a galinha, de Carolina Quintella

Em quaisquer dos vinte cantos de baixo, um homem pega o rumo de algum Norte. Ia entrando, assim, num voo de muito acento e pouca escolha. Dirigido à classe própria, avistou, respirativo, de meia risada, onde é que era o lugar dele e de quem igual.

Ali quietou, bem onde deveria: lugar da diáspora dos de baixo, dizia sem estar escrito. Sentou certo e apercebido, guardada a alegria do pairar, primeiríssima vez, rente a alvobojudos sonhos. Cintilante, ainda anônimo de si e da alheia concepção, observava o céu e o chão, encaminhado ao destino, de encontro a uma noção, sem saber, porém, então.

Enquanto suspenso o veículo, suspensa era a mente no abstratoído; esmaecidas as ideias, sentia o momento, algo estomacal, borbulhante no feliz embrulhamento: era sonho realizando. Exceto por, ainda desconhecido o porquê, algum calvo sentimento, restado miúdo nos mindinhos dos pés, uma metade nao rida, um traço de angústia.

Mas via, com os olhos meio-vividos, que já aproximava do lugar aquele, o que sonhou, continente outro, espaço outro. E vinha o sonho; ímpeto de pertencimento e empolgação. Até no chegar na famosa rua de lá, que tanto que tanto diziam, aí é que foi se aprumando do sentir e do empolgar.

Fagocitado era o lancil pela gente na noturna avenida de cruzantes etnias insolúveis. Com-fusos sentidos, tato-fusão de esbarrão, ofato-pluri, barulhão e uma palheta de luzes em quinas: feixes amarelos, violáceo, azuis-oscilantes… verdes. “Informação”! Era muito, tudo era muito. E foi uma luzinha verde com ar importunante, que ia que ia, que resolveu seguir.

Ia à direita, à esquerda, virava outra quadra, entressaía num subway, desviava de nauseabundos buracos e… right in the bull’s eyes! A luz se deteve por segundos sobre o módico quadrado, passarinho de novas cinzentas, sem dar tempo para assimilar escritos. Ele seguiu de corpo e vista: continuava. A luzinha persistia, passava infernizante em toda parte, alto baixo, sobe e desce. E, no que seguia, a espiral da luz foi dar numa ruela deserta, daquelas que falecem às dezoito, com boutiques e seus toldos crus.

Já lá, estava só, ele e a luz, tão paciente, suavezinha, pousada em escura vitrina — ninguém diria a inquietude que tinha segundo e meio atrás. A loja esta, apagada em interior, era escuridão; só se viam vitro-reflexos do de fora para dentro, além de pouco metro em que se viu coisa mais curiosa. Ali, rente ao vidro, um serzinho engraçado: uma galinha.

Parada, ela o mirava em posição inversa. Dois lados de uma moeda? Ele analisava a galinha, a rua deserta e reparava no seu repentino isolamento. Reparava em si. Com olhar suspenso, o pensar vagante, esculpia amplo: era mesmo repentino o isolamento?

Até que a galinha rouba outra vez sua atenção ao inquietar-se, pondo-se a saçaricar de um jeito engraçado. Galinha esperta, ágil galinha! — ele reparava. Voltada a atenção para ela, ele acha graça e se ri. A galinha ri com ele. Ele a imita e ela o repete. Galinha esperta, ágil galinha! Um gingado familiar.

Pé para frente, outro pra trás, gozado o movimento. Ele acha curioso, mas gosta. Ela se mexe e ele gosta. A galinha se ri junto, ginga, sacoleja, balança, cisca, saçarica. Ele quase a entende e, rindo, para os ciscantes pés, engraçadinhos, aponta. E ela aponta de volta para os dele. Foi assim que…

Em qualquer Norte, um homem pega o rumo de algum dos vinte cantos de baixo. A metade não rida; a angústia do mindinho: vinha a realidade. Quando mirados os próprios pés, apontados pela galinha, com espanto percebeu — a si, à galinha, a tudo — tinha pés ciscantes, pés maiores do que muitos, calejados do ciscar isolado e cotidiano. Ele, galinha: uma galinha latino-americana. Saçaricante. Galinha esperta, ágil galinha! O mesmo lado da moeda e nenhum pertencimento.

Carolina Quintella (Rio de Janeiro, 1996) licenciou-se em Letras Português-Espanhol pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Contista, professora e hispanista, publica em diversas revistas literárias nacionais e com frequência participa de certames internacionais. É coautora do livro sussurro:cantos de chuva (Editora Urutau, 2019) e uma das autoras do livro Filhes de Sycorax (Ganesha Cartonera e Desalinho Editorial, 2019).

círculo de influência, de Franklin Carvalho

No último sábado fui a Santa Lúcia e encontrei-me com Nadir, a feiticeira, num bar de praia da vila. Bebemos muito. Nadir, apesar de já ter passado dos cinquenta anos e ser muito magra, ou talvez por isso, soltou-se quase desmantelada dançando o reggae que tocavam no boteco, e me arrastou para suar naquele frêmito, nós dois com as cabeças quase enfiadas nas caixas de som. Havia quadros de Bob Marley e do rei Selassie pendurados na parede e uma turma de rapazes nos cercou, mexendo seus corpos rentes aos nossos. Abraçávamo-nos como se estivéssemos em nossas próprias casas e no ambiente cheio ninguém estranhava aquele excesso.

Os rapazotes aproximavam-se cada vez mais e o suor parecia uma cola, um mel que nos juntava. De vez em quando pedíamos, ou eles pediam, uma bebida de cravo, limão e outras ervas e os copos passavam por todos. Nadir, que quase nunca esquece de fechar e acender seus cigarros, bastava-se com o ar que invadia o ambiente, impregnado de charutos e outros fumos. Lambuzávamo-nos naquilo, naqueles cabelos embaraçados e bijuterias de metal e óleos perfumados dos nossos parceiros, e eu me perguntava o que fazia naquele fim de mundo, com minha amiga que pretendia me ensinar alguma bruxaria sem ter nada que eu já não soubesse. Mas eu estava gostando e, se ninguém nos tivesse salvado, ficaríamos ali a noite toda.

Quem nos resgatou, afinal, foram três jovens afeminados e uma loira metida em traje masculinos, madura ao ponto de parecer a mãe dos outros. Eles tentavam nos olhar discretamente, encostados na parede próxima à saída, porém riam do nosso desafogo. Intuitivamente, como se tivesse sido convocada, Nadir foi dançando até eles de olhos fechados, voltou com um copo de cerveja que lhe deram, deixou que eu bebesse um pouco e me puxou para fora da roda de dança. Caminhamos até o grupo, eu ainda tonto, e os quatro se apresentaram sorrindo, também eufóricos. Minha amiga sussurrou ao meu ouvido:

— Tenha calma, vamos mudar de programa.

Os rapazes que dançavam agarrados conosco pareciam nem ter notado a nossa saída, e continuaram se balançando, às vezes repetindo bordões que simulavam os refrões em inglês do reggae. Havia algo cada vez mais furioso na forma como eles se deixavam cair uns por cima dos outros, e só notamos aquela violência porque tínhamos saído do miolo da bagunça. Já na turma da loira, Ari, um dos novos amigos, puxou conversa. Ele havia saído de Santa Lúcia havia alguns anos para estudar na capital. Voltara para visitar os parentes.

— Você é o Roberto Desnos, não? Ontem eu vi umas fotos suas n’O Momento. Coisa de dez anos atrás. O jornal estava no guarda-roupas de minha família.

— Uma luz guardada numa gaveta? Por isso tenho me sentido noturno.

Falamos mais sobre jornais antigos e a imprensa do país. Dali a pouco Alexandre e Dão, que tinham vindo da capital acompanhando Ari, irromperam com comentários sarcásticos a respeito de tudo que dizíamos. Estouramos em gargalhadas e a noite toda foi assim, aquela vontade desatada de rirmos e os motivos aparecendo. Brincamos um tempo, paquerando quem passava por perto, destilando hálitos fortíssimos, e Nadir quase não parava de conversar com Cléria, a loira. As duas, aliás, ordenavam a bebida que nos era servida, e eu já não sabia quem pagaria as doses de aguardente que circulavam em poucos copos comuns para toda a turma.

Cléria, que tinha o rosto arredondado de lua, carregava uma bolsa de onde tirava cigarros para acompanhar cada trago de bebida. Nadir a seguia enrolando o tabaco que tirava de um saco plástico escondido no sutiã, e que jurava ser mais saudável do que o industrializado de papel com filtro. As duas falavam mexendo todo o corpo, como se marcassem uma a movimentação da outra e tivessem treinado alguma coreografia desde crianças. Ari, negro e magro, tinha voz suave e era muito doce. Já Alexandre fingia ser mais compenetrado, era forte, mas não muito alto. Ressaía-lhe a pele morena e o peito estufado desenhado por uma camiseta justa. Dão, que na verdade se chamava Damião, ficava pedindo a toda hora que alguém lhe aplicasse um soul na veia. Ele parecia um espírito, com aparência mutável, escondida por trás de grandes cabelos e roupas folgadas, mas afinal magro e musculoso.

— Preciso de soul — gritava ele, e mexia os seus trinta e poucos anos dançando o reggae como se fosse a música da Motown. A pele negra do rosto já tinha rugas, e elas se destacavam quando Dão gargalhava. Ele havia descoberto a sua função no meio daquela bagunça, queria mesmo dançar, e acabou nos arrastando para seu carro, um Opala de vermelho sem brilho, a nave que parecia de sonho.

Já eram quase três horas da madrugada mas nós insistimos em correr outros bares de Santa Lúcia e abusar da paciência dos proprietários sonolentos. Mesmo os que nos atendiam amigavelmente fechavam as portas assim que nos percebiam gente comum, sem propensões para grandes gastos. Arrumamos bebida e seguimos, ouvindo baladas no mais alto volume, até uma praia mais distante, totalmente deserta. Começava a clarear quando o carro parou em frente a uma casa isolada e ali, pelo ambiente parecer tão estranho, estávamos quase sóbrios novamente.

Descemos e entramos. O imóvel de alvenaria caiada era rústico, e no seu interior a mobília já muito usada, como se estivesse em sua terceira ou quarta morada. A casa tinha o telhado também antigo e os cômodos minúsculos, com dois ou três quartos. No entanto, estava limpa, dando a impressão de que alguém, um caseiro, tivesse preparado tudo para receber visitas.

— Até que enfim! — Ari gritou. — Tem uma semana que a gente fala em vir para Praia da Guia e eu não conseguia tirar esse povo de Santa Lúcia. Esse Dão quase casa com a criadagem. Você acredita que inventou até lavar o tanque da casa de minha mãe só para namorar lá dentro?

— E a mãe de Ari ficou encantada — Damião respondeu. — “Nossa, não precisa, como vocês são gentis”. Agora, a família vai beber água batizada.

Até Nadir e Cléria, que estavam sonolentas, riram daquele disparate. Os rapazes então me contaram que voltariam para a capital na terça-feira.

— É proibido dormir! Todos para a praia — Damião convocou.

Enquanto Ari procurava bermudas para nos emprestar, Nadir e Cléria se trancaram no quarto e não saíram mais de lá. Eu e os três rapazes caminhamos até a areia branca e nos jogamos nas cadeiras de madeira de uma barraca que acabava de abrir. O dono, um velho gordo que parecia morar naquela construção improvisada, nos atendeu como se fôssemos os únicos clientes de quinhentos anos para o passado e para o futuro.

Reiniciamos a bebedeira e comemos todo tipo de caldos, moluscos, cocos e pequenos peixes que pudessem nos ressuscitar. Damião e Alexandre foram caminhar na praia que já recebia alguns pescadores e nativos, e Ari começou a falar do jogo do tabuleiro ouija.

A descrição era de algo que eu conhecia como a brincadeira do copo. Segundo haviam me contado, as pessoas põem as letras do alfabeto em círculo numa mesa, invocam uma entidade, colocam o indicador sobre um copo no centro, fazem perguntas e o copo começa a deslizar de letra a letra para formar respostas. Na ouija, Ari me disse, não se usa o copo, mas um ponteiro de madeira.

— Lá na capital, a gente tinha mania de jogar. Parece que na cidade grande ficamos mais entediados do que aqui, e precisamos inventar o que fazer. Nosso grupo se reunia na casa da mãe do Alexandre e ficava quase a noite toda perguntando aos espíritos. Havia sempre duas entidades que respondiam. Uma era o Gaspar, que tinha sido um velho que bebia muito, e não era boa alma. O outro era o Carlo, um seminarista italiano que tinha vindo para o país havia uns vinte anos, andava de motocicleta e, uma noite, sofreu um acidente de moto e morreu. O Carlo gostava muito de mim, e o Gaspar odiava o Carlo. O grupo todo percebia uma tensão entre os dois. Houve uma vez em que um jarro voou no meio do jogo e veio na minha direção, só não me acertou porque me atirei no chão a tempo. Até a mãe do Alexandre, que estava do lado de fora da casa, ouviu o barulho.

— E aí?

— Aí, a gente rezava, pedia paz, se concentrava e terminava o jogo. Mas nos dias seguintes continuava, nunca parou. Outra vez, a última vez em que eu estava e os dois apareceram, o Gaspar disse que num dia tal…. No dia trinta de maio, às oito horas da noite, eu iria ser atropelado e morrer. Todo mundo ficou muito assustado com aquilo e logo a gente parou, guardou o material e ficou sem saber o que dizer.

— E você? Ficou preocupado?

— Claro! Eu comecei a ter medo mesmo, mas não entendia, porque eu nunca havia andado de moto, nem nenhum amigo meu tinha moto. Só sei que o tempo foi passando, passando, até que no dia trinta de maio, exatamente, uma colega me chamou para ir ao cinema. Interessante que justamente naquele dia eu tinha esquecido de tudo.

— Você foi com ela?

— Eu não queria ver o filme. Não sei porque, eu fiquei sem vontade. Mas eu tinha marcado com ela e resolvi que ia ao cinema só para me desculpar. Ia chegar umas sete horas, me explicar e ir embora. Sei que eu fui me atrasando, me atrasando, me atrasando e apareci na porta do cinema quase às oito. Então veio tudo na minha cabeça. Eu fiquei paralisado e, por incrível que pareça, minha amiga também tinha se atrasado e me encontrou ali, em estado de choque. Era a Cléria, essa que veio com a gente para Santa Lúcia. A Cléria me chamou para ir para a casa de Alexandre e quando a gente ia atravessando a rua, lá no começo da rua vinha uma moto a toda velocidade, eu juro. Juro que ela passou rente à minha frente, eu fiquei gelado.

— A Cléria estava contigo?

— Sim, a Cléria. A gente saiu correndo e quando chegou à casa do Alexandre, o pessoal todo estava jogando. Você acredita que eles se lembraram do aviso do Gaspar?

— E o que eles estavam lendo na Ouija?

— Nada. Eles disseram que estavam orando por mim, chamando o Carlo e o Gaspar, mas nada acontecia. Nessa hora eu me sentei, e o ponteiro começou a marcar as letras. Elas não formavam palavra nenhuma, nenhuma mesmo, mas víamos a sombra de um nome sobre o tabuleiro.

— Que nome?

— O nome de Carlo. Até hoje eu acho que aquela moto era dele. Era ele quem estava por perto para ninguém encostar em mim. Daí a mãe do Alexandre, que simpatizava muito comigo, chamou a gente para orar e nunca mais a gente jogou.

— Mas você tem vontade, não?

De repente, Nadir chegou com Cléria, brincando, e a minha conversa com Ari parecia não fazer mais sentido naquele sol matinal. As mulheres se sentaram e logo Damião e Alexandre apareceram rindo e gritando, falando das brincadeiras com os nativos, carregando uma enorme corda de caranguejos que tinham comprado por trocados, e que ninguém sabia como preparar. Ficamos naquela farra, tomamos banho de mar, comemos os caranguejos que o dono da barraca cozinhou e bebemos até o fim da tarde. Depois do pôr do sol, voltamos para a casa da praia, para um banho de água doce com água tirada de um poço.

A noite mostrou como poderia ser escura sem luz elétrica, marcada somente por dois lampiões que foram acesos com os isqueiros das fumantes. Nadir sumiu novamente com Cléria, e eu e Alexandre apagamos no sofá da sala. Ari e Dão começaram a cozinhar e tomaram o estoque de bebida da casa até dormirem, também na sala, num tapete de lã.

Ainda devia ser dez da noite e a casa já estava totalmente silenciosa quando eu acordei e fiquei olhando o mato no quintal, com um cigarro de Cléria na mão. Tinha uma sensação boa, de estar com as pessoas certas e de ser amado por elas. Logo uma chuva de pingos grossos começou a atravessar o silêncio, e eu entrei e voltei a dormir, novamente partilhando o sofá com Alexandre.

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

a palavra, de Nic Cardeal

A gente tinha um nome pra essa coisa que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair. Dizia-se na aldeia que era uma palavra esquisita, mas que pronunciá-la de um certo modo até aliviava um bocadinho a dor. Então a gente aprendia, desde miudinho, a dizer. Depois a gente crescia, cada dia um pouquinho, e essa coisa ficava cada vez mais apertada contra as paredes do peito, não cabendo mais em si, nem em mim, nem em ti, e a gente ia perdendo, sem querer, a vontade de dizer… Até que a lembrança dessa coisa que apertava o peito desaparecia por inteiro do pensamento, e a gente ia vivendo como se nunca tivesse sentido, como se nunca tivesse pronunciado aquela palavra esquisita…

Às vezes até que a lembrança voltava, meio sorrateira, toda clandestina, fazendo a gente espreitar devagarinho por entre as frestas, pra espiar aquela coisa que nos deixava em completo desatino…

Às vezes essa coisa, que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair, acontecia de aparecer na hora em que a gente não tinha como escapar de sentir — bem na hora da viagem sem volta de alguém que resolvia partir lá pros confins dos céus onde criança nenhuma conseguia alcançar com a mão — o braço era curto, a mão pequena… só a vontade era comprida — e nem adiantava subir no banquinho — não havia jeito de tocar na ponta do céu e implorar pros anjos devolverem aquele alguém importante que tinha deixado todo mundo aqui embaixo “a ver navios” (ou melhor, “a ver aviões”, já que tinha ido pro céu…)

Outras vezes essa coisa comprimia o peito de um jeito tão estrangeiro, que era como se um paraíso inteiro houvesse de ser expulso de solavanco do mundo pra dar lugar a algum respiro profundo, pois se não fosse o respiro, nem a coisa suportaria comprimir o peito daquele jeito de doer os olhos até a lágrima cair… Nessas horas era porque viera morar por dentro, junto da coisa e do peito, aquele sentimento tão bobo e tão louco, que fazia toda criança já quase gentinha grande de verdade, pela primeira vez sentir vontade de gritar de dor porque era caso da mordida do amor — daquele jeitinho doido e doído feito uma flecha que acerta o coração e faz a gente passar ridículos de paixão…

Fora isso, poucas as vezes que essa coisa era de doer a fazer a gente lembrar da palavra esquisita de dizer… como numa despedida de avó, ou um pai indo embora solto no mundo sem hora de voltar, um filho crescido dizendo “tô indo”, ou um amigo querido deixando um abraço apertado como lembrança por toda uma vida sofrida…

Era bem assim — quando a palavra esquisita era dita, muito dita, repetida um bom par de vezes, até que a aldeia inteira dizia em coro a palavra esquisita, sentindo juntinha o mesmo aperto no peito a fazer doer os olhos e a lágrima cair… Era quando o milagre acontecia — pronunciar a palavra esquisita pela aldeia inteira virava uma espécie de mantra de cura da dor nos olhos e do aperto no peito — todos repartiam a dor de um — e a dor virava um pão fatiado em tantos pedaços quanto o número de pessoas da aldeia, como se cada um mastigasse um naco da dor de um, diluída em amor. A palavra esquisita vinha ao mundo pra virar amor — o amor daquele jeitinho bonito: ninguém soltava a mão de ninguém numa ciranda quase sem fim de diluir a dor até a própria dor virar “um ninguém”.

Porque a saudade precisava ser dita, ainda que na aldeia fosse uma palavra esquisita…

Nic Cardeal é catarinense, graduada em Direito pela UNISUL/SC, e exerceu atividade jurídica por 27 anos junto à Justiça Federal de SC e do PR. Desde 2016 dedica-se às letras e aos livros, junto à Mahatma Livraria de Expansão, em Curitiba/PR. Participou de diversas antologias de poesia, conto e crônica, entre elas as mais recentes: Brumas e brisas (org. Cristiana Seixas, Niterói/RJ: Ed. Cândido, 2017); Antologia de poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas, 2017); Mulherio das Letras — contos e crônicas — vol. 4 (org. Henriette Effenberger, Recife/PE: Mariposa Cartonera, 2017); Revista Plural — Wild Nights (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2017); Mulherio das Letras pela Paz — Contos & Poesias Alemanha/Brasil (org. Alexandra Magalhães Zeiner e Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); Conexões atlânticas I e Conexões atlânticas II (org. Adriana Mayrinck, Lisboa/PT: In-finita Lisboa, 2018); 2ª Coletânea poética Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); 2ª Coletânea de prosa Mulherio das Letras (org. Cleonice Alves Lopes-Flois, Toledo/PR: Indicto Ed., 2018); V Prêmio literário cidade poesia e III Láurea cidade poesia (org. ASES, Bragança Paulista/SP: ABR Ed., 2018); Um girassol nos teus cabelos — poemas para Marielle Franco (org. Mulherio das Letras, Belo Horizonte/MG: Quintal Ed., 2018); Marielle’s (org. Andri Galvão, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Sete luas (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Redemoinho — novembro/2018 (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Feminismos, artes e direitos das humanas (org. Aline Gostinski, Ezilda Melo e Gisela Maria Bester, Florianópolis/SC: Tirant Lo Blanch, 2018); e Elas e as letras (org. Aldirene Máximo e Jullie Veiga, São Paulo/SP: Versejar, 2018). É integrante do grupo Mulherio das Letras desde a sua criação, em 2016. Seus escritos estão compilados na página no Facebook ‘escrevo porque sou rascunho’ (@Niccardealpoesias), além de fazer ‘resenhas afetivas’ de livros de autores(as) amigos(as), na página no Facebook ‘minha lavra do teu livro’ (“porque quando eu leio um livro minha alma precisa dizê-lo… então escrevo o que sinto, porque no meu profundo é onde eu encontro o teu livro”). É autora de Sede de céu — poemas (Guaratinguetá/SP: Penalux, 2019).

o ex-pugilista, de Rodrigo Novaes de Almeida

Josué lutou em duas categorias quando era lutador profissional, meio-médio, na maior parte da carreira, e médio-ligeiro, no final, quando já aceitava todo tipo de luta. Não chegou à elite do boxe, embora fosse um lutador técnico e dono de um uppercut letal. Fora dos ringues há mais de dez anos — e sobrepeso que o colocaria entre os meio-pesados —, Josué se virava como podia, às vezes trabalhando como segurança de algum empresário ou político, outras como técnico de algum jovem promissor. Estava sem beber há quatro anos, muito graças ao Benjamin, dono da academia que ele frequentava desde os nove anos e seu ex-treinador, como de tantos outros nos últimos cinquenta anos. O velho Ben, era assim que os rapazes o chamavam, sempre considerou Josué um filho, e segurara a barra da depressão e do alcoolismo do ex-pugilista.

O treino da manhã costumava começar cedo, por volta das cinco. Era um pessoal que vinha do serviço na madrugada, vigias, bombeiros, policiais, garçons, ou que acordava ainda escuro para treinar antes de ir para o trabalho. Uma gente mais casca-grossa, comprometida com a arte, pensava Josué, diferente daqueles que treinavam por volta das sete, oito da noite. Ele preferia estar com o pessoal da madrugada, sua gente. Josué estava sentado em um banco de madeira em um canto do grande galpão que funcionava como academia do velho Ben. Via um pequeno grupo colocando a bandagem de proteção nas mãos e conversando.

— Bom dia, garoto — disse o velho Ben, que se aproximou sem que Josué percebesse. O velho chamava todo mundo de garoto.

—Bom dia, Ben — disse Josué.

— Não vai treinar hoje, garoto?

— Estou esperando o Thomas. Vamos fazer uma sessão de luvas.

— Thomas luta quando? Mês que vem?

— Daqui a vinte dias — respondeu Josué.

O velho não disse mais nada. Deu um tapa no ombro do Josué e foi em direção ao grupo, que já se aquecia fazendo exercícios de repetição em frente ao espelho.

— Vamos lá, seus preguiçosos — gritou Ben.

O treino começara.

Josué observava enquanto esperava Thomas e pensava em como era revigorante o sentimento de pertencer àquele lugar. Quase perdera tudo, pensou. Se não fosse o velho. Olhou com afeição para Ben. Obrigado, meu bom amigo, disse em voz baixa, para si mesmo.

Seus pensamentos se voltaram para o jovem. Thomas nunca se atrasa, admitiu Josué, pegando o telefone celular no bolso da calça. Ligou para o rapaz. Caixa postal.

— O que foi, garoto? — Perguntou Ben, que novamente se aproximou sem que Josué percebesse.

O velho parecia não tocar o chão. Devia ter um jogo de pernas espetacular em seu tempo de lutador, presumiu Josué.

— Thomas nunca se atrasa e seu telefone só cai na caixa postal — respondeu. Aconteceu alguma coisa. Vou atrás dele.

Josué saiu do galpão e entrou no carro. O que pode ter acontecido? Thomas não é de fazer besteira. Tem futuro. Que droga, rapaz! Onde você se meteu? Josué virou a chave da ignição. O motor pegou. Primeiro, o seu apartamento, decidiu. Deu a partida.

O ex-pugilista parou o carro em frente ao prédio que Thomas morava. Era uma construção baixa, de cinco andares, feita de tijolos de barro e construída há mais de um século. Não tinha elevador. Subiu a escada até o terceiro andar e percebeu a porta do apartamento de Thomas entreaberta e com sinais de que fora forçada pelo lado de fora por um pé-de-cabra. Ele abriu a porta tomando cuidado para não fazer barulho. Entrou no apartamento.

À esquerda ficava a cozinha, que estava vazia. Seguiu em frente e, ao chegar na sala, encontrou o rapaz sentado numa cadeira de ferro, amarrado, com o rosto ensanguentado coberto por hematomas. Tinha um pano de chão enfiado na boca. Josué correu em direção à cadeira quando foi surpreendido por dois homens. Esquivou-se do primeiro, que tentara atingi-lo com um soco, e acertou um cruzado de esquerda na orelha do segundo, que vinha logo atrás e caiu com o golpe. Virou-se e teve tempo de encontrar o primeiro homem ainda desequilibrado; derrubou-o com um direto no maxilar.

Então, tudo escureceu. Josué não percebeu um terceiro indivíduo se aproximar dele; a coronhada em sua nuca o apagou. Acordou preso a uma cadeira de ferro ao lado da cadeira do amigo.

— Josué, faz tempo, hein! Pensei que estivesse morto de tanto beber, mas até que está com uma cara boa. Quem diria? — Disse o homem que dera a coronhada.

— O que faz aqui, Rick? O que você quer?

— Ora, ora! O velho pugilista virou babá? Estou vendo que ainda se lembra de alguma coisa dos velhos tempos, derrubou esses dois idiotas com facilidade. Está treinando o rapaz?

— Sim, por quê?

— Porque você vai precisar colocar juízo na cabeça desse moleque. A gente tem uma mala de dinheiro pra ele, mas ele não quer cair no segundo round. Aí fica difícil, sabe?

— Ele não vai entrar nessa, Rick. Cai fora!

— Você conhece o jogo, Josué. Não depende de mim. A gente só obedece.

— Eu sei muito bem, mas o Thomas vai ser campeão um dia, não vai participar dessa patifaria.

— Patifaria? O que foi, Josué? Virou santo? Você já recebeu muita grana suja e agora vai dar uma de honesto pra cima de mim? Vá se foder! Ou o moleque entra no esquema…

— Ou o quê? Vai apagar a gente?

— A ordem é apagar o moleque se não aceitar o acordo.

— O rapaz é fora de série, Rick. Deixem ele em paz.

— Não funciona assim, Josué.

— Então liga pra eles, diz que o garoto vai valer mais quando for campeão. A gente faz um trato. Eu me responsabilizo, vai.

Ricardo ficou em silêncio. Pensava no que Josué tinha acabado de dizer. Os dois capangas estavam agora perto da porta da cozinha, em pé. Haviam usado o banheiro para limpar o rosto. Um deles tinha um corte na boca e pressionava-o com um pedaço de papel higiênico para estancar o sangue. Thomas escutara toda a conversa sem poder se manifestar. Permanecia amordaçado e seu rosto estava bastante inchado, não era possível ver seus olhos.

— Tudo bem, vou ligar, Josué. Mas saiba que faço por você, sempre gostei do seu jeito de lutar. Você tinha estilo, parecia aqueles antigos lutadores.

Ricardo se afastou, pegou seu telefone celular e fez a ligação. Menos de dois minutos, voltou.

— Não vai rolar, Josué. Sinto muito. — Antes que Josué pudesse falar mais alguma coisa, Ricardo sacou a pistola que estava em um coldre de ombro sob o seu casaco e acertou dois tiros no peito de Josué, que tombou levando consigo a cadeira. Thomas começou a se revirar e tentou gritar. Se não fosse o rosto desfigurado, seus olhos estariam arregalados àquela hora.

— Então, moleque, disse Ricardo, vai ficar com a mala ou vai fazer companhia pra esse traste no inferno? O que foi? Não entendi. — Ricardo tirou o pano de chão da boca de Thomas.

— Eu aceito. Fico com a mala.

— Ótimo. Bom rapaz. Viu como foi fácil?

Ricardo guardou a pistola no coldre e deu uma última olhada no corpo do ex-pugilista caído no chão. Uma poça de sangue havia se formado. Uma pena, eu gostava dele, era um cara durão, lamentou-se. Em seguida, caminhou para a porta e, antes de sair, ordenou aos capangas que arrumassem a sujeira e se livrassem do corpo. A luta seria adiada algumas semanas.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside em São Paulo. Em novembro de 2016 criou a Revista Gueto, portal de literatura que publica, divulga e lança escritores e poetas em língua portuguesa. É autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

obscura Veneza, de Myriam Campello

Dizem que de morte os vivos não entendem única experiência não vivida mas para mim foi morte. A Irlanda seria só delicias, tinha apostado minhas fichas todas naquele extasiante pano verde mas ela deu um chute na quimera, não posso disse, vou a Veneza a trabalho, uma semana, professora é assim. Quem sabe te acompanho? pulei inocente na esperança. Nâo, cortou na hora, já combinei com Beth. Eu havia perdido todos os sentidos para crer nessa patranha. Alguém vai à Veneza com a irmã? Um em dez milhões, mas se eu ouvisse pela boca do amor que o vermelho era branco de fato o vermelho é branco-neve, só não vê quem não quer, ah e eu como queria. Evitava amor há muitos anos, é tudo um déjà-vu acaba mal eu dizia, pra que se envolver e no fim nem cumprimentar na rua, eu dizia. Não e não.

Contudo acreditei. Desatinada da silva despida de faro e de ferrão dava a volta ao mundo em termos de fé, nem aos vinte anos fui tão crédula. Bem, motivos não faltavam: alguém com quem sonhara sem saber me veio pronta, tinha tudo para meu espanto e mais uns bônus insuspeitados, ah Veneza era engenhosa. Nova no tipo de vida que era a minha em pouco tempo domou seus horizontes, dando aulas de um conhecimento que eu levara anos destilando. Tudo que fazia cintilava. Sem duvida eu conseguia ler com certa sorte o coração do outro, clima ventos furacões gosta não gosta pimba coisas fáceis. Mas Veneza chegou para moer minha fé e derrubar as cercas. Num sábado que nos tomou oito horas no Messenger comentei onde vamos parar, não vamos respondeu, e não paramos. Cobríamos todas as frentes, incansáveis. Não podia durar tanto alvoroço êxtase tem hora!

A internet me deu Veneza como a um tuaregue uma edelweiss, fiat lux, milagre do site literário. De outro modo continuaria perdida para mim soterrada na cidade gélida. A mente luxuosa me chegou primeiro autodespindo camada após camada até expor seu recôndito ouro. O resto vendeu minha alma contentíssima ao diabo. Lenha labareda allure os insolentes passos de Veneza ressoavam em cada centímetro do chão. Eu? Só queria saber de devorá-la. No fundo de sua alma contudo restava um lado B, poço onde por mais que eu olhasse nada via. Tinha medo dessa fresta em silencio uma babel furiosa indevassável. O que buscava em mim, novas experiências? Um ângulo da vida para entender melhor os alunos diversos? Quisera eu que fosse assim tão fácil. Mesmo seus subterfúgios vinham molhados de uma zona de paixão por mim me confundindo com pistas erradas. Seu mundo era só contradanças, formiga que caminha e retrocede pelo mesmo risco aleatório matando do coração no caso eu. Vinha ficava cinco dias e sumia à distância, sua terra uma barricada contra mim. Faute de mieux a meteorologia me ajudava, saber o clima da cidade dela me tornava parte do que a abraçava no momento (o que fosse preciso pra tocá-la.) Eu ia aos trambolhões por um único caminho ela. Que avançava em todas as direções como cavalo bravo. Veneza não perguntava, concluía, uma horda invisível não lhe dando trégua. Um grande mal-entendido pairava sobre tudo. Na sombra, a engrenagem má consumia nossa cota.

Um dia ela partiu sem que eu nada herdasse alem da dor, ponta de onda rolando até agora. O silêncio faz duas coisas muito bem: zumbe invisível e de seu bojo dispara o que nos mata. Fique um pouco mais comigo Veneza adie minha morte, um ano seis meses aceito qualquer coisa transformo um dia em festa estico o tempo, te cultuo como deusa esculpida na rocha arranco aos cachações a música da língua para te compor epitalâmios, em mim não há outra saga só você. Existe algo lá fora melhor que o nosso beijo?

O tempo é o único sóbrio nessa historia toda. Lúcido assesta seu farol contrário para bem para longe do instante em que chafurdamos como porcos sem rumo, claridade zero. E aos poucos desdobra seu tapete de motivos vários. Quando me perguntam de Veneza eu digo me amou como antes ninguém nunca, não sei talvez sequer nem sei se lembra. Reclama do silêncio mas cortou a trama fazendo de minha vida uma mixórdia. O que fui para ela só Deus sabe – com alguma reserva. Não quero o seu anel não quero um paradigma e sim o teu calor as frases loucas o riso de divindade em férias merecidas.

Não sei se essas palavras chegam até você. Confio-as à pulsação do sangue, ao que vibra calado em ultrassom, ao olhar perdido, à lua repentina. E aos céus estes sim sábios que se roçam ao vento entre as cidades dane-se a distância. I carry your heart with me ainda não tem jeito. E tudo que eu escrever de amor sempre será seu.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema no filme homônimo dirigido por Malu de Martino, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

maria eugênia, conto inédito de Matheus Arcaro

Com dificuldade, vovó senta-se na poltrona ao lado da cama. Parece desconcertada. Não era só a notícia sobre a minha gravidez, mas a confirmação de que seria uma menina. Fazia três meses que não a via, senti vontade de ouvi-la. Perguntei-lhe o que primeiro me veio à língua.

* * *

Da minha infância, não me lembro de muitas coisas. É como se minha cabeça reproduzisse um clipe televisivo. Melhor: episódios desconexos de uma telenovela. O laço do avental balançando, isso eu me lembro. Mamãe de costas no fogão à lenha, vestido xadrez desbotado e o laço a dançar com o vento que entrava pela porta. O quintal, chão de costelas à mostra, era imenso, com a cana-de-açúcar a cumprir papel de cerca. Meu quarto, cama de palha e uns brinquedos de lata soldados pela inspiração do meu pai. Lembro da ausência do meu pai. A tosse que não mais tomava a casa, os vãos deixados quando ele saiu com aquelas malas emprestadas. Talvez isso tudo não tenha acontecido assim. É que quando a memória não dá conta, puxa a imaginação pelo braço, pedindo socorro.

Ah, mas Maria Eugênia sempre surge nítida à minha mente, muito inteira, mesmo enquanto estou dormindo. Hoje, com 82 anos, me soa pedante, mas naquela época, eu achava chique nome composto, coisa de gente rica.

Quem me deu Maria Eugênia foi tio Osvaldo, mas isso só fui saber tempos depois. Porque naquele ano, o presente foi de Papai Noel. O tio era apenas o emissário, ou melhor, o carteiro do velho barbudo, já que as renas não conseguiam andar em caminhos empoeirados. Renas com rinite. O irmão da minha mãe vinha todo ano na antevéspera de natal e ficava até o réveillon. Na manhã de 25 de dezembro, me entregou uma caixa comprida. Ermelinda, o Papai Noel pediu pra dar isso a você. Mas tem uma condição. Você não pode abrir a caixa, senão ele não dá presente ano que vem.

Eu não soube mastigar as palavras do titio, pedaços grandes entupiram minha garganta. Sacudi a cabeça para cima e para baixo. Rasguei o embrulho, sem ouvir o pedido de mamãe. O papel, a gente usa de novo, filha! Antes mesmo que eu terminasse, o êxtase brotou no meu peito, irrigou-se corpo adentro e saiu pela boca num grito sussurrado. Eu estava frente a frente com a utopia. A maior utopia que uma menina de oito anos podia suportar. A boneca de porcelana tinha mais da metade do meu tamanho, franja cor de mel, cílios compridos, vestidinho rodado azul claro. A beleza metamorfoseada em brinquedo, vista através do celofane. Aqueles olhos verdes olharam para os meus, éramos íntimas. Pedi ao meu tio que agradecesse ao Papai Noel, pedi licença à mamãe e corri para o quarto. Abracei a boneca com cuidado, não podia amassar sua armadura de papelão. Fiquei com a caixa colada ao peito até sentir o coração de Maria Eugênia. Eu merecia um presente assim?

Dormi abraçada à caixa. Não, não. Dormi ao lado da caixa, medo de descumprir a promessa feita mentalmente ao Papai Noel. Maria Eugênia no meu travesseiro e, sobre ela, a manta rosa que também me esquentava. Espremidinha, olhei para a boca rosada até que meus olhos se fecharam. Setenta e cinco anos depois, me lembro do sonho que tive. Eu e a boneca passeávamos de mãos dadas pela escola, assobiando as músicas que aprendêramos na aula de canto. Sonho demasiadamente colorido? Só quem nunca lidou com a ausência de presentes em natais e aniversários, julgá-lo-ia com tamanha leviandade. E mais: não foram poucas as vezes que sonhos semelhantes a este me tomaram as noites. Em outras, transferi para a boneca minhas insônias: ao lado do candeeiro embalava a caixa com as canções que há tempos mamãe não me cantava.

Sim, aos poucos, mamãe parou de cantar. É que a voz da necessidade ficou mais alta que a dela após a partida do meu pai. Entregou-se ao tanque e ao fogão. Quando viu tomarem corpo minhas conversas com a boneca, quando percebeu que Maria Eugênia tapava um buraco cavado pelos seus afazeres, o olhar dela demonstrou-se anestesiado. Obviamente só consigo observar agora estes olhos ressacados. Naqueles meses, eu só via Maria Eugênia.

— Por que não, mamãe?

— Ermelinda, escola não é lugar de brinquedo. Ainda mais uma boneca deste tamanho.

Eu voltava num fôlego da escola para casa. Jogava a mochila na cama, almoçava e passava a tarde com a caixa para lá e para cá. Brincávamos de comidinha, de esconde-esconde, de mamãe-da-rua. De quando em vez, eu era a professora, depois ela era dona da loja de roupas e me apresentava as últimas modas para bonecas. À noite, eu a acariciava, minha mão e seu rosto intermediados pelo plástico.

Num final de tarde, mamãe foi entregar a roupa que tinha lavado nos últimos dois dias. Espiei pela janela até ela virar a esquina, voltei na ponta dos pés. Se eu tirar você da caixa um pouquinho, quem vai saber? É só um beijo. Mas o cérebro não foi capaz de delegar o comando às mãos ou, se o fez, elas não obedeceram. Talvez foram impedidas pelo coração que não arremessou sangue suficiente. Fato é que logo inventei que Maria Eugênia era um bebê doente e não podia sair daquela incubadora, risco de morte.

A rotina das tardes tinha se solidificado, a boneca e eu já esperávamos uma à outra. Mas algo desmoronou naquele 5 de agosto de 1944. Como nos últimos meses, voei para casa. Boa tarde, filha. Você não imagina quem saiu daqui agorinha! Perguntei “quem” por compaixão. É que os olhos da mamãe pareciam um pouco mais vivos, não seria eu a desbotá-los. A Solange, lembra dela? Menti que sim. E trouxe a filhinha dela, 3 anos, uma graça! Subiu-me um frio pela barriga, faltou-me ar. Corri para o quarto, pernas estrangeiras do corpo e, o que era especulação, fez-se real: Maria Eugênia estava jogada no chão, despenteada e sem roupa. A caixa sobre minha cama com o celofane rasgado. Foi como se algo implodisse em mim, como se os andaimes do meu corpo se derretessem. Pela janela, vi o Papai Noel com lágrimas a sacudir-me a mão em despedida.

Acordei com um pano úmido sobre a testa. Mamãe sorriu, o único sorriso em três semanas. Dois dias depois, pediu que buscassem o médico. Minha filha não melhora. Acho que foi a comida da escola, doutor! Salsicha vencida. Hum, pouco provável, senhora. O que posso receitar é remédio pra febre. Recomendo repouso e hidratação. Volto em três dias. Nem recomendação nem remédio resgataram o rosto da saúde. No dia seguinte, mamãe chamou dona Valquíria, benzedeira famosa na região, que esfregou-me ervas nos braços e pernas, cochichou olhando para os céus e, com as mãos esticadas sobre mim, disse:

— Essa menina tem pássaro preto no peito que se debate e machuca ela por dentro. Precisa abrir a gaiola.

— E como se faz isso?

— Ela vai saber.

Sim, eu soube. Aos poucos, fui encontrando as chaves, eram muitos cadeados trancando a gaiola. O maior deles: se Papai Noel não viesse no natal seguinte, tudo bem. Maria Eugênia e eu agora éramos inteiras: ela sem caixa e sem plástico; eu sem medo. Menos de um mês depois do desmaio, pedi que mamãe convidasse Solange para um café e que trouxesse sua filhinha. Brincamos, nós três, a tarde inteira.

* * *

Vovó se levanta, apoia-se no andador e chega ao guarda-roupa. Abre a porta e me entrega um embrulho grande. É pra sua filha! Tirei a coberta, os olhos verdes me olharam. Os meus, encharcados, não puderam corresponder no mesmo nível de profundidade.

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Editora Patuá, 2016) e dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014) e Amortalha (Editora Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

a diplomacia em banho-maria, de Dirce Waltrick do Amarante

As relações entre a Índia e o Brasil iam de mal a pior e tudo começou quando passamos a comprar vacas indianas, as quais, segundo o contrato, deveriam ser tratadas com a deferência que lhes cabe por sua condição sagrada, mas acabavam mesmo era virando churrasco (sim, comemos churrasco de gato, gambá e vaca), recheio de pastel etc. por aqui.

E os indianos descobriram isso num vídeo do YouTube, que viralizou, no qual um diplomata brasileiro ensinava como fazer pastel com recheio de carne de vaca indiana. Aliás, o diplomata era conhecido por seus talentos culinários e fazia parte de renomado clube de gourmets da cidade de Vagens, no interior de Santa Catarina.

Foi um escândalo diplomático que o fez perder seu posto duramente conquistado no Itamaraty. Pensando bem, não foi duramente conquistado, porque não era diplomata de carreira, havia sido indicado para o cargo pelo presidente do Clube dos Gourmets de Vagens, um fazendeiro que fabricava um dos melhores iogurtes do mundo, melhor até do que os Iogurtes de Popesco Rosenfeld, os preferidos do senhor e da senhora Smith e do dramaturgo romeno, naturalizado francês, Eugène Ionesco.

Ocorre que o diplomata conhecia alguns segredos de Estado e, de forma nada ética, ameaçou lançá-los aos quatro ventos: um deles era o de que os frangos exportados para a Índia, com os quais os indianos faziam um delicioso chicken tikka masala, eram alimentados com hormônios que, em seres humanos, ou melhor, nos homens, provocavam a diminuição dos testículos e faziam surgir brotos mamários. Não sem razão, quando um diplomata indiano chegou ao Brasil, muitos acharam se tratar de uma mulher.

Esse imbróglio internacional só acabou quando deram ao diplomata o cargo de embaixador no Consulado do Samba, uma escola de samba da capital catarinense. Desde então ele é visto nos barracões da escola bordando e costurando lantejoulas em fantasias de carnaval.

Dirce Waltrick do Amarante é professora, ensaísta e tradutora. O conto integrará o livro Antropologia urbana, ainda sem data de lançamento.