táxi, de Myriam Campello

Sem desmerecer: se a senhora não está bem imagina eu, casado há cinco anos com mulher que mal vejo, li numa revista que após três anos há sempre uma sacudidela, casamento e torradeira falham, parece que não gostam de sossego

Não sei como se desenrola sua vida (é resfriado não? Ou dengue chicungunha mosquito faz estrago tá com febre?)

dois filhos pequenos

apaixonado

sei que cada um é cada qual, o que chove cá não chove lá e sou mais velho. A senhora acha que idade diferente pesa?

Repentino

a amizade dela com a vizinha da frente. Até gostei, sabe, às vezes chego tarde, achei bom que tivesse companhia

Quando voltei nem sinal de janta no fogão. Meia hora depois chegou nervosa e aprontou a comida em três minutos, puta dona de casa desculpe a expressão, não posso me queixar

A vizinha é até uma moça legal. Mas daí a largar tudo pra ficar de conversa, a casa revirada assim não é possível, ontem eu é que dei banho nas crianças

por que não?

botei na casa tudo que uma mulher pode querer churrasqueira piscininha as crianças se esbaldam Net pros filmes românticos, levo todo domingo no pagode (agora menos já que não faz questão, prefere ficar quieta e navegar no seu mundo — me trancando de fora)

atazanado

até queria a sua opinião

atormentado

Meu irmão fala que casamento desafina sozinho nem precisa ninguém, a coisa sai dos eixos perde o tom, ele toca na banda e entende de instrumentos, é assim mesmo, cara, não encana, dá um trato nela, faz vontades, não trabalha tanto e volta tudo ao normal. Venho fazendo isso há quatro meses, não mudou foi nada!

perdido

como é que pode essa transformação?

Não me trata mal mas distante, fechada em si nenhuma fresta. Olhar fixo sempre em outra coisa que está longe. Perguntei se deparava com fantasma: seu sorriso me cortou ao meio a tal ponto me pareceu disperso. Sorriu não para mim mas abraçando o que anda dentro dela

Cabeça de mulher a gente não entende, o problema de pedir opinião a homem é que ele vem com uma linha de montagem de patifarias, que é só no que pensam

Medo dos postes sim já que pouco durmo, então tome de café e coca-cola, a cada três horas à noite uma eu capoto, levanto como um vampiro enxovalhado, sem repouso nenhum
Sou mais velho quinze anos, ela costumava achar isso um tesão e fazia por onde. Fomos felizes até a gente se mudar para cá, “cuidado quando a casa ficar pronta” é um ditado chinês, será que tinta fresca atrai o que não deve? Seja lá o que for chinês é bicho sábio

Eu perguntei!
Que eu estava imaginando coisas: só cansada casa crianças muitos afazeres.
Eu é que sei.

Quis passar uns dias na casa da mãe, dei o dinheiro achando que podia melhorar. Voltou de Colatina mais enfiada nos próprios pensamentos. Quando pressinto que vai despejar revelação me afasto pra não ouvir, a coragem sobe e desce ribanceira de segunda a segunda. Terça quero saber mas na quarta deixo a noite me engolir, brinco com as crianças janto e pronto, hora da cama. Mesmo ruim a rotina está ali de sentinela reforçando os dias, a gente afunda nessa massa parda e vai vivendo, ninguém presta atenção o tempo todo. De longe tudo parece como antes. Deslizo junto com a vida mas sei que nada é o mesmo.

No outro dia me ligou que a vizinha tinha adoecido e precisava dela, ia ficar por lá naquela noite. Melhor passar mesmo mais tempo com a vizinha que sumir de vez, sei que não tem amigas, sente falta. E a senhora o que que está achando?

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

Tarzan, o filho do alfaiate, de Sergio Leo

Você pode ouvir a música de Noel Rosa na voz de Zeca Pagodinho em que este conto foi inspirado no [link].

Tudo começou porque nada começava: nem os pelos, nem centímetros a mais, nenhum dos sinais esperados de masculinidade amadurecia no corpo magro. Nos shorts apertados da época, onde amigos de praia exibiam uma virilidade distraída, era evidente, nele, a criancice sem volume.

Como um herói, superou por conta própria a inimizade do destino: um enchimento de meias grossas, enroladas, passou a ocupar, no short, o lugar em que falhavam os hormônios. Cedo, abdicou do futebol, por medo de que, em alguma jogada brusca, lhe caíssem os colhões postiços, de algodão e poliéster.

Deixou os esportes, mas aprendeu a inflar os pulmões, com roupas de tecidos grossos, e sustentar, com o fôlego, uma robustez que não tinha. Empinava-se, controlava a respiração e andava como um lorde atlético, confiante, até tagarela, parecia mais velho. Talvez pelo esforço de carregar uma idade que não era dele, sentia uma preguiça danada.

Horas na cama, em silêncio, lia muito, e debatia, com o travesseiro, planos ambiciosos para enfrentar a indiferença do mundo. Podia passar um ano sem se aproximar da praia, do outro lado do túnel, marulhando em Copacabana. E ambicionava, muito. Cobiçava as mulheres, principalmente.

Seguia com os olhos, pelas ruas do Centro, a vendedora da loja de roupas; a cobradora do ônibus 433, que parava na Praça XV; a executiva que atravessou a rua do Comércio, sem notá-lo, e entrou elegante no edifício da Bolsa de Valores; a moça da portaria no número 9 da rua Candelária. Imaginava como seria levar à praia a ruiva com que cruzou uma vez na rua Sete de Setembro ou a secretária vista rapidamente numa breve passagem pelo Instituto de Educação, costurava fantasias com as dezenas de meninas do Instituto…

Mas a alma cobiçosa de Clayton era sabotada pelo corpo: quando, afinal, pôde dispensar a meia-enchimento da infância, espinhas tomaram-lhe a pele.

Em toda a adolescência, experimentou cremes, banhos, dietas. Por pouco tempo, tentou, na academia, expulsar a acne com exercícios entre esteiras, roldanas e pesos de ferro.

Por pouquíssimo tempo. Um leve enjoo lhe feria o estômago ao pensar em ser visto com roupas de ginástica. Não tinha paciência para movimentos repetitivos.

“Não tenho saco”, dizia, muito à vontade com a metáfora, que, no passado, o perturbava.

De peito estufado sob um terno, camiseta, blusa de malha e camisa de brim, tinha ânimo de frequentar as gafieiras, onde, suando, exercitava pulmões e panturrilhas conduzindo as moças que se deixassem levar. Passou de garoto a homem frequentando, ereto e almofadado, botecos e certos lugares na Lapa. Descobriu que, em troca de modesta e merecida recompensa em dinheiro, havia quem não só aceitasse ser levada para dançar como também lhe vendesse — barato, até — noitadas amorosas. No escuro, demorava pouco em se livrar das roupas e meter-se entre lençóis, como um gato magro e libidinoso.

Não era negócio, era romance; fazia poesia às parceiras. “O vil metal atrai as joias mais fugidias, sabia?”

Algumas faziam careta.

Mais que a leitura e um vocabulário antigo, valia o dinheiro, que gastava fartamente com os prazeres a emagrecer ainda mais o corpo miúdo.

“Economia sempre acaba em porcaria”, dizia, o lábio fino e meio torto sorrindo com o sabor da frase roubada de outro boêmio.

Era mais procurado pelos agiotas que por mulheres interesseiras. Administrava o assédio como financista amador, xingando-os sempre pelas costas; na falta de dinheiro investia em preconceito: o credor que o perturbava era “o judeu”, “o turco”, às vezes até “o armênio” — ainda que o dinheiro cobrado tivesse origem em algum comerciante de traços asiáticos.

Com as namoradas, não discriminava; apaixonava-se, em várias formas e cores. Não dava exclusividade a nenhuma, sabia que também tinha limites nas exigências.

“Estou cismado com a Maria…”

“Mas… você acha que ela…??”

“Não acho nada, estou cada vez mais perdido.”

“E…?”

“E como dizia o outro, a paixão é dor para o crânio, não para o coração. Me passa a cerveja.”

Havia, sim, algumas paixões dolorosas. Mas, enxaqueca séria eram os agiotas que financiavam as bebidas, os amores e as apostas em jogos de azar.

“Salve Clayton, quanta saudade!”

“Mas, nos vimos anteontem, esqueceu?”

“Saudade daquele dinheiro que te emprestei; há quanto tempo não dá as caras!”

Piadas velhas, argumentos batidos, os cobradores não tinha originalidade; e ainda prometiam tragédia. Com cinco anos de trânsito pela Lapa, Clayton percebeu que já não podia mais afastar credores prometendo que pagaria quando pudesse, se a loteria permitisse, se a polícia quisesse — desculpa emprestada de outro dos sócios de bebida e gafieira, que devia ter roubado de alguém.

Precisava botar de lado seu instinto de nobreza (ou de parasita, não há muita diferença nesses comportamentos instintivos).

Resolveu buscar emprego. Não foi difícil encontrar um, quando desistiu de pedir aos conhecidos uma colocação em alguma empresa privada. As leituras que não serviam para conquistar mulheres lhe facilitaram boas notas em um concurso público.

Mas, empossado na engrenagem burocrática, o salário de técnico administrativo de nível médio foi insuficiente para pedir alforria aos agiotas, a quem estavam amarrados o sexo e outras alegrias. Confiava resolver esse problema. Só não sabia como.

“Sou pobre em dinheiro, mas rico em ideias”, repetia Clayton, um pouco para si mesmo. A frase, copiava do mesmo amigo de farra que lhe dera desculpas para nunca economizar, mas os meses que se seguiram foram pobres em resultados.

Malsucedido, ouvia, miserável e interessado, histórias de companheiros de boteco, sobre mulheres apaixonadas que, em vez de despesas, davam renda. Aparentemente, estava nos músculos vistosos dos fanfarrões o poder de atração masculina que não tinha.

Os exercícios respiratórios e os cuidados de vestuário, o desembaraço, a habilidade na gafieira, todos os ativos de seu patrimônio espiritual não valiam. O caso não era de fortaleza de caráter; era de robustez visível, pujante, tônus, hipertrofia, força física.

Contaminado estava por esse desejo de potência, quando, no Antiquário da Gema, a gafieira preferida, entre uma dose de cachaça e dois copos de cerveja, após um prato de linguiças, dançando com uma senhorinha robusta chamada Adelaide, mais conhecida como Marli, Clayton teve, finalmente, uma ideia de como livrar-se da angústia que passara a ser sua companheira de copo.

Era noite de quinta-feira, quando a densa resistência dos seios abundantes colados a seu peito angustiado lhe trouxe uma epifania. Não era a primeira vez que notava, ao dançar na gafieira, uma densidade um tanto artificial ao encostar seu tórax empinado nos peitos de alguém; mas, conversando com a companheira de dança, lembrou-se de que o artifício não era privilégio das mulheres.

“Doeu muito?”

“Doeu nada, bobo; te dão anestesia antes de fazer o implante”.

Era mentira, dores incômodas haviam perturbado alguns dias de pós-operatório; mas Marli achava deselegante revelar as dores e desconfortos comuns à vida das mulheres belas.

O fim de semana foi dedicado à intensa pesquisa sobre o tema, entre amigas e amigos da fauna boêmia. E, três quintas-feiras depois, Clayton viu-se na horizontal, em uma cama cirúrgica, o peito liso decorado com marcas tracejadas na extensão do músculo peitoral maior, num desenho com dezessete centímetros de distância entre o ponto mais baixo e o mais próximo do ombro.

O médico, recomendado após uma rodada de consultas à rede de relações formada por ele em tardes e noites de exploração da selva noturna do Rio de Janeiro, havia lhe mostrado já na sala de operação a bolsa de silicone almofadada, com quinze centímetros de extensão, que lhe seria incorporada, dando-lhe um volume de halterofilista amador.

“Esse troço não rasga?”, havia perguntado o paciente, apontando o singelo e maleável peito artificial.

“Não tem chance. Isso é material europeu”, tranquilizou o doutor, sopesando com a mão segura o volume translúcido e gelatinoso.

Amparado pela escuridão da anestesia exigida por ele, Clayton dormia quando o médico inseriu, nas marcas pontilhadas, a agulha grossa por onde injetou um líquido destinado a facilitar o trabalho de descolar seus músculos de sua cama óssea, para, entre carne e esqueleto, meter o pacote de silicone. Um corte seguro na axila abriu na pele de Clayton uma fenda avermelhada, uma boca sem dentes, de lábios finíssimos e gengivas amarelentas de gordura encaroçada, logo arregaçada para os lados por largas pinças metálicas e penetrada suavemente pelo cirurgião com uma espécie de tesoura de bico encurvado, os dedos enluvados de borracha e uma gaze enfiados também para separar cuidadosamente os tecidos, de forma a abrir um buraco por onde meter, em seguida, o acréscimo artificial nos peitos do herói.

O dedo enluvado do médico enfiou-se totalmente na cavidade mole e indefesa rompida no peito de Clayton, e se mexeu lá dentro, um volume móvel, visível e decidido sob a pele, testando os limites da incisão cirúrgica. Pelo buraco aberto, um outro instrumento, como uma colher de metal brilhante, completou a tarefa de descolar músculos e outros tecidos, lacerando Clayton como a um frango inerte em que se abrisse uma enorme ferida sem sangue.

De olhos fechados, rosto sereno, o herói não moveu uma fibra muscular no rosto enquanto, pela abertura criada, o médico lhe introduzia no corpo a prótese almofadada, de cor ligeiramente leitosa, apoiando o dedo indicador esquerdo para criar uma pequena dobra na bolsa de silicone, e usando o direito para conduzir o pacotinho espremido corpo adentro, empurrando o volume pela abertura estreita. Uma vez colocada sob o músculo, a mama artificial foi acomodada com uma precisa massagem das duas mãos do doutor por cima do peito de Clayton, até encaixar o material no lugar marcado.

Um bem definido peitoral de atleta passou a luzir onde antes havia o tórax de um frangote. Em menos de uma hora, o médico lavava as mãos, assoviando. Intervenções semelhantes deram a Clayton um abdômen definido, novos braços e antebraços de grande primata civilizado.

As primeiras semanas com o novo corpo foram dolorosas. Clayton teve de usar uma camiseta elástica e evitar movimentos amplos nos braços. Aprendeu a valorizar pequenos gestos. Demorou um pouco até passar o medo pânico de deslocar o novo complemento corporal, em algum movimento brusco.

De peito novo, ele foi à luta. Teve alguns sucessos amorosos, mas desidratou-se, pouco a pouco, a esperança de pagar a dívida contraída para a operação com dinheiro generoso das amantes, que não veio nas medidas das necessidades.

E, por elas, as necessidades, perdeu o controle. Acreditou ter a força que só existia nos olhares impressionados, das moças e dos turistas na praia que voltou a frequentar para exibir a boa forma.

Ameaçou briga, quis rasgar os contratos com os agiotas. Com o silicone, e o desespero das finanças em crise, viu implantada na alma uma ferocidade sobre-humana, que desconhecia.

Para surpresa até dele mesmo, cercado um dia por emissários violentos de um dos credores, ao sair de um bar que já ia fechar, em um canto mais escuro dos Arcos da Lapa, partiu de peito aberto para enfrentar os gorilas.

Aos gritos, bradava insultos, a face vermelha.

E veio aquele soco.

Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos Mentiras do Rio (Editora Record); publicou Ascensão e Queda do Império X, sobre o fiasco de Eike Batista (Editora Nova Fronteira), “Segundas Pessoas” (conto, e-galáxia) e contos nas revistas Pessoa, La Pecera e Flaubert. Foi curador da 3ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, e jurado do concurso de contos Machado de Assis (Sesc/DF); participou de duas exposições coletivas no Museu Nacional de Brasília. Trabalhou no Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Isto É Dinheiro e Isto É.

o buraco, de Luciana Pinsky

Passa por lá todos os dias. E todos os dias vê o bueiro. Inicialmente a tampa não encaixava direito. Sempre que algum carro cruzava a esquina o som metálico da dança da tampa a incomodava. Com o tempo, os carros evitavam o lugar, tornou-se um transtorno. Quando chovia, a tampa pulava e rios invadiam a pista, como cupim no fim da tarde quente de verão.

Depois da chuva só ficava a desgraceira. A sujeira. Atordoados, vizinhos colocavam cones para indicar que o lugar já não era rua, era breu, era o fim. Ainda assim, alguns carros metiam a roda; e o prejuízo em tempo, dinheiro e saúde mental era certo. Por sorte a tampa não foi roubada, destino de várias outras tampas de bueiro da cidade.

Um belo dia de sol o buraco estava fechado. A tampa não estava nem um milímetro para cá ou para lá. Milagre? No dia anterior, ela vira 13 homens uniformizados, 10 pás, um caminhão e uma máquina inédita. Tudo isso para domar o buraco que voltara. O buraco que sempre voltava. Alice, desconfiada, pediu para falar com o chefe.

— Vocês estão fechando o buraco?

— Sim.

— Tá feio, né?

— Sim.

Os 13 homens trabalharam por duas horas. O asfalto ficou brilhando, sem um buraquinho. O bueiro fechado. Mas Alice sabia que nem seria preciso esperar pelo verão. A chuva de outono já faria jorrar um rio, o rio levantaria a tampa, a tampa ficaria perigosa para todos que passam e o buraco retornaria.

— Mas alguém consertou o encanamento lá embaixo do bueiro, que faz com que ele transborde toda vez que chove um pouco mais?

— Nosso trabalho é fechar o buraco e é isso que vamos fazer. Com licença.

Rio, buraco, bueiro, asfalto arrumado, asfalto rompido… ah, Alice conhece tanto essa história. Tanto tempo fechando buraco para quê? De outra feita, ela vira, jogaram asfalto frio no buraco e ajeitaram com o tal rolo-compressor. Premido pelo rolo, o buraco ficou intimidado. Mas um mês depois já começava a se revelar, primeiro timidamente, depois em sua plenitude.

Ela também guarda um rio em sua alma, que não raro invade seu corpo. E ela fecha, sempre fecha. Com antibióticos, antidepressivos, anti-inflamatórios e mais tantos antis que achar na farmácia. E o buraco fecha, fica tudo bem, a chuva vem e.

— Mas, senhor, enquanto o encanamento que vai abaixo do bueiro não for consertado, você fecha hoje e na primeira chuva abre de novo.

— Olha, até pode ser. Mas isso é outro departamento. Nós cuidamos de fechar buraco.

Seu rio caudaloso começou com um lago tranquilo. As chuvas vieram sem avisar e as águas nunca mais foram calmas. Às vezes, represadas, mantinham-se na linha. O sol parecia um alento. Mas logo o céu cinzento fazia o rio explodir e a tampa do bueiro da alma ganhava os ares.

— Não seria melhor chamar alguém para consertar o problema das águas antes de mexer no buraco?

— Moça, o que você quer de mim? Não dá para deixar o buraco desse jeito, é perigoso, alguém pode cair.

Alice ainda testemunhou aquele buraco voltar algumas vezes. Na última, puseram uma cadeira dentro. Um senhor sentou e começou a ler um livro, como se estivesse na sala de casa. Tiraram foto, apareceu em rede social, em TV, em jornal.

Dois dias depois, dois homens estavam junto ao bueiro. Um entrou, o outro tratou de fornecer o que o primeiro pedia lá de dentro. Quando Alice passou novamente, na hora do almoço, eles estavam partindo.

— Vocês consertaram o vazamento?

— Sim, acho que fazia tempo que ninguém entrava aí.

Investigar os recônditos do corpo, descobrir o que transforma águas calmas em tsunami. Ah, como é difícil. Fazer isso em pleno ataque das águas é impossível. Alice esperou dias ensolarados e lá foi, escarafunchar a pele até encontrar em lugares que nem imaginava existir dentro de si os ventos que enfureciam as águas que abriam crateras que exigiam tantos antis. Falou com os ventos, pediu calma às águas, mas antes de fechar buraco deixou escorrerem bile, secreções, excrementos.

— Mas consertaram para sempre?

— Para sempre é muito tempo. Mas posso dizer que o problema que havia foi reparado. O bueiro fica em área de declive e quando chovia vinha tudo de uma vez, a força das águas era inclemente. Agora a água chegará de forma mais suave evitando novos danos.

Evitar novos danos. Por ora, bom demais.

Luciana Pinsky é, originalmente, jornalista, com passagem pela revista Época e pelo jornal Valor Econômico, entre outras publicações, e se enveredou para a ficção, especialmente para crônicas. Publicou um romance, Sujeito oculto e demais graças do amor (Editora Record). Atua, desde 2005, como editora de livros pela Contexto. E mantém seu blogue de textos ficcionais: http://lucianapinsky.blogspot.com/

caso esteja por aí, de Ivan Hegen

Dava um certo ódio quando meu pai falava, com a maior naturalidade, para mim e para meu irmão, Uma pena que vocês não tiveram mãe. Posso não me lembrar de nada, mas eu tive mãe. Por dois anos, que seja, mas a sensação permaneceu, um calor, uma reminiscência mais física do que mental, uma espécie de rede protetora colada à pele que levarei para o resto da minha vida. E nós temos os vídeos, posso ver e sentir que era uma mãe afetuosa. Meu irmão bem pequeno, no colo, ela cuidando dele como criatura frágil e preciosa recém-gerada, ou brincando comigo, me fazendo cócegas e soprando em meu ouvido para eu dar risada.

Eu tive uma mãe pura como ninguém mais teve. É um saco ela não ter me acompanhado, não ter me visto crescer. Por outro lado, não tive a chance de decepcioná-la, ela se foi cedo, ficou livre de testemunhar todos os meus erros. Também permaneci pura enquanto ela viveu. Deve ser por isso que ainda carrego uma inocência no olhar, que sofrimento algum consegue apagar de todo. Este meu olhar resiste às intempéries, resiste à minha própria degradação, algo que permanece irredutível aos acontecimentos. Ao menos uma pequena parte de mim não se deforma pelo que me ocorre, escapa ao alcance de tudo que se corrompe.

Também não gosto de ser vista como uma coitada por ser órfã, apesar de admitir, com uma infelicidade, que tudo se passou mais devagar para mim por não ter tido esse exemplo maternal enquanto crescia. Meu grande esforço não pôde deixar de ter sido esse, o de ser menos seca, menos fatalista, e descobrir praticamente sozinha como me afeiçoar ao mundo, como receber alguma ternura e me humanizar. Crescer só com o pai. Muito mais difícil para mim, entender a dinâmica adulta entre um homem e uma mulher sem acompanhar desde o lar o que é um casal.

Nos meus momentos mais sombrios, é inevitável, imagino que meu pai, de alguma maneira que nem sequer vou saber com muita precisão, deve ter adoecido minha mãe. Eu sei que é um exagero, mas ainda pior é pensar que o amor filial de minha parte e do meu irmão não a salvaram. Eu me culpo também, e é o tipo da coisa que nem adianta falar com ninguém, porque só vão dizer que é besteira minha — e, na verdade, é mesmo uma besteira sem tamanho. Um peso que me acomete de vez em quando, mas depois de me torturar um pouco eu respiro fundo e me aprumo, sabendo que é um masoquismo dos mais desaconselháveis. Quando assisto aos vídeos, a sensação que prevalece é a de que ela tinha amor de sobra por mim e pelo meu irmão. Pelo meu pai, não tenho certeza. A tia Clara diz que meu pai ficou enciumado quando ela passou a dar mais atenção para os filhos do que para ele. Dizem que isso é comum, o pai preterido, com dificuldade para se conformar em ficar para segundo plano. Vez em quando parece ter algo de mórbido no velho, que drena as energias de quem fica muito perto dele. Na verdade, o que me incomoda é ele falar muito pouco, quase nada, sobre a mãe, e eu nunca sei se é por a dor ser grande demais e jamais ter se fechado ou se porque ele já não tinha amor por ela nem quando estava viva, quando menos por uma esposa morta.

Este texto não se dirige a ninguém aqui da terra, mas pode ser que do além possam nos observar, que minha mãe esteja bem aqui, ao meu ombro, acompanhando cada palavra que aparece na tela do computador. Como é que vou saber, se não morri? O que não me convence é o Deus moralista, não consigo levar a sério a ideia de um Deus barbudo e onisciente que tem a manha de criar um universo inteiro e, depois dessa obra tão vasta e complexa, só se interessa pela mixaria de saber se você vai se casar virgem, se masturbar, falar palavrão ou beijar gente do mesmo sexo. Também tem gente que acha que Deus é bondoso, que ele tirou minha mãe de mim aos dois anos de idade porque escreve certo por linhas tortas. De linhas tortas já me bastam as que estou digitando agora. Ao menos tenho a humildade de dizer que não faço ideia do que acontece depois da morte. Acho desastrosa a prepotência dos que julgam que você vai para o inferno se não agir exatamente como querem, mas também acho o materialismo convicto uma posição acomodada. Quando foi que a ciência provou que não existe vida após a morte? Pode até ser que exista uma espécie de “Deus”, mas provavelmente muito diferente do que a imaginação humana concebeu até agora. Acho que exige maior caráter ser agnóstica do que ser ateia, porque a gente vive com a dúvida em aberto. Até o materialismo é uma certeza apaziguadora, porque põe tudo nos eixos, torna o mundo previsível e explicável.

Dito isto, eu me sinto bem ridícula falando diretamente para ela, mas lá vou eu. Mãe, desculpa por essas páginas confusas. Foi só pensar em você pra minha escrita ficar toda em ziguezague, indo e voltando, hesitante como eu sou quando não sei o que há a um palmo do meu nariz, seja em relação a esta vida ou à outra. Mãe, para mim você é principalmente um conceito, de bondade e de pureza, que eu carrego sempre dentro de mim, mas confesso que não penso em você tanto quanto deveria ou poderia. Se você de algum jeito me observa, já deve desconfiar disso, que eu sou inconstante, que eu sou volúvel, que eu erro muito. Eu gostaria que você tivesse ajudado a guiar meus passos, me aconselhado, me irritado um pouco, até mesmo brigado comigo. Você aí, no além… eu estou falando para você, mas é melhor ser franca e dizer que estou me dirigindo a você como uma hipótese.

No fim das contas, é preferível me considerar desgarrada de você, e eu também prefiro pensar que a culpa pelos meus atos é toda minha, que você não falhou como mãe. Triste que minha fé seja fraca e interesseira, que eu só me ponha a imaginar que você está ao meu lado me escutando nos meus momentos de desespero. Estou sem pistas, mal sei para que lado virar. Eu não tenho a menor ideia de como é a logística aí do além-túmulo, mas se puder me mandar algum sinal, se puder me ajudar a fazer minhas escolhas, aproveite agora, quando estou mais vulnerável do que meu normal, para me fazer prestar atenção. Nem depois de morta eu te dou descanso, não é, mãezinha? O mundo dos vivos é um caos, sorte sua não pertencer mais a isto aqui. A qualquer momento, portanto, um sinal. No fundo eu quero, eu quero muito, mudar, só não encontro forças, encorajamento. E eu queria, sim, a minha mãe, quem não quer?

Ivan Hegen nasceu em São Paulo, em 1980. Formou-se em Artes Plásticas e tem mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Publicou os livros A Grande Incógnita (Annablume, contos, 2005), Será (Ragnarok, romance, 2007), Puro Enquanto, (E Editorial, romance, 2009) e Rock Book — Contos da Era da Guitarra (org., Prumo, 2011), A Lâmina que Fere Chronos (Prumo, 2013) e Clarice Lispector e as Fronteiras da Linguagem (Benjamin, 2016), além de artigos para diversos sites e revistas sobre estética e política.

larápio, de Laura Elizia Haubert

As coisas estavam sumindo lá de casa, mas ninguém falava sobre isso. Também não falávamos sobre quem roubava. Fingíamos que não víamos os vasos chineses, as fitas do Purple Rain e a televisão irem embora, de uma única vez, na sacola preta que meu irmão carregava sem discrição.

Era um domingo. Meus pais estavam na cozinha, e por isso ele teve que roubar da sala. Eu estava no quarto protegendo minhas posses segurando um cabo de vassoura, resoluta. Essa coragem vinha não sei de onde, porque eu não costumava tê-la nas veias. Hoje, quando penso nisso, acho que ela veio do ódio; ainda que ódio seja uma palavra forte, e que mamãe não gostasse que eu a pronunciasse, sentia-o vigoroso.

“Você não pode odiar seu irmão!”, ela me disse.

Levei só um instante para desistir da resposta, porque já estava odiando. Pronto. Não havia uma saída para fazer o retorno, não havia placas nem acostamento nessa estrada empoeirada que era o meu ódio. Comecei a odiar meu irmão duas semanas antes de segurar o cabo de vassoura no quarto à sua espera, naquele domingo.

Comecei a abominá-lo em um sábado à noite. Ele apareceu com olhos vazios, tão vazios que me apavorei. Quis bater nele, mas foi ele quem me bateu no final das contas. Apanhei o suficiente para ficar no hospital por três dias e duas noites; quando recebi alta estava ainda com manchas roxas pelo corpo. Meu irmão não queria me bater, mamãe tinha dito com olhos inchados de tanto lacrimejar. “Ele só queria dinheiro, nem sabia quem você era.” Essa constatação doeu mais do que a surra. Ele podia estar louco. A gente briga, apanha, não devia, mas acontece. Agora, esquecer um irmão é coisa que não se faz.

Meu pai era terapeuta. Um homem paciente. Demais, até. Entrou no quarto do hospital assim que mamãe saiu, sentou-se plácido e perguntou se eu queria conversar a respeito. Puta merda. É claro que eu não queria. Eu mal podia falar de tão inchados que estavam meus lábios. Eu queria bater naquele desgraçado, só que ia apanhar de novo. Então me contentei em resmungar um não e ficar calada. Papai ficava desgostoso se ouvia palavrões saírem dos meus lábios, então disse todos eles apenas em minha mente.

Meu irmão ficou sem aparecer depois disso. E assim como ele, nós fingíamos que nada tinha acontecido. A história é que eu caíra, sabe Deus onde. Só que eu sabia que papai saía para procurá-lo toda noite. Estava sempre ansioso, querendo saber se faltava algo do mercadinho.

A verdade é que a cidade era grande, e os viciados se espalhavam por suas sendas como se conhecessem seus segredos. Só que papai nunca o encontrou. Sorte dele. De fato, meu irmão sempre foi um garoto de sorte, ganhava todas as rifas que comprava, mesmo quando comprava um único número. Eu podia comprar todo um talão de rifas e nunca ganhava nada. Talvez nem se fosse a única pessoa concorrendo.

Depois disso, mamãe chorava mais alto quando chorava escondida. Às vezes no banheiro, às vezes na cozinha. Eu sabia que ele nunca quis magoá-la. Ele só não conseguia mais se controlar. Seu corpo não era seu, sua mente estava em outro lugar. Ao menos era o que eu queria acreditar, assim ficava mais fácil perdoar os acontecimentos dos últimos meses. E eram muitos. Se eu pudesse transformá-los em pingentes, eles encheriam um pote rapidamente.

Se me lembro bem, a primeira coisa a sumir foram as joias de mamãe. Um clássico. Pena, elas não eram muitas: resumiam-se a um pingente de ouro em forma de coração e um anel com um diamante solitário que recebera de herança de sua mãe, e um dia seria meu. Bom, não mais. Agora, provavelmente, estava no dedo da namorada do traficante. Depois desse roubo, mamãe chorou na nossa frente, se perguntando se ao menos ele obtivera um bom preço por elas, como se isso importasse.

Por fim, creio que ele não conseguiu um bom preço, já que não demorou pra voltar. Talheres. Vasos. Eletrônicos. Até roupas. O que estivesse à vista quando meu irmão entrava em casa terminava perdido lá no complexo da Maré. E já não importava quanto papai pagara por esses objetos, eles valiam menos, muito menos, valiam um pouco de pó, um segundo de excitação, um outro hype.

No começo, acreditava que ele sentia remorso. Digo isso pelo modo com que seus olhos escorriam para o canto quando encontravam os nossos. Depois da surra, já não creio mais. Deixei minha fé no chão junto com o sangue que suas mãos arrancaram. Papai ainda não consegue falar sobre isso, ele se refere ao acontecido pelo termo “acidente”. Não foi um acidente. Acidente é andar na rua e ser atingindo por algo aleatório, é derrubar a xícara de café, acidente é cocô de pomba cair no seu ombro enquanto se espera o ônibus no ponto.

Quando meus pais se dão conta que meu irmão está indo embora da sala com uma sacola cheia de pertences, eles não falam nada, suas mãos fecham a porta da cozinha, como se uma brisa os houvesse incomodado. Mamãe murmura uma prece. Ela sempre ora quando está com medo. Papai chama o porteiro pelo interfone para avisar que o filho não pode subir mais, não está autorizado.

Eu estava lá no quarto, pronta para a revanche. Meio atordoada, percebo que a revanche não vai acontecer. Meu irmão foi embora tão rápido que nos deixou ainda mais estarrecidos do que quando era violento. Não esperávamos essa discrição, essa ausência. Ele nos havia roubado com uma certa decência.

Desço para a sala, e há um buraco ali deixado pelas coisas que não existem mais, deixado pelo seu cheiro. Não falamos sobre isso também. Mamãe abre a porta da cozinha e avisa que o jantar está servido. Desta vez jantaríamos sem o barulho do Fantástico ao fundo. Não havia mais televisão. Porém, é claro, não falaríamos sobre nada disso. Nunca falávamos.

Laura Elizia Haubert é graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Participou de antologias de contos como As coisas que as mulheres escrevem, pela Desdêmona Editora, e também de revistas literárias como a Revista Ponto, do SESI-SP, e a Revista Subversa. Publicou em 2015 pela Editora Multifoco o livro Ode à Nossas Vidas Infames e em 2017 pela Editora Patuá o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul. Publicará, ainda em 2019, pela Quintal Edições, o livro Memórias de uma vida pequena. Atualmente vive em Córdoba, na Argentina.

interesses, de T. K. Pereira

capa_TKÉ o inferno de sempre. O senhor me desculpe a demora, mas nem o GPS está dando conta desse trânsito hoje. Tomara que não esteja com pressa. Tem água gelada e balinhas de menta, coisa boa, não essas porcarias de ambulante em sinaleira. Fique à vontade. O ar-condicionado deu defeito ontem, eu ainda não tive tempo de arrumar. Desculpe por isso também. Ainda bem que hoje está fresco, céu azul, dia bonito. A gente tem que ser grato, viu? Ô clima bom o nosso. Às vezes esquenta, mas fazer o quê? É um país tropical — nada a ver com essa conversa fiada de aquecimento global. Mas já vi climas piores, viu? No norte da África, por exemplo, o sujeito até sufoca de tão quente e seco que é. Trabalhei lá por um tempo, conheci aquilo tudo, até o Saara. Faz tempo, foi em setenta, eu era almoxarife em mineradora, veja você.

Conheci o povo, aqueles muçulmanos filhos da puta. São como os evangélicos daqui. Pensa naquele tipo bem pelinha, de culto em sede velha de boteco, fanático mesmo. O muçulmano é dez vezes pior. Povo maluco. Eles têm isso lá de ter várias mulheres, a gente até imagina, mas ver é outra coisa. Tinha esse colega que tinha três esposas. Não sei como, eu mal dei conta de uma, mandei logo pastar. Eles escolhem elas, daí cortam fora o clitóris, que mulher lá é pra procriar, não pode sentir nada. Mulher lá não goza! O senhor me desculpe aí o popular, mas é isso mesmo: elas não gozam, é proibido. Dizem que o homem também corta a cabecinha, que é pra facilitar, afinar. Muçulmano é tudo assim, barbado da pistola longa e fina.

Eu já vi cada coisa nesse mundo… O problema é a religião, essa coisa de igreja, fé, isso ferra com a cabeça de gente pobre, e o povo de lá é miserável, acaba ficando na mão dos osamas e saddams. O Brasil fica longe disso não, aqui só falta explosão porque morte tem até demais; a fé é negócio, é política, tudo misturado. A corja daqui não manda derrubar prédio com avião porque o que interessa é dinheiro. E o pobre segue na miséria, sofrendo com fé. É dureza essa vida de sempre correr atrás e ficar preso em trânsito, fila, burocracia.

Acabaram de avisar no celular: tem manifestação fechando a avenida lá na frente. Tinha me esquecido. Bem na véspera de feriadão. Típico. Datas esse povo sabe escolher, né? Centro é complicado demais, qualquer coisinha entulha tudo, chuva, obra, manifestante. Eu nem acho errado, sabe? Tem mais é que manifestar mesmo, reclamar, esse país está uma zona. Mas tem que saber fazer, não pode atrapalhar a vida de gente decente, trabalhadora. Também não pode sair por aí quebrando tudo porque quem paga é a gente mesmo. Tem que raciocinar, aprender a lutar. Todo mundo sabe que a corrupção é um problema, mas parece que ninguém aprende: políticos roubam, roubam, roubam, e ainda conseguem ser eleitos. As pessoas vendem o voto por uma cesta básica, aí fica difícil. Mas é problema de quê? Falta de educação, é claro, tem que educar o povo. Não é só melhorar escola. Eu mesmo, que só tenho segundo grau, graças a Deus, sou educado, conheço os problemas.

No Brasil a política é para enriquecer. Só ver os safados de sempre: é coronel do Maranhão, bilionário que não larga osso, presidente papa-poupança que cai e volta, deputado, governador e senador com nome sujo, e ainda no cargo. É denúncia, propina, golpe, contragolpe. Tem que acompanhar, ficar por dentro pra poder fazer sua parte. E tem que reconhecer quando a merda explode; vê o caso do impeachment da presidente — e digo presidente mesmo, que presidenta é o escambau; além de roubar ainda querem matar o português? Votei nela, não tenho vergonha de dizer. Até achei que ela não tinha feito nada errado, que todo mundo é inocente até provar, não é assim? Pois é, agora nem sei. Se todo mundo parece ter o rabo preso, se até o Lula traiu o Brasil, ela deve ter culpa também. Fico puto porque pra mim é tão simples: se recebo uma denúncia, o que faço? Mando investigar, porra. Tomo atitude, chego lá para os companheiros e aperto, digo que vou investigar todo mundo suspeito e quem estiver envolvido vai cair feio, que no meu partido não fica corrupto nem safado. Chamava a imprensa no mesmo dia, falava das denúncias recebidas, “nosso governo vai investigar e punir os responsáveis”. Mas político é tudo burro, prefere ficar quieto, fingir de morto. Hoje em dia nada mais fica escondido. Esse povo não aprende, por isso que o país está nessa merda, nesse vai-não-vai do caralho.

Você me desculpe o mau jeito, mas é de dar ódio. Você tenta se manter antenado, tenta votar com consciência, daí esses canalhas te traem. É tudo treta de partido, não tem um que presta, essa é que é a verdade. Tem que resolver a corrupção, povo tem que se unir, fazer petição, que hoje é bem fácil, pega lá um monte de assinatura rapidinho na Internet, faz logo uma lei nova. Fosse por mim era até mais simples, três coisas para resolver. Primeiro: político envolvido em corrupção tem que ser julgado como cidadão comum, sem essa de imunidade parlamentar, de foro privilegiado, nada disso. Segundo: condenado ou não, o político não pode se candidatar a mais nada, perde o direito de participar da política. Terceiro: todo o dinheiro roubado deve ser devolvido em até quarenta e oito horas. Isso aí, simples. Não tem por que complicar.

Entendo dos problemas, e nem é porque vejo TV ou leio muito — faço isso também porque a gente tem de estar ligado —, mas sinto nas ruas, sabe? A gente entende o país é pelas pessoas. A maioria delas não está nem aí, é tudo interesse próprio. Empresários, por exemplo: tratam o empregado como escravo. Eu sei por que já vivi muito isso, mas me libertei. Hoje, acima de mim só Deus e avião.

Outro dia eu estava carregando um empresário bem escroto: ele disse que, com crise ou sem crise, é preciso jogar duro, que na empresa dele funcionário tem que dar lucro, senão é rua; se não fosse por lei, ele não pagaria direito nenhum. Porque o empregado é importante, mas é o empresário que carrega o país nas costas, ele disse. Acredita? Até tentei argumentar, mas sabe como é esse tipo de gente. Ouvinte bom e atencioso assim como o senhor está em falta.

Se me permite, em quem o senhor votou no ano passado? Tudo bem se não quiser dizer. Na verdade, tenho evitado falar disso, a pergunta é difícil, as pessoas estão muito sensíveis. Mas o senhor me parece bem racional. Tremendo pega pra capar, nunca vi eleição como essa, até facada em candidato teve. Se bem que eu truco essa história aí. Já viu facada sem sangue? O homem lá é malandro, e tem que ser mesmo: os comunistas são desonestos. Tem que fazer o jogo deles. Votei neles a vida toda, hoje sei a verdade e me arrependo — nem vermelho eu uso mais, queimei tudo. Quando chegaram lá eles me traíram, traíram o Brasil. Tanta coisa errada pra consertar e ficavam de nhe-nhe-nhe de ideologia, plano-gay, do tal marxismo de cultura. E a coisa ia piorar: vi esse filósofo na internet alertando contra a invasão muçulmana. Você acha que essa história de migração na Europa é a troco de nada? É pra destruir o capitalismo. Eles são farinha do mesmo saco. Graças a Deus que o homem lá não morreu, já pensou? Mais quatro anos nas mãos dos calhordas? Não senhor, chega, esses daí não me enganam mais. Nem adiantou tentarem fraudar as urnas, a voz do povo falou mais alto. O Brasil precisa é de ordem, pulso, gente nova que não está aí pela mamata, que quer colocar o país no rumo. Eu me informo, sei o que dizem por aí do presidente, mas é como eu disse, tem que ouvir as ruas e não dar trela para fake new — é assim que fala, né? O povo está cansado de roubalheira, da violência, impunidade. Quero ver ligar pra gay, índio, feminista e o escambau com uma arma enfiada na cara, desempregado, passando fome, sem-teto. Eu sei bem como é, mas a violência é o pior. E já que o governo não dá jeito, que pelo menos me deixe garantir minha segurança. Pode apostar que vou me sentir bem mais seguro dirigindo por aí com uma arma a tiracolo.

Agora, se o homem trair a gente também, sem problema, é só manifestar, que nem da outra vez, pôr pressão. Mas duvido que precise. Ele não é burro; não vai chegar em Brasília e ficar mandando matar gay, índio, acho mesmo é que ele não tá nem aí para eles, só quer tirar o país da lama. E quem é que não tem preconceito, não é verdade? Não importa o que ele pensa ou deixa de pensar, desde que não prejudique ninguém. Tenho lá as minhas birras, mas cuido da minha vida. Que cada um cuide da sua. E olhe que não concordo em tudo com o homem: acho que empresário tem regalia demais, tem que ajudar é o trabalhador, mas se, para sair da crise, a gente tiver que fazer sacrifícios… Eu sou contra extremismos, mas, às vezes, pra melhorar tem que piorar antes.

Vai descer por aqui mesmo? Ainda estamos longe… Mas do jeito que o trânsito está, é capaz de o senhor chegar mais rápido a pé. É até melhor pra saúde. Se pudesse largava o carro por aqui, mas sabe como é, a gente tem que ganhar a vida. Desculpe qualquer coisa. Vou encerrar aqui a viagem do senhor. Tome aí: cinco estrelas. Se puder retribuir… Tenha um bom dia e vá com Deus, que é brasileiro, mas não dá jeitinho.

| conto do livro Vozes (Editora Caos & Letras, 2019), que será lançado quarta-feira que vem, dia 6 de novembro, em Belo Horizonte [link]. |

T. K. Pereira é autor de Vozes (Caos e Letras, 2019). Organizador do projeto 7 coisas que aprendi, acervo com mais de 100 depoimentos de escritores. Publicou contos em várias antologias. Siga o autor em seu site oficial: https://tkpereira.com.br

sábado, de Natalia Timerman

rachaduras_natália timermannome: MAYKON ROMUALDO SEVERIANO DA SILVA
mãe: CRISTIANE SEVERIANO DA SILVA
pai: IGNORADO
nascimento: 10/02/1988
matrícula: 1.220.872

Lógico que era ele, quem duvida?, a gente já reconhece de longe, pelo passo, pelo andar, bandido que é bandido solta cheiro, aí chegou perto, pronto, aquelas tatuagens, pronto, confirmou, são anos de prática, dona, tava na cara, tem gente que tem cara de bandido mesmo e pronto, revistei e num deu outra, tava ali, um toletão desse tamanho, 50 gramas na pesagem, disseram, agora é muita cara de pau o sujeito achar que a gente é trouxa, que a Justiça é trouxa, a gente é a porta de entrada da Justiça, falou tá dito, é assim mesmo que tem que ser, ou você acha que a juíza vai acreditar mais no malandro que em nós?, aqui é anos de estudo, um salário a zelar, nada de outro mundo, né?, mas tem o garantido no fim do mês, quase tudo tem família, tudo na honestidade, criminoso são eles, já vem com cara de canalha, e mentem, mentem bem, viu?, se a senhora visse, num faz escola mas vai tudo pra escola da vida, é lá que aprendem o crime, a malandragem, tem que pagar por isso, é dever nosso, limpar a sociedade, cadeia é pra isso, oi?, e se não foi ele?, tá duvidando da minha palavra, dona?, olha lá, hein, eu num faltei o respeito com a senhora não, tô te dizendo, tava ali no bolso, se ele ia ser burro a esse ponto?, ué, mas foi, vou fazer o quê, tô só cumprindo o meu papel, não teve violência nem nada, tudo na medida, na medida certa, se a gente chega bonzinho também os cabra num respeita, tem que impor a autoridade, mas sem exagero, tudo dentro dos treinamentos, gritar faz parte, botar o cara de joelho é somente a técnica, vou fazer o que se o cara tava resistindo?, eu fui bonzinho, ele podia ter pego desacato, mas não quis sujar pra ele não, da próxima a dona vai ver aonde é que as coisas podem chegar.

Eu nunca passei por isso, por essa humilhação, era sábado, eu deito a cabeça de noite e passa o filme todo na minha cabeça, não durmo, não acredito, eu converso com os caras aí e eles dizem que tráfico é no mínimo cinco anos, eu volto pra cá e choro, eu não fiz nada, não era meu, quem acredita? Era sábado, eu tava com dinheiro da funilaria, te disse que tô aprendendo funilaria e pintura, né? Faz três meses, tô no EJA também, tava, eu tava, era sábado, eu tava com cinquenta reais, minha mãe disse pro policial que era meu o dinheiro, e ele, não, isso aí é de venda que eu sei, eu nunca passei por isso, eu tenho como provar, mas na audiência de custódia a juíza nem quis me escutar direito, tava comigo, pronto, é meu, foi assim. Era sábado, deixei minha namorada no ponto, às vezes eu durmo na casa dela mas nesse dia eu tava em casa, fui só deixar ela no ponto, abracei ela, beijei, despedi. Fui andando, 50 reais no bolso, não, 40, eu dei 10 reais pra ela, passei na padaria e comprei um saco de pão doce e um danone, fui comendo no caminho, aí eu fui comprar maconha, eu num sou santo, né? Sou usuário, usuário de maconha, mas o que eu faço eu assumo, eu nunca trafiquei, tem um ponto perto de casa, um ponto de droga, tava lá, já me avisaram da movimentação, uma vizinha disse que tinha polícia na área, aquele clima estranho, a gente num sabe como, por quê, mas tem alguma coisa estranha, quem sai pra fora fica pouco. Era sábado, o traficante chegou, eu queria cinco reais, ele disse pra eu segurar o bagulho que ia ver se tava tudo limpo, colocou no meu saco de pão doce, eu não vi, essa hora não, não era muito, só vi depois quando o policial pegou e jogou em cima do carro, eu fui ouvindo os passos e achei que era o cara voltando, mas era o polícia, dei bom dia, eu nunca fiz coisa errada, quer dizer, sou usuário, eu não achei que ele ia vir pra cima de mim, ele achou logo o bagulho, eu disse que não era meu, era do menino ali. Era sábado, a vizinha já foi chamando minha mãe, a cara dela, eu nunca fiz isso, as lágrimas escorrendo na cara dela, acho que ela achou que eu tinha feito sim, aí o polícia chutou minha perna por trás e eu caí de joelho, muita humilhação, chutou minha costela, veio outro e bateu mais, eu quieto, eu quieto, olhei pro lado quando alguém passou, era sábado, e me bateram mais, pra eu olhar pra baixo, as mãos pra trás, aí ele disse pra gente passar na minha casa pra pegar meu RG, de viatura, de viatura, eu nunca passei por isso, minha mãe vendo eu lá dentro, ela veio vindo atrás, chegamos antes, minha irmãzinha tava em casa, de 10 anos, eu disse, Rai, pega meu RG na bolsa da mãe. Ela chama Raiane, eu chamo ela assim, Eu num sei onde tá, a Rai disse, já tava assustada, eu naquela situação, que vergonha, mas como é que eu vou ter vergonha de alguma coisa que eu não fiz, mas tenho, como se eu tivesse feito, o polícia aí gritou, gritou com a voz alta, Como é que você não sabe onde tá a bolsa da sua mãe? Aí eu perdi a cabeça, xinguei mesmo, Cê tá louco?, num tá vendo que ela é só uma criança?, e se ela fosse tua filha?, e o polícia transtornou, disse que eu tava fudido, que ia dar desacato também, nisso minha mãe chegou, tava chorando, esfolegante, decepcionada, a decepção estampada na cara dela, eu nunca fiz nada disso, eu nunca passei por isso, mas aí na cara dela eu vi que podia ter sido eu, duvidei de mim, mas nem deu tempo, quando vi o RG já tava com o polícia e nós tava dentro da viatura. Era sábado. Ele e o outro na frente. Eu atrás.

| conto do livro Rachaduras (Editora Quelônio, 2019), com lançamento dia 29, terça-feira, em São Paulo [link do evento]. |

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia pela USP e escritora. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017), acerca das vivências no hospital penitenciário onde trabalha desde 2012, em São Paulo.