Brasil: (im)possíveis diálogos #12

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Sítio Dois Irmãos

Por Márcio Benjamin Costa Ribeiro

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Vitor Rocha

— Valha-me, Deus.

Dona Ceiça acordou sufocada. Se sentou na cama dura, passando a mão na cara banhada de suor. Levantou-se devagar, ainda tonta de sono e foi tomar um gole do resto da água que sobrava na quartinha de barro do quarto apoucado.

Devagar, a respiração foi voltando pro lugar, enquanto a frieza da caneca de alumínio lhe arrepiava os beiços enrugados.

Mais um sonho. Agora com o marido novo, os dois na festa de casamento, ainda na fazenda antiga, antes do sítio. Ela também moça, arrumada, comendo tanto do bolo tão branco, sabendo que ia desarranjar. Ernesto jovem também. Tão bonito, meu Deus. Tanta gente, e aquele cheiro de vida.

E de repente ela se dava conta que não era não, que agora era mentira. Aí acordava agoniada, com aquele silêncio lhe doendo os ouvidos, sentindo a camisola velha subir e descer nas costelas magras como sendo a lona de um circo.

Eita da coisa linda era um circo. Tanto do bicho. O coração transpassava quando viam anunciar na cidade. Uma ruma de moça bonita, como ela, quando jovem, no casamento.

Fazia tanto tempo.

Dona Ceiça foi pra janela em busca de um pouco de ar. Já nem sentia mais o cheiro de podre, sempre em algum lugar.

Lentamente o sol insistia, manchando de um vermelho desmaiado o céu ainda escuro.

Ela achava que era a pior hora. Acostumada, sempre acordava antes do raiar, ou antes do galo cantar, como se dizia antes. Há quanto tempo?

Ali já não se fazia sentido.

Tinha muito que bicho deixou de ser. Os mais novos que sobreviveram nem se lembravam mais como era o cantar do galo. Claro que encontravam foto, filmagem, mas a lembrança andava sumida, como a fumaça preta do meio da rua subindo pro firmamento.

Na casa vazia, as chinelas estalavam cortando o calado.

Já tinha desistido de falar sozinha fazia era tempo.

Com medo de ficar doida de vez, se prendia à rotina.

Arrumar as gavetas.

Dobrar a roupa.

Acender as velas do oratório.

Tirar a poeira escura dos móveis gastos.

Se esconder debaixo da cama quando batiam palmas do portão sempre trancado.

Lembrou-se do susto lapeando o coração quando tentaram entrar, se dizendo do governo. A senhora tomou coragem, apeou na janela a espingarda velha do marido e acertou um, que saiu pingando sangue pra dentro do carro.

Nunca mais.

Suspirou enquanto abria um dos últimos pacotes prateados da ração deixada na porta, carimbados com o brasão da Federação.

Fazia quanto tempo, minha Nossa Senhora?

Que dia era hoje?

Marrom e pastosa, só tinha era sabor de comida de bicho.

Quando tinha.

Dona Ceiça ainda sentia cheiro? Ainda provava gosto?

Lambendo os dedos grudentos, se lembrou de quando andava de cavalo por dentro da fazenda velha, experimentando embaixo das pernas o calor firme do animal.

Tinha acontecido mesmo? Ou era o diabo daqueles sonhos de novo?

Cuidadosa, levou o pacote pra pia e lavou, dobrando e guardando junto com os outros no armário da cozinha, os símbolos em pé lado a lado como sendo uma tropa.

Não esperava sentido.

Nada mais fazia sentido não.

E veio a dor, como vinha sempre depois que comia. Era doença? Ou o governo andava querendo envenenar os velhos aos poucos, como se matava gato?

Sorriu ao se lembrar dos tantos gatos da fazenda.

Chane, chane, chanim…

Esfregou os dedos chamando, chamando, mas quem disse?

Haveria de ter vingado algum, em outro lugar que fosse?

Dona Ceiça já nem percebia a falta, era como se o peito fosse assim um relógio velho, faltando mola, corda. Que andasse pendurado na parede por preguiça de tirarem.

Já não tinha vontade de deixar o sítio, de tentar contato com outros. E se fossem ruins, como foram os poucos que ela espantou à bala?

— Ração condenada, meu Deus — disse, quando a dor lhe apertou às tripas.

Bebeu um pouco mais da água de poço, segura, e pediu que lhe tirassem aquele sofrimento, acalentando-se ao se lembrar da rocinha acanhada, escondida em cima da casa, feita das sementes intocadas, que logo iriam germinar.

Será se antes de acabar a ração?

Perguntou a outra Ceiça, dentro da sua cabeça, uma mais velha e mais doida, que lhe encarava de dentro do espelho, com as tetas murchas.

Tudo veio tão rápido, aconteceu tão agoniado.

E logo não havia mais bichos, abraços, gente.

Dona Ceiça sacudiu os pensamentos como quem vasculha o teto de uma casa.

Pensar já não ajudava.

Preferiu se lembrar dos afazeres.

Da rotina.

Catou a faquinha afiada do quintal e foi pra janela.

Ao longe, já se juntavam, todos eles; se arrastando.

E Dona Ceiça se lembrou do sonho, do marido vivo, dos vizinhos, do bolo na festa de casamento.

Abriu a mão, com a palma marcada de cicatrizes e empurrou a faca afiada, que logo fez brotar um filete vermelho.

Vivo.

Apertou com força, deixando o sangue escorrer.

E como faziam dia sim, dia não, bem dizer, vieram todos, se acotovelar embaixo de sua janela, brigando pelas poucas gotas.

Já nem bicho. Nem gente.

“Ernesto?”, Ceiça sempre pensava em falar, mas com o tempo descobriu como engolir as palavras.

Já não se tinha o que dizer afinal, pensou, enquanto via a poeira do terreiro subir.

Márcio Benjamin Costa Ribeiro é um natalense do Estado do Rio Grande do Norte de 40 anos, que trabalha como advogado, formado pela UFRN, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Autor de romances e livros de contos folclóricos (Maldito Sertão, Fome e Agouro), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Figura tarimbada em projetos do Sesc (Arte da Palavra, Mostra Sesc de Culturas, Mostra Sesc Cariri, Flipelô), representou o Estado em Feiras Nacionais (Bienal do Livro do Ceará) e Internacionais (Primavera Literária de Paris e Feira do Livro de Paris), tendo sido convidado, inclusive, pelas Universidade de Brown (Providence) e Columbia (Nova York), ambas nos Estados Unidos, para a Primavera Literária de 2020, onde palestrará e apresentará a tradução do seu livro Maldito Sertão para o inglês, chamado “Cursed Badlands”. É roteirista de webséries (Flores de Plástico, Holísticos, Dê seus pulos e Crisinha e Graça) e curtas — metragens (Erva Botão, Linha de Trem e Pela Última Vez), e agora trabalha no roteiro de seu primeiro longa-metragem, Quebrando o gelo. Gosta de pensar que pode escrever pra sempre. Pelo menos é o que prometem as vozes em sua cabeça.

Brasil: (im)possíveis diálogos #10

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

ph neutro

Por Rafa Carvalho

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Vitor Rocha

se eu soubesse antes. de onde estaria hoje. talvez tivesse andado diferente.

será que a gente mudaria mesmo o presente se soubesse o futuro. será que cheguei àquela idade de que meus pais e os demais falavam e parecia ser um tempo que jamais chegaria a mim. e o passado se mudasse. mudaria consigo este instante.

talvez. talvez não desse pra chegar aqui por outra via e mudar a via fosse o mesmo que mudar todo o destino. ou vai ver que todos os caminhos levem mesmo pra roma. o problema neste caso é que toda língua tem sua maldição. à minha física corpórea por exemplo a maldição é a ausência do silêncio tantas vezes. e a ausência do beijo. da lambida na pele alheia orelha cangote axila costelas. cristas ilíacas. glandes e clítoris. e cus. foram essas as minhas maldições de língua até aqui. essas e queimá-la todo santo domingo de pressa à lasanha da nonna. quando ainda menino.

mas a maldição da língua portuguesa ou pelo menos uma delas é ser o amor roma ao contrário. assim todos os caminhos de repente nos levassem ao avesso do amor. o seu completo oposto. por isto camões afundou dinamene. é uma língua que desvia. converte as apostas dos poetas.

de fato para amar em roma precisei sair um pouquinho. era uma pasquetta e fomos a um lago. bem nas beiras à cidade. senti a textura da calcinha de benedetta. era como a de muriel muitos anos antes. e não vi a cor mas imaginei madrepérola. enquanto a de muriel num relance das luzes do poste em recorte e viés pelos vidros do carro eram de um laranja meio róseo. um salmão forte exagerando o tom de alguns mamilos e pequenos lábios. algumas pessoas veriam ali qualquer coisa um pouco mais branda de iansã.

rosana tinha uma calcinha verde-limão com uma careta engraçada na bunda. foi tirando essa que tivemos nossa primeira vez. depois as calcinhas na dinamarca se puseram tão diferentes. e a joana me ensinou em lisboa que eram na verdade cuecas.

eu fiz um fado com isso.

e pensando melhor hoje. tive mesmo um fado com calcinhas. sempre desconfiei que fossem mais confortáveis. minhas amigas adolescentes fãs de spice girls diziam que o beckham usava. e me incentivavam a fazer o mesmo claro. o estranho é que tinha já provado os sutiãs e saltos altos de minha mãe. batom. mas uma calcinha nunca.

sempre amei as rendas. sempre amei as cores. as verde-limão inclusive. amava também as lúdicas com caretas e outras gracinhas. a calcinha comestível sabor abacaxi que um amigo trouxe a meu pai do paraguai. lembro que a comemos em família e era como uma sacola de mercado derretendo pela boca. as calcinhas da hello kitty de mimiko. as samba-canções. aquelas que lembravam boxers ou shortinhos muito curtos. seus diferentes tecidos cortes texturas. amei as que existiam para seduzir. e as que seduziam por existir tão confortável corriqueira e não pretensiosamente. as esgarçadas e bege. as de domingo e das férias. a sem costura de sara. a inexistente em aline. aquela da gisela sempre pronta. com zíper.

mais ou menos práticas. algumas caríssimas. e as que vinham das baciadas lá do brás. aliás. lembro que do apartamento por são paulo eu mirava as janelas das áreas de serviço. pequenas lavanderias basculantes de banheiro. observava as roupas dos varais de suas donas. masculinas femininas não importava. imaginando suas personalidades como fossem astros as calcinhas e outras peças marcando mapas no céu arranhado da urbes.

e cheirava as de minhas casas usadas de saudade. e brincava com as esquecidas por ou sem querer nos meus encontros.

mas aí a vida passa. e súbito é ela que vai se esgarçando. perdem-se as cores as formas. texturas. algumas memórias começam por se apagar e já não há mais tempo presente para o memorável. parece um piscar de olhos e estamos já num conto do calvino. onde o mundo do trabalho ou da sobrevivência humana. o mundo exploratório dos mais ricos sempre criminosos molda nossos rostos com as caras mais xoxas dos últimos séculos. roubando-nos todas as piadas e coragens. logo estamos ali. almoçando com pressa. esquecendo que a dança é um ingrediente imprescindível do preparo. comprando comida pronta. deixando de transar depois do almoço em posições leves que se emendem na conchinha de uma sesta digna. tomando o tinto só nos fins de semana pois não há ensejo em dias úteis. nem dinheiro há.

agora penso que não é o casamento que é difícil. mas sim o passar do tempo nele. a resistência insuficiente que oferecemos às opressões de nossa era. e pode ser que seja até muito mais duro aos seus sozinhos inclusive. pois disto eu já não sei.

casar afinal me trouxe todas as calcinhas suas. não são tão diversas quanto o mundo que conheci mas formam o bonito universo de alguém único. infinito em seus limites. num misto de comum e raridade que conforma-nos humanos. e finalmente eu também cheguei com todas as minhas cuecas de uma vez. sendo como sempre fui e agora vejo. muito especial e medíocre. como qualquer um.

muitas das suas calcinhas já se foram. outras que chegaram. e a intimidade só aumenta.

quando acreditava ser poeta eu dizia que só a intimidade poderia salvar o mundo humano. depois entendi que a nossa linguagem é maldita porque não alcança. nunca tange a intimidade. o tempo passa neste conto que por fim não é escrito por calvino senão aos nossos punhos próprios. e leva todas as vantagens. todos os motivos. fica só a vaia em nossas bocas.

é assim. nos vestimos de textos. têxteis. mesmo quando toda poesia impressa fora de um corpo poderia se afogar tranquilamente sem danos reais ao humano. mas nada é de se estranhar pois estamos indo para roma. não para o amor. não é à toa que para nos sentirmos frágeis num esforço inconsciente nós sonhamos que estamos só de calcinha ou cueca nas diversas situações. aliás. eu não sei se pensaria uma aliança melhor de compromisso para além do nosso corpo que essas nossas roupas íntimas.

há uma sina nisso que contudo sempre me acompanhou. a das calcinhas penduradas pelos boxes de banheiro. puxadores da janela. torneiras do chuveiro. desse hábito de lavá-las ali à mão e deixá-las por lá mesmo pra secarem.

eu já achei inútil. um comportamento padrão meio esquisito como as idas conjuntas ao toalete dos lugares. depois achei inteligente prático. reconheci que tantos homens deviam fazer piada disso mas tendo por trás uma mulher que lavava as suas próprias cuecas fedidas marcadas desde sempre. homens que jamais tinham lavado uma única cueca sua. daí dei-me conta que por anos tive as minhas lavadas por uma. e que ainda em outras vezes por outras mulheres em minha história isso também se repetia.

meu devir com as calcinhas assim fez-me ver e viver muitas coisas. transformar outras. aprendi. cheguei a lavar minhas cuecas nalguns banhos embora ainda prefira máquinas e tanques para elas. e quando nasceu nosso filho fiz questão que aquelas fraldas de pano de mijo e de merda fossem lavadas também pelo homem. pai do menino.

no fim eu achava muito lindo aquelas mulheres todas lavando suas calcinhas ao banho. tinha um quê de unidade nelas. um traço ancestral que deixava aquilo um tipo de reza ritual. meditação. vê-las de perto. de dentro. ou pelos vidros embaçados entre as gotículas e o vapor. era a pura poesia. uma beleza uma dignidade. que não caberiam nos homens.

mas nem tudo são flores e eu metódico com vênus marte em virgem sempre me irritei muito com o acúmulo delas nos banheiros em que convivia. não foram poucas as vezes que contei umas quatro cinco secas mais a última molhada formando quase um mostruário no cômodo miúdo. quase um trocador de loja em que a pessoa provou tudo não gostou de nada e foi embora. dava vontade de intervir escrevendo promoção num cartaz. pague três leve cinco. moça bonita não guarda. mas também não leva. a vontade nos apartamentos era jogar pela janela e nesse sentido foi bom estar casado numa casa depois de tudo. um impulso a menos.

é. o tempo passa. o futuro fica uma utopia cada vez mais distante como as viagens e venturas duma aposentadoria que muito provavelmente nunca virão. o passado transmutado nessa espécie de sentença. condenação. e o presente num impasse.

talvez nem calvino nos escreveria assim. século vinte e um. com tudo exagerando nesta pandemia. uma quarentena humana. com o mundo rodando o mesmo. mas distinto.

a correia não diminuiu em nada surpreendentemente ou não. e muitas coisas não mudaram mesmo. as calcinhas acumulando no banheiro por exemplo seguem firmes. mas seria absurdo pensar que tudo ficaria igual. de repente uma miudeza muda. de repente faça toda a diferença. ou então seja logo uma coisa imensa de uma vez. algo elementar a que nossos pais não tivessem conseguido reparar pelo tempo passando deles.

as flores floriram no norte. o ocaso encheu de mágica o sul. desocupamos as praias por decreto. nos empurramos mais às nossas profundezas de improviso. e as tartarugas marinhas voltaram pras beiras das águas antes tão cheias de nós à mesma medida em que opressões terrenas se afastaram um pouco dos nossos antigos vazios. vimos o imperador de cueca por acaso. a roupa nova do rei num desfile que talvez não estivesse programado. e ainda por cima. de vez em quando. há um silêncio.

o almoço foi um requentado de ontem mais uma salada rápida de acelgas. mesmo assim pôde haver dança. não sabemos o que vamos comer no mês que vem se tudo continuar assim mas os dias úteis finais de semana perderam sentido nessa distinção. e temos bebido o vinho de todos os dias. como quem vive. ou morre. feliz.

senti a renda de sua calcinha depois de comermos. e quando a desci era vermelha. nossas línguas físicas se abençoaram em nossos corpos. redimimos a raça humilhamos a língua portuguesa fizemos os anjos e o espírito santo orgulhosos de nós. transamos leves e gostoso pra depois nos juntarmos ao sono meigo do filho. uma sesta digna dos resistentes. na esperança.

já mais tarde. quando fui só tomar banho. topei com a calcinha vermelha ainda sem lavagem pendurada por dentro ao puxador do box. contida contudo das secreções viscosas translúcidas esbranquiçadas. dos corrimentos lubrificações de mulher. e minha porra.

nada me restava a fazer senão pegar um pouco daquele sabão cremoso.

e lavá-la.

Rafa Carvalho é um poeta brasileiro que carrega em seu corpo raízes do mundo inteiro e a poesia como raiz de todas as artes e gêneros literários, como da vida em si. Soma 16 anos de carreira, com trabalhos em arte e educação por mais de 20 países. Integrou o coletivo Poetas del 15 Mayo na Espanha em 2011, tendo parte em sua antologia homônima. É autor de auto-mar (poesia; Editora Patuá) lançado no Brasil e em Angola; e contas de mar (contos; Editora Pontes). Finalista do Prêmio Sesc de Literatura, tem forte atuação social em sua comunidade periférica de origem e por onde esteja. Curador do projeto “papos de versos”, idealizador do Sarau da Dalva, é um forte representante do fundamento antropofágico e cada vez mais considerado por sua capacidade de criar pontes, entre o aparente incompatível.

Brasil: (im)possíveis diálogos #8

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A vizinha

Por Rosângela Vieira Rocha

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Vitor Rocha

Marlene conhecia a menina desde pequena. Praticamente a viu nascer, quando morou naquele edifício pela primeira vez. Depois se mudou, alugou para outra pessoa, passou anos em outra cidade, mas acabou retornando.

Liliane já era adolescente e surpreendentemente mal-educada. Discutia alto com a mãe, xingando-a de vaca, além de arrastar móveis de madrugada, ouvir música até tarde, bater portas, andar de sapatos de saltos altos no piso de cerâmica antes das sete da manhã, correr pelo apartamento chorando, quando estava irritada. Como morava no andar de baixo e cuidando da própria mãe com Alzheimer, Marlene vivia cansada. Resolveu mandar fazer isolamento acústico em dois cômodos: no quarto de dormir e no que usava como escritório. A firma encarregada do serviço foi taxativa: o ruído diminuiria apenas uns 60%, pois esse tipo de providência deve ser tomado na construção do edifício ou feito no piso do apartamento de cima. No teto, o efeito é significativamente menor. O teto foi rebaixado e o espaço, preenchido com caixas de isopor, mantas de proteção e borrachas sintéticas. O apartamento teve de receber nova pintura e, no final, foi um rombo no seu orçamento.

Tanto a mãe quanto a filha não gostavam de Marlene, embora ela não soubesse o motivo. Era tratada com frieza e até mesmo desconfiança, quando se encontravam no elevador. Mesmo depois do isolamento acústico, ela teve de fazer reclamações, pedir a intervenção do síndico, mas tudo em vão. Não havia confrontos; tampouco soluções.

Além de cuidar da mãe — supervisionando o trabalho das cuidadoras, entre outras tarefas —, tinha horários rígidos no banco onde trabalhava e contava os dias para a aposentadoria, que ainda demoraria.

Certa manhã, quando foi abrir a porta do carro, ao pegar na maçaneta, sujou as mãos com um líquido vermelho e levou susto, achando que era sangue. Voltou ao apartamento para lavá-las e então percebeu que se tratava de ketchup. Pegou um pano, limpou cuidadosamente o local e foi para o trabalho, atrasada quinze minutos. O chefe lhe lançou um olhar gelado, quando a viu, como se dissesse atrasada de novo, dona Marlene?

Intuía que só podia ser obra das vizinhas, talvez da jovem, mas não havia provas. Como o prédio não tinha garagem, passou a procurar vagas cada vez mais longe, até em edifícios próximos, fugindo da estranha sanha.

Meses depois, certa noite, só conseguiu estacionar exatamente embaixo do apartamento. Quase vomitou quando viu o ovo recém-quebrado no capô do automóvel, com a gema escorrendo sobre o para-brisa, na hora exata de levar a mãe ao médico. O porteiro se prontificou a limpar rapidamente a sujeira e as duas conseguiram chegar a tempo.

Daquela vez, não se conteve e procurou o síndico. Tudo indicava que o ovo teria sido jogado da área de serviço do apartamento 801, disse. Ninguém viu, mas o síndico, zeloso, bateu de porta em porta, pedindo mais educação aos moradores. O responsável não apareceu, como era de se esperar.

Todos naquela entrada conheciam o capricho de Marlene. Apaixonada por decoração, possuía móveis bonitos, miniaturas de cristal, pratinhos de porcelana, tapetes orientais — embora os tivesse guardado depois da doença da mãe, com medo de que tropeçasse. As janelas eram limpas todas as semanas pela diarista e reluziam.

Numa tarde, voltando do trabalho, sua ajudante avisou-a de que havia um tipo de sujeira diferente nas janelas, que não saía de modo algum, por mais que se esforçasse. As duas examinaram detidamente os vidros e concluíram que se tratava de uma mistura de cinza de cigarro com algum tipo de cola. Como as janelas abriam para a frente — não eram de correr — os vidros eram alvos perfeitos para receber a sujeira jogada de cima. Esses episódios se repetiram por anos. Paciente, a diarista chegou a usar inclusive água rás, mas as janelas nunca mais voltaram a ser limpíssimas como antes. Sempre havia um restinho, um respingo, uma gota a empanar o senso estético e o gosto de Marlene pela limpeza.

Quando sua mãe faleceu, ela anunciou a venda do carro, pois pretendia fazer uma longa viagem. Queria visitar primas que moravam no litoral, tomar banhos de mar, distrair-se um pouco, aproveitando a licença a que tinha direito e um período de férias. A vizinha lhe pediu prioridade e lhe ofereceu um valor justo pelo veículo. Fecharam a venda; tudo parecia correr bem.

Durante alguns anos, mãe e filha a trataram de maneira civilizada, quase cordial. Cautelosa, Marlene não se aproximou muito, mas acreditou que o fato de utilizarem o carro que havia lhe pertencido representava um acordo de paz, uma espécie de bandeira branca. Foi um alívio, pois tudo que queria era viver em paz e não arrumar arengas com a vizinhança.

Depois veio o ano dos panelaços contra Dilma e ela nunca viu nenhuma manifestação das vizinhas, enquanto outros moradores quase lhe furaram os tímpanos, com a barulhada. Marlene votou na ex-presidente, sempre achou que houve golpe, mas se manteve quieta durante as manifestações.

Às vezes perguntava a si mesma o motivo da rejeição de mãe e filha. Nunca lhes fizera nada de mal e por isso não conseguia entender. Mas, pensando no passado, lembrou-se da existência de episódios do mesmo tipo, inclusive do bullying de que foi vítima na escola fundamental, por causa de suas notas altas. Coisas da vida, pensava. No mundo, há casos incompreensíveis, tudo pode ocorrer.

Eleito o novo presidente, de quem Marlene nunca gostou, chegou o dia do início dos panelaços contra ele. Indignada com a vergonhosa gestão, Marlene não suportava a figura e resolveu, pela primeira vez na vida, pegar sua panela. Munida de colher de pau, foi para a janela da sala. O barulho, bem mais discreto que o do passado, quase foi abafado pelo vizinho do lado, que tocou o hino nacional na clarineta. Irritada, ousou até gritar: Lula, Lula, viva o Lula!

Quando voltou ao quarto usado como escritório, onde passava a maior parte das horas quando estava em casa, reparou que nas janelas havia respingos de cinza misturados com cola, aquela mesma gosma nojenta que tanto a incomodou em outros tempos. Agora seria pior, pois dispensou temporariamente a diarista, embora continue a depositar o valor dos serviços. Teve de aderir à quarentena imposta para evitar a transmissão da Covid-19, uma doença transmitida por um vírus que está matando milhares de pessoas no mundo inteiro. Então, entendeu: era o preço pago por bater panelas contra o presidente. As vizinhas deviam ser suas fãs incondicionais. O frágil equilíbrio pelo qual tanto lutara, tentando se conter e suportando as ofensas calada, sempre visando a harmonia e a paz, se rompera.

Indignada, Marlene pensou em reclamar, mas foi tomada pela mesma impotência de antes. Iriam negar, é claro. E talvez acrescentar que ela via coisas inexistentes, que ficou muito solitária depois da morte da mãe, esses argumentos pseudopsicológicos que as pessoas miúdas, inseguras e mesquinhas usam para projetar o seu lado sombrio e malévolo sobre as outras, feitas de bodes expiatórios. Gentinha — termo muito antigo, usado por sua avó, um tanto preconceituoso, mas aplicável ao caso — nunca assume nada. Distorce a realidade, age às escuras, fazendo caras e bocas e passando por santinha. Do pau oco, óbvio. Recusa-se a ver sua própria imagem no espelho. A covardia é a sua principal característica.

Nas crises, tanto políticas quanto sanitárias, demônios internos de toda ordem parecem vir à tona. Tanto o ódio disseminado por políticos irresponsáveis quanto as desigualdades — sociais, econômicas, educacionais e culturais — são terrenos férteis para a prática das grandes e pequenas maldades.

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem treze obras publicadas, seis para adultos (cinco romances e um livro de contos) e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Publicou o romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017) e Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019). Participou de diversas coletâneas de contos. É Mestre em Comunicação, escritora, advogada, jornalista e professora aposentada da FAC/UnB. Colunista da revista digital literária Germina, já participou de várias comissões julgadoras de concursos literários.

Brasil: (im)possíveis diálogos #6

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Bem-aventurados os que choram II

Por Paulo Dutra

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Vitor Rocha

Bem-aventurados os que choram. Deus, em sua infinita sabedoria, deixou, por meio dos evangelistas que discorreram sobre o assunto, no famoso sermão da montanha, sentença de suma importância. Tudo isso pensava diariamente Didico, no trajeto Caxias-Fundão, já se vão uns dez ou vinte anos. Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados nunca chegou a ser a bem-aventurança favorita na época da escola bíblica; sempre gostou mais do bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus, sem saber ao certo o porquê. Primeiro foram os textos sagrados, depois os seculares, mas sempre nos textos buscou respostas para os questionamentos que “Chico o herói” preferia não perquirir. Do Gênesis ao Apocalipse. Das bulas papais aos tratados de São Tomás de Aquino. De Ellen G. White ao Livro de Mórmon. Do Conde Lucanor à Conceição Evaristo. Do Facundo a Boquitas Pintadas. Filosofia que não fosse antiga e grega só por intermédio e filtro cultural de cor local de Machado de Assis, Kafka, Rosario Castellanos, Cervantes, pra não perder tempo valioso com bobagens de puxa-sacos. Ainda assim, nada, inútil a filosofia pseudo-universal branca e grega. Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados. Didico pensava. O maior mistério de todos. Há quem diga que o maior mistério é como diabos Noé aguentou tanto bicho dentro da arca, porque o porquê de eles não terem devorado uns aos outros o padre Antônio Vieira já explicou. Há os que dizem que o maior mistério é de onde saíram as mulheres de Caim e Abel. Para outros o maior de todos os mistérios é como um camelo passa por uma agulha (e há ainda os que acreditam que o maior mistério é quem matou a praga da Odete Roitman). E, aqui, soma-se o mistério contemporâneo de onde está um fulano que rima com nós, “mais não é nois, táligado?”. Todos mistérios para os quais há respostas fáceis, e elaboradas também. Basta ir na casa desse povo que tem 20 gatos dentro de casa por exemplo ou na casa de um fumante para descobrir que há explicações científicas para o mistério de Noé; e porque quase ninguém quis entrar na Arca. Concluía Didico. Isso pra não falar dos milagres porque já estaríamos entrando em outro problema. Afinal de contas, quando descobriu que Machado não era branco, Harold Bloom disse que ele era um milagre. Carlos Fuentes também disse isso, mas não sei se sabia ou não que Machado não era branco. Milagre? Tá certo, tá certo, tá certo. Branco escritor é obra da natureza, preto escritor é milagre. De chorar. Didico divagava. Cada um desses mistérios já tinha sido mistério e deixado de ser alguma vez na cabeça de Didico. Assim como a dúvida se Vida Boheme voltou em casa ou não afinal. “Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados”, porém era mistério indecifrável. E não é porque há causa e efeito na sentença, mas sim pelo simples fato de que, ora bolas, se choram é para serem consolados e se serão consolados é porque choram. Didico não chorava. Não é que não tivesse chorado nunca, mas fazia já uns 10 ou 20 anos que não chorava. Devia ter chorado quando nasceu já que é o que todo mundo diz. Pra mamar não deve ter chorado porque a mãe dizia que nunca gostou de leite. Como nada disso adiantava, dedicou-se então a lembrar das vezes que chorou. Do físico ao emocional. Da causa negativa à causa positiva. Esforçou-se para lembrar. Um corte no pé, um soco no olho, um soco na boca do estômago, um arranhão no joelho, um chute no saco de vez em quando, uma pirraça aqui, uma chinelada ali, uma mordida de cachorro, uma bola de couro de presente, um Atari, uma piada bem contada, uma “bezetacil”, a primeira dura da PM, a última dura da Civil. Chegou à conclusão de que chorou muito na vida. De dor, de raiva, de tristeza, de alegria, de tanto rir, de fome, de gulodice, de remorso, de compaixão, de mentirinha, de solidão, de vergonha (naquela vez que não quis comer no prato de lata de goiabada), de acanhamento (daquela vez que comeu no prato de lata de goiabada), de medo, de saudade, de se mijar todo, de desespero, de dor de cotovelo, de soluçar, de molhar as páginas do conto que reescrevia. Finda a tarefa de lembrar não somente as vezes que tinha chorado como também as forças motrizes por trás de cada uma delas, restava apenas repetir uma por uma cada situação. Método científico, aceito pela comunidade internacional (ou seja: o que a empreitada colonial estabeleceu), mais óbvio para chegar a uma conclusão. Começou pela física. Infligiu-se um corte no pé encima da cicatriz original. Um corte que não havia doído e por isso quando apercebeu-se da quantidade de sangue desabou em choro convulsivo. Com o caco de vidro ainda fincado no pé viu o rio de sangue aumentar a poça ao redor do pé. Nada. Nem uma lágrima sequer. Nem na hora da anestesia para a sutura necessária. Curado o ferimento, continuou científica e sistematicamente esgotando a lista. Numa briga de trânsito, provocada, obviamente, eliminou da lista o soco no olho, o soco no estômago e o chute no saco de uma só vez, além de uma costela quebrada que veio de brinde. Nada. Nem uma lágrima sequer. Eliminadas as causas físicas passou às emocionais. Entre as coisas que já tinham provocado o choro proveniente de sentimento de raiva, cogitou uma final de campeonato em que o Flamengo perdesse por burrice do treinador mas isso implicaria esperar por um evento sobre o qual não teria nenhum controle e que, além do mais, já tinha testado mesmo que involuntariamente, portanto descartou a ideia. Como uzHômi hoje em dia anda de fuzil e circula “na rua com uma descrição que é parecida com a sua cabelo cor ou feição” (e idade, interseccionalidade! vejam só!), pulou essa parte e resolveu então praticar a subida de elevador na zona sul do Rio de Janeiro, não sem antes reler o “Fala, Fera”. Por uma semana, três vezes ao dia, tentava subir nos elevadores sociais de Copacabana e o resultado sempre era a insistência do porteiro em que usasse o elevador de serviço e raiva profunda que dele se apossava. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Lembrou do personagem do Rubem Fonseca que via televisão para aumentar a raiva (ou era o ódio?), mas preferia desistir da empreitada a submeter-se à tamanha tortura; fazia já uns 5 ou 10 anos que tinha se livrado do vicio da televisão. Como solução, passou então a ler crítica literária para aumentar a raiva. Leu e leu o máximo que pôde as bajulações hiperbatônicas de praxe aos textos ficcionais, escritas por homens brancos na faixa etária de 30 a 55 anos, e publicadas no eixo Rio-São Paulo, que formam o grosso da tão nobre disciplina. Náusea imensa, mas nenhuma lágrima sequer. Matou uma cambaxirra com uma pedrada certeira, matou outra com requintes de crueldade, e, para quem já fazia uns 10 ou 15 anos que literalmente não matava nem insetos (pegava com uma folhinha de papel e colocava pra fora do recinto) o remorso foi colossal. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Isolou-se de tudo e de todos e a saudade doeu, virou desespero. Fez greve de fome. Comeu arroz com feijão e usou lata de goiabada como prato na calçada do copo-sujo na central do Brasil. Ganhou um concurso de quem comia mais cachorro quente depois de reler O Rapto do Menino Dourado, a indigestão foi quase fatal. Nada. Nenhuma lágrima. Viu e reviu os shows do Richard Pryor riu e rerriu e gargalhou. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Terminadas todas as possibilidades da lista voltou aos textos, não sem antes reescrever aquele conto mais uma vez. Nada. Revistou textos antigos e contemporâneos. Releu o Dom Quixote e a frustração de que até Amadis de Gaula tinha fama de chorão criou uma sensação inexplicável. Releu Insubmissas Lágrimas de Mulheres. Leu pela primeira vez uma tradução de “Boquinha” que encontrou por acaso (será que ele chorou depois da coça que levou da coroa?). Releu “Diante da lei” e depois O processo todo de novo e depois María, com toda aquela agonia que se sente. Releu as últimas páginas de enquanto os dentes. Nada. Nenhuma lágrima sequer. Releu o capítulo “Das negativas” e lembrou que também não alcançou celebridade com aquele conto, não foi ministro, nem califa. Nessa busca textual por uma resposta ao grande mistério foi que, nos vais e vens entre textos antigos e contemporâneos, tropeçou em Sor Juana. Por que diabos só se lê a “Respuesta” nas aulas e nunca os textos que deram origem ao acontecido? Manuel Bandeira tinha feito um comentário sobre a tal “Carta Atenagórica” mas isso não importa para a crítica literária e, como, não acrescenta nada de emoção ao conto, melhor deixar pra lá. Deu graças a Deus pelo padre Antônio Vieira, pelo barroco e pela existência do silogismo. E foi então, não sem antes usar o método de Pierre Menard para entender Sor Juana (aprender o espanhol do século 16, aprender a fé católica etc, reler Quevedo (meus deus que cara arrogante), Góngora, e o padre Antônio Vieira (meu deus que sujeito marrento), que se dedicou novamente à prática para desvendar o mistério. Deu graças a Deus por Sor Juana comprovar, enquanto destrinchava os silogismos do marrento Padre Antônio Vieira e destroçava seu argumento, que a dor que dá lugar ao pranto é menor, enquanto que a maior de todas embarga o pranto. Descoberta a consequência, faltava descobrir a causa. Dedicou-se então a desvendar o segredo de qual seria essa dor maior. A dor que suplantava a todas as demais. Como não tinha estômago nem pra psicanálise nem pra psicologia, nem cogitou procurar nessas disciplinas respostas, afinal das contas Fanon nunca foi bem recebido, na verdade, nem recebido, pelos cândidos defensores da “universalidade”. Já sabia que acharia um universalizante trauma de infância de gente branca como possível causa, bla bla bla. Dias e dias examinou a memória e a consciência em busca da solução. Mas a consciência e a memória vinham dos livros e da escola bíblica. Voltou aos livros e à bíblia. E não porque quizesse acrescentar um versículo ao evangelho. Tinha horror à formulas gastas e, afinal de contas, o bem-aventurados os que não descem sempre pareceu caô de defunto beijoqueiro. Bem-aventurados os que não descem … pode até ser … sei lá … mas e os que descem? Os que não descem ficam lá em cima e, portanto, Bem-aventurados os que sim descem porque deles são as areias da praia de Copacabana nos dias de real grandeza tudo azul o mar turquesa a la Istambul enchendo os olhos dos que não descem. Leu e releu. Leu e releu. Lia e relia obstinadamente e já não fazia outra coisa. E não é que Hermes fosse culpado não. E não é que Hermes fosse culpado não, afinal de contas o coitado do Hermes não tem culpa se a hermenêutica foi universalizada apesar de insuficiente e limitada (e aqui sou eu que tô dizendo, não é o Didico não, “quem é preto como eu já tá ligado qual é”, mas talvez seja melhor explicar para quem é preto, mas não como eu: Hermes não conhecia Esu), Hermes não conhecia Esu… , Hermes não conhecia Esu… nem eu naquela época, pensava Didico. Como na leitura não achava resposta, decidiu voltar a reescrever aquele conto enquanto continuava sua agora incansável Esu‐’tufunaalo para interpretar o mistério. Decidiu voltar a reescrever aquele conto, mas começou a se arrepender porque lembrou que o senão de um conto, o maior defeito dele é você leitor, é você leitora. Você ama a narração aprumada e nutrida de símbolos positivos da negritude e referências aos orixás bem explícitos, o estilo regular e fluente da estrutura do conto tradicional-moderno (inventada pelo Edgar Alan Poe ou pelo Horácio Quiroga, diga-se de passagem), o despertar de emoções à flor da pele, e, ainda por cima (mais costume que amor), infestada de pretéritos-mais-que-perfeitos simples e pronomes oblíquos átonos nunca presentes nas bocas de ninguém a não ser (inconscientemente) na dos narradores e narradoras dos autores e das autoras que, por ganharem o prêmio Jabuti (ou vice-versa), são (inconscientemente) reproduzidos em qualquer literatura, independente(mente) da cor, e, claro, na daquele narrador (tá lá um corpo estendido no chão) de futebol da TVE; e este conto e o meu estilo são como os temulentos, guinam à destra e à sinistra, caminham e empacam, murmuram, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e desabam… se estabacam! E não é que eu “quero chorar! Não tenho lágrimas…” como naquele samba. Eu tenho. E te daria uma lágrima, talvez assim você achasse emoção no conto e chorasse comigo no final. Didico se emocionava e se animava com a ideia de chorarmos todos e todas, juntos, no final. Crescia nele uma expectativa e pensava no insólito dessa técnica narrativa que faz com que em vez de o narrador manipular o personagem e ação para criar expectativa na leitora e no leitor é o leitor e a leitora que criavam no personagem a expectativa de chorarmos todos e todas, juntos, no final. Lembrou daquela parada que o professor Jorge falou no boteco aquela vez. Fora da sala de aula o professor Jorge era Jorge Makumba e botava a mão na boca com o indicador estirado ao lado do nariz e dizia “ô rapá! É o seguinte: navio negreiro não dá ré não aí”. Mas lembrou que isso foi a mó tempão.

— Há um tempão!
— É… isso mesmo que eu disse! Foi a muito tempo.
— Há!
— Não é isso que tô dizendo?
— Não. Você disse a um tempão.
— Então! Foi a muito tempo!
— Foi Há Muito Tempo!
— O que que eu disse?
— Que foi a muito tempo.
— E qual o problema? Não foi a mó tempão, não?
— Não é foi a muito tempo, é foi há muito tempo. E é vício, não vicio.
— Que? Cumé?
— É VÍCIO! Não vicio! É quisesse, não quizesse! E é a fórmulas não à formulas!
— Iá! Ô bichão! Traz a conta aqui!

Foi nisso que o Buiu passou batendo um samba antigo na caixinha de fósforo “a minha alegria atravessou o mar… levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar contra o mal olhado carrego meu patuá”. Assim, de repente, “a minha alegria atravessou o mar”, que uma fagulha acendeu lá dentro, “a minha alegria”, e apagou, “o mar”, toda a memória e a consciência, “é hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar”, e finalmente, num reboot, numa (re)tomada de consciência (e nem foi como a Rigoberta Menchú não) gritou Ttufunaalo!!!!! e entendeu o mistério das lágrimas que não se manifestam e aqueles versos “cabe em um olho e pesa uma tonelada”. No mesmo dia abriu uma janela em direção ao leste e desde esse dia em diante nunca mais leu nem escreveu. De dia sentava no tamborete na encruzilhada, de noite sentava no parapeito da janela. Mudou de nome, não no R.G., claro. Contemplava o horizonte por longas horas e escutava, escutava, escutava, escutava até achar que escutava algo mesmo e que eram histórias e histórias e histórias muitas histórias todas as histórias em línguas tão bonitas tão bonitas já contadas e depois roubadas contrabandeadas e patenteadas em outras épocas e paralelos… então os olhos marejavam e marejavam e marejavam. Mas, nada, nenhuma lágrima sequer se aventurava a deixar o berço, a fazer a travessia. Elas ficaram do lado de lá. Este era seu B.O. pra eternidade: ficar ali sentado dia-e-noite ou levantar e ir ao encontro das lágrimas.

Paulo Dutra, fluminense de São João de Meriti, é doutor em literatura latino-americana, Purdue University (EUA), e assistant professor na University of New Mexico (EUA). É autor do livro de contos Aversão oficial: resumida (Malê, 2018) e do livro de poemas abliterações (Malê, 2019). Instagram: poetapaulodutra.

tarauacá-ma, de Juan Manuel Domínguez

Se diz que o povo Tarauacá-ma, que ocupou uma porção pequena de solo entre o norte do Paraguai e Campo Grande, acreditava que a raça humana não passava de um sonho produzido por uma mente divina, e que o nosso destino é a irremediável e fatal desaparição. A nossa duradoura existência depende da fidelidade da memória desse deus. E a memória, para eles, é similar a uma pedra que com o tempo se desgasta e perde sua forma, até virar um pó amorfo e indistinguível.

Esse povo acreditava que a mente era algo assim como um animal selvagem, um Caite-pê (assim a chamavam). Em alguns casos, alguns de nós conseguimos dominar nosso Caite-pê, e conviver com ele em relativa paz e harmonia. Porém, os desafortunados e os delirantes herdam uma mente descontrolada, que faz enlouquecer a alma do seu possuidor. Os Tarauacá-ma, então, entendiam que o Caite-pê do deus que sonhou um planeta diverso, com uma raça bípede e falante, não conseguiu controlar sua criação, e por isso a abandonou à sua sorte. Aos poucos vamos desaparecendo. Tornamo-nos cada vez mais difusos e dispensáveis.

Os Tarauacá-ma sabiam que seu entendimento teológico não era o único. Perto da cultura Tupí, por um lado, e da Aimará, por outro, fundamentaram que a diversidade se deve a que Deus precisa se disfarçar de diferentes formas para cada povo. O entendimento pleno da origem e da existência divina não são uma coisa com a qual o nosso Caite-pê conseguiria lidar. O segredo que revela todas as coisas, em todos os tempos, permanece velado a nós porque ele é parte substancial de nós (o segredo da existência está dentro de nós) e subjaz a nosso entendimento.

Existem boatos que especulam com a existência de um livro, escrito por um expedicionário espanhol que avistou o povo dos Tarauacá-ma à beira do rio Paraguai, entre 1734-36. O nome desse explorador é Fernando de Nordoñas e o nome do livro diz-se que é Nômades da Luz, o misterioso povo dos Tarauacá-ma. No livro, Nordoñas afirma ter convivido com ele, e compara essa cultura aos exóticos povos da Ásia meridional. Segundo os que afirmam ter lido a obra, a comunidade inteira reunia-se toda noite ao redor de uma fogueira para permanecer por umas horas em estado de semi meditação. Alimentavam-se, sobretudo, dos peixes que conseguiam pescar, de forma bastante rústica, no rio, também de frutos silvestres e de Javalis.

Entre as lendas que ainda sobrevivem naquela região, existe uma que indica que a cidade de “Lucia del Valle” leva o nome da sacerdotisa suprema dos Tarauacá-ma. A história (supersticiosa e banal, claro está) diz que os Tarauacá-ma suplicaram a Fernando de Nordoñas que não divulgasse a existência deles, nem o local onde eles costumavam habitar. Ante a negativa do espanhol, a sacerdotisa suprema, de uma beleza incomparável, ofereceu-se para casar-se com o explorador, em troca de não marcar o local onde tinha coabitado com aqueles indígenas.

A penemandu é uma flor que os indígenas costumavam usar para curar as crianças dos traumas ocasionados pelos pesadelos. Um chá produzido com flores de penemandu, bebido muitas vezes ao longo do tempo, poderia fazer a pessoa perder a memória. Além de usá-la para decorar a casa, Lucia se valia de flores de penemandu para cheirar a sala de jantar. O méleo perfume e seu açucarado sabor encantavam o espanhol. Seus efeitos fizeram que aos poucos o entusiasta homem perdesse o rastro, na lembrança, do local onde tinha encontrado a divina e inusitada tribo. Lucia, que também bebia do chá amnésico, e cheirava das flores na sala de jantar, aos poucos começou a esquecer seu papel divino, sua missão como líder espiritual. O risco assumido, abandonar sua identidade, não significava uma despesa, comparado ao perigo de extinção que assolava à sua cultura, a todas suas crenças que agora desapareciam lentamente para serem substituídas por outras, as do cruel invasor. Lucia aceitou mudar de afetos, com a certeza de que assim salvaria seus verdadeiros sentimentos.

Durante todos os anos em que esteve casada com o espanhol, Lucia, o nome que a sacerdotisa dos Tarauacá-ma adotou para se confundir com os colonizadores, dedicou-se a preencher e alegrar o coração do seu eventual marido, por amor ao seu verdadeiro deus, ao seu povo e, com o passar do tempo, por amor ao destino que uma indecifrável divindade tinha encomendado para ela. Em 1740, Fernando de Nordoñas foi eleito prefeito da cidade. Dois anos depois, uma poderosa doença quase o fulminou de forma definitiva. Só os cuidados da sua dedicada mulher, de quem pouco se conhecia sua origem, conseguiram salvar aquele valioso cidadão. Honrando a cristã devoção da dama, o povo decidiu batizar a cidade com o nome de “Lucia del Valle”. A história dos colonizadores lembra dela como uma devota da fé católica, apaixonada pelo seu marido, pelos seus filhos e por umas flores provenientes de plantas que só ela conseguia germinar no seu jardim. Ao ficar viúva, se recolheu de forma quase permanente na sua casa. Morreu sendo uma anciã alegre. Tem alguém que afirma que suas últimas palavras foram numa língua similar à Tupí Guaraní, mas é coisa do povo inventar histórias para criar confusão.

Juan Manuel Domínguez é escritor e jornalista, com colaborações no Le Monde Diplomatique BR e Arg, Mídia Ninja e Caos filosófico. É também produtor e diretor de fotografia especializado em fotografia de documentários para a defesa dos direitos humanos.

nada para contemplar, de Marcelo Maluf

Nada para contemplar além da imensidão silenciosa do deserto. Como havíamos chegado? Nem mesmo ele saberia dizer com precisão. Ele que sempre soube perceber os espaços, coordenar nossas vidas, que nunca deixou faltar nada a nossa casa, que sempre soube o que fazer, estava tão perdido quanto eu, tão sem saber quanto eu. Tão frágil quanto eu. Mas uma coisa era certa, ele quis que estivéssemos ali. E fez de tudo para que chegássemos ao deserto. Foi só depois que ele descaminhou. Se lhe perguntassem se tinha algum arrependimento na vida, a resposta era sempre a mesma: a de não ter sido um santo. Estávamos no deserto. Sem água há doze horas e ele não parava de repetir que me amava. Há três dias que só víamos areia e vento. Céu sem nuvens. E ele a repetir eu te amo, eu te amo, eu te amo. Apesar da sede e do sol eu ainda me mantinha lúcida. Comecei a compreender que poderia perdê-lo a qualquer momento. E pedi para que ele não dissesse mais. A boca poderia secar. A língua ficar pesada. Estávamos a sós. Enfim. Tínhamos desistido da vida na cidade, tínhamos desistido da vida em sociedade. Há três anos que vivíamos como nômades descobrindo e desistindo de lugares, não se fixando nem a terras, nem a pessoas. Só tínhamos a nós dois como cúmplices nessa jornada. Questionávamos, às vezes, se não era egoísmo vivermos assim sós. Ensimesmados. Mas Dalton sempre tinha resposta para tudo e logo ele nos convencia, a mim e a ele mesmo, de que o nosso estilo de vida era o menos egoísta de todos. Havíamos escolhido o anonimato e a não continuidade, ele dizia. Havíamos escolhido a certeza da impermanência. Havíamos escolhido todos e não alguns. “Hilda, querida, nascemos para servir aos outros, e só podemos fazer isso vivendo desta maneira”. Dalton sempre me convencia com seu modo lento e fino de falar. Foi por isso que me apaixonei por ele. Éramos jovens demais quando nos conhecemos. Mas Dalton sempre pareceu mais maduro do que sua idade. Vivia falando dos poetas e dos santos. Trazia na carteira um retrato de Garcia Lorca e uma imagem de São João da Cruz. Para ele, seus poetas preferidos. Gostava da coragem com que Lorca encarou a morte de frente e sempre achou burra a igreja por não compreender, verdadeiramente, homens como João da Cruz e Francisco de Assis. Ele se enchia de entusiasmo quando falava deles. Eu, ainda menina, mesmo sem saber exatamente por que, fui atraída pelo seu mundo e, aos poucos, descobrindo que aquele também era o meu mundo. Há vinte e cinco anos que comungávamos tudo. Mas no deserto, tudo aquilo era tão pouco. Só tínhamos a nós mesmos. E era de nós que teríamos tudo. De nós, a vida possível naquele mar sem fim de areia. Dalton perdia as forças. Falava mais lento ainda. Sintetizava sua declaração apenas numa única palavra: amor. A M O R. Desejei ser água, nuvem de chuva, casa de gelo, sereno e gota de orvalho. Para que ele me bebesse. Para que ele não secasse. Dalton sempre temeu sentir sede no deserto. Esse era o seu único medo. Não eram a insolação, os escorpiões e as tempestades de areia. Nada. “Tenho medo da sede, posso não me saciar”, ele dizia. Num ato de desespero, por que queria salvá-lo, beijei-lhe a boca de modo a deixar que minha saliva pudesse servir-lhe de água. Sua língua estava tão pesada e seca que tive que salivar muito para trazê-la à sua consistência natural. A sede começava também a tomar conta de mim. E quanto mais sede eu sentia, mais deserto ficava o deserto. Caminhávamos para não desfalecer e ser encobertos por areia. As mãos dadas. Seguíamos sem pronunciar qualquer palavra. Silenciávamos. Contemplávamos a nós mesmos naquela situação e chorávamos, mesmo sem lágrimas para escorrer. Há cinco dias que eu e Dalton estávamos perdidos no deserto.

Na manhã do sexto dia, Dalton me acordou fazendo um gesto de carinho nos meus ombros. Gesto seguido por cinco palavras: “Amor, Eu Não Sinto Sede”. Dalton tinha os lábios vermelhos, o rosto corado. Uma felicidade iluminava o seu corpo inteiro e contagiava o seu olhar e me contagiava, a ponto de eu também não sentir mais sede alguma. No sétimo dia, levantamos cheios de entusiasmo, seguimos dançando por entre as dunas. Não demorou muito para que a areia cedesse lugar ao oceano. E onde antes víamos escorpiões e tempestades de areia, passamos a contemplar peixinhos, baleias, cavalos-marinhos e ondas. De longe avistamos um humilde barco de pescadores. Dalton me disse com seu jeito fino e lento, que era provável que fosse apenas miragem. Nadávamos.

| conto do livro Esquece tudo agora (Terracota editora, 2012). |

Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Autor do romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório, 2015), livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #4

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Merda

Por Alexandre Marques Rodrigues

printemps_ficcao
Vitor Rocha

“Com catástrofes a gente não precisa verdadeiramente de se preocupar, elas surgem com certeza. Mas talvez haja necessidade de as provocar, de vez em quando, porque para virem por si próprias leva muito tempo.” (Thomas Bernhard)

Nós não somos mais um país, o Ruivo disse, saiu da cama: andou pelo quarto a procurar a roupa, o pau insistia ainda em ficar duro, o suor no corpo era um acaso; a televisão ligada, na sala, arremessava o noticiário contra as paredes, os apresentadores, a fingir histerias, se esparramavam pela porta sem pedir Com licença, sem perguntar Posso entrar. Victor recobrava o fôlego; deitado, seguia o Ruivo com os olhos, revezava os ouvidos entre as notícias e a frase dele, já repetida tantas vezes, Nós não somos mais um país. Por que você sempre sai da cama com tanta pressa, perguntou, disse Eu odeio isso; o Ruivo encontrou a cueca na sala, Era mais fácil quando trepávamos naquele seu ateliê, comentou, ficava tudo junto: a cama, as tintas, as telas, a cozinha, a sua poltrona: eu não perdia minha roupa um pouco em cada lado. Victor resmungou Realmente odeio isso, o Ruivo se assustou O quê, sugeriu Que a casa fique toda junta, e o outro precisou explicar o óbvio, Que você esteja aí na sala, disse, a procurar sua roupa, e não aqui na cama, junto comigo —

ainda assim, o Ruivo resistiu: não voltou para o quarto. Ficou postado diante da televisão. A imagem na tela mostrava uma multidão a se alastrar pela cidade; um jornalista tentava explicar alguma daquelas coisas que eles nunca conseguem explicar, o rei Alberto pega a mesma arma que arranjou na época das bombas, a arma com que brincou de roleta russa com Jacqueline — pega a mesma arma, balança a cabeça como quem lamenta, olha para Larissa. Ela chora; entendeu que não há solução: seja para o mundo ou para a vida, não há solução, é chegado o reino da merda, não há para onde fugir, não dá para passar uma porta, ir para o lado de fora com quem sai de um bar para fumar um cigarro na calçada; e o tempo não ajuda, não pode, com um soluço, não implanta Larissa de volta para o colo da mãe, para os passeios que dava na praia, segurando a mão do pai, cheia de orgulho por passear com aquele homem que apenas por um acaso era o seu pai. O rei Alberto diz Você já entendeu, Victor ruminou Eu era uma fraude, disse depois em voz alta Eu era uma fraude, Larissa não responde, o Ruivo perguntou O que você quer dizer com isso, continuou a olhar na televisão as pessoas que protestavam mais uma vez. Como se recordasse outra vida, Victor se lembrava, se lembrou, Já quando aquele seu amigo me encomendou as cópias dos quadros, disse, se corrigiu Falsificações, retomou do início, Já quando aquele seu amigo me encomendou as falsificações todo mundo viu, pôde ver: eu era uma fraude, não conseguia nem fazer umas bandeirinhas de merda coloridas com tinta óleo. O Ruivo vestiu a camisa, de volta ao quarto, vestiu a camisa e ficou de pé junto à cama, a velar um morto que tinham plantado dentro de um caixão imenso,

o rei Alberto insiste com Larissa, repete a pergunta, que não é uma pergunta, Você já entendeu, ele repete, ela concorda Sim. Eu olho a janela: você me disse Vai chover a semana inteira, e chove a semana inteira, por isso Larissa continua a chorar, chora com a inevitabilidade das leis da física — suas lágrimas caem como a entropia aumenta, como a inércia impõe a falta de fim ao movimento —; me perguntou O que vai fazer no domingo, me perguntou e eu não sei o que vou fazer no domingo, não sei o que faço hoje, mas Da próxima vez sou eu quem prepara o jantar, me explicou. Você não era uma fraude, o Ruivo disse para o caixão, para a cama, para Victor, que não se levantou, os mortos não se levantam; Apenas se cansou da pintura, o Ruivo ponderou, concluiu É isso, depois citou Igual Roberto se cansou do banco, igual eu me cansei da. Não foi em Natacha que ele pensou, é claro que não: o rei Alberto assente É isso mesmo, Larissa acende um cigarro, ele diz Não dá mais, como quem diagnostica É um câncer, ou É preciso operar, diz Não dá mais; anda de um lado para o outro na sala, não mais a sala onde Larissa tinha escrito na parede uma frase da Ulrike Meinhof —

o rei Alberto anda de um lado para o outro da sala, a arma na mão, de um lado para o outro, a arma que engatilha e desengatilha, de um lado para o outro, engatilha e desengatilha. Acha mesmo que não tem outro jeito, Larissa pergunta. Eu odeio esse seu otimismo — você me disse Vai passar, me mandou ouvir os discos do Glenn Gould e me disse Vai passar —, Eu odeio esse seu otimismo, rebateu Victor, reforçou Odeio, montou o deboche sobre a cara, imitou o Ruivo, disse em falsete A-pe-nas-se-can-sou-da-pin-tu-ra, depois perguntou com jeito de quem repreende, ou mesmo repreendeu Que merda você entende de pintura e de se cansar da pintura; o Ruivo se sentou na cama: pôs os sapatos, Nós não somos mais um país, disse outra vez, a apontar com o queixo na direção da sala, da televisão, das notícias, Não somos mais a porra de um país. Você me emprestou o Torga, eu perguntei se o Houellebecq tinha ficado na sua casa, Larissa duvida Acha mesmo que vai conseguir — O mundo é tudo o que é o caso, Wittgenstein escreveu, abriu com essa sura o Tractatus que você lia ontem —; Ele tem seguranças, ela continua, deve usar um colete a prova de balas, com certeza agora sempre usa um colete a prova de balas,

As bombas não adiantaram, o Ruivo disse cheio de pena, como quem se lembra das flores que se desfizeram quando o vaso caiu da mesa, As bombas não adiantaram de nada. Vê se pega na cozinha alguma coisa para a gente beber, pediu Victor, de repente um morto muito exigente, refastelado em seu caixão cheio de lençóis a imitar a seda, pediu E desliga essa televisão, pelo amor de deus; Eu preciso tentar, o rei Alberto contesta, mostra a arma para Larissa, É o que eu quero, explica, é o que todos querem: é o que eu espero, o que você espera, o que todos esperam. Eu perguntei se você já sabia, você me respondeu Sim, mas não me respondeu, não me disse Sim, apenas acenou com a cabeça, desviou os olhos para o chão, o rei Alberto argumenta Para que aquela gente toda foi às ruas, argumenta sem esperar qualquer resposta de Larissa, ela sentencia Você não vai conseguir, o Ruivo saiu do quarto, foi na direção da cozinha para pegar água, suco, whisky, vinho, chá, qualquer coisa para Victor beber — mas não conseguiu, não passou da sala:

parou outra vez na frente da televisão: olhou a multidão que a câmera, de dentro de um helicóptero, mostrava cheia de semelhanças com qualquer coisa que não era mais humana — a multidão era uma floresta, ou um rio, ou um mar, um deserto imenso a avançar suas dunas sobre a cidade. Não vai resolver, o Ruivo disse, disse É preciso algo mais, disse Desse jeito não vai mais resolver; em dezembro eu era um homem carregando um bonsai dentro do metrô, você se lembra, o rei Alberto recita Eu vou fazer, recita cheio de ênfases, como se dizer fosse já metade do gesto, Eu vou fazer, completa Vou matar o filho da puta. Victor perdeu a paciência, Quando é que você vai me chupar direito, perguntou para o Ruivo, se ergueu na cama como se tivesse chegado o terceiro dia, Quando é que vai me chupar até o final;

É preciso fazer alguma coisa, o rei Alberto insiste, o Ruivo voltou para o quarto, É preciso fazer qualquer coisa, voltou para o quarto sem água, sem suco, sem whisky, sem vinho, sem chá. Acha mesmo que vai ser assim — foi o que você me perguntou, e eu não sabia: não sei. Sentado na cama, Victor pediu Conversa comigo, pediu para o Ruivo, Larissa olha a arma que o rei Alberto muda de mão, mas não põe sobre a mesa, pede Conversa comigo, você também, Conversa comigo, me pede. É tão simples. Nós não somos mais um país, o Ruivo repete, Victor contesta Nós não somos mais um casal, o rei Alberto pergunta O que há ainda para conversar, você concorda com ele, concorda comigo, Tem razão, diz — Larissa para de chorar, Estou tão cansada, ela suspira —, o Ruivo desvia os olhos de Victor, os arremessa pela janela atrás da cama, onze andares para baixo, você me abre a porta, ele murmura, devagar, uma sílaba de cada vez, murmura

Merda.

Alexandre Marques Rodrigues é autor de Porca (Editora Record, 2019), Entropia (Editora Record, 2016; Teodolito, 2017) e Parafilias (Editora Record, 2014; Editora Teodolito, 2018).

Brasil: (im)possíveis diálogos #2

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Empregadas

Por Tiago Germano

Para Leandro Assis e Triscila Oliveira

printemps_ficcao
Vitor Rocha

“Na família da minha mãe nós somos os mais ricos…”

Ela abriu a cueca branca entre os dedos e pediu que eu colocasse uma perna de cada vez.

“…mas na do meu pai eu já não sei dizer.”

Fez o mesmo com a calça jeans, fechando depois o zíper.

“Talvez os segundos… ou terceiros…”

Colocou o primeiro botão da camisa em sua casa. Deixou que eu tentasse abotoar o resto.

“O tio Duda tem dois carros, então acho que ele é o primeiro mais rico…”

Eu cheguei no botão da gola e percebi que alguma coisa estava errada.

“… e o tio Mário tem duas televisões.”

Ela me mostrou que eu havia pulado uma casa. Tirou os botões das casas erradas e guiou os meus dedos pelas certas.

“Isso sem contar o Master System do Rafa, né?”

Ela penteou o meu cabelo para frente. Depois para trás dividindo no meio.

“Mas aqui na rua sem dúvida nós somos os mais ricos.”

Eu ainda não precisava usar desodorante, então ela colocou a colônia, uma gota de cada vez, bem atrás das minhas orelhas.

“O vizinho pensa que é mais rico só porque tem uma antena parabólica no jardim.”

Ela me fez sentar na cama e calçou os meus tênis.

“No jardim! Você já viu?”

Eu nunca soube como ela fazia aquele nó tão fácil de desfazer, mas que não desmanchava nunca.

“E do que que adianta ter tanto canal só de boi?”

Ela recolheu a roupa suja e fez uma trouxa delas na toalha molhada.

“Na sua casa também tem canal de boi?”

Ela me deu as costas e saiu do meu quarto.

* * *

“São tempos difíceis. Tá quase impossível encontrar alguém de confiança…”

Minha mãe havia se aposentado mas não conseguia dar conta sozinha da casa. Uma diarista vinha uma vez por semana para ajudar na limpeza.

“…e comer de marmita todo dia você sabe como é, né, o seu pai reclama.”

Havíamos recém comprado uma máquina de lavar. Meu pai culpava a função de secagem por ter, segundo ele, encolhido suas camisas de linho.

“Eu já tenho que aguentar a obsessão dele com os fios de cabelo no chão e a poeira nos móveis.”

Meu pai passava os dedos nos móveis para conferir se estavam limpos. Já havia demitido mais de uma empregada por causa disso.

“Isso porque a Cida é limpinha e deixa tudo tinindo na segunda.”

Minha mãe o havia proibido de fazer o mesmo com a Cida.

“Mas sabe como é, né, uma vez por semana… consegue imaginar o tanto de poeira que entra por essas janelas?”

Havia uma obra no terreno da frente. O prédio começava a tomar a nossa vista para o mar.

“Lembra o drama que foi com a Zefa, na época da casa?”

Zefa: melhor bife da infância. Não sabia o que era a parmegiana mas acertou de primeira porque, quando viu a receita, disse que fazia pros filhos com ovo e queijo, sempre que dava pra comprar.

“Cozinhava direitinho aquela, mas era porca. Seu pai dava um chilique todo dia que passava o dedo no balcão da cozinha.”

Zefa tinha vergonha de comer na mesa mesmo depois de nós. Para falar a verdade, eu nunca tinha visto a Zefa comer.

“Mas pelo menos não roubava, né. Lembra daquela que escondia as coisas de vocês no quintal e depois pulava o muro de noite, pra pegar pros filhos?”

Neide: tinha voltado de São Paulo, grávida aos dezesseis. Foi a maior decepção da minha mãe quando engravidou de novo, ninguém sabia de quem. Meu pai pagou até a licença-maternidade e achou aquele roubo uma falha imperdoável, logo que ela voltou a trabalhar para nós.

“Sabe que a menina dessa Neide passou na Federal agora?

Eu gostava da Neide.

“Cotas, né? E a gente tendo que pagar faculdade particular por causa disso.”

Eu gostava na verdade da vitamina de abacate da Neide.

“Ah, mas a pior de todas foi aquela Nina, lembra, aquela com espírito de rica, que se metia nas conversas?”

Nina, a que mais havia durado. Deu banho de álcool em meu irmão pra baixar a febre e dormiu todas noites em nossa casa quando meus pais viajaram para fora pela primeira vez.

“Aquela eu nem quero saber por onde anda.”

Nina sempre resmungava quando tinha que arrumar a nossa cama.

“A gente sempre teve o dedo meio sujo pra empregada.”

Nina hoje tinha um pequeno ateliê de costura.

* * *

A Cida tinha acabado de ser demitida num acesso de fúria do meu pai, antes de sair para o trabalho.

“Eu digo, a gente só pode ter o dedo podre.”

Na área de serviço, a máquina de lavar ainda terminava o ciclo rápido com todas as minhas roupas acumuladas ao longo da semana. Eu já podia finalmente me vestir e ir para a faculdade também. Eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente da minha mãe, então fui para a dependência de empregada.

“Você não se lembra, mas a única que deu certo com a gente pediu demissão quando vocês eram ainda pequenos.”

Troquei primeiro a cueca suja por outra limpa, quentinha, ainda com o calor da máquina.

“Aquela sim, era uma pessoa digna… simples, mas digna. Nunca tive do que reclamar.”

Sacudi a calça jeans ainda meio amassada e a vesti. Primeiro uma perna, depois a outra.

“Era a única que conseguia tirar você da cama de manhã e arrumar a tempo de chegar no colégio.”

Conferi o cheiro das minhas axilas antes de colocar a camisa, ainda com o aroma do amaciante.

“Só que teve esse dia, você não vai lembrar. Ela levou vocês pra escola, fez o serviço da casa, deixou tudo impecável, mas saiu sem dizer nada e encontrei um bilhete dela pedindo desculpas, dizendo que tinha que ir embora e que a gente não precisava se preocupar com o pagamento dos últimos dias.”

Demorei a desfazer o nó cego dos sapatos e a colocá-los nos pés.

“Nunca entendi porque ela foi embora.”

Penteei os cabelos no espelho da sala.

“Engraçado… Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o nome dela.”

Me despedi da minha mãe e só na porta percebi que tinha pulado um botão da camisa.

Tiago Germano é escritor e jornalista paraibano. Autor do romance A Mulher Faminta (Editora Moinhos, 2018) e da coletânea de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), vencedora do Prêmio Minuano e indicada ao Prêmio Jabuti. Mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é bolsista do Programa de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da Universidade de East Anglia (UEA), em Norwich (Inglaterra), por onde já passaram escritores como Ian McEwan e Kazuo Ishiguro. Seu romance O Que Pesa no Norte será lançado ainda este ano pela Editora Moinhos.

a única estação, de Rafael Gallo

“No fundo, posso dizer que um verão depressa substituiu outro verão.”
(O estrangeiro, Albert Camus)

Deveria ter pensado melhor, antes de sair de casa. “O casaco não coube na mala, vou carregar comigo”, escreve para Pedro, após despachar as bagagens. O corretor ortográfico do celular sempre a atrapalha quando redige mensagens em inglês, mas a língua é o ponto de encontro entre o casal, a meio caminho dos idiomas de cada um. “Pode deixar aí no aeroporto, nunca vai usar aqui”, a reposta dele almeja algum riso; quase tudo o que diz tem pitadas de humor, feito o ingrediente típico da gastronomia de outro país.

O difícil, para Kathrin, é ter a medida exata do que considerar com seriedade, ou relevar, entre as falas do namorado. As menções dele ao calor de lá — onde mora e para onde ela está prestes a se mudar — soam quase irreais, diante da neve de fevereiro que vê do lado de fora das vidraças. Pedro costuma dizer que na região dele é verão o ano inteiro. Kathrin acredita que só pode ser outro de seus exageros essa fala; a percepção dela há de ser diferente. É impossível ser verão o ano inteiro, isso acabaria com a própria ideia de ciclos anuais. Restariam apenas repetições de um estado do qual nunca se sai. Ela imagina: o tempo todo, uma única estação; suga com nervosismo o cigarro, na cabine fechada do aeroporto.

* * *

A viagem é longa: além do trem que a trouxe de Salzburgo — onde se despediu de todos — serão três voos daqui, de Viena, até o destino final: Recife-Guararapes. Impronunciáveis esses nomes em português; e pensar que Pedro reclama da dificuldade de falar alemão. Todo o período que ele passou na Áustria, por conta do doutorado, apoiou-se na língua inglesa ou, depois que se conheceram, na ajuda dela. Ninguém apostava na união dos dois, mas “o brasileiro” abriu leque tão novo de vivências, que Kathrin se atraiu quase de imediato. A volta dele para o Brasil daria fim à história dos dois ou novo começo. Escolheram a segunda opção.

O avião pousa no Recife, afinal. É a primeira viagem dela para outro continente; logo essa, permanente. Saber que Pedro a espera logo ali, na saída desses caminhos estrangeiros, dá segurança à excitação. Quando o encontra, ele está segurando uma placa com o nome dela escrito errado, feito um funcionário que não conhece quem veio buscar. Ela gargalha. Beijam-se, em comemoração a tanto porvir.

“Não está tão quente, está agradável até”, Kathrin caminha contente pelo terminal, o casaco nos braços. “Você ainda não viu lá fora”. Assim que a porta ao exterior se abre, ela compreende. É tanto calor, tanto. E há algo diferente de outras temperaturas quentes com as quais se deparou antes; a pele fica pegajosa e, por cima dos braços, o casaco parece prestes a inflamar-se. Quando entram no carro, o ar-condicionado refresca um pouco, mas a dor de cabeça já está instalada: talvez do cansaço das tantas horas de voo, talvez da insolação nesses poucos minutos em solo pernambucano.

No trajeto para casa, Kathrin olha curiosa os entornos do que agora se torna seu país de morada. Preferia ter outra sensação íntima quanto ao que se apresenta. Quantas vezes pensou nesses preconceitos a serem evitados, na disposição para um contexto muito distinto do que viveu até hoje; mas alguma sensibilidade no corpo reage de outra maneira quando se está cercado pelo que antes era só hipótese. Vai ficar tudo bem, é apenas o estranhamento inicial, ela se convence.

O apartamento de Pedro é aconchegante, um oásis de reconhecimento por tê-lo visto nas conversas em vídeo, enquanto estiveram longe. “Casa”, ela pronuncia uma das poucas palavras em português que conhece, boas-vindas a si mesma. Eles deixam as malas na sala, circulam pelos cômodos e vão à cozinha. “Que barulho é esse?”, Kathrin pergunta e Pedro tem de encontrar brechas de silêncio entre os motores dos carros lá fora, para captar bem o som. “Esse tum-tum? É alguém tocando música na rua. Mas está longe. Bem que você falou que tem ouvidos sensíveis”.

* * *

Música: aqui, é quase onipresente. No começo, parece divertido ver a empolgação induzida, em quase todos os lugares. É como se houvesse, espalhadas, partes de uma daquelas festas temáticas de férias, na qual estereótipos tropicais — ajudados pela embriaguez alcoólica — servem de brincadeira a adultos, fomentam alegria. Kathrin filma, com a câmera do celular, gente dançando na rua, nos botequins, no meio de alguma atividade de trabalho. Nunca viu povo tão musical. Manda os vídeos, pela internet, para os pais na Áustria e para Ilse, a melhor amiga. Riem como se vissem um lugar que nunca poderia ser a residência dela. Mas agora é.

Só que tal qual acontece em toda festa — e toda embriaguez — o barulho constante, depois de algum tempo, começa a exasperá-la. Muitas vezes Kathrin quer silêncio, mas é acossada pelas batidas daquele estilo dominante, que lhe soa como mistura de guitarras caribenhas, programações de teclados de karaokê antigos, cornetas mariachi e vozes que — Deus do céu — vão das repetições mecanizadas do pop moderno até os arroubos mais melodramáticos dos filmes de Bollywood. Perde a graça rápido. E a quietude, que ela aprecia, é tratada como um mal a ser erradicado. Alto-falantes se projetam de todos os cantos — desde barracas de vendas até igrejas pentecostais — televisões permanecem ligadas onde quer que haja tomada elétrica, carros espirram o gosto musical dos donos pelas ruas. Até no modo de falar das pessoas há algo de música alta.

O corpo de Kathrin não processa tantos impulsos e decibéis da mesma maneira. Continua a reagir como se perturbado por um agente invasor, cada vez mais fatigante. Passadas as primeiras semanas, por mais que resista a se queixar com Pedro, a exaltação compulsória acaba por dobrá-la. “É sempre assim? Ou só na temporada de férias?”, ela vislumbra a possibilidade de ter fim a sagração generalizada do verão. Na mesa ocupada por eles no restaurante, os copos em tremores de vidro a cada golpe do bumbo, vindo de um carro parado na esquina. O namorado responde e ela pouco se atenta às palavras dele; o que a choca é perceber em si mesma o comportamento, até então, julgado bizarro: o de falar alto demais, para encobrir os ruídos de fora, que também se erguem continuamente. Acaba de cair no ciclo inflacionário de ruídos e sons, que leva todos a um estado de tumulto constante.

É muito discrepante de sua terra natal. “Terra natal”, ela repete em pensamento, na língua-mãe. Impressionante como a expressão adquiriu tons diferentes em tão pouco tempo. A imagem mental de Salzburgo recoberta de nostalgia e distância, como se no porta-retratos da memória o vidro se empoeirasse. A música seguinte tem início no carro ao longe e ela percebe: só ouviu o próprio pensamento, agora, por conta da pausa entre uma faixa e outra.

* * *

Perto do prédio deles, Kathrin descobre por acaso um grupo que treina capoeira a céu aberto. Transforma em ritual sentar-se à mesa do bar mais perto, de onde é possível observá-los. Na primeira vez, acende um cigarro, mas logo o garçom manda apagar, por ser proibido fumar ali. Ela não considera esse um lugar fechado — a mesa fica na calçada — mas aparentemente a presença do toldo é o bastante para a interdição.

Ver os capoeiristas compensa, eles a fascinam de verdade. Por mais estranho que possa parecer, são eles que mais a lembram do lugar de origem. As únicas pessoas, entre as conhecidas aqui, absolutamente centradas nas próprias ações, na atividade à qual se dedicam. Estão inteiras no que fazem, não há distrações forçosas, dispersões de energia e ruído. E são magníficos na realização da luta, da dança. A ela, parece mais dança do que luta. É tão belo de ver: pernas que se erguem velozes e rentes, mãos precisas nos pontos de força, composições detalhadas dos gestos. São como os músicos que tocam Mozart em Salzburgo: graciosos e potentes, indefectíveis nos movimentos. Ela se anima, só por acompanhá-los com o olhar. Negros como se eternamente resistentes ao sol, eles jogam até o cair da noite, que, infelizmente, chega rápido demais. No verão da Áustria, anoitece só por volta das 21h; é no inverno de lá que o crepúsculo se dá nessa faixa das 17h30. Nem a duração dos dias se alterará aqui?

* * *

A solução encontrada para a vontade de fumar é fazê-lo em casa. Kathrin vai para perto da janela do apartamento com o maço e o cinzeiro. Quando perguntou a Pedro se deveria ficar na rua, com seus cigarros — dadas as proibições e falta de alternativas — ele alertou para o perigo de assaltos, ataques. “Especialmente porque você é um alvo fácil, com sua aparência de estrangeira”.

Sua aparência de estrangeira. Pele tão mais branca que as dos outros, sem proteção do sol inclemente; olhos claros, também alérgicos a tanta luz. Cabeleira ruiva, que na Áustria era, no máximo, comentada com elogios esparsos, mas aqui se tornou uma espécie de atração turística reversa, chamativa aos locais. A forma mais frequente de interagirem com tal beleza forasteira é com as mãos. Parentes de Pedro, amigos e gente próxima dele, estranhos que ela nunca viu antes, atendentes ou clientes dos estabelecimentos aonde vai, não há diferença: todos se dão o direito de pegarem nos cabelos dela. Às vezes, riem dos sustos que leva; Kathrin protege os peitos, à altura onde as madeixas terminam e onde quase sempre são buscadas. E, talvez seja falta de entendimento dela, mas parece haver certo ressentimento nesses gestos de cordialidade. Algum rancor pelo que apreciam, mas não possuem.

“É normal isso, de colocarem as mãos na gente, mesmo quem a gente não conhece?”, pergunta a Pedro, que balança a cabeça em confirmação. Kathrin não consegue se acostumar; depois de algumas semanas, entra no salão e pede um corte bem curto, rente à cabeça. “Muito calor”, a moça com a tesoura repete para ela, como se falasse com uma criança que não entende quase nada. Kathrin sinaliza concordância, aprendeu logo essas duas palavras, por serem proeminentes no que há para se falar aqui. Muito. Calor.

“Eu preferia comprido”, o namorado diz, quando se depara com a novidade. “Ah, é? Eu também. Mas se todo mundo pegasse no seu pau quando sai na rua, você também ia querer resolver isso”. Ele fala para a companheira, que se afasta: “Vamos lá, é bem diferente. Ninguém enfiou a mão dentro da sua calça”. Kathrin volta para perto, irascível feito todo animal que se vê sob ameaça: “Não é tão diferente quanto você pensa. E faz eu me sentir perto de ter alguém enfiando a mão na minha calça. Você mesmo falou: é perigoso pra mim, na rua”.

* * *

Conversando com os pais todos os dias, pela internet, ela percebe que suas experiências se abstraem na percepção deles. O corte de cabelo foi tratado como uma pequena excentricidade; quando lhes mostra algumas das músicas que agora a irritam, os dois riem do lado de lá. Claro, falta potência de som, falta constância e proximidade real, para que compreendam. Aos poucos, a distância entre eles parece aumentar, como se a deriva continental ainda estivesse em curso, afastando ainda mais o que antigamente foi uma só Pangeia.

Esse efeito se atenua quando o avô participa das conversas. Os pais vão à casa dele para fazer tais chamadas. Muitas vezes, deixam-na sozinha com o velho, que sempre tem histórias para contar e, mais do que isso, também a escuta com atenção. Pede para ensiná-lo palavras em português conforme as aprende. É bom ouvi-las na voz dele, adquirem outro aspecto, mais brando. “Saudades” é a preferida dos dois, sempre se despedem com o termo tão singular do idioma de onde ela mora. Quase todas as vezes, Kathrin chora ao desligar as chamadas.

Outro contato frequente é Ilse, a melhor amiga. Mas os diálogos com ela têm se escasseado mais rápido do que com os pais. Kathrin não tem muito que contar: nenhum amigo ou experiências interessantes lá fora, nenhuma perspectiva de atividades com sua formação profissional. Nada de novo debaixo do sol. Já as transformações na vida de Ilse perdem substância, por serem transmitidas só em discurso. O novo namorado dela, por exemplo, é descrito com todos os pormenores, tem fotos mostradas e ações narradas, mas continua a ser um estranho, de certa forma. Não se conhece uma pessoa através de explicações. E Kathrin também só pode ser ditada para ele; configurou-se como “a amiga que foi morar no Brasil”. Não é quem queria ser.

* * *

Chega a data de início oficial do outono; Kathrin a pesquisou na internet antes, marcou no calendário. Embora Pedro houvesse dito que, no Recife, ninguém acredita nas previsões meteorológicas, ela conferiu-as dia a dia: hoje é esperado que chova. Fica à janela, fumando os últimos cigarros do maço, enquanto aguarda a chuva prometida pelos satélites. Talvez as quatro estações se assemelhem aqui, mas está confiante de que haverá diferenças: hoje pode ser apenas o começo de algo semelhante a um outono veranil, mas já significa mudança. Imagina o desconhecido a partir do que viu antes: há de vir um inverno veranil e a primavera veranil, antes de ser retomado o verão veranil, esse excesso da qual se livra hoje.

O vento começa a soprar, caem os primeiros pingos. Ela inspira o ar molhado, a esperança na transformação. Tudo precisa ser renovado, em algum momento, é a natureza das coisas: bichos e homens têm seus momentos de recolhimento, de migrações ou colheitas, de extroversão; as plantas florescem, dão frutos, depois ressecam, guardam energia e brotam de novo. São imprescindíveis à vida esses ciclos, nada sobrevive na intempérie ou no cio permanentes. Ela sabe através do corpo agora: é necessário o tempo de se fechar e de se abrir, as transições. E essas chuvas hão de direcionar todos a um estado menos eufórico, é bom que seja assim. Ela sorri por um instante.

Dura menos de quinze minutos, a chuva. Logo o sol retoma o poder, esgarça as nuvens e arrebenta em luz amarela. As paredes não demoram a esquentar, do asfalto sobe o vapor estremecido. Carros abrem os vidros, um deles lança no ar a música que insiste, viril: “Senta, senta, senta”. Kathrin conhece ambos os significados do termo, passa a mão nos cabelos encurtados. Os termômetros se restabelecem. Hoje é todos os dias.

Quando Pedro chega em casa, faz piada sobre o aguardado início da outra estação. Pela primeira vez, Kathrin mantém a cara fechada com um gracejo dele.

* * *

O outono se vai como se não fosse nada, a passagem dos meses confirma: é mesmo verão o ano inteiro aqui. Pedro estava certo, aquela fala dele era para ter sido levada a sério. Kathrin sente-se como se traída, pelo fato de ele ter brincado tanto antes, diluindo previamente a gravidade dos avisos quanto ao que a esperava. Ele deveria ter enfatizado que é exasperante esse verão crônico, que há barulho demais, caos, tensão constante entre as pessoas acaloradas, e nada disso concede alívio. Nada se renova, só se reitera. Não que seja calor absoluto todo o tempo, há chuvas e dias nublados, mas são meras variações de humor da atmosfera, passageiras. Falta separação verdadeira entre fases, alterações mais consistentes. As folhas deveriam ter caído nesse hemisfério, a atmosfera se apaziguado; a luz deveria ter se tornado mais tênue, em tons de sépia e azul claro, inspirando sobriedade. O frio se anunciaria em seguida, convocando a diferentes atividades, demandas, temperamentos. É preciso sair desse torpor coletivo, dessa tensão de cio nunca concluído.

E pensar que em Salzburgo, a essa altura, a primavera tem nutrido outras belezas, coloridas, depois da neve. Nessas imediações da linha do Equador, o sol está sempre perto demais, dá a impressão de que o planeta nunca sai do mesmo ponto, apenas gira ao redor de si mesmo. Um presente perpétuo, dividido somente entre dia e noite, mas sempre o mesmo dia e a mesma noite. Sem alívio, sem horizonte. Plantada na estagnação, Kathrin resseca.

* * *

Por dias seguidos, ela volta à mesa de onde assiste à roda de capoeira, buscando ânimo na força daqueles rapazes e garotas, daquele mestre distante. Mas o espaço ocupado por eles, a certa altura, esvazia-se e permanece assim. No começo, Kathrin pensa que a ausência pode ser temporária, mas com o passar do tempo fica claro não ser o caso. Pensar que seria por conta do chamado inverno não faz sentido; o calor permanece o mesmo de sempre, nada se alterou na rotina de ninguém. Aqui está ela, na mesma mesa, rodeada pelos garçons de sempre, as ruas em seu moto-contínuo. Só os capoeiristas sumiram.

Sem domínio suficiente do idioma, ela pede que Pedro a acompanhe até o bar, para perguntar aos garçons sobre o que aconteceu. O diálogo que se dá à frente dela é incompreensível. Ao fim, o namorado explica-lhe, em inglês: “O mestre foi preso. Tentou proteger um aluno, pego por policiais, e se lascou junto”. A perplexidade nos olhos dela expõe mil perguntas, antes de ser pronunciada a primeira: “Eles eram bandidos, então?” Pedro indica as cadeiras para que se sentem. Pede uma cerveja, estende-se sobre os muitos sins e nãos cabíveis entre prisão e crime, entre policiais e pobres, culpados e negros. Kathrin não se conforma. Olha para o vazio deixado no lugar do mestre e seus alunos. O sol, ainda potente, parece que nunca mais vai baixar.

* * *

O sono dela continua prejudicado, mesmo passados meses, como se o fuso horário não se ajustasse. O problema é outro: o sol, penetrante pelas frestas do quarto desde às 5h da manhã. Pedro dorme sem problemas, depois passa os dias fora, na universidade. Ela não tem muito mais o que falar com os pais ou Ilse. Os capoeiristas se perderam. E dentro do apartamento, ou fora, faz tanto calor, tanto barulho. Ela, muitas vezes, lembra-se de uma Kathrin muito diferente dessa, que vaga pelos cômodos, à espera de nada. Quem é ela?

Entre todas as mudanças possíveis, a única que acontece é para pior: a chamada dos pais, tão fora de hora, provoca nela alarmes antes mesmo de atender. Nem mesmo calcula que altura da madrugada é em Salzburgo, quando o celular toca. Na tela que se abre, do aplicativo de vídeo-chamadas, os dois choram. Pedro, ao lado de Kathrin na cama, nada compreende das palavras, mas deve conseguir presumir — pelas reações, pelo cenário vazio na casa do avô, pelo choro — que o velho faleceu. É isso mesmo, ela confirma, antes de sair do quarto.

Na sala, está quente demais, apesar de ser noite há horas, de ser inverno no calendário. Tudo se configura absurdo: esse calor, o desarranjo do tempo e do espaço, a morte, a impossibilidade de se estar onde deveria estar. Ainda que fantasie os itinerários mais mirabolantes, a conclusão fatal é de que não há como chegar em Salzburgo, dar o adeus final ao avô. Kathrin odeia estar aqui, odeia a si mesma, e seu ódio é constituído de desamparo.

Pedro a abraça no sofá, ela treme em choro. Ficam ali até o sol nascer. O que não tarda.

* * *

“Existe alguma palavra em português para quando as coisas ficam piores do que insuportáveis?”, Kathrin pergunta com olhos trincados, dias depois. Pedro responde com uma negativa. “Eu imaginei. Acho que não existe em nenhuma língua”.

Ela precisa, de alguma forma, ter alívio. Alívio de tudo, de si mesma. Sair da letargia perturbada. Mas não há trégua: o luto, somado às angústias anteriores, a deixa mais fragilizada às apoquentações de buzinas e músicas, gritos e risadas, precariedades e excessos de toda espécie. Outro dia de sol e mais outro. Kathrin não consegue comer, não consegue ficar parada, nem iniciar qualquer coisa. Fica fechada em casa, em meio às janelas incandescentes e as paredes febris. A morte do avô é vasta, impõe outra dimensão a tudo; mas os ruídos da vida e da alegria lá fora não se remodelam, continuam a zunir e picar feito mosquitos. Enxames deles.

Nas ruas, a cidade que já lhe parecia hostil se torna doentia: o lixo espalhado tem mais lixo, o cheiro de mijo entra mais alcalino pelas narinas, as rachaduras nas calçadas se aprofundam, a miséria impõe outro nível de horror, os ruídos das pessoas são mais pontiagudos. Risadas e falas altas, gritinhos de crianças, correria, música para dançar: o absurdo nauseante da alegria.

Ela decide ir à farmácia, precisa comprar algum remédio para a dor de cabeça, a apatia e tantas outras coisas. A melancolia. Existe medicação suficiente para tudo isso? Na entrada, um homem grita ao microfone as promoções de remédios. Mexe com Kathrin, que só entende, ao final, a palavra “gringa”. Todo mundo ri no balcão de atendimento.

Todo mundo ri. É tanta alegria, tanta. Por todos os lados, a alegria a encurrala. Crianças correm entre as prateleiras de medicamentos, berrando de alegria. A música no sistema de som, assim que o anunciante para, bombardeia alegria por entre as paredes. Não há resguardo possível. Kathrin menciona à atendente os sintomas decorados em português, vistos no aplicativo de tradução. Recebe comprimidos que desconhece e nos quais deposita pouca fé. Queria dizer: o que precisa ser detida é toda essa alegria, essa terrível alegria. Ela chora no meio de todos.

* * *

Se fosse só luto pelo avô, já teria passado. Se fosse só luto pelo avô, não estaria presente nela desde antes: essa desolação, esse estado do qual nunca sai. Weltschmerz. Kathrin acende cigarros que se queimam até o fim, sem que ela sequer os leve à boca.

É primavera. Que diferença faz? Nem as flores realizam seu potencial completo aqui. Quase não se vê cores brotarem pelos caminhos, por entre as calçadas cinzas, quebradas.

Ilse, após sinalizar preocupação tantas vezes, diz em uma das chamadas por vídeo: “Eu decidi que vou te visitar no fim do ano”. Kathrin, depois que desliga, percebe nem ter agradecido. Não foi indiferença, foi alguma outra coisa que deixou de ser acionada no raciocínio. Parece que em seu corpo os fios de energia se derreteram.

* * *

No dia da chegada de Ilse, Kathrin espera do lado de fora do portão de desembarque, olha-se no reflexo do vidro: a amiga deve estranhá-la bastante. Além do cabelo curto — já visto nas chamadas por vídeo — a pele adquiriu outro tom e textura, as roupas parecem de alguém muito diferente dela. Encosta o nariz ao ombro nu, até seu cheiro mudou; tem algo de maresia.

A amiga surge, as duas se abraçam e começam a chorar juntas. Não são lágrimas do mesmo tipo. Elas caminham pelo aeroporto, têm mil coisas para falarem uma à outra, mas não ultrapassam perguntas e comentários banais, sobre o voo, o aeroporto daqui, o clima. Um constrangimento novo entre elas demora a se dissipar. Nos dias seguintes, a presença da amiga austríaca traz algum alento: conversar o dia todo na língua-mãe, ter perto de si essa voz germânica — e inteira, sem o achatamento da transmissão eletrônica — atentar para pequenos hábitos, microscópicos, que ela já perdeu e agora relembra na outra. Tantos detalhes de familiaridade, a companhia de alguém que também se sente morrer pelo calor. É verão de novo, porque nunca deixou de ser. Ilse tem a vantagem de estar na posição de turista; sabe que não se afogará nessa imensidão de sol e caos, só faz um breve mergulho e volta para respirar no seu habitat. Isso lhe dá a liberdade da qual Kathrin se perdeu.

Quando saem em viagem — itinerário bolado por Pedro até Maceió, indo pelo interior e voltando pelo litoral — a visitante tem disposição para conversar com ele sobre o Brasil; faz muitas perguntas e ouve longas explicações. A História do país, os caminhos pelos quais chegaram até a situação atual. Kathrin percebe, escutando a amiga falar estranhamente em inglês, o quanto deixou de descobrir sobre o lugar onde veio morar. Nunca fez todos esses questionamentos; mal chegou aqui, perdeu o fôlego e não recuperou mais. Pedro, ao volante, explica sobre a colonização, as capitanias hereditárias, a escravatura e o tráfico negreiro, a república e as ditaduras.

“Está tudo aqui ainda”, Kathrin quebra o silêncio de repente, após observar as grandes fazendas na estrada, os casarões coloniais, a presença intimidadora de militares. Pedro a provoca, dizendo que na Europa não foi muito melhor, com todas as batalhas sangrentas e os sistemas de dominação. Também há os muitos resquícios da História lá. Aliás, em Salzburgo tem aquela fortaleza medieval, acima de toda a cidade. “Eu sei, não estou dizendo que lá foi melhor. Só é diferente. Depois de tantos séculos de guerras e revoluções, das muitas reconfigurações dos territórios… As coisas mudaram mais, acho. Aqui parece estar tudo ainda sob os mesmos controles, desde o começo. Não se supera o começo. É o mesmo estado, do qual nunca se sai, uma espécie de presente perpétuo. E, sim, nós ainda temos a fortaleza, mas ela não é mais o que era, ninguém mais fica preso nas masmorras de lá. Nas daqui, sim”. Ilse olha para Pedro, esperando ver qual será a reação. Ele concorda, resignado. “É desolador”, Kathrin murmura, antes de cair em silêncio de novo.

Em meio às plantações, ela vê um menino cravar enxada na terra. Pede que Pedro pare o carro. Desce e vai até o garoto, negro como se eternamente sob o sol mais opressor. Não deve ter mais do que oito ou nove anos de idade; é pouco maior do que a enxada. “Como você se chama?”, ela pergunta em português, já aprendeu um tanto do idioma. “Antônio”, quase nada da voz dele sai da boca. “Onde você mora?”, esforça-se para evitar sotaque muito diferente. “Aqui, ué”, o pequeno fala em tom quase aborrecido, como se a única constatação possível fosse esse lugar, de onde nunca saiu. Um senhor se aproxima, também negro, de cabelos grisalhos. Lembra o mestre de capoeira, mas tem outro aspecto. “Tudo bem, dona?” Ela balança a cabeça, tenta o melhor sorriso do qual dispõe agora. Pedro vem até eles, é perceptível no companheiro o temor. Tanto medo aqui no Brasil, Kathrin pressente; enxerga-o manifestado também nas maneiras e nos olhos do velho e do menino, precavidos contra ela. É como se estivessem todos aqui sob alguma ameaça invisível, ou como se para cada pessoa as demais representassem perigo. Cada um esperando ser predado pelo outro. “O senhor é pai dele?”, ela pergunta e, antes que o senhor responda, Antônio se antecipa: “Vô”.

“Vô”, ela repete. Fica um tempo em silêncio. “Você mora aqui também?”, pergunta a ele, cobrindo os olhos do sol, que não aguenta. “Sempre morei, dona”. Há quietude nesses campos, ouvem-se aqui os detalhes pouco percebidos na cidade. Ela tem poucas palavras ainda a oferecer, eles também. “Para ir a Maceió, é por essa estrada mesmo?”, Pedro atravessa a conversa, na intenção de disfarçar motivo justificável para a abordagem. Não precisam disso, Kathrin tem vontade de dizer; por que sempre essa mania de disfarçar as tensões? Qual é o próximo passo: ligarem o som alto no carro, dançarem ao redor das enxadas, dessa criança na lavoura? O mal-estar geral, aqui, resplandece feito o sol. E, tal qual, não se olha diretamente para ele.

Pedro põe a mão no ombro de Kathrin, “É melhor a gente ir embora”, diz em inglês, código cifrado aos outros dois. Ela se volta para Ilse no carro, que em breve voltará a Salzburgo; olha para o namorado, que pode transitar entre estados e países; Antônio e o avô, que nunca saíram nem sairão dessas terras. Baixa o rosto e vê sua sombra inscrita pelo sol no solo desse lugar. “É melhor a gente ir embora”, repete, sem saber ainda o alcance exato da frase.

Rafael Gallo nasceu em São Paulo em 1981. É autor de Rebentar (Editora Record, 2015), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2016, e de Réveillon e outros dias (Editora Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012. Tem ainda diversos textos em antologias e coletâneas, incluindo publicações na França, nos Estados Unidos, no Equador e em Moçambique.

infância, de Fred Di Giacomo

Observava, faminto, as duas meninas. Claudete e Marina girando. Rodopia céu pra cima. Rodopia verde aos lados. Rodopia chão, terra esvoaçante, frágil marrom. Partículas poeirentas tingindo o azul de barro seco. Cantam a cantiga rápida, mastigando as palavras. Ao soltar as mãos uma da outra, são arremessadas pela força centrífuga ao chão. Gargalhadas espalham-se pelo mato. Sol das quatro da tarde. Formigas em fila na terra tremem ao terremoto das titãs. Um Jaó distante. Gritaria verde. Maritacas. Claudete pele canela, Marina pele carvão. Vontade de beijá-las. Naqueles tempos ainda sabia o que era ser cabra inteiro. Gambé me segurou.

— Tás doido? Não vinhemo pro sertão deflorá virge, Cuiabano.

Não tinha me atentado pra pouca idade das duas. Irritei-me com o sol, pelos do braço e da cabeça coçando. Terra de ladrão de cavalo. Odiava ladrão. Meus pais tiveram a vida desgraçada por bandoleiro no Mato Grosso. Queimaram nosso sítio. Pai tinha sobrenome Correia, mas mudou pra Correto pra deixar claro de que lado da vida estava. Quando furtei goiabas no pomar da véia torta, me encheu de cacete. Pegou na vara de marmelo e sangrou minhas pernas. Quando joguei o gato no tacho de doce de banana quebrou um cabo de vassoura piaçava nas minhas costas. “Prefiro ter filho defunto que filho bandido”. Ser honesto em terras onde só manda o artigo 44? Onde o calibre é a lei? Quem tem inimigo não dorme nunca. Rajadas de piripipi eram normais por lá. Tretas de coronéis sempre. Lembro da cara de ódio dele quando os vagabundos do Wa’uburé Negro botaram a 44 na cabeça da Mãe e disseram que iam violar ela e a Mana de cinco anos se Pai não entrasse em acordo com o Doutor Salles. Mãe branca, Pai preto e eu dessa cor sem nome. O sentimento de impotência do Pai, seu olhar repentinamente frágil parecendo que ia desmanchar, aquilo foi o pior castigo pra mim. Credo. Cheguei a pensar que Pai ia chorar. “Se ele chora, eu implodo.” Ia ter que pular na orelha do Wa’uburé e arrancá-la com o dente, mesmo sabendo que me matavam. Mas era a única coisa que se podia fazer. Lágrimas do Pai valiam mais que a honra da Mana. Ninguém podia roubar aquilo dele. Pai chorando? Desaba o céu sobre nós e esmaga tudo que nos sustenta. Senti o osso molinho, molinho.

— Marina, sua peste. Tio me mata.

— No duro?

— Cê sabe que é verdade.

— Tua mãe volta mais, não?

— Sei nem se tá viva.

— Queria ser igual seu tio Rabo Gordo.

— Credo cruz, creio em Deus pai.

— Vida de bicho solto é tão bonita.

— Que o que, Marina? Se nóis casa com algum hómi menos imprestáver já tamo no lucro. Muié bicho solto?

Nessa hora ouviu-se baque. “Mapinguari?” “Pé de Garrafa?”. Grito doido. Marina e Claudete. Coração serelepe rebolando peitos púberes. Suspiro de virgem. Rabo Gordo tinha rastreado onça-canguçu dia inteiro. Comera-lhe um bezerro. Marina, engolindo angústia, queria averiguar. Franziu o cenho, como o pai fazia. Sol cocento. Arrepio na espinha: “Passa morte que eu tô forte”. Viram um bugiozinho feio demais se pendurando nas árvores. Barba e bócio, macaquinho barulhento. “Era bugio, Claudete, afe que cagona”. Flauteado de Sabiá-laranjeira lembrava que entardecia. Melodia agudinha agradava. Claudete precisava cozinhar pra vô Felipinho e Rabo Gordo. “Vida miserável”, pensava Marina. Claudete achava que miserável era complicar a vida. Marina, tão sonhadora, não se conformava com único destino. Caminharam de mãos dadas pela estradinha de terra, no sentido contrário à vara de porcos que Carlão Vaca Louca, filho do maquinista, tocava. Cabelos fartos e negros, nariz grande e bem desenhado, peito de pomba. Claudete olhou pra ele até que o moço tímido se sentisse obrigado a cumprimentá-la.

— Tá facinha, hein, Claudete?

— Cê que não gosta de hómi, Marina.

— Credo, fia, meu mano cheira calçolas até da mamãe. Homem é âncora na vida.

— Por que ele apronta dessas?

— Sei lá, cheira as calçolas sujas de toda mulher que acha na frente e mexe no pingolim até espumar nata do leite.

— Até as suas? Que nojo!

— Hómi, Claudete. Que cê acha que o Carlão Vaca Louca vai colocar dentro d’ocê pra ter fio?

— Não tenho nojo de espuma de hómi, Marina, mas dessas coisa de cheirar calçola suja.

— Mano diz que tudo nas muié é sagrado, mas suspeito que seja balela. Hómi gosta de buraco quente. Já viu quantidade de moleque barranqueiro que propaga em Penápolis?

Deviam separar-se na encruzilhada, mas Claudete estava tão empolgada em encontrar Carlão que caminhou até a casinha de Marina.

Meio da mata, entre aroeiras e angicos — jacutinga no céu, uma família de quatís correndo no chão — a uns 50 passos largos do bugio berrante, Tenente Galinha esfolava um homem lentamente. Eu não gostava desse procedimento. Por mim era bala e pronto. Nem bicho eu gostava de fazer sofrer.

— Bandido gente tem que surrar bem, cambada.

— Sou bandido não, moço.

— Alguém, aqui é moço, Serelepe?

O jovem golfava sangue. Porrada cantava. A Captura procurava ladrão de cavalo e cigano. Éramos policiais da Força Pública convocados para missões especiais no interior do estado. Trombamos o rapaz; pele escura, roupa velha. Se engruvinhava atrás daquele sítio, casinha barreada de pau a pique. “Sou bandido, não”. Se não era bandido, que porra estava fazendo atrás de casa de família com aquela calcinha na mão? “Tarado também vai pra vala”.

Naquela tarde Marina não encontrou o mano em casa. Claudete ficou proseando um pouco e depois se mandou pra cozinhar pros parentes. A mãe de Marina se preocupou com o filho mais velho. Moleque andava estranho, muitas espinhas na cara, voz grossa, sempre agitado. Precisava pedir pra Dona Hermínia rezar um terço pra ele, mas o filho nunca voltou. Encontraram o cadáver desfigurado e apodrecido num charco.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia, caipira punk, nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Editora Reformatório, 2018) esteve finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti 2017. Tem sido convidado para debater literatura e narrativas multimídia em eventos como a Primavera Literária Brasileira, em Paris, a Feira do Livro de Frankfurt e a Campus Party. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê.