a festa dos cães, de Leonardo Almeida Filho

Ainda dói, ele pensa, mas é uma dor que parece não ter lugar, que só dói assim, pulsando, latejando dentro da gente. Dor mastigada, ele range os dentinhos. Dor que engasga a gente, ele vislumbra. Encolheu-se todo, parece uma conchinha de carne, um bichinho indefeso, e sente muita dor. Ai, ui, suspira. Não está na marca do cinturão nas costas, a dor, nem nos vergões vermelhos nas canelas, mas estranhamente há dor em toda parte e em lugar nenhum. Ai, ai, ele geme baixinho. Não chora, não deixou cair uma lágrima sequer, nada, nada, seco. Engoliu o choro que ainda tentou brotar nos olhos, engoliu com ódio a lágrima que não verteu e desceu rasgando a garganta pra sumir-se no mais sem fundo escuro de suas partes com um gosto forte de sangue que não há, gosto amargo, sabor de coisa indesejada. Abandonou-se ao silêncio, deixando-se levar pelos pensamentos que ferviam, primeiro em fiapos, depois numa grande tessitura de rancor e desejos de vingança. Ai, ai, ele bramia e inconscientemente cultivava ódio.

Naquela tarde, quando o pai chegou do trabalho um pouco mais cedo, foi encontrá-lo no fundo do quintal brincando com o filho do vizinho. Serginho, três anos mais novo que ele que acabara de completar nove anos de pequenos recalques e poucos risos, estava em pé, calção escolar de pano azul arriado, um sorriso marotamarelado estampado na face morena de anjo tupiniquim. Ele, sentado no chão diante do amigo, sentia uma sensação gostosa e inexplicável de examinar com uma fome esquisita a genitália de Serginho, que se deixava ingenuamente manipular. Com muito cuidado, absorto, alheio às coisas do mundo ao redor, tocava com visível prazer nas pequenas partes expostas. Nessa tarefa, que cumpria com extrema felicidade, observava-se com deleite, concentrando-se atentamente em seus próprios gestos, sentindo a boca encher-se de saliva. Não conseguia entender de onde vinha aquele desassossego feliz, aquela espécie de coceira gostosa, um comichão esquisito, uma necessidade…

Quando convidou o vizinho para brincar em casa, havia nele a vontade de saciar aquele desejo que, já há alguns dias, nutria de fazer justamente aquilo que o pai flagrara com espanto e cólera. Ainda ontem, ele relembra, quando viu Serginho mijando na rua enquanto brincavam de pique-esconde, pegou-se cismando a olhar com jeito diferente aquela cena que já presenciara outras tantas vezes, com outros amigos inclusive, e que, no entanto, nas diversas vezes presenciadas anteriormente, nunca antes adquirira esse tom de excitação, de vontade. Os meninos da rua costumavam jogar futebol todas as tardes e era comum mijarem em grupo, sorrindo, brincando uns com os outros, sem qualquer visgo no olhar, inocentes. Ele não, passou a perceber-se diferente dos demais. A exposição natural e espontânea da genitália dos amigos o deixava vidrado, disfarçando o olhar curioso que buscava a cena. Não sabia o que se passava, não tinha ideia do que era aquilo, por que surgia aquele movimento tão surpreendente dentro do seu coração? Claro que havia nele a desconfiança de que aquilo não era abençoado por ninguém, quase uma certeza de que tal desejo deveria ser ocultado dos olhares, escondido de todo mundo. Ouvia comentarem, com expressões de entojo, sobre o Sidnei, filho de dona Dalide, a costureira que morava numa rua próxima à dele, que fazia essas coisas feias com outros meninos. Um perdido. Pelo tom das conversas, das censuras, ele sabia que não deveria caminhar por essa via, para não perder-se também. Era preciso cuidado, dizia uma voz dentro dele. Em seus nove anos, formava-se a criatura dissimulada que iria carregar vida a fora, mas naquele dia, naquele exato momento, deixou-se levar por uma força muito maior que o medo. Naquela tarde, entregou-se ao desejo e à vontade de experimentar.

Não houve tempo para fugir do golpe. O cinturão, guiado pela mão paterna, marcou-lhe as costas num estalo seco e asustador. Pá. Quando se deu conta do que estava acontecendo, percebeu que a dor na carne vinha acompanhada por um sentimento de impotência absoluta. A culpa e o medo lhe foram inoculados a cada cipoada que recebia daquele familiar estranho ensandecido. As únicas palavras que o pai dispendeu foram: Pra casa, Serginho. Agora! O resto foi silêncio de língua e muita fala do couro furado do cinturão em sua pelezinha infante. O pai, descontrolado, desferiu-lhe uma surra tremenda, sem dizer palavra alguma. Agora, encolhido ali na cama, no cantinho escuro do quarto, ele geme baixinho a sua dor. Ai, ui, treme mais de raiva que de frio.

O pai é um sujeito taciturno, normalmente silencioso, dado a poucos prazeres e poucas palavras. Fala pouco, come pouco, dorme pouco. Tudo nele é pouco e parco. Vida comezinha, metódica. A mãe é mulher de fé, de cama, mesa e banho. Ao contrário do pai, ela é muito afetuosa com os filhos. Ele não. Nunca foi de muito chamego com a prole. Rígido na criação dos três meninos, não releva falhas, não perdoa deslizes, não esquece mal-feitos. Dividindo seu tempo entre o trabalho como estoquista numa grande empresa de laticínios, e as horas de televisão, quando assiste todos os noticiários e programas esportivos, leva a vida numa linha reta, quase sem alterações. Homem de pouquíssimas surpresas. É uma figura previsível e é justamente por esse motivo que ele lembra claramente daquele domingo excepcional. Daquele dia que lhe rendeu calafrios por um bom tempo. A mãe saíra para a missa com os irmãos e ele, por conta de uma gripe, ficou em casa a base de remédios caseiros com o pai que lia o jornal. Sentado na varanda, ele observava os dois vira-latas da casa, Rex e Ringo, brincando no gramado, na frente do lote, enquanto o pai, impaciente, os enxotava exigindo silêncio. Foi quando o Ringo montou no Rex, como se monta numa cadela no cio, e começou um vai-e-vem sexual explícito. Ele achou engraçado tudo aquilo, engraçado mas não surpreendente, pois já flagrara os cães nesse tipo de brincadeira que ele julgava sem maldade alguma. Assustou-se ao ouvir o pai desferir um palavrão, coisa inusual em sua boca. Pressentiu o pior quando o viu jogar com violência o jornal sobre a cadeira. A festa dos cães havia despertado algum demônio na cabeça do pai e desencadeado alguma coisa muito ruim no seu comportamento, pois levantou-se, foi à cozinha e voltou com uma faca enorme, aquela muito afiada que a mãe usava para cortar carne. Os cães não perceberam sua rápida aproximação e não houve tempo para reação. Chutou violentamente Ringo, que saiu ganindo sua dor, e segurou à força o pobre Rex, que inutilmente tentou fugir. O animal esperneou, desesperado, tentando desvencilhar-se da mão poderosa do seu captor. Tudo em vão. Estava sacramentado. O homem, sem qualquer sinal de simpatia, decidido e inexorável como um carrasco, cortou a garganta do cão num golpe, jogando-o depois no chão como um pedaço de carne, uma peça de pelo negro, um molambo. O cachorro tremia, como galinha abatida, morrendo aos poucos, engasgando-se no próprio sangue, que também jorrava no gramado. O olhar do pai era o mesmo desta tarde, ele relembra sob calafrios, quando o flagrou com o Serginho no quintal: olhar de ódio, de censura absoluta, de nojo, de desprezo. Olhar de quem busca exterminar, eliminar, destruir.

Quando a mãe voltou da missa, encontrou o marido cavando uma cova para o Rex, enterrando com o cão os sonhos de afeto do filho do meio, que a tudo assistiu calado, ocultando a própria dor. Ele aprendeu assim, desde miudinho, a não esperar absolutamente nada da figura do pai. Agora, sente dores que não sabe bem quando vão passar ou mesmo se vão passar algum dia. Talvez sim, transformem-se em outra coisa, tão ou mais incômoda que a dor. Uma coisa entranhada na alma, como pedra no sapato, fiapo de carne no dente cariado. Uma coisa que, mais que incomodar, provocará, instigará, desconcertará. Sim, por ora, nesta noite terá sonhos muito estranhos e acordará marcado irremediavelmente, mais sério, menos alegre e mais convicto de que viver é mesmo complicado. Por enquanto ele geme baixinho pela dor nas costas, no lugar onde a fivela do cinturão lhe bordou um hematoma. Ai, ui.

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), publicou, em 2008, o livro Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), que aborda o cinquentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou, pela Editora e-galaxia, Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos). Lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018).

garota de programa, de Amanda Sorrentino

Esta é uma história baseada em fatos reais. Os nomes das personagens foram modificados.

Leblon. O carinha se apresentava como poeta, morava com os pais num dos bairros mais caros da zona sul carioca, tinha quase trinta anos e dizia que o amor é uma invenção burguesa pra confundir o proletariado. Por incrível que pareça, era divertido estar com ele, um idiota acima da média dos trastes que conheci. Tudo bem que eu tinha vinte e dois anos, mas já havia feito programa com tanto filho da puta que não era mais trouxa de cair na lábia de qualquer um. O Diego era um idiota inofensivo, um bobo, e era engraçado. Mesmo suas perversões eram bem básicas, nada que provocasse ânsia de vômito ou hematomas. Tem muito maluco por aí. Sua obsessão era gozar na minha boca. Não tinha tara por comer um cu, embora disso eu sentisse falta. Gosto de anal. Gozo mais até do que na buceta, a não ser que me chupem antes, mas homem tem nojinho de colocar a boca numa buceta, ainda mais de puta.

Fui eu que tomei a iniciativa com o Diego. Na verdade, ele nem tinha me percebido na mesa ao lado no bar do Leblon. Eu estava com o Moacir, um coroa gerente da Caixa Econômica. A gente costumava sair há algum tempo, ele me conheceu no inferninho da Prado Junior que eu fazia pole dance, numa época em que eu não tinha uma carteira de clientes. O Moacir me arrumou um emprego de posso-ajudar na Caixa, queria que eu saísse dessa vida. A quantidade de mané que quer tirar a gente dessa vida — é um clichê isso. Posso-ajudar é aquela pessoa que fica na porta da agência e vira pra você quando entra e diz: posso ajudar? Eu gostava do trabalho, parei com o inferninho e passei a fazer programa com hora marcada sem o Moacir saber. Levei muita cantada na porta da agência, onde acabei arrumando uns clientes também. Poucos. Era importante manter a discrição.

Naquela noite no bar o meu companheiro de mesa falava exatamente sobre discrição. Ele queria saber se o boato que rolava na agência era verdade. Não tinha boato algum. Ele jogava verde pra ver se eu continuava na vida de puta. Claro que eu continuava. Um programa bom numa noite me dava mais do que o salário de posso-ajudar. Acontece que eu gostava de ajudar as pessoas e gostava mais ainda de ter carteira de trabalho, apesar do salário ruim. Eu me sentia fazendo parte da coletividade, entende? Eu não prestava atenção no que o Moacir falava, e sim no papo da mesa ao lado. Diego, que logo descobri o nome, e um casal. Ele falava dos seus poemas e do seu blog que estava fazendo sucesso na internet. Aquilo me deixou ligada na conversa, logo lembrei da Bruna Surfistinha. Quando a mulher que estava na mesa foi ao banheiro, fui atrás. Escrevi meu nome e telefone num guardanapo e pedi que ela entregasse ao seu amigo. Falei que ouvi ele dizendo que era poeta e fiquei interessada, queria contar minha história e não disse mais nada. No dia seguinte ele me ligou. Marcamos no mesmo bar, ele insistiu. Depois me confessou que teve receio de ser algum tipo de golpe, achou mais seguro voltar ao mesmo lugar. Eu contei logo a minha história e ele não demorou pra me encher de perguntas. Sim, comecei a fazer programa porque umas amigas faziam e ganhavam uma boa grana, então eu fui com elas ver qual era. Sim, não é tão ruim. Às vezes é bom. Gozo. Tem uns malucos. Não vou com qualquer um. Já paguei paixão e acreditei que o cara largaria a mulher pra ficar comigo. Não largou e ainda passou meu telefone pros amigos. Fiz programa com os amigos. Nunca apanhei. Uns tapinhas, sim. Quis saber dos pervertidos. Contei alguns, inventei algumas coisas e disse que contaria mais se ele topasse escrever minha história. Ele disse que era poeta e não escritor. Perguntei do blog, se era fácil fazer um. Joguei Bruna Surfistinha no papo. Então ele disse que tinha entendido o que eu queria. Topou ajudar. Falou que precisaríamos nos encontrar mais vezes e que começaria a anotar tudo que eu contasse, que faria muitas perguntas, a maioria íntima. Eu disse que tudo bem e perguntei se a casa dele era perto, a gente podia esticar a noite lá. Eu já tinha tomado duas caipirinhas e ele uns cinco chopes. Ele respondeu que não dava pra ir pra a casa dele, pois morava com os pais. Completou que era provisório, mas eu já desconfiava que o poeta fosse um playboyzinho da zona sul. Tudo bem, fica pra outra noite, eu disse, e coloquei o canudo na boca. Fiz de sacanagem. Ele estava até aquele momento sentado na minha frente. Trocou pro meu lado e me deu um beijo. Demos uns pegas ali e combinamos de nos encontrar no dia seguinte na Cinelândia. Foi ideia dele. Tem o Amarelinho lá, muito bom, falou. Só no dia seguinte no Amarelinho entendi que ele já tinha pensado numa esticada. Conhecia um motel nas imediações que dava pra entrarmos discretamente a pé. Não falamos nada de grana, já estava subtendido que eu pagaria o trabalho dele de escritor da minha história com sexo e vice-versa. Pra mim foi ótimo. Ele era bonitinho, cheiroso, simpático e engraçado. O pau era pequeno, mas e daí? Estava bom. Eu iria perder apenas os meus orgasmos com umas boas socadas no rabo, porém cabeçudo por aí nunca faltou.

A fissura do Diego era mesmo gozar com um boquete. Pau de treze centímetros, não mais que isso. Cabe todinho na boca. A trepada foi gostosa, mas nada de orgasmos, não pra mim, sorry. Curtia o papo, as perguntas que ele fazia, a cerveja. Ele estava com um bloco de notas e caneta. Fazia cara de sério. Antes de irmos embora, depois de um banho juntos, pediu que eu o chupasse de novo. Nos despedimos no ponto de ônibus. Ele pegou um táxi. Fiquei ali, sozinha. Como não era tarde, fui pra minha casa, no Engenho de Dentro. Casa da minha avó, na verdade. Morava com ela desde os sete anos, quando a minha mãe morreu. Ela tinha trinta e dois, o infarto foi fatal, não deu tempo nem de ser socorrida. Morreu em casa. Numa noite, eu a encontrei no chão frio da cozinha de manhã. Nunca esqueci. Na hora soube que a havia perdido. Éramos só nós duas e a vovó. Não conheci meu pai. Elas não falavam dele. Nem o nome. Corri até o quarto da vovó, ela demorou a entender o que eu balbuciava debaixo do choro. E ficamos assim, as duas, uma sem a mãe, outra sem a filha.

No dia seguinte o Diego ligou pra me fazer uma proposta. Ele ia passar o feriado de réveillon em Búzios, um amigo tinha alugado um apartamento de dois quartos e ia com a namorada. Ele não queria ir sozinho. Topei na hora. Búzios. Ele ainda disse que outros amigos tinham uma casa grande lá, com piscina e churrasqueira, talvez rolasse até passeio de barco, se o pai desses amigos estivesse presente. Sem ele ninguém podia usar a lancha, parece. Ainda faltavam duas semanas, eu passaria o Natal com a minha avó, como sempre fazia. Não vi o Diego esse tempo, vi o Moacir. Fiz dois programas com ele. Sim, ele me queria fora daquela vida, no entanto pagava pra me fuder. Tomava o Viagra, o pau de dezessete centímetros parecia que ia explodir, e comia a minha buceta até passar o efeito do remédio, só trocava as camisinhas. Eu ficava assada, não machucada. Não gozava muito, tinha que estar no clima. Às vezes ele pedia pra me enrabar. Aí eu gozava muito. Mas não era toda vez que ele queria. Gostava do eterno papa-e-mamãe e de me beijar na boca. Era um romântico, aquele velho gagá de merda. Baita desperdício de pau. Os dois programas com ele antes da viagem garantiram uma grana pra comprar roupas novas e biquíni pra não fazer feio em Búzios.

Búzios. Diego e eu ficamos no mezanino do apartamento improvisado de quarto. Era aconchegante com o ar-condicionado ligado, fora isso, durante o dia, era uma sauna desgraçada. Marcelo e Karina ficaram na suíte. Não fui com a cara deles, casal cheio de frescuras, aquela gente metida a besta da zona sul carioca, rotina de faculdade, academia, clube e piscina no fim de semana e trepada ruim. Logo na primeira noite a Karina de pileque já confidenciava pra mim que nunca teve um orgasmo, e lá vai a puta ensinar as coisas à filhinha-de-papai — é um clichê isso também —; perguntei se ela se masturbava, fez careta e disse claro que não! Ora, garota, se você não se dá prazer como vai querer que o seu namorado dê? Ele nem chupa você? Claro que não! Ele tem nojo, né? Mas você chupa ele, não? Sim, chupo. E ele gosta de comer a minha bunda, às vezes sangra. Você não gosta de dar a bunda? Claro que não! Machuca. Karina era a garota do claro-que-não, e de pileque era ainda mais insuportável, achava que éramos amigas de infância, e só nos conhecíamos há cerca de quatro horas. Diego e Marcelo estavam na sala bebendo umas cervejas e fumando um baseado, enquanto ela me falava essas merdas no quarto e se arrumava pra gente sair. Eles queriam andar um pouco na rua das pedras, que eu estava doida pra conhecer, pois via sempre nas novelas.

O passeio daquela primeira noite foi rápido, não entramos em boate alguma, estavam todos cansados da estrada, e eu não insisti com o Diego. Já estava bom. No apartamento subimos pro mezanino, o ar-condicionado já no talo desde antes de sairmos, eu ainda precisei pagar o boquete do playboy e engolir sua porra. Se ainda me enrabasse, mas virou pro lado e dormiu. Eu estava sem sono, desci até a cozinha, abri uma lata de cerveja e sentei no sofá. A porta da suíte estava fechada, o casalzinho devia estar dormindo. Dois dias pra noite de ano-novo. Terminei a cerveja, fui no banheiro mijar e subi pra dormir. No dia seguinte acordei com o Diego em pé na minha frente, de banho tomado, toalha enrolada na cintura. Quer me chupar? Foi a primeira coisa que me disse. Mais tarde, respondi. Deixa eu acordar primeiro. Levantei puta, vá se fuder, moleque. Nem acordei, estou morta de fome, não quero seu esperma de café da manhã. Moleque mimado. Ele não insistiu e saímos os quatro pra casa dos tais amigos bacanas com piscina, churrasqueira, lancha e o caralho a quatro. Chegamos lá e já havia umas dez pessoas dentro da piscina, já tinham também aceso a churrasqueira. O Diego me apresentou a todos. Dei um mergulho. O dono da casa, pai desses dois amigos, não havia chegado ainda. Talvez rolasse passeio de barco no dia seguinte. Tomei uma caipirinha e fiquei batendo papo com umas garotas dentro da piscina. Uma delas, bem nova, devia ter dezessete anos, me perguntou a minha vida inteira. Inventei minha vida inteira pra ela, faculdade trancada, namorados, uma namorada. Nunca teve bosta de faculdade alguma, foi um sufoco terminar a escola, e namorada só se for programa com colega junto, tem uns caras que levam duas, três, até quatro garotas e querem que a gente se coma porque já estão de pau tão mole de bêbados que nem conseguem fuder a gente. A novinha se interessou justamente pela história da namorada inexistente. Grudou em mim. Eu teria me divertido com ela se não tivesse acontecido uma merda das grandes. O desgraçado do dono da casa chegou e eu o reconheci na hora. Já tinha feito programa com ele. Uma única vez, quando ainda frequentava o inferninho da Prado Junior, mas eu não esqueço um bacana. E aquele cara era um bacana. Empresário de uns cinquenta e cinco anos, nem magro, nem gordo, grisalho, boa pinta. Gelei. E se ele se lembrar de mim? Não vai se lembrar, tentei me convencer. Esses putos fazem programa direto. Vivem comendo puta. A mulher dele chegou com ele, uma madame, botox, cabelo loiro, barriga lipoaspirada. O de sempre. Vieram com um casal de amigos. Fiquei na minha. Continuei bebendo caipirinha. Comi churrasco. Aturei a Karina e a novinha. O Diego parecia se divertir bastante com os amigos e só me deu a atenção necessária pra saber se eu estava curtindo também.

Anoiteceu, as garotas entraram e foram tomar uma ducha e trocar de roupa. Fui com elas. Foi quando cruzei, na volta, com o dono da casa. Ele estava com ódio, deu pra perceber nos olhos dele. Pegou com força o meu braço e me puxou pra dentro de um quarto que servia de lavanderia, ao lado da cozinha. Fechou a porta e já foi dizendo sua putinha, o que está fazendo na minha casa, quer me fuder?, quer dinheiro?, eu mando matar você, sua piranha, você não sabe com quem está lidando… Eu tremia inteira, não consegui nem responder peraí, foi coincidência, não quero nada; ele tirou um bolo de notas do bolso e disse some da minha casa, mas seja discreta, fala pro idiota do amigo do meu filho que está passando mal, ele está nessa com você? Mato ele também. Eu consegui dizer n-ã-a-o, ele me deu as notas amassadas, na verdade colocou dentro da minha calcinha, enfiou a mão lá no fundo, abriu a porta e disse vaza, garota. Eu saí correndo, estava pálida, fui até o Diego, disse que estava passando mal. Ele não queria ir embora, claro, eu ameacei ir sozinha, ele viu que era grave e decidiu ir embora comigo.

No apartamento a merda do mezanino parecia uma sauna, o Diego ligou o ar-condicionado, mas não dava pra ficar lá em cima. Fui tomar um banho gelado. Ele quis ir comigo. Nem respondi, entrei, tranquei a porta. Tirei o bolo de notas da calcinha. Tinha uns vinte programas ali. O bacana deve ter ficado mesmo muito assustado. E a ameaça foi real. Esses caras são capazes de atrocidades piores. Eu precisava ir embora. Mas falar o que pro Diego? Tomei a ducha e tentei me acalmar. Aí veio o plano.

Vamos fumar um, Diego?, eu perguntei, enrolada na toalha. Quero uma chupada, ele disse, claro. Prepara um aí que chupo você enquanto fumamos. Vou me vestir. Fica assim, tá me dando tesão. Fiquei enrolada na toalha. Fumamos o baseado. Consegui relaxar. Tomei uma cerveja. Chupei o caralhinho do poeta na sala mesmo. Engoli a porra. O ar-condicionado já tinha melhorado a situação no mezanino. Subimos e demos uma trepada meia-boca. Diego adormeceu. O plano era esse. Eu me vesti, arrumei minha mochila e quando já estava pra descer vi o bloco de anotações dele sobre a mesinha de cabeceira. Esqueceu de guardar, pensei. Em nenhum momento naquelas semanas todas me deixou ler merda alguma. Peguei o bloco e desci. Sentei no sofá. Cafejeste filho de uma puta! Ele vinha escrevendo sobre as nossas trepadas, sobre como era comer uma puta zero-oitocentos, como era só mandar que a puta satisfazia seus desejos etc. FILHO DE UMA PUTA! Ele não estava escrevendo a minha história. Tinha uma passagem ou outra sobre o que contei de perversões de clientes, mas a história era do poeta comendo a puta, em primeira pessoa, inclusive. Rasguei aquela merda toda e joguei na privada. Deve ter entupido a porra toda, porque não desceu tudo. Dei uma cagada e não toquei a descarga novamente. Tomei outra ducha, sempre faço isso depois de cagar. Saí do apartamento aliviada. Foda-se o bacana. Foda-se o Diego. Foda-se toda aquela gente escrota. Vão se fuder! Andei até a rodoviária. Sem ônibus. Vi um posto de gasolina. Fui pra lá. Entrei na loja de conveniência, comprei duas latonas de cerveja e sentei do lado de fora. Alguns caminhões estavam parados perto do posto, fiquei observando. Perguntei pro frentista se ele sabia se algum daqueles caminhões estava indo pro Rio de Janeiro. Ele perguntou se eu procurava uma carona. Não, idiota, eu pergunto esse tipo de coisa à toa mesmo, pensei. Mas respondi que minha família ligou, meu irmãozinho estava doente, no hospital, eu tentei comprar passagem na rodoviária, mas o ônibus ia sair em três horas, eu não podia esperar. Ele acreditou na história e disse que ia ver pra mim. Voltou cinco minutos depois e falou que o “seu” Rogério estava indo pro Rio e sairia em poucos minutos. Ele me daria carona. Apontou pro caminhão. Eu já havia terminado as cervejas, pedi a chave do banheiro, fui dar uma mijada. O tal do Rogério foi simpático comigo. Não tinha cara de estuprador ou serial killer. Era um homem maduro, chutei um cinquenta anos. Pele morena, braços grossos, a barriga natural de chope, mas pequena.

Pegamos a estrada e fomos numa boa conversando. A música que era ruim, umas bostas sertanejas mela cueca insuportáveis. Ele perguntou onde eu ficaria no Rio, eu respondi que podia ser no centro mesmo, quando entrasse na cidade, eu não queria atrapalhar. Perguntou onde eu morava. Respondi em Botafogo. Com meu pai, minha mãe e meu irmão, que estava internado. Fiz cara de preocupada. Ele falou que me deixava lá, ou no hospital. Eu disse que não precisava. Insistiu. Tudo bem, me deixa no Souza Aguiar. Não demorou muito pra começar a me falar coisa do tipo uma menina bonita como você, preocupada com o irmãozinho, blá blá blá. Eu já estava esperando. Rola sempre. Macho é previsível. E ele já vinha me filmando desde o posto de gasolina. Deu uns dez minutos, ele não disse nada, apenas encostou o caminhão no acostamento. Estávamos literalmente no meio do nada. Pronto, pensei, agora que esse estuprador e serial killer me corta em pedacinhos e me joga no mato da beira da estrada. Estuprador e serial killer não tem cara, sua idiota, disse pra mim mesma. Ou melhor, tem cara de gente normal. Ficamos uns três minutos calados. Aí respirei fundo e perguntei o que ele queria. Ele não respondeu. E eu, pensa rápido, sua idiota! Toma conta da situação. Anda. Virei pra ele e falei pra ele me mostrar. Quero ver seu caralho, eu disse. Fiz cara de puta, porque puta tem cara. Ele sorriu e colocou o pau pra fora. CABEÇUDO!, gritei. Na mesma hora eu já não pensava mais em ser picotada e jogada no mato. Rogério tinha um daqueles paus incomuns e excepcionais, um pau cabeçudo que me deixava sempre encharcada só de olhar. Eu fiquei quase em pé sobre o banco, arriei o short e a calcinha, montei de costas sobre ele, virada pro capô, segurei no volante e berrei vem me enrabar, cabeçudo filho da puta.

Amanda Sorrentino é um heterônimo.
Contato: ama.sorrentino@gmail.com

fossa das marianas, de Myriam Campello

capa_campelloConto do livro Palavras são para comer (Editora Oito e Meio, 2017)

13 de agosto
Amor da minha vida, te amo te amo te amo te amo. Esqueça tudo que já ouviu sobre a frase, estou inaugurando uma nova forma de amar. O que sinto é tão devastador que esfolaria de bom grado minha pele para dela fazer um casaco macio com acabamento de luxo e te abrigar. Lembrei de Chanel dizendo que uma roupa de corte perfeito fica em pé sozinha, e era com algo assim, a perfeição, que eu gostaria de envolvê-lo, só que usando um tecido pessoal, e não sei de algo mais pessoal e íntimo que a própria pele. Queria ser perfeita para você, meu amor, de forma completa, irretocável. Acabo de ler que a Fossa das Marianas, no Pacífico, é o local mais fundo do mar, onze quilômetros para baixo. Esse abismo nada é perto daquele em que mergulhei de cabeça. Todas as palpitações do meu corpo, cada sístole, cada diástole, pertencem a você. Vivo num estado de êxtase do qual não consigo sair — nem quero. Inteiramente tua, Songa.

14 de agosto
Amor meu, sinto-me devastada pelas horas que nos separam, ainda bem que daqui a alguns dias estaremos juntos ou não sei o que seria de mim. Não durmo mais, e a comida se tornou algo de que me esqueço com frequência, emagreci dois quilos, o lado bom é que estou bonitinha para você. Batalhei muito para conseguir esses dias nossos, nem acredito, o Encontro de Bibliotecários foi um presente dos deuses, devo ter crédito no céu para merecer isso. Estou levitando de felicidade, tão incendiada que tenho medo de só restar cinzas de mim (depois conto em detalhes meus incêndios súbitos rsrs). Só faço trabalhar e sonhar com o centro de minha existência — você, amor. Quem me vê acha que sou apenas uma profissional séria, esposa do prefeito. Mal sabem que não sou esposa dele e sim tua mulher. Te beijo como nunca. Songa.

16 de agosto
Amor querido: vou te processar, você está atrapalhando demais o meu trabalho, não é possível. A perturbação é tanta que hoje me pediram um ensaio sobre a Coroa portuguesa e em vez do livro coloquei o celular na caixa de entregas! Ando totalmente aturdida com o nosso encontro. A vida é mesmo louca, jamais imaginei que pedir uma informação no único momento em que saí sozinha do hotel provocaria esse tsunami. Não ter senso de direção é muito chato mas agora agradeço de joelhos o defeito, há males que vêm para o bem, as coisas têm muita força quando precisam acontecer! Quanto ao meu apelido, só mamãe nunca o usa. É sempre “Sonia Maria” chova ou faça sol. Sobretudo se chove. Quando se irrita comigo meu nome vira uma chicotada! O resto do pessoal usa o Songa desde que sou criança. Me chame como quiser, amor, que eu atendo. Estou aqui para isso. Adoro qualquer nome que me dê — sobretudo os mais secretos. Tua, sempre, Songa.

5 de setembro
Amado meu, já não sei dormir sem o calor de teu corpo, obrigada pela semana que não me sai do pensamento. E chega de mentir, quero gritar para todos que te amo. Não me dou bem com essa distância, cada dia longe de você me dilacera de angústia. Se alterei muito a sua vida, a minha também está irreconhecível, mas não é isso que o amor faz, uma revolução? Na verdade teu casamento já tinha acabado há séculos e os filhos, mesmo pequenos, você não vai perder. Crianças da idade deles são muito adaptáveis e logo esquecerão tudo. Ana Paula anda implicante comigo, não entendo por quê, afinal é adulta e não me meto na vida dela. Ainda não falei com o Alcides sobre o divórcio, aguardo o dia certo, ele também vai acabar achando que é o melhor para nós. Espero que se eleja deputado federal na próxima eleição, assim desgruda definitivamente de mim. A situação política daqui é nebulosa, os fazendeiros vendem caro seu apoio. Mas isso é problema do Alcides, não meu. Em breve, amado, faremos todas as viagens que planejamos, vai ser um sonho concretizar tanta coisa boa. Mal consigo esperar. Te amo, Songa

17 de outubro
Meu querido, não sei como te agradecer por vir morar aqui quando tudo estiver superado. Não é a mesma coisa que São Paulo, claro, mas no fundo todas as cidades são iguais quando se ama. Felizmente você entendeu como essa terra é essencial para mim desde que um membro da família a percorreu de burro há trezentos anos, deixando sua marca histórica pelo caminho. Se preferir um lugar mais tranqüilo que a capital podemos morar em Brejo das Flores — bonita e também distante de Prado Verde. Você vai adorar o ar puríssimo de Brejo. Por enquanto é melhor não provocarmos ninguém, para quê? Há outras cidades também com grande qualidade de vida como Pinheirinho, Pinheiral e Paraíso das Antas. E quando sentir falta de Higienópolis damos um pulo em São Paulo e faremos tudo que você quiser. O importante é viver como um casal. Daqui a poucos meses vamos concretizar nossos sonhos, ir a Paris juntos, passear de mãos dadas em público, pegar um cinema, quero te levar a todos os lugares de que te falei e mais alguns que nem imagino. Tua Songa.

5 de dezembro
Querido, como a adaptabilidade é um dos atributos da inteligência, você logo se acostumará ao novo emprego quando vier. Sei como se esforçou para conseguir isso, os pauzinhos que precisou mexer, mas toda empresa é valorizada com um profissional brilhante na equipe. Sim, podemos aguardar uns meses, afinal já esperamos tanto, esse tempo consolidará cada vez mais nossa união. O Natal é uma época terrível para falar em separações, você sabe, então por respeito a todos vou deixar passar esses dias. Mas logo depois porei o assunto em pratos limpos. Estou mandando um Pluto de pelúcia para a Vivinha e uma Ferrari amarela miniatura (reprodução perfeita) para o Joca (é grande demais para ele engolir, não se preocupe), envio para o seu escritório. O meu amor por você os abarca como se fossem meus filhos. Tua Songa

7 de janeiro
José, meu querido, espero que os dias de férias tenham feito bem às crianças. Não tenha ciúmes de mim, por favor. Estamos acima dessas coisas. Já devia saber que meu compromisso com você vai além da vida. Não devemos ser ásperos um com o outro, fico arrasada quando brigamos. Essas discussões acenam com dúvidas onde só há certezas. Te beijo, Songa

5 de abril
Querido José, não entendo essa pergunta, é claro que te amo. Ainda não se convenceu disso mesmo depois do fim de semana em Brasília? Cobranças são contraproducentes e nos fazem sofrer à toa. A casa inteira pegou resfriado, corro de um para o outro com o termômetro, uma preocupação. Só estou esperando o momento ideal para contar ao Alcides, sei que isso vai cair como uma bomba, são todos ultraconservadores por aqui. Prado Verde é assim, provavelmente por suas ligações com a terra. Mas o que são esses obstáculos perto do meu amor? Tua Songa

2 de maio
José, sei que modificou totalmente sua vida (eu também a minha, mas isso você não vê). O maremoto que nos atingiu me fez analisar cada tijolo dos meus dias. Fico magoadíssima por você não reparar o quanto tenho lutado para aplainar o terreno, encontrar o momento certo de enfrentar o Alcides (já andei insinuando sobre a separação mas parece que ele não entende, que sujeito burro!). No entanto a hora de nos livrarmos dele está próxima, assim que passar o Dia das Mães vou abrir definitivamente o jogo. Beijos, Songa.

19 de junho
José, não precisa repetir o que eu disse, me deixa nervosa. Tive um insight hoje: o problema é o excesso de complexidade que às vezes me engole com tantas facetas. Gostaria de ser mais simples mas infelizmente não sou. Minha sensibilidade atrapalha, há complicações para onde quer que eu me vire. E por mais que anseie pela inteireza, as circunstâncias me enredam num abraço mortal. Sonia Maria.

15 de julho
José, talvez você tenha a impressão que estou te largando no meio do oceano, sem um barco à vista nem visão de terra, mas não é nada disso. Cheguei à conclusão que para mim será melhor ficar em Prado Verde, minha família veio para cá com o primeiro jumento há trezentos anos, tenho vínculos, contas a prestar à sociedade. Sei que não vai entender, mas tenho certeza que encontrará outro emprego aí mesmo em São Paulo, as firmas estão sempre à procura de um homem experiente, apesar da crise. Talvez com um salário menor mas isso deve ser temporário, a situação do país acaba entrando nos eixos. Seja como for eu o levarei sempre na memória como um farol me iluminando nas trevas. Sonia Maria.

1 de agosto
Nunca disse que era perfeita. Alcides e eu estamos casados há muitos anos, e sinceramente o que você deseja está além das minhas forças. Não consigo te seguir, é tortuoso demais. Ninguém de Prado Verde se divorciou até hoje e te digo com honestidade, não quero ser a primeira. Talvez você possa reatar com a Izildinha, felizmente ela tentou suicídio mas não conseguiu (cá entre nós, se matar duas vezes no mesmo mês é totalmente histérico.) Daqui a alguns anos riremos disso tudo como velhos marinheiros que passaram tremendos perigos juntos. Bjs, Sonia Maria

13 agosto
Você é de uma crueldade espantosa quando decide, um verdadeiro gênio do mal. Como posso explicar alguma coisa com essa enxurrada de críticas contra mim? Fico sem fôlego. Além disso não tenho tempo, preciso arrumar as malas porque vou com o Alcides para Cancún amanhã. Parece que é lindo.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema no filme homônimo dirigido por Malu de Martino, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017).

metade de mim, de Matheus Arcaro

“Eu não quero levar comigo
a mortalha do amor.” (Chico Buarque)

Então é hoje que tu vens? É hoje que vens dividir os vãos com o mundo? Pelas contrações que sinto desde a madrugada, é provável. Ah, se dependesse só de mim, tuas dores seriam homeopáticas, unicamente pra que soubesses que a vida não é uma propaganda televisiva. Mas não tenho tamanho poder. Em relação a ti, meu papel é o da atriz que prepara a cena pro protagonista encantar a plateia. Quantas conversas tivemos durante o tempo em que eu te fermentava? Agora, amor, é nossa última antes de saíres. Algumas das coisas que te falarei não são muito bonitas, sei que compreenderás. Há tanto tempo ouvindo tua voz silenciosa que conheço tuas apreensões. Bom dia, Brasil. Veja os principais fatos que são notícia hoje. Com os elevados reajustes no último trimestre de 83, muitas pessoas estão deixando de comprar a casa própria. O custo de vida, o custo da vida, viver é muito custoso, li em algum lugar. Não. Viver é nossa única possibilidade. Viver é o que restará a ti assim que eu te arremessar na linha temporal. Eu te condenarei à morte, eis um fato bruto. Talvez por não darem conta desse peso, uns tentem inflar o futuro; outros, maquiar o passado. Mas lembra-te que eu também te condenarei à vida. Te darei o presente. Não, não, tu és meu presente, só isso posso afirmar olhando pro teu quarto decorado de amarelo e pro berço que logo será preenchido com tua existência. Pela primeira vez em anos, o Natal que passou há pouco mais de uma semana não alargou minha alegria. Sim, eu já estava entregue ao teu natal prestes a chegar, filho. Filho? Não sei teu sexo e te chamo assim! Ilustração de como será tua jornada caso sejas Camila. É mais profunda a cicatriz na fêmea, filha amada. Não que uma entidade metafísica fira a mulher antes do nascimento. Ao contrário, nossa carne é talhada ao longo do caminho, às vezes por punhais milenares, afiados constantemente. Pesquisa revela que de 1978 a 1983, o número de mulheres nos cargos executivos das 300 maiores empresas brasileiras, subiu de 4% para 6%. Nem direito a gozar nós temos! Solto isso assim porque ainda não vi teus traços, teu sorriso, tua castidade; acho que não teria coragem de falar olhando pra ti. Eu já cuidei de tantas mulheres surradas pela vida, tantas biografias amassadas por coturnos. Por que, Camila? Por que temos que provar a todo tempo que sabemos dirigir, esquecer ou conversar? Essa visão sobre a mulher impõe-se desde a infância. Mas posso garantir que tu, minha filha, tu não serás uma mini-Amélia. Não ganharás do Papai-Noel panelinhas, espelhos, vassourinhas e bonecas que mijam e cagam quase de verdade. Não terás uma juventude como a minha. Não, eu prometo! Quando te atrasares a voltar pra casa ou quando a professora pintar de vermelho o boletim, não precisarás usar quatro calças grossas pra que os golpes de fio de ferro doam menos; não precisarás namorar um homem com posição social, nem sequer um homem; não precisarás, enfim, saborear a vida pelas beiradas. Veja a seguir, logo após os comerciais: grandes manifestações populares serão organizadas nos próximos dias reivindicando eleições diretas para Presidente… Você é uma mulher do futuro? Então não deixe de conhecer o novo Aspirador de pó Electrolux. Muito mais leve e prático. Modestina disse que, no parto, a gente não sente dor, transforma-se em dor. Isso não me assusta, sabia? Teria medo, isto sim, se eu fosse incapaz de trazer uma vida ao mundo. Talvez seja esta a maior frustração dos homens. Mas há tantas outras compensações, Matheus! Se tu que estás sob a minha casca fores menino, assim que saíres, a sociedade te cobrirá com um manto dourado. Uma capa de superpoderes. Poderes, em grande medida, ilusórios. A capa pode te fazer voar, porém quanto mais alto, mais doída a queda. Nunca me esqueci desse provérbio ensinado pelo meu pai. Papai, que saudade! Queria que conhecesses o Matheus. Que ensinasses a ele que as tramas da história não são costuradas por dedos míopes. Mas há quinze anos, ansioso, foste encontrar nossos antepassados. Ah, me deixou nas mãos da minha mãe; eu, uma menina com apenas dezessete anos. Mãos aptas à crueldade. Mãos que viam meu destino em suas linhas. É impossível deter a tecnologia. Fiat Uno, o carro do futuro. Serás parecido com teu avô, filho. Só que voarás mais longe, tenho certeza. Serás um homem importante, político talvez. Médico, jogador de futebol. Mas antes disso, a vida se mostrará ora iluminada, ora nebulosa, mesmo nas coisas corriqueiras. Com doze anos, por exemplo, vais te masturbar escondido, inclusive de ti. Depois de almoçar na escola, chegarás em casa, trocarás de roupa e, assim que teu irmão dormir, enfiarás a mão no calção até sentir tua carne crescer, não sem antes cobrires as imagens sacras penduradas no teu quarto. Após teu desejo vazar, rezarás fervorosamente e jurarás que não cairás outra vez em tentação. Farás isso até a moral se enrolar numa mortalha dentro de ti. Princesa, já te dei água e comida hoje, o que mais você quer? Falei do teu irmão, não é, amor? Sim, terei outro filho. Não quero que sejas como eu, alguém sem apoio pra escorar os desabamentos da vida. Esse irmão já existiu no meu ventre, verdade. Mas as circunstâncias não eram hospitaleiras, por isso não permiti que a biologia terminasse sua labuta. Não, Matheus, teu pai não está te acariciando através da minha pele estufada. Ele deve estar trabalhando. Aliás, decidi que não o avisarei da tua chegada. Hoje é quinta-feira, se nasceres à noite, como poderei atrapalhar o sagrado dia do futebol? Teu pai! Trinta e nove anos só na crosta. Por dentro, um adolescente. Mas como trabalha! Dez horas por dia desamassando portas, endireitando para-choques, alinhando capôs. Lava a mão pra segurar teu filho, Luiz Carlos! Quando, ternamente, gritarei esta frase? Quando tua avó deixar de crer que uma enfermeira não pode se casar com um homem coberto de graxa? Isso acontecerá algum dia? Possibilidade de ataques nucleares geram protestos por todo o mundo contra a Guerra Fria. Sim, mãe, fiz faculdade, me formei na USP. Só que isso não me faz melhor nem pior que ninguém. Há pessoas que têm lama na alma, destas quero distância. Mãe, desliga a televisão, por favor e traz o radinho que está em cima da cômoda. Say, say, say, what you want, but don’t play games, with my affection. Que decadência, Paul! Gravar com Michel Jackson! Ah, como eu gostava dos Beatles! E do Roberto Carlos. Não, do Roberto ainda gosto, apesar das músicas de Igreja que ele tem feito nos últimos anos. Por que eu não quis saber teu sexo? Porque, seja qual for tua identidade, eu serei tu. Tua existência será minha existência. Mas daqui a trinta ou quarenta anos tu, Camila-Matheus, serás tua mãe ao menos um pouquinho ou me terás como ornamento? Um troféu numa sala empoeirada que, vez por outra, tu limpas e exibes aos amigos? Minha mãe foi uma enfermeira muito respeitada, chefiou o departamento de dermatologia no Hospital das Clínicas. É especialista em feridas e cicatrizes. Ajudou muitas pessoas, até perdeu as contas! E, com um sorriso a saltar do canto da boca, alisarás meus poucos cabelos brancos. Ou nem isso: me jogarás numa dessas casas cujos nomes são casos lapidares de eufemismo “Vovô Feliz”, “Recanto do Vovô”, “Hotel da Melhor Idade” e me visitarás quando a consciência pesar mais que a rotina? Ai, que dor! Mãe, pega um copo d’água, por gentileza. E um analgésico. Mas nenhuma suposição, por mais acinzentada, é capaz de esmaecer o amor que sinto por ti agora. Daqui a poucas horas, verei a luz penetrar nas tuas retinas pela primeira vez, as lágrimas caindo, água salgada que muitas vezes visitará teus lábios. Verei tua pele sendo asseada com o cuidado que as auroras merecem. Te verei sugando de mim tua sobrevivência. Quando tossires, será como se eu nunca tivesse ouvido tosse alguma. Quando ficares febril ou com inflamação na garganta, ficarei ao lado do teu leito como uma santa em oração. Vai deitar, Princesa, não seja desobediente! Mas todos esses pensamentos, todos os desejos que me fazem mais mãe que mulher, podem não abraçar o mundo. Amor, quero que entendas: o que direi agora está além das minhas fronteiras. Presta atenção: talvez tua mãe não esteja no teu primeiro aniversário. Talvez o que conversamos todo este tempo não se concretize. Talvez o verbo não se faça carne. Terei que fazer uma cirurgia pra retirar um cisto no fígado. Um adenoma. Quero te pedir, primeiro, que não deixes esse fato acorrentar teus pés. Quero que andes conforme nosso plano, que deixo escrito no verso das folhas do teu álbum em branco. E, se mudares a rota, que seja pela vontade que brota de ti. Quero que tomes as nossas conversas (todas que gravei, guardo, na gaveta embaixo do teu berço, quarenta fitas cassetes) como ponto de partida, como projetos que podem e devem ser alterados ao longo da obra. Se eu não voltar, ficarás com teu pai. E com tua avó de vez em quando. Serás a mediação entre eles; uma essência capaz de misturar óleo à água. Oh, pedaço de mim, oh, metade arrancada de mim, leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto, do filho que já morreu. Não, Chico, o rebento ainda nem se mostrou. A mãe é que pode não cumprir seus desígnios.

| conto do livro Amortalha (Ed. Patuá, 2017). |

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

icelônia, de André Balbo

balbo“O que é um fantasma?, perguntou Stephen. Um homem que se desvaneceu até se tornar impalpável, por morte, por mudança de hábitos.” (Ulisses, James Joyce)

O Sol ainda não havia nascido. Andava por uma praia erma durante uma antemanhã alvacenta; cravando-me à ourela a cada lance aleatório de passadas, os olhos no indistinguível encontro, amainava a febre dos meus pés na areia molhada.

A Lua recatava-se pejosa, mal se deixando precisar seu contorno em meio à abóboda gris. As nuvens, cirriformes, rarefeitas e longitudinais, riscavam o céu com sutileza aquarelista. O bafejo suave e salgado sussurrava sibilante e acariciava minha fronte úmida, desgrenhando meus cabelos e, de decidido, em seu encontrar-se com meu corpo descobrindo-me nu.

Mas não só de bafejo é o hálito de Éolo, já se sabe bem desde a Teogonia; senhor do sopro, em marcha incessante desriçava a superfície titânica encrespada de Oceano, vertendo-a num espelho imperturbável de jade desbotado, para, no instante seguinte, esfacelá-lo em tropas compridas e ondulares, que, açodando em direção à praia, assaltavam em leques de branca efervescência sobre a areia, exaltando comas de vapor.

De quando em quando, a rebentação ganhava meus pés descalços, sedimentando a meio-termo de unha e carne finos grãos de areia. Numa dessas conjunções, deu por enroscar alguma coisa em meus pés: um filamento verde, de material escamoso e incógnito; de espessura de um quarto de dedo. Tomei-o pela extremidade e puxei-o: houve silêncio e cessou a maré, como interrompida no momento exato de minha tração displicente de curiosa.

Deslizei à frente três passos e provei advir do mar o filamento verde. Recolhi-o com o indicador destro, feito bobina, até que não sobrasse extensão tangente à areia — novo tranco: alguns bons centímetros do fio despontaram da água e, porque me desequilibrasse, quase desabei, inferindo que, à tração imposta, as águas se recolhiam. E assim segui: à proporção que o puxava, eu avançava, entre solene e ansioso, pelo lodo recém-desvelado; depois, percebi que não apenas recuava o mar, como também, a passo e passo, a espessura do filamento ia aumentando. Devia reproduzir a grossura de um antebraço quando meu percurso contava uns oitocentos metros. Sem haver desbordado sequer uma lágrima das axilas, achei que, naquele ritmo, até o pôr do sol poderia abordar o continente mais próximo (a África, sem dúvida, talvez pela Namíbia). Nessa meditação, ocorreu-me que, privadas as águas de ter para onde escoar, a oeste, era possível que não só a Namíbia, mas a África, toda ela, fosse tomada pelo Mar de Atlas que eu empurrava com a força dos meus próprios ombros.

Namíbia: “área onde não há nada.” Um mar de areia imenso — da areia à água, poderia que sim. À mais fugaz especulação destrutora, esbocei um sorriso pravo: senti-me poderoso, senti-me um deus; ao alcance das minhas mãos, o dilúvio. Fui arrebatado da ideação quando, depois de um puxão metódico, desocultou-se do imortal espelho uma massa branca a menos de um metro de mim. Mais umas dezenas de puxões e tirei o véu marítimo ao cadáver de um enorme cachalote, estático, esmarrido, a faltarem-lhe pelo menos três porções, uma à região ventral, as outras ao dorso. Poderoso, etéreo, divino — eu próprio, não o cachalote; eu era maior que Ahab.

Como se picado pela realidade, apreendi com a percepção atardada dos abstraídos que havia coisa fora de lugar. Devia passar de um quilômetro o avanço para dentro do campo desalagado, o filamento já da espessura de coxa adulta bem alimentada, quando caí das calças que não vestia: a Lua havia recuado, ela também, e era duas vezes menor do que antes. Restei extasiado — firmei os pés e, imóvel, com grande força voltei a puxá-lo; a Lua, com efeito, fugia-se à medida que eu arrastava a grossa fibra. As nuvens, antes em cirros rarefeitos, desenhavam-se em cúmulos, em maior densidade e preenchimento. De tão exausto, nos braços, no tronco e no enleio, senti pesar sobre meus ombros a calota do céu e deixei-me cair esticado na areia — densa, úmida, tomada por algas, conchas, crustáceos dos diminutos e pelo mais que pode supor a ciência marinha. De exaustas também as pálpebras, dormitei.

Não sei se o que veio a seguir sonhei ou se de fato aconteceu, mas a verdade é que abri os olhos ao sentir um estranho distúrbio, para com abalo achar sobre mim um céu nebuloso, pouco alumiado por uma Lua de volta à dimensão ordinária, senão um tanto maior. A fibra verde, que durante o cochilo se desarraigara da minha mão, a vi retrosseguir em aceleração pasmosa; com um abraço aflitivo tentei estagná-la debalde. Era como se, do outro lado, um titã (talvez Oceano, ele próprio, com seus abismos profundos) a entesasse e rebocasse, restaurando a desordem que eu aprontara. O mar, inflamado por ventos furiosos, prosperava revolto, as ondas rugindo em minha direção, e eu, despido em um deserto encharcado, achava-me prestes a ser subjugado pela fúria das águas de toda sorte: as da terra e as do céu, que começaram a se precipitar ao tremor de um soturno ronco — eu seria minha própria Namíbia. Divisando o voo de aves negras em direção à praia, chispei de imediato com idêntico destino.

Sob a tempestade, em disparada, arrostando turbilhões de poeira, cruzava o cachalote defunto quando o mar, sem o concurso de freio, começou a lamber-me os tornozelos, até que, eu mais lento de tão exaurido, vestiu-me as débeis panturrilhas; trambequei e rolei até estacar com as costas, a terra agitada em seus fundamentos. Por entre as nuvens em grita, a Lua era três ou quatro vezes maior do que fora pouco antes; imbuída da força de Oceano, Selene rematava sua travessia, celebrizando sua aura gigantesca e em expansão na melancólica casa de Nix, para no ápice de sua autoridade medir e condenar minha alucinação. Recompondo-me, o mar já vencendo meus joelhos erodidos, lancei-me em saltos até que se tornasse impossível arrebatar da água as pernas; detendo uma aspiração salgada, afundei-me até o peito e deixei-me levar pela maré rugiente, na espera de que me expectorasse até a praia.

Uma onda potente derrubou-me com uma sova nas costas, soçobrando-me e fazendo-me ser rebocado sob a lâmina espumante, sem curso ou medida; meus pés, em desesperado agito, resvalaram na areia ao fundo, contato que meu instinto verteu em ânimo de salvação — arrancando do tabuleiro escorregadiço, lancei-me à tona num crawl insano. Singrei à proporção de cinco braçadas até que alguma coisa me enroscasse nos pés. Fui carregado mar adentro por uma força absurda em velocidade estupenda, meus pulmões prenhes de medo, alguma coisa enrodilhando meu tronco, até que comecei a desacelerar. Houve um clarão e o mar foi iluminado em toda sua profundidade; estacionei, aturdido, e abri os olhos para descobrir uma água calma e cristalina que me permitiu distinguir com nitidez: o filamento verde, o mesmo de antes, fora o que se enroscara outra vez em meus pés e me puxara para o abismo distante do mar. Mas que ainda o designasse filamento foi até girar meu corpo: colossal, titânica, a serpente constringia-me; a cabeça tão grande quanto o cachalote desconjuntado, as fossetas profundas, os olhos cobertos por escamas ínvias, amarelas — abeirou-se, magnética, escancarando a mandíbula, fazendo ver dentes enormes e pontiagudos.

| conto do livro Eu queria que este livro tivesse orelhas (Ed. Oito e meio, 2018). |

André Balbo (São Paulo, 1991) é editor da Lavoura. Publicou os livros de contos Eu queria que este livro tivesse orelhas (Ed. Oito e meio, 2018) e Estórias autênticas (Ed. Patuá, 2017). Autor convidado da Flist e da Flipoços, é um dos curadores colaboradores da Casa Philos na Flip 2018. É também revisor, redator e parecerista freelancer, e professor de redação e literatura em diversos cursos. E-mail: balbo008@gmail.com

mar vermelho, de Tito Leite

Cansado dos velhos vícios inventados da minha cidade, resolvi fugir das ruas e dos utensílios do meu apartamento. Uma boa fuga teria que ter Ana comigo. Mas ela está prestes a me largar. Na mesma manhã leio a notícia no jornal: Pânico na ilha! Pensei: Geralmente existem boas fábricas de crise. Isso deve ser algo planejado. Li num portal de notícias que Ozzy Osbourne costumava colocar drogas no sanduíche da esposa, quando ainda eram namorados. Não tive dúvida, dopei Ana e coloquei-a no primeiro navio. Chegamos à tarde, paguei a diária e entrei no quarto. Joguei Ana na cama. Ela já estava acordando, não entendia nada do que estava acontecendo, e eu apenas dizia: Você está sonhando. Ela perguntou com a voz alta: O que está acontecendo? Com toda tranquilidade falei: Calma, amor, estamos numa ilha longe de toda aquela loucura, só eu e você. Ela me olhou com estranheza (para não dizer asco), começou a gritar e saiu do hotel em busca do primeiro navio. A última vez que se comportou assim foi quando o nosso gato foi atropelado. Confesso que o meu coração ficou estreito quando sentiu o ódio que saltava dos olhos dela. Quando colocou o pé na calçada, quase foi atropelada por pessoas fugindo de forma desordenada (lembravam até o Estado de Sítio, de Albert Camus). Que cena surreal. A multidão subia e descia pelas ladeiras da ilha. Ela retornou assustada. O que está acontecendo? É a crise, amor, esse povo tá em crise e por isso foi tão fácil e barato o acesso para cá. Veste esse vestido vermelho. Lá fora tudo está para explodir e que se dane tudo isso, você é o meu lar. Ela começou a berrar novamente e tentou sair, mas se assustou com a multidão que subia e descia. Trancou-se no quarto e chorava. Eu de fora querendo entrar para vê-la com o vestido vermelho. Fui para a varanda, acendi um cigarro e fiquei olhando a turba agitada. Quando não se acredita no amanhã, o sol brilha como uma bola de chumbo. No final da tarde, ninguém sabia por que estava correndo. Todos corriam, corriam e corriam; era a crise. De qualquer forma, comecei a desconfiar do próprio ar e comprei uma máscara de gás. Tentei novamente entrar no quarto, mas Ana não escutava. Falei: Ou abre ou derrubarei a porta. O recepcionista avisou: Se fizer isso chamo a polícia. Eu respondi: Os policiais estão em pânico e as pessoas nesse hotel também. Ok — ele disse — vai fundo, mas só não bate na mulher porque isso é coisa de bandido. Derrubei a porta, mas que dor horrível, desloquei a porra do braço. Pelo menos meu amorzinho riu pela primeira vez naquela tarde caótica. Fui para a recepção em busca de um remédio para anestesiar a dor, mas não tinha ninguém. Sentei novamente na varanda com meu braço deslocado e fiquei assistindo ao desespero daquela gente. Tomando uísque, fumando e escutando The Piper at the Gates of Dawn, do Pink Floyd, fiquei pensando se a loucura não foi o preço que Syd Barret pagou pela genialidade daquele álbum. Foi quando, para minha desgraça, ao longe avistei Ana em seu vestido vermelho; estava próxima do cais. Ela parecia estar com o recepcionista. Entrei no quarto em desespero, com o coração fora do lugar. Entrei e vi a mala toda revirada, sem suas roupas e meus cartões. Saí pelas ruas, fazendo parte da massa desesperada, em crise. Já era tarde, apenas a avistei sumindo com aquele vestido vermelho no mar. Mar vermelho é a cor da casa que caiu.

Tito Leite nasceu em Aurora-CE (1980). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Têm poemas publicados nas revistas Mallarmargens, Germina e na portuguesa TriploV. Digitais do caos (selo Edith, 2016) é o seu primeiro livro.

eles não moram mais aqui…, de Ronaldo Cagiano

02 conviteRonaldoCagianoLerDevagarVoltei para casa com a sensação
de uma absoluta solidão.
“O túnel”
Ernesto Sábato

…, mas aparecem em todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado. O sono despertado pelo interfone, eu ali, semi-acordado da madrugada que ainda me prostrava com seu chumbo na manhã ociosa. Eles, pontuais e esperançosos, esperavam o meu abraço, o beijo, uma festa nos olhos conspurcando o endereço inóspito. Antes de entrarem, apesar de terem a chave, pressionavam a campainha num toque prolongado, acho que o pai ainda está dormindo, Maninha, talvez por temerem invadir a privacidade, era sempre bem cedo, como se não quisessem perder um minuto do direito à visita, essa palavra burocrática e cerceadora, eu percebia pelo olho mágico a face (e)terna, deve estar se vestindo, ela falava ao Dudu, eles vinham para o lugar que um dia foi deles, e meu sorriso tentava empanar a face ainda desfigurada, a garganta congestionada por hálito e emoção, a impossibilidade de tantas perguntas, apenas os filhos ali — um casal, mocinhos já — e não se lembrariam mais dos primeiros choros, as cólicas abreviando as noites, seus corpos buscando afagos enquanto a febre latejava, e agora são eles numa sondagem silenciosa e aflita com um olhar-escafandro penetrando o insondável em mim, bateia no aluvião de minhas tristezas, mergulhados mais fundo do que nunca numa água desconhecida, mas o que são os filhos senão o barco que lançamos rumo ao mar existencial, lá onde não podemos mais chegar e alcançá-los, onde a fúria da vida impõe suas fadigas e descaminhos. Sim, fomos filhos um dia, mas em que águas me lancei, que a mesma distância entre mim e seus avós parece multiplicada entre nós, agora esses corpos frágeis, tão cedo carregando o peso da realidade? Acho que jamais soube o que era tudo isso, ainda mais agora, longe da rotina de febres e choros ensurdecendo a casa, quando esse outono consterna a cidade com a prostração das cores, a janela é um convite para uma fronteira que não conheço, os olhos apertados, não querendo ceder lugar às lágrimas, procuram, procuram, procuram e, extenuados, só pescam lembranças no lago turvo de um tempo que a gente não reconstrói mais, pois vai embora como a vida, como vão a poeira e a folhagem seca sob o telhado, escoiceadas pelos ventos de dezembro, essa dor maior que o crime de Deus existir e não fazer nada, esse acúmulo de epidermes mortas, jazigo de guerras conjugais, e amanhã é domingo, pé de cachimbo, (e as cidades morrem aos domingos, como morre nosso espírito calejado de ausência e silêncios), o apartamento está vazio como habitada por fantasmas está a Esplanada dos Ministérios, esses inexpugnáveis caixotes que albergam tantos segredos, e quando eles entram, são as perguntas de sempre, são os laços rompidos, são seus olhares inertes sobrevoando os cômodos, esquadrinhando os retratos sobre a cristaleira, é a alma um pomar de lacunas e lá embaixo é o asfalto, o burburinho de carros, as superquadras e seus blocos residenciais (pombais, que o velho Euclides, meu professor, um dia inquinou e que detestava habitar), enfileirados como num dominó, as cigarras de agosto a plenos pulmões impondo pregão de seu canto histriônico, e a urgência de tudo nas coisas, é o que sobra, é o que miro na estante com a foto da primeira viagem à praia, ele grudado às minhas pernas, ela no colo, ali estávamos, no parapeito do grande belvedere do Cristo Redentor que dava para a Baía de Guanabara, e já não são aqueles dias que vejo, é o pranto reprimido que se dissipa com o barulho do caminhão de gás se enviesando sinfônico pelos setores povoados de siglas e sua vinheta imutável, a respiração um pouco mais forte, ah!, a água que eu havia esquecido esquentando na chaleira, tudo parece imperfeito, eles me beijam quando chegam, acomodam-se solenes e calados na velha poltrona como se desconhecessem o lugar, o dia livre, os móveis, os passeios, enquanto as bonecas hibernam numa gaveta da cômoda travestida em museu de entulhos, o autorama enguiçado (lembro-me do dia em que ele, brilhando como um cometa, o recebeu de minhas mãos — É meu, pai?) denuncia que a existência acumula perdas e riscos além das mentiras e ofensas na Vara de Família — tudo agora parece acabar antes de começar, o abraço deles, demorado e insubstituível, ainda penetra minha consciência como um punhal em brasa, o quarto os espera como sempre, como se nunca tivessem saído de lá e voltassem de férias, mas os cadernos, suas caixinhas de pertences, a mochila, as roupas espalhadas, as folhas com desenhos coladas na parede, os deveres por fazer — onde estão? Braços apascentam a saudade e eu percebo que a realidade, imperturbável, sequestrou suas faces de criança, depositando feixes de angústias. A casa é a mesma, mas a solidão imperativa os recebe como estranhos. Estrangeiros na própria terra, já não reconhecem os desenhos a lápis de cor que ainda adormecem nas paredes do quarto da empregada. Onde andará dona Zelina, que ensinou-lhes em nossa ausência as muitas coisas da vida, as sofrências do ver? Há uma sombra pretérita escurecendo os cômodos. Como a pergunta-lâmina que não tem resposta, apenas uma lágrima esconsa. Pai, o que é saudade? Ainda me lembro de quando ele a me cravou, à queima-roupa. E nunca imaginei que um dia seria mais difícil sentir do que explicar. Naquele tempo os passeios ao Jardim Zoológico se revestiam de tamanha aventura, como se juntos flagrássemos o reino da fantasia que nos isolava do mundo e da fugacidade dos infortúnios que a vida prepararia sem postergação nem piedade, eles ainda tinham seus heróis enquanto os meus não sobreviveram a 68 e a plena efervescência da vida em seus poros, a vida, a vida, a vida com suas garras bisonhas é o que nos cabe, quando tudo já é sem a ilusão e a gente vai matando um leão por dia, nas entressafras de dores inesperadas, de inventário do pouco que tínhamos. Agora é mais um fim de semana igual a tantos outros, tudo se repete como as folhas exiladas que a cada outono atapetam o gramado, como as caminhadas à beira do Lago Paranoá, os lanches após as sessões vespertinas nos cinemas do shopping, tudo imutável feito o que há de compulsório nas agendas de trabalho, já não há mais o gibi, nem os brinquedos espalhados na sala ou os desenhos trêmulos riscados a batom no espelho do banheiro (primeiros esboços de sonhos). O sol insiste em esconder-se lá, dominado por nuvens negras que caluniam a paisagem nessa estação sem graça atropelada pela intransponível secura do Planalto Central, mais suportável que a que instaura o deserto íntimo, soberana e indesviável sentença que parece nunca apartar de nós quando o rio bêbado do tempo, veloz e pleno de fúria, irrompe em nossas vidas como as tantas enchentes de verão que invadiam tsunâmicas minha infância em Cataguases. E esse rio imóvel entre paredes não conduz a lugar algum, apenas reproduz a cada domingo o ritual dos rostos colados que se afastam antes de recriarem a soberania de outras despedidas, enquanto os vejo pela janela se dissipando no altiplano rumo à parada de ônibus, até se transformarem num ponto minúsculo ao longe, um cisco na paisagem do horizonte longínquo.

Agora o apartamento é um sarcófago que hiberna outras vidas (terão vivido a minha exaustão? carregam o minério bruto de outras frustrações? dão ouvidos à vizinha evangélica, assassina da gramática, palhaçando sua fé bisonha pelos corredores a bordo de uma bíblia surrada e seus cabelos de espantalho?), na vasta planície com seu vago teor de nuvens, o mofo ampliou seus mapas no terraço do condomínio; as janelas — há tempo fechadas — denunciam o imponderável que há nas coisas. E o olho mágico vislumbra outras criaturas, mas nele resiste a presença invisível de seus rostos, a substância clara de suas almas. Brasília já é um deserto onde só resistem as caliandras.

Ainda me lembro daquelas mãos albergando o afago pressuroso, guardando para o último minuto a despedida formatada no adeus definitivo que não muito longe dali o tempo se encarregaria de um dia amalgamar. E os chicletes coreografando estruturas no ar, a última lembrança da estação deixada nos degraus da escada, uma rodovia desavergonhada implementando o longo sono.

E um ronco do motor, uma trava, uma cancela, o asfalto molhado, os olhos inchados, um gigante ruminando a alma e no fundo, no fundo do cerrado, onde tentei enterrar minhas dúvidas, a dispersão das cinzas em que se converteram as estrelas de seus olhos.

Ainda me lembro: eles apareciam todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado.

Ainda me lembro, de como se despediram da última vez, minúsculos pássaros em fuga.

Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília e São Paulo e reside atualmente em Lisboa. É autor, dentre outros, de Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília de Produção Literária 2001), O sol nas feridas (Poesia, Ed. Dobra, Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012), Observatório do caos (Poesia, Ed. Patuá, 2016) e Eles não moram mais aqui (Contos, Ed. Patuá, Prêmio Jabuti 2016).