o ex-pugilista, de Rodrigo Novaes de Almeida

Josué lutou em duas categorias quando era lutador profissional, meio-médio, na maior parte da carreira, e médio-ligeiro, no final, quando já aceitava todo tipo de luta. Não chegou à elite do boxe, embora fosse um lutador técnico e dono de um uppercut letal. Fora dos ringues há mais de dez anos — e sobrepeso que o colocaria entre os meio-pesados —, Josué se virava como podia, às vezes trabalhando como segurança de algum empresário ou político, outras como técnico de algum jovem promissor. Estava sem beber há quatro anos, muito graças ao Benjamin, dono da academia que ele frequentava desde os nove anos e seu ex-treinador, como de tantos outros nos últimos cinquenta anos. O velho Ben, era assim que os rapazes o chamavam, sempre considerou Josué um filho, e segurara a barra da depressão e do alcoolismo do ex-pugilista.

O treino da manhã costumava começar cedo, por volta das cinco. Era um pessoal que vinha do serviço na madrugada, vigias, bombeiros, policiais, garçons, ou que acordava ainda escuro para treinar antes de ir para o trabalho. Uma gente mais casca-grossa, comprometida com a arte, pensava Josué, diferente daqueles que treinavam por volta das sete, oito da noite. Ele preferia estar com o pessoal da madrugada, sua gente. Josué estava sentado em um banco de madeira em um canto do grande galpão que funcionava como academia do velho Ben. Via um pequeno grupo colocando a bandagem de proteção nas mãos e conversando.

— Bom dia, garoto — disse o velho Ben, que se aproximou sem que Josué percebesse. O velho chamava todo mundo de garoto.

—Bom dia, Ben — disse Josué.

— Não vai treinar hoje, garoto?

— Estou esperando o Thomas. Vamos fazer uma sessão de luvas.

— Thomas luta quando? Mês que vem?

— Daqui a vinte dias — respondeu Josué.

O velho não disse mais nada. Deu um tapa no ombro do Josué e foi em direção ao grupo, que já se aquecia fazendo exercícios de repetição em frente ao espelho.

— Vamos lá, seus preguiçosos — gritou Ben.

O treino começara.

Josué observava enquanto esperava Thomas e pensava em como era revigorante o sentimento de pertencer àquele lugar. Quase perdera tudo, pensou. Se não fosse o velho. Olhou com afeição para Ben. Obrigado, meu bom amigo, disse em voz baixa, para si mesmo.

Seus pensamentos se voltaram para o jovem. Thomas nunca se atrasa, admitiu Josué, pegando o telefone celular no bolso da calça. Ligou para o rapaz. Caixa postal.

— O que foi, garoto? — Perguntou Ben, que novamente se aproximou sem que Josué percebesse.

O velho parecia não tocar o chão. Devia ter um jogo de pernas espetacular em seu tempo de lutador, presumiu Josué.

— Thomas nunca se atrasa e seu telefone só cai na caixa postal — respondeu. Aconteceu alguma coisa. Vou atrás dele.

Josué saiu do galpão e entrou no carro. O que pode ter acontecido? Thomas não é de fazer besteira. Tem futuro. Que droga, rapaz! Onde você se meteu? Josué virou a chave da ignição. O motor pegou. Primeiro, o seu apartamento, decidiu. Deu a partida.

O ex-pugilista parou o carro em frente ao prédio que Thomas morava. Era uma construção baixa, de cinco andares, feita de tijolos de barro e construída há mais de um século. Não tinha elevador. Subiu a escada até o terceiro andar e percebeu a porta do apartamento de Thomas entreaberta e com sinais de que fora forçada pelo lado de fora por um pé-de-cabra. Ele abriu a porta tomando cuidado para não fazer barulho. Entrou no apartamento.

À esquerda ficava a cozinha, que estava vazia. Seguiu em frente e, ao chegar na sala, encontrou o rapaz sentado numa cadeira de ferro, amarrado, com o rosto ensanguentado coberto por hematomas. Tinha um pano de chão enfiado na boca. Josué correu em direção à cadeira quando foi surpreendido por dois homens. Esquivou-se do primeiro, que tentara atingi-lo com um soco, e acertou um cruzado de esquerda na orelha do segundo, que vinha logo atrás e caiu com o golpe. Virou-se e teve tempo de encontrar o primeiro homem ainda desequilibrado; derrubou-o com um direto no maxilar.

Então, tudo escureceu. Josué não percebeu um terceiro indivíduo se aproximar dele; a coronhada em sua nuca o apagou. Acordou preso a uma cadeira de ferro ao lado da cadeira do amigo.

— Josué, faz tempo, hein! Pensei que estivesse morto de tanto beber, mas até que está com uma cara boa. Quem diria? — Disse o homem que dera a coronhada.

— O que faz aqui, Rick? O que você quer?

— Ora, ora! O velho pugilista virou babá? Estou vendo que ainda se lembra de alguma coisa dos velhos tempos, derrubou esses dois idiotas com facilidade. Está treinando o rapaz?

— Sim, por quê?

— Porque você vai precisar colocar juízo na cabeça desse moleque. A gente tem uma mala de dinheiro pra ele, mas ele não quer cair no segundo round. Aí fica difícil, sabe?

— Ele não vai entrar nessa, Rick. Cai fora!

— Você conhece o jogo, Josué. Não depende de mim. A gente só obedece.

— Eu sei muito bem, mas o Thomas vai ser campeão um dia, não vai participar dessa patifaria.

— Patifaria? O que foi, Josué? Virou santo? Você já recebeu muita grana suja e agora vai dar uma de honesto pra cima de mim? Vá se foder! Ou o moleque entra no esquema…

— Ou o quê? Vai apagar a gente?

— A ordem é apagar o moleque se não aceitar o acordo.

— O rapaz é fora de série, Rick. Deixem ele em paz.

— Não funciona assim, Josué.

— Então liga pra eles, diz que o garoto vai valer mais quando for campeão. A gente faz um trato. Eu me responsabilizo, vai.

Ricardo ficou em silêncio. Pensava no que Josué tinha acabado de dizer. Os dois capangas estavam agora perto da porta da cozinha, em pé. Haviam usado o banheiro para limpar o rosto. Um deles tinha um corte na boca e pressionava-o com um pedaço de papel higiênico para estancar o sangue. Thomas escutara toda a conversa sem poder se manifestar. Permanecia amordaçado e seu rosto estava bastante inchado, não era possível ver seus olhos.

— Tudo bem, vou ligar, Josué. Mas saiba que faço por você, sempre gostei do seu jeito de lutar. Você tinha estilo, parecia aqueles antigos lutadores.

Ricardo se afastou, pegou seu telefone celular e fez a ligação. Menos de dois minutos, voltou.

— Não vai rolar, Josué. Sinto muito. — Antes que Josué pudesse falar mais alguma coisa, Ricardo sacou a pistola que estava em um coldre de ombro sob o seu casaco e acertou dois tiros no peito de Josué, que tombou levando consigo a cadeira. Thomas começou a se revirar e tentou gritar. Se não fosse o rosto desfigurado, seus olhos estariam arregalados àquela hora.

— Então, moleque, disse Ricardo, vai ficar com a mala ou vai fazer companhia pra esse traste no inferno? O que foi? Não entendi. — Ricardo tirou o pano de chão da boca de Thomas.

— Eu aceito. Fico com a mala.

— Ótimo. Bom rapaz. Viu como foi fácil?

Ricardo guardou a pistola no coldre e deu uma última olhada no corpo do ex-pugilista caído no chão. Uma poça de sangue havia se formado. Uma pena, eu gostava dele, era um cara durão, lamentou-se. Em seguida, caminhou para a porta e, antes de sair, ordenou aos capangas que arrumassem a sujeira e se livrassem do corpo. A luta seria adiada algumas semanas.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside em São Paulo. Em novembro de 2016 criou a Revista Gueto, portal de literatura que publica, divulga e lança escritores e poetas em língua portuguesa. É autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

obscura Veneza, de Myriam Campello

Dizem que de morte os vivos não entendem única experiência não vivida mas para mim foi morte. A Irlanda seria só delicias, tinha apostado minhas fichas todas naquele extasiante pano verde mas ela deu um chute na quimera, não posso disse, vou a Veneza a trabalho, uma semana, professora é assim. Quem sabe te acompanho? pulei inocente na esperança. Nâo, cortou na hora, já combinei com Beth. Eu havia perdido todos os sentidos para crer nessa patranha. Alguém vai à Veneza com a irmã? Um em dez milhões, mas se eu ouvisse pela boca do amor que o vermelho era branco de fato o vermelho é branco-neve, só não vê quem não quer, ah e eu como queria. Evitava amor há muitos anos, é tudo um déjà-vu acaba mal eu dizia, pra que se envolver e no fim nem cumprimentar na rua, eu dizia. Não e não.

Contudo acreditei. Desatinada da silva despida de faro e de ferrão dava a volta ao mundo em termos de fé, nem aos vinte anos fui tão crédula. Bem, motivos não faltavam: alguém com quem sonhara sem saber me veio pronta, tinha tudo para meu espanto e mais uns bônus insuspeitados, ah Veneza era engenhosa. Nova no tipo de vida que era a minha em pouco tempo domou seus horizontes, dando aulas de um conhecimento que eu levara anos destilando. Tudo que fazia cintilava. Sem duvida eu conseguia ler com certa sorte o coração do outro, clima ventos furacões gosta não gosta pimba coisas fáceis. Mas Veneza chegou para moer minha fé e derrubar as cercas. Num sábado que nos tomou oito horas no Messenger comentei onde vamos parar, não vamos respondeu, e não paramos. Cobríamos todas as frentes, incansáveis. Não podia durar tanto alvoroço êxtase tem hora!

A internet me deu Veneza como a um tuaregue uma edelweiss, fiat lux, milagre do site literário. De outro modo continuaria perdida para mim soterrada na cidade gélida. A mente luxuosa me chegou primeiro autodespindo camada após camada até expor seu recôndito ouro. O resto vendeu minha alma contentíssima ao diabo. Lenha labareda allure os insolentes passos de Veneza ressoavam em cada centímetro do chão. Eu? Só queria saber de devorá-la. No fundo de sua alma contudo restava um lado B, poço onde por mais que eu olhasse nada via. Tinha medo dessa fresta em silencio uma babel furiosa indevassável. O que buscava em mim, novas experiências? Um ângulo da vida para entender melhor os alunos diversos? Quisera eu que fosse assim tão fácil. Mesmo seus subterfúgios vinham molhados de uma zona de paixão por mim me confundindo com pistas erradas. Seu mundo era só contradanças, formiga que caminha e retrocede pelo mesmo risco aleatório matando do coração no caso eu. Vinha ficava cinco dias e sumia à distância, sua terra uma barricada contra mim. Faute de mieux a meteorologia me ajudava, saber o clima da cidade dela me tornava parte do que a abraçava no momento (o que fosse preciso pra tocá-la.) Eu ia aos trambolhões por um único caminho ela. Que avançava em todas as direções como cavalo bravo. Veneza não perguntava, concluía, uma horda invisível não lhe dando trégua. Um grande mal-entendido pairava sobre tudo. Na sombra, a engrenagem má consumia nossa cota.

Um dia ela partiu sem que eu nada herdasse alem da dor, ponta de onda rolando até agora. O silêncio faz duas coisas muito bem: zumbe invisível e de seu bojo dispara o que nos mata. Fique um pouco mais comigo Veneza adie minha morte, um ano seis meses aceito qualquer coisa transformo um dia em festa estico o tempo, te cultuo como deusa esculpida na rocha arranco aos cachações a música da língua para te compor epitalâmios, em mim não há outra saga só você. Existe algo lá fora melhor que o nosso beijo?

O tempo é o único sóbrio nessa historia toda. Lúcido assesta seu farol contrário para bem para longe do instante em que chafurdamos como porcos sem rumo, claridade zero. E aos poucos desdobra seu tapete de motivos vários. Quando me perguntam de Veneza eu digo me amou como antes ninguém nunca, não sei talvez sequer nem sei se lembra. Reclama do silêncio mas cortou a trama fazendo de minha vida uma mixórdia. O que fui para ela só Deus sabe – com alguma reserva. Não quero o seu anel não quero um paradigma e sim o teu calor as frases loucas o riso de divindade em férias merecidas.

Não sei se essas palavras chegam até você. Confio-as à pulsação do sangue, ao que vibra calado em ultrassom, ao olhar perdido, à lua repentina. E aos céus estes sim sábios que se roçam ao vento entre as cidades dane-se a distância. I carry your heart with me ainda não tem jeito. E tudo que eu escrever de amor sempre será seu.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema no filme homônimo dirigido por Malu de Martino, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

maria eugênia, conto inédito de Matheus Arcaro

Com dificuldade, vovó senta-se na poltrona ao lado da cama. Parece desconcertada. Não era só a notícia sobre a minha gravidez, mas a confirmação de que seria uma menina. Fazia três meses que não a via, senti vontade de ouvi-la. Perguntei-lhe o que primeiro me veio à língua.

* * *

Da minha infância, não me lembro de muitas coisas. É como se minha cabeça reproduzisse um clipe televisivo. Melhor: episódios desconexos de uma telenovela. O laço do avental balançando, isso eu me lembro. Mamãe de costas no fogão à lenha, vestido xadrez desbotado e o laço a dançar com o vento que entrava pela porta. O quintal, chão de costelas à mostra, era imenso, com a cana-de-açúcar a cumprir papel de cerca. Meu quarto, cama de palha e uns brinquedos de lata soldados pela inspiração do meu pai. Lembro da ausência do meu pai. A tosse que não mais tomava a casa, os vãos deixados quando ele saiu com aquelas malas emprestadas. Talvez isso tudo não tenha acontecido assim. É que quando a memória não dá conta, puxa a imaginação pelo braço, pedindo socorro.

Ah, mas Maria Eugênia sempre surge nítida à minha mente, muito inteira, mesmo enquanto estou dormindo. Hoje, com 82 anos, me soa pedante, mas naquela época, eu achava chique nome composto, coisa de gente rica.

Quem me deu Maria Eugênia foi tio Osvaldo, mas isso só fui saber tempos depois. Porque naquele ano, o presente foi de Papai Noel. O tio era apenas o emissário, ou melhor, o carteiro do velho barbudo, já que as renas não conseguiam andar em caminhos empoeirados. Renas com rinite. O irmão da minha mãe vinha todo ano na antevéspera de natal e ficava até o réveillon. Na manhã de 25 de dezembro, me entregou uma caixa comprida. Ermelinda, o Papai Noel pediu pra dar isso a você. Mas tem uma condição. Você não pode abrir a caixa, senão ele não dá presente ano que vem.

Eu não soube mastigar as palavras do titio, pedaços grandes entupiram minha garganta. Sacudi a cabeça para cima e para baixo. Rasguei o embrulho, sem ouvir o pedido de mamãe. O papel, a gente usa de novo, filha! Antes mesmo que eu terminasse, o êxtase brotou no meu peito, irrigou-se corpo adentro e saiu pela boca num grito sussurrado. Eu estava frente a frente com a utopia. A maior utopia que uma menina de oito anos podia suportar. A boneca de porcelana tinha mais da metade do meu tamanho, franja cor de mel, cílios compridos, vestidinho rodado azul claro. A beleza metamorfoseada em brinquedo, vista através do celofane. Aqueles olhos verdes olharam para os meus, éramos íntimas. Pedi ao meu tio que agradecesse ao Papai Noel, pedi licença à mamãe e corri para o quarto. Abracei a boneca com cuidado, não podia amassar sua armadura de papelão. Fiquei com a caixa colada ao peito até sentir o coração de Maria Eugênia. Eu merecia um presente assim?

Dormi abraçada à caixa. Não, não. Dormi ao lado da caixa, medo de descumprir a promessa feita mentalmente ao Papai Noel. Maria Eugênia no meu travesseiro e, sobre ela, a manta rosa que também me esquentava. Espremidinha, olhei para a boca rosada até que meus olhos se fecharam. Setenta e cinco anos depois, me lembro do sonho que tive. Eu e a boneca passeávamos de mãos dadas pela escola, assobiando as músicas que aprendêramos na aula de canto. Sonho demasiadamente colorido? Só quem nunca lidou com a ausência de presentes em natais e aniversários, julgá-lo-ia com tamanha leviandade. E mais: não foram poucas as vezes que sonhos semelhantes a este me tomaram as noites. Em outras, transferi para a boneca minhas insônias: ao lado do candeeiro embalava a caixa com as canções que há tempos mamãe não me cantava.

Sim, aos poucos, mamãe parou de cantar. É que a voz da necessidade ficou mais alta que a dela após a partida do meu pai. Entregou-se ao tanque e ao fogão. Quando viu tomarem corpo minhas conversas com a boneca, quando percebeu que Maria Eugênia tapava um buraco cavado pelos seus afazeres, o olhar dela demonstrou-se anestesiado. Obviamente só consigo observar agora estes olhos ressacados. Naqueles meses, eu só via Maria Eugênia.

— Por que não, mamãe?

— Ermelinda, escola não é lugar de brinquedo. Ainda mais uma boneca deste tamanho.

Eu voltava num fôlego da escola para casa. Jogava a mochila na cama, almoçava e passava a tarde com a caixa para lá e para cá. Brincávamos de comidinha, de esconde-esconde, de mamãe-da-rua. De quando em vez, eu era a professora, depois ela era dona da loja de roupas e me apresentava as últimas modas para bonecas. À noite, eu a acariciava, minha mão e seu rosto intermediados pelo plástico.

Num final de tarde, mamãe foi entregar a roupa que tinha lavado nos últimos dois dias. Espiei pela janela até ela virar a esquina, voltei na ponta dos pés. Se eu tirar você da caixa um pouquinho, quem vai saber? É só um beijo. Mas o cérebro não foi capaz de delegar o comando às mãos ou, se o fez, elas não obedeceram. Talvez foram impedidas pelo coração que não arremessou sangue suficiente. Fato é que logo inventei que Maria Eugênia era um bebê doente e não podia sair daquela incubadora, risco de morte.

A rotina das tardes tinha se solidificado, a boneca e eu já esperávamos uma à outra. Mas algo desmoronou naquele 5 de agosto de 1944. Como nos últimos meses, voei para casa. Boa tarde, filha. Você não imagina quem saiu daqui agorinha! Perguntei “quem” por compaixão. É que os olhos da mamãe pareciam um pouco mais vivos, não seria eu a desbotá-los. A Solange, lembra dela? Menti que sim. E trouxe a filhinha dela, 3 anos, uma graça! Subiu-me um frio pela barriga, faltou-me ar. Corri para o quarto, pernas estrangeiras do corpo e, o que era especulação, fez-se real: Maria Eugênia estava jogada no chão, despenteada e sem roupa. A caixa sobre minha cama com o celofane rasgado. Foi como se algo implodisse em mim, como se os andaimes do meu corpo se derretessem. Pela janela, vi o Papai Noel com lágrimas a sacudir-me a mão em despedida.

Acordei com um pano úmido sobre a testa. Mamãe sorriu, o único sorriso em três semanas. Dois dias depois, pediu que buscassem o médico. Minha filha não melhora. Acho que foi a comida da escola, doutor! Salsicha vencida. Hum, pouco provável, senhora. O que posso receitar é remédio pra febre. Recomendo repouso e hidratação. Volto em três dias. Nem recomendação nem remédio resgataram o rosto da saúde. No dia seguinte, mamãe chamou dona Valquíria, benzedeira famosa na região, que esfregou-me ervas nos braços e pernas, cochichou olhando para os céus e, com as mãos esticadas sobre mim, disse:

— Essa menina tem pássaro preto no peito que se debate e machuca ela por dentro. Precisa abrir a gaiola.

— E como se faz isso?

— Ela vai saber.

Sim, eu soube. Aos poucos, fui encontrando as chaves, eram muitos cadeados trancando a gaiola. O maior deles: se Papai Noel não viesse no natal seguinte, tudo bem. Maria Eugênia e eu agora éramos inteiras: ela sem caixa e sem plástico; eu sem medo. Menos de um mês depois do desmaio, pedi que mamãe convidasse Solange para um café e que trouxesse sua filhinha. Brincamos, nós três, a tarde inteira.

* * *

Vovó se levanta, apoia-se no andador e chega ao guarda-roupa. Abre a porta e me entrega um embrulho grande. É pra sua filha! Tirei a coberta, os olhos verdes me olharam. Os meus, encharcados, não puderam corresponder no mesmo nível de profundidade.

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Editora Patuá, 2016) e dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014) e Amortalha (Editora Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

a diplomacia em banho-maria, de Dirce Waltrick do Amarante

As relações entre a Índia e o Brasil iam de mal a pior e tudo começou quando passamos a comprar vacas indianas, as quais, segundo o contrato, deveriam ser tratadas com a deferência que lhes cabe por sua condição sagrada, mas acabavam mesmo era virando churrasco (sim, comemos churrasco de gato, gambá e vaca), recheio de pastel etc. por aqui.

E os indianos descobriram isso num vídeo do YouTube, que viralizou, no qual um diplomata brasileiro ensinava como fazer pastel com recheio de carne de vaca indiana. Aliás, o diplomata era conhecido por seus talentos culinários e fazia parte de renomado clube de gourmets da cidade de Vagens, no interior de Santa Catarina.

Foi um escândalo diplomático que o fez perder seu posto duramente conquistado no Itamaraty. Pensando bem, não foi duramente conquistado, porque não era diplomata de carreira, havia sido indicado para o cargo pelo presidente do Clube dos Gourmets de Vagens, um fazendeiro que fabricava um dos melhores iogurtes do mundo, melhor até do que os Iogurtes de Popesco Rosenfeld, os preferidos do senhor e da senhora Smith e do dramaturgo romeno, naturalizado francês, Eugène Ionesco.

Ocorre que o diplomata conhecia alguns segredos de Estado e, de forma nada ética, ameaçou lançá-los aos quatro ventos: um deles era o de que os frangos exportados para a Índia, com os quais os indianos faziam um delicioso chicken tikka masala, eram alimentados com hormônios que, em seres humanos, ou melhor, nos homens, provocavam a diminuição dos testículos e faziam surgir brotos mamários. Não sem razão, quando um diplomata indiano chegou ao Brasil, muitos acharam se tratar de uma mulher.

Esse imbróglio internacional só acabou quando deram ao diplomata o cargo de embaixador no Consulado do Samba, uma escola de samba da capital catarinense. Desde então ele é visto nos barracões da escola bordando e costurando lantejoulas em fantasias de carnaval.

Dirce Waltrick do Amarante é professora, ensaísta e tradutora. O conto integrará o livro Antropologia urbana, ainda sem data de lançamento.

de quando a verdade me levantou do chão, de Roberto Menezes

“Quando o galo cantou eu ainda estava agarrado ao seu pé e à sua mão. Uma unha na nuca, você já maluca de tanta alegria do corpo, da alma e do espírito são.” (Caetano Veloso)

Seria mera formalidade e chegar, sentar e chorar, chorar como um torturador arrependido, depositar aqui um milheiro de flores do jeito que você faria, devoto de frente a um túmulo francês de um poeta romântico genérico. Mera formalidade, documento carimbado e protocolado, com firma reconhecida em cartório, presente com beijinho no pescoço. Não sei o motivo de eu ter vindo aqui, mas digo a você que hoje não chorarei, a gente não vai chorar, não separarei minha dose de água e sal, não transformarei esse dia silencioso, esse dia bom pra andar de bicicleta em volta de lagoas, esse dia não transformarei num malogrado vendaval de angústia, saraivadas de lamentações gratuitas. Deixo esses dias acorrentados às trilhas sonoras dos desamados, chupadores de letras de sambas canções.

Você é tão patético quanto um clipe de caetano em mute.

Olhe nos meus olhos. Na minha maleta não há nada pra te dar a não ser a verdade. Você sabe que sou dado a trazer presentes embrulhados em frases rimadas, com efeito. Trago hoje pontapé, não trivela. Trago pontapés e uma caixa de cupcake. E não diga assim, com essa cara de funcionário da alfândega mal-educado, que eu e minha encomenda chegamos tarde, que já é hora não-útil e a mulher da rua das emoções vadias te espera em casa pro eventual e protocolar boquete. A verdade não tem hora marcada, bate na tua casa, não com a sutileza da sua femme de mauvaise vie. Nunca é tarde pra minha verdade testemunha de jeová. Eu achava que você já sabia disso. Minha verdade não quer saber quando você diz, deitado, na tua conveniente kryptonita: me deixa aqui, não há o que se fazer, tudo está partido, tudo está aos cacos. Minha verdade, de pau duro, é insensível às tuas verdades.

Você é tão patético quanto uma adolescente gótica quando você vem me mostrar essa tua rambôzada escrita com cuspe.

Sai desse chão, prepara um chá pra mim. De chá, a gente é especialista. Pois então. Nem sei a última vez que entrei aqui, sabe. Sabe, tenho saudade daqueles dias de chá de sobriedade. Lembra não? Lembra nada! Só lembra dos chás das cinco da madrugada, o chá que a gente tomava depois de vomitar a bílis. Ninguém, nem eu, nem você, ninguém queria se matar naquela hora de amanhecer. Você jogado no chão só pensava em se levantar, sei bem eu, mas cadê as forças? A gente nem tinha força nem pra levantar o pau, imagina você ficar de pé e atender a porta. Nessa hora nenhum dos presentes tinha o mínimo de coragem de enfiar o pau em buraco nenhum. A gente era a república dos paus moles. Nessa hora, a verdade estava escancarada e a gente de bocas tão iguais escancaradas. A verdade acrobática pulava na sala, meio como um pajé, meio como um obreiro da igreja mundial. A verdade pulava e balançava seu preponderante pau duro. A verdade, que não era nem minha nem tua, tinha um pau de encher bocas, cus, buracos diversos. E a gente ficava em uma paralisia só, sabia que ia morrer. Sabia que após a última gota de bílis, a gente não teria tempo pra fazer nada.

Teve um momento, era pra eu ter anotado a hora, que eu consegui piscar os olhos, mais do que isso, consegui, não sei como, olhar ao redor da sala. Todos, eu, você, o resto do povo, a gente dentro desse último vômito. Realmente não podia fazer nada. Não tem o que fazer quando tudo o que é de ruim foi posto pra fora e a gente vira apenas um saco, um saco de estopa vazio. Meus olhos piscaram, ela chegou na porta, em time-lapse. Era cinza e não tinha vício, vestia um terno. Paletó e calça sem vinco. Seu peitoral se apertava naquele vestiário sóbrio, mas o seu pau, ah!, o seu pau, não tinha amarra que amarrasse aquele pau. E assim, num estalar de dedos, ela estava com a cara na minha cara, espantada, surpresa, não sei, acho que sim. A maldita não esperava que eu pudesse ver a sua fuça. Tanto não esperava, tanto não acreditava que acho que ela achou que aqueles movimentos meus eram espasmos.

A maldita verdade é um bicho sem fé, dos piores incrédulos, daqueles que veem e não creem, não creem, não creem, a maldita verdade só põe fé nela, e na sua verdade.

Pois vejamos, ela continuou, sem eu ali, mas estando ali. Você não acredita, mas quando a verdade baixou as calças percebi que aquele pau duro da verdade realmente poderia machucar alguém. O pau era muito grande, bisonho de grande, do tamanho do meu exagero, do tamanho do meu passamento. Cheirou meu cangote e me desdenhou. O primeiro da madrugada foi você. Coitado de você, ela te currou até quase você virar santo. Você, desacordado, só gemia e gritava mamãe, mamãe, mamãe, mamãezinha você me traumatizou. E a verdade, tome, tome, tome, só te beatificando. Tome, tome, tome. No teu cu a verdade dava o trato. Aí foi no segundo, foi no terceiro, na turma toda. Sem dó, sem piedade. Nem lembro quanto de nós estavam ali. Depois de terminar a sessão, só então voltou em minha direção.

Ai, verdade, quantas vezes a verdade me enrabou? Quantas vezes nessa merda de vida a verdade enrabou a gente? Após aquilo vi que o que eu sabia sobre a verdade não passava de uma ilustração mal feita num livro de história pra boi dormir. Nunca senti, nesses anos todos, quando ela me enrabava, nem você sentiu a maneira pouco delicada com que a verdade fodia.

A verdade te fode todinho. A verdade fode e a gente nem sente, vai pra um buraco no subconsciente, inconsciente, sei lá. O seu pau é suficientemente grande pra entrar, adentrar, alargar, arrombar qualquer buraco. É claro que eu não ia ficar parado esperando a verdade fazer barba, cabelo e bigode comigo. Arregalei ainda mais os olhos e disse não, não, hoje não. Ela não esperava que eu tivesse essa atitude covarde. Covarde não!, de sobrevivência. Fechei o cu e os ouvidos pra verdade. Depois de me lacrar, lacrar todos os meus orifícios possíveis, cerrei os olhos, e gemi, ai meu deus, que seja um sonho, mas não. Eu esperei a porrada, pior das porradas, de uma verdade enfurecida se avermelhando e possessa de raiva, elevando o seu membro contra mim. Esperei, sim, eu estava sem força, sem forças nas pernas. Porém a verdade não fez o que pensei. Recolheu o seu pau, deu uma cheirada insolente na mão melada das mais de mil gozadas da noite. Depois, deu um semi-sorriso e estendeu a mão pra mim. Puta, parecia uma donzelazinha de uma novela das seis, um johnny depp androginado. Ficou então aquele impasse mexicano de dois só. Ela, na dela, sem dizer nada, absolutamente nada, sem fazer discurso verdadeiro. E eu, nem sei o motivo de querer fazer isso, eu queria dar a mão à desgraçada, mas por outro lado morrendo de medo de ser uma cilada, uma armadilha, de ser uma sacanagem dela, pra quando eu me abrisse todo, ela pudesse entrar de jeito. E se ela entrasse, meu amigo, se ela entrasse, faria gato e sapato. Não se pode confiar na verdade, ela é uma cobra vingativa, uma hora te pega de jeito. E uma coisa é ela te pegar de jeito com você inconsciente, outra coisa é de cara limpa e olhos esbugalhados. Esperar aquele ser e seu cacete de metro e meio chegarem pra entrar em você. Eu sabia dos meus riscos quando me decidi.

Pois bem, dei a mão, mais do que isso, desabotoei a calça, fiz o zíper descer o trilho, arranquei a merda do jeans apertado e apresentei o meu cu à verdade, o meu cu que todos nós conhecemos, o meu cu depiladinho mais escancarado do que meus olhos. Vem, verdade! Ela, ligeira, obedecendo unicamente aos instintos, encheu sua boca de saliva e tal qual uma hiena raivosa, deu o bote. Um bote daqueles que pensei, tou fudidinho da silva, um abraço mãe, dê um cheiro em dona margarida e a moça simpática da padaria. Mas não, a desgraçada da verdade só quis de mim a mão. Como assim? O seu bote não chegou a me atingir, nem a cabecinha do seu pau senti. A verdade respirou fundo. Um teletubbie gigantesco e neurótico. Respirou e insistiu, queria que eu levantasse a mão, até um sorrisinho de boca cheia a cretina deu. A verdade respirando fundo parece zeus com asma. Mas ela se controlou, deu um sorrisinho, do tipo, é melhor o senhor, com o bom senso que o senhor tem, erguer logo esse braço, apenas pro seu bem, senhor, apenas. Eu, assim como adão fez ao receber a maçã da serpente, fiz o que ela me pediu. Era a única força que eu tinha. Meus dedos passaram pela altura dos olhos e subiram, até que ela me tocasse.

Quando a verdade me levantou do chão, senti minha alma, personagem que não estava nos créditos, querer ficar. Filha de rapariga de minha alma, não queria sair da lama, do nada tomou vida e parecia ser outra pessoa. Dentro de mim, ela gritava, a lama é boa, amigo, a lama é divina, qué isso irmão, qué isso, não se pode sair da lama assim, esse casamento não pode acabar só porque a meretriz da verdade deu a mão pra você, quem quer saber da verdade, quem quer saber da verdade, vai deixar tua alma na lama?, não se deixa as coisas assim do nada pra trás, bora ficar, pela amor de deus, bora ficar, bora aguentar, já o dia chega, já o dia vem, que mal faz, que mal tem.

Ainda bem que eu já era da verdade e ela sabia o que era melhor pra mim. Como um reacionário governador paulista, ela me arrancou dali, compulsória, a verdade me quebrou todos os tentáculos que me prendiam no mar de bílis e sal. Minha alma travou desarmada, não disse mais nada. Na minha boca, um gosto de coca-zero choca. No ar, um cheiro de esquema novo e nenhum ânimo nas pernas. A verdade me tirou dali, me arrastando mesmo, nem vi o cenário de guerra que deixei pra trás.

Ah, verdade, meu amor, obrigado por me arrancar mesmo que à fórceps daquela metralha toda.

Quando dei por mim, ela me levava já, em plena luz do dia, pelas ruas do centro. A gente vagou por farmácia, igrejas, hospitais, bibliotecas, cabarés, bares, cafés. Lugares que eu nem sabia que existiam. A verdade é bom de papo, mesmo sem abrir a boca. Sabe dizer muito sem falar nada. Boa gente, nem deixou eu pagar o rodízio. No fim da tarde, a gente dividiu um sorvete vendo o sol se pôr, depois ela me levou pro seu apartamento. A verdade nunca leva ninguém lá. São setecentos e vinte e dois degraus pra chegar lá no seu andar. Legal foi ver que ela leva uma vida tranquila, gosta de pipoca com sanzon, lê quadrinhos em árabe e tem a discografia completa de joy division. Ah, e, assim como eu, tem a coleção completa dos poupançudos. Lá pelas tantas, resolvemos puxar uma série pela internet e vimos dois ou três episódios daquela comédia sem graça, daquela atriz que nunca fez sucesso no cinema. Quando dei fé, estava cada um dormindo prum lado. E pela primeira vez eu vi que o pau duro da verdade não estava duro. Sei lá o que ela toma, viagra ou chá de gnose. Eu que já estava calmo e recuperado fiquei confortado com essa não-dureza. Entendi como um voto de confiança da parte dela. Continuei cochilando ao seu lado. Esfriou, ela me levou pro seu quarto. Quase não tinha chão. Era uma cama só, enorme cama num quarto pequeno, sem chão. E eu que quase sempre terminava dormindo jogado no chão. Aqui não se dorme no chão, parecia dizer a verdade. A janela semiaberta e a gente dormiu de conchinha.

Quando o galo cantou eu ainda estava agarrado ao seu pé e à sua mão. Olhei ao redor e me apavorei, sabe, me apavorei. Também lembrei de você jogado no oriente médio dessa casa, você e os outros. Me apavorei de não ter o dia seguinte do caos pra me lamentar, de não poder mais derramar um sobre o outro as mazelas. Lembrei de você, jogado, porco chafurdando na lama.

E a verdade babando no lençol.

Peguei o travesseiro, o de plumas arrancadas de algum cão, e sufoquei a verdade. Ela se debateu, se debateu, se debateu e se fez de morta. Tolo eu, otário filha da puta, a verdade não morre. Antes de fazer qualquer movimento, seu pau endureceu. Medonho membro enrijecido gargalhando em minha direção. A verdade não morre. Não esboçou reação. Ficou só rindo. Tipo dizendo, esse é o teu novo mundo, gosta mais desse ou do outro?, gosta mais disto aqui ou da tua velha lama? Risadinha de bosta. Eu amarrei a verdade na cama, eu torturei a verdade por sete semanas. Tentei matar a verdade de todos os jeitos e maneiras. E nada. Pensei em deixar ela ali pra talvez morrer seca. Mas não. Não podia simplesmente deixar ela ali, e com ela fiquei. Foram sete semanas desaparecidos do mundo, eu e minha verdade. Até que certa manhã, ela começou a encolher, encolher, encolher. Ela e seu pau encolheram até caber na minha mão. Coloquei aquela miniatura numa caixinha bonitinha, daquelas que as universitárias adoram embalar cupcake. A caixa pus na maleta e voltei pra minha vida, minha antiga amarga vida.

Mas num deu. Num deu, cara! Não deu mesmo. Nada entrava, parecia que tinham fechado meu esôfago. Uma vontade mocoronga de não morrer, por infecção ou tiro na têmpora. Cheguei a sentir saudade de pensar como eu pensava, como pensa você, em ter uma tumba onde adoradores buscariam parte desse meu espólio de dor. Espólio de dor! Piada, né? Mas pensei. Nunca tive espólio. Minto. Tenho sim, um novo e caricato espólio. Tá aqui na maleta, uma versão risível da verdade, marmorizada, congelada, não sei o quê. Seria mera formalidade, eu chegar, sentar e chorar, chorar como um torturador arrependido, depositar aqui um milheiro de flores do jeito que você faria, devoto de frente a um túmulo francês de um poeta romântico genérico. No fundo, no fundo seria pra mim, não pra você essas flores.

Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. Professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem seis livros publicados: Pirilampos Cegos (romance), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (romance), Despoemas (contos), Julho é um bom mês pra morrer (romance), Palavras que devoram lágrimas (romance) e Trago Comigo as Dores de Todos os Homens (novela). Além de Conversa de Jardim, em coautoria com Maria Valéria Rezende.

o vilarejo, de Maya Falks

Já se passavam 28 noites. Seriam 29 dias se o clima nebuloso permitisse que os dias acontecessem. Não havia luz em qualquer ponto que não o sôfrego dançar das chamas que resistiam ao vento. O remelexo do fogo produzia sombras que davam medo, ainda mais medo do que as lendas que assombraram o povoado por gerações e que agora já não assustavam porque os anciões, de seus túmulos, não podiam mais transmitir as histórias para os poucos exemplares da nova geração.

A guerra perdurava décadas. Não havia mais seres vivos que conhecessem tempos de paz e há muito as razões do ódio foram esquecidas. Os jovens já davam sua vida pelo hábito de se morrer sem nem saber por quê; corriam munidos de armas em campos abertos ao encontro da morte sem que jamais lhes houvessem explicado pelo que matavam e por quem morriam.

Diziam os sobreviventes que há 29 dias não se tinha o sol por causa do massacre. Era apenas mais um, mas certamente o mais violento dos últimos tempos, e, na falta de uma esperança de um futuro melhor, diziam que se foram tanta almas que o céu não deu conta e os mortos desprovidos de corpos pairavam no ar cobrindo a luz do sol.

Talvez fizesse sentido. Não era inverno para que, por 29 dias, não se tivesse luz pelas ruas. Ou melhor, pelas ruínas. O pó dos tijolos esfarelados se misturava ao cheiro de pólvora e de putrefação nas ruas onde o luto pesava tanto que o oxigênio quase não tinha espaço de circulação. 29 dias desde que era possível construir um castelo de carne e osso com os filhos de toda a cidade e vilas vizinhas.

Todos pareciam se concentrar em um só lugar para que talvez até os satélites fossem capazes de fotografar uma imensa mancha de sangue em um canto esquecido da Terra. 28 noites que não foram quebradas pelo canto dos pássaros. 28 noites incapazes de amanhecer.

No vilarejo não havia mais crianças para chorar a perda dos pais. Não havia mais pais para colocar crianças no mundo. Não havia mais vida para alimentar aquele intenso e insano ciclo de morte.

No vilarejo sobraram os ratos.

Maya Falks é gaúcha da serra, leonina, canhota e apaixonada por literatura desde o berço. Autora dos livros Depois de Tudo, Versos e Outras Insanidades, Histórias de Minha Morte e Poemas para Ler no Front. Maya é escritora, publicitária e jornalista e acumula mais de 20 prêmios entre contos, crônicas e poesias.

blattaria, de Eduardo Sabino

capa_alucinatoriosConto do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019).

Antes eram só encontros noturnos. Eu ia à cozinha beber água, acendia a luz, e lá estava a intrusa no azulejo, correndo pra detrás da geladeira. Ia ao banheiro fazer xixi e via duas antenas nojentas balançando no ralo da pia — dava um grito e abria a torneira no máximo. Foi quando percebi que não estávamos sozinhos. Havia uma cidade inteira vivendo nas frestas da nossa casa; as bichinhas à espreita, aguardando a gente dormir pra ir à caça de nossos restos. Como são as coisas: se antes essa ideia me dava calafrios e insônia, agora seria a vida ideal: as baratas andando pela casa no escuro em busca de comida; eu, mamãe, papai e Hugo apagados, felizes, sem dar conta de nada.

Tudo bem que havia conflitos antes da infestação. Mamãe não gostava da casa. Queria morar em um apartamento ou em uma casinha mais nova, que não estivesse, e aí vinha a expressão que deixava papai nervoso, caindo aos pedaços. Ele a chamava de ingrata, dizia que não havia casa melhor no bairro. “Vocês são privilegiados!” Eu e Hugo observávamos mudos e tendíamos a ficar do lado de papai: morar ali não me incomodava; pra falar a verdade, era bem legal chegar ao casarão com as amigas da escola: elas sempre se impressionavam, tiravam até foto dos lustres da sala. “Sua casa parece casa de filme, Maria”, diziam. Um dia, lá pelo século dezenove, todas as casas eram iguais na rua. Quem fundou nosso bairro foram os ingleses que vieram para o Brasil como funcionários de uma companhia de mineração. Hoje as minas estão desativadas, e boa parte das construções dos imigrantes, das pontes às igrejas, foram reformadas com uma estética mais barroca-interiorana, sem graça. Sobrou a nossa casa. O telhado enorme em formato de choupana, dois andares, cômodos espaçosos, janelões brancos, o azul desbotado nas paredes e no toldo da varanda, o gradil quadriculado nos corrimões — tudo de madeira, madeira em toda parte. Sem contar aquelas coisas meio fora de lugar: um piano fodidinho que papai jamais se interessou em consertar, a chaminé de tijolos e a lareira de todo tamanho na sala de visitas — quem precisa de lareira numa cidade quente como a nossa, meu Deus? Acho que nunca a usamos.

O problema de crescer nessa casa é que ela nos denunciava, sempre: primeiro a mim, depois, quando cresci, a Hugo. Mamãe o colocava pra dormir, ele dava um tempinho e saía, andando de meia, descendo a escada nas pontas dos pés, louco pra ver tevê na sala. Nunca conseguiu completar a travessia no corredor. De madrugada, qualquer passinho, até de criança, fazia a madeira ranger, e mamãe logo lhe dava um flagrante. Pra não fazer barulho em nossa casa era preciso ser leve e ágil como as baratas: elas sim eram livres à noite. Talvez o ódio de mamãe pela casa já era, nesse tempo, uma premonição do ódio que ela sentiria pelas agregadas, sofrendo por antecipação os males que elas nos trariam. Quando o assunto de vender a casa entrava na conversa do jantar, brincávamos de dublar a fala de papai, que já sabíamos de cor:

“Essa casa foi de meu pai, e do pai do pai de meu pai. Nossa família está aqui há várias gerações, e daqui não arredo o pé.”

Mamãe dava um suspiro de esvaziar os pulmões e ficava encarando a sopa. Acho que tinha vontade de enfiar a cara no prato fundo e tapar a respiração do nariz.

“Se ao menos a gente pagasse uma empregada. Uma faxineira uma vez por semana. Mas não: estou sozinha com tudo. Essa casa vai me matar.”

Papai desconversava. Dizia que o jardim estava por sua conta. Limpeza pesada. Além das coisas estragadas esperando conserto — sempre havia muita coisa para consertar lá em casa: telhado, gavetas, descargas, portas de armário e fechaduras. Empregada estava fora de cogitação, sentenciava, a aposentadoria era boa mas não dava pra tanto. “Mais um motivo pra vendermos essa casa”, mamãe insistia. Papai bufava, dizia que a culpa era dela. Se saísse do emprego de vendedora de farmácia — vendedora não é emprego que vale a pena, mulher — os dois dariam conta de todo o serviço.

“Se eu sair, quem vai pagar a escola de Hugo?”

“Já tá na hora de ele ir pra pública…”

“E a faculdade de Maria, você banca?”

“Maria é inteligente. Vai passar na Federal.”

Mamãe chegava a engasgar de ódio.

“Você conta com o ovo no cu da galinha, Antônio.”

Levantava num tranco, nem terminava de jantar. Guardava o prato na geladeira, dizia que tinha perdido o apetite, e subia correndo pro quarto. Ficavam sem conversar por dois, três dias, depois se ajeitavam. Essas coisas me faziam perder o sono, remoendo as mesmas perguntas: o que seria de mim e Hugo quando eles se separassem?

Apesar de tudo não consigo lembrar dessa época como um tempo ruim. Éramos quatro e ainda tínhamos a ilusão de sermos os únicos moradores da casa. As brigas eram pouquinhas, insignificantes, e havia bons momentos. Almoços sem gritaria, televisão em família: novelas e programas de humor. Usávamos a varanda nos nossos aniversários e no Natal papai tocava violão até mais tarde.

Então vieram os bárbaros, elas deram o ar da graça: começaram a surgir durante o dia, pregadas nas portas que acabávamos de abrir, camufladas nos bolores da madeira, embaixo dos tapetes e atrás das cortinas. As piores eram as voadoras. Davam mergulhos rasantes de kamikaze e avançavam contra nós, depois se colavam em outra parede e as asas se juntavam rentinhas em suas costas como se nem existissem.

Eu tinha curiosidade em saber mais sobre elas, como tinha curiosidade por todos os tipos de ser vivo — já sonhava em ser bióloga. Vivia observando de perto cigarras, formigas, abelhas e até lagartixas mas das baratas não conseguia me aproximar nem nessa situação terrível em que elas tomavam a iniciativa. Tinha muito medo de agarrarem no meu cabelo. Passei a andar com ele preso dentro de casa. Quando aparecia uma das grandes, eu me trancava no banheiro. Um dia, me sentei no vaso, ofegante, e dei de cara com outra maior escalando o vidro do boxe, sinal de que estavam perdendo mesmo a vergonha ou já não cabiam em suas tocas.

Mamãe também era um desespero só. Chamava por Hugo onde as encontrasse. O pequeno ia correndo, chinelo em punho, Deixa comigo, e se divertia exterminando os insetos. Uma vez, ele me salvou de duas que me encurralaram na cozinha. Vi aquela tripinha seca pisoteando as baratas e fiquei até constrangida.

“Você não tem vergonha, maninha? Olha seu tamanho e o tamanho delas. Elas que deviam ter medo.”

Hugo estava certo, e eu precisava daquela sacolejada. Passei a atacá-las com raiva e coragem e, como era de se esperar, levava a melhor. As baratas não tinham muitas opções: recolhiam-se às tocas ou morriam esmagadas. Papai observava tudo com indiferença. Era o único que as baratas não tiravam do sério. Dava instruções a distância, preocupado com a casa.

“Calma, Hugo, espane ela pro chão. Não vá sujar a parede.”

“Mas ela vai fugir, papai. A vagabunda vai fugir. Olha ali o buraco no teto!”

“Deixa fugir.”

A primeira bronca mesmo quem levou foi mamãe quando destroçou sozinha uma barata que pousou no tapete. Seu primeiro confronto. Bateu tanto na bicha, e com tanta violência, que o inseto se achatou e pregou igual chiclete gosmento na sola da sandália. Papai balançou a cabeça, inconformado: “É só uma baratinha, Cleusa. Porra, precisava disso?”.

Mamãe, a terceira a ganhar coragem, e agora éramos um trio de exterminadores de baratas. O medo se foi e veio a vontade de estudá-las, saber de que eram feitas e quais os limites de um ser que tinha sobrevivido a eras tão extremas e parecia, no entanto, tão frágil. Como a seleção natural as moldou para as tornar tão adaptáveis?

Identifiquei cinco espécies vivendo conosco. A americana era a predominante. Marrom-avermelhada, media cerca de trinta milímetros. Depois vinha sua gêmea menor (metade da envergadura), a germânica, popularmente chamada de baratinha. Em menor contingente, a oriental, vinte e cinco milímetros, negra como uma barata fantasiada de besouro, e a australiana, duas manchas amarelas na extremidade superior das costas que me lembravam os olhos do Black Kamen Rider, seriado japonês que Huguinho adorava assistir na tevê. Outra que às vezes saía das frestas de madeira era a virgínica, miudinha, um centímetro quando adulta, não chegava a ser bonita mas não me dava tanto asco como a mandante do pedaço: a americana, barata tropical, a mais adaptada ao nosso clima. Por ser grande e numerosa, e interagir conosco com mais frequência, virou minha cobaia preferida. Mantive um criadouro por semanas num aquário abandonado no porão. Impressionante como comiam de tudo. Insetos mortos, verduras, carne estragada, as próprias fezes, pedaços de fiações velhas. De uma que prendi com um copo na cozinha decepei a cabeça. Achei que viraria alimento de formiga naquele mesmo dia. Para minha surpresa, ficou vagando decapitada por uma semana no quarto vazio onde a soltei. Não precisasse da cabeça para comer, resistiria mais tempo.

Mamãe não gostou de minha dedicação científica. Enquanto eu analisava baratas com lupas, ela e Hugo enfrentavam sozinhos a onipresença das americanas. Papai gostava de ver meu interesse e se aproximava, folheava por alto os artigos que eu imprimia da internet e ostentava seu senso comum sobre o assunto.

“Você sabia que na China as pessoas comem baratas?”

“Nem todas as pessoas, né, pai!”

“Pois sim senhora. Os chineses comem de tudo. Barata, então, é uma iguaria.”

Uma iguaria exótica. Ajudou muita gente a sobreviver durante a Grande Fome, mas hoje não é um costume tão generalizado assim. Tinha lido sobre uma minoria étnica, na província de Yunnan, que fazia esse espetáculo para turistas nas feiras em via pública, degustando e oferecendo a todos baratas, lacraias, cigarras e outros insetos. Talvez haja outras etnias que preservem o costume, daí a ser um prato típico da culinária chinesa, corre um oceano. Eu queria dizer isso a papai, que ele estava errado. Mas conhecia seu jeito. Iria teimar, elevar o tom de voz, dizer que não se pode confiar na internet nem nos livros, que conversou com um chinês não sei quando nem sei onde e ele não podia ter mentido. Melhor evitar a fadiga e não render assunto, fiz um “oh” de surpresa, “Jura, papai?”, e ele falou mais umas abobrinhas: “Barata no prato na China, minha filha, é nosso filé de frango”. Achei graça e caí na risada. Um bilhão e trezentos milhões de habitantes na China: todo mundo comendo baratas, ao menos uma vez ao dia, isso que é controle de praga.

Apesar de seus exageros, papai estava lúcido. A noite escura de sua alma não tinha chegado. Um arrependimento não ter levado as baratas a sério quando poderíamos ter o seu apoio. De ter achado divertido fazer experimentos, persegui-las, exterminá-las. Três pessoas não podem contra uma multidão de baratas. Não armadas apenas com chinelos e boa vontade. Óbvio que um dia o cansaço nos pegaria de jeito e elas iriam se aproveitar.

Passamos meses inteiros assim: em guerra, mas tranquilos, com a segurança de sermos mais fortes. Matando baratas sob os olhos indiferentes de papai. Depois, veio o surto: das baratas e do velho.

Ele começou a se retirar mais cedo do jantar e a nos tratar com rispidez na hora do telejornal. “Quietos, nenhuma palavra.” Se levantássemos do sofá para matar uma barata que interrompia a programação com sua presença asquerosa, papai se enfezava. Chegou a dar uma chinelada em Hugo um dia, o que rendeu uma discussão comigo e mamãe. O pequeno só queria nos proteger.

Então um dia eu o peguei observando uma barata asiática no pilar da garagem. Tirei a sandália pra esmagá-la e ele me impediu. Alegou que ela estava na dela, sem fazer mal a ninguém, do lado de fora da casa. Ali a nossa lei não valia.

“Você só pode estar de brincadeira, papai.”

Não rendeu assunto. Apenas me deu as costas e fez a segurança da barata enquanto a miserável escalou o pilar e entrou num buraco do toldo.

Andava mais silencioso por aqueles dias, ouvindo rádio, vendo tevê o dia inteiro e, à noite, ainda antes de mamãe chegar da farmácia, ele já tinha posto o caçula para dormir, prendendo-o no quarto. Dizia que era castigo, que o menino estava fazendo bagunça, mas coisíssima nenhuma, Hugo apenas matava baratas.

O problema ficou mais claro na manhã de sábado em que acordei cedo para fazer um trabalho em grupo. Do banheiro, a porta entreaberta, enquanto escovava dentes, vi papai na sacada de seu quarto. Ele estava com as mãos em concha e agachado. Murmurava palavras carinhosas, apanhando um passarinho que se chocou contra o vidro da janela, mas essa foi a minha primeira impressão, a imagem observada de relance e deturpada na inocência de um olhar lógico: você pode imaginar o que ele realmente apanhava, o que ele tinha nas mãos, o que ele ergueu e soltou no ar, debruçado no corrimão. Mamãe já tinha saído para o trabalho e quase não acreditou quando a contei.

“Tem certeza que não era um passarinho?”

“Mãe, acorda. Eu sei diferenciar uma barata de um passarinho.”

Dona Cleusa colocou as mãos no rosto e sentou-se no sofá da sala, “Oh, meu Deus! Antônio enlouqueceu.” Disse que ele havia se levantado de madrugada, falando sozinho no corredor, tratando um bicho por meu bem, e que talvez não fosse o gato.

Decidimos dar um basta nisso assim que subiram os créditos da edição do jornal da noite. Nós duas contra papai. Nem citamos a barata-passarinha. Fomos direto ao ponto. “As baratas estão passando do limite. Precisamos dedetizar esta casa.” Ele se levantou, um medo estranho nos olhos, e tentou deixar a sala. Fomos no seu encalço. “Vocês é que estão passando do limite”, disse baixinho. Mamãe ganhou sua frente, impediu que subisse as escadas e mentiu, disse que já tinha ligado para o serviço de dedetização. Papai interrompeu a fuga, como uma barata que de repente tivesse tomado coragem.

“Ninguém vai dedetizar porra nenhuma!”

Um baita de um berro. Ficamos atônitas. Ele prosseguiu:

“A casa é minha, sou eu que pago as contas dela. Vou vigiar o portão. Aqui ninguém entra com veneno.”

“Mas pai, as baratas…”

“Não tem mais nem menos, Maria. Não quero saber de matança nessa casa. Um bicho inofensivo desse. Que mal as baratas fizeram para nós?”

Eu não acreditava no que ouvia.

“Hein, me digam?”

Quis levá-lo até o computador na sala, mostrar os artigos que eu tinha favoritado na noite anterior.

“Pai, elas podem transmitir um monte de doenças. Podem contaminar alimentos. Estamos correndo um risco danado.”

“Isso é balela.”

“Não é. Pode acreditar. Elas carregam microrganismos nas patas e nas fezes.”

“Que nojeira!”, disse mamãe, se benzendo.

Puxei o celular, dei uma googada, e comecei a ler.

“As baratas são consideradas perigosas para a saúde dos seres humanos. Podem transmitir febre tifoide, tuberculose, conjuntivite, infecção urinária, pneumonia e lepra.”

Papai começou a rir, irônico.

“Nunca ouvi falar de ninguém com febre tifoide por causa de barata, e a lepra já foi extinta. Não acredite em nada da internet, minha filha.”

Sabia que sua reação seria essa, mas eu tive que tentar.

“E tem mais”, continuou, “na minha frente ninguém mais mata essas criaturinhas de Deus. É um ser vivo. Um dos mais antigos do mundo, e merece respeito.”

“Puta que o pariu!”, mamãe estourou. “Pois você vai ter que escolher, Antônio, ou elas ou nós. Desse jeito não dá pra viver.”

Ele olhou para a porta da sala, o rosto agora sereno e abobalhado.

“A escolha é de vocês. A porta da rua é serventia da casa.”

Disse isso e se mandou para o jardim. Um sacana. Sabia muito bem que mamãe não tinha condições de se virar sem ele. Ficamos imóveis na sala por uns minutos, eu olhando a tela do celular e mamãe revoltada, ele veria só, ela iria dar entrada no divórcio e alugar um apartamento para nós, mas eu sabia que falava da boca pra fora. Seus olhos se encheram d’água e ela saiu de meu campo de visão, correndo para a varanda a tempo de esconder seu pranto. “Está vindo uma tempestade”, disse com voz embargada, “Me ajude a fechar as janelas e abaixar os toldos, Maria.”

Naquela noite, tive um sonho horrível. Sonhei que uma enchente nos levava pela rua, nós quatro, e o fluxo era de baratas, não de água. Os insetos saindo de nossas bocas, infestando nossos cabelos, cobrindo nossos corpos, a gente se afundando e emergindo, entre troncos de árvore e carros flutuantes. As baratas se movimentavam como gotas enormes e amarronzadas, umas sobre as outras, caoticamente, uma China inteira delas, fazendo o rio correr rua abaixo. Acordei agitada, ouvi um farfalhar de asas no escuro, acendi a luz e estapeei a parede no ponto aonde a calhorda remanescente do meu sonho pousou. A palma da mão ardeu e ela levantou voo, escapando pela janela.

Nos dias seguintes, papai cumpriu à risca suas ameaças. Ele nunca havia me agredido fisicamente, mas algo em mim, e naqueles olhos insanos, me dizia que ele seria capaz, e decidi não o confrontar. A partir de então, quando estávamos reunidos no sofá, uma barata podia atravessar a sala e cagar no tapete sem temer pela própria vida. Difícil suportar aquela ousadia. Huguinho fechava os olhos, rangendo os dentes. Eu e mamãe costumávamos sair da sala, enojadas. Com o tempo, mudamos a tática e continuamos a resistir. Cada um ia para um setor da casa. Avisávamos um ao outro, por SMS, onde papai estava e a quem ele estava vigiando. Elas tinham menos baixas, mas sofriam mais, uma morte mais lenta: um prazer inigualável senti-las rompendo as vísceras sob as nossas sandálias, tudo porque o impacto não podia fazer barulho, era necessário matá-las sem uso excessivo de força e sumir rapidamente com o cadáver.

Uma noite quem sumiu foi papai e eu o procurei em todo o casarão, até nos cômodos que não utilizávamos, mas não conseguia encontrá-lo. Acendi a luz do corredor do primeiro andar e sacudi a cabeça, tentando afastar a lembrança da enchente de baratas. Então ouvi uma música antiga, de banda marcial, o hino de algum clube de futebol, talvez do país, e o som me levou ao porão, o alçapão aberto. Tirei os chinelos e desci alguns degraus, para dar uma olhada. Tive de tapar a boca para sufocar o som do meu grito. Papai estava numa cadeira de balanço, ouvindo a vitrola antiga de vovô e fumando um cachimbo. Ao seu redor, baratas, dezenas de baratas, baratas de todas as espécies que cataloguei. Estavam imóveis como num círculo satânico, vivas e quietinhas como que dopadas. Olhei bem e mal podia acreditar: a maior de todas que eu já tinha visto estava pousada no seu dedo e ele a suspendia como a um falcão adestrado. Havia também uma barata no seu ombro, empoleirada como um papagaio de pirata, e outras duas no joelho. Um São Francisco de Assis do inferno, era o que ele tinha se tornado.

Não consegui sufocar o segundo grito. Papai quase caiu da cadeira e as baratas se dispersaram. Saí correndo chorando e me tranquei no quarto. Ele bateu na minha porta mais tarde, quis se desculpar, disse que eu havia entendido errado, me perguntou o que eu tinha visto e eu disse para ele ir embora. Não queria saber de conversa.

Pensei comigo mesma: nós perdemos papai, e elas o ganharam. Ele está apaixonado e isso talvez seja irreversível. Contaria tudo a mamãe? Arrumaria minhas coisas e fugiria o mais rápido possível daquela casa antes que ele nos fizesse algum mal? Remoí essas perguntas por dias, e o que fiz: deixei os dias me levarem como o rio de baratas. Segui a vida e tentei esquecer o que papai fazia no porão da casa todas as noites antes de mamãe chegar da farmácia. Achei que ele não tinha mais jeito, que nunca mais se daria conta de suas ações, mas eu estava enganada. Seus dias de São Francisco de Assis tiveram fim, e então veio o martírio. Porque papai acordou. Acordou e começou a trucidar baratas, aos berros, em todos os cantos que as encontrava. Acordou e ligou para o Serviço de Dedetização, três dias depois do incidente. A mamãe nada disso importava mais, nem a mim, mas ainda tive forças para descobrir a razão de nosso infortúnio, ler tudo a respeito e jogar as informações na cara do velho.

Titylus serratus, escorpião amarelo, predador de insetos. Brilha no escuro, mas dormíamos. Nossa casa devia estar para ele como a casa de doces para João e Maria. Nunca saberemos quantas baratas ele detectou, quantas baratas ele devorou, quantas baratas ele perseguiu até entrar no quarto de Hugo, ferroar o seu braço e o tirar de nós.

| o lançamento do livro Estados Alucinatórios (Caos e Letras, 2019) será sábado que vem, 27 de julho, em Belo Horizonte: [link]. | página da Editora Caos e Letras: [link]. |

Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima, em Minas Gerais, no ano de 1986. É autor dos livros de contos Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016) e Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009). Trabalhou com edição e revisão de textos para revistas e jornais nas áreas de educação, comunicação e literatura. Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto “Sombras”. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.