o buraco, de Luciana Pinsky

Passa por lá todos os dias. E todos os dias vê o bueiro. Inicialmente a tampa não encaixava direito. Sempre que algum carro cruzava a esquina o som metálico da dança da tampa a incomodava. Com o tempo, os carros evitavam o lugar, tornou-se um transtorno. Quando chovia, a tampa pulava e rios invadiam a pista, como cupim no fim da tarde quente de verão.

Depois da chuva só ficava a desgraceira. A sujeira. Atordoados, vizinhos colocavam cones para indicar que o lugar já não era rua, era breu, era o fim. Ainda assim, alguns carros metiam a roda; e o prejuízo em tempo, dinheiro e saúde mental era certo. Por sorte a tampa não foi roubada, destino de várias outras tampas de bueiro da cidade.

Um belo dia de sol o buraco estava fechado. A tampa não estava nem um milímetro para cá ou para lá. Milagre? No dia anterior, ela vira 13 homens uniformizados, 10 pás, um caminhão e uma máquina inédita. Tudo isso para domar o buraco que voltara. O buraco que sempre voltava. Alice, desconfiada, pediu para falar com o chefe.

— Vocês estão fechando o buraco?

— Sim.

— Tá feio, né?

— Sim.

Os 13 homens trabalharam por duas horas. O asfalto ficou brilhando, sem um buraquinho. O bueiro fechado. Mas Alice sabia que nem seria preciso esperar pelo verão. A chuva de outono já faria jorrar um rio, o rio levantaria a tampa, a tampa ficaria perigosa para todos que passam e o buraco retornaria.

— Mas alguém consertou o encanamento lá embaixo do bueiro, que faz com que ele transborde toda vez que chove um pouco mais?

— Nosso trabalho é fechar o buraco e é isso que vamos fazer. Com licença.

Rio, buraco, bueiro, asfalto arrumado, asfalto rompido… ah, Alice conhece tanto essa história. Tanto tempo fechando buraco para quê? De outra feita, ela vira, jogaram asfalto frio no buraco e ajeitaram com o tal rolo-compressor. Premido pelo rolo, o buraco ficou intimidado. Mas um mês depois já começava a se revelar, primeiro timidamente, depois em sua plenitude.

Ela também guarda um rio em sua alma, que não raro invade seu corpo. E ela fecha, sempre fecha. Com antibióticos, antidepressivos, anti-inflamatórios e mais tantos antis que achar na farmácia. E o buraco fecha, fica tudo bem, a chuva vem e.

— Mas, senhor, enquanto o encanamento que vai abaixo do bueiro não for consertado, você fecha hoje e na primeira chuva abre de novo.

— Olha, até pode ser. Mas isso é outro departamento. Nós cuidamos de fechar buraco.

Seu rio caudaloso começou com um lago tranquilo. As chuvas vieram sem avisar e as águas nunca mais foram calmas. Às vezes, represadas, mantinham-se na linha. O sol parecia um alento. Mas logo o céu cinzento fazia o rio explodir e a tampa do bueiro da alma ganhava os ares.

— Não seria melhor chamar alguém para consertar o problema das águas antes de mexer no buraco?

— Moça, o que você quer de mim? Não dá para deixar o buraco desse jeito, é perigoso, alguém pode cair.

Alice ainda testemunhou aquele buraco voltar algumas vezes. Na última, puseram uma cadeira dentro. Um senhor sentou e começou a ler um livro, como se estivesse na sala de casa. Tiraram foto, apareceu em rede social, em TV, em jornal.

Dois dias depois, dois homens estavam junto ao bueiro. Um entrou, o outro tratou de fornecer o que o primeiro pedia lá de dentro. Quando Alice passou novamente, na hora do almoço, eles estavam partindo.

— Vocês consertaram o vazamento?

— Sim, acho que fazia tempo que ninguém entrava aí.

Investigar os recônditos do corpo, descobrir o que transforma águas calmas em tsunami. Ah, como é difícil. Fazer isso em pleno ataque das águas é impossível. Alice esperou dias ensolarados e lá foi, escarafunchar a pele até encontrar em lugares que nem imaginava existir dentro de si os ventos que enfureciam as águas que abriam crateras que exigiam tantos antis. Falou com os ventos, pediu calma às águas, mas antes de fechar buraco deixou escorrerem bile, secreções, excrementos.

— Mas consertaram para sempre?

— Para sempre é muito tempo. Mas posso dizer que o problema que havia foi reparado. O bueiro fica em área de declive e quando chovia vinha tudo de uma vez, a força das águas era inclemente. Agora a água chegará de forma mais suave evitando novos danos.

Evitar novos danos. Por ora, bom demais.

Luciana Pinsky é, originalmente, jornalista, com passagem pela revista Época e pelo jornal Valor Econômico, entre outras publicações, e se enveredou para a ficção, especialmente para crônicas. Publicou um romance, Sujeito oculto e demais graças do amor (Editora Record). Atua, desde 2005, como editora de livros pela Contexto. E mantém seu blogue de textos ficcionais: http://lucianapinsky.blogspot.com/

caso esteja por aí, de Ivan Hegen

Dava um certo ódio quando meu pai falava, com a maior naturalidade, para mim e para meu irmão, Uma pena que vocês não tiveram mãe. Posso não me lembrar de nada, mas eu tive mãe. Por dois anos, que seja, mas a sensação permaneceu, um calor, uma reminiscência mais física do que mental, uma espécie de rede protetora colada à pele que levarei para o resto da minha vida. E nós temos os vídeos, posso ver e sentir que era uma mãe afetuosa. Meu irmão bem pequeno, no colo, ela cuidando dele como criatura frágil e preciosa recém-gerada, ou brincando comigo, me fazendo cócegas e soprando em meu ouvido para eu dar risada.

Eu tive uma mãe pura como ninguém mais teve. É um saco ela não ter me acompanhado, não ter me visto crescer. Por outro lado, não tive a chance de decepcioná-la, ela se foi cedo, ficou livre de testemunhar todos os meus erros. Também permaneci pura enquanto ela viveu. Deve ser por isso que ainda carrego uma inocência no olhar, que sofrimento algum consegue apagar de todo. Este meu olhar resiste às intempéries, resiste à minha própria degradação, algo que permanece irredutível aos acontecimentos. Ao menos uma pequena parte de mim não se deforma pelo que me ocorre, escapa ao alcance de tudo que se corrompe.

Também não gosto de ser vista como uma coitada por ser órfã, apesar de admitir, com uma infelicidade, que tudo se passou mais devagar para mim por não ter tido esse exemplo maternal enquanto crescia. Meu grande esforço não pôde deixar de ter sido esse, o de ser menos seca, menos fatalista, e descobrir praticamente sozinha como me afeiçoar ao mundo, como receber alguma ternura e me humanizar. Crescer só com o pai. Muito mais difícil para mim, entender a dinâmica adulta entre um homem e uma mulher sem acompanhar desde o lar o que é um casal.

Nos meus momentos mais sombrios, é inevitável, imagino que meu pai, de alguma maneira que nem sequer vou saber com muita precisão, deve ter adoecido minha mãe. Eu sei que é um exagero, mas ainda pior é pensar que o amor filial de minha parte e do meu irmão não a salvaram. Eu me culpo também, e é o tipo da coisa que nem adianta falar com ninguém, porque só vão dizer que é besteira minha — e, na verdade, é mesmo uma besteira sem tamanho. Um peso que me acomete de vez em quando, mas depois de me torturar um pouco eu respiro fundo e me aprumo, sabendo que é um masoquismo dos mais desaconselháveis. Quando assisto aos vídeos, a sensação que prevalece é a de que ela tinha amor de sobra por mim e pelo meu irmão. Pelo meu pai, não tenho certeza. A tia Clara diz que meu pai ficou enciumado quando ela passou a dar mais atenção para os filhos do que para ele. Dizem que isso é comum, o pai preterido, com dificuldade para se conformar em ficar para segundo plano. Vez em quando parece ter algo de mórbido no velho, que drena as energias de quem fica muito perto dele. Na verdade, o que me incomoda é ele falar muito pouco, quase nada, sobre a mãe, e eu nunca sei se é por a dor ser grande demais e jamais ter se fechado ou se porque ele já não tinha amor por ela nem quando estava viva, quando menos por uma esposa morta.

Este texto não se dirige a ninguém aqui da terra, mas pode ser que do além possam nos observar, que minha mãe esteja bem aqui, ao meu ombro, acompanhando cada palavra que aparece na tela do computador. Como é que vou saber, se não morri? O que não me convence é o Deus moralista, não consigo levar a sério a ideia de um Deus barbudo e onisciente que tem a manha de criar um universo inteiro e, depois dessa obra tão vasta e complexa, só se interessa pela mixaria de saber se você vai se casar virgem, se masturbar, falar palavrão ou beijar gente do mesmo sexo. Também tem gente que acha que Deus é bondoso, que ele tirou minha mãe de mim aos dois anos de idade porque escreve certo por linhas tortas. De linhas tortas já me bastam as que estou digitando agora. Ao menos tenho a humildade de dizer que não faço ideia do que acontece depois da morte. Acho desastrosa a prepotência dos que julgam que você vai para o inferno se não agir exatamente como querem, mas também acho o materialismo convicto uma posição acomodada. Quando foi que a ciência provou que não existe vida após a morte? Pode até ser que exista uma espécie de “Deus”, mas provavelmente muito diferente do que a imaginação humana concebeu até agora. Acho que exige maior caráter ser agnóstica do que ser ateia, porque a gente vive com a dúvida em aberto. Até o materialismo é uma certeza apaziguadora, porque põe tudo nos eixos, torna o mundo previsível e explicável.

Dito isto, eu me sinto bem ridícula falando diretamente para ela, mas lá vou eu. Mãe, desculpa por essas páginas confusas. Foi só pensar em você pra minha escrita ficar toda em ziguezague, indo e voltando, hesitante como eu sou quando não sei o que há a um palmo do meu nariz, seja em relação a esta vida ou à outra. Mãe, para mim você é principalmente um conceito, de bondade e de pureza, que eu carrego sempre dentro de mim, mas confesso que não penso em você tanto quanto deveria ou poderia. Se você de algum jeito me observa, já deve desconfiar disso, que eu sou inconstante, que eu sou volúvel, que eu erro muito. Eu gostaria que você tivesse ajudado a guiar meus passos, me aconselhado, me irritado um pouco, até mesmo brigado comigo. Você aí, no além… eu estou falando para você, mas é melhor ser franca e dizer que estou me dirigindo a você como uma hipótese.

No fim das contas, é preferível me considerar desgarrada de você, e eu também prefiro pensar que a culpa pelos meus atos é toda minha, que você não falhou como mãe. Triste que minha fé seja fraca e interesseira, que eu só me ponha a imaginar que você está ao meu lado me escutando nos meus momentos de desespero. Estou sem pistas, mal sei para que lado virar. Eu não tenho a menor ideia de como é a logística aí do além-túmulo, mas se puder me mandar algum sinal, se puder me ajudar a fazer minhas escolhas, aproveite agora, quando estou mais vulnerável do que meu normal, para me fazer prestar atenção. Nem depois de morta eu te dou descanso, não é, mãezinha? O mundo dos vivos é um caos, sorte sua não pertencer mais a isto aqui. A qualquer momento, portanto, um sinal. No fundo eu quero, eu quero muito, mudar, só não encontro forças, encorajamento. E eu queria, sim, a minha mãe, quem não quer?

Ivan Hegen nasceu em São Paulo, em 1980. Formou-se em Artes Plásticas e tem mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Publicou os livros A Grande Incógnita (Annablume, contos, 2005), Será (Ragnarok, romance, 2007), Puro Enquanto, (E Editorial, romance, 2009) e Rock Book — Contos da Era da Guitarra (org., Prumo, 2011), A Lâmina que Fere Chronos (Prumo, 2013) e Clarice Lispector e as Fronteiras da Linguagem (Benjamin, 2016), além de artigos para diversos sites e revistas sobre estética e política.

larápio, de Laura Elizia Haubert

As coisas estavam sumindo lá de casa, mas ninguém falava sobre isso. Também não falávamos sobre quem roubava. Fingíamos que não víamos os vasos chineses, as fitas do Purple Rain e a televisão irem embora, de uma única vez, na sacola preta que meu irmão carregava sem discrição.

Era um domingo. Meus pais estavam na cozinha, e por isso ele teve que roubar da sala. Eu estava no quarto protegendo minhas posses segurando um cabo de vassoura, resoluta. Essa coragem vinha não sei de onde, porque eu não costumava tê-la nas veias. Hoje, quando penso nisso, acho que ela veio do ódio; ainda que ódio seja uma palavra forte, e que mamãe não gostasse que eu a pronunciasse, sentia-o vigoroso.

“Você não pode odiar seu irmão!”, ela me disse.

Levei só um instante para desistir da resposta, porque já estava odiando. Pronto. Não havia uma saída para fazer o retorno, não havia placas nem acostamento nessa estrada empoeirada que era o meu ódio. Comecei a odiar meu irmão duas semanas antes de segurar o cabo de vassoura no quarto à sua espera, naquele domingo.

Comecei a abominá-lo em um sábado à noite. Ele apareceu com olhos vazios, tão vazios que me apavorei. Quis bater nele, mas foi ele quem me bateu no final das contas. Apanhei o suficiente para ficar no hospital por três dias e duas noites; quando recebi alta estava ainda com manchas roxas pelo corpo. Meu irmão não queria me bater, mamãe tinha dito com olhos inchados de tanto lacrimejar. “Ele só queria dinheiro, nem sabia quem você era.” Essa constatação doeu mais do que a surra. Ele podia estar louco. A gente briga, apanha, não devia, mas acontece. Agora, esquecer um irmão é coisa que não se faz.

Meu pai era terapeuta. Um homem paciente. Demais, até. Entrou no quarto do hospital assim que mamãe saiu, sentou-se plácido e perguntou se eu queria conversar a respeito. Puta merda. É claro que eu não queria. Eu mal podia falar de tão inchados que estavam meus lábios. Eu queria bater naquele desgraçado, só que ia apanhar de novo. Então me contentei em resmungar um não e ficar calada. Papai ficava desgostoso se ouvia palavrões saírem dos meus lábios, então disse todos eles apenas em minha mente.

Meu irmão ficou sem aparecer depois disso. E assim como ele, nós fingíamos que nada tinha acontecido. A história é que eu caíra, sabe Deus onde. Só que eu sabia que papai saía para procurá-lo toda noite. Estava sempre ansioso, querendo saber se faltava algo do mercadinho.

A verdade é que a cidade era grande, e os viciados se espalhavam por suas sendas como se conhecessem seus segredos. Só que papai nunca o encontrou. Sorte dele. De fato, meu irmão sempre foi um garoto de sorte, ganhava todas as rifas que comprava, mesmo quando comprava um único número. Eu podia comprar todo um talão de rifas e nunca ganhava nada. Talvez nem se fosse a única pessoa concorrendo.

Depois disso, mamãe chorava mais alto quando chorava escondida. Às vezes no banheiro, às vezes na cozinha. Eu sabia que ele nunca quis magoá-la. Ele só não conseguia mais se controlar. Seu corpo não era seu, sua mente estava em outro lugar. Ao menos era o que eu queria acreditar, assim ficava mais fácil perdoar os acontecimentos dos últimos meses. E eram muitos. Se eu pudesse transformá-los em pingentes, eles encheriam um pote rapidamente.

Se me lembro bem, a primeira coisa a sumir foram as joias de mamãe. Um clássico. Pena, elas não eram muitas: resumiam-se a um pingente de ouro em forma de coração e um anel com um diamante solitário que recebera de herança de sua mãe, e um dia seria meu. Bom, não mais. Agora, provavelmente, estava no dedo da namorada do traficante. Depois desse roubo, mamãe chorou na nossa frente, se perguntando se ao menos ele obtivera um bom preço por elas, como se isso importasse.

Por fim, creio que ele não conseguiu um bom preço, já que não demorou pra voltar. Talheres. Vasos. Eletrônicos. Até roupas. O que estivesse à vista quando meu irmão entrava em casa terminava perdido lá no complexo da Maré. E já não importava quanto papai pagara por esses objetos, eles valiam menos, muito menos, valiam um pouco de pó, um segundo de excitação, um outro hype.

No começo, acreditava que ele sentia remorso. Digo isso pelo modo com que seus olhos escorriam para o canto quando encontravam os nossos. Depois da surra, já não creio mais. Deixei minha fé no chão junto com o sangue que suas mãos arrancaram. Papai ainda não consegue falar sobre isso, ele se refere ao acontecido pelo termo “acidente”. Não foi um acidente. Acidente é andar na rua e ser atingindo por algo aleatório, é derrubar a xícara de café, acidente é cocô de pomba cair no seu ombro enquanto se espera o ônibus no ponto.

Quando meus pais se dão conta que meu irmão está indo embora da sala com uma sacola cheia de pertences, eles não falam nada, suas mãos fecham a porta da cozinha, como se uma brisa os houvesse incomodado. Mamãe murmura uma prece. Ela sempre ora quando está com medo. Papai chama o porteiro pelo interfone para avisar que o filho não pode subir mais, não está autorizado.

Eu estava lá no quarto, pronta para a revanche. Meio atordoada, percebo que a revanche não vai acontecer. Meu irmão foi embora tão rápido que nos deixou ainda mais estarrecidos do que quando era violento. Não esperávamos essa discrição, essa ausência. Ele nos havia roubado com uma certa decência.

Desço para a sala, e há um buraco ali deixado pelas coisas que não existem mais, deixado pelo seu cheiro. Não falamos sobre isso também. Mamãe abre a porta da cozinha e avisa que o jantar está servido. Desta vez jantaríamos sem o barulho do Fantástico ao fundo. Não havia mais televisão. Porém, é claro, não falaríamos sobre nada disso. Nunca falávamos.

Laura Elizia Haubert é graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Participou de antologias de contos como As coisas que as mulheres escrevem, pela Desdêmona Editora, e também de revistas literárias como a Revista Ponto, do SESI-SP, e a Revista Subversa. Publicou em 2015 pela Editora Multifoco o livro Ode à Nossas Vidas Infames e em 2017 pela Editora Patuá o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul. Publicará, ainda em 2019, pela Quintal Edições, o livro Memórias de uma vida pequena. Atualmente vive em Córdoba, na Argentina.

interesses, de T. K. Pereira

capa_TKÉ o inferno de sempre. O senhor me desculpe a demora, mas nem o GPS está dando conta desse trânsito hoje. Tomara que não esteja com pressa. Tem água gelada e balinhas de menta, coisa boa, não essas porcarias de ambulante em sinaleira. Fique à vontade. O ar-condicionado deu defeito ontem, eu ainda não tive tempo de arrumar. Desculpe por isso também. Ainda bem que hoje está fresco, céu azul, dia bonito. A gente tem que ser grato, viu? Ô clima bom o nosso. Às vezes esquenta, mas fazer o quê? É um país tropical — nada a ver com essa conversa fiada de aquecimento global. Mas já vi climas piores, viu? No norte da África, por exemplo, o sujeito até sufoca de tão quente e seco que é. Trabalhei lá por um tempo, conheci aquilo tudo, até o Saara. Faz tempo, foi em setenta, eu era almoxarife em mineradora, veja você.

Conheci o povo, aqueles muçulmanos filhos da puta. São como os evangélicos daqui. Pensa naquele tipo bem pelinha, de culto em sede velha de boteco, fanático mesmo. O muçulmano é dez vezes pior. Povo maluco. Eles têm isso lá de ter várias mulheres, a gente até imagina, mas ver é outra coisa. Tinha esse colega que tinha três esposas. Não sei como, eu mal dei conta de uma, mandei logo pastar. Eles escolhem elas, daí cortam fora o clitóris, que mulher lá é pra procriar, não pode sentir nada. Mulher lá não goza! O senhor me desculpe aí o popular, mas é isso mesmo: elas não gozam, é proibido. Dizem que o homem também corta a cabecinha, que é pra facilitar, afinar. Muçulmano é tudo assim, barbado da pistola longa e fina.

Eu já vi cada coisa nesse mundo… O problema é a religião, essa coisa de igreja, fé, isso ferra com a cabeça de gente pobre, e o povo de lá é miserável, acaba ficando na mão dos osamas e saddams. O Brasil fica longe disso não, aqui só falta explosão porque morte tem até demais; a fé é negócio, é política, tudo misturado. A corja daqui não manda derrubar prédio com avião porque o que interessa é dinheiro. E o pobre segue na miséria, sofrendo com fé. É dureza essa vida de sempre correr atrás e ficar preso em trânsito, fila, burocracia.

Acabaram de avisar no celular: tem manifestação fechando a avenida lá na frente. Tinha me esquecido. Bem na véspera de feriadão. Típico. Datas esse povo sabe escolher, né? Centro é complicado demais, qualquer coisinha entulha tudo, chuva, obra, manifestante. Eu nem acho errado, sabe? Tem mais é que manifestar mesmo, reclamar, esse país está uma zona. Mas tem que saber fazer, não pode atrapalhar a vida de gente decente, trabalhadora. Também não pode sair por aí quebrando tudo porque quem paga é a gente mesmo. Tem que raciocinar, aprender a lutar. Todo mundo sabe que a corrupção é um problema, mas parece que ninguém aprende: políticos roubam, roubam, roubam, e ainda conseguem ser eleitos. As pessoas vendem o voto por uma cesta básica, aí fica difícil. Mas é problema de quê? Falta de educação, é claro, tem que educar o povo. Não é só melhorar escola. Eu mesmo, que só tenho segundo grau, graças a Deus, sou educado, conheço os problemas.

No Brasil a política é para enriquecer. Só ver os safados de sempre: é coronel do Maranhão, bilionário que não larga osso, presidente papa-poupança que cai e volta, deputado, governador e senador com nome sujo, e ainda no cargo. É denúncia, propina, golpe, contragolpe. Tem que acompanhar, ficar por dentro pra poder fazer sua parte. E tem que reconhecer quando a merda explode; vê o caso do impeachment da presidente — e digo presidente mesmo, que presidenta é o escambau; além de roubar ainda querem matar o português? Votei nela, não tenho vergonha de dizer. Até achei que ela não tinha feito nada errado, que todo mundo é inocente até provar, não é assim? Pois é, agora nem sei. Se todo mundo parece ter o rabo preso, se até o Lula traiu o Brasil, ela deve ter culpa também. Fico puto porque pra mim é tão simples: se recebo uma denúncia, o que faço? Mando investigar, porra. Tomo atitude, chego lá para os companheiros e aperto, digo que vou investigar todo mundo suspeito e quem estiver envolvido vai cair feio, que no meu partido não fica corrupto nem safado. Chamava a imprensa no mesmo dia, falava das denúncias recebidas, “nosso governo vai investigar e punir os responsáveis”. Mas político é tudo burro, prefere ficar quieto, fingir de morto. Hoje em dia nada mais fica escondido. Esse povo não aprende, por isso que o país está nessa merda, nesse vai-não-vai do caralho.

Você me desculpe o mau jeito, mas é de dar ódio. Você tenta se manter antenado, tenta votar com consciência, daí esses canalhas te traem. É tudo treta de partido, não tem um que presta, essa é que é a verdade. Tem que resolver a corrupção, povo tem que se unir, fazer petição, que hoje é bem fácil, pega lá um monte de assinatura rapidinho na Internet, faz logo uma lei nova. Fosse por mim era até mais simples, três coisas para resolver. Primeiro: político envolvido em corrupção tem que ser julgado como cidadão comum, sem essa de imunidade parlamentar, de foro privilegiado, nada disso. Segundo: condenado ou não, o político não pode se candidatar a mais nada, perde o direito de participar da política. Terceiro: todo o dinheiro roubado deve ser devolvido em até quarenta e oito horas. Isso aí, simples. Não tem por que complicar.

Entendo dos problemas, e nem é porque vejo TV ou leio muito — faço isso também porque a gente tem de estar ligado —, mas sinto nas ruas, sabe? A gente entende o país é pelas pessoas. A maioria delas não está nem aí, é tudo interesse próprio. Empresários, por exemplo: tratam o empregado como escravo. Eu sei por que já vivi muito isso, mas me libertei. Hoje, acima de mim só Deus e avião.

Outro dia eu estava carregando um empresário bem escroto: ele disse que, com crise ou sem crise, é preciso jogar duro, que na empresa dele funcionário tem que dar lucro, senão é rua; se não fosse por lei, ele não pagaria direito nenhum. Porque o empregado é importante, mas é o empresário que carrega o país nas costas, ele disse. Acredita? Até tentei argumentar, mas sabe como é esse tipo de gente. Ouvinte bom e atencioso assim como o senhor está em falta.

Se me permite, em quem o senhor votou no ano passado? Tudo bem se não quiser dizer. Na verdade, tenho evitado falar disso, a pergunta é difícil, as pessoas estão muito sensíveis. Mas o senhor me parece bem racional. Tremendo pega pra capar, nunca vi eleição como essa, até facada em candidato teve. Se bem que eu truco essa história aí. Já viu facada sem sangue? O homem lá é malandro, e tem que ser mesmo: os comunistas são desonestos. Tem que fazer o jogo deles. Votei neles a vida toda, hoje sei a verdade e me arrependo — nem vermelho eu uso mais, queimei tudo. Quando chegaram lá eles me traíram, traíram o Brasil. Tanta coisa errada pra consertar e ficavam de nhe-nhe-nhe de ideologia, plano-gay, do tal marxismo de cultura. E a coisa ia piorar: vi esse filósofo na internet alertando contra a invasão muçulmana. Você acha que essa história de migração na Europa é a troco de nada? É pra destruir o capitalismo. Eles são farinha do mesmo saco. Graças a Deus que o homem lá não morreu, já pensou? Mais quatro anos nas mãos dos calhordas? Não senhor, chega, esses daí não me enganam mais. Nem adiantou tentarem fraudar as urnas, a voz do povo falou mais alto. O Brasil precisa é de ordem, pulso, gente nova que não está aí pela mamata, que quer colocar o país no rumo. Eu me informo, sei o que dizem por aí do presidente, mas é como eu disse, tem que ouvir as ruas e não dar trela para fake new — é assim que fala, né? O povo está cansado de roubalheira, da violência, impunidade. Quero ver ligar pra gay, índio, feminista e o escambau com uma arma enfiada na cara, desempregado, passando fome, sem-teto. Eu sei bem como é, mas a violência é o pior. E já que o governo não dá jeito, que pelo menos me deixe garantir minha segurança. Pode apostar que vou me sentir bem mais seguro dirigindo por aí com uma arma a tiracolo.

Agora, se o homem trair a gente também, sem problema, é só manifestar, que nem da outra vez, pôr pressão. Mas duvido que precise. Ele não é burro; não vai chegar em Brasília e ficar mandando matar gay, índio, acho mesmo é que ele não tá nem aí para eles, só quer tirar o país da lama. E quem é que não tem preconceito, não é verdade? Não importa o que ele pensa ou deixa de pensar, desde que não prejudique ninguém. Tenho lá as minhas birras, mas cuido da minha vida. Que cada um cuide da sua. E olhe que não concordo em tudo com o homem: acho que empresário tem regalia demais, tem que ajudar é o trabalhador, mas se, para sair da crise, a gente tiver que fazer sacrifícios… Eu sou contra extremismos, mas, às vezes, pra melhorar tem que piorar antes.

Vai descer por aqui mesmo? Ainda estamos longe… Mas do jeito que o trânsito está, é capaz de o senhor chegar mais rápido a pé. É até melhor pra saúde. Se pudesse largava o carro por aqui, mas sabe como é, a gente tem que ganhar a vida. Desculpe qualquer coisa. Vou encerrar aqui a viagem do senhor. Tome aí: cinco estrelas. Se puder retribuir… Tenha um bom dia e vá com Deus, que é brasileiro, mas não dá jeitinho.

| conto do livro Vozes (Editora Caos & Letras, 2019), que será lançado quarta-feira que vem, dia 6 de novembro, em Belo Horizonte [link]. |

T. K. Pereira é autor de Vozes (Caos e Letras, 2019). Organizador do projeto 7 coisas que aprendi, acervo com mais de 100 depoimentos de escritores. Publicou contos em várias antologias. Siga o autor em seu site oficial: https://tkpereira.com.br

sábado, de Natalia Timerman

rachaduras_natália timermannome: MAYKON ROMUALDO SEVERIANO DA SILVA
mãe: CRISTIANE SEVERIANO DA SILVA
pai: IGNORADO
nascimento: 10/02/1988
matrícula: 1.220.872

Lógico que era ele, quem duvida?, a gente já reconhece de longe, pelo passo, pelo andar, bandido que é bandido solta cheiro, aí chegou perto, pronto, aquelas tatuagens, pronto, confirmou, são anos de prática, dona, tava na cara, tem gente que tem cara de bandido mesmo e pronto, revistei e num deu outra, tava ali, um toletão desse tamanho, 50 gramas na pesagem, disseram, agora é muita cara de pau o sujeito achar que a gente é trouxa, que a Justiça é trouxa, a gente é a porta de entrada da Justiça, falou tá dito, é assim mesmo que tem que ser, ou você acha que a juíza vai acreditar mais no malandro que em nós?, aqui é anos de estudo, um salário a zelar, nada de outro mundo, né?, mas tem o garantido no fim do mês, quase tudo tem família, tudo na honestidade, criminoso são eles, já vem com cara de canalha, e mentem, mentem bem, viu?, se a senhora visse, num faz escola mas vai tudo pra escola da vida, é lá que aprendem o crime, a malandragem, tem que pagar por isso, é dever nosso, limpar a sociedade, cadeia é pra isso, oi?, e se não foi ele?, tá duvidando da minha palavra, dona?, olha lá, hein, eu num faltei o respeito com a senhora não, tô te dizendo, tava ali no bolso, se ele ia ser burro a esse ponto?, ué, mas foi, vou fazer o quê, tô só cumprindo o meu papel, não teve violência nem nada, tudo na medida, na medida certa, se a gente chega bonzinho também os cabra num respeita, tem que impor a autoridade, mas sem exagero, tudo dentro dos treinamentos, gritar faz parte, botar o cara de joelho é somente a técnica, vou fazer o que se o cara tava resistindo?, eu fui bonzinho, ele podia ter pego desacato, mas não quis sujar pra ele não, da próxima a dona vai ver aonde é que as coisas podem chegar.

Eu nunca passei por isso, por essa humilhação, era sábado, eu deito a cabeça de noite e passa o filme todo na minha cabeça, não durmo, não acredito, eu converso com os caras aí e eles dizem que tráfico é no mínimo cinco anos, eu volto pra cá e choro, eu não fiz nada, não era meu, quem acredita? Era sábado, eu tava com dinheiro da funilaria, te disse que tô aprendendo funilaria e pintura, né? Faz três meses, tô no EJA também, tava, eu tava, era sábado, eu tava com cinquenta reais, minha mãe disse pro policial que era meu o dinheiro, e ele, não, isso aí é de venda que eu sei, eu nunca passei por isso, eu tenho como provar, mas na audiência de custódia a juíza nem quis me escutar direito, tava comigo, pronto, é meu, foi assim. Era sábado, deixei minha namorada no ponto, às vezes eu durmo na casa dela mas nesse dia eu tava em casa, fui só deixar ela no ponto, abracei ela, beijei, despedi. Fui andando, 50 reais no bolso, não, 40, eu dei 10 reais pra ela, passei na padaria e comprei um saco de pão doce e um danone, fui comendo no caminho, aí eu fui comprar maconha, eu num sou santo, né? Sou usuário, usuário de maconha, mas o que eu faço eu assumo, eu nunca trafiquei, tem um ponto perto de casa, um ponto de droga, tava lá, já me avisaram da movimentação, uma vizinha disse que tinha polícia na área, aquele clima estranho, a gente num sabe como, por quê, mas tem alguma coisa estranha, quem sai pra fora fica pouco. Era sábado, o traficante chegou, eu queria cinco reais, ele disse pra eu segurar o bagulho que ia ver se tava tudo limpo, colocou no meu saco de pão doce, eu não vi, essa hora não, não era muito, só vi depois quando o policial pegou e jogou em cima do carro, eu fui ouvindo os passos e achei que era o cara voltando, mas era o polícia, dei bom dia, eu nunca fiz coisa errada, quer dizer, sou usuário, eu não achei que ele ia vir pra cima de mim, ele achou logo o bagulho, eu disse que não era meu, era do menino ali. Era sábado, a vizinha já foi chamando minha mãe, a cara dela, eu nunca fiz isso, as lágrimas escorrendo na cara dela, acho que ela achou que eu tinha feito sim, aí o polícia chutou minha perna por trás e eu caí de joelho, muita humilhação, chutou minha costela, veio outro e bateu mais, eu quieto, eu quieto, olhei pro lado quando alguém passou, era sábado, e me bateram mais, pra eu olhar pra baixo, as mãos pra trás, aí ele disse pra gente passar na minha casa pra pegar meu RG, de viatura, de viatura, eu nunca passei por isso, minha mãe vendo eu lá dentro, ela veio vindo atrás, chegamos antes, minha irmãzinha tava em casa, de 10 anos, eu disse, Rai, pega meu RG na bolsa da mãe. Ela chama Raiane, eu chamo ela assim, Eu num sei onde tá, a Rai disse, já tava assustada, eu naquela situação, que vergonha, mas como é que eu vou ter vergonha de alguma coisa que eu não fiz, mas tenho, como se eu tivesse feito, o polícia aí gritou, gritou com a voz alta, Como é que você não sabe onde tá a bolsa da sua mãe? Aí eu perdi a cabeça, xinguei mesmo, Cê tá louco?, num tá vendo que ela é só uma criança?, e se ela fosse tua filha?, e o polícia transtornou, disse que eu tava fudido, que ia dar desacato também, nisso minha mãe chegou, tava chorando, esfolegante, decepcionada, a decepção estampada na cara dela, eu nunca fiz nada disso, eu nunca passei por isso, mas aí na cara dela eu vi que podia ter sido eu, duvidei de mim, mas nem deu tempo, quando vi o RG já tava com o polícia e nós tava dentro da viatura. Era sábado. Ele e o outro na frente. Eu atrás.

| conto do livro Rachaduras (Editora Quelônio, 2019), com lançamento dia 29, terça-feira, em São Paulo [link do evento]. |

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia pela USP e escritora. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017), acerca das vivências no hospital penitenciário onde trabalha desde 2012, em São Paulo.

nine, de Divanize Carbonieri

Do outro lado da escrivaninha, ouvia a contragosto o homem falar num tom entre calmo e irritado. Poor old man. Na verdade, não. Mr. Stuart tinha apenas quarenta e seis anos. O cabelo grisalho era mais um fator genético, assim como o diabetes e a hipertensão. Pity. Ele estava tão empenhado em ajudá-la. Shame to be so ungrateful. Ela sabia e não queria ser grosseira, mas realmente não se interessava pelo que ele dizia. Já não se importava mais. Life sucks anyway. Com muito estoicismo, suportara os dias de julgamento. Todos aqueles que considerava amigos tinham lhe indicado como a principal responsável. Mentor of crime. Mentor. A new word to be learned. Bullshit! Não tinha colocado revólver na cabeça de ninguém. They did it because they wanted to. Que podia fazer se era a mais inteligente, a única que pensava nos detalhes? Se tivessem agido conforme o combinado, nunca seriam apreendidos. Idiots who messed everything up. Era isso o que eram. E agora tentavam jogar tudo nas suas costas para livrar as próprias peles. Could have done the same? Yeah. Talvez assim também pegasse uma pena mais branda. Mas não era do seu feitio. Never, never a stool pigeon. Preferia enfrentar o pior. Não temia nada. Desde de muito nova, se sentira atraída pelo perigo, pela aventura. No lugar em que nasceu, tal modo de agir era visto como loucura. Demon possession. Tantas vezes tentaram exorcizar os diabos de dentro dela. They and only they were the demons. Queriam que fosse submissa como se esperava de todas as mulheres da comunidade. Mas apanhava como homem. Got beaten all the time. Beaten with sticks, whips, punching, kicking. It never worked. Jamais baixou a crista. Só se fortaleceu. Suportou tudo sem se render até que conseguiu escapar daquele inferno. Desde então, perambulava de um canto a outro, fazendo pequenos furtos no começo. An orange or two, some bread, a drugstore candy. Depois, aprendeu a bater carteiras. Who taught it? Já nem lembrava. Tornou-se a melhor do ramo. Passou a ser respeitada pelos outros delinquentes, todos uns pivetes, como ela. No, older. Pensavam que era mais velha do que eles, e não desmentia. Depois vieram os assaltos às lojas e por fim aos bancos. Big money. A series of successes. Só andava agora com os profissionais, os experimentados na arte de subtrair. Guns and ammunition. Just to frighten folks. Não pensava realmente em matar. Achava que nunca seria necessário. Stupid cops. Não teve o que fazer. Estavam em sua rota de fuga. E daí tudo degringolou. Killing cops is bad for business, everybody knows. A polícia não deu trégua até prender a quadrilha completa. Todos os roubos a bancos da região foram imputados a eles. What a lie! Existiam muitos grupos agindo na localidade. O dela apenas era o melhor. The best. Since always. Mas o que pesou mesmo foi o assassinato dos dois policiais. Seus colegas de farda olhavam para ela com um ódio descomunal. Só não sofreu mais na prisão porque o caso ganhou muita repercussão. All those cameras. Os olhos do país inteiro voltados para o que acontecia naquela comarca. Em algum lugar, de algum modo, um jornalista tinha obtido informações que lançavam dúvidas sobre sua biografia. How he fucking found out? No tribunal, apenas sua declaração fora suficiente. Documentos não existiam, já que as crianças da comunidade nunca eram registradas em cartórios. Homeschooling just to learn to read the Bible and use the hoe. The government couldn’t care less. Quanto mais longe aqueles fanáticos estivessem do resto da sociedade, melhor. Daí não possuía certidão de nascimento nem nada parecido. One just needs to feel they are old enough. That’s what matters. Nobody has anything to do with it. Mas a lei dizia o contrário: era fundamental saber a idade de alguém para poder determinar corretamente a sua sentença. Prisão perpétua apenas para maiores de dezesseis. E punição capital só para quem atingiu pelo menos os dezoito. Se a história contada pelos jornais fosse verdadeira, aquilo seria uma falha gravíssima do judiciário. E pouco importava que ela tivesse mentido porque, nesse caso, era uma mentira que a desfavorecia enormemente. Por essa razão, o juiz e os promotores fugiam da imprensa como se foge de um incêndio, esperando que a poeira baixasse e o que ainda pensavam ser um boato caísse no esquecimento. O defensor público, por outro lado, tinha se entusiasmado com a notícia, um presente caído do céu. Mr. Stuart era um homem generoso e totalmente contrário à pena de morte. Mesmo quando ainda acreditava que o julgamento ocorria dentro da legalidade porque nem imaginava que a ré pudesse ser outra coisa que não uma moça de vinte e um anos, fez de tudo para que o resultado fosse diferente. Agora, então, moveria céus e terras para evitar essa tragédia. Se pudesse comprovar o que diziam as reportagens, ela iria para um reformatório por pouco tempo e depois estaria livre. Uma nova carreira de crimes talvez se iniciasse depois, mas Mr. Stuart pensava que era inaceitável que o Estado assassinasse pessoas. Acreditava mesmo que não podia haver palavra mais adequada: assassinato, tanto pior se autorizado por juízes, legalizado. Dava-lhe asco pensar que muitos conterrâneos achavam isso normal, até desejável. Se pudesse salvar só essa garota, já ficaria feliz. Seria uma satisfação pessoal. Assim, viajou às próprias expensas para o rancho em que ela fora criada. O mais provável é que não existissem mesmo papéis oficiais, mas se conseguisse pelo menos três testemunhas que atestassem a veracidade do fato, a justiça teria que aceitar esses depoimentos como prova. O julgamento seria anulado e ela escaparia da injeção letal. Era justamente sobre o resultado da expedição que falava agora com sua cliente. Relatou que, depois de muitas tentativas malsucedidas, foi capaz de entrevistar o seu pai. Father? Ela estranhou porque, na comunidade, a paternidade não era biológica, mas sociológica, e todos os homens adultos deviam ser respeitados como autoridades paternas, mas sem que nenhum fosse nomeado como tal. Homens e mulheres viviam separados na maior parte do tempo e só podiam manter relações sexuais uma vez por ano, apenas para gerar novos membros. A posse das mulheres alternava-se entre os homens, pois era o líder que decidia de quais deles elas teriam filhos ano a ano. No love. No special treatment. Not even from mothers. Mother was actually another meaningless word. O contato físico era reduzidíssimo, e qualquer deslize acabava punido com surras e mais surras. Mas sabia bem de quem ele estava falando. The greatest demon. The cruelest of all. O homem que tinha inoculado sua progenitora com sêmen, possibilitando que ela fosse concebida. Era também o que parecia ter mais prazer em castigar as mulheres e crianças, sobretudo uma rebelde inveterada como ela. Mr. Stuart se punha agora a descrever como tinha sido o diálogo. You have a wonderful daughter. She had problems with the law, but we can’t turn our backs on her. You shouldn’t turn your back on her. I’d be proud to have such a child. She’s very smart and tenacious. I’m convinced she can be easily reintegrated into society after some years in reformatory. That’s why I came to ask you to testify on her behalf and declare she’s still a minor. We need witnesses to prove it. If you can persuade a few more members of your community, I’m sure your daughter will be saved. Otherwise, she’ll be executed. A resposta não demorou muito. When she left, she ceased to be our daughter. She’s now the daughter of the world. If she can’t be welcomed by the world, she won’t be by us. That bridge was forever burned. Ela riu por dentro da situação. Quase chegava a ouvir aquela voz repulsiva pronunciando tais palavras. So typical of him. Mas ficou aliviada com a recusa porque a última coisa que queria era ver a cara do cão novamente. Se tudo estava, então, resolvido, não entendia por que o advogado continuava insistindo. O esclarecimento veio em seguida. Ele lhe implorou que escrevesse uma carta para sensibilizar o “pai”, lançando mão de argumentos sentimentais para que mudasse de ideia. Que pedisse perdão, que suplicasse por sua ajuda, que se humilhasse. Qualquer esforço valeria a pena. Dessa vez, ela não pôde conter a gargalhada. Mr. Stuart, I thank you very much for all your trouble to help me, but it’s out of question. I’d rather die. If you’ll excuse me, I’m going back to my cell. Levantou-se e seguiu acompanhada pelo guarda corredor a dentro. Duas semanas depois foi levada para uma audiência, algo totalmente inesperado, uma vez que não cabia mais apelação em seu caso. Ao entrar na sala em que estava o juiz, viu seu defensor a postos e, sentadas ao lado dele, três mulheres que conhecia bem, que tinham participado de sua criação. Devia a elas a mesma obediência do que àquela que lhe deu à luz, morta quatro anos depois do seu nascimento. Escrutinou a sala para ver se encontrava algum dos homens também. Era terminantemente proibido que as mulheres da comunidade saíssem da propriedade sem alguma companhia masculina. Permanecer sozinhas numa sala cheia de estranhos era, então, algo inédito. Unthinkable. Certamente receberiam uma sanção bem severa. Talvez até fossem mortas por isso. Never thought they were so brave. Elas vieram para confirmar a sua real idade. Para mostrar que diziam a verdade, tinham reunido uma série de evidências, muitas até desconhecidas dela mesma. A principal era um prontuário hospitalar de cinco anos atrás, quando precisou de atendimento médico depois de ser brutalmente espancada. The straw that broke the camel’s back. Just two months before leaving the ranch. A razão dos ferimentos tinha sido registrada como queda de um cavalo, mas logo acima vinha o seu nome e quantos anos contava na ocasião. Nine.

Divanize Carbonieri é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia Entraves (2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, além da coletânea de contos Passagem estreita (no prelo), selecionada pelo Edital Fundo 2019/Cuiabá 300 anos. No Prêmio Off Flip, foi segunda colocada na categoria conto na edição de 2019 e finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras/MT.

a revolta de Amanda, de Antônio LaCarne

Tia Emanuela foi enterrada com um opulento colar de pérolas no pescoço. Era manca e nunca se casara. Tinha uma filha, Amanda, mas não a considerava ser de suas entranhas. A menina era tratada como uma empregada da casa. Fora rejeitada quando descobriram que era anã.

Crescera calada, com o olhar perdido, nem sequer chorava durante o velório — já acostumada a sentir-se culpada por ocupar espaços indesejados na casa e na família. Qualquer pergunta sobre o paradeiro ou a origem do pai de Amanda era assunto proibido. Diziam que a menina só podia ser filha do Diabo, afinal tia Emanuela expressava repulsa não disfarçada quando se deparava com alguma imagem de santo ou crucifixo. Dava risadas escandalosas que chocavam as pessoas. Diziam também que era uma mulher satânica, que mexia com feitiçaria, e que no inferno estaria finalmente em casa – longe do mundo e da filha que lhe causavam tanto desgosto.

Quando cheguei ao velório — após anos de recusa em visitar a cidade —, minhas tias ficaram tão contentes, que não disfarçaram os sorrisos, os abraços, as gargalhadas inapropriadas em plena sala onde o caixão era rodeado por quatro castiçais posicionados sobre quatro gigantescas colunas de mármore. Quem me abraçou por último foi Amanda. Antes que eu me ajoelhasse para dar-lhe um beijo, ela já estava grudada nas minhas pernas.

As mulheres vestidas de preto me cumprimentaram com um leve aceno de cabeça. Não havia nenhum homem na sala, além de mim. Tia Lourdes e tia Gorete me arrastaram até a cozinha, ansiosas para que eu lhes contasse as novidades sobre a minha vida. Diziam que um mês não seria suficiente para matar a saudade dos dez anos que eu me ausentara.

Amanda nos acompanhava, carregando minha enorme mala, que era maior do que ela.

— Sentimos tanto a sua falta, meu querido!

— Sim, sentimos a sua falta — concordava tia Gorete.

— Você nem imagina a alegria que você traz para essa casa, depois da tragédia que foi descobrir Emanuela caída no banheiro, estirada, com a cara grudada no ralo.

— A cara grudada no ralo — repetia tia Gorete.

— Sente aqui com a gente, Amanda — pedi, apontando uma cadeira vazia para que se aproximasse.

— Essa menina está cada dia mais estranha, mas não é por menos, foi ela quem encontrou Emanuela morta. Deve estar muito abalada, coitadinha. Está traumatizada, desde ontem que não diz uma palavra – sussurrou tia Lourdes, como se Amanda não estivesse diante de nós.

— Trouxe um presente para você — disse eu.

— Um presente para você, Amanda — repetia tia Gorete, sem olhar para ela.

— Trouxe uma boneca linda de porcelana.

— Meu filho, ela não brinca de boneca, ela já vai fazer trinta e cinco anos! — respondeu tia Lourdes, controlando a vontade de rir.

— Mas é uma boneca para enfeitar o quarto dela — respondi, tentando disfarçar a grosseria do inconveniente.

Antes de entregar-lhe o presente, ouvimos um alvoroço na sala. Quem havia acabado de chegar era o prefeito. Tia Lourdes e tia Gorete levantaram-se apressadas da mesa e correram em direção ao homem. Fingiam enxugar as falsas lágrimas que não escorriam de seus rostos. Amanda e eu observávamos a cena da cozinha.

— Vamos lá no quintal fumar um cigarro? — perguntou ela.

— E você fuma?

— Fumo escondida.

Quando já estávamos no quintal prestes a acender o cigarro, tia Gorete apareceu e me puxou pelo braço. O prefeito iria fazer um discurso em homenagem à tia Emanuela.

Após o discurso, que durou quase meia hora, as mulheres terminaram de rezar o terço. Em seguida, despediram-se. Tia Gorete fechou as portas e me levou ao meu quarto. Eram os mesmos móveis de dez anos atrás, porém as paredes estavam pintadas de amarelo, tornando o ambiente mais claro e menos obscuro. O quarto onde chorei sozinho por diversas noites.

O enterro seria pela manhã e me causava desconforto dormir naquela casa, a poucos cômodos do corpo de tia Emanuela no caixão, no escuro. Estranhei o fato das mulheres rezarem o terço. Tia Emanuela era ateia e o mínimo que deveriam fazer seria respeitar sua vontade de uma cerimônia não religiosa. Comentei com tia Lourdes e ela foi enfática:

— Ah, meu filho, morto não tem querer. O que as pessoas vão pensar?

Tia Emanuela era uma mulher de bom coração, generosa, mas que exibia certas inconstâncias emocionais, nunca fora acompanhada por um médico ou coisa do tipo.

Quando eu tinha dez anos, lembro que cheguei da escola com o nariz sangrando. Um menino que mexia comigo diariamente havia me agredido. Quem ajudou a estancar o sangramento foi ela. Ordenou que eu não contasse nada às minhas tias, pois elas fariam um escândalo na escola, exigiriam satisfações, transformando a situação num estardalhaço desnecessário. Quando pus os pés dentro de casa, ao perceber que eu estava machucado, ela me puxou para dentro do quarto, trancou a porta e cuidou do meu nariz ferido.

Sentado na cama, vi que ela destrancava o cadeado do guarda-roupa, tirando de lá uma caixinha de primeiros socorros com algodão, que ela embebeu num líquido que quase me fez sufocar.

— Um menino bateu em mim, tia. Ele me empurrou e eu caí de nariz no chão.

— Fique calado, não chore, não diga nada. O sangue de ninguém é derramado em vão.

Em poucos minutos, o sangramento e o inchaço cessaram e eu estava novo em folha. No dia seguinte fui à escola, ainda temeroso que o menino batesse em mim outra vez. No mesmo dia, surgiu a notícia de que Arthur fora encontrado afogado no açude. Uma verdadeira comoção tomou conta da cidade. Telefonaram para os pais pedindo que fossem buscar os filhos mais cedo. Quem apareceu para me buscar foi tia Emanuela.

— Não falei que o sangue de ninguém é derramado em vão? E eu é que sou chamada de louca! — disse ela, entrelaçando os dedos nos meus.

Acompanhamos a pé o carro da funerária, com cada tia enrolando os braços na minha cintura. As mesmas mulheres de preto compareceram ao enterro, além do padre, do coveiro. O padre disse poucas palavras sobre a boa conduta de tia Emanuela em vida, mulher respeitosa, íntegra: uma alma prestes a descansar eternamente.

— Amanda, estamos esperando por você, venha com a gente — perguntei, encarando a porta trancada de seu quarto.

Ela não respondeu.

— Ela disse que não vai — gritou tia Gorete, surgindo na sala e a única a vestir branco.

Ao retornarmos, poucas horas antes do almoço, fui ao meu quarto desfazer a mala. Estava exausto, triste, incomodado em revisitar a cidade, a casa, em recordar certos acontecimentos do passado, como se cada lembrança estivesse estampada nos corredores.

Ao abrir a mala, dei de cara com o embrulho do presente de Amanda. A caixa e o papel florido estavam rasgados. Dentro da caixa estava a boneca com a cabeça arrancada.

Amanda havia mexido nas minhas coisas.

Assim como ela, eu também teria me revoltado.

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Editora Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Tem poemas publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.