carta para vovó, de Rodrigo Novaes de Almeida

“O céu está alegremente salpicado de estrelas cintilantes, e a Via Láctea destaca-se com tal claridade, como se antes da festa alguém a tivesse lavado e esfregado com neve…” (em “Vanka”, de Anton Tchékhov)

Rosana Batista era uma menina de onze anos quando fora entregue para uma família de classe média alta de São Paulo. Naquela noite ela chorou mais uma vez no quartinho sem janelas da área de serviço do apartamento. Sentia-se sozinha e abandonada. Encostou a porta que dava para a lavanderia e pegou sob o travesseiro o bloco de papel, a caneta Bic e o envelope que furtara de uma gaveta da sala de televisão.

“Querida vovó Lurdes Batista” — redigiu ela. “Escrevo esta carta para pedir à senhora que venha me buscar”.

Rosana parou e olhou para o papel. Releu a primeira frase. Respirou profundamente e enxugou as lágrimas.

“Estou nesta casa há três meses, eu acho. Não sei muito bem. O senhor e a senhora Freitas me tratam muito mal. Eu vi quando eles prometeram à senhora que eu teria estudo aqui, eles chegaram sorridentes na cozinha da fazenda do senhor Vieira, disseram que ali eu seria um peso depois que mamãe morreu e que o meu futuro estava na capital, com eles e com seus dois filhos, eu seria a filha que eles não tiveram…”

A menina imaginou a avó na cozinha fazendo as comidas que o senhor Vieira adorava, o cheiro da lenha e da manteiga derretendo, do pão no forno. Ela pensou em pegar alguma coisa para comer na geladeira, mas se lembrou da única vez que fez isso e da surra que levou da dona da casa, senhora Márcia. Era ela quem fazia seu prato diariamente e não podia comer nada fora das três refeições. Mais lágrimas escorreram pelo seu rosto. Rosana as enxugou e continuou a escrever:

“Vovó, a senhora Márcia é uma bruxa, ela é muito má comigo. Ela me acorda para eu arrumar as crianças para ir para a escola, depois me obriga a varrer a casa e a passar pano nos móveis. Outro dia deixei cair e quebrar alguns copos, ela gritou comigo e disse que eu pagaria por eles, que eram caros. Ela brigava comigo com um caco de vidro na mão, achei que fosse me cortar”.

“Ah, vovó, a senhora sabe que não sou de reclamar das coisas, que eu a ajudava na cozinha, eu varria o chão para a senhora, por causa da sua dor nas costas, lembra? E a senhora me dava aqueles pães maravilhosos que preparava para o senhor Vieira. Era tão boa a vida na fazenda, mesmo depois que a mamãe morreu daquela doença terrível no pulmão. Foi tudo tão rápido. A tosse que não parava, depois o sangue, aí ela foi para o hospital e não voltou mais. Sinto muita falta da mamãe, e da senhora também. Eu sei que achou que era o melhor para mim, mas eu tenho medo de morrer se ficar aqui”.

“As crianças são pequenas, o mais velho tem sete anos e o caçula, cinco. Eles gostam de mim, mas eu não posso brincar com eles. Eu não posso brincar com ninguém. E que falta eu sinto! O Pedrinho, filho do seu Antônio, como ele está? Ele ainda vai mergulhar no açude? Aqui no prédio tem piscina, eu vi da janela outro dia. Não posso descer. Não posso sair do apartamento”.

Rosana suspirou e se lembrou dos passeios que dava até o açude depois da escola com o Pedrinho, filho do administrador da fazenda. Os dois atravessavam um bosque de pinhais, e no verão a sombra das árvores refrescava seus corpos e era sempre muito agradável. Éramos tão felizes, pensou a menina, com lágrimas escorrendo na face outra vez.

“Saí apenas uma vez nesses meses que estou aqui para ajudar a senhora Márcia a levar as crianças num shopping” — continuou. — “Eu nunca tinha visto vitrines tão iluminadas, pareciam aquelas luzes que colocamos na varanda do casarão nas épocas de festas em junho. E São Paulo é tão grande, tão cheia de carros. Os prédios são altos e as pessoas são muito ricas, mas vi também na rua quando passamos de carro algumas pessoas pobres deitadas na calçada. É triste demais, vovó. Tudo aqui é triste demais. E eu estou com muito medo. Não é somente da senhora Márcia. É do senhor Carlos também. Acho que tenho até mais pavor dele do que dela. Ele sempre me olha de forma estranha, e outro dia ele deu um tapa no meu bumbum e disse que eu era crescidinha para onze anos. Eu nunca tive tanto medo em toda a minha vida”.

“Vovó amada, por favor, eu suplico à senhora, venha me buscar. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, não me abandone. Tenha dó de mim, vovó. Serei sempre sua netinha, Rosana.”

A menina soltou o papel do bloco, dobrou e colocou dentro do envelope. Guardou tudo sob o travesseiro. Precisava agora arrumar um jeito de colocar a carta nos Correios. Lembrou-se que faltara algo. Pegou novamente o envelope e a caneta e escreveu:

“Para a vovó Lurdes, na fazenda do senhor Vieira”.

| publicado originalmente na Revista Philos, setembro de 2018. |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside em São Paulo. Autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.

a carta de Glória, de Paula Bajer

capa_bajerGlória, de intensa beleza.

Filha única. Criada a mamão com açúcar e farinha láctea. Estudou em colégio de freiras. Aprendeu balé. Sempre gostou de português, literatura e história.

Em 1975, completando vinte anos, estudante de direito, participava de grupos secretos de leitura e estudos. Lia textos censurados. Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho.

Os pais desconfiaram. Aquilo não ia dar certo. As pessoas que expressavam opiniões contrárias ao regime estavam sendo presas. Disseram e avisaram mil vezes.

A mãe implorou: sai disso.

Mas não se pode nem ler?

O pai era professor de matemática. A justiça dele era a dos números, representada pelo sinal de igual. Glória logo percebeu que, na vida, nada era igual. O pai sabia contar e os resultados de qualquer operação eram sempre negativos. Até mesmo pra ele, um homem triste.

Glória lia porque o mundo era quente e seco ao redor. Ela queria ar.

Não se conformou quando Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, foi censurado. Em 76, proibiram até Romeu e Julieta, do grupo do teatro Bolshoi, na TV. Proibiram Shakespeare.

Como alguém pode proibir Shakespeare?

Mataram Wladimir Herzog e ela foi ao ato ecumênico na Praça da Sé. Não conseguiu entrar na catedral. Ficou fora, mas cantou “Caminhando e cantando”, de Vandré.

Chegando em casa, encontrou a mãe chorando. Aquilo tinha que terminar. Por que ela não viajava um pouco? Podia ir à França.

Brasil, ame-o ou deixe-o? Tinha dúvidas.

Gostava de ouvir “O que será que será” (nas três versões).

À noite, no quarto, lia textos que circulavam, manifestos mimeografados.

De manhã, ia para a faculdade. Os professores de direito não falavam sobre ditadura. No máximo, discursavam sobre as várias acepções da palavra liberdade, como se liberdade fosse um conceito abstrato. A liberdade era um conceito real, físico, ela achava.

Ia largar a faculdade. Queria ser atriz. Só não tinha voz.

Redigia manifestos, mas não distribuía. Tinha vergonha. Escrevia que a abertura lenta, gradual e segura, anunciada pelo presidente, era uma mentira. Parecia ser uma mentira.

Enquanto isso, em casa, a mãe assistia à novela Anjo Mau e o pai corrigia equações. Eles quase não conversavam e só tinham uma opinião em comum: a de que Glória devia ir para a Europa.

Foi em 1976, em uma manhã de outubro, qualquer manhã, que Glória saiu cedo com a pasta que carregava todos os dias, uma pasta marrom. Naquele dia, a pasta tinha um documento diferente: uma carta escrita pelo irmão de uma vizinha do prédio. Ele estava preso e tinha sido torturado por um mês, quase todos os dias. Passou a carta à família por um companheiro solto. A vizinha achou que podia dar uma cópia da carta à Glória. Achou que ela estudava direito e faria alguma coisa com aquela carta. Pela primeira vez alguém lhe deu uma função assim importante. Leu o texto manuscrito. Nunca tinha lido um relato tão detalhado do sofrimento. Embora lesse muito, não sabia que a dor podia ser expressa em palavras. Nunca tinha lido nada assim. O corpo de Glória sentiu açoites e perfurações, o corpo parou de respirar por alguns momentos. Ainda não sabia o que fazer com a carta porque, afinal, não estava tão envolvida na luta contra a repressão. Não conhecia caminhos e pessoas que pudessem levar a carta adiante. Ela só participava de grupos de estudos. E de leitura.

Aquela carta não era um panfleto, um documento, um poema, uma análise, um refrão, um conto. Era um depoimento, um testemunho, um S.O.S., um pedido de providências, um grito, uma explosão.

Pensava nisso ao sair de casa: no que fazer com a bomba.

Pegou o ônibus e sentou-se na primeira fila. Um homem grande chegou perto e ficou de pé ao lado dela, embora houvesse lugares vazios no ônibus. Ela achou que já o tinha visto antes. Tocando a campainha da vizinha? Amigo do pai da vizinha? O dia em que ela desceu de escadas porque o elevador estava quebrado ele subia? Impressão. Era um estranho. Mas o estranho prestou atenção na pasta que estava no seu colo. Ela agarrou a pasta com força, os dedos de Glória apertaram aquela pasta marrom. O homem de barba olhava a pasta. Ele usava óculos escuros. Vestia uma camisa comum, um pouco aberta, ela olhou para cima e viu os pelos pretos do peito dele aparecendo, saltando. Ela começou a transpirar, sentiu a blusa molhar na região das axilas. Pensou nessa palavra, axilas, e riu do pensamento idiota. Axilas. Aí ela lembrou dos relatórios e das descrições de tortura que tinha lido. Aquele homem ao lado dela não tinha encostado um dedo no seu ombro e ela imaginava choques elétricos em seu corpo, em partes que ela não conseguia nominar em pensamento.

Glória pressentiu que aquele homem era da repressão. Ou ela estava sendo perseguida, ou ele suspeitava da pasta, ou os dedos apertados e o suor delatavam seu medo, alguma coisa estava deslocada, ali. Fora do compasso. Ou não.

A saída foi fazer cálculos. Quando estava muito nervosa, recorria aos cálculos. Faltavam quinze minutos para chegar à faculdade, e em doze minutos o ônibus estaria no Viaduto do Chá, e ela precisava de um minuto para chegar à porta do ônibus quando ele parasse no sinal fechado e não daria tempo, o homem desceria atrás dela. Que cálculo o pai faria naquele momento? Como a matemática a salvaria daquele terror e quando ela poderia assistir Romeu e Julieta na TV?

Glória nem pensou em rezar porque não acreditava em Deus. Mas recorreu aos números e zero era uma saída possível, na maioria das vezes. Zero e nada. Zero como o livro censurado de Loyola. Zero e vazio e ausência e silêncio e medo.

Glória ficou ali, zerada. O ponto da faculdade chegou e ela não desceu. Quando as coisas estavam complicadas, o melhor era não fazer nada. Parou de pensar e de ver e de sentir e os dedos relaxaram de tal maneira que a pasta marrom caiu no chão. Ela olhou e nem pensou em pegar, ia deixar a pasta ali. Aí o homem, ainda parado — ele não desistia – abaixou-se, pegou a pasta e disse:

— É sua?

Quase disse não. Seria pior. Ele ficaria com a pasta e leria a carta. Confirmou e pegou a pasta marrom. Agradeceu com a cabeça. Ele deve ter sentido o cheiro do medo. Mas, quando o ônibus parou, ele desceu. O homem deu uma oportunidade a Glória.

Ela ficou ali ainda um tempo, sentada, respirando, comemorando a sorte, agradecendo os cálculos. Desceu no ponto seguinte, atravessou a rua e pegou o ônibus da volta. Iria para a faculdade de qualquer jeito.

Chegando à escola, Glória viu o homem barbudo, de pé. Gelou e, em vez de virar de costas, disfarçar, correr, continuou, firme. Não fez mais cálculos. A equação tinha terminado. Entrou na faculdade, passou pelo homem, segurando a pasta contra o peito. Esperava uma segunda chance.

E ouviu aquela voz:

— Senhorita, queira me acompanhar, por favor.

| conto do livro Um enterro para Suzana (Ed. Patuá, 2019); lançamento amanhã, 19 de março, no Patuscada, em São Paulo [link do evento]. |

Paula Bajer é autora de Viagem sentimental ao Japão (Ed. Apicuri, 2013), Nove tiros em Chef Lidu (Circuito, 2014, e-book, e-galáxia, 2015), Feliz aniversário, Sílvia (Ed. Patuá, 2017), de Asfalto (e-book, e-galaxia, 2014), e Um enterro para Suzana (Ed. Patuá, 2019). Integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro e participa de todas as suas publicações. Participa, também, de diversas publicações do Mulherio das Letras.

a festa, de Márcia Barbieri

— Já voltou?

— Quase todos foram embora, achei melhor dormir um pouco, estou cansada.

— Não falei na hora que saiu, você fica bonita de preto e o brinco de prata combinou tão bem…

— Papai gostava bastante de me ver com esses brincos.

— Bem… não se pode negar que ele tinha um grande senso estético! Era ótimo para escolher joias e mulheres.

— Senti uma ponta de ironia no seu comentário.

— Esquece, discutir sobre isso é inútil, você sempre defende seu pai. Não é o momento apropriado para isso.

— Tem razão… Não dormiu?

— Você sabe… não poderia dormir.

— Carmem estava lá?

— A amiga do papai?

— Se prefere chamá-la assim…

— Lá vem você cheia de veneno.

— Estava ou não estava?

— Por que não estaria?

— Se tivesse vergonha na cara não estaria.

— É, mas também tem muita gente achando que se você tivesse vergonha na cara estaria.

— Tou pouco me lixando para o que eles pensam, falsos moralistas! Algum deles está na minha pele?

— A família inteira da Tininha estava lá, perguntaram de você.

— Engraçado, muito engraçado mesmo! Durante anos não me visitaram para saber se eu estava viva ou morta, agora sentem minha falta? Balela! Um bando de mexeriqueiros.

— É normal que as pessoas fiquem curiosas. Afinal, era seu marido lá.

— E algum dia ele soube disso?

— Ressentimentos não levem a nada, já conversamos sobre isso, precisa relevar, as coisas aconteceram há tanto tempo! Pelo amor de Deus!

— Tanto tempo? Não brinca! As coisas aconteciam todos os dias, não foram uma ou duas vezes como você tenta me convencer. Ou você é ingênua demais ou quer absolver o seu pai de todas as perversidades.

— Não seja tonta! Não quero absolver ninguém, só não quero que sofra com bobagens, as pessoas erram, as pessoas são falhas, é só isso que quero dizer.

— Sei…

— Você já sofreu demais, tenta descansar um pouco.

— Não consigo, os ansiolíticos não fazem mais efeito.

— Você irá vê-lo?

— Você sabe que não.

— A vovó disse que ele está com o olho aberto e ninguém consegue fechá-lo, disse que só você conseguiria, que precisa perdoá-lo. Afinal, aos mortos tudo se perdoa, não é mesmo?

— Eu o perdoaria se ele tivesse morrido vinte anos antes, agora já não posso, estou tão morta quanto ele.

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Participa do projeto Senhoras Obscenas. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (edição independente, 2009), As mãos mirradas de Deus (Ed. Multifoco, 2011) e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas (Ed. Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Ed. Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta (Ed. Terracota, 2014) e O enterro do lobo branco (Ed. Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

intercâmbio (In the Mouth a Desert), de Thais Lancman

Can you treat it like an oil well
When it’s underground, out of sight?

Se não tem nada para falar, é melhor ficar quieta. Conselho que nunca segui, não sem arrependimentos e promessas futuras. Minto, segui uma vez, não por achar que era o mais prudente a se fazer e sim como um desafio imposto a mim mesma. Jogar vaca amarela sozinha, com a intenção de esmaecer. O Rodrigo Naves escreveu aquela coisa de a Mira Schendel só querer sumir, e por que eu não posso também? Ser invisível sem ser reclusa, ser só mais uma e assim fazer o que eu quiser.

Com essa vontade eu optei por um silêncio gradual, uma purificação do meu hábito de me contar, me despir, me gritar, uma vez que ele só diz respeito a mim e não ao outro. Falando menos, revelando menos, entrego o que tenho de mais verdadeiro e me afasto de todos à minha volta como um barco não amarrado no cais.

And if the site is just a whore-sign
Can it make enough sense to me?

Minha experiência começou com amigos, e fracassou no terceiro gin tônica, quando me vi às voltas com uma história idiota, porque minhas histórias são idiotas, e não poderiam deixar de ser se sempre começam na primeira pessoa, com os verbos ler, ver, pensar, e o resto é tudo na terceira pessoa. Sou eu mesma expectadora do que narro, discursando da minha janela para o Minhocão, fofocando a visão de poucos metros de via elevada como se fosse o mundo e o que tenho de mundo para me relacionar.

Os meus amigos falam de viagens e trabalho, eu não viajo nem trabalho mas já viajei e já trabalhei então posso ser uma boa ouvinte. Posso rir e fazer ahãs e a-ãhns de forma que, sóbria, tudo funciona muito bem. Consigo me relacionar de certa forma com o que eles me contam, Ao falarem da ida à Tailândia nas próximas férias, posso relacionar com alguém que eu conheci que fez viagem semelhante, ou quando falam da Europa posso concordar com as expectativas e rir das gafes que as diferenças idiomáticas provocam. E é fácil me recolher quando chega a minha vez de falar — embora com certos tipos de pessoa não existe essa organização — pois, novamente, eu não tenho muito que continue uma conversa, são sempre ideias soltas e desconexas com qualquer projeto de realidade. Nada disso faz diferença quando se está com um drink na mão, então me vejo vítima da minha armadilha. O protótipo número um da experiência de silenciamento falhou, estou novamente sinalizando que preciso de todos, me destacando ainda que seja como uma caricatura patética de alguém exótico ou, como talvez meus amigos falem de mim, alternativa. Alternativa a eles.

Pretend the table is a trust-knot
We’ll put our labels down, favors down

Manter o silêncio quando estou em família é fácil. Porque eu quase nunca bebo — sou caçula, eterna criança — e quando bebo fico melancólica e casmurra, naturalmente em silêncio para não começar a chorar de forma descompensada. Fico quieta e mordendo os lábios, me retraindo, me aninhando no ombro de qualquer um que vai saber me dar carinho e achar doce aquilo que acabei de fazer. Todos ganham. Se bem que, em família, falar e não falar dá no mesmo. Outro experimento interessante foi contar histórias nos almoços de família parando de repente, para testar quem estava prestando atenção. O resultado, pouco surpreendente mas mesmo assim irritante, foi que em nenhuma vez houve pedidos para que eu retomasse a história, nem mesmo uma cara de questionamento quando eu interrompia uma frase pela metade. Extasiada e revoltada com o resultado, fui mais longe e comecei a inserir escatologias sem sentido no meio das histórias. Contando as novidades do mestrado, vez ou outra dizia algo de nojento e inadequado, uma descrição detalhada do processo de enfiar uma agulha no olho e cavucar o que estivesse lá dentro, sem que recebesse em troca uma expressão de nojo sequer. Como eu queria ouvir “pare por favor!”. Mas, no final, a única incomodada era eu mesma, com nojo do que eu falava e da falta da resposta, eu já disse, gosto de me contar. Confesso que há um lado bom no silêncio, o papel de observadora, não é meu favorito mas também não me desagrada.

I’ll watch a yarn of twine unravel
And you’ll never get it back

Em casa, o emudecimento progressivo gerou até preocupação no começo. Mil perguntas, tá tudo bem, quer alguma coisa.

It’s what I want (it’s what I want)
It’s what I want (twine comes down)
It’s what I want (it’s what I want)

Depois do interrogatório inicial, fica mais fácil. É só ouvi-lo contar do seu trabalho, dos pagamentos, dos funcionários.

Don’t you know
I could make a try
Make a try
Make a try
Make a try

Sem beber e sem falar de mim, já não sei do que eu sou e do que gosto, ou do que gostar a partir de agora. A experiência só se completará quando estiver no fundo desse mergulho do silêncio, já se falava em meditação Vipassana e outras ideias de silêncio contemplativo. O meu não tem nada sacro, sou apenas eu demonstrando meu cansaço das outras pessoas, minha vontade de desaparecer. Estando sempre sóbria, e como todos vão falando mais e mais alto quando bebem eu vou como que minguando nos eventos sociais. Até que vou embora em silêncio, andando afoita para casa, fones de ouvido, música instrumental alta para nem me dar vontade de cantar junto, tamanho o poder que o emudecimento impõe sobre mim.

Aos poucos, disseco o meu pensamento:

Uma mania antiga de me auto entrevistar. Caminho imaginando explicações sobre a minha rotina, meu bairro, o Minhocão e o que penso de sua desativação, os tantos motivos que me levam a não ter mais um carro, as explicações sobre minha casa, uma definição de rotina saudável e vida em equilíbrio, o tempo passa e dentro de algumas horas começa de novo a entrevista, um perfil eterno que nunca será publicado e está sempre sendo reescrito, as respostas cada vez mais certeiras, frases bonitas que vão dar bons destaques na edição final. Preciso parar com isso. Aprender o que se pode pensar sem que seja um diálogo, ainda que seja comigo mesmo ou com uma figura difusa a minha cabeça só funciona em diálogo. O silêncio precisa me invadir, a falta de verbo, por isso música instrumental.

I’ve been crowned the King of Id
And Id is all we have, so wait
To hear my words
And they’re diamond-sharp

Como é o pensamento não verbalizado? Como aprender a machucar e se preservar sem ser com palavras é impossível, desapareço no horizonte. É preciso se manter firme para recusar convites, não aparecer da mesma forma sutil que se vai embora. Teve a vez em que um dos integrantes da banda contratada, o baterista — sempre ele — veio conversar comigo enquanto eu aguentava um cigarro para ter motivo para estar do lado de fora. Afastada para evitar conversa, e ele veio me perguntar o que eu tinha achado do som deles. O que responder para um monte de versões genéricas de clássicos, o bom é que uma palavra basta, apesar de uma sílaba já bastasse para me arrastar ao ponto de partida desse jogo de tabuleiro da afonia. Também foi a largada para uma corrida de autoelogios que ele se fez, e promessas de que seria famoso. É engraçado, a fama para mim nunca foi um valor em si, e não foi a primeira vez que ouvi algo do tipo, a outra foi a ex-namorada do amigo corporate.

Outra coisa é como as pessoas podem gostar de alguém ou algo que não é inteligente. Na festa tinha um cachorro com a dona e ela se derretendo em elogios ao seu companheirismo e à graça de sua burrice. Um cachorro não tem obrigação de tem inteligência, mas ela não deixa de ser virtude. Talvez essa seja a primeira afirmação que faço sobre uma pessoa ou um animal. Ou até mesmo sobre um equipamento eletrônico. E na mesma lógica do “fotografamos o que temos medo de perder”, assim como temo parecer burra deixo transparecer o quanto isso é a minha redoma de vidro através da qual interajo com o mundo, ainda que ela seja à prova de ruído então nada eu ouça nem me faça ouvir. No silêncio o meu intelecto fica hermeticamente fechado, e se lá dentro está um pote de veneno que pode abrir ou não a qualquer momento, sem emitir sons ou opiniões me reservo o privilégio de ser, ao mesmo tempo, gênio e idiota. Na eterna expectativa, a minha, de algo derradeiro sair pela minha boca e que todos aguardam ansiosamente por essas pérolas e a espera só desperta curiosidade.

I could open it up
And it’s up and down

Então o baterista foi até o Uber que eu chamei para me levar para casa e começou a cantar segurando a porta do carro e não deixando que eu a fechasse. Senti que ia ter que gritar mas logo pensei que um gesto seria mais potente. Puxo a porta enquanto guardo as pernas, o motorista ri e me dá boa noite. Ele sente que tem algo a dizer embora eu discorde, eu tenho muito a dizer, acusar, mas prefiro o silêncio, até sorrio. Penso na minha casa e na minha gata, lá eu converso contemplada pela falta de resposta humana. Lá eu reino ou sou a escrava de um animal que parece ter um prazer enorme em me ver limpar suas fezes na caixa de areia.

Quando encontro pessoas, existe sempre uma espécie de solidão, para além do estar no meio de gente e mesmo assim estar sozinha, isso não me incomoda até eu notar o segundo passo: não saber desenvolver os micro relacionamentos dessas ocasiões. Existem conversas ligeiras, mas nada que vire algo além, nem curiosidade. Não lembro a última vez que fiz um amigo. Quero deixar morrer essa vontade de cativar, conquistar da inveja a indiferença, e talvez o melhor jeito de conseguir isso seja me escondendo, não, me dissipando no espaço da vida agitada da cidade, dos prédios que escondem personalidades e defeitos, no silêncio ruidoso do falatório sem sentido e exibicionista de filosofia barata, problematização excessiva. Por isso prefiro ser ignorante, a ansiedade em não saber o suficiente nunca, mas como podem esses que sabem menos sentirem que sabem tanto? Me perder em um mar de filmes que desconheço, literatura clássica que não li apesar de tão básica, para mim e para os outros que importam. Meus pares perdidos no tempo. Não chamar a atenção nem chamar a atenção por não chamar a atenção. Não ser esquisita. Não mais eu. Não-eu.

Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh (8x)

Eu tenho medo de usar droga, de virar alcoólatra, eu tenho medo de vento forte, só não tenho medo de andar sozinha na rua à noite porque nunca me aconteceu nada. Mas tenho medo de semi-conhecidos que querem me levar na porta de casa, me acompanhar no metrô ou falam perto demais do meu rosto. O teste das 16 personalidades disponível online e gratuito me situa no perfil do arquiteto, apenas 0,8% da população mundial corresponde a mulheres desse tipo. E não apenas pela baixa frequência mas também pelas nossas características fundamentais, sou marcada pela solitude.

O astrólogo me falou de desapego, atravessar uma ponte com uma mochila em vez das duas malas pesadas com as quais estou acostumada. E disse que sou ambiciosa por reconhecimento, admiração, porém que vai demorar. Sento e espero, às vezes fazendo algo a respeito.

It’s what (it’s what I want)
I’ll see you beg like a little dog (ball and twine)
Don’t you know that
It’s what I want? (it’s what I want)
I’ll see you beg and it makes you dry

Porque você só pergunta se está tudo bem e nada mais, você não quer me ouvir contar das minhas coisas, quanto menos eu faço menos novidades tenho e elas são todas como as de uma perua de meia idade: a casa, a gata, picuinhas no prédio, musculação e tevê. Poderia ler para você os poemas favoritos do Álvaro de Campos mas nunca seria como antes, quando você riu e disse que eu tenho um poema para cada situação. Você quer que eu fale mas não quer ouvir, quer que eu seja um cachorrinho brincalhão mas não brinca comigo, e agora me cobra uma postura sei lá qual, me deixe em paz. Talvez essa seja minha autodestruição, nem mesmo seguir até o fim com essa brincadeira de silêncio, meu fracasso é estar condenada a boiar como se estivesse no Mar Morto, há profundidade mas eu não chego a ela, você me prende na mediocridade, não, eu mesma me mantenho assim por vergonha, preguiça, autoengano. A diferença entre os normais e os gênios é que eles atravessam a fronteira da auto complacência, chegam até o fim da própria estupidez e de lá começam a erguer o castelo, nós os outros nos deixamos levar pela ideia de que já existe algo erguido e que nosso trabalho é só dar um acabamento, uma cara, encher de adornos. A superficialidade das minhas ações é a boia das minhas ideias.

Make me dry
Make me dry
Make me dry

De boca fechada parece que a saliva vai deixando de ser produzida, talvez o corpo saiba que ela se faz menos necessária e entra num modo defensivo e preguiçoso de ser. A boca seca quando a utilizo menos, vai se retraindo e colando, tornando uma retomada mais difícil. Ela também se adapta, o indivíduo tem muito mais poder dentro de si e no sentido infinitamente interior do que em constante expansão, é como se ele soubesse que isso não vai muito longe. Na direção de si mesmo, tudo é possível, os dentes mastigarem a língua e deglutirem as gengivas, tudo virar uma farofa prestes a ser engolida, digerida e retrabalhada nos tecidos. Ou então nada disso acontece e essa ponta do aparelho digestivo, responsável por iniciar o processamento do que ingerimos e também pela fala, o fim do trabalho do raciocínio culminando na expressão, esses órgãos interligados entra em modo de espera, hiberna, e ou se torna outra coisa ou atrofia de vez.

I’ve been down, the King of Id’s
Id’s all we have, I’ve been down

É preciso secar para mergulhar em mim mesma, a minha única chance de saber o que eu posso ser, e enxergar na possibilidade uma redenção. Só assim vou descobrir se tenho uma voz, parar de dialogar é também ficar com a boca cheia de flores e peixes, segredos prenhes, tesouros. E esse mergulho vira um passeio em dunas infinitas, paisagem alienígena do tipo que não se crê na existência. Mas se espera por ela como pelo Papai Noel. Eu vou aprender comigo porque assim terei histórias, um poço infinito delas, tanto em profundidade quando em água a ser oferecida para uma imensidão de sedentos.

And I could wait
To hear the words
They’re diamond-sharp today

Meu som. Meu ar.

Thais Lancman é uma escritora paulistana. Publicou em 2014 Palito de Fosfeno (Ed. Reformatório) e agora está publicando seu segundo livro, Elementos Fundamentais, na forma de um perfil de Instagram de mesmo nome: [link]

conto de múltipla escolha, de Myriam Campello

A casa é sua?

(__) Sim. Não. Sim.

(__) É de uma moça que conheço. Portanto minha até segunda ordem.

(__) A casa é do escambau (“série de outras coisas não mencionadas”).

— Who is Escambau?

(É fato comprovado que passamos metade da vida dando explicações, e a outra metade inventando-as.)

Seu grande amor foi embora por quê?

(__) Amou pouco.

(__) Amou muito mas preferiu não chocar os pais.

(__) Amou muito mas evitou quizumba (“conflito em que se envolvem numerosas pessoas; confusão”) com os filhos.

(__) Amou?

Seu aparato mental funcionava a contento?

(__) Sim. Pois não raro se lançava a digressões de agudíssima percuciência, com desenrolos imago-poéticos muito além do que podia alcançar a mente comum. Era bamba na matéria. Sobretudo nas infinitesimais.

(__) Não. O caso é autoevidente. Havia algo de singular naquele sobe-e-desce. Muito olhar ao longe para ver apenas carneirinhos.

(__) Depende. Três dias por semana sua mente era um Hubble: alcance e nitidez. Nos outros, a casa da mãe Joana. [Sobre o assunto ver Spivack, Tese e contratese].

Hesitou em destroçar o que antes professara ser a razão de sua vida — um amor sem igual?

(__) Nem um tico. A rapidez com que destruiu a relação foi de tal monta que USA e China pensaram em comprar sua ideia e usá-la em bombas terminais.

(__) Sim. Alguns lhe notaram um leve tremor no supercílio esquerdo antes de mandar tudo para o inferno.

Terá no presente alguma lembrança do ocorrido?

(__) Lhufas. Para não ser molestada por acenos conscientes inconscientes e caterva (“grupo de pessoas, animais ou coisas”), a personagem sepultou a própria memória com a ajuda de potentíssimas escavadeiras que de um buraco fizeram uma montanha.

(__) Sim. Um sopro de lembrança a assalta por segundos a cada ano (sempre no dia de São Jorge). Depois, as areias do tempo soterram-lhe as lembranças até o ano seguinte, quando Jorge ressurge matando o dragão. Nesses momentos sua mente dançante comove-se e odeia ao mesmo tempo, com igual ímpeto. Está e não está amoureuse na mesma fresta horária. Se o gato de Schrödinger não existisse ela poderia ir para a caixa em seu lugar, fornecendo ao público um perfeito exemplo quântico. Contudo é preciso pôr de lado a última esperança se quisermos entender todas as sutilezas da personagem. Soltem as amarras, apertem o cinto e deixem-se levar pela riqueza de sua índole.

Reconheceria ela a barafunda (“balbúrdia, tumulto, pandemônio”) que causara? Assinaria o monte de escombros como de sua autoria?

(__) Não. Recusava peremptoriamente o papel de verdugo. Pelo contrário, atirava essas pedras na direção oposta, isto é, em quem ficara sob o entulho. E anunciava aos quatro ventos que a soterrada fora ela própria, para espanto dos que tinham presenciado os fatos. Nesse instante a lógica ia para o brejo de uma vez, recusando-se a deixar o lodaçal ainda que lhe acenassem com uma compensação em euros.

(__) Mais ou menos. Graças à natureza gangorrial (gangorra: “prancha retangular, comprida, apoiada no centro, que duas crianças, cada qual em uma das extremidades, impulsionam para o alto pela pressão dos pés no solo, de tal modo que, quando uma das extremidades toca o chão a outra chega ao alto”) da protagonista, a Verdade a visitava quando em vez. A Nostalgia também dava as caras, e a personagem se punha a escrever odes sublimes em homenagem a quem deixara a ver navios.

(__) Sim. Momentos pungentes. E tão raros quanto Nessie pondo a cabeça de fora no seu frio lago escocês. Em tais horas de saudade, revisitava toda a sua vida e prometia fazer algo a respeito. Num certo jantar de Natal, no instante em que todos se calaram e puseram-se a comer, ela se deparou com a extensão de sua asneira. Empalideceu, engasgou, quase morreu. Dada à extrema fluidez da questão, convocou-se um grupo de três sábios para bater o martelo sobre o assunto. Os três meditaram por seis meses, concluindo afinal que não podiam alcançar o objetivo proposto. E citaram o ditado que ronda o Cabo Horn a respeito destas águas furiosas: “Abaixo dos 40° de latitude não há lei. Abaixo de 50°, não há Deus”. A personagem em foco, disseram eles, está bem abaixo dos 50°. E foram embora depois de pagos.

E o futuro?

(__) As duas nunca mais se viram.

(__) Viram-se mas não se falaram devido ao momentoso instante.

(__) A Deus pertence.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema no filme homônimo dirigido por Malu de Martino, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017).

a encruzilhada: Legba e o Saci, de Franklin Carvalho

Eu disse não e não, e ele insistiu para entrar. Contei que naquela casa, naquela noite, só cabiam mulheres, e veio o desaforo:

— Não sei para que tanto mistério, eu vejo tudo o que se passa aí dentro, para mim essas paredes são de vidro!

— Então te conformes e não inventes presepadas. Eu sei do que tua língua é capaz. Se alguém gosta de soprar mentiras é tu mesmo, filho do vento. Mas não entras, que não te deixo passar.

— Até o vento frio pode ser bom, porque esquenta os ossos gelados, velho. O vento é teu hálito. Dize: quanto ganhaste para ficar aí parado na porta, feito vigia dessas bruxas?

— Ganho o propício. Meu negócio é esse mesmo, o distinto não sabe? Tranco as portas e as estradas e as abro a quem merece. Vamos, trances tuas pernas numa só como sempre fazes, trança-as na dança, no jogo, como fazes na capoeira, ou correndo, trança-as em pó, em redemoinho. Desmancha-te, vai-te em paz.

Ele zombou da minha pressa em tirá-lo dali e disse que era estranha aquela impaciência num caduco como eu, tantas noites havia nos meus olhos, milhões delas, como milhões de estrelas, milhões de insetos sustentam cada noite única dos homens. Perguntou-me o quanto custava aquela vez, só aquela vez, deixar-lhe passar, e me ofereceu seu fumo. Tanto fez e azucrinou, até desdenhou da minha potência. Por último ajuntou que a casa era cercada de jardins e que todo mato era sua morada, então ele ali entrava quando lhe desse na telha. Eu respondi:

— Nem telha tu tens, só ares, poeira e folha, bicho do mato. — Ele se recompôs. Suas pernas, que eu mal divisava na pouca luz da varanda onde estávamos, brilharam dois cambitos retintos de menino faminto, mas logo transmutaram-se em grossas coxas e panturrilhas musculosas. O peito intumesceu como se fosse soltar asas, os braços viraram duas duras cordas e a face, ah, a face, de pele áspera e repuxada, ganhou carne e lábios e pomos e doçura e líquidos na órbita dos olhos e ali apelo. E uma aragem cuidou de vesti-lo com roupas que nunca vimos, de forma que ficou belo e atraente como um jovem que brinca nas águas, e tive que dizer:

— Desfaz, Saci, desfaz.

Fechei os olhos por um segundo e tive simpatia pelo seu interesse, e falei-lhe fluido como nós somos. O que as donas faziam lá dentro era comer os miúdos de seus maridos, fígados, rins e baço, e de outros homens do passado. Elas se serviam da banha e do sangue de outros machos modernos e ainda devoravam as orelhas dos seus avôs. Claro que havia doces e licores e cerveja de sorgo, mas o prato preferido era assado de marmanjos.

O Saci estourou no riso e eu abri os meus dentes rubros, grafites e adiamantados para aquele moço — moço por assim dizer, pois ele é também de outras eras — que não tinha nenhum compromisso ou pena ou dor pela condição humana.

Não lhe importava mesmo que as mulheres se reunissem nas cozinhas, nas vizinhas ou em qualquer outra parte para falar de seus homens. E quem há mesmo de se ralar se isso é flagelo varejeiro, de todo fundo de mercado, de toda quermesse, de mães e filhas fazendo, comendo petiscos? Outro tanto pior os homens praticam e as donas e mocinhas nunca alcançam castrá-los, o que seria até bom, por sinal.

Ao contrário, o homem mete o que tem de melhor em gruta escura que só a parceira vasculha com seus dedos, e ali deixa esquecido algumas joias, confiando nela. Nem por isso se torna mutilado. O homem aceita ser engordado e é natural que acabe assado ao sal e ao alho e devorado, e que as migalhas da sua carne amarga, queimada, caiam esperdiçadas aos ratos da casa.

O Saci queria ir lá dentro fazer o mesmo de sempre: perturbar até ser sentido, sempre camuflado. Aborrecer sem susto, ser o vento dentro de casa, desparelhando chinelos, extraviando chaveiros, desmentindo a rotina, abismando os atos mínimos, os cômodos vazios.

— A dona da casa disse que não dormiu noite passada. Foste tu o chiado no telhado?

— E eu sou morcego?

Pura desfaçatez. Ele aspirava vagar entre as coxas e os sovacos das comensais, inflar os flatos das mulheres que fofocavam na casa, roçá-las como uma pérola de suor que rolasse em suas faces.

— Repara bem, moleque, todos temos uma hora para não vermos. Isso se chama mistério, ou a hora de nosso sono, ou a vez da paz alheia.

Ele foi se afastando cabisbaixo, o seu vulto escurecendo no breu da estrada em frente, e adiante me chamou. Era longe e era perto, era assim uma encruzilhada e lá mesmo sussurrava, um escuro tão grande que a vista não nos servia.

— Eu lhe dou a touca que uso, minha tiara e coroa, dou-lhe um cachimbo cheinho e o poder de com esses dois cegar os que te perseguem.

Confesso que, seduzido, cheguei-me aonde ele estava e me envolvi na artimanha. Permaneci hora inteira detido naquela farra. Recusei os presentes, cuidadoso no que ponho à cabeça, porém a amizade parecia sadia e a nossa alegria, viva. Quase uma agradável companhia.

Mas o maldito é mesmo vadio e ardiloso. Àquela hora eu não falava com homem, nem com bicho nem com boca igual à minha. Não! Era só cuspe largado no chão, sua saliva assombrada, deixada na estrada, pronta para conversar e distrair. Ouvi no ar aquela risada de quem já não estava ali, era só um eco cretino, uma pilhéria de quem crê que enganou. Perguntou de novo, a voz já distante:

— Por que você se senta à porta das mulheres donas?

— Porque me deram de comer antes que comessem elas próprias. Porque me satisfaz ter essa primazia. É algo que tu tanto querias… Até parece que nós somos irmãos. Mas não é da tua natureza servir, não sei porquê. Não crias limo nem fazes parcerias.

Ele me respondeu que não queria ficar como eu, sempre na rua, sempre vigilante, pois com seus ciscos invadia as frestas e ele mesmo era cisco, era poeira, era vento malsão para levar terçol e soluço e derrame e loucura. E se quisesse, quando quisesse, trazia o último suspiro de um moribundo para fora das janelas, para dançar em virações.

Ora, se o Saci esperava desviar minha atenção da porta que eu guardava, viu-se desapontado. Sou o dono da encruzilhada. Eu estava no mesmo lugar do começo da conversa. Eu, que entro e saio do passado, senhor dos acessos, desarmei sua trapaça.

Mas ainda teve labuta, ainda teve sedução. Ele se transmutou em menino, em galego e em engano, apareceu mulher formosa, e tudo sem resultado.

O dia surgiu, a festa acabou e as donas saíram bêbadas, entre risos, abraçadas. Ainda estavam elegantes, vestidas de couro e cetim e possuídas de ouro, brilhantes na aurora e infiéis a tudo, aos seus maridos e aos pais, as pernas bambas.

Lá se iam as tontas e do nada, do nada, apareceram malandros e as acudiram com a fumaça dos seus pitos. Eram muitos os molecotes, como praga de gafanhotos, e as doidas assim gozavam, envolvidas, tão alta a nuvem de fumo que parecia a terra arrotando. Elas sumiram no vento, como ao vento tudo some, descuidadas de conselhos.

Não me esqueço daquele agosto: era a noite de São Bartolomeu perseguir o Cão.

Eu parti com meus fazeres para outras portas, para outras quinas, para outras fomes. Também para penetrar escuros que não quero confessar.

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017) e na Festa Literária de Paraty 2018.

cúpido e pungente, de Natália Zuccala

1.

Eu tenho uma ardência na boca que só passa quando eu mordo, mastigo, quando eu engulo, como. É na garganta. Chega até a língua. Às vezes dói. Principalmente consome, me consome. Por isso tenho fome, tanta. E mordo. Pra não levar mordida. Como, engulo. O tempo inteiro.

Tenho vontade de morder coisas redondas, principalmente, como algumas frutas. Maiores como o pêssego. Menores como a uva. Mas não só. Não. Há muitos objetos esféricos. Bolas, por exemplo. Bexigas. Balões. E seios. Lâmpadas. Dá vontade de colocá-las quentes na boca porque a comida aquecida é mais gostosa, mas não pode, queima. Então eu coloco fria imaginando que é quente. Não posso, porém, mordê-las. Porque uma vez eu fiz isso e rasguei o céu da boca. Foi um pouco gostoso mas eu tive que ir ao médico, ao hospital e. Eu não gosto. Eu prefiro engolir do que ir ao hospital. O problema é que eu ainda lembro do gosto ferroso e da sensação do corte no palato e tenho vontade de rasgar a pele e sugar meu próprio sangue. Alimentar-me de mim. Mas eu me controlo. Eu consigo me controlar. Ocasionalmente.

E não se trata só de morder. A sensação boa não vem só de mastigar. Não só, mas também, só de algo sendo triturando entre os dentes. Eu experimento pelos meus dentes tantas sensibilidades. Acho às vezes que tenho os dentes como a pele.

Mas não é só de triturar, macerar, amolecer que eu gosto. Transformar uma matéria dura numa substância mole. Mastigar osso até transformá-lo em carne. Às vezes tenho a ânsia de mastigar meus próprios dentes entre meus próprios dentes. Arrancá-los. Eu engoli todos os meus dentes de leite quando era criança.

Nem mesmo só a sensação de umidificar com a língua. Passar a língua nas coisas em todas as coisas que. Existirem. Passar a língua em algo é uma das sensações mais deliciosas que eu experimento. Assim como os lábios. Tocar com a ponta dos lábios. Mas não é só isso.

Eu gosto também de sentir algo descendo pela minha garganta e, principalmente, gosto muito quando as substâncias chegam na minha barriga. Quando chegam na minha barriga e vão se acumulando é tão bom. Isso de se satisfazer é tão raro. Eu quase não sei o que é isso.

O problema é quando acontece o contrário disso. Quando a barriga ronca e está vazia e não tem nada nela e dói. Quando parece que silva o estômago e seria possível passar um furacão por lá, é tão ruim e dói tanto. Arde. Cria feridas. O suco gástrico me devora desde dentro.

Pra evitar esse tipo de coisas eu como. Eu como o tempo todo. Não quero não posso me faz mal lidar com a fome.

2.

Tenho tanto desejo de enfiar as coisas pra dentro de mim de. Sentir dentro de mim que. Às vezes dá vontade de colocar pra dentro usando outros buracos. Enfiar comida no ouvido. Objetos pelas narinas. Mastigar com os olhos. Com todos os olhos. Sorver pelo umbigo. E criar ainda mais orifícios pra enfiar mais pra dentro de mim.

Eu tenho vontade, já tentei, não deu certo. Tenho vontade de me furar em várias partes do meu corpo que parecem, mas não são, orifícios. Isto é, de criar mais fissuras porque as que eu tenho não são suficientes. Como nas axilas e o espaço entre os dedos do pé. Por que não há buracos ali? E na batata da perna deveria haver furos. Não sei por que Deus não fez no corpo mais buracos pra introduzir. Seria melhor mas seria mais difícil manter-se satisfeito, Deus. Escreve torto por linhas retas.

E se houvesse um buraco no pé e fosse possível comer por lá, eu enfiaria umas laranjas umas mexericas um abacaxi e sugaria com a sola o suco o sumo a seiva ácida. Sentiria o gosto do piso da areia do asfalto da terra. Pelo buraco do meu pé. Só de falar já me dá. Muita vontade. Orifícios cavidades nas coxas nos braços nas mãos.

3.

Deus também errou em não permitir que engravidássemos eu. Queria muito poder engravidar estar. Cheio de outro ser humano. Gerar alimento pra essa outra pessoa que vai. Crescer dentro de mim e crescer de mim mesmo. Essa pessoa que vai comer a minha carne. Pra fazer sua própria carne. Eu queria tanto, mas não posso. Eu. Além disso, tenho menos buracos que elas. E, em vez de poder enfiar mais coisas em mim, eu sou obrigado a colocar nos outros. Queria não ter de colocar nada em ninguém e somente em mim criar e criar orifícios.

Tenho desejo de cortar meus dedos fora porque eu tenho medo de introduzir os dedos nos outros. Nada meu que possa ser inserido em alguém e me agrada. Os dedos do pé também me incomodam. Na verdade me agradam somente na medida que entre eles há um espaço um vão uma fenda quase um.

E eu temo o dia que a terra há de tragar-me. eu passo a vida evitando esse dia. Ensaiando pra esse dia. Todos os dias eu treino pra que, no momento em que eu morrer, ao invés de ser deglutido, eu degluta. Essa será minha única peripécia a minha única obra-prima.

Hei de engolir, comer, destruir a terra. Muito antes que ela me engula.

Natália Zuccala é contista, dramaturga e professora. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Suas peças A e Fenda foram montadas pelo coletivo de dramaturgos Antessala, do qual faz parte. É autora do volume de contos Todo mundo quer ver o morto (Ed. Patuá, 2017).