a primeira aranha, de Henrique Balbi

Os gritos já tinham cessado quando os meninos, esgueirando-se, chegaram à beira do buraco.

Era a sétima noite que ela estava lá embaixo, mas a primeira em que sua voz não montava no vento úmido e subia rasgando o ar da fazenda adormecida. Diziam que lá em cima a sinhá não conseguia dormir, que quando pregava o olho logo vinha o lamento a gorar os sonhos. Diziam que o grito era contagioso, porque os gêmeos acordavam em seguida, gritando também. Só quem dormia a sono solto, um sono bruto e oco, era o senhor.

Os meninos chegaram de mãos dadas, caminhando pela mata. Não ousavam nem sussurrar. Teriam chegado bem antes, se não tivessem vindo devagar, calculando cada passo, pisando sempre em mato fofo, pé ante pé. Não podia ter barulho, ao menos nenhum barulho grande — o chiado da grama até que tudo bem, pois era fácil confundir com uma paca, ou um desses bichos miúdos que aproveitam o frescor da noite e o sono da fazenda para andar. Os meninos sabiam como era: agora, aproveitavam eles mesmos as horas de guarda baixa, as horas vesgas dos sentinelas.

Tinham caminhado bastante. O buraco ficava longe, meia légua antes do rio. Diziam que de propósito, para os castigados terem medo de ficar lá até e durante os meses de cheia. Os meninos mal conseguiam imaginar o terror de estar no fundo do chão e começar a chover. Se fosse tempestade de trovão, era pior ainda: os primeiros a se afogar eram os gritos.

A última chuva, ainda bem, havia sido há duas missas. É verdade que isso aliviava um pouco para ela, lá embaixo, mas não ajudava em mais nada: sozinha, já quase sem voz, as costas laceradas, talvez com uma perna quebrada na queda. Tinham dito para os meninos que gritos trazem várias cores de dor. Ela parecia estar com um arco-íris delas, pelo som que vinha da goela da terra.

Ao ouvir isso, um dos meninos, o mais velho, não pôde dormir. A cabeça parecia alternar, ali dentro, dia e noite, tão rápido quanto um rio bravo. Às vezes ele via para trás: ele e os outros dois no colo dela, ou sentados em roda perto dela, ouvindo os relatos cantados com o sol a pino. Outras vezes ele via para frente: quatro sombras à beira do buraco, a primeira noite de lua nova, o gargarejo da água bem baixinho. Teve certeza de que não eram sonhos na manhã seguinte, porque conseguiu segurar consigo a visão, que escapava, mas não se esfumaçava — o que revia e o que previa eram todas lembranças, por mais esquisito que fosse uma lembrança ainda não acontecida.

O menino levou os dias e noites seguintes para contar e convencer os outros dois de que ela só sairia de lá de baixo com a ajuda deles. Os dois relutaram. Primeiro, acharam impossível: o buraco era fundo, eles fracos, a escuridão feroz. Mas estava plantada a semente de ideia, que começou a brotar naquela mesma noite, regada a gritos. Depois, eles acharam difícil: o buraco era longe, eles lerdos, a escuridão larga. O menino aceitou as razões, mas não a conclusão. Bolou um plano de ida e um de volta. Na terceira conversa, mostrou aos outros o que tinha pensado — eles, por sua vez, acharam possível, apesar do buraco, deles e da escuridão. As últimas resistências foram vencidas no quinto dia, quando disseram que a sinhá mandara não mais descer comida para o buraco — quem sabe assim não se fazia algum silêncio enfim?

Isso precipitou os planos dos meninos, mas não os desanimou. Foram. De mãos dadas, mas foram. Pisando leve e lento, mas foram. Morrendo de medo de onça e de chibata, mas foram. Depois de muita andança, pensaram que a noite acabaria antes do caminho, de tão longa a picada mato adentro.

Afinal chegaram. Na beira do buraco, o menino mais velho encarou o escuro do poço e se abismou: antes já era difícil ver alguma coisa, agora ali só via coisa alguma. Seus olhos e os dos outros dois, depois de muita noite, tinham se acostumado às beiras difusas dos objetos, aos contornos mais adivinhados do que distinguidos, mas ali o costume de nada adiantava — era uma escuridão mais grossa que a sombra da lua nova.

O menino mais velho sussurrou o nome da segunda mãe, mas não veio resposta.

Um dos outros meninos disse que talvez ela estivesse dormindo. Os três, então, chamaram juntos, sussurrando em sincronia, para ver se ela acordava.

Não escutaram nada de volta.

Resolveram aumentar o volume. Chamaram o nome de batismo dela, chamaram o outro nome dela — o de verdade, o nome profundo, que os brancos nunca saberiam — e até, mais por eles do que por ela, cantaram uma cena de um relato dela.

Era a história da primeira aranha, que roubou da baba de um touro o segredo de tecer. Ela o ensinou aos filhotes e, sabendo que o touro viria se vingar dela, teceu três teias: uma pequena, que os alimentaria; uma média, que prenderia o touro; e uma grande, por onde fugir.

A menor deu certo, tanto que toda aranha sabe tecer. A média deu errado, porque na sua fúria o touro a arrebentou, arrebatando a primeira aranha junto, pisoteada na confusão. A maior não se sabe no que deu, quer dizer, quem souber cantar a história acaba deduzindo: deu no céu. Cada estrela é um nó da teia da primeira aranha.

Não havendo nenhuma resposta, o menino mais velho se encheu de coragem e resolveu prosseguir com o plano, do mesmo jeito. Pediu que os outros dois lhe dessem os trapos que tinham juntado, amarrados uns aos outros numa longa corda. Prendeu uma ponta numa árvore ali perto e a outra ao redor do peito, debaixo dos braços. Desceu pelo buraco, metendo-se bem no centro do obscuro. Desceu o mais devagar que conseguiu. Se pudesse, roubaria um vaga-lume para usar de lampião.

Ao chegar no chão sob o chão, ele chamou mais uma vez a segunda mãe. Nada. Caminhou pelo buraco, também calculando cada passo. Agachou-se, tateou a terra. Deu duas, três voltas por ali. Era como se nunca ninguém não tivesse ficado ali.

Daí, o menino mais velho começou a subir. Os outros dois o ajudaram. Ali, na beira do buraco, sem ela, os três ficaram com a mesma cara de surpresa que, no dia seguinte, contagiou o resto da fazenda: como assim, onde ela tinha ido parar? Nada? Nenhum sinal? Nem um trapo, uma marca, um fio de cabelo? As versões se espalharam: fugida, raptada, escondida, abandonada, morta, encantada. Mas no fundo nada explicava.

O menino mais velho muito menos. A princípio, lá embaixo, ele ficou aflito, achando que era tarde demais. Depois, desconfiou. No fim, deixou estar: agarrou firme na corda de trapos, pôs-se a subir de volta, quase escalando. Ia com o olhar fixo na boca do buraco, que parecia uma janela para o céu.

Nela despontavam um punhado de estrelas, alumiando o domingo que nascia.

Henrique Balbi é escritor, professor e jornalista. Nasceu em São Paulo, em 1992, mas morou em Botucatu (SP) até 2011, quando voltou à capital para estudar jornalismo na ECA-USP. Em 2014, estagiou no núcleo de revistas da Folha de S.Paulo, mas preferiu os caminhos da literatura: trabalha atualmente como assistente de ensino no Anglo Vestibulares e, em 2017, concluiu um mestrado no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), com foco na obra de Fernando Sabino. Além disso, entre 2013 e 2017 escreveu para o site Salada de Cinema, onde publicava a “Cine-Remix”, coluna que misturava enredos, gêneros e temas de filmes.

o mais novo discreto charme da burguesia, de Dirce Waltrick do Amarante

Formei-me em jornalismo, sem falar inglês, espanhol ou francês; então, para não morrer de fome, aceitei o primeiro emprego que apareceu e foi justamente na Sociedade dos Gourmands da minha cidade natal.

Minha função era fotografar as festas e fazer um dossiê anual dos encontros. Pagavam bem (bem mal), e eu ainda bebia champagne de primeira e ganhava uns agradinhos das senhoras socialites do grupo. Perdoem-me os vocábulos em língua estrangeira, mas é cacoete, os membros gourmands pediam para eu usar estrangeirismos nos dossiês, para ficar mais chic.

O fato é que todos os homens eram chamados de chef e, em dias festivos, carregavam no pescoço uma medalha, o que os deixavam parecidos com vacas suíças com sininhos pendurados. Bom, eram chefs mas não cozinhavam coisa alguma. Para todos os encontros contratavam a mesma cozinheira, que fazia sempre os mesmos pratos, os quais, contudo, eram nomeados de forma diferente a cada reunião: um simples arroz com feijão virava “cassoulet” e uma simples galinhada virava coq au vin e assim por diante. Até o brigadeiro, com outra roupagem e uma gota de conhaque, ganhava os nomes mais estapafúrdios.

Mas minha função não era reflexiva, era apenas registrar momentos, descrever esses cardápios alucinados e revelar os talentos dos membros do grupo. Daí soltava a imaginação, dava título de mestrado para um, título de doutorado para outro. Aqueles que não passavam de jeito nenhum por mestres ou doutores ganhavam o título de conde, embaixador ou presidente.

O mais interessante desse grupo “heterogenicamente” homogêneo é que todos se achavam da elite e se consideravam ricos, ainda que muitos não tivessem onde cair mortos — estavam no grupo porque um dia foram ricos ou porque mantinham a pose… Sim, a pose era o mais importante, a pose e as convicções políticas e econômicas, que tinham que combinar com as da elite.

Num dos dossiês que escrevi, tive que fazer uma breve entrevista com cada um dos membros do grupo. Elaborei perguntas simples, do tipo: “Onde nasceu?”, “Desde quando pertence ao grupo?”

As respostas foram as mais estapafúrdias: sobre o local de nascimento, por exemplo, uns iam lá atrás até parar no tataravô, um alemão, suíço, italiano… e, por isso, concluíam que de fato tinham nascido na Europa e não numa cidade qualquer do interior do estado.

Outras perguntas ficavam sem resposta, mas isso não importava, pois eles nunca liam os textos, liam palavras soltas como “doutor”, “emérito”, “sumidade”, e olhavam as imagens e, se elas estivessem bonitas, ficavam satisfeitos.

Hoje continuo trabalhando na Sociedade dos Gourmands, mas ando tão cansada dessa gente que decidi criticá-la nos textos dos dossiês usando metáforas. Já estou no quinto dossiê e até agora ninguém percebeu (ou entendeu) o teor dos meus textos… Seguem olhando só as figurinhas e procurando adjetivos positivos que, sem juntar alhos com bugalhos, acreditam fazer deferência a eles.

Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, escritora e professora da UFSC.

a demasia dos meus despudores, de Thiago Medeiros

Espreitava pelo gramado com a mão em concha na orelha, a outra suspensa e espalmada abanando um pedido de silêncio. Fui o único a acompanhá-lo.

— Preste atenção. Vai fazer de novo.

Pouco antes insistia que saíssemos para ouvir. Alguém revirou os olhos. Uma das filhas foi a primeira a não dar discrição a um suspiro.

— Agora. Ouviu?

Não. Nada além das ondas duas ruas abaixo. Quis olhar para o céu, noite clara de estrelas renitentes, mas um pudor respeitoso ao velho mantinha meus olhos na grama.

— Realmente é muito baixo. Pare de andar. Esse arrastado do chinelo atrapalha.

Havia saltado no meio de todo mundo agitando os braços. Aqui é perigoso. Minha mãe, mais para um coice que um pergunta, soltou um de novo, papai, e ele repetindo que se duvidavam viessem ouvir. Aquele primo, que aparecia uma vez por ano, se permitia rir e perguntar se o velho não era homem. Todos continuaram colados às cadeiras, só o meu avô rodando no meio, naquela ladainha de venham ouvir, venham ouvir.

Abandonei um colo qualquer. Tudo o que me parecia fazer sentido ao longo de quase uma década de existência se resumia a provar que não tinha medo. Até a voz engrossei, quase uma declamação, ao afirmar vou com você, vovô.

Meu pai foi o primeiro a estourar com um olha aí, olha aí, o menino se impressiona com tudo, e esse velho não ajuda. Não era um discurso à distinta plateia. Ainda que se espalhasse pela sala, crescendo e inchando, tapando a todos do lugar, era para minha mãe que se dirigia, enquanto ela dizia o amuado de sempre. Deixa o menino, homem. Deixa o menino.

E foi assim que saímos. Ele à frente, numa tocaia silenciosa, aguçando os ouvidos calejados — qualquer conversa com ele era gritada — em busca do que ninguém mais se dava ao trabalho de ouvir.

— Ela faz sempre, preste atenção.

Caçávamos cobras.

Ouvia os chocalhos do mar, mas esperava outros serpenteios. Um rastejo, as maracas frenéticas de uma cascavel em bote.

— Ouviu?

Vi uma naja num filme. Chiava o som de uma onda que não deixava morrer o fervilhar da espuma das bordas. Estava pronto para dizer que era apenas o mar.

— Agora. Escutou o piado?

Não. Não ouvi. Sequer sabia que cobras piassem.

O velho tremia agarrado a minha mão, com a boca despencada. Não precisava falar. Reverberava junto ao vento a insistência da pergunta; ouviu? ouviu?

— Ouvi, sim.

Contemplei sua falta de dentes. Os dedos afrouxaram minha mão. Voltou para espalhar o triunfo.

— Viram aí. O menino também ouviu. Tem cobra por aqui. Posso dormir tranquilo.

Fiquei da entrada acompanhando o caminho do velho. Todos me encaravam. Eu massageava a mão dolorida do desespero do meu avô. Vi alguém balançar a cabeça e me antecipei.

— Ouvi, sim.

Meu pai descruzou os braços e veio até onde eu estava. Ajoelhou-se e disse, não minta.

— Eu ouvi o piado da cobra.

Ouvíamos o cochicho sem fim que vinha do mar, duas ruas abaixo. Latejava uma veia na têmpora úmida do homem. Não minta.

— É fino. Faz até música.

Agarrou meus ombros finos e apertou. Não se mente ao pai.

— Ouvi muito. Lembra um canário.

Minha mãe se levantou, sempre com o seu deixa o menino murcho. Ele rosnou que as coisas não eram assim.

Apertou ainda mais meus braços e me lembrou que os olhos de Deus estão em todo lugar e quem mente ao pai mente direto a Deus e que o pai da mentira é o diabo e o mentiroso é filho do diabo e quem se entrega à mentira renega a Deus e ao pai e torrará num lago de enxofre e é maldito diante de pai e mãe e não há nada pior que a maldição de um pai.

— Eram tantos piados que devia ser uma ninhada inteira.

Me arremessou longe e saiu de casa acendendo um cigarro.

Acho que apenas eu respirava. O sangue faltando na cara da minha mãe, numa mísera palidez que parecia não ter fim. Duas tias retorcendo os dedos. O primo que só aparecia uma vez por ano limpando as unhas com um fósforo. Ouvíamos apenas o ronco alto vindo do quarto do meu avô.

Thiago Medeiros é pernambucano de Caruaru. Escritor e produtor cultural, idealizador o Encontro Literário Letras Em Barro, cuja segunda edição foi realizada em outubro de 2018. Participou da Oficina Literária de Raimundo Carrero. Menção Honrosa no II Prêmio Pernambuco de Literatura, com a obra Púrpura, encarnado em escarlate, ainda não publicada. Aguarda o lançamento do seu primeiro livro de contos, Claro é o mundo à minha volta, pela Editora Patuá, ainda sem data definida. Escreve para não esquecer de si mesmo.

a ausência e eu, de Adriano de Andrade

— Já reparou que você sempre mata alguém nas suas histórias? Não entendo essa sua mania ou, sei lá, obsessão com a morte. Às vezes eu tenho medo de você, do que sai da tua mente.

— Meu amor, a morte é um elemento essencial nas minhas histórias. Algo do tipo, minha história só faz sentido quando eu decido matar alguém. E a coisa vai desenrolando, me impulsiona a escrever, nem tanto pela morte em si, mas pelo fato de alterar a trama, criar um clímax, tudo bem, você não entende, já cansei de explicar, não sou obcecado.

Essa conversa eu pude escutar a uma distância segura enquanto o casal folheava um exemplar na seção de Contos e Crônicas. Acredito que o autor seja ele mesmo, pois a discussão era seguida de dedos que percorriam as páginas e a mulher enumerava as mortes em várias partes do livro. Aliás, eu disse que o casal estava na seção de Contos e Crônicas, mas nada indicava esse local. Somente eu sabia disso, porque sou o dono da livraria e organizei os livros dessa forma. Prateleira direita acima, clássicos da literatura estrangeira. Abaixo, autores nacionais. No lado esquerdo, uma mistura de poesia, filosofia e infanto-juvenil. No meio da loja, algumas promoções e outros títulos inclassificáveis. Perto dos fundos, lá estavam contos e crônicas. Já pensei em colocar pequenas placas para orientar meus clientes. Mas não era necessário, eles eram poucos, o espaço não era tão grande e eu estava lá para responder perguntas simples: “O senhor poderia me dizer onde ficam os livros de autoajuda?”, “Clarice Lispector está desse lado ou do outro?”, “Tem alguma bancada só de lançamentos?”.

A primeira coisa que me disseram é que ficava na Galeria Menescal, ocupando uma pequena loja com saída para a Barata Ribeiro. O lugar é antigo, mas você vai gostar, ouvi do testamenteiro tão logo ele meu deu a notícia da herança.

Herdei a livraria do meu pai, que herdou do meu avô, que começou a montar o negócio com alguns exemplares raros que meu bisavô guardava numa pequena biblioteca montada em sua fazenda, isso lá pelos idos de 1900.

Depois de tanto tempo, precisei voltar ao Rio para tocar o negócio. Quando recebi as chaves, a poeira acumulada era proporcional ao tempo em que a livraria permaneceu fechada desde a morte de meu pai. Finas camadas de partículas que viajaram de lugares distantes e se depositaram caprichosamente sobre capas, contracapas, lombadas e folhas, milhares delas. Do pó se recolhe as passagens, o passado, a experiência, os caminhos e as entranhas do que podemos ver, tocar, sentir e, muitas vezes, não podemos evitar. O pó simboliza o início e o fim. Já ouvi isso em algum lugar. Limpar e tirar a sujeira não significa varrer o passado. A poeira e a ausência dela definem os ciclos das coisas que guardamos e das coisas que descartamos.

Foram semanas mergulhado na rotina de desempilhar, organizar, empilhar, enfileirar. Catalogar e classificar eram o último estágio. Por fim, muito trabalho e pouco resultado.

Assim que decidi assumir a livraria, percebi o contraste. A vida agitada dos cariocas não alterava a calmaria dos livros definhando aqui dentro. Uma loja às moscas. A não ser pela Dona Beatriz.

No início, observava aquela senhora e seu cachorro que paravam todos os dias diante da vitrine. Enquanto o cão se preocupava em cheirar a parede e marcar território, a mulher desviava o olhar de mim e buscava mirar qualquer livro que estivesse ao alcance da sua visão. Esse processo não levava mais que dois ou três minutos, mas eu não podia deixar de reparar um misto de melancolia e angústia.

Aos poucos, ela passou a fazer algumas perguntas tímidas que revelavam um gosto apurado pela leitura. Eu procurava atendê-la com atenção, dando alguns palpites, recomendando obras e autores de acordo com o perfil dela. E o interesse criou o hábito de uma cliente fiel.

— Bom dia, Dona Beatriz, o que a senhora vai querer hoje?

— Hoje estou com um pouco de pressa, preciso correr para levar o Tino no oftalmologista, acho que ele está com catarata.

— Veterinário não resolve isso, não, Dona Beatriz?

— O oftalmologista é um veterinário, uma especialização para animais também, agora é assim, na minha época não tinha isso.

Dona Beatriz passava todo dia em frente à livraria, conversava um pouco comigo, esperava até o Tino puxar seu braço pela coleira e se despedia correndo.

Às terças, ela prendia o cachorro à entrada da loja e levava quatro ou cinco livros. Uns eram dicas minhas. Outros ela já dizia o que queria porque havia lido em uma revista especializada.

Adorava os clássicos. Nacionais e internacionais. Mário de Andrade, Erico Verissimo, Jorge Amado, Liev Tolstói, George Orwell, Mark Twain, Gabriel García Márquez.

— Dona Beatriz, que tal Capitães de Areia?

— Ótimo, excelente, de muita sensibilidade.

— Gostou de 1984? Percebeu como a história é atual?

— Ah, sim, muito atual, sem dúvida.

Dia desses ela me pediu a edição especial do Raduan Nassar. Capa dura, comentou. Demorou um mês para chegar, estava em falta na editora.

Os meses se passaram e completei um ano de fiasco na livraria. Decidi que faria uma promoção de aniversário. Uma quinzena inteira de liquidação. Nesse período, Dona Beatriz me disse que não iria aparecer. Acho que ela queria a loja só para si, em dias comuns e vazios.

Depois que terminou a promoção, abri a livraria na segunda-feira e reparei que havia um senhor me aguardando na porta, com um papel em suas mãos e olhando com atenção o letreiro e o interior da loja.

— Bom dia, o senhor conheceu a senhora Beatriz Mendes de Castro e Silva?

— Bem, se for a Dona Beatriz, conheço, ela é minha cliente.

— Lamento informar, mas a senhora Beatriz faleceu na última semana.

— Como assim? Ela estava ótima, passava aqui todos os dias, sempre comprando livros, conversando, levando o Tino para passear.

— O cachorro também veio a óbito.

— Que estranho, não? Eu gostaria de ter dado um último abraço nela, ter ido ao enterro, prestar homenagem.

Ele se identificou como um policial, um investigador, e que estava fazendo algumas verificações na vizinhança sobre a Dona Beatriz, pelas circunstâncias da morte.

— Que circunstâncias?

— Os médicos que a atenderam nos informaram que foi morte natural, mas um exame mais detalhado revelou uma pequena quantidade de um tipo de veneno em seu sangue, ainda não confirmado. Ela estava sozinha em casa, foi encontrada na cama com o cachorro. Aliás, ela morava sozinha, não tinha filhos nem parentes próximos. Conhecia poucas pessoas, e uma delas é você.

O policial se aproximou e perguntou se eu poderia acompanhá-lo até o apartamento de Dona Beatriz, seria importante que eu visse pessoalmente o “cenário”, mas ele não poderia me dizer.

Como ainda era cedo, fechei novamente a livraria e caminhamos até o apartamento dela, que ficava a três quadras da Galeria Menescal.

Ao abrir a porta da sala, o policial cedeu a passagem e ouvi dele um aviso antes de entrar.

— Cuidado onde pisa.

Para minha surpresa, o chão estava forrado de capas de livros, todos encaixados entre si formando um tapete. Eu me abaixei para pegar uma capa de Cem Anos de Solidão quando o policial me segurou pelo braço.

— Não adianta, as capas estão coladas no assoalho de madeira, sem as folhas.

E minha pergunta foi mais do que natural:

— Ela descartou as folhas e fez um carpete de capas de livro?

— Não é só isso, vamos entrar um pouco mais. Ao percorrer o corredor que dava acesso aos quartos, as paredes e o teto estavam cobertos de milhares de folhas arrancadas de todos os livros que ela comprava, coladas uma a uma.

Reconheci todos os autores e livros espalhados pelo apartamento inteiro. A minha livraria desfeita e ao mesmo tempo refeita, uma verdadeira obra de arte. O policial dissera que Dona Beatriz morava sozinha, mas ela não conhecia a solidão. Estava muito bem acompanhada. Lovecraft, Drummond, Cortázar, Hemingway, Machado, Pirandello e tantos outros.

Era desse jeito que Dona Beatriz vivia. Cozinhava inspirada por O Grande Gatsby, dormia vigiada por O estrangeiro e trocava-se diante dos sonetos de Vinícius de Moraes.

Não voltei para a livraria, fui para casa com aquela imagem disforme, a lembrança recente de Dona Beatriz e os meus livros carinhosamente despedaçados.

No dia seguinte, mantive as portas fechadas e apenas organizei o que restava nas estantes por conta da liquidação.

Antes de sair, pendurei um anúncio na frente da loja que dizia: “Vende-se”.

Adriano de Andrade é engenheiro e escritor, e mora em Niterói-RJ. É autor do livro de contos O inverno que não acabou (Editora Novo Século, 2015) e participou de diversas coletâneas, como Contágios, lançada pela Editora Oito e Meio com organização de José Castello. Está no prelo seu segundo livro de contos, A umidade relativa das palavras, que sairá pela Editora Jaguatirica.

dois, de Raíssa Varandas Galvão

O tom azulado do cordão contrastava com a pele vermelha do pulso. Preso ao meu umbigo ele seguia o caminho até você, prendendo-se com duas voltas apertadas no braço esquerdo. Nosso primeiro choro aconteceu ali, quando a parteira cautelosa te desatou de mim. Foi preciso que ela massageasse sua mãozinha para que o sangue voltasse a circular, foi preciso que ela lavasse nossos corpos trêmulos antes de nos devolver para aquela que havia nos expulsado de nosso abrigo. Mesmo colados ao seio materno sentíamos frio, tão apartados um do outro, tão distantes da intimidade do útero. Buscávamos no leite um reencontro. Partilhar do mesmo líquido, lado a lado, sugando sempre no mesmo ritmo, movimento coreografado das línguas que não cessava até que os dois estivessem satisfeitos. Nunca cansávamos de nos procurar, de tentar restabelecer a completude daquele princípio em que éramos um só. No berço compartilhado a minha pele frágil esbarrava com a sua, a habilidade motora ainda tão primitiva nos incapacitando de dar as mãos. Durante o sono nossas respirações se aproximavam, quase a mesma. Tão próximos, mas ainda sempre dois. Juntos aprendemos a andar, a formular as primeiras palavras que ouvidas à distância pareciam sair de uma única boca, mas que para nós já começava a se distinguir no agudo e grave de nossas vozes. Resistíamos mesmo assim, com as mordidas dos primeiros dentes de leite que marcavam na carne a fome que tínhamos um do outro, com os beliscões que os adultos interpretavam como desavenças infantis, mas que eram apenas uma tentativa de carregar por debaixo da unha um pouco da pele do outro. Juntos aprendemos a traçar as primeiras letras, mas apesar das curvas semelhantes elas se distorciam em dois nomes distintos. Nas brincadeiras descobrimos que bastava um momento de distração para que corrêssemos para lados opostos, que nos esconder um do outro poderia ser perverso, mas ainda assim emocionante, desde que no fim do jogo se mantivesse a promessa de que voltaríamos a nos encontrar. Nunca compreendemos porque para eles era tão essencial nos distinguir, nos obrigar a assumir identidades incompletas, crescer com esse vazio nas entranhas que gritava o desejo de te incorporar mais uma vez, sua vontade de ser novamente eu. Nos consolávamos no espelho, os reflexos tão parecidos que era possível ignorar meus cabelos cada dia mais longos, seus cílios mais finos do que os meus. Mas o espelho também nos foi traiçoeiro. Não hesitou em demonstrar como nossas imagens se deformavam com a passagem do tempo, quando meus seios começaram a despontar, os quadris ganharam curvas, enquanto ao meu lado o seu reflexo permanecia reto. Agora inconfundíveis, eu sabia que você me estranhava, que se sentia cada vez menos parte de mim e, por isso, desejava como nunca voltar a ser uma só coisa comigo. Era natural que seus olhos percorressem o meu corpo enquanto eu me despia, que me acompanhassem durante o banho. Era necessário que suas pupilas assimilassem minhas novas formas e que nossas mãos explorassem cada cavidade procurando meios de nos reencontrar. Que o primeiro beijo acontecesse em um impulso desajeitado dos lábios se esbarrando, das respirações entrecortadas teimando em escapar do compasso. Foi com inocência que nos deitamos para, então, descobrir que só quando você estava dentro de mim, nós nos sentíamos inteiros. E que a completude durava tão pouco, mesmo quando parecia eterna. Não havia nenhuma perversão na nossa descoberta, na tentativa de curar o vazio que nos foi legado. Não éramos culpados do crime do qual nos acusaram. Ainda assim eles nos separaram de forma tão violenta e foi preciso que eu banhasse as minhas mãos no seu sangue para finalmente te sentir em mim.

Raíssa Varandas Galvão é historiadora e doutoranda em Estudos Literários pela UFJF. Há 29 anos lutando com as palavras e se apaixonando por cada embate.

num motel em Loures, de Ana Bárbara Pedrosa

Pedi-lhe ajuda para escrever um conto. “Um conto, que giro”, disse-me ela. As gajas são assim, parece que gostam de ser manipuladas. Basta que lhes digamos uma ou duas frases ao lado que, zás, eis o epíteto de mistério e querem escarafunchar até ao fim.

Desde o início, ficou evidente que o que eu queria mesmo era tê-la de quatro à minha frente. E para isso estão as tecnologias ao serviço, foi só enviar-lhe a frase:

— Como é, marcamos um dia destes?

Enrolou, disse que já andava num engate. E eu ataquei logo:

— Mas não estou a propor nenhum engate.

Pausa para ela perguntar, há que fazer com que venham atrás de nós, e por conseguinte com que nos venhamos atrás delas.

— Estás a propor o quê?

— Estou a pedir-te ajuda para escrever um conto.

— Um conto, que giro.

Depois foi só meter a teoria literária ao barulho, a importância da vida antes do papel, as tretas de que a literatura bebe da realidade, toda hidrópica, toda alcoólica, até não deixar nada para enganar:

— O que proponho é que o conto seja vivido antes de ser escrito.

Eram duas da manhã e a gaja já sonhava em ser musa literária quando lhe atirei que queria escrever um conto sobre uma senhora fina que leva por trás num motel em Loures.

— Isso é o mesmo que trair o meu engate.

Que menina perspicaz, ainda acaba em teórica da literatura ou a fazer críticas para o Jornal de Letras.

— Claro que não. É fazer trabalho de campo. É o mesmo que dar uma entrevista.

— Vou pensar nisso — atirou-me ela, e eu pus de fora as garras.

— Até já temos título: “De quatro num motel em Loures”.

Os manuais falam de flores e romance, mas estamos em 2019 e o mundo quer ver decadência. E assim foi, a senhora, chegada aos 55, precisava de pimenta.

— Ai, que horror, em Loures. Para ser mais decadente.

Pausa, pausa.

— Mas tenho de admitir que até gosto.

— Claro que gostas. É sexy e romântico.

— Sexy poderá ser. Romântico já não sei.

— Claro que é, há desespero, pelo menos se ficares de quatro vinte minutos só a levar por trás. Também tenho de fazer trabalho de campo a ver se te vens só assim.

Tirou-me logo as ilusões, só assim nunca na vida. As mulheres dessas são raras, um diamante no entulho. Assim como assim, lá me disse que nunca aguentara a genuflexão e a sodomia durante tanto tempo. Eis-me então a ver se a coisa cola:

— As que se vêm assim também não aguentam os vinte minutos. A menos que me deixem continuar depois. E isso só no meu aniversário.

Achou que me estava a gabar, ainda disse que quando se tem garganta só dá para desconfiar. Lá tive de explicar o óbvio: aqueles diamantes vinham-se assim com qualquer/a um. Irritou-me ter de lhe dar explicações, nas minhas fantasias eróticas a gaja dizia-me que sim e acabou.

A realidade é sempre mais chata, as decisões espontâneas têm sempre mais entulho, mas lá nos encontrámos. Eu de mota 125 e ela de Uber, que não podia ser mais decadente. A vergonha de dizer ao condutor que a morada era tal tal, “Como? Não estou a ver onde. Tem algum ponto de referência?”, logo depois do Lidl, no mágico spot chamado XL Room & Tits.

Investi parte do subsídio de férias nisto, a literatura dá-me cabo das finanças. A máquina de lavar roupa precisa de ser substituída e aquela entrada antiga, com um cabide castanho, já deu o que tinha a dar. Assim como assim, juntam-se as gajas aos contos e dou por mim em Loures às três da manhã de terça-feira, depois de ter parado na roulotte porque cheguei mais cedo e de ter comido um pacote de halls porque me esqueci da escova de dentes em Almada. Como se não bastasse, as férias já acabaram e ou a noite corre muito bem e vou para o escritório de directa ou a noite corre muito mal e nem vou conseguir dormir.

No parque de estacionamento, era eu ainda em cima da mota com o capacete espetado num espelho, casaco de cabedal e botas pretas, e ela a chegar no seu vestido branco, deixando para trás um Uber e um gajo velho e de bigode (um invejoso, aposto). Resolvi levar a coisa ao máximo e, quando ela chegou, eu tinha um cigarro Malboro na boca e dentro do bolso havia uma garrafa de whisky como aquelas que os bêbedos têm nos filmes passados na Califórnia.

Começou mal, que assim que ela se aproximou engasguei-me com o fumo. Para se ter este cabedal todo, é malhar no ferro e proteína, não lixar os pulmões e não lixar os dentes. Fingi que não era do tabaco e pumba, lá foi um gole de whisky, e tive de sentir aquele álcool etílico a queimar-me a garganta e o estômago, enquanto os olhos literalmente humedeciam. Pois é, ela à minha frente e eu, malgrado a pinta de badass, a tossir e a engasgar-me como qualquer virgem que nunca pusera os pés em motel nenhum.

Logo depois, a humilhação última, as primeiras palavras:

— Que coisa fofa.

Ainda demorei um bocado a voltar a respirar normalmente, e tive a esperteza de saloia de atirar um “É da asma.” que ela não engoliu porque tinha 55 anos e não um atraso mental.

— Estás a ver se me impressionas?

Coitada, tentou mandar, mas bem que lhe dei a volta.

— Acho que à porta de um motel em Loures às três da manhã de terça não tenho de me esforçar muito.

Trincou o lábio, como quem prepara o ataque, mas calou-se por saber que era verdade. Por mais que eu fizesse asneira, que podia ela fazer? Na altura, já era demasiado tarde para poder voltar atrás.

Não era mau nem bom, até dava jeito e, enquanto aumentava o nervosismo, também o diminuía. Não houve a preparação dos gestos, porque sabíamos que ia acontecer. E houve aquela bola no estômago porque sabíamos que ia acontecer. A tensão que existe às portas de móteis em Loures dá para encher bombas atómicas.

— Como é, entramos? — disse, enquanto mandava a ponta do cigarro ao chão, agora com a boca a saber a sujo e a velho em vez de a juventude.

— Claro, não vim aqui para olhar para uma roulotte.

— Vieste aqui para quê?

— Para te ajudar a escrever.

— Que boa alma.

E boa gaja.

A miúda que nos deu a chave mal olhou para nós e eu resisti à tentação de convidá-la. Nova, mamas pequenas, tudo o que é de evitar. A outra lá tinha rugas a enfeitar-lhe a cara, um tórax que sim senhor e, bolo em cima das cerejas, o desespero próprio da idade. Com menos de 40, toda a gente tem critérios. A partir dos 41, qualquer desculpa serve, é confiar no poder da literatura e de um patoá razoavelzinho que as frustrações com a vida, a falta de amor e os sonhos por cumprir tratam de fazer o resto.

Ana Bárbara Pedrosa, nascida em 1990, é licenciada em Línguas Aplicadas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística e em Economia e Políticas Públicas e doutorada em Literatura. É linguista, editora, tradutora, revisora e investigadora em literatura. Viveu no Brasil e nos Estados Unidos. Actualmente, vive em Lisboa.

galinhada, de Henriette Effenberger

No fogão de campanha, um grande caldeirão ferve litros de água.

O fogo alto é alimentado por uma mistura de gravetos, carvão e poucas toras de lenha verde, que esfumaçam a noite fria, sem estrelas.

Penduradas, de cabeça para baixo, duas galinhas destroncadas ainda estrebucham, embora seus olhos já estejam embaçados pela morte.

Do prego ao caldeirão fervente, basta um passo.

O mestre-cuca não usa toque blanche, apenas um lenço, amarrado à moda dos piratas, que tenta segurar os fios revoltados, teimosos por encontrar um espacinho e cair sobre os olhos do cozinheiro, que os afasta com os mesmos dedos que apertaram o pescoço dos frangos há poucos minutos.

Há também, na cozinha improvisada, uma bacia de arroz, cebolas a serem descascadas, duas cabeças de alho, alguns tomates e um maço de ervas colhidas ao acaso, além de uma grande faca pontiaguda.

* * *

As pequenas luzes que circundam o espelho denunciam as primeiras rugas mais profundas ao redor dos olhos, as quais a atriz se esforça em esconder sob uma grossa camada de maquiagem.

Atribui à fumaça que vem da cozinha a vermelhidão de seus olhos, que ressalta ainda mais o verde claro das íris. Esquece-se das noites insones e do baseado cotidiano.

Levanta a alça do sutiã, com a expectativa de que levante também os seios e os torne mais atrativos.

No colo, espalha o creme hidratante, assim como nos braços e nos ombros.

Lamenta não ter alguém para espalhar o creme também nas costas, até se lembrar de que estarão cobertas pela musseline transparente e colada ao corpo, que, de longe, passará a impressão de nudez.

Sente-se tentada a não usar nenhuma roupa íntima por baixo da musseline, nem calcinha, muito menos o sutiã, que a aperta e que revela as gordurinhas extras.

Que diria o público quando as luzes coloridas a atingissem e pudesse vê-la inteira através do tecido?

Corou. Encalorou-se. Despiu-se. Abandonou o espelho da penteadeira e olhou-se de corpo inteiro.

* * *

O ruído do amolar da faca na pedra, que também serve de apoio à bacia usada como pia, indica que os trabalhos na cozinha estão, literalmente, a pleno vapor.

Vapor que também se condensa na testa do cozinheiro e sobe na forma de fumaça até o camarim da diva decadente, desfazendo-se contra o teto baixo da lona desbotada, que, tal como a mulher, já viveu dias de glória.

Os frangos agora já estão boiando no caldeirão. A fumaça com cheiro de penas e de morte penetra nos narizes, aguçando o apetite das feras: um leão magro e desdentado, uma onça parda, idosa e encardida, os quais, com seus urros, provocam o chimpanzé, cujos guinchos unem-se aos latidos dos poodles e aos relinchos dos dois cavalos brancos, os mesmos que à noite trotam no picadeiro com penachos coloridos e durante o dia servem de montaria ao dono do circo e ao seu imediato.

* * *

Sem parar de picar vigorosamente a cebola, as ervas, o tomate e amassar o alho com o cabo da faca, o cozinheiro coloca dois dedos na boca e solta um longo assobio.

É a senha para que os animais se calem e o anão chegue, ofegante, para começar a arrancar as penas das galinhas, depois que a água do caldeirão é dispensada em uma valeta, providencialmente formada pela forte chuva do dia anterior.

O anão cantarola o refrão: “A galinha pintadinha e o galo carijó. A galinha usa saia e o galo paletó”, enquanto depena e brinca com a galinha morta, balançando o pescoço e fazendo com que os pés da ave dancem sobre a tábua…

Vez por outra o cozinheiro lança ao anão um olhar reprovador, mas não diz palavra. Por sua vez, o anão finge que não percebe e continua a cantar, até que uma penugem entre em sua boca e provoque um acesso de tosse.

Com cara de “bem feito!”, o cozinheiro continua picando cebolas, mal se importando com o anão, agora quase tão roxo quanto os pés da galinha.

* * *

Todas as luzes já se acenderam. A bilheteira, com ar cansado, confere a fila formada por meia dúzia de gatos pingados. Algumas crianças, mal vestidas e de chinelos, circundam a lona, esperando o momento de distração dos zeladores para conseguirem passar por baixo dela.

O homem do realejo, assim como seu periquito, aguardam a ansiedade de alguma mocinha sonhadora.

O nada respeitável público acomoda-se nas arquibancadas, come pipoca, masca chicletes, enquanto as últimas caixas do mágico estão sendo colocadas no picadeiro.

* * *

Acendem-se as luzes do palco. A bandinha, composta por um trombone, dois trompetes e duas caixas, toca um dobrado, puxada pelos metais, enquanto homens enfastiados, vestidos como soldadinhos de chumbo, marcham ao redor do picadeiro, sendo seguidos pelo mágico e sua cartola, pelo domador e seus leões encoleirados, por Tarzan e seus micos e, por último, a adestradora e seus poodles, além, é claro, de dois palhaços tristes, com suas risadas pintadas nos rostos, que fingem não achar seus lugares na fila.

A plateia assiste ao desfile sem aplaudir nem sorrir. Não se manifesta nem mesmo quando a pomba escapa da casaca do mágico e voa em direção ao saquinho de pipoca da criança magra da primeira fila.

Não aplaude o domador e seus leões infelizes, nem o Tarzan que voa nos trapézios, como se fossem cipós, acompanhado pelos macacos de chapeuzinhos vermelhos e azuis.

Os poodles entram saltitando, atrás de uma bola grande e colorida, e a adestradora, com um apito e alguns petiscos, os convence a saltar por bambolês tão gastos quanto a musselina da roupa que encobre seu corpo sem atrativos.

Há muito não ouve um fiu-fiu do público. Respirou aliviada por ter recobrado o senso crítico a tempo de vestir o collant cor da pele por baixo da roupa de trabalho.

* * *

Os pedaços de galinha já estão fritando no caldeirão, absorvendo os temperos e lentamente se bronzeando no fogo baixo.

Em uma lata ficaram as tripas e os pés, que irão para os cachorros. As cabeças serão misturadas à carne destinadas aos leões, e as penas, depois de lavadas e deixadas ao sol de muitos dias, encherão travesseiros.

O cozinheiro agora joga no caldeirão o arroz que aguardava na bacia e, depois de uma mexida vigorosa, com um cabo de vassoura que faz a vez de uma colher de pau, despeja o restante da água fervente sobre o arroz e os frangos, extraindo dali o chiado da água sobre o óleo quente e mais uma nuvem de vapor temperado.

Pronto. Basta esperar a água secar e a função terminar.

Tira o lenço da cabeça e com ele seca o suor do rosto. Ajeita a tampa do caldeirão, para que fique apenas semiaberto, e senta-se, observando a fumaça, com o ouvido atento aos movimentos do picadeiro.

O dono do circo, de fraque e cartola, anuncia que esta foi a última sessão na cidade, não arrancando um único “ah” do público.

Os poodles voltam para suas gaiolas, os leões para suas jaulas, assim como os micos, já sem os chapeuzinhos.

O elenco se reúne ao redor da panela, novamente em fila, agora com os pratos nas mãos. Não há palhaços, não há mágicos, não há adestradores. Não há conversas sobre o espetáculo, não há risos nem sorrisos.

Há tristeza e cansaço. Há a frustração de quem viveu muito e não chegou a lugar nenhum.

Há um circo para ser desmontado e uma nova cidadezinha a ser visitada. Mas primeiramente há uma galinhada a ser degustada com apetite.

E rápido.

Antes que alguém dê queixa do furto dos galináceos…

Henriette Effenberger nasceu e reside em Bragança Paulista-SP. É romancista, contista, memorialista, poeta e escreve também literatura infantil. Publicou, em 2002, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro, seu romance de estreia, A Ilha dos Anjos. Outros livros publicados: As aventuras do Superagora (infantil); SSAAM — 80 anos de acordes em harmonia; Aeroclube de Bragança Paulista — uma trajetória nas asas do tempo; Liga do Pico, Futebol e Pinga e Sindicato do Comércio de Bragança Paulista — 70 anos. Publicou também Linhas tortas, em 2008, composto por contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, com apresentação de Ignácio Loyola Brandão, e Vida de Sabiá — o que sabiam os sabiás além de assobiar, vencedor do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, editado em 2009, pela Fundação Cultural de Belo Horizonte. Em 2017, organizou a coletânea de contos :Horas partidas (Editora Penalux) e a coletânea de contos e crônicas do Movimento Mulherio das Letras (Editora Mariposa Cartonera). Em 2018 publicou o livro de conto Fissuras, pela Editora Penalux. No prelo, em lançamento previsto para 2019, o infantil O menino que engoliu um furacão, vencedor do Prêmio Manaus de Literatura 2017, categoria literatura infantojuvenil.