primeiro capítulo da novela ‘Epilepsia — uma fábula’, de Samuel Kavalerski

00 epilepsia_capaPreâmbulo
Numa noite imóvel

A lua branca era um ponto raro de esperança na noite tão escura. A água da chuva ainda se acomodava pelo asfalto e refletia a claridade em milhares de migalhas líquidas. Era uma cidade grande, dessas com estações de trem, chafarizes e teatros. Fazia frio e o vento fraco não movia nem o que havia de muito leve. Àquela hora, instaurava-se um vazio profundo e espaçoso. O silêncio era um rei tirano. Edifícios e monumentos pesavam indiferentes sobre a terra. As ruas úmidas eram um deserto. Nenhum passo, som ou respiração. A neutralidade havia se imposto ao tempo e parecia ter suprimido qualquer ação, qualquer presença. Parecia que tudo tinha ido embora e aberto espaço para o nada. A ausência se dilatava e deslocava lenta no contorno de uma carícia sobre cada centímetro da superfície da cidade.

De uma das ruas brotava uma fenda entre blocos de concreto: um beco estreito e escuro. Um labirinto tão objetivo que, se alguém decidisse explorá-lo, teria como sentença o retorno sobre os próprios passos. A certa altura da noite imóvel, a luz da lua lambeu o breu e revelou, ao longe, na extremidade do beco, um homem deitado no chão. Do negrume, a claridade desenterrou lentamente as pontas de um corpo abandonado ao próprio peso.

O homem dormia imóvel como a noite.

Alguém que decidisse se aproximar, passo após passo, beco adentro, veria de perto, sobre os ângulos daquela carcaça, o depósito de uma grossa crosta de sujeira. Na pele, feridas abertas e sangue; sobre ela, o acúmulo de suor e poeira; sob as unhas, como terra cavoucada, uma matéria compacta e escura. O cabelo era uma massa disforme, embolada com sebo; e, pela barba, catarro, saliva e restos de algo que serviu de alimento. As vestes gastas estavam sujas pelo que vinha de dentro e pelo de fora. Uma aura pesada cheirava o azedume da imundice humana, mistura apurada de suor, secreções, excreções e hálito. Muito tempo e matéria tinham se sobreposto e sedimentado sobre o corpo e essas camadas, por apego e hábito, já eram parte do que era o homem.

O olhar que enfim chegasse ao fim do beco e, disposto a uma aproximação maior, assumiria o ponto de vista dos parasitas que habitavam o seu corpo. Bem de perto, aderido ao visco da sujeira, o olhar curioso teria uma revelação: a aparente imobilidade daquela noite era uma farsa. Pelo corpo, músculos se contraíam, cavando vales. Depois, relaxavam. Artérias mais superficiais elevavam ondas na pele enquanto bombeavam o sangue. O caminho do ar ampliava e diminuía o volume do tórax. O coração batia. Havia correntes elétricas. O corpo pulsava numa dança mínima. Em meio a tanta imobilidade, até mesmo das horas, nem tudo estava perdido. Um compasso constante e sereno embalava o sono. Havia calma e constância.

Num repente, como numa erupção e sem motivo, algo muda: o corpo encrespa; a respiração acelera; o coração bomba impetuoso, soca o peito; o sangue engrossa, a circulação não flui, há atrito; há esforço; o tórax infla, puxa mais ar e murcha em sopros rápidos; há calor, o suor verte; o corpo lateja num ritmo de esquizofrenia; oscilações incoerentes descompassam expansões e contrações, sístoles e diástoles; tudo se torna abrupto. Na tentativa de conter os impulsos por dentro, o invólucro do corpo se enrijece, aperta e empedra. A explosão teria sido um caminho mais fácil. O romper latente passa a transfigurar as formas do corpo. A nuca se espreme e arqueia o pescoço para trás; a boca abre numa fresta; língua, palato e garganta, úmidos de saliva sentem o ar que entra seco e sai em sons manchados; os poros se alargam e a casca dura da pele vira uma membrana fina. Os pelos levantam e repuxam incontáveis pequeníssimos cumes; o tato se amplifica e a pele sente o toque do ar, da sujeira, o arranhão da fibra dos tecidos, a umidade áspera do chão; os olhos se reviram, as pálpebras batem como asas de um inseto; o sexo endurece; os punhos cerram com força e as unhas afundam na pele das palmas das mãos; na face, uma carranca se contrai por dor e negação; a saliva abunda, espuma e escorre pelas laterais da boca. Espasmos contorcem a musculatura, contraindo, retendo tensão até afrouxarem quase à morte; o peito se afunda e os ombros fecham; as escápulas se abrem para, em seguida, juntarem-se apertando a musculatura das costas; a coluna arqueia reabrindo o peito ao ponto de rompê-lo. É preciso mais ar; o ventre oscila entre idas e vindas até que se contrai, repuxa o quadril em direção ao estômago e condensa todas as pulsões num núcleo, na potência de uma concentração atômica; a matéria do corpo se força a uma levitação tesa; o homem todo se comprime e rejeita o chão, recusa a gravidade num esforço por se elevar, descolar, desprender, até que o cérebro pesa num escuro profundo.

A queda.
O gozo imaculado.

Toda tensão finalmente se esvai, derrama-se púbis abaixo, rolando a pelve como uma bacia que emborca. O corpo transborda. Do meio da escuridão, um gole de claridade. Na matéria, o tremor do êxtase. A linha de pele, que até então separava o dentro e o fora, desmantela-se. Limites se dissolvem e o que é do homem se mistura ao que é do mundo. Uma comunhão: o ar da noite perpassa fibras, tecidos e ossos do corpo aberto; o essencial do homem desliza e escorre pelas dobras da matéria da noite. Homem e noite deixam rastros um no outro.

Entre borrões de contrações e arrepios, o corpo lentamente assossega e acomoda. Ondas amaciam pedaços da carne. O que antes se espremia afrouxa, o que explodiria abranda e, pouco a pouco, a quietude interpõe seus véus.

O fluido derramado escorre na pele e fica impresso como uma camada a mais de matéria. Findados os fatos, a lua seguiria seus passos e entregaria o beco de volta ao breu. Tudo passa. O homem dormiria por milênios. Inspiraria como um lobo que uiva para dentro. Expiraria, entregue e frágil. A arbitrariedade do tempo se interporia à escuridão e o infinito ganharia espaço até que o amanhecer viesse matar a noite. Apesar do homem, essa derradeira paz seria o mais próximo que a noite enfim chegaria da tão virtuosa imobilidade.

| primeiro capítulo da novela Epilepsia — uma fábula (Folhas de Relva Edições, 2018). |

Samuel Kavalerski é bailarino, coreógrafo e artista visual. Epilepsia — uma fábula é seu primeiro livro. Dirigiu “Céu de Espelhos”, projeto vencedor do 20º Cultura Inglesa Festival, dividindo a criação e a cena com a bailarina argentina Irupé Sarmiento. O espetáculo rendeu-lhes uma indicação ao prêmio de melhor interpretação da APCA. Foi professor, coreógrafo e ensaiador do Corpo Jovem da Escola de Dança do Theatro Municipal de São Paulo. Foi solista da São Paulo Cia. de Dança, integrou o elenco da Quasar Cia de Dança, de Goiânia, e o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba. É graduado em Artes Visuais com Ênfase em Computação pela Universidade Tuiuti do Paraná e tem desenvolvido trabalhos que integram as diferentes linguagens artísticas: dança, artes visuais, teatro e, agora, a literatura.

feminicídio, de Rodrigo Novaes de Almeida

Exclusivo na Revista Gueto, conto inédito que dá continuidade aos temas do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

Safada. Sumiu por dez dias e eu procurando ela como louco, nossa filha ligando pra todo mundo, fui bater nos hospitais, no IML, na puta que pariu, em tudo que é lugar que aquela vagabunda já frequentou, ninguém sabia dela, nada. Aí me liga, diz que não vai voltar, pede pra falar com a nossa filha. Pergunto onde estava. Num motel da BR 101 perto de Tarituba. O que fazia lá, vagabunda? Não importa, não é da sua conta, disse. Não é da minha conta? Vou arrancar todos os seus dentes, sua desgraçada. Me conta? Ela contou. Acredita que estava com um namoradinho da adolescência? Tava com o amor da oitava série, disse. Não deixei ela falar com a nossa filha. Então a safada foi atrás da menina. Vou ficar com o amor da oitava série, filha. Não quero continuar com o seu pai. Vagabunda, passa dez dias fodendo como uma piranha, depois decide morar com o tal do namoradinho, quer viver os anos da juventude, recuperar alguma coisa, sei lá, isso a desgraçada me falou quando fui atrás dela. Descobri onde o traste mora. Eu amava ela. Vinte e cinco anos de casamento. Nossa filha tem vinte. Ela sempre foi uma mãe exemplar. Mulher do lar, sabe? Nunca me traiu, a filha da puta, até esse namoradinho da oitava série aparecer. Como eu sei? Na verdade, agora pensando bem, eu não sei. Vagabunda. Não vou botar a minha mão no fogo. Dez dias desaparecida. Dez dias, e eu vendo cadáver de mulher-qualquer pra reconhecer a mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Não se faz isso, fornicando em motel de estrada e abandonando tudo pra viver com outro homem. Fiquei remoendo a vergonha, a humilhação. Daí tive uma ideia. Não vou enganar ninguém agora. Premeditei tudo. Falei que a nossa filha precisava conversar com ela, pedi pra vir aqui em casa, a menina não estava, tinha aula, ela estuda no Paula Souza, vai se formar técnica de enfermagem. Ela veio. Deixei entrar. Chorei, fiquei de joelhos, abracei a cintura da desgraçada. Eu beijei sua testa. Implorei, sabe? Implorei que voltasse. Eu perdoo a traição, falei pra mulher que vivi sob o mesmo teto vinte e cinco anos. Ela disse que não ia voltar, que me amou, mas que a gente vivia infeliz há muitos anos, que ninguém merecia viver infeliz, que ia ser melhor pra todo mundo, e que um dia eu ia agradecer. Agradecer? Filha da puta, eu gritei. Filha da puta. Agradecer ter levado um par de chifres? Ser corno na frente de toda a vizinhança, dos parentes, dos amigos? Ela pediu pra eu me acalmar. Eu xinguei. Xinguei ela de tudo que é nome. Aí ela endureceu, seus olhos ficaram gelados e disse que a nossa filha ia morar com ela, que já tinham conversado. Eu fiquei com mais ódio. Minha filha, não. Então eu disse que precisava ir ao banheiro. Mas fui, na verdade, até o quarto, abri o armário e peguei o trinta e oito dentro da última gaveta. Guardo ele atrás das meias, dezenas de pares de meias pretas. Não gosto das brancas, sabe? Então, voltei pra sala. Ela estava arrumando os controles da tevê que deixei largados na mesinha de centro e não no porta controle estúpido que ela havia comprado na última liquidação de alguma loja de departamentos. Mulher é foda. Eu não ia deixar por isso mesmo. Saquei o trinta e oito da cintura, escondido debaixo da blusa, e descarreguei tudo na vagabunda. Mirei na cabeça. À queima-roupa. Matei, sim. Se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém. E não vai levar minha menina pra morar com outro homem. Confesso que matei. A mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, não era pra ser? Eu disse a vida toda pra ela, meio de brincadeira, mas falando muito sério, se me trair um dia eu te mato, mulher. Isso é tudo. Quer dizer, depois liguei no um-nove-zero e chamei vocês. Defesa da honra, sabe?

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside há quatro anos em São Paulo. Autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.

O lançamento de Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018) acontece no dia 19 de maio (sábado) a partir das 19h no Patuscada — Livraria, Bar e Café — Rua Luís Murat, 40 — Vila Madalena — São Paulo — SP. Evento no Facebook: [link]

noêmia, de Lizandra Magon de Almeida

Nada de mal acontece a uma mãe que espera.

Sentada na poltrona ao lado do telefone, na madrugada, aguardando notícias do filho hospitalizado, ela jamais terá um enfarte. Mães que esperam não são acometidas de desgraças comezinhas na vigília. Mães que esperam, esperam. Lúcidas, tensas, ansiosas, mas a salvo.

Noêmia mais uma vez esperava um telefonema súbito do médico plantonista para dizer que o filho não resistira aos ferimentos do acidente. Fazia mais de mês que ele estava internado, intubado, na UTI daquele hospital público, do outro lado da cidade.

Noêmia tinha problema de coração. Nunca tinha feito exames, nem sentido qualquer sintoma. Por isso ninguém sabia que havia um coágulo em sua circulação, avançando lentamente por sua carótida. Resultado de uma queda e do excesso de placas ateroscleróticas em suas artérias, o trombo um dia bloquearia sua corrente sanguínea e obrigaria Noêmia a correr para o hospital, do qual escaparia por pouco.

Mas quando isso acontecesse, o filho já teria partido. Pela primeira vez em paz, pela primeira vez lentamente, ao contrário de todos os dias, quando pegava a chave da moto, lhe dava um beijo rápido no rosto com o capacete já meio colocado, correndo, trabalho, entregas, pacotes, mercadorias, um ônibus, correndo, contramão. Seu filho. A moto. O cruzamento.

Noêmia passaria mais de dois meses atravessando a cidade, condução, trem, metrô, uma hora por dia ao lado dele, mais tempo do que jamais passara. Sempre correndo, desde pequeno, sempre louco por carros. E daquela vez em que sumiu, desapareceu? Tinha quantos anos? Sete, oito?

Um dia inteiro sem notícias. Ele tinha se escondido na boleia do caminhão do vizinho, sempre louco por velocidade. O homem ligou do meio da estrada dizendo que já estava longe quando descobriu o pequeno intruso dormindo tranquilo atrás de seu banco. Não tinha como voltar, tinha entrega para fazer, mas cuidaria do menino. Que se lembraria desses dias na estrada como os melhores de sua vida. Sempre quis ser caminhoneiro, o dinheiro só deu para a moto. Noêmia só reencontrou o filho três dias depois.

Agora que não havia mais o que esperar, que o filho estava enterrado, morto, o coágulo podia se deslocar. Podia se posicionar em uma artéria estreita, com paredes forradas de colesterol, e assim obstruí-la. Fosse no cérebro, teria uma embolia cerebral. Ali perto do coração, infarto.

A mãe de Noêmia, dona Aurora, 88 anos, agora esperava ao lado da filha, na ala cardíaca do hospital público do bairro. Cateterismo, cirurgia, UTI, semi-intensiva, enfermaria. Diariamente a velha senhora visitava a filha. Em seu estômago, um câncer furtivamente se desenvolvia. Mas ali, enquanto velava a filha operada, a reprodução celular maligna se deteve.

Nada de mal acontece a uma mãe que espera.

Lizandra Magon de Almeida é editora, jornalista, tradutora e poeta, nessa ordem, atividades que exerce desde 2001 na Pólen Editorial, que hoje também publica seus próprios títulos, a Pólen Livros. É diretora editorial do selo Ferina, em parceria com a escritora e cordelista Jarid Arraes.

entre moscas, de Everardo Norões

A mosca cola-se ao vidro da janela. Ela é o alvo de meu olho, o objeto para onde converge minha atenção, embora além do vidro se estenda o verde da mata e, detrás dele, a casa no alto e outros elementos da paisagem: fios, cercas, monturos. E nos monturos, a lâmina das circunstâncias que corta nossas vidas: favela, sem esgoto ou água encanada, barulho de martelo a pregar algum segredo ou o homenzinho apregoando macaxeira.

Mosca: ao mesmo tempo alvo e inseto da espécie dos esquizóforos, assim denominados por terem um sulco frontal a dividir a cabeça em dois hemisférios. Ela mexe-se, inquieta, alvo móvel a dar voltas em torno de si mesma. Fosse gente, seria considerada alguém que dissocia ação e pensamento, no limiar da esquizofrenia. Mas age assim certamente por ter olhos múltiplos, omatídios, oitocentos grãos translúcidos, esferas cristalinas de alta definição, como uma TV LCD. Levam luz ao cérebro minúsculo e agora permanecem encandeados pela superfície brilhante do vidro que a detém no interior do quarto onde procuro descobrir sua estratégia de livramento da prisão na qual a mantenho.

Ela, a mosca, terá uma duração de, no máximo, vinte e um dias, seu ciclo vital. Terminado o movimento dessa peregrinação que também pode ser subentendido como realidade subjetiva, ficarei sozinho, sem ter com quem partilhar o fastio, nem mesmo a restrita visão das gotas de chuva sobre as folhas das árvores próximas ou o reflexo do sol a esmorecer-se sobre o ocre dos telhados.

Quando penso nessas sensações, não as considero mera percepção ótica de um mundo que nos estrangula, a mim e à mosca. É como se estivéssemos dentro de uma bolha invisível, dentro da qual contenho meu próprio espaço-tempo.

Quanto à mosca, faço de tudo para não assustá-la, embora às vezes a perca de vista. Procuro segui-la atentamente e durante a perseguição me vem sempre à cabeça o verso do poeta espanhol Antonio Machado:

“(…) vosotras, moscas vulgares/me evocáis todas las cosas”.

Penso, então, na mosca que pousava no olho do primeiro morto que vi. O cadáver, estendido no caixão, mãos postas, rosto escondido com um lenço que de vez em quando era erguido por um curioso ou um parente próximo. Quando o morto era descoberto, a mosca voava, voava, e regressava com insistência quase raivosa aos olhos do defunto. “Tão moço!”, repetiam todos a mesma frase ao afugentarem a mosca naquele seu voo que se limitava ao território do tamanho de uma camisa de cambraia de linho branca.

Ao “evocarem todas as coisas”, lembro também a que me perseguiu na travessia de um trecho de deserto. Havia sido prevenido de que o instinto de sobrevivência levaria a mosca a se grudar em algum de nós e a seguir-nos até o fim da viagem. Instintivamente, ela sabia que, naquelas circunstâncias, abandonar o hospedeiro significaria a morte. Descuidei-me e tornei-me seu alvo. Feri-me, de leve, de tanto tentar livrar-me do assédio e acabei por guardar uma pequena mancha vermelha, que ainda trago no rosto.

Encontrei-a de novo, a mosca, a minha mosca. Começou a saltitar sobre o livro aberto ao lado, em cima de um pedaço de frase: “to drive home the finality of death”.

Caminha com passadas microscópicas, ultrapassa o trecho “by the monotonous buzzing of the flies?” e depois de roçar meu braço esquerdo aterrissa finalmente na pequena porção de comida, de cerca de 3 gramas, que depositei sobre a folha de papel branco, tamanho A4. Assim, estará abastecida durante a rápida trajetória sobre o nosso reino particular de cinco metros quadrados: mesa, computador, pequena estante com cerca de vinte livros e metade de uma resma de papel reciclável.

Sobre o fundo branco acompanho seus pequenos gestos nervosos, seus rodopios, riscos no papel. Mexe as patas, esfrega no pouco de comida o que se poderia chamar de focinho, cujo nome correto é probóscide. Não pode ingerir sólidos, por isso deposita uma mistura de saliva e suco gástrico, um ínfimo vômito, naqueles minúsculos resíduos. Uma digestão externa, que não consigo observar, nem mesmo com óculos. Se conseguisse examinar melhor diria o quanto de asco poderia causar-me. Mas por ser um ato tão microscópico, como tudo o que não se vê, não me dá nojo. Imagino que assim deve pensar Deus — se existir — sobre todos nós humanos, pequenos insetos nervosos a se mexerem, sem objetivo nenhum no nosso pequeno bólido perdido no universo.

Deixo-a mais calma, a mosca, a digerir sua refeição de final de tarde. Levanto da cadeira, onde fico o dia quase todo a ler e a tentar entender os teoremas da incompletude de Gödel. Olho-a como para me despedir e penso de novo:

“(…) vosotras, moscas vulgares/me evocáis todas las cosas”.

Nenhum poema sobre moscas igual a esse de Antonio Machado. Nada de “mosca azul, asas de ouro e granada” daqueles versos do outro Machado, que certamente detestava negros, complexado, submetido a ataques epilépticos, orgulhoso de sua farda de academia, dólmã de antigas turquias. Quanto a mim, prefiro a mosca de verdade: preta, sem metáforas. A que reina sobre nossa podridão, faz brilhar a ferida. Como a mosca-varejeira: pequenos ovos-luz, larvas esbranquiçadas sobre a úlcera na perna do cego da feira, que nos obrigava a correr para fugir de sua companhia.

Ei-la sobre o papel imaculado: simples ponto escuro sobre o branco, que tudo pode significar: sinal enigmático do texto, buraco negro das origens, fuligem final dos grandes incêndios, caractere original de alguma tradução de Camilo Pessanha. Aquele de barba toda moscas, tuberculose e concubinas, no sujo chão da China.

Desligo o ar-condicionado. Levanto da cadeira, com comichões na perna direita. Fecho a porta com cuidado. Giro a chave, para que ela não fuja durante a noite e eu não perca sua companhia, pelo menos durante os presumíveis 21 dias que ainda lhe restam.

E de repente escuto, numa espécie de murmúrio.

Ligo a grande mosca, a que não se mexe, não volteia no ar. A que mede trinta e seis polegadas, milhares de grãos translúcidos, esferas cristalinas de alta definição, que levam a escuridão ao nosso cérebro minúsculo. E agora encandeiam a noite, na qual, sozinho, confundo-me com ela…

Everardo Norões. Escritor, poeta, tradutor. Entre outros livros, publicou A rua do Padre Inglês (Editora 7Letras: Rio de Janeiro, 2006) e Poeiras na réstia (Editora 7Letras: Rio de Janeiro, 2010). Seu livro Entre moscas (Confraria do Vento: Rio de Janeiro, 2013) recebeu o prêmio Portugal Telecom 2014 na categoria contos/crônicas. Organizou a obra completa do poeta Joaquim Cardozo, editado pela Nova Aguilar, e antologias da poesia peruana e do poeta mexicano Carlos Pellicer. Vive atualmente em Portugal. Traduzido em francês, inglês, espanhol, catalão e quíchua.

trincheira, de Fernando Rocha da Silva

― Que bom que você conseguiu estudar, filha, a mãe teve que trabalhar para ajudar a vó a sustentar os mais novos, o safado do seu avô meteu o pé na estrada, nos abandonou, até hoje não sei se ele está vivo ou morto, mas não faz mais diferença, eu tô velha, os irmãos se perderam pelo mundo, mãe morreu, um pouco foi desgosto, não foi só aquela doença, eu sei que não.

Dona Soraia é boazinha, sempre mandou as roupas boas dos meninos que não serviam mais pra vocês, economizei muito com você e com seu irmão por causa dela, cê precisa ver, sou quase da família tenho até copo, prato e talheres só para mim.

― A senhora está cansada, mãe, devia ficar em casa, o que ganho não é muito, mas dá pra gente viver. Se lembra do sacrifício, das provações que passamos para eu terminar a faculdade? Graças a Deus passei naquele concurso, o momento foi abençoado. Já saímos do aluguel, esta casinha não é a que eu queria, mas tá bom, como a senhora diz: Não reclama de barriga cheia!

― Eu só tô indo lá, duas vezes por semana, se eu ficar sem fazer nada, aqui dentro, fico doida. Filha, seu pai era homem bom, mas a mania de jogar apostando dinheiro arruinou com ele, alguns dizem que ele estava trapaceando, mas o homem era irmão de bandido, não deixou barato, você era pequena, não atinava para as coisas, ele estava chegando do trabalho, uma obra de bacana, lá no centro, o homem só chamou: Altino. Quando ele virou, foi um tiro certeiro no peito, seguido de outros quatro pra confirmar a maldade, não deu tempo nem de tentar socorrer, eu chorei tanto em cima do corpo, não sabia que tinha tanta lágrima dentro de mim, ele não ouviu o grito que dei, não se mexeu mais, nem pra reclamar como sempre fazia.

― Para! Não é bom lembrar-se disso, minha mãe. Parece que pra gente é tudo mais difícil. Quando eu era pequena, a gente ia ao mercado, o segurança sempre ficava nos olhando, eu abestada, achava que ele queria ser nosso amigo, mas não, a senhora disse que ele fazia isso por conta da cor da nossa pele, como se a história que as freiras contavam para a senhora, quando era uma menininha do primário, fosse verdade, não chegamos ao rio para clarear a pele porque éramos preguiçosos, o rio não existe, nunca existiu, somos forte, descendentes de gente brava, gente que aguentou tanto sofrimento e ainda encontrou energia para inventar alguma alegria.

― Filha, você está bem? Não adianta esconder, eu vi na tevê, a polícia jogou gás e bomba em você e nos seus colegas. Eles te machucaram? Eu já disse que você não deve se envolver nessas anarquias, já não basta seu pai que me deixou só, seu irmão com aquele jeito estranho que não me fala nada da vida dele, mas anda bebendo demais, que eu nem sei, se acontece algo com você, não quero pensar no que vou fazer.

― Eu estou bem, foi incômodo cheirar o gás, tinha gente com criança, pessoas mais velhas, mas passou, o que não pode passar é esta lei. Gente rica quer que o povo pague a conta dos desmandos deles, não, isso não é justo, eu tenho que lutar, olha o absurdo, mãe! Não estou pedindo nada mais do que ganho, só não quero perder uma parte do meu pouco, como é que vou pagar as prestações dessa casa, se me tirarem R$1,00?

― A vida é assim, menina, quem tem manda e quem não tem obedece, parece que tá te faltando juízo. Você não viu aquela moça morta no Rio de Janeiro?

― Com todo respeito, Dona Eunice.

― Não gosto que fale assim comigo!

― Me desculpa! Mãe, não vou arredar o pé da frente daquele prédio, até que o prefeito e alguns vereadores tirem esta ideia absurda de descontar mais dinheiro do meu salário. Ouvi dizer que os bancos e outras empresas devem um bocado de dinheiro para a prefeitura, por que não cobram deles?

― Esses livros não fizeram bem pra sua cabeça, bem que sua vó dizia: quem estuda demais, acaba ficando doido. Você tá falando coisa sem noção, menina! Maldita hora que fui falar aquele negócio de estudar pra ter uma vida melhor! Eu sempre ouvi dona Soraia falando isso pros meninos dela, achei que era bom e comecei a repetir para você e pro seu irmão.

― Talvez, esta tenha sido a única coisa boa que ela nos deu.

Fernando Rocha da Silva é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, professor na rede municipal de São Paulo, autor do livro de contos Sujeito sem verbo (Confraria do vento), da novela Os laços da fita (Editora Penalux) e do livro de crônicas Afetos (Editora Penalux). Tem um conto na antologia Descontos de fadas (Alink Editora). Possui textos publicados em Mallarmagens, Diversos e afins, Incomunidade, Musa Rara e Letras Inacabadas.

quebranto, de Virna Teixeira

Ela andava numa fase difícil, a vida estava estagnada, nada dava certo. Uma amiga sugeriu: ‘É quebranto. Vai ver um pai de santo’. Passou o contato do WhatsApp do ‘Pai Antônio’ para ela. ‘Sempre vou nele, é muito bom’. O tal pai não podia atender, estava com conjuntivite. Ela queria uma recomendação, tinha pressa. Ele compartilhou os contatos do ‘Pai Vivo’ e ‘Pai Oi’. ‘Jogam búzios muito bem’. O celular dela era Vivo. Marcou com o ‘Pai Vivo’, que se chamava Pai Toninho. Ele estava disponível. ‘Se quiser vir hoje, estou aqui até às 15h’. Passou o endereço. Era no fim do mundo. Como teria chegado ali sem Google Maps?

De repente se viu numa rua de terra batida, com poças de água barrenta. Uma moça da Aldeota no Conjunto Palmeiras, bem vestida e exótica, portando um chapelão, de pantacu, tamancos dourados e uma blusa de estampa tropical. Excentricidades do signo de aquário. Não havia um só veículo na rua. Desceu do carro um pouco ansiosa, respirando rápido. Podia ser assaltada. De repente lhe ocorreu: ‘quem vai assaltar cliente de pai de santo? Pode dar um azar desgraçado’. Afinal, ele era certamente conhecido na região. Respeitado.

Um rapaz esquálido usando um boné ao contrário abriu o portão de ferro branco, com a pintura descascada e um molequinho de uns seis anos, descalço, pulando ao lado dele. Disse que entrasse. Foi entrando na casa úmida, escura, cheia de estatuetas estranhas. Um diabo alaranjado, uma sereia loura, máscaras africanas, Santa Bárbara entre várias outras estátuas religiosas. Dois outros rapazolas sem camisa assistiam tevê num sofá baixinho, suburbano, vintage até. Lembrou que sua avó tinha um parecido em casa. Um sofá estilo anos setenta, pensou.

Pai Toninho apareceu vestindo trajes africanos comprados provavelmente no mercado central. Pediu que o seguisse até uma pequena sala. Sentaram numa pequena mesa quadrada, coberta com uma toalha plastificada com estampa de frutas. Ele abriu uma agenda velha e empoeirada. Perguntou o nome completo dela para jogar os búzios. Tomou nota na agenda com um lápis com borracha na ponta. Ela percebeu que ele escreveu o sobrenome dela, Peçanha, com ‘s’. Em Portugal talvez. Camilo Pessanha.

— Meu sobrenome está errado. É com cê cedilha. Não vá errar meu orixá.
— Hã?
— Cê cedilha.

Ele parou meio apalermado, com o lápis na mão.
— Como assim?
— Aquele cê com o rabinho em baixo.
— Valha! Eu tô mobral, mobral.

Deu uma risada, se explicou:
— Eu sou do tempo do mobral.

Então jogou os búzios numa tábua pequenina de madeira, interessantíssima, talhada com motivos indígenas. Disse que ela era filha de Iansã com Iemanjá, mas Oxalá apontava um bloqueio, causado pelo encosto de um falecido.
— Desgraçado!
— A criança é muito guerreira, e ajuda todo mundo. Já era para ter conseguido bem mais na vida. Você é boa demais, criança, cuidado. Oxalá fala aqui de muitos obstáculos, é obra deste encosto.
— Acho que sei quem é. Pois quero um banho para afastar este encosto. Ajuda?
— Certo. Ajuda sim.
— Quanto custa?
— Mais cem reais, tirando o jogo.
— Tudo bem.
— Agora pode perguntar o que quiser.

Queria saber de um certo elemento, não falecido, vivíssimo, um eterno encosto em sua vida, de efeito bumerangue. Ia e voltava.
— Olha os búzios aqui dizem que era para vocês estarem juntos. Ele tem ainda muito sentimento. Isso foi obra duma cretina.
— Cretina? Isso é a visão patriarcal.
— Patri o que criança?
(No Brasil até os pais de santo são patriarcais)
— Eu digo, cretino é ele. Ninguém o obrigou a ficar com ela.

Pai Toninho deu uma risada baixinha e ficou calado. Ela lembrou dos selfies diários da cretina para obter curtidas de adoração dos seguidores, quase todos homens. Selfies de costas mostrando o rabo e dando uma olhada insinuante para trás, provocações de ‘mulher poderosa’. E competitiva. Esses tontos patriarcais adoram uma periguete narcisista.
— De certa forma, há uma figura cretina sim. Você tem razão.
— Mas ele ainda tem muito sentimento por você. Podem ainda ficar juntos.
— Oxalá me livre deste sentimento. Deixo ele para a cretina. Para sempre. Posso perguntar de outro?
— Sim.
— Diga o nome e pense nele.
(…)
— Ih esse é muito sensual. Número sete. Muito bom de cama.
— Sim…
— Mas olhe não se meta com ele, criança. Ele é perigoso. Tem várias cretinas. Você pode acabar na delegacia. Coisa de revolver ou faca.
— Ai ai. Deixa quieto. Tô correndo longe de cretinos e cretinas.
— A criança é muito bonita e muito olhada. Mas tá com a ‘áurea’ gasta. Ninguém chega junto. Um banho pode ajudar.
— Quanto custa?
— Mais cem reais. Não é obrigatório.
— Certo.
— Olhe Oxalá diz para ter cuidado também com roubos. A criança é muito distraída. Pode ser assaltada.

Pensou consigo mesmo ‘quase todo mundo nessa cidade já foi’. E ‘isto aqui vai me sair caro’.
— E as amizades?
— Vejo aqui muita inveja em volta da criança. Cuidado com as cretinas do Feicebuqui. O que eu pego aqui de macumba virtual!
— Pode crer!

E assim foi. A conta saiu cara. Muita macumba, encosto, muito mau-olhado acumulado. Saiu de lá dirigindo pela Messejana profunda, uma viagem antropológica pela mais brasileira das profissões, carregando umas garrafinhas de descarrego no banco de trás. Tinha um biquíni no carro, seguiu no sentido da Praia do Futuro, encontrou uma barraca afastada, e tomou primeiro um banho de mar para tirar o ‘caé’. Depois tomou os banhos. Um tinha cheiro de amoníaco misturado com cachaça. O último exalava um cheiro de óleo mineral misturado com ervas e essências baratas. O corpo amoleceu. Parece que o quebranto estava se dissipando. Então foi ficando sonolenta e adormeceu profundamente, sonhando com um amor novo, com um futuro melhor, com outro país.

Virna Teixeira é poeta, tradutora e médica de profissão. Tem livros publicados no Brasil, Portugal, Argentina e México. Vive em Londres, onde edita livros de poesia brasileira contemporânea pela Carnaval Press. Sua última coleção de poemas, Suite 136 (Demônio Negro, 2017) retrata sua experiência trabalhando com pacientes psiquiátricos na Inglaterra. Recentemente começou a escrever micronarrativas e contos.

ilha de edição, de Jorge Ialanji Filholini

Responda rápido. O que vale mais: um filme bom com o final ruim ou um filme ruim com aquele belo final? O produtor é que tem a palavra decisiva. Manda tudo para a ilha de edição. Quem mora em uma ilha de edição? A película queima depressa. Como sabe? Vi num filme. Repita comigo, Rosebud. Como? RO-SE-BUD. Era um trenó? Era apenas um trenó? E ainda chama de clássico. Corta! Corta! Cadê a luz? Não foi paga neste mês. Muitos roteiristas querem filmar, mas não querem escrever. Ninguém consegue viver dentro de um estúdio. Ou você acha que Bogart era galã vinte quatro horas? O banheiro químico do set de filmagem é o mais democrático. Cagam diretores, atores, atrizes, roteiristas, contrarregras e figurantes. Viva, o produtor morreu. Mesmo? Foi achado em cima do dinheiro da bilheteria. O motivo? Engasgou-se com o charuto. Qual o filme da sua vida? Nós que nos amávamos tanto, de 1974, do Scola. Não conheço, tem na Netflix? Chapado de doce, ele me pediu para ler o seu roteiro. Viagem a Marte e alienígenas sugadores de sangue. Rasguei. Refiz e patenteei. Boa história, mas cadê o monstro? Tem que ter monstro. Senão eu fecho o setor de efeitos especiais. Sou fã e quero service, disse a criança ao sair da sessão. Tá vendo aquele Oscar. Ganhei de melhor curta de animação. Sei. Qual o seu ator favorito? Ah, não vale soprar. Fecharam mais três longas com ele. Está em todos os jornais. O motivo? Bateu na esposa. Sou ator do método. Sou atriz de incorporar. Com este cachê sou o que você quiser. Eu prefiro rodar em plano sequência. Tá na moda. Já viu Ben-Hur? Não. Oito e Meio? Nem. O Piano? Nunca. Serpico? Oi? Gritos e Sussurros? Nem faço ideia. E por que raios você quer dirigir o meu filme? A culpa é do crítico de fazer o longa flopar. Qual é a cena da sua vida? A do chafariz. Ela insiste com Godard, Truffaut e Varda. Eu, de verdade, quero ver o filme do Vin Diesel. Sou do tempo em que se baixava pelo Emule. Eu sou do tempo do torrent. Eu sou do tempo em que se faziam bons filmes. Sou do tempo do VHS. Sou do tempo do DVD. Eu sou do tempo em que não tinham esses super-heróis. Eu sou do tempo em que se fumava dentro da sala de cinema. Eu sou do tempo em que a censura cortava as cenas de nudez. Eu sou do tempo em que Tubarão era novidade. O meu tempo vê primeiro no Rotten as notas dos filmes. Se for preto e branco eu não assisto. Estacionamento, vinte reais a hora. Ingressos, trinta reais por pessoa. Pipoca e guaraná, quarenta e nove e noventa. O que viu de bom? Twin Peaks. Quando posso soltar spoilers? Logo depois da sessão? 24 horas depois de assisti-lo? Uma semana depois da estreia? Qual o tamanho do pinto do Hulk? Nossa, isto é muito Black Mirror! Eles estavam mortos? Hello, Sydney! Attica! Attica! Attica! I singing in the rain. Its showtime, folks. Here’s Johnny! I’ll be back. Dave! Dave! Dave!. Sinceramente, querida, eu não dou a mínima. Olha, o seu roteiro é muito bom. Acho que só um filme não é o suficiente. Vamos fazer uma trilogia. Para apresentar melhor o universo daquela história? Pois é, na verdade é mais dinheiro para o estúdio. Quantos filmes de diretoras você assistiu? Quantos filmes LGBT você viu? Quantos filmes de seu país você acompanhou? Este filme tem bons diálogos, excelentes sequências de ação, ótima trilha sonoro. Só tem uma questão: o protagonista tem que ser negro? Duas estrelas? Apenas duas estrelas? Coloquem a cabeça do crítico naquela estaca. Corta! Corta! Pagaram a conta de luz? Ainda não. Sempre teremos Paris. Paris é para amantes, por isto fiquei apenas 35 minutos lá. DeNiro ou Pacino? Kidman ou Roberts? Cruise ou Gere? The Rock ou Vin Diesel? Lee ou MCqueen? E o Oscar vai para. Central do Brasil. Uma cena? Na escadaria da igreja do Senhor do Bonfim. Tá bom, mais uma. A sequência final de Cinema, Aspirinas e Urubus. Eu não vejo mais os filmes do Woody Allen. Mas já viu o novo do Pollanski? Adorei. Me diz um filme que a atriz arrasa? Uma Mulher Fantástica. Tenho em mim todo o sentimento do mundo. Não, para, isso não é filme. Isto sim é uma marmelada. Enlatado americano. Fala de cinema francês, mas só assistiu Amélie Poulain. Mais uma adaptação? Remake? Reboot? Um clássico moderno. Obra-prima do cinema. Um final? Bicho de Sete Cabeças. Não aguento esses filmes coloridos do Almodóvar. Filminho de menina. Olha, esta cena ele criou para causar. Cala a boca e assista. Com quantos metros de filme se faz um filme? Luzes da Cidade. Uma trilha inesquecível? O Guarda-costas. Jedi não tem plural. Somente nos cinemas. Exclusivo nas melhores salas. Eu já te disse, sabre de luz não existe. Corta! Corta! E a luz? Só na semana que vem. Uma expressão ruim? Retomada do cinema. Cena 145: O homem pisando na Lua. Me indica um filme? É de dar medo? Eu não gosto de dublagem. Droga! Merda! Beije a minha bunda. Fodedor de mãe. Ele não acompanha a legenda até o fim. O som do cinema brasileiro é uma merda. O quê? Hollyweed. Inscrições abertas. Eu ainda quero ver o filme do Van-Damme. Zumbis ou ETs? Vai dar uma grande franquia. Meu top dez é. Injustiça ele não levar o prêmio. Liv Ullmann ou Bibi Andersson? Ingrid Thulin. ATENÇÃO, RODANDO CENA. Audição. Você não. Você não. Você não. Você sim. O produtor pediu para colocar a sobrinha dele no núcleo principal. Corta! Corta! Luz. Que luz? Ele tem o talento único. Um quê de Bergman outro quê de Pasolini. Trilogia da Vingança. Trilogia do Anel. Trilogia da Máfia. Trilogia das Cores. Trilogia do Nolan. Trilogia Before. Por que a mulher é sempre a que está em perigo? I wanna be a producer. Uma turminha que irá aprontar tamanha confusão. E os filmes do abusador, como ficam? E as pessoas que ele abusou? Segundo o porta-voz do ator: Retiro sexual. Reconhecimento cinematográfico. Qual será a minha participação disso tudo? Claquete. Cena 153: O tiro no presidente. McLovin. Um bom título. O beijo da mulher-aranha. O meu Tarkovsky é com Y. Esta marca tem que aparecer no filme. Amanhã a gente roda. Corta! Não temos luz. O cachê é muito alto para uma cena de quinze minutos. Não são quinze minutos, são mais de quinze anos de estudos cênicos. Ninguém atende na ilha de edição. Responda rápido: Para onde vai o cinema? A luz! A luz! A luz!

Jorge Ianlanji Filholini é escritor, produtor cultural e editor do site Livre Opinião – Ideias em Debate. É autor do livro Somos mais limpos pela manhã (Selo Demônio Negro), finalista do Prêmio Jabuti. Este conto fará parte de seu próximo livro, Somente nos cinemas, com lançamento previsto para 2019, em que o autor presta uma homenagem aos clássicos da sétima arte.

três piracicabas, conto de Brontops Baruq

(Para Caio)

A primeira Piracicaba conhecemos bem por cima: Foi por balão. Chegamos numa madrugada, a cidade às escuras, o céu clareando. Seguimos as placas que levavam à Universidade, os faróis iluminando a arquitetura imponente. Se havia guardas, eles não nos incomodaram. Imaginamos uma cidade tranquila, daquelas que crianças brincam na rua. O estacionamento ficava bem em frente ao gramado de onde partiríamos. Esperamos dentro do carro tomando mate da garrafa térmica e saindo apenas para fumar. Ouvimos animais, não muito distantes, deviam pertencer à Escola Agrícola.

Logo chegaram as caminhonetes trazendo os equipamentos. Fiodor era o balonista, nós nos conhecemos só ali, tudo fora acordado por cartas, conforme o costume. Dessa vez era um homem maduro, de pele clara, mas com uma barba farta, espessa. Estenderam o balão no gramado como quem estica toalha para piquenique. Esperamos pacientes os eslavos armarem o fogareiro e prepararem o cesto. Procediam de forma cuidadosa, mas com pressa, quase urgência. Essa forma de trabalhar nos deixou alertas, funcionou melhor que o mate. Fiodor veio nos explicar que o voo deveria estar sincronizado com o nascer do sol, depois as condições do vento ficariam progressivamente instáveis.

O balão levantou, um animal colossal e estabanado, preenchido de ar quente. Os eslavos seguravam-no com cordas e gritavam ordens uns para os outros e para nós subirmos logo no cesto. A tensão, a correria, o rugido do gás no fogareiro, os homens tentando conter um animal gigante com cordas, algo ali remetia à King Kong, a uma espécie de perigo fascinante.

(Não sei até que ponto isso é um pleonasmo.)

O voo em si foi tranquilo conforme garantira Fiodor, “É um elevador à deriva, com ascensorista, mas sem portas pantográficas”. O vento nos empurrou da área urbana e de seus moinhos, passamos sobre os cafezais, as pastagens, a ferrovia, as trincheiras cavadas contra os cariocas, as senzalas e as casas grandes. Era silencioso, podíamos ouvir os mugidos, o choro de bebês, o latido dos cães brancos, a buzina de bicicletas e o estalo das chibatas. Era um dia claro de inverno. A paisagem era linda, mesmo quando passamos sobre os mortos e a terra de ninguém.

Fiodor conferiu o relógio de bolso e começou a girar a válvula para começarmos a descer. Já havíamos passado a fronteira, um voo curto, menos de uma hora. Escolheu uma pastagem para “descer”. Instruiu-nos a se segurar da melhor maneira possível, os rebanhos corriam assustados com a enorme criatura a tapar o sol, nós nos sentíamos como pterossauros capturando presas, mas no final caímos, o cesto virou violentamente e sofremos apenas escoriações leves.

* * *

A segunda Piracicaba foi por acaso. Chegamos por rio. Chovia com força, era a estação das chuvas. De longe, vimos os Piracicabanos, usavam chapéus de aba muito larga. Depois viríamos que eram artesãos hábeis na trança de palha. Um dos nossos sofria de febre forte, alguma doença tropical não-catalogada. Avisamos por rádio nossa baixa e a Sociedade nos orientou a seguir para essas coordenadas, uma Piracicaba onde haveria um médico. Mais tarde apenas entendemos a razão de um doutor em local tão inóspito.

Os piracicabanos nos ajudaram a carregar o companheiro doente, usaram uma rede e guarda-chuvas para protegê-lo. Um cachorro latia para nós de longe, abrigado sobre um telhado. Era uma gente rude, indiferente à tempestade que desabava com a força e a regularidade de um chuveiro. As ruas eram um lamaçal e a energia elétrica vinha de um gerador. Um lugar muito pobre, as pessoas nos observavam, desconfiadas, de longe em suas varandas.

O médico que nos atendeu era novamente Fiodor, mas dessa vez usava um tapa-olho, um homem mais novo e mais amargo de tendências alcoólatras. Enquanto aguardávamos o diagnóstico na pequena enfermaria, notamos pequenas ausências esparramadas dentre os nativos que nos auxiliaram, uma falange, uma orelha, um nariz. Estávamos em uma colônia de leprosos.

Fiodor, entre uma baforada e outra de seu cachimbo, nos deu seu prognóstico. Não era nada bom, era a febre caiapó, transmitida por picada de morcego. Realmente, o doente reclamou de uma ferida no nó dos dedos, uma ferida que não cicatrizava. Fiodor explicou que o morcego tem uma saliva anticoagulante para facilitar a extração do sangue. Nosso companheiro arderia em febre e delírios e morreria em três dias, não havia como chegarmos em Santos antes disso.

Entramos em contato com a Sociedade, mas seria impraticável qualquer extração dentro daquele mês. Ficamos alguns dias ali, aguardando sua morte e fazendo anotações para os parentes. Sentimos que era nossa obrigação. Nesse meio tempo fomos conhecendo a cidade… Na prática, pouco mais que uma aldeia. Os casebres eram dispostos de uma forma bastante regular, feito peças de um jogo de damas. Fiodor responsabilizou os missionários por essa disposição. Antes os piracicabanos viviam em uma vila circular, a posição de cada residência definia as relações de família com as do restante do clã e estabelecia a hierarquia dos laços matrimoniais. Pois, originalmente, uma genealogia complexa e difícil de compreender só permitia casamentos entre determinados parentes. Os cristãos só conseguiram impor suas crenças quando perceberam que a aldeia era construída de forma a refletir suas mitologias. O médico admitiu que eles tinham algum acesso à civilização, mas agora o alcoolismo e os suicídios se espalharam. O último padre fora esfaqueado e a Diocese de São Vicente não enviara outro para se responsabilizar pelo leprosário. Enquanto ele nos contava essa história, uma criança trouxe um pequeno pterossauro em uma gaiola, pretendia nos vender.

* * *

A terceira Piracicaba foi por trem e camburão. Mas a documentação fornecida pela Sociedade Real Psicogeográfica estava com problemas nos selos holográficos. Fomos detidos e encaminhados para averiguações no Ministério da Segurança Interna. Era um vagão especial apenas com os detidos na fronteira, além de nós, os demais passageiros eram bolivianos, paraguaios e nordestinos (a maioria de baianos pelo que pudemos averiguar). Através da janela gradeada pudemos ver as torres e os arranha-céus, os drones de segurança perscrutando as avenidas.

Após desembarcarmos na estação, um camburão nos levou até o Ministério. Aguardamos novamente em uma sala simples. Na parede, havia uma sequência de quadros com as figuras de todos os Presidentes da República, um dos nossos reconheceu Mazzaropi. Estávamos cansados de ser levados de lá para cá, feito pedaços de carne. Finalmente fomos atendidos, novamente por Fiodor, um tanto mais calvo e cínico do que das outras vezes. Outro interrogatório, dessa vez coletivo. Felizmente não houve inconsistências em nossos relatos, mas ainda assim havia o problema nos selos de segurança. Dentro das atribuições de seu cargo, ele nos ofereceu uma escolha: um visto de 24 horas, apenas para turismo expresso ou um inquérito de final imprevisível para averiguações.

Sem melhor opção, decidimos topar uma visita rápida. Fiodor nos informou que seríamos acompanhados à distância por vídeo ou fisicamente e que, se não saíssemos à meia-noite, seríamos prontamente presos e expulsos de “Pira”, sem possibilidade de retorno. Deveríamos seguir a rota turística, ficando limitados ao centro praticamente, nada de Taquaral, Glebas ou Jardim Califórnia. E nada de Universidade, nenhum lugar que fosse — ou tivesse sido — foco da Resistência.

É inegável a beleza da cidade, muito limpa e organizada, arborizada e cheia de flores. Estátuas de heróis e fundadores, incluindo uma do General Boldrin esmagando a cabeça de Cavalera sob a pata de seu cavalo. Vimos os parques cheios de crianças, as alamedas com mangueiras alertando sobre o perigo de queda dos frutos (tentamos imaginar como se prevenir contra esse perigo). Conhecemos a Catedral dedicada à Santo Anastácio do Aqueoduto, padroeiro dos mineiros e marujos de submarino. Antes do altar, há um poço e dentro do poço, segundo se diz, é possível ver no reflexo seu verdadeiro amor. Mas só conseguimos ver a nós mesmos.

Poderia ter sido um dia agradável. Porém, paramos em uma Confeitaria para comermos pastéis de Belém. Ao entrarmos, os fregueses interromperam suas conversas. O silêncio fez sobressair o volume do televisor: passava uma cena de King Kong, o gorila enfrentando pterossauros. Decidimos pedir a comida para viagem. A partir desse ponto, não foi possível evitar a paranoia. Sabíamos da constante vigilância, a sombra distante de um drone, as câmeras de rua nos acompanhando pela avenida. Até entre as mães de um parquinho, havia uma estranha fumante, que poderia ser uma agente da polícia secreta. Antecipamos nossa volta. Paramos apenas no cemitério para deixarmos flores a nosso companheiro, morto em todos os paralelos possíveis.

Brontops Baruq, contista de internet e compartilhador de memes, nascido em 73. Após a publicação do relatório de vendas de seu livro, O Grito do Sol sobre a Cabeça (Terracota Editora), desapareceu no Pantanal durante pesquisas para aquele que seria seu segundo livro Capitão Cavalo versus Os Incas Venusianos. Continua desaparecido, esperando alguém notar.

um jogo com espelhos que se deslocam, conto de Thiago dos Santos Nelsis

Ele acordou em sua antiga casa, onde morara durante sua vida inteira. Os sentidos embotados por um misto de ressaca e sono, como quando se desperta sem se deixar, de todo, de sonhar. Olhou o quarto e sentiu-se mais estranho que quando retornara, dias atrás, tendo passado o tempo e os eventos que lhe fizeram outra pessoa. Pensou que fosse aquele quarto uma replicata de seu quarto anterior, pensou que fosse a cidade inteira uma replicata de sua cidade anterior. A mulher que dormia ao seu lado, ao menos, era de todo uma estranha, e por a conhecer tão pouco, era o único componente familiar daquele cenário, e sentiu-se grato, porque assim não era ele uma replicata de seu eu anterior.

A claridade era invasiva e não lhe permitiu voltar a dormir. Pensou na ironia que é refugiar-se das sensações no sono — em como só se pode dormir de fato para escapar da apatia, que é quando não se precisa dormir. A insônia, irmã siamesa da angústia, insuflava-se como uma sede de vida impossível, porque viver é não saber que se vive. Ocupou-se de pequenos remorsos cuja origem nem pudera recordar, enquanto as horas estendiam-se vagarosas, indiferentes como dois olhos de estátua.

Lembrou-se, metaforizando a apatia do tempo para com os inquietos, do sonho que tivera em suas poucas horas de sono: repetia-se a noite anterior tal como fora em simetria robótica; exceto pelo fato de todos os rostos amigos terem-se substituído, no sonho, por rostos de mármore. As risadas, as conversas sobre nostalgia e os êxtases de cada momento eram reproduzidos detrás de marmóreas máscaras brancas, impecavelmente iguais. Pensou na vida humana como isto: um baile de máscaras, cujas faces não se revelam jamais.

A mulher ao seu lado dormia indiferente aos seus pensamentos e angústias, em seu sono que ele não poderia acompanhar. Agradeceu novamente ao acaso por ser sua companheira uma estranha com quem poucas palavras trocara, já ao final da noite anterior. Confortou-se na ideia de que não se pode mascarar o desconhecido, pois ainda não se tentou lhe olhar a face. O tempo, em sua estaticidade, já não o martirizava após ter encontrado esses pensamentos, de que se esqueceria durante as semanas por vir.

Semanas passaram-se até que voltasse a lembrar, mas então com tormento ao invés de amparo, do sonho que tivera e das conclusões que sua lembrança trouxera. Percebeu que em tantos momentos derradeiros de sua vida sua própria máscara o guiara através dos eventos que compuseram sua existência toda. Era sua vida um labirinto, e assim o era porque assim a tinha guiado, perdendo-se em suas próprias mentiras, em busca de uma verdade impossível. Pensou na irrevogabilidade do tempo, cujas passadas forçam decisões irreversíveis a cada instante, mas nem sempre com o alento da inconsciência… o sonho repetiu-se, na noite seguinte, com o acréscimo da frase dita por um narrador amorfo ao seu final:

“Não existem remorsos para os pecados secretos.”

Lembrou-se da frase e, acordando, não encontrou forças para levantar-se, revirando-se, não achou sono que lhe acalentasse. Os pensamentos desconexos, inconclusivos e paranoides eram-lhe a única fuga ante o poder fulminante da lucidez trazida pelas memórias e sonhos que o perseguiram nesses eventos descritos. O espelho torcido de sua percepção deslocava-se a lhe refletir monstruosas deformidades existenciais. Somente após o meio-dia, ainda sem comer, ainda em desvario, agarrou um pedaço de papel onde riscou apressadamente os seguintes versos:

É somente ao despertar que nos ferem
Os sonhos. Quando validados pela
Verdade que a Consciência lhes confere,
Enchendo-nos os martírios de pena…

Eu, que na vida andara sempre a esmo,
Vi-me refletido na alma do mundo!
Este borrão de perfídia, imundo,
Jaz sob as máscaras de cada enfermo…

Sou eu também lépido, como vós!
Sou-lhes a mesquinharia que imito,
E cada crime oculto jaz em nós.

Na garganta em que repousa o grito
E fenece, debilmente adestrado,
Degluto o terror que haveis Mascarado.

Isso dito, os dias voltaram à sua corriqueira monotonia, em que a domesticidade dos afazeres e preocupações da vida diária permitem pouco espaço para a reflexão, se esta trouxer angústia. Os versos postos naquele papel acabaram perdidos como outros tantos, que, se lidos fossem, encontrariam incompreensão e indiferença — tal como encontram os homens e as mulheres que escrevem e que não escrevem versos. Os sonhos foram sonhados, a vida foi vivida, até que, passando, se perdesse, como se perdem todas as coisas, seja pelo tempo, pela morte ou pela indiferença…

Thiago dos Santos Nelsis é oficial de justiça, pós-graduado em Direito Público e Processo Civil, autor de Brinde Noturno e Outros Poemas (2012) e Mecânica (2018), e membro da Academia Uruguaianense de Letras. Coorganizou eventos literários, foi colaborador do jornal Tribuna de Uruguaiana e apresentador do programa semanal Balcão Cultural na Rádio São Miguel AM 880.