gueto entrevista Geovanne Otavio Ursulino

geovanne1. Para começar, conta um pouco sobre o livro Os gigantes atravessam o Eufrates (poemas, Editora Patuá, 2018).

Gigantes costumam aparecer em várias civilizações através dos milênios: os ciclopes na mitologia grega; Golias na mitologia judaico-cristã; na mitologia islâmica se acredita que Adão, o primeiro homem, foi criado por Alá como um gigante; os alquimistas buscavam criar seu golem — só para citar alguns exemplos. Há alguns poucos anos, neste lado do Eufrates (ou seria do Atlântico?) — o gigante acordou. Despertou consigo legiões de bestas devoradoras, saqueadoras, famintas. O que são características comum à maioria das narrativas envolvendo gigantes, assim também como todo um imaginário envolvendo brutalidade, violência, “barbaridade”, primitividade. Neste livro, os gigantes tomam o centro de boa parte das narrativas. Os quarenta poemas reunidos aqui transitam por perspectivas e vivências variadas: buscando não somente perceber as pontes (para o futuro) que proporcionaram a travessia dos gigantes: mas também tantas outras experiências que nos atravessam diariamente.

2. Como costuma ser seu processo de criação?

São raras as vezes em que saio de casa sem um dos meus cadernos de anotações: minha vida está rabiscada neles. Deste modo, todos os poemas que estão em os gigantes atravessam o eufrates, e também os poemas de como num inferno pra marinheiros, o livro anterior: foram escritos à mão entre lembretes de atividades do dia e anotações dos textos da universidade, somente depois foram ao editor de texto. Então são mais várias correções até eu não conseguir mais ler o poema. Acredito que seja uma atividade laboriosa, que demanda tempo, paciência, envolvimento para o poema ser lido, relido, corrigido, amadurecido, repensado — até alcançar sua forma final.

3. E como foi o processo de criação com Os gigantes atravessam o Eufrates? Você precisou realizar muitas pesquisas para escrever este livro?

Todos somos testemunhas oculares da mais recente farsa que envolveu o Brasil (este sonho/pesadelo colonial português) nos últimos anos. Basta sairmos à rua, pegar um ônibus, ou ir à padaria: somos atravessados por muitas manifestações de ódio, violência e ignorância descaradas. Costumamos dizer que o descaramento que tomou estas pessoas é um reflexo do mundo em que vivemos. O que não deixa de ser correto. Mas o inverso também o é. Não somos apenas um reflexo pálido do mundo que nos produz. Somos, nós mesmos, os produtores do Real. Portanto, temos parte no horror que aí está. Foi com isto em mente que me apropriei da imagem do gigante enquanto criatura bruta, bestial, primitiva e que possui uma grande potência à destruição — como forma de pensar sobre esta farsa que insistimos em discutir se é melhor chamar de impedimento ou de golpe enquanto não atentamos para as bases em que tudo isto se sustenta: o rapaz bem vestido e perfumado que encontramos quando saímos à rua, o senhor calmo que divide conosco os poucos centímetros que nos restaram no ônibus cheio, o jovem padeiro que acorda às 4h da manhã sonhando com seu primeiro salário. São pessoas comuns que narram este conjunto de poemas. São pessoas comuns, como qualquer outra pessoa, que dão a base para este horror. A proposta é, então, identificar como bestas gigantescas estes produtores e mantenedores.

4. Já tem um novo projeto em mente? Qual é? Ou costuma dar um intervalo na escrita entre um livro e outro?

Há sim alguns rascunhos espalhados por cadernos de anotações. Mas nada que nem se aproxime de um livro. E, devido à academia, duvido muito da possibilidade de escrever outro por algum tempo. É difícil pensar em intervalos ou não-intervalos entre a escrita de dois livros: há período em que se escreve muito em pouco tempo; mas também há períodos em que não se escreve nada em muito tempo. E, quanto a isso, ao menos comigo, pouco ou nada se tem para fazer.

5. O que você diria para quem está começando a escrever? Por que você começou a escrever?

A literatura é uma ferramenta única para a compreensão do mundo. Ela nos afeta de maneiras incríveis. Antes de mais nada, escrever é uma forma de ver o mundo que toca primeiro quem produz: talvez por isso tenha eu mesmo começado a escrever (claro que com um entendimento menor do que tenho hoje sobre essas questões). Só o ato de começar a escrever já demonstra um interesse nessas possibilidades mil que a literatura oferece. Então é continuar lendo, escrevendo, olhando o mundo, estando aberto às pessoas, situações, desejos que nos rodeiam. Na verdade, tento ficar com isso em mente o tempo todo, sendo eu mesmo alguém que estou começando a escrever.

Geovanne Otavio Ursulino vive em Maceió. Historiador. Editor da revista Alagunas. Publica no blog Amorfo Poema. Publicou o livro de poemas como num inferno pra marinheiros (Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2017) e, agora, os gigantes atravessam o eufrates (São Paulo: Editora Patuá, 2018). Contato: ursulino@alagunas.com.

Três poemas do livro Os gigantes atravessam o Eufrates (Editora Patuá, 2018) saiu na revista gueto no dia 1 de maio, você pode ler aqui: [link]

O lançamento será na segunda metade do mês de maio, no espaço cultural La Rosa Mossoró, em Maceió, no bairro do Jaraguá.

gueto entrevista Alexandre Staut

capa_staut1. Para começar, conta um pouco sobre a história do romance O incêndio.

O livro conta a história de uma biblioteca pública que está prestes a ser incendiada por uma prefeitura que decide cortar gastos com a cultura. Para não fechá-la de forma arbitrária, e não correr o risco de ser tomado por fascista, o poder público toca fogo no prédio. Quem conta o caso é o bibliotecário quixotesco do lugar.

Se pensarmos na história mundial dos livros e das bibliotecas, muitas foram incendiadas. Algumas, talvez, desse mesmo modo. No começo do ano, fiz leitura de trechos da história no salão do Livro de Paris (França) e uma pessoa veio me dizer que um de seus professores da Sorbonne pesquisa bibliotecas incendiadas ao redor do mundo. Há várias, ela me disse. Na França mesmo, que é o país da cultura e dos livros, há vários casos.

2. Como costuma ser seu processo de criação?

No caso deste livro, a história surgiu após uma visita à biblioteca da cidade em que nasci, em Pinhal (SP). O lugar estava decadente, com livros esfarelando, prateleiras tomadas por cupins, ninhos de pombas. Passei parte da infância nesse lugar. Então o livro é uma homenagem ao espaço e seus funcionários. Em linhas gerais, o livro surgiu assim. Cada um surge de uma forma própria. Quando tenho o tema de um livro, aí é sentar (e transpirar) para escrevê-lo.

3. E como foi o processo de criação com O incêndio? Precisou realizar muitas pesquisas para escrever este romance?

Algumas pesquisas. O conto “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, por exemplo, é um dos pontos de partida deste romance. Mas não sou um escritor de muitas pesquisas direcionadas à criação de livros. Gosto de ler e isso acaba, de alguma forma, entrando na minha escrita.

4. Já tem um novo projeto em mente? Qual é? Ou costuma dar um intervalo na escrita entre um livro e outro?

Tenho um volume pronto de histórias gastronômicas brasileiras. É um misto de livro de contos, com bastante história oral, e antropologia. Este projeto surgiu de uma visita que fiz a uma tribo indígena e permanece inédito. Foi prazeroso escrevê-lo. Quando o acabei, percebi que é um livro útil sobre cultura tradicional brasileira.

5. O que você diria para quem está começando a escrever? Por que você começou a escrever?

Se este for o desejo, a pessoa deve continuar. A escrita é algo democrático, se penso apenas na parte prática. O candidato a escritor precisa somente de papel e caneta ou de um computador e energia elétrica. Mas escrever é um trabalho de louco. É preciso investir muito tempo. E escrever talvez nem seja a parte mais difícil na vida de um escritor. Talvez publicar seja mais.

Comecei a escrever porque era meio deslocado no ambiente da escola, entre os colegas. Acabei me voltando às páginas dos livros. Daí deu um desejo incontrolável de esboçar algo na linha dos autores da minha infância… Lygia Fagundes Telles, José Mauro de Vasconcelos, Marques Rebelo, Fernando Sabino.

Alexandre Staut é o idealizador do site São Paulo Review e autor do livro Paris-Brest.

O primeiro capítulo do romance O incêndio (Folhas de Relva Edições, 2018) saiu na revista gueto no dia 10 de abril, você pode ler aqui: [link]

O lançamento acontece no dia 7 de maio, no Bar Balcão, em São Paulo, a partir das 19h. Endereço: Rua Dr. Melo Alves, 150. Jardins, São Paulo. Evento no Facebook: [link]