incêndio no museu nacional, poema de Rafael Alexandre Mendes Silva

I

o crânio oco
o crânio oco de luzia
meus dedos trêmulos
tocando sua não face
apenas o oco
o avesso do oco
era o que eu tocava
corriam minhas mãos
por 12 mil anos
minhas mãos tocavam
o não rosto, o oco,
o avesso, a origem
a primeira brasileira

II

bendegó rolou morro a baixo

descansou no leito seco
por uma centena de anos

ferro e níquel negados ao léu
por um imperador de outras terras

o segundo imperador
deu-lhe morada e reconhecimento

veio a mambembe república
minguou a moeda
desceram as chamas:
morto o palácio, morto o museu

vivo bendegó
um verdadeiro brasileiro

III

pela eternidade e mais um dia
dom pedro e sua estirpe
vagarão pelas cinzas do
palácio e sua antiga glória

pela eternidade e mais um dia
ameríndios, tupinambás e guaranis
trabalharão obstinados a reconstruir
ferramentas, tapeçaria e cerâmica
para honra e glória de seu povo

pela eternidade e mais um dia
luzia carregará minério, insetos e plantas
para o repouso na lagoa santa
guiada pela voz de sha-amun-en-su
e a saudade do deus oculto

pela eternidade e mais um dia
queimará a terra brasil
a palmeira e o sabiá

pela eternidade e mais um dia

Rafael Alexandre Mendes Silva, nascido em 1993 na cidade de São Paulo, é formado em Ciências Sociais e se mudou para Dublin, na Irlanda, em 2016. Em 2017 participou da coletânea 32kg: uma antologia Brasil-Irlanda, pela Editora Urutau. Em 2018 publicou seu primeiro livro: ensaio sobre o belo e o caos, também pela Editora Urutau. No momento trabalha numa coletânea em inglês e num novo livro em português.

anacronismo neocolonial, de Amanda Santos

— Venha cá, morena bonita
Negra da terra tropical
Chama o chefe da aldeia
Diz que quero conversar.

— Ô moço estranho,
Branco leitoso
Mal chegou e já dita regras
Primeiro, me fale teu nome
E qual é a tua terra.

— Prazer, João Ribeiro
Vindo do reino de Portugal
Tenho grandes planos na cabeça
Importados de minha terra natal.

— Portugal eu desconheço
Jamais ouvi falar
Melhor refazer teu caminho
Que não temos nada a acordar.

— Fique calma, minha querida
Não estou aqui para guerrear
Procuro apenas ouro e prata
Para rico poder ficar.

— Ouro e prata, o que é isso?
Creio que está perdido
Aqui não temos nada parecido
Desconhecemos relíquias deste tipo.

— Cigana, não brinca comigo
Melhor ficar longe do perigo
Dê-me logo o que te peço
Senão terei que te matar!

— Mas, senhor, eu já te disse!
É você quem está perdido
Tua caravela aportou no sítio errado
Se acha que aqui será próspero
Está bem equivocado.

— Eu sei que mente, eu desconfio
Engana-me gratuitamente, sem qualquer motivo
E nem somos ainda inimigos!
— acabamos de travar contato —
Este é apenas o princípio.

— Meu amado viajante
Rogo então a ti um pedido
Verifique no teu mapa
Se é este mesmo o teu destino.

— Ora, mas que besteira
Interrogar-me de tal maneira
Que absurdo, que insulto
Cogitar que o melhor navegante do século
Não bem seguiu as coordenadas.

Aqui, olhe este desenho
Ele me trouxe direto a Pasárgada
Quero fincar nela minha bandeira
E fazer dela a minha pátria!

— Oh, estava certo o tempo todo!
Seja muito bem-vindo, seu Ribeiro
Sem delongas nem mais rodeios
Venha explorar este vazio inteiro!

— Vazio, sua louca?
Pasárgada é o paraíso!
Terei as mulheres de que preciso
E do Rei, serei o favorito.

— Não é possível, a notícia a ti não chegou?
A Pasárgada dourada não mais existe
Foi destruída pelo último tirano que aqui governou
Deixando nosso antigo reino em total crise!

Aqui os sonhos não mais se fazem
Todos são fragmentados
Reduzidos a pó e a migalhas
E no lixo são atirados
sem a menor piedade.

— Oh, morena! Quantas milhas viajei
Para ouvir uma coisa dessas
Quantos mares naveguei
Para pisar em uma lenda.

Que pesar, que tristeza!
Que ilusão, que angústia!
Vou-me embora de Pasárgada
Antes os ventos tivessem me posto
Em alguma rota errada.

Amanda Santos é historiadora, recentemente formada pela UFRJ, e pesquisadora em tempo integral; leitora ávida, poeta, cronista e visionária nos interstícios de tempo. Escreve, sobretudo, acerca de problemas do cotidiano carioca, como violência urbana e contra as mulheres, além de questões subjetivas e relacionadas ao mundo do trabalho. Metalinguagem é outro de seus temas fortes.

três poemas de Adrian’dos Delima

poesia marginal

Contra os guardas do rei Inverno
os 3 mosqueteiros de rua
lutam contra
o abandono
unidos no chão duro da marquise onde
um dorme agora
o sol chega sem força
um senta com ar amorfo no rosto pra baixo
na soleira do comércio
o outro
em pé
parece cheio de derrota
e ontem ainda o vi
entrar vitorioso
no supermercadinho
comprar o pão do café nosso
enquanto nenhum dos 3
parece mais louco que vocês

pessoas da casa real

chegou o frio
não chegou ninguém
chegou uma van
dos crentes com sopinha
chegou o polícia e me chutou
não pode dormir aí vagabundo
não pode dormir aí vagabunda
tua mãe era prostituta também
todos na tua família são vagabundos
e juntamos nossos trapos
e vamos lá
__________pelo tobogã
isto me lembra o melhor de Eliot
descendo uma encosta
ou algo assim aristocrata
um dia achamos nossa marquise
onde seremos mais

do brasil sem lei para todo lugar

ficou
depois do holocausto
um claustro de onde
as palavras não saem
depois de hiroshima
depois de mais
um golpe no
estado democrático
um nó na goela
e nos nós dos dedos
que já não sai nada dito
nem se grava
mais que um silêncio
neste mundo onde a covardia
não se autografa

Adrian’dos Delima (Canoas-RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal Falares, dos estudantes de letras da UFRGS. Seguindo seus estudos como autodidata, posteriormente publicou em revistas de papel e online. Publica, sem muita regularidade, traduções e poemas próprios na sua página Rim&via. É autor dos livros Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015), Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015) e O aqui fora olholhante (Vidráguas, 2017). Traduziu poemas de Joan Brossa para a Revista Gueto.

guia prático de como aplicar golpes políticos em pseudo repúblicas neocoloniais, poema de Filipe Rassi

espalhe o boato de que o país está em
crise.

faça as pessoas físicas
e
as pessoas jurídicas do lugar
incorporarem e temerem a ideia
no cotidiano de suas vidas.

use para tal a ajuda de uma mídia
massificadora
indecorosa, oligárquica e alienante e
da falência atávica do seu sistema
educacional.

Panis et Circenses, para a plebe: açaí, Big Brother, Guarapan e Neymar
Júnior.

cultive ervas daninhas em seu Legislativo,
mantenha obesas as hienas do seu Judiciário,
condene com o martelo putrefato de seus coveiros colegas juízes
quem venceu a situação
democraticamente,
deponha
assuma
humilhe
modifique
crie!

diminua a importância (se puder diminuir os salários, ainda melhor)
de quem dará alguma substância para a mente
dos filhos

de quem levantará os prédios e unirá estradas e conectará os cabos etéreos
do WI FI

de quem desentupirá os canos do condomínio

escarre nas leis trabalhistas

perdoe logo a dívida dos banqueiros
e das empresas e corporações geridas
por seus (ou familiares dos seus)
amigos ricos.

invista, equipe, bestialize
(e convença jovens mesquinhos
ou com problemas de auto estima
a se alistarem, em peso, em) seu exército fardado de assassinos (vulgo “polícia”) para a garantia de sua integridade
física.

lembre-se que a opinião pública é apenas um fogo fátuo fedorento
e só levemente corrosivo, quando chegar ao inferno
confesse para o Papai Satã sinceramente que você foi uma puta
sacana e corrompida, ele lhe dará gasalho e abrigo.

fomente a ideia “evangélicos e outras aberrações religiosas na política”.

torna-te, pois, um profissional político
bem-
-sucedido.

Filipe Rassi nasceu em Patos de Minas-MG (1989) e mora em Belo Horizonte. Vindo de uma família burguesa desequilibrada e insalubre, frequentou hospícios e largou duas faculdades para entender o real valor da poesia. Atualmente vive como artista de rua, já há três anos, vendendo os livretos que imprime.

2161, de Jozias Benedicto

“As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.”
(Adélia Prado, O dia da ira)

[1]

e aí a ilha deles a utopia deles os tupinambás de quem se diz q eram os proprietários e senhores de upaon-açu uma ilha sem qq pecado, a utopia q se desanda em distopia não foi só afinal este pedaço de mundo e sim o brazil inteiro q desandou mas como fugir de um destino meticulosamente traçado para a catástrofe para o apocalipse, um projeto de estado q consiste em fábricas de não-pessoas de semi-indivíduos vegetando nos mocambos nas palafitas uma plataforma de governo que consiste em aumentar a desigualdade e com mão de ferro manter tudo como há séculos, primeiro o meu a melhor parte é a minha e farinha pouca e se neste canto de mundo a mentira é a marca o m de maranhão é o mesmo m da mentira e a mentira q é o povo o povo e em nome deste povo amealhar castelos retirando deste mesmo povo a parca comida da boca e governantes onde estão que não governam se aqui nem o altíssimo mais tem mando nenhum e

Quem passava por perto ouvia mas não ligava ao que dizia o pregador, mais um de muitos, com suas palavras vazias, que bem nenhum trazem, apenas mais barulho e o barulho já é tanto que acorda as criancinhas famintas que atapetam as ruas com seu sono de ralas proteínas a farinha pouca e um naco de peixe frito ou sururu ainda com a lama do mangue o que restou do mangue e o nana neném que a serpente encantada vem te levar

mas o pregador, um deles, continua sua ladainha os olhos bem atentos, indiferente à indiferença dos passantes que se empurram e pisam os que fazem sua casa nas pedras das calçadas das praças do velho Centro. Os olhos bem atentos, ele sabe o que procura, o que tem de fazer.

e a ilha sem pecado e vinde a mim q sou a verdade e a vida e não acrediteis nos falsos profetas e nos falsos governantes e se procurais a verdade e a vida olhai nos meus olhos e bem fundo nos meus olhos e

O que o pregador procura está entre as hostes de crianças famintas que se acotovelam buscando a sopa e o pão que o governo distribuí, ele procura uma ou outra criança apenas, não são muitas, ainda bem! graças ao altíssimo são poucas, uma criança que olhe nos olhos dele e ele consiga ver um brilho uma leve luz que mostre que há algo dentro, e quando ele encontra ele já sabe o protocolo, é o “venha, siga-me” e em seguida o empurrar a criança contra a amurada de pedra do tempo do brazil colônia, só que é tudo réplica, claro, as originais já se acabaram como o brazil colônia e o brazil império e o brazil república, tudo pó, e segura firme a criança firme contra a amurada a boca tapada e ele é rápido e preciso e eficaz e “nem doeu, viu?” e mais um ponto atingido em suas metas.

[2]

E a historiadora, encantada, sorriso estático preso no rosto, passeia entre as ruínas e fala sobre as utopias do passado e como agora era o futuro e que hoje sobre as ruínas da base de lançamento de foguetes da época do Brasil-República, “tanto tempo assim?”, as crianças perguntaram e ela: “sim sim!, são séculos em que fomos aperfeiçoando as instituições e repetindo os mesmos erros na economia e fomentando as divisões e criando descerebrados com os programas de TV de domingo e chegando ao ápice da tecnologia ao criar descerebrados de verdade com simples vírus em mosquitos picando gestantes nas periferias”.

Enquanto fala, a historiadora olha para a turma de alunos, examina os alunos um a um e faz um cálculo mental rápido, quarenta alunos, pelo menos trinta deles com massa cerebral abaixo do mínimo aceitável para humanos nos países unidos do hemisfério norte, dos outros dez uns oito não vão além de repetir os slogans, então são aqueles dois de olhar brilhante nos quais eu devo focar, a historiadora recorda as precisas instruções que todo professor recebe e jura seguir, chega perto dos dois, um menino e uma menina os dois de pele parda e olhar brilhante e diz, “querido, querida, venham comigo” e de cima ela os joga rápido e sem dor na máquina construída sobre as ruínas da base de lançamento de foguetes, sem dor sem ruído, apenas um bip e um piscar de um LED indica que sim, ela pode continuar a visita e bem aventurados os descerebrados deles é o reino dos céus e a satisfação de mais dois pontos positivos em sua meta,

e o passeio continua, entram todos, historiadora e as agora apenas trinta e oito crianças, no veículo espacial que os leva de sobre as águas negras da baía de São Marcos ao oceano Atlântico um sobrevoo vendo as dunas e o baixio dos Atins e ela mostra “ali morreu o poeta, afogado em sua cabine”, quando sente que uma criança se acerca dela em pleno veículo espacial justo quando ela recitava os versos mais famosos do poema mais famoso do poeta mais famoso morto afogado em sua cabine e a criança se acerca dela e diz baixinho, “tia, estão faltando o diego-89X43H2 e a mirela-76W65G9” e ela sente um arrepio, como deixou passar esta? ela sempre tão atenta em cumprir os protocolos, mas pelo menos ainda é tempo, abraça a criança “não se preocupe, tudo vai dar certo”, e vê o brilho no olhar que indica atividade no cérebro, pestinha!, mas o veículo espacial faz o voo rasante para mostrar às crianças a réplica em holograma do Ville de Boulogne e nessa hora em que todos se agrupam do lado esquerdo para olhar para o navio que cintila em luzes e o poeta dançando no espaço sua dança da morte, ela a historiadora abre uma fresta uma frestinha só da escotilha do lado direito e arremessa a criança para seu destino o mar lá em baixo “vai fazer companhia pro poeta, sua praga de olhar inteligente!” e o bip e o piscar do LED é a contagem que ela aguardava: mais um ponto e vão deixando para trás o poeta sempre eternamente se afogando preso na eternidade repetida do sufocar em sua cabine recitando seus poemas, um passeio altamente educativo ela havia garantido às mães.

A historiadora chega em casa feliz com o dever cumprido e pensando nas vantagens que vai receber por não ter falhado nenhuma vez nunca e estar até mesmo superando suas metas, só hoje foram mais três pontos e o dia ainda nem terminou. Feliz.

[3]

A mesa de 12 lugares de mogno com as pernas torneadas em estilo manuelino (mogno de plástico, é claro) flutua no espaço sobre as águas da baía de São Marcos na altura do cais da Sagração, palco perfeito para a plateia que se aglomera na praça Pedro II (participação ao vivo significa preciosos pontos na contagem das metas) e mais ainda muito mais espectadores em suas casas e em seus cubículos de trabalho sem contar os destituídos que se aglomeram em todas as calçadas mas estes coitados nem metas tem,

a plateia que se ajunta se dá cotoveladas e se une no mesmo futum de suor à espera da reunião do Conselho e, o mais importante, dos jogos e fogos que marcarão a entrada de mais um ano, o que antigamente se chamava réveillon, este ano que entra o 2161 da era de Cristo ou outros números segundo diversas outras contagens e devido a uma antiga tradição muitos estão de roupa branca mesmo que o branco nunca mais seja tão branco assim e tende a um pardacento claro,

em suas cadeiras-tronos aéreas e semoventes, estas no estilo que se convencionou batizar de hill-house-makintosh, é óbvio que de plástico e com especificações claramente detalhadas na Constituição, cadeiras de uso exclusivo dos altos funcionários, nas quais o espaldar alto se torna mais alto à medida em que o ocupante ascende na hierarquia, sendo que o Chefe do Conselho se destaca, pequeno e franzino e enrugado em seus mais de duzentos anos de poder, com seu imponente bigode negro com fios de ouro, seu bigode que até parece real, sentado em uma cadeira com um espaldar de quase cinco metros;

as cadeiras-tronos sobem no ar e levam os membros do Conselho até a mesa, um a um, a plateia vibra atendendo às luzes que piscam indicando “aplausos”, até mesmo as centenas de milhares de rendeiras em seus cubículos incessantemente tecendo nos bilros quilômetros e quilômetros e quilômetros de rendas que são a riqueza da nação ao serem exportadas para os países do hemisfério norte, até estas mulheres interrompem um segundo seu perene rendar para aplaudir,

o Chefe do Conselho agradece a todos por mais um ano de metas cumpridas e em sua infinita generosidade informa que amanhã, o dia primeiro do ano que se inicia, será feriado, mas que não se descuidem das metas pois elas continuam a ser cobradas, rigorosamente cobradas pelo bem da Nação e a multidão aplaude, e o Ministro do Tempo Passado toma a palavra e lembra que o ano vindouro é apenas duzentos anos a mais que o último ano cujo número, se visto de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, permanece constante,

a multidão faz um “ohhhhhhh!” atendendo às luzes e aos animadores, muitas rendeiras, surpresas, se picam com as agulhas de seus bilros mas as rendas com traços de DNA do sangue de rendeiras é um produto altamente valorizado no mercado dos produtos de luxo no hemisfério norte,

o Ministro continua, este último ano com tal característica marcante foi o ano do Senhor de 1961, um holograma surge no espaço acima da mesa fazendo a demonstração de-va-gar para que os descerebrados entendam e as rendeiras se cortem mais uma vez e então o Chefe do Conselho com seu precioso bigode pigarreia e toma a palavra e anuncia que o próximo ano em que isso acontecerá, e são anos muito importantes para a história da humanidade, será o ano do Senhor de 6009 (holograma demonstra, aplausos, mais sangue nas rendas) mas que se todos cumprirmos nossas metas a nossa cultura e a nossa civilização e o nosso governo estarão firmes e fortes aguardando o ano de 6009 (pausa, mais aplausos) e enquanto isso um brinde a este novo ano (fogos, estouro de espumantes virtuais, chuva de hologramas de macarons cintilantes, abraços, beijos, mortes, estupros, latrocínios, incestos, sequestros relâmpagos, atentados, linchamentos) que se inicia, este feliz, este intenso, este inefável, este admirável novo ano de 2161!

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro, onde concluiu, pela PUC-Rio, a especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo. Como artista visual, participou, entre outras mostras, da XVI Bienal de São Paulo (1981). Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas, lançado em 2013, foi finalista do Concurso SESC de Literatura 2012/2013. Recebeu o prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 por seu segundo livro de contos, Como não aprender a nadar, lançado em 2016. Recebeu ainda as premiações por seus livros do contos ainda inéditos: Um livro quase vermelho, Prêmio Literário 2018 da Fundação Cultural do Pará — em processo de edição e publicação pela Fundação Cultural; e Aqui até o céu escreve ficção, Prêmio Literário 2018 da Fundação Cultural do Maranhão. “2161” é um conto que faz parte do seu livro Aqui até o céu escreve ficção.

plano-piloto v.2222, de Stella Paterniani

i.
era uma vez uma família
que foi morar embaixo do toldo azul
da comercial da 215 norte
uma vez rui
me chegou pedindo um prato de comida
eu comia sete corações de galinha
num prato branco me engasguei
vomitei quatro galinhas
cheias de pena de baba
e com casquinhas de feijão
se empoleiraram no rui
que se enroscou nos fios de couve
e levitou

ii.
na 105 sul o latido do cachorro lembrou
meu pai fazendo da mão uma conchinha e
assoprando
não era uivo silvo badalada brinde sirene
era eu agora embaixo d’água

e agora as superquadras submersas
acolhiam no playground um presépio
pequenos postes sinalizadores
amarelo sobre preto
pequenos cones bicolores
todas cores sobre preto
dançariam soltinhos
na gravidade subaquática

desprezando mijos de cachorros
desprezando beija-flores caramujos comemorações

e o cine brasília era um grande bolsão
de pouso submarino
pista de corrida de obstáculos pra peixes-palhaços
ponto de descanso de ouriços
cavalos-marinhos fazendo troça
e humanos brancos achando graça
em descobrir lavar polir verificar catalogar
nova espécie de coral

Stella Paterniani é antropóloga, professora, pesquisadora e traduz e escreve poesia. Tem se dedicado a pesquisar desafios a enquadramentos modernos com pessoas que lutam por um lugar para morar. Tem se dedicado também a traduzir poetas decoloniais. Já publicou na Revista Lavoura, traduções de Safia Elhillo na Pontes Outras e outras traduções no Ponto Virgulina. “plano-piloto v.2222” é inédito.

inventário de sombras, de Claudio Parreira

Das 9 às 6 eu inventario as sombras daqueles que foram eliminados pelo Novo Regime.

A coisa toda é bem simples: eu recebo um lote de arquivos — que são cuidadosamente escolhidos pelos membros do Novo Regime — e minha função é anotar os nomes e atividades subversivas do que as sombras foram um dia. É rápido, preciso e higiênico: sem emoção ou considerações filosóficas, o que me deixa à vontade para produzir na velocidade que as novas leis trabalhistas exigem. Ao final do expediente o inventário está pronto: 100, 200, 300 sombras catalogadas, medidas, pesadas. Às 6 em ponto os agentes do Novo Regime recolhem tudo e o meu trabalho vai para o fogo, para o esquecimento (sim, é preciso apagar todo e qualquer registro); de minha parte, só a satisfação do dever cumprido. As sombras, ora, fodam-se as sombras.

Estou aqui desde sempre, acho, desde antes do Novo Regime. Ou melhor, minto: antes que a Ordem fosse alterada eu fazia algo que já nem me lembro mais, e havia gente no lugar das sombras, havia amor e uma série de direitos ditos humanos. De que serviu tudo isso? Atraso civilizatório, perda de tempo e recursos, entulho humanístico e retórico. A Norma agora é a objetividade: sim senhor pois não seja feita a vossa vontade. Economiza uma série de inconvenientes e o país cresce de acordo com os interesses dos novos líderes.

Não posso dizer, no entanto, que sempre fui a rocha que sou hoje. Fraco, hesitante, passional: eu era isso. Bastava me deparar com uma sombra mais frágil e eu me punha a chorar feito criança. Os agentes do Novo Regime logo perceberam e me corrigiram, graças a Deus; hoje trilho com segurança e firmeza os promissores caminhos impostos pelo Regime.

* * *

Um dos lotes de arquivos que recebi hoje continha as sombras da minha mãe, dos meus irmãos e de uma antiga namorada. Era um teste. Volta e meia os agentes me aprontam coisas desse tipo. É uma armadilha para conferir a minha fibra, um recurso para avaliar a minha fidelidade aos métodos vigentes.

Tratei as sombras como sempre: com distanciamento e nojo. Pouco me importam agora os laços de família — é uma fraqueza, e como tal deve ser combatida. Não cedi aos apelos da emoção; os agentes, tampouco.

* * *

Faz dois dias que recebi um lote contendo apenas um arquivo — o meu. Dei a ele o mesmo tratamento, sem perguntas, sem lamúrias; como aprendi, é preciso ser profissional acima de tudo.

Em breve os agentes do Novo Regime virão me buscar para o fogo — porque eu sei demais. E é assim que deve ser: destruir todo e qualquer registro.

Não serei informado sobre quem vai ocupar o meu lugar; o Novo Regime tem lá as suas reservas e eu concordo com todas as suas decisões. Sei apenas o seguinte: o meu sucessor, de tanto inventariar sombras, acabará ele mesmo se tornando uma delas.

Como eu.

Claudio Parreira é escritor, foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Pela mesma editora, lançou o romance-provocação A Lua é Um Grande Queijo Suspenso no Céu, em 2017.