trecho do livro ‘Maravalha’, de Cláudio B. Carlos

capa_maravalhaMe aparece, esbaforido, o Romualdo — 20h45: entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio.

(…)

Romualdo era um tipo magrizel, aloirado, lábios finos e boca murcha — típico teuto-rio-grandense. O risco e o fedor. A boca murcha lhe rendeu o apelido de “Cu de Galinha”, que foi sofrendo alterações até chegar no afrancesado “Dirrã” — diminuição de “Cu di Rã”. O Romualdo, naturalmente, não gostava de ser chamado de Cu de Galinha, nem de Dirrã, nem de Cu di Rã, e, evidentemente que por isso mesmo, os apelidos, todos, pegaram. Eu, por sermos mui amigos, não o chamava assim. Pensava, às vezes, mas não falava. Outra coisa, que de vez em quando pensava, é que se o Romualdo soubesse o verdadeiro significado de “dirrã”, poderia adotar o apelido, e, ainda se sair bem. Mas é claro que ele não sabia. Eu mesmo só descobri por acaso, quando folheava uma revista na sala de espera do dentista. A publicação apresentava uma matéria sobre as moedas do mundo, e, aí entrou o “dirrã”: moeda de prata usada em Portugal no início do domínio mouro — ou qualquer coisa assim. Bueno, o fato é que, me aparece, esbaforido, o Romualdo. Entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio. 20h45 — eu já disse, né?

Vem direto à minha mesa, se acotovelando no adensado de gente. Diz:

— Oi.

Respondo:

— Oi.

Romualdo se senta, e com um gesto, pede um copo. Acendo um cigarro, em silêncio. Naquela época eu só fumava Carlton, ou Free (era a modinha do momento). Estava estranho, o Romualdo: os olhos esbugalhados, mais quieto que guri cagado. Dou uma longa tragada no careta e pergunto:

— E aí?

Olha para os lados, e responde:

— Cara, que foda, meu.

Indago:

— Hã?

— Nem te conto — ele disse.

Pego o maço de cigarros com a mão direita e bato-o levemente no indicador esquerdo para que se afrouxem dentro da carteira, e lhe ofereço um. Ele pega. Acendo (eu só acendia cigarros com isqueiro Bic, ou com fósforo: era o que se tinha para o momento). Romualdo dá uma tragada nervosa, soltando a fumaça pelo nariz. Com o copo na mão, olha para os lados (mais uma vez) e dispara:

— Acabo de matar um cara.

— Quê? — pergunto.

— Um cara — responde. — Acabo de matar um cara — reforça.

— Como? — quero saber.

— Atropelado — diz.

— Quem? — interrogo.

— O Maravalha — fala.

— O Maravalha? — digo.

| em pré-venda no site da Editora Coralina, o livro é uma publicação da Saraquá Edições: [link] |

Cláudio B. Carlos é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS.

trecho do romance ‘Calote’, de Leonardo Valente

O dia da insubordinação civil

Capítulo 1

capa_caloteDavid Scheidt era um homem bom. Jamais deixou de pagar o valor total da fatura de seu cartão de crédito black, modalidade sem limite pré-estabelecido para despesas e inacessível à maioria dos mortais. Tamanha virtude lhe rendeu, entre vários outros benefícios, o direito de trafegar com seu utilitário importado e movido a diesel em uma faixa exclusiva para cidadãos íntegros como ele na Avenida Paulista, coração da maior cidade do Brasil. A pista seletíssima, gerida pela administradora da bandeira de seu cobiçado passaporte de plástico com microchip de ouro, foi construída no lugar de uma velha ciclovia, e por contrato com a antiga Prefeitura jamais poderia ser bloqueada, permanecendo livre de congestionamentos. Quem dirigia por ela também não precisava parar em sinais de trânsito e tinha direito a quase o dobro do limite de velocidade das outras faixas. Os demais seres não tão virtuosos que passavam pelo local a pé só podiam cruzá-la quando não houvesse nenhum carro a uma distância de pelo menos cem metros. Não se tratava de tarefa difícil, contudo, especialmente por serem poucos os veículos que detinham o direito de por ali trafegarem, uma vez que o mundo dos ungidos e dos bem-sucedidos, ao contrário do enxame vergonhoso dos inglórios, nunca fora populoso. Todo o resto da frota, inclusive os táxis, ônibus, carros de polícia e ambulâncias de hospitais que carregam moribundos com perfil de crédito inferior precisavam se esmagar nos engarrafamentos intermináveis, no parco espaço que ainda lhes cabia, no mundo tão pequeno para tantos deles.

A faixa foi criada há alguns anos para que pessoas de bem não fossem prejudicadas pelas manifestações dos baderneiros, que durante muito tempo foram quase diárias e que provocaram, segundo os que ditam o certo e o errado, inúmeros transtornos para quem desejava trabalhar e ajudar o país a crescer. David, no entanto, um dos poucos clientes seletos que pela avenida passavam todos os dias, nunca viu um desses protestos desde que chegou a São Paulo, sem um tostão no bolso. Foram extintos há algum tempo.

As massas cansaram. Exauridas pelas medidas punitivas, pelo cerco implacável aos descontentes na vida real e na virtual, pela condenação moral, e dominadas pela sensação de impotência que lhes foi entranhada, dispersaram silenciosamente. Cederam à luta diária pela sobrevivência. Renderam-se a uma mais-valia feroz que não dava chance de conforto, proteção ou ascensão social, mas que todos os dias prometia a glória que ninguém conquistaria, e que quase todo mundo passou a acreditar ser possível. São Paulo tornou-se uma gigante pacífica, adestrada e adoradora da meritocracia, sua verdadeira padroeira, pobre apóstolo tardio cujo nome cristão acabou por batizar aquele lugar cuja alma fora a leilão de privatização, e com lance inicial muito abaixo do que valia.

São Paulo viu fechar quase tudo o que um dia foi chamado de público, e o que sobrou virou comércio honrado, empreendimento inovador ou contrato arrojado. O verde do maior parque da cidade passou a cobrar de seus habitantes a sua visita, em nem um só banheiro de toda a metrópole deixou de ter uma máquina de cartões de crédito e débito em sua entrada. Até as praças ganharam seus planos de negócios e seus executivos estressados com o balanço, não o de brinquedo, mas aquele que deveriam apresentar ao final de cada ano para seus acionistas. As massas converteram-se em indivíduos e os cidadãos em clientes. A noção de bem comum foi reduzida a performances estatísticas de pesquisa de satisfação e o sentimento de pertencimento por identidade e pelo compartilhamento de direitos foi trocado pelo vazio.

As massas perderam sua identidade na cerimônia de coroação do Mercado como o novo Soberano de São Paulo, a mais nova cidade-feudo obediente do liberalismo radical, e desobediente a tudo o que não parecesse com liberdade irracional. Alçado à referência maior de seus pobres habitantes, o Mercado derrubou com truculência e velocidade impressionantes o empoeirado e já sem credibilidade Estado, condenado por corrupção e por atraso. Graças ao novo Soberano, a maior cidade do país passou a ter um gerente no lugar de um prefeito, e um conselho de acionistas onde uma vez figurou uma Câmara Municipal, cuja entrada ganhou ares de multinacional. Um modelo, passaram a pregar os paulistanos mais entusiasmados, que se espalharia rapidamente pelo Brasil, ou pelo menos pela parte menos indolente dele. Uma cidade-empresa capaz de gerar lucro a seus acionistas só poderia ser um plano fadado ao sucesso e aos investimentos vultuosos dos estrangeiros, admirados e ávidos por participarem de tamanha empreitada.

O sucesso do novo déspota e de seus asseclas, contudo, passou a depender tanto da credibilidade dos investidores, quanto da imbecilidade dos moradores. E para manter o segundo, foi preciso rasgar a Constituição e impor a nova Carta local do individualismo e da pretensa premiação pelo esforço pessoal. A nova lei criminalizou a solidariedade, demoveu da sociedade a capacidade de atribuir importância à res pública, de entender e de aceitar o fracasso, e de ver utilidade no tempo livre e no aprendizado desinteressado. O privado tornou-se cláusula pétrea, uma espécie de primeira emenda, além de centro da existência. O lucro, por sua vez, ganhou status de atividade essencial e parâmetro de todas as coisas: o princípio, o meio e o fim. Tudo passou a ser feito por ele e para ele, amém.

Na cidade-feudo e modelo de negócios não havia mais espaço nas mentes e nos corações para manifestações e por isso David nunca as viu na Paulista. Se as visse, teria franzido as grossas sobrancelhas de sua face com traços árabes, em evidente reprovação, mesmo na época em que dependia da avó, morava em São Caetano do Sul e levava na mochila velha um sanduíche de mortadela para substituir o almoço durante as aulas da faculdade de finanças no centro da cidade. Não há dúvidas, no entanto, que depois do que aconteceu, preferiria ter visto aquelas manifestações moribundas diariamente atrapalhando o tráfego dos pobres, porque nem de longe elas tinham o poder que outra, muito pior, silenciosa, inesperada e de natureza desconhecida passou a ter.

| trecho do romance Calote (Editora Mondrongo, 2020). |

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Tem diversos livros publicados, como o romance Charlotte Tábua Rasa, de 2016, e a antologia Apoteose, finalista do Prêmio Sesc de Literatura de 2018.

[ Quem comprar o livro em pré-venda, poderá se inscrever, sem custo, no curso online “A construção do ideário neoliberal na mídia brasileira”, que terá três encontros. Dois com exposições teóricas e históricas, e o terceiro para discutir as personagens de Calote à luz do que for exposto nos dois primeiros encontros. O curso tratará de temas como as razões do neoliberalismo por trás da imprensa, meritocracia, sociedade de consumo, austeridade de gastos, geopolítica do Estado mínimo, entre outros, e acontecerá nos dias 22/10, 29/10 e 05/11, sempre das 19h às 21h. As vagas são limitadas.

Pré-venda e inscrições: https://www.mondrongo.com.br/ ]

trecho do romance ‘Ao pó’, de Morgana Kretzmann

Romãs e Cigarros

ao_poA mãe da sua mãe era uma pessoa amarga que sabia fazer bolinhos fritos como ninguém. Tinha cabelos cinzas e tetas grandes. Gostava de usar vestidos com estampa de florais pequenos em cores delicadas. Sempre usava saia de baixo bege com uma pequena renda na ponta que ficava à mostra quando ela subia escadas ou se sentava. Falava alto mesmo quando queria apenas sussurrar.

A velha se chateava muito; se chateava com a filha, se chateava com o marido da filha, mas se chateava ainda mais com a filha da sua filha, que sempre lhe pareceu uma aberração, uma guria que ia ao encontro de algo terrível, mundano, descendo apressada os degraus da degeneração.

Sua avó tinha um lindo pé de romãzeira que ficava afastado da casa. Era um único e lindo pé de romã cercado por pés de laranja do céu. E foi lá, próximo à árvore que floresce na primavera projetando sua exuberante coloração vermelha, onde tudo começou, onde a tragédia deu seu primeiro sopro.

A tal senhora não entendia que a neta tinha apenas nove anos e que era uma menininha solitária, sem amigos na escola, sem nenhum garoto do bairro que gostasse dela e com o desprezo dos seus primos, que nos almoços de finais de semana sempre a deixavam apenas com a televisão. Não entendia que ela era uma criança tímida e cheia de medos. Teimava em afirmar que a menina era má e pervertida.

Um dia a velha encontrou a neta fumando um cigarro Shelton longo, embaixo da árvore de romã. A menina estava de salto alto, uns cinco ou seis números maiores que seu pé, com uma carteira grande azul celeste embaixo do braço e usava um batom cor de laranja. Quando foi descoberta foi como se uma nuvem escura pousasse na sua cabeça, só lembrava das palavras, pervertida, porca, demônio, enquanto seu cabelo era violentamente puxado. Depois de muito choro, a cumplicidade perversa: este é um segredo meu e teu, se tu andar na linha, e fizer o que eu pedir, ninguém nunca vai saber de nada.

A menina se viu obrigada a seguir o catecismo da avó para não correr o risco de passar pela vergonha de seus primos, colegas e vizinhos de bairro ficarem sabendo do que aconteceu.

A criança passou a ter que aceitar a companhia da avó na ida e na volta do colégio, todas as sextas-feiras. Também recebia visitas surpresas no recreio quando era humilhada pelas constantes chacotas proferidas por ela. Além disso, foi obrigada a aceitar todos os convites para ir aos cultos na igreja e passar as tardes de sábados na casa da velha. Nunca se queixou, nunca se negou a nada, continuou obedecendo submissamente.

A avó queria provar que não estava errada. Acreditava que a neta era má, era pervertida. Por isso deixou a revista pornográfica de sexo explícito exposta em cima da estante naquele sábado, assim como deixou de propósito aquele maço de notas de cinquenta em cima da sua penteadeira e não a convidou para ir ao culto naquela tarde, dizendo que ela poderia ficar vendo televisão e comendo bolinhos fritos.

A criança sozinha na casa, com apenas nove anos, foi ao antigo quarto da tia, pegou os sapatos de salto alto, passou blush, sombra, batom. Revirou o roupeiro atrás de uma bolsa de pedras coloridas da qual tanto gostava. Encontrou. Roubou um cigarro e o isqueiro que estavam na gaveta da cômoda. Foi até a sala, pegou a revista pornô, colocou na bolsa. Quando estava para sair, olhou para dentro do quarto e viu aquele monte de dinheiro, passou reto, saiu da casa em direção ao pé de romã. Sentou sob a copa fazendo uma pose sensual, imitando uma das mulheres da revista, acendeu o cigarro, começou a folhear a revista.

A avó entrou silenciosa dentro da casa. Pé por pé, foi até a sala, não havia ninguém. A revista havia sumido. Foi até seu quarto, pegou o dinheiro e contou. Nenhuma nota roubada. Saiu tentando não pisar em galhos nem folhas secas, foi até o pé de romã. Lá encontrou a neta com um cigarro numa mão, seu ainda inexistente seio na outra e a revista pornográfica aberta no chão. Ao invés da fúria, as risadas descontroladas e a sentença: eu sabia.

A garotinha saiu fugida deixando os sapatos para trás com seus saltos cravados na terra. Entrou na casa e guardou a bolsa onde a pegou. Escondeu a revista dentro da estante bem atrás dos volumes da enciclopédia Barsa. Mudou de ideia e pegou a revista de volta. Foi até o quarto da avó. Entrou, encostou a porta e ficou escondida.

A sua avó nunca foi uma mulher fácil. Seu marido era um bom homem, mas parecia triste quando ela estava por perto. Seus cinco filhos não a suportavam, era visível. Mas seguiam vindo nos finais de semana para uma visita. Promessa feita ao pai antes dele morrer. Nem por isso, como todos diziam, ela merecia morrer do modo que morreu. Esmagada por aquele roupeiro gigante de madeira maciça. Diziam que era de carvalho. Diziam também que ela pode ter morrido por asfixia, já que o socorro demorou muito a chegar, pois a única pessoa que estava com ela naquela tarde, brincava em baixo do pé de romã e só voltou para casa quando começou a escurecer.

A netinha até hoje diz não ter escutado o barulho do roupeiro caindo, mas diz lembrar da avó segurando um maço de notas de cinquenta, pedindo para que ela se sentasse em seu colo para lerem juntas uma revista que ela própria nunca tinha visto na vida. E foi assim que a encontraram quando conseguiram tirar o roupeiro de cima dela: com o crânio esmagado e segurando um maço de notas de cinquenta e uma revista pornográfica.

| trecho do romance Ao pó (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Morgana Kretzmann nasceu na cidade de Tenente Portela, interior do Rio Grande do Sul, hoje vive em São Paulo, é escritora, atriz, roteirista e produtora cultural, com prêmios nacionais e regionais. É editora da revista cultural RevistaRia, da Ria Livraria. Também é formada em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Santa Catarina. Ao pó é seu romance de estreia.

lançamento do livro ‘A clareira e a cidade’, de Rodrigo Novaes de Almeida

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Clique na imagem para comprar o livro no site da Editora Urutau.

A Editora Urutau e o autor apresentam o livro A clareira e a cidade, já disponível para venda no [link]. E sábado, dia 11 de julho, teremos uma live de lançamento. Veja mais detalhes no [link].

* * *

A clareira e a cidade é o quinto livro de Rodrigo Novaes de Almeida, sendo sua primeira antologia poética. O título remete ao pensamento de Martin Heidegger — para este, a linguagem é a morada do Ser e cabe aos poetas e pensadores habitar nessa morada.

No entanto, as questões levantadas na obra que o leitor tem em mãos não são metafísicas, e sim aquelas que exigem uma práxis que liberte o homem da vida massificada. A proposta heideggeriana é ontológica. As inquietações filosóficas do poeta buscam um pensamento que não atropele os movimentos sociais e ao mesmo tempo dialogue com as questões atuais. De modo especial, uma antropologia.

Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.

(Tito Leite para o posfácio de A clareira e a cidade)

DO FILHO MALSUCEDIDO

há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)

um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz

como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si

SOBRE O QUE SONHAM MONÓCEROS?

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

_____(mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
_____em que erramos em tudo,
_____em que nunca estivemos tão tristes,
_____e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.)

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

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Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

coletânea ‘Antifascistas’ — entrevistas na TV 247

O primeiro de oito programas de entrevistas na TV 247 teve a participação da nossa editora Christiane Angelotti e Cinthia Kriemler, Cristina Serra e José Eduardo Agualusa.

O quarto programa teve as participações de Rodrigo Novaes de Almeida, nosso editor-chefe, Cristina Judar e Jeferson Tenório.

A mediação dos dois programas foi de Regina Zappa e Leonardo Valente. A coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020) está à venda no site da editora [link]. Os demais programas podem ser vistos no canal da TV 247 no Youtube [link].

 

o homem do pôr do sol

Pôr do sol CAPA

O homem do pôr do sol, de Antenor Antônio

ISBN: 978-85-92788-09-4
Formato: 12 x 18 cm
Número de páginas: 194
Ano de lançamento: 2018
Gênero: Literatura brasileira, poesia
Projeto gráfico e arte capa: Carlos H. C. Gonçalves

Texto de apresentação

Escrito por Antenor Antônio ou, como se autoproclama, pelo “maior poeta da América Latina… quiçá do Brás”, O homem do pôr do sol é uma narrativa poética sobre o amor. Não se basta em si mesmo como um relicário de lembranças e tais. É uma provocação pela descoberta ou revisão desse sentimento que leva o autor a um embate consigo mesmo.

O pôr do sol aparece como força simbólica, metáfora de um homem envelhecido que sofre com a desilusão amorosa. “Um homem que vê o fim se aproximar e se agarra a um discurso de prestação de contas que o levou a apostar em uma catarse dos enganos cometidos: medos, incertezas, sombras…”.

Logo de início o autor adverte: “Este é um livro escrito para ninguém”. Contudo, é justamente o contrário. Ele é escrito a todos aqueles que procuram um sentido maior nas relações interpessoais. E um convite a também travar esse embate.

Três poemas do livro

No quarto vazio, o silêncio me olha
Não me indisponho contra ele
O silêncio é muito poderoso
Sei de minhas frágeis forças testadas em
caminhos de pedra
Com a derrota e com o prêmio ao meu vencedor
No quarto vazio, o silêncio me olha.

Silêncio, vem refugiar-se comigo
Sem tormento.

Lá fora passa o vento.

* * *

Somos os inconcebíveis herdeiros de um nada.
Para desenhar o perfil de um homem
Foi criado um Deus – nosso pai
Que eternamente se esconde
Onde?

As luzes iluminam horizontes intermináveis
O infinito apenas começa ali.

O Aqui tem correntes de aço a prender nossos braços
Como com Prometeu.
Ser criança é a ilusão de um dia
Pular o muro, mentir e trair alguém
Roubar fruta do conde
E dizer que foi o vizinho.

* * *

Foi também lido
Eu espanto o silêncio
De meu ouvido.

Saiba mais sobre a obra no site da editora [link]

contos de quarentena: release

capa (1)

Quando a realidade limita os horizontes, a literatura convida para passear. Essa foi a semente para a criação da antologia Contos de Quarentena. Organizada por Mauro Paz, a antologia tem como objetivo levar a literatura contemporânea para aqueles que estão em casa na luta contra a proliferação do CoviD-19. A publicação tem distribuição gratuita no site da Revista Vício Velho e na Amazon Brasil entre 31/03 e 04/04. Depois de 04/04, na Amazon, terá o valor simbólico de R$ 1,99.

Entre os autores estão alguns dos mais inquietos e talentosos nomes da literatura brasileira produzida hoje: Ana Squilanti, Camilla Loreta, Camilo Gomide, Débora Ferraz, Eltânia André, Gabriela Silva, Gustavo Melo Czekster, Helena Terra, Henrique Balbi, Jeferson Tenório, Jessica Cardin, Marcelo Ariel, Marcelo Conde, Marcos Vinícius Almeida, Maria Fernanda Elias Maglio, Mariana Salomão Carrara, Mauro Paz, Mayara Floss, Natalia Timerman, Rodrigo Novaes de Almeida, Rodrigo Tavares, Ronaldo Cagiano, Tiago Germano, Tobias Carvalho, Vera Saad e Walther Moreira Santo.

Fique em casa e boa viagem.

Revista Vício Velho | Download free nos formatos PDF e Epub.
[link]

Amazon | Por R$ 1,99. Entre 31/03 e 04/04 por R$ 0,00.
[link]

coletânea ‘Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência’

Coletânea terá pré-lançamento em março na Printemps Littéraire Brésilien e trará eventos com mesas e debates em várias cidades do Brasil

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Capa de Claudio Duarte

A gueto divulga com exclusividade a capa da coletânea Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020), organizada por Carol Proner e Leonardo Valente, uma das publicações de literatura política mais aguardadas deste ano. Com 32 escritores e escritoras de Brasil, Portugal e Angola, a obra apresenta contos, poemas e crônicas críticos não apenas aos desmandos de governos de extrema direita e que flertam com o fascismo, como também contestadores de uma sociedade cada vez mais dominada pelo conservadorismo, pelo radicalismo e pelo preconceito.

“Tendo como base a proposta geral da obra, foi dada liberdade temática, estilística e de formato a todas as escritoras e escritores convidados. Se necessário, crônicas poderiam extravasar seus limites para flertarem com artigos e ensaios, contos podiam parecer crônicas, e crônicas se aproximarem de contos, poemas ganharam carta branca para figurarem como desejassem seus poetas nas páginas, e ficção e realidade tiveram permissão para chegarem de mãos dadas ou bem separadas. A livre expressão em todas as suas dimensões foi mais um contraponto proposital ao engessamento conservador, limitador e classificador típico do fascismo de ontem e de hoje”, diz um trecho do texto de apresentação do livro.

A capa, um alerta para a volta da censura e da repressão de tempos sombrios, é assinada pelo ilustrador, caricaturista e designer gráfico Claudio Duarte, vencedor do Prêmio Esso na categoria Artes Gráficas, sete vezes premiado pela The Society for News Design (SND) e com diversos trabalhos em grandes editoras e jornais brasileiros.

Agenda de lançamentos

Banner Lançamento Mondrongo livro Antifacistas
Arte de Claudio Duarte

Dois eventos de pré-lançamento da coletânea acontecerão em março em Paris, França, e em Braga, Portugal, durante a Primavera Literária Brasileira, maior evento de literatura brasileira no exterior. No Brasil, todos os eventos de lançamento contarão com mesas e debates sobre autoritarismo, censura, capitalismo pós-democrático, literatura política e vários outros temas, com a participação dos escritores e das escritoras que colaboraram com a obra. Entre as cidades já confirmadas estão Salvador, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo e Belo Horizonte. A agenda completa, que deve se estender durante todo o ano, será divulgada em breve.

Participam da coletânea André Diniz, Bárbara Caldas, Carol Proner, Christiane Angelotti, Cinthia Kriemler, Cristina Judar, Cristina Serra, Eliane Potiguara, Fernando Molica, Gustavo Felicíssimo, Hildeberto Barbosa Filho, Jeferson Tenório, João Ximenes Braga, José Eduardo Agualusa, Juliana Neuenschwander, Leonardo Tonus, Leonardo Valente, Luis Fernando Veríssimo, Marcelo Moutinho, Marcia Denser, Maria Valéria Rezende, Micheliny Verunsky, Nívia Maria Vasoncelos, Pilar de Río, Regina Zappa, Rodrigo Novaes de Almeida, Rosângela Vieira Rocha, Sylvio Back, Stella Maris Rezende, Urariano Mota, Valter Hugo Mãe e Wanda Monteiro.

Links com os trabalhos e contatos de Claudio Duarte:
[ http://www.claudioduarteilustracao.com/ ]
[ https://www.instagram.com/ilustradorclaudioduarte/ ]

três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).

resenha do romance ‘Essa gente’, de Chico Buarque

Por Leonardo Valente

capa_buarqueMuitos gigantes vivem em um Chico Buarque, mas dois que sempre se destacaram de forma especial, ainda que em caminhos e estilos distintos, o compositor e o escritor, em Essa gente (Companhia da Letras, 2019), o mais recente e em minha opinião seu melhor romance, são convertidos em um só. Trata-se da obra do romancista que mais se aproxima do compositor. Aproximação na temática, onde a crítica sofisticada e ao mesmo tempo incisiva ao fascismo e ao elitismo colonialista de nossos dias remete ao Chico que se levantou contra a Ditadura Militar; aproximação no estilo narrativo, não raro sonoro e melodioso como suas músicas. Essa gente é um romance ao mesmo tempo simples e multifacetado, e sua história principal pode ser comparada a um rio carioca e caudaloso que desemboca no oceano profundo da formação social brasileira, e nas contradições, superficialidades e hipocrisias sui generis de suas elites.

Os pequenos capítulos seguem tendência da prosa literária contemporânea, especialmente a urbana, e a construção deles como um diário, o que permite com certa facilidade idas e vindas na história, concede dinâmica e facilidade de leitura a um texto denso, musical e ao mesmo tempo áspero, de vocabulário notoriamente bem calculado e repleto de camadas interpretativas. O resultado é um livro que pode agradar a leitores com diferentes níveis de exigência e de expectativa (alguma semelhança com as músicas do outro Chico gigante?), assim como provocar diferentes reações.

Duarte é o escritor decadente protagonista, sem dinheiro, mas sem perder a pose, destruído afetivamente, e que poderia se encaixar tanto em um livro de literatura policial quanto em um estudo de caso antropológico sobre nossa Casa Grande contemporânea. O Leblon é bairro nobre carioca protagonista e igualmente decadente, que no retrato de Chico consegue resumir em si todas as mazelas e tristezas de uma elite responsável pelos erros do passado e pelas mazelas distópicas do agora brasileiro. Duarte é o que Chico poderia ter sido, é o que muitos Chicos provavelmente viraram, seres indiferentes emocionalmente e ignorantes intelectualmente em relação ao país que despenca sobre suas próprias cabeças. Personagem que parece o avesso de seu criador, mas o avesso, apesar de ser o oposto, é muito mais próximo do que distante, pois está colado do outro lado. Duarte tem muito de Chico e é ao mesmo tempo tudo o que ele nunca foi. Já o Leblon é o que o Brasil queria ter sido, e Essa gente também mostra o quanto os desfavorecidos se deformam em valores e compromissos ao desejarem tornarem-se iguais aos que lá vivem; Essa gente, por mais que doa constatar, é formada tanto pelas dondocas e garanhões do bairro, quanto pelos passeadores de cães e moradores de comunidades que por ali circulam. Nossa elite é prodigiosa em converter Chicos potenciais em Duartes reais, e o Leblon em fazer com que os pobres aspirem uma sociedade ainda pior do que a que já temos.

Não se trata, contudo, de um romance político no sentido estrito do termo, nem de um romance histórico, apesar da enorme contribuição para o entendimento sobre o tempo presente. Assim como suas músicas que tocam nas feridas da Ditadura Militar, Essa gente é muito mais do que um texto crítico sobre nosso momento político, é antes de tudo, e principalmente, uma história sobre as relações humanas.

Ter o Rio e suas mazelas como cenário principal de uma obra com essa proposta também é extremamente significativo, traz de volta uma de suas características mais peculiares e há algum tempo perdida: a de se tentar compreender o país por meio de suas veias e de sua gente. Joga ainda a cidade — que por vários motivos andava meio distante da cena literária relevante do Brasil de hoje — no olho do furacão da produção ficcional e, consequentemente, no centro das atenções. Chico e seu novo romance têm força suficiente para produzirem esse movimento, ainda que por um tempo.

Essa gente é a primeira obra ficcional publicada, de peso e notoriedade, a se passar no desgoverno de Jair Bolsonaro e a retratar as relações sociais e afetivas nesses tempos sombrios. Bom que tenha vindo de Chico o primeiro romance com essa característica, e justamente o seu melhor livro. Sinal de que, assim como suas músicas, a obra extravasará sua função primeira e se tornará um grande instrumento na disputa futura pela narrativa e pelos afetos, tão fundamental para que essa gente não volte a fazer o que hoje faz com o Brasil.

Leonardo Valente é escritor, jornalista, cientista político, e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. É autor do romance O beijo da Pombagira (2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, da antologia Apoteose (2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura, e do romance Charlotte Tábua Rasa (2016). É um dos autores da primeira edição impressa da revista gueto, com o conto “criogenia do inconsciente ou manifesto pelos prazeres perdidos”, além de ter participado de outras antologias e coletâneas. Participou da Primavera Literária Brasileira, na França em 2019, e é um dos autores convidados para a edição 2020.