trecho de ‘a pedra’

Um romance de Yuri Pires (Editora Lote 42).

— MEU FILHO, já lhe contei sobre Zé Onça, que pelejou com coronel Manoel Cavalcanti? Pois escute: Zé Onça era o cangaceiro mais temido dessa região e não ficava devendo nada aos cangaceiro mais famoso. A ruindade dele era conhecida daqui até a beira do cais, e dizem que ele já tinha feito um ataque a um quartel na capital. Pois bem, numa tarde de janeiro, lá pelos anos da construção da barragem de São Serapião do Vale Verde, quente que só a mulesta, começou a se espalhar a notícia de que Zé Onça tava na região. Era assim que ele chegava. Primeiro a notícia, depois ele, depois o rastro. Pois nesse tempo eu era moça lá em Santa Cruz do Riachão e nada sabia disso, só no que pensava era no namoro escondido que tinha com teu avô e na fuga que a gente tava planejando. Pai tinha dinheiro, era dos Cavalcantis, primo de Manoel Cavalcanti, foi da parte dele que tu puxou esse cabelo loiro. Ele não queria o casamento da filha mais nova dele com um nego da terra, muito menos com um nego da terra que era comunista. Comunista mesmo, de carteirinha e tudo mais. Eu não tinha tino pra entender dessas coisas, mas achava era bonita as bestage que ele dizia sobre o mundo, o sonho que tinha de conhecer a Rússia, a revolta dele contra os coronéis, inclusive contra o primo de meu pai e, por tabela, contra meu pai também. O problema era que, naquela época, um comunista era mais raro que uma Kelvinator branca, e teu avô já tava ficando conhecido na região, e corria a notícia de que Manoel Cavalcanti tinha feito um pacto com a polícia pra prender ele. Tinha botado capanga atrás dele, dado vantagem pra quem pegasse, botado prêmio na cabeça do pobre. Pensa que ele ficava com medo? Nada. Teu avô era brabo que só. Se escondeu, vinha me visitar na calada da noite, pelo meio da mata, se livrando dos espinho no meio do mundo. Pois bem, nessa época, numa das noites que eu esperava teu avô por detrás da casa de meu pai, eu vi. Só uma lamparina acesa pra uns quarenta cabras, de onde eu tava dava pra ver direitinho os rifle, os parabelo, tudo em alerta. Era o bando de Zé Onça, e eu torcendo pra teu avô faltar ao encontro. Já pensou se eles trombam com ele pelo meio do caminho? Oxe, dava certo não. Teu avô tava lascado. Apois teu avô não veio. Não porque tivesse faltado de propósito, num sabe? Alguma coisa aconteceu, tenho certeza. Eu voltei pra casa alvoroçada, nem podia contar que tinha visto o bando de Zé Onça no sítio de meu pai, senão iam saber que eu tava na mata no meio da noite. Que desculpa eu ia dar? No meu tempo, meu filho, moça direita não saía da casa do pai depois de escurecer não. Então, aí eu voltei pela janela do meu quarto, me cobri dos pés à cabeça e fiquei lá, encolhida, respirando toda resfolegada. E quedê dormir? Amanheceu e eu não consegui dormir, pelando de medo. Aí foi que a notícia chegou: Zé Onça tinha entrado em Santa Cruz do Riachão e se apossado da prefeitura e do hospital. Parece que tinha um cabra dele doente e ele obrigou o médico a tratar do infeliz. Até aí, nada diferente das história que a gente já tinha ouvido, até porque Zé Onça era coisa que dava e passava, vinha, voltava e vinha de novo, e nessa peleja ficava até desparecer quando a volante se aquartelava na cidade. Mas e Mané Cavalcanti queria deixar por isso mesmo? Queria nada. Santa Cruz tinha dono, não era terra de ninguém não. Mandou chamar meu pai, meus tios, queria juntar os capanga de cada um e expulsar o cangaceiro dali. Aí fizero o conselho, decidiro que iam chegar no hospital de surpresa e tocaiar Zé Onça matando tudo quanto era de capanga. Ia ser uma matança pra ser lembrada por séculos, ninguém devia se meter a besta nas terra dos Cavalcantis. Deus sabe que eu pedi a meu pai prele não se meter nessa matança, porque podia morrer gente inocente, mas ele ligou? Ligou nada. Disse que era assim mesmo, que se livrasse o povo, que se esperasse para evacuar o hospital, Zé Onça percebia a tocaia e fugia. Eu sei que foi bala. Foi bala pra não dever a guerra nenhuma, nem daqui nem do estrangeiro. Zé Onça nera besta não, tinha botado um cangaceiro de olho na estrada. Aí quando cercaro o hospital, Zé Onça já tava preparado e deu o primeiro ataque: só nas primeira bala já matou uns dez capangas de Mané Cavalcanti. Todo mundo da cidade corria pro meio do mato. Eu não sabia nada disso, vivia no sítio de meu pai, soube muito tempo depois. Mas fiquei nervosa. Fiquei tão nervosa que botei pra vomitar e caí de cama enjoada. Minha mãe, quando viu, não teve dúvida, porque mulher experiente sabe dessas coisa pelo cheiro: eu tava era prenha. Eita, que minha mãe ficou nervosa, disse que meu pai ia me matar, ia caçar o cabra que tinha me feito o mal. Mas eu disse quem tinha sido? Não teve quem fizesse. Por mais que minha mãe perguntasse, dissesse que se fosse um homem de família a gente podia casar antes deu botar menino, quisso podia me salvar e salvar a criança, mas eu sabia que não era assim. Não era, porque teu avô era nego da terra e comunista. Ia morrer ele, eu e a criança. A criança era tua mãe, e se eu não tivesse feito o que fiz, tu não tava aqui pra ouvir essa história. Mas o cerco a Zé Onça já durava três dias e de lá meu pai não voltava nem mandava notícia. A gente sabia pelos caminhantes da estrada. Diziam que o cerco tava difícil, que Zé Onça se defendia bem, que o armazém de Chico ficava bem atrás do hospital e os cangaceiros conseguiram pegar foi coisa lá, e que a luta ia demorar muito. Vixe, nesse meio tempo eu melhorei, mas minha mãe sabia que nada passava despercebido de meu pai naquele sítio. Alguém ia contar pra ele, e ele, que não era abestalhado nesses assuntos de mulher, ia logo desconfiar e, com um pouco de esforço, descobria que era menino e que era com teu avô. Eu não queria nem pensar nisso. Mas pensava. Hora após hora, minuto após minuto. Foi quando tua bisa teve a ideia: ia me mandar pra casa da irmã dela, em Lemuri. Lemuri, naquela época, era distrito de Santa Cruz e só tinha uns sitiozinhos. A casa da irmã dela, minha tia Augusta, era essa mesminha casa em que moramos agora. Como ela não podia ter menino, me adotou como filha e obrigou o marido a me aceitar prenha. Contaro pra todo mundo daqui que eu era viúva, que meu marido tinha morrido na briga com Zé Onça. Eu era mesmo que uma empregada pra eles, mas eu já tava muito satisfeita de não tá morta. A única coisa que me doía era não ter conseguido deixar nenhum recado pra teu avô, cuja cara nunca mais vi na vida.

Yuri Pires nasceu em 1986 na cidade do Recife, em Pernambuco. Cursou História na UFRPE — Universidade Federal Rural de Pernambuco. É autor dos livros O Homem e o Seu Tempo (2014), Fábrica de Heróis (2015) e Artifício (2016).

O lançamento em São Paulo é hoje à noite na Banca Tatuí. Saiba mais no link: http://bit.ly/banca_tatui

da porta, de dentro

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Com precisão

Vila do Sossego, Zé Ramalho

Sonhei com isso agora há pouco
Você não consegue dormir, mesmo que queira. Não existe sonífero no mundo que faça fechar os olhos. Você fica em estado de vigília constante, esperando que tudo tenha sido um pesadelo. A certeza de que não é aparece pelo resto do mundo dizendo que não foi. Todos os olhares de pena e palavras de consolação cansam, você precisa de remédios pra aguentar tudo. E mesmo tomando aqueles que fariam dormir, esquecer, estes não têm efeito. Somatiza a perda em dores de cabeça, pontadas no peito, maus-jeitos nas costas e nos braços, o que pode ser efeito das noites insones, mas você não atribui uma coisa à outra. Claro que no meio de todas as circunstâncias acima, existe, primeiro e corriqueiro sentimento, a vingança, a vontade de tomar a si a atribuição de justiçar. Coisa que não é atributo só teu, são de todos vocês. Vocês que foram privados da presença deles, do riso, da alegria inerente de quem tem só por ser genitor. Existe a vontade mas não há forças pra ir atrás, empreender caçada, nem protestos ou pedidos junto à autoridade — que eram insistentes nos primeiros dias — continuaram após certo tempo. Um que outro ainda peregrina da delegacia ao promotor, e deste ao juiz, há ainda o delegado, mas depois de um entregar ao seguinte e esclarecer suas responsabilidades, as solicitações, os mandos de que se “faça justiça” acabam ganhando uma gaveta, um armário de onde só conseguem saída com os mais insistentes, os que não conseguem acreditar, iguais a você, ser tudo real. Não fosse ter sido vítima a atriz, o caso seria esquecido por completo. E ainda existe a questão de saber se o encontro do(s) culpado(s) trará o que você almeja. Certamente não. Não é punição o que você deseja de fato. O que você deseja não te será dado, não nesta vida. Então fica o embate entre o conformismo e a indignação, mas nenhum resultado positivo e oposto a um destes restitui aquele ser. Dentro da casa vocês são fantasmas, não sabe se o outro compartilha o mesmo que você, pois não falam mais como antes depois do acontecido, o que faz pensar que o vínculo com aquela pequena criatura era o que ainda os unia. Tornaram-se desconhecidos depois do enterro. A dor pode ser a mesma atingindo cada um com impactos diferentes. Então o que resta é ficar observando aqui do alto, desta janela. Ficar olhando lá pra baixo, pro colégio que a criança frequentava, esperar que ela venha sorrindo feliz cruzando a rua e subindo pelo elevador, pelas escadas, ou que espere você descer pra buscá-la, dar um abraço cuidadoso pra não machucar e beijar as maçãs do rosto com todo o carinho e afeto possíveis. Resta essa ilusão, como tantas outras. E mesmo que você dormisse, sonhasse que estava tudo bem, que nada do que aconteceu, aconteceu, não seria pior? O que torna uma situação pior, pior? Assim, melhor contar mais um dia que você não a tem, e enquanto vê crianças saindo do colégio lá embaixo, pede que algum deus prive seus pais da mesma pena, no idêntico segundo achando que se houvesse algum deus, de fato, nem teria razão de existir tal pedido.

A nu
A menina foi encontrada como as outras. Como todos eles. Foram meninas, meninos, idades entre cinco e dezessete anos, possuindo similaridade nos corpos: as crianças e adolescentes masculinos e femininos geralmente magros, nos últimos os seios quase inexistentes como se fossem corpos dos garotos; os corpos dos adolescentes esguios, como as garotas, quase sem pelos. Tinham em comum — além dos ferimentos perfuro-cortantes (causados por uma faca, um estilete, um facão? nem a perícia tem certezas) — isto: quase sem pelos. Criaturas recém descobrindo a perversidade do mundo. Descobrindo e já esgotadas por tal saber. As meninas e moças, meninos e moços, todos foram estuprados. Os cadáveres foram localizados desovados em vários pontos da cidade — no lixão, num beco, numa obra abandonada ou não, nesse caso em horários em que não haviam testemunhas. Cruzamos os pontos de descarte pra ver se havia uma espécie de padrão, ou então se os locais estavam próximos um do outro; nada foi revelado nesse sentido. Trabalhar com tais tipos de crimes é foda. Foda no sentido ruim, claro. Não sou pai mas eu vejo a dor deles. Dá pena, muita pena mesmo. Desafiariam a nu muitos cães raivosos pra não serem privados dos filhos, fariam o que fosse preciso. Sabe, todos esses anos só me deram uma certeza: o ser humano não nasceu pra ser bom, apenas aprende a ser, mas a maldita da nossa natureza é tendenciosa ao ocaso, nosso e de quem nos rodeia. Tudo que é belo destruímos. Vivemos numa falsa felicidade, guiados por crendices de alegria que criamos, na maioria das vezes, convenientemente. Enquanto não filosofo, investigo. Fumo e tomo café com as fotos dos corpos espalhadas na mesa. Algumas bocas estão abertas em gritos audíveis só a mim.

A paz dura pouco
Existe uma falsidade inerente em crianças atrizes/atores. Mesmo ouvindo elas falarem fora do texto decorado, parecem que sempre estão atuando com frases previamente escritas. É o caso de Julieta. Seus pais gostavam tanto da peça que escolher um nome ao rebento não foi tarefa difícil. Se fosse menino seria Romeu. Julieta começou fazendo pontas em comerciais de lojas locais da cidade natal, depois a mãe decidiu colocá-la em uma agência de publicidade com sede na capital que tratou de providenciar propagandas de lojas e outros estabelecimentos conhecidos em nível estadual e nacional, com gravações, na maioria das vezes, também na capital. Na metrópole foi, após alguns testes, indicada a fazer mais testes em emissoras grandes de televisão, dos quais, ao ser aprovada, após viagens ao Rio, São Paulo e Minas Gerais, catapultou-a ao papel da filha da protagonista da novela das dez de uma delas. No país inteiro então, por cerca de dez meses, sua fofura auxiliada pelos olhos claros em heterocromia e teatralidade indisfarçadamente falsa, atribuída à sua infantilidade, dominou as tevês no horário. Depois do primeiro sucesso, a menina continuou fazendo outras novelas, um seriado e diversas propagandas, mas, como dito no início, a um analista prevenido todos os papéis, frases e atuações se resumiam a ser o que em público refletia em entrevistas. Não se dissociavam mais a vida artística da real, pela diferença de que na última ela mantinha os estudos escolares. Até que.

Vinde a mim
Da janela. Observo da janela, aqui do alto. Existe um colégio lá embaixo e quando dá quinze pras doze venho até o parapeito e miro pra lá, na direção daquelas crianças e adolescentes saindo. Consigo averiguar cada laço nos cabelos, cada tiara, cada sorriso bocó de cada figura vulnerável. Fito suas mochilas com motivos cartunísticos televisivos, suas roupas compradas com desapego e ao mesmo tempo com toda aflição financeira de dinheiro-que-nunca-chega dos seus pais ou responsáveis. Anoto mentalmente seus trejeitos, o jeito acriançado nos rapagões de quinze ou dezesseis anos e a seriedade pura nas crianças de cinco ou seis. Aguardo quando um(a) deles(as) subirá pelas escadas ou pelo elevador, trazido(a) por mim ou pelo Destino e quando tudo mudará. Pra mim e pra ele(a). Fico contente. Fico contente em poder alterar rumos tão desinteressantes.

Andrei Ribas é autor dos livros O monstro (2007), Animais loucos, suspeitos ou lascivos (2013) e Cada amanhecer me dá um soco (Bestiário, 2016). Possui trabalhos reproduzidos nas revistas eletrônicas brasileiras Plural, Flaubert, R.Nott, Pessoa, mallarmargens, 7faces, Subversa, entre outras publicações. Escreveu resenhas e críticas literárias para os sites Amálgama e Homo Literatus.

aramaico, meu amor

É uma merda mas dá pra publicar, ele disse, logo depois de girar a chave e puxar o freio de mão, resolvi não responder mas ele arrebatou, Não é nada, me desculpa, eu li e é uma merda; fiz questão de não responder e me concentrei em olhar para a rua praticamente deserta no frame que formava o para-brisa do carro, Não fica assim, a literatura é difícil mesmo, muita gente boa já escreveu muita coisa ruim, acontece, ele disse, puxando um cigarro e abrindo o vidro da porta até a metade, Outra coisa, o teu personagem é contraditório ao revés, sabe? não sabia mas resolvi calar, me fixei no detalhe em prata do porta-luvas e comecei a arranhar de leve com a unha do indicador, Sujar um texto com sobras conscientemente é uma coisa, o teu personagem é um lavador de pratos, nunca leu um livro e parece que saiu de algum protótipo melhorado do google tradutor, sabe? ele tragava o cigarro como se faltasse o ar e como lembrava um porco na frente da direção, um porco fumante, a camisa enterrada na cintura de propósito e a calça jeans justa para parecer mais novo, Escrever em português é uma merda, o negócio é escrever em inglês, meio caminho andado, ninguém lê em português, Portugal é o cu da Europa, e o Brasil é quase o pulmão do Graciliano Ramos, aqui ou em qualquer lugar, tá todo mundo cagando; me restringi a pensar que se soubesse aramaico poderia mandar ele tomar no cu e baixei completamente o vidro da porta com o intuito de agilizar o processo para caso vomitasse, arregalei os olhos e assenti com a cabeça uma vez, Não gosto nada dessa ideia de ter que publicar esses babacas pra poder vender alguma coisa, e não acredito na redenção da arte, tu acredita? achei melhor responder que sim porque gostaria de ser artista quando tinha dezessete anos, mas calei ao fazer um movimento rápido com o pescoço que mais pareceu um não, Demorei alguns anos pra descobrir mas o que importa mesmo é o dinheiro, o resto é groselha, tenho muitos amigos escritores e artistas e não sei qual é o mais babaca, tudo uns baba ovo do caralho que nunca lavaram uma louça na vida e ficam de filhadaputice de ah a vida é foda é foda demais, sou especial demais pra viver e pra piorar acabam com pena de pobre e com a gengiva inflamada sem nem conseguir sair de casa, é foda; o cigarro já tinha acabado e ele se recostou no assento com as mãos entrelaçadas atrás da banco, Mas meu, olha só, não te preocupa, vou te publicar, só queria que tu soubesse de antemão que a literatura não muda o mundo, sabe? ele tinha uma barba rala e grisalha que lembrava um javali, e, na bochecha, uma pinta oval e gorda; de relance, dei uma olhada no pau dele, baixei a cabeça e abri o facebook no celular, ele ameaçou soltar um espirro mas se segurou na porta a tempo; e eu arrisquei, quer subir?

Tateei até a porta do apartamento e depois de abrir com dificuldade entrevi o corredor escuro, bati com a canela na primeira caixa esquecida mas encontrei a luz com relativa facilidade, Bonito apartamento, ele disse, olhando ao redor; agora já era nítida a extensão dos ombros acobertados pelo blazer cinza de botão aberto e a ostensiva barriga modelada pela camisa xadrez vermelha e preta; fui até a cozinha e ofereci alguma coisa para beber, Vinho, ele disse, respondi que não tinha vinho e caminhei até o quarto com metade de uma garrafa de uísque; tomei um golaço de cara feia e sentei na cama de pernas cruzadas, ele demorou mas me seguiu, acendi a luz do abajur, Sabe, nem te estressa, a literatura é importante, mas não é mais do que consertar sapatos ou limpar o chão de uma biblioteca, ele disse, num tom beirando o toscamente risível enquanto olhava minhas roupas espalhadas e os poucos livros atirados no chão; ofereci uísque e pedi pra ele sentar do meu lado, ele não respondeu e se abaixou em direção aos livros; imaginei o sorriso amarelo e empertigado por detrás da bunda minúscula, Esse aqui do Tchekhov é uma tradução do francês, ele disse, virando o rosto e abrindo um sorriso de dentes infantilmente brancos; me deu as cotas, de cócoras, e continuou mexendo nos livros, o pescoço quase inexistente; dei mais uma bicada no uísque, larguei a garrafa ao pé da cama e avancei na direção dos ombros largos de javali, pus meus braços ao redor do pescoço massudo e enfiei as mãos até encontrar o peito mole e peludo por debaixo da camisa afundada na cintura, Que merda é essa, velho, porra, não sou viado; ele se desvencilhou e num empurrão másculo me atirou na cama; soltei uma gargalhada gutural e deslizei os braços cansados para trás sentido a seda acolchoada na palma da mão, Olha, tudo bem, entendo, só preciso ir, não sabia que tu era, ele disse, com certo enrubescimento; pode ir, a porta é ali, disse, olhando pro teto, Olha, me liga amanhã e a gente conversa sobre o livro, é um bom livro, não vamos perder ele assim; não consegui esperar o javali terminar de falar e dei um pulo no pescoço, enlacei as orelhas com as mãos e fechei os olhos, a barriga não permitia uma aproximação sem que eu levantasse os pés e o empurrei pra parede da porta do banheiro; beijei o pescoço enquanto alisava o pau pequeno, me come forte, disse, ele não respondeu ofegante, me come, me come forte, ele tentou se esquivar mas consegui tascar um beijo na boca adocicada e senti o gostinho de tabaco até então controlado por aquela conversa de merda; ele puxou minha cintura com força e apertou minha costela com raiva enquanto rasgava minha camiseta favorita; ainda tive tempo de sussurrar isso, assim e caí na cama por cima do porco suado — ele me comeu, comeu por uma hora sem camisinha e perguntou seguidas vezes se eu tava gostando, se era isso que eu queria; me limitei a mirar a cabeceira da cama de alumínio fino e assentir uma ou outra vez com a cabeça; era um mistura de javali com porco, e eu só pensava na redenção da literatura e na madrugada de São Paulo.

Gustavo Rosa tem 24 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta e tradutor.

álcool & nicotina

Mário e Marion namoraram dois anos antes de se casar. Moravam em Niterói, trabalhavam no Rio. Ele no Museu da Imagem e do Som, ela no Histórico Nacional. As afinidades começaram aí, pelos museus. Depois descobriram outras: dormir de bruços, cinema novo, Rubem Braga, alho e orégano, meia sem elástico e foto preto e branco foram apenas algumas, serviram bem para o início. Mário e Marion namoraram dois anos antes de se casar. Moravam em Niterói, trabalhavam no Rio. Ele no Museu da Imagem e do Som, ela no Histórico Nacional. As afinidades começaram aí, pelos museus. Depois descobriram outras: dormir de bruços, cinema novo, Rubem Braga, alho e orégano, meia sem elástico e foto preto e branco foram apenas algumas, serviram bem para o início.

Eles se conheceram na barca das seis. Mário perguntou se Marion gostaria que ele segurasse um embrulho da Mesbla que ela carregava, parecia pesado, na hora ele achou. Nem tava muito, não, lembrou Marion tempos depois, foi pra me cantar mesmo.

Destinos cruzados, a pessoa certa na hora certa da vida — eles pensavam — e Mário pediu Marion em namoro bem no meio da Baía, na barca Martin Afonso. Mas não foi assim tão de repente. Demorou uns três meses, entre Niterói e Rio, para que ele se declarasse. O pedido de casamento também foi feito na barca, só que na Vital Brasil, enquanto ela manobrava na Praça XV. Mas aí a situação era mais séria. Marion pediu tempo para pensar. A resposta veio na barca do dia seguinte, a Icarahy.

Marion e Mário não casaram na realidade. Foram morar juntos. Normal, eles acharam, quase todo mundo achou. A família dela ficou meio assim, a avó, para dizer a verdade, mas depois aceitaram, ele era bom rapaz, ela tinha juízo. Essa história de assinar papel, não sei não, pode complicar, Mário dizia. Se não der certo, vai cada um pro seu lado, sem ter antes que passar no juiz, dar dinheiro pra advogado, Marion concordava.

Foram, pois, morar juntos. Ele queria se mudar pro Rio, pro Humaitá, tentar ver a Lagoa esticando o pescoço na janela. Imagina, ela rechaçou, agora que Niterói tem a quarta melhor qualidade de vida do país? Alugaram um quarto e sala no Fonseca.

Um ano se passou feliz, sem a chancela civil. Os dois atravessaram a Baía juntos, superaram o dia a dia. Mais fortes que o tédio, driblaram a rotina. Iam ao cinema, ao teatro, recebiam amigos, jantavam fora. Aproveitaram o dólar estagnado, viajaram pra Disney e ainda estavam pagando a quinta das doze prestações à agência de turismo, quando um dia Mário chegou em casa de saco cheio com alguma coisa que não vinha ao caso. Jogou as chaves em cima da mesa. Marion, na cozinha, pensava no que iriam comer.

Ela foi até a sala e perguntou algo sobre salada de batatas com ou sem salsinha. Mário estava junto ao bar, no canto, preparando um uísque e não respondeu, ou porque não ouviu ou porque não quis. Marion voltou calada à cozinha para tratar das batatas. Conseguiu ouvir a bebida derramada outra vez no copo. Mário preparava a segunda dose. Ela deixou vasilhas em cima da pia e, novamente na sala, sentou-se no braço do sofá. De costas, o marido não percebeu a presença que o fitava incomodada. Você bebe demais, ela comentou num tom de profundo desagrado. Mário se virou, o quê? Na face expressões de enfado e espanto de quem não entende o sentido de certas colocações. É isso mesmo, você bebe demais, insistiu Marion, agora mais convicta. Mário mexeu o gelo com o dedo, virou um gole e ficou segurando o copo, enquanto não lhe vinha à cabeça uma frase com a qual também pudesse recriminar a mulher. Até que encontrou. Bem, e você fuma demais. Com isso estavam quites, na opinião dele. Não para Marion, que acabara de acender um cigarro e, soprando a fumaça, mandou a réplica, muito menos do que você bebe. Mário riu, irritado, só queria ficar calado e agora precisava devolver aquilo. Claro que fuma, vê se eu trabalho ou ando pelo meio da rua com um copo na mão. Virou de costas. E tinha mais, já que ela começou. Entortou o pescoço pro lado, de forma que fosse ouvido melhor. Fora tudo isso, eu não fico bebendo na cama depois de fazer amor, mas você acende um cigarro e polui o quarto inteiro. Marion deu o assunto por encerrado e apagou o cigarro. Acendeu outro cinco minutos depois, antes de tomar banho. Mário ficou na janela, olhando a noite, tomando a quarta dose. Jantaram calados, dormiram sem se falar.

A partir daí, os diálogos encurtaram e o silêncio aumentou entre os dois. Um dia, Mário discutiu no museu, veio calado na barca. Chegou em casa, tomou quatro doses, começou a enrolar a língua e, bêbado, nem tirou a gravata para jantar. Aflita, Marion não perguntava nada. Acendia um cigarro atrás do outro e assim pedia explicação.

Uma nuvem azul pairava sobre a sala. Mário terminou de comer e foi deitar. Não tomou banho, não trocou de roupa, menos ainda deu boa noite. Beijos antes de dormir já não existiam, nem dele, nem dela. Marion arrumou tudo, deitou, apagou a luz. Mário roncava. Ela acendeu um cigarro, enfumaçou o quarto. De tanto tossir, ele acabou acordando. Mas que merda, resmungou, e foi dormir no sofá.

A cena virou chavão: o copo na mão dele, o cigarro entre os dedos dela. Porra, não sabia que eu bebia? Bosta, não sabia que eu fumava? Eram as únicas questões às quais se submetiam. Então, por que casamos? Perguntaram um pro outro, vozes alarmadas, exatamente ao mesmo tempo. Quanto mais crise, mais bebida, mais cigarro.

Enchi o saco da tua língua enrolada, do teu bafo de cana, dos teus vômitos no banheiro, do teu pinto mole por causa dos porres, Marion explodia e puxava tragadas. Cansei dessa fumaça impregnando as paredes, dos teus dentes amarelos, do teu hálito de tártaro, do teu peito rosnando na cama, da tua boca igual a um cinzeiro, Mário devolvia, mexendo o gelo.

Naquela noite, Marion chegou sozinha em casa. Mário não apareceu na estação, no horário de sempre. Pela primeira vez vieram em barcas diferentes desde que se conheceram. Ele apareceu quase duas horas depois e deu com ela na poltrona, cigarro na mão, soprando a fumaça na penumbra. Mário entrou sem dizer nada e preparou uma dose. Copo cheio, encarou Marion, raivoso, via-se nos olhos amortecidos por outras doses na rua. Ela soprou a fumaça na direção do rosto dele e o cinismo foi o troco para o olhar do marido.

Mário virou o copo, bebeu tudo praticamente em um único gole e com um movimento leve matou aquele restinho que fica no fundo, abaixo dos cubos de gelo. Foi para o quarto e trancou a porta. Marion intrigada escutava da sala o barulho do guarda-roupa sendo remexido. Ouviu a janela ser aberta com rispidez e Mário gritando logo em seguida, olha só o que eu estou fazendo com a porra dos teus cigarros. A janela do quarto era colada na da sala, de forma que pôde assistir ao marido destemperado abrir dois pacotes de Minister que ela comprara para estocar no fim de semana. Mário abria cada maço, quebrava um por um dos cigarros e os jogava pela janela, gritando toma, sua tabagista inveterada, olha aqui ó, sua boca de cinzeiro, espia só o que eu tô fazendo, sua acionista da Souza Cruz, vai morrer em paz de câncer no pulmão, vai! Possessa, Marion não teve dúvida, ah é? É isso que você quer então, não é? Amassou o cigarro aceso no cinzeiro e tratou de trancar também a porta de um pequeno hall que ligava a sala ao quarto. Foi até o bar, pegou uma por uma das garrafas de uísque, abriu todas e colocou-as lado a lado no parapeito da janela. Começou também a gritar, olha aqui ó, seu cachaceiro, e berrava para o marido, mostrando uma garrafa de ponta cabeça, todo o conteúdo sendo defenestrado. Olha só o seu Chivas Reagal onde vai parar, agora o Ballantine’s 12 anos, e a edição especial do JB 25 anos, espia só, e despejava todos até a última gota.

Ficaram assim um bom tempo, lançando na noite de Niterói uísque e cigarros estraçalhados. Os vizinhos apareceram nas janelas, juntou gente na calçada, êta mundo bom que chove pinga, comemorou um bêbado lá embaixo, joga aqui tia, mais pra direita, gritava um outro pinguço, abrindo a boca para o alto, manda um maço inteiro desse aí pra nóis, tio, berrava o mendigo da rua.

Terminado o espetáculo, ela dormiu na sala. Fumou ainda os dois últimos cigarros do maço que trazia consigo e que escapou da fúria do marido. Ele dormiu trancado no quarto, depois de virar uma garrafinha de Jack Daniel’s escondida no bolso de um paletó guardado no armário. Talvez tenham chorado, ninguém sabe, eles não disseram.

Só se falaram de novo na semana seguinte, quando um avisou, o caminhão vem aqui às oito pegar minha mudança. Tudo bem, eu só faço questão da poltrona, respondeu o outro.

A última vez que se viram foi na entrega do apartamento ao senhorio. Depois disso, nunca mais.

Nem na barca.

André Giusti é carioca, nasceu em maio de 1968. Mora em Brasília desde 1998. É autor, entre outros, de A solidão do livro emprestado e A liberdade é amarela e conversível (contos, Editora 7Letras), e de Os filmes em que morremos de amor (poesia, lançado recentemente pela Editora Patuá). André Giusti também é jornalista e mantém o site/blog www.andregiusti.com.br.

toques fúnebres clássicos parecem ir com a melancolia metamorfoseando alegria

eu ainda não tinha ido tomar banho e acabara de chegar do trabalho com cheiro de cansaço e suor de um dia todo debaixo dum poderoso sol que torrava qualquer ideia mirabolante que eu tivesse e ainda morava num quarto no fundo da casa duma velha amiga da minha, já falecida, mãe. quando cheguei deitei no gramado de trás da casa olhando para o céu com poucas estrelas, poucas estrelas firmes e brilhantes como um sonho de verão que nunca houvera sido escrito. nos meus diálogos mentais nada vinha além de cocaína e traficantes e até umas piadas de sarcasmo horrível. estava eu com os miolos cozidos. minha roupa suja e dura pesava no meu corpo e com a temperatura da noite baixando eu começava a sentir um frio tremendo de quase bater os queixos, alisava com as mãos os braços grudentos com pó de construção e suor. aquilo tudo como um pasta sobre meus pelos amarelados, tostados pelo sol e a pele vermelha como uma bandeira comunista — dizendo que a foice e o martelo estavam em minhas mãos até pouco tempo atrás. deslizei dentro do quartinho pequeno revirando minhas caixas de roupas buscando uma calça de pano fino e uma camisa qualquer pra vestir, peguei uma cueca e a toalha que estava estendida no encosto duma cadeira.

tomei banho e voltei.

a velha, que era muito próxima a minha mãe, havia-me deixado morar ali por um tempo sem pagar nada — mesmo que eu quisesse pagar —, nada me agradava em ficar ali até porque eu e ela não tínhamos qualquer ligação que não fosse minha mãe, aquilo me deixava consternado comigo mesmo. apesar de tudo, existia um pequeno e velho piano, jogado às baratas mas ainda bom, na parte de trás da casa onde eu geralmente ficava boa parte do tempo que tinha livre. há alguns meses eu havia começado a tocar as teclas do piano, apreciando cada peculiaridade de cada som, de cada nota, de cada trêmulo gesto dum maestro imaginário que eu espelhava num idoso grilhalho com problemas nas mãos e um sorriso de fadiga indizível. depois de um ou dois dias eu havia começado a fazer movimentos usando as duas mãos já, juntas, quase que simultaneamente ainda que saíssem constantemente de sintonia devido ao meu problema motor do lado esquerdo do corpo. meus lábios fremiam a cada nota correta e simultânea e nada podia dar errado quando eu estava debruçado naquele piano corroído por minha sede de música. minha sede por algo que não fosse a miséria da vida de todos, minha própria miséria que era esquecida em cada miserável nota. sentia-me como mozart, sentia-me como brahms, sentia-me como beethoven, só que vivo. eu estava vivo e podia fazer muito mais que já fazia. sim, não era muita coisa, somente dedilhava algo nas teclinhas de marfim e as cordas vibravam e eu não usava os pedais corretamente. nem sabia sequer se os pedais funcionavam, se eles existiam, pra quê eles serviam. e eu não tinha ninguém para me dizer isso.

tudo já era escuro e a velha ouvia o piano tocar erroneamente enquanto tomava seu café, a fumaça cobria toda sua frente e ela soprava aquilo, então, tomava um bom gole do café quase querendo tapar os ouvidos. mas eu continuava lento e depois rápido e rápido e rápido e mais rápido e daí lento, uma peça, uma peça digna dos grandes palcos, diriam para mim VOCÊ ERRA TUDO, NÃO SABE TOCAR e eu diria OLHE O NOME DA PEÇA e apontaria para o cartaz bem acima da minha cabeça e do meu piano que não era meu e todos leriam “sonata para piano desafinado no. 29”, menearia com a cabeça, tudo isso com os dedos ágeis, lentamente e gradativamente ou SUBTAMENTE rápidos. balbuciando minhas tristezas. e eu prometeria não me irritar com as tossidas dos velhos grisalhos da platéia. lá estava eu, cansado depois dum dia de serviço brabo, tocando com os dedos duros as teclas do pianos com o som agudo saindo latejando na minha mente a ideia de ser um pianista. o que me fez lembrar de escritores. o que me fez lembrar de livros. um pianista, eu tinha belas mãos, firmes e grandes, os dedos esguios e longos, como que feitos para deslizar pela pele duma mulher.

fenecendo com o piano meus dias se passaram e tive que arrumar um lugar fora da casa da velha pra viver. fiz isso e acabei por ficar longe do piano. percebia que minhas mãos sentiam total falta de algo como aquele piano para tocar, já que eu não tinha uma mulher para tocá-la eu havia começado a escrever coisas à mão. caneta e papel. mas nada superara as teclas lisas do piano. lisas e sem cor, velhas, como um familiar, era como se o piano estivesse morto e meu sentimento de luto se espandisse por tudo e sequer eu tinha como vê-lo descer no caixão até a sepultura vedada por concreto, com terra e grama por cima e somente uma fotinha na losa ou somente algumas notas talhadas ou pintadas ou as duas coisas.

tempos se passaram, acho que um ano e algum tempo mais. escutei o telefone tocar, estava a uns seis metros do chão em cima dum andaime que oscilava conforme eu me postava sobre ele. o dia era nublado e as cores pareciam todas mortas assim como minhas ideias que não vinham, nada vingava do meu trabalho, nenhum tempo fazia com que meus músculos se desgastassem e eu parecia mais vivo e morto que qualquer pessoa viva ou morta. empulerei-me nos pedaços de ferro dançantes e me jogando de um proutro cheguei ao chão e atendi o telefone.

“pronto!?”

“sr. grol?”

“ele mesmo”

“com pesar comunicamos que sua tia acaba de falecer”

“ana??”

“sim”

“onde ela está?”

“ligamos pra funerária e eles levarão ela, você pode ir até lá pra saber mais”

“tudo bem, mas me diga algo, quem é você?”

desligou.

depois disso tudo se foi como uma folha seca no vento de outono no parque que eu sempre costumava ir para ouvir as mais indignas e silenciosas mensagens minhas para mim mesmo. costumava lá ter as ideias para sons, mesmo sem o piano eu ainda gravava na mente o que cada tecla fazia e depois de um tempo analisando o que ocorria com som quando acionava um dos pedais e depois o outro descobri por fim suas utilidades e assim o som saía como tinha que sair, obviamente que eu não havia parado de errar as notas mas não era uma coisa que não percebia, pelo contrário, depois dum belo tempo passei a fazê-las por gosto. por puro sarcasmo com as coisas limitadas. assim mesmo estava sem o piano para praticar e quando tinha a oportunidade ia até o conservatório e roubava o pouco que podia namorar um piano o qual não me pertencia nem emocionalmente. as coisas eram lindas porém tristes. era como perder o amor da minha vida pelas minhas próprias mãos amadoras.

velei e enterrei titia. no testamento não me deixou nada. sequer o piano corroído e ainda, inutilizado. minhas digitais inda estavam nele pois percebia-se de longe que nunca fora limpado depois que sumi de lá. vi ele pela última vez quando velei-a. passamos a noite em claro, e sozinhos boa parte do tempo. as pessoas abandonaram-a e já que estava morta resolvi tocar um pouco de piano pra ela. comecei a oscilar e depois me lembrei dum pedacinho da primeira sonata de brahms e tentei reproduzí-la. demorei algumas horas e não tinha as partituras, ia somente tateando os sons, as notas me vinham à mente, meus dedos firmes e leves tocavam a parte mais melancólica, lenta, quase sem precisar agilidade, somente ritmo, somente o vento soprando enquanto a lua deitava no céu e se acabava no nascer do sol.

na hora do enterro as pessoas chegavam e íamos saindo todos para enterrá-la. os toques fúnebres dos trompetes diziam que eu também morria.

por mais que não tivesse ficado com o piano fui o último a me despedir. e fiquei ainda olhando pra losa tentando entender qualquer coisa que não me foi permitido. quando eu saí do cemiterio o tempo se abriu como uma mochila de drogas e vi que se lamentar podia ser a coisa mais plausível que me sobrara, porém chorar seria desprezível até pra mim. somente fui embora andando errante, como uma nota ou uma troca de teclas que não aprendi.

* * *

numa noite fria e cruel em que eu fumava meu cigarro e nada mais poderia dar certo bateram à minha porta com violência. por vezes eu escutava batidas mas sempre vinham da minha mente que sempre necessitava achar que alguém procuraria-me para dizer qualquer coisa. meus parentes morriam como um efeito dominó e eu não estava distante do fim, minhas relações fora isso eram tão escassas quanto pessoas vivas. e não preciso nem falar das mulheres. senti o coração dar uma acelerada e daí, então, parar um pouco e voltar ao normal, continuei vivo e sem parada cardíaca. abri a porta e olhei pelo fresto. abri totalmente e deixei entrar. só tinha vindo me entregar um papel. saiu porta afora e fiquei ali encarando aquele papel de carta dobrado, esperei a poeira baixar e abri. uma letra horrível, foi difícil decifrar. então, li. dizia sobre os bens de minha tia, os quais tinham sido doados todos, falava dos quadros e dos instrumentos que tinha. não dizia sobre nada relacionado ao piano pois os instrumentos estavam listados. acabei por nem reparar na cara de quem veio me entregar e esqueci disso por completo. bom, não mudava muita coisa aquilo.

acabei caindo na cama e apagando.

logo cedo batiam à porta com violência novamente. levantei cambaleando e abri a porta escancarando-a, estava somente de cueca e dois caras seguravam um grande piano velho contra o chão. eu via que não era o meu. não era o meu piano velho. que também nem era meu. eles rapidamente jogaram o piano pra dentro e sumiram. assim mesmo, rápido mesmo, como meus dedos. fechei a porta e olhei praquilo.

minhas costas se eriçaram. sentei-me de cuecas num banquinho perfeitamente feito praquele movimento. toquei a mesma sonata de brahms. meu cigarro dançava na boca. a fumaça preenchia tudo à minha frente. os toques pareciam vindos duma casa de madeira.

Anthony Felipe nasceu em Ponta Grossa-PR em 12 de agosto de 1999. Começou a escrever — conscientemente — poemas em 2014, mas, com o tempo, contos e crônicas apareceram subitamente. Um bocado de seus escritos podem ser encontrados em www.carvedinit.blogspot.com.

osvaldo

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Osvaldo era homem macho. Não reclamava do acaso, nem chorava morte alheia. Dizia que guardava as lágrimas para quando chegasse seu dia. Seguia a vida pelos seus passos. Mas, de todo caso, aquela não era uma morta qualquer. Era esposa de Alberto, amigo de infância, parceiro de negócios. Teria mesmo ele que fazer presença na despedida? Justo ele, que nem dela gostava, sempre pronta a dar-lhe respostas malcriadas, num ciúme doentio a julgar ser ele o ladrão dos momentos em que ausente o marido.

Mulher é bicho teimoso. Quando enfia ideia na caixa lá de cima, não tem quem a tira. Da situação, Alberto é que gostava, pois, assim, mascarada estava a constância da sua farra. Que longe do amigo tudo acontecia. Bem feito pra megera, que se achava, pensava Osvaldo, ao tempo em que se retrucava: “Mas que pensamento mais mesquinho, a esta hora, quando morta a criatura”.

Enterro é coisa chata, o defunto estirado ao centro, rezas, ladainhas e o invariável endeusamento. Nestas horas, ninguém lembra defeito. E Osvaldo, que nem sofria de esquecimento, se questionava: “vou fazer o que naquele enterro?”. Odiava obrigação. Teatro. Dissimulação. Chegou lá com a hora adiantada, no exato momento em que o Padre destacava a dor da família e, principalmente, a de Alberto, já que filhos não tinham alcançado. Pensou o amigo: “Minha avó dizia que em vaso ruim não nasce flor. Mas podia nascer diabinho, puxado no gênio da mãe”. Que horror. Bem sabia que não devia ter ido. Em horas como aquelas, alegrava-se por quase nem ter família: “Sorte a minha, que nem casei. Melhor assim a viver como Alberto, na falsidade do dia a dia, preso a um casamento sem amor, a experimentar o sexo com tantas quantas lhe ofereciam o calor”.

E eis que, cerrada a cova, floreada a lápide, choros, prantos, velas e Alberto a fingir sua dor, vem Aninha, a prima do interior, pedir licença para ler carta que a alma que se ia, escreveu ainda em vida, pedindo que fosse lida, em público e em seu último momento de luz:

Aos que aqui vieram, para minha despedida, e que cercam meu corpo, onde por certo nem mais estou, revelo: Alberto, homem bom, trabalhador, que de mim cuidou e a mim manteve-se fiel, sem nunca me dar um motivo sequer de desconfiança, merece todo meu respeito. Ainda assim, devo admitir que fraquejei ante aos encantos da carne. E agora, quando tudo é vencido e não me obrigam os segredos sociais, posso enfim confessar: dentro de mim queimava um desejo incontrolável por Osvaldo. Ah como fui ciumenta doentia, com relação a Osvaldo. Pensava eu, a todo instante, por que com Alberto passava ele tantas horas, a matar-me de inveja? Sei que minha morte terá como causa doença do corpo, espalhada pela dor que se instalou no meu coração. Ah Alberto, quantas noites sem você, distante a trabalhar, me perdi em fantasias de amor com Osvaldo, a fazer com ele as mais criativas orgias que para você não pude dar. Sim, você, homem de família, não sonhava sequer a puta que em mim habitava e nutria por ele os mais devassos desejos. Sim, era por Osvaldo, que eu gemia. Gozava quando em mim ele debruçava um simples olhar. Liberta, agora, dos desejos terrenos que me ligava a ele, seu melhor amigo, posso ser eu sua esposa, completa, ainda que em alma, mas verdadeira e celestial. Porque você, Alberto, é o homem a quem, na presença de Deus, jurei eterno amor.

Ainda bem que silêncio é marcado mesmo pela ausência de palavras, pois impossível descrever o momento. O ódio de Osvaldo por ela ganhou força: “A vaca, até morta, é porca”. Desfeita a vida dela, não contente, arruinou os negócios e a amizade de Osvaldo e Alberto. E este passou de garanhão a corno e, de súbito, assumiu posição de vítima, marido perfeito, homem de respeito.

Terminada a carta, Osvaldo secou, por dentro, todo choro que havia muito guardava e que, naquela hora, jorrou em lágrimas, molhando-o em prantos.

Chegando atrasado ao evento inesperado, colega de trabalho da agora ex-vendedora de sapatos, daqueles que se obrigam a sociais de qualquer sorte, vê, atônito, o choro descontrolado de Osvaldo, a quem consola, em forte abraço, pela viuvez.

Jussara Resende é brasiliense. Graduada em jornalismo e direito, passa os dias a escrever, quando não textos técnicos, por lazer. Ensaios, poemas, crônicas e comentários que divulga em sua página no Facebook. Escritora amadora, no exato sentido da palavra.

baile de máscaras

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate, recebeu o convite em sua casa — um sobrado caindo aos pedaços, localizado num dos piores bairros da cidade —, onde morava com a mãe, velha detestável, manca e diabética. Os olhos do mensageiro não desgrudaram dele, enquanto Zacarias segurava com dedos flácidos o papel:

— Que merda é essa?

— Esteja lá às oito em ponto. Não se atrase.

Um baile de máscaras. Zacarias pegou o terno que acabara de confeccionar para o melhor cliente, a cartola e a bengala que fora de seu pai, e a máscara que ele mesmo, Zacarias, alfaiate, costurara às pressas apenas para o evento. Uma carranca horrenda, parecida com as usadas por pigmeus africanos em rituais de feitiçaria.

— Que tal?

A mãe tirou os olhos da tevê, mediu o filho e cuspiu de lado.

— Você está a cara do prefeito — foi a única observação que ela, criatura odiosa, fez, antes de voltar a enfiar os olhos na tela prateada. A velha havia cuspido de lado porque não gostava do prefeito.

Ao chegar ao baile Zacarias percebeu que tudo não passava de uma armadilha.

— Você será enforcado, canalha dos infernos! Como tem coragem de aparecer aqui depois do que fez?

— Eu não fiz nada. Fui convidado. Deixem-me em paz.

Dezenas de máscaras o cercaram:

— Facínora!

— Assassino!

Quem regia a saraivada de insultos era justamente o prefeito, que por coincidência também se chamava Zacarias Sepúlveda Bezerra. Além disso Zacarias Sepúlveda Bezerra, prefeito, usava uma máscara que lembrava bastante o rosto de Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate.

— Tragam uma corda. De hoje esse sujeito não passa.

Havia muitos homônimos no salão, visto que todos os presentes, exceto os do sexo feminino, se chamavam Zacarias Sepúlveda Bezerra.

O prefeito com cara de alfaiate tinha violentado e estrangulado, no seu gabinete, um garoto de doze anos. Por isso o alfaiate com cara de prefeito estava sendo levado, contra sua vontade, até uma forca montada de uma hora pra outra no fundo do salão.

— Me soltem. Vão tomar no cu!

O alfaiate esperneou e distribuiu sopapos a torto e a direito. A multidão mascarada afastou-se por um instante, depois engolfou-o:

— Maníaco! Sodomita!

No chão coberto de confete e serpentina, a cartola, a bengala e o convite um pouco amarrotado.

— Meeeeee sol… teeeeeem…

Enforcaram-no. O corpo, já sem ânimo nem cor, ainda estrebuchou durante três ou quatro segundos. Quando a máscara caiu, todos viram que não era Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate, mas sua mãe.

— Escapou mais uma vez, o depravado.

Atiraram a velha pela janela e deram prosseguimento ao baile, que, apesar dos dois linchamentos posteriores, ambos transmitidos ao vivo pela tevê, não foi tão espetacular quanto os bailes do carnaval passado, em que o número de justiçados e de crianças violentadas havia sido bem maior.

Nelson de Oliveira é escritor e doutor em Letras pela USP, muito cedo percebeu que a literatura é o local ideal para o exercício da liberdade. Incapaz de ser um só, desdobrou-se em outros três autores: o poeta Valerio Oliveira, o desenhista Teo Adorno e o ficcionista Luiz Bras.