blattaria, de Eduardo Sabino

capa_alucinatoriosConto do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019).

Antes eram só encontros noturnos. Eu ia à cozinha beber água, acendia a luz, e lá estava a intrusa no azulejo, correndo pra detrás da geladeira. Ia ao banheiro fazer xixi e via duas antenas nojentas balançando no ralo da pia — dava um grito e abria a torneira no máximo. Foi quando percebi que não estávamos sozinhos. Havia uma cidade inteira vivendo nas frestas da nossa casa; as bichinhas à espreita, aguardando a gente dormir pra ir à caça de nossos restos. Como são as coisas: se antes essa ideia me dava calafrios e insônia, agora seria a vida ideal: as baratas andando pela casa no escuro em busca de comida; eu, mamãe, papai e Hugo apagados, felizes, sem dar conta de nada.

Tudo bem que havia conflitos antes da infestação. Mamãe não gostava da casa. Queria morar em um apartamento ou em uma casinha mais nova, que não estivesse, e aí vinha a expressão que deixava papai nervoso, caindo aos pedaços. Ele a chamava de ingrata, dizia que não havia casa melhor no bairro. “Vocês são privilegiados!” Eu e Hugo observávamos mudos e tendíamos a ficar do lado de papai: morar ali não me incomodava; pra falar a verdade, era bem legal chegar ao casarão com as amigas da escola: elas sempre se impressionavam, tiravam até foto dos lustres da sala. “Sua casa parece casa de filme, Maria”, diziam. Um dia, lá pelo século dezenove, todas as casas eram iguais na rua. Quem fundou nosso bairro foram os ingleses que vieram para o Brasil como funcionários de uma companhia de mineração. Hoje as minas estão desativadas, e boa parte das construções dos imigrantes, das pontes às igrejas, foram reformadas com uma estética mais barroca-interiorana, sem graça. Sobrou a nossa casa. O telhado enorme em formato de choupana, dois andares, cômodos espaçosos, janelões brancos, o azul desbotado nas paredes e no toldo da varanda, o gradil quadriculado nos corrimões — tudo de madeira, madeira em toda parte. Sem contar aquelas coisas meio fora de lugar: um piano fodidinho que papai jamais se interessou em consertar, a chaminé de tijolos e a lareira de todo tamanho na sala de visitas — quem precisa de lareira numa cidade quente como a nossa, meu Deus? Acho que nunca a usamos.

O problema de crescer nessa casa é que ela nos denunciava, sempre: primeiro a mim, depois, quando cresci, a Hugo. Mamãe o colocava pra dormir, ele dava um tempinho e saía, andando de meia, descendo a escada nas pontas dos pés, louco pra ver tevê na sala. Nunca conseguiu completar a travessia no corredor. De madrugada, qualquer passinho, até de criança, fazia a madeira ranger, e mamãe logo lhe dava um flagrante. Pra não fazer barulho em nossa casa era preciso ser leve e ágil como as baratas: elas sim eram livres à noite. Talvez o ódio de mamãe pela casa já era, nesse tempo, uma premonição do ódio que ela sentiria pelas agregadas, sofrendo por antecipação os males que elas nos trariam. Quando o assunto de vender a casa entrava na conversa do jantar, brincávamos de dublar a fala de papai, que já sabíamos de cor:

“Essa casa foi de meu pai, e do pai do pai de meu pai. Nossa família está aqui há várias gerações, e daqui não arredo o pé.”

Mamãe dava um suspiro de esvaziar os pulmões e ficava encarando a sopa. Acho que tinha vontade de enfiar a cara no prato fundo e tapar a respiração do nariz.

“Se ao menos a gente pagasse uma empregada. Uma faxineira uma vez por semana. Mas não: estou sozinha com tudo. Essa casa vai me matar.”

Papai desconversava. Dizia que o jardim estava por sua conta. Limpeza pesada. Além das coisas estragadas esperando conserto — sempre havia muita coisa para consertar lá em casa: telhado, gavetas, descargas, portas de armário e fechaduras. Empregada estava fora de cogitação, sentenciava, a aposentadoria era boa mas não dava pra tanto. “Mais um motivo pra vendermos essa casa”, mamãe insistia. Papai bufava, dizia que a culpa era dela. Se saísse do emprego de vendedora de farmácia — vendedora não é emprego que vale a pena, mulher — os dois dariam conta de todo o serviço.

“Se eu sair, quem vai pagar a escola de Hugo?”

“Já tá na hora de ele ir pra pública…”

“E a faculdade de Maria, você banca?”

“Maria é inteligente. Vai passar na Federal.”

Mamãe chegava a engasgar de ódio.

“Você conta com o ovo no cu da galinha, Antônio.”

Levantava num tranco, nem terminava de jantar. Guardava o prato na geladeira, dizia que tinha perdido o apetite, e subia correndo pro quarto. Ficavam sem conversar por dois, três dias, depois se ajeitavam. Essas coisas me faziam perder o sono, remoendo as mesmas perguntas: o que seria de mim e Hugo quando eles se separassem?

Apesar de tudo não consigo lembrar dessa época como um tempo ruim. Éramos quatro e ainda tínhamos a ilusão de sermos os únicos moradores da casa. As brigas eram pouquinhas, insignificantes, e havia bons momentos. Almoços sem gritaria, televisão em família: novelas e programas de humor. Usávamos a varanda nos nossos aniversários e no Natal papai tocava violão até mais tarde.

Então vieram os bárbaros, elas deram o ar da graça: começaram a surgir durante o dia, pregadas nas portas que acabávamos de abrir, camufladas nos bolores da madeira, embaixo dos tapetes e atrás das cortinas. As piores eram as voadoras. Davam mergulhos rasantes de kamikaze e avançavam contra nós, depois se colavam em outra parede e as asas se juntavam rentinhas em suas costas como se nem existissem.

Eu tinha curiosidade em saber mais sobre elas, como tinha curiosidade por todos os tipos de ser vivo — já sonhava em ser bióloga. Vivia observando de perto cigarras, formigas, abelhas e até lagartixas mas das baratas não conseguia me aproximar nem nessa situação terrível em que elas tomavam a iniciativa. Tinha muito medo de agarrarem no meu cabelo. Passei a andar com ele preso dentro de casa. Quando aparecia uma das grandes, eu me trancava no banheiro. Um dia, me sentei no vaso, ofegante, e dei de cara com outra maior escalando o vidro do boxe, sinal de que estavam perdendo mesmo a vergonha ou já não cabiam em suas tocas.

Mamãe também era um desespero só. Chamava por Hugo onde as encontrasse. O pequeno ia correndo, chinelo em punho, Deixa comigo, e se divertia exterminando os insetos. Uma vez, ele me salvou de duas que me encurralaram na cozinha. Vi aquela tripinha seca pisoteando as baratas e fiquei até constrangida.

“Você não tem vergonha, maninha? Olha seu tamanho e o tamanho delas. Elas que deviam ter medo.”

Hugo estava certo, e eu precisava daquela sacolejada. Passei a atacá-las com raiva e coragem e, como era de se esperar, levava a melhor. As baratas não tinham muitas opções: recolhiam-se às tocas ou morriam esmagadas. Papai observava tudo com indiferença. Era o único que as baratas não tiravam do sério. Dava instruções a distância, preocupado com a casa.

“Calma, Hugo, espane ela pro chão. Não vá sujar a parede.”

“Mas ela vai fugir, papai. A vagabunda vai fugir. Olha ali o buraco no teto!”

“Deixa fugir.”

A primeira bronca mesmo quem levou foi mamãe quando destroçou sozinha uma barata que pousou no tapete. Seu primeiro confronto. Bateu tanto na bicha, e com tanta violência, que o inseto se achatou e pregou igual chiclete gosmento na sola da sandália. Papai balançou a cabeça, inconformado: “É só uma baratinha, Cleusa. Porra, precisava disso?”.

Mamãe, a terceira a ganhar coragem, e agora éramos um trio de exterminadores de baratas. O medo se foi e veio a vontade de estudá-las, saber de que eram feitas e quais os limites de um ser que tinha sobrevivido a eras tão extremas e parecia, no entanto, tão frágil. Como a seleção natural as moldou para as tornar tão adaptáveis?

Identifiquei cinco espécies vivendo conosco. A americana era a predominante. Marrom-avermelhada, media cerca de trinta milímetros. Depois vinha sua gêmea menor (metade da envergadura), a germânica, popularmente chamada de baratinha. Em menor contingente, a oriental, vinte e cinco milímetros, negra como uma barata fantasiada de besouro, e a australiana, duas manchas amarelas na extremidade superior das costas que me lembravam os olhos do Black Kamen Rider, seriado japonês que Huguinho adorava assistir na tevê. Outra que às vezes saía das frestas de madeira era a virgínica, miudinha, um centímetro quando adulta, não chegava a ser bonita mas não me dava tanto asco como a mandante do pedaço: a americana, barata tropical, a mais adaptada ao nosso clima. Por ser grande e numerosa, e interagir conosco com mais frequência, virou minha cobaia preferida. Mantive um criadouro por semanas num aquário abandonado no porão. Impressionante como comiam de tudo. Insetos mortos, verduras, carne estragada, as próprias fezes, pedaços de fiações velhas. De uma que prendi com um copo na cozinha decepei a cabeça. Achei que viraria alimento de formiga naquele mesmo dia. Para minha surpresa, ficou vagando decapitada por uma semana no quarto vazio onde a soltei. Não precisasse da cabeça para comer, resistiria mais tempo.

Mamãe não gostou de minha dedicação científica. Enquanto eu analisava baratas com lupas, ela e Hugo enfrentavam sozinhos a onipresença das americanas. Papai gostava de ver meu interesse e se aproximava, folheava por alto os artigos que eu imprimia da internet e ostentava seu senso comum sobre o assunto.

“Você sabia que na China as pessoas comem baratas?”

“Nem todas as pessoas, né, pai!”

“Pois sim senhora. Os chineses comem de tudo. Barata, então, é uma iguaria.”

Uma iguaria exótica. Ajudou muita gente a sobreviver durante a Grande Fome, mas hoje não é um costume tão generalizado assim. Tinha lido sobre uma minoria étnica, na província de Yunnan, que fazia esse espetáculo para turistas nas feiras em via pública, degustando e oferecendo a todos baratas, lacraias, cigarras e outros insetos. Talvez haja outras etnias que preservem o costume, daí a ser um prato típico da culinária chinesa, corre um oceano. Eu queria dizer isso a papai, que ele estava errado. Mas conhecia seu jeito. Iria teimar, elevar o tom de voz, dizer que não se pode confiar na internet nem nos livros, que conversou com um chinês não sei quando nem sei onde e ele não podia ter mentido. Melhor evitar a fadiga e não render assunto, fiz um “oh” de surpresa, “Jura, papai?”, e ele falou mais umas abobrinhas: “Barata no prato na China, minha filha, é nosso filé de frango”. Achei graça e caí na risada. Um bilhão e trezentos milhões de habitantes na China: todo mundo comendo baratas, ao menos uma vez ao dia, isso que é controle de praga.

Apesar de seus exageros, papai estava lúcido. A noite escura de sua alma não tinha chegado. Um arrependimento não ter levado as baratas a sério quando poderíamos ter o seu apoio. De ter achado divertido fazer experimentos, persegui-las, exterminá-las. Três pessoas não podem contra uma multidão de baratas. Não armadas apenas com chinelos e boa vontade. Óbvio que um dia o cansaço nos pegaria de jeito e elas iriam se aproveitar.

Passamos meses inteiros assim: em guerra, mas tranquilos, com a segurança de sermos mais fortes. Matando baratas sob os olhos indiferentes de papai. Depois, veio o surto: das baratas e do velho.

Ele começou a se retirar mais cedo do jantar e a nos tratar com rispidez na hora do telejornal. “Quietos, nenhuma palavra.” Se levantássemos do sofá para matar uma barata que interrompia a programação com sua presença asquerosa, papai se enfezava. Chegou a dar uma chinelada em Hugo um dia, o que rendeu uma discussão comigo e mamãe. O pequeno só queria nos proteger.

Então um dia eu o peguei observando uma barata asiática no pilar da garagem. Tirei a sandália pra esmagá-la e ele me impediu. Alegou que ela estava na dela, sem fazer mal a ninguém, do lado de fora da casa. Ali a nossa lei não valia.

“Você só pode estar de brincadeira, papai.”

Não rendeu assunto. Apenas me deu as costas e fez a segurança da barata enquanto a miserável escalou o pilar e entrou num buraco do toldo.

Andava mais silencioso por aqueles dias, ouvindo rádio, vendo tevê o dia inteiro e, à noite, ainda antes de mamãe chegar da farmácia, ele já tinha posto o caçula para dormir, prendendo-o no quarto. Dizia que era castigo, que o menino estava fazendo bagunça, mas coisíssima nenhuma, Hugo apenas matava baratas.

O problema ficou mais claro na manhã de sábado em que acordei cedo para fazer um trabalho em grupo. Do banheiro, a porta entreaberta, enquanto escovava dentes, vi papai na sacada de seu quarto. Ele estava com as mãos em concha e agachado. Murmurava palavras carinhosas, apanhando um passarinho que se chocou contra o vidro da janela, mas essa foi a minha primeira impressão, a imagem observada de relance e deturpada na inocência de um olhar lógico: você pode imaginar o que ele realmente apanhava, o que ele tinha nas mãos, o que ele ergueu e soltou no ar, debruçado no corrimão. Mamãe já tinha saído para o trabalho e quase não acreditou quando a contei.

“Tem certeza que não era um passarinho?”

“Mãe, acorda. Eu sei diferenciar uma barata de um passarinho.”

Dona Cleusa colocou as mãos no rosto e sentou-se no sofá da sala, “Oh, meu Deus! Antônio enlouqueceu.” Disse que ele havia se levantado de madrugada, falando sozinho no corredor, tratando um bicho por meu bem, e que talvez não fosse o gato.

Decidimos dar um basta nisso assim que subiram os créditos da edição do jornal da noite. Nós duas contra papai. Nem citamos a barata-passarinha. Fomos direto ao ponto. “As baratas estão passando do limite. Precisamos dedetizar esta casa.” Ele se levantou, um medo estranho nos olhos, e tentou deixar a sala. Fomos no seu encalço. “Vocês é que estão passando do limite”, disse baixinho. Mamãe ganhou sua frente, impediu que subisse as escadas e mentiu, disse que já tinha ligado para o serviço de dedetização. Papai interrompeu a fuga, como uma barata que de repente tivesse tomado coragem.

“Ninguém vai dedetizar porra nenhuma!”

Um baita de um berro. Ficamos atônitas. Ele prosseguiu:

“A casa é minha, sou eu que pago as contas dela. Vou vigiar o portão. Aqui ninguém entra com veneno.”

“Mas pai, as baratas…”

“Não tem mais nem menos, Maria. Não quero saber de matança nessa casa. Um bicho inofensivo desse. Que mal as baratas fizeram para nós?”

Eu não acreditava no que ouvia.

“Hein, me digam?”

Quis levá-lo até o computador na sala, mostrar os artigos que eu tinha favoritado na noite anterior.

“Pai, elas podem transmitir um monte de doenças. Podem contaminar alimentos. Estamos correndo um risco danado.”

“Isso é balela.”

“Não é. Pode acreditar. Elas carregam microrganismos nas patas e nas fezes.”

“Que nojeira!”, disse mamãe, se benzendo.

Puxei o celular, dei uma googada, e comecei a ler.

“As baratas são consideradas perigosas para a saúde dos seres humanos. Podem transmitir febre tifoide, tuberculose, conjuntivite, infecção urinária, pneumonia e lepra.”

Papai começou a rir, irônico.

“Nunca ouvi falar de ninguém com febre tifoide por causa de barata, e a lepra já foi extinta. Não acredite em nada da internet, minha filha.”

Sabia que sua reação seria essa, mas eu tive que tentar.

“E tem mais”, continuou, “na minha frente ninguém mais mata essas criaturinhas de Deus. É um ser vivo. Um dos mais antigos do mundo, e merece respeito.”

“Puta que o pariu!”, mamãe estourou. “Pois você vai ter que escolher, Antônio, ou elas ou nós. Desse jeito não dá pra viver.”

Ele olhou para a porta da sala, o rosto agora sereno e abobalhado.

“A escolha é de vocês. A porta da rua é serventia da casa.”

Disse isso e se mandou para o jardim. Um sacana. Sabia muito bem que mamãe não tinha condições de se virar sem ele. Ficamos imóveis na sala por uns minutos, eu olhando a tela do celular e mamãe revoltada, ele veria só, ela iria dar entrada no divórcio e alugar um apartamento para nós, mas eu sabia que falava da boca pra fora. Seus olhos se encheram d’água e ela saiu de meu campo de visão, correndo para a varanda a tempo de esconder seu pranto. “Está vindo uma tempestade”, disse com voz embargada, “Me ajude a fechar as janelas e abaixar os toldos, Maria.”

Naquela noite, tive um sonho horrível. Sonhei que uma enchente nos levava pela rua, nós quatro, e o fluxo era de baratas, não de água. Os insetos saindo de nossas bocas, infestando nossos cabelos, cobrindo nossos corpos, a gente se afundando e emergindo, entre troncos de árvore e carros flutuantes. As baratas se movimentavam como gotas enormes e amarronzadas, umas sobre as outras, caoticamente, uma China inteira delas, fazendo o rio correr rua abaixo. Acordei agitada, ouvi um farfalhar de asas no escuro, acendi a luz e estapeei a parede no ponto aonde a calhorda remanescente do meu sonho pousou. A palma da mão ardeu e ela levantou voo, escapando pela janela.

Nos dias seguintes, papai cumpriu à risca suas ameaças. Ele nunca havia me agredido fisicamente, mas algo em mim, e naqueles olhos insanos, me dizia que ele seria capaz, e decidi não o confrontar. A partir de então, quando estávamos reunidos no sofá, uma barata podia atravessar a sala e cagar no tapete sem temer pela própria vida. Difícil suportar aquela ousadia. Huguinho fechava os olhos, rangendo os dentes. Eu e mamãe costumávamos sair da sala, enojadas. Com o tempo, mudamos a tática e continuamos a resistir. Cada um ia para um setor da casa. Avisávamos um ao outro, por SMS, onde papai estava e a quem ele estava vigiando. Elas tinham menos baixas, mas sofriam mais, uma morte mais lenta: um prazer inigualável senti-las rompendo as vísceras sob as nossas sandálias, tudo porque o impacto não podia fazer barulho, era necessário matá-las sem uso excessivo de força e sumir rapidamente com o cadáver.

Uma noite quem sumiu foi papai e eu o procurei em todo o casarão, até nos cômodos que não utilizávamos, mas não conseguia encontrá-lo. Acendi a luz do corredor do primeiro andar e sacudi a cabeça, tentando afastar a lembrança da enchente de baratas. Então ouvi uma música antiga, de banda marcial, o hino de algum clube de futebol, talvez do país, e o som me levou ao porão, o alçapão aberto. Tirei os chinelos e desci alguns degraus, para dar uma olhada. Tive de tapar a boca para sufocar o som do meu grito. Papai estava numa cadeira de balanço, ouvindo a vitrola antiga de vovô e fumando um cachimbo. Ao seu redor, baratas, dezenas de baratas, baratas de todas as espécies que cataloguei. Estavam imóveis como num círculo satânico, vivas e quietinhas como que dopadas. Olhei bem e mal podia acreditar: a maior de todas que eu já tinha visto estava pousada no seu dedo e ele a suspendia como a um falcão adestrado. Havia também uma barata no seu ombro, empoleirada como um papagaio de pirata, e outras duas no joelho. Um São Francisco de Assis do inferno, era o que ele tinha se tornado.

Não consegui sufocar o segundo grito. Papai quase caiu da cadeira e as baratas se dispersaram. Saí correndo chorando e me tranquei no quarto. Ele bateu na minha porta mais tarde, quis se desculpar, disse que eu havia entendido errado, me perguntou o que eu tinha visto e eu disse para ele ir embora. Não queria saber de conversa.

Pensei comigo mesma: nós perdemos papai, e elas o ganharam. Ele está apaixonado e isso talvez seja irreversível. Contaria tudo a mamãe? Arrumaria minhas coisas e fugiria o mais rápido possível daquela casa antes que ele nos fizesse algum mal? Remoí essas perguntas por dias, e o que fiz: deixei os dias me levarem como o rio de baratas. Segui a vida e tentei esquecer o que papai fazia no porão da casa todas as noites antes de mamãe chegar da farmácia. Achei que ele não tinha mais jeito, que nunca mais se daria conta de suas ações, mas eu estava enganada. Seus dias de São Francisco de Assis tiveram fim, e então veio o martírio. Porque papai acordou. Acordou e começou a trucidar baratas, aos berros, em todos os cantos que as encontrava. Acordou e ligou para o Serviço de Dedetização, três dias depois do incidente. A mamãe nada disso importava mais, nem a mim, mas ainda tive forças para descobrir a razão de nosso infortúnio, ler tudo a respeito e jogar as informações na cara do velho.

Titylus serratus, escorpião amarelo, predador de insetos. Brilha no escuro, mas dormíamos. Nossa casa devia estar para ele como a casa de doces para João e Maria. Nunca saberemos quantas baratas ele detectou, quantas baratas ele devorou, quantas baratas ele perseguiu até entrar no quarto de Hugo, ferroar o seu braço e o tirar de nós.

| o lançamento do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019) será sábado que vem, 27 de julho, em Belo Horizonte: [link]. | página da Editora Caos e Letras: [link]. |

Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, em Minas Gerais, no ano de 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016) e Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009). Trabalhou com edição e revisão de textos para revistas e jornais nas áreas de educação, comunicação e literatura. Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto “Sombras”. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.

a hora em que as putas envelhecem, de Leonardo Araújo

Toda noite ela executava o mesmo ritual. Depois do banho demorado, em que cuidadosamente lavava todo o corpo com sabonete de camomila, vestia a calcinha de renda, a meia-calça preta, já gasta de tanto tirar e colocar, o vestido vermelho e, por fim, o salto alto. Só então se sentava na penteadeira improvisada, ao mesmo tempo em que envolvia os cabelos ainda molhados com uma toalha. Diante do grande espelho trincado — repartira-se em vários pequenos pedaços, onde podia ver muitas imagens de si mesma: puta, mulher, mãe — passava o batom carmesim, o delineador para os olhos e a base para disfarçar o rosto vincado, especialmente ao redor da boca e perto dos olhos. Fora um dos presentes que um antigo cliente havia lhe deixado. O outro, dormia todo esparramado em sua cama, a qual exalava um reconfortante cheiro de lavanda.

Já de pé, secava os cabelos e em seguida passava a escová-los vigorosamente, com a ajuda de um creme. O perfume era estrategicamente borrifado atrás das orelhas, no pescoço e nos pulsos. Quando jovem, aprendera com as mais experientes que não devia nunca colocar perfume nas virilhas e muito menos nos seios e na bunda, “Ou você acha que algum homem vai gostar de lamber perfume, menina? Homem gosta é do gosto de mulher. Tem até um cliente meu que pede pra que eu não lave minhas partes. Diz que o sabonete tira o cheiro da buceta”.

Ao terminar de se aprontar, ela se olhava uma última vez no espelho, a ver se não havia esquecido de nenhum detalhe. Então, descobria novamente em si a beleza fugida, o rosto da jovem que costumava dar nome às estrelas nas noites solitárias dos primeiros dias. Antes de apagar a luz, pegava a bolsinha que deixava sempre pronta em cima da cômoda, a qual continha os artigos de primeira necessidade para toda mulher da vida que se preze: um canivete sempre afiado, preservativos, cigarro e dinheiro para alguma emergência.

O último e mais importante ato do ritual diário, meticulosamente cumprido, era o beijo que dava na testa do filho. Por vezes, lhe doía tanto ter de deixar seu pequeno tão só e indefeso, inocente como só as crianças podiam ser, que pensava em não sair de casa nunca mais, em ficar deitada a seu lado guardando-lhe o sono, protegendo-lhe do mundo que sabia por experiência ser mau e cheio de surpresas trágicas.

Porém, algo mais forte que seu instinto materno reclamava sua presença nas esquinas desertas da cidade escura. Se quisesse, poderia ter outra vida. Por várias vezes havia recebido promessa de casa e até de colégio bom para o filho. No entanto, recusava-as todas, sem vacilar, porque sua independência era preciosa demais, algo de que não conseguiria abrir mão. Apesar do amor que sentia pelo menino, achava que ele deveria viver a vida que ela podia lhe dar, com o trabalho que havia escolhido para si. Não que se tratasse de uma escolha consciente, arquitetada. Apenas deixara-se levar pelas forças estranhas que dirigiam os destinos de todos nós.

Essa sabedoria a fazia diferente das demais, que ansiavam pelo dia em que alguém finalmente viesse resgatá-las daquela situação. Por não suportarem a barra, afogavam a própria dor como podiam, e, no processo, iam perdendo a juventude, a vida e, principalmente, o dinheiro. Tinha muita pena dessas meninas que se sentiam sujas e marcadas pelo trabalho. A elas dava conselhos, embora soubesse que seus caminhos já estavam traçados.

Tomava o cuidado de sempre fechar a porta com duas voltas completas, e só então ganhava as ruas, com o olhar atento, a cabeça erguida e o passo firme, sem dar ouvidos aos elogios grosseiros que jogavam em sua direção ao passar pelos bares repletos de bêbados. Deixava para sair de casa um pouco mais tarde que as outras, pois, já tendo adquirido certo prestígio e respeito, não precisava mais tomar posição na selvagem luta por espaço, que ficava por conta das mais jovens. Costumava ficar na esquina de uma rua próxima à antiga ponte, hoje quase esquecida, de onde, quando adolescente, costumava ver o sol magnífico se pôr atrás da linha do horizonte, enquanto a lua esperava sua hora de chegar.

O vento fresco que soprava do oceano a fazia serenar, tornando-a, ainda que por alguns instantes, esquecida de si mesma. Desaparecia na própria brisa, passando a fazer parte dela, sublimando-se lentamente em pequenas gotículas de água a envolver todas as coisas. Tais momentos só eram interrompidos pelos carros que se aproximavam convidativos. Insinuava-se a eles de modo inocente, sabendo que isso a tornava mais desejável. Num sussurro, como se o pudor lhe tornasse difícil a voz, anunciava seu preço. A maioria aceitava sem reclamar. Dali, deixava-se levar para aonde quer que fosse. A única exigência que fazia era a de que, ao final, a devolvessem para o mesmo lugar. Nas noites movimentadas, chegava a perder a conta de quantos homens atendia. Embora, nessas ocasiões, o dinheiro corresse mais solto, preferia as noites calmas e os clientes menos apressados.

Por volta das cinco da manhã, quando a noite já agonizava, caminhava lentamente para casa com os sapatos nas mãos e o coração tranquilo. Quase sempre trazia uma canção nos lábios. “Sempre que o amor fecha uma porta, ele abre uma janela, emoção que entra por ela, pode ser até mais bela, pode ser até mais doce”. Só então voltava a se lembrar do pequeno que a essa hora já devia estar perto de despertar.

Ao abrir a porta, desfazendo as duas voltas da chave, abria um sorriso enternecido ao encontrar o filho ainda deitado. Custava-lhe controlar a vontade que tinha de cobrir-lhe com seus beijos quentes de amor, mas não se atrevia a tocar-lhe antes do banho. Colocava a bolsinha de volta na cômoda, e ainda em pé ia tirando o vestido, a meia-calça preta, já gasta de tanto tirar e colocar, a calcinha de renda. Diante do grande espelho trincado — repartira-se em vários pequenos pedaços, onde podia ver muitas imagens de si mesma: mãe, mulher, puta — tirava o batom carmesim, o delineador para os olhos e a base para disfarçar o rosto vincado, especialmente ao redor da boca e perto dos olhos.

Ao retirar a maquiagem, sentia os anos retornarem numa velocidade estonteante. O rosto coberto de volúpia, os lábios entreabertos, o olhar malicioso davam lugar a um semblante plácido e ao mesmo tempo grave, maternal. No chuveiro, deixava a água massagear o corpo cansado da noite não dormida, sentindo-se purificada.

Acordava o filho para ir à escola com pequenas cócegas nos pés. “Vá pro chuveiro e tome um banho bem gostoso, que a mamãe quer ver você cheiroso, viu?”. Enquanto ele se lavava, ela punha, entre bocejos, a mesinha do café só para os dois.

Leonardo Araújo é cearense, psicanalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Escreve contos.

a luz vence a escuridão, de Marcelo da Silva Antunes

capa_outroscortesAcender vela no jantar era tão certo quanto morar na casa dos fundos de favor. Última casa do quintal, de uma irmã da igreja. Sem CEP, sem videocassete e com banheiro fora.

“Tá sem luz, posso acender as velas hoje, mãe?” — dizia quando a noite se apresentava.

“Espera menino, tem que economizar essa vela, tenho que dar banho no seu irmão”.

Ir pra escola, nem de longe me agradava. Brincar no pátio eu gostava, mesmo sozinho. Apanhar dos meninos mais velhos era o problema. A merenda tinha gosto azedo, e salsicha dentro de lata de sardinha não é gostoso.

Minha paixão sempre foi o fogo. Gostava de olhar pra ele. Ficava olhando sua luz e sentindo seu calor até pegar no sono. De alguma forma me acalentava. Mamãe dizia que eu era fogo. Ela cuidava de apagar todas as luzes antes de deitar. E palestrava sobre o perigo. Apagava com os dedos, me ensinou que assoprar velas traz maus agouros. Mãe sempre contava histórias de noite, todas muito parecidas. “Foram felizes para sempre, e acabou”.

Sempre fui o homem da casa, segundo mãe. Mas ela que mandava. Um novo emprego longe do cachoeirinha me deixou responsável pela casa. Já tinha 11 anos.

Irmãzinha da igreja ajudava de dia com alguma comida. De noite ia pro culto. Ficava com o quintal todo pra mim. Já tinha a chave do portão e da casa, receber a da gaveta de mantimentos foi de grande honra e responsabilidade. Eu era mesmo o homem de casa.

“Cuidado com as bolachas, caixas de fósforo e velas, só acende quando escurecer e se precisar, senão, dorme que a mãe já tá chegando, abre só pra pegar açúcar e leite do seu irmão, se acabar”.

Tivemos dias de luz. E dias que a mãe não voltou. Cada chegada da mãe, festa. Seu novo trabalho traria coisas melhores, ela dizia. O armário apresentava sinais disso e quando eu comia um pacote inteiro de bolacha, não tinha bronca.

Mãe chegava muito cansada, quase 23h, quase sempre.

Passei a ser um estranho na escola, eles me chamavam de turista.

“Hoje estamos sem luz” — gritou meu irmão, Pedrinho.

Ficar sem luz era certo. Projeto de redução do governo, alguma coisa a ver com água, não sei bem. Sempre homens pendurados nos fios, mexendo pra lá e pra cá. Em casa tinha relógio, com garrafas de água em cima.

Pela primeira vez eu seria o responsável de vencer a escuridão.

Abri o pacote de velas. Fiquei esperando escurecer. Escurece rápido por aqui, sem horário de verão. Peguei o fósforo e acendi todas, quatro no total. Tão bonita a claridade do quarto e cozinha. E ficou tão quentinho.

Embalei Pedrinho cantando a música da mãe. Ele dormiu. Fui apagando as luzes com os dedos — igual aprendi. Deixei uma. Coloquei do meu lado no chão, deitei pra esperar mãe. Ela não chegava nunca.

Peguei no sono, lembro que o calor aumentou. Parecia que tinha alguém me abraçando. Ouvi berros da rua. Senti gosto de terra.

Última imagem que me lembro foi de cinzas voando e o fogo ao fundo. O fogo ardia tão bonito naquela escuridão.

| conto do livro Outros Cortes (2019). |

Marcelo da Silva Antunes nasceu em São Paulo, no dia 13 de junho de 1992, dia de Santo Antônio e de Exu. É Autor de VIVAVACA (2017), SP: Sem Patuá (2018) e Outros Cortes (2019). Editor do selo literário Borboleta Azul, agitador cultural e oficineiro de escrita criativa. É poeta nas horas cheias. Instagram: marcelodasilvaantunes_poeta

aquário, de Penélope Martins

1.
era um ferrão de arraia no estômago. meus pulmões paralisados. retomando do princípio, refiz o passo a passo desde que autorizei sua entrada. não sou o tipo de pessoa que se importa com datas e isso pode parecer uma desqualificação sumária dos meus sentimentos. imagino, no entanto, que você veio me buscar numa quarta-feira. a honestidade do seu convite fez com que eu deixasse de fingir o que eu não era. o que me causa espanto até agora é como vínhamos evitando esse confronto de apaziguadas verdades. lembro como agora, sua mão sobre a minha impedindo que eu desfizesse o movimento. eu disse “tamborilar é verbo substantivo, um sobressalto quase doloroso”. seus olhos sinalizaram perplexidade e deslumbre. eu repetia repetia repetia na quietude da mesa. veio a voz ordenando: “fique assim”. a fotografia é menor do que a memória. ainda há tristeza nos olhos, mas só podemos rever os dedos semi erguidos e um vestido admirável.

2.
quando R. me tocou a primeira vez, não houve nenhuma timidez de minha parte. aquilo parecia natural como tomar banho ou ir à feira. R. tinha um cheiro adocicado na pele, mas nada comparado às essências florais que me enjoam. era um cheiro de mato, óleo de madeira, visgo de peixe. era ela no meu ouvido em gemidos inocentes. Não havia em suas palavras a presença de uma memória que a pudesse excitar. Eu me excitava no total desmemoriamento dela, suas mãos pequenas que tentavam em vão apanhar o meu corpo. a inteireza com R. fez com que eu me esquecesse do que ela poderia esperar de mim. devolvi uma curiosidade mesmo infantil. ela segurou minha mão, colocou sobre o seu sexo. deslizando meus dedos para dentro dela eu fixei seu perfume. não são poucas as vezes que fecho os olhos e escuto os gemidinhos fracos repetidos repetidos repetidos mantra.

3.
naquela paisagem milimetricamente fria, uma onda de arrependimento nos abateu. você tentou disfarçar pedindo que eu começasse uma leitura. vi como endurecemos dos calcanhares aos ombros. busquei açúcares, sua voz encarnou. “coma chocolates, pequena suja”. a embalagem se rompeu. simulamos recato. você abriu uma garrafa. o açúcar no álcool embebeu palavras ridículas. “quando foi que começamos?”, “aquela dose de conhaque a mais e eu soltando bobagens, lembra?”, “poderíamos ter evitado?”, “ainda não há o acontecido.”, “eu voltei ao mesmo ponto porque senti algo mal resolvido.”, “sinto que podemos nos afogar nisso.”, “talvez seja exagero de precaução.”, “é só tirar a prova de que isso não é nada significativo.”, “devemos ter mais da prática do que da teoria.”, “na pior das hipóteses, poderemos rir.”, “lembra a fotografia?”, “ como se fosse agora.”, “já me faz falta aquele vestido branco.”, “imagino você nua, um vestido branco no sol.”, “quando foi que você me percebeu?”, “quando foi que você me percebeu?”, “eu gostaria de estar na biblioteca.”, “seríamos dispersos na biblioteca.”, “estou tonta.”, “deite-se um pouco.”, “eu não vou conseguir evitar que aconteça.”, “não se preocupe, somos dois peixes no aquário, nada mais do que isso…”.

4.
uma vez R. me convidou para uma festa. eu confiava plenamente em R., embora soubesse que ela precisava de alguma dose de cicuta para sobreviver. R. foi molestada pelo pai. isso poderia explicar sua fixação em dominar o medo. cheguei no endereço vestindo alguma coisa muito séria. R. estava meio alta. ao fundo da sala, a janela de vidro substituía uma parede. eu sempre tive pavor de altura. as luzinhas vertiginosas desenhando um mapa. fiquei parada no centro da sala. aquele medo de altura. aquele medo de ser dominada pelo medo. R. se estirou sobre um sofá. sugeriu que eu relaxasse. um sujeito passou a mão na minha cintura. por um momento eu pensei que seguiríamos no inevitável. eram dois homens, R. e eu. a plateia esperando, o foco da pergunta repetida repetida repetida sobre mim. R. poderia ter me avisado. era uma questão de sobrevivência. R. no sofá já beijava um cara de cabelos longos, enfiava os dedos por trás de sua nuca. transfigurei ao retomar a memória, os dedos de R. deslizando entre minhas pernas. o homem de olhos azuis disse que eu deveria beber algo. não fosse o fascínio que R. exercia sobre mim eu jamais entraria naquele apartamento. apanhei a bolsa. abri a porta, entrei no elevador calada como um coral pálido. corais respiram? os olhos azuis me seguiram até o carro afirmando sorriso nervoso de caninos pontiagudos. entrei no carro. tranquei e não pude evitar o alívio olhando o homem pelo retrovisor. parti para nunca mais voltar a ver R. vez em quando sonho seu corpo envolto por almofadas e ácidos.

5.
sou uma interiorana convencional. sei que isso não combina com o fato de acordar nua numa cama cujos lençóis não são os meus. a assepsia me obriga que eu pense na lista de pessoas que se deitaram sobre esses lençóis. pessoas cujo espírito eu gostaria de manter distância. cabeças engorduradas, silicones, saliva, suor, porra. repetição de movimentos daqueles desconhecidos dentro da minha cabeça. nauseante ser eu. retomo dignidade em poema arrogante. desenho a palavra. atinjo seus olhos. amanheço onda. bato sobre seu peito repetidas repetidas repetidas vezes. os lençóis brancos, a espuma do mar ainda que houvessem vestígios. “calma, dois peixes no aquário.” “amor é tempo relativo.” e tantas outras coisas que eu posso intuir de sua boca sobre a angústia de não ser nada. filtro inteligível que me apaixona. a lista de títulos enfileirados. antes era o medo de saber você, depois, o medo de que me deixasse ali sobre a espuma de algodão, nosso aquário redondinho, pedras brancas. para se esconder do fato. três fios de plástico-planta para dizer “esta é sua casa”. a culpa que eu carrego é por vezes ter sido distraída com a vida. deixei a janela aberta. tocava diamante verdadeiro na vitrola, disso eu posso afirmar como se fosse agora. alcancei a cena a tempo de ver o imenso gato partindo entre as grades. o corpo frágil escamado entre caninos pontiagudos. três filetes de plástico no chão e aquelas pedras entre cacos de vidro. o esconderijo não serviu para nada.

Penélope Martins (Mogi das Cruzes, 1973) é escritora, narradora de histórias e articuladora em projetos de fomento da palavra escrita e falada. Pós-graduada em Direitos Humanos pela PUC-Campinas, dedica-se à formação de novos leitores desde 2006, produzindo conteúdo para encontros presenciais e plataformas digitais. Colabora com a articulação de reflexões sobre a leitura com a Editora do Brasil e outras instituições. Participou de coletivos de mulheres com poesia autoral e faz a curadoria do projeto Mulheres que Leem Mulheres, com ações em diversas instituições culturais como o Sesc. Entre suas obras publicadas estão Minha vida não é cor-de-rosa (2018) e Que amores de sons! (2018), ambos pela Editora do Brasil, Poemas do jardim (2013), Editora Cortez, Quintalzinho (2014), Editora Bolacha Maria, e As aventuras de Pinóquio (2018), Panda Books. Integrou a antologia Sete, de poetas contemporâneas, organizada pela Editora Essencial, e é autora do livro de poesia Que culpa é essa? (2018), pela Editora Patuá.

o homem distraído, de Sara Albuquerque

O homem distraído não mexera nem um bocadinho de cílio quando o despertador do celular tocou a melodia d’O menino da porteira, no volume máximo, por três vezes seguidas, a cada oito minutos de cochilo — cochilos meus, diga-se —, tampouco acordou depois que me levantei, dobrei o lençol, tomei o comprimido de anticoncepcional, catei as notas fiscais, os cartões de visita, as bulas de remédio, os panfletos de propaganda, os lenços com catarro e os papeis de chiclete, perdidos no chão ou amontoados no criado-mudo, separei uma a uma das peças de roupa — também dispostas aleatoriamente sobre o piso —, decidindo pelo olfato o que iria para o cesto e o que ainda parecia limpo, e me retirei do quarto levando comigo os copos, xícaras, pratos e depósitos de biscoito, utilizados nas noites passada e anteriores.

Na cozinha, embora o resto da pia estivesse um brinco, no canto à esquerda, ainda esperava para ser lavado o recipiente de geleia de frutas vermelhas, com água até a borda para amolecer os resquícios do produto — o homem distraído deve tê-lo visto por ali e pensou ora, é a minha vez de lavar os pratos, mas, vejamos, a Fulana — no caso, a Fulana era eu — tem mania de reaproveitar as coisas, ela provavelmente vai usar este vidro para colocar café ou nozes, então, vou deixá-lo por aqui, intocável, intacto. Porém, o homem distraído pode não ter chegado a refletir sobre isso, muito menos nessa ordem. Sejamos justas: é possível que o homem distraído nem sequer tenha notado a presença do recipiente de geleia de frutas vermelhas e o mesmo pode ter acontecido, nas semanas antecedentes, quando o deixou vazio na porta da geladeira, junto às garrafas secas de água mineral e o pacote de salgadinho fechado com o pregador, não tendo quase nada dentro, exceto por umas migalhas que poucos se dão ao trabalho de comer.

Igualmente, não se incomodou o homem distraído em trocar a sacola da lixeira no banheiro, ainda que nela não houvesse mais nenhum espaço para maço de papéis, sendo a solução empilhá-los num montinho ao lado, por cima dos azulejos, a um palmo de tocar nas toalhas de banho penduradas no cabide, as quais eu costumava substituir, pelo menos, uma vez na semana, mas isso também o homem distraído não devia ter percebido, pois se tratara de detalhe diminuto e ele apenas me gritava do chuveiro, amor, me dá aí uma toalha, e então eu lhe entregava uma daquelas, recém-passada e impregnada com cheiro de amaciante, ou o de jasmins, ou o de camomila, dado que escolhi mudar a marca após alguns meses, mas, uma pena, meu deus, sabemos que o homem distraído é um homem distraído, de modo que ele nem teve a oportunidade de opinar sobre qual das fragrâncias iria preferir.

O homem distraído também não viu que costurei suas bermudas rasgadas, ou que passei o aspirador de pó em toda a casa, ou que mudei a cama de lugar, ou que tirei as roupas do varal, ou que eliminei o mofo das paredes, ou que consertei o trinco da janela, ou que encerei seus sapatos de couro, ou que ajeitei os livros nas prateleiras — três, cinco, sete vezes num mesmo mês —, ou que fui ao supermercado e escolhi os produtos e conferi as suas validades e os organizei no carrinho e os passei, um por um, no caixa, e subi com eles três lances de escada e os retirei das sacolas e os dispus nas prateleiras da despensa e guardei todas as sacolas e higienizei as frutas e as hortaliças e só então preparei o almoço que o homem distraído comeu, enquanto conferia as redes sociais, pois o homem distraído estava tão devastado e cansado da sua rotina recheada de compromissos inadiáveis, que sua atenção não tinha intenções de se voltar para afazeres desimportantes como os meus.

Foi, por isso, deveras inesperada a surpresa que sofreu o homem distraído quando cortaram a água e a energia da sua casa e ele não sabia como proceder ou a quem recorrer, procurando no Google o telefone das empresas responsáveis, o qual discou, e esperou na linha durante quarenta e sete minutos, pois sua ligação era muito importante para elas, e então foi atendido por uma voz simpática informando-lhe que as contas se encontravam pendentes de pagamento faziam três meses, e ele argumentou que aquilo era um despautério, mas que coisa sem sentido, a Fulana não esqueceria de pagar as contas, como assim, e então o homem distraído percebeu que talvez não tivesse me visto naquela manhã, talvez não tivesse me visto havia uma semana, talvez não tivesse me visto já fazia um mês, mandando-me uma mensagem contando toda esta história de perspicaz descoberta, cuja leitura só realizei alguns dias depois, porque, desta vez, quem estava distraída era eu.

Sara Albuquerque é maceioense e nasceu em 1990. Mestra em Escrita Criativa (PUC-RS). Publicou os seguintes livros de literatura infantil: O segredo do rio mundaú, O embrulho misterioso de Nina, e Ei, você viu Luizinho?, todos pela Iogram. No gênero poesia, tem publicados Sete centímetros de língua (Ed. Patuá) e Giz morrendo (Iogram).

reforma, de Tiago Germano

Meu avô costumava dizer que ter saúde era ter capacidade para trabalhar. Era o mote que repetia quando caiu do telhado e como que por milagre se safou, sem fraturar nenhum osso. Tinha setenta e nove anos e tentava consertar uma goteira da sala. Sentiu os pingos escorrerem pela aba do boné, assim que parou para assistir ao jornal. Todas as noites, por uma hora ou pelo quanto durassem as notícias, se espichava em sua espreguiçadeira para acompanhá-las. Deixava suas costas se afundarem no tecido da cadeira e colava os joelhos no peito, agachando-se com os pés apoiados na armação. Os braços envolviam as canelas, finas como as de um sabiá. Nas noites de frio, se enrolava numa manta e ficava ali todo embrulhadinho, parecendo o fantasma de uma criança. Nós comíamos na mesa enquanto ele jantava naquela posição, que não parecia muito confortável para alguém da sua idade. Ríamos constrangidos quando ele peidava e soltava um aboio para disfarçar o barulho. “Velho frouxo”, resmungava minha avó. Ele levantava para deixar o prato na cozinha, se agachava mais três vezes e dizia com orgulho: “Pelos menos minhas juntas são melhores que as suas”.

Depois do acidente, ficamos de olho nele. O velho subiu ao telhado outra vez, com a ajuda de uma escada que ele mesmo construiu e escondia no quintal, entre galhos e pedaços de madeira. Desta vez, manteve o equilíbrio e caminhou até a casa vizinha, que era sua mas que estava alugada há meses. Seu objetivo era destelhar o teto e intimidar o inquilino, que segundo ele atrasara o pagamento do aluguel. Antes disso, já havia tirado a porta, cuja chave ainda mantinha guardada. Por sorte, não choveu. Os móveis do inquilino não foram roubados e o caso não foi parar na delegacia.

Mais ou menos por essa época, começou a nutrir um ciúme insano de minha avó. Ela ia com frequência à igreja e não aguentava mais as bravatas do velho, que passara a estranhar sua ausência e desconfiar de suas saídas. A gota d’água foi quando minha avó voltou para casa e constatou que meu avô havia mudado a fechadura. “Menos mal”, pensou. “Pelo menos ele não tirou as telhas.” Mas não conseguiu manter o humor quando meu avô passou a gritar seus impropérios da janela e a insinuar que ela não estava indo à missa coisíssima nenhuma, ao menos não para ouvir o que o padre tinha a dizer. Mudou-se para a casa de uma das filhas e jurou que, enquanto vivesse, jamais colocaria os pés naquela casa.

Passaram anos sem se ver. Anos em que meu avô se distraiu assistindo sozinho ao jornal e trabalhando em sucessivas reformas na casa. Na última, que começou depois que o inquilino enfim quitou suas dívidas e se mudou, decidiu derrubar a parede do banheiro que era usado pela minha avó e incorporá-lo à casa vizinha. Concluído o projeto, não conseguiu voltar a alugar a casa. Todos que a visitavam reclamavam do banheiro cuja entrada dava direto no box, bem embaixo do chuveiro. Meu avô sentava-se na tampa do vaso, cruzava as pernas, olhava para a porta e não conseguia entender o problema.

Um dia viajou para o Sertão e, como sempre fazia, voltou com o carro carregado de frutas. Visitava cada uma das filhas, e a cada uma presenteava com um tacho. Nesta altura minha avó já morava sozinha e, numa passada por sua casa, alguém descobriu um tacho dessas frutas escondido na cozinha, abrindo a cortina do armário de panelas. Nenhuma das filhas havia levado as frutas para lá. Desconfiamos assim que ela também podia ter recebido a visita de meu avô. Que eles talvez estivessem se reaproximando, sem revelar nada a ninguém.

Minha avó cumpriu o prometido e jamais pôs os pés de volta na casa do meu avô. Na última noite antes de ele ser transferido para o hospital, recebemos uma ligação muito estranha da parte dela, preocupada. Meu avô havia batido em sua porta e pedido para dormir lá. Dizia que não conseguia pregar os olhos com a casa cheia de mortos. Fomos até lá no outro dia e o descobrimos quieto na espreguiçadeira, um prato vazio em cima da mesa e a televisão ligada no mudo, fora do horário do jornal.

No leito, antes de morrer, suas pernas se dobravam naquela mesma posição e era impossível ver os seus cambitos, cobertos com a manta do hospital. Parecia ainda o fantasma de um menino, embora tivessem tirado o seu boné e seu fino topete insistisse em se erguer orgulhoso, mantendo-se sempre de pé.

Ajudei-o duas vezes a ir ao banheiro. Nas duas, agradeci imensamente o fato de a porta dar direto no vaso e não no box.

Tiago Germano é autor do romance A Mulher Faminta (Ed. Moinhos, 2018) e do livro de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), indicado ao Prêmio Jabuti.

ato final, de Lourença Lou

Com o rosto entre as mãos, sentou-se aos pés da cama. Finalmente tomara a decisão. Nunca mais veria o armário ser esvaziado. Nunca mais a solidão invadiria lençóis amarrando-o aos dias vazios. Havia se rendido a ela. Aceitou sua volta em silêncio. Como das outras vezes. Como se as longas ausências não tivessem estraçalhado com sua autoestima e definitivamente o transformado num arremedo de si mesmo, num monte de medos. Aceitou sua volta escondendo o quanto a queria. O quanto suas mãos precisavam fechar-se em volta dela. Suas mãos sempre foram instrumentos do prazer da mulher. Os gemidos dela faziam sua boca secar e o sexo doer, enquanto permanecia mudo, covardemente mudo. Excitava-se com a excitação dela. Mesmo quando se negava a ele. Quantas vezes ele tivera que se satisfazer tocando-se, tocando-se, enquanto a olhava masturbar-se e gritava o nome de outro. Feri-lo era o maior prazer dela. Era seu capricho transformá-lo naquele monte de merda que boiava nas águas do sofrimento e da castidade que lhe impunha. Não se arrependia de ter-lhe feito todos os caprichos. Mas chegara ao limite, aquela tênue linha que separa a sanidade do nonsense. Uma linha que ele esticara diversas vezes até tê-la arrebentada, trazendo-lhe de volta o orgulho. Ela fora sua única mulher. Única. Sofreu com os mistérios que a cercavam, mas sabia que para tê-la tinha que aceitar aquela ferida aberta sangrando diariamente seu amor-próprio. Tinha que engolir os silêncios que respondiam suas perguntas. Tinha que continuar vomitando escondido o fel do ciúme. Ao acordar, existia sempre aquela boca ao lado da sua. Aqueles seios arrogantes a ditar-lhe ordens. E ele, vassalo, tirando-a dos sonhos com a língua em seu corpo. Invariavelmente, ela lhe agarrava os cabelos até arrancar-lhe um grito de dor. Cuspindo-lhe insultos, fechava-lhe as pernas e mandava-o se masturbar. A raiva fazia seu sexo doer. Em movimentos fortes e rápidos, ele esvaziava-se daquele sêmen covarde, lambuzando barriga, coxas e pernas da mulher. O prazer da vingança durava até ela exigir que a limpasse com lambidas rápidas. Ele sentia seu próprio gosto e a humilhação devassava o que lhe restava de respeito próprio. Depois deitava-se ao seu lado. Era o que importava. Fechava os olhos e inspirava sua respiração. Alimentava-se da esperança de cada dia que nascia nela. Até que, enfastiada, empurrava-o para o chão e se vestia para outras vidas. Também não se arrependia agora do ato final. Estavam ambos descansados daquela inquietude que fazia da mulher um frio algoz, o que levava seu coração a espremer-se no peito. Outra despedida ele não suportaria. Não mais a imaginaria dividindo lençóis, somando bocas, multiplicando gozos. Não mais se sentiria morrendo, lenta e dolorosamente, naquelas incontáveis horas de espera. De agora em diante, seguiriam separados. Não por obra da vontade dela, mas pela indestrutível necessidade dele. Deu uma última olhada no vermelho que escorria aos seus pés. Finalmente dormiriam sob o mesmo teto. Ela debaixo dele, como nunca estivera. E ele a caminho do inferno.

| conto inédito do livro O lado oculto do amor e outros contos (no prelo). |

Lourença Lou é mineira, de Belo Horizonte. Cursou Letras na UFMG e se especializou em Administração Escolar. Após mais de vinte anos de carreira acadêmica, voltou-se para o mercado empresarial. Entretanto, continuou escrevendo. Participou de inúmeras antologias, de sites e revistas literárias, nos quais teve publicados contos, crônicas e poesia. Publicou, pela Editora Penalux, os livros de poesia Equilibrista, Pontiaguda e Náufraga. Ainda este ano, lançará o livro O lado Oculto do amor e outros contos, com foco no universo feminino.