, na Bienal do Rio, e foi finalista da Segunda Edição do Prêmio Rio de Literatura. Saiba mais no [link].