autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

fragmento do romance inédito ‘Ensaio sobre a paisagem’, de Rodrigo Novaes de Almeida

NA CLAREIRA

Saio da frente da escrivaninha e deixo o escritório. Não é um dia bom para escrever. Decido que preciso andar e respirar o ar de outono da montanha. Desço a colina coberta pela floresta de pinheiros. Observo o rio, abaixo, serpenteando o vale e cruzando a cidade. O céu está sem nuvens. Não venta. Sigo por um caminho de terra, estreito, margeado por raízes delgadas. De repente, estou em uma clareira diante de um grande jequitibá-rosa, com tronco espesso, cujos galhos nus se torcem uns sobre os outros. É a primeira vez que faço esse caminho para ir à cidade, evitando a estrada principal. A visão da árvore solitária me remete à decadência e ao pessimismo (ou à consciência de o alto idealismo ter cedido espaço definitivamente ao ceticismo). De qualquer forma, restou-nos pouca coisa; para ser exato, restou-nos nada. Antes havia os deuses, o destino, ou a expectativa de propósito, e a civilização. E se no lugar dos deuses colocamos a nós mesmos, a partir da busca do autoconhecimento, o lugar, por outro lado, não desaparecera. O último ato da tragédia é esse homem desprezível em pé na clareira ante o espanto de reencontrar o sagrado. Mas já é tarde para ele. Já é tarde para mim. Já é tarde para todos nós. A nossa espécie não tem futuro. Sento-me sob o grande jequitibá-rosa. O céu continua sem nuvens. Não há sequer uma brisa. Recordo não apenas os fatos, mas também as frases que escutei e li um dia. As horas passam, anoitece, e não tenho mais certeza se estou acordado quando um homem com vestes arcaicas se põe à minha frente; ele se apresenta: Marco Túlio Cícero. Interrogo-o sobre o seu país e a sua república, e ele faz o mesmo comigo, e nos regozijamos da nossa mútua curiosidade. Ele aponta, então, para a abóbada celeste, que, da clareira, só podemos ver uma parte ínfima. Mesmo assim, ele diz, nunca deixa de surpreender o espetáculo dessas pedras siderais, cujas magnitudes nunca pudemos conceber. Eu concordo e, ao mesmo tempo, me entristeço. Cícero percebe e me pergunta o motivo de eu ter ficado triste. Eu respondo que li as suas obras, conheci os seus pensamentos e a sua filosofia, e muitos que vieram depois dele o leram e o conheceram, e nos importamos com o que ele disse, e fizemos tantas coisas inspirados em suas palavras, mas, concluo, agora é tarde, erramos, fomos longe demais, perdemos tudo, a eternidade das nossas ideias e a imortalidade das nossas almas, e logo a espécie deixará de vagar, errante, por este mundo e não chegará aos outros lá fora — e aponto para o alto.

A visão desaparece, então desperto em meu tempo infinito e desisto de ir à cidade. Eu retorno para casa.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

st. Christopher’s Inn, Rosa-Luxemburg-Platz, de Thais Lancman

capa_lancmanTudo de valor fica em um pequeno armário de madeira, pouco acima dos meus pés. Há anos não durmo em beliche, quanto mais um triliche. Quase bato no teto. A mala fica aberta mesmo, no chão, como todas as outras, as tripas de roupas expostas, escorrendo, como se mulheres automaticamente fossem confiáveis. Mulheres meninas que pagam quinze euros a noite, café incluso, uma porta com senha que as isola dos outros.

Dez da noite e lá fora os postes de luz parecem fornecer uma iluminação redundante. O dia faz sombra no trecho de céu visível em uma janela comprida e alta, antecipando que as cortinas farão falta na hora de dormir. O cheiro de esmalte que vem da cama de baixo. Uma menina pinta as unhas, vejo na fresta entre a cama e a parede. Outra dorme do lado oposto à nossa cama. Já ou ainda? Não sei.

Uma sirene escandalosa me tira de um marasmo cheio de culpa por estar fechada em um quarto na cidade em que piso pela primeira vez, viajando sozinha pela primeira vez. Pego a cerveja grátis a que tenho direito no bar do albergue e, como sou a única cliente, é minha única bebida. Garrafas de vidro se espatifam no chão a todo instante na rua. Quero sair para quebrar a minha garrafa também, mas volto para o quarto, espatifo a garrafa em um cesto de lixo do corredor, volto para a cama elevada com o teto me claustrofobizando.

A menina de baixo fala ao telefone e reconheço que fala em francês não pelas palavras, mas pela ausência de silêncio entre elas, com um zumbido de boca semiaberta persistente. Em outro canto, a conversa entre duas garotas que não aparentam mais de vinte anos soa como uma gravação tocando ao contrário. Sueco? As três passam a interagir, agora em inglês, jogando nomes de festas e bares com naturalidade. Assisto do alto, e contra a luz das luminárias apontadas para cada cama — não há iluminação direta no dormitório — as cabeças magras parecem raspadas. Ossudas. Incomodada, desvio o olhar.

As malas são diversas como as fisionomias. Uma tem grossas peças de tricô, outra é uma bagunça babando roupas pelo chão. Pequenas, enormes parecendo serem de alguém de mudança, a minha é vermelha fechada, incomunicável, um coração hermético. A enorme coincidência de estarem todas ali, de estarmos reunidas, minha mente transatlântica faz o caminho inverso e leva a bagagem a seu local de origem, em trens, trilhos de outra época cruzando a Europa e chegando naqueles beliches, naquelas promessas. As malas como que voam aos locais de origem, a embarques, ao seu preparo em casas cuja arquitetura desconheço.

Chega a garota polonesa enrolada em uma toalha. Se troca com as costas para a parede, esquálida, reluzente como a lua. Ao vestir seu pijama, procuro uma estrela amarela no seu peito de forma quase instintiva. Uma bobagem, penso, não porque estamos em dois mil e quinze, mas porque ela não pode ser judia e polonesa, é improvável demais. Os alemães venceram, disse a minha orientadora uma vez. Seis milhões, ou melhor, para ser minimamente acadêmica, talvez algo próximo a cinco milhões e meio.

Em dois dias começa o curso, então não mais menina francesa, polonesa, as suecas e suas mochilas minúsculas de ar infantil. Suas calças sarcásticas, a ansiedade delas em estarem no epicentro do deslocado, ideia da qual compartilho, mas algo no final me segura. A sirene escandalosa. Culpa, tudo envolto em um mar de culpa, uma pororoca de ressentimento dos alemães e seu monumento grandioso e asséptico, eu e minha cerveja, minha curiosidade em saber onde compro aquelas mochilinhas. Demonstro interesse naquela conversa que se desenrola em um inglês truncado, perdida naquelas vozes, nos móveis de madeira, estilhaços, beliches beliches beliches gente empilhada, acumulada na Europa em quartos imensos, trabalhos forçados, judeus carga, judeus entulho, judeus nada. Tenho vergonha dessa comparação idiota, mas imagino que ela foi prevista por meus avós, tão contra qualquer viagem à Alemanha, terra dos nazistas, dos yekkes, para mim um mero objeto de estudo no qual aprendi a mergulhar e agora me sentia submersa, de outro jeito, na Berlim dos desmandos, nas leis arianas, estou pronta, de pé, jaqueta grossa, curta e moderna, parte de mim quer ouvir um convite das garotas e outra, tem um surto de coragem para encarar a cidade sozinha, e ela que vai, passa o cartão para abrir a porta, se encolhe no vento frio, atravessa mundos, turcos e seus döners, o prédio onde David Bowie viveu em Charlottesburg, faz fotografias e torce para não ser pega no metrô sem catraca, desiste do metrô e caminha.

Para chegar a uma fábrica, pessoas em fila aguardam benevolentes. Guardas gritam com elas em alemão, quem não responde já é despachado para outro lado, fumaça. Quando chega a minha vez, atravesso fazendo sinais com a cabeça. Me revistam no escuro, recolhem meu telefone celular, todos empilhados em um canto, penso nas posses desprendidas de seus donos para todo o sempre, aqueles amontoados de sapatos cor de terra e um salpicado de vermelho, azul com salto, verniz. Me devolvem o telefone com um adesivo na lente da câmera, agora aquilo ficará entre nós, o que está por vir e a minha confusão proposital, que eu carrego como as panelas, aquilo que se pegava antes de nunca voltar à casa, não sabendo para onde se vai, mas com a certeza de que vai cozinhar. No fundo, se sabia para onde ia, e que lá não haveria o que comer.

Aprender a viajar, a andar por corredores escuros de todos os tipos sem saber o que vai surgir no final, é como essa música, dentro dela há tantas mais. Um espaço enorme, o da fábrica, escuro e cheio de sons graves que vão escavando de mim a visão das meninas carecas, fazendo um rombo, me fazendo expurgar essas imagens em um espasmo, em movimentos como os de uma vela, é o que manda os livros sagrados, ler e se mover como a chama de uma vela, e assim fecho os olhos, me movo, gravidade, escuridão.

Transpiro, penso em câmaras de gás escuras e nos gritos, em como eles seriam, o choro coletivo e o silenciamento que vem com a morte, se eu tentaria fugir escalando pessoas ou me recolheria em um canto esperando cair desacordada, pesquiso quanto tempo levava, lembro de algum filme, agora é difícil não pensar em cinema, e não quero nenhum lugar mental em que não seja verão. Filmes de Segunda Guerra sempre se passam no inverno. E, de repente, me vejo sem estação do ano definida naquela fábrica, olhos abertos, meninas japonesas se aproximando de mim em movimentos sincronizados mas não idênticos, me resgatando de algum breu mental para me integrarem a algum ato coletivo de redenção, de fé no nada. O livro de comemoração de cinquenta anos de relações entre Alemanha e Israel é “nós não nos esquecemos, nós dançamos”. Ouço vozes em hebraico, mãos me tocam no escuro, os dois grandes templos do passado deviam ser assim, negros.

Sou arrastada para uma colmeia imensa de concreto, escalo três alvéolos para chegar a um rosto convidativo. O fetiche dos empreendimentos humanos, sempre prontos para se tornar outra coisa. Outros corpos, línguas, buracos em que se escondem fórmulas mágicas de desaparecimento, a fábrica se mostra em fundição de matéria anônima, fluidos, nenhum idioma que precise ser reconhecido. Volumes chacoalhados naquele espaço dois metros por dois metros, no fundo é um só fetiche, o do sol nascente na volta para casa.

Não há gritos ou gemidos, apenas a respiração alta daquele organismo coletivo, de onde é parido um rosto e um corpo musculoso, que se vira e simplesmente sai do casulo sem dono ocupado por nós. Enorme, loiro, ajeitando a bermuda preta, camisa e em quepe, busco algo como o distintivo da SS em qualquer parte, em pé, ele é gigantesco e opressor. Não consigo me mexer, observo meu suor pensando que enquanto ele estiver lá, estou salva do extermínio. Que aquela colmeia é o meu bunker, a casa em que só posso me mexer à noite, quando os hipócritas dormem. Me pergunto se chegarei no albergue e minhas coisas estarão sendo leiloadas, se não deveria ter vindo.

Tenho certeza que assim vai ser. É assim na Alemanha, terra que não correspondeu ao amor que os judeus tiveram por ela. E aqui estou eu, com os restos desse amor, não, com um sentimento do rejeitado bêbado, saindo do meu trabalho forçado na fábrica, tentando cantar alguma canção, ter a bissale mazal e ainda ver minha mala me esperando ao lado do triliche onde eu e tantas fomos jogadas.

Ou posso driblar a sorte, jogar no inesperado, fugir do delírio nazista pois não existe sol nem calor no extermínio. Primeiro é encarar o medo de comprar um bilhete no metrô, basta apertar alguns botões, não é nem medo que devia se chamar essa insegurança. Os trens de Berlim cruzam a cidade e já cruzavam quando Hitler subiu ao poder. Chego a Wansee antes das cinco da manhã, com uma garrafa de Club-Mate na mão. A casa-museu está fechada mas lagos não fecham. Lago pois See é lago em alemão, um falso cognato. Wansee nomeia a conferência na qual a decisão final se consagrou. O local visto de fora é apenas uma casa de veraneio e assim que o verei para sempre, do início daquele longo verão para a eternidade. Sigo para a água, nua como os alemães, os nazistas. Água fria com vista para A Questão Judaica, parada, inerte, congelada no tempo, com memória de mineral, resquícios daqueles dias, de todos os verões que nos separam.

A água dos campos correu para onde? Só se vê a fumaça antes da dispersão. A água tem que estar em algum lugar, chovendo sobre nós, em fontes tão puras, esgotos pestilentos. Mergulho e seguro a respiração até não aguentar mais, assustada por mais que eu saiba que é impossível alguém morrer afogado dessa forma. Me seco ao sol, o mesmo sol que deve acordar as vizinhas dos beliches do meu quarto, que nina meus cúmplices de bençãos na fábrica, o sol de outrora.

| conto do livro Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá, 2020). |

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo, onde vive. É doutoranda em Letras pela Universidade Mackenzie, onde estuda a relação entre arte contemporânea e ficção. Além de Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá), publicou Palito de Fosfeno (Editora Reformatório) e, em breve, lançará Meu ano Flávio de Carvalho.

ata de reunião, de Luís Fernando Amâncio

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Ata de número 137 da Reunião Ordinária do Conselho de Diretores da Empresa Encaixota Brasil, realizada no dia 05 de fevereiro de 2019, na sede, na Sala de Reuniões da empresa, localizada na Rua Raja Gabaglia, 1654, Belo Horizonte.

Estiveram presentes o presidente da empresa, Sr. Adalberto da Costa Guimarães; o vice-presidente, Sr. João Vicente Coelho Ventura; e os seguintes diretores: Sr. Ricardo Almeida Távora, Sr. Júlio Camargos, Sra. Vera Maria da Silveira, Sr. Felipe Leite da Costa Guimarães e Sr. Henrique Lezgrinowith. A reunião contou também com a presença do Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, que compareceu ao encontro para apresentar a planilha de gastos do ano de 2018.

Marcada para iniciar às 14h00, a reunião se iniciou efetivamente às 14h35 minutos — afinal, só precisam ser pontuais nessa empresa os trabalhadores rasos, os palhaços do baixo clero, como este que escreve a presente ata. Que, é importante frisar, chegou meia-hora antes, ajeitou a disposição das cadeiras, ligou os equipamentos multimídia, ajustou o ar-condicionado e ficou esperando a reunião ser iniciada. Este redator, também é válido destacar, tem uma mesa repleta de trabalhos que precisam ser feitos com urgência e será cobrado por isso. Justiça seja feita à Sra. Vera Maria, sempre correta em relação aos horários. Às 14h00 em ponto, ela chegou à sala de reuniões, com toda a elegância, tablet em mãos e cara de quem comeu e não gostou. Como lhe é habitual. Com todos os membros da diretoria presentes, o Sr. Adalberto da Costa Guimarães, presidente da Encaixota Brasil e, não por acaso, seu acionista majoritário, deu início à reunião, que teve a seguinte pauta:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018;

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa;

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos;

Informes gerais:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018. Após conversarem livremente sobre assuntos diversos, como se já não estivessem atrasados — ou talvez implicância deste redator, e seja importante saber das férias do Sr. João Vicente, na Itália; as dicas de restaurante do Sr. Henrique ou as previsões políticas do Sr. Júlio —, o Sr. Adalberto perguntou se todos haviam recebido a ata da última reunião. Após respostas afirmativas, o Sr. Adalberto perguntou se havia comentários a serem feitos e sugestões de alterações para o texto. A verdade é que nenhum desses diretores lê essas malditas atas, estão cagando para essas formalidades, então eles concordam, dizem que não precisa de alteração. Esse documento só serve para ser arquivado, torcendo para que nenhuma auditoria o desenterre do fundo de uma pasta. Mas o Sr. Ricardo Almeida Távora, um maníaco por gramática, lê. Ele pediu a palavra e começou a listar uma série de deslizes que este redator teria cometido. Alguns comentários pertinentes, reconheço, mas a maioria dos apontamentos não passa de picuinha linguística. Já foi registrado neste documento, porém não custa ressaltar, a mesa do redator está repleta de urgências. O Sr. Ricardo, quase septuagenário, o veterano da diretoria, estudou Letras. “Sou um apaixonado por latim”, segundo suas palavras. O decano pediu desculpas pelo nível de exigência, mas, com um sorrisinho asqueroso, disse que seus “olhos doem com alguns delitos contra a língua portuguesa, é um vício meu”. Deve ser o único divertimento do velho. Puto. Já que gosta tanto de gramática, por que não vai dar aulas em escolas públicas e compartilha seus enormes conhecimentos com a juventude? Certamente, é mais divertido humilhar o redator da ata, lembrá-lo de seu lugar subalterno. Após longos minutos desse exibicionismo intelectual, o Sr. Adalberto perguntou a todos se a ata, com as alterações sugeridas pelo Sr. Ricardo, poderia ser aprovada. Com o consentimento de todos, o documento foi aprovado por unanimidade. Este redator, que já tem trabalho suficiente, irá fazer a revisão do documento.

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa: após uma nova dispersão, pois o Sr. Felipe entendeu que era pertinente mostrar os vídeos de seu filho de dois anos — embora, é preciso registrar, o menino realmente seja fofo, apesar do pai —, o Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, iniciou sua apresentação sobre os gastos da empresa durante o ano de 2018. Embora seja chefe de setor, o Sr. Guilherme não é um desses nefastos cardeais, está na luta pela sobrevivência como todos nós. Ele fez a competente exposição, usando o projetor, com planilhas bastante detalhadas. A luz apagada para a projeção, porém, fez alguns membros da direção cochilarem ou se distraírem no celular. Tamanho o respeito pelo trabalho alheio. As planilhas serão anexadas a esta ata. Após a exposição de cerca de 30 minutos, o Sr. Adalberto passou a palavra aos membros do Conselho de Diretores. A Sra. Vera fez algumas observações, tirou algumas dúvidas e mostrou que não estava cochilando durante a apresentação. O Sr. Felipe — e, confesso, dói escrever “Sr.” antes do nome deste cidadão, um playboy que, se não fosse filho do dono da empresa, teria sérios problemas em qualquer função devido à sua inépcia nata —, fez perguntas irrelevantes. O Sr. Ricardo questionou alguns gastos, porque ele gosta de causar. Durante as perguntas, a Srta. Marília, nova copeira da empresa, entrou na sala com café e pães de queijo. Enquanto ela estava depositando a bandeja na mesa, muitos dos diretores lançaram olhares devassos sobre seu corpo e emitiram, sem pudor algum, comentários elogiosos à sua saúde, digamos, para registrar de uma forma elegante. Tal é a avacalhação da reunião. O Sr. Henrique Lezgrinouwyitchakjlndfakjdsjf — sobrenome confuso da porra — ficou recentemente solteiro e particularmente empolgado. A Sra. Vera, não podia ser diferente, ficou bastante constrangida. Os membros do Conselho de Diretores, sem poderem fazer o mesmo com a Srta. Marília — ao menos, não agora —, atacaram os pães de queijo. O Sr. Adalberto, dada a dispersão do encontro, agradeceu a presença do Sr. Guilherme e encerrou a discussão do ponto de pauta.

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos: o Sr. Adalberto afirmou que, conforme é tradição, a empresa será representada no XII World Boxes Manufacturers Conference. Devido à recessão econômica, porém, neste ano, apenas um representante será enviado. O presidente da empresa disse que, em razão de compromissos familiares, não poderá viajar, deixando a oportunidade a algum outro membro da diretoria que se dispuser. Os Srs. Felipe e Henrique se propuseram a representar a empresa. Para resolver o impasse, o Sr. Adalberto decidiu que, neste ano, o Sr. Henrique irá à conferência, uma vez que ele nunca teve esta experiência. O Sr. Felipe, notadamente, não ficou muito satisfeito — vai reclamar com o papai, vai. Dada a afobação do Sr. Henrique com a copeira, este redator especula mentalmente se San Diego é próximo de Las Vegas.

4) Informes gerais. Houve muita conversa paralela, como de costume, mas não houve nenhum informe. Às 16h20, o Sr. Adalberto, exercendo sua função de presidente da empresa Encaixota Brasil, encerrou a reunião, agradecendo a presença de todos. O próximo encontro será no início de junho, com data a ser definida. Eu, Flávio de Carvalho Pedroso, exercendo minha função na secretaria da pocilga, lavrei a presente ata, que será assinada por todos, mas não será lida por ninguém, pois o Sr. Ricardo, aquele mala da gramática, estará de férias em junho.

Belo Horizonte, 05 de fevereiro de 2018.

Luís Fernando Amâncio é historiador de formação, escritor por teimosia, mas paga as contas trabalhando no serviço público. Em 2014, publicou seu primeiro livro, Contos de autoajuda para pessoas excessivamente otimistas. Primeira antologia do autor, o livro foi um dos selecionados em premiação promovida pela Editora LiteraCidade. É colunista do site Digestivo Cultural desde 2015. Em 2020, publicou O voo rasante do pombo sem asas pelo selo Isadora Books. “Ata de reunião” é o conto que encerra a antologia.

a marionete, de Ary Quintella

Toda a minha vida transcorreu no exílio. Parti aos três anos de idade e nunca mais revi a pátria.

Meus pais pareciam se amar; assim pensei, ao menos, durante muito tempo. Obrigada pela família a se separar de meu pai e a retornar a seu país, minha mãe levou-me com ela. Nunca mais voltei a casa e nem revi meu pai ou a família dele. Minha mãe logo apaixonou-se por outro homem, com quem se casou quando meu pai morreu. Um dia, descobri que ela tinha dois filhos com esse segundo marido, nascidos antes mesmo de meu pai morrer. Ela foi morar na Itália, deixando-me para trás, aos cuidados de meu avô. Aconteceu de eu ficar meses, anos seguidos sem vê-la. Viúva uma segunda vez, minha mãe casou-se novamente. Houve rumores também de amores passageiros.

Meu avô me amava. Era meu padrinho. Eu era seu neto mais velho. Nunca nada me faltou. A não ser, é claro, os meus pais e a liberdade. Muitas vezes, pensei sobre a personalidade de meu avô. Homem ligado à família, sério, sóbrio, amoroso, ao mesmo tempo não hesitava em determinar o futuro de seus filhos, e o meu, sem nos consultar. Quando minha mãe tinha 18 anos, meu avô deu-a, literalmente, de presente ao meu pai, pensando nos benefícios que assim obteria. Um dia, passou a considerar a ruína de meu pai como mais condizente com seus interesses e para ela contribuiu.

Minha mãe, bela, jovem, frívola e leviana, não era má. Apenas, era fraca e deixou-se sempre levar pela vida, sem vontade própria, atrelada às estratégias de sobrevivência de meu avô. Ele fez o casamento dela com meu pai; ele ajudou a arruinar meu pai e fez a separação dos dois; ele a mandou para a Itália. Em muitas dessas decisões, meu avô escutava um conselheiro seu, que não queria bem nem à minha mãe e nem a mim.

Recebi uma educação esmerada. Dinheiro e prestígio não eram escassos. Todos veneravam meu avô, homem alto, magro, distinto e próspero. A ruína de meu pai deu-lhe novo sopro de vida e incremento de respeitabilidade. O que poderia parecer imoral — a derrocada de um genro em parte graças à atuação do próprio sogro — foi tomada por todos como algo natural e louvável.

Não tendo nunca mais visto meu pai após os três anos de idade, cresci sem lembrança sua. Sei apenas que ele me amava e que meu nascimento representou uma vitória pessoal, a coroação de sua trajetória. Eu era o seu reizinho. Ele também foi degredado, em condições porém mais difíceis do que as do meu exílio. Morreu quando eu tinha dez anos.

Chorei muitíssimo quando me deram a notícia. Embora meus familiares tenham sempre evitado enaltecê-lo, e seu nome, frente a mim, fosse tratado como um tabu, eu sabia que meu pai não era um homem comum. Ecos de suas glórias passadas chegavam aos meus ouvidos. Alguns anos mais tarde, pude ler sobre ele. Sua imagem me apequenou. Senti-me frágil e inútil diante de sua energia, sua fama e sua forte personalidade. Entendi melhor, ao mesmo tempo, a razão para a minha gaiola dourada. Seria impossível, filho de um homem assim, não querer seguir seu exemplo, se eu tivesse liberdade para fazê-lo. O conselheiro de meu avô nunca o permitiria.

Li a obra de um homem que compartilhara o degredo de meu pai e na qual narrava as conversas mantidas com ele. Ali está registrado o seu amor por mim. Senti grande revolta pelo mundo. Minha mãe o abandonara, embora tivesse professado amá-lo enquanto conviveram. Meu avô traíra laços familiares ao lutar contra o próprio genro. Seres que haviam lucrado com o sucesso de meu pai decidiram esquecê-lo. Entendi que o único sentido da vida é ela não ter sentido. Ela faz de nós suas marionetes. Percebi a melancolia da minha situação de exilado, prisioneiro abastado e privilegiado, vivendo com meus parentes maternos, mas levando uma existência distinta, menos exitosa, da que me fora prometida no berço.

Tive amigos, tive amores. Vi a neve, vi o sol. Senti frio, senti calor. Vivi como a maioria das pessoas de minha classe social. A vida é decepcionante, mas não é sempre triste. Há momentos de alegria. Havia sempre em mim, porém, o sentimento de que a vida me pregara uma peça, de que ela não havia seguido o curso previsto, aquele sonhado para mim pelo meu pai.

Um dia, descobri-me tuberculoso. Percebi que minha morte iminente seria um alívio para os parentes de minha mãe, embora eles talvez me amassem. Eu simbolizava um tempo menos edificante de suas vidas, em que haviam sido humilhados por meu pai e, depois, haviam dele se vingado. Provavelmente, viam-me também com incompreensão: embora fisicamente um homem semelhante a eles, eu era também diferente, potencialmente ameaçador, apesar de minha inocência. Imaginei que, para os parentes de meu pai, que eu não conhecia e que viviam longe, minha morte seria motivo de tristeza. Essa ironia doeu, de que minha existência valesse mais para o lado familiar que não me via desde os meus três anos. Entendi ser isso parte da ordem natural das coisas. Compreendi que eu era, apesar dos atrativos físicos, e do temperamento dócil, uma aberração. Simplesmente, não havia lugar no mundo onde eu pudesse me inserir.

Recebi a espada legada a mim pelo meu pai por testamento. Era a espada que ele usara na batalha de Austerlitz, a mais mítica de todas, e na qual derrotara meu avô e o tsar da Rússia. Oficial do exército austríaco, examinei com orgulho esse símbolo da supremacia francesa.

Em Viena, uma vez, apresentaram-me a Wellington, de passagem pela cidade. O duque inglês, eu soube depois, fez elogios a meu respeito, dizendo que eu fora com ele perfeitamente educado e correto. Não havia razão para que eu não o fosse. O vencedor de Waterloo, iludido, pensava realmente ter derrotado meu pai. Ele não entendera que fora apenas o instrumento usado pelo tsar da Rússia, o rei da Prússia, meu adorado avô e o governo britânico para livrar-se de Napoleão.

Moribundo, pressenti que o ato de morrer me engrandecia. Era melancólico viver como cidadão austríaco, se eu nascera príncipe francês e destinado a reinar sobre a Europa. Viver na Áustria, sendo filho de Napoleão.

Morri aos 21 anos. Meu avô declarou a seu conselheiro que minha morte, embora motivo de tristeza para ele, era um alívio para mim e para o mundo em geral. Minha mãe, que viera da Itália para me ver, estava ao meu lado. Enterraram-me na Áustria, ao lado dos meus antepassados maternos.

Cem anos depois, outro austríaco — este odioso, monstruoso — desenterrou-me e levou-me para Paris, onde depositaram meus restos ao lado dos de meu pai, em um jazigo grandioso. Ambos monarcas destronados, degredados, ambos mortos no exílio, saudosos um do outro, terminamos juntos, ambos repatriados após a morte. Meu coração — falo do órgão vital, não de um sentimento — separado do corpo, ficou em Viena. Teria preferido que, em vez do resto do corpo, tivesse sido levado para Paris o coração, pois ele sempre fora, secretamente, francês.

Nasci rei de Roma. Por alguns dias, na infância, fui oficialmente imperador dos Franceses. Terminei como duque de Reichstadt. Na França, fui Napoleão II. Na Áustria, chamaram-me Franz — nome de meu avô, imperador da Áustria.

Na vida, todos terminamos perdendo. Os exílios em Santa Helena e em Viena pouco importavam. Eram apenas castigos físicos. O grave é o degredo emocional. Todos somos exilados de nós mesmos, tendo de sobreviver afastados de nossas aspirações, nossos sonhos, nossas ambições.

Com minha morte, tão jovem, eu criava minha própria lenda, menos grandiosa do que a de meu pai, mas romântica e inesquecível. Victor Hugo e Edmond Rostand celebraram minha vida e meu estranho destino. Impedido de dominar o mundo, entrei na mente dos homens. Como acontecera com meu pai, o exílio e a morte consolidaram meu mito.

Mortos, realizamos nossos sonhos e vencemos o degredo.

Ary Quintella é diplomata. Embaixador na Malásia. Publica seus ensaios em aryquintella.com

dormente, de Carla Guerson

Levanto os olhos e ele ainda está aqui. Parece estar dormindo. Minha perna debaixo da dele está dormente. Tento puxar, devagar, a dor da perna tentando despertar. A dor de quem acorda de um sonho ruim, todo o corpo teimando em não corresponder.

As memórias da noite ainda estão frescas na mente de quem não dormiu. Esperava que os primeiros raios de sol apagassem o que eu não soube assimilar. Os gritos presos na garganta, as lágrimas soltas no travesseiro, o sêmen derramado no lençol. O pulso arroxeado, o não dito repetido, repetido, repetido.

Com dificuldade, me levanto, a mente ainda embaçada pelo vinho, que volta à garganta, parece não querer ficar dentro do meu corpo. Eu também não quero ficar dentro do meu corpo.

Para onde ir?, pergunto à perna, ela não responde. A dor dilacerante que não me deixa esquecer por um segundo tudo o que havia acontecido. Do lado de fora do quarto, a vida acontece como se esquecesse. Um barulho ensurdecedor.

Busco sentido na correspondência em cima da mesa da sala de jantar. Não encontro também em nenhuma parte da cozinha, na gaveta de talheres milimetricamente organizada, na estante de temperos que eu mandei fazer sob medida, como meu vestido de casamento, como a toalha para a mesa oval que sempre sonhei e demorei muito para encontrar, até que achei e agora está linda, quieta, ornando a sala de estar.

No quarto, o barulho me avisa sobre o homem deitado. O ronco do homem que dorme um sono sem sobressaltos, embalado pelos meus sonhos despedaçados. O homem com quem me casei, que me escolheu, me prometeu, o homem que se esqueceu de ter sido aquele por quem me apaixonei. O homem que me machucou. Me estuprou. Mais uma vez.

Da janela eu vejo os carros passando, naquela rua movimentada que um dia eu frequentei. Fecho a janela sem suportar a ideia de que o mundo pode continuar quando dentro de mim tudo está dormente.

A perna chama, quer acordar. Eu prefiro que não. Sento na mesa da cozinha, de costas para o relógio de parede que insiste em se movimentar. Tento respirar o mais devagar possível, para que o ar deslocado não atrapalhe esse equilíbrio complexo que a inércia é capaz de provocar.

Devia eu fugir? Ficar, discutir, confrontar, esquecer? Devia eu questionar, mais uma vez, quando foi que o sim virou não e quando foi que o não pareceu sim, e quando foi que sim ou não passaram a não fazer a menor diferença?

Se tudo o que restou é esse barulho que não me deixa escutar nada além. Se a pessoa que está ao meu lado não quer estar ao meu lado, quer estar em cima de mim e atrás de mim, não quer saber mais onde eu estou, só quer saber onde ele está, onde está ele, não, sim, não sim, agora, dentro, fora, onde está ele, ele, ele, ele, ele.

Até que não exista mais nós e só exista ele.

Não existe mais nós.

Não existo mais.

Qualquer mínima centelha e sei que tudo pode estourar.

Traço um plano. Respiro fundo. Penso em arrumar a cama, lavar os lençóis. Tirar esse cheiro das minhas narinas, da minha pele. Da minha alma. A perna não se move, o silêncio não se move, ainda não consigo fazer o barulho parar.

Digo para mim mesma, em voz alta, prefiro que tudo fique como está. No mesmo lugar.

Não há mais para onde ir. Eu só preciso esperar. E não acordar.

Carla Guerson é feminista, escritora, leitora compulsiva, uma apaixonada por narrativas. Escreve contos, poemas e crônicas, publica em revistas literárias e no seu perfil: https://carlaguerson.medium.com/

jimmy spring, de Juliana Garbayo dos Santos

A fila de formigas atravessa toda a varanda, passo o dedo entre elas, espalho o rastro que elas deixam. Catarina me ensinou, elas se orientam soltando um cheiro no chão. Mas essas formigas não se abalam com meu dedo atrapalhando o caminho, algumas carregam pedaços de folhas, vão apressadas pro formigueiro. Às vezes tento ajudar, tiro a folha dos seus ombros, deve ser tão pesada pra elas e pra mim é tão leve. Vai, formiga, continua andando, eu levo a folha pra você, não adianta, elas ficam confusas e saem da fila. Outras vezes sou menos boa, esmago uma com o dedo e observo as amigas se juntarem para carregá-la nas costas, como numa ambulância. Catarina diz que elas não estão se socorrendo, mas levando a formiga ferida pra virar comida. Não sei se acredito. Quando estou má, queimo algumas com o fósforo. Formo um montinho com seus corpos. Quando o monte fica grande que baste, levo para o quintal de trás e faço um enterro. Meu pai balançando na rede, para com isso, Luísa, olha que as amigas delas vêm à noite picar você. Ele sempre diz isso, mas nunca acontece. No jardim dos fundos cavo um buraco na terra com o palito de picolé, enterro as formigas queimadas, boto uma flor por cima, me ajoelho e rezo pelas suas almas. Depois o vento carrega a flor e nunca mais sei onde elas estão enterradas, depois a noite chega e na hora de dormir sinto um breve medo de as outras formigas virem me picar, mas logo esqueço e adormeço entre as mãos de Vick Vaporub do meu pai nas minhas costas e as risadas da Catarina ao telefone. Desde que arrumou um namorado ela fica horas rindo ao telefone, às vezes quero saber o porquê de tantos risos, mas enquanto ela ri meu pai massageia Vick no meu peito e isso é mais gostoso do que rir com a Catarina. Minha irmã mais velha, minha única irmã, bonita, grande, mais forte do que eu. Quando ela sai mexo no seu armário, experimento seus cremes e tento andar de skate segurando na borda da cama, mas sempre caio no chão. Catarina me dá dicas importantes da parte do mundo que ela conhece e eu não, no caderninho anoto tudo o que ela diz, desde quando minha letra não passava de garranchos com erres e jotas invertidos e carinhas desenhadas nos os. Tudo que minha irmã me diz e acho útil pra vida, anoto: “nunca atenda o telefone na primeira chamada”, “para iluminar a pele passe leite com mel no rosto e deixe por dez minutos”, “o mar cura as feridas porque tem iodo”, “nunca mostre medo na frente de um cachorro, eles farejam o medo”, “ande olhando para o alto, só os losers andam olhando pro chão”. Loser, uma das palavras preferidas da minha irmã, antes de entender o que era, eu já sabia que não queria ser uma, por isso andava sempre olhando pras nuvens e pras copas das árvores, mesmo com medo de pisar em algum buraco ou em cocô de cachorro. Por isso quem achou o Jimmy caído no chão foi a empregada e não eu, íamos voltando do mercado e passei reto pelo pato quase morto no chão, mas a Cida viu e chamou: olha, Luísa, um patinho! Nossas cabeças se juntaram para olhá-lo de perto: um filhote de pato pequeno, azulado, tremendo, de olhos fechados, caído na grama. Ele tá com frio, Cida!, aninhei o pato nas mãos em concha e enfiei no bolso do casaco, vou cuidar de você, vou te esquentar, rápido, Cida, vamos pra casa, ele tá com frio.

Chegar com o pato em casa foi um rebuliço, meu pai dizia que devíamos ter deixado ele lá, que a mãe devia estar procurando o filhote, mas Cida disse que tinha olhado muito bem e que não tinha pato nenhum por lá, pelo contrário, tinha era umas gaivotas voando e esperando a hora de comê-lo, batizamos o patinho de Jimmy Spring e minha mãe arrumou uma caixa de sapatos e um abajur para mantê-lo aquecido. Quando o tirávamos da caixa, ele empurrava o chão com a perna direita, mas a esquerda quase não se mexia e ele acabava rodando em círculos. Tadinho, tem a perna paralisada, por isso a mãe o abandonou, diagnosticou Catarina, e começamos todos a pesquisar as causas de paralisia da pata nos patos, todos menos eu que ria do trocadilho e Cida que voltou à cozinha pra terminar o almoço. Foi acidente, é vírus, é defeito de nascimento, é falta de vitamina B, fui com meu pai comprar complexo B na farmácia e uma seringa para colocar água, comida e vitamina no bico de Jimmy, fomos na loja de animais, mas não tinham nada para patos, o dono sugeriu ração para pintos amolecida em água morna ou mingau ralinho de arroz.

Jimmy na caixa só queria ficar encolhido embaixo da luz acesa: não comeu, não bebeu água, só uma vez abriu os olhos para nos olhar. Estudou cada rosto com curiosidade e um traço de afeto, pareceu que ia se animar, mas deitou de novo na caixa e fechou os olhos. Respirava acelerado e, enquanto meu pai procurava um veterinário que atendesse patos, começou a jogar a cabeça para trás, esticar o pescoço e as pernas e ficar duro como uma pedra, ele tá tendo convulsão, explicou minha mãe, e segurou o Jimmy com firmeza para evitar que ele quebrasse o pescoço. Em pouco tempo não podíamos mais soltá-lo: as convulsões eram cada vez mais longas e menos espaçadas, até que no fim de uma delas minha mãe olhou para a gente e, ainda com as mãos fechadas em torno de Jimmy, anunciou: o coraçãozinho dele parou. Catarina e eu choramos, mas enquanto eu chorava de tristeza, as lágrimas dela saíam com raiva: por que, mãe, por que Deus fez a Cida achar o Jimmy se era pra ele morrer? Minha mãe sentou na cama e segurou suas duas mãos, depois a puxou para perto em um abraço e Catarina chorou mais ainda. Então minha mãe puxou a mim também e, com nós duas sentadas lado a lado na cama, nos olhou de um jeito estranho que era um misto de amor, pena e paciência: vai ver Deus fez isso pra ele não morrer sozinho e triste no frio. Já pensaram? Pelo menos ele morreu no quentinho, dentro da nossa casa, aqui na minha mão, no meio de todos nós. As palavras da minha mãe foram fazendo sentido aos poucos, conforme a tarde ia se arrastando e íamos repetindo uma pra outra que ele estava com frio caído na rua, que ele não ia sobreviver na natureza com uma perna paralisada, que as gaivotas iam comê-lo e que ele tinha passado sua curta vidinha feliz, aquecido e sendo amado. Decidimos enterrar seu corpo no jardim, mas ninguém queria colocá-lo direto na terra. Concordamos que ele precisava de um caixão ou, pelo menos, de um paninho. Uma caixa de celular foi do tamanho perfeito, forramos com minha meia felpuda de algodão, deitamos Jimmy na caixinha, tampamos e fomos todos para o quintal dos fundos. Meu pai cavou um buraco ao lado da amendoeira e enterramos Jimmy ali, mas dessa vez eu não quis ajoelhar nem rezar o pai-nosso. Olhe pro chão quando andar, às vezes ele esconde tesouros. Foi a primeira lição de minha própria autoria que escrevi no caderninho.

Juliana Garbayo dos Santos é médica psiquiatra e mestre em estudos editoriais. Natural do Rio de Janeiro, mora atualmente em Portugal. Contos publicados em antologias: “O último trem”, antologia Prêmio Vip de Literatura Edição 2018; “Duro de mudar”, antologia 8º Concurso Microcontos de Humor de Piracicaba; “Sabedoria”, antologia A face do medo, Concurso literário da Editora Folheando e “Pour Elise”, IV Concurso Bunkyo de Contos.

o trovador de Toledo, conto inédito de Rosângela Vieira Rocha

Descabelada, com roupa de casa, os pés enfiados em chinelos de borracha, ela desce o morro lentamente. A calçada é muito estreita e tem de se agarrar às paredes dos prédios, para não cair. O declive acentuado faz com que ande quase agachada. Mas não é só por causa do declive que se encolhe. Sente cólicas fortíssimas e sangra. As pontadas fortes provocam-lhe tonturas. Ou seria uma queda de pressão? Sua pressa a impedira de pegar o estetoscópio no armário. Justo ela, que mede a pressão arterial alheia o dia inteiro, como médica residente numa clínica.

Essa caminhada não rende, constata, com desgosto. Ainda faltam uns quatro ou cinco quarteirões. Sempre achou o hospital perto, e se vangloriava com os amigos de morar nas proximidades de um hospital público. Mas essa é uma noite diferente de todas as outras, a mais triste que já teve. Como pôde chegar a isso? Que decadência. Então, a mulher valente tem medo da mãe, em plena década de sessenta? Palavras duras ainda ressoam por todo o seu corpo: você me traiu, Adriana, com essa gravidez prematura. Não foi esse o trato que fizemos, quando prestou o vestibular. Eu me propus a ajudá-la a realizar o seu sonho, pagaria parte das mensalidades da faculdade, compraria aparelhos, e futuramente você auxiliaria a sua irmã menor. Mas agora, pondo no mundo uma criança antes de ter marido, como vai ajudar a Aninha? Que vergonha, engravidar sem ser casada. Você é uma traidora, não tem palavra, não levou o nosso trato a sério. Solteira e grávida, que horror. Não criei filha para fazer esse papelão. O que vou dizer à sua avó, às tias, à família toda? Que minha filha mais velha não tem vergonha na cara? Mas eu não vou me vingar, quem vai se vingar por mim é Deus, não vou precisar levantar um dedo. Sabe como? Você nunca, mas nunca, nunca será feliz.

Um forte arrepio toma-lhe o corpo. Sente frio, o tecido do seu vestido caseiro é muito leve, e venta. Ouve ruído de trovões, enquanto vai se arrastando, ladeira abaixo. O sangue escorre pelas pernas, não pegou nem sequer um absorvente, tal a pressa com que saiu de casa. Há quantos dias tinha ocorrido aquela conversa? Uma semana, talvez? Não consegue se lembrar, tenta fazer contas, mas as agulhadas fortes não a deixam pensar direito. É uma hemorragia, agora há sangue ao redor de si, vai deixando um rastro vermelho pelo caminho. Ainda bem que está muito escuro, é tarde e não há mais gente na rua.

Ao dobrar a esquina, percebe haver uma festa no enorme casarão cor-de-rosa. Felizmente as árvores de acácias, carregadas de flores amarelas, a tornam invisível. É uma comemoração ao ar livre, que parece muito animada. A música alta contrasta com o silêncio da rua. Reconhece a voz de Gilda Lopes, bonita e límpida:

Nas noites enluaradas
Na formosa Toledo
Alguém esconde em segredo
Um amor proibido.

Sente-se cada vez mais fraca e as dores fortes provocam-lhe enjoo. Decide contar os passos, para ocupar a mente com algo diferente das cólicas. Sabe que precisa de força, faltam ainda dois quarteirões para chegar. E se encontrar algum colega por lá? Tenta se lembrar se alguém da sua turma faz residência naquele hospital, mas não consegue. Sente mais frio ainda ao cogitar essa possibilidade. As arrogantes Marluce e Sara não trabalhavam ali? Não, agora estão na clínica São Guido, lembra-se. E o Zeca? Que bobagem, está fazendo confusão. Zeca é filho de gente rica, foi estudar na Europa. A simples lembrança de Zeca a faz vomitar ali mesmo. Foi apaixonada por ele no início do curso e rejeitada sob a alegação de que “tinha pernas finas demais”. Mal-educado e cruel, aquele bigodudo. Disse aquela frase completamente dispensável sem anestesia nem nada. Assim, de repente, no terceiro ou quarto encontro. Pernas finas demais! Não argumentou, de tão chocada. Foi a última vez que o viu, a partir daquilo não mais o enxergou. Tem essa propriedade, a de não ver mais quem a fere.

Resolve descansar um pouco sob um dos galhos de acácias. Preciso adquirir forças, tenho de continuar, sua mente grita. Mas o corpo, este deseja ficar esticado ali, coberto com o vestido ensanguentado. De repente, um casal sai da casa, caminhando até o carro. O homem está com uniforme da aeronáutica, cheio de comendas. Deve ser um brigadeiro. Se tivesse coragem, pediria uma carona até o hospital. Mas empapar a poltrona do carro dos outros de sangue? Responder a perguntas de um militar? De alguém de patente tão alta? E se acabar presa, como o filho de dona Gertrudes? Melhor ficar bem encolhida ali mesmo, até o homem dar a ré no Ford Galaxie branco e partir.

O trovador de Toledo
Pelas noites escuta
E toda gente pergunta
Qual será o segredo
De uma janela apagada,
De um balcão deserto.

Esforça-se mais um pouco. Agora, anda praticamente de gatinhas, sentindo enorme fraqueza. Devo ter perdido sangue demais. Certamente vou precisar de transfusão, raciocina. Grossas gotas de chuva começam a cair. Era só o que faltava para piorar as coisas. Se o chão ficar escorregadio, talvez seja melhor tirar as sandálias de dedo. É provável que machuque os pés, nas pedras irregulares da calçada. Mas ainda assim é melhor que uma queda, decide. Em poucos minutos a chuva se transforma em tempestade. Mas agora falta apenas um quarteirão.

Tenta pensar num show de Gilda Lopes, chamada a “Fabulosa”, a que assistiu certa vez. Tão bonita era a cantora, que não sabia se prestava atenção na voz belíssima ou na figura da moça. Sempre invejou quem consegue sustentar sons agudos, ela com sua voz grave e rouca. Mas Gilda é cantora de óperas, relembra. Tem uma técnica muito apurada e é soprano.

A chuva lavou o vestido ensanguentado, grudado ao corpo. Sente-se nua, assim descalça e mal coberta pelo pano fino. Uma residente do curso de Medicina, quem diria. E chegarei ao hospital como uma mendiga, molhada e descalça. Encontrarei alguém conhecido por lá? Um colega, um professor? Terei de preencher formulários, responder a perguntas. Como poderei provar que não provoquei isso? Será que minha palavra bastará? Avisarão à polícia? Tenta se lembrar do protocolo, já estudou os procedimentos em várias disciplinas, embora nunca tenha se interessado por ginecologia. Tudo que encontra é o branco, o vazio. Não se recorda de nenhuma vírgula do protocolo. Desde o início do curso sua paixão pela endocrinologia tinha sido tão forte que só pensava em hormônios. Como pode ter se esquecido de algo tão primário?

Continua a andar, agora ainda mais devagar, chapinhando na enxurrada. Chora. Esse sangue expulso de suas entranhas seria de um menino ou de uma menina? Que pena, o rosto, o corpinho, nunca se formarão. Ela não o queria realmente, mas jamais faria aquilo de caso pensado. Bebê, me perdoe. Não estou à sua altura, não soube lutar por sua vida, me deixei levar pelas circunstâncias, o medo me consumiu. Não pude retê-lo, meu corpo e minha mente o rejeitaram, eu não soube vencer o mundo. Sou fraca, meu bebê.

Já consegue avistar o imponente prédio branco. À medida que se aproxima, a voz da mãe vai aumentando de volume: você me traiu, não cumpriu o trato. Nunca será feliz. As palavras duras causaram feridas fundas, mas não a impedem de continuar o caminho. Posso até não ser feliz, fala alto. Mas daqui a pouco me farão uma curetagem, provavelmente passarei por transfusão de sangue, tomarei soro e ficarei internada pelo menos quarenta e oito horas. A felicidade é sempre transitória. Agora, a urgência é estancar a hemorragia, não ter infecção e permanecer viva. Vestir roupas enxutas, aquecer-me com um cobertor, sair da chuva e da escuridão, tomar antibióticos receitados corretamente e quem sabe um prato de sopa quente, quando puder.

Finalmente, chega ao grande portão do hospital e dirige-se ao pronto socorro. E logo é atendida por uma colega idosa, que não lhe faz muitas perguntas. Após a curetagem, a colocam numa cama limpíssima, na enfermaria. Antes de se render ao torpor provocado pelos medicamentos, pensa na mãe e em sua maldição. Sabe que até as pragas das mães têm limites, não valem para sempre, e não é por serem nossas mães que se transformam em pitonisas. Adormece ao som da voz de Gilda Lopes:

E uma janela apagada
é o que restou, mais nada,
dentre as lembranças que a noite
consigo guardou um dia.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente (Editora Arribaçã, 2020). Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.

infierno, de Fábio Mariano

capa_ruido

Comecei a trabalhar no buffet por acaso. Um amigo meu me ligara falando sobre a vaga, e era uma época na qual os buffets infantis apareciam em cada esquina de Cartago de uma semana para outra. De repente, então, a equipe de adolescentes mal remunerados de um deles evaporava, e era necessário pedir aos restantes que ligassem para seus amigos. Eu queria ter algum dinheiro — começava a descobrir que queria cozinhar, mas era impossível pedir os ingredientes que eu queria provar à minha mãe. Surgia, diante de mim, a chance de contornar o veto da inutilidade daquele gasto (a questão não era falta de dinheiro) pelo módico preço de tolerar algumas crianças por algumas horas e dormir mal algumas noites — nada que eu já não tivesse feito sem ganhar dinheiro algum.

Era a primeira vez que eu trabalhava, e minha intuição nunca fora muito boa, de modo que não compreendi por que meu amigo me deixava de canto para conversar com todos os outros. Ele me explicou que, ali, nos organizávamos em grupos: salgadinhos, bebidas, pula-pula, piscina de bolinhas e cama elástica. Mudávamos de grupo no meio da noite, e também de um dia para o outro, e quando as festas terminavam todos faziam juntos a limpeza e a organização. Como eu morava perto do buffet (ao contrário da grande maioria das pessoas, inclusive de meu amigo), ia embora a pé. Cumpria as obrigações e ficava no meu canto, sem conversar muito, e embora soubesse os nomes dos meus colegas, não tinha qualquer outra relação com eles.

Na quinta semana em que estava trabalhando lá, meu amigo me chamou num canto. Eu estava com os salgadinhos, e ele, com as bebidas. “Você percebeu?”, me perguntou, empolgado, sem que eu tivesse a mínima noção do que ele dizia. Vendo minha cara de dúvida, sussurrou “Do lado do pula-pula, mas olha sem dar bandeira”, saindo para levar mais uma bandeja cheia de copos de refrigerante. Enquanto alinhava as coxinhas na minha bandeja, repassei, um a um, os rostos da festa. E quando estava para decidir que nada me era familiar percebi que havia, de fato, algo no rosto daquela moça ao lado do pula-pula. Só aí o sorriso que se estampava no rosto de meu amigo me contagiou.

A moça era Amanda Sky.

Terminado nosso serviço, meu amigo me pediu que ficasse. Disse que fariam uma festinha na casa de um dos meninos. “Vão todos: o Tigão, o Pingo, a Babi, a Isa, o Dedé…”, e depois, sussurrando para mim, “tenho certeza de que a Isa vai”. Eu, que nem reparara direito em quem fosse a Isa, tomei aquela informação como crucial. Perguntei a ele o que eles comeriam. “Sei lá, pedimos alguma coisa”. Minha reação imediata, antes que eu pudesse me controlar, foi perguntar se eu poderia cozinhar. “Acho que vai ter muita gente”, ao que respondi “Para mim é perfeito. E eu banco”. Meu amigo foi até André, o dono da casa, e confirmou minha autorização.

Pingo me disse que me daria uma carona até o mercado — iríamos os dois. No caminho, me informou que o André tinha gostado de eu bancar tudo, mas que, se eu precisasse, eles também ajudariam. Pensei que não seria necessário, mas no fim, acabei me excedendo um pouco. Não que eu tivesse comprado nada caro, mas pensei que não poderia faltar comida. O resto do dinheiro que estava com Pingo, que era da vaquinha do pessoal, foi para as bebidas.

Quando chegamos à casa do André me dirigi direto à cozinha, sem pegar nem mesmo uma latinha de cerveja. Os pais dele tinham viajado, e a casa era grande e cheia de livros. Ali, dois amigos dele de outro lugar já estavam sentados em dois pufes discutindo calorosamente sobre Marx, Nietzsche e Darwin; e enquanto um deles falava alto, mas sóbrio, com movimentos de mão firmes e bem desenhados, o outro parecia se atropelar, como se as ideias fluíssem em sua cabeça a uma velocidade muito maior do que a das suas palavras, de modo que, se não era um gaguejo, havia uma espécie de interrupção abrupta no meio de suas frases. Era óbvio que os dois eram muito amigos, e decidi que eles seriam as primeiras pessoas que eu serviria, se eu pudesse escolher. De dentro da cozinha ouvia uma voz esganiçada tentando cantar e uns dedos desajeitados tentando tocar violão, que foram imediatamente substituídos por alguém que só podia estar bêbado havia muito tempo, embora tocasse e cantasse com perfeição. Enquanto preparava espetinhos de muçarela de búfala envolvida em bacon usando como espetos os ramos de alecrim, macarrão com queijo e abobrinhas e tomates recheados, fui aos poucos perdendo o contato com o que acontecia ali dentro. Cruzou minha cabeça o olhar de Amanda Sky, se ela gostaria dessa refeição… Como passei a segunda metade do serviço na piscina de bolinhas (o que me permitiu um ponto de observação privilegiado), percebi apenas o amor dela diante de uma criança que obviamente não era sua filha, e seu olhar, tão diferente daquele ao qual eu estava acostumado a ver nos vídeos. A voz, no entanto, era inconfundível.

“Não era ela?”, disse meu amigo, irrompendo na sala com o braço enlaçado na cintura de Tigão. “Era óbvio que era ela, estou falando!”. Os dois debatedores entraram na cozinha, o mais calmo dizendo, “impossível, cozinheiro, é isso mesmo? Vocês viram a Amanda Sky hoje? E não fizeram nada?”, “e iam fazer o quê, ô, o que você acha, né, que eles iam, sei lá, perguntar se ela tava sem calcinha?”, questionou o outro, ao que todos rimos. Antes que eu pudesse confirmar, percebi que eles haviam saído da cozinha. André veio até mim, então, me perguntando se estava tudo bem e se eu precisava de algo. Me abriu uma lata de cerveja antes que eu pudesse responder — eu respondia às panelas –, me abraçou e agradeceu por eu estar lá. Disso me lembrou bem: ele não me agradeceu por estar cozinhando; me agradeceu por estar lá. Tomei um gole da cerveja, agradeci, pedi que ele levasse alguns espetinhos já prontos para a sala e continuei.

Alguns segundos depois, ouvi uma voz dizendo “você não tem nada para mim?”. Olhei para a mão que se apoiava no balcão da cozinha. Era a mão de Amanda. Aquela mesma mão, com o mesmo esmalte, os mesmos dedos tortos, aquela mão que eu reconhecera imediatamente ao olhar Amanda erguer sua sobrinha ou afilhada ou a filha de sua melhor amiga até o pula-pula. Mas a voz não era a de Amanda; era a de Isa, que me perguntava se eu cozinhava alguma coisa que não tivesse bacon, “ou nenhuma carne, na verdade”. Puxando um prato que não sabia se poderia usar (àquela altura eu sabia que isso já não fazia a menor diferença), montei com o macarrão o prato mais bonito que pude — que, obviamente, não era nada demais. Isa riu um pouco do meu esforço, agradeceu pegando na minha mão, e ia saindo dali olhando para mim, quando pedi que ela esperasse. Adicionei um tomate recheado ao prato. “Não tem carne nenhuma também”. Ela me olhou, como se não entendesse o que eu dizia, mas sorrindo, e ainda sorrindo foi embora.

Depois de cozinhar, me lembro de pouca coisa. Liguei para casa dizendo que dormiria na casa do amigo que me arranjara o emprego — embora obviamente fosse dormir ali mesmo, se pudesse, e não estivesse muito preocupado com isso. E então, com todos elogiando minha comida, me lembro de declarar que eu teria um restaurante, onde, um dia, todos eles iriam. “Vai se chamar Sky”, disse uma voz (a memória se turva aqui) ao que um outro respondeu que isso seria muito comum. Houve risos. “Se eu botar esse nome, vou ter que convidar a Amanda”, disse finalmente. Não me lembro de tudo o que tomei. Lembro-me, sim, da corrida até o banheiro, e das mãos de Isa em algum momento. Foi um dos dias mais felizes que vivi.

No dia seguinte faltei à escola (coisa que nunca fazia), e, chegando em casa no meio da manhã, pensei em como iria me justificar. Minha mãe estava sentada na mesa da sala, mas meu pai a acompanhava — o que, via de regra, não deveria acontecer. Ele olhava para baixo como quem houvesse sofrido uma derrota. O rosto de minha mãe estava enfurecido, e me preparei para uma bronca como nunca havia tomado, para uma expulsão de casa, para qualquer coisa. Mas minha mãe esfregava nervosamente as mãos nas coxas enquanto tamborilava os dedos. Seu olhar era descrente e cansado. Meu pai havia sido agraciado com uma escolha. Deveria se transferir para o escritório de Buenos Aires ou então procurar outro emprego. Ele aceitara a transferência. Minha mãe se separaria dele um ano depois, voltando para o Brasil — para Cartago — no dia da assinatura dos papéis do divórcio.

Liguei para meu amigo dizendo que não trabalharia mais no buffet. Ele entendeu, e nunca mais nos falamos. Fiquei em Buenos Aires com meu pai e lá estudei gastronomia. Lembrava-me sempre dos dois debatedores daquela festa ao ver os argentinos discutindo sua política e suas letras. Continuei cozinhando, estagiei com o mais famoso dos chefs argentinos, fiz carreira. Visitava minha mãe, que agora se orgulhava de ter um filho chef, com frequência. Ela ia bem, se casara de novo e entrara no ramo imobiliário. Continuei, também, acompanhando a carreira de Amanda Sky, quase sempre de passagem. No ano da festa ela ganhara um prêmio de melhor atriz pornô do mundo, o que a levara, por um breve período, aos Estados Unidos. Mas talvez, como minha mãe, ela sentisse falta do Brasil — nunca soube se ela morava em Cartago ou estava só de passagem — e me lembro de ter visto mais uma porção de vídeos dela. Num certo momento, no entanto, ela desistiu da carreira, e conseguiu trabalho em algum canal de TV. De uma certa maneira, ela se recusou a envelhecer no cinema pornográfico e seguir o caminho comum, botar silicone e passar a fazer filmes nos quais seu papel é o da mulher mais velha. Creio que ela foi fazer um curso para trabalhar na parte da produção, mudar de vida. Fui tentando pescar notícias, mas era difícil. Eu mantinha um arquivo no computador no qual digitava o que encontrava, mas num certo momento desisti. Pensei que nunca mais a veria.

Quando tinha juntado algum dinheiro, e estava com tudo pronto para buscar um estágio na Europa, meu pai me disse que eu deveria abrir meu próprio restaurante. Ele e minha mãe haviam conversado sobre isso quando eu decidira me tornar chef, e haviam guardado dinheiro sem que eu soubesse desde então. Ele me disse, no entanto, que isso não poderia acontecer em Buenos Aires, porque o tumulto político, as constantes desvalorizações da moeda e as crises sucessivas tornariam meu negócio muito vulnerável. Também me disse que estava de mudança para a França, onde eu poderia, se quisesse, ir visitá-lo e fazer meu estágio. Foi assim que retornei para Cartago e abri, lá, o Cielo.

Como já saíra do Brasil havia muito tempo, não esperei ninguém conhecido na inauguração — e estava certo ao pensar isso. Mas duas semanas depois da inauguração, o dono da casa, André, e Isa, vieram ao restaurante. Por sorte tive de atender uma dúvida de meu sommelier, de modo que pude reconhecer as mãos de Isa — pensando, primeiramente, que eram as mãos de Amanda. Fiz questão de ir até os dois e de enviar a eles uma entrada especial. Era algo que só entraria no cardápio algum tempo depois, um conjunto de três tomates recheados diferentemente — nenhum deles levando qualquer tipo de carne. Isa compreendeu. Pensei em pedir aos dois que me esperassem até o fim do serviço, mas achei melhor convidá-los para chegar mais cedo no dia seguinte, uma hora e meia antes que o restaurante abrisse. Eles vieram, e conversamos muito. Esclareceram que, originalmente, deveriam ter vindo os dois debatedores também — João e Marcelo eram os nomes deles — mas os dois estavam fazendo seus doutorados na Alemanha. André me contou que Pingo havia morrido dois anos antes de leucemia, e que meu amigo, pouco tempo depois, fora demitido do buffet e brigara com todo o grupo. Babi se tornara produtora no jornal local.

Ao saber daquilo, não pude me conter. Pedi logo o telefone de Babi, mas sabia que minha esperança podia ser infundada. Ofereci aos dois que jantassem novamente no restaurante, dessa vez sem pagar, e embora eles tenham aceitado o convite para o jantar, fizeram questão de pagar. Pude presenteá-los, ao menos, com uma garrafa de vinho. Antes de ir, Isa me mandou uma mensagem me dizendo que fora muito atencioso fazer um prato em homenagem a ela, e que Babi estava de licença maternidade, afastada do trabalho. Isa era a madrinha de sua filha.

O contato com Babi não foi de todo infrutífero. Consegui descobrir que Amanda G. S. de C., a pessoa que eu procurava, havia trabalhado com ela por um curto período de tempo. Por algum motivo não parecera se adequar — Babi chutava que o chefe canalha das duas estivesse por trás da demissão da colega. A coisa toda ocorrera no meio de uma série de cortes que a emissora fazia, então era difícil definir o que era arbitrariedade e o que era necessidade, ou ainda quem estava sendo retaliado. “Havia menos retaliações naquela época do que hoje, com certeza”, ela me disse, “e pode apostar que vai haver mais nos próximos anos. É uma época difícil para ser jornalista, e eu e a Lili estamos pensando em dar no pé.” Perguntei se alguma das duas falava francês e, tendo sido informado que o francês de ambas era muito melhor que o meu, enviei a elas o contato de meu pai, que talvez pudesse ajudar. As duas se mudaram com a filha para a França uns dois anos depois.

Continuei conversando com Isa por algum tempo, majoritariamente por mensagens no celular. Houve um hiato, no qual ela teve um namorado e, portanto, não nos falamos mais. Mas depois recebi uma nova mensagem dela e retomamos a troca normalmente. Eu estava tão imerso no trabalho que, talvez, não tenha percebido o quão chateado eu ficara. Meus cozinheiros me dizem que eu era intratável naquele período, mas contam isso agora em tom de brincadeira. Antes que ela arranjasse esse namorado, me perguntara uma vez — também em tom de brincadeira — se eu havia convidado Amanda Sky para a inauguração. Nunca soube se, naquele momento, ela sabia de minha conversa com Babi. Neguei, adicionando que não pude encontrá-la, mas que, se pudesse, teria enviado o convite.

Quando o restaurante fez três anos, tirei as primeiras férias. Eu percebia uma mudança no perfil da clientela, e conforme eu me consolidava, crescia meu medo do tipo de conversa que circulava ali dentro. Babi já havia ido embora, e eu pensava no quão bem fizera. O número de casais homossexuais começou a diminuir sensivelmente, e eu mesmo tive de expulsar um grupo de seis clientes que ofendera um casal assíduo. Eu virara manchete de jornal na cidade — Cartago tinha dessas coisas — e minha mãe, por sorte, sempre me apoiara. O Cielo se tornava mais famoso, e pessoas de outras cidades começavam a fazer reservas. Eu crescia, mas tinha medo. Foi então que decidi chamar Isa para ir comigo à França, visitar meu pai. Ela me perguntou o que aquela viagem significava. Eu disse que não sabia, ao que ela respondeu que, quando eu soubesse, podia convidá-la. Sem mágoa, e com razão, creio.

Antes de entrar no avião, procurei por ela. Talvez por ter visto séries ou filmes demais. Meu susto, ao ver alguém que falava nervosamente no celular, ao ver suas mãos, foi tanto que pedi, por um momento, que a moça da companhia aérea esperasse. Obviamente não era Isa. Mas antes que eu pudesse perceber a diferença da cor dos olhos, dos cabelos, da voz, o que percebi foi o olho roxo, o braço enfaixado, o nervosismo. Amanda G. S. de C. tremia. Sem maquiagem, vestindo roupa de frio, Amanda estava ali, e era a minha chance de convidá-la para o restaurante. Seu nervosismo se intensificava, ela olhava ao redor, e tive a impressão, a nítida impressão, de ver que homens a olhavam de pontos diferentes daquele saguão. A moça da companhia aérea ralhava comigo — eu nem conhecia Amanda G. S. de C., e nem mesmo Amanda Sky — mas eu precisava ir até lá. Amanda, então, parecendo mais calma, se dirigiu a outro portão. Os homens a seguiam com o olhar. E eu tive de entrar, tive de entrar no avião.

Amanda nunca foi ao Cielo. Nunca mais a vi. Mas sei que é a história dela, e não a minha, a que deveria ser contada.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP. É autor de O Gelo dos Destróieres (Contos, 2018) e Habsburgo (Novela, 2019), ambos pela Editora Patuá. Numa parceria entre Patuá e Ofícios Terrestres, publica agora Ruído Branco (Contos), uma realização do ProAC 2019, no qual se encontra “Infierno”.

o momento, de Inês Filipa Vieira Brandão

Henrique dirigiu-se à sala. Sentou-se na poltrona que lhe fora deixada pela avó materna. Era castanha, com umas manchas amareladas e uns pontos descosidos, marcas do uso e do tempo. Tinha um apoio para os pés e um suporte para colocar copos, embora ele o usasse para depositar as folhas amarrotadas, outrora esboços de desenhos que, por não terem a qualidade ambicionada, não eram dignos de ser olhados por outros olhos senão os dele.

Estava feliz. Não tinha razões para não estar, embora se saiba que o cérebro humano não é tão linear assim e pode levar-nos rapidamente a um estado de tristeza, mesmo que tudo à nossa volta corra conforme o planeado.

Hoje fixou o pensamento sobre a poltrona, normalmente não o faria, sentava-se apenas, de forma mecânica e irracional. Mas hoje recordava aquela senhora, que tinha tido a sorte de poder apelidar de avó, e que lhe deixara tal objeto, não em qualquer documento escrito, mas por ter repetido várias vezes ao longo dos anos: “esta será tua quando eu… sabes?”. Não gostava de falar na morte, não tinha a frieza necessária para enfrentar uma condição na qual não tivesse oportunidade de estar com a sua família. A sua reflexão foi interrompida pelo som do telemóvel, era o seu pai. A voz trémula e praticamente irreconhecível, que se unia a um choro desesperante, dizia-lhe que a sua mãe lhe falecera nos braços. De impulso, Henrique levantou-se da poltrona e saiu. A felicidade foi-lhe arrancada, as recordações da poltrona e da sua avó depressa se dissiparam.

Tinha vendido o carro há uns meses. Por viver no centro de Lisboa, decidiu que não precisava dele; arrependia-se hoje desta decisão, porque esta o obrigava a esperar pelo próximo comboio até Coimbra, terra que o viu crescer e local onde os seus pais decidiram permanecer, mesmo depois dele se ter mudado para a capital. Comprou o bilhete às 16h40, o comboio partia dentro de dez minutos. Percorreu a gare, ouvia o bater do seu coração, acelerado, o suor escorria-lhe pela cara e havia uma ansiedade e um nervosismo persistente que o mantinha alerta e, ao mesmo tempo, o cegava em relação a tudo o que o rodeava. Mantinha os olhos fixos no comboio, era verde e branco; Estava lá ao fundo, ele via-o, quase que o sentia e, no entanto, parecia-lhe tão longe como o caminho que ainda teria de viagem até chegar à sua família.

Pela terceira vez nos últimos cinco minutos, olhou para o relógio. O tempo parecia ter parado e, ao mesmo tempo, sentia-se culpado por deixar o seu pai sozinho durante este período, que lhe pareceu mais longo do que a realidade comprovava. Colocou a mão sobre o corrimão que dava acesso à sua plataforma e percorreu-o. Estava sujo, peganhento. Pensou na quantidade de pessoas que já lá teriam pousado as mãos e, num gesto brusco e apressado, retirou a sua.

O comboio estava cada vez mais perto. Olhou novamente o relógio, 16h45. Já conseguia tocar na primeira carruagem, mas o seu lugar ficava na terceira, tinha de continuar a andar, com a mesma urgência. Ouviu a última chamada, entrou…

Já sentado no interior do comboio, a impaciência e o sentimento de impotência apoderaram-se de Henrique. Tentou ler, escrever, ver as notícias no telemóvel, mas os seus esforços revelaram-se inúteis; Seriam duas horas de sofrimento, pensou.

Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, chegou a Coimbra. Depressa encontrou um táxi e, sem grandes explicações, disse que tinha pressa em chegar ao hospital. Armando, nome com o qual o taxista se apresentou a Henrique, ficou apreensivo com o pedido e, como tal, perguntou se ele se sentia bem. Henrique explicou aceleradamente e sem detalhe a situação; Nenhum dos dois falou mais depois disso, pelo menos até ao momento do pagamento.

Chegado ao hospital, subiu umas escadas e percorreu um longo corredor até encontrar alguém a quem poderia pedir direções que o levassem até aos seus pais. Apercebeu-se que já se teriam passado mais de 15 anos desde a última vez que entrara neste hospital, num dia em que partiu o braço direito, resultado do seu envolvimento numa luta com um rapaz que tinha tentado beijar a sua namorada da altura. Foi um namoro ingénuo, característico da idade, do início da adolescência, mas naquela época pareceu-lhe correto defender a sua honra, arremessando dois socos na direção do outro rapaz, apenas para depois sofrer o triplo.

Após falar com um funcionário, que prontamente lhe indicou o caminho, deparou-se com a porta do quarto que do outro lado revelava o corpo debilitado da sua mãe. Ouvia as máquinas a trabalhar, ouvia o pranto do seu pai, mas faltavam-lhe as forças para entrar; Num impulso, reuniu a coragem necessária, abriu a porta e caminhou na direção deles. Ela não estava morta, tal como o pai lhe tinha transmitido, pensou. Mas nos olhos dela não via vida, nem qualquer reação, as máquinas respiravam por ela, havia um hematoma no braço, provavelmente causado pelas várias tentativas que a enfermeira fizera para conseguir espetar a agulha que agora a alimentava apenas de soro.

Tentou comer algo, perto da hora a que costumava jantar, e sugeriu ao seu pai que fizesse o mesmo, embora nenhum dos dois tenha conseguido cumprir essa tarefa, outrora banal e rotineira, mas que nas últimas horas se tornara hercúlea, por força das circunstâncias.

Alcançou uma médica, uma que já tinha observado no quarto da sua mãe, mas a quem não teve a coragem de perguntar nada até este momento. Falaram durante algum tempo, ela informou Henrique da gravidade da situação e da pouca probabilidade da sua mãe passar daquela noite. Irrompeu num pranto, as lágrimas surgiram, foi a primeira vez ao longo daquele dia em que se permitiu chorar. Filipa, nome da doutora que ficaria para sempre gravado na ficha médica da sua mãe, estava certa sobre tudo o que disse. Henrique sentou-se numa outra poltrona, no corredor do hospital, na sua cidade natal, a dois metros do quarto onde a sua mãe respirara pela última vez, sem ter tido a possibilidade de se despedir dele.

Quem diria que um dia que começara calmo para Henrique, acabaria com o choro amargurado de um neto e filho que, para além sentir a falta da sua avó, teria agora também de lamentar a morte da sua mãe.

“É a vida”, todos lhe dizem desde esse dia fatídico, embora a sua se tenha alterado drasticamente, porque afinal, há pessoas, dias e momentos que nos mudam a vida, para sempre.

Inês Filipa Vieira Brandão nasceu a 29 de março de 1998, em Lisboa. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tirou o curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Publicou o seu primeiro livro infantil a Fevereiro de 2020, intitulado A Flor Margarida. Vive no centro de Lisboa, é professora e sonha um dia fazer da escrita a sua carreira profissional. Página do seu livro no [link].