a chegada

Ela chegou numa manhã ensolarada. Bem cedo, fazendo com que a casa inteira despertasse. Primeiro, veio a avó abrir a porta, havia sido acordada pelo barulho do carro entrando na garagem. Depois, uma das crianças acordou e, mesmo tentando não despertar os irmãos, ao sair do quarto bateu a porta. Em segundos todos se puseram em pé. A correria na escada de madeira ecoou por toda a casa acordando também o avô, e ele nem ouvia muito bem. Todos se colocavam diante da porta de entrada, aguardando a novidade que chegava. A caçula, atrás de todos, ficava na ponta dos pés, tentando entender o que acontecia. Ainda estava um pouco adormecida. Primeiro entrou o pai, sorrindo. Parecia que havia voltado a ser criança. Entusiasmado, perguntou se estavam todos preparados. As crianças pulavam eufóricas. A caçula não entendia nada e não conseguindo enxergar o que se passava, pôs-se a chorar. O pai atravessou, ainda todo sorridente, o pequeno hall de entrada onde aguardavam com enorme expectativa as três crianças e os avós, e pegou a menorzinha no colo. “Vem meu bem, todos nós teremos que ajudar.” Foi então que surgiu a mãe segurando uma pequena cesta de vime, que foi colocada no chão, sobre o tapete felpudo da sala. E lá estava ela. Tão pretinha que brilhava. Tão gordinha e pequenina. Descobriram, todos eles, que a alegria também estava contida naquele pequeno cesto de vime. Estava lá, toda encolhida e dormindo, a primeira cachorrinha da família. Gritos, sorrisos, pulos, palmas e um entusiasmo geral. Todos queriam tocá-la. Após ouvirem as orientações da avó, as crianças fizeram fila para pegar o animal. Durante todo o dia, a família se revezava para admirar aquela que seria a companheira deles pelos próximos dezessete anos.

| Crônica do livro A construção da paisagem, 2012 |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

a torta de sonhos quebrados

Lembro-me das tardes e noites em que voava para mundos desconhecidos, de animais fantásticos e princesas encasteladas à espera do príncipe que só chegava ao final da história. Monstros marinhos em reinos fabulosos, dragões malvados de chamas incandescentes e sorridentes baleias encantadas que engoliam pessoas para devolvê-las depois ao mundo dos homens. Gostava mais das histórias do mar em que havia peixes e sereias. Era como entrar no meu mundo particular que tão bem conhecia já naquela tenra idade. Os banhos de mar que você me ensinou a tomar, pulando a onda quando a onda vinha. “Gosto do banho de mar cheio”, você dizia, enquanto flutuava na onda quando a onda vinha.

A leitura era sempre um capítulo à parte na minha boa vida de criança atenta aos livros e personagens. As letras sempre estiveram entre os brinquedos preferidos junto com os quitutes que você fazia. Os bolos felpudos cobertos de açúcar branco que imita a neve sobre a massa fofinha do doce de leite separada em fatias amareladas pelas gemas, farinha, manteiga, açúcar e chocolate.

O deleite e o direito do neto em raspar com o dedo indicador a bacia onde foi batida a mistura. Sentado no chão, gemendo como sempre fiz ao experimentar o manjar dos deuses das crianças felizes. Lamber a bacia podia ser melhor que o próprio bolo, mas nada se comparava à torta em camadas de pudim, cremes, cobertura e dos sonhos de valsas quebrados e perdidos num vale de felicidade.

Lembro-me de tudo isso e de muito mais vidas quando estou deitado na cama tendo você ao lado na cadeira de balanço com um livro sobre as duas mãos. O olhar furtivo escapa por cima das páginas de tempos em tempos para ver se a criança dormiu. Eu sorrio em correspondência ao seu sorriso: “Continua”?! Eu peço, quase implorando. E você nunca se nega a atender ao pedido do seu neto único.

Arnaud Mattoso é jornalista e escritor pernambucano, da capital Recife. Tem dez livros publicados entre ficção literária, não ficção e poesia. Atualmente, mora na cidade de Olinda com esposa, cães, plantas e banho de mar semanal. Escreve diariamente.

gourmetização

Eis que abro minha caixa de e-mails e lá está o convite de um amigo para a festa de seu filho. Sei que as coisas andam estranhas, que eventos assim se tornaram escassos devido ao acúmulo de afazeres tecnológicos, e que as bolinhas de queijo e rissoles perderam o brilho, mas quem sabe ainda exista um olho de sogra redentor em pleno século de celulares e selfies? Uma simples e velha festa com direito a música da Xuxa e coxinha fria?

Não preciso ir além de alguns cliques para confirmar minha tese pessimista de que perdemos a infância para a gourmetização. Lá estava o happy finger foods and tapas estampando o convite e eu me perguntando como um garoto de 11 anos poderia fazer tal análise gastronômica.

Talvez por sermos de uma época em que as festas eram mais “exóticas”, você e eu, leitor criado a cajuzinhos, estranhemos. A começar pelos convites, que eram escritos à mão em desbotados modelos de papelaria. Quanto mais duvidosos, melhor. Embora não deixassem rastros visuais sobre o gênero do aniversariante, valiam o suspense. Acredito que muitos recorreram a cartomantes e búzios para descobrirem se compravam uma boneca ou um carrinho. Hoje abandonamos o “em mãos” e tudo chega nas caixas de e-mails, provavelmente produzidos por um birthday design.

Os temas também evoluíram. Se antes flutuavam entre bolos de fruta e palhaços assustadores — e acredito na tática assumida dos palhaços para que as crianças mais entusiasmadas não roubassem os brigadeiros da mesa — agora prestigiam o surrealismo mágico e disforme dos corantes e manteiga, flutuando entre a Peppa Pig e Bob Esponja. Uma festa descolada precisa de um Cake Boss com modelagem francesa e a dúvida dos convidados — que não entendem a “desconstrução-conceitual-warholiana” do bolo ou não sabem se estão num aniversário ou casamento.

O ponto alto das festas também se foi. As saudosas coxinhas e pizzas frias de sardinha da avó foram reestruturadas para as famosas tapas (a primeira vez em que fui a um restaurante e o rapaz perguntou se eu queria uma tapa, quase fomos à delegacia) com seus canapés de parma e figos marinados, trouxinhas de peru com sour cream de amora, rabanetes esvoaçantes com cabelos de cenoura flambados, bastonetes peruanos de milho enluarado ou pinchos de luas impressionistas (nada mais do que ovo de codorna com molho rosé).

Bolinhos encharcados de óleo ou quibes carbonizados? Moderno mesmo é contratar um table stylist para uma mesa arquitetada com a precisão de um Niemeyer. Se não houver espaço para uma esfirra desconstruída pela cozinha molecular, que acredito ser necessário um curso superior em biologia ou física para tal, nem pense na festa. Tente falar sobre o olho de sogra e a ira divina recairá sobre você. Onde já se viu, olho de sogra? Com tanto brigadeiro gourmet de café, paçoca, chocolate invertido, nada de ameixa seca.

Sim, caro leitor gourmetizado sem saber, perdemos o estrambólico dos aniversários bregas. Abandonamos os chapéus de elástico, os sacos de pipoca, os pirulitos de açúcar. Rissoles mixurucas, com aquela suposta papinha duvidosa de camarão, nunca mais. Após a gourmetização de nossas crianças, “Que Marravilha!”, a pressão no pratinho de salgados cresceu e vivemos numa prova do Master Chef com eliminatória dupla na categoria pâtisserie. E ai de você dizer ao seu filho que fará só um bolinho. Será o mesmo que dizer “bolo de fubá” e “papai não te ama”.

Há uma luz no fim do bolo, eu sei. Um festeiro atento poderá respirar aliviado, pois tudo o que encontramos atualmente não passa de uma releitura de nossa saudosa breguice de infância. Se finger food é comer com os dedos e tapas são porções pequenas e variadas, além daquilo que dávamos no filho quando enfiava o dedo no bolo, pode colocar as coxinhas de volta ao cardápio, pois nada está perdido. É só argumentar com convicção e demonstrar a real influência da nova gastronomia, que fez escola com a vintage food: botecos, pororocas, coxinhas e palhaços assustadores.

No fim das contas, não há nada de novo no reino das bolinhas de queijo. Ou seriam cheese balls?

Angel Cabeza é carioca. Poeta, cronista, produtor editorial e gráfico, publicou Sempre existe um último momento (crônicas, 2011) e Vidro de guardados (poemas, 2010). Integra as antologias O Casulo, 29 de abril, O verso da violência, Escritores da Língua Portuguesa, Volume I, Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina e Geração em 140 caracteres. Possui textos publicados em revistas literárias, entre elas Germina, Zunái, Odara (UFRJ), Eutomia, Cronópios, Saúva, Subversa, Cuarto Próprio e Generación Espontánea. Blog: http://angelcabezza.blogspot.com.br

bar do elvis

Vavá era alto, magro, orelhas grandes, nariz longo e cheio de pelos. Um dono de bar à moda antiga, sempre de jaleco branco, calça social, sapatos de couro, e aquele gel no cabelo penteado pra trás. O abridor de garrafa não lhe saía do bolso nem o pano do ombro, e os pedidos ele ia anotando em papeizinhos que afixava na parede usando durex. “Vavá de Valter?”, eu perguntei um dia. “Não. Eu tenho o nome da capital dos Estados Unidos”, respondeu com orgulho. Vavá era fã do Elvis Presley. Tão fã que a gente chamava o lugar de Bar do Elvis.

Era pequeno, bem estreito, com um longo balcão de madeira revestido de fórmica bege dividindo o salão em duas partes, desde a porta da frente até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram dominadas pelo Rei: cartazes, quadros, notícias de jornal, discos. Na TV de 14”, que ficava em cima do balcão, sempre estava passando algum vídeo do Elvis. Vavá devia ter a filmografia completa, desde shows até os filmes em que o Rei atuou. Uma vez fui sozinho pra lá, pedi uma cerveja e assisti do balcão ao famoso show do Havaí, aquele em que o Elvis aparece de colar havaiano e está usando uma daquelas suas roupas extravagantes da fase setentista que acabaram se tornando sua marca registrada. Tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou branca de um macacão com brilhos e franjas, além das costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa à fantasia. Eu estava de gladiador. Formávamos uma dupla incrível.

Lá no Elvis tinha umas figuras curiosas. Todo bar tem as suas. O Velho Marinheiro, por exemplo. Barba branca, boininha de lado, cigarro pendurado na boca, copo eternamente na mão, ele parecia o Capitão McCallister dos Simpsons, só que mais gordo e acabado. O roteiro era sempre igual: ele enchia a cara de cerveja e conhaque e acabava pegando no sono sentado, com o cigarro na boca e o copo cheio. Vavá, gentleman como sempre, deixava o velho em paz e só o cutucava na hora de fechar. Mas teve um dia em que o Velho Marinheiro começou a se mijar todo e aí o Vavá precisou entrar em ação. Talvez sonhando estar diante de uma privada, o Velho começou a mijar ali mesmo, sentado, de braguilha aberta e tudo, segurando o pau pra fazer mira. Formou-se rapidamente uma enorme poça sob a mesa. Já tinha visto bêbado mijar nas calças, mas aquilo era diferente. O Velho, mesmo dormindo, teve as manhas de descer o zíper, sacar a pistola, fazer mira, e aí dane-se se tem uma privada na tua frente ou não. Tudo bem. O Vavá nem ligou. Discreto, chamou um táxi, pôs o Velho lá dentro e telefonou à esposa, como sempre fazia, pra avisar que o marido bebum estava a caminho.

Certa vez o Vavá me revelou o verdadeiro motivo da morte do Rei:

— Vou contar uma coisa — disse em tom de confissão. — Você sabe, o Elvis morreu.

— Claro — respondi.

— É que tem gente por aí que acha que ele não morreu. Dizem que ele fugiu, que cansou de ser celebridade, sei lá. Nunca ouviu isso não?

— Já ouvi alguma coisa…

— … e que hoje vive escondido em algum lugar, vivendo no anonimato e protegido por uma tal de lei de proteção a testemunhas ou algo do tipo. Mas isso é coisa de gente louca — ele disse abaixando o volume da voz e olhando direto nos meus olhos. — Você cai nesse papo? Eu não caio nesse papo. Com tanto paparazzi, Carlos, você acha que já não teriam flagrado ele tomando banho de sol numa praia do Caribe?

Assenti com a cabeça.

— “Elvis não morreu” é uma isca criada pelo mercado pra manter as lojas vendendo…

Vavá se empolgava ao falar do Rei.

— Mas tem um detalhe que pouca gente sabe, Carlos — e, chegando ainda mais perto de mim sobre o balcão, como quem vai revelar um segredo guardado a sete chaves, pôs a mão próximo à boca e sussurrou no meu ouvido. — Dizem que foi droga, mas não foi não…

— Sério, Vavá? Não sabia.

— Pois é. Pouca gente sabe. A imprensa fala que ele morreu por abuso de calmantes, mas não é verdade.

— Não?

— Não. A verdade é que o Elvis morreu cagando.

— O quê?

— Isso mesmo: cagando. Ca-gan-do — ele soletrou. — Dá pra acreditar? Acharam o corpo dele caído no chão do banheiro. Ele tava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.

Dei um longo gole de cerveja.

— Cagando, Vavá?

Ele continuou falando baixo, agora assumindo um tom lamurioso:

— E queria o que, Carlos? Não foi por falta de aviso. O médico cansou de falar pra ele se alimentar melhor, pra comer fibra, comer fruta, mas o cara era teimoso, só comia Mcdonalds, bacon, ovo frito.

Elvis não soube se cuidar e deixou uma legião de Vavás inconformados e saudosos para trás. Quase fiz a piada infame “então o Rei morreu no lugar certo: o trono!”, mas considerei que isso poderia ferir seus sentimentos.

Ele continuou:

— Fez tanta força que a veia não aguentou, não teve jeito… — disse, já resignado. — E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo e tal… Mas a realidade pouca gente sabe. Só quem é fã mesmo. Eu sei porque estudei.

— Leu numa biografia?

— E você acha que alguma biografia vai falar isso? Não seja ingênuo, Carlos. Todos foram muito bem pagos pra calar o bico. Já disse: as lojas têm que continuar vendendo camisetas com a cara do Rei. E assim a banda toca, você sabe…

Sinceramente, não acho que a imagem do Rei do rock seria manchada caso se comprove a versão polêmica de Vavá. De todo modo, não disse nada. Por consideração ao Vavá, por respeito. Voltei a tomar minha cerveja, ele voltou a fazer suas coisas atrás do balcão.

Na TV, um Elvis ainda jovem cantava “Love me tender”: “Me ame com ternura / me ame com doçura / nunca me deixe partir”. Vavá tinha começado a limpar a tela da TV com o pano: primeiro passou delicadamente nos cantos empoeirados, depois no centro, esfregando em movimentos circulares todo o retângulo brilhante, como se fizesse carinho no rosto do ídolo, ao mesmo tempo em que tirava as manchas de gordura. “Você tornou minha vida completa / e eu te amo tanto”. Cada vez mais próximo da tela, cara a cara com o Rei, o rosto de Vavá se iluminou. “Eu serei seu por todos os anos / até o final dos tempos”. Quando o vídeo terminou, ele se afastou lentamente da TV, largou o pano sobre o próprio ombro e tomou uma dose de conhaque.

Vavá faleceu anos depois e o Bar do Elvis foi vendido e demolido para dar lugar a um estacionamento.

Carlos Conte é professor de redação e sociologia. Escreve crônicas e contos.

questão de calço

Há muito, muito tempo, eu caminhava com a minha mãe pela Paulista e um senhor, logo a nossa frente, deixou cair parte de um daqueles bilhetes da loteria federal. Eu me prontifiquei a pegá-lo e devolvê-lo, mas ela me advertiu: “Adriana, é um truque. Ele vende bilhetes. Assim que você pegar ele vai dizer que foi obra do destino e que você tem que comprar aquele bilhete, que vai ganhar o prêmio”. Era verdade. Ele fazia isso mesmo. Não só ele, mas dezenas de vendedores. E eu era uma garotinha que acreditava em tudo, inclusive em pessoas. Para mim era inconcebível alguém ser tão ardiloso assim. Eu queria mesmo a vitória do que o destino supostamente me reservara, passar pela vitrine da lotérica ao redor da qual vários sonhadores se acumulavam e ver meus números ali. Eu queria que aquele senhor realmente soubesse das coisas que iriam acontecer. Aí eu me assustaria bem menos. Mas anos depois, eu já estava no colegial, voltando de ônibus para casa, e dessa vez foi uma senhora que se meteu a fazer previsões para mim. Eu fiquei estupefata, como era possível ela saber tanto sobre uma adolescente com cabelo de poodle rebelde, ouvindo Iron Maiden no walkman e patches do AC/DC costurados na calça? Como é que ela saberia que eu tinha atritos com meus pais? E então ela me disse, depois de tudo, que era pra eu me levantar que meu ponto estava chegando. Mais uma vez eu acreditei que havia algo reservado para mim, porque aquela senhora não poderia ser mais uma ardilosa que num outro dia qualquer, naquele mesmo ônibus, pediria algo em troca daquelas previsões, né? Mas o auge aconteceu mesmo no shopping Eldorado. Caminhava eu, já em tempos de universidade, gastando minha bolsa de iniciação científica inteira numa calça da M. Officer, quando uma menina magra se aproximou de mim e disse que sentiu algo muito estranho. Eu devo ter uma cara de trouxa ímpar. Pois bem, ela me disse que tinha uma inveja gigantesca em cima de mim e que inclusive haviam amarrado meu nome na boca de um cavalo. Como é que é? Na boca de um cavalo? Sim, era muito grave alguém fazer isso, mas por sorte a tia dela era uma ótima desmanchadora de feitiços e se eu desse uma grana para as velas isso se resolveria logo. Eu estudava Física, o que raramente me daria um futuro abastado, era dura que só, namorava um cara que pouco se diferenciava de uma parede, quem diabos amarraria meu nome na boca de um pobre cavalo? Ela fez aquele olhar de Whoopi Goldberg recebendo Patrick Swayze e disse que foi uma mulher morena. Oras! Quem é que nunca foi sacaneado por uma mulher morena, caramba? Gastei a grana das velas provavelmente num McDonalds´s pensando em como, de fato, temos vontade de acreditar em qualquer coisa que nos justifique esse estranhíssimo estar por aqui, que às vezes pesa demais. Se aquele senhorzinho lá do começo não tivesse destruído meus sonhos, eu não carregaria medos nas velhas pistolas de plástico que outras crianças enchiam de água para se divertir. Mas bem disse Pascal, toda a infelicidade do homem decorre de uma só coisa: ser incapaz de ficar sossegado no seu quarto. No entanto, ele jamais falou o que fazer com os bichos papões que a gente esconde embaixo da cama e vai aumentando o calço só pra ela não balançar tanto. Envelhecer é bater a cara no teto.

Adriana Brunstein é Ph.D. em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 — Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada pelo 13º Cultura Inglesa Festival com o curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental pela Panelinha Books (2012), participa das antologias de contos Casa de Orates (Editora Mondrongo, 2016) e O Outro Lado da Notícia (@link Editora, 2016). Lança, em breve, Pancho Villa não sabia esconder cavalos, pela Editora Laranja Original. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Mallarmargens, Germina, Diversos Afins e Escritoras Suicidas.

imprecisões de um legado

Se já não é bom sinal que uma ambulância vermelha esteja bloqueando o trânsito da avenida, que dirá agora que, de mais próximo, é possível ver que são duas.

Nessas ocasiões, a curiosidade, animal sem rédeas, arrasta nossa atenção para o meio dos escombros. Quase como autômatos, vamos farejando os detalhes do caos, de maneira a encontrar o que nos faça, em seguida, virar o rosto em reação de choque, isso faz parte da nossa natureza contraditória. É pagar pra ver e também pra deixar de ver.

Esta aqui é uma cena sem carros destroçados, sem cadáveres cobertos por lona, sem sangue acumulado em poça, nada há de matéria-prima para disseminação entre celulares. Mesmo assim não é o caso de subestimar o seu potencial de provocar abalos, esta aqui é uma cena em que o impressionante está nas sutilezas.

A garotinha rechonchuda tem todas as partes do rosto tomadas por um brilho úmido, fez-se ali profusão de lágrimas, alagamento de aflições. Já não chora, os olhos miram o nada, demoram-se bem abertos numa paralisia de hipnose, ela até talvez ignore o que a socorrista lhe sussurra ao ouvido. Mais ao lado, uma das ambulâncias está com as portas de trás escancaradas. Feito pedaço de língua saltado da boca, uma pequena parte da maca avança para fora, deixando ver sobre ela as pernas de alguém, aparentemente uma mulher idosa. Não, não deve ter sido atropelamento, isso tem mais a ver com mal súbito. Como se vê, de curiosos a peritos em investigação, vamos num pulo.

De volta à garotinha. Os cabelos dela mergulham em forma de cachos tão bem definidos que mais parecem esculpidos um a um. De fato, não foi tarefa daquelas concluídas em dois tempos, inclusive porque a tonalidade rósea do lacinho na cabeça combina muito graciosamente com o vermelho-claro do vestido e com o vermelho-escuro das sandálias nas quais se espalham carinhas da Minnie, degradê bem pensado, daí pressupondo o apuro afetuoso, o zelo em cuidar, o jeito aplicado de apresentar uma criança ao mundo.

A cena vai ficando para trás, por lá muitas dúvidas insatisfeitas, ocorrência inconclusa, nada resta senão torcer, ainda que a torcida, para o bem ou para o mal, seja quase sempre inútil, mentalização com efeito placebo. E assim, provavelmente inócua, a torcida persiste para além da próxima avenida. Que o penteado feito à custa do cuidado em demora não se consuma como um último legado.

Flávio Sanso foi finalista do concurso Off Flip de contos/2015 e 2016. Recebeu o Prêmio Rubem Braga pelo 2º lugar no concurso de Crônicas promovido pelo SESC/DF. É autor do romance A base do iceberg. Suas crônicas são publicadas no site www.flaviosanso.com.