a peteca, de Chico Viana

Eu fazia o segundo ano ginasial. Meu colégio não era nenhum modelo de prática pedagógica, mas gozava de prestígio na cidade. Estava longe de ser, como se costuma dizer de certas escolas, pagou, passou. Também não impunha aos alunos grandes desafios; estudando razoavelmente, a gente conseguia passar de ano até chegar ao temido vestibular. Isso permitia que eu tivesse um razoável sucesso, pois as peladas e os jogos de botão não me impediam de fazer os deveres e me preparar para as provas.

A turma deixava a desejar quanto à disciplina. Falava-se muito, gritava-se vez por outra. Havia dias em que os professores não conseguiam controlar a classe e tinham que chamar o diretor. Ele vinha, dava uma lição de moral, prometia suspender ou mesmo expulsar os rebeldes. Isso nos acalmava um pouco, mas não era suficiente para nos manter concentrados. Bastava um espirro, uma tosse estridente (proposital!) para que começassem os risos, que não raro evoluíam para a algazarra.

Quem nunca tinha esse tipo de comportamento era Jurandir. Sua mãe enviuvara e vivia de faxinas. Como a família não tinha condições de pagar a escola, ele recebera uma bolsa e procurava corresponder com um comportamento exemplar. Evitava todo tipo de indisciplina e era muito esforçado. Sabia que o bom comportamento e a aplicação eram essenciais para que continuasse como aluno. Evitava, assim, deixar-se levar pelas más disposições de espírito dos colegas, cujos pais podiam pagar não apenas a escola como também o curso de língua estrangeira (além de outros pequenos luxos da classe média).

Entre nossos professores, havia um que era mais duro. Chamava-se Godofredo (quando ele disse o nome, olhamo-nos com um ar de riso). Godofredo dava aula sentado, com a cabeça baixa. Mandava-nos ler um trecho de Camões, ou de Machado de Assis, e pedia que interpretássemos. Como quase ninguém dizia nada, ele não tinha papas na língua para enfatizar a nossa estupidez. Éramos estúpidos porque não tínhamos interesse em ler, conhecer a nossa literatura, dominar os recursos semânticos e sintáticos para escrever bem…

Hoje entendo melhor Godofredo. Ele tinha um amor verdadeiro pela língua e queria nos transmitir um pouco disso. Queria que crescêssemos. O que lhe faltava era a habilidade para nos sensibilizar. Preferia o confronto direto, a ilustração de nossas fragilidades. Não suportava indisciplina, e quando a turma se mostrava rebelde ele ameaçava chamar os pais para uma “conversa séria”.

O que houve numa de suas aulas me marcou para sempre. Foi numa dessas ocasiões em que estava difícil controlar a turma, que na aula anterior praticamente expulsara a professora Gisleide, de História (uma candura de pessoa, mas sem força para impor disciplina). Godofredo entrou na sala sério, sentou-se como fazia habitualmente e abriu a gramática. Nesse momento a peteca irrompeu não sei de onde e passou rente ao seu rosto. O giz não o atingiu diretamente, mas bateu no quadro e foi parar em cima do birô. Ele pegou o pequeno petardo, examinou-o, e em seguida olhou para a turma com ar colérico, como se fosse revidar.

— Quem foi?

Silêncio. Godofredo ficou nos encarando por cerca de meio minuto. Repetiu a pergunta:

— Quem foi?! Quero saber agora!

Como ninguém falasse, ele aliviou o semblante e esboçou um sorriso:

— Perguntei por perguntar, pois sei quem jogou a peteca. Eu queria ver se o autor tinha a decência de se revelar.

Depois de dizer isso, apontou para um de nós e falou num tom que não admitia réplica:

— Seu Jurandir, saia da classe e vá até a diretoria. O senhor está suspenso.

Jurandir ficou branco e começou a tremer. Com voz sumida, tentou negar:

— N…não f…fui eu.

Sabíamos que não tinha sido ele, mas Godofredo insistia. Repetiu alto, como se falasse para toda a turma:

— Foi, sim! Eu vi. Tenha a dignidade de reconhecer e vá à diretoria.

Jurandir levantou-se, encurvado, com lágrimas nos olhos. Olhamo-nos sem saber o que dizer. Como suportar aquela enorme injustiça? Godofredo parecia convencido e não estava disposto a voltar atrás. Se ao menos tivesse apontado outra pessoa…

Mas antes de o acusado transpor o umbral da porta, um dos alunos se levantou e disse de um jato:

— Não foi ele, professor. Fui eu.

Respiramos aliviados. Não nos surpreendia que tivesse sido Claudionor. Ele era pouco estudioso e costumava fazer baderna. Talvez até gostasse de passar um tempo em casa, vendo televisão e lendo gibis.

Godofredo dirigiu-se então a Jurandir, que havia parado quando ouvira o colega assumir a culpa:

— Volte, seu Jurandir. Sente-se no seu lugar.

Depois olhou para o responsável pela brincadeira, que continuava em pé enquanto era alvo do olhar da turma:

— E você, seu Claudionor, vá para a diretoria.

Voltou ao birô e pediu que abríssemos o livro de textos. Tentávamos voltar ao normal. Notei que ao longo da aula Jurandir permaneceu intranquilo. Parecia desconcentrado e tinha no rosto um resto de palidez. O que se passava pela sua cabeça? Pensava, talvez, que teria sido vítima de uma injustiça caso o colega não assumisse a culpa. Quanto a mim, jamais tive dúvida; Godofredo sabia muito bem que não tinha sido ele quem jogara a peteca.

Chico Viana é doutor em Letras pela UFRJ , jornalista, professor de língua portuguesa e redação.

entre livros, crônica inédita de Pedro Menezes

Fica em uma rua secundária, meio escondida. Livros antigos, raros, gravuras, obras de arte, antiguidades. Loja e um mezanino, atulhados: uma mistura de sebo com antiquário.

Na vitrine, igualmente lotada, além de livros, objetos, entre eles um belíssimo abajur antigo, dividem espaço com uma cesta de vime. Dentro, uma gata. Vira-lata. Mas com uma coleira de pingente. Ela é grande, meio gorda, toda manchada, tons alaranjados, bonita, imponente.

A verdadeira dona e senhora do local. 24 horas por dia entre histórias, objetos, lembranças, personagens, passados.

Durante os dias, finge dormir na cesta, mas de verdade, está atenta a todo e qualquer cliente que entre pelas portas de vidro.

Colombina é a guardiã de tudo e de todos. Não é qualquer um que vai levar a segunda edição de Dom Quixote. Muito menos folhear aquelas edições italianas do século XIX.

Turistas ela não gosta. Sabe que só estão entrando pelo pitoresco do local, não pelos seus tesouros. E ai daquele que tentar afagá-la. Solta um rosnado agudo que intimida quem chega perto demais de sua cesta.

Mas sabe reconhecer os que gostam de livros. Estudantes, escritores, bibliófilos. Esses tem um ritmo e um brilho diferente no olhar quando entram na loja. Uma reverência que ela percebe de cara.

Silenciosos, ficam horas percorrendo as diferentes estantes, conferindo as lombadas, examinando frontispícios, folheando cuidadosamente as páginas delicadas, às vezes cheirando os livros.

A primeira vez que pus os pés lá, não dei pela gata. Estava atrás de um livro raro, essencial para um ensaio que não conseguia terminar. Não encontrei o que queria, mas saí de lá com uma sacola cheia. Só na porta eu percebi a cesta de vime na vitrine. Mas prometia chover e fui embora correndo.

Voltei outras vezes. A cada nova visita, percebia mais os olhos dela me espreitando. Foi só na quarta ou quinta vez que parei na sua frente. O dono já havia me alertado para tomar cuidado com suas garras, mas teimoso encarei a bicha. Ela parecia estar me avaliando pela pilha de livros que eu tinha escolhido. Não me arrisquei a passar a mão nela. Ela também não me unhou nem rosnou para mim.

Meses depois entrei na livraria novamente. O dono não estava, apenas a moça da faxina, que fazia as vezes de balconista. Fui direto para estante dos italianos. Estava tão entretido com algumas futuras aquisições que mal percebi um roçar nas minhas canelas.

Hoje, sou eu quem está atrás do balcão. Comprei a livraria com todos os livros e objetos. Só impus uma condição ao antigo proprietário: Colombina ficou.

| crônica do livro O menino passarinho (no prelo). |

Pedro Menezes está envolvido com criação desde 1992, quando se formou pela ECA-USP. Pai do João, é artista plástico, ilustrador e designer gráfico. Adora Matisse e desenhar ouvindo Miles Davis. É autor do livro Caderno de Observação de um Filho, publicado pela Pólen Livros, que hoje continua no blog homônimo [link]. Com seu parceiro Lúcio Goldfarb, publicou três livros infantis também pela Pólen: Joãozinho Quero-quero, Cadu e o mundo que não era e Urso Alfredo e o mistério na neve.

carta de novembro, de Mariana Ianelli

Não leve a mal o silêncio, meu amigo. São horas de equilíbrio instável até chegar a uma trilha arborizada, depois mais algumas horas até poder pensar uma palavra. E assim vão as semanas. Passando um tempo imenso sem registro. Um tempo imenso livre de ser registrado. Nenhuma peripécia aparente. Nada de prazeres transatlânticos. É só um café depois do almoço. Uma hora a mais de sono de vez em quando. Um banho morno. Um chá à noite. Prazeres inversamente proporcionais a seu nível de extravagância, mas como fossem graças, pequenas graças. Uma cópula aérea de borboletas. Seis hibiscos abertos mais três brotos. Um reflexo de fogo no vidro do apartamento em frente. Coisa pouca, para cuidar que os ecos do mundo não quebrem uma alma através dessas janelas para os muitos cantos da Terra com seus meninos cobertos de cinzas, como tatus enfiados em abrigos, retirados de escombros, meninos salvos de bombardeios, meninos em botes apinhados de gente em pânico, bichos enlouquecendo em cativeiros, essas imagens do dia que entram por nossos olhos e depositam seus ovos aqui dentro. Então o silêncio. Então um tempo imenso sem registro, mas de íntimas batalhas. Para colher do mundo um mundo que mereça uma criança. Como aquela mulher que caminhava debaixo de chuva, com bolhas nos pés, em tempos de guerra, procurando um ramo de rosas para trazer para casa. Como o passarinho que vai preparando seu ninho contra o vento com centenas de minúsculos gravetos: ainda cuidar de fazer dentro de um dia uma cama de pequenas graças. Não são as palavras que custam a ganhar forma, custa é colocar alento nelas. Não leve a mal, meu amigo. Uma palavra demora um milagre a nascer.

| crônica do livro Entre imagens para guardar (Ed. ardotempo, 2017). |

Mariana Ianelli, nascida em São Paulo em 1979, estreou na literatura em 1999. É autora de oito livros de poesia, entre eles Fazer silêncio (2005), O amor e depois (2012) e Tempo de voltar (2016). Recebeu o prêmio Fundação Bunge de Literatura (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e foi quatro vezes finalista do Jabuti. Tem dois livros de crônicas, Breves anotações sobre um tigre (2013) e Entre imagens para guardar (2017). Escreve quinzenalmente aos sábados na revista digital de crônicas Rubem. Em 2018 estreou na literatura infantil com o livro Bichos da noite.

parece que foi ontem, de Andréa Carvalho

Maquiada, de calça legging marrom, sandália estilo gladiador dourada, blusa com estampa de oncinha e bolsa reproduzindo a pele de zebra, ela se apresentava super fashion numa pele com mais de 70 anos. Antes de dizer qualquer palavra, apenas um detalhe fazia com que um olhar mais cuidadoso duvidasse de que seria só mais uma senhorinha vaidosa de Copacabana, um pentinho de plástico quase escorregando do alto da cabeça, parecendo que havia pernoitado ali e permanecia perdido naquele emaranhado de cabelo fino tingido de vermelho.

No diálogo meio confuso com a secretária do consultório dentário, ora se referia à forma como pagaria o tratamento, ora comentava sobre o que passava na TV, ou melhor, sobre o que ela entendeu que estava passando. Na tela eram imagens de bares, e alguém entrevistando pessoas que faziam refeições. O som estava baixo, não se ouvia exatamente do que se tratava.

— Filha, você escreveu aí que vou pagar em três vezes no dinheiro vivo?

— Está aqui, senhora, coloquei 3x.

— Não, eu quero que você escreva que é em três vezes, escrevendo, sabe? Para eu não esquecer depois. Esse “três xis” aí não dá pra ver… e essa coisa de dar gorjeta virou mesmo lei, é?

— Não sei, senhora. Vou marcar então a próxima consulta para segunda-feira às 11h, tudo bem?

— 11h é muito tarde! Não pode ser às 9, é que eu acordo cedo…gosto resolver tudo logo, sabe…

— O dentista mora longe e o trânsito na segunda é dos piores… 10:30h não está bom?

— Ele está muito dorminhoco, o que é isso! Já é pai de família! Dois filhos! Marque às 10h. E, olha… se eu precisar de ajuda para voltar, você pode me acompanhar até em casa? Eu moro na outra quadra, na esquina com o Banco do Brasil… é que às vezes me perco… minha cabeça não anda boa, também, vou fazer 82, garota…

— Tudo bem, Dona Henriqueta. Segunda, 10h. Tá marcado.

Estendendo uma nota de dez reais para a secretária, ela diz:

— Não dou gorjeta quando não gosto do atendimento… mas aqui eu faço questão.

— Imagina, senhora. Só estou fazendo o meu trabalho.

Sem graça, a moça a acompanha até a porta, apressada em se livrar do embaraço.

Chegou a minha vez. Não resisti em comentar o quanto achei perigoso aquela idosa estar andando sozinha por aí, não me parecia muito segura.

O dentista, um rapaz com não mais de 30 anos, nem perto de ser pai de família ou de filhos, relatou como Dona Henriqueta tornou-se sua paciente especial: na certeza de encontrar o dentista com quem se tratava há uns vinte anos atrás, ela entrou no consultório, sem hora marcada, procurando pelo Dr. Feliciano para concluir um procedimento dentário. Decepcionada com a ausência do amigo e perplexa com a mudança no local, disse que sentia muito pela suposta morte do doutor, mas confiaria no dom herdado pelo filho — no caso ele, Dr. Leonardo, filho de João, que nunca teve notícias de nenhum dentista chamado Feliciano naquele local — e retomaria o tratamento com muito gosto porque achou o jovem parecidíssimo com o pai.

E disse mais, especialmente naquele dia, ao término da consulta, ela lamentou até as lágrimas não ter se despedido de Feliciano, lastimou a rapidez com que o tempo passa e reforçou, depois de um caloroso abraço, não só a semelhança física, mas a gentileza e o carinho com que ambos sabem tratar seus pacientes.

Andréa Carvalho é formada pela UFRJ em Letras, professora e escritora. Foi uma das selecionadas para o Dia do Autor Independente na FLIP 2018 com 50 Dias Letivos, livro de crônicas baseadas na sua experiência como professora nas escolas públicas do Rio de Janeiro.

os livros vermelhos da infância, de Neide Almeida

Jamais esquecerei o dia em que o inesperado tesouro chegou à nossa casa. Entre deslumbrada e incrédula vi surgir, diante dos meus olhos, 16 volumes encadernados de vermelho com letras douradas.

Junto com a enciclopédia a sala ganhou também uma estante: à direita a televisão; à esquerda os livros cuidadosamente dispostos um ao lado do outro, nobres lombadas expostas. No final da elegante fileira, dois volumes com capa creme, detalhes em vermelho e dourado.

Daquele dia em diante nossa vida ganhou novos rituais. Inesperadamente surgiam dúvidas inadiáveis: “quantos são os estados brasileiros?”, “quem foi José do Patrocínio?”, “quais são os sintomas da anemia?” Como saber sem recorrer a um dos imponentes volumes da Barsa?

Então, autorizado pelo pai ou pela mãe, um de nós retirava cerimoniosamente o livro da prateleira, com ares de gente importante, localizava o verbete e lia para os demais, que mal respiravam para não perder nenhuma palavra da enigmática explicação. Olhávamos um para o outro, admirados, mais confusos do que antes. Volume devolvido ao lugar, esquecíamos o vocabulário complicado e voltávamos a brincar no quintal entre bananeiras, goiabeiras, tropeçando no cachorro e assustando as galinhas com nossa gritaria.

Era também uma festa quando alguém batia palmas junto ao portão e pedia para “fazer uma pesquisa”. Novamente um de nós era eleito: identificava o tema, encontrava o livro na estante. O vizinho era convidado a sentar-se à mesa da cozinha, que se transformava em biblioteca. Voltávamos às nossas brincadeiras, sem a costumeira algazarra para não atrapalhar o visitante.

Os rituais se multiplicavam. Entre todos, o meu predileto era o mais profano: aos sábados todos aqueles livros deveriam ser limpos e realinhados na estante. Então, sentava-me ao chão e, enquanto amorosamente tirava a poeira de cada volume, acariciava capas, descobria texturas, folheava os volumes, lia clandestinamente um trecho aqui, outro ali.

Lembro-me também de longas horas dedicadas a copiar verbetes: folhas e folhas de papel almaço, cobertas de letras dolorosamente traçadas para garantir legibilidade ocupavam horas de meus dias de estudante.

Só muito tempo depois eu soube do esforço feito por meu pai para que nós tivéssemos a Barsa em nossa casa. Luxo que ele prolongou por muitos anos, comprando o “livro do ano” que atualizava a coleção publicada em 1970.

Os anos se passaram, eu e meus irmãos terminarmos nossa formação básica e cada um seguiu seu rumo. Minha filha chegou a consultar a enciclopédia, que logo depois foi abandonada e acabou perdendo seu lugar na estante da sala.

Confesso que há muito não me lembrava dessas histórias. Então, surpresa, soube que a Barsa continua viva, convive com o facebook, com o google e a wikipédia. E mais, para minha felicidade e emoção, descobri que desde cedo, sem sequer imaginar, eu já era conduzida por eternos mestres. Imaginem: Antonio Candido, Houaiss, Niemeyer, Milton Santos foram alguns dos intelectuais que recebemos em nossa casa. E como é costume da minha gente, vencida a timidez inicial e as primeiras cerimônias, depois de começadas boas conversas não acabam nunca mais.

Ainda hoje os livros vermelhos da minha infância continuam ocupando o lugar mais nobre de minhas salas internas e, como a criança que fui, continuo fiel aos rituais aprendidos na meninice. Agora mesmo, escrevo sob os olhares atentos de uns tantos volumes, que se curvam na pontinha da estante para espiar se não me esqueci deles ao contar essa história.

| crônica do livro Crônicas memórias (no prelo). |

Neide Almeida é escritora e coordenadora pedagógica do Museu AfroBrasil.

o prêmio do poeta, de Rosângela Vieira Rocha

Há tempos quero escrever sobre o espaço inbox do Facebook, por perceber que ali se desenvolve uma outra rede social, de fios mais finos e retorcidos, que se desdobram em outras teias menores, cheias de nós, sujeitas — em igual proporção — a acertos, erros e mal-entendidos. Tenho notícias de casamentos iniciados naquele espaço tão incômodo quanto prático, de términos de relações virtuais e reais, de discussões e arengas que poriam no bolso as Histórias das Mil e Uma Noites. É uma rede subterrânea aparentemente invisível, mas que tem vida própria e deve ser levada a sério.

Nada contra o espaço em si — que tem me permitido vender exemplares de livros, receber convites para palestras, oficinas, lançamentos e atividades artísticas de modo geral, além da solicitação de entrevistas, prefácios, contos e crônicas de pessoas e revistas literárias eletrônicas e impressas.

Ao lado do importante papel que desempenha na vida literária, que é o principal motivo que me leva a utilizar o Facebook, o inbox serve também para a troca de notícias rápidas com amigos queridos, convites em cima da hora, troca de informações sobre livros.

Mas o que importa mesmo, neste texto, é o uso daquele espaço para outros tipos de atividades, pertencentes, digamos, ao mundo subjetivo. Para ilustrar o tema, passo a narrar um diálogo pra lá de improvável que tive há alguns dias com um poeta estrangeiro.

Inicialmente, recebi um pedido de mensagem — que ocorre quando o ser não pertence à nossa lista de amigos — de um estrangeiro que escreve mais ou menos bem, dizendo que queria me conhecer, visando estabelecer uma grande amizade. Li várias vezes a mensagem, que nada tinha de invasiva ou perigosa, pelo menos explicitamente. O que me levantou suspeitas foi a figura aparentemente inocente de uma rosinha vermelha, no final do pequeno texto. Estranhei a vermelhidão toda. Rosa vermelha, numa mensagem inicial?

Dei um desconto pelo fato de ele ter outra cultura. Afinal, escreve em outro idioma. Que eu domino, mas não é o meu, e isso sempre pode gerar empecilhos à comunicação. Mesmo assim, não respondi. Rosa por rosa, breguice por breguice, a gente encontra aqui mesmo. Ocupada, fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo, dei o assunto por encerrado e me esqueci completamente do ser que se apresentou como poeta.

Três dias depois ele enviou nova mensagem, muito semelhante a primeira. E tome mais rosinha vermelha, com folha, cabinho e tudo. Li e reli as poucas frases — o segundo texto foi mais curto — e novamente não respondi.

Passados alguns dias, eis que chega uma terceira mensagem, num tom mais contundente, dessa vez acompanhada de pedido de amizade. Achei que era insistência demais — não dá pra dar tantos pontapés na sorte — e resolvi reconsiderar, aceitando logo a solicitação e iniciando uma resposta.

Ocorre que o cidadão estava online e logo deu o ar de sua graça. Perguntei-lhe como havia me descoberto na rede social. Por acaso, respondeu. (A menção ao acaso me pôs de cabelo em pé). Por acaso como, perguntei? Ah, uma coincidência, disse. Achei a resposta surreal e pedi que me contasse quem era ele. Sou estrangeiro, nascido no país X e morando em Y. O que faz aí? Quis saber. Trabalho com vendas, contestou vagamente. Vendas? Ah, sim, vendas. Sei. Além disso — continuou, com ironia mal contida — sou divorciado há X anos, não fumo há 17, não bebo há 12, não tomo café há dez, não jogo desde criancinha. E sou um tipo antifacebuquiano. Satisfeita? O tom desdenhoso e a referência ao cigarro me deram raiva, sou fumante. Pois eu fumo, tomo café várias vezes ao dia, não bebo álcool e não sei jogar pôquer, respondi.

Gosta de poesia? Sou poeta por hobby, um humilde poeta de província. Você é romântica? Mora sozinha?

Danou-se, pensei. Não vou conseguir conversar com essa criatura. Comentei como detesto a palavra “humilde”, quando se trata de arte. Nenhuma arte é humilde, disse. Por que humilde? Sem conseguir conter a irritação, ele fez a defesa da humildade, de cabo a rabo. Humildade é palavra digna, escreveu. Sim, disse eu, mas não combina com arte, não casa, não dá jogo, não dá liga.

Deixei de lado o tema da humildade e passei ao gosto pela poesia. Para descobrir se ele de fato sabia quem eu era, comentei que sou escritora. A criatura não passou recibo algum. (Se não sabe, pensei, é porque nunca buscou informações a meu respeito e deve ter enviado a mesma mensagem a dezenas de mulheres, indiscriminadamente).

Decidi perguntar de maneira direta a quantas mulheres aquele texto tinha sido mandado. Ele negaceou, de maus modos, mas não explicou o motivo de tê-lo enviado a mim. Aflita com o caminho que a tentativa de conversa tomava, tentei pôr panos quentes, buscar neutralidade, indagando como é o país, que não conheço, e a cidade onde ele mora, esforço que se revelou absolutamente inútil. Voltou à carga: pensei que, sendo professora, poderíamos ter uma conversa de alto nível, mas vejo que me enganei. Ainda não falou nada de si, e me fez um interrogatório. Não tenho de lhe provar nada, eu só queria me aproximar, ter uma “relação harmoniosa” com você.

Nesse ponto eu já tinha entendido que o tal poeta estava me cantando, que não tinha jeito de conversar com ele normalmente, civilizadamente, e que caíra numa esparrela. O jeito era fugir, e bem depressa.

Para meu espanto, ele perguntou novamente: você é romântica? Depende, disse eu. De quê? Depende do significado que a palavra tem para você. Como assim, você não sabe o que significa? Na literatura, sei, respondi. Mas na vida não sei direito, não. Gostaria que me explicasse.

Ah, já sei, é uma “intelectual”, respondeu. Talvez, disse eu. Ah, é? Por causa disso você merece um prêmio. Antes de qualquer reação minha, ele escreveu: sabe que prêmio? Um BLOQUEIO!!!

Perplexa, não entendendo nada do que tinha ocorrido, testei. Sim, o poeta tinha me bloqueado mesmo, com letras maiúsculas. O recém-aceito pedido de amizade já fora para os ares. Diante de caso tão surreal, procurei saber quem era. E se fosse outra pessoa se fazendo passar por ele? Um robô, um zumbi, que sei eu? Mas não, ele existe, encontrei provas materiais. Existe e teve muita raiva porque lambuzou o selo e não colou. Sem contar a notória falta de fair play. E de senso de humor, claro.

Agora, quando quero rir, repito baixinho a frase: Sabe que prêmio? Um BLOQUEIO. Parece mentira, mas não é. Um bloqueio. Assim, sem mais. E estamos conversados.

Rosângela Vieira Rocha é escritora, jornalista e professora da FAC-UnB aposentada. Tem doze livros publicados, cinco para adultos e sete infantojuvenis. É autora do romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2107).

marcos, de Márcia Denser

(eu sei que estou pulando muitos anos — eu parei no lançamento de O Animal dos Motéis, junho de 1981 — mas a escrita não raro não quer seguir a cronologia até porque agora eu precisava relatar certos fatos sobre quando e como e por que eu tive que aprender a amar em dado momento da minha vida, deixando a carreira e a literatura de lado por algum tempo, sendo apenas eu mesma, nua e sem bibliografia)

Chamava-se Marcos. Eu o conheci em setembro de 1989 numa galeria de arte. Fizera 40 anos e minha vida estava num momento difícil, um ponto sem retorno: acabara de escrever A Ponte das Estrelas, mandara para a Companhia de Letras, Brasiliense e Best-Seller pedindo um adiantamento de cerca de 5 mil dólares (minha cotação estava em alta) e esperava a retorno das editoras. Antes, no final de 1986, me demitira da Fiesp.

Trabalhara uns meses como redatora na Salles, uns meses como repórter e redatora na Folha (mais tarde falo disso em detalhes). Estivera na Alemanha, voltara, Ray-Güde me mandava uns royaltis das traduções, mas era pouco.

Antes da Ponte havia resolvido viver de literatura: topara no ano anterior escrever um romance de encomenda, Caim, para o José Carlos da Global, a partir dos incentivos da Lei Sarney (a antiga Ruanet), mas continuava muito pouco.

Para me manter no apartamento dos Jardins, decidi que não funcionava ter uma mãe no meio da vida, então despachei Dona Isa pra viver uns tempos com Teréca: ambas me amaldiçoaram durante décadas por isso!

Segundo Jung, a consciência tem duas funções superiores — razão e sentimento — e duas auxiliares — intuição e percepção. As quatro correspondendo aos elementos: razão = ar, sentimento = água, intuição = fogo, percepção = terra. Geminiana dupla, sou por excelência um tipo pensativo (seis planetas em Ar!), bastante intuitiva (3 planetas em fogo) e pragmática (um em terra), mas não tenho água no mapa. Ou seja, a função do sentimento eu a usava de forma extremamente primitiva, infantil. Era quase uma nota muda. Mas tal função precisa ser incorporada à consciência como parte da integração da personalidade, e isto será feito obrigatoriamente quer se queira ou não, por bem ou por mal, de forma tardia e absolutamente dolorosa para si próprio e quem estiver próximo, ou de forma suave, precoce, etc. O meu processo além de tardio foi extremamente doloroso pois implicou:

1) No processo de escrita de A Ponte das Estrelas (a ideia do Marcos Rey, meu conselheiro na época, era que eu escrevesse um best-seller que vendesse horrores para, então, poder escrever o que bem quisesse. Ledíssimo engano de ambos, claro. Mas neste livro integrei escrita e desenho — lembram que eu também desenhava? Pois é) que foi extenuante e mágico, além da consequente identificação com minha personagem, a princesa Blixen;

2) Também me identifiquei COMPLETAMENTE com a Maria Madalena do filme de Martin Scorcese, A Última Tentação de Cristo: furei o disco da trilha sonora de Peter Gabriel, tocava umas 20 vezes por dia (típico comportamento adolescente ligado na função sentimental tardia);

3) Numa conjunção de planetas (ou ponte de estrelas) em Capricórpio que ocorreu na época: Saturno, Plutão e Netuno (creio), perfeitamente de acordo com a lei da sincronicidade;

4) Na expulsão de Dona Isa lá de casa uma vez que esta atrapalhava minha busca por um parceiro (Vênus costuma ser especialmente cruel);

5) No investimento massivo de toda minha libido no sucesso editorial de A Ponte das Estrelas como minha obra-prima (vejam como eu estava maluca);

6) E no meu amor por Marcos que iria durar 7 anos.

Marcos tinha 37 anos (e, assim como eu, aparentava dez anos menos), era santista, um homem bonito (mas duma beleza na qual eu não teria sequer prestado atenção fosse outra época): alto, moreno, físico atlético e esbelto, queimado de sol, de finos traços espanhóis, calculadamente másculo, um tanto homossexual, antes, bissexual, lembrando certos garotos de programa: blazer, echarpes de seda, mangas arregaçadas, anel no dedo mínimo, pulseira de ouro, medalhão de corrente, excessivamente perfumado. Um sujeito ostensivo, parecendo esses sedutores profissionais. Provocava desconfiança. Parecia de Escorpião mas era Virgem, que aliás dá Virago. Mas o sorriso tinha um ricto amargo, sombras sob os olhos, um cansaço precoce e inesperado na expressão. Uma resignação antiga.

Filho mais novo de três irmãos, mãe viúva com propriedades, levava uma vida bem dura como bom filho de sua mãe da qual recebia mesada, pintava os quadros que ela mandava e herdaria algo de seu quando a velha empacotasse. Um tipo secundário integralmente sintonizado com o sentimento e as sensações — não me refiro às emoções — porém aqueles sentimentos profundos que nos consomem como ressentimento, ternura, ciúmes, saudades, rancores, inveja, nostalgias infinitas. E que moldam nosso caráter para sempre.

Tudo aquilo que para mim significava uma infinita perda de tempo — eu tinha mais o que fazer.

Não tinha. Não tinha mais.

Marcos não tinha dinheiro, não tinha emprego. Vivia da mesada da mãe num apartamento minúsculo no Paraíso cedido por ela, da venda de algumas obras em exposições ou para particulares aqui e ali. Investia numa carreira artística, mas faltavam relações, cultura e a grana suficiente. Talento tinha até demais — fora o garoto da praia que, 25 anos antes, ganhara todos os prêmios de escultura na areia.

Mas tornar-se artista plástico de sucesso é um investimento de altíssimo risco envolvendo muito dinheiro, várias décadas de dedicação constante, estudos, exposições, bolsas, a constituição e manutenção dum ateliê e respectivo acervo, viagens ao exterior.

De forma que, advindo duma família santista e dependendo financeiramente da mãe, tornou-se um artista eminentemente local. Provinciano. Aquele sujeito que, pra atender mamãe, pinta o quadro combinando com o sofá. A resignação antiga vinha daí. E eu me apaixonei perdidamente por ele. E duma forma tão irremediável e sem esperança que quase não sofria. Porque não ia adiantar.

A propósito: o adiantamento de 5 mil dólares foi pago pela Best-Seller — o que resolveria meu aluguel por um ano ou dois, algo essencial numa situação de desemprego, sem salário fixo — resolveria, se não fosse sequestrado pelo Plano Collor em março de 1990.

Avaliando tudo retrospectivamente Marcos e eu estávamos empatados: não tínhamos emprego e investíamos numa carreira artística.

Com a diferença que a minha estava feitíssima — aos 36 anos, com o lançamento de Diana Caçadora, meu quarto livro, cuja edição de três mil exemplares se esgotara em uma semana, eu realmente chegara ao auge. Com propostas de várias editoras, elogios da crítica mais rigorosa, aquela que é insubornável — Wilson Martins, Paulo Francis, Nelly Novaes Coelho, Leo Gilson Ribeiro —, entrevistas, programas de televisão e rádio, tema de dezenas de teses de mestrado e doutorado no Brasil e EUA, o trabalho de minha agente Ray-Güde com as traduções para os países de língua germânica, Alemanha, Suiça, Holanda (só muito mais tarde viria o leste europeu via Itamaraty), programas de intercâmbio e bolsas (DAAD via Ray, Iowa via Raduan Nassar, Fundação Calouste Gulbekian, via Lobo Antunes) no Exterior, bem como as traduções e pesquisas nas universidades nos EUA — eu era um sucesso unânime e irretocável tão grande, mas tão grande que em 1986 resolvi me demitir da Fiesp.

| do livro DesMemórias, capítulo 67 — lançamento em 2019. |

Márcia Denser é escritora e jornalista. Formou-se em comunicação e artes pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e tem pós-graduação em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Estreou na literatura com a coletânea de contos Tango Fantasma, que escreveu aos 23 anos de idade. Como jornalista, trabalhou para as revistas Nova, Interview e Vogue e para o jornal Folha de S. Paulo. Organizou as antologias de contos eróticos femininos Muito Prazer (1982) e O Prazer é Todo Meu (1984). Publicou também O Animal dos Motéis (contos, 1981), Exercícios para o Pecado (contos, 1984), Diana Caçadora (contos, 1986), Caim — Sagrados Laços Frouxos (romance, 2006), entre outros.