sorriso amarelo e a luta antirracista ou os ‘tamagotchis’ da branquitude, de Henrique Yagui Takahashi

No dia 25 de maio de 2020, Derek Chauvin assassinou George Floyd após asfixiá-lo com o seu joelho. O primeiro estava armado, o segundo, desarmado. O primeiro era um policial com um contingente de 3 policiais para apoiá-lo, enquanto o segundo, um cidadão comum que estava sozinho. O primeiro é um homem branco, o segundo, um homem negro. Ambos, estadunidenses.

Durante os 8:46 minutos, havia um policial que os observava calado. Floyd agonizando sob o joelho de Chauvin. Calado porque era o seu trabalho. Calado porque não tinha nada a ver com ele. Calado porque era mais um dado para a estatística.

Este policial é Tou Thao, da etnia Hmong, imigrante oriundo do Laos, no Sudeste Asiático.

Um imigrante que trabalhou duro em busca de uma vida melhor, sem reclamar. Esta história não te parece familiar?

Tou Thao é um de nós. Não porque ele tenha as mesmas feições, mas porque é um imigrante que buscou uma vida melhor. Ele poderia ser o teu bisavô, avô, pai, tio, primo ou irmão. É o imigrante que sob qualquer custo buscou sua ascensão social. Ascensão que é sinônimo de assimilação. No caso brasileiro, não seria a assimilação festiva e banal. Não é somente o “japonês que gosta de samba”. É a assimilação que se integra à estrutura do mito da democracia racial.

Os amarelos ocupam uma posição estratégica dentro do gradiente racial brasileiro entre brancos e negros. Por não pertencermos à identidade nacional brasileira, somos considerados os “estrangeiros perpétuos”. Sempre que me perguntavam: “De onde você é? Da China, do Japão ou da Coréia?”. Respondia calmamente: “Do Brasil”. O emissor da pergunta me olhava inquieto, tentando digerir a resposta que lhe havia acabado de dar e me perguntava novamente: “MAS DE ON-DE VO-CÊ RE-AL-MEN-TE É?”. Respirava fundo e dizia: “BRA-SIL”.

Esta posição de ser o estrangeiro perpétuo parece irrelevante, porque pode soar como uma “simples brincadeira”. Contudo, por detrás desta “brincadeira”, há a constituição dos asiáticos-brasileiros como engrenagens que reforçam o racismo estrutural.

O nome para isto é o conceito de “minoria modelo”. Por sermos os eternos estrangeiros, a única forma de sermos assimilados pela sociedade brasileira foi trabalhar muito. Trabalhar mais do que o salário recebido. Estudar mais do que o solicitado. Trabalhar sem se queixar. Estudar, mas algo que dê dinheiro. Eles nos deixaram ser doutô, mas calados e resignados.

Ou não diria totalmente calados, pois expressamos nossa opinião em um caso particular.

Os asiáticos são instrumentalizados pela branquitude para ser o seu habeas corpus racista. Alguns de nós afirmam orgulhosamente esta lógica de desumanização, bradando: “Eles são preguiçosos! Nós trabalhamos duro!”. Este é um dos raros momentos que você vai ver um “japonês” expressar-se politicamente em público.

Em 2017, na sede da Hebraica no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro proferiu um discurso que ilustraria a “minoria modelo”: “Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”. E complementou, “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”.

Não é por um mero acaso que Bolsonaro proferiu este discurso eugenista, referindo-se especificamente ao quilombo. Ele quer diminuí-lo, pois ele sabe de sua potência de transformação radical na sociedade brasileira. O quilombo representa o símbolo de agência política e luta por dignidade humana protagonizada pela comunidade negra.

Aqueles de olhos puxados que apoiam o Bolsonaro em coro representam o duplo ressentimento da diáspora asiática. O ressentimento do poder hegemônico da branquitude e o ressentimento do poder de resistência da negritude. Talvez venha daí a origem do “sorriso amarelo”.

Eu tenho uma tradução particular para o conceito de “minoria modelo”. O definiria como “bicho de estimação da branquitude”. Onde passeamos com o nosso dono três vezes por semana e comemos a ração Pedigree Frango Orgânico com Espinafre. Temos o nosso lugar para fazer xixi e cocô. Temos uma casinha no quintal feita de pinho e uma almofada da IKEA na sala de estar. Porém, se fazemos algo que não agrada o nosso dono, ele bate no nosso bumbum e diz: “Feio! Isso é muito feio!”. Nos escondemos calados, com o rabo entre as pernas.

A “minoria modelo” gera uma forma de existir que chamaria de ontologia do pastel de flango. A expressão “pastel de flango”, construída pela branquitude, significa ao mesmo tempo: “você me serve” e “você nunca será um de nós”. Por isso a diferença entre “flango” e “frango” não é apenas uma questão de correção gramatical, mas uma subserviência ao modelo hegemônico de existência.

Você pode me perguntar: “Se você critica o Brasil, por que você não volta para o seu país?”. Primeiro, já respondi esta pergunta. Segundo, não critico a brasilidade para defender os nacionalismos asiáticos. A China e o Japão ocupam historicamente na Ásia a mesma posição imperialista dos EUA e Europa no Ocidente.

Peço licença a José Martí, mas por detrás de patriotismos como o brasileiro, o japonês, o cubano, o estadunidense ou o chinês, há genocídios. Não é à toa que o filho do rei português que virou imperador do Brasil por ME-RE-CI-MEN-TO bradou: Independência ou Morte! Ou mesmo, a famosa frase do comandante Che Guevara: “¡Patria o Muerte!”. Ambos sinalizaram que não há pátria sem morte. O auto sacrifício como sinal de heroísmo demonstra que não há ação política patriarcal sem a aniquilação de si e do outro. Apesar de Dom Pedro I e Che Guevara estejam em espectros políticos diametralmente opostos, ambos, argumentam o uso político da morte em defesa da pátria. O sacrifício do herói com sua pátria é, em última instância, a aniquilação para a manutenção patriarcal do poder. Não é por coincidência que a origem etimológica de pátria em latim é patrius, terra dos antepassados aka terra do pai.

Com as manifestações do Black Lives Matter eclodiram vários movimentos em defesa de uma solidariedade antirracista. Sem nenhuma surpresa, vi alguns brancos progressistas tupiniquins declarando que as marchas são manifestações românticas e impulsivas. Dizem não se comover pelo “surto de empatia”. Em resumo, formularam as mais variadas explicações para argumentar que seus privilégios como herdeiros da Casa Grande no Brasil não se estenderiam em terras estadunidenses, por este motivo, infelizmente, não poderiam ir às manifestações.

Na hora “H”, o branco progressista fala, fala e fala (porque tem muita visibilidade para falar), justificando com termos acadêmicos bem precisos o seu medo da soberania popular. Tem medo porque ele precisa que haja um sistema de opressão para a manutenção de seu privilégio.

No horizonte utópico de transformação social, não haveria nem a esquerda patriarcal nem o progressismo branco. As feministas latino-americanas, em especial as feministas negras brasileiras, vêm construindo há décadas esse modelo de solidariedade antirracista, antipatriarcal e anticapitalista. Não é como algum de nós, que se deparou com estas lutas somente agora.

Para citar algumas dessas intelectuais-militantes: Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Rita Segato e Silva Rivera Cusicanqui.

Por isso, Marielle Franco mobilizou e mobiliza tanta gente. Marielle como mulher, negra, lésbica, acadêmica, vereadora e de favela não representa apenas uma pessoa individual com todas estas identidades. Marielle Franco, parafraseando a antropóloga argentina Rita Segato, é o símbolo vivo da política como poder coletivo e solidário.

O assassinato de Marielle simboliza a política de aniquilação constitutiva da branquitude, do patriarcado e do capitalismo. A lógica de extermínio representada hoje por Jair Bolsonaro.

Elas nos mostram como o pensamento feminista construiu um modo de pensar o mundo criticamente, não se restringindo à vagueza da abstração autorreferente, produzindo assim uma ação prática. Elas que me ensinaram os sentidos das relações interseccionais que me atravessavam como homem amarelo emasculado que aspirou integrar-se à minoria modelo. Este pensamento produz uma ação com reflexão, ao mesmo tempo estrutural e existencial, do mundo.

Até quando seremos os tamagotchis da branquitude?

Henrique Yagui Takahashi nasceu em São José do Rio Preto, interior do estado de São Paulo. Possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Foi professor de sociologia e filosofia no ensino básico e superior no Brasil. Atualmente é doutorando em Estudos Literários e Culturais Latino-americanos pela The Ohio State University. Integrante do podcast Amefrica Landina, um espaço de discussões em português, espanhol, portuñol e spanglish sobre América Latina.

Brasil: (im)possíveis diálogos #5

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

As reinvenções de si e a vulnerabilidade como resistência

Por Raimundo Neto

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Vitor Rocha

O medo ensinou-me muito sobre mim. Não havia uma dinâmica de perversidade na casa em que nasci, sempre prestes a cair e a ensinar a todas as mulheres e poucos homens que o amor era capaz de arrancar pedaços. Existia um aprendizado de que os sacrifícios e os eternos papéis parentais/filiais eram imutáveis, e que todo amor devia prender, sufocar, desgastar e depois morrer. Parecia-me que o amor era uma porta sempre fechada, e dentro, um lugar escuro e apavorante.

Nasci numa cidade rural do interior do Piauí. Batalha. Eu e alguns dos meus amigos crescemos no armário. Ou fomos empurrados para lá. As cenas de berros de “viado”, bicha, puta, mulherzinha, baitola, foram persistentes ao longo da nossa infância. As escolas que frequentamos foram os espaços mais cruéis. Não entendíamos o que tornava os meninos/jovens/homens incontroláveis em suas raivas, aqueles olhos famintos, aquelas mãos duras, aqueles gritos estridentes.

Nosso corpo tinha gestos desconhecidos para nós. Só começamos a perceber muito tarde que aqueles gritos/risadas/berros chegavam de fora também porque éramos bichas no Piauí. A bicha era tudo que um homem masculino-macho jamais seria. Uma bicha era/é um corpo tipo como promíscuo, sujo, vil, que corrompe, seduz; pernicioso. A experiência da bicha começa(va) e termina(va) no abjeto, até morrer, até hoje.

Éramos crianças. Não fazia sentido os gritos, as risadas dos outros sobre nós. Eles diziam algo sobre nós que era incompreensível. As injúrias começavam na escola, percorriam reproduzidas pela vizinhança, circulavam em casa, e voltavam para nós, aterrorizadas. Tudo o que não entendíamos sobre nós, em algum momento, autorizou jovens homens mais velhos a, além dos gritos, a usarem nosso corpo para algo que, neles, pelo que diziam, era incontrolável. Foi o período da vida em que nós, crianças, bichas, fomos mastigados, tocados, virados ao avesso, sangrados, expostos, pelas mãos, língua, e tudo mais que aqueles homens tinham em seu domínio. E eles contavam isso para outros jovens homens mais velhos. Isso só parou quando alguns de nós trancaram-se em casa, no armário. O que chegava a ser ridículo. Era impossível escapar do que éramos.

No meu caso, minha mãe sabia de algo. Acho que por isso gritava tanto “Fala como homem, caminha como homem, seja homem”. Dos treze aos vinte e dois anos, isso tudo continuou em outras escalas e aspectos. As piadas tornaram-se mais amplas. As mãos ainda vinham de meninos mais velhos que eu, e depois as injúrias circulavam nas rodas de conversas/fofocas, sobre a bicha que tirava as melhores notas na escola, mas que era bicha.

Aos vinte anos eu sabia que queria ir para longe, ou simplesmente sumir. Tentei morrer duas vezes. Para ir embora eu precisaria aprender a contar outra história sobre a minha vida; eu precisaria que as narrativas sobre mim fossem escritas por mim. Mas como se escreve sobre si e sobre o mundo com medo? Eu achava, mesmo, que era preciso apenas coragem, integral e permanente, para escrever-me.

Enquanto vivi na casa do meu nascimento, o medo era de que alguém me arrancasse do armário, o lugar onde supostamente eu estava seguro. Mas, se era esconderijo, por que todas as pessoas diziam aspectos graves sobre mim que eu desconhecia? Afeminado, veado, molenga, maricas, putinha, frouxo, bicha, bicha, bicha, bicha.
Eu tinha medo que tudo caísse, que todas as pessoas da minha casa morressem, as mulheres que me nasceram. De Batalha a Teresina, meu caminho foi entre injúrias e os cuidados maternos. Uma mãe preocupada e afetiva, e que se incomodava com aquele filho que jamais seria o homem que disseram que ela deveria esperar; porque também esperavam muito daquela mãe como mulher. O discurso das casas vizinhas à nossa, da igreja, da escola, esperava muito de mim e da minha mãe.

As experiências que meus desejos provaram foram me levando para além do corpo. Pessoal e profissionalmente. Eu começava a entender que família não era apenas a ideia mantida e sustentada por muitas instituições, definindo e organizando corpos, desejos, sexualidades e identidades; que dentro daquele espaço familiar acontecem muitas violências, provocando tantos medos; que o amor não brotava com naturalidade como se houvesse uma essência registrada nos genes. Havia algo muito mais complexo. Havia outros tipos de relações e afetos, construídos, elaborados, sobrevivendo para além das naturalizações e essencializações de mãe/pai/filhos/filhas/homem/mulher.

Nesses caminhos, eu não largava a Literatura. Descobri primeiro um refúgio, depois entendi que podia ser uma saída. Eu me escondia nas bibliotecas que fui descobrindo. Foram os únicos lugares em que me senti protegido. Todas aquelas narrativas, todas aquelas palavras. Depois Guimarães Rosa, Mario Faustino, Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, João Gilberto Noll, Cassandra Rios, Michael Cunningham, Hilda Hilst, Virginia Woolf, Oscar Wilde, João Silvero Trevisan, James Baldwin. Ao ler todos aqueles corpos e afetos, que eu nunca tinha lido antes, senti alívio, alegria, desespero, angústia; senti que era possível seguir sem morrer sempre um pouco mais.

Depois, muito depois, fui pelos caminhos da escrita. Inventei pessoas e futuros. Havia medo em todas aquelas histórias. Eu escrevia invenções sobre mim e, só muito depois, entendi que era sobre outros também. Foi assim que Literatura, memória, vivências e escrita, cruzaram-se diante e dentro de mim, encontrando meus medos. E assim comecei a perceber que, de algum modo, eu não escrevia sozinho. Havia todas as memórias, as minhas e as das minhas amigas, nossas histórias que se cruzaram; havia as casas que caíram e as famílias tornadas ruínas; havia muitos gritos e pedidos de pessoas antes de nós, especialmente as bichas e corpos abjetos invisibilizados. Havia todas as histórias de medo que nos antecederam. E essa mesma escrita do medo proporcionava encontros, quando pessoas desconhecidas se reconheciam naqueles medos.

Entendi muito mais tarde que voltar para o armário era impossível, e também um ato político, como bicha que conquistou alguns privilégios. Voltar para o armário seria me ocultar, e isso reproduziria um princípio heteronormativo de gestão de subjetividades, corpos e desejos.

Em São Paulo, algumas injúrias e violências ocorreram. Eu sentia esse medo me acompanhando, e acompanhando pessoas próximas a mim. Comecei a refletir que o medo também foi um dos caminhos para as minhas lembranças.

Do armário onde vivi durante anos, até a saída da porta da minha primeira casa, depois chegar a São Paulo e suas diversidades, foi um caminho longo; construir uma linguagem contada pelos sentidos daqueles Brasis que eu vivia e também pelo corpo-bicha escapando das normas foi um dos modos de ser político e resistência. Foi inicialmente um processo um tanto intuitivo de investigar escrita, identidade, memória e afetos.

Quando me aproximei das leituras de Didier Eribon, Butler, Orham Pamuk, Foucault, Silviano Santiago, Elvira Vigna, Nicole Krauss, James Baldwin, Toni Morrison, comecei a refletir sobre identidade, escrita e literatura:

1. “A injúria não é apenas uma fala que descreve. Ela não se contenta em me anunciar o que sou. Se alguém me xinga de ‘viado nojento’ (ou negro nojento ou judeu nojento), ou até simplesmente de viado, ele não procura me comunicar uma informação sobre mim mesmo. Aquele que lança a injúria me faz saber que tem domínio sobre mim, que estou em poder dele. E esse poder é primeiramente o de me ferir. De marcar a minha consciência com essa ferida ao inscrever a vergonha no mais fundo da minha mente. Essa consciência ferida, envergonhada de si mesma, torna-se um elemento constitutivo da minha personalidade. A injúria me diz o que sou na medida em que me faz ser o que sou.” Para Eribon, um dos princípios estruturantes das subjetividades gays e lésbicas consistiria em procurar os meios de fugir da injúria e da violência, que isso costuma passar pela dissimulação de si mesmo ou pela emigração para lugares mais clementes.

2. O resultado das últimas eleições revelou (revelou para quem?) os conservadorismos e violências sempre presentes. Ou talvez pessoas privilegiadas em suas vivências cis, masculinas, brancas, hetenormativas, sudestinas, tenham percebido com outros olhos e ouvidos tudo que era feito e dito sobre gays, lésbicas, homens e mulheres trans, travestis, negros, mulheres cis, índias e índios, por exemplo. Mas se noticiou aparentemente mais casos de violências especialmente contra pessoas LGBTQIA. Brasil, o país que mais mata LGBTs no mundo, provavelmente continuaria liderando esse ranking, infelizmente.

Refletindo sobre ideias de Orham Pamuk e Nicole Krauss, concordo que um romance é uma segunda vida, e que quando se escreve um romance descobre coisas sobre si mesmo que eram desconhecidas. Para Nicole Krauss, precisamos ter algo a dizer sobre quem somos, e também por isso estamos escrevendo o tempo todo sobre o fardo das nossas heranças, o que nos disseram/contaram sobre nós; propondo a ideia da escrita como ficção do Eu, quando assumimos também reescrever quem somos, e contar as narrativas sobre nós de outro modo: contar a história sobre nós do nosso ponto de vista.

3. Ouvi a escritora Elvira Vigna falar sobre seu processo de escrita uma vez, pessoalmente. E acompanhei tudo que foi publicado, e também tudo que foi dito por ela sobre os seus processos de escrita em entrevistas e vídeos. Ao ser questionada sobre literatura e escrita, ela dissera, entre outros detalhes, que só escrevia o que lhe batia muito forte, o que a fazia doer: “Eu exijo de mim uma presença emocional brutal, porque senão não serve. Se eu quero chegar ao outro, eu tenho que me apresentar como apta emocionalmente a chegar perto desse outro. Escrever é um troço duríssimo, te modifica. O que eu busco é o humano. Para mim, Literatura é uma forma de você de dividir, compartilhar experiências humanas.”

Partindo disso e do medo das violências, das injúrias como produtoras/definidoras de subjetividades (particulares e coletivas, resguardadas as devidas interseccionalidades), das memórias de infância, vivências e marcas, das possibilidades de assumir as narrativas sobre o Eu e (reinventar-se) e esse devir e potência, e da escrita e literatura como uma forma de proporcionar encontros, iniciei esse caminho do que também poderia chamar de investigação e produção de algum tipo de linha de fuga, por assim dizer. Embora o começo disso tudo tenha sido intuitivo, só muito depois se tornou algo mais consciente e elaborado.

Assim, se a linguagem inventa mundos, faz sentido dizer que escrever sobre corpos, identidades, sexualidades divergentes das normas vigentes, sobre deslocamentos e diferenças, é possibilitar que outras pessoas se aproximem dessas vidas tão diversas e que durante muitos anos estiveram escondidas e silenciadas, o que possibilitou criar as linguagens e narrativas das personagens que escrevi numa casa/família desmoronando, aprendendo o amor pelo sacrifício e violência, um filho “bicha” que tenta escapar; a linguagem das personagens tentam inventar-se para além do que a norma diz que são. As personagens estão também inventando outras casas, outras famílias e afetos: Todo esse amor que inventamos para nós.

De algum modo, comecei a refletir que a escrita e essa Literatura poderiam ser também processos de investigação, em que as vozes contando as narrativas começavam a se contar na minha história, e por isso a marca autobiográfica (mas talvez não confessional). Deborah Levi me ajudou a pensar um pouco sobre isso com seu ensaio “Coisas que não quero saber”, quando disse que quando uma escritora leva uma personagem para o centro de sua investigação literária (…) “e essa personagem começa a projetar sombra e luz por toda parte, ela precisa encontrar uma linguagem em parte relacionada ao aprendizado de como se tornar um sujeito e não uma ilusão, e em parte relacionada ao desenlace de como ela mesma foi construída pelo sistema social, antes de tudo.”

Contar ficções buscando quais personagens contarão aquelas narrativas é pensar também as reinvenções que somos, e pensar como fomos construídos socialmente, que sistemas criaram normas reguladoras de famílias e corpos, produzindo “anormalidades”, dissonâncias, violências, e muito medo.

Considero, portanto, que escrever sobre o medo é narrar diferenças e reinvenções de si, é contar o caminho do armário até o cosmopolitismo aparentemente dissidente de uma cidade grande, é construir narrativas em que as personagens contam-se diversas, portas abertas, inventando outros afetos, escritos ou não por pessoas que se identificam a partir dessas dissidências. Escrever sob o medo é também promover encontros, resgatar humanidades, que é uma das muitas possibilidades da Literatura e da escrita; promover encontros entre diferenças, entre pessoas, e que esses encontros possibilitem outras descobertas e outros caminhos.

Escrever, mesmo com medo, como a possibilidade de transformação, não para produzi-lo ou reforçá-lo, mas para enfrentá-lo, à medida que nos reinventamos. Escrever o medo para resistir.

O meu medo nasceu no armário. Havia uma instituição contando algo sobre o meu corpo e meus afetos, dizendo-me inadequado. As vozes ao redor aprenderam sobre corpos abjetos e empurraram tantas outras bichas para dentro do armário ou para dentro de casa, aquelas que sobreviveram. O medo vive dentro de casa também, reproduzido, reproduzindo, camuflado como amor.

Escrever o medo é assumir o que nos falta, o que nos dói, partindo de incertezas, mas a observar urgências e dissidências indomesticáveis, e entregar-se ao impossível; é reinventar-se e seguir; é seguir rumo ao Eu em construção que sou/somos e que pode ser tantos outros e outras. É inventar estéticas com as palavras, comunicando-se com todas as produções artísticas nos muitos Brasis que existem, é também questionar regimes de identidade à medida que esses criam silenciamentos e marginalizações.

Escrever o medo é assumir os riscos, incorporar resistências e inventar uma casa nova e outros afetos; é inventar o amor que queremos para nós, todos os dias, antes de quase morrer mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, todo dia.

Escrever sob o medo, com o terror à espreita, é também criar linhas de fuga, buscar coerência entre falar/agir, manter encontros potentes e honestos com pessoas e afetos, a assumir vulnerabilidades para identificar modos de resistir, e seguir, seguir, seguir.

Raimundo Neto nasceu em Batalha, no Piauí, onde viveu até 2014. Venceu o Prêmio Paraná de Literatura com o seu livro de contos Todo esse amor que inventamos para nós (Editora Moinhos), e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura com romance inédito. Integra a antologia brasileira escritas por LGBTQs A resistência do vaga-lumes (Editora Nós) e a coletânea de contistas piauienses Caçuá (Fundapi). Foi colaborador da revista eletrônica São Paulo Review. Mora em São Paulo e trabalha como psicólogo e garantia de direitos de crianças e adolescente no Tribunal de Justiça do Estado.

a economia do céu, de Dirce Waltrick do Amarante

Sentada na fileira 14 de um avião que ia de Brasília a Florianópolis, participei, gratuitamente, de uma palestra motivacional proferida pela colega da poltrona ao lado. Com muita segurança e propriedade, a palestrante formulou, em quase duas horas de voo, as teses mais diversas: “devemos reconhecer nossas inteligências e desenvolvê-las” ou “somos a imagem e semelhança de Deus”. Não era a mim que ela se dirigia, mas à colega da poltrona ao lado da dela. Contudo, foi-me impossível escapar da sua ladainha, pois o voo estava cheio e eu não tinha para onde ir. O fato é que o que ela dizia, em tom bíblico, parecia chegar aos meus ouvidos antes de chegar aos ouvidos de sua real plateia.

A palestra não começou sem um introito em que a palestrante contou um pouco de seu percurso até aquele momento: era médica, mas a “medicina havia se tornado ‘pequena”’ para ela, depois que descobriu sua missão nesta vida, e sua missão era ser influenciadora. Explicou que temos os influenciados e os influenciadores e que, quando somos fortes, inteligentes e capazes, não nos deixamos influenciar, mas influenciamos. Aqui, desviei o olho do meu livro (sim, tentava ler sem sucesso um livro sobre Georgiana Houghton, a espiritualista inglesa considerada a precursora da arte abstrata) e olhei para ela com curiosidade; queria saber quem era aquela pessoa tão especial que sentara justo ao meu lado.

Sua ladainha prosseguiu com ela afirmando que sua missão era ensinar. Nesse momento, embora disfarçadamente, não pude mais tirar os olhos dela e até prestei atenção, pois sou professora e podia tirar algum proveito de sua sabedoria.

De repente, para a minha surpresa, ela disse que o que ensinava mesmo era economia e mostrou à sua plateia, com muito orgulho, um livro que acabara de ler, Chaves para a economia do céu, e profetizou: “Nele vamos reconhecer Jesus Cristo”. “Senhor!”, pensei, “não estou entendendo mais nada”.

Mas logo entendi que o livro, cujo título achei muito criativo, beirando o nonsense, era coisa séria, tratava de princípios econômicos ditados pelo Senhor. Um desses princípios, segundo a palestrante, era fazer a economia girar, e para fazê-la girar, disse ela, “temos que dar e receber; entretanto, não podemos esperar para receber primeiro, temos que dar início ao ciclo; então, temos que dar, doar, nos esvaziar e só depois…”. Não escutei o resto porque tive que ir ao banheiro, vou muito ao banheiro quando viajo de avião.

Quando voltei, ela já estava nas sete leis espirituais do sucesso, que eram citadas em inglês (ou algo parecido) e, em seguida, em português. Essa coisa de falar em duas línguas parecia dar mais credibilidade. A moça que a ouvia atentamente parecia embasbacada e disse: “Yo hablo español”.

A ladainha só teve fim quando chegamos a terra firme. No primeiro aviso de desatar os cintos, pulei da poltrona, peguei minhas tralhas e parti.

Disso tudo, confesso, ficou um aprendizado, do qual agora não me recordo.

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de Cem encontros ilustrados (Editora Iluminuras).

parte bicho, de Julianne Veiga

A parte bicho da moça sobrevivente

Goiás, 04 de julho de 2019.

A moça é adulta agora. Tem quem, inflexível que é, a considere envelhecida. Ah, pobre do sujeito que pensa assim. Sabe pouco este, pensa reduzido, fechado no espaço curto de um torto tempo limitado pela visão isolada de um. Ela, caso estivesse aqui ditando o norte do relato desta sua histórica, talvez até desse razão a quem assim o diz. Fazia pouco de si mesma esta moça. Mas isto de ser ou de estar velho quase nenhuma diferença faz. Pode fazer uma diferença meramente subjetiva, já que ou a velhice é coisa de dentro, introjetada em cada um, ou é coisa apenas de quem, de fora, olha só por olhar e, embora pouco ou nada veja, julgue: está velho aquele. Em geral, ser velho na atualidade é situação vexatória, segundo os padrões predominantes. Bom, mas predominância é como a maioria sobre cuja definição o cronista foi duro ao indicar a respectiva e insuficiente inteligência. A moça da nossa história, porém, aceitou envelhecer. Nada disto, tampouco, importa aqui. A moça, que é agora adulta, desde sempre consumiu seu tempo, todo ele, é o que lhe parece porque tempo também é subjetivo, procurando a porta de saída. Não é bem assim, na verdade, esta moça não tinha uma noção clara sobre si, sobre sua história e sobre como ela e sua história se inseriam, bem ou mal, no mundo, no vasto mundo que circundava a si e àquilo que era tido por ela como sendo a sua vida. Bem, a porta de saída era um desafio. Sair nunca é fácil, principalmente quando você não tem certeza de que é a saída aquilo o que busca, que ela é o fim almejado ou, pior, que ela existe e que é preciso que por ela se saia para algum lugar onde estará, enfim, salvo. Pensa bem: você nasce num grupo familiar, num determinado lugar, cresce nele, vive segundo aqueles padrões. Então, não me diga que a porta de saída é visível a olhos desnudos. Ora, se fosse, sequer haveria procura, menos, ainda, a saída seria necessária, estaríamos delas e de tudo mais todos a salvo. É preciso, por isto, entender que a moça percorreu caminho. Foi menina. É adulta agora, velha como podem preferir os apressados. Antes engatinhou confusa sobre uma história que construiu para si mesma e nela se salvou e se perdeu. Esta tal moça é forte e ardilosa: sobre a história de base, que deixou submersa em seu inconsciente, construiu uma outra ficta, assentada sobre falsos cenários verdes, com céus azuis de primavera, igualmente irreais. Sobre tal virtualidade perfeita se assentou como pessoa feliz. Só que a base falsa tem sempre frestas incontidas por via das quais a verdade escapa, infalivelmente. A moça, antes menina, desde então, cresceu sentindo-se um blefe. Inadequada. De fato, era ela um blefe, vez que firmava-se sobre aquelas bases falsas e inseguras que, sabia, eram produto de suas idealizações de sobrevivência. A menina da moça, precedendo a agora adulta, creu em seu mundo virtual de felicidade, idealizado como campo de paz. Num determinado momento, ousada, fez tudo ruir. Ela fez ruir. Estava cansada de não saber bem quem era. E aí, ela desmistificou sua felicidade falsa, sua segura insegurança. Pulou de “de ponta” no poço fundo que era ela. Teve coragem. Submergiu. Emergiu faz pouco à superfície. Está agora tomando fôlego, quieta ao seu próprio lado. Tem a si como companheira.

Julianne Veiga é de Goiás, uma antiga e histórica cidade do interior do estado de Goiás. Casada, três filhos, três netas.

um país deserto e sem céu, de Franklin Carvalho

O ônibus que seguia para o sertão deu uma parada e ali subiu um senhor com aparência sexagenária que vendia pastéis e outros salgados. Na caixa plástica dos seus lanches exibia um grande adesivo com a frase “Arrependei-vos e crede no Evangelho”. Ele desfilou pelo corredor anunciando seus produtos e, nas cadeiras do fundo, encontrou dois homens seus conhecidos. Comentou com eles algum episódio de crime, e concluiu:

— Conheci um cidadão que foi preso e na cadeia havia um ferro quente, desses de marcar gado, e lhe gravaram na traseira uma letra. Devia ser assim até hoje. Deviam pegar cada preso e arrancar as unhas todos os dias, durante uma semana, de alicate.

Ele voltou e me ofereceu as peças de trigo que eu já havia recusado.

— O senhor é cristão? Não foi isso que Jesus sofreu?

Não precisei colocar mais detalhes, o vendedor já sabia que eu estava entrando na sua conversa sobre tortura. Sem aparentar qualquer surpresa argumentou que “no tempo de Jesus” já havia castigos.

— Sei disso, houve o caso de Maria Madalena, e Cristo se opôs àquela barbaridade.

— No velho testamento se castigava assim também!, afirmou o ambulante, já se adiantando para descer no próximo ponto, sem ouvir minha comparação entre os dois livros da Bíblia.

Uma mulher jovem do outro lado do corredor olhou para mim parecendo concordar com o que eu dizia. Lá atrás os dois amigos do pasteleiro mergulharam numa conversa cheia de risadas que eu não conseguia ouvir direito, mas que tinha expressões de contentamento com a brutalidade. Senti que eles precisavam rir enquanto faziam comentários carniceiros, e que era melhor não escutá-los. Prossegui a viagem crendo que nenhum daqueles valentes assumiria a tarefa de arrancar unhas, que delegariam a função a um miserável mal assalariado, como os governantes fazem, que contratariam um carrasco faminto para a manutenção da sua grande moral e do seu grande Deus.

No retorno a Salvador, num carro de frete, o motorista jovial falava também de temas de segurança pública. Eu vinha calado ao seu lado, a conversa dele era com um idoso que viajava atrás. O velho, que balbuciava contra os direitos humanos, mudou o assunto para a economia e disse que “era grande o rombo na Previdência”. O homem ao volante concordava mas desviou, e falou que o presidente da República fala muita bobagem, é fraco e não se comporta como um governante. Também condenou a “trambicagem” que fizeram para prender o Lula. O velho, desistindo, abriu uma Bíblia e começou a gaguejar na leitura de algum trecho sem começo nem fim.

Vontade de chegar em casa. Como no dia em que saí da Festa Literária de Cachoeira (Flica), em 2017, e peguei uma van de frete e, na viagem, fui submetido a um ritual cheio de “aleluias”. A produção da Flica tinha me oferecido transporte, mas eu me atrasei e voltei em condução improvisada. A van pegou engarrafamento na rodovia e eu até dormi, mas acordei no meio da noite, o som gospel em alto volume no carro. Quando o cantor elevava a voz, o motorista empolgado soltava o volante e erguia as mãos em transe. Mas chegamos.

Vontade de chegar em casa. No dia seguinte à Festa Literária de Cachoeira eu já estava em Maceió, para apresentação na Bienal do Livro da capital alagoana. Terminado o trabalho, fui passear pela orla, a lua cheia na praia serena, ao longo da avenida urbana. Vi na areia um grupo religioso, jovens com violão simulando um luau, mas o assunto era muito grave. Novamente muitos “aleluias”.

— Cada um promete fazer sua irmã deixar de ser imoral? Cada um promete lutar para que a universidade não seja ambiente de prostituição?

Segui pela calçada, conheci as barracas, a tapioca, alguns moradores de Maceió e regressei. No retorno comentei com alguns dos rapazes que desarmavam a cena religiosa: “Tem gente com fome! O Brasil precisa de revoluções em tudo”. Responderam com o código que tinham, excitados: “Jesus te ama”.

Vontade de chegar. Segundo as Escrituras, na casa do Senhor há muitas moradas.

Nota do autor: Título da crônica tirado da música italiana A casa de Irene, de Nico Fidenco, que diz “I giorni grigi sono le lunghe strade silenziose / Di un paese deserto e senza cielo.” (“Os dias cinzentos são como as longas estradas silenciosas / de um país deserto e sem céu.”)

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

a peteca, de Chico Viana

Eu fazia o segundo ano ginasial. Meu colégio não era nenhum modelo de prática pedagógica, mas gozava de prestígio na cidade. Estava longe de ser, como se costuma dizer de certas escolas, pagou, passou. Também não impunha aos alunos grandes desafios; estudando razoavelmente, a gente conseguia passar de ano até chegar ao temido vestibular. Isso permitia que eu tivesse um razoável sucesso, pois as peladas e os jogos de botão não me impediam de fazer os deveres e me preparar para as provas.

A turma deixava a desejar quanto à disciplina. Falava-se muito, gritava-se vez por outra. Havia dias em que os professores não conseguiam controlar a classe e tinham que chamar o diretor. Ele vinha, dava uma lição de moral, prometia suspender ou mesmo expulsar os rebeldes. Isso nos acalmava um pouco, mas não era suficiente para nos manter concentrados. Bastava um espirro, uma tosse estridente (proposital!) para que começassem os risos, que não raro evoluíam para a algazarra.

Quem nunca tinha esse tipo de comportamento era Jurandir. Sua mãe enviuvara e vivia de faxinas. Como a família não tinha condições de pagar a escola, ele recebera uma bolsa e procurava corresponder com um comportamento exemplar. Evitava todo tipo de indisciplina e era muito esforçado. Sabia que o bom comportamento e a aplicação eram essenciais para que continuasse como aluno. Evitava, assim, deixar-se levar pelas más disposições de espírito dos colegas, cujos pais podiam pagar não apenas a escola como também o curso de língua estrangeira (além de outros pequenos luxos da classe média).

Entre nossos professores, havia um que era mais duro. Chamava-se Godofredo (quando ele disse o nome, olhamo-nos com um ar de riso). Godofredo dava aula sentado, com a cabeça baixa. Mandava-nos ler um trecho de Camões, ou de Machado de Assis, e pedia que interpretássemos. Como quase ninguém dizia nada, ele não tinha papas na língua para enfatizar a nossa estupidez. Éramos estúpidos porque não tínhamos interesse em ler, conhecer a nossa literatura, dominar os recursos semânticos e sintáticos para escrever bem…

Hoje entendo melhor Godofredo. Ele tinha um amor verdadeiro pela língua e queria nos transmitir um pouco disso. Queria que crescêssemos. O que lhe faltava era a habilidade para nos sensibilizar. Preferia o confronto direto, a ilustração de nossas fragilidades. Não suportava indisciplina, e quando a turma se mostrava rebelde ele ameaçava chamar os pais para uma “conversa séria”.

O que houve numa de suas aulas me marcou para sempre. Foi numa dessas ocasiões em que estava difícil controlar a turma, que na aula anterior praticamente expulsara a professora Gisleide, de História (uma candura de pessoa, mas sem força para impor disciplina). Godofredo entrou na sala sério, sentou-se como fazia habitualmente e abriu a gramática. Nesse momento a peteca irrompeu não sei de onde e passou rente ao seu rosto. O giz não o atingiu diretamente, mas bateu no quadro e foi parar em cima do birô. Ele pegou o pequeno petardo, examinou-o, e em seguida olhou para a turma com ar colérico, como se fosse revidar.

— Quem foi?

Silêncio. Godofredo ficou nos encarando por cerca de meio minuto. Repetiu a pergunta:

— Quem foi?! Quero saber agora!

Como ninguém falasse, ele aliviou o semblante e esboçou um sorriso:

— Perguntei por perguntar, pois sei quem jogou a peteca. Eu queria ver se o autor tinha a decência de se revelar.

Depois de dizer isso, apontou para um de nós e falou num tom que não admitia réplica:

— Seu Jurandir, saia da classe e vá até a diretoria. O senhor está suspenso.

Jurandir ficou branco e começou a tremer. Com voz sumida, tentou negar:

— N…não f…fui eu.

Sabíamos que não tinha sido ele, mas Godofredo insistia. Repetiu alto, como se falasse para toda a turma:

— Foi, sim! Eu vi. Tenha a dignidade de reconhecer e vá à diretoria.

Jurandir levantou-se, encurvado, com lágrimas nos olhos. Olhamo-nos sem saber o que dizer. Como suportar aquela enorme injustiça? Godofredo parecia convencido e não estava disposto a voltar atrás. Se ao menos tivesse apontado outra pessoa…

Mas antes de o acusado transpor o umbral da porta, um dos alunos se levantou e disse de um jato:

— Não foi ele, professor. Fui eu.

Respiramos aliviados. Não nos surpreendia que tivesse sido Claudionor. Ele era pouco estudioso e costumava fazer baderna. Talvez até gostasse de passar um tempo em casa, vendo televisão e lendo gibis.

Godofredo dirigiu-se então a Jurandir, que havia parado quando ouvira o colega assumir a culpa:

— Volte, seu Jurandir. Sente-se no seu lugar.

Depois olhou para o responsável pela brincadeira, que continuava em pé enquanto era alvo do olhar da turma:

— E você, seu Claudionor, vá para a diretoria.

Voltou ao birô e pediu que abríssemos o livro de textos. Tentávamos voltar ao normal. Notei que ao longo da aula Jurandir permaneceu intranquilo. Parecia desconcentrado e tinha no rosto um resto de palidez. O que se passava pela sua cabeça? Pensava, talvez, que teria sido vítima de uma injustiça caso o colega não assumisse a culpa. Quanto a mim, jamais tive dúvida; Godofredo sabia muito bem que não tinha sido ele quem jogara a peteca.

Chico Viana é doutor em Letras pela UFRJ , jornalista, professor de língua portuguesa e redação.

entre livros, crônica inédita de Pedro Menezes

Fica em uma rua secundária, meio escondida. Livros antigos, raros, gravuras, obras de arte, antiguidades. Loja e um mezanino, atulhados: uma mistura de sebo com antiquário.

Na vitrine, igualmente lotada, além de livros, objetos, entre eles um belíssimo abajur antigo, dividem espaço com uma cesta de vime. Dentro, uma gata. Vira-lata. Mas com uma coleira de pingente. Ela é grande, meio gorda, toda manchada, tons alaranjados, bonita, imponente.

A verdadeira dona e senhora do local. 24 horas por dia entre histórias, objetos, lembranças, personagens, passados.

Durante os dias, finge dormir na cesta, mas de verdade, está atenta a todo e qualquer cliente que entre pelas portas de vidro.

Colombina é a guardiã de tudo e de todos. Não é qualquer um que vai levar a segunda edição de Dom Quixote. Muito menos folhear aquelas edições italianas do século XIX.

Turistas ela não gosta. Sabe que só estão entrando pelo pitoresco do local, não pelos seus tesouros. E ai daquele que tentar afagá-la. Solta um rosnado agudo que intimida quem chega perto demais de sua cesta.

Mas sabe reconhecer os que gostam de livros. Estudantes, escritores, bibliófilos. Esses tem um ritmo e um brilho diferente no olhar quando entram na loja. Uma reverência que ela percebe de cara.

Silenciosos, ficam horas percorrendo as diferentes estantes, conferindo as lombadas, examinando frontispícios, folheando cuidadosamente as páginas delicadas, às vezes cheirando os livros.

A primeira vez que pus os pés lá, não dei pela gata. Estava atrás de um livro raro, essencial para um ensaio que não conseguia terminar. Não encontrei o que queria, mas saí de lá com uma sacola cheia. Só na porta eu percebi a cesta de vime na vitrine. Mas prometia chover e fui embora correndo.

Voltei outras vezes. A cada nova visita, percebia mais os olhos dela me espreitando. Foi só na quarta ou quinta vez que parei na sua frente. O dono já havia me alertado para tomar cuidado com suas garras, mas teimoso encarei a bicha. Ela parecia estar me avaliando pela pilha de livros que eu tinha escolhido. Não me arrisquei a passar a mão nela. Ela também não me unhou nem rosnou para mim.

Meses depois entrei na livraria novamente. O dono não estava, apenas a moça da faxina, que fazia as vezes de balconista. Fui direto para estante dos italianos. Estava tão entretido com algumas futuras aquisições que mal percebi um roçar nas minhas canelas.

Hoje, sou eu quem está atrás do balcão. Comprei a livraria com todos os livros e objetos. Só impus uma condição ao antigo proprietário: Colombina ficou.

| crônica do livro O menino passarinho (no prelo). |

Pedro Menezes está envolvido com criação desde 1992, quando se formou pela ECA-USP. Pai do João, é artista plástico, ilustrador e designer gráfico. Adora Matisse e desenhar ouvindo Miles Davis. É autor do livro Caderno de Observação de um Filho, publicado pela Pólen Livros, que hoje continua no blog homônimo [link]. Com seu parceiro Lúcio Goldfarb, publicou três livros infantis também pela Pólen: Joãozinho Quero-quero, Cadu e o mundo que não era e Urso Alfredo e o mistério na neve.

carta de novembro, de Mariana Ianelli

Não leve a mal o silêncio, meu amigo. São horas de equilíbrio instável até chegar a uma trilha arborizada, depois mais algumas horas até poder pensar uma palavra. E assim vão as semanas. Passando um tempo imenso sem registro. Um tempo imenso livre de ser registrado. Nenhuma peripécia aparente. Nada de prazeres transatlânticos. É só um café depois do almoço. Uma hora a mais de sono de vez em quando. Um banho morno. Um chá à noite. Prazeres inversamente proporcionais a seu nível de extravagância, mas como fossem graças, pequenas graças. Uma cópula aérea de borboletas. Seis hibiscos abertos mais três brotos. Um reflexo de fogo no vidro do apartamento em frente. Coisa pouca, para cuidar que os ecos do mundo não quebrem uma alma através dessas janelas para os muitos cantos da Terra com seus meninos cobertos de cinzas, como tatus enfiados em abrigos, retirados de escombros, meninos salvos de bombardeios, meninos em botes apinhados de gente em pânico, bichos enlouquecendo em cativeiros, essas imagens do dia que entram por nossos olhos e depositam seus ovos aqui dentro. Então o silêncio. Então um tempo imenso sem registro, mas de íntimas batalhas. Para colher do mundo um mundo que mereça uma criança. Como aquela mulher que caminhava debaixo de chuva, com bolhas nos pés, em tempos de guerra, procurando um ramo de rosas para trazer para casa. Como o passarinho que vai preparando seu ninho contra o vento com centenas de minúsculos gravetos: ainda cuidar de fazer dentro de um dia uma cama de pequenas graças. Não são as palavras que custam a ganhar forma, custa é colocar alento nelas. Não leve a mal, meu amigo. Uma palavra demora um milagre a nascer.

| crônica do livro Entre imagens para guardar (Ed. ardotempo, 2017). |

Mariana Ianelli, nascida em São Paulo em 1979, estreou na literatura em 1999. É autora de oito livros de poesia, entre eles Fazer silêncio (2005), O amor e depois (2012) e Tempo de voltar (2016). Recebeu o prêmio Fundação Bunge de Literatura (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e foi quatro vezes finalista do Jabuti. Tem dois livros de crônicas, Breves anotações sobre um tigre (2013) e Entre imagens para guardar (2017). Escreve quinzenalmente aos sábados na revista digital de crônicas Rubem. Em 2018 estreou na literatura infantil com o livro Bichos da noite.

parece que foi ontem, de Andréa Carvalho

Maquiada, de calça legging marrom, sandália estilo gladiador dourada, blusa com estampa de oncinha e bolsa reproduzindo a pele de zebra, ela se apresentava super fashion numa pele com mais de 70 anos. Antes de dizer qualquer palavra, apenas um detalhe fazia com que um olhar mais cuidadoso duvidasse de que seria só mais uma senhorinha vaidosa de Copacabana, um pentinho de plástico quase escorregando do alto da cabeça, parecendo que havia pernoitado ali e permanecia perdido naquele emaranhado de cabelo fino tingido de vermelho.

No diálogo meio confuso com a secretária do consultório dentário, ora se referia à forma como pagaria o tratamento, ora comentava sobre o que passava na TV, ou melhor, sobre o que ela entendeu que estava passando. Na tela eram imagens de bares, e alguém entrevistando pessoas que faziam refeições. O som estava baixo, não se ouvia exatamente do que se tratava.

— Filha, você escreveu aí que vou pagar em três vezes no dinheiro vivo?

— Está aqui, senhora, coloquei 3x.

— Não, eu quero que você escreva que é em três vezes, escrevendo, sabe? Para eu não esquecer depois. Esse “três xis” aí não dá pra ver… e essa coisa de dar gorjeta virou mesmo lei, é?

— Não sei, senhora. Vou marcar então a próxima consulta para segunda-feira às 11h, tudo bem?

— 11h é muito tarde! Não pode ser às 9, é que eu acordo cedo…gosto resolver tudo logo, sabe…

— O dentista mora longe e o trânsito na segunda é dos piores… 10:30h não está bom?

— Ele está muito dorminhoco, o que é isso! Já é pai de família! Dois filhos! Marque às 10h. E, olha… se eu precisar de ajuda para voltar, você pode me acompanhar até em casa? Eu moro na outra quadra, na esquina com o Banco do Brasil… é que às vezes me perco… minha cabeça não anda boa, também, vou fazer 82, garota…

— Tudo bem, Dona Henriqueta. Segunda, 10h. Tá marcado.

Estendendo uma nota de dez reais para a secretária, ela diz:

— Não dou gorjeta quando não gosto do atendimento… mas aqui eu faço questão.

— Imagina, senhora. Só estou fazendo o meu trabalho.

Sem graça, a moça a acompanha até a porta, apressada em se livrar do embaraço.

Chegou a minha vez. Não resisti em comentar o quanto achei perigoso aquela idosa estar andando sozinha por aí, não me parecia muito segura.

O dentista, um rapaz com não mais de 30 anos, nem perto de ser pai de família ou de filhos, relatou como Dona Henriqueta tornou-se sua paciente especial: na certeza de encontrar o dentista com quem se tratava há uns vinte anos atrás, ela entrou no consultório, sem hora marcada, procurando pelo Dr. Feliciano para concluir um procedimento dentário. Decepcionada com a ausência do amigo e perplexa com a mudança no local, disse que sentia muito pela suposta morte do doutor, mas confiaria no dom herdado pelo filho — no caso ele, Dr. Leonardo, filho de João, que nunca teve notícias de nenhum dentista chamado Feliciano naquele local — e retomaria o tratamento com muito gosto porque achou o jovem parecidíssimo com o pai.

E disse mais, especialmente naquele dia, ao término da consulta, ela lamentou até as lágrimas não ter se despedido de Feliciano, lastimou a rapidez com que o tempo passa e reforçou, depois de um caloroso abraço, não só a semelhança física, mas a gentileza e o carinho com que ambos sabem tratar seus pacientes.

Andréa Carvalho é formada pela UFRJ em Letras, professora e escritora. Foi uma das selecionadas para o Dia do Autor Independente na FLIP 2018 com 50 Dias Letivos, livro de crônicas baseadas na sua experiência como professora nas escolas públicas do Rio de Janeiro.

os livros vermelhos da infância, de Neide Almeida

Jamais esquecerei o dia em que o inesperado tesouro chegou à nossa casa. Entre deslumbrada e incrédula vi surgir, diante dos meus olhos, 16 volumes encadernados de vermelho com letras douradas.

Junto com a enciclopédia a sala ganhou também uma estante: à direita a televisão; à esquerda os livros cuidadosamente dispostos um ao lado do outro, nobres lombadas expostas. No final da elegante fileira, dois volumes com capa creme, detalhes em vermelho e dourado.

Daquele dia em diante nossa vida ganhou novos rituais. Inesperadamente surgiam dúvidas inadiáveis: “quantos são os estados brasileiros?”, “quem foi José do Patrocínio?”, “quais são os sintomas da anemia?” Como saber sem recorrer a um dos imponentes volumes da Barsa?

Então, autorizado pelo pai ou pela mãe, um de nós retirava cerimoniosamente o livro da prateleira, com ares de gente importante, localizava o verbete e lia para os demais, que mal respiravam para não perder nenhuma palavra da enigmática explicação. Olhávamos um para o outro, admirados, mais confusos do que antes. Volume devolvido ao lugar, esquecíamos o vocabulário complicado e voltávamos a brincar no quintal entre bananeiras, goiabeiras, tropeçando no cachorro e assustando as galinhas com nossa gritaria.

Era também uma festa quando alguém batia palmas junto ao portão e pedia para “fazer uma pesquisa”. Novamente um de nós era eleito: identificava o tema, encontrava o livro na estante. O vizinho era convidado a sentar-se à mesa da cozinha, que se transformava em biblioteca. Voltávamos às nossas brincadeiras, sem a costumeira algazarra para não atrapalhar o visitante.

Os rituais se multiplicavam. Entre todos, o meu predileto era o mais profano: aos sábados todos aqueles livros deveriam ser limpos e realinhados na estante. Então, sentava-me ao chão e, enquanto amorosamente tirava a poeira de cada volume, acariciava capas, descobria texturas, folheava os volumes, lia clandestinamente um trecho aqui, outro ali.

Lembro-me também de longas horas dedicadas a copiar verbetes: folhas e folhas de papel almaço, cobertas de letras dolorosamente traçadas para garantir legibilidade ocupavam horas de meus dias de estudante.

Só muito tempo depois eu soube do esforço feito por meu pai para que nós tivéssemos a Barsa em nossa casa. Luxo que ele prolongou por muitos anos, comprando o “livro do ano” que atualizava a coleção publicada em 1970.

Os anos se passaram, eu e meus irmãos terminarmos nossa formação básica e cada um seguiu seu rumo. Minha filha chegou a consultar a enciclopédia, que logo depois foi abandonada e acabou perdendo seu lugar na estante da sala.

Confesso que há muito não me lembrava dessas histórias. Então, surpresa, soube que a Barsa continua viva, convive com o facebook, com o google e a wikipédia. E mais, para minha felicidade e emoção, descobri que desde cedo, sem sequer imaginar, eu já era conduzida por eternos mestres. Imaginem: Antonio Candido, Houaiss, Niemeyer, Milton Santos foram alguns dos intelectuais que recebemos em nossa casa. E como é costume da minha gente, vencida a timidez inicial e as primeiras cerimônias, depois de começadas boas conversas não acabam nunca mais.

Ainda hoje os livros vermelhos da minha infância continuam ocupando o lugar mais nobre de minhas salas internas e, como a criança que fui, continuo fiel aos rituais aprendidos na meninice. Agora mesmo, escrevo sob os olhares atentos de uns tantos volumes, que se curvam na pontinha da estante para espiar se não me esqueci deles ao contar essa história.

| crônica do livro Crônicas memórias (no prelo). |

Neide Almeida é escritora e coordenadora pedagógica do Museu AfroBrasil.