capítulo 1 do romance ‘O pior dia de todos’ (Tordesilhas, 2019), de Daniela Kopsch

capa_opiordiaDois dias depois do meu aniversário de 14 anos, um homem invadiu minha escola e matou 12 crianças. Foi tudo muito rápido. Eu sei que as histórias trágicas sempre começam assim: Foi tudo muito rápido. Mas não estou exagerando. Às 8 horas, começamos uma aula de Língua Portuguesa, e às 8h15, tudo estava terminado.

Não vi quando ele entrou na sala de aula. Eu estava de olhos fechados porque a luz da janela era insuportável, assim como o barulho da turma e o cheiro doce do desinfetante que passaram no chão antes de a gente entrar. Tentei manter minha cabeça imóvel. Ela doía e parecia a ponto de explodir a qualquer momento. Por isso, eu estava quieta, deitada sobre os braços e não vi como foi que tudo começou. Talvez ninguém tenha visto. Os primeiros minutos de aula são sempre tomados por uma agitação generalizada e eu também estaria ocupada conversando com Natália, mas não naquele dia. Naquele dia, nós não estávamos nos falando.

Natália e eu somos primas. Estudamos juntas desde o primeiro ano e vivemos na mesma casa desde que nascemos. Talvez eu pudesse dizer que somos irmãs. Ou quase isso. Com certeza absoluta, somos melhores amigas. Nós também dividimos o quarto, de maneira que acordamos juntas todos os dias, quando o despertador toca às 6 horas. Naquela quinta-feira, levantamos sem dizer uma palavra, vestimos o uniforme, tomamos o café da manhã, descemos a ladeira levemente curva da nossa rua, passamos em frente ao mercadinho, que estava abrindo as portas naquele momento e, depois de mais ou menos 1 quilômetro, chegamos à escola. Há quatro anos percorríamos aquele trajeto e eu poderia fazê-lo de olhos fechados. Sei onde desviar para não esbarrar no poste que fica bem no meio da calçada, sei que é necessário tomar cuidado para não levar uma bolada na cara quando passamos pelo terreno baldio, também chamado de terrenão (às vezes, os meninos miram nos pedestres de propósito, considere-se avisado), e também sei evitar a rachadura na calçada onde as pessoas sempre tropeçam. Passando tudo isso, você chega à escola em segurança. Ou pelo menos era o que pensávamos.

Esse é um caminho de apenas 15 minutos, mas, naquele dia, levamos quase o dobro. Caminhávamos em silêncio e muito devagar. Paramos várias vezes, e em todas esperei que Natália me falasse algo. Mais de uma vez, eu mesma abri a boca com essa intenção. Ficava parada na calçada, com uma frase se formando quase pronta para sair, mas logo a ideia escapulia, incompleta, e eu não dizia nada. Foi assim durante todo o percurso, até que chegamos atrasadas para a primeira aula.

Então, eu estava sentada ao lado da minha prima-talvez-irmã-com-certeza-melhor-amiga me perguntando quando é que aquele dia horrível ia terminar. Eu só precisava esperar, era o que eu pensava, e logo as coisas voltariam a ser como antes. Agora, sabemos que eu estava errada. Como todos, aliás, quando acham que sabem o que vai acontecer. Nada voltaria a ser como antes. Nunca. Minha turma estava na mira de um homem que queria atirar todo o seu passado sobre nós. Em breve, seríamos massacrados. Não gosto dessa palavra, mas foi como chamaram. O Massacre de Realengo.

Eu chamo de O Pior Dia de Todos.

[sobre a autora do livro]

Assim como Natália, personagem deste romance, Daniela Kopsch começou seu caminho na literatura em um concurso de redação. Aos 8 anos, ela escreveu uma história e ficou impressionada com a força de vê-la publicada. “Guarde esse recorde de jornal para seu currículo de escritora”, a professora disse. Memorizou a frase e a reproduziu neste seu livro de estreia.

Desde a infância, Daniela estudou em escola pública, em Balneário Piçarras, pequena cidade de Santa Catarina Percebeu que escrever tinha algo de mágico, algo que poderia fazer as coisas acontecerem. Agarrou esse recurso com força. Entrou na faculdade de Jornalismo e, depois de formada, chegou ao Rio de Janeiro para trabalhar como repórter.

Na cobertura do Massacre de Realengo enquanto entrevistava as meninas que sobreviveram à tragédia, Daniela se perguntava quem elas eram, o que faziam antes de aquele entrar na sala atirando em todo mundo — de certa forma, este romance começou a ser escrito naquele dia. O relato jornalístico se perde no tempo; na literatura a autora reconstruiu a matéria da memória. Ela quer que essas meninas sobrevivam, não apenas as de Realengo, mas todas que conheceu e procurou retratar aqui.

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um universo circular no fluxo das águas, resenha de Nuno Rau

capa_wandaLA liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

1.

Adentrar um bom livro de poemas pela primeira vez nunca é uma aventura simples — é como entrar num espaço desconhecido que guarda surpresas em suas paisagens. A poesia convoca a um posicionamento do leitor, daquele que precisa ativar, com sua energia, o circuito impresso sobre o qual se assenta o conjunto de poemas, para, assim, atualizá-los em relação a si mesmo. No meu caso, considero instigante a busca sobre o que moveria a voz gravada nestes versos, que determinações a atravessam e o que ela nos abre em sua potência. A liturgia do tempo é um livro com muitas entradas, como se inúmeros pequenos afluentes nos levassem todos ao rio principal que é a poética de Wanda Monteiro, no exato momento em que ela se encontra, este aqui e este agora (sempre em curso contínuo). Wanda é uma poeta que nasceu em meio às águas da Amazônia, nelas se banhou, em seu entorno cresceu e delas carrega a marcante influência que seus poemas anunciam, uma poeta que já nos deu livros maduros e prenhes de questões como Anverso e Aquatempo, igualmente marcados a um só tempo por essa regionalidade e pela universalidade que nos aproxima de seus caminhos internos.

Interrogando essa voz, ela nos conta que roga pela “escuta de alguma voz/ voz que venha de todas as vozes” que enumera, então: a dos elementos — vento, céu, terra, fogo, águas —, a dos seres — as “coisas miúdas” —, a do mistério da vida e da morte, do sagrado e da ancestralidade. Estamos postos diante de uma cosmologia que se esboça por movimentos sutis, e precisamos interrogar a essa “voz do céu que guarda todas as vozes” por quais devires humanos (e, sem dúvida, também supra-humanos) seremos levados. Buscamos pistas, uma vez que estamos em meio a uma densa mata na qual pegadas são recobertas pelas folhas que caem incessantes, e atravessadas por rastros de outros animais, quando não lavadas pela chuva ou pelas aluviões delas decorrentes.

Não bastassem, como vimos acima, as interrogações acerca dos fluxos que atravessam e constituem esta poética (a um só tempo centrais e marginais em relação ao debate contemporâneo da poesia), observamos que o livro é construído por dois espectros de fala que, dialeticamente, não se mesclam, antes se diferenciam no diálogo que articulam entre si, comigo e com você, atônito leitor — é necessário desenvolver mecanismos para a escuta destas falas, localizar suas pistas. Um sinal nos acena da epígrafe: Heidegger se interroga sobre semelhança e oposição entre poesia e pensamento; entenda-se aqui pensamento, na mira do filósofo, como o responsável pelo triunfo da técnica na sociedade moderna e, por conseguinte, pela conversão da vida em simples procedimento burocrático dentro do aparato científico-tecnológico do Estado, tendo como resultante o esquecimento do ser. A poesia seria, então, esse caminho para o retorno à experiência original do pensamento — e esta experiência original é exatamente o que se persegue em A liturgia do tempo, por meio da própria linguagem e do lugar para onde ela se volta como ferramenta de representação e reflexão: ela busca lembrar o esquecido, isso que perdemos na contemporaneidade, no mergulho da vida urbana e, assim, superar essa crise e procurar reconstruir a experiência original do pensamento. Eis o abismo de que nos fala o filósofo, eis o abismo (ou um deles) que a poesia busca sobrepassar.

Tomando ainda a questão levantada pela leitura da epígrafe, podemos pensar sobre a querela entre Heidegger e o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX, especialmente com Saussure e Wittgenstein. Simplificando os termos deste debate para o contexto de nossa apreciação de A liturgia, podemos tomar do nominalismo linguístico o pressuposto de que o ser humano está diante de um incontornável esquecimento do ser, do qual a arbitrariedade do seu uso social e científico é o mais recente sintoma. Isso ocorre porque estamos imersos numa nuvem de signos, todos autorreferentes e dotados de legalidade própria e independente, e não fundados numa forma lógica ou na própria substância do mundo.

No lugar de buscar a superação da crise acima detalhada, reconstruindo, na medida de seu possível, a experiência fundante do pensamento tal qual se deu na Grécia antiga, perdemos o pouco potencial reflexivo que ainda possuíamos porque nos dedicamos a compreender e praticar as regras e a arbitrariedade do signo. É devido a isto que, para Heidegger, o nominalismo linguístico da primeira metade do século XX é a forma mais recente, mais jovem, do estranho ou do estrangeiro se manifestar, ou seja, é a mais recente manifestação do esquecimento do Ser — caberia a nós, como alternativa, lembrar o esquecido: para Heidegger não são o cientista ou o administrador do Estado os cidadãos capazes de realizar a experiência da dignidade da palavra. Para tanto, só o poeta.

2.

Aqui tocamos o ponto de articulação entre a poética de Wanda Monteiro e a questão da linguagem, sua arbitrariedade. A poesia, como queria Heidegger, tenciona retomar o caminho até o Ser, ambiciona cumprir o arco entre o texto e a existência, de modo que nos reconectemos com esses princípios. Os poemas de Wanda nos aproximam desta ponte sobre o abismo pela via do que foi transmitido pelos povos ameríndios às populações ribeirinhas do Pará, determinando sua visão de mundo e, portanto, sua relação com a linguagem. Explico: desde que os gregos antigos disseram pela primeira vez a palavra physis (materializaram no próprio movimento do ar sendo soprado por entre os lábios que formam uma espécie de túnel estreito (pela forma da pronúncia), e articularam um vínculo entre o fenômeno descrito pela palavra e a materialidade de sua fala, que remete ao próprio movimento do ar (como se fosse um vento, fenômeno meteorológico) que, para aqueles gregos era uma substância que preenchia todo o universo, já que em sua forma de compreender o mundo não havia o vácuo; este “preencher” o universo explicava, entre outras coisas, a própria possibilidade e ocorrência dos movimentos dos seres e dos objetos. A forma com que os ameríndios articulam a fala e a relacionam com suas cosmologias não é, estruturalmente, tão diversa, e as palavras são sinais desta ligação originária que, para nós, está perdida pela forma arbitrária como aprendemos e reproduzimos a língua. Os poetas trabalham com uma espécie de arqueologia deste fenômeno primeiro, irremediavelmente perdido, e para quem, como Wanda Monteiro, tem uma relação com este mundo é impossível não espelhar em sua produção elementos atávicos.

Isto pode ser observado nas palavras e conceitos que comparecem nos poemas — por exemplo, o “solo”, que ora aparece como chão firme, ora como elemento fluído e mutável. É assim mesmo que as imagens da natureza afloram nos poemas de A liturgia do tempo, referindo o modo como a própria formação antiquíssima daquelas planícies se deu pelo carreamento de solo nas águas pretas dos rios. São muitas as águas por toda a Amazônia, aliás, um leque de formas líquidas que vai das águas claras às águas pretas, passando pelas águas míticas e pelas águas ancestrais que amnioticamente nos transmitem conteúdos. Os solos em meio a tantas águas reais e simbólicas não poderiam ser solos absolutamente estáveis, e se mostram móveis e dúcteis, passíveis de serem levados pelas aluviões que, desde o grande dilúvio, são mitos fundadores de nossa cultura — presentes também nas cosmologias ameríndias, como nos mostra Lévi-Strauss nas Mitológicas. Ressalta da leitura deste livro que a poeta trata reiteradamente da necessidade (ou da ausência) do chão, mas ao ler temos que ter em perspectiva que esse chão primevo é em tudo mobilidade e impermanência, além de arquivo de memórias densas.

E eis que Wanda nos apresenta que, em sua cosmologia, o corpo como a soma destes dois vetores, a impermanência absoluta das águas e a permanência provisória do chão, e desta dualidade extrai uma tensão que ilumina a leitura dos poemas. O que unificaria no corpo essa dualidade? Não poderia deixar de ser o tempo, intervalo em que se estendem a permanência e a impermanência, e nada nesta poética é gratuito, porque o solo levado pelas águas até formar novo chão nada mais é do que a matéria da memória que estes poemas nos apresentam, memória que nos vêm segundo o ritmo mesmo do fluir destas águas. É deste jogo na linguagem que nasce a liturgia, a necessidade do trabalho sagrado sobre a matéria do tempo, esse fluxo inapreensível, e seu conteúdo milionário de significados. Cabe aqui compreendermos melhor os sentidos do termo liturgia.

A palavra liturgia tem origem na língua grega e é composta de dois elementos: leitos (público) e érgein (fazer). Juntando estes dois pelo radical e acrescentando a eles o sufixo formador de substantivos, temos leit-o-erg-ia ou leitourgia. Leitos deriva da palavra léos, forma dialetal de láos, que significa povo. Érgein é um verbo que caiu em desuso na época clássica, mas que sobreviveu no substantivo érgon (trabalho). De leitourgia derivou litourgos (servidor público) e o verbo litourgein (exercer uma função pública). De láos (povo) se originaram as palavras laico, laical, leigo. Assim, liturgia, liturgo, lutúrgico, laico, leigo, laical pertencem a uma mesma família de palavras, pois todos procedem da raiz láos ou léos, povo. Mas liturgia passou a ter também, em nossa cultura, um significado religioso: liturgia é o serviço público oficial da Igreja e corresponde ao serviço oficial do templo. Abrange, pois, todo o conjunto de funções oficiais, os ritos, as cerimônias, orações e sacramentos.

Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que o nome-síntese deste novo livro de Wanda Monteiro articule estes dois sentidos da palavra liturgia e a ponha em relevo: o laico e o sagrado como faces de uma mesma coisa, e podemos supor, sem muita chance de equívoco, que a liturgia é, para a poeta, o próprio poema — nele se irmanam estes dois aspectos da existência. É por isto que a voz que nestes poemas fala não pretende “deixar de comover-se com o mundo”, o mundo que vem na aluvião de suas sonoridades e sentidos, e, deste modo, nos co-move.

Nuno Rau é poeta, professor de história da arte e arquiteto, tem poemas em diversas revistas e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Edita revista de literatura mallarmargens.com desde 2012, e em 2017 publicou Mecânica Aplicada (poemas), pela Editora Patuá, que foi finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura.

TRECHO DO LIVRO

A linguagem poética talvez seja o último refúgio da humanidade. A escritura poética restará — mesmo — como tesouro arqueológico da remota paisagem dos sentidos e percepções do humano.

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras
===
pisar no auto-exílio

no exato quando do entreato
o tempo nos toma de assalto
parte-nos ao meio
aloca-nos fronteiriços
imersos no espanto

olhos no passado
olhos no futuro
o presente carregado de impossibilidades

I

em leito outrora fecundo
línguas ondas quebravam sonantes
ao toque da lira
no-ágora-do-outrora
só há espectros
mudo-surdos
habitantes de um deserto
seco e demente
de palavras

II

no gargalo da garganta
ergue-se um mausoléu de asas
em santo sepulcro de palavras aladas

III

que presságios trás a mudez
do flagelo verbo
fugitivo de um poema em chamas
?

Wanda Monteiro é escritora e poeta, uma amazônida nascida às margens do Rio Amazonas, no coração da Amazônia, em Alenquer, Estado do Pará. Reside há mais de 25 anos no Rio de Janeiro, mas só se sente em casa quando pisa no leito de seu rio. Seu livro A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019) será lançado amanhã, 16 de fevereiro, a partir das 19 horas no Patuscada — Livraria, Bar e Café em São Paulo.

tânatos, do livro ‘A balada do cálamo’, de Atiq Rahimi

Capa - Balada do calamo.inddA Balada do Cálamo, de Atiq Rahimi. Tradução e notas de Leila de Aguiar Costa (Editora Estação Liberdade, 2018)

Imaginem, em seguida, o mesmo jovem diante da grandeza do mausoléu do Taj Mahal, um monumento como prova de amor que o imperador mongol Shah Jahan fez construir em memória de sua esposa Arjumand Banou Begum, falecida em 1631. Ela repousa aqui, no coração desta obra-prima arquitetônica que combina as artes islâmica, persa, otomana, indiana e italiana. De uma brancura etérea, este mausoléu é decorado com vinte e duas passagens do Alcorão em árabe, caligrafadas com pedras negras, magistralmente incrustadas no mármore. Nenhuma imagem de ser humano, nenhuma escultura está presente. Abstração absoluta, exceto os motivos florais. Aqui, a divindade é sem rosto, sem corpo, sem sexo, sem desejo… A única mimese que pode ser encontrada neste edifício é o reflexo do jardim celeste, como ele é descrito pelo grande místico árabe Ibn Arabi, em seu livro As iluminações da Meca, e sugerido por aquele verseto do Alcorão que embeleza o pórtico da entrada do mausoléu como que para acolher devotamente os visitantes:

Ó alma apaziguada! Volta para teu
Senhor satisfeito e agregado! Entra para
meus servidores! Entra em meu paraíso!

Que desafio para construir sobre terra a obra celeste de Deus, um paraíso para os mortos!

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Entre essas duas maravilhas do mundo, o jovem afegão vê diante de si abrirem-se duas vias distintas:

Uma convida a conhecer a divindade através da vida; a outra, através da morte.

Uma torna visível a Verdade; a outra a deixa invisível.

É então que ele compreende o sentido daquelas duas anedotas frequentemente ouvidas em seu país e na Índia:

Uma noite, todas as borboletas do mundo reuniram-se ao redor de uma vela para explicar umas às outras o segredo de sua atração pela chama da Verdade. Uma se levantou, voou, deu a volta em torno da vela e voltou para exclamar:

— Porque é luz!

Uma segunda fez o mesmo caminho e falou:

— Porque é quente!

Uma terceira:

— Porque dança, como nós!

Uma quarta:

— Porque é efêmero, como nós!

Uma quinta,

Uma sexta…

Enfim, cada uma teve sua própria interpretação. Com exceção da última, que se jogou na chama e morreu. Todas as outras então se disseram:

— Aí está a única que compreendeu por que, mas ela levou o segredo consigo.

Em seguida, esta outra, uma velha lenda indiana:

Houve um tempo em que todos os seres humanos eram deuses, todos seguravam a Verdade divina na mão. E dela abusavam. Brahma, o mestre dos deuses, não apreciou nem um pouco a arrogância deles. Decidiu então retirar-lhes a Verdade e escondê-la em um lugar que lhes seria inacessível. Mas onde?, interrogou Ele os deuses menores.

Um propôs:

— Enterremo-la!

Brahma refletiu, em seguida disse:

— Eles cavarão a terra e a encontrarão.

— Escondemo-la no fundo do oceano!

— Eles explorarão um dia as profundezas dos mares e acabarão por encontrá-la.

Desesperados, os deuses menores concluíram que não haveria parte alguma nesta terra para escondê-la. Brahma então disse:

— É preciso escondê-la o mais profundamente neles próprios, pois é o único lugar onde os homens nunca pensarão em procurá-la!

Meu jovem afegão preferiu buscar a Verdade no fundo de si mesmo e em sua vida terrestre, mais do que conhecê-la nos céus, após sua morte — uma busca incerta, quase inútil!

Entretanto, há algo de sublime que o fascina neste templo de Tânatos. Alguma coisa que nada tem a ver com a carga teológica do lugar. Ela forçosamente reside na coerência estética entre sua concepção, sua arquitetura, seu meio, sua história, sua matéria, suas cores, suas caligrafias… E tudo isso graças a uma perfeita simbiose de diferentes artes, oriundas de diferentes civilizações.

Do mesmo modo que os jogos e as jogadas geopolíticos as separam, a arte as reúne.
Ele deixa, pois, o mausoléu prometendo-se não mais pertencer a política alguma, a religião alguma. Ele gostaria de gritar aqueles versos que seu pai atribuía a Rumi:

Setenta e duas nações ouvirão de
nós seu segredo
Nós tocamos a ária de duzentas religiões
em uma única nota de nay

Foi essa a minha promessa de juventude. Mesmo assim, isso não me impediu de conhecer as religiões. Pelo contrário, ela abriu-me outra via para melhor apreendê-las. Com distância. E sem dogma.

Não buscava mais ali uma verdade, mas um segredo, aquele que engendrou toda divindade, toda crença, e que reside, desde a noite dos tempos, em nosso âmago.

Ele está aí,
no coração de nossos temores,
no limiar de nossas dúvidas,
no abismo de nossas falhas…
Ele aí está para me fazer dizer:
Sou budista, porque creio em minha fraqueza.
Sou cristão, porque confesso minha fraqueza.
Sou judeu, porque rio de minha fraqueza.
Sou muçulmano, porque combato minha fraqueza.
E sou ateu, se Deus é todo-poderoso.

| saiba mais sobre a obra no site da editora: [link] | outras obras do autor em português: [link] |

Atiq Rahimi (1962, Cabul, Afeganistão) iniciou sua carreira na França, após fugir de seu país durante a guerra civil na década de 1980. Formado em letras e cinema, participou da FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty em 2009. É autor de Syngué Sabour, Maldito seja Dostoiévski, Terra e cinzas, As mil casas do sonho e do terror, entre outros.

capítulo do romance ‘Desta Terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela’, de Ignácio de Loyola Brandão

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Capítulo disponível em PDF para leitura em [link]

Jovens negros, mulheres e periferia tem 73% a mais de chances de serem assassinados e estuprados.

CÂMERAS COPIAM OS VÍDEOS RESTAURADOS NO ESTÚDIO DE ANDREATO, HACKER QUE RESOLVE TUDO. COMO SE SABE, HOJE CADA UM TEM SEU HACKER PRIVADO, ASSIM COMO ENTRE OS ANOS 1950 E 1970 HAVIA O CONTRABANDISTA DE UÍSQUE ESCOCÊS; O TRAFICANTE QUE MARCAVA ENTREGAS EM PONTOS DIFERENTES E LONGÍNQUOS; O FORNECEDOR DE LSD; O CIRURGIÃO PLÁSTICO QUE RESTAURAVA HIMENS; A CAFETINA QUE AGENCIAVA MENINAS DE COLÉGIOS OU MULHERES DE PROGRAMA, SÓSIAS DE ATRIZES FAMOSAS, PARA EXECUTIVOS, EMPRESÁRIOS, HOJE CEOS, BANQUEIROS. EM DÉCADAS POSTERIORES VIERAM O DOLEIRO PARTICULAR; O TRAFICANTE DE DROGAS DELIVERY; O NEGOCIADOR DE DELAÇÕES — O QUE FIZ DE ERRADO E O QUE FUI OBRIGADO A FAZER? —, O ENTREGADOR DE PROPINAS EM CAIXAS DE SAPATOS, MALAS E PRINCIPALMENTE EM MOCHILAS; O LOBISTA SECRETO; O ASSASSINO DE ALUGUEL.

ENIGMA JAMAIS SOLUCIONADO DA HUMANIDADE

— Felipe, te cuida, não facilita. Aqueles vídeos estão bombando.

— Obras-primas.

— Para quem? Para os de cá, os Nós? E os Eles? Esqueceu? Acha que gostaram de terem sido expostos? Querem te comer o rabo.

— Só mostrei o que acontece.

— Quem quer saber do que acontece? Ou saia metendo o pau em tudo ou envie postagens estupidas com cachorrinhos, pratos caros, animais de estimação, tendências de moda, frescuras, bocetas depiladas. Acorda, amigo. A qualquer momento, batem na sua porta.

— A Federal?

— A Federal, o CSI, o FBI, a Polinter, a Interpol, Scotland Yard, a KGB, a Stasi, Marlowe, Poirot, o inspetor Maigret…

— KGB? Stasi? Isso é passado, coisas que acabaram. Só historiadores lembram.

— Tudo que a gente pensa que acabou renasce, fica congelado na história. Olha a censura, o medo, as patrulhas, a inquisição!

— Inquisição?

— Espere só para ver a forca dessas igrejas novas, o dinheiro que movimentam. Preste atenção nos tais Movimentos de Rua Pelo Brasil Democrático Avançando. Olha em volta! Ataques a exposições, filmes, teatro, homofobia, exorcismos pela televisão, o medo de Satanás…

— Os vídeos! Você consegue?

— Tudo se recupera no mundo tecnológico. Até um peido que você deu na infância vem com cheiro.

— Será que recupero o amor de Clara?

— Tira da cabeça! Marina, aquela amiga da qual ela não se desgruda, me disse que Clara nem pode ouvir teu nome.

— Os vídeos.

— Vai dar trabalho. Estão em algum arquivo nas nuvens. Sabe como sumiram? Veja só, as coisas somem quando interessam a Eles. Fui hackeado. Não é irônico? Um hacker hackeado!

— Vai conseguir ou não?

— Só quero lembrar, Felipe, que é foda. São centenas de papéis, o lobby dos cartórios é eterno, um país que não se move, medieval. Pedem até carimbos, imagine. Carimbos no final deste século. Vou apelar para a Lei de Translucidez, antiga da Transparência. Funcionários públicos demoram, há níveis variados de propinas. Vai ouvindo o velho Luiz Gonzaga, “O último pau de arara”: “A vida aqui só é ruim/ Quando não chove no chão/ Mas se chover dá de tudo/ Fartura tem de montão/ Tomara que chova logo/ Tomara, meu deus, tomara.”

Quatro horas depois:

— Consegui.

— Demorou pra caralho!

— A gravação é ruim, estragou nas transcrições. A tecnologia de ponta em nosso país é a pior do mundo, cara. Lenta, sujeita a qualquer tipo de hacker, como eu. A gravação é defeituosa, faltam palavras, cenas. O texto, pelo que se sabe, foi traduzido para não sei quantas línguas, do inglês ao quíchua, sindi, decani, panjabi, cearês, akan, curdo, e para as gírias de todas as favelas nacionais — mais de 20 mil, contando apenas as de grande porte, com mais de 100 mil habitantes… Olha aí! Já mandei.

Felipe abriu o arquivo. Gravações, semiarruinadas pelo muito que foram vistas/ouvidas por advogados, procuradores, desembargadores, advogados de acusação e defesa, ministros e juízes. Informações superficiais, às vezes confusas, do mesmo teor que as hoje chamadas Decanas Gravações Obtidas no Porão do Palácio do Governo em passado remotíssimo, que todos preferem não citar.

O narrador:

O Brasil foi catalogado entre os grandes enigmas de todos os tempos. Um desafio. Mistérios como a mente inacessível dos juízes; a existência da Atlântida; a realidade do sorriso da Mona Lisa; a vida depois da morte; as vozes gravadas no além; as duas notas dissonantes jamais percebidas na Sinfonia número 4 — Opus 60, de Beethoven; o cemitério das estrelas cadentes; por que neste país as pessoas importantes, gradas, com altos cargos, condenadas pela lei, nunca são levadas à prisão?; por que malas contendo milhares de reais em cédulas não são provas para a Justiça?; a bunda de um neném que despeja quando menos se espera; a queda dos cabelos dos anjos; as nevascas no deserto do Saara; o nascimento de crianças do quarto e do sétimo sexo e a verdade em torno da frase: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana”.

Há ainda a conclusão, que tem provocado batalhas entre intelectuais de níveis variados, foco de intensas discussões nos últimos 34 anos, e tida por muitos como um axioma: a comprovação de que 91% dos Astutos brasileiros — lembrem-se, antigamente dizia-se políticos — nascem despidos de valores morais, éticos e ausência de pâncreas e vasos linfáticos. Mais do que isso, não têm alma e consciência.

Consultorias históricas de renome internacional, aliadas a brasileiros de bom senso, contrataram auditores e analistas, mas eles embarcaram de volta, exaustos e perplexos, confessando que não há conclusão. Desolados, afirmaram que, mesmo usando modernos métodos e toda a tecnologia de ponta, jamais definiram que tipo de povo o brasileiro é, como conseguiu formar uma nação, o que esse povo quer, como age e vive. São desconhecidos seus projetos e sonhos e por que mantém tanto humor, picardia, talento repentista, ironia e aceita tudo. Principalmente por que e do que vive.

Uma coisa é segura, todos vivem à espera do que vai acontecer, sabendo que nunca acontecerá. Vivem do que gostariam que acontecesse. Há cinco séculos espera-se e adia-se a transformação de estruturas populares.

Comprovou-se que, a partir de certa época, 87,5% de nossos Astutos passaram a nascer sem o DiCPF, ou aquilo que a ciência conhece como o Córtex Pré-Frontal Dorsolateral, cuja função é inibir os impulsos perigosos que nascem nas partes mais retrógradas, preconceituosas, anticivilizatórias e criminosas da mente, eliminando consciência, ética, moral, dever, fidelidade, probidade, responsabilidade, credibilidade e sociabilidade. A extinção do DiCPF foi obtida após pesquisas ordenadas pelo último Ministério da Saúde que existiu no país. Ausente o DiCPF, deu-se o surgimento da primeira classe de Astutos — sempre com maiúscula —, que efetuou a Reforma Profunda da antiga política.

Essa reforma começou com as dissidências dentro das legendas. Descontentes se retiravam, formavam um partido próprio. Ou três, quatro, sessenta. Assim que formadas, surgiam novas divergências, sob o lema: fazer política é enriquecer e ganhar cargos? Dessa maneira, os partidos foram se multiplicando como bactérias nocivas.

Foram criadas legendas e mais legendas, em tal velocidade que, em pouquíssimo tempo, havia mais de mil partidos. Então, cada Astuto sozinho criou sua plataforma. As plataformas e propostas diferiam das antigas em dois pontos, um ponto e vírgula, quatro interrogações, dois advérbios não fóricos, seis orações substantivas em função apositiva e duas letras maiúsculas quando tudo indicava que deveriam ser minúsculas. A primeira parte determinava: os direitos do povo serão sagrados. Em seguida, vinham 666 páginas de discussão sobre o que é o povo.

Como cada facção podia indicar um candidato à Presidência da República, a possibilidade gerou a cobiça desenfreada, de maneira que, quando se viu, havia no Brasil 1.080 partidos, com seus líderes ambicionando o poder máximo.

Repassando, o Brasil teve 1.080 candidatos a presidente da República. No entanto, pode haver mais. De um momento para outro surge novo partido, novo candidato, os números flutuam. Esses dados vieram do trabalho de um grupo que se debruçou sobre a estrutura da Reforma Absoluta e Definitiva, posta em movimento um mês depois do impeachment sucessivo de 113 presidentes.

Foram anos de pesquisas, nas quais trabalharam milhares de professores em disponibilidade após a extinção do Ensino. Quando o governo desistiu de manter o Sistema Educacional, alegando que, para haver liberdade e poder formar a cidadania que leva à verdadeira democracia, cada um deve estudar como quiser, onde quiser, o que quiser, como puder, se puder, foi erguido o Monumento Comemorativo ao Fim do Ensino, no mesmo lugar onde foi construído em 1945 um moderno Ministério da Educação, hoje um destroço entre as ruínas do Rio de Janeiro.

Aliás, no Rio de Janeiro, que agora faz parte da Grande Nova Maricá, tornado país independente, após um movimento de libertação, notam-se fatos auspiciosos. Recuperadas as praias de Copacabana, Leme, Arpoador, Ipanema e Leblon, que por anos tinham se transformado em lixões, dos quais viviam milhares de pessoas, a música voltou às noites, barzinhos são reabertos. Sabe-se que a cidade, muito bonita, belíssima, mais do que isso, maravilhosa, terra de encantos mil, foi capital do país antes de Brasília, antes de levarem o Distrito Federal para Cruzilia, em seguida Uiramutã, Ponta do Seixas, Santa Vitória do Palmar até chegar à atual, Mâncio Lima.

As constantes mudanças, com consequentes gastos astronômicos, se dão por motivo de segurança, após o fracasso da tentativa de transferir a capital do país para Miami, sonho de alguns gestores. Graças ao bom senso de Portugal, a proposta de fazer de Lisboa a capital de um novo Reino Unido foi igualmente repelida por lusos bem pensantes, com medo de o vírus Corruptela Pestifera invadir o país e se propagar pela Europa, que ainda discute o Brexit 19.

O que se sabe é que depois de sucessivos impeachments na história do país, a classe Astuta e parte da população tomaram gosto e passaram a apoiar um impeachment atrás do outro. Para os parlamentares foi um alto negócio. A cada pedido de impeachment, o presidente acuado passava a comprar os votos, disfarçados em emendas necessárias ao desenvolvimento da nação. O impeachment tornou-se o negócio mais rendoso, com ações nas bolsas de Nova York, Frankfurt, Tóquio, Pequim, Dubai, Boliqueime.

A coisa chegou a tal ponto que se decidiu construir a Arena do Impedimento. Foi erguido luxuoso edifício para votações, com apartamentos para repouso, restaurantes, motéis, spas, camarins para maquiadores e cabelereiros para tingir cabelos, e muitos bares e botecos, sinucas, lotéricas, cassinos, uma vez que a Arena é terra de foro privilegiado, território fora do perímetro alcançado pelas leis.

Nesse prédio, certa época, havia labirintos estreitos, pelos quais passava apenas uma pessoa. Cada Astuto seguia, ultrapassava uma catraca, entrava em uma saleta. Ali encontrava um pacote de dinheiro envolto em papel pardo, cada vez acondicionado de forma diferente. Eram os pagamentos, subornos, propinas — como se dizia — por emendas, votos, leis e projetos. Essas salas secretas tiveram inspiração naquilo que na era terciária remota ficou conhecido como o Porão do Tuiuiú, ou tuiuguaçu, ou do tuiupara, ou do tuim-de-papo-vermelho. Desconhecem-se os motivos da denominação. Os votos contra os impeachments de presidentes custavam verdadeiras fortunas aos cofres públicos, equivalentes a 12 mil malas com 6 milhões de cédulas novas da Casa da Moeda. Estas também podiam surgir misteriosamente na casa dos Astutos na calada da noite, ou em dias de nevoeiro, tempestades de areia, sol inclemente em terras ardentes, quando ninguém sai às ruas, apenas cachorros e turistas ingleses.

Com o tempo, a maior parte dos Astutos perdeu a vergonha (também só usavam carros oficiais, triblindados, vidros negros), sumiram receios e temores, o medo da opinião pública e das prisões e os pagamentos passaram a ser feitos diretamente nos caixas drive-thru das lanchonetes das multinacionais, mediante senhas especiais, cobiçadas pelos hackers.

Para conseguir governar, cada presidente eleito recebe de imediato milhares de reivindicações de verbas, doações, obséquios, contribuições, vintenas, óbolos, espórtulas, gratificações, dotações, donativos, esmolas, recursos, dádivas, ofertas, tributos, o que seja, solicitadas por cada político, juiz, delegado, de cada estado, município, vilarejo, vila, comunidade, taba, povoado, capital, estância, arraial, aldeia, acampamento, quilombo, propriedade, lugarejo, condomínio, assentamento, subúrbio, antro, covil, viveiro, barracas de sem-terra, de sem-teto, de sem-emprego, de sem-vergonha, de sem-caráter.

Cada localidade/modalidade/gênero humano exigiu um representante na Câmara Alta. Assim, ganharam partidos os brancos, pardos, mulatos, amarelos, albinos, pretos, afrodescendentes, anões, verticalmente prejudicados, índios, padres e pastores, héteros e gays, lésbicas, virgens, semivirgens, banguelas, portadores de fraldas geriátricas, transexuais, assexuados, loiras, juízes, portadores de lábios leporinos, surdos, semigrávidas, mudos, surdos-mudos, diplomatas encanecidos, deficientes físicos e mentais, analfabetos, portadores de micro e macrocefalia, dores lombares, incontinência verbal, fecal, urinária, portadores de gonorreia e também os da doença de Huntington, o que se possa imaginar. Sem esquecer o número cada vez maior de indesejáveis, e agregados e associais, categorias nas quais você pode entrar de um momento para outro.

Por anos foram memoráveis as manifestações de rua compostas pela facção do Nós, em oposição aos Eles, havendo divisões como os Estes, os Aqueles, os De Cá, os De Lá, com banners, trios elétricos, kombis, memes, redes sociais, grafites, jingles, faixas de algodãozinho (os mais primitivos e pobres, os agregados), fuscas, bikes, vans, Porsches, Ferraris, Aston Martins, faixas, bottons, distribuição de sanduíches de mortadela, de salaminho, quentinhas com lagostas e escargots ou couve, linguiça e torresmo.

Essa a razão pela qual há 1.080 partidos e, portanto, também há 1.080 Astutos na Câmara Alta. A curiosidade é que existe presidente, mas não há vice. É o único país do mundo em que não há vice-presidente. Por causa da chamada Maldição do Vice, mistério que remonta ao final dos anos 2010. Há um medo terrível do vice, ninguém quer ser. Autores que se dedicaram ao estudo dessa maldição morreram misteriosamente de AVC, HPV, infartos, variados tipos de câncer, Corruptela Pestifera, lepra, hemorroidas. Assim como os antigos arqueólogos que no Egito abriram as tumbas dos faraós e acabaram morrendo, punidos pelo sacrilégio feito aos deuses.

Acrescentem-se os suplentes, os assessores dos Astutos e os agregados dos suplentes. Daí as centenas de megaedifícios construídos para abrigar a multidão de apaniguados, como assessores de imprensa, de imagem, personal stylists, personal trainers, médicos, dentistas, proctologistas, dermatologistas, homeopatas, assistentes financeiros, jurídicos, penais, leitores. Custaram uma fortuna, as estatais financiaram por meio do sistema de propinas Caixas 18, 23 e 27, legalizadas pelo Areópago.

O que se sabe é que a capital é um reduto protegido, vigiado. Os Astutos ali nada sabem do país. Não ouvem noticiários, não leem mensagens, o país não interessa a eles, a capital é uma ilha. Saliente-se que, a certa altura, o povo (seja o que quer que signifique), desiludido, passou a fazer pouco de tudo e de todos. Veio o afastamento das eleições. Abstenção total ou votos nulos ou em branco. No dia do voto, as salas ficavam às moscas, os mesários dormiam, o povo ia para as praias, spas, cassinos, bingos, concursos de videogame, casas de campo, Bariloche, Aspen, Mônaco, Creede.

Chegou-se a tal ponto que um dia houve 100% de abstenções e em lugar de ficarem indignados, buscando saber a razão, os membros do Areópago Supremo, que reúne os juízes da mais alta categoria, decidiram que a melhor solução seria o voto entre eles, nomeando o presidente. Afinal representavam o povo. Novos conchavos, confabulações, negociações. Venceu a proposta de se cancelarem as eleições e se escolher o presidente por turnos de 47 dias. Mal empossado, o presidente é processado por um tribunal. Por necessidade de transplante de cérebros já foram afastados 219 presidentes. A altura mínima de um presidente é, por lei, onze centímetros.

Sabe-se que desde o 113º impeachment, quando alguns juízes foram mortos pela multidão furiosa, construiu-se um novo Areópago, de granito negro, que poucos sabem onde se localiza. Sabe-se que há dezessete anos não se vê um único juiz dessa suprema casa. Não há fotos deles, para que possam viver uma vida normal.

Por outro lado, tornou-se impossível promover campanhas eleitorais, uma vez que não há mais uma só empresa, construtora, empreiteira, multinacional, termoelétrica, investidora financeira, laticínio, granja de pintos de um dia, engarrafadora de caldo de cana, fabricante de palitos de dente de plástico, de carta de baralho, iogurtes, orgânicos, biscoitos de polvilho, sacolés, bancos, lotéricas, pipoqueiros, apresentadores de cruzamentos, ensacadores de carvão para churrasco, food trucks, empórios, quitandas, padarias, feiras livres, falsificadores de aguas minerais, assopradores de camisinhas para transformar em balõezinhos, lavadores de carvão, enxugadores de gelo, limpadores de cu, produtores de saquinhos plásticos para apanhar bosta de cachorro nas calçadas, fabricantes de cachimbinhos de crack — faturam uma enormidade —, impressoras de boletos de jogos lotéricos (são mais de 40 mil jogos federais, estaduais, municipais, sem contar os ilegais), adulteradores de imagens sacras roubadas de museus e igrejas de Minas Gerais e da Bahia para serem entregues a receptadores, que se arrisque a contribuir, uma vez que os Sacro Tribunais Eleitorais vivem atentos, investigando as maneiras de chegar ao dinheiro que sustenta as bases políticas e as gastanças. O lema “siga o dinheiro” foi substituído por “siga o delinquente”.

Sabe-se que o dinheiro vem de formas nebulosas, misteriosas, labirínticas. Entre a extinta Brasília e Uberaba, em Minas Gerais, foram construídas centenas de apartamentinhos térreos, cada um pertencente a um político, nos quais, de tempos em tempos, aparecem misteriosamente malas com cédulas novas que não se sabe de onde vem, nem para onde irão, uma vez que se determinou que malas não são provas suficientes para processos.

O país parou. Mal há tempo para um presidente ser empossado. A cerimônia de posse demora dois dias, as festas são exuberantes, decreta-se feriado nacional, de modo que na realidade cada presidente governa por apenas 37 dias. Logo vem uma tarefa insana, a de desnomear os indicados pelo antecessor, analisar os pedidos de cargos públicos, receber as propinas dos indicados e dos indicadores, e renomear, fazer reuniões para organizar o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, centésimo escalão, e seu tempo está terminado.

Muitos entregam o governo com semanas de atraso, de modo que hoje ainda faltam 360 presidentes — o que significa um período de quarenta anos — até completar o círculo de 1.080 e se retornar à base. Quanto aos ministérios, vão se arranjando, fazendo aqui, ali, todo mundo se esqueceu deles, importante é sentar-se na cadeira presidencial. Cada presidente, assim que assume, comunica ao povo que o governo anterior dilapidou o erário, o mesmo tendo feito o anterior do anterior, e o anterior do anterior do anterior, até chegarem ao descobrimento e acusarem Portugal, cujo governo se indignou.

Para obter o silêncio e calar as manifestações de rua, criaram leis, distribuindo Bônus Filhos Legítimos, Bônus Indigentes, Bônus Loucos de Pedra, Bônus dos Brochas, Bônus Avós Mais Queridas, Bolsas Velhos Gagas, Bônus Compadres, Bônus Filhos Bastardos, Bônus Amantes, Bônus para Bundudas, Bônus Beijinho no Ombro, Bônus Chupa-Pau, Bônus Bocetinhas de Ouro, Bolsa Ex-Sogras, Bônus Filhodaputas, Bônus Cornos, Bônus Adúlteros, Bônus para Quem é Servo do Senhor, para Quem é da Milésima Igreja do Milésimo Deus, Deus do Mundo, Deus do Universo, Berço Esplêndido, Bônus para Quem Delata o Vizinho, o Amigo, o Parente, o Filho, o Pai, a Cunhada, o Padeiro, o Guarda Noturno, Quem Estaciona em Local Proibido, Quem Está com o Pneu Descalibrado, Quem Não Fez Cambagem dos Pneus, Quem Anda a Pé na Ciclovia, Quem Mija em Lugares Públicos, Quem Peida no Elevador, Quem Grita FORA ou Usa o Artifício de Dizer em Inglês, OUT, em público. As palavras em língua estrangeira são malvistas.

Foi criada A lista fundamental de palavras condenadas — que se renovam a cada segundo, como os antigos painéis luminosos de impostos que revelavam quanto os governos estavam ganhando com taxas. Atrevemo-nos a publicar brevíssima lista: boceta, vagina, perereca, mata-homem, periquita, xoxota, bater cana, boca em pé, caralho, caceta, rola, macaxeira de homem, maçarico, majestoso, cu, binga, pica, pirocão, foder, meter, chupar e milhares de outras.

>Essa amostra pode não ser encontrada em nova edição deste relato.<

Tais listas são divulgadas em escala nacional pelas redes, telejornais e Polícia Federal. Proibidas definitivamente de serem ditas, usadas, citadas, mencionadas, sugeridas, pensadas, devendo ser extirpadas definitivamente dos dicionários, romances, contos, crônicas, notas, artigos, teses, reportagens, o que seja.

Além dos salários, cada político recebe os BNDES, ou seja, Benefícios Nacionais De Estímulos Sociais. São: mensalidade para alimentação; para o banho (sabonetes, óleos para a pele, cremes adstringentes, xampus); para transar, foder, meter; para combater artroses. Cada Astuto recebe uma caixa de cem camisinhas por semana. Há inclusive um negócio à parte dentro da Câmara Alta — porque no país o que mais há são os negócios à parte ou informais —, com Astutos que não usam mais camisinhas — porque brocharam com tanta cocaína e bajulação — e os que usam demais, para os quais a camisinha tornou-se moeda valiosa. Há a mensalidade do vinho, da vodca, da poire, da grapa, do Carpano, do gim, do leite para os filhinhos, da compra de castanhas-de-caju, do algodão-doce para netos e bisnetos, do salário de cozinheira, copeira, arrumadeira, faxineira, jardineiro, pintor de paredes, do ticket transporte, dos gastos com táxi, avião, do pagamento de férias, décimo terceiro, décimo quarto, quinto, sexto, vigésimo. Auxílio pé de moleque, ovo de galinha caipira, salsicha empanada, ovo quente colorido, medicamentos de qualquer espécie, verba para polir a prata, repor louça quebrada, comprar milho para os pombos de Veneza (se acaso o político viajar para aquela cidade), comprar lixas para polir unhas, papel higiênico suave para não assar os delicados traseiros, chicletes de hortelã para refrescar o hálito.

Sabe-se que os Astutos têm mau hálito tenebroso, o que contribui para a atmosfera poluída dos plenários. O fedor das bocas provém também principalmente dos discursos que fazem e das declarações de votos nos grandes momentos da história. O povo tomou gosto, e as transmissões em rede, quando das votações dos parlamentares, atingem normalmente 100% de audiência.

Os votos aos microfones da Câmara em geral não passam de demonstrações de ignorância, burrice, estupidez, demagogia, cafajestada, burrice, religiosidade, idiotices, cretinices, racismos, preconceitos, apedeutismos, miopias, incompetências, latinórios, disparates, despautérios, incoerências, asneiras, cacaborradas. Principalmente cacaborradas.

Há, todavia, uma esperança em uma questão fundamental, a estatura… Geneticistas vêm estudando as razões da diminuição da altura dos Astutos brasileiros. Estão abaixo do padrão dos pigmeus da Oceania ou da África Equatorial, que oscilam entre um metro e trinta e um metro e cinquenta. Os Astutos de nosso país estão na média de noventa centímetros e um metro e dez. Quando iniciam a carreira, tem altura normal, de um metro e setenta e cinco a um metro e oitenta e cinco — nosso povo vem crescendo. Assim que um sujeito entra na política, adere a uma legenda e recebe uma propina, perde dez centímetros. A cada nova propina, menos 2,1 centímetros. Há centenas de casos de Astutos que simplesmente desapareceram, tantas reduções sofreram. Mas todos preferem ser pequenos, tampinhas, do que ser honestos. Espera-se que a ganância tenha um efeito benéfico, provocando a extinção dos políticos. Digo, dos Astutos.

Há décadas não se vê um Astuto em público. Em casos extremos, utilizam sósias de altura normal. Cada Astuto tem direito a quatro sósias perfeitos, com um metro e oitenta e dois. São funcionários pagos pelo parlamento. Natural, os Astutos escondem-se para não serem agredidos, mortos. Diminutos, muitos foram pisados pela multidão, em fúrias ocasionais. Houve casos pitorescos de malas de dinheiro que caíram sobre um e outro, que se viram esmagados pelas propinas. Não circulam, não se deixam ver (como os supremos juízes do Areópago), ficam entocados em seus carros blindados, os vidros espessos cobertos com insulfilm negro, chegam ao parlamento por vias desconhecidas. Quando há alguma transmissão televisiva, são focalizados em close-ups. Acredita-se que muitos usam máscaras com rostos diferentes, como aquelas usadas por assaltantes em filmes. Tão perfeitas são essas máscaras, que nem mesmo os Astutos distinguem quem é quem dentro do parlamento.

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Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara em 1936. Jornalista e escritor, passou pelas redações de Última hora, Claudia, Realidade, Planeta, Lui, Ciência e vida e Vogue. Tem mais de 40 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, viagens (Cuba e Alemanha) e infantis. Entre seus romances mais conhecidos, estão Bebel que a cidade comeu, Zero, Não verás país nenhum, O beijo não vem da boca, Dentes ao sol, O anjo do adeus e O anônimo célebre. Seus livros estão traduzidos em inglês, alemão, italiano, espanhol, húngaro, tcheco e coreano do sul. Com o infantil O menino que vendia palavras, ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ficção de 2008. Em 2016, Ignácio de Loyola Brandão recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.