o prêmio do poeta, de Rosângela Vieira Rocha

Há tempos quero escrever sobre o espaço inbox do Facebook, por perceber que ali se desenvolve uma outra rede social, de fios mais finos e retorcidos, que se desdobram em outras teias menores, cheias de nós, sujeitas — em igual proporção — a acertos, erros e mal-entendidos. Tenho notícias de casamentos iniciados naquele espaço tão incômodo quanto prático, de términos de relações virtuais e reais, de discussões e arengas que poriam no bolso as Histórias das Mil e Uma Noites. É uma rede subterrânea aparentemente invisível, mas que tem vida própria e deve ser levada a sério.

Nada contra o espaço em si — que tem me permitido vender exemplares de livros, receber convites para palestras, oficinas, lançamentos e atividades artísticas de modo geral, além da solicitação de entrevistas, prefácios, contos e crônicas de pessoas e revistas literárias eletrônicas e impressas.

Ao lado do importante papel que desempenha na vida literária, que é o principal motivo que me leva a utilizar o Facebook, o inbox serve também para a troca de notícias rápidas com amigos queridos, convites em cima da hora, troca de informações sobre livros.

Mas o que importa mesmo, neste texto, é o uso daquele espaço para outros tipos de atividades, pertencentes, digamos, ao mundo subjetivo. Para ilustrar o tema, passo a narrar um diálogo pra lá de improvável que tive há alguns dias com um poeta estrangeiro.

Inicialmente, recebi um pedido de mensagem — que ocorre quando o ser não pertence à nossa lista de amigos — de um estrangeiro que escreve mais ou menos bem, dizendo que queria me conhecer, visando estabelecer uma grande amizade. Li várias vezes a mensagem, que nada tinha de invasiva ou perigosa, pelo menos explicitamente. O que me levantou suspeitas foi a figura aparentemente inocente de uma rosinha vermelha, no final do pequeno texto. Estranhei a vermelhidão toda. Rosa vermelha, numa mensagem inicial?

Dei um desconto pelo fato de ele ter outra cultura. Afinal, escreve em outro idioma. Que eu domino, mas não é o meu, e isso sempre pode gerar empecilhos à comunicação. Mesmo assim, não respondi. Rosa por rosa, breguice por breguice, a gente encontra aqui mesmo. Ocupada, fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo, dei o assunto por encerrado e me esqueci completamente do ser que se apresentou como poeta.

Três dias depois ele enviou nova mensagem, muito semelhante a primeira. E tome mais rosinha vermelha, com folha, cabinho e tudo. Li e reli as poucas frases — o segundo texto foi mais curto — e novamente não respondi.

Passados alguns dias, eis que chega uma terceira mensagem, num tom mais contundente, dessa vez acompanhada de pedido de amizade. Achei que era insistência demais — não dá pra dar tantos pontapés na sorte — e resolvi reconsiderar, aceitando logo a solicitação e iniciando uma resposta.

Ocorre que o cidadão estava online e logo deu o ar de sua graça. Perguntei-lhe como havia me descoberto na rede social. Por acaso, respondeu. (A menção ao acaso me pôs de cabelo em pé). Por acaso como, perguntei? Ah, uma coincidência, disse. Achei a resposta surreal e pedi que me contasse quem era ele. Sou estrangeiro, nascido no país X e morando em Y. O que faz aí? Quis saber. Trabalho com vendas, contestou vagamente. Vendas? Ah, sim, vendas. Sei. Além disso — continuou, com ironia mal contida — sou divorciado há X anos, não fumo há 17, não bebo há 12, não tomo café há dez, não jogo desde criancinha. E sou um tipo antifacebuquiano. Satisfeita? O tom desdenhoso e a referência ao cigarro me deram raiva, sou fumante. Pois eu fumo, tomo café várias vezes ao dia, não bebo álcool e não sei jogar pôquer, respondi.

Gosta de poesia? Sou poeta por hobby, um humilde poeta de província. Você é romântica? Mora sozinha?

Danou-se, pensei. Não vou conseguir conversar com essa criatura. Comentei como detesto a palavra “humilde”, quando se trata de arte. Nenhuma arte é humilde, disse. Por que humilde? Sem conseguir conter a irritação, ele fez a defesa da humildade, de cabo a rabo. Humildade é palavra digna, escreveu. Sim, disse eu, mas não combina com arte, não casa, não dá jogo, não dá liga.

Deixei de lado o tema da humildade e passei ao gosto pela poesia. Para descobrir se ele de fato sabia quem eu era, comentei que sou escritora. A criatura não passou recibo algum. (Se não sabe, pensei, é porque nunca buscou informações a meu respeito e deve ter enviado a mesma mensagem a dezenas de mulheres, indiscriminadamente).

Decidi perguntar de maneira direta a quantas mulheres aquele texto tinha sido mandado. Ele negaceou, de maus modos, mas não explicou o motivo de tê-lo enviado a mim. Aflita com o caminho que a tentativa de conversa tomava, tentei pôr panos quentes, buscar neutralidade, indagando como é o país, que não conheço, e a cidade onde ele mora, esforço que se revelou absolutamente inútil. Voltou à carga: pensei que, sendo professora, poderíamos ter uma conversa de alto nível, mas vejo que me enganei. Ainda não falou nada de si, e me fez um interrogatório. Não tenho de lhe provar nada, eu só queria me aproximar, ter uma “relação harmoniosa” com você.

Nesse ponto eu já tinha entendido que o tal poeta estava me cantando, que não tinha jeito de conversar com ele normalmente, civilizadamente, e que caíra numa esparrela. O jeito era fugir, e bem depressa.

Para meu espanto, ele perguntou novamente: você é romântica? Depende, disse eu. De quê? Depende do significado que a palavra tem para você. Como assim, você não sabe o que significa? Na literatura, sei, respondi. Mas na vida não sei direito, não. Gostaria que me explicasse.

Ah, já sei, é uma “intelectual”, respondeu. Talvez, disse eu. Ah, é? Por causa disso você merece um prêmio. Antes de qualquer reação minha, ele escreveu: sabe que prêmio? Um BLOQUEIO!!!

Perplexa, não entendendo nada do que tinha ocorrido, testei. Sim, o poeta tinha me bloqueado mesmo, com letras maiúsculas. O recém-aceito pedido de amizade já fora para os ares. Diante de caso tão surreal, procurei saber quem era. E se fosse outra pessoa se fazendo passar por ele? Um robô, um zumbi, que sei eu? Mas não, ele existe, encontrei provas materiais. Existe e teve muita raiva porque lambuzou o selo e não colou. Sem contar a notória falta de fair play. E de senso de humor, claro.

Agora, quando quero rir, repito baixinho a frase: Sabe que prêmio? Um BLOQUEIO. Parece mentira, mas não é. Um bloqueio. Assim, sem mais. E estamos conversados.

Rosângela Vieira Rocha é escritora, jornalista e professora da FAC-UnB aposentada. Tem doze livros publicados, cinco para adultos e sete infantojuvenis. É autora do romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2107).

marcos, de Márcia Denser

(eu sei que estou pulando muitos anos — eu parei no lançamento de O Animal dos Motéis, junho de 1981 — mas a escrita não raro não quer seguir a cronologia até porque agora eu precisava relatar certos fatos sobre quando e como e por que eu tive que aprender a amar em dado momento da minha vida, deixando a carreira e a literatura de lado por algum tempo, sendo apenas eu mesma, nua e sem bibliografia)

Chamava-se Marcos. Eu o conheci em setembro de 1989 numa galeria de arte. Fizera 40 anos e minha vida estava num momento difícil, um ponto sem retorno: acabara de escrever A Ponte das Estrelas, mandara para a Companhia de Letras, Brasiliense e Best-Seller pedindo um adiantamento de cerca de 5 mil dólares (minha cotação estava em alta) e esperava a retorno das editoras. Antes, no final de 1986, me demitira da Fiesp.

Trabalhara uns meses como redatora na Salles, uns meses como repórter e redatora na Folha (mais tarde falo disso em detalhes). Estivera na Alemanha, voltara, Ray-Güde me mandava uns royaltis das traduções, mas era pouco.

Antes da Ponte havia resolvido viver de literatura: topara no ano anterior escrever um romance de encomenda, Caim, para o José Carlos da Global, a partir dos incentivos da Lei Sarney (a antiga Ruanet), mas continuava muito pouco.

Para me manter no apartamento dos Jardins, decidi que não funcionava ter uma mãe no meio da vida, então despachei Dona Isa pra viver uns tempos com Teréca: ambas me amaldiçoaram durante décadas por isso!

Segundo Jung, a consciência tem duas funções superiores — razão e sentimento — e duas auxiliares — intuição e percepção. As quatro correspondendo aos elementos: razão = ar, sentimento = água, intuição = fogo, percepção = terra. Geminiana dupla, sou por excelência um tipo pensativo (seis planetas em Ar!), bastante intuitiva (3 planetas em fogo) e pragmática (um em terra), mas não tenho água no mapa. Ou seja, a função do sentimento eu a usava de forma extremamente primitiva, infantil. Era quase uma nota muda. Mas tal função precisa ser incorporada à consciência como parte da integração da personalidade, e isto será feito obrigatoriamente quer se queira ou não, por bem ou por mal, de forma tardia e absolutamente dolorosa para si próprio e quem estiver próximo, ou de forma suave, precoce, etc. O meu processo além de tardio foi extremamente doloroso pois implicou:

1) No processo de escrita de A Ponte das Estrelas (a ideia do Marcos Rey, meu conselheiro na época, era que eu escrevesse um best-seller que vendesse horrores para, então, poder escrever o que bem quisesse. Ledíssimo engano de ambos, claro. Mas neste livro integrei escrita e desenho — lembram que eu também desenhava? Pois é) que foi extenuante e mágico, além da consequente identificação com minha personagem, a princesa Blixen;

2) Também me identifiquei COMPLETAMENTE com a Maria Madalena do filme de Martin Scorcese, A Última Tentação de Cristo: furei o disco da trilha sonora de Peter Gabriel, tocava umas 20 vezes por dia (típico comportamento adolescente ligado na função sentimental tardia);

3) Numa conjunção de planetas (ou ponte de estrelas) em Capricórpio que ocorreu na época: Saturno, Plutão e Netuno (creio), perfeitamente de acordo com a lei da sincronicidade;

4) Na expulsão de Dona Isa lá de casa uma vez que esta atrapalhava minha busca por um parceiro (Vênus costuma ser especialmente cruel);

5) No investimento massivo de toda minha libido no sucesso editorial de A Ponte das Estrelas como minha obra-prima (vejam como eu estava maluca);

6) E no meu amor por Marcos que iria durar 7 anos.

Marcos tinha 37 anos (e, assim como eu, aparentava dez anos menos), era santista, um homem bonito (mas duma beleza na qual eu não teria sequer prestado atenção fosse outra época): alto, moreno, físico atlético e esbelto, queimado de sol, de finos traços espanhóis, calculadamente másculo, um tanto homossexual, antes, bissexual, lembrando certos garotos de programa: blazer, echarpes de seda, mangas arregaçadas, anel no dedo mínimo, pulseira de ouro, medalhão de corrente, excessivamente perfumado. Um sujeito ostensivo, parecendo esses sedutores profissionais. Provocava desconfiança. Parecia de Escorpião mas era Virgem, que aliás dá Virago. Mas o sorriso tinha um ricto amargo, sombras sob os olhos, um cansaço precoce e inesperado na expressão. Uma resignação antiga.

Filho mais novo de três irmãos, mãe viúva com propriedades, levava uma vida bem dura como bom filho de sua mãe da qual recebia mesada, pintava os quadros que ela mandava e herdaria algo de seu quando a velha empacotasse. Um tipo secundário integralmente sintonizado com o sentimento e as sensações — não me refiro às emoções — porém aqueles sentimentos profundos que nos consomem como ressentimento, ternura, ciúmes, saudades, rancores, inveja, nostalgias infinitas. E que moldam nosso caráter para sempre.

Tudo aquilo que para mim significava uma infinita perda de tempo — eu tinha mais o que fazer.

Não tinha. Não tinha mais.

Marcos não tinha dinheiro, não tinha emprego. Vivia da mesada da mãe num apartamento minúsculo no Paraíso cedido por ela, da venda de algumas obras em exposições ou para particulares aqui e ali. Investia numa carreira artística, mas faltavam relações, cultura e a grana suficiente. Talento tinha até demais — fora o garoto da praia que, 25 anos antes, ganhara todos os prêmios de escultura na areia.

Mas tornar-se artista plástico de sucesso é um investimento de altíssimo risco envolvendo muito dinheiro, várias décadas de dedicação constante, estudos, exposições, bolsas, a constituição e manutenção dum ateliê e respectivo acervo, viagens ao exterior.

De forma que, advindo duma família santista e dependendo financeiramente da mãe, tornou-se um artista eminentemente local. Provinciano. Aquele sujeito que, pra atender mamãe, pinta o quadro combinando com o sofá. A resignação antiga vinha daí. E eu me apaixonei perdidamente por ele. E duma forma tão irremediável e sem esperança que quase não sofria. Porque não ia adiantar.

A propósito: o adiantamento de 5 mil dólares foi pago pela Best-Seller — o que resolveria meu aluguel por um ano ou dois, algo essencial numa situação de desemprego, sem salário fixo — resolveria, se não fosse sequestrado pelo Plano Collor em março de 1990.

Avaliando tudo retrospectivamente Marcos e eu estávamos empatados: não tínhamos emprego e investíamos numa carreira artística.

Com a diferença que a minha estava feitíssima — aos 36 anos, com o lançamento de Diana Caçadora, meu quarto livro, cuja edição de três mil exemplares se esgotara em uma semana, eu realmente chegara ao auge. Com propostas de várias editoras, elogios da crítica mais rigorosa, aquela que é insubornável — Wilson Martins, Paulo Francis, Nelly Novaes Coelho, Leo Gilson Ribeiro —, entrevistas, programas de televisão e rádio, tema de dezenas de teses de mestrado e doutorado no Brasil e EUA, o trabalho de minha agente Ray-Güde com as traduções para os países de língua germânica, Alemanha, Suiça, Holanda (só muito mais tarde viria o leste europeu via Itamaraty), programas de intercâmbio e bolsas (DAAD via Ray, Iowa via Raduan Nassar, Fundação Calouste Gulbekian, via Lobo Antunes) no Exterior, bem como as traduções e pesquisas nas universidades nos EUA — eu era um sucesso unânime e irretocável tão grande, mas tão grande que em 1986 resolvi me demitir da Fiesp.

| do livro DesMemórias, capítulo 67 — lançamento em 2019. |

Márcia Denser é escritora e jornalista. Formou-se em comunicação e artes pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e tem pós-graduação em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Estreou na literatura com a coletânea de contos Tango Fantasma, que escreveu aos 23 anos de idade. Como jornalista, trabalhou para as revistas Nova, Interview e Vogue e para o jornal Folha de S. Paulo. Organizou as antologias de contos eróticos femininos Muito Prazer (1982) e O Prazer é Todo Meu (1984). Publicou também O Animal dos Motéis (contos, 1981), Exercícios para o Pecado (contos, 1984), Diana Caçadora (contos, 1986), Caim — Sagrados Laços Frouxos (romance, 2006), entre outros.

guinadas, de Marcos Vinícius Almeida

Uma amiga terminou o doutorado há mais ou menos dois anos e passou esses dois anos fazendo todo tipo de freela enquanto tentava concursos em universidades públicas. É o sonho dela. O mês passado ela foi aprovada para uma vaga de substituta numa cidade do Espírito Santo. Está muito feliz.

Mulher, negra, ela nasceu numa família de baixa renda, em que os pais não concluíram o ensino médio. Agora ela é doutora. Doutora de verdade, para além do hábito bacharelesco e aristocrático do pronome de tratamento para certas profissões. Passou sete anos, entre mestrado e doutorado, pesquisando o mesmo objeto. Tem um trabalho sério e consistente. De cientista, mesmo.

Ela partiu na última madrugada de ônibus do interior da Bahia e são mais ou menos umas dez horas de viagem até a cidade que vai trabalhar. Uma cidade com uma praia aconchegante, ela me disse.

Está muito feliz com seus fones de ouvido e olhando a paisagem escura e silenciosa que passa rapidamente na janela. Um tanto quanto ansiosa, talvez. Dessa ansiedade feliz que toma conta da gente nessas horas de guinadas na vida. Talvez esteja pensando em tudo que teve que superar pra ter essa oportunidade. Racismo, o preconceito de classe, de gênero, aquele olhar do avaliador na entrevista. Aquele comentário você não é bem o perfil que nós estamos procurando. O chiado abafado do ônibus que avança noite adentro rumo ao litoral.

Ela me escreve dizendo algumas dessas coisas. Outras imagino. Uso a intuição. Ela me diz que o ônibus teve um problema na porta. São umas quatro e meia da manhã. Parados num pequeno posto de gasolina melancólico próximo de Eunápolis. Apenas um velho Fiat Uno vinho parado do lado de fora.

Ela aproveita pra usar o banheiro e só há um banheiro. Cobram dois e cinquenta. Ela hesita. Mas como está muito apertada e ainda precisa aguardar o outro ônibus, conta as moedas e entra.

Está tudo muito quieto. A luz amarelada e o lugar frio. Um cheiro forte de água sanitária. Quando vira o pequeno corredor, há uma figura de costas, diante do espelho. Uma coisa meio absurda. Um palhaço, mais ou menos magro, as roupas puídas. Usa umas botinas duras. E está se pintando, sem pressa. Uma velha lata de talco branco e uma tinta gordurosa, vermelho vivo. O palhaço se vira, mas não sorri. Metade do rosto maquiado.

Me arranja uma moeda, diz o palhaço. É pra inteirar o café.

Um tanto abismada, ele tira a primeira nota que encontra na carteira. É uma nota de vinte. Entrega pra ele.

Acabei de receber, ela diz, como que se desculpando pela caridade.

Quando o novo ônibus chega, ela entra. O dia já vem saindo. Da janela, ela vê o palhaço. À beira da estrada, tentando carona. Ela até ergue a mão, pensando em fazer um tchau. Que absurdo, quase diz pra si mesma. O ônibus dá a partida. Que vida doida, ela diz. E sorri.

Marcos Vinícius Almeida é escritor e jornalista. Cresceu em Minas, mas vive em São Paulo. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, é autor do volume de contos Paisagem interior (Editora Penalux, 2017). Foi um dos vencedores do Prêmio Ufes de Literatura por duas vezes, nas edições de 2010 e 2015. E-mail: mvalmeida.7@gmail.com

colônia, de Patricia Porto

Um dos meus primeiros trabalhos na vida foi num armarinho. Eu tinha uns 15 anos. A dona era uma portuguesa que contratava criança pra trabalhar por míseros dinheiros. Na mesma época li Crime e Castigo. Lia em pé nas longas horas vazias sem clientes. Alfinetes, linhas, botões, meias, bugigangas de plástico, brinquedos de plástico, muita merda de plástico. Em meus delírios, ainda bem acordada, me imaginava a assassina da patroa branca e rosada. E foi por tanto desejar que um dia pedi demissão. A bruxa me pagou as horas do dia e só. Disse que pagava o restante depois, mas nunca. Joguei todas as pragas que eu conhecia nela, todo mau agouro. Todos os dias esmagava seus olhos e apertava seu pescoço gordo e suado até sentir bom prazer. Quando chegou o Natal, a bruxa enfim me chamou no armarinho. Achei que fosse pagar o que me devia, mas nunca. Pegou um embrulho mal feito e estendeu a mão. “Toma. Estamos quites”. Fui rasgando o papelão pelo caminho. Era um grande e desconjuntado bebê de plástico. Fui arrancando parte por parte até chegar em casa. A grande bebê de plástico comida pelo caminho. Tentei esquecer, mas nunca. Posso sentir o gosto de plástico até hoje na boca. Queria uma revolução, mas o mundo era feito de dor, chumbo e barbárie.

| crônica inédita do livro de narrativas híbridas A memória é um peixe fora d’água (no prelo) |

Patricia Porto é maranhense, doutora em políticas públicas e educação, formada em Literatura. Publicou a obra acadêmica Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura (indicada ao prêmio Capes) e os livros Sobre pétalas e preces, Diário de viagem para espantalhos e andarilhos e Cabeça de Antígona (Editora Reformatório). Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é Coordenadora do Projeto Pre-Vest Popular ANF (Agência de Notícias das Favelas).

sabe que vai se atrasar, de Gustavo Petter

Atraso.

Sabe que vai se atrasar. Com certeza vai. Faltam vinte minutos. É culpa da longa espera naquela fila monstruosa que saía da lotérica e avançava pela calçada. Mas, se tivesse pago a conta e já ido aonde deveria, chegaria a tempo, sem precisar correr com a moto pelas ruas. O problema é ter escolhido percorrer a rua do sebo, mesmo sabendo que vai entrar e bisbilhotar os livros. Conferir as novidades.

Foda-se chegar atrasado. Foda-se nada, a consciência não está tão indiferente assim. Tudo bem, o atraso foi compensado pelo livro que encontrou. Houve a intuição de que algo especial o esperava naquelas estantes. Leu lombada por lombada com atenção. Se alguém o estivesse espiando, acharia engraçado os olhos arregalados, fixos, cuidadosos para não perder nenhum título. Lera tantas vezes aquelas fileiras que qualquer novidade prenderia seu olhar, como um dente de ouro quebrando o ritmo de um sorriso.

Pegou o livro sem dúvida alguma se o compraria ou não. Ninguém o tiraria de suas mãos. Enquanto retoma a caminhada pela rua, pensa não em acelerar para diminuir o atraso e sim no que escreverá como recordação da compra, talvez vinte e nove de maio de dois mil e dezessete, pago com a última cédula da carteira, só restaram moedas, poucas, não enchem a palma da mão.

Moedas de pouco valor, pequenas, menores que os olhos que o recepcionam severos em duro silêncio. Que cheirinho doce, é tudo que importa agora, as flores exalando. Respira devagar, profundo, enquanto se move lento em direção ao corpo quase submerso entre as brancas corolas.

Gustavo Petter mora em Araçatuba/SP, é professor. Mantém o blog Agradável Degradado. Tem poemas e traduções publicados na revista g.u.e.t.o, mallarmargens, Germina, Escamandro, Modo de Usar, Diversos Afins, Alagunas. Participou da exposição Poesia Agora no Rio de Janeiro.

um outro clichê, de Tamiris Volcean

As roupas saíam sempre quentes da secadora, como os abraços dados ao final do dia. O calor chegava às mãos em um encontro de carne e alma. Cheiro de roupa limpa impregnado com a essência da noite anterior. Postas uma a uma em cabides organizados simetricamente no armário, as camisetas, quase sempre pretas, iam esfriando, deslizando e desfazendo as dobras. Uma delas, entretanto, continuava amassada. Pronta para acomodar cada costura torta no corpo de um segundo eu.

A camiseta, com a gola já surrada pelo tempo, parecia ter sido moldada no formato dela. Vestia fácil, como água de rio em correnteza. Era um santuário. Quando dentro, ela sentia-se completamente envolta por ele. Abraço permanente que só findava ao amanhecer.

Fazia parte de um ritual de pertencimento. Amedrontava-a dividir espaços. Sua escova escondia-se na primeira gaveta. Não queria ocupar um lugar que não era seu. A camiseta era a fuga do medo de tornar par os objetos de um só.

Aquele pedaço de pano verde desbotado não era dela. Era dele. Presente dele para ela.

Às cinco da manhã fazia meio-dia. Um tempo além do que ela podia segurar. Ela não sabia ser. Não conhecia a si própria para se entregar ao som de Last Kiss. Era feito pássaro engaiolado em seus medos. Cobria-se de vergonha ao pensar em liberar as asas e dançar junto a ele.

Aquele sotaque manso permeou o peito antes de se apresentar aos ouvidos. Ela odiava bonés e, ainda assim, pareceu-lhe uma boa ideia explorar o que vinha debaixo daquela aba que vira pela primeira vez. Às cinco da tarde fazia meia-noite em Paris e ela não sabia lidar com a escuridão.

Causou-lhe espanto quando, de repente, encontrava-se ali naquele mirante, que custaram a chegar. Deitada na grama, olhavam as luzes acesas dos prédios que circundavam a cidade e, por horas, brincaram de imaginar a vida das pessoas que habitavam cada quadrado de concreto iluminado. Arriscaram palpites para quebrar a timidez. Se soubesse lidar com a escuridão dos olhos dele, com certeza ela os intimidaria com as mais belas histórias que construíra em sua mente. Preferiu ficar no trivial. Ela tinha 18 anos e muita coisa para descobrir.

Naquele tempo, os dias corriam lentos. Quinta-feira era sagrada. Dia de encontrar um ao outro. De quinta em quinta, ele foi ficando. Tornou-se o primeiro e despertou-lhe a curiosidade de ser mulher. Segurou-lhe as mãos e deu-lhe vida. Ela, em troca, insegurança.

Colocou-a dentro do carro, trocou o CD e mexeu no volume com movimentos só seus. Ele tinha um jeito especial de controlar o som. Seguiram sem rumo até a última faixa do álbum. Estacionaram no centro de uma cidadela vizinha. Às duas da manhã fazia um horário qualquer. Não tivera tempo de checar o relógio. A praça central estava vazia. Ele a pegou no colo, caminhando até uma escadaria de pedras gastas impulsionou o voo dela. O primeiro. O gosto da liberdade em forma de sopro da madrugada.

Era solstício de verão, o sol teimava em arder e ela não tirou o casaco. A urgência de sentir o calor que emanava da pele dele a fazia suar. O fluido destilado por seus poros escorria pelas têmporas. Hesitou e permaneceu agasalhada. Não se sabe se por medo ou precaução das queimaduras podiam vir a arder.

O dia levou certo tempo para chegar ao fim e o sol sobre o trópico de Capricórnio iluminou aquele encontro por doze meses e um punhado de semanas. Chegou o equinócio e ela, com olhos constantemente turvos d’água, ainda tropeçava pelos caminhos que a levariam ao encontro de si própria. Às quatro da manhã o relógio parou. Dia e noite com a mesma duração. Dançaram a última música nas primeiras horas. Ela colocou seus pés sobre os dele e, suavemente, subiu e deixou que aquele som que ele escreveu para ela guiasse seus passos. Ela foi a segunda pessoa do mundo a ouvir a música que era sua. Rodopiaram no centro do quarto. Mal sabiam que o solstício de inverno, com sua frente fria, se aproximava. Ao final daquele dia, desataram o laço. Ele a queria de corpo e alma, mas ela nunca tinha vislumbrado nada além do que está refletido no espelho. Não podia oferecer o que desconhecia.

A verdade é que ela não desejava estar ali. Não naquele momento. Queria partir, conquistar um sonho ainda não sonhado. Impulsionada pelo o que nunca existiu, tentava conter sua coragem em um baú de madeira aos pés da cama. Aquela caixa de madeira maciça, abarrotada de histórias antigas, não tinha espaço para trancafiar tamanha energia. O trinco estourou e feito agulha entrou em seus ouvidos. Perdera o controle. Suas mãos não eram fortes o bastante para conter o destino. Ela ainda não sabia disso.

Deitada sobre o chão de ardósia fria, suplicava pela presença. Não entendia de onde é que vinha aquele tremor. Era do lado de fora ou de dentro dela? Prestes a explodir, juntou tudo o que era dele em uma caixa de papelão. Roupa de dormir, livros e DVDs. Naquela época, costumava-se ir a locadoras. Tinham esquecido de devolver um exemplar. O último filme que assistiram juntos.

Aquele lugar não fazia sentido sem a presença dele. Juntou a bagagem de alguns anos e partiu. Deixou para trás uma vida e incendiou-se. Num voo mimético ao de uma fênix, renasceu das cinzas e pousou no próximo destino. Ela ainda não sabia, mas era ali o local de seu segundo nascimento. O ponto exato onde descobriria a identidade do seu próprio eu.

Pouco a pouco, a distância fez a dor amenizar. Já não tinha mais tempo para culpá-lo por sua mudança. Às vezes, enfurecia-se. Pensava que, talvez, ele pudesse ter causado essa mudança propositalmente, com a pretensão de afastá-la. Noutro tempo, esquecia-se do seu timbre de voz. Forçava a memória até ouvir a voz dele chamando seu nome ao longe. Presa em um ciclo de padecimento e alívio, ela vivia.

A saudade cedeu lugar a um sentimento até então desconhecido. Ela sabia que aquela despedida era permanente. Ele foi a última visita de seu apartamento. Em meio às caixas empilhadas, amaram-se. Ela pediu para ele ficar mais uma centena de vezes. Ele negou outras mil. Recusou-se a dormir ao seu lado na noite derradeira, mas só decidiu ir embora quando o sol já despontava no horizonte. Em um último suspiro de esperança, pararam debaixo do batente da porta e olharam-se. Ela, desesperada para ficar, ele, para que ela voasse. A dobradiça chorou as lágrimas dela enquanto enchiam os pulmões do silêncio da despedida. Dele, restou apenas uma música do Pato Fu e meia dúzias de cartas de amor. Matou-o para poder seguir em frente.

A morte é sempre uma saída. Exterminação total do problema. Mas ele nunca fora um problema para ela. Experimentou, depois de alguns anos de análise, deixar de falar sobre ele no pretérito. Ele não era. Ele é. Ele vive.

Só quando admitiu que ainda pulsava aquele coração foi que tirou a venda que cobria seus olhos. O brilho da verdade fez a pupila dilatar. Ardeu. Dor que se espalhou por todo o corpo. Compreendeu, finalmente, que a ausência dele não era feita de morte, mas de vida. Ele a deixou partir por escolha, não consequência. Ele quis que ela tivesse a sua hora da estrela.

Aos 18, ela sentiu curiosidade de ser mulher, mas só tornou-se muitos anos depois. Sentiu-se mulher quando, encarando aquele lugar lá na frente, teve a certeza de que amou e foi amada. Verdadeiramente. Carnalmente. Espiritualmente. Não porque ele espalhou rosas por todo o seu caminho enquanto estiveram juntos. O que a fez ter certeza foi a ausência. Ele ausentou-se para que ela pudesse ter presença. Soltou as mãos dela para que ela corresse em direção àquele lugar lá na frente. Amor é saber onde mora a felicidade do outro. E ele sabia.

Gritando no abismo da desaparição, ela quer que ele saiba que ela, de agora em diante, é por inteiro. Corpo e alma. Hoje, ela é. Hoje, ela vive.

| crônica do livro As pessoas que matamos ao longo da vida, publicado pela Editora Reformatório, no segundo semestre de 2016 |

Site: http://aspessoas.weebly.com/

Tamiris Volcean é jornalista, mestranda em Comunicação pela Unesp, professora de Literatura e, atualmente, está de partida para Paris. Em 2016, publicou o livro As pessoas que matamos ao longo da vida, pela Editora Reformatório, que é uma coletânea de crônicas, gênero preferido da escritora.

a chegada, de Christiane Angelotti

Ela chegou numa manhã ensolarada. Bem cedo, fazendo com que a casa inteira despertasse. Primeiro, veio a avó abrir a porta, havia sido acordada pelo barulho do carro entrando na garagem. Depois, uma das crianças acordou e, mesmo tentando não despertar os irmãos, ao sair do quarto bateu a porta. Em segundos todos se puseram em pé. A correria na escada de madeira ecoou por toda a casa acordando também o avô, e ele nem ouvia muito bem. Todos se colocavam diante da porta de entrada, aguardando a novidade que chegava. A caçula, atrás de todos, ficava na ponta dos pés, tentando entender o que acontecia. Ainda estava um pouco adormecida. Primeiro entrou o pai, sorrindo. Parecia que havia voltado a ser criança. Entusiasmado, perguntou se estavam todos preparados. As crianças pulavam eufóricas. A caçula não entendia nada e não conseguindo enxergar o que se passava, pôs-se a chorar. O pai atravessou, ainda todo sorridente, o pequeno hall de entrada onde aguardavam com enorme expectativa as três crianças e os avós, e pegou a menorzinha no colo. “Vem meu bem, todos nós teremos que ajudar.” Foi então que surgiu a mãe segurando uma pequena cesta de vime, que foi colocada no chão, sobre o tapete felpudo da sala. E lá estava ela. Tão pretinha que brilhava. Tão gordinha e pequenina. Descobriram, todos eles, que a alegria também estava contida naquele pequeno cesto de vime. Estava lá, toda encolhida e dormindo, a primeira cachorrinha da família. Gritos, sorrisos, pulos, palmas e um entusiasmo geral. Todos queriam tocá-la. Após ouvirem as orientações da avó, as crianças fizeram fila para pegar o animal. Durante todo o dia, a família se revezava para admirar aquela que seria a companheira deles pelos próximos dezessete anos.

| crônica do livro A construção da paisagem, 2012 |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

gourmetização, de Angel Cabeza

Eis que abro minha caixa de e-mails e lá está o convite de um amigo para a festa de seu filho. Sei que as coisas andam estranhas, que eventos assim se tornaram escassos devido ao acúmulo de afazeres tecnológicos, e que as bolinhas de queijo e rissoles perderam o brilho, mas quem sabe ainda exista um olho de sogra redentor em pleno século de celulares e selfies? Uma simples e velha festa com direito a música da Xuxa e coxinha fria?

Não preciso ir além de alguns cliques para confirmar minha tese pessimista de que perdemos a infância para a gourmetização. Lá estava o happy finger foods and tapas estampando o convite e eu me perguntando como um garoto de 11 anos poderia fazer tal análise gastronômica.

Talvez por sermos de uma época em que as festas eram mais “exóticas”, você e eu, leitor criado a cajuzinhos, estranhemos. A começar pelos convites, que eram escritos à mão em desbotados modelos de papelaria. Quanto mais duvidosos, melhor. Embora não deixassem rastros visuais sobre o gênero do aniversariante, valiam o suspense. Acredito que muitos recorreram a cartomantes e búzios para descobrirem se compravam uma boneca ou um carrinho. Hoje abandonamos o “em mãos” e tudo chega nas caixas de e-mails, provavelmente produzidos por um birthday design.

Os temas também evoluíram. Se antes flutuavam entre bolos de fruta e palhaços assustadores — e acredito na tática assumida dos palhaços para que as crianças mais entusiasmadas não roubassem os brigadeiros da mesa — agora prestigiam o surrealismo mágico e disforme dos corantes e manteiga, flutuando entre a Peppa Pig e Bob Esponja. Uma festa descolada precisa de um Cake Boss com modelagem francesa e a dúvida dos convidados — que não entendem a “desconstrução-conceitual-warholiana” do bolo ou não sabem se estão num aniversário ou casamento.

O ponto alto das festas também se foi. As saudosas coxinhas e pizzas frias de sardinha da avó foram reestruturadas para as famosas tapas (a primeira vez em que fui a um restaurante e o rapaz perguntou se eu queria uma tapa, quase fomos à delegacia) com seus canapés de parma e figos marinados, trouxinhas de peru com sour cream de amora, rabanetes esvoaçantes com cabelos de cenoura flambados, bastonetes peruanos de milho enluarado ou pinchos de luas impressionistas (nada mais do que ovo de codorna com molho rosé).

Bolinhos encharcados de óleo ou quibes carbonizados? Moderno mesmo é contratar um table stylist para uma mesa arquitetada com a precisão de um Niemeyer. Se não houver espaço para uma esfirra desconstruída pela cozinha molecular, que acredito ser necessário um curso superior em biologia ou física para tal, nem pense na festa. Tente falar sobre o olho de sogra e a ira divina recairá sobre você. Onde já se viu, olho de sogra? Com tanto brigadeiro gourmet de café, paçoca, chocolate invertido, nada de ameixa seca.

Sim, caro leitor gourmetizado sem saber, perdemos o estrambólico dos aniversários bregas. Abandonamos os chapéus de elástico, os sacos de pipoca, os pirulitos de açúcar. Rissoles mixurucas, com aquela suposta papinha duvidosa de camarão, nunca mais. Após a gourmetização de nossas crianças, “Que Marravilha!”, a pressão no pratinho de salgados cresceu e vivemos numa prova do Master Chef com eliminatória dupla na categoria pâtisserie. E ai de você dizer ao seu filho que fará só um bolinho. Será o mesmo que dizer “bolo de fubá” e “papai não te ama”.

Há uma luz no fim do bolo, eu sei. Um festeiro atento poderá respirar aliviado, pois tudo o que encontramos atualmente não passa de uma releitura de nossa saudosa breguice de infância. Se finger food é comer com os dedos e tapas são porções pequenas e variadas, além daquilo que dávamos no filho quando enfiava o dedo no bolo, pode colocar as coxinhas de volta ao cardápio, pois nada está perdido. É só argumentar com convicção e demonstrar a real influência da nova gastronomia, que fez escola com a vintage food: botecos, pororocas, coxinhas e palhaços assustadores.

No fim das contas, não há nada de novo no reino das bolinhas de queijo. Ou seriam cheese balls?

Angel Cabeza é carioca. Poeta, cronista, produtor editorial e gráfico, publicou Sempre existe um último momento (crônicas, 2011) e Vidro de guardados (poemas, 2010). Integra as antologias O Casulo, 29 de abril, O verso da violência, Escritores da Língua Portuguesa, Volume I, Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina e Geração em 140 caracteres. Possui textos publicados em revistas literárias, entre elas Germina, Zunái, Odara (UFRJ), Eutomia, Cronópios, Saúva, Subversa, Cuarto Próprio e Generación Espontánea. Blog: http://angelcabezza.blogspot.com.br

bar do elvis, de Carlos Conte

Vavá era alto, magro, orelhas grandes, nariz longo e cheio de pelos. Um dono de bar à moda antiga, sempre de jaleco branco, calça social, sapatos de couro, e aquele gel no cabelo penteado pra trás. O abridor de garrafa não lhe saía do bolso nem o pano do ombro, e os pedidos ele ia anotando em papeizinhos que afixava na parede usando durex. “Vavá de Valter?”, eu perguntei um dia. “Não. Eu tenho o nome da capital dos Estados Unidos”, respondeu com orgulho. Vavá era fã do Elvis Presley. Tão fã que a gente chamava o lugar de Bar do Elvis.

Era pequeno, bem estreito, com um longo balcão de madeira revestido de fórmica bege dividindo o salão em duas partes, desde a porta da frente até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram dominadas pelo Rei: cartazes, quadros, notícias de jornal, discos. Na TV de 14”, que ficava em cima do balcão, sempre estava passando algum vídeo do Elvis. Vavá devia ter a filmografia completa, desde shows até os filmes em que o Rei atuou. Uma vez fui sozinho pra lá, pedi uma cerveja e assisti do balcão ao famoso show do Havaí, aquele em que o Elvis aparece de colar havaiano e está usando uma daquelas suas roupas extravagantes da fase setentista que acabaram se tornando sua marca registrada. Tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou branca de um macacão com brilhos e franjas, além das costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa à fantasia. Eu estava de gladiador. Formávamos uma dupla incrível.

Lá no Elvis tinha umas figuras curiosas. Todo bar tem as suas. O Velho Marinheiro, por exemplo. Barba branca, boininha de lado, cigarro pendurado na boca, copo eternamente na mão, ele parecia o Capitão McCallister dos Simpsons, só que mais gordo e acabado. O roteiro era sempre igual: ele enchia a cara de cerveja e conhaque e acabava pegando no sono sentado, com o cigarro na boca e o copo cheio. Vavá, gentleman como sempre, deixava o velho em paz e só o cutucava na hora de fechar. Mas teve um dia em que o Velho Marinheiro começou a se mijar todo e aí o Vavá precisou entrar em ação. Talvez sonhando estar diante de uma privada, o Velho começou a mijar ali mesmo, sentado, de braguilha aberta e tudo, segurando o pau pra fazer mira. Formou-se rapidamente uma enorme poça sob a mesa. Já tinha visto bêbado mijar nas calças, mas aquilo era diferente. O Velho, mesmo dormindo, teve as manhas de descer o zíper, sacar a pistola, fazer mira, e aí dane-se se tem uma privada na tua frente ou não. Tudo bem. O Vavá nem ligou. Discreto, chamou um táxi, pôs o Velho lá dentro e telefonou à esposa, como sempre fazia, pra avisar que o marido bebum estava a caminho.

Certa vez o Vavá me revelou o verdadeiro motivo da morte do Rei:

— Vou contar uma coisa — disse em tom de confissão. — Você sabe, o Elvis morreu.

— Claro — respondi.

— É que tem gente por aí que acha que ele não morreu. Dizem que ele fugiu, que cansou de ser celebridade, sei lá. Nunca ouviu isso não?

— Já ouvi alguma coisa…

— … e que hoje vive escondido em algum lugar, vivendo no anonimato e protegido por uma tal de lei de proteção a testemunhas ou algo do tipo. Mas isso é coisa de gente louca — ele disse abaixando o volume da voz e olhando direto nos meus olhos. — Você cai nesse papo? Eu não caio nesse papo. Com tanto paparazzi, Carlos, você acha que já não teriam flagrado ele tomando banho de sol numa praia do Caribe?

Assenti com a cabeça.

— “Elvis não morreu” é uma isca criada pelo mercado pra manter as lojas vendendo…

Vavá se empolgava ao falar do Rei.

— Mas tem um detalhe que pouca gente sabe, Carlos — e, chegando ainda mais perto de mim sobre o balcão, como quem vai revelar um segredo guardado a sete chaves, pôs a mão próximo à boca e sussurrou no meu ouvido. — Dizem que foi droga, mas não foi não…

— Sério, Vavá? Não sabia.

— Pois é. Pouca gente sabe. A imprensa fala que ele morreu por abuso de calmantes, mas não é verdade.

— Não?

— Não. A verdade é que o Elvis morreu cagando.

— O quê?

— Isso mesmo: cagando. Ca-gan-do — ele soletrou. — Dá pra acreditar? Acharam o corpo dele caído no chão do banheiro. Ele tava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.

Dei um longo gole de cerveja.

— Cagando, Vavá?

Ele continuou falando baixo, agora assumindo um tom lamurioso:

— E queria o que, Carlos? Não foi por falta de aviso. O médico cansou de falar pra ele se alimentar melhor, pra comer fibra, comer fruta, mas o cara era teimoso, só comia Mcdonalds, bacon, ovo frito.

Elvis não soube se cuidar e deixou uma legião de Vavás inconformados e saudosos para trás. Quase fiz a piada infame “então o Rei morreu no lugar certo: o trono!”, mas considerei que isso poderia ferir seus sentimentos.

Ele continuou:

— Fez tanta força que a veia não aguentou, não teve jeito… — disse, já resignado. — E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo e tal… Mas a realidade pouca gente sabe. Só quem é fã mesmo. Eu sei porque estudei.

— Leu numa biografia?

— E você acha que alguma biografia vai falar isso? Não seja ingênuo, Carlos. Todos foram muito bem pagos pra calar o bico. Já disse: as lojas têm que continuar vendendo camisetas com a cara do Rei. E assim a banda toca, você sabe…

Sinceramente, não acho que a imagem do Rei do rock seria manchada caso se comprove a versão polêmica de Vavá. De todo modo, não disse nada. Por consideração ao Vavá, por respeito. Voltei a tomar minha cerveja, ele voltou a fazer suas coisas atrás do balcão.

Na TV, um Elvis ainda jovem cantava “Love me tender”: “Me ame com ternura / me ame com doçura / nunca me deixe partir”. Vavá tinha começado a limpar a tela da TV com o pano: primeiro passou delicadamente nos cantos empoeirados, depois no centro, esfregando em movimentos circulares todo o retângulo brilhante, como se fizesse carinho no rosto do ídolo, ao mesmo tempo em que tirava as manchas de gordura. “Você tornou minha vida completa / e eu te amo tanto”. Cada vez mais próximo da tela, cara a cara com o Rei, o rosto de Vavá se iluminou. “Eu serei seu por todos os anos / até o final dos tempos”. Quando o vídeo terminou, ele se afastou lentamente da TV, largou o pano sobre o próprio ombro e tomou uma dose de conhaque.

Vavá faleceu anos depois e o Bar do Elvis foi vendido e demolido para dar lugar a um estacionamento.

Carlos Conte é professor de redação e sociologia. Escreve crônicas e contos.

questão de calço, de Adriana Brunstein

Há muito, muito tempo, eu caminhava com a minha mãe pela Paulista e um senhor, logo a nossa frente, deixou cair parte de um daqueles bilhetes da loteria federal. Eu me prontifiquei a pegá-lo e devolvê-lo, mas ela me advertiu: “Adriana, é um truque. Ele vende bilhetes. Assim que você pegar ele vai dizer que foi obra do destino e que você tem que comprar aquele bilhete, que vai ganhar o prêmio”. Era verdade. Ele fazia isso mesmo. Não só ele, mas dezenas de vendedores. E eu era uma garotinha que acreditava em tudo, inclusive em pessoas. Para mim era inconcebível alguém ser tão ardiloso assim. Eu queria mesmo a vitória do que o destino supostamente me reservara, passar pela vitrine da lotérica ao redor da qual vários sonhadores se acumulavam e ver meus números ali. Eu queria que aquele senhor realmente soubesse das coisas que iriam acontecer. Aí eu me assustaria bem menos. Mas anos depois, eu já estava no colegial, voltando de ônibus para casa, e dessa vez foi uma senhora que se meteu a fazer previsões para mim. Eu fiquei estupefata, como era possível ela saber tanto sobre uma adolescente com cabelo de poodle rebelde, ouvindo Iron Maiden no walkman e patches do AC/DC costurados na calça? Como é que ela saberia que eu tinha atritos com meus pais? E então ela me disse, depois de tudo, que era pra eu me levantar que meu ponto estava chegando. Mais uma vez eu acreditei que havia algo reservado para mim, porque aquela senhora não poderia ser mais uma ardilosa que num outro dia qualquer, naquele mesmo ônibus, pediria algo em troca daquelas previsões, né? Mas o auge aconteceu mesmo no shopping Eldorado. Caminhava eu, já em tempos de universidade, gastando minha bolsa de iniciação científica inteira numa calça da M. Officer, quando uma menina magra se aproximou de mim e disse que sentiu algo muito estranho. Eu devo ter uma cara de trouxa ímpar. Pois bem, ela me disse que tinha uma inveja gigantesca em cima de mim e que inclusive haviam amarrado meu nome na boca de um cavalo. Como é que é? Na boca de um cavalo? Sim, era muito grave alguém fazer isso, mas por sorte a tia dela era uma ótima desmanchadora de feitiços e se eu desse uma grana para as velas isso se resolveria logo. Eu estudava Física, o que raramente me daria um futuro abastado, era dura que só, namorava um cara que pouco se diferenciava de uma parede, quem diabos amarraria meu nome na boca de um pobre cavalo? Ela fez aquele olhar de Whoopi Goldberg recebendo Patrick Swayze e disse que foi uma mulher morena. Oras! Quem é que nunca foi sacaneado por uma mulher morena, caramba? Gastei a grana das velas provavelmente num McDonalds´s pensando em como, de fato, temos vontade de acreditar em qualquer coisa que nos justifique esse estranhíssimo estar por aqui, que às vezes pesa demais. Se aquele senhorzinho lá do começo não tivesse destruído meus sonhos, eu não carregaria medos nas velhas pistolas de plástico que outras crianças enchiam de água para se divertir. Mas bem disse Pascal, toda a infelicidade do homem decorre de uma só coisa: ser incapaz de ficar sossegado no seu quarto. No entanto, ele jamais falou o que fazer com os bichos papões que a gente esconde embaixo da cama e vai aumentando o calço só pra ela não balançar tanto. Envelhecer é bater a cara no teto.

Adriana Brunstein é Ph.D. em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 — Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada pelo 13º Cultura Inglesa Festival com o curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental pela Panelinha Books (2012), participa das antologias de contos Casa de Orates (Editora Mondrongo, 2016) e O Outro Lado da Notícia (@link Editora, 2016). Lança, em breve, Pancho Villa não sabia esconder cavalos, pela Editora Laranja Original. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Mallarmargens, Germina, Diversos Afins e Escritoras Suicidas.