processos, de José Ronaldo Siqueira

Olhou as feridas na perna. Mosquito? Mas aqui não tem mosquito? Eram várias. No início coçavam como o quê. E ele passava um bom tempo nessa fricção besta. Dava uma sensação de alívio rapidamente sumidia, pois, logo depois, vinha uma ardência de chamusco de solda. Em seguida, transformavam-se em umas bolinhas d’água. Coçavam o dobro. E ele, podendo ter aprendido algo quando da primeira vez, estourava a todas para que, em sequência, tornar a comichão aparecer, toda de novo. Por fim, restavam as minúsculas crateras rubras, como se Marte, infectado, expusesse suas entranhas escarlates em sarcomas pulsantes e vívidos.

“As pintinhas”, como sua filha chamou, quando nasceu o irmãozinho todo cheio de sardas. Ele moreno. A mãe também. Mas mosquito? Aqui? E coçava mais a perna. Saiu de casa. Haveria de comprar inseticida ou um daqueles aparelhinhos de se ligar na tomada. Lembrou-se dos mosquiteiros de sua época: uma longa tenta de filó que se prendia ao teto e ia até encostar no chão. Os mosquitos não passavam pelos buraquinhos do tecido. Isso em tese. Acordava sempre todo encalombado e com um ou dez intrusos dentro da suposta barreira protetora. Detestava-os. Parecia que havia sido engolido por um fantasma.

Ó, te aconselho, leve o aparelho, é bem menos tóxico que o aerossol. Ideal, ideal mesmo é mandar telar a janela. Não tinha como fazê-lo, o apartamento era alugado, seria a maior trabalheira conversar com o senhorio que já o havia deixado se instalar ali, por um preço abaixo do mercado, por ser amigo de infância de seu pai. Além do mais, não poderia arcar com despesa mais nenhuma por conta da mobília nova. Finalmente montara o quartinho dela. Percebeu que ela não queria mais dormir na mesma cama que ele, apesar de ser uma dessas king size, — Quase uma piscina esse trambolho! — e não se tocarem de jeito nenhum enquanto dormiam. Mas ele compreendeu: estava crescendo, amadurecendo, estava virando mocinha.

Ainda não sabia se era mosquito mesmo, mas para que a pobrezinha pudesse ter uma noite descente de sono, resolveu se precaver. Dormir com mosquito fungando nos ouvidos é flórida! Assinara a Netflix só para que ela pudesse fazer algo além de jogar videogame e assistir a animes no celular. Para que fizessem algo juntos. Só assistia televisão com ela. Tomara certa aversão ao aparelho, depois da mudança. A solidão ficava mais palpável quando ficávamos aprisionados do lado de cá da tela.

Na parede, um desenho. Seis, sete? Mandara emoldurá-lo de rosa e o pregara na sala (na verdade, fixara no quarto que ele fizera de escritório, com os livros e o computador, mas teve que recambiá-lo para a sala, pois o cômodo, agora, seria dela). Um sorriso, meio aparição, meio tempo perdido, borrou-lhe o rosto. Lembrou-se do dia. Sentiu a presença de um membro fantasma há muito amputado. Ardeu-lhe a memória pacífica que ficava repousando, decantada no fundo do lago das emoções escondidas. Pigarreou sem muita convicção para si mesmo.

Passou a mão pela perna. Os pequenos calombos lacrimejavam um líquido inodor e viscoso. Eram inúmeros. Mas como se nunca os vi…Será mesmo? Refez a lista do que comprara especialmente para agradá-la: milho para pipoca, sorvete de chocolate, coca-cola, cookies, doritos, sucrilhos, um pote descomunal de nutela — Esse negócio é de ouro? — e mais um monte de bobagens que adolescente adora. Retirou a pipoqueira do armário, para acelerar o processo e ficar mais tempo com ela do que na cozinha, retirou o leite e a manteiga do congelador, para que descongelassem a tempo, em se sobrando algo, retornaria com eles ao mesmo lugar, uma vez que não bebia leite nem usava manteiga, preferindo essa forma de manuseio a ter de jogar tudo fora toda vez que ela fosse embora.

Olhou para o relógio. O combinado era sexta às sete da noite ela já estar lá. Já ia sozinha até a sua casa. Treze anos. Puxa, parece que eu levava essa menina pelas mãos e que, numa virada de pescoço, já era essa moçona! Rapaz, estou velho, viu! Já está atrasada, essa menina!

A batata da perna coçava. Um calombo bem no centro do cotovelo coçava. A superfície repleta de veias do seu pé coçava. Coçou a todos os lugares que lhe clamavam por unhas e esfregões. Mas será?

Veio o assalto. O coração acelerou, a cabeça, instintivamente deu uma guinada simultaneamente ao tapa que se infligira na orelha. Sempre levava um susto quando os insetos lhe zumbiam dentro do ouvido. Desgraça! Conseguiu enxergá-lo. Correu atrás dele dando tapas, mão de encontro à mão, na tentativa de abater a aeronave inimiga. Pode me ferroar, seu… Minha filha, não! Saltou por cima da cama, saiu do quarto, no banheiro, viu quando pousou no espelho do armarinho. Como já houvera arrebentado a um desses, quando criança, tanto a surra quanto o castigo de três meses sem televisão o ensinara suficientemente a não bater com força nesse tipo de superfície. Aproximou a mão espalmada, mas o calor alertou o inseto que levantou voo e rumou para o quarto que agora era o dela. A força, a vibração e o prego mal colocado foram essenciais para o tombamento da memória: o quadro espatifara-se no chão. Não! Mirava os cacos, como se fossem lágrimas sólidas e cristalinas de sua própria carne, que se acumulavam ali, nem percebendo que o mosquito lhe escapara por entre os dedos.

Tremia, receava ter alguma relação o incidente com a sensação de estar começando a perdê-la que se lhe adentrava a alma, a memória. Receou que ela já houvesse começado esse processo de. Libertação? Seria isso, para ela, liberdade?

O celular tocou. Não sabia se o atendia ou se ia pegar a vassoura e a pá para limpar os cacos do extinto quadro da memória consumida, resolveu atender. Oi, coisinha linda do pai! Duas horas, Gigi! Duas horas de atraso, filhotinha. Hã, fala, o que foi? Ficar chateado? Não sei do que se trata, Gilbertine, amigas, é? Uma pizza no restaurante? Vir aqui semana que vem? Tá bom, bonitinha, pode ir, o pai não fica triste não, eu entendo sim.

Desligou. As vistas deram um salto livre e se esborracharam no chão. Suspirou. Uma quentura mole se apossou de seus olhos. Parecia que os cacos, agora, estavam ali. Pegou a vassoura e a pá, limpou o quarto da menina. Guardou o que sobrou do quadro. Tomara que tenha jeito de arrumar. Voltou com a pipoqueira para o armário, recolocou o leite e a manteiga no congelador.

Ele entendia. Nessa época, nessa idade, as amizades são tudo. Foi assim com ele, quando adolescente. Pobrezinha, quase não tem amigas. Deixe que ela se divirta. Aqui em casa é muito chato mesmo. Convencia-se. Como quem o tenta apenas soprando bolinhas de sabão.

Apagou as luzes do apartamento. Fizera sua higiene. A escuridão era total. Ia começar a dormir quando ouviu o zumbido. Levantou-se, pegou o aparelho que comprara mais cedo no supermercado e o pôs na tomada, deitando-se logo em seguida.

Pensou. Ergueu-se rapidamente e, o mais veloz que pode, retirou o aparelho dali, torcendo para que não houvesse tido tempo suficiente para surtir efeito. Quedou-se quieto por um tempo. Olhos arregalados, encarando o tudo em sua vida que representava aquele breu, quando, quase uma hora depois, escutou. Zzzzzzzzzzzzzzzzzz. Aquilo lhe trouxe alívio. Precisava daquela companhia naquela noite. Precisava muito, naquela noite solitária. Naquela noite solitária e longa. Soube, ali, naquele momento, que o processo já se iniciara.

José Ronaldo Siqueira é carioca, residindo atualmente em Mutum-MG. Professor secundarista de Língua Portuguesa e Literatura. Publicou os livros O prisioneiro (contos, Editora Cakibooks, 2012), Historinha é o escambau! (microcontos, Editora Celacanto, 2016) e o romance Manual não injuntivo de como criar um monstro (Editora Patuá, 2018) com o qual obteve o terceiro lugar no Concurso da Biblioteca Nacional em 2019, além de ter textos em mais de quarenta coletâneas pelo país.

toneladas na cabeça, de Alex Xavier

A queda levou três segundos e dezesseis décimos e se estendeu por três anos e cinco meses. Difícil precisar. O colapso exigiu uma nova percepção do tempo. A correria daria lugar à espera. A paciência substituiria a ansiedade. Mas, antes, foi necessário reiniciar o sistema com um suicídio nada metafórico. Então, olhei lá para baixo e pulei sem hesitar.

Nada colapsa da noite para o dia. Trata-se de um processo de deterioração tão lento que ninguém repara até as estruturas desabarem de vez. Mesmo quando uma construtora derruba um casarão e faz brotar ali um edifício como se plantasse um feijão mágico, há o abandono, a especulação do terreno, a pressão sobre moradores, as brechas no zoneamento e uma campanha para depreciar o imóvel sem desvalorizar a vizinhança.

Com um segundo, minha queda ainda parecia um voo. Eu me via com asas, confiante, inquebrável. Não era a primeira vez que me arriscava assim. Em 39 anos, escapei ileso de aventuras, acidentes, cirurgias, perdas, crises, paixões e desilusões. E cada ruptura me levava a um momento melhor. Então, por que me preocupar? No salto, estava bem confortável. Dinheiro no banco, saúde em dia, muita história para contar, um relacionamento seguro, início em um emprego estável, nenhum grande desafio à vista. Subi no parapeito daquela ponte em busca do caos.

O primeiro sinal do meu declínio foi um tropicão quase imperceptível. Raspei a ponta do pé em um calçamento liso e plano. Achei graça. Mais tarde, um amigo que caminhava ao meu lado na rua comentou que eu tinha “um passo maior do que o outro”. Ri de novo. Um dia, voltando do mercado, perdi o equilíbrio e bati a sacola com os ovos contra um muro. Coloquei na minha lista de patetadas. Errei a porta e raspei o ombro no batente. Sentei-me na cama só para calçar uma meia ou vestir as calças. Puxei a perna esquerda com a mão ao entrar em um carro. Demorou um ano e meio até aceitar que desaprendi a andar.

Mudanças não são repentinas. O Império Romano demorou, pelo menos, dois séculos para sucumbir, resistindo às invasões bárbaras, adaptando sua economia ao fim do sistema escravista e sucumbindo a disputas internas pelo poder. O colonialismo europeu, a monarquia francesa, o czarismo russo, todos os governos, ditatoriais ou democráticos, acumularam anos de declínio até sofrer revoluções ou golpes.

Na metade da queda, pairou a dúvida, o receio de não estar preparado para aquilo. Tudo que fiz foi largar o corpo lá do alto e deixar a gravidade agir. Seria melhor abrir os braços, criando resistência ao ar? Talvez melhorar o ângulo de mergulho. Mas nunca fui paraquedista ou atleta de saltos ornamentais. Gastei todas as vidas a que tinha direito contando com a sorte e não por alguma destreza pessoal. Só comecei a cuidar da saúde depois que meu pai faleceu. De quê? De tudo, segundo o médico. Tive medo de também morrer de tudo. Sou especialista em perder em meses o que economizei por anos. Vesti uma armadura antirromântica para me proteger do impacto de uma rejeição. E deixei tantos projetos pessoais pelo caminho que poderia segui-los de volta até o ventre da minha mãe.

Enquanto eu adaptava meu caminhar entre o compasso do Carlitos e a marcha do Robocop, notei que meu braço já não me pertencia. Ele tremeu quando levava o garfo à boca e eu fiz piada com testes psicotécnicos. Apresentou leves espasmos ao carregar um copinho entre a máquina de café e a mesa no escritório e eu fingi estar em uma gincana, equilibrando um ovo em uma colher. O médio e o indicador travaram na tecla Shift e eu brinquei que assim meus textos chamariam a atenção, escritos em capitulares. Abrir e fechar os dedos passou a ser um exercício de ioga. O teclado do piano perdeu o arpejo. A mão se escondeu no bolso do agasalho para não parecer de boneco de posto de gasolina. Após dois anos, eu aceitei que desaprendi a segurar objetos.

Mudanças são constantes, não têm fim. Formada há 4,6 bilhões de anos, a Terra nunca deixou de se transformar. De poeira espacial, passou a uma bola de fogo. Mais uns milênios e já era uma nuvem de gases metano e amônia, vaporizando repetidamente até resfriar sua superfície e inundar tudo. Cerca de 800 milhões de anos se passaram até o planeta se solidificar e surgirem bactérias unicelulares por aqui. Evoluções, extinções, glaciações, colisões, uma torta mil-folhas de eras geológicas até a geografia atual dos continentes. E como a crosta terrestre não para de se movimentar, em alguns milênios a configuração será outra, sem que nenhum de nós testemunhe a mudança. Só sei que, depois do meu salto, o eixo do mundo entortou e ele ficou instável e bem mais lento.

A um segundo da água, a corda elástica que segurava meus pés ainda não estava esticada. Perdi qualquer esperança de me salvar. Estava certo do fim, até o desejava. Chega logo! Mas demorou demais. Apresentei minha rendição. Larguei histórias sem fim, fotos jamais reveladas, desenhos apagados. Ao me deparar com encruzilhadas, muitas vezes optei em dar meia volta e ir para casa, não importa quão longe havia chegado. Acumulei paixões platônicas, deixei boletos vencerem, me dei alta da terapia. Restaram muitos verbos no futuro do pretérito.

Estava acostumado a ter mulheres correndo atrás de mim. Literalmente, pois tenho pernas longas e andava rápido, sem motivo algum. Em geral, minhas namoradas eram baixinhas e sofriam para me alcançar. De repente, a moça com quem eu saía comentou que meus movimentos pareciam em câmera lenta e era eu que não conseguia acompanhá-la. No trabalho, também demorava demais para digitar um texto simples. Fui dispensado. Parei de me exercitar porque precisava de muito mais tempo para completar uma série. Caminhar na rua se tornou uma prova de obstáculos, como se buracos, postes, degraus e lixos não estivessem lá antes. Em vez de matar um prato como um esfomeado, meus almoços se prolongaram, com o esforço dobrado para cortar um bife. Em três anos, nenhuma resposta dos médicos para o meu colapso. Para eles, eu não tinha nada. E esse nada me levou a não sair mais da cama.

O brasileiro Lazaro Schaller é o recordista mundial de mergulho de grandes alturas. Em agosto de 2015, ele saltou de uma plataforma a 59 metros em uma cachoeira na Suíça. Em pé, lesionando uma das pernas. Um ano e meio antes, pulei de cabeça de uma ponte de 50 metros de altura ao praticar bungee-jump no norte da Argentina. Um erro de cálculo fez com que eu me chocasse contra a água sem qualquer resistência, o impacto de uma tonelada sobre o cérebro. Saí andando de lá. As sequelas só apareceriam bem depois, nos membros do lado esquerdo. E, sete médicos mais tarde, finalmente recebi um diagnóstico: micro AVC causado por uma pancada. Levantei da cama e comprei uma bengala.

Alex Xavier é um jornalista refugiado na ficção. Autor do livro de contos O teatro da rotina (Editora Patuá, 2018), participou das coletâneas Não pretendia criar discórdia (Editora Giostri, 2017), Eros Ex Machina (Editora Alink, 2018) e Era de Aquária (Editora Oito e Meio, 2019). Membro do coletivo Discórdia, produz zines para feiras de publicação independente.

o capador, de Leonardo Almeida Filho

Pode perguntar por aí a quem quiser e vão lhe confirmar. Todo mundo dessas bandas conhecia o sujeito. Conhecia de vista, pois Zé Firmino era homem de poucas palavras, um bruto com pouca história. Pela profissão que tinha, e que todos comentavam ao pé da orelha, com medo, até que se mostrava muito, pois era sempre possível encontrá-lo no bar do Peixoto, na esquina da 11 de Setembro. Não estivesse por ali, era só bater na casa dele. Não tinha erro. Não se escondia de ninguém. Mas isso foi antes, bem antes de ele ganhar fama e se tornar lenda por estas bandas. Desapareceu, virou um fantasma que metia medo em todo mundo. Seu paradeiro tornou-se um mistério. O que se sabe é que ele levou muita gente para o outro lado. Era um cabra frio. Dois olhos gelados que quando grudavam na gente dava um arrepio ruim. E é curioso notar que ele até que não tinha a cara feia, era bem apessoado, imberbe, traços finos, quase femininos, o que aumentava ainda mais a curiosidade: de onde vinha tamanha crueldade? Tinha a merecida fama de maior matador dessas redondezas e ninguém se metia com ele, nem a polícia, que fazia vista grossa àquela sucessão de defuntos que eram manchete de jornal, aqui e ali, de Santana à Freguesia de Água Funda. Quase todos na conta do Zé Firmino, normalmente pequenos proprietários em litígio com algum poderoso, um amante justiçado, um político em ascensão, um devedor inveterado. Quando aparecia um corpo de homem, só de olhar, já se sabia de quem era o trabalho. Essa sabença era fácil de ser sedimentada no conceito das gentes, uma vez que o matador costumava assinar sua obra arrancando os ovos do finado. Assim como lhe digo. Zé Firmino decepava o saco de todo o macho que eliminava, sem exceção. Capava o cabra como se capa um boi. Ele não se metia com mulheres, nem crianças, tinha lá seu código de ética. Quando o padre de Santa Rita foi encontrado no fundo da casa paroquial, isso há muitos anos, o que mais chamou a atenção não foi o fato de ele ter sido assassinado com um tiro certeiro de escopeta. O vigário era carta marcada para morrer, mexia com gente poderosa dali, defendia um bando de sem terras, comprava briga com fazendeiros e políticos, diziam que era comunista, não tinha medo de ninguém, acreditava que Jesus estava ao seu lado e o protegeria. Não protegeu. O que chocou mesmo foi encontrá-lo com a batina levantada até o pescoço, o rombo no peito, e a surpreendente ausência dos ovos, além da poça de sangue em que dormia o frio sono dos defuntos. Padre Baggio deve ter sido a primeira encomenda de Zé Firmino, pois foi o primeiro defunto capado que se tem registro. Discutia-se o porquê desse jeito de matar. Isso não é comum, pelo contrário, ninguém, por mais cruel que seja, sai por aí dando-se ao trabalho de castrar defuntos. Então, por que ele fazia isso? Discutia-se nas barbearias, nos bares, nas feiras. Uns sugeriam que ele queria dizer que era mais macho que suas vítimas. Outros inventaram uma história, nunca confirmada, de que ele havia sido casado e que a mulher lhe passara uns cornos bem passados e era por essa razão que ele deixava marcada a sua vingança arrancando os bagos de todo o macho que matava. Havia até quem jurasse de pé junto que ele, num ritual de bruxaria, comia a iguaria frita, com farofa, porque acreditava que ia lhe dar mais brabeza. A verdade é que ninguém nunca soube o motivo dessa estranha mania do grande pistoleiro da região de Santana do Faro, conhecido por muita gente como O Capador.

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Gilvan, o Bacamartinho, era vereador em Goiana, cidadezinha localizada exatamente no meio do caminho entre Recife e João Pessoa. Sujeito gordo e suarento como meu primo Julião, casado com Marina, e tão safado quanto. Cabra sem palavra, enrolador de marca maior, cheio de noveora, um vaselina completo. Filho do finado Pedro do Bacamarte, Gilvan acabou se elegendo vereador às custas do bom nome do pai que, durante muitos anos, foi também vereador do município e que, embora não tivesse feito grande coisa, também não tinha feito grande merda na investidura do mandato. Acreditando que filho de peixe é sempre peixinho, um punhado de eleitores o colocou na câmara local, lugar que, no fim das contas, ele pouco frequentava, preferindo sempre a companhia das quengas, dos bares, dos arrasta-pés da região. Foi justamente num desses assustados que desgraçou-se ao se engraçar por uma mocinha das coxas grossas, olhar molhado e lábios de pão doce. Juliana, dos olhinhos negros e levemente estrábicos, era filha única do velho coronel Alceste, neto de antigo usineiro e proprietário de um pedaço de terra fértil por ali. Homem rígido, de moral com mofo e limo, de costumes mais antigos que cagar de cócoras, sujeito-homem de palavra e zelo, Alceste tinha em Juliana a sua princesa, sua menina preciosa. Gilvan acabou se metendo com a morena errada. Quando ela comunicou, entre soluços sinceros, que as regras estavam atrasadas e que um filho seu estava a caminho, Gilvan, para desespero da mocinha, negou-se a reconhecer a paternidade da criança. Juliana pariu o filho do vereador já na zona, a casa de Lizete Rabada, para onde foi encaminhada pelo próprio pai, depois de aplicar-lhe uma surra e cortar-lhe os cabelos. Com espuma no canto dos lábios, disse ele à filha ao empurrá-la para fora do carro: Para mim, você morreu, desgraça. Mas as coisas não ficariam assim, impunes. Há uma lei maior na região: a lei da vingança. Por ali, safado não se cria, é o que dizem. Aqui se faz, aqui se paga, todos repetem. Espalharam que o Coronel Alceste deixou que as coisas esfriassem um pouco e foi procurar Zé Firmino com o trabalho: eliminar Gilvan Bacarmartinho.

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Nessas terras de meu Deus, não existem segredos que perdurem. Quem quiser que se engane, eu não. Essas coisas não se escondem por muito tempo, são sussurradas pelos cantos, parece que pulam dos espinhos do mandacaru para o vento, e desse para as frestas nas portas de madeira, chegando aos ouvidos do povo que, para esse tipo de assunto, nunca dorme. Coisas assim não se guardam facilmente, acabam vazando como infiltração no teto, na parede, fazem mancha, anunciam-se pelo mofo, pelo cheiro ruim que exalam, e assustam. Podem até não ser verdadeiras, mas quem se importa? Foi assim que cantaram, não sem uma gota de sadismo, ao pé do ouvido de Gilvan: “Estão dizendo por aí, soube agorinha, que contrataram Zé Firmino para matá-lo, visse? Andasse bulindo com quem não devia. Se eu fosse tu, fugia daqui, ia para bem longe, sumia.” Consciência é um embornal onde a gente guarda as coisas que não tem orgulho de ter feito. Vira e mexe, estão lá, hibernando, a vergonha, o arrependimento, o medo. Lembrou-se logo de Juliana e do velho coronel Alceste. Era coisa dele, engoliu em seco. A notícia caiu-lhe feito um tiro de bacamarte numa noite de silêncio, espantando grilos e corujas, tirando todo o sossego do vivente. O vereador sabia muito bem de quem se tratava e, num ato reflexo, movido pelo instinto inconsciente de preservação, levou imediatamente a mão aos ovos, pousando os dedos sobre eles, apertando-os com carinho e muito medo, como se o pânico antecipasse o corte entre as suas pernas. Eram as primeiras das incontáveis horas de pavor que ele teria pela frente. A situação exigia que ele adotasse medidas extremas, alheias à sua índole. Gilvan não era de briga, nunca foi. Não passava de um mau caráter, de um frouxo. Sempre fora assim, um covarde. Passou a andar armado e deixou de frequentar as festas, os bares, os prostíbulos. Tornou-se arredio, quase um monge. Era comum pegá-lo em silêncio, em local público, postado estrategicamente num canto que lhe possibilitava a visão de todo ambiente. “Não se sabe de onde vem o tiro”, ele dizia, “mas virá”. E ele acreditava nisso, pois a fama do matador Zé Firmino era de total eficiência. Ordem dada, ordem cumprida. Serviço encomendado, defunto entregue e, ele tremia ao pensar, os ovos cortados. Era esse o motivo para o seu grande desespero, ser encontrado com as pernas abertas, capado, humilhado, emasculado, exposto a Deus e ao mundo como um sub-homem, um eunuco, uma coisa desprezível, um maricas, um baitola. “Não!” Ele se dizia baixinho, “isso não. Um homem deve morrer homem, inteiro.” Redobrou o cuidado, passando a não sair de casa. Perdeu o apetite, mergulhado que estava na paranoia absoluta. Qualquer barulho o deixava em estado de alerta, perdia o sono facilmente. Quantas vezes, durante a noite, vigiava, à janela, o movimento na rua deserta. Para Gilvan Bacamartinho, a vida perdera todo o sentido, tudo agora era apenas medo, não de morrer, que fique claro, mas de perder as partes e virar notícia em toda Goiana, Santana do Faro, Freguesia de Água Funda. Quando imaginava o jornal anunciando a sua morte, sentia calafrios terríveis, pois se via na primeira página, estirado, olho fixo no nada, capado, e todo o populacho nas feiras, nos mercados, nos puteiros, comentando e sorrindo de sua imolação. Viraria motivo de chacota. Foi quando ouviu o barulho de passos sobre as folhas secas da mangueira, no fundo do quintal. Levantou-se da cama num pulo. “Era Zé Firmino”, ele pensou e tremeu. O coração acelerado, o suor na testa, a arma engatilhada. “É Zé Firmino”, falava baixinho, “o matador infalível, uma cinquentena de machos capados no currículo, impossível escapar”. Tudo isso lhe vinha à mente, enquanto os olhos arregalados tentavam enxergar alguma coisa na escuridão do quintal. Apenas sombras que ele confundia com uma figura humana caminhando em direção à casa. Mas o barulho de passos era real, ele se dizia, e se encolhia com uma mão entre as pernas, protegendo seu tesouro, e a outra no .38 que pertencera ao velho Pedro Bacamarte. Um ruído na lateral da casa, perto do tanque de lavar roupa. Ele teve a impressão de ouvir alguém forçando a porta. “É ele, é ele”. Desesperou-se. Gilvan abriu a porta da sala e saiu correndo feito um louco pela rua.

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Disseram as testemunhas que o vereador veio correndo desembestado pela calçada, parou em frente ao bar. Não falava coisa com coisa, assustado, tremendo como vara verde. Afirmava que Zé Firmino estava atrás dele e pedia que não permitissem que ele tocasse em seu corpo. “Não deixem que ele me toque, não deixem”, repetia. Encostou o trinta e oito na testa e puxou o gatilho. A gente não pôde fazer nada, disseram. A polícia não encontrou nenhum sinal do matador, apenas um casal de gatos no quintal.

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Meses depois da morte de Gilvan Bacamartinho, a polícia de Recife, seguindo uma denúncia anônima, invadiu um endereço na comunidade da Baixa da Égua, perto do rio, região de mangue. Segundo a denúncia, na casa de porta cor-de-rosa, a única do lugar com essa cor, se escondia o tal Zé Firmino. Os policiais o encontraram na rede, fumando calmamente. Não esboçou reação alguma: fumando estava, fumando continuou, como se nada estivesse acontecendo. Chamou a atenção dos policiais o fato de que o afamado e temido assassino era, na verdade, um sujeito de baixa estatura, franzino, corpo miúdo e gestos muito suaves. Nada que impusesse temor a quem quer que fosse. Não havia nele nenhum sinal de violência, era pura delicadeza e gestos afetados. No armário da cozinha, trinta e sete potes de vidro, cheios de formol, preservavam trinta e sete pares de testículos: era a prova inconteste de que o grande matador finalmente fora encontrado e preso. Mas a mais chocante descoberta desse dia aconteceu no IML, durante o exame de corpo de delito: Zé Firmino era, na verdade, uma mulher de nome Maria Rita das Dores dos Anjos, paraibana de Uiraúna, procurada há anos pelo assassinato do marido, de quem arrancou os ovos depois de meter-lhe uma peixeira no bucho e expor-lhe as tripas. Vizinhos disseram, à época, que Raimundo Nonato espancava regularmente a mulher, que um dia reagiu e sumiu no mundo.

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Maria Rita afirmou ao delegado que nunca ouviu falar em Gilvan Bacamartinho.

Brasília, julho 2020 (ano da pandemia).

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Publicou O Livro de Loraine (contos, Imprell/PB, 1998), logomaquia (edição do autor, 2007), Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB, 2008), Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos, Editora e-galaxia, 2013), e pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018) e o romance Nessa boca que te beija (2019).

desculpas, conto do livro ‘Velhos’, de Alê Motta

capa_velhosSou preto e sou velho. Diferente da maioria dos pretos no Brasil, sou rico. Moro num condomínio sofisticado, num bairro de brancos que acham muito esquisito a minha família preta morar ali.

Tenho setenta anos e pratico muitos esportes. Gosto especialmente de corrida.

Dia desses fui correr até a beira da praia. Na segunda quadra após o condomínio, passei em frente ao posto de gasolina. No momento em que passei, acontecia um assalto.

Dois dentes quebrados, três costelas fraturadas, as maçãs do rosto raladas, nariz sangrando, braço esquerdo luxado. Cusparadas na cara, tapas na orelha, vários socos no estômago.

Uns brutamontes me agarraram, me esfregaram no chão de asfalto e me levaram para a delegacia como suspeito.

Meu advogado-branco veio me socorrer. Sou médico, sou dono de uma clínica, tenho três especializações, dou aulas, tenho vários livros publicados, falo quatro idiomas.

Até agora ninguém me pediu desculpas. Ficam repetindo que eu sou preto, nem pareço um velho e estava correndo, como iam saber que eu não era um marginal?

| conto do livro Velhos (Editora Reformatório, 2020). |

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020).

o mistério dos contêineres verdes, de André Bacciotti Nogueira

Taco de Ouro

A primeira vez que lá estive, por completo acaso, foi escapando ao temporal sob um de seus toldos marrons. Aliás, minto. Houve antes uma tentativa: certa noite quando eu e um velho amigo tentamos lá entrar: uma partidinha, para lembrar os tempos de estudante! A ele, que passava a negócios pela cidade, levei para um passeio pelo centro antigo, por suas ruas de paralelepípedo e construções históricas, outrora opulentas, hoje mais do que decadentes, embora nelas permaneça certo ar de glamour. Paramos em frente: “Taco de Ouro: o rei do bilhar”. O palacete de três andares meio barroco, cujo só o térreo estava aceso, olhando-se da rua, parecia bem animado, e prometia uma bela noite, para nós que na juventude jogávamos naquelas bodegas tristes, mas saudosas, da cidade universitária. Mas então, quando fazíamos menção de entrar, um enorme segurança de terno nos barrou: “Fechado. É festa particular”. Que seja, bebamos noutro lugar! Mas chegará a nossa vez de gozarmos o seu ouro!

Ironicamente, se lá eu voltei, não foi para jogar. Mesmo porque o jogo para mim ficou no passado e, se todo santo dia eu venho ao centro trabalhar, raras vezes passo por ele à noite e, jamais, para me divertir. Foi por completo acaso portanto, escapando ao temporal sob um de seus toldos marrons, que lá parei. E não de noite, mas de dia, no intervalo do serviço, andando à procura de não lembro o quê, é provável que um chaveiro. Começou a cair o pé d’água e, quando dei por mim, estava diante do palacete, o qual nunca mais eu vira! E à luz do dia, sem o brilho dos letreiros piscantes, se resumia a uma casinha com colunatas e pintura bege descascada. Para minha surpresa, estava aberto e, na frente, uma plaquinha: “Almoço — Buffet de comida caseira! — R$ 13,90 à vontade — R$ 31,90 KG”. A chuva não prometia dar trégua, e afinal era meu horário de almoço… Um homem trabalhador tem o direito de, uma vez na vida, almoçar como um rei!

Desde então o tal “Taco de Ouro”, onde certa noite fomos barrados à entrada, passou a ser meu habitual local de almoço, quase uma segunda casa, que sempre está aí para me acolher nos intervalos do trabalho. Nela eu me sento bem à vontade e assim à vontade eu como. Ignoro o porquê, mas a comida é surpreendentemente boa, e o preço inexplicavelmente justo. Aliás, nem justo chega a ser. Eu me sirvo à vontade da mesa de frios, com salame italiano e provolone, de saladas, com tabule e salpicão, e dos pratos quentes o que há de melhor, com bolinhos e tortilhas de toda espécie, para chegando ao caixa sentir vergonha de pagar tão pouco. Inclusive sobremesa e o café de cortesia! Um restaurante de fechada para um esquema de lavagem de dinheiro? Cheguei a suspeitar. Mas por fim concluí que o lucro do negócio é o bilhar e, o restaurante como um todo, uma cortesia só, e equacionei a casinha de colunatas e pintura bege descascada, como aparece à luz do dia, com o palacete que à noite brilhava de letreiros piscantes e onde a entrada era proibida, a não ser para homens realmente importantes. E penso que para esses homens, quando a noite cai, os tacos engordurados de madeira no veludo verde-escuro de repente se cobrem de ouro, as bolas se fazem de cristal e todo o entorno se transforma.

Você entra no grande salão a princípio mal-iluminado (demora para as pupilas se ajustarem) e se senta na mesa, toalha xadrez e galheteiros de vidro, uma dentre as quarenta mesas postas em fileiras ao lado do bufê. Do teto uma estrutura rebaixada de madeira, como o convés de um navio virado de ponta cabeça, retangular e que de um lado se arredonda, rodeada de luz verde neon (em alguns lugares piscando-falhantes…) e o centro de vidro espelhado, que reflete de volta o xadrez das toalhas. Imagino como à noite, retirando-se o bufê e todas as mesas e cadeiras, sob a luz neon o salão se converte numa pista de dança, de algum lugar desce um globo refletor, e ao som do jazz dançam homens importantes com alegres raparigas.

Pela lateral do navio uma câmera espia o balcão de talheres — grandes, pesados garfos lavrados de aço meio riscado, daqueles que já não se fabrica hoje em dia… — e fico imaginando como nesse mesmo lugar à noite roda uma junkie box ou, quem sabe até, uma roleta; que esses homens com ar grave e pensativo se colocam ali, de olho nas fichas e no dinheiro, e quando um é pêgo trapaceando começa uma briga, o bandido saca um desses garfos e crava ao peito do adversário, mas já logo vem o segurança, pega-o pela gola da camisa e adeus.

Enormes seios quase saltando do decote, tatuagem no ombro e olheiras, a moça do caixa pega o dinheiro da tua mão sem falar boa tarde. Das mesas é possível vê-la no balcão, com bebidas ao fundo, de onde às vezes ela sai para atender misteriosos telefonemas. Sempre aquele olhar triste, esquivo e sobretudo cansado, como que há dias sem dormir. Imagino como à noite ela se transforma: a rainha do baile! Em seus olhos se acende um fogo, ela solta os cabelos, balança os ombros e, a depender da música, seus seios de fato saltam, ela mesma salta do balcão — o balcão outrora tristonho, em que pousavam moscas sonolentas, de repente piscante e com garrafas de wiskey abertas e drinks fosforescentes —, dança na pista e ocasionalmente senta no colo de um desses homens importantes. E de igual modo as garçonetes, que trocaram os aventais pelas cintas-ligas.

Rente ao teto de madeira nobre, ao longo de todo o salão corre um encanamento vermelho, e dele para todas as direções jorrará água, se numa dessas noites de orgia um desses homens com mulheres no colo se esquecer do cigarro aceso roçando na cortina, e então tudo se acender, a começar pelas gravatas, e ir subindo, subindo o fogo já incontrolável pelo dispositivo anti-incêndio, até que o teto caia sobre essas importantes cabeças.

O toilette — ah, o toilette… simplesmente opulento! Todos os dias, com ou sem necessidade, impreterivelmente eu o visito! Os mictórios com sachês envelhecidos se transformam em verdadeiros tronos de mármore para que esses homens importantes mijem e caguem, podendo a seguir secar as mãos em toalhinhas que as faxineiras, sem que ninguém as perceba, trocam por novas a cada cinco minutos.

Esqueci de falar no principal: o bilhar. Principal e todavia inacessível. As mesas de bilhar, para nós mortais que sentamos nas mesas xadrez, mal são visíveis lá no fundo, atrás do biombo, uma área reservada, sempre na penumbra, para ser acesa só de noite e mesmo assim à meia luz. Para lá tenho até medo de olhar. Decerto é um lugar sagrado, o altar das diversões e do gozo, onde também se acertam negócios, encomendam-se assassinatos, o salão dentro do salão, o palácio dentro do palacete, diante do qual possivelmente há de terno um segundo segurança, como um serafim, para só permitir a entrada dos mais importantes dos importantes. Lá os tacos são de ouro, e são de ouro também as mesas, os talheres e galheteiros e mesmo os homens não têm nas veias sangue, e sim ouro, ouro, ouro. Lá o fogo não chega, nem Deus e nem lei.

E aqui estamos, numa dessas quarenta mesas com sebosas toalhas xadrez e no prato salpicão e tortilhas a 13,90 à vontade e 31,90 o kg. Mas chegará a nossa vez de gozarmos o seu ouro!

O Mistério dos Contêineres verdes

“Frequentar de uma padaria o balcão ‘Pães com desconto’, morder as roscas murchas, os sonhos empastelados, as broas esfarelentas, os pãezinhos amanhecidos, os bolos às vésperas do vencimento, todos os dias pensando: ainda vou crescer economicamente a ponto de saborear essas delícias saídas do forno!” (Anotação no meu caderno)

Desde que a superintendência de saneamento instalou em cada esquina um contêiner verde, algo diferente pairava no ar. A princípio, os estabelecimentos comerciais jogavam ali o seu lixo — os restaurantes esvaziavam dos bufês os restos de comida; os mercados, das prateleiras, os produtos vencidos; as lojas de sapato, de seus estoques, caixas de papelão com naftalina — e lá também dispensavam seus sacos de sanito os condomínios residenciais. Os contêineres tinham capacidade para duzentos e cinqüenta quilos, quinhentos litros, podia-se jogar neles de tudo à vontade: parecia impossível chegar à tampa. É verdade que ao fim da tarde os contêineres, à espera do caminhão, começavam a feder, e quem pela calçada caminhasse era obrigado, senão a tapar o nariz, a apressar o passo e, de preferência, para o outro lado da rua onde, na próxima esquina, toparia com outro contêiner. Importante é que os contêineres verdes, com altura de pouco mais de um metro e o corpo resistente de polietileno, não podiam ser virados pelos cachorros, como o eram as latas de lixo tradicionais. De modo que, se o caminhão deixasse de passar, no dia seguinte o contêiner continuava ali, firme e forte, com a tampa entreaberta espiando desde a rua os portões dos prédios e estabelecimentos. De repente, um barulho: a bocarra se abriu, engoliu mais um saco, e escapou a faxineira, aliviada, soltando a respiração.

Finalmente, o caminhão de lixo! Essa é a parte mais fascinante: os homens em macacões laranja correm gritando e — o que pensam vocês? que se cortarão nos cacos de vidro? — encaixam as alças dos contêineres na alavanca e, de dentro do caminhão controlando a manivela, o motorista despeja na caçamba onde os dentes do moedor a tudo engolem num minuto. Cem por cento automatizado! Quando o caminhão solta os contêineres verdes de volta na calçada, um estrondo se produz, som misterioso que vem de seus interiores ocos, prontos para serem mais uma vez preenchidos com restos de comida, produtos vencidos e caixas com naftalina.

Os tempos foram se passando, as superintendências se sucedendo uma à outra, e os contêineres já não pareciam tão bonitos e lustrosos. O verde claro, esmeraldino, dos contêineres outrora novos, foi se tornando escurecido sob as manchas e crostas. A alavanca do caminhão deixou nos corpos de polietileno a marca de suas garras. Mas não só do caminhão eram as garras, nem tão somente dos cachorros; unhas humanas também os marcaram. Sim, as pessoas começaram a perceber que naquele lixo nem todo o resto havia se estragado por completo. Quem pela calçada caminhasse, além de prender a respiração, era obrigado a desviar dos humanos que trepassem nos contêineres, ou que estivessem de lá saltando, vitoriosos, com uma perna esticada e um saco na mão. E o papelão, que de noite em qualquer canto vira leito. Então as pessoas começaram a feder como os contêineres verdes, embora tanto fizesse, afinal, havia tempo que pelas ruas já não se podia andar, senão com o nariz tapado.

A situação piorou quando os lixeiros entraram em greve. A superintendência quis negociar, voltando atrás na questão do seguro-desemprego, mas era tarde. Aos contêineres verdes já não estrondava o caminhão, senão as pernas, aquelas mesmas que outrora corriam a seu encalço. Pernas fortes, trabalhadoras, que se negam a galgar o lixo, facilmente viram de ponta cabeça um contêiner. Mas as bocas, por mais poderoso que seja o seu grito, precisam de qualquer forma comer, e afinal o lixo está sempre aí. Sem que o caminhão voltasse a rodar, a greve dos lixeiros foi se desfazendo, até que se “pacificaram” seus últimos restolhos. Agora na cidade, além de silêncio, faz um fedor de arrepiar os cabelos, como nunca antes fizera. E nos contêineres verdes, além dos restos alimentícios e caixas com naftalina, apodreciam, em seus macacões laranja, os cadáveres de muitos desses revoltosos.

Houve quem se incomodasse profundamente e até quem se escandalizasse. Mas se uma mão tapa o nariz, resta outra com que tapar os olhos. E todavia houve quem tivesse boca para comer e, com os contêineres cheios e as barrigas vazias, os cadáveres não pareceram um empecilho. As pessoas que saltavam dos contêineres verdes, com nas mãos uma perna alheia, amputada e necrosada, começavam também elas a cheirar cadáver, e pelas ruas, além de tapar o nariz e os olhos, não raras vezes era preciso correr do ataque zumbi. Os seguranças dos restaurantes e mercados e lojas começaram a “abater preventivamente”. E, como não havia mais faxineiras para os jogar nos contêineres, nem lixeiros para os transportar ao caminhão, eles apodreciam ali mesmo, no pavimento da calçada. Os clientes, de nariz tapado, saltavam sobre os cadáveres e entravam nos restaurantes, cujas janelas foram cimentadas e os portões reforçados; seguranças munidos de metralhadoras protegiam as embalagens dos mercados, e as lojas lançavam mais e mais naftalina nos contêineres para conter a infestação. Um biscoito de maisena estava custando o olho da cara, olho que poderia ser arrancado da cara alheia ou da própria, não importa: já ninguém mais queria ver, nem respirar, nem viver, embora comer muitos quisessem.

Entendendo-se com a crise, os restaurantes começaram a segurar em seus bufês os restos, e os mercados em suas prateleiras os produtos vencidos, os quais vendiam por trinta, quarenta, cinqüenta, setenta por cento de desconto, mas nunca botavam para fora no lixo. Os que tivessem olhos na cara e nariz para tapar, mesmo assim iam ficando verdes, não de fome e sim porque a podridão que comiam era de primeira qualidade. Já aqueles, que ficaram para fora dos restaurantes e mercados, mas viviam e morriam dentro dos contêineres, primeiro ficaram verdes, depois roxos e pálidos, até que o tempo os varreu. A isso não se premeditou como medida sanitária, foi apenas um reflexo da curva econômica: tendo a podridão valorizado seu preço e os restos não mais sendo lançados aos contêineres, até o último cadáver foi comido pelo último zumbi a quem por fim comeu o cão. E tudo foi voltando ao normal outra vez, já se podia andar pela rua sem tapar o nariz e da calçada lhe espiavam, com a boca entreaberta, os pacatos contêineres verdes.

A Dama da Noite

Quando há dez anos se instalou em Paraíso das Garças uma refinaria petroleira, o negócio foi anunciado como uma promessa, para toda a região, de geração de riquezas, emprego, infra-estrutura… Na prática, asfaltaram-se algumas vias, por onde passam grandes caminhões de cenho franzido; das cancelas de um condomínio fechado com nome francês saem e entram automóveis de luxo, que disputam vagas nas garagens do supermercado Pão de Açúcar ou da escola Waldorf. Mas nos rincões próximos a vida continua a mesma: as galinhas atravessam as ruas de terra sem receio, o som dos cortadores de grama ecoa dos quintais e, nos pontos de ônibus, demarcados por simples estacas no chão, os vizinhos conversam sobre as vidas uns dos outros. Apesar do tom apocalíptico com que pintam o horizonte as torres da refinaria, sempre cuspindo bolas de fogo e nuvens espiralando no ar, até que é bonito de ver. Dá a sensação de permanente crepúsculo, mesmo à noite, a luminosidade alaranjada nos jardins, já numa hora em que só se ouve, lá no fundo do curral, o bater de orelhas de uma vaca e, às vezes, vindo da estrada, a trombeta nervosa de uma buzina de caminhão.

Seo Manoel nunca desistiu do sitiozinho. Criar animais, regar as plantas e sentar na rede com o chimarrão, é seu estilo de vida. E sua paixão — porque todo homem, até o mais provençal, cultiva sua arte — a criação de flores ornamentais: orquídeas, gardênias, crisântemos… e sua predileta: a dama da noite. Só uma flor realmente mágica é capaz de encantar, depois que toda a ilusão do mundo visível escureceu, sem o artifício da cor, guiando seu amante pelo jardim, pela simples doçura do perfume, até o lugarzinho na estufa onde o aguarda, na posição de sempre, a cadeira de espreguiçar.

Seo Manoel já é um senhor de idade e, cheio de vida, quer viver mais de cem. Por isso trocou o cachimbo pelo chimarrão. Todos conhecem os malefícios do tabaco. Além do mais, para os jovens são insignificantes as oscilações na qualidade do ar, mas desde que essa pigarra começou e o chiado, de leve, no peito, as idas ao médico se tornaram uma constante. O doutor garantiu que os enfisemas não devem piorar, basta seguir algumas recomendações, a principal delas: evitar o contato com a fuligem. Fácil falar! Nas horas críticas, em que as labaredas se levantam alto das chaminés, ela cai, como pequenas pétalas cinzas, sobre a grama ou o piso da varanda, até se desfazer com o vento, e de modo geral está assim, dissolvida no ar, imperceptível aos olhos, sem cor, ao olfato, sem odor, mas em todos, todos os lugares. Abrindo-se o armário da cozinha, atrás de um prato ou cumbuca, na fina camada de cinzas pode-se desenhar com o dedo um coração.

Seo Manuel é um homem humilde, um tipo rústico e, não obstante, também conhecedor dos prazeres. Uma vida normal, com tudo a que tem direito, o doutor recomendou, bastando seguir as tais “recomendações”. Na mais segura delas seo Manoel investiu bem umas quinze parcelas de sua parca aposentadoria. Foi a primeira vez que entrou no Outlet Shopping Mall, por entre os automóveis de luxo, com o seu carrinho de feira. Carrinho que nunca transportara nada igual. Lá está ela, na cômoda ao lado da cama, junto à dentadura, olhando para ele. Estamos falando não de uma simples máscara hospitalar, mas uma daquelas, com um par de tubos laterais, que purificam o ar e fazem um barulhinho robótico, puro fetiche. Talvez pareça estranho, estar a todo o tempo com um segundo rosto colado ao seu, mas quando se prova sua utilidade, como óculos, por exemplo, já não se pode viver sem, e se descobrirá que a máscara inclusive tem seu charme. Respirar, com certeza, ar puro, livrar do tórax o peso de tanto puxar e puxar o ar, pesado de fuligem, que baforam as chaminés. Mas também sentir-se jovem, vigoroso e, até mesmo, imortal por um momento; afinal, enquanto o rosto envelhece, a mascará de lata permanece a mesma, respirando por ele e — ai! — ora arfando, ora rosnando, ora gemendo, a depender da emoção no momento: a tudo ela capta, sutil!

Seo Manoel só tira a máscara em certas situações. Beijar a Dona Raimunda, já se tornou raridade. Mas sim, todo santo dia comer a sopa que ela com carinho prepara: cebola, beterraba, mandioca e tudo o mais que dá em sua horta. Galinheiro também há no seu jardim. E, claro, ela — a sagrada, — a estufa: o único lugar, o paraíso onde Seo Manoel se despe de sua máscara — aqui não é preciso! Aqui há o perfume das flores. E para esse perfume a máscara não serve (o seu único defeito!), a quintessência que ela não consegue captar! Para esse perfume até as narinas desejariam deixar de ser narinas e sugar o néctar como pela bomba do chimarrão, ser um beija-flor mecânico e vibrante de prazer.

Seo Manoel chega, adentra aquela atmosfera milagrosa, senta-se na cadeira de espreguiçar e, retirando com a mão a máscara, declara à Dama da Noite o seu amor. Dos ramos, iluminados pelo distante apocalipse das chaminés, brotam uns olhinhos brancos, como pequenas trombetas soltando doçura, a prova de que o paraíso é aqui, nesses 50 m2 da estufa, envoltos numa tela como num véu de noiva. Pensar que os homens derretem pedras, detonam montanhas, constroem e destroem usinas inteiras para destilar o que não vale, nem seu mais valioso diamante, uma gota desse mel. E ainda pagar esse preço: cinzas no ar! Refinaria, eles dizem; e nada é mais refinado que o perfume dessa dama. Pensar que os homens mais poderosos enriquecem, levantam muros e, podendo comprar os vinhos mais caros, vivem infelizes por não ter um desse cálice perfumoso. Nesse momento Seo Manoel se sente um rei ao lado de sua rainha. Só ele conhece o segredo, e sorri. Esse sorriso, que em breve levará para a tumba, por hora ele tapa com a máscara outra vez, recomeça o barulhinho da respiração artificial, e Dona Raimunda já deve estar com o jantar à mesa.

André Bacciotti Nogueira: nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Tradutor, poeta, etc. Autor do livro O presidente me quer morto (Editora Urutau, 2019).

trecho do romance ‘Ao pó’, de Morgana Kretzmann

Romãs e Cigarros

ao_poA mãe da sua mãe era uma pessoa amarga que sabia fazer bolinhos fritos como ninguém. Tinha cabelos cinzas e tetas grandes. Gostava de usar vestidos com estampa de florais pequenos em cores delicadas. Sempre usava saia de baixo bege com uma pequena renda na ponta que ficava à mostra quando ela subia escadas ou se sentava. Falava alto mesmo quando queria apenas sussurrar.

A velha se chateava muito; se chateava com a filha, se chateava com o marido da filha, mas se chateava ainda mais com a filha da sua filha, que sempre lhe pareceu uma aberração, uma guria que ia ao encontro de algo terrível, mundano, descendo apressada os degraus da degeneração.

Sua avó tinha um lindo pé de romãzeira que ficava afastado da casa. Era um único e lindo pé de romã cercado por pés de laranja do céu. E foi lá, próximo à árvore que floresce na primavera projetando sua exuberante coloração vermelha, onde tudo começou, onde a tragédia deu seu primeiro sopro.

A tal senhora não entendia que a neta tinha apenas nove anos e que era uma menininha solitária, sem amigos na escola, sem nenhum garoto do bairro que gostasse dela e com o desprezo dos seus primos, que nos almoços de finais de semana sempre a deixavam apenas com a televisão. Não entendia que ela era uma criança tímida e cheia de medos. Teimava em afirmar que a menina era má e pervertida.

Um dia a velha encontrou a neta fumando um cigarro Shelton longo, embaixo da árvore de romã. A menina estava de salto alto, uns cinco ou seis números maiores que seu pé, com uma carteira grande azul celeste embaixo do braço e usava um batom cor de laranja. Quando foi descoberta foi como se uma nuvem escura pousasse na sua cabeça, só lembrava das palavras, pervertida, porca, demônio, enquanto seu cabelo era violentamente puxado. Depois de muito choro, a cumplicidade perversa: este é um segredo meu e teu, se tu andar na linha, e fizer o que eu pedir, ninguém nunca vai saber de nada.

A menina se viu obrigada a seguir o catecismo da avó para não correr o risco de passar pela vergonha de seus primos, colegas e vizinhos de bairro ficarem sabendo do que aconteceu.

A criança passou a ter que aceitar a companhia da avó na ida e na volta do colégio, todas as sextas-feiras. Também recebia visitas surpresas no recreio quando era humilhada pelas constantes chacotas proferidas por ela. Além disso, foi obrigada a aceitar todos os convites para ir aos cultos na igreja e passar as tardes de sábados na casa da velha. Nunca se queixou, nunca se negou a nada, continuou obedecendo submissamente.

A avó queria provar que não estava errada. Acreditava que a neta era má, era pervertida. Por isso deixou a revista pornográfica de sexo explícito exposta em cima da estante naquele sábado, assim como deixou de propósito aquele maço de notas de cinquenta em cima da sua penteadeira e não a convidou para ir ao culto naquela tarde, dizendo que ela poderia ficar vendo televisão e comendo bolinhos fritos.

A criança sozinha na casa, com apenas nove anos, foi ao antigo quarto da tia, pegou os sapatos de salto alto, passou blush, sombra, batom. Revirou o roupeiro atrás de uma bolsa de pedras coloridas da qual tanto gostava. Encontrou. Roubou um cigarro e o isqueiro que estavam na gaveta da cômoda. Foi até a sala, pegou a revista pornô, colocou na bolsa. Quando estava para sair, olhou para dentro do quarto e viu aquele monte de dinheiro, passou reto, saiu da casa em direção ao pé de romã. Sentou sob a copa fazendo uma pose sensual, imitando uma das mulheres da revista, acendeu o cigarro, começou a folhear a revista.

A avó entrou silenciosa dentro da casa. Pé por pé, foi até a sala, não havia ninguém. A revista havia sumido. Foi até seu quarto, pegou o dinheiro e contou. Nenhuma nota roubada. Saiu tentando não pisar em galhos nem folhas secas, foi até o pé de romã. Lá encontrou a neta com um cigarro numa mão, seu ainda inexistente seio na outra e a revista pornográfica aberta no chão. Ao invés da fúria, as risadas descontroladas e a sentença: eu sabia.

A garotinha saiu fugida deixando os sapatos para trás com seus saltos cravados na terra. Entrou na casa e guardou a bolsa onde a pegou. Escondeu a revista dentro da estante bem atrás dos volumes da enciclopédia Barsa. Mudou de ideia e pegou a revista de volta. Foi até o quarto da avó. Entrou, encostou a porta e ficou escondida.

A sua avó nunca foi uma mulher fácil. Seu marido era um bom homem, mas parecia triste quando ela estava por perto. Seus cinco filhos não a suportavam, era visível. Mas seguiam vindo nos finais de semana para uma visita. Promessa feita ao pai antes dele morrer. Nem por isso, como todos diziam, ela merecia morrer do modo que morreu. Esmagada por aquele roupeiro gigante de madeira maciça. Diziam que era de carvalho. Diziam também que ela pode ter morrido por asfixia, já que o socorro demorou muito a chegar, pois a única pessoa que estava com ela naquela tarde, brincava em baixo do pé de romã e só voltou para casa quando começou a escurecer.

A netinha até hoje diz não ter escutado o barulho do roupeiro caindo, mas diz lembrar da avó segurando um maço de notas de cinquenta, pedindo para que ela se sentasse em seu colo para lerem juntas uma revista que ela própria nunca tinha visto na vida. E foi assim que a encontraram quando conseguiram tirar o roupeiro de cima dela: com o crânio esmagado e segurando um maço de notas de cinquenta e uma revista pornográfica.

| trecho do romance Ao pó (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Morgana Kretzmann nasceu na cidade de Tenente Portela, interior do Rio Grande do Sul, hoje vive em São Paulo, é escritora, atriz, roteirista e produtora cultural, com prêmios nacionais e regionais. É editora da revista cultural RevistaRia, da Ria Livraria. Também é formada em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Santa Catarina. Ao pó é seu romance de estreia.

submissão, de Christiane Angelotti

Vitor e Rosa casaram-se. Rosa passava o dia cuidando da casa, costurando e vendo tevê. Vitor não queria que ela trabalhasse fora, nem mesmo que aceitasse costurar para a vizinhança. Pouco tempo depois de casados Rosa ficou grávida. Aprendeu crochê e tricô para fazer o enxoval do bebê. Vitor trazia presentes com frequência para a esposa. Como era marceneiro, fez um lindo berço de madeira.

Em uma manhã de sábado nasceu Luana. Ana Maria queria estar mais presente na vida da neta e da filha. Com o tempo, Vitor implicou com as visitas frequentes da sogra, que passaram a acontecer somente na sua presença, uma vez por semana. Vitor tinha ciúme de Rosa. Tinha ciúme, inclusive, dela com o bebê. Rosa estava proibida de sair de casa, mesmo que fosse para ir ao mercado ou atender o portão. Nem à casa de sua cunhada, Berenice, sua vizinha, ela podia ir sozinha. A jovem sentia-se triste. Era prisioneira em sua própria casa.

Para não piorar a situação, ela omitiu do marido que o cunhado Eraldo dava em cima dela com frequência. Contou à única visita que recebia, sua amiga Marluce, que Eraldo havia tentado beijá-la a força outro dia e que só conseguiu escapar porque ele ouviu Berenice chegando da padaria. Rosa passou a trancar a casa durante o dia com medo do cunhado. Só ficava relaxada quando tinha certeza de que ele estava no trabalho.

Quando Luana ia completar três anos, Rosa e Vitor resolveram fazer um almoço para a família. Ana Maria não pôde ir, pois estava com um resfriado muito forte. Como ela havia feito um bolo para a neta, Rosa foi buscar. Mãe e filha passaram a tarde juntas. Conversaram, choraram e se lamentaram de se verem tão pouco.

Rosa voltou para casa de carona com um casal, vizinho de sua mãe. O marido a viu chegando e não gostou. Gritou com Rosa e a recebeu com um tapa no rosto. Tiveram uma de suas piores brigas. Rosa sentiu medo, decepção, raiva. Ameaçou ir embora de casa. Foi empurrada contra a parede. Vitor ameaçou que se ela fosse embora jamais veria a filha outra vez. Rosa chorou. Seu marido havia se tornado um homem possessivo, ciumento e violento. Na mesma semana, Vitor pediu que seu amigo e cunhado, Eraldo, vigiasse Rosa sempre que estivesse por perto. Eraldo alimentava o ciúme de Vitor.

Rosa hesitou contar para o marido que estava grávida. Já não tinha certeza sobre as reações de Vitor. Quando a barriga estava quase aparecendo, na décima terceira semana, ela tomou coragem e contou, mas mentiu sobre o tempo de gestação. Tinha muito medo de que ele brigasse com ela mesmo sem motivo. Como explicar que ela sentia pavor dele? Ainda assim, ela mais uma vez pensou que tudo ficaria bem, pois Vitor estava radiante com a notícia de que teria outro filho. Ele passou a ficar mais em casa, era carinhoso com Rosa e continuava mimando a pequena Luana.

Cerca de dois meses se passaram. Era aniversário de Rosa e ela preparava o jantar. Ana Maria esteve na casa da filha mais cedo, havia trazido de presente uma camisola e tecidos para Rosa fazer novos vestidos para sua neta. Vitor tinha saído com Eraldo, que disse precisar desabafar com o cunhado. Voltariam antes do jantar.

Eraldo iniciou a conversa aos prantos, dizendo estar triste por ter que se abrir com o seu grande amigo, pois sabia que o cunhado estava em uma fase muito feliz com a família, mas que não podia deixar que ele continuasse a ser enganado por sua esposa. Afirmou, então, que a criança que Rosa esperava não era filha de Vitor, e sim dele, que Rosa o havia seduzido em um dia que ele estava fora de si. Vitor, transtornado, deu um soco no cunhado e foi embora para casa.

Rosa recebeu-o com um beijo. Percebeu que o marido estava ofegante e tenso. Tentou conversar, mas Vitor permanecia calado. Disse que Luana estava na casa da tia, para que eles tivessem um jantar a dois.

— A dois? — Vitor murmurou.

—Não sou mais uma, não é mesmo? Mas não tira o romantismo do nosso jantar, Vitor! — disse Rosa, sorrindo.

Rosa levantou-se para tirar o assado do forno. Vitor pegou uma faca grande de cortar carne. Ouvia a mulher falando, ainda de costas, e era como se a voz dela ficasse cada vez mais distante à medida que ele se aproximava. Rosa estava prestes a se virar com a travessa de carne nas mãos, quando foi contida com força pelo marido. Rosa sentiu algo gelado perfurar suas costas. Depois veio uma dor aguda.

A travessa com a carne caiu no chão e Rosa tombou morta ao lado.

| conto originalmente publicado na coletânea Laudelinas, 2020, no [link]. |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

joey, o extraterrestre, de Victor Toscano

Foi como ver um fantasma. Era o Joey mesmo vindo na direção contrária na faixa de pedestres? Havia sempre tanta gente atravessando a Conde da Boa Vista, seria ele? V. interrompeu a marcha, esperando que o velho amigo cruzasse seu caminho. Era ele, sim. O mesmo rosto de cavalo triste, o mesmo caminhar de orangotango. “Cara, é tu!” Sem parecer ter escutado, Joey virou o rosto pro outro lado e seguiu. V. ficou ali, vendo seu primeiro grande amigo tratá-lo como um panfleto de dieta, enquanto carros e motoqueiros, enxergando-o muito bem, espremiam suas buzinas para o basbaque paralisado na rua mais movimentada do centro.

Eles se conheceram quando tinham doze anos de idade no colégio Dourado. Joey viera do período da tarde para o da manhã. Falava rápido demais, com um sotaque do sul. No recreio, conversaram sobre Cavaleiros do Zodíaco e Mega Drive. Ficaram melhores amigos.

Às tardes, V. ia na casa de Joey. Dona Lúcia, mãe dele, uma velhinha de olhos felizes, preparava uma baita de uma galinha com farofa. Ela fazia os meninos rezarem antes de comer, depois contava algumas histórias sobre anjos que ficam de olho na vida dos humanos. Joey disse qual era a religião deles, mas V. nunca conseguiu lembrar o nome. Faziam o dever de casa, jogavam videogames e tomavam banho de piscina. “Teu pai deve ser rico”, disse V. Joey morava em cima de uma padaria, que pertencia a sua família. Perto das seis da noite, um cheiro macio de pão invadia a sala. Dona Lúcia falava um pouco mais sobre espíritos caridosos enquanto os meninos comiam pão com margarina e esperavam o pai de V. ir buscá-lo.

Demorou um bocado para que V. enxergasse em Joey o que os outros conseguiam com tanta facilidade.

Joey raramente dizia coisas sem se babar um pouquinho. Quando jogava futebol, parecia ter mais pernas que um polvo; se enroscava nelas caindo de bunda no chão duas de quatro vezes em que recebia um passe. Era muito alto pra sua idade, mais alto até que os professores, porém nada atlético, o que o fazia pender de um lado ao outro quando andava, como o simpático personagem do filme E.T. Havia em seu rosto como que duas bengalas de costas uma para a outra compondo nariz e sobrancelhas. Os olhos pareciam uvas chupadas e cuspidas por alguém que as detestou, e a boca não era mais que um rasgo rugoso na pele. Os meninos gostavam de chegar bem pertinho dele, tocar o indicador na ponta do nariz de Joey e dizer: “E.T., telefone, minha casa”. As meninas riam sobremaneira.

Uma vez que viu, não conseguiu mais desver. Primeiro, V. presenciou Eduarda e Marcela dizendo a Joey que tinha meleca saindo do nariz dele. Ele se punha a enfiar o dedo na venta e contestar. “Não tem nada, tão vendo?”, fumaçava, erguendo o anelar. As meninas gargalharam tanto que começou a sair meleca do nariz delas. Depois, foi quando encontrou o amigo no centro de uma roda sendo interpelado sobre a existência de anjos e espíritos. Os meninos atiravam montinhos de areia molhada na boca e olhos de Joey toda vez que ele dizia a palavra “anjo da guarda”.

Naquele mesmo dia, enquanto caminhavam para casa, V. disse ou suspirou: “Tu sois meio retardado”. Trilhou o resto do caminho pelo menos cinco passos à frente do colega. Foram almoçar, como era de costume, na casa de Joey. Dessa vez, a pele da galinha estava gelada e a farofa sem tempero. Dona Lúcia, V. percebeu, tinha um nariz estreito e lacunoso como o do filho. O cabelo grisalho e sem vida daquela velhaca fazia o hábito da reza parecer um filme de terror. E que família era aquela cujo pai só aparecia uma ou duas vezes ao mês? Depois do almoço, V. não quis jogar futebol de botão nem assistir à Sessão da Tarde, nem tomar banho de piscina. Joey sugeriu que fossem comprar sacolé na padaria. Mas a verdade mesmo era que aquele cheiro de fermento de pão o dia inteiro na casa do colega só dava vontade de vomitar. V. respondeu que ele precisava ir pra casa. Depois de levar V. até o portão e se despedir, coçando com aperreio os olhos, Joey disse: “Acho que você é meu anjo da guarda”.

Foi a gota d’água. Não bastava ser o único e melhor amigo de uma criatura do Spielberg, tinha que ainda por cima bancar o anjo da guarda da coisa! Quando viu Joey no dia seguinte, tratou de ir sentar bem longe. Na aula de Educação Física, fez de tudo pra não ficar no mesmo time do E.T. No primeiro recreio, ficou do lado de fora do colégio contando fuscas por vinte e cinco minutos. No segundo recreio, fingiu uma dor de barriga e lá se foram dez minutos no banheiro. Joey o aguardou com olhos tão grandes quanto luas cheias. “Tá melhor?”, perguntou quando V. saiu. Mas a decisão já fora tomada: V. não iria mais dirigir uma palavra que fosse àquela criatura. Sendo assim, passou reto. Quando chegou a hora de ir embora, Joey se aproximou com suas passadas tortas, os ombros banzeando pra por as alças da mochila no lugar. “Tás pronto?” Nenhuma resposta. V. ergueu a mão para alguém que já ia saindo da sala. “Espera aí!”

Nos dias seguintes, Joey virou um fantasma desconhecido até mesmo pelo seu anjo da guarda. Não raro, V. o surpreendia lançando-lhe olhares de longe. Esquisitíssimo. O fantasma perambulava pelos cantos passando o dedo em buracos de parede. Nos recreios, comia coxinha escondido no fundo da escola, que estava em perpétua reforma. Os meninos pararam de jogar areia na cara dele pois ele já não falava que espíritos são mágicos; as meninas não tentavam mais fazê-lo chorar porque Joey já não perdia a calma, aí não tinha graça.

Mais um mês desse jeito e um dia desapareceu. Alguém disse que ele pedira à mãe para ser transferido. Quatorze anos depois, Joey passava reto por V. na Conde da Boa Vista, parecia até mesmo erguer a mão e chamar alguém que vinha descendo a calçada. Carros e motos não esperaram pela boa vontade do rapaz imóvel depois de o sinal já estar verde por uns dez segundos; avançaram barulhentos tirando fino de V., que escutou de um motoqueiro: “Tu é retardado, mermão?”

Aquela frase que um dia disse para aquele amigo. Um gesto irrefletido, de peso quase inexistente mas com ampla esfera de ação, como a pata de um besouro que não perfura o orvalho, por ora. Após tantos anos não devia mais ser difícil enxergar por que incontáveis vezes V. escolheu a garota mais bonita em lugar daquela que o faz sorrir, a cidade em que as luzes piscam mais forte, a língua mais falada em lugar da mais sonora, os amigos mais experimentados em lugar dos que aprendem da vida juntos, as drogas mais silenciadoras, as relações rarefeitas em lugar das porosas, o que há, enfim, de mais terráqueo nele próprio em lugar do extraterrestre.

Victor Toscano nasceu no Recife, onde estudou psicologia e Jornalismo. Venceu o concurso da Editora Benfazeja e publicou o livro Breves Delírios (2018). Seu segundo livro, O último minuto custa a chegar, mas é maravilhoso, saiu pela editora Moinhos no mesmo ano.

o valor do lixo, Luanda Julião

A riqueza e o desperdício de uma cidade podem ser mensurados em seu lixão, porque dinheiro sempre vira lixo e no lixão, lixo vira dinheiro.

No alto do morro, Dilermando avista as montanhas de lixo. Está a cerca de trezentos metros do lixão, falta só descer o aclive, mas já sente o seu cheiro fétido e dificuldades de discernir quem é homem, quem é bicho e quem é lixo. A nuvem de poeira tóxica e fedida que propaga no ar, levantada principalmente quando os caminhões descarregam entulhos de construção, cega a todos: motoristas, animais e homens. Ali todos eles se misturam numa única função: sobreviver.

Dilermando é um dos motoristas de caminhões que diariamente depositam no lixão uma média de cem toneladas de lixo produzido pelos cidadãos na cidade. Só a esse depósito de lixo, Dilermando faz duas, às vezes três viagens por dia. Detesta o lugar. Queria ser motorista de caminhão do correio ou de uma grande transportadora de móveis, mas há cinco anos o que ele transporta de um lado para o outro é lixo. Lixo de todos os tipos: orgânico, inorgânico, hospitalar, eletrônico, industrial, construção civil, restos de vegetais e de poda, carcaças de animais, alimentos vencidos. Tudo o que não serve mais, tudo o que não convém mais à cidade que fica a alguns quilômetros atrás do morro, é jogado no lado de cá, no depósito de lixo.

Todos os caminhões que chegam ao local são recebidos em festa pelos catadores, pelos urubus e pelos porcos. Dilermando gostaria de ser invisível nessa hora, pois assim evitaria acidentes e mortes. Quatro meses atrás, esmagou uma garotinha de oito anos. Não viu que ela estava atrás, esperando o lixo ser descarregado. A criança queria ser a primeira, ficar com o que eles chamam de “a nata do lixo”. Quem sabe, encontrar outra boneca ou um celular, como ela já havia achado uma vez. Distraído, falando com a mulher no celular e concentrado em olhar apenas o retrovisor esquerdo, Dilermando despejou oito toneladas de lixo em cima dela. Só conseguiram retirar o corpo debaixo do lixo depois dos catadores fazerem a triagem. Ele lembra com lágrimas nos olhos daquele dia.

Dilermando desce a última ribanceira com o caminhão. Em menos de um minuto entrará no campo de despejo do lixo. Ele sabe que precisa ser rápido, pois assim como os sedentos e famintos, os catadores não esperam. Correm desesperados em direção da carreta assim que escutam qualquer ronco de motor descendo o morro. Dilermando é cercado e sente vontade de afastar aqueles catadores de lixo da mesma forma que ele afasta as moscas que tentam pousar em seu rosto coberto de sujeira e suor.

Os urubus também atrapalham o trabalho de Dilermando. Sentem o cheiro de carniça nova antes de qualquer caminhão entrar no lixão. Ficam alvoroçados e assim como os catadores também cercam o caminhão atrapalhando a sua passagem. Permanecem voando em círculos até os catadores se afastarem daquilo que julgam não servirão para nada, mas que para as aves será um grande banquete. É assim que os urubus ficam quietos, estacionados em algum montante de lixo já vasculhado e abandonado pelos catadores.

Josefino, um dos tratoristas e funcionário do lixão, avista Dilermando que acabou de chegar e vai cumprimentá-lo.

— O que tem de bom aí? — pergunta Josefino

— Fala sério, Josefino! Tem algo de bom nesse lixão?

— Não se faça de desentendido, homem!

— Nada demais, lixo doméstico, só isso.

— Tô de olho em você, Dilermando. Seu último despejo de ontem tinha lixo hospitalar. Um dos catadores não viu e se feriu em uma das agulhas, indevidamente aqui descartada. Eu mesmo não acreditei quando vieram me contar e fui olhar. Achei restos de sonda. Daqui a pouco você começa a trazer lixo radioativo para cá.

— Não pega nada. Fica tranquilo, Josefino.

— Como não pega nada, Dilermando? — grita Josefino, irritando com o descaso de Dilermando. — Não quero ver meu lixão ir parar nas páginas dos jornais.

— Teu lixão, Josefino? Você é só mais um tratorista contratado aqui. Sobrevive do lixo igualzinho eu e os outros que colocam a mão na massa, ou melhor, no lixo.

— Na hierarquia daqui eu sou melhor que você e os catadores — protesta Josefino.

— E quem tá no lixo tem hierarquia? Você lá entende de hierarquia, Josefino? Aqui todo mundo fede igual, aqui todo mundo pisa na carniça.

Josefino coça a cabeça, sua frio, aperta os dedos da mão. Se não fosse a fumaça pútrida que pesa o ar e encobre a cor natural da sua pele, Dilermando conseguiria ver o tratorista vermelho de raiva. Um não gosta do outro, fingem amenidades, mas disputam poder e temor entre os catadores. Em terra de lixo e podridão, quem manda mais é menos tem que colocar as mãos na imundice. A poeira e o cheiro podre que permeia o lugar parecem contaminar o raciocínio e o instinto de todos os que ali tiram o seu sustento e sobrevivência.

— Não se faça de besta homem! — diz Josefino. – Sei muito bem que você ganha um dinheirinho extra dos hospitais da cidade para recolher a imundice de lá.

— Quem tem que se preocupar com isso é a prefeitura, que deveria multar quem desobedece a lei e não você que deve se preocupar em aplanar direito o lixo que eu descarrego — retruca Dilermando. — Se o hospital mistura lixo infectante com lixo doméstico a culpa não é minha. Isso não é problema meu!

— Tô só te observando, Dilermando! Quem tem coragem de despejar aqui lixo perigoso tem coragem também desembarcar bomba e até gente.

— Faço apenas o meu trabalho, Josefino! Transfiro pra cá o que é recolhido nas ruas pelos garis e coletores de lixo. Não tem como eu abrir o compactador do caminhão antes de despejá-lo aqui.

Josefino dá uma arfada e desiste de continuar discutindo com Dilermando. Tem muito trabalho a fazer, muito lixo para sobrepujar. Três caminhões despejaram tudo de uma só vez, num mesmo lugar, e o tratorista sabe que quanto mais tempo ele demorar em aplanar o volume do lixo, maiores serão os ratos e baratas que ali aparecerão para se alimentarem do lixo. “Já bastam os porcos”, pensa Josefino, mas logo em seguida corrige seu pensamento: “já basta a gente, catadores, caminhoneiros, tratoristas, políticos, empresas e todos aqueles que indiretamente ou diretamente exploram o lixo”.

Dilermando manobra o caminhão, puxa-o um pouco mais para frente para que os catadores não precisem se enfurnar debaixo do veículo. Depois acende um cigarro e fica observando a agilidade dos trabalhadores que metem sem hesitar a mão no lixo. Procuram plástico, metal, latinhas, vidros, garrafas pet e embalagens cartonadas. Tudo o que pode ser reaproveitado, os catadores pegam, porque vale dinheiro. Observa quando uma senhora encontra um frasco de perfume, vazio e sorri. Aquele recipiente desprezado depois do uso renderá vinte e cinco centavos a ela. Dilermando percebe o quanto aquela senhora toma cuidado para não cortar a mão. Parece ter perícia em mexer com lixos em que os cacos de vidro não foram embalados devidamente ou se quebraram no compactador. Dilermando olha a cicatriz que tem na mão direita e se lembra de quando quase a perdeu ajudando a mãe a separar o lixo orgânico daquilo que ainda pode ser reaproveitado e vendido.

Dilermando contempla o horizonte e o que vê é lixo em cima de lixo. O lugar está cada vez mais cheio. Se por um lado se aumenta a riqueza do lado de fora do lixão, em compensação dentro dele aumenta a pobreza e a miséria. De repente, escuta Josefino acelerar o trator, tentando espantar os catadores. Eles protestam, gritando. Parece que acharam algo valioso. É uma lavadora de roupa seminova. Deve ter no máximo cinco anos de uso, se bobear nem isso. Os catadores brigam por ela. Todos a querem, inclusive Josefino. Dilermando corre em direção ao lugar onde está o eletrodoméstico cobiçado. Grita para Josefino:

— Ô esfomeado, arria a guarda! Deixa o lixo pra quem depende dele!

Os catadores apoiam Dilermando e começam a vaiar Josefino, que desiste. Numa assembleia improvisada, em meio a resquícios e dejetos humanos, os catadores decidem dividir o objeto cobiçado. Usam as próprias mãos e desmontam a lavadora em questão de poucos minutos. Cada um sai feliz com a parte que lhe coube, uma ou duas peças. É o lucro do dia. Só a peça da lavadora de roupa vale mais que uma dezena de garrafas pet.

O vento trouxe mais nuvens, o céu escureceu, encobrindo o sol. Vai chover. Dilermando pensa no chorume. Odeia entrar em contato com a lama do lixo. Verifica a hora e se apressa em sair do lixão. Engata a ré e olha os dois retrovisores. Está se preparando para manobrar o caminhão, quando percebe que uma revoada de abutres se intensificou de repente. Ele olha para o céu e vê alguns abutres quase se chocarem uns contra os outros. Algumas penas se desprendem e caem, misturando-se quase que imperceptivelmente ao lixo. O último descarregamento de lixo foi algumas horas atrás, momento em que normalmente os urubus ficam ensandecidos com a chegada do lixo fresco. Agora é hora de caminhões voltarem vazios para a garagem e se preparem para mais uma coleta de lixo da população que não para de produzi-los.

Curioso, Dilermando coloca suas luvas de proteção e desce do caminhão. Caminha em direção aos abutres, tentando se desviar o máximo que pode dos lixos que estão por toda a parte. Os abutres percebem a chegando de Dilermando, que não é bem-vindo, e grasnam cada vez mais forte. Sentem-se ameaçados e continuam persistentemente sobrevoando o local. Dilermando olha para trás, pensa em pedir ajuda a outro catador, mas o vento forte levanta mais alto ainda a poeira de lixo e resto de entulho. Caminha com cuidado, tem medo de ser atacado pela multidão de urubus.

Dilermando observa todos os lados. Não há carcaças de animais, nem lixo orgânico protuberante ou saliente. Ao menos naquela parte do terreno, onde aparentemente os tratores passaram a pouco tempo. Um sulco de luz ilumina uma caixa de papelão. É ali que está o banquete dos urubus insaciáveis. Sem saber o que tem dentro, Dilermando a chuta. A caixa vira e ele tem um sobressalto quando percebe o que chutou: o corpo de um bebê recém-nascido, ainda de fralda, porém rígido e frio. Dilermando sente as pernas tremerem, o coração palpitar bem forte. Exceto pelas lesões causadas pelas bicadas dos abutres que deixaram buracos na pele, o bebê parecia dormir, como dormem os recém-nascidos.

Um dos urubus desce do céu e pousa na caixa. Dilermando o encara. A ave recolhe as asas e usa as patas afiadas para se aproximar do corpo do bebê. Seu porte cobre o único fio de claridade que iluminava o recém-nascido. Dá um salto e se debruça sobre a pele do bebê. Tem dificuldades em se equilibrar diante de um corpo tão pequeno. A ave encara novamente Dilermando como se o desafiasse. Está preparada para arrancar mais um pedacinho do bebê-cadáver, mas Dilermando é mais rápido. Acerta-lhe um chute tão forte que imediatamente o derruba. Sem perder tempo, Dilermando apanha o primeiro pedaço de tábua e destroça o pássaro. Os outros abutres ficam assustados e se afastam. Ele grita, mas ninguém o ouve. Sozinho, parado no meio do lixão, Dilermando chora. Não há mais nenhum feixe de sol no céu. A chuva cai e lava as lágrimas de Dilermando. O chorume molha os seus sapatos. Ele sente o líquido escuro e poluído perfurarem suas meias e molharem os seus pés, mas dessa vez ele não se importa.

Luanda Julião nasceu em São Paulo em 30 de junho de 1982. Atualmente cursa doutorado em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos. É professora de Filosofia e História numa escola estadual no bairro do Ipiranga, na capital paulista. Publicou pela Editora Patuá, em setembro de 2018, seu primeiro romance: A ária das águas.

príncipe, de Rafa Carvalho

o asfalto da rua de casa era mal feito.

não é para reclamar. a rua de baixo nem sequer era asfaltada. mas era assim. restos de massa batida nas frentes das casas mal limpas nos finais dos dias de obra. irregularidades buracos pedras soltas. nas horas mais quentes derretia o piche um pouco e isto grudava nos chinelos.

a combinação do calor que era preponderante nos anos e o tipo tosco do asfalto dificultavam andar descalço. jogar bola então nem se fala. estouravam todas as correias dos chinelos de dedo bem impróprios ao futebol. e sem eles estourava a sola dos pés. fazia bolhas que depois também estouravam. ficava o sangue no asfalto. e um dedão destroncado. com a unha virada pra cima na topada com a massa mal limpa das obras. o furo da pedra do caco de vidro enfiado. bater o que já estava batido e ainda incurado. o asfalto com pus. pedaços de pele que ficavam pelo caminho. numa partida de esconde-esconde. ou de golzinho.

tudo isso me fazia crer que eu precisava muito um par de tênis. mas não dava. tinha um conga pra sair e era só. visitar a vó noutra cidade. sem correria na escada com os primos. ir à igreja ao shopping ver as coisas. mas não pode pedir nada. apenas vamos passear.

mamãe trabalhava de chinelos. lavava a roupa de casa e da casa dos outros. passava a roupa de casa. e da casa dos outros. limpava a casa dos outros. fazia geladinho pra vender pros outros. tudo de chinelo. batiam palma em casa pra gente vender mas chupar não podia. só de vez em quando. tinha que ajudar era difícil. o suco vazava tudo era prejuízo. a gente andava descalço em casa e o chão melava todo.

a gente voltava descalço da rua o pé preto sujando o piso e era tapa na orelha. vai lavar o pé no tanque. bronca berreiro. a mãe batia na bunda da gente com o chinelo. e cinta espadada de são jorge vara. mas de vez em quando dava um bom banho de tanque. com carinho. tinha bacia calma e pente fino pra tirar piolhos. sunga e biquíni de tomar sol pelo quintal. mãe jogava junto com a gente umas coisas dava risada era bonito. o abraço. o colo da mãe. mas batia na gente quando a gente apanhava na rua. quando caía quando machucava na rua. esfregava forte a bucha com sabão pra não infeccionar. e não vai arrancar essa casquinha.

dava janta pra gente fumava um cigarro assistia novela. chorava escondido. pegava o ônibus com o caçula pra ir nos médicos. trabalhava em casa nas outras casas. trabalhava pros outros. e a gente também era um tipo de outros. fazia sempre pra gente nunca pra ela. a gente dava trabalho. tudo era os outros.

seo zeferino vez ou outra dava abacates maduros pra nós. ela amassava tudo num prato. botava com açúcar. pingava limão. e a gente sentava na sala em roda no chão. uma colherada pra ela e uma pra nós rodando assim. ela ajeitava as nossas colheres lambendo as beiradas pra não derrubar. numa vez dessas no intervalo do jornal eu vi a propaganda. do rainha system. eu achava o nome um pouco engraçado mas o tênis era demais. eu disse mãe olha que lindo. ela me deu o abacate.

pouco tempo depois o fabrício apareceu na escola com um daqueles. desceu do carro do pai já chamando toda atenção pra ele. a gente chegava a pé. de chinelo. às vezes tinha arrebentado no jogo e se prendia remendando com um grampo ou um prego. tinha muitos que iam mesmo descalços pras aulas. mas de carro quase nenhum. só o fabrício mesmo a gláucia às vezes.

mas aquele tênis era fantástico. a gente seguia o fabrício o recreio inteiro pra ver. as cores o desenho. um amortecedor que o deixava mais veloz que os carros mais alto mais forte. mais bonito. a vanessa só quis conversar com o fabrício nesse dia. não teve pega-pega com o fabrício. mas se tivesse ninguém ia pegar.

fui pra casa encasquetado. cheguei nem tomei bença disse oi. só logo mãe preciso muito de um rainha system. sai de casa agora menino. e quando entrar de novo peça a bença. depois já passe reto e deixa a mochila lave bem essa boca. essas mãos. que o almoço tá pronto. depois cê vai cuidar do seu irmão que eu vou trabalhar na dona ângela.

os dias foram passando. o pus no asfalto. as unhas caindo. e um desafeto imenso foi me corroendo todo. meu caderno já não tinha mais cópia de nada da lousa. nem disputava mais as corridas de quem escreve mais rápido. que mesmo sendo corrida sem pés só com os olhos e as mãos sem meu rainha eu não podia. perderia tudo. não me casaria mais com vanessa. não seria bombeiro nem astrônomo nem feliz. meu caderno agora eram só desenhos de rainha. eu com eles em situações distintas. diversas delas.

eu de tênis.

quando peguei uma febre e não sarei com nada por sete dias nem com o benzimento da tia cicinha. nem compressa oração ou simpatia. o salmo sob o travesseiro. e emagreci feio enfiei os olhos pro fundo da cara com marcas e olheiras e a diarreia não parava. vovó perguntou à mamãe. o menino tá com vontade de quê.

mãezinha voltou do orelhão na praça da sorveteria e do ponto final do ônibus e levou uma sopa de bolacha na maior caneca de casa. sentou do meu lado na cama e enquanto eu resistia em comer ela me disse. rainha o quê.

system.

beijou minha cabeça pediu uns dias. e prometeu que trabalharia extra pra comprar um par. mas você precisa comer direito tudo. e sarar logo. tá muito magro perdeu escola. a mãe promete.

eu sarei na hora. copiava as matérias primeiro de todos. até do fabrício. passava o resto de tempo que os outros levavam para terminar desenhando ainda meu rainha. tive um impasse danado com as cores. quase deprimi. tive coragem de olhar e sorrir pra vanessa. pensei que poderia vencer qualquer asfalto com ele. os restos de massa batida a terra batida da rua de baixo tudo. os golaços que marcaria de calcanhar chapéu bicicleta. a invencibilidade no pega-pega o beijo na vanessa a inveja nos primos. e iam me contratar pra jogar profissional. gravar propaganda fazer novela. e eu ia ganhar muito dinheiro e tirar minha mãe do trabalho. comprar uma casa pra nós. muito maior com banheira e sem aluguel. com piscina e espaço pra ela plantar suas plantas. quantas quisesse. e um quintal grande pra um cachorro grande que vai no veterinário e tudo. tudo. e um carro me buscaria na escola para levar numa sorveteria bem melhor que aquela do bairro. eu e a vanessa.

tudo graças a ela. minha mãe. ela que afinal era uma rainha. isso sim fazia muito mais sentido que o tênis que devia ter outro nome qualquer. esse talvez fosse o seu único defeito. o único. o resto era perfeito. como mamãe. que era brava às vezes. triste às vezes. chata às vezes. mas era uma perfeita rainha. ela sim. minha rainha. eu tinha que agradecer pra sempre. e fazer tudo por ela. minha rainha. mãe.

e eu era seu príncipe. mas depois com meu tênis seria também o do mundo.

chegou num sábado e disse é hoje menino se arruma. ela tinha um sorriso de contentamento íntimo quase escondido. eu dei pulos de alegria tropecei na sala bati o dedinho no pé da cama dei um grito e pensei. com meu novo rainha isso nunca mais vai acontecer. me vinguei com esse futuro botei a camiseta do avesso minha mãe disse põe essa roupa direito e assim fomos.

o ônibus demorou uma vida inteira pra sair. depois outra vida e meia pra chegar no centro. aquilo fervia de gente. estava quente. as pessoas iam pisando no meu chinelo e no da minha mãe. a gente se atrapalhava um pouco no meio de tanta multidão e tínhamos que passar em outra loja antes. pagar primeiro um crediário.

nem vi as mesmas cenas que me impressionavam sempre. o sanfoneiro cego. o outro com elefantíase. a mãe banguela com lenço na cabeça e cada vez um bebezinho num braço com o outro estendo a mão em concha pelo amor de deus moço. pelo amor de deus moça.

e quando chegamos na loja de calçados aquilo parecia um templo. quatro andares com tudo de vidro. as vitrines brilhando os tênis todos reluzentes e os funcionários perfumados com cabelos penteados parecendo muito felizes com as camisas por dentro da calças. posso ajudar. pode sim a gente quer ver um rainha system pro meu filho. claro senhora e a gente sentou numa cadeira fofa e o cara subiu as escadas com uma classe impressionante e voltou lá de cima empilhando várias caixas de uma vez e foi demais. rapidinho estava ajoelhado aos nossos pés abrindo as caixas todas retirando seus papéis de seda amassados de dentro dos rainhas nos mostrando um por um. eram vários de três numerações distintas e cores e modelos e também preços variados.

provei até achar o número. depois provei até achar o modelo. mas precisava ser o mais barato e eu disse tudo bem mãe é lindo. aí provei até achar as cores foi difícil. mas quando deu botei o outro e fui andar pela loja. tinha espelhos pros pés por todos os lados. tanto brilho luzia de quase doer os olhos. as pessoas parecem que olhavam pra mim. os funcionários sorriam e quase queriam me aplaudir. minha mãe tinha um misto de satisfação e medo numa lágrima que não caía presa no olho esquerdo. aquele chão era tão branquíssimo e liso que eu parecia estar além deste mundo. no paraíso ou coisa assim. tudo era cheiroso. principalmente o meu rainha.

vamos pôr ele na caixa ensacar e é só retirar ali depois do pagamento muito obrigado senhora. posso parcelar abrir um crediário. com os documentos certos pode sim. obrigada. eu fiquei ouvindo aquilo tudo pensando que não queria devolver mais meu rainha pra caixa. moço. e eu não posso ir com ele no pé. ao fim de alguma conversa sobre febre e doença ele acabou compreendendo e eu pude. mamãe pegou uma fila entregou os documentos preencheram toda aquela papelada carimbo assina. depois tirou um tanto de notas bem dobradas de sua bolsinha para a entrada. pegou um cupom a sacola da loja com a caixa vazia. e começamos a sair juntos em direção à rua.

conforme fomos nos aproximando o barulho da rua me invadiu a mente. burburinhos de passantes sons de carros e buzinas arredores. microfones com locuções de promoção música eletrônica de fachada. o bafo de fora começava a anular os últimos suspiros do ar condicionado de dentro. avistei o chão da rua de pedestres. todo meio cinzento encardido com cocôs de cães de rua chicletes cuspidos e moles ao sol do meio-dia. pessoas se esbarrando sem querer entre discretas rasteiras pisadas nos pés. escarradas verde amarelas bitucas de cigarro um sorvete que caiu da mão daquela velha. tudo aquilo foi me causando um pânico e eu travei.

travei na saída da loja com meu rainha system ainda impecável e quando fiz o breque total ouviu-se aquele barulhinho típico dos tênis novos num chão lisinho. mamãe se voltou pra mim uns passos à frente pisando já na rua. disse e então menino como é. vamos ou não vamos para a casa. é hora do almoço e seu irmão está com a sheila já faz tempo.

não podia submeter meu rainha àquele mundo. era tudo muito cruel pra ele. aquele chão as ruas o jeito das coisas. e das pessoas. ele perderia seu cheiro sua cor intacta perfeita gastaria sua sola. talvez já pegasse um chiclete de cara. um cocô daqueles que envolvem todo o pé enquanto afunda e chegam mesmo a sujar as laterais do tênis. poderia ralar o seu tecido lindo nalgum pisão mais forte um meio fio mais áspero. numa manobra qualquer dessas muitas que temos que fazer no meio do povaréu.

pensei no asfalto da rua de casa. nos ladrões de tênis da cidade. nos rituais de batismo que se faz e de como ficou o rainha do fabrício depois deles. e das aulas de educação física recreios. pensei em tudo isso. e na vanessa não me querendo mais quando meu tênis se estragasse. meus empregos no futebol profissional e nas novelas. toda a fortuna e conforto que daria a minha mãe. minha rainha.

meu rainha. via tudo aquilo. e o medo me impedia de seguir. simplesmente me impedia.

mãe. você pode me levar no colo.

Rafa Carvalho é um poeta brasileiro que carrega em seu corpo raízes do mundo inteiro e a poesia como raiz de todas as artes e gêneros literários, como da vida em si. Soma 16 anos de carreira, com trabalhos em arte e educação por mais de 20 países. Integrou o coletivo Poetas del 15 Mayo na Espanha em 2011, tendo parte em sua antologia homônima. É autor de auto-mar (poesia; Editora Patuá) lançado no Brasil e em Angola; e contas de mar (contos; Editora Pontes). Finalista do Prêmio Sesc de Literatura, tem forte atuação social em sua comunidade periférica de origem e por onde esteja. Curador do projeto “papos de versos”, idealizador do Sarau da Dalva, é um forte representante do fundamento antropofágico e cada vez mais considerado por sua capacidade de criar pontes, entre o aparente incompatível.