sabe que vai se atrasar

Atraso.

Sabe que vai se atrasar. Com certeza vai. Faltam vinte minutos. É culpa da longa espera naquela fila monstruosa que saía da lotérica e avançava pela calçada. Mas, se tivesse pago a conta e já ido aonde deveria, chegaria a tempo, sem precisar correr com a moto pelas ruas. O problema é ter escolhido percorrer a rua do sebo, mesmo sabendo que vai entrar e bisbilhotar os livros. Conferir as novidades.

Foda-se chegar atrasado. Foda-se nada, a consciência não está tão indiferente assim. Tudo bem, o atraso foi compensado pelo livro que encontrou. Houve a intuição de que algo especial o esperava naquelas estantes. Leu lombada por lombada com atenção. Se alguém o estivesse espiando, acharia engraçado os olhos arregalados, fixos, cuidadosos para não perder nenhum título. Lera tantas vezes aquelas fileiras que qualquer novidade prenderia seu olhar, como um dente de ouro quebrando o ritmo de um sorriso.

Pegou o livro sem dúvida alguma se o compraria ou não. Ninguém o tiraria de suas mãos. Enquanto retoma a caminhada pela rua, pensa não em acelerar para diminuir o atraso e sim no que escreverá como recordação da compra, talvez vinte e nove de maio de dois mil e dezessete, pago com a última cédula da carteira, só restaram moedas, poucas, não enchem a palma da mão.

Moedas de pouco valor, pequenas, menores que os olhos que o recepcionam severos em duro silêncio. Que cheirinho doce, é tudo que importa agora, as flores exalando. Respira devagar, profundo, enquanto se move lento em direção ao corpo quase submerso entre as brancas corolas.

Gustavo Petter mora em Araçatuba/SP, é professor. Mantém o blog Agradável Degradado. Tem poemas e traduções publicados na revista g.u.e.t.o, mallarmargens, Germina, Escamandro, Modo de Usar, Diversos Afins, Alagunas. Participou da exposição Poesia Agora no Rio de Janeiro.

um outro clichê

As roupas saíam sempre quentes da secadora, como os abraços dados ao final do dia. O calor chegava às mãos em um encontro de carne e alma. Cheiro de roupa limpa impregnado com a essência da noite anterior. Postas uma a uma em cabides organizados simetricamente no armário, as camisetas, quase sempre pretas, iam esfriando, deslizando e desfazendo as dobras. Uma delas, entretanto, continuava amassada. Pronta para acomodar cada costura torta no corpo de um segundo eu.

A camiseta, com a gola já surrada pelo tempo, parecia ter sido moldada no formato dela. Vestia fácil, como água de rio em correnteza. Era um santuário. Quando dentro, ela sentia-se completamente envolta por ele. Abraço permanente que só findava ao amanhecer.

Fazia parte de um ritual de pertencimento. Amedrontava-a dividir espaços. Sua escova escondia-se na primeira gaveta. Não queria ocupar um lugar que não era seu. A camiseta era a fuga do medo de tornar par os objetos de um só.

Aquele pedaço de pano verde desbotado não era dela. Era dele. Presente dele para ela.

Às cinco da manhã fazia meio-dia. Um tempo além do que ela podia segurar. Ela não sabia ser. Não conhecia a si própria para se entregar ao som de Last Kiss. Era feito pássaro engaiolado em seus medos. Cobria-se de vergonha ao pensar em liberar as asas e dançar junto a ele.

Aquele sotaque manso permeou o peito antes de se apresentar aos ouvidos. Ela odiava bonés e, ainda assim, pareceu-lhe uma boa ideia explorar o que vinha debaixo daquela aba que vira pela primeira vez. Às cinco da tarde fazia meia-noite em Paris e ela não sabia lidar com a escuridão.

Causou-lhe espanto quando, de repente, encontrava-se ali naquele mirante, que custaram a chegar. Deitada na grama, olhavam as luzes acesas dos prédios que circundavam a cidade e, por horas, brincaram de imaginar a vida das pessoas que habitavam cada quadrado de concreto iluminado. Arriscaram palpites para quebrar a timidez. Se soubesse lidar com a escuridão dos olhos dele, com certeza ela os intimidaria com as mais belas histórias que construíra em sua mente. Preferiu ficar no trivial. Ela tinha 18 anos e muita coisa para descobrir.

Naquele tempo, os dias corriam lentos. Quinta-feira era sagrada. Dia de encontrar um ao outro. De quinta em quinta, ele foi ficando. Tornou-se o primeiro e despertou-lhe a curiosidade de ser mulher. Segurou-lhe as mãos e deu-lhe vida. Ela, em troca, insegurança.

Colocou-a dentro do carro, trocou o CD e mexeu no volume com movimentos só seus. Ele tinha um jeito especial de controlar o som. Seguiram sem rumo até a última faixa do álbum. Estacionaram no centro de uma cidadela vizinha. Às duas da manhã fazia um horário qualquer. Não tivera tempo de checar o relógio. A praça central estava vazia. Ele a pegou no colo, caminhando até uma escadaria de pedras gastas impulsionou o voo dela. O primeiro. O gosto da liberdade em forma de sopro da madrugada.

Era solstício de verão, o sol teimava em arder e ela não tirou o casaco. A urgência de sentir o calor que emanava da pele dele a fazia suar. O fluido destilado por seus poros escorria pelas têmporas. Hesitou e permaneceu agasalhada. Não se sabe se por medo ou precaução das queimaduras podiam vir a arder.

O dia levou certo tempo para chegar ao fim e o sol sobre o trópico de Capricórnio iluminou aquele encontro por doze meses e um punhado de semanas. Chegou o equinócio e ela, com olhos constantemente turvos d’água, ainda tropeçava pelos caminhos que a levariam ao encontro de si própria. Às quatro da manhã o relógio parou. Dia e noite com a mesma duração. Dançaram a última música nas primeiras horas. Ela colocou seus pés sobre os dele e, suavemente, subiu e deixou que aquele som que ele escreveu para ela guiasse seus passos. Ela foi a segunda pessoa do mundo a ouvir a música que era sua. Rodopiaram no centro do quarto. Mal sabiam que o solstício de inverno, com sua frente fria, se aproximava. Ao final daquele dia, desataram o laço. Ele a queria de corpo e alma, mas ela nunca tinha vislumbrado nada além do que está refletido no espelho. Não podia oferecer o que desconhecia.

A verdade é que ela não desejava estar ali. Não naquele momento. Queria partir, conquistar um sonho ainda não sonhado. Impulsionada pelo o que nunca existiu, tentava conter sua coragem em um baú de madeira aos pés da cama. Aquela caixa de madeira maciça, abarrotada de histórias antigas, não tinha espaço para trancafiar tamanha energia. O trinco estourou e feito agulha entrou em seus ouvidos. Perdera o controle. Suas mãos não eram fortes o bastante para conter o destino. Ela ainda não sabia disso.

Deitada sobre o chão de ardósia fria, suplicava pela presença. Não entendia de onde é que vinha aquele tremor. Era do lado de fora ou de dentro dela? Prestes a explodir, juntou tudo o que era dele em uma caixa de papelão. Roupa de dormir, livros e DVDs. Naquela época, costumava-se ir a locadoras. Tinham esquecido de devolver um exemplar. O último filme que assistiram juntos.

Aquele lugar não fazia sentido sem a presença dele. Juntou a bagagem de alguns anos e partiu. Deixou para trás uma vida e incendiou-se. Num voo mimético ao de uma fênix, renasceu das cinzas e pousou no próximo destino. Ela ainda não sabia, mas era ali o local de seu segundo nascimento. O ponto exato onde descobriria a identidade do seu próprio eu.

Pouco a pouco, a distância fez a dor amenizar. Já não tinha mais tempo para culpá-lo por sua mudança. Às vezes, enfurecia-se. Pensava que, talvez, ele pudesse ter causado essa mudança propositalmente, com a pretensão de afastá-la. Noutro tempo, esquecia-se do seu timbre de voz. Forçava a memória até ouvir a voz dele chamando seu nome ao longe. Presa em um ciclo de padecimento e alívio, ela vivia.

A saudade cedeu lugar a um sentimento até então desconhecido. Ela sabia que aquela despedida era permanente. Ele foi a última visita de seu apartamento. Em meio às caixas empilhadas, amaram-se. Ela pediu para ele ficar mais uma centena de vezes. Ele negou outras mil. Recusou-se a dormir ao seu lado na noite derradeira, mas só decidiu ir embora quando o sol já despontava no horizonte. Em um último suspiro de esperança, pararam debaixo do batente da porta e olharam-se. Ela, desesperada para ficar, ele, para que ela voasse. A dobradiça chorou as lágrimas dela enquanto enchiam os pulmões do silêncio da despedida. Dele, restou apenas uma música do Pato Fu e meia dúzias de cartas de amor. Matou-o para poder seguir em frente.

A morte é sempre uma saída. Exterminação total do problema. Mas ele nunca fora um problema para ela. Experimentou, depois de alguns anos de análise, deixar de falar sobre ele no pretérito. Ele não era. Ele é. Ele vive.

Só quando admitiu que ainda pulsava aquele coração foi que tirou a venda que cobria seus olhos. O brilho da verdade fez a pupila dilatar. Ardeu. Dor que se espalhou por todo o corpo. Compreendeu, finalmente, que a ausência dele não era feita de morte, mas de vida. Ele a deixou partir por escolha, não consequência. Ele quis que ela tivesse a sua hora da estrela.

Aos 18, ela sentiu curiosidade de ser mulher, mas só tornou-se muitos anos depois. Sentiu-se mulher quando, encarando aquele lugar lá na frente, teve a certeza de que amou e foi amada. Verdadeiramente. Carnalmente. Espiritualmente. Não porque ele espalhou rosas por todo o seu caminho enquanto estiveram juntos. O que a fez ter certeza foi a ausência. Ele ausentou-se para que ela pudesse ter presença. Soltou as mãos dela para que ela corresse em direção àquele lugar lá na frente. Amor é saber onde mora a felicidade do outro. E ele sabia.

Gritando no abismo da desaparição, ela quer que ele saiba que ela, de agora em diante, é por inteiro. Corpo e alma. Hoje, ela é. Hoje, ela vive.

| crônica do livro As pessoas que matamos ao longo da vida, publicado pela Editora Reformatório, no segundo semestre de 2016 |

Site oficial: http://aspessoas.weebly.com/

Tamiris Volcean é jornalista, mestranda em Comunicação pela Unesp, professora de Literatura e, atualmente, está de partida para Paris. Em 2016, publicou o livro As pessoas que matamos ao longo da vida, pela Editora Reformatório, que é uma coletânea de crônicas, gênero preferido da escritora.

a chegada

Ela chegou numa manhã ensolarada. Bem cedo, fazendo com que a casa inteira despertasse. Primeiro, veio a avó abrir a porta, havia sido acordada pelo barulho do carro entrando na garagem. Depois, uma das crianças acordou e, mesmo tentando não despertar os irmãos, ao sair do quarto bateu a porta. Em segundos todos se puseram em pé. A correria na escada de madeira ecoou por toda a casa acordando também o avô, e ele nem ouvia muito bem. Todos se colocavam diante da porta de entrada, aguardando a novidade que chegava. A caçula, atrás de todos, ficava na ponta dos pés, tentando entender o que acontecia. Ainda estava um pouco adormecida. Primeiro entrou o pai, sorrindo. Parecia que havia voltado a ser criança. Entusiasmado, perguntou se estavam todos preparados. As crianças pulavam eufóricas. A caçula não entendia nada e não conseguindo enxergar o que se passava, pôs-se a chorar. O pai atravessou, ainda todo sorridente, o pequeno hall de entrada onde aguardavam com enorme expectativa as três crianças e os avós, e pegou a menorzinha no colo. “Vem meu bem, todos nós teremos que ajudar.” Foi então que surgiu a mãe segurando uma pequena cesta de vime, que foi colocada no chão, sobre o tapete felpudo da sala. E lá estava ela. Tão pretinha que brilhava. Tão gordinha e pequenina. Descobriram, todos eles, que a alegria também estava contida naquele pequeno cesto de vime. Estava lá, toda encolhida e dormindo, a primeira cachorrinha da família. Gritos, sorrisos, pulos, palmas e um entusiasmo geral. Todos queriam tocá-la. Após ouvirem as orientações da avó, as crianças fizeram fila para pegar o animal. Durante todo o dia, a família se revezava para admirar aquela que seria a companheira deles pelos próximos dezessete anos.

| Crônica do livro A construção da paisagem, 2012 |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

a torta de sonhos quebrados

Lembro-me das tardes e noites em que voava para mundos desconhecidos, de animais fantásticos e princesas encasteladas à espera do príncipe que só chegava ao final da história. Monstros marinhos em reinos fabulosos, dragões malvados de chamas incandescentes e sorridentes baleias encantadas que engoliam pessoas para devolvê-las depois ao mundo dos homens. Gostava mais das histórias do mar em que havia peixes e sereias. Era como entrar no meu mundo particular que tão bem conhecia já naquela tenra idade. Os banhos de mar que você me ensinou a tomar, pulando a onda quando a onda vinha. “Gosto do banho de mar cheio”, você dizia, enquanto flutuava na onda quando a onda vinha.

A leitura era sempre um capítulo à parte na minha boa vida de criança atenta aos livros e personagens. As letras sempre estiveram entre os brinquedos preferidos junto com os quitutes que você fazia. Os bolos felpudos cobertos de açúcar branco que imita a neve sobre a massa fofinha do doce de leite separada em fatias amareladas pelas gemas, farinha, manteiga, açúcar e chocolate.

O deleite e o direito do neto em raspar com o dedo indicador a bacia onde foi batida a mistura. Sentado no chão, gemendo como sempre fiz ao experimentar o manjar dos deuses das crianças felizes. Lamber a bacia podia ser melhor que o próprio bolo, mas nada se comparava à torta em camadas de pudim, cremes, cobertura e dos sonhos de valsas quebrados e perdidos num vale de felicidade.

Lembro-me de tudo isso e de muito mais vidas quando estou deitado na cama tendo você ao lado na cadeira de balanço com um livro sobre as duas mãos. O olhar furtivo escapa por cima das páginas de tempos em tempos para ver se a criança dormiu. Eu sorrio em correspondência ao seu sorriso: “Continua”?! Eu peço, quase implorando. E você nunca se nega a atender ao pedido do seu neto único.

Arnaud Mattoso é jornalista e escritor pernambucano, da capital Recife. Tem dez livros publicados entre ficção literária, não ficção e poesia. Atualmente, mora na cidade de Olinda com esposa, cães, plantas e banho de mar semanal. Escreve diariamente.

gourmetização

Eis que abro minha caixa de e-mails e lá está o convite de um amigo para a festa de seu filho. Sei que as coisas andam estranhas, que eventos assim se tornaram escassos devido ao acúmulo de afazeres tecnológicos, e que as bolinhas de queijo e rissoles perderam o brilho, mas quem sabe ainda exista um olho de sogra redentor em pleno século de celulares e selfies? Uma simples e velha festa com direito a música da Xuxa e coxinha fria?

Não preciso ir além de alguns cliques para confirmar minha tese pessimista de que perdemos a infância para a gourmetização. Lá estava o happy finger foods and tapas estampando o convite e eu me perguntando como um garoto de 11 anos poderia fazer tal análise gastronômica.

Talvez por sermos de uma época em que as festas eram mais “exóticas”, você e eu, leitor criado a cajuzinhos, estranhemos. A começar pelos convites, que eram escritos à mão em desbotados modelos de papelaria. Quanto mais duvidosos, melhor. Embora não deixassem rastros visuais sobre o gênero do aniversariante, valiam o suspense. Acredito que muitos recorreram a cartomantes e búzios para descobrirem se compravam uma boneca ou um carrinho. Hoje abandonamos o “em mãos” e tudo chega nas caixas de e-mails, provavelmente produzidos por um birthday design.

Os temas também evoluíram. Se antes flutuavam entre bolos de fruta e palhaços assustadores — e acredito na tática assumida dos palhaços para que as crianças mais entusiasmadas não roubassem os brigadeiros da mesa — agora prestigiam o surrealismo mágico e disforme dos corantes e manteiga, flutuando entre a Peppa Pig e Bob Esponja. Uma festa descolada precisa de um Cake Boss com modelagem francesa e a dúvida dos convidados — que não entendem a “desconstrução-conceitual-warholiana” do bolo ou não sabem se estão num aniversário ou casamento.

O ponto alto das festas também se foi. As saudosas coxinhas e pizzas frias de sardinha da avó foram reestruturadas para as famosas tapas (a primeira vez em que fui a um restaurante e o rapaz perguntou se eu queria uma tapa, quase fomos à delegacia) com seus canapés de parma e figos marinados, trouxinhas de peru com sour cream de amora, rabanetes esvoaçantes com cabelos de cenoura flambados, bastonetes peruanos de milho enluarado ou pinchos de luas impressionistas (nada mais do que ovo de codorna com molho rosé).

Bolinhos encharcados de óleo ou quibes carbonizados? Moderno mesmo é contratar um table stylist para uma mesa arquitetada com a precisão de um Niemeyer. Se não houver espaço para uma esfirra desconstruída pela cozinha molecular, que acredito ser necessário um curso superior em biologia ou física para tal, nem pense na festa. Tente falar sobre o olho de sogra e a ira divina recairá sobre você. Onde já se viu, olho de sogra? Com tanto brigadeiro gourmet de café, paçoca, chocolate invertido, nada de ameixa seca.

Sim, caro leitor gourmetizado sem saber, perdemos o estrambólico dos aniversários bregas. Abandonamos os chapéus de elástico, os sacos de pipoca, os pirulitos de açúcar. Rissoles mixurucas, com aquela suposta papinha duvidosa de camarão, nunca mais. Após a gourmetização de nossas crianças, “Que Marravilha!”, a pressão no pratinho de salgados cresceu e vivemos numa prova do Master Chef com eliminatória dupla na categoria pâtisserie. E ai de você dizer ao seu filho que fará só um bolinho. Será o mesmo que dizer “bolo de fubá” e “papai não te ama”.

Há uma luz no fim do bolo, eu sei. Um festeiro atento poderá respirar aliviado, pois tudo o que encontramos atualmente não passa de uma releitura de nossa saudosa breguice de infância. Se finger food é comer com os dedos e tapas são porções pequenas e variadas, além daquilo que dávamos no filho quando enfiava o dedo no bolo, pode colocar as coxinhas de volta ao cardápio, pois nada está perdido. É só argumentar com convicção e demonstrar a real influência da nova gastronomia, que fez escola com a vintage food: botecos, pororocas, coxinhas e palhaços assustadores.

No fim das contas, não há nada de novo no reino das bolinhas de queijo. Ou seriam cheese balls?

Angel Cabeza é carioca. Poeta, cronista, produtor editorial e gráfico, publicou Sempre existe um último momento (crônicas, 2011) e Vidro de guardados (poemas, 2010). Integra as antologias O Casulo, 29 de abril, O verso da violência, Escritores da Língua Portuguesa, Volume I, Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina e Geração em 140 caracteres. Possui textos publicados em revistas literárias, entre elas Germina, Zunái, Odara (UFRJ), Eutomia, Cronópios, Saúva, Subversa, Cuarto Próprio e Generación Espontánea. Blog: http://angelcabezza.blogspot.com.br

bar do elvis

Vavá era alto, magro, orelhas grandes, nariz longo e cheio de pelos. Um dono de bar à moda antiga, sempre de jaleco branco, calça social, sapatos de couro, e aquele gel no cabelo penteado pra trás. O abridor de garrafa não lhe saía do bolso nem o pano do ombro, e os pedidos ele ia anotando em papeizinhos que afixava na parede usando durex. “Vavá de Valter?”, eu perguntei um dia. “Não. Eu tenho o nome da capital dos Estados Unidos”, respondeu com orgulho. Vavá era fã do Elvis Presley. Tão fã que a gente chamava o lugar de Bar do Elvis.

Era pequeno, bem estreito, com um longo balcão de madeira revestido de fórmica bege dividindo o salão em duas partes, desde a porta da frente até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram dominadas pelo Rei: cartazes, quadros, notícias de jornal, discos. Na TV de 14”, que ficava em cima do balcão, sempre estava passando algum vídeo do Elvis. Vavá devia ter a filmografia completa, desde shows até os filmes em que o Rei atuou. Uma vez fui sozinho pra lá, pedi uma cerveja e assisti do balcão ao famoso show do Havaí, aquele em que o Elvis aparece de colar havaiano e está usando uma daquelas suas roupas extravagantes da fase setentista que acabaram se tornando sua marca registrada. Tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou branca de um macacão com brilhos e franjas, além das costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa à fantasia. Eu estava de gladiador. Formávamos uma dupla incrível.

Lá no Elvis tinha umas figuras curiosas. Todo bar tem as suas. O Velho Marinheiro, por exemplo. Barba branca, boininha de lado, cigarro pendurado na boca, copo eternamente na mão, ele parecia o Capitão McCallister dos Simpsons, só que mais gordo e acabado. O roteiro era sempre igual: ele enchia a cara de cerveja e conhaque e acabava pegando no sono sentado, com o cigarro na boca e o copo cheio. Vavá, gentleman como sempre, deixava o velho em paz e só o cutucava na hora de fechar. Mas teve um dia em que o Velho Marinheiro começou a se mijar todo e aí o Vavá precisou entrar em ação. Talvez sonhando estar diante de uma privada, o Velho começou a mijar ali mesmo, sentado, de braguilha aberta e tudo, segurando o pau pra fazer mira. Formou-se rapidamente uma enorme poça sob a mesa. Já tinha visto bêbado mijar nas calças, mas aquilo era diferente. O Velho, mesmo dormindo, teve as manhas de descer o zíper, sacar a pistola, fazer mira, e aí dane-se se tem uma privada na tua frente ou não. Tudo bem. O Vavá nem ligou. Discreto, chamou um táxi, pôs o Velho lá dentro e telefonou à esposa, como sempre fazia, pra avisar que o marido bebum estava a caminho.

Certa vez o Vavá me revelou o verdadeiro motivo da morte do Rei:

— Vou contar uma coisa — disse em tom de confissão. — Você sabe, o Elvis morreu.

— Claro — respondi.

— É que tem gente por aí que acha que ele não morreu. Dizem que ele fugiu, que cansou de ser celebridade, sei lá. Nunca ouviu isso não?

— Já ouvi alguma coisa…

— … e que hoje vive escondido em algum lugar, vivendo no anonimato e protegido por uma tal de lei de proteção a testemunhas ou algo do tipo. Mas isso é coisa de gente louca — ele disse abaixando o volume da voz e olhando direto nos meus olhos. — Você cai nesse papo? Eu não caio nesse papo. Com tanto paparazzi, Carlos, você acha que já não teriam flagrado ele tomando banho de sol numa praia do Caribe?

Assenti com a cabeça.

— “Elvis não morreu” é uma isca criada pelo mercado pra manter as lojas vendendo…

Vavá se empolgava ao falar do Rei.

— Mas tem um detalhe que pouca gente sabe, Carlos — e, chegando ainda mais perto de mim sobre o balcão, como quem vai revelar um segredo guardado a sete chaves, pôs a mão próximo à boca e sussurrou no meu ouvido. — Dizem que foi droga, mas não foi não…

— Sério, Vavá? Não sabia.

— Pois é. Pouca gente sabe. A imprensa fala que ele morreu por abuso de calmantes, mas não é verdade.

— Não?

— Não. A verdade é que o Elvis morreu cagando.

— O quê?

— Isso mesmo: cagando. Ca-gan-do — ele soletrou. — Dá pra acreditar? Acharam o corpo dele caído no chão do banheiro. Ele tava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.

Dei um longo gole de cerveja.

— Cagando, Vavá?

Ele continuou falando baixo, agora assumindo um tom lamurioso:

— E queria o que, Carlos? Não foi por falta de aviso. O médico cansou de falar pra ele se alimentar melhor, pra comer fibra, comer fruta, mas o cara era teimoso, só comia Mcdonalds, bacon, ovo frito.

Elvis não soube se cuidar e deixou uma legião de Vavás inconformados e saudosos para trás. Quase fiz a piada infame “então o Rei morreu no lugar certo: o trono!”, mas considerei que isso poderia ferir seus sentimentos.

Ele continuou:

— Fez tanta força que a veia não aguentou, não teve jeito… — disse, já resignado. — E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo e tal… Mas a realidade pouca gente sabe. Só quem é fã mesmo. Eu sei porque estudei.

— Leu numa biografia?

— E você acha que alguma biografia vai falar isso? Não seja ingênuo, Carlos. Todos foram muito bem pagos pra calar o bico. Já disse: as lojas têm que continuar vendendo camisetas com a cara do Rei. E assim a banda toca, você sabe…

Sinceramente, não acho que a imagem do Rei do rock seria manchada caso se comprove a versão polêmica de Vavá. De todo modo, não disse nada. Por consideração ao Vavá, por respeito. Voltei a tomar minha cerveja, ele voltou a fazer suas coisas atrás do balcão.

Na TV, um Elvis ainda jovem cantava “Love me tender”: “Me ame com ternura / me ame com doçura / nunca me deixe partir”. Vavá tinha começado a limpar a tela da TV com o pano: primeiro passou delicadamente nos cantos empoeirados, depois no centro, esfregando em movimentos circulares todo o retângulo brilhante, como se fizesse carinho no rosto do ídolo, ao mesmo tempo em que tirava as manchas de gordura. “Você tornou minha vida completa / e eu te amo tanto”. Cada vez mais próximo da tela, cara a cara com o Rei, o rosto de Vavá se iluminou. “Eu serei seu por todos os anos / até o final dos tempos”. Quando o vídeo terminou, ele se afastou lentamente da TV, largou o pano sobre o próprio ombro e tomou uma dose de conhaque.

Vavá faleceu anos depois e o Bar do Elvis foi vendido e demolido para dar lugar a um estacionamento.

Carlos Conte é professor de redação e sociologia. Escreve crônicas e contos.

questão de calço

Há muito, muito tempo, eu caminhava com a minha mãe pela Paulista e um senhor, logo a nossa frente, deixou cair parte de um daqueles bilhetes da loteria federal. Eu me prontifiquei a pegá-lo e devolvê-lo, mas ela me advertiu: “Adriana, é um truque. Ele vende bilhetes. Assim que você pegar ele vai dizer que foi obra do destino e que você tem que comprar aquele bilhete, que vai ganhar o prêmio”. Era verdade. Ele fazia isso mesmo. Não só ele, mas dezenas de vendedores. E eu era uma garotinha que acreditava em tudo, inclusive em pessoas. Para mim era inconcebível alguém ser tão ardiloso assim. Eu queria mesmo a vitória do que o destino supostamente me reservara, passar pela vitrine da lotérica ao redor da qual vários sonhadores se acumulavam e ver meus números ali. Eu queria que aquele senhor realmente soubesse das coisas que iriam acontecer. Aí eu me assustaria bem menos. Mas anos depois, eu já estava no colegial, voltando de ônibus para casa, e dessa vez foi uma senhora que se meteu a fazer previsões para mim. Eu fiquei estupefata, como era possível ela saber tanto sobre uma adolescente com cabelo de poodle rebelde, ouvindo Iron Maiden no walkman e patches do AC/DC costurados na calça? Como é que ela saberia que eu tinha atritos com meus pais? E então ela me disse, depois de tudo, que era pra eu me levantar que meu ponto estava chegando. Mais uma vez eu acreditei que havia algo reservado para mim, porque aquela senhora não poderia ser mais uma ardilosa que num outro dia qualquer, naquele mesmo ônibus, pediria algo em troca daquelas previsões, né? Mas o auge aconteceu mesmo no shopping Eldorado. Caminhava eu, já em tempos de universidade, gastando minha bolsa de iniciação científica inteira numa calça da M. Officer, quando uma menina magra se aproximou de mim e disse que sentiu algo muito estranho. Eu devo ter uma cara de trouxa ímpar. Pois bem, ela me disse que tinha uma inveja gigantesca em cima de mim e que inclusive haviam amarrado meu nome na boca de um cavalo. Como é que é? Na boca de um cavalo? Sim, era muito grave alguém fazer isso, mas por sorte a tia dela era uma ótima desmanchadora de feitiços e se eu desse uma grana para as velas isso se resolveria logo. Eu estudava Física, o que raramente me daria um futuro abastado, era dura que só, namorava um cara que pouco se diferenciava de uma parede, quem diabos amarraria meu nome na boca de um pobre cavalo? Ela fez aquele olhar de Whoopi Goldberg recebendo Patrick Swayze e disse que foi uma mulher morena. Oras! Quem é que nunca foi sacaneado por uma mulher morena, caramba? Gastei a grana das velas provavelmente num McDonalds´s pensando em como, de fato, temos vontade de acreditar em qualquer coisa que nos justifique esse estranhíssimo estar por aqui, que às vezes pesa demais. Se aquele senhorzinho lá do começo não tivesse destruído meus sonhos, eu não carregaria medos nas velhas pistolas de plástico que outras crianças enchiam de água para se divertir. Mas bem disse Pascal, toda a infelicidade do homem decorre de uma só coisa: ser incapaz de ficar sossegado no seu quarto. No entanto, ele jamais falou o que fazer com os bichos papões que a gente esconde embaixo da cama e vai aumentando o calço só pra ela não balançar tanto. Envelhecer é bater a cara no teto.

Adriana Brunstein é Ph.D. em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 — Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada pelo 13º Cultura Inglesa Festival com o curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental pela Panelinha Books (2012), participa das antologias de contos Casa de Orates (Editora Mondrongo, 2016) e O Outro Lado da Notícia (@link Editora, 2016). Lança, em breve, Pancho Villa não sabia esconder cavalos, pela Editora Laranja Original. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Mallarmargens, Germina, Diversos Afins e Escritoras Suicidas.