plano-piloto v.2222, de Stella Paterniani

i.
era uma vez uma família
que foi morar embaixo do toldo azul
da comercial da 215 norte
uma vez rui
me chegou pedindo um prato de comida
eu comia sete corações de galinha
num prato branco me engasguei
vomitei quatro galinhas
cheias de pena de baba
e com casquinhas de feijão
se empoleiraram no rui
que se enroscou nos fios de couve
e levitou

ii.
na 105 sul o latido do cachorro lembrou
meu pai fazendo da mão uma conchinha e
assoprando
não era uivo silvo badalada brinde sirene
era eu agora embaixo d’água

e agora as superquadras submersas
acolhiam no playground um presépio
pequenos postes sinalizadores
amarelo sobre preto
pequenos cones bicolores
todas cores sobre preto
dançariam soltinhos
na gravidade subaquática

desprezando mijos de cachorros
desprezando beija-flores caramujos comemorações

e o cine brasília era um grande bolsão
de pouso submarino
pista de corrida de obstáculos pra peixes-palhaços
ponto de descanso de ouriços
cavalos-marinhos fazendo troça
e humanos brancos achando graça
em descobrir lavar polir verificar catalogar
nova espécie de coral

Stella Paterniani é antropóloga, professora, pesquisadora e traduz e escreve poesia. Tem se dedicado a pesquisar desafios a enquadramentos modernos com pessoas que lutam por um lugar para morar. Tem se dedicado também a traduzir poetas decoloniais. Já publicou na Revista Lavoura, traduções de Safia Elhillo na Pontes Outras e outras traduções no Ponto Virgulina. “plano-piloto v.2222” é inédito.

inventário de sombras, de Claudio Parreira

Das 9 às 6 eu inventario as sombras daqueles que foram eliminados pelo Novo Regime.

A coisa toda é bem simples: eu recebo um lote de arquivos — que são cuidadosamente escolhidos pelos membros do Novo Regime — e minha função é anotar os nomes e atividades subversivas do que as sombras foram um dia. É rápido, preciso e higiênico: sem emoção ou considerações filosóficas, o que me deixa à vontade para produzir na velocidade que as novas leis trabalhistas exigem. Ao final do expediente o inventário está pronto: 100, 200, 300 sombras catalogadas, medidas, pesadas. Às 6 em ponto os agentes do Novo Regime recolhem tudo e o meu trabalho vai para o fogo, para o esquecimento (sim, é preciso apagar todo e qualquer registro); de minha parte, só a satisfação do dever cumprido. As sombras, ora, fodam-se as sombras.

Estou aqui desde sempre, acho, desde antes do Novo Regime. Ou melhor, minto: antes que a Ordem fosse alterada eu fazia algo que já nem me lembro mais, e havia gente no lugar das sombras, havia amor e uma série de direitos ditos humanos. De que serviu tudo isso? Atraso civilizatório, perda de tempo e recursos, entulho humanístico e retórico. A Norma agora é a objetividade: sim senhor pois não seja feita a vossa vontade. Economiza uma série de inconvenientes e o país cresce de acordo com os interesses dos novos líderes.

Não posso dizer, no entanto, que sempre fui a rocha que sou hoje. Fraco, hesitante, passional: eu era isso. Bastava me deparar com uma sombra mais frágil e eu me punha a chorar feito criança. Os agentes do Novo Regime logo perceberam e me corrigiram, graças a Deus; hoje trilho com segurança e firmeza os promissores caminhos impostos pelo Regime.

* * *

Um dos lotes de arquivos que recebi hoje continha as sombras da minha mãe, dos meus irmãos e de uma antiga namorada. Era um teste. Volta e meia os agentes me aprontam coisas desse tipo. É uma armadilha para conferir a minha fibra, um recurso para avaliar a minha fidelidade aos métodos vigentes.

Tratei as sombras como sempre: com distanciamento e nojo. Pouco me importam agora os laços de família — é uma fraqueza, e como tal deve ser combatida. Não cedi aos apelos da emoção; os agentes, tampouco.

* * *

Faz dois dias que recebi um lote contendo apenas um arquivo — o meu. Dei a ele o mesmo tratamento, sem perguntas, sem lamúrias; como aprendi, é preciso ser profissional acima de tudo.

Em breve os agentes do Novo Regime virão me buscar para o fogo — porque eu sei demais. E é assim que deve ser: destruir todo e qualquer registro.

Não serei informado sobre quem vai ocupar o meu lugar; o Novo Regime tem lá as suas reservas e eu concordo com todas as suas decisões. Sei apenas o seguinte: o meu sucessor, de tanto inventariar sombras, acabará ele mesmo se tornando uma delas.

Como eu.

Claudio Parreira é escritor, foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Pela mesma editora, lançou o romance-provocação A Lua é Um Grande Queijo Suspenso no Céu, em 2017.

#minicontos para futuro nenhum, de Adriane Garcia

1.
Havia sido um país incrível. Nunca um país perfeito, mas um país incrível. Agora, nem carnaval. Ninguém tinha coragem de vir, exceto os doentes depravados que pagavam em dólar para matar morador de rua. O presidente aprovava, todo mundo sabia. Ele tinha dito em entrevista que aprovava extermínios. Ontem, começaram a usar lança-chamas.

2.
Era o primeiro ano em que todos andavam armados. Elaine esperava o filho, sem dormir. Um tiroteio. Não era o primeiro. Mas desta vez, Leonardo não voltou.

3.
Era março de 2020. Debruçado na mesa, o desespero. Chorava porque tinha entendido agora. Chorava porque tinha metido uma bala no Tuca e daqui a pouco, tudo acabado. Marlene sumiu aos gritos, a polícia viria.

— Você não entendeu, Odair, que esse homem só queria que a gente mesmo exterminasse a gente?

4.
Servicinho sujo do Wilson e do Júnior. Sair à caça, à noite, para matar travestis. Gozo estranho, antes de apunhalar e gritar o nome do presidente fascista, ver, olhar. Eles gostavam de ficar olhando. Wilson escondia de Júnior certas inclinações. Júnior escondia de Wilson certos desejos. Tudo aplacado em fúria.

No sábado, completarão 17 assassinatos e receberão uma medalha; depois da leitura dos salmos.

5.
Meu irmão era negro. Quando eu descobri que ele ia votar no governo fascista, eu entrei em pânico. Não sei se foi intuição. Tentei de tudo, falei que ele não viveu em Venezuela nenhuma, que já havia um genocídio da população negra, que ia piorar ainda mais, mas não me ouvia, fascinado com o militar branco. Tudo me parecia surreal, ele conhecia de perto o racismo, eu queria dizer a ele: — acorda, acorda!

Mas não ali, baleado pela polícia; não ali, eu na beira de um caixão.

6.
A comida do mês não tinham. O aluguel também não. Um país desse tamanho e nem comida do mês nem aluguel. A gente de sorte, bem alimentada, julgava: pra que filho nesse miserê? Joana e Fabiano aguentando o sonho. Um dia, a vida melhorava e eles veriam os olhos vivos do filho. Fabiano queria menina. Joaninha. Mas despejo e fome. Pobre sonha? Assinaram os papéis em troca da nova bolsa “família”.

Joana saía da sala de esterilização, pálida e vencida.

7.
Entre celetistas terceirizados, estatutários antigos e carteiras verde e amarelo, o serviço público definhava. Carina se lembrava dos bons tempos de democracia, quando podia parcelar uma viagem ao Nordeste em dez vezes. Agora, nem isso.

8.
Eles viviam assediando as moças na saída do bar. Todos sabiam que Reinaldo e Roni eram dois idiotas. Lena e Mari já tinham escapado outras vezes. Porém, agora, eles estavam armados.

9.
Rafael escovava os dentes de frente para a TV. Pressa para pegar o segundo trampo. A popularidade do presidente caía vertiginosamente. Rafael tentava juntar algum que cobrisse a falta do décimo terceiro salário. As ações da Taurus subiam. Ele deu um tiro no pé.

10.
Lá fora, depois de alguns anos de doutrinação das igrejas — as creches passaram a ser neopentecostais — e dos novos conteúdos escolares ensinando Criacionismo e negando o Golpe de 64 e a Ditadura Militar, pouca gente ainda praticava o conhecimento. Isso poderia definir vida ou morte. Enairda voltava apressada e desconfiada, no inseguro caminho da estação do metrô para casa. Nenhum caminho era seguro, ainda mais para quem possuía livros.

11.
O cara entrou em campo, cometeu todas as faltas, comprou o juiz, roubou nos pênaltis, agrediu os jogadores adversários, fingiu que se machucou, fez todos os gols com a mão e teve a cara de pau dos desonestos de levantar a taça. A torcida dele, tão desonesta quanto, aplaudiu.

12.
Douglas e Sheila se despediram de Lucas. Tarde para chorar. O Brasil não se transformava na Venezuela. Transformava-se nas Filipinas. O novo presidente batera continência para a bandeira dos Estados Unidos e não fora à toa. Boas relações, apesar da oposição interna e do asco da comunidade internacional. Em outubro mesmo, já chegavam os primeiros tanques. A ordem era o Brasil invadir a Venezuela e retirar Maduro. Os casais que apoiaram o novo governo experimentavam a dor inédita de enviar um filho para a guerra.

13.
Plutão e Saturno estavam em Capricórnio, na casa doze. Era isso que eu falava para mim mesma, tentando me convencer de que nada poderia ser feito, além do que fizemos. Amigos queridos, conhecidos necessários iam desaparecendo. O novo governo parecia não ter defeitos, nem inimigos, já que a imprensa toda estava censurada. Os pobres já sabiam que foram enganados. A classe média não dava o braço a torcer, mas agora eram seus filhos na luta armada, tentando expulsar, à revelia dos seus pais, Plutão e Saturno em Capricórnio, na casa doze.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (Col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Ed. Penalux, 2018).