madalena, de Rafael Mendes

O cobrador ajudou Madalena a descer do ônibus. Carrega três sacolas grandes, de nylon trançado, pesadas com marmitas, produtos de higiene pessoal, roupas: torta de frango, arroz doce, feijão com beterraba, escovas de dentes, camisas brancas, conjuntos de moletom, sabonetes, cigarro, papel higiênico. A fila já estava grande. Tentou encontrar algum rosto conhecido mas ninguém lhe despertou lembrança, estavam todos desfocados, o sol era forte e ela precisava comprar óculos novos. O que usava agora fora dado pela dona Marta, antiga patroa, que disse não precisar mais dele, havia comprado novos óculos quando veio de Paris. Madalena não sabia quantos graus tinham, ajudavam a ler suas prescrições médicas, a bíblia gasta e tracejada de marcações. Da sua casa no Capão Redondo até a penitenciária localizada em Parelheiros foram quase três horas de viagem. Joarez, seu filho, pedia para que ela usasse o transporte oferecido pelos Irmãos, era um dos benefícios garantidos pelo pagamento dos seiscentos reais mensais. Ela não queria se envolver com os Irmãos, fazia o pagamento mensal por obrigação, a segurança do filho dependia disso. Carlinhos, filho de uma vizinha, passou meses no hospital, com fraturas nas pernas e mãos, depois de atrasar sua mensalidade.

O último pagamento estava atrasado. A tendinite tinha tirado-a do trabalho por quase duas semanas, dona Cláudia não esperou, disse que não precisava mais do seu serviço. Seus ombros latejavam o dia inteiro, limpar janelas era um sofrimento imenso, agulhas sendo introduzidas pela extensão do seu braço. As mãos fraquejavam, quebrou dois acrílicos de dona Marta na última limpeza. Por sorte a patroa não percebia essas coisas. Fez uma trouxa com os cacos, guardou na bolsa e jogou na caçamba próxima ao elevador de serviço. Pediu dinheiro para Jardel, o outro filho, ele recusou. Bandido bom é bandido morto, uma aberração, preferia ele morto, foi sua resposta. Pediu ajuda para o pastor da congregação que prometeu ajudá-la mas não havia conseguido o dinheiro ainda. O jeito foi conversar com o Irmão do bairro, explicar sua situação e pedir por mais duas semanas para pagar o valor restante.

A fila começou a se mover, eram nove da manhã. Nas guaritas agentes de segurança empunhando fuzis. Na frente de Madalena duas jovens conversavam. Uma trazia uma menina pela mão, a outra acariciava o ventre que já despontava. Não sei o que vou faze minina, o Irmão lá da vila veio em casa antesdeontem, falando que eu divia traze os negocio, falo que eu to gravida, ninguém vai mi revista, garantiu pra mim. Vô fazer o que, Igor caiu com os produto, vamo ter que paga de um jeito ou di outro. As mulheres pararam de conversar quando gritos começaram à frente, já próximo ao portão. Vagabunda, vou ti matar, sua puta. Deixa meu homi em paz, se não eu te mato. Clodoaldo é meu marido vagabunda. O que cê tá fazendo aqui? Vez ou outra mulheres discutiam, brigavam, a polícia intervinha, mandava ambas para o final da fila. Madalena não entendia como moças jovens acabavam na fila de visitas de uma detenção. Uma mãe não abandona suas crias, mesmo quando crescem e embarcam na delinquência.

Chega sua vez. Apresenta o RG, Madalena Conceição Silva, dá o nome do filho, Juarez Conceição Silva. Sobrenome ambos só tinham da mãe. Pediu ajuda para Gilberto, um dos guardas, para erguer suas sacolas para a inspeção. Já era conhecida deles, sempre deixava uma marmita com bolinhos de chuva que recolhia na saída. O filho não sabia. Pensava que poderia render alguma segurança extra para Juarez, talvez uma cela melhor. As sacolas foram liberadas, foi para a fila da revista íntima. As mulheres se despiam, encostavam na parede infiltrada por vazamentos, abriam braços e pernas, esperavam por ordens. Angela, chefe da revista pessoal, vinha com o espelho, mandava que se agachassem duas, três vezes, rapidamente. Depois que tapassem nariz e ouvidos, que expirassem de cócoras, posicionando um espelho sob suas vaginas.

O presídio era formado por dois pavilhões retangulares de três andares cada. Juarez ficava no primeiro prédio, à esquerda. Madalena entrou no pátio central, observou os presos, não encontrou o filho. Foi até o banheiro, retornou sem rumo em direção aos bancos disposto para as famílias, quando ouviu seu nome sendo chamado. Era o filho. Aproximou-se. Juarez, meu filho. Que saudade eu tava de você. O filho vestia camisa branca, calça bege, lábios e unhas pintadas com vermelho. Mãe, já disse pra senhora não me chamar de Juarez. Meu nome é Joana, entendeu, Joana. Como que eu posso te chamar de Joana se criei você como Juarez? Você é um homem, meu filho, isso é coisa de Satanás, tudo isso, sua vida de crime e essa confusão. Mãe, vamo esquecer isso, tá? Me chama como a senhora quiser. Eu tava com saudade da senhora. Queria perguntar, a senhora pagou a mensalidade? Não, meu filho, não tive como, mas eu falei com os Irmão, mandaram eu te entregar isso daqui, a dívida tá paga. Madalena retirou da sacola quatro trouxas fartas e brancas, entregou para o filho. Lembravam paçocas.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

metamorfosis de Narciso II, de Ana Célia de Mendonça Goda

Há o homem à minha frente. Cabeça de ovo, corpo-lagarto.

Petrifico-me.

Quero ser a pousada do camaleão.

Assusto-me diante do ovalado de sua cabeça.

Não sei quê, deixou-me assim: assustada!

A partir do momento a forma pode parecer escorregadia. É verdade: assim se me parece.

Tento segurar-me, pois o céu leva-me ao escorregadio.

O céu, grande céu, certamente o mais importante e movimentado do espaço. Sua semelhança refletida e não aparente para nós: Terra. É este o largo e grandioso céu que me leva à vontade de explicar, o tudo, diante da possibilidade do mágico?

Ao tempo que digo achar a resposta, se põe à minha frente o homem cabeça-ovalada. A saída é a observação, não do mágico, mas do homem e de sua ovoide. Após alguns instantes, sinto que nada me serve, se não souber o que há dentro do ovo. Clara-gema ou sangue? Uma ave? Se assim fosse, quem aqueceria e protegeria aquela nave para vigorar uma vida? Seriam as mãos-homem sobre a cabeça? Será minha cabeça também ovo? Haverá dentro deste ovo um espaçoco, como céu em dias de angústia?

Preciso quebrar o ovo. Única certeza que me fica. Como quebrar essa barreira?

Nesse momento, satisfações canibalescas me envolvem na possibilidade de ser alimento o dentrodovo. Torno-me homicida nesse jogo e suicida de certa forma. Com certeza: é o machado e, acima de tudo, em câmera lenta.

O machado alcança a fina casca, mas… sinto-me estranha e paro o movimento, que rela o ovo. A casca se desfaz. É um novo.

Breve explicação sobre este conto, escrito entre 15 e 17 anos, e aprimorado na disciplina de conto, ministrada por Bruno Zeni em 2014, na pós em formação de escritor no ISE Vera Cruz:

Meu encantamento juvenil pelas obras do pintor espanhol Salvador Dalí serviu de nave surrealista a dar voz a questionamentos internos e filosóficos. E a observação desta obra é a matriz desta inspeção sobre a criação, de onde viemos, quem somos, aonde vamos: Metamorfosis de Narciso. 1937. Óleo sobre tela. 73,5 x 92 cm. Tate Gallery, Londres.

Mais tarde na vida, aos 33 anos, tive a sorte de visitar em lua-de-mel a casa em que ele vivia com Gala, sua eterna musa, em Cadaqués, pequena e bela cidade costeira, assim como o Museu-Teatro, na cidade de Figueras.

Na casa branca de Cadaqués, uma enorme escultura de ovo salienta que esse símbolo sem dúvida ocupa um lugar entre os “comestíveis” pictóricos dalinianos.

As obras de Dalí, “um consórcio entre exatidão e delírio”, sofreram grande contágio do literário com o pictórico, a exemplo do poema San Sebastián o La Santa Objetividad, que Federico García Lorca dedicou ao amigo em julho de 1927, publicado na revista Gallo, dirigida pelo próprio Lorca, em Granada.

“À maneira de Marcel Proust, que via na operação de escrever a ação de traduzir o livro misterioso, todo escrito com caracteres hieroglíficos no interior da alma, o artista surrealista se esforçará em beber no copo de um idioma sensível — espacial e cromático — os misteriosos sinais que brotam, espontaneamente, das profundezas do espírito. Assim, pois, segundo o surrealismo, ficará a pintura incumbida, de uma maneira toda especial, da façanha de revelar à consciência as potencialidades do espírito, e isso só poderá ser realizado ‘transubstanciando-se’ em poesia; fazendo-se ela mesma, poesia.” Ignácio Gómez de Liaño, em Dalí. Ao Livro Técnico S/A, 1982, 1ª. edição.

São Paulo, maio de 2020.

Ana Célia de Mendonça Goda é graduada e licenciada em Letras pela PUC-SP, 1989. Pós-graduada em Administração e Organização de Eventos pelo SENAC-SP, 1994, e pós-graduada em Formação de Escritor — núcleo ficção pelo ISE Vera Cruz, 2017. Trabalhou para diversas organizações e casas editorias, entre elas o Círculo do Livro (como revisora e editora-assistente) e a Editora Melhoramentos (como editora e gerente editorial, de 1996 a 2013). Atualmente atua como freelancer, escrevendo, editando, ensinando etc.

sem-valia, de Sílvia Schmidt

“Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais.” (Victor Hugo)

Na pequena comunidade rural de águas verdes sulfurosas, os dias eram longos, estafantes e iniciavam-se com a cantoria sincrônica das centenas de machos cigarras, na tentativa de atrair as fêmeas para o acasalamento. Deixar suas cavernas, o chão por onde ficavam, ali submersas para esta ovulação e somente depois, irem a procurar seivas dos poucos grãos de café, era sem dúvida, dádiva. Refazer os ciclos, para então, retornar ao silêncio sepulcral, por entre as raízes da mata preservada e por mais treze longos anos hibernar. Pocinhos, em meio a orquestra de cigarras, grilos e explosões, sincronizado ao meio do dia a uma pedreira comercial — que era a sua sina e também admoestação. Sobreviveriam gentes e animais sob o signo da pólvora e do dinheiro? Pedras brancas transportadas e à venda em grandes cidades de cimento e asfalto sem cantos de galo sem cantos das Seriemas, mas sim buzinas, motores de carbono ao vento, sob estacionamentos abertos em zonas estafantes e trabalho quase escravo. A meta a atingir sem freio sem regras por milhões?

Submissão ao outro, cegamente e por um prato de comida. Seguiam estas pedras estes pedregulhos mesmo à revelia. E ali no mágico espaço entre pastos, verdes e alturas — a mesma pergunta. Até quando?

O caminho de uma civilização para sua subsistência tinha preço, o preço dos inocentes. E assim se inicia este conto.

Juan Carlos, dirigiu-se a passos largos e firmes para a igrejinha ecumênica a espera de Milre. Durante esse intercâmbio, a filha de Milre, Autje, começou a balançar de um caibro, um pêndulo humano, chutando bolas no meio do balanço e soltando a palha, uma parte dela caindo no cabelo de Milre, que olha para cima e diz a Autje para se comportar, ela não podia ouvir a viga rangendo, ela queria que o teto desmoronasse? Imaginava que talvez ela o quisesse. Mãe e filha em contraste na contramão das relações. Pensamentos que viam, sem antes sequer, dar-lhe um aviso.

“Se aquieta menina, ainda cai do balanço. Onde vou te levar, nem farmácia nem médico na região. Autje não a ouvia. Seguiam assim suas aflições.

Juan Carlos, mestre de curas dos antigos povos andinos, retirou de sua pequena valise, a preciosa e densa resina — o sangue de dragon — porque sabia, seria necessário. Milre por sua indicação, entra naquele que fora construído para ser um espaço espiritual, uma pequena construção em pedras e aberta ao belo horizonte. Alguns quadros de santos e anjos, ecleticamente escolhidos e há anos dispostos em estantes mais alguns livros religiosos umedecidos pelas chuvas da estação. Entra com o pé direito, silencia-se, um olho no dedo da mão direita um olho em Autje. Estende a palma ao médico, que a alcança, fazendo um círculo energético a sua volta, e assim inicia os curativos. “Un ojo de pez en el centro del dedo anular. Como eso se diera si no por exceso de confianza”, pensava Juan Carlos sobre esta mulher que vivia entre a compostagem e a terra negra no plantio diário de legumes e folhas para a comunidade. Livre para viroses e invasores. Juan Carlos um médico pé descalço. Disse-lhe não à possibilidade de ser fotografado em prática. Dizia-lhe em seu portunhol quase incompreensível: “non es assim que se comunicam los médicos sem fronteiras, e pés descalços é no silencio, sem se ocuparem de outros anseios que non a cura la medicina. Passamos sem alarde. Non es possible fotografar me Milre, somos invisibles e assim devemos ser”. Milre sem mais delongas, sublinhou-lhe apenas com um olhar complacente de gratidão. Doía-lhe aquele ponto obtuso, enfiando-se pele adentro. O sangue de dragão passado, enfaixado o dedo com leve curativo, causava-lhe alívio. Pé esquerdo contra o negativismo do mundo, um breve baixar de cabeça, palmas da mão unidas no centro do coração, deixa a capela, ao som de bujões soltos, na carroceria do transportador local, que subia o morro até a Casa Grande, mensalmente para abastecer suas casinhas somente se pedidos. Uns vinte bujões soltos a tirlintar entre uma marcha firme e outra, avistados, ainda lá embaixo, ao longe na curva do rio.

Audje, retorna à companhia de sua mãe auspiciosa, sem notar-lhe o curativo, mas sim a presença de certa ansiedade de todos para a subida do caminhão de gás. A viela entre as casas, fim de estrada, exigia do motorista cuidados, das crianças atenção e dos pais o aviso para distâncias.

Nesta manhã de início de verão, a chegada do que poderia ser a mais normal das demandas ao sítio, algo inusitado acontecera.

Milre em suas diversas imersões para uma vida tolstoiana, sem lenço sem documento sem relações maritais, não pensou jamais que entre um e outro bujão de gás encontraria na mesma carroceria, um bezerro recém-nascido, há horas apartado da mãe. As crianças à volta de sua filha Audje, alegres, notaram o bezerrinho e suas pernas enfaixadas para mantê-lo entre uma entrega e outra, ali firmes, sem chance alguma de escapar, fugir da caçamba aberta. Parecia assustado o bezerro seu semblante distante e baixo, denunciava os maus tratos.

O caminhão de gás ficou rodeado por moradores da pequena comunidade da Pedra Branca, uns por curiosidade outros por necessidade da combustão já escasseando em suas cozinhas. Sabiam do que se tratava. Mas aquela mãe mesmo que alerta de suas funções à Pachamama no entanto, fora pega de surpresa.

“Para onde vão levar o pequeno bezerro, assim sufocado por faixas?” Pergunta Milre ao motorista, deixado o volante e rodeando sua encomenda.

“Uai dona, não é meu não, eu dei foi é carona ali pro seu Antônio, pra ele levar o tal, inté outro lugar e lá nas bordas da mata do Retiro, modi sacrificar o bichinho.”

“Como assim sacrificar, o bezerro? Sacrificar por quê?” Mãe e filha a acariciarem o pelo do animal submisso, sem nome e sem destino.

“Oh dona conversa ali com o seu Antônio eu tô é passando aqui rápido, tenho muitas entregas hoje na comunidade, esta é apenas a primeira das subidas, é morro escorregadiço pela frente.”

Nem pestanejou, Milre — quando viu o senhor — foi a ele: um caboclo fétido de álcool, roupas esgarçadas pelo trabalho de sol a sol na lavoura. Empoeirado, nem mesmo o dia nascera, e as cigarras ainda cantavam, seus dedos manchados de barro, o dela de drago, das crianças de leite azedo e manteiga do pão ou achocolatados. A vida em suas nuances subliminares.

“Mãe- repetia insistentemente Audje, com atenção”.

Milre que entre um olhar obliquo sinuoso, não compreendia o que ali acontecia:

“Vamos lhe dar um nome crianças; que pensam?”

“Sim” sinalizaram com alegria as meninas.

“Coração. Pequeno Coração”.

“Isso, Pequeno Coração”. Reafirmaram as crianças ao redor, saltitantes.

Amarrado, deitada a cabeça sobre as mãos destas, ainda a perscrutarem, naquele breve tempo entre a entrega de um botijão e seu pagamento, um destino para o animal.

“Mas seu Antônio, o que fará com o Coração, que nós não sabemos?” pergunta-lhe eufórica Milre àquele velho bugre sentado imóvel, na frente do camburão.

“Modi largar no pasto dona, tem preço não. Bebe mais leite da vaca que o seu dono pode pagar, três vezes ao dia. Manhã tarde e noite. Bebe o que o dono precisa pra vender e viver. Beberão, precisa ser sacrificado.”

“Como assim, precisa? O senhor ganhou este ser indefeso, porque ao beber o leite da mãe ele dá prejuízo… É isso Seu Antônio. Entendi?”

“Isso sim dona. Me deram e eu vou jogar ele num pasto aí quarquer, vai ser comida de urubus. Não vale nem a carne pra modi moer.”

“Mas isso não é justo, deixa ele, nós cuidaremos, deixa ele Seu Antônio, quanto o senhor quer para não sacrificar o Pequeno Coração. Vamos agora, procurar alguém que cuide dele.”

Entre um afeto, um olhar de correspondências, crianças que mal compreendiam e já se apegavam ao bezerro, o movimento dos moradores e os acertos de um leilão inconsequente- Milre tomava as atitudes na tentativa de livrar o Pequeno de sua morte anunciada. Pensou que se o adotasse, e isso como uma moradora em passagem não o poderia assumir, sem antes obter permissão dos proprietários do sítio, lembrava também que suas economias mensais não alimentavam sequer as duas, mulher e menina, com generosos litros de leites diários, três vezes ao dia. Pôs na ponta do lápis a mais valia. E esta não lhe cabia. Pensou que, entre os moradores, poderiam cotizar os valores do leite ao bezerro. Chamou assim, em reunião, os mais próximos um e outro a caminho de seus afazeres. Horta, compostagem, marcenaria. Galinheiro. Cozinha.

Não eram sustentáveis, mas procuravam autonomia. Embora compreendessem, e achassem o embrulho um belo garrote, um bom churrasco para o domingo, simpatizaram apenas com o propósito e intenção.

“Esperem”, pediu Márcio o engenheiro florestal — em estudos avançados — por alguns dias em hospedagem na casa de acolhimento aberta e para todos. Vou ver se o Francisco, que produz queijo, pode ficar com o pequeno, aguardem, já volto. Entre um dígito e outro de seu aparelho e a chegada do motorista, ali e mais impaciente.

* * *

“Por favor esperem, pedimos, não podemos deixar isto acontecer. Algo faremos.” Repetia Milre.

“Tenho tempo não dona.” Atento o motorista olhava para as notas de reais em suas mãos.

“Seu Antônio, quanto vai pedir pelo bezerro?” Milre ainda a afagar o Pequeno.

“Ah uns setenta tá pago, eu não tenho este dinheiro e não tenho o leite diário para ele. Qualqué ajuda é bão. Vai morrer memo dona?”

Entre os minutos que separavam uma ação de outra na tentativa de salvaguardar o pequeno bezerro, vinham-lhe à mente sensações diversas de desamparo, o mesmo que sentia sempre em face da vida, ela uma nômade a procura de um chão. Saberia nunca por que sua mãe Salomé a teria rejeitado, mais do que isso, pensava: “tê-la deixado partir”. Da neta jamais sobre algo. Apenas que nascera entre uma diáspora e um aviso de chegada e partida. Por consideração.

Anos de guerra em além-mar, homens brutos sem alma vagando por terras minadas a procura de alimentos e farra, festas dentro de mulheres intocadas. Salomé, a jovem da cercania, saudada com um fuzil em sua cara e uma mão sob suas vestes claras. Na cidade destroços por onde bombardeios eram frequentes e sem qualquer aviso à chegada daqueles homens de farda, era a mancha que carregavam no baixo ventre, ninguém os segurava.

Na família de pequenos agricultores do leste, Milre nascera tão formosa que seu nome a significara,no corpo, mas não na alma, queria a desmemória — por isso caminhava — entre paisagens e continentes, sabia jamais ter sido amada. Não fora exortada, porque não sabiam como o fariam, tamanha simplicidade. Aceitar o fato em silêncio como um demônio inominado a dominasse, e assim Salomé parindo-a sem afetos ou paternidade, qualquer amarra, também a deixou partir. Anos separam-nas desta que viria a ser a metáfora.

Milre encostada ao veículo ainda desligado na mais profunda revolta interna. O silêncio oceânico dos sobreviventes.

“Mãe e o Pequeno Coração, vamos ficar com ele? Vamos?” Perguntava impaciente sua Audje, sua negra íris fixa no transporte.

“Filha, pensando aqui mal tenho leite para você, vamos esperar a resposta de Marco sobre o senhor Norberto, fica tranquila filha, faremos tudo para isso”.

“Dona, preciso ir, já entreguei o bujão e tenho muitos ainda para fazer chegar a seus destinos, dia longo, deixa como está, paga uns trocados pro Antônio, né Antônio”? Este calado na cabine, levantados pés e pernas sob o console empoeirado. Displicentemente.

“É bão uai, uns setenta reais levam o bezerro, paga a lida de enfaixar e transportar. Tem valia mais não, quem sabe um churrasco de cumeeira na vila, sempre presta. Povo faz mutirão, gostam muito de carne fresca”.

“Mas Seu Antônio, ele vai ser sacrificado, jogado aos urubus como cê disse, vai virar churrasco, o senhor está de maldade, deixa o bichinho viver, eles sentem e sofrem como nós”.

* * *

“E eu faço como pra dar leite três vezes no dia pro bezerro, cê sabe que nem pra minha pinga eu tenho, estes cobres não pagam a demanda de cuidar dele. Fica então procês aqui na roça. Eu moro é na cidade”.

“É o que estamos fazendo, senhor Antônio, Marco vem ali com a resposta, está tentando no telefone achar alguém que aceite o animalzinho e dele cuide.” Milre e crianças afagavam o bezerro ali quieto, um pacote entre ferros da carroceria, um ser esmagado ao próprio corpo imóvel. As crianças a acariciarem-no, até que Marco aproxima-se em atitude.

“Milre , não atendem, é cedo ainda, Norberto não atende, e para que eu saiba se ficaria ou não com o bezerro não será agora na urgência. Preciso ir a ele, isso vai demorar.” Disse afoito Marcos.

“Oh o que faremos gente. Uma vaquinha, uns vinte reais para cada, e mais o leite diário, por mais três meses, é isso Seu Antônio?”

“É sim dona. É isso aí”. Abaixando a cabeça com polegar em riste.

“Vamos Antônio, tenho pressa, até mais garotada. Isso é comum aqui na região, a volta senhora verá corvos e abutres em círculo no céu a procura de carne despojada sem preço a senhora não se assuste não, a vida está pelo preço de morte mesm”. Entre uma lástima e o dinheiro do bujão recebido, o entregador amarra novamente o garrote com um laço redobrado, sem dó nem piedade, para que seguisse seguro a viagem de muitas curvas e cumes.

As crianças afastaram-se do caminhão que anunciava em seu alto falante a música de aviso do comércio de gás como que numa música fúnebre e em pequenos movimentos, descendo a ladeira de saída da vila para as casas vizinhas, como se ali nada acontecera; nada fizera a diferença. O tirlintar dos bujões amenizados pelo corpo do Pequeno.

No dia seguinte, um sol abrasador, seco já pela manhã, põe a pequena comunidade rural em trabalho, movimento sincrônico pela sobrevivência. Nem sequer um bom dia, nem um argumento, Milre e Audje colocam-se em marcha, a procura do mestre Colombiano para os curativos e procedimentos de um dedo infeccionando por um vírus da ordem dos papilomavírus, um invasor enraizando-se sob sua carne desprotegida e resistente. Os afazeres domésticos entre outros, e as urgências não lhe davam tempo nem concentração para luvas protetoras. Remexer estrume, titicas de galinha, e ou mesmo a compostagem úmida de chorume, uma tarefa que fazia sem frescuras.

Agora em frente ao médico pés descalços, pontual e crédula. Ouvidos atentos.

“Buen día Milre como estas, recordando pie derecho para pisar el negativismo, pie izquierdo darte energía positiva. Vamos a quitar el vendaje y pasar de nuevo la sangre de dragon.” Juan Carlos animado ao lado do altar, sua mesa adaptada para os curativos.

“Estoy muy bien, aún con el ojo de pescado a picar el dedo, virus fuerte, mestre Juan.”

“Dame tu mano. Silenciate.”

* * *

Neste dia em que os pássaros revoavam sua horta a procura de novos alimentos recém plantados, seu dedo tratado e sua filha a seu lado, um breve sopro trouxe-lhe à mente o Pequeno Coração — “havia encontrado um local apropriado para ficar , receber suas três doses de leite, teria sido jogado no charco aos carniceiros abutres, virado a comida de homens de baixo ventre” pensava enquanto caminhava sentindo o aroma do Manacá que se abria em flores, tão adocicado aroma. Solitárias mãe e filha por paisagens de passagem, na troca por experiência as duas sobreviventes.

Uma rajada de vento frio em forma de halos perpassou-lhe dando sinal de conforto, uma paz sem nome. Pequeno Coração ainda estava vivo, sentia. Olhou para o horizonte e seus cumes verdes, para não medir o peso da caminhada, suas marcas e cicatrizes, entre um e outro sentimento de alívio e gratidão, abraçadas Milre e Audje:

“Te amo Audje, minha filha.”

“Te amo também mãe!”

Sílvia Schmidt é natural de São Paulo, morou no Nordeste e Sul do Brasil, saindo de Florianópolis em 2000 em voos mais ousados para Inglaterra e EUA, com o objetivo de estudar o idioma inglês. Formou-se Letras em Lorena-SP, especializações em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, Sociologia e Política — USP, e Ontopsicologia em SC. Por 16 anos ministrou aulas de Literatura Brasileira. Em 2014 cria a editora para livros eletrônicos a Símbol@Digital, quando lança seu romance de estreia Duty Free (2000) em formato EPUB durante residência artística na Casa do Sol, em Campinas, no IHH (Instituto Hilda Hilst). Tem participado desde 2016 como mediadora em eventos literários em crítica interseccional, assim como, participado de antologias e revistas literárias com poesias, contos e ensaios.

pretexto qualquer, de Ivan Hegen

É claro que se trata de uma regra arbitrária. Ria, se quiser, eu vou insistir no experimento. Todo novo período deste texto deve começar repetindo a sílaba que veio antes. Testo assim a paciência de vocês, mas com um pouco de sorte e empenho, pode ser que algo interessante inesperadamente surja. Jamais me considerei um seguidor de Georges Perec, mas não vejo motivo para recusar alguns jogos. Gostaria agora de evocar alguma história, e para isso reviro meus cadernos de apontamentos. Tosco que às vezes sou, vejo que esbocei uma vez um conto sobre homens-animais. Mais precisamente, trata-se de consciências humanas transplantadas. Das circunvoluções cerebrais extraem as mentes dessas pessoas, que são cuidadosamente transferidas para corpos de hamsters, leões, elefantes, dromedários, jacarés, zebras e outros, sob anuência e desejo expresso destes ex-humanos. Nostalgia de um atavismo inalcançável em nossa sociedade, cansaço da vida bípede, empatia por outras formas de existência, inclinação zoófila, as explicações dividem os pesquisadores. Resta aos parentes e amigos, conformados ou não, adotá-los como pets, quando a escolha transespecífica tem por objeto um animal doméstico, ou visitá-los em um zoológico especial, quando a opção é por um animal de grande porte ou impossível de se preservar em casa. Sabe-se que há casos bizarros de pessoas que teriam sido psiquicamente transplantadas para ovelha, boi ou outro animal de corte, e teriam deixado documentado o desejo de serem oferecidas para amigos e parentes em um suntuoso repasto. Tolerância tem limite, e é claro que apesar de se verem obrigados a aceitar aquela nova forma adquirida, os responsáveis não aceitariam tal imolação, não beberiam tal sangue, ninguém enfiaria a faca tão literalmente em um amigo ou parente, nem mesmo aqueles que já o teriam feito muitas vezes num sentido mais metafórico. Covardemente, devo admitir que perco a vontade de desenvolver este conto em detalhes minuciosos. S.O.S., peço arrego, apesar de achar que teria alguma graça a descrição das limitações de comunicação entre os humanos à moda antiga e os humanos tansespecíficos, que poderia extrair algum humor no oferecimento de pipoca a homens-saguis, homens-girafas e homens-lontras, e creio que não seria de todo ruim a sugestão de liberdade na corrida veloz dos homens-antílopes. Pesco um outro exemplo no meio dos meus cadernos e arquivos. Vossas senhorias que me perdoem. Em algum lugar, encontro uma opção mais realista, que é a de um cinquentão vasectomizado, alguém que jamais quis ter filhos e que um tanto a contragosto aceita receber em casa o sobrinho. Nhoque é o que ele resolve preparar para o menino, e sua vaidade o impele a caprichar na preparação do prato, resultando num primeiro gesto quase carinhoso. Sorriso do guri começa, bem aos poucos a mexer com o solteirão que durante décadas não se sentiu capaz de compactuar com o universo infantil. Tilt maior na cabeça dele foi quando o menino passou a falar coisas mais criativas do que esperava. Valeu um olhar de espanto e surpresa sua versão da vida após a morte. Teríamos no inferno um problema que não seria o de diabos nos espetando com tridentes, mas sim o problema da superlotação de todas as almas que ali foram descendo desde o início dos tempos. Possivelmente até as almas dos neandertais estariam ali, aglomerando. Doeu um pouco quando resolveu perguntar se dinossauros também estariam nesse inferno, porque o menino entendeu como acinte à lógica e respondeu com ar de desprezo. Zoeira ou não, o homem entendeu que havia uma coerência interna nessa imaginação que pensava de uma maneira quase séria sobre a superpopulação e sobre o acúmulo dos séculos. Los Angeles, onde estava sua mãe, não parecia muito longe através da chamada feita na hora da sobremesa, por Skype. Pela cara dela, parecia tranquila em notar que o menino estava bem, ainda mais com a alegria extra de tomar sorvete enquanto conversavam. Vamos que está na hora de você dormir, ela disse depois de quase uma hora. Racionalmente, o homem considerava uma ousadia colocar uma criança em um mundo tão difícil e sofrido, mas dessa vez foi dormir com uma ponta de arrependimento por ter feito a vasectomia. Miados de gato o acordaram no dia seguinte, e só depois de calçar os chinelos e colocar os óculos é que entendeu que se tratava do desenho animado em volume alto que o rapazinho assistia em seu celular. Lar com criança é mais barulhento mesmo, pensou, e ficou perplexo que a palavra “lar” tivesse assaltado sua mente, já que geralmente ele chamaria apenas de casa aquela sua moradia. Dia inteiro com o menino, domingo arrastado à espera da irmã que voltaria de viagem à noite, mas a preguiça foi das mais gostosas de que se lembrava, e no momento em que o garoto cochilou em seu ombro enquanto assistiam a um filme, ele não resistiu, mandou uma mensagem para a ex-namorada. Daria sem dúvida para resgatar o amor desgastado, calculou ele, se prometesse reverter a cirurgia e tentar com ela criar uma família. Lia cada resposta dela com um sorriso nos lábios, e lhe enviava as fotos do sobrinho para explicar que existia um fator importante a fazê-lo mudar sinceramente de postura. Raras vezes sentiu o calor humano que estava sentindo agora, e não queria envelhecer ainda mais sem deixar sua semente. Teria um filho com ela, se ela quisesse. Se era esse o principal motivo do término, não seria muito difícil reatarem com essa impactante decisão. São e salvo, o menino foi devolvido à mãe por volta das nove horas, e às dez e pouco a ex-namorada ali chegava. Vasectomia foi o assunto principal, e ambos se encheram de esperança e ternura pela expectativa de mudança repentina. Naquela noite, no entanto, levaram um certo susto após o entusiasmo inicial na cama. Maluquice, foi a palavra com que concordaram, afinal ela o conhecia bem e sabia que não era disso. Sobrava tesão, essa era a parte esquisita, sobrava tesão, ele estava emocionalmente excitado. Dolorosamente, porém, reconhecia que não havia nada que pudesse fazer seu pau se levantar. Tarefa adiada ou definitivamente autossabotada, teriam de dormir sem resolver a questão.

Ivan Hegen é mestre em Letras pela USP. Publicou A Grande Incógnita, Será, Puro Enquanto, Rock Book — Contos da Era da Guitarra (org.), A Lâmina que Fere Chronos e Clarice Lispector e as Fronteiras da Linguagem, além dos Desinversos no Instagram, artigos para diversos sites e revistas e conteúdo na Amazon. Atualmente trabalha como tradutor.

laços, de Laura Elizia Haubert

Deus nos havia moldado débeis. Minha tia morreu jovem, com duas respirações. Tive uma irmã que nunca conheci, porque morreu prematura. Contudo, isso nos afetava apenas momentaneamente porquanto Deus também nos havia feito com uma memória lânguida. Às vezes nos lembrávamos, às vezes não. Nossas recordações dissolviam-se tão velozmente como açúcar na água. Não nos lembrávamos sequer do que possuíamos.

De fato, por numerosos anos, as palavras eram o único objeto que possuíamos. Eram tão particulares que ficavam encarceradas na garganta e deixavam o corpo, vagarosamente, após a morte. Velávamos nossas mortas por sete dias e seis noites, apenas para auscultar seus segredos. Quando uma mulher de nossa família morria, ouvia-se o farfalhar de seu timbre por meses até que, finalmente, se apaziguava. Esse som entrava baixinho pelas frestas das janelas e nos fazia companhia. Se fechar os olhos, reverentemente, posso escutar ainda os murmúrios desabridos de vovó.

Vovó tinha lábios tão claros que sequer pareciam lábios. Eles se confundiam ao restante de sua pele e eram, por fim, pele, ou também, uma forma de manter dentro o que não devia sair. Tanta coisa que não devia sair. Órgãos. Promessas. Memórias. Mas, afinal, não é isso tudo o corpo? Não é isso tudo pele? Um ocultar que não se pode ver por que, uma vez visto, se estrepa?

Mamãe era uma criatura ímpar. Passava batom vermelho e escoava metade de si para fora quando falava, o que fazia minhas orelhas esquentarem e coçarem nas pontas por vergonha. Revelava-se tanto ao conversar que se tornava transparente beirando o desaparecimento. Julgo que fazia isso para se certificar de que era diferente de vovó. Porém, essa fala confusa era um disfarce.

Se entrássemos pelos lábios de mamãe e seguíssemos o caminho até sua garganta, veríamos que, assim como vovó, ela tinha pequenos nódulos insistentes, palavras vazadas de dor que não haviam sido pronunciadas, que não o seriam nem nos sussurros da morte. Sua língua era áspera, cheirava a sofrimento outonal e tinha sabor de umami. Lembrava-me dias ensolarados que subitamente se escurecem, murchando. Perto do dente molar, mamãe tinha uma cárie não cuidada, resultado dos doces que comera escondida tentando aplacar as dores de seu coração, os comentários alheios, as pequenas malvadezas de vovó.

Vovó era uma mulher de poucas palavras, tão poucas palavras que não me recordo de uma só delas. Pode ser a memória, mas acho que é somente o silêncio. Mamãe, pelo contrário, fala tanto que me atordoa com a capacidade de sua mandíbula de articular tanta coisa rítmica de uma só vez. Quando vovó morreu, mamãe escutou sua voz imóvel por uma semana. Sentava-se tão ereta que sua coluna distendeu perdendo a forma natural. Até hoje sente dores. Quando a banho, antes de dormir, mamãe geme com o contato suave da esponja em suas costas. Os homens não lhe apalpam mais, imagino seu mundo solitário no qual há apenas palavras vazadas das frestas vinda de vovó.

Vovó tinha vergões nas costas, tão profundos que o sangue desistia de circular e ficava acumulado nas feridas antigas. Quando a ajudava a vestir-se, ela me dava uma impressão de ser uma obra de arte. Um quadro impressionista. Os vergões de vovó eram a herança que recebera de sua mãe. Minha bisavó aplicava na carne dos filhos o sofrimento que conhecia de primeira mão: a vida abafadiça, o desabrigo, o medo que rompia ao escutar a maçaneta abrir-se devagar antes de ser violada.

Minha bisavó nunca deixou a fazenda onde nasceu. Sua vida aconteceu em treze quilômetros quadrados. Quando virou moça, evento que sucedeu cedo, seu pai, sem rodeios, casou-a com um amigo vetusto, na igreja e tudo. Deus não disse uma palavra a respeito da sua infância roubada. Ela chorou, todas as noites, até morrer. Depois de morta, continuou pranteando pelos cantos da casa. Chorou pelos filhos, já que também descontou neles sua dor. Acho que as palavras ferinas de vovó eram a metamorfose do chicote de sua mãe, queimavam na pele de mamãe, assim como mamãe fez honras em me queimar.

Na cozinha, próximo ao fogão, posso auscultar o eco de todas essas mulheres, de todos nossos laços. Mas, a sensação não dura muito. Mamãe está orbitando com tamanha força no andar de cima que sou ofuscada por seu rosto, sua presença, percebo que minha garganta também tem nódulos. Fragmento-me em tantos nacos que quase não sou capaz de juntá-los, porém, o terror que mamãe enxerta, faz com que cate os pedaços rapidinho e me faça inteira para preparar o jantar. Sou, afinal, herdeira de uma linhagem de mulheres que, apesar dos pesares, e eram muitos pesares, sobreviviam. Gostássemos disso ou não.

A vida, como Deus queria, incutia-se debaixo de nossas camas, entrava rastejando pelas unhas, alimentando-nos todos os dias, fizesse chuva ou fizesse sol. Por fim, quando a vida se satisfazia com nosso sofrimento, permitia-nos que, privadas de tranquilidade, falecêssemos. Era a nossa esperança.

A bebê chora. Caminho até o berço, com passos acorrentados pelo passado. Minha filha acabou de nascer e já tem mais passado que futuro. Possui as mesmas mãos pequenas tecidas por desespero como a bisavó, enquanto seus lábios são partes de mamãe, de um rosa desaforado. De mim, se herdou algo, foram os braços fracos. Ela ainda não fala, ou talvez não queira falar, já que não há muito o que dizer por aqui. De soslaio, contemplo outra vez suas pernas. São pernas de corredora, são pernas que nenhuma de nós nunca teve. São pernas para o futuro, pernas que podem ajudá-la a escapar. Do passado. De nossos laços. De mim.

Laura Elizia Haubert. Doutoranda em Filosofia na UNC (Bolsista CONICET). Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Participou de antologia de contos como As coisas que as mulheres escrevem, pela Desdêmona Editora, e de revistas literárias como a Revista Ponto do Sesi-SP e a Revista Subversa. Publicou em 2015 pela Editora Multifoco o livro Ode à Nossas Vidas Infames, em 2017, pela Editora Patuá, o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul, e, em 2019, pela Quintal Edições, o livro Memórias de uma vida pequena. Atualmente vive em Córdoba, na Argentina.

Brasil: (im)possíveis diálogos #20

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Lockdown

Por Lucius de Mello

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Vitor Rocha

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito — não fosse pelos meus sonhos ruins.” (Shakespeare, Hamlet)

O pôr do sol engaiolado está ainda mais distante da lua mascarada. Estrelas em quarentena pouco se expõem à sacada do Cosmos para ver a posse do verme na cova rasa, ainda quente. Trôpega, a larva à terra desce cavoucando delícias, sob a rampa de torrões pisados e remexidos, até alcançar o berço esplêndido na escuridão. Só ali, bem no fundo, as margens parecem plácidas. Na superfície, em raios fúlgidos, a imagem da tristeza resplandece. Uma luz artificial estica as horas com holofotes intensos. A claridade postiça termina de apagar o crepúsculo de cores laranja, ouro, quindim, rouge com violeta que desaparece no horizonte. Horizonte? Onde? No buraco, responde uma voz masculina ao ouvir o lamento de um filho que acabara de enterrar o pai. Enterramos o seu Brás, grita para todos ouvirem. Gigante pela própria natureza, o defunto é grande, precisa dessas centenas e de outras milhares de sepulturas para o descanso final. Paz no futuro? E a vergonha do passado? Cada corpo que eu sepultei hoje aqui é um pedaço do Brasil, proclama o homem ao levar a pá ao peito. Horizonte, onde? Cadê? E daí? Enquanto isso, o verme, dono de impávida indiferença, começa o farto e sinistro banquete.

O impacto do vírus mortal abre crateras ao luar. São Jorge de gesso guarda uma delas. Antes da meia-noite o cemitério não fecha. Ainda falta terminar o serviço funerário de pelo menos dez vítimas da Covid-19. Comovido com o destino do seu Brás o orador está ali para trabalhar. Conta que acabara de ser contratado, temporariamente, pela prefeitura de São Paulo para reforçar o exército de coveiros no movimentado sepulcrário. Que era pago só para enterrar números, mas impressionado com o genocídio e com a conta que nunca fecha, decide fazer do “bico” no reino do corvo papel bem mais complexo do que o de assistente da morte. E naquela arena sombria improvisa um revolucionário monólogo: Todos os crânios enterrados esses dias no Brasil sou eu! Vou falar por eles! Defendê-los desse crime bárbaro contra a humanidade! Sou o velho e a vovó da casa de repouso, o morador da favela, o negro, o índio, o morador de rua, o médico, a técnica de enfermagem, o motorista do ônibus, o motoboy, a sua mãe, seu irmão, sua namorada, seu marido, a professora, o pipoqueiro, o bêbado e o equilibrista, o Blanc, o Sérgio Sant’Anna, o cientista… O crânio que ainda não veio… Ou aquele que nem sabe quem é… Essas valas não representam o fim. Elas são trincheiras! O discurso só parava quando o companheiro de cena dava um cutucão: Oh, maluco, quer ser demitido? Vamos cavoucar!

O coveiro de 24 anos tem um grupo de teatro amador na periferia paulistana. Foi obrigado a trancar a faculdade de filosofia por não ter condições financeiras para pagar as mensalidades. Branco, magro, com cabelos pretos e longos até os ombros, usa uma barba rala e um cavanhaque que lembram um homem do século XVI. Beleza elisabetana florescida em semente paraibana que, na maior parte do tempo, fica escondida sob o figurino de plástico e tecido branco celeste. Mesmo na cápsula de segurança o coveiro, mais oráculo que angélico, empenha-se em confortar os parentes dos mortos e fazê-los entender que muitas vidas poderiam ter sido salvas não fosse a prepotência do presidente do Brasil e de alguns políticos em não dar crédito à voz da ciência e tratar a pandemia como uma gripezinha. Daria tempo de ter salvo milhares de brasileiros, milhares, se o mal fosse encarado como inimigo real antes de ter chegado por aqui. Apesar da armadura sufocar o som, o coveiro-ator consegue projetar a voz e se fazer ouvir.

Ele não hesita em se jogar nos braços das ideias e das palavras. Conversa baixinho com os fantasmas dos mortos. A verdade precisa ser conhecida. Sim, era fake news, dona Maria! A tragédia quer um prólogo póstumo! Os colegas dizem que é loucura, imaginação, circo. Mas ele sabe que precisa intervir na cena, que tem mais talento para artista do que para ilusionista de cadáveres. Naquele teatro de mil fossos, o ator emociona-se com as famílias e procura conhecer e interagir com seus dramas. Dribla o chefe, o relógio, as novas regras da necrópole, busca acolher aquelas pessoas entristecidas, machucadas pelo adeus fugaz e glacial; arrisca-se para tratá-las com a nobreza que elas merecem. Quer restituir-lhes a tão apagada coroa da dignidade.

Brilho mesmo tem as luzes dos drones e helicópteros que estão muito acima das cabeças. Os enterros em série são transmitidos on-line e podem ser assistidos na palma da mão. Triste ironia para quem chora os seus mortos e que mal pode chegar próximo ao caixão lacrado. Alguns coveiros comentavam os bastidores da cena vendo tudo no próprio celular. Já o subversivo funcionário tinha os olhos voltados às famílias quebradas, incompletas, muitas vezes representadas por uma única pessoa.

— Por favor, me deixe ficar mais cinco minutos perto da minha mãe, não consegui me despedir dela. Gravei uma mensagem de áudio e enviei para o celular do médico da UTI, pedi para colocarem pertinho do leito para que assim minha mãe pudesse me ouvir mas não sei se de fato atenderam ao me pedido. Seja gente, seu coveiro, implora uma filha inconsolável…

Todos que pedem, ele atende. Discute com os colegas, produz argumentos, coloca o emprego e a vida em risco. E o caixão lacrado da dona Albani fica alguns minutos a mais sob o olhar da herdeira desolada. A mulher pergunta pelo nome do funcionário solidário, quer levá-lo no coração. Mas ele se recusa a revelar: Minha identidade? Pode me chamar de Lockdown — sou poeira da poeira do barro das botinas dos coveiros de Hamlet. O personagem que represento aqui nessa tragédia é a minha humilde homenagem aos dois assistentes da morte que nasceram da pluma de Shakespeare e, com humor e sagacidade, ajudaram o príncipe a pensar, refletir, diz seriamente, cuspindo terra, atolado entre crânios.

O próximo! ordena o chefe dos coveiros. Lockdown logo pergunta: Era sua noiva? 22 anos! Como se chamava a sua musa? Beatriz. Era trabalhadora da saúde. Será minha rainha eternamente, nos casaríamos mês que vem, respondeu o jovem completamente abalado. Ela se contaminou no hospital e em uma semana morreu, mesmo no respirador. Eu tive mais sorte. Também sou enfermeiro. Só você veio acompanhar o enterro? Eu e a irmã dela… A ordem é chegar e enterrar mas vamos dar dez minutos para a última cena dessa história romântica. O noivo se aproxima do caixão e, baixinho, faz uma emocionada declaração de amor. Os colegas de Lockdown aproveitam para beber um copo de água e ele improvisa uma trilha sonora para a cena derradeira de Marcelo e Beatriz. Interpreta Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc. O compositor também tinha morrido, naquele mesmo dia, vítima da pandemia do coronavírus:

“Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Mas fico sem jeito, calado e ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei. Num dia azul de verão, sinto o vento. E há folhas no meu coração, é o tempo… Recordo um amor que perdi, ele ri… Diz que somos iguais, se eu notei… Pois não sabe ficar e eu também não sei… E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro, sozinhos. Respondo que ele aprisiona, eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto. E o Tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver…”

Viva Beatriz! Palmas para a enfermeira, pede o coveiro às poucas pessoas que estavam espalhadas pelo cemitério e os minguados aplausos acontecem. Era o que faltava para completar o teatro de Lockdown que pensa no bis e também é atendido. Alguém ainda brada: bravíssima! Quanta apoteose no apocalipse. O ator se enfia na cova e, de lá do fundo, reverencia sua rara plateia. Lembrem-se, há algo de maligno no reino do Brasil! finaliza com tom professoral.

Antes da descida do caixão de Beatriz, Marcelo pede ao coveiro para retirar do fundo da vala um objeto que lhe causa estranheza. O que é isso? pergunta o noivo. Lockdown pega, limpa bem com as mãos e esclarece: O que sobrou do crânio de uma vaca! O bicho deve ter morrido aqui há muitos anos. Toma! Segura! E joga a cabeça da ossada bovina para o enfermeiro. Marcelo olha fixamente para a máscara branca de gado e, envolvido por um breve silêncio, parece hipnotizado por aquele fóssil composto de cálcio e fósforo. Acorda, Hamlet! Sua Ofélia vai partir, instiga Lockdown. O rapaz coloca a caveira ao lado dos próprios pés e joga margaridas sobre o caixão da amada.

A enfermeira é enterrada. Sem olhar para trás, Marcelo e a cunhada deixam o trágico teatro. Lockdown pega novamente o crânio da vaca e observa os ossos tortuosos e cheios de fissuras, os côncavos que assinalam o lugar dos olhos, das narinas ofegantes, os vazios agora escavados na face… Se você ainda tiver alguma dúvida pode perguntar que eu esclareço, diz ele ao fragmento de ossada com prazerosa ironia. Depois, prende a cara descarnada do animal numa pequena cruz de madeira sob os olhares da próxima família e começa outro monólogo: Precisamos corrigir nossos caminhos, mudar a rota que nos trouxe a esse inferno. Seguir o rastro da poesia, as pegadas dos poetas… Quem, de fato, matou esses brasileiros? O vírus ou a indiferença desse governo?

De mãos dadas com o teatro e a morte, Lockdown deixa o cemitério à meia-noite com o pelotão de coveiros. Alguns vão embora de carona na van da prefeitura, outros de moto ou de bicicleta. Lockdown segue a pé e solitário porque mora perto do trabalho. Chega em casa, toma um banho frio, bebe uma cerveja, come um sanduíche e vai deitar na rede da varanda. Fuma o último cigarro daquele longo dia, até ensaia abrir um livro mas, morto de cansaço, adormece pensando no amor roubado de Beatriz e no reino de esqueletos chamado Brasil.

Lucius de Mello é doutorando em Letras na Sorbonne Université — Paris e na Universidade de Sao Paulo. Escritor e jornalista. Segundo lugar no Prêmio Jabuti (2003), na categoria melhor reportagem/biografia, com o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro (Objetiva, 2002; Planeta, 2015), obra em processo de adaptação para série de TV, nos Estados Unidos, renomeada Madame Eny, em co-produção brasileira e americana para plataforma de streaming. Autor do ensaio Dois irmãos e seus precursores — o mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum (Humanitas, 2014), resultado da dissertação de mestrado defendida na USP (2013). Sua pesquisa de doutorado investiga o sonho de Balzac de escrever uma Bíblia Mundana, tomando como base as influências e as conexões entre A Comédia Humana e a narrativa bíblica. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (LEER-USP). Autor convidado da Primavera Literária, Paris (2020).

Brasil: (im)possíveis diálogos #19

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Delação

Por Rodrigo Novaes de Almeida

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Vitor Rocha

Eu tinha 12 anos de idade quando me interessei por escutar as histórias dos outros, para os adultos, uma criança não eram ouvidos que se dessem importância, mal sabiam, esses homens da narrativa que estou prestes a contar, que de histórias reveladas em um restaurante de um clube naval, uma delação seria feita cerca de trinta anos depois. Talvez estejam todos mortos hoje, o meu pai, médico ginecologista obstetra e um dos mais jovens do grupo de amigos que jogavam tênis duas, às vezes três vezes por semana no clube, está morto há dez anos. Outro homem, um senhor já naquele tempo, alemão que dividia o ano em seis meses no Brasil e outros seis na Alemanha, não sei o seu ramo de negócio, eu costumava observar com mais atenção, talvez por ser um dos poucos estrangeiros que conhecia, um dos poucos homens com barba e cabelos ruivos que conhecia, e ter um sotaque estranho ao falar sobre a segunda grande guerra e a prisão depois de seu avião ser abatido pelas forças aliadas, talvez no espaço aéreo entre a França e a Inglaterra (o campo de prisioneiros era neste país), quando tinha 19 anos. Recrutado aos 17, ele dizia que muitas vezes acontecia de pilotos inimigos em voos de reconhecimento balançarem as asas do avião para informar ao inimigo que não estavam dispostos a travar uma batalha naquele dia. Não era sempre que funcionava. Não sei o que devo considerar anedota de um velho prisioneiro de guerra, mentiras ou exageros de um adolescente numa memória de quarenta anos atrás ou o que são verdades históricas em seus relatos, enquanto eu e meus irmãos mais novos jantávamos frango à la Kiev, as esposas falavam a respeito de frivolidades, e esses homens de meia-idade conversavam sem se importarem comigo; eu os escutava sobre seus trabalhos, suas vidas, que àquela altura, naquele tempo, me pareciam muito mais interessantes do que as de qualquer outro grupo, como as de suas mulheres banais. Evidentemente, eu não entendia tudo o que diziam. Havia em especial um homem baixo, gordo, para mim com rosto e jeito antipáticos, que era quem eu menos compreendia, apesar do alemão com sotaque carregado e de suas histórias fantásticas, era este outro um homem que, anos depois, conhecendo melhor os tipos humanos (e não necessariamente suas almas), eu o classificaria como desses que gostam de contar vantagens, assumir publicamente as próprias safadezas como conquistas respeitáveis, dignas de homens inteligentes que sabem aproveitar uma oportunidade, e se deleitam com isso; e os amigos, se não ouviam com admiração e um pouco de inveja, hoje eu especulo, ficavam instigados a compreender melhor como este país, dentre todos, realmente fazia as suas engrenagens públicas e privadas funcionarem há muitas e muitas décadas sempre iguais. Eram meados dos anos de 1980, a transição da ditadura acontecia de forma gradual e lenta como explicava o missal, como se espera de uma nação que investe em manter a memória do que é importante morta acima de tudo, o homem das oportunidades acabara de chegar a um posto de diretor de uma das mais promissoras empresas petroleiras do mundo, pública, nacional, filha de um país continental e mãe de centenas de cidadãos premiados, diplomados, fluentes em línguas de alto e baixo clero, especialistas no comércio exterior e no submundo do crime do colarinho branco. O digníssimo recém-empossado diretor vangloriava-se da nova casa na região serrana, era lá que todos os executivos dos esquemas da companhia compravam suas mansões, em condomínios fechados, e conversavam sobre como eram absolutamente homens especiais em um país como o deles. Cerca de vinte anos depois, eu conheceria outro diretor da mesma empresa, quatro ou cinco presidentes civis da República depois, com casa em um dos mesmos condomínios. Havia mais sofisticação, é claro. Mais dinheiro em jogo, também. O país era mais rico, o roubo maior. Este homem de negócios mantinha escritório em cobertura de prédio tombado da antiga capital federal, cidade da verdadeira sede da empresa, de onde podia ir e vir a pé, escritório no país mais rico do mundo e postos avançados em regiões de miséria da África, que davam milhões às empresas lobistas dele e de sócios ex-funcionários da estatal. “Mas antes eram outros tempos”, diriam homens de fala e gesto mansos, “agora os tempos mudaram e não vamos tolerar isso!” Esse outro diretor foi um dos presos durante uma das maiores investigações federais sobre corrupção de compra e venda de uma refinaria que mal poderia ser vendida a um ferro-velho, segundo os jornais. “Os tempos mudaram”, havia anos não comíamos mais frango à la Kiev, o diretor atarracado e antipático dos anos de 1980 já devia estar aposentado ou morto, os esquemas eram conhecidos por todos e replicados nas empresas privadas, setores inteiros concebidos dentro delas para a corrupção, uma corrupção civil-militar desde o início (tal como hoje, neste final de mundo interminável sobre esta terra devastada pela peste e pelos homens). Entretanto, eram tempos em que já estávamos um pouco distantes da anti-civilização dos antigos porões contra a ameaça comunista, o velho fantasma que amedrontava as noites de toda a gente mediana deste país. Tais bárbaros viriam depois, novamente, com crucifixos, o antigo testamento debaixo de um braço e a legislação importada do outro, pois a nação caíra nas mãos de um partido que se voltava para questões difíceis, complicadas, que nunca deveriam ser mexidas, feridas que não tocamos — “a miséria é um bem nacional e a senzala só mudou de nome há cento e trinta e um anos” é uma ladainha popular da pátria. A oportunidade para derrubar um governo, qualquer governo, ainda mais um nessas condições, e de rapinar todo um país outra vez todo o tempo esteve aí e o departamento de estado estrangeiro que contribuiu durante décadas para as ditaduras e as republiquetas de bananas do continente, como se tornaram de modo folclórico conhecidas em todo o mundo, sempre soube disso. Só que agora o ouro negro jorraria em abundância e havia uma tecnologia avançada para extrair um oceano de óleo de debaixo da terra e do mar. Então, aconteceu. A história, pelo menos esta, todos afirmam saber, independentemente do nome que dão. Mas as demais histórias todos também sabiam, dos tenentes e capitães aos generais, brigadeiros e almirantes, dos vereadores aos deputados, senadores e presidentes, dos engenheiros aos diretores das grandes empresas público-privadas, porque nada neste país é apenas público ou apenas privado, como nada da memória é guardado por muito tempo, mesmo em seus porões, mesmo hoje aqui, diante de vocês, deste tribunal, ao fazer minha delação, com mais de trinta anos de atraso, a delação de menino de 12 anos que adorava comer frango à la Kiev e ouvir histórias.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Formado em Comunicação Social — Jornalismo, com pós-graduação em Publishing e passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática e Estação Liberdade. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, no prelo), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

Brasil: (im)possíveis diálogos #18

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Peteca

Por João Maria Cícero

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Vitor Rocha

“Me forçaram a falar português.”

Forçaram-me, eu pensei… Mas quem fala assim hoje em dia? Ela falava bem, ela se comunicava. Não é assim a abordagem comunicativa? Nós só percebíamos que não era brasileira na famosa ‘peteca’ quando ela dizia palavras que começam com p, t e c (com som de k). Peteca é um símbolo que estudamos na aula de fonética do inglês. É uma sutileza do inglês que não existe em português e fica bem marcado quando não somos nativos. Esses três sons em inglês são aspirados. Falamos ‘time’ com uma aspiração do ‘t’, quase como uma tomada de ar. E a peteca marca bem a diferença entre brasileiros e americanos quando falamos a língua um do outro.

Enquanto ela ia explicando a experiência no Brasil, eu ia buscando falhas no seu português para que minha posição de poder pudesse ainda ter algum efeito. Os alunos quando voltavam do Brasil, chegavam senhores da língua — da minha língua. E dentro da minha posição de poder, eu precisava encontrar maneiras de garantir meu espaço de ‘learned’ e os alunos de ‘learners’ como se dizia em inglês arcaico.

“Não foi difícil. As pessoas no Brasil são muito simpáticas e todo mundo achava que eu era brasileira. Acho que pela minha raça…”

Ninguém usa a palavra raça no Brasil. Ninguém fala de raça no Brasil, mas todo mundo tem uma opinião sobre a sua cor, especialmente se você é estrangeiro. Ainda assim, quando ela fala ‘raça’ algo soa estranho no meu ouvido. Talvez seja o meu racismo internalizado, algo que ainda habita no meu corpo branco brasileiro privilegiado. No mesmo grupo, uma aluna me disse que eu era ‘branco’ — pausa — ‘brasileiro’. “Brazilian white”, ela disse em inglês. Afinal tal categoria não existia em português. Eu era branco, mas não white de acordo com ela.

“A parte mais difícil foram as aulas…” Interessante como a aspiração não aparece quando há um ‘r’ antes do ‘t’. Porém ela voltou com esse sotaque carioca, estava até falando ‘merrrmo’. Quem fala assim? Que som é esse? Eu poderia ensiná-los a não falar assim antes que fossem ao Brasil. Nós evitamos o uso do ‘r’ caipira, por que não evitar o ‘merrmo’? Porém, o ‘r’ capira está dominando São Paulo, até a capital… O refúgio do nosso ‘r’ cantado estava sendo tomado pelo ‘r’ caipira. O que será de mim na velhice? Eu vou ser aqueles velhinhos que falam engraçado, como quando eu era criança e achava graça dos velhinhos que ainda falavam o ‘r’ inicial como se fosse espanhol. “roda”.

“Durante as aulas eu fiquei muito perdida sobre o que fazer. Os professores não explicam a lição de casa….”

Lição de casa é bem infantil. Ninguém usa o termo na faculdade, mas aqui nos Estados Unidos, a universidade é um pouco (ou bastante) infantilizada e os alunos precisam de lição de casa toda aula. Eles precisam saber quantas páginas por dia precisam ler. Eu preciso dar lição de casa todo dia. Não existe aquele sistema de chegar e falar, falar, falar por horas. Os alunos pagam muito caro e precisam participar das aulas. Eles precisam sentir o produto pedagógico como um objeto físico que se pode tocar. Eu não sou suficiente. Os meus livros expostos no meu escritório para que os alunos admirem durante as minhas office hours, as palestras gravadas online, os textos publicados em algum jornal de prestígio. A aprendizagem é concreta nos Estados Unidos, é o preço do mercado educacional que cobra quase um quarto de um milhão de dólares por quatro anos em uma universidade de prestígio.

“Eu passei as duas primeiras semanas perdida sem saber muito bem o que fazer nas aulas. Era tudo tão fácil para todo mundo. Até que um outro estudante me ajudou e começamos a organizar as leituras dos textos da aula de História do Brasil. Era um curso muito bom. Eu aprendi muito sobre a história do Brasil. Muitas coisas que já tínhamos falado no nossa aula…”

NA nossa aula. Os alunos vão terminar o curso ainda trocando o gênero gramatical das coisas. Logo no início eu explico a diferença entre gênero social e gênero gramatical, mas algumas palavras vão até o final do curso sendo trocadas. Mensagem, ponte, leite, aula e classe, tema (na verdade todas as palavras que terminam em -ema e -ção). Apesar disso ela falava muito bem. Eu estava impressionado com a fluência dela.

“Falamos muito de ditadura, tropicalismo, democracia, golpes políticos… O Brasil é um desastre.”

Essa foi a primeira vez que eu interferi na apresentação. Ela disse ‘um desastre’ e deu um sorrisinho maroto. Como se ela tivesse preparado esse momento para dizer na minha frente. Ela sabia onde estava pisando. Ela sabia que não podia criticar o brasileiro, mesmo com o desastre do atual governo. Ela sabia que mencionar a palavra desastre tão perfeitamente pronunciada para o mais insatisfeito brasileiro seria um ataque. E ela ainda disse desastre como eu, paulistano, diria. Ela esqueceu a pronúncia do ‘s’ chiado carioca na minha frente.

Desastre…

“O que você quer dizer com desastre?” Ela estava preparada para a minha pergunta. A apresentação dela estava milimetricamente preparada. Ela havia inclusive pensado no tempo necessário para as perguntas.

“Not very diferente from us here in the U.S, né?” Enquanto ela comparava com os Estados Unidos, ela avançou um slide na apresentação e colocou uma foto dela com os colegas de curso. Ela era a única mulher no grupo de estudantes de Economia. Ela usava uma gravata, símbolo da faculdade. Ela era a única pessoa ‘de cor’ na foto, no meio de uns trinta ‘white brazilians’. Ela sabe que eu conheço a expressão em inglês “a picture is worth a Thousand words”. Ela sabe que eu sei que o Brasil é um desastre…

“Pode continuar de onde você parou a sua apresentação.”

João Maria Cícero é escritor e parte do professor João Nemi Neto. Ele mora em Nova York e dá aulas de português. Como poeta, ele já fez parte da coletânea Tente Entender o que tento dizer. Poesia: HIV/ AIDS organizado pelo poeta Ramon Nunes Melo (Bazar do Tempo, 2018). Ele também colaborou com um coletivo de escritores latino-americanos para o livro The US without us (Sangría Editores, 2016). Seu último livro Corpo(s) (2017) foi publicado pela Editora Giostri em São Paulo. Como professor, ele escreve sobre sobre Pedagogia e teoria queer com foco em sexualidade e gênero. Seus artigos já saíram nas Revistas Foreign Policies, Intellectus entre outras. Seu próximo livro, Anthropophagic Queer: Contemporary Brazilian Cinema, sai em 2020 pela Wayne State University Press nos Estados Unidos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #16

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Confabulação

Por Virna Teixeira

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Vitor Rocha

Sentaram-se à mesa de jantar da enfermaria para a reunião usando máscaras. Movimentos gestuais. A linguagem das máscaras é intransitiva? Ela não lembra do acidente. O hipocampo foi lesado no começo da pandemia.

Sentada à mesa sem máscara diante da equipe. Como se estivesse nua e vulnerável, a boca e o nariz expostos. Os rostos recobertos, sentados em distância geometricamente precisa, estão fixados nela. Sua perplexidade não é neurológica, é real.

Este é um sonho ruim? Uma espécie de inquisição?

Amnésia anterógrada. As datas não significam nada. Há notícias sobre este vírus em toda parte.

Ela quer sair para fumar. Ela não lembra da admissão. Seu corpo mudou. Antes caminhava pelos corredores como uma escultura de Giacometti, os braços longos e pendulares. Agora precisa de roupas novas, mais largas. Manequim 38.

Lembra que estava numa livraria em Nova Iorque, em agosto de 2019, mas isto foi muito antes. Pensa que meu nome é Doctor Maria, porque sou latina.

No dia do acidente eu descia a rua com cervicalgia, após uma tração súbita e recente nas costas. Estava tonta e com choques descendo pelos braços. Tive delírios de neurologista com minha coluna. Imaginei que perderia meus movimentos. Quando alcancei o metrô tinha palpitações e suava.

Não sei quanto tempo passei no metrô. Eu estava fora da realidade, eu olhava para algumas pessoas com máscara e tinha medo. Concentrei na respiração. No trajeto, fui me acalmando. Era um ataque de pânico.

Cheguei em tempo para a reunião, foi um dia longo, que culminou com o acidente. Corremos. Lembro dos gritos, da garota anoréxica que chorava sem lágrimas, porque estava muito desidratada.

Mas ela sobreviveu. E esqueceu de tudo. Na semana seguinte, começou a quarentena.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. Poeta, tradutora, contista e editora. Seus livros de poesia foram publicados na América Latina, Portugal e Reino Unido. Virna tem um trabalho prolífico como tradutora, e publicou títulos de poesia escocesa, sul americana e francesa; numerosas traduções de língua inglesa; e versões de poesia brasileira para o inglês. Vive em Londres e dirige um projeto editorial independente, Carnaval Press, além de editar a revista bilingue Theodora. Ela também é médica e trabalha em hospital psiquiátricos no NHS.

Brasil: (im)possíveis diálogos #15

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Despedida

Por Leonardo Valente

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Vitor Rocha

— Eu queria poder lhe dar um abraço bem forte nesse momento tão difícil, mas não vai ser possível. Seu marido acaba de partir aqui do meu lado — contou chorosa a médica intensivista do hospital de campanha no Estádio do Maracanã, em videochamada da tela de seu tablet para o smartphone do primo.

O mundo que ameaçava desmoronar em etapas desabou por inteiro de repente. Tudo ficou turvo, sem sentido e aquelas palavras não pareciam conexas. Como assim ele morreu? Dez anos mais novo, 32, saudável, uma vida pela frente. Lindo. Engenheiro civil bem-sucedido, amante das artes, sensível. Como assim o casamento de um ano e meio terminou? Aquele casamento com uma festa inesquecível para as duas famílias na beira de uma praia paradisíaca ao pôr-do-Sol, como ele ousou ir embora? Quem vai fazer o jantar depois de um dia cansativo de trabalho? Quem vai se jogar no sofá, sorrir e falar sobre as bobagens e problemas do dia? Quem vai envelhecer junto e organizar a aposentadoria para morar em Portugal? Como ele tem coragem de interromper planos tão pequenamente grandiosos, tão doces e tão dependentes dos dois?

— Você precisa ser forte, primo, muito forte — pediu dessa vez aos prantos a médica, que precisou respirar fundo para continuar — você não pode sair do seu apartamento porque com certeza está contaminado, só não tem os sintomas. Não temos mais testes para confirmar, não temos mais equipamentos de segurança, não temos mais nada, nem sei como conseguiram montar essa UTI aqui no estádio, o hospital era para ter só leitos de enfermaria, mas a situação está muito grave, muita gente doente jogada nas calçadas, muita gente morrendo em casa. Seu filho está bem na casa da sua mãe, deixe-o lá por mais umas duas semanas, pelo menos, nem ele nem ela podem ter contato com você, e nem podem ir à rua, para o bem deles.

O filho. O que será do filho? O menino de três anos adotado e que chegou para alegrar a família quatro meses antes da pandemia. Como será criado só por um em vez de dois? Como é que se paga sozinho a prestação do apartamento? E a pequena poupança que está na conta dele? E o carro que está em nome da sogra, mas que é de ambos? E a conta no Instagram com fotos da família dignas de novela, quem tem a senha? E o amor, e o companheirismo, e os cinemas às sextas, teatros aos sábados e restaurantes aos domingos? Quem foi que morreu? Não pode ser ele, é algum engano, com certeza não faz o menor sentido, a TV tem denunciado muito erro desse tipo.

— Ele foi embora dormindo, nós o mantivemos em coma induzido. Foi tudo muito rápido, apenas três dias de UTI. Pelo menos não sofreu muito — tentou consolar a médica.

Meu Deus, três dias. Só três dias. Cinco de enfermaria de hospital e três de UTI. Semana passada ele estava em casa, fazendo risoto no meio da quarentena quando começou a tossir. Ponta de febre, coisa leve. Dormiu bem, acordou com um pouco de falta de ar e achou melhor ir ao médico. Ficou internado por precaução, ligava para casa duas vezes por dia, perguntava como estava o menino, como estava tudo. Parou de ligar quando piorou e foi transferido do hospital superlotado em Copacabana para a UTI no Maracanã. A prima disse que ele era forte e que ficaria bem, que daria notícias toda hora, que já já voltava para casa. Cadê as notícias sobre o estado dele? Ela está devendo. Quando ele volta? Por que não pode falar no celular?

— Assim que você me ligou para falar da transferência, vim para cá e me ofereci como voluntária, eles estão sem médicos e cuidei dele cada minuto. Você tem comida em casa, primo? Paracetamol? Tem Rivotril? Você vai precisar tomar. Ninguém pode ficar aí com você, ninguém vai poder te abraçar, te consolar e dar o ombro para você chorar. Você precisa segurar essa barra sozinho, mas nossa família está com você mesmo à distância. Se passar mal ou tiver falta de ar avise e corra para um hospital. Quer que eu peça para deixarem compras na portaria? Prefere comida pronta? O que você está precisando, olha para mim, fala alguma coisa, pelo amor de Deus. Eu também vou precisar de você agora, de sua ajuda, por ele.

Comida? Pra que comida? Comida em quarentena engorda. Alguém tem que ligar para a mãe dele que mora em Roma, ela nunca atende o telefone. O maldito genocida que está no Planalto não disse que era só uma gripezinha? Ela votou nele, filha da puta! Como se contrata funeral sem sair de casa? Ele precisa de um funeral digno, precisa de tudo de bom e do melhor que se pode oferecer, de carinho, de companhia, de alguém que atravesse essa barra junto, que segure as pontas porque tudo vai passar, sempre passa. Ele precisa de uma linda coroa de flores, quem vai trocar a roupa e fazer a maquiagem? Ele é muito vaidoso, não pode parecer abatido no funeral. Como pega atestado de óbito? INSS dá direito à pensão para casal homoafetivo? Ele vai precisar tomar uma sopa quando chegar em casa. Sem sair de casa fica difícil comprar as coisas para a sopa que tanto gosta, de repente ela pode realmente deixar algumas compras na portaria.

— Não vai ter funeral, primo. O corpo vai ser levado em caixão fechado para ser cremado em outra cidade. O caminhão do Exército vai levar. Aqui não tem mais como. O lado de fora do estádio está cheio de caixões, as calçadas do bairro estão lotadas também, só na entrada do metrô tem uns trinta. Eu preciso de você, primo, eu preciso que seja forte, porque a gente precisa liberar o corpo, é o que a gente pode fazer de mais digno para ele neste momento. Quanto mais rápido a gente liberar o corpo, melhor para ele, menos tempo vai ficar por aqui. Você me ajuda, meu querido? Vou resolver tudo, mas preciso de você.

O apartamento acabou de ser pintado, está novinho. O quarto do filho está todo decorado. Ele cuidou dos papéis de parede, escolheu a dedo, tanto o do canto da sala, preto e branco, quanto o do quarto do menino, todo azul. O imóvel de três quartos, com uma suíte e uma varanda, está lindo. Os tempos são muito duros, ninguém sabe quem vai segurar o emprego, o Brasil tem um governo insano e perdido que vai matar mais que o vírus, mas um casal unido e que se ama supera tudo. Não tem problema, as férias programadas para a Europa, por exemplo, vão virar férias no Nordeste os três serão muito felizes nessa viagem. Praia, Sol, pousada, comida típica, forró à noite, vai dar para fazer tudo. Essa doença maldita vai passar, serão necessários alguns sacrifícios e muita solidariedade, mas todos sairão mais fortes dessa. É horrível ficar em casa sozinho, mas é para o bem da família e essa fase vai acabar. O menino está seguro na casa da avó que mora no Rio, e que fica a duas quadras. Ele mesmo pegou o carro e o levou, para em seguida ir para o hospital. Tudo está bem e continuará bem.

— Meu querido, fala comigo, você não disse uma palavra, fala alguma coisa, por favor — pediu a médica ainda chorosa e muito preocupada com o primo. — Eu vou virar o tablet e vou mostrar o rosto dele para você, tudo bem? Não vai demorar. Eu mostro e você me diz sim, é ele, ou só faz um sinal de positivo com a mão, está certo? Ele está bem, não está inchado, está como se estivesse dormindo, só com os lábios um pouquinho roxeados e o rosto um pouquinho mais pálido, mas ele é lindo assim mesmo. Sempre foi muito bonito, está tão bonito quanto no dia do casamento de vocês. Assim, você também se despede dele, meu amor. Você manda um beijo, diz que o ama. Tenho certeza de que ele vai te ouvir, pode ser?

Sim! Todo mundo ouviu o aceite emocionado em alto e bom som naquela cerimônia inesquecível. Um casamento entre iguais que se amam é sempre um evento histórico, um recado de que há algo mais forte a unir os homens do que apenas a vontade dos hipócritas. Ali, todo mundo tinha certeza de que seria para sempre, “até que a morte os separe”, como disse o juiz. Quanto tempo ainda de quarentena? Por que o ministro da Saúde cada dia recomenda uma coisa diferente? Haverá uma guerra depois disso tudo? Como estará o país quando chegarem as bodas de prata? Como é que se corta o cabelo no meio dessa confusão toda se os salões estão fechados? E o funeral, ela não explicou o que é preciso fazer para organizar o funeral, é tão difícil nessas horas. Não! Espera! Parece que a construtora em que ele trabalha tem auxílio funeral, eles organizam tudo, mas será que está valendo, mesmo com o corte de metade do salário? Se cortaram o plano de saúde no meio da pandemia, podem ter cortado ao auxílio funeral também, as empresas não se importam com ninguém. Será que ele conseguirá segurar o emprego?

— Querido, olha ele aqui — disse a médica, apontando a câmera do tablet para o corpo do rapaz em cima da maca de UTI, com um avental azul e uma placa de metal bem sobre o peito com o número 2020 — Ele está sereno, ele está bem, primo. Ele precisa ir, outros estão esperando essa vaga aqui, tem muita gente precisando, tem fila de gente morrendo. É hora de se despedir. É ele? Diz para mim ou só faz um ok com a mão.

— Não é ele! Sou eu!

Leonardo Valente é escritor, jornalista, professor de Relações Internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, publicou os romances Charlotte Tábua Rasa (2016), O beijo da Pombagira (Editora Mondrongo: 2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, e a antologia Apoteose (Editora Mondrongo 2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura. É junto com Carol Proner organizador da coletânea Antifascistas (Editora Mondrongo 2020), que reúne 32 autores que formam parte relevante da literatura lusófona contemporânea. Um de seus originais ainda não publicados, o romance A procissão, foi vencedor do Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores (UBE), em 2017. Foi um dos escritores convidados para a Primavera Literária Brasileira 2019 e 2020, na Europa.