psicose

Nunca fui de confiar em gente sem pescoço, mas aquele era o único sujeito disposto a levar-me a um bairro tão próximo — no taxímetro dava menos de quinze reais e os motoristas que rondam a rodoviária costumam idealizar longas idas à zona sul, dando-se ao luxo de desprezar as corridas até o centro.

Ao abrir a porta traseira, reparei que estas poderiam ser mantidas trancadas pelo motorista. Prevendo um possível risco, deixei a mochila no banco de trás e sentei-me na frente. Era melhor mesmo estar perto, caso fosse necessário entrar em um combate corpo a corpo. Desde que entrou no carro, desleixado, sem nem colocar o cinto, fiquei de olhos nos movimentos daquele sujeito mal encarado, meio corcunda para o lado direito — o que deixava o lado esquerdo um pouco abaixado, de barba e bigode por fazer, com um daqueles chapéus que não sei dizer se é uma boina ou um boné sem aba.

Durante o trajeto, tentei ficar em silêncio, mas, após alguns minutos, ele puxou conversa. Com um grunhido emburrado, tentei puxar de volta, mas ele insistiu, achando que eu não tinha entendido, e eu cedi. Acabamos trocando duas ou três frases decoradas sobre a violência na cidade — no dia anterior haviam roubado um cara da TV e deu em tudo que é jornal, os bandidos não respeitavam mais ninguém. Apesar da conversa, eu ficava atento a cada mudança de marcha, quase me precipitei a impedi-lo quando ele foi pegar o rádio para entrar em contato com a central.

Após meu engano, fiquei relaxado por alguns momentos. No entanto, ao olhar pela janela, percebi que estávamos passando por um viaduto pelo qual não deveríamos passar — ao menos não pelo caminho que eu costumava fazer. Em um primeiro momento, cerrei os punhos e contraí cada músculo do corpo, pensei que ainda podíamos tomar o rumo certo, quem sabe cortando por trás do Passeio, ou pela Tiradentes. Mas foi então que ele começou a desacelerar, em pleno viaduto, local desconhecido e perigoso, afastado das ruas mais movimentadas. Eu precisava ser rápido, utilizando as armas que tivesse no momento — que se resumiam a uma caneta esferográfica e um pacote de balas de menta. Em um movimento, tirei a caneta do bolso, apertei-a contra o pescoço do safado e ordenei que acelerasse. Surpreendido em pleno pulo, ele começou a acelerar e tentou retrucar, disse-me que tinha família e que só estava tentando ganhar a vida. Não me deixei levar por aquele choro falso. Além do mais, para cima de mim é que ele não a ganharia. Ao alcançar quase cem por hora, puxei o volante para o meu lado, com toda a força possível.

O carro bateu no muro de contenção — por muita sorte não caiu do viaduto — e ainda girou duas ou três vezes antes de ser atingido pelo carro que vinha logo atrás. Eu, que estava de cinto, saí praticamente ileso. O pilantra, no entanto, que já devia estar de tocaia, pronto para me aplicar algum de seus golpes, morreu na hora, dizem que quebrou o pescoço com o impacto no volante. Eu duvido muito, aquele bandido nem tinha pescoço.

Rodrigo Domit nasceu no Paraná e é radicado em Santa Catarina, coautor do livro Vem cá que eu te conto (2010) e autor do livro Colcha de Retalhos (2011). Teve contos e poemas publicados em coletâneas no Brasil, Portugal e Alemanha. Edita o blog Concursos Literários, no qual são divulgados certames literários de todo o Brasil, de Portugal e de outros países lusófonos.

a perversidade do injusto

João.

Um nome simples, comum. Ele imaginava que teriam sido exatamente esses os motivos para que seus pais lhe chamassem assim: para pouparem a eles mesmos o trabalho de pensar em um nome marcante, de significado, que contasse histórias. Provavelmente fora o primeiro nome que veio à cabeça de seus progenitores. João e só. Nem um sobrenome igualmente comum. Ao menos, ele não se lembrava.

Aliás, vai saber se foram mesmo os seus pais quem lhe chamaram João?! Supunha isso instintivamente, mas não se lembrava de seus pais. Acontece que, desde que “se dava por gente”, simplesmente acostumou-se a ter tal nome.

João estava morando há um ano em uma lata de lixo, na cidade de Vitória, no Espírito Santo. Já não se incomodava mais com o cheiro. E os lixeiros não levavam as suas coisas embora porque passaram a conhecê-lo.

E, mesmo quando ele se ajeitava – ou se arrumava – o melhor que podia, e saía em um passeio pela sobrevivência, as pessoas, curiosamente, pensava ele, além da tradicional indiferença e asco, tinham-lhe também medo. Medo! Era esse o fator que mais entristecia João: ele jamais cogitara fazer mal a alguém.

João era negro.

E um dia, em um dia de atrevimento – todos nós temos algum dia em nossas vidas em que o hormônio da adrenalina esteja eufórico, quem sabe, e então nos tornamos prazerosamente ousados. O que é que tem, afinal?

João não era desses. Mas resolve ser por um dia. E experimentar. Era um dia dentro de si que sentia sede de descobertas boas! Então, ele se permite. Afinal, sempre via os outros homens fazendo o mesmo…

Uma mulher passa, toda bonitinha. E ele assobia.

Instantes depois, João é violentamente morto.

Ela era branca. Ele, mendigo.

Caroline Fortunato, 21, é estudante de Letras na FFLCH/ USP, colunista no site Obvious, contista em revistas, como a Labirinto Literário, e tem um livro publicado de forma independente pela Ed. Livrorama.

alma pisada cheira a cachorro molhado

A pele do pescoço não chora, retorce, os olhos miúdos, a carne trêmula e medrosa, um quadro-negro pintado a sangue, a seiva da morte escorrendo, renegada, pelo nariz. A vida aconteceu de surpresa, o cair da tarde, a rua lotada, o corpo, esganado no beco. Não amanheceu ainda. Ele estava lá. Trocaram afagos, afetos, gemidos. Ela, numa fala brusca e inesperada disse eu te amo. É claro que a boca não nega o que o coração sente, não mente, está cheio. Ele disse também, num gesto de aconchego, que amor é coisa de gente rica, bem feita, eu não tenho tempo pra paixão não. Ele não quis saber, sabe? Abaixou a cabeça. Não havia começo, então não haveria o fim e nem a desolação futura. Eu não posso fazer isso contigo, tá me ouvindo? De tão apaixonado e violento, o amor acabou por desunir o que nunca fora enlaçado, recolheu os cacos, as imprudências, chorou no colo da mãe, meteu o mundo nos bolsos e renegou o destino das coisas. A gente não entende, perde o sono, e aquela vontade louca de ser dono das palavras, mudar o rumo das coisas, enxergar o lado bom e inócuo na escuridão que cobre o céu de São Paulo, a solidão que dói no peito, onde mora quem nos ama e nos perdoa, e perdoa também as nossas falhas, as falhas que nem Deus poderia medir um dia e até mesmo, numa tarde, tranquilo, tomar o gosto por esquecê-las. O rosto dela, eu me lembro, era doce, tinha a juventude que engana os deveres, a triste alegria nos olhos, o medo, o tempo. Eu neguei a ela o meu tempo, dei o que tinha de pior na raça humana, a incredulidade, a ganância dos sentidos. Minha mão vermelha, pele rosada, calos à vista, os dedos tortos e o medo na cara lavada. Joguei a pedra, escondi minha mão, minha vergonha. Quando apertei seu pescoço, carne doce e dura, ouvi as músicas tocarem na minha cabeça, a minha loucura de menino, de louco varrido, cheiro de cachorro sujo molhado, a pressa em pagar as prestações do carro, a vida que não aceita palavras como moeda de troca, nem poesia, nem nada, que violenta a nossa boca infame de sonhador, e eu sonhando e buscando o gosto na solidão, no amor das putas, me desculpa, o rádio que não toca a nossa música, esqueceu, e as coisas e os ossos assim, tão frágeis, tão fracos, de vidro.
Meu bem, não tenho culpa, te juro,
depois eu te conto como faço para esconder seu corpo,
jogar da marquise,
voltar pra casa,
tomar um banho,
esticar os meus pés,
minha alma pisada.

Luiz Henrique Moreira Soares é graduando em Letras-Inglês pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Campus de Jacarezinho. Apaixonado por cinema, música e literatura brasileira contemporânea. Contato: luizhsoares83@gmail.com

o treinamento

Domingo. Jornal. Caderno de Empregos. A maioria dos anúncios pede envio de curriculum através de caixa postal: que droga! Ops, um salva a pátria.

Segunda. Acorda cedo, faz a barba e sonha: “homem entre 21 e 50 anos”… cai como uma luva. Três xícaras de café… esquece a fruta. Dois cigarros além e lá foi perder-se no meio da multidão.

— Por favor… só um instante… aceita um cafezinho? Estremece: “vendas, não, por favor!” Sala apertada. Diante do poster vociferando oito qualidades de um campeão, aguarda.

O sexagenário recrutador, com simpatia estudada, apoiado nas cãs, inicia: metalúrgica, fabricante de filtros purificadores de água, 17 anos no mercado, mais de 300 escritórios comerciais, exportando atualmente para 28 países…

— Começamos produzindo 180 unidades/dia. Hoje vendemos 30.000/mês. São vários modelos, todos aprovados em testes rigorosíssimos. O modelo mais recente, Ecologic Line, é a joia da coroa… O povo gosta, vocês sabem, nome estrangeiro chama atenção. Este aparelho é um sofisticado sistema de três filtros à base de carvão ativado. Fornece água gelada, natural e saudavelmente fresca. Demos um de presente ao padre Marcelo no programa da Hebe. Posso dizer que a nossa água, além de pura, agora é benta! Aplausos. Risos. Apupos.

Conclui afirmando a solidez do grupo, a competitividade do produto (marca sinônimo de qualidade), exibe um vídeo no qual é mostrado o processo produtivo e comercial. Uma frase pontifica o epílogo: Empresa 100% brasileira! E o locutor complementa: A serviço da saúde!

Um assistente aproveita a deixa e enumera a melhor parte.

— De acordo com o desempenho individual a ser observado durante treinamento de quatro dias, qualquer um de vocês, mesmo sem experiência, pode vir a integrar o quadro de TLMKT ativo/receptivo da empresa, com todos os benefícios decorrentes: VT, VR, SV, CN, AM… Além do fixo em carteira, comissões variáveis entre 10 a 15% dependendo do produto, mais bônus semanal àqueles que completarem a cota.

Feitas as contas, viu que os olhos do rapaz ao lado estouraram nas órbitas.

— A aquisição do purificador é automática, pois é notória a impropriedade da água que consumimos.

Outro assistente saca as provas de uma pasta estufada com recortes, panfletos, reportagens de inúmeros jornais denunciando a contaminação dos rios e a falência do sistema de tratamento de água.

— Este material deverá ser utilizado por vocês como parte do arsenal técnico para um bem sucedido fechamento de contrato.

Alguma coisa o morde por dentro… não controla o impulso.

— O que a empresa tem feito em relação à conservação dos mananciais?

Só então percebe que havia perdido uma boa oportunidade de ficar com a boca fechada.

— Isto não nos compete. Pagamos impostos altíssimos. É claro que cada um de nós é responsável mas… o que fazer? A vida é dura mas é a vida e o ser humano é, por natureza, destruidor. E nós, profissionais, temos que sobreviver, não é verdade?

Uma mocinha levanta o dedo: “Posso vender para alguém da família?” O rapaz de pele lustrosa e empapuçadinho responde que não mas que gostaria de saber o telefone do parente. Risos. Palmas. Apupos.

Silêncio. Quem falou? … A esposa enxugando as mãos em um pano de prato: “Quando é que você vai tomar juízo?”

Paulo Laurindo já foi ator, calculista e contador. Hoje pesquisa o mercado. Publica em www.certoscontosincertos.blogspot.com

os pés de sartre

Era a terceira vez que eu acordava às cinco da manhã e saia por ai. Essa merda estava me matando. Meu cardiologista disse que não passaria dos trinta naquele ritmo. Disse que precisava me movimentar. Sair de casa. Tomar um ar. Escolhi a manhã. Era a terceira vez. Enquanto observava as velhas de calças coladas e olhos fundos, o sol se levantava. Aos poucos, seus raios revelavam a tristeza da cidade. Homens calvos, cansados, curvados para a direita, esboçavam um trote militar. Eu andava na beira do lago e pensava que merda eu estava fazendo com a minha vida.

Quando estava na metade do caminho, ele chegou. Era preto. Quatro portas. Nada se via aqui de fora. Vinha em alta velocidade. Aproximava-se das velhas. Dentro, quatro jovens. Um deles, com óculos de armações grossas, roliço. Esse me espantou. Seus olhos eram tão esbugalhados que, ao se fixarem em mim, pensei que iam rolar até os meus calcanhares. O barulho que o veículo fazia contrastava com o silencio aqui fora, na beira do lago. Eu andava. O carro estava mais próximo. Olhei de lado, os jovens sorriam. Exceto o dos olhos. Ele era calado. Seus olhos alcançavam longe. Mais cinquenta metros e o carro estava rente aos meus ombros. Lado a lado.

Vi Sartre. Mais ou menos. Eram cinco da manhã. Esfreguei os olhos. O carro parou. Os jovens desceram. Parei também. Menos Sartre. Ele continuou imóvel, implacável, com seus olhos a me observar. Como um caminhão de pedregulhos tombando no vidro, eles começaram a fazer barulhos. Ruídos.

Filho da puta. O que você está fazendo? Seu desgraçado. Pode parar com isso agora! Está correndo por quê? Gritavam.

As velhas deram um pulo, correram na direção contrária. Os calvos saltaram os olhos. Sussurros invadiram o ar. Silêncio. Quando olhei pra trás, não havia mais ninguém. Só eu, três homens e o Sartre. Eles não pararam de gritar. Começaram a correr. Tentei escapar. Nem duzentos metros adiante eles me alcançaram.

Levaram-me ao chão com três pontapés. Caí. Cada um se ocupou de um membro. O braço esquerdo balançava ao ar. Livre.

Levaram-me até os pés de Sartre. Ele calçava umas botinas desgastadas, sujas de lama. Impassível. Caí a seus pés. Os pés de Sartre. Meio inconsciente. Eram cinco da manhã e eu estava na frente de Sartre, na beira do lago. Nada me dizia.

A existência precede a essência. Lembrei. Tentei abrir os olhos. Não consegui. Era como um castigo. Pensei. Lógico que Sartre não estava realmente ali. Eram só quatro adolescentes drogados voltando de alguma festa. Um deles trazia consigo um óculos de armações grossas.

Aquele carro. Aqueles gritos. O que eu estou fazendo com a minha vida? Foi meu cardiologista que disse. Sussurrei. Foi ele quem mandou, Sartre. Jamais faria isso com a minha liberdade. Suar. Às cinco da manhã na companhia de velhos mais enrugados que papel cuspido.

Me dá um cigarro, Sartre? Vou pra casa. Vou beber o último gole de vinho que sobrou da última ressaca. Vou ligar pra ela. Me ajuda, Sartre? Eles riam. Os três, menos Sartre. Eu sei que riam.

Seu merda. Seu merda. Diziam.

[…]

O carro cantou pneu. O Sartre se foi com aqueles adolescentes. Tinha um resto de vinho lá em casa. Eram cinco da manhã. Eu iria faltar no cardiologista na próxima consulta. Eu era jovem, pouco tempo me restava.

Danilo Brandão nasceu em São Paulo e mora em Londrina, interior do Paraná. É estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Tem textos publicados em sites, revistas e jornais literários.

ata da assembleia

Condomínio Residencial Recanto da Concórdia. Rua do Remanso, 451. Ata da assembleia realizada em 29 de julho do ano corrente de Nosso Senhor. Início às 20 horas. A partir deste momento as assinaturas permaneceram com o número 16. Sendo os presentes e representados por procuração: bloco 8, apartamento 24; bloco 9, apartamentos 41, 73, 74, 93, 121 e 124; bloco 10, apartamentos 24, 33, 74, 82, 102, 103, 112, 113, 124, 162 e 173. O síndico sr. Jair da Silva deu início à assembleia, solicitando aos presentes dois voluntários, um para o cargo de presidente e outro de secretária. Apresentou como presidente o sr. Antônio de Souza, apartamento 41 do bloco 9, e para secretária a sra. Márcia Andrade, do apartamento 74 do bloco 10. O sr. Antônio de Souza fez a leitura do edital da assembleia, com os assuntos: item 1, candidatos à brigada de incêndio; item 2, assuntos de interesse gerais; item 3, aprovação da taxa de reajuste condominial. Do item 1, a lista de candidatos à brigadista de incêndio fica aberta para inscrições na portaria. Do item 2, o síndico sr. Jair da Silva fez breve narrativa sobre o episódio ocorrido por ocasião de um problema nos elevadores do bloco 9, gerando a parada deles, e ofensas que recebeu do morador do apartamento 184 do bloco 9. Assim, abre aspas, por volta das 22 horas do dia 11 de março do ano corrente de Nosso Senhor, o sr. Júlio Sebastião Bonfim foi à portaria e passou a ofender moralmente o síndico para os funcionários. Depois o sr. Júlio parou em frente ao bloco 10 e arremessou um objeto metálico em direção à porta de vidro, que não se quebrou, ato que pode ser visto nas filmagens das câmeras de vídeo. O sr. Júlio, então, começou a gritar, usando as mãos na boca para servir de megafone, que o síndico era ladrão e vagabundo, e muito provavelmente comunista e filho da puta. Gritou ainda que era síndico de merda, pequeno ditador salafrário, e que iria quebrar a cara daquele velho nojento. O ato foi presenciado por inúmeros moradores do Condomínio Residencial Recanto da Concórdia e por seus funcionários, fecha aspas. O síndico sr. Jair da Silva informou que já entrou com os processos contra o sr. Júlio Sebastião Bonfim. Enviou-se notificação extrajudicial por meio de assessoria jurídica, como também notitia criminis requerida na 76ª delegacia de polícia, ação indenizatória de danos morais na 14ª vara cível do foro da Vila do Remanso e ação criminal no mesmo foro. O sr. síndico fez colocação sobre a nova jornada de trabalho da funcionária Cristina, que passa a auxiliar a equipe administrativa no escritório. A funcionária Cristina fica, portanto, incumbida de solicitar aos proprietários dos apartamentos o número do CPF para constar no boleto da taxa condominial. Houve recusas. Sendo assim, aos proprietários que se recusaram será solicitada certidão do imóvel no 171º registro da capital e a taxa para tirar este documento será cobrada do proprietário. O sr. síndico informou sobre o alvará para a poda das árvores, aprovada pela prefeitura. Também explicou o aumento do valor do IPTU. E, por fim, relatou sobre a quantidade de pontas de cigarros arremessadas pelas janelas do bloco 10 e sobre o vandalismo que está ocorrendo no bloco 9, em que restos de drogas e vidros quebrados foram encontrados na escadaria. Passará circular e se os problemas persistirem câmeras novas serão instaladas. Dando sequência, o sr. Aluísio Teixeira, subsíndico do bloco 10, explicou os valores da planilha de gastos do condomínio. Também foi informado o desligamento de dois funcionários. O sr. Aluísio Teixeira colocou três opções de reajuste da taxa e rateios para pagamento do 13º salário dos funcionários. A conselheira sra. Guiomar Alves analisou detalhadamente a planilha e os valores. A segunda opção colocada pelo sr. Aluísio Teixeira foi a aprovada por todos os presentes. O síndico sr. Jair da Silva observou, porém, que: caso os valores não sejam suficientes para a rescisão dos contratos dos dois funcionários desligados recentemente, será marcada nova assembleia geral extraordinária para aprovação de rateio complementar. Nada mais a ser discutido na presente assembleia, encerrou-se a reunião às 23 horas. Assinaram a ata a secretária sra. Márcia Andrade, o presidente sr. Antônio de Souza e o síndico sr. Jair da Silva.

Amanda Sorrentino é carioca, formada em cinema e editora do gueto. Contato: ama.sorrentino@gmail.com

a encomenda

“Damos sepultura, sem pompa, à ultima rosa desse verão chuvoso.”
Juan Carlos Onetti

O serviço tinha sido feito. Tudo correra como ele havia previsto e da maneira requisitada. O local, ele mesmo havia escolhido, no alto daquela montanha. Ele passou as costas das mãos na testa para enxugar o suor. Depois de fitar demoradamente o líquido que escorria de sua mão úmida, pensou que estava tudo arranjado. Agora, era apenas uma questão de tempo e de espera, conforme o plano.

Lembrou disso no terceiro mês, em que, sentado na varanda do chalé, observava mais uma vez as gotículas de suor na mão direita. Do topo onde estava situado, ele pode rememorar diversas vezes o caminho percorrido antes. Dali ele também podia observar as árvores altas que marcavam a localização exata. Em noites de lua cheia, quando o céu ficava iluminado, o espectro das araucárias parecia dominar e se impor sobre o horizonte recortado das montanhas. Era o espectro daquele lugar.

Nesses dias, ele suspirava e pensava no tempo que faltava para que eles viessem. O prazo acertado havia sido cinco meses. Nem mais nem menos. Era o tempo necessário para que ninguém desconfiasse.

Pela primeira vez na vida, após trinta e dois anos, ele tinha tempo para refletir. Essa era, por sinal, a razão do suor constante na testa, cujo início de calvície tornava ainda mais brilhosa. No começo, antes da série de acidentes que o levaram até ali, ele não havia encarado a espera naquele lugar ermo como uma dificuldade. Todas as suas energias estavam voltadas para o ato. Uma vez realizado, todo o restante lhe parecia fácil.

Agora, ele estava sentado, barbudo, vestido apenas com uma camisa fina branca e uma bermuda, na beirada do chalé, suando abundantemente. Tinha o olhar perdido dos que ficam muito tempo a mirar montanhas.

No quarto mês ele já havia decorado, nos mínimos detalhes, todas as nuances do caminho que separava o topo onde estava do outro lado, de onde havia partido no dia fatídico. Esse quarto mês estava sendo o mais difícil, pois ele sabia que logo tudo estava perto de terminar, e a sensação de que algo pudesse sair errado tornava a espera ainda mais insuportável.

Foi na última semana que uma forte neblina nunca vista antes começou a tomar conta de tudo. Ele ficou angustiado de não poder ver mais os pinheiros que demarcavam a cena do acontecido. O encontro havia sido combinado para acontecer no chalé, e, em seguida, iriam juntos até o local.

Aquilo começou na segunda e continuou se estendendo pelo resto da semana. Seu maior medo era que a neblina impedisse a chegada dos outros. Ele próprio não conseguia enxergar um palmo à frente. Os dias se sucediam com poucas diferenças entre manhã e tarde. À noite, aquilo tudo se entrevava como se fosse o final dos tempos e mesmo a lua, tão brilhante nos dias anteriores, havia desaparecido por completo, como se tragada pelo monstro cuja respiração tornava tudo ao redor nebuloso.

No quinto dia, exasperado, e já com toda a paciência esgotada pelos meses sozinho no esconderijo, resolveu voltar ao lugar de onde partira quase cinco meses antes.

Deixou o chalé e, lentamente, começou a descer, tropeçando e parando a cada passo. Agora, era seu corpo inteiro que suava, como se numa sauna, ao contato com o ar molhado. Mais de uma vez ele caiu e se levantou; numa dessas quedas, esfolou o joelho.

Depois começou a subida, que pareceu durar uma eternidade, parando de vez em quando para descansar. Guiava-se pelo instinto e pela memória, tentando reconhecer em cada pedra à beira do caminho, em cada árvore que encontrava pela frente, um sinal capaz de orientá-lo na direção correta.

Ao cabo de algumas horas, alcançou o outro lado da serra, quando começara a escurecer, e percebeu que calculara errado o tempo de sua saída. Sem conseguir enxergar mais nada, ficou parado, estático. Sentia o ar gelado e escutava os múltiplos ruídos da noite o envolver. Depois, traído pelo cansaço, deixou-se tombar ali mesmo, no meio da relva e das hortênsias que cresciam por toda parte.

Os primeiros raios do sol o despertaram. Olhou com surpresa para o firmamento: a neblina havia se dissipado quase que totalmente. Girou o corpo, olhando ao redor, para observar melhor onde estava. Retomou a caminhada, subindo cada vez mais.

Dali a pouco, pôde distinguir as árvores altas e o mato espesso que eram a indicação daquilo que estivera mirando meses a fio de sua cabana, do outro lado da montanha. Inesperadamente, algo o fez gelar. O som das vozes próximas fez com que parasse de repente, o pulso acelerado, em estado de atenção. Foi se acercando cuidadosamente do lugar, tomando todas as precauções para não ser notado.

Protegido pela vegetação, repleta de samambaias nativas, observou o homem com a caneta na mão, que preenchia algum tipo de formulário. Mais adiante, não pôde deixar de ver o corpo, já devidamente enrolado num saco preto de defunto, e quatro ou cinco pessoas em volta, que conversavam entre si, de vez em quando apontando para o pacote preto esparramado no solo, enquanto outro homem colocado mais adiante tentava uma comunicação por rádio.

[…]

Os pés calcavam velozmente e com força o terreno molhado, as pernas esticando-se ao máximo, movimentando todos os tendões. Não sentia mais o joelho esfolado, o cansaço dos dias passados, a difícil subida em meio à escuridão e à neblina.

Tudo que sentia era uma necessidade louca de ir em frente, fugir, correr, escapar. Seus olhos ansiavam pelo momento em que vissem novamente os pés tocando o asfalto. Longe, muito longe, estava a estrada. E então seria a carona no caminhão velho jogando fumaça, queimando óleo diesel, em disparada, e ele agarrado ao banco, na boleia, pisando fundo, no lado do passageiro, e olhando nervosamente o retrovisor.

Lauro Marques é jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Lançou em novembro de 2010, na Casa das Rosas, o livro de poesia Sumário de Incertezas, pela Ed. Confraria do Vento (esgotado). Seu segundo livro, de 2015, Eminências Pardas, foi lançado de forma independente e está disponível na Amazon.