ruindade, conto inédito de Sérgio Rodrigues

Diego é pereba. Íngua. Perna de pau. Inútil. Doença. Lepra. Comédia. Horrorosidade. Ameba. Bisonho.

Diogo joga o fino.

Quando chegam do campinho, idênticos, até as bicicletas iguais, o pai sempre sabe quem é quem. Como sabe?

— Tudo certo na pelada?

Diego é estrupício. Jaburu. Jaburu de capote. Jaburu de capote com muleta. Jacu baleado.

Diogo, eita moleque!

— Assim não dá! A gente passa a bola pra um achando que é o outro e se ferra.

Diego corre de ódio, pedala forte, voa ladeira abaixo e freia na poeira a um palmo do cruzamento cheio de caminhões zunindo. Diogo atrás, eufórico. Chegam sempre juntos.

— Tudo certo na pelada?

Enguiçado. Incapaz. Praga. Prego. Poste. Morto-vivo. Furúnculo. Tumor.

Hahaha, joga muito!

Com gilete, cuidado, culpa, sorrisinho, coração batendo forte: fio por fio, descasca o cabo de freio da bicicleta. Ficam uns poucos filamentos. O primeiro tranco e babau.

Degenerado. Imprestável. Retardado. Aborto. Aleijão. Ruindade.

No dia seguinte Diego chega em casa sozinho, chorando, e o pai se apavora. O choro não tem nada de encenado. A ideia era uma perna quebrada, não aquilo.

Todo errado. Cruz-credo. Deus me livre. Ruindade. Ruindade. Ruindade.

Sérgio Rodrigues é um escritor e jornalista mineiro que vive no Rio. Vencedor do prêmio de livro do ano do Portugal Telecom (atual Oceanos) com o romance O drible, em 2014, lançou este ano o volume de contos A visita de João Gilberto aos Novos Baianos. Entre os dez títulos que publicou, destacam-se ainda o romance Elza, a garota, o almanaque Viva a língua brasileira! e, como organizador, a coletânea Cartas brasileiras, todos editados pela Companhia das Letras. Sérgio tem livros lançados na França, na Espanha, em Portugal e nos EUA. É colunista semanal da Folha de S.Paulo e roteirista do programa de TV Conversa com Bial.

o resto é mar, Anna Monteiro

Luísa chegou lá em casa num dia de temporal, com mala, sacola e um guarda-chuva pingando. Na hora em que a campainha soou, meu pai tocava piano. Ele sempre ensaiava às tardes, porque trabalhava em bares durante a madrugada. Bossa nova, dedos ágeis se alternando nas teclas brancas e pretas. A baía da Guanabara na janela.

Minha mãe tinha a mania de não levar a chave de casa e colava o dedo na campainha, e eu corri para abrir a porta, porque meu pai não largava o piano de jeito nenhum.

A menina diante de mim, de mãos dadas com a minha mãe, era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Era minha prima e por causa de uma briga antiga entre a minha mãe e o pai dela, a gente nunca se conheceu. Tinha uns onze anos quando chegou lá em casa, era pequena, os braços fininhos, as pernas compridas e os cabelos em cachos. A chuva colou a camiseta em seu corpo e, assim que abri a porta, vi aqueles peitinhos que nasciam, os bicos duros se mostrando para mim. Foi só depois que percebi seus olhos um pouco inchados e um sorriso tímido. Eu a abracei apertado, depois peguei sua mão e disse, vem, vem conhecer a casa. Eu era um pouco maior que ela.

A mãe de Luísa tinha morrido. O pai dela, irmão da minha mãe, começou a beber violentamente, minha mãe dizia, ele cai bêbado por aí, a menina fica solta, não tem ninguém no mundo. E por isso Luísa foi morar conosco.

Eu a ajudava nas lições de casa, ensinava a jogar vôlei, levava para passeios de bicicleta.

De manhã cedo, na mesa do café, a vontade de abraçar Luísa vinha embalada pelo cheiro da pasta de dente, da colônia que ela usava, misturado ao leite e à manteiga passada no pão. Eu disfarçava, dava bom dia e comia em silêncio. Minha mãe lia o jornal, meu pai dormia, tinha chegado quase com o dia raiando. Luísa catava as migalhas da bisnaga com os dedos, os levava à boca e eu queria ser aqueles míseros pedacinhos de pão.

No ônibus para a escola, sacolejando pela rua cheia de buracos, a cabeça de Luísa balançava e caía nos meus ombros. Eu poderia estender meus braços e aconchegá-la, mergulhar meu nariz naqueles cachos, mas ficava imóvel, esperando o ponto para descermos.

Eu a espiava pela janela da minha sala de aula. A distração enquanto a professora enfileirava as orações, ou as equações, tanto faz. Os recreios eram separados, ela no sexto ano, eu no oitavo. Um tchau de longe quando ela me percebia através do basculante, o sorriso largo. A vontade danada de passar a língua naquelas pálpebras inchadas.

O começo da noite, a hora do jantar, as nossas séries preferidas. Eu num canto do sofá, Luísa no outro, os pés dela no meu colo, os meus no dela. Eu comprimia aqueles dedinhos compridos, a palma, ai, isso é tão bom, faz mais, e eu fazia, e ela sempre pedia mais, e eu fazia. E a gente poderia ficar assim a vida toda, seria bom se um meteoro atingisse a Terra naquele tempo, a onda que se formaria e que engoliria as montanhas, o parque, árvores, pedras, edifícios, carros, engoliria a gente e pronto, o pó, a poeira, o nada.

Luísa dormia no quarto ao lado do meu, o que deixava minha imaginação sair pela porta fechada, se esgueirar pelo corredor, atravessar a porta dela e então eu a via encolhida na cama. A camisola de alça fina, os cabelos espalhados no travesseiro. E de longe, da minha cama, me enfiava ao seu lado debaixo do lençol, alisava suas costas com ossinhos salientes, os quadris, os peitos, maiores à medida que o tempo passava e que agora cabiam perfeitamente nas minhas mãos. Roçava seu pescoço e sua nuca, e descia até as pernas e ia por esse caminho afora. No dia seguinte olhava Luísa na mesa do café, o leite quente, a manteiga no pão, os olhos inchados de sono, minha mãe lendo o jornal. E aqueles desejos todos me assaltavam outra vez. Luísa com um botão aberto. As migalhas. O silêncio.

E a gente foi crescendo, o corpo de Luísa foi mudando, ganhando volume, curvas, coxas. As coisas, essas mudavam pouco. Fazia sol, uns dias chovia. Eu gostava de ver a chuva bater na vidraça e daquele barulhinho de pingos caindo em cima de aparelhos de ar condicionado. A baía da Guanabara às vezes cinza, às vezes azul, às vezes até dourada.

Eu no segundo ano do ensino médio, Luísa, no oitavo. Os horários não coincidiam mais. Solidão ganhando as ruas dentro do ônibus que ainda sacolejava.

Então, num entardecer, naquela época em que as minhas fantasias andavam se esgueirando com mais frequência pelo corredor até o quarto de Luísa, ela me chamou. Eu fui. A veneziana entreaberta. Em algum lugar lá fora tinha uma lua.

Luísa tinha bebido um pouco, senti o hálito. Tudo bem, eu também bebia. E fumava às vezes. Sentei aos pés da cama. O piano do meu pai ao fundo. Fundamental é mesmo o amor. Os dedos ágeis. As teclas brancas e pretas.

Ela segurou meu pé e apertou, puxou os dedos. Aquela sensação boa tão conhecida. Comprimi os pés dela também com as duas mãos. Ela me olhou como se me atravessasse a pele, os músculos, espiasse os meus órgãos, esmagasse meu estômago. Aquelas duas bolas brilhando, as pálpebras de sempre, com a dobrinha. As mãos dela foram avançando pelas minhas pernas num roteiro que eu imaginei tantas vezes e que me fez fechar os olhos e perguntar você sempre soube que eu te amava, né?

Ela disse humhum, soube, desde o dia em que você abriu a porta para mim.

As mãos de Luísa seguiam sem obstáculos, sem meteoros. Leves, traziam arrepios que eu não imaginava que existissem. Eu cheguei perto dela, nariz com nariz, todas as sardas do mundo, a quentura da respiração. Ela abriu a boca, lambeu meus lábios.

Luísa ficou em cima de mim, desabotoou minha camisa.

Abriu meu sutiã, sugou meu peito, que era pequeno como o dela. Colocou a mão entre as minhas pernas, afastou minha calcinha e sentiu que eu estava toda molhada.

O piano do meu pai. O resto é mar.

Anna Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. Cursou jornalismo na Escola de Comunicação da URFJ e trabalha com comunicação e saúde, no Terceiro Setor. É autora de Granulações, da Editora Reformatório, publicado em 2018, seu romance de estreia, que conta a história de Pedro e Nina, um casal em crise depois de viver uma grande paixão. A narrativa alterna as vozes de seus protagonistas e a intimidade revela, pela visão de cada um, traços do outro capazes de complicar uma relação. E aquele amor simples, certeiro e apaixonado, torna-se tão complexo que aos poucos caminha rumo a uma impossibilidade. Acontece o que pode vir num relacionamento: a falta de comunicação que leva ao afastamento e à falta de intimidade. Em 2015, participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizado por Adriana Lisboa e publicado em e-book pela Editora Mombak. Uma paixão antiga são os cachorros. E aí entra na história o Bart, o daschund da autora que viveu quase 14 anos, que a inspirou a criar, em 2009, Bartiannas, o blog do Bart e da Anna, onde publica alguns textos.

dois contos breves de Flávia Helena

desaguar

Notou, primeiro, pelo seu tamanho em relação à vassoura.

Uma semana trabalhando naquela casa e não conseguia mais alcançar o alto do cabo.

Depois foram as roupas.

Tropeçava nas barras das calças, de tão compridas. Não conseguia usar os vestidos, porque as cavas do pescoço escorregavam pelos ombros.

Estava encolhendo. Rápido.

Viu que precisava ir embora, quando, num domingo, depois de fazer cocô, quase caiu no vaso e misturou-se às fezes que acabara de eliminar.

Não queria parecer ingrata. Sabia o quanto os patrões a haviam ajudado.

Se não fosse o seu Rogério, ela nem teria onde ficar quando veio daquele fim de mundo. E o quarto até que era bom. Tinha televisão, chuveiro quente. Eles também não pagavam todos os direitos, mas o salário não era dos piores.

Decidiu, então. Partiria sem se despedir.

Foi numa quarta-feira.

Acordou cedo. Preparou o café. Arrumou os quartos. Lavou a roupa. Tratou dos bichos. Varreu a cozinha. Ajeitou o closet da dona Patrícia. Adiantou o almoço. E notou que estava diminuindo cada vez mais depressa.

Não tinha o costume de deixar o serviço assim, pela metade. Só que, naquele dia, não teve escolha.

Se continuasse trabalhando ali, iria desaparecer.

Pequeninha que estava, escalou as portas do gabinete da pia. Mergulhou na cuba cheia de água e louça e entrou no ralo.

Saiu já na rua. Pelo bueiro.

* * *

palavras que entram pela boca

Passava as aulas dando tapas irritados no ar.

Não eram insetos, ao contrário do que se pode pensar. O que o garoto queria era espantar as palavras que não conseguia compreender.

No começo, a fim de se resguardar, tentou fugir para um canto da sala aonde elas não chegassem. Mas, advertido pelos professores, teve logo que se acomodar em uma carteira mais à frente.

Mesmo assim, passava o tempo todo distraído, como se não entendesse nada do que acontecia ali.

— Não é má vontade! É dificuldade mesmo. Quando nós fomos embora pro Japão, ele era pequeno. Mal falava. Foi alfabetizado lá, inclusive.

Apesar da justificativa da mãe, tentando explicar o comportamento do filho na escola, a coordenadora insistiu:

— Mas é necessário que o aluno interaja com a classe. Ele precisa se esforçar. Não tem como fugir pra sempre.

A sorte é que havia uma colega disposta a ampará-lo: Mariana.

Por uma semana, sentou-se ao lado do menino tentando ajudá-lo a fazer os exercícios, copiar as lições e, claro, aprender Português.

Com a menina, ele até se animou. Só que o ambiente não colaborava. Gente demais. Muita conversa.

Por isso, ela achou melhor tentar de outro jeito. Na praça em frente ao colégio.

Sozinhos, colocou, com a língua, algumas palavras na boca do garoto.

Os pelos do corpo todo, arrepiados, mostravam que ele começava a entender o novo idioma.

Três vocábulos foram suficientes.

| contos do livro Sem açúcar (Editora Penalux, 2016), contemplado com o ProAC 2015. |

Flávia Helena é professora de Literatura. É bacharel em Direito pela PUC-SP, licenciada em Letras pela USP e mestre em Teoria Literária pela USP. É autora da peça TRAMA, contemplada com o ProAC 2013, da obra de crítica literária O fabricante de textos (Editora Penalux, 2015), sobre o romance Budapeste de Chico Buarque e da coletânea de contos Sem açúcar (Editora Penalux, 2016). Tem contos e poemas publicados em diversas antologias. Faz parte do Coletivo Literário Martelinho de Ouro.

ato falho, de Virna Teixeira

Subiu as escadas e avançou no carpete com losangos de arlequim no andar de cima do pub, havia passagens com portas escuras e escadas em caracol que conduziam a outros aposentos. Ele/ela em modo gender fluid ia abrindo as portas. Chegaram a um quarto de paredes turquesa, com ilustrações de circo em tons de laranja e vermelho, e luminárias de microfones antigos. Ela se fechou no banheiro com piso quadriculado, branco e preto, aplicou a maquiagem e vestiu a roupa da performance. Uma espécie de acrobata fênix, com uma roupa colante e asas, tudo em negro.

Quando abriu a porta, ele/ela agora era ela. Ela(e) estava pronta para que ela a conduzisse, e portava solene um vestido preto e branco como o piso, sapatos pretos e um petticoat branco. Uma espécie de colombina. Em seguida tomaram êxtase, como num ritual, e encheram os copos de vinho.

A noite passou como uma alucinação retrógrada, onde abraçavam-se simbióticas com a epiderme quente. Ela(e) falava de um vestido queria usar quando criança, o vestido de flor da sua irmã. Foi quando começou a se vestir escondida. Ela(e) estava tão misteriosa aquela noite, tão feminina, e seus traumas subiam à superfície, como balões, enquanto a outra lhe carregava pelas costas, com suas asas. Ela(e) por si parecia levantar voo, e de repente, aterrissou no meio do quarto, um pouco eufórica, rodopiando o seu petticoat.

A outra se conteve, observando. Parecia que haviam saltado de um picadeiro, da altura de uma imagem cinemática. Como num filme de Wim Wenders. No meio da noite adormeceram exaustas depois de tantas cenas extremas, facilitadas pelo êxtase do encontro.

Na manhã seguinte ela tinha se tornado ele. Ele era tímido e metódico, rápido para despertar. Preparou dois cafés na máquina de Nespresso do quarto, e vestiu suas roupas bem passadas de drab. Ela colocou um vestido azul, e calçou as sandálias verdes. Partiram apressados, ainda tontos do delírio. Não havia ninguém quando desceram as escadas, todo o burburinho de pub tinha se evaporado. Na rua eram outros nomes, outras personas, embora ela fosse menos fendida. Ele saiu apressado para pegar o carro, e para evitar qualquer deslize emotivo. Despediram-se desajeitados.

Ela caminhou incerta, mas feliz até a estação de metrô, ou seria ainda o efeito do êxtase? Parou para comer um croissant. Então se deu conta de que se sentia frio. Procurou a jaqueta de couro na mochila. Tinha deixado a jaqueta no quarto. Era de couro legítimo. Evitavam contato telefônico como combinado, mas era uma emergência. Procurou o número guardado numa anotação de celular. Mandou uma mensagem para ele, que não respondeu. Aflita, caminhou de volta ao pub-hotel. As portas estavam trancadas. Dobrou a esquina e tentou a outra entrada. Viu um homem de uns trinta e poucos anos, com roupas brancas e um chapéu de chef, sentado em um degrau, fumando. Explicou a situação. Era cedo, o pub estava fechado, a recepção também. “Não sabe o código da porta?” Ele/ela não tinha lhe dito, mas o jovem chef passou os dígitos. Ia avisar a alguém para encontrá-la na recepção.

Ela digitou o código, deu de frente a uma recepção que parecia de hotel dos anos 50, com uma campainha vintage de cobre. Tocou, ding dong, ninguém respondeu. Subiu as escadas com carpete de arlequim na esperança de alcançar a jaqueta, mas as portas para o andar de cima estavam trancadas. Ela também não lembrava o número do quarto, pois era dada a distrações. Era estranha a atmosfera circense e ainda onírica da hospedaria à luz do dia, pois as janelas estavam parcialmente fechadas.

Saiu divagando no andar de baixo, procurando alguém, e caiu num átrio de madeira escura, um anfiteatro com fileiras e camarotes. Não sabia que neste pub havia um palco, para shows burlescos. De repente se viu trancada num teatro vazio. Como se os atores tivessem partido e a sua jaqueta de couro estivesse inalcançável, trancada no camarim, preta e opaca entre paetês e plumas. Seria uma espécie de pesadelo matinal em wonderland? O que fazia ali, afinal? Teria caído num buraco, como Alice? Como cruzar a fronteira borrada entre ilusão e realidade? Sentiu-se de repente frágil, como uma criança desamparada num labirinto. Pensou em chorar, mas conteve as lágrimas. Disse para si mesma que dominantes não choram. Ela precisava superar seus traumas.

Cheia de coragem, discou o número dele, que atendeu no primeiro toque. Sua voz era diferente, masculina mas cordial. Na prontidão de atender o próximo cliente, embora com um tom reticente. Ele sabia que era ela. Concisa, ela perguntou o número do quarto, que ele emitiu, como um código. Ela desligou. Uma moça austera de tranças apareceu na recepção. Ela explicou o problema. Eu estava aqui com o meu “namorado”. A moça ficou desconfiada. Perguntou se ele voltaria. Ela disse que não. “Como você tem tanta certeza? A chave não está aqui”. Subiram as escadas, e encontraram o quarto totalmente vazio. A jaqueta de couro com tachas estava sobre uma cadeira preta, tão aderida que se confundia com o cenário.

Ela voltou pelo mesmo trajeto até a estação, comeu o croissant, comprou uma garrafinha de suco de laranja gelado. Entrou no trem de óculos escuros. Estava ainda dispersa entre tantas sensações, saltando ainda do picadeiro imaginário, entre a decepção e o encantamento. Ele contemplava uma abóbada de vidro com estrutura poliédrica, aéreo, no centro da cidade. O que fazia ali, afinal? Criou coragem e respondeu a mensagem dela, “achou a jaqueta?”. Da janela do trem ela via o verde, a verdura, o azul do céu, sorria, tomava pequenos goles do suco. Sentiu amor por ela, por ele, por eles, pelo vestido de flor. Respondeu “ainda saboreando a noite”. Mais tarde ele deixou a cidade dirigindo no sentido oposto, e foi divagando na paisagem, e pensando nela.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza. É poeta, tradutora, tem vários livros de poesia e tradução publicados, e prepara seu primeiro livro de contos. Graduou-se em medicina, e vive em Londres, onde trabalha como psiquiatra. Virna dirige uma editora independente na Inglaterra, Carnaval Press, e é editora da revista online Theodora.

dois contos breves de Alessandra Barcelar

a sacola

A morte bateu na porta e a pequena Giovanna foi quem abriu.

“Onde está tua mãe?”, perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.

A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais.

“Siga-me”, disse a pequena Giovanna.

Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala.

“Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.

Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando no exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha.

“Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes.

“Mamãe, lê um livro pra mim?”

“Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.”

“Eu não me preocuparia com isso. Eu não acho que ele se levanta”, disse a garotinha antes de pegar um livro.

* * *

depois do fim

Elas se beijaram, e a lua não pode deixar de embrandecer-se um pouco.

Valquiria tirou a blusa com lentidão cerimonial, como se um movimento abrupto pudesse destruir o planeta. Um par de lábios pousou em seus seios, muito perto da alma, com uma delicadeza sobre-humana.

Os dedos de Valquiria viajaram para seu lugar favorito: as costas de Helena. Os lábios de ambas roçaram novamente, como o amor e a morte costumam fazer. Uma chuva tempestuosa e agradável desencadeou-se entre suas pernas.

Um homem olhou tudo de fora, com a testa beijando a janela. Não havia luxúria em seus olhos, nenhum desejo, havia lágrimas. Duas mulheres gozando dentro da cabana e uma delas era a esposa dele.

Ele subiu no cavalo, que relinchou quando sentiu o peso do cavaleiro e o de sua tristeza. Avançou ao longo da planície na direção da lua e um segundo cavalo saiu atrás dele. Este foi impulsionado pela morte, que o seguiu atraído pelo perfume de um coração partido.

Seu orgulho como homem era uma arma que não poderia ser usada neste caso. Sua pistola deveria ser usada em uma guerra entre homens, a revolução, à qual ele estava se dirigindo. Aquele par de mulheres era intocáveis: ele não podia matar sua esposa, muito menos… Sua própria irmã.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou contos em várias revistas literárias do Brasil, de Portugal e da Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos), Colaborou na coletânea Conte outra vez, um tributo a 30 anos da morte de Raul Seixas, que obteve grande repercussão na mídia. Atualmente organiza uma coletânea de contos sobre realismo mágico/fantástico com previsão de lançamento para 2020.

o feitiço, de Julie Dorrico

Conto do livro Eu sou macuxi e outras histórias, que a Editora Caos & Letras lançará dia 14 de dezembro [link].

A bisa sentou confortavelmente na sua cadeira de palha. A Ada já estava passando um chá de capim santo, ela já sabia que na boca da noite minha bisa se preparava para contar mais uma de suas histórias. Ada já se ajeitava também pra traduzir pra mim a história no mesmo tom da vó, como sempre fazia.

A Ada antes de chegar junto e se sentar perto de nós, mexeu na lenha do fogão de barro. Enquanto vovó contava sua história que depois seria nossa, o som dos toquinhos da madeira estalavam como se acompanhassem o enredo assustador que eu iria ouvir.

O fogo, atento, escutava a memória da bisa. As gentes-fumaça envolviam todos os aposentos da casa que, apesar de ter divisórias nos quartos, parecia uma grande e tradicional maloca. As gentes-fumaça criaram um cenário de suspense à história contada pela minha velha matriarca.

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A história a seguir aconteceu com a nossa família.

Um dia um homem tentou cortejar a mulher mais bonita da comunidade. Ela não quis. Ela amava seu marido. Não queria namorar na roça com outro homem, não.

O homem ficou tão ressentido que recorreu à prática da feitiçaria. Numa noite de lua cheia, esse macuxês foi na floresta e procurou lugares onde a gente-onça, onde a gente-cobra, onde a gente-anta haviam dormido.

Ao encontrar vestígios dos repousos, o macuxês deitou-se em cada um dos lugares para vestir a pele dessas gentes não humanas, que no passado eram conhecidos como animais ancestrais da primeira humanidade.

Depois de vestido tomou a forma da onça, da cobra e da anta, e desejou que a mulher adoecesse. Ofertou a stekaton dela, a sua alma, aos omá:kon, os espíritos-seres do mundo intermediário, que são caçadores das almas de homens e mulheres macuxi.

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Contam os antigos que eles aparecem sob a forma de animais de caça ou na forma de humanos com unhas e cabelos muito longos e falas inarticuladas. Eles ensinam aos macuxês lições de morte. Só quem pode resgatar as stekaton deles são os xamãs com ações terapêuticas bem ritualizadas: os piatzán são iniciados desde cedo nos ritos de cura.

Ao terminar o feitiço, o macuxês vestiu novamente sua pele de homem e desapareceu no bananal. Desapareceu na floresta e nunca mais ninguém ouviu falar dele.

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A mãe era ainda criança quando a vó ficou doente. Aos poucos ela foi ficando fraca, e a mãe não sabia o que era, mas sabia que a vó estava morrendo. Os médicos já tinham desistido dela, eles só sabiam curar o corpo. Não sabiam que a doença da vó era doença de espírito.

A mãe viu todo o feitiço agonizar os últimos dias da vó, que, com uma dor profunda, resistiu à morte, por alguns dias. O feitiço lançado na vó era aquele que ia quebrando seus ossos aos pouquinhos, quebrando o corpo todo, tirando toda força de querer viver nesse mundo.

As forças da vó se esvaíram e ela rapidamente ficou presa à cama, último reduto de sua vida. A essa altura ninguém podia tocar naquela mulher, jovem e enferma, os tios e a mãe já não podiam pedir damurida, nem pedir ajuda com a roça, nem com as lições da vida.A vó não faria mais panela de barro.

Não sabemos onde está a alma da vó, se ficou presa com os omá:kon, ou se descansa em paz. Sem xamãs corremos o risco de não sabermos para onde vão nossos ancestrais.

A mãe se despediu da vó com um beijo na cabeça, a cabeça era o único lugar que o feitiço não tinha chegado, os cabelos macuxi têm a força de Makunaima.

Quando a bisavó terminou de contar a história do feitiço, eu vi a saudade subir na sua garganta e marejar os seus olhos idosos. Ela olhou pro lado, talvez procurando a alma da vó, talvez só sentindo saudade da filha que tinha partido há muito tempo.

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A mãe me contou uma vez só, quando eu era criança, da despedida dela e da vó, de seu último beijo.

Mais tarde eu descobri que ali na região entre Roraima e Guiana, ali no que hoje é conhecido como fronteira entre Bonfim e Lethen, os feitiços são praticados com frequência, por isso é preciso sempre cantar e dançar pra mandar pra longe os espíritos ruins.

Já tarde da noite, as gentes-fumaça começaram a se retirar, assim como nós. Naquela noite eu vi a bisa sentir saudade da filha, lembrei da saudade longa que minha mãe sentia da sua, e eu senti saudade da minha, que estava nessa época nos afluentes do rio Madeira, bem longe de nós, como parece querer a vida.

O fogo aos poucos se despediu, deixando somente as cinzas no fogão de barro. A pouca luz que ele projetava se apagou, escurecendo de vez nossa maloca. Nós três nos recolhemos, e eu fui dormir pensando em todos os tipos de gentes não humanas, no que se transformavam durante a noite, quem eram e como se chamavam na língua de Makunaima.

Hoje, sinto saudades da bisa, que fez a passagem para o mundo dos ancestrais. De lá ela me espia, esperando o tempo certo de me encontrar em sonho e contar mais uma de suas histórias, insistindo pelo dia que também serei avó. Eu sempre acordo nessa parte do sonho. Toda colheita tem seu tempo.

Verdes verdes verdes

As pimentas dançam nos meus sonhos

Verdes vermelhas amarelas

Julie Dorrico nasceu nas terras da cachoeira pequena, mais conhecida como Guajará-Mirim. Mas foi às margens do Rio Madeira que cresceu ouvindo a mãe contar as memórias da família, dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas. Um dia atravessaram esse rio gigante e foram conhecer os parentes em Boa Vista, em Bonfim (RR) e em Lethen (Guiana). Essa travessia, feita ainda na infância, foi, por meio da sua bisavó, o seu encontro com Makunaima e com o povo macuxi. Escreveu esse livro, objeto usado por não indígenas para contar por muitos séculos nossas histórias, para ocupar esse lugar de autoria, tão caro aos sujeitos indígenas. Também é doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Saiba mais sobre a obra no [link].