shirley e as batatas, de Leonardo Valente

A batata estava assando. Com o olho esquerdo inchado e roxo, Shirley colocou uma batata, daquelas bem grandes, tipo as de loja de shopping, no forno. Era para o pai. Cozinhou em água e sal, tirou um tampo com a faca, acrescentou azeite, alecrim e outro temperinho especial seu que guardara, e botou para assar em um pirex baratinho de vidro fumê. O pai mandou. O pai estava com fome. O pai havia lhe dado o soco no olho. Shirley obedeceu. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley levou o soco porque foi votar de vermelho, era dia de eleição para presidente. O pai era verde e amarelo. “Viado vagabundo! Tem que levar porrada, tem que morrer, seu filho de puta!”, gritou o pai assim que Shirley chegou. Shirley na carteira ainda era Adolfo, mas operou escondida aos 21 anos pelo SUS, com a ajuda de uma amiga médica. Depois disso, não conseguiu mais emprego e não queria se prostituir. Virou empregada semiescrava do pai pedreiro morador de meia água com parede no emboço em São Gonçalo e que nunca teve dinheiro para pagar uma diarista. Depois do soco, o pai bêbado e furioso gritou “agora vai fazer o almoço, caralho, estou com fome!”. Shirley obedeceu. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley perdeu a mãe quando nasceu, e o irmão mais velho foi morar nos Estados Unidos há cinco anos e nunca mais deu notícia, dizem que também virou pedreiro. Fazia bico de dia como faxineira em casa de semi-madame em rua melhorzinha do seu bairro muito pobre. À noite, cursava escondido Serviço Social na UERJ, viado não podia estudar segundo o pai, e queria se formar aos 26, ano que vem. O pai não sabia o que era Serviço Social, não sabia nem que o viado tinha terminado o Ensino Médio. O pai tinha certeza de que Shirley se prostituía porque chegava tarde todo dia em casa. O pai comeu Shirley à força por três vezes no último mês e pegou todo o dinheiro da carteira dela na noite anterior à eleição. Shirley não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

A batata estava assando. O pai se levantou da poltrona velha de veludo vermelho carcomida pelo tempo e caminhou da sala até a cozinha, uma grudada na outra, com o peito estufado e a empáfia de quem se achava rei daquele monte de tijolos quase expostos e daquele chão mal cimentado, abaixo do nível do riacho vala negra que passava pelos fundos e que enchia a casa de esgoto de tempos em tempos. Caminhou de camiseta branca que ressaltava sua barriga feito bola de futebol só que um pouco maior, e mostrava os pelos do peito meio pretos meio brancos, com gingado malandro e com braços soltos, cabeça um tanto quanto caída de molecagem para a direita, olhar de canalha daqueles olhos já enrugados mas que insistiam em ser de garotão e sorriso de pecado genuíno, de pecado digno do inferno. Caminhou indiferente à goteira insistente do teto de laje infiltrada por causa da falta de telha, goteira entre a sala e a cozinha que formava uma cortininha divisória entre os dois cômodos sem divisão, sem fronteira. Shirley tremia por dentro de frente para a pia, encostada pelo abdômen lavando copo de geleia com marca de café e faca lambuzada de margarina, mas ela só fez o café e não tomou, saiu cedo para votar e sem comer. Tremia discreta de costas para a sala e de frente para a pia pequena e tosca, de mármore do mais barato catado em demolição ali perto, com cano vagabundo de PVC à mostra por baixo que ligava a tubulação ao riacho vala negra, porque água até chegava de vez em quando, uma vez por semana quando muito, mas esgoto não tinha. Olhar compenetrado na tarefa de limpar a mancha de café do copo e de tirar a margarina da faca com o dedo de detergente que ainda tinha na garrafa de plástico, quando a mão direita e suja daquele homem sujo pegou em cheio a sua bunda, apertou com vontade e mistura de raiva, desdém e tesão aquelas carnes saturadas de injeção de silicone líquido, mais perigoso, mais barato e mais fácil de aplicar. “Está pronta esta merda, viado comunista filho da puta?”, urrou o macho alfa cidadão de bem, eleitor de candidato cristão e defensor da família. “Ainda não, está quase”, respondeu Shirley, sem se virar, sem encarar, trêmula e indefesa, com o olho esquerdo dolorido e lacrimejante, o direito também, mesmo sem o soco. “Tira essa merda”, gritou o hétero convicto e que foi dispensado do Exército por ser magro demais quando tinha dezoito anos, mas que venerava o capitão candidato, ao rasgar a blusa vermelha dela de alto a baixo, a começar pela gola. Rasgo que pareceu arrancar o pescoço de tão violento, blusa baratinha e de malha fina que comprou em uma loja de departamentos de um shopping em Alcântara com o dinheiro da faxina, rasgo que a deixou de costas morenas desnudas, com o sutiã à mostra, também baratinho e já desbotado de tanto lavar com sabão ruim, desbotado que não permitia ver a cor original, mas que um dia também fora vermelho. Rasgou, deu as costas e voltou da mesma forma em que foi, com o mesmo jeito patife, para a poltrona carcomida, único móvel da sala além da estante de aglomerado com três bibelôs cafonas e da TV de 29 polegadas com antena interna e que só pegava as emissoras que defendiam com vigor o verde e amarelo. Shirley chorou para dentro, mas continuou a fazer o que estava fazendo e não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

O pai não sabia, mas Shirley era mais verde e mais amarelo de que ele, aquelas cores eram mais suas do que dele, mas ele não deixava, as roubara dela, como roubava o dinheiro da carteira. O pai fazia a vez de bom homem com o pastor nos cultos de sexta na pentecostal da esquina de casa. Shirley não podia entrar na igreja, mas ajudava, sem receber um tostão, crianças em um hospital de câncer no Rio uma vez por semana, porque amava o que fazia e porque precisava de horas complementares e de estágio para se formar. O pai pagava prostitutas quando dava, com o dinheiro do viado ou com o trocado dos bicos que fazia, mas Shirley ainda sonhava em se casar e morar em Niterói, ter dois filhos e trabalhar na profissão que escolheu. O pastor disse para o pai que vermelho era coisa do diabo, de comunista, e que comunista e diabo eram a mesma coisa, e que viado, comunista e diabo também eram a mesma coisa. Disse ainda que o verde e o amarelo iriam acertar as coisas, dar um jeito naquilo tudo, resolver a situação, e que com a situação resolvida, diabo preso no inferno, o dinheiro chegaria, o dinheiro só não vinha porque o diabo não permitia. Quem era do vermelho, insistia o pastor, tinha que aprender levando surra e cano de revolver na goela. O pai gostava do que ouvia, mas como não tinha ainda dinheiro para comprar o revólver com cano para enfiar na goela, dava a surra e enfiava outro cano na goela de cima e na goela de baixo dela, achava justo, tinha o devido respaldo, era coisa do pastor, não do diabo, diabo era o viado. Shirley não sabia de quem tinha mais medo, do pastor ou do pai. Do diabo tinha menos, esse nunca incomodou. O pastor também a molestou meia dúzia de vezes em sessões de exorcismo e descarrego, em que ficava amarrada e sem roupa nos fundos da igreja. O pai sabia e aprovava, o pastor podia, a porra do diabo é que não saía dela, então ele repetia, e ela aceitava, nunca reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

A batata estava assando. Shirley se curvou e quase dobrou com o rasgo violento, deu para ver os contornos das vértebras que sustentavam o corpo franzino, ossinhos frágeis forrados com peles finas e carnes magras; com os braços fez um x instintivo sobre os seios pequenos para protegê-los, braços ainda molhados, um pouco engordurados e com cheiro de detergente. Caminhou cabisbaixa até o minúsculo quartinho também grudado na sala, tudo era grudado nela, onde tinha um armário de duas portas em que guardava sua meia dúzia de mudas de roupa. Quartinho em que cabia o armário, um colchonete forrado com lençol velho e ela. Caminhou ligeira e curvada, submissa e leve nos passos para não chamar a atenção, para não parecer ousadia ou descontentamento, para não exalar afronta. Fechou delicadamente a porta que não fechava direito, empenada porque o pai nada certo fazia, para escolher outra roupa. Olhou no espelho da parede o estrago, que a blusinha vermelha só serviria para pano de chão dali por diante, mas Shirley não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley morria de medo também de andar por sua rua e pelo bairro, a vizinhança toda era verde e amarela por causa do pastor, e o vermelho do diabo reluzia nela mesmo vestida de branco. Foi muita coragem e ousadia ter ido votar de vermelho e com adesivo, certamente estava jurada de surra a pedido do pastor, com certeza o pai aprovaria a medida. O homem de Deus falava e todo mundo obedecia. Parece que tinha um homem de Deus acima daquele, de outra cidade, que falava para aquele do bairro obedecer, e outro ainda acima, que tinha contato direto, não com Deus, mas com o verde e amarelo. Ninguém ali entendia, mas Shirley era vermelho porque sabia quem era e de onde vinha, ninguém ali nada sabia, nem como gerenciar a própria vida, eram rebanho e apenas isso, uns mais, outros menos desgarrados, dentro do limite elástico e convenientemente estabelecido, mas todos rebanho.

A batata estava assando. “Essa porra de comida não está pronta, caralho?” gritou o pai sentado na poltrona de veludo vermelho carcomida, grito de autoridade e de imposição de urgência. Shirley abriu delicadamente a porta do quartinho, mas dessa vez não saiu curvada. De salto alto e rubro, vestido vermelho sangue bem acetinado, o único que tinha e que comprou para um aniversário, e um chapéu vermelho escuro bem antigo e empoeirado, que foi da mãe que nunca conheceu, mas que guardou com zelo por anos; caminhou com altivez, pela primeira vez com nariz em ângulo reto os poucos metros até a cozinha quase cravada na sala, passos com barulho de gente que àquela altura se achava gente. Com uma gaze presa por esparadrapo no olho esquerdo, feito um tapa olho, chapéu levemente caído para o mesmo lado para fazer sombra, desfilou, não andou.

“Deve estar locou, esse filho da puta”, pensou o pai ao acompanhar incrédulo a cena. Shirley se aproximou do forno, abriu e viu que a batata ainda não estava completamente assada, mas a retirou assim mesmo. Colocou-a com prazer e semblante de leveza no prato branco do pai, como quem preparava a refeição de um filho ou de um marido querido, com um prazer que poucas vezes tivera; salpicou mais uma vez o temperinho especial que preparara, complementou com três colheres de arroz do dia anterior que havia deixado no fogão, domingo não tinha carne nem frango, e levou para a sala. Entregou com sorriso escorpiano o almoço ao pai que, esfomeado e sem nove horas, começou a devorá-lo feito um porco, sem pensar, sem sentir. Pouco mais de um minuto depois daquela cena grotesca, daquela alimentação animalesca, veio um engasgo repentino seguido de violenta quentura no rosto e a pergunta:

— O que você colocou nessa comida?

Shirley não reclamou da pergunta, Shirley sempre obedecia, mas Shirley agora não tinha medo. O pai não sabia, mas Shirley também gostava de idiomas, aprendera francês escondida e sozinha, achava glamouroso. Só gente estúpida pensava que vermelho não aprendia. Não era fluente ainda, mas conseguia se comunicar. Resolveu, então, mostrar que sabia e responder no idioma que mais gostava de falar, com o ar blasé, o rosto inclinado para o alto, o olhar desviado daquele ser abjeto e a mão direita sem cheiro de detergente, suavemente encostada no queixo:

Venin!

O pai não entendeu, mas também não precisava. O prato caiu, a vista escureceu, o coração parou de bater e ele não tinha mais nada a compreender, nada que pudesse fazer. A batata assara finalmente.

Leonardo Valente é escritor, jornalista e professor universitário, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, tem um romance publicado, Charlotte Tábua Rasa (2016), e o livro de contos Apoteose (Editora Mondrongo, 2018), obra finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2018. Entre seus originais inéditos destacam-se A procissão, vencedor do Prêmio José de Alencar 2017, e O beijo da Pombagira, romance finalista do Prêmio Rio de Literatura 2016.

a mulher que escorreu pelo ralo, de Gael Rodrigues

Aconteceu na primeira semana de junho. José José chegou em casa no início da noite e cansado jogou-se no sofá. Chamou pela mulher, sua mulher, Valquíria. Não veio. Chamou e chamou e ela não apareceu, muito menos respondeu. Uma dos pequenos passou pela sala e alertou ao pai que a mãe devia estar no banho, era

só reparar no barulho do chuveiro.

Isso não é hora de banho, é hora de me receber

e,

maldição, essa mulher está cada vez mais estranha e cheia de quereres.

Quando ele foi à cozinha notou que não havia nada no fogão, sequer na mesa, e deveria haver jantar pronto porque ele chegava sempre nessa mesma hora cansado e com fome. A calma que era quase nenhuma se esvaiu e ele foi ao banheiro. Bateu na porta.

Cadê o jantar,

perguntou enquanto batia, bateu mais e, como ela continuava sem responder, abriu a porta e perguntou pela última vez, e

essa mulher deve estar surda.

Ele afastou a cortina que cobria o box. Descobriu o chuveiro a molhar coisa alguma, apenas o chão do minúsculo banheiro.

Onde está sua mãe,

exclamou e o pequeno ao lado da pequena apenas mexeu a cabeça, ambos assustados, em frente a porta onde o pai se exaltava. E realmente não sabiam, a mãe estava com eles o dia todo e arrumou toda a casa, brincou um pouco depois que voltaram da escola, foram dizendo sem fôlego ao pai, então

ela entrou no banho e

— Estou aqui.

Eles se voltaram para dentro do banheiro. Ninguém estava lá. A mulher não estava lá. Fora também não estava. O homem, antes nervoso, ficou nervoso e assustado, pensando ouvir espírito mas não, os filhos também buscavam com os olhos a mãe e

— Estou aqui embaixo.

Foram em direção ao box do banho. Ele entendeu o que tinha acontecido: Valquíria havia escorrido pelo ralo.

Sai já daí. Vem fazer o jantar.

— Não vou, não.

E não foi. Não saiu mesmo de dentro daquele ralo. Um insuspeitável ralo de inox como cúmplice. Vez ou outra ele voltava lá e a chamava, mandava que saísse, que

tem seus afazeres, seus deveres,

seus filhos estão à míngua,

eu estou à míngua.

Ela respondia que

— Não vou voltar,

_______________— Estou feliz aqui,

______________________________— Feliz como nunca fui.

Depois de um tempo parou de responder, mas ele sabia que continuava lá: podia ver a fumaça que saía do ralo. Continuava a fumar, e ele odiava que ela fumasse.

Vocês estão dando cigarro para ela?

Os pequenos mexeram a cabeça em negativa. Mexiam-se por medo de falar, e o medo que tinham do pai só aumentava e nem era pouco antes que a mãe escorresse ralo abaixo. Aproveitaram um dia em que ele estava no trabalho, juntaram as coisas, poucas coisas afinal eram crianças, não podiam esquecer os brinquedos e o cigarro que mãe pediu. Entraram no banheiro, giraram o registo, o chuveiro encharcou os dois de mãos dadas e desceram pelo ralo.

Quando o pai chegou em casa, e mais uma vez havia chegado cansado, gritou pelos filhos, exclamando

onde está o jantar,

eram eles agora os responsáveis pela casa, e ao não receber nenhuma resposta, além de cansado ficou irritado. Ao ouvir o chuveiro ligado, novamente sabia o que aconteceu.

A mãe pediu que eles ficassem quietos, enquanto o pai gritava por eles, mas o pequeno não se aguentou e riu, riu-se deveras, e a mãe e a pequena também riram porque rir é um processo osmótico.

O pai xingou todos eles, os maldisse e mandou que eles

saiam daí agora,

agorinha mesmo.

Não saíram.

O tempo passou e José José encolheu-se um pouco, penou um pouco, estar só não era uma coisa que estava acostumado ou preparado ou tivesse aprendido então, resolveu que era hora de conseguir outra mulher para botar em casa.

Botou.

Na primeira semana mal lembrava do nome dela, mas na segunda já sabia que era Lourdes, Lourdes moça nova que morava só com a mãe e não tinha muita opção, então casar com José José era

bom sim, muito bom,

a mãe falou querendo que a filha saísse de casa. Era calada, dessas que falavam pouco por ter conhecido poucas pessoas na vida, a língua pouco usada e treinada. Respondia,

sim,

sim,

e

não

e com pouco tempo na casa passou a responder apenas

sim.

Até que numa madrugada, notando o lado da cama vazia, ele se levantou e ouviu a voz dela. Eram tantas palavras que era como ouvi-la pela primeira vez. Falava, ria, contava confidências, segredos de uma vida sem segredos, e calou-se assim que ele a surpreendeu falando sozinha no banheiro.

Com quem você está falando,

bradou e ela fingiu-se de sonâmbula, falando como louca, olhando para o nada e gesticulando com os braços. Voltou para a cama e José José demorou a acreditar, mas acreditou, afinal aquela mulher, que ele havia esquecido o nome mas era Lourdes, não tinha cérebro o suficiente para fingir-se de louca. Devia ser sonâmbula mesmo, e sonâmbula falante.

Não era.

No outro dia, assim que ele voltou para casa, cansado e dessa vez irritado de véspera, notando a casa vazia e silenciosa, ouviu o chuveiro e nem chamou. Já sabia. Derrubou a porta xingando e esbravejando em direção ao ralo simples de inox e de lá pôde ouvir a risadaria e felicidade que os quatro, sem ele, compartilhavam. Não era possível. Não era possível que aqueles quatro estivessem fazendo isso com ele. Sem ele. Era hora de ele descer naquele ralo e trazê-los de volta.

Tirou as roupas, sem certeza das regras que deveria seguir para escorrer, girou o registro, o chuveiro o encharcou e num instante estava ele, conseguira sim, embaixo do ralo.Olhou para os lados e a escuridão o circundava. Podia ouvir o barulho do chuveiro que lá em cima ainda chuviscava.

Gritou pela primeira mulher. Nada. Depois pelos dois pequenos. Depois pela segunda mulher que ele não lembrava o nome mas era Lourdes. Nada. Não havia ninguém embaixo do ralo. A água que caía de cima parou de cair. Alguém havia desligado o chuveiro.

Ei,

ele gritou fraco quase deixando de ser grito,

quem está aí.

Ninguém respondeu, mas ele conseguia ouvir um riso, riso que de início tentou se conter, do pequeno, o pequeno que não precisava mais se conter. Logo depois os quatro riam, em cima, longe dele. Continuou gritando, e gritando, grito transmutado em pedido chamando eles. Antes que ficasse rouco, os risos pararam. Viu os últimos segundos de luminosidade quando taparam o ralo.

Ninguém mais escorreu.

Gael Rodrigues nasceu bode na Paraíba, e hoje metamorfoseado em homem vive em São Paulo. Seu livro Terra Laranja venceu os Prêmios Literários 2017 da Fundação Cultural do Pará como melhor romance. O infantojuvenil A menina que engoliu o céu estrelado foi finalista dos prêmios CEPE 2017 e Barco a Vapor 2018.

tijolo baiano, de Ricardo Novais

Uma garoinha fina caía gélida sobre os telhados desiguais e aleatórios do bairro. A rua, de um asfalto molhado e torto, era íngreme. Aquele bairro de pedreiros, de periferia, tão desassistido em suas construções engenhosas, era monitorado pela cobiça das pálpebras descarnadas.

César chegou em casa e beijou as filhas, a mais velha de três anos e a mais novinha contando alguns meses. Também beijou e abraçou a esposa; e foi à porta de casa tomar cerveja com o amigo Bicudo, um velho colega servente de pedreiro nas obras de alvenaria dos bairros mais elegantes. Os homens da periferia constroem os sonhos dos barões longe da construção de suas próprias casas.

A cerveja barata estocada no muro de uma calçada vulgar, numa esquina sem inspiração da rua íngreme. Entornaram oito garrafas. Depois viraram dois xotes de pinga, pinga feita em indústria cafajeste.

— Bicudo, vou entrar pra casa, cara. Já estou meio chapadão… E amanhã vou levar as meninas no shopping com a patroa…

— Porra, bicho! Deixa de ser bicha, carai!

Entornaram mais duas ampolas. A hora ia longe, o tempo passa mais rápido na periferia. Cada vinte minutos em um bairro suburbano equivale a uma hora e três vidas de uma circunvizinhança elegante.

De repente, parou um carro na esquina. Desceu um homem e foi para cima do Bicudo. César, que era baiano e leal, interviu a acudir o amigo. Outro homem apareceu e o empurrou, ele se desequilibrou e bateu a cabeça na guia. Caiu inconsciente como uma demolição de casa velha quando a especulação imobiliária quer criar sonhos mais sofisticados.

Não pense o leitor que César estava morto, os homens que nascem na Bahia demoram mais para entrar nas estatísticas; embora a estatística teime em formar nuvem pesada sobre o céu dos subúrbios. Começou uma confusão. Vizinhos, tão apressados como juízes extrajudiciais, levantaram as orelhas cheias de cera, sopesaram na velocidade de um post do Facebook e correram à briga. César seguia caído, desacordado, entre a calçada áspera de cimento batido e o asfalto molhado; não havia sangue na superfície, mas via-se uma luz branca no meio da escuridão. Era o relógio de César sendo retirado do pulso, depois foi-se o celular e a carteira.

Um magistrado comum de rede social monocrática chegou, analisou o caso, julgou e sentenciou: Pisou na cabeça de César. Pisou com força, com raiva, por certo, com um ódio tão fútil como a corrente prateada que utilizava pendurada no pescoço. Depois o homem pulou sobre a cabeça de César, chutou-lhe a fronte, os olhos, a boca, o estomago, o tórax. Chegou mais gente, todos julgadores monocráticos, embora emitissem aresto em colegiado. Por fim, chamaram a polícia. Veio uma ambulância com a sirene desligada como se já estive em luto. A mãe de César foi avisada do motim. Chegou a velha e viu o filho baiano derrubado vomitando sangue, com os olhos inchados, pálpebras arroxeadas. Irrefletido como a mente de seus julgadores. Estado de inconsciência.

No hospital público, na mesma periferia próxima, César deu entrada na UTI. Ficou no hospital por uma semana completa, sem sair da UTI, com um trauma no crânio, tubos por todos os pontos do corpo e uma infecção hospitalar que vingou em uma grave pneumonia.

Era traumatismo craniano, doutor leitor clínico geral e doutora leitora cirurgiã; e lesões por várias partes do corpo e coágulos internos sérios. O estado clínico era grave, gravíssimo! César morreu.

No IML, não havia dinheiro para o funeral. Sabe-se que a construção civil remunera o operário com meia colher de pedreiro. Um amigo da família, ligado à política e mestre de obras, tirou a memória do pedreiro baiano da indigência; pagou-lhe um enterro digno.

O pai de César, que havia transmitido o gene da profissão ao filho, retornou de viagem, às pressas, da Bahia. A família do julgador monocrático, jovem suspeito principal de ser o executor no motim, embora houvesse uma dezena de carrascos da pena capital, veio ter com o pai de César; a mãe e o pai do jovem carrasco, como se quisessem se passar por pessoas de bem que reconheciam o erro terrível de um filho bem-criado, prometeram fraldas de presente às filhas do morto. O velho baiano teve raiva, uma raiva contemplativa. Chorou pelas netas toda a garoa fina e gélida que caía naquela maldita cidade.

No jazido do defunto, lia-se na lápide: Bom filho, pai de família e um irmão leal. César era o segundo de cinco na linhagem da família de pedreiros retirantes do nordeste brasileiro, aqueles pobres-diabos que sobrevivem tijolo por tijolo e têm a esperança da mesma cor dos tijolos baianos que usam nas construções das grandes cidades.

Restou ao velho pai contar com os dedos amarelos as folhas do boletim de ocorrência policial, as promessas de investigação criminal, as derrotas de uma vida que vale menos que um saco de cimento rasgado; contou ainda duas fotos das netas dentro da carteira de trabalho do filho morto, uma mulher desamparada, duas camisas surradas do Corinthians e cinco reais de um bilhete de coletivo.

Ricardo Novais é um boêmio… Talvez, um canalha… Sabe que a mulher é a vida; e a literatura é a morte. Não é escritor; é um autor por aí, entre a escrita, as casas sujas, a prosa e todos os bares; vivendo no discurso balofo, no ópio do povo e nas páginas já enodoadas. Autor do romance O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da pátria. Blogue: [link]

hildegard, de Cinthia Kriemler

Ela sorri. E só isso já é um espanto. Faz tempo que ninguém a vê assim. Antes, os olhos sempre mortos, as sobrancelhas desistentes, a boca inerte. E de repente esse riso que ninguém sabe de onde vem. Espantoso, intenso. Como um deslumbramento.

A neve, a neve!, ela diz com excitação. Os dedos trêmulos apontam para a janela, acompanhados de mais um sorriso. Os olhos embaçados pelos anos estão vivos de novo, azuis como águas-marinhas. Eu queria estar lá fora na neve, ela continua. A mão enrugada se ergue e tenta traçar alguma coisa na vidraça embaçada. Mas desiste. Ela resmunga.

Eu fazia bonecos de neve muito bonitos. Você se lembra, Matilda?

A mulher jovem ao seu lado não se lembra. Nunca chegou a conhecer Matilda. Sabe apenas que era a irmã mais velha da mulher à sua frente, Hildegard Stern, sua avó, nascida Hildegard Adler, essa senhora de 83 anos que olha pela janela. A irmã que morreu no gueto de Theresienstadt, em 1942, como o restante da família. Assassinados.

Menos Hildegard. Uma dessas coisas inexplicáveis da guerra. Sobrevivente. Uma palavra tão cheia de significados. É isso que Hildegard é.

Depois da guerra, foi adotada por uma família judia que veio morar no Brasil. E cresceu com possibilidades. Todas as possibilidades que outras tantas crianças judias perderam nos trens da morte alemães, ou em fuzilamentos públicos, ou nas experiências daquele médico maldito.

A morte sempre vem, na sua busca cega e sedenta. Mas a existência, esse contraponto, também faz suas escolhas. Hildegard é uma escolha.

Isaac Stern. Esse o homem que se casou com ela. Um judeu que não conheceu a guerra. Que não sabia que a guerra é mais do que uma história passada. Foi feliz. Ela, Hildegard, a sobrevivente. Sem explosões de afeto ou de sonhos, mas foi feliz. Sobreviventes são criaturas discretas. Acomodou-se. Aceitou o jeito do marido, os negócios do marido, a casa comprada pelo marido, as joias dadas pelo marido, os silêncios do marido. Aceitou os filhos afastados pelo marido para colégios distantes, em países distantes. Só não se acomodou à saudade que sentia, e ainda sente, de Hanau, sua cidade natal. De onde foi arrancada pelos nazistas aos nove anos de idade. Última referência de um lugar legítimo em sua vida.

Todos os anos, pedia ao marido que a levasse à Alemanha. Ele ignorou cada pedido. Até morrer. Então, foi a vez dos filhos dizerem não.

Pra quê, mamãe? Deixa o passado pra lá! Por que você quer voltar a um lugar onde você sofreu tanto?

Porque queria. Porque ao contrário do que diziam aqueles rostos que ela começava a não reconhecer, ela tinha sido feliz naquela cidade distante em que havia pais e tios e amigos e Matilda. E neve.

Olha, Matilda, olha! Aqueles bonecos de neve estão muito feios, não estão?

A neta concorda com um aceno. Contendo-se para não dizer que lá fora só tem um parque cheio de sol onde crianças, pais e babás aproveitam uma manhã perfeita de verão. Contendo-se para não gritar Eu me chamo Erika, eu me chamo Erika, eu me chamo Erika!

Já faz um tempo que Hildegard tem delírios. No começo, Erika se assustou. Depois, chorou. Brigou com a idosa porque ela estava vendo coisas, falando de pessoas que não estavam mais vivas. Então, rendeu-se ao que disseram os médicos. Que a memória presente seria cada vez menor. Que a lembrança dos lugares, das coisas e das pessoas do passado seriam cada vez mais comuns. Até que não houvesse mais memória alguma. Uma nova avó. Feita de esquecimento, depressão, choro, saudade. E de quase nenhum riso.

Por isso, quando Hildegard a chama de Matilda, Erika responde.

É verdade, Hilde. Você faz bonecos de neve muito mais bonitos do que esses.

Porque não dá mais tempo de levar essa senhora frágil para Hanau. Para brincar com ela na neve de verdade. Porque nem faria diferença. Mas porque ainda é possível conceder a essa criança da guerra uma ilusão feliz neste dia raro de sorrisos lindos. Antes que o tempo se apague nela por inteiro.

Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017. Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018); Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015. Semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); Sob os escombros (Contos, 2014); Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). E do livro de contos Para enfim me deitar na minha alma (FAC-DF, 2010). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017). Escreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em Mallarmargens, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos afins, Revista Philos, Revista InComunidade e na Gueto.

a história do corpo, de Santiago Nazarian

Como se houvesse realmente uma alma a ser libertada, o corpo ascendeu à superfície da água. Gases escapando do pulmão, bolhas à boca. Veio à tona como não conseguiria se ainda vivesse, ainda se debatesse, lutasse contra as ondas buscando uma saída, buscando a luz que vinha de cima, dos lados, onde estava a luz da superfície? Se o corpo ainda vivesse, não saberia, e enquanto dava seus últimos engasgos parecia tão difícil perceber o óbvio: em que direção nadar, para que nadar, como romper aquela linha. Agora que era apenas um corpo, tudo era mais simples. Nem a gravidade a puxar para baixo, nem o desespero a desorientar. Apenas os gases seguindo seu curso, a alma seguindo o fluxo. E o corpo vinha à tona como para zombar de um homem que se afogou.

Boiando com os surfistas, num final de tarde. Acompanhava as pranchas, rabeava-lhes ondas, era despercebido e deliberadamente ignorado, na mesma proporção; não era possível que ninguém não notasse aquilo. Ninguém queria se responsabilizar por um corpo que boiava entre ondas. Marcelo e Benjamin fingindo não ver. Manoel não vendo realmente. Cristóvão espichando o pescoço e se perguntando o que era aquele corpo, que hora vinha, hora sumia, inchado, disforme e esverdeado como um animal marinho. Há de se pensar que surfistas seriam mais solidários, mas ninguém tinha nada com aquilo.

Então, como corpo sem vontades que era, ele abandonou os surfistas. Como corpo sem vontade que era, ele seguiu correntezas contra as quais lutavam homens decididos. Apenas meninos. Um corpo sem vontade se deixou ser levado, como partículas, conchas e lixo. Enroscou-se em algas, acumulou areia. Levou mordiscadas de manjubas, nos dedos, nos olhos, nas calosidades dos pés. Então se cansou.

O mar o levou até a areia e o deixou lá. O mar recuou e o corpo agarrou-se à areia como o atrito de um surfista que não quer escorregar da prancha, agarrando-se à vida. O corpo ficou lá de bruços. As costas viradas para um sol que já não era suficiente para esquentá-lo. Nenhum sol seria suficiente para esquentá-lo. E as costas permaneceram viradas para um sol que nem esquentaria um corpo vivo. Um banhista vindo à areia, encolhido, retorcido, oferecendo as costas aos pingos esperando que o sol o rendesse e o secasse, não. O sol não esquentaria nem mesmo um verdadeiro banhista e faria com que aquele corpo permanecesse como um pecilotérmico, menos do que um pinguim. Inchando e esvaindo-se após a morte com um pulsar de vida. Pulsando por gases e líquidos e animais marinhos que escapavam e o invadiam. A vida continuava dentro dele, sobre ele, por todos os lados, apodrecendo.

Há de se pensar que os urubus chegariam primeiro. Ou os siris, os caranguejos, beliscariam sua carne e o limpariam em restos. Mas havia tanto mais naquela praia a digerir. As partículas de vidas, animais esquecidos, aquecidos, pelo sol ressecados, decomposição em estágio avançado. Peixes, pássaros, crustáceos. Qualquer praia é um banquete para necrófagos e os urubus podiam esperar. Antes, o corpo era um autofágico, invadido por si mesmo.

De dentro, fungos e bactérias, larvas e vermes. Todos os silenciosos que sempre habitaram o homem vivente agora se alimentavam do corpo dele, de dentro para fora, de cima a baixo, consumindo o corpo numa luta vencida. Luta perdida. Os vermes que se alimentavam de um estômago que acabaria na boca de um urubu. As larvas que seriam consumidas pelos siris que ainda viriam. O coração na boca de um aquelminto, no estômago de um osteícte, no bico de uma gaivota… voando. O corpo em nada interferia. Permanecia com as costas viradas para o sol, como se manteria se ainda tivesse vida, com os mesmos vermes, as mesmas bactérias, a mesma luta dentro de si.

E quem era, o que pensava? O corpo não pensa. Apenas vem à tona, é levado pelas ondas, é consumido e rejeitado e aguarda um local final para atracar. O corpo estava lá. E quisera ser colocado embaixo da terra, cremado, crucificado, ressuscitado em três dias e três noites, não faria diferença. O corpo não tem vontades. Quisesse reencontrar antepassados, uma lápide para ser lembrado, tivesse comprado uma sepultura e escolhido uma música para seu velório, não lhe valeria de nada. E fosse jovem ou fosse velho, em forma ou acima do peso, com traços harmônicos ou desgraçados, não seria possível dizer. Se comeu demais nas últimas semanas. Se voltou a frequentar a academia. Se absteve-se das drogas e da bebida, do cigarro e do açúcar, não faria diferença. Terminaria do mesmo modo, terminaria lá.

Com as costas para o pôr-do-sol, os urubus começando a rodeá-lo, não há mais possibilidades para o corpo; ou há uma infinidade de possibilidades, todas fragmentadas. A carne que é repartida entre irmãos. Os ossos que confraternizarão com as conchas. Seus parasitas que viverão novas vidas, novas mortes, os rastejantes microscópicos que encontrarão nova morada. Do corpo resta muito pouco agora. Do corpo não resta quase nada. O corpo tem apenas isso, apenas uma história. E essa história acabou.

Santiago Nazarian é tradutor e autor de nove livros, incluindo Neve Negra (Companhia das Letras, 2017) e Biofobia (Ed. Record, 2014).

parceiros, de Mauro Paz

Faz uma semana que não saio do quarto. Abro a porta três vezes ao dia para receber café da manhã, almoço e janta. Ontem abri a porta no meio da tarde. Passei o braço pelo vão e deixei com a camareira as roupas do corpo mais uma nota de cinquenta reais. Precisava das roupas lavadas e secas o quanto antes. A praia estava vazia, disse a camareira. Sugeriu que eu saísse para um mergulho. Entreguei outra nota de cinquenta. Pedi um pacote de cem folhas pautadas e três canetas azuis. Por um bom pedaço da noite, olhei o teto até decidir o que escrever. Hoje comecei este relato, assim ganho tempo e o pessoal do hotel pensa que sou algum escritor excêntrico. É difícil acreditar que me tranquei aqui por medo.

Edgar sempre diz que nego feio e alto igual a mim não precisa ter medo de porra nenhuma. Besteira. Desde moleque eu sou assim. Edgar sabe disso. Na oitava série, Cesão, um marmanjo repetente, cismou comigo. Disse que eu abri o bico para o diretor. Como se precisasse. Todos os professores sentiam o cheiro de maconha na volta do intervalo. Sou cagado. Fiquei três dias sem aparecer na escola. Ficaria mais. Voltei porque Edgar quebrou o braço de Cesão num jogo de futebol.

É perda de tempo me comparar com o Edgar. Uma vez fomos ao centro de manhã para uma instalação de TV. Terminamos o serviço depois da uma hora. Estômago colado nas costelas. Entramos numa lanchonete perto da Avenida São João. Levantei o braço pra pedir: dois pratos do dia, duas cocas sem gelo, por favor. O garçom cabeçudo de queixo largo trouxe tudo empilhado na mesma bandeja. Edgar cortou um pedaço do contrafilé. Quando arrastou o arroz para fazer a mistura, um dente rolou sobre o prato. Era um pré-molar obturado com a raiz quebrada e sangue na base. Qualquer um chamaria o garçom, o gerente, xingaria o cozinheiro. Ou até denunciaria a lanchonete para a vigilância sanitária. Edgar riu. Enrolou o dente num guardanapo e comeu tudo do prato. Sou cagado. Eu nunca mais comi arroz.

Edgar é o típico baixinho que encara tudo. Quase tudo. Detesta mulher feia. Na firma tem uma baranguinha chamada Veruska, trabalha no teleantendimento. Além de pintar o cabelo de vermelho e vestir umas blusas curtas que deixam a dobra de banha pra fora, a desgraçada tem uma voz aguda de morrer. Certeza que a empresa contratou pra foder com a vida de quem liga reclamando. Edgar não tinha nada contra Veruska, até trocarem as atendentes de sala. Na mudança, o Oliveira, do almoxarifado, encontrou uma foto do Edgar na gaveta de Veruska. Piada pronta. A foto acabou colada no mural com um coração de isopor e marca de batom. Edgar só perdeu a fama de namorado da Veruska semana passada. Eu não fazia a menor ideia que tinha câmera de segurança na escadaria do estacionamento. Boa parte do pessoal deve achar que eu sumi porque o vídeo vazou. Foda-se. Pelo jeito que Veruska baixou as calças e pegou no meu pau, não dava há um ano. Essa é a grande vantagem das barangas. Como Deus não ajudou no layout, capricham no boquete. Não fosse a história do filme, eu pegaria outras vezes.

Edgar sempre diz que quando faz merda, o melhor é agir como se nada aconteceu. Aposto que hoje pela manhã Edgar desceu ao depósito da firma, separou codificadores, modens, cabos e olhou a lista de visitas. Edgar sempre deixa para o fim do dia as visitas agendadas com nomes velhos, como Elza, Lauro, Décio. Velho não entende nada de TV e internet. É só remendar a instalação para funcionar por uns dias e dar baixa no codificador novo como se o tivesse instalado. A parte mais fácil do negócio é achar quem compre um codificador desbloqueado. Garanto. A gente vendeu mais de duzentos em três anos. Quatrocentos reais cada. Você compra uma belezinha dessas e nunca mais paga mensalidade de TV a cabo. Um bom negócio para nós e para quem compra. Para a firma, um rombo. Cada vez que ia ao banco depositar dinheiro na poupança, pensava na prisão. É lance temporário, dizia Edgar. Só o tempo de juntarmos cem mil para abrir um boteco no bairro e ficar de boa. Sou cagado. Na cadeia, nego medroso igual a mim vira a mulherzinha da cela.

Garanto que ontem o Jorge, do RH, ligou lá pra casa. Minha mãe não faz ideia de onde estou. Melhor assim. Edgar conhece bem Dona Marta. Seria dois palitos para descobrir o endereço aqui do hotel. Depois que deixei o bilhete sobre a mesa de Jorge contando como somem os codificadores, o clima na firma ficou tenso. Certeza. Pior ainda para Edgar. Além de responder um milhão de perguntas, está longe de saber pra onde fugi. Espero que nunca saiba. Não importa que eu dê a metade do dinheiro. Edgar não perdoa. Conheço bem. Agora quer as duas partes. Quer a minha orelha raspada contra a laje da calçada. Quer Dona Marta envergonhada pelo filho traidor. Sou cagado, Edgar não. Duvido que algum colega de cela toque na bunda de Edgar.

Mauro Paz é escritor, publicitário e cineasta. Além da participação de diversas antologias, tem três livros publicados: Por Razões Desconhecidas (IELRS), finalista do Prêmio SESC de 2012; São Paulo — CidadExpressa (Editora Patuá); e o romance Entre Lembrar e Esquecer (Editora Patuá), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

memória, de Fabiane Guimarães

A cidade inteira só sabia amar o General. Por isso fincaram bandeiras a meio mastro em pano preto e choraram lágrimas gordas de besouro. Sobraram mãos para carregarem o caixão e, na cerimônia solene, deram-lhe de presente uma rua. Homenagem maior, num pedaço de sertão goiano, a placa que assinala uma esquina. Rua do General. Ninguém sabia o primeiro nome dele, nem o último, o que vinha além de tudo. Mas o amor do povo era assim anônimo.

Para confessar, no começo, eu não sabia sequer de onde vinha o apelido. Quando o General chegou já era velho, encardido e pequeno, com uma espessa cabeleira branca e a perna meio manca, troncha; não fazia, aos meus olhos, o tipo militar. Além de tudo tinha um sorriso fácil, um gosto pela cachaça de banana ao meio-dia, pelo futebol de domingo. Um homem simples. Forasteiro, mas simples. Talvez inspirasse ali algum respeito, e era isso. Um general de bons modos.

A notícia era que tinha terras, mas não cuidava delas, preferia recostar-se ali tranquilo, sempre no corredor das calçadas onde se erguiam as mesas de bar, com um baralho no bolso à espera de parceiro. Fazia piada com a fábrica de leite e queijo, dizia que amava o cheiro, que se lembrava das tetas da mãe; o cheiro que empesteava tudo, azedo e cremoso. Nesta época eu não achava nada disso divertido, mas ria para o General me pagar outra cerveja. A fábrica de leite era dura, e meu pai trabalhava dois turnos para garantir-nos a comida. Eu tinha cinco irmãos.

Apesar de tudo, do falatório incessante e vazio de graça, gostava da companhia do General. Não achava, como o resto, que fosse um deus. Não me alimentava de seu dinheiro, não mais do que alguns trocados. Gostava de ouvi-lo suspirar, olhando para o nada, até escurecerem os olhos. Cedo demais compreendi que o General era um homem que todo mundo amava sem entender.

Ele devia ter lá seus setenta anos quando se casou com a Maria das Graças e assumiu, de papel passado e tudo, a Manoela. Pegou menina, viu crescer, era assim como pai mesmo. Eu, dezoito anos e cheio de desejos imperturbáveis, de namorico sincero e cristão, fui pedir a mão da Manoela em casamento. Estava suando frio. O General me via como um garoto leiteiro de bigode ralo, filho de operário, parceiro de buraco ocasional, companhia de boteco. Não me via como genro. E não me viu. Nem me ouviu dizendo que pretendia estudar, que Manoela seria rainha.

Segurou meu braço com força e disse, com a voz tranquila e morna, que podia me matar ali mesmo, depois dar de comer aos cachorros. Acreditei, porque houve medo.

Rompi com Manoela, gostaria de dizer que não por esse motivo. As notícias de seu pai me chegavam meio tortas, eu ressabiado estranhava o sentimento: tratava-se de um homem muito bom, que mandava construir igrejas e comprava cadeiras de rodas para os velhinhos do asilo, um amigo querido, o que pensava eu de sua conduta protetora e zelosa? Fiz as malas para estudar em Brasília, meu próprio pai não ajudou em nada, mas disse que sentia orgulho do seu filho que não iria cheirar a leite.

“Sabe, Augusto, qual é a maior esperteza do diabo?”, o General me perguntou uma vez enquanto jogávamos buraco, eu ainda tinha treze anos, ainda não namorava meninas proibidas. “O diabo, mesmo, nunca faz nada”.

Disse isso com um tom sério, amargo, depois armou um sorriso para disfarçar. Não me lembro do assunto em pauta. Talvez algo sobre as contendas religiosas que ele travava. Talvez sobre o meu nariz quebrado em uma briga de escola. O General era mais pai do que o meu pai que cheirava a leite. Até não ser.

Manoela me ligou duas vezes em sete anos. Na primeira vez, não atendi. Não queria alimentar nela falsas esperanças. Na segunda, trabalhando como escrivão em uma delegacia abarrotada, atendi por curiosidade. Ela estava chorando. Quase não entendi as palavras que chegavam atropeladas em um engulho só: meajudamatarammeupai.

Aos oitenta e cinco anos, enquanto cruzava pacificamente a pracinha principal, com uma sacola de compras nas mãos, o General tinha levado sete tiros. Cinco no peito, o resto na cabeça. O caixão estaria irremediavelmente fechado. Eu disse a Manoela que iria para o enterro, sim, com certeza, dali a observar o festival de lágrimas de besouro, de bandeiras a meio mastro, de emplacamento de esquinas. O delegado local, conhecido meu, me colocou a par dos suspeitos: nenhum.

Uma execução completamente limpa.

Por dias, Maria das Graças e Manoela, recebendo-me com biscoitos e cafezinho, achavam que eu prestava considerações de luto com a posição de um especialista forense. E que, se pedia acesso aos documentos pessoais e rastros do General, eu o fazia para descobrir o culpado de sua morte, para fazer-lhes justiça ao resolver o grande mistério.

Foi só assim que eu descobri que ele se chamava Paulo Mendes de Fonseca Aguiar, formado na Academia Militar das Agulhas Negras do Rio de Janeiro, que tinha uma ex-esposa e três filhas na mesma cidade em questão; e só assim descobri que ele tinha sido um proeminente carcereiro com especialidade em correntes elétricas e banhos gelados; que adorava arrancar unhas e seu passatempo preferido era fazer os outros engolirem lâminas de barbear até cagarem o próprio intestino em retalhos.

Nem Manoela, nem Maria das Graças, ninguém deu muita atenção aos fatos recortados de jornais antigos que narravam o sumiço do figurão, dado como muito conveniente e depois disperso na atmosfera do tempo. Depois, me acusaram de não respeitar a história alheia e de acobertar assassinos que dão exatos sete tiros em homens de bem. A placa ficou, o amor restou sereno, indelével, pela alma do injustiçado. De minha parte, só posso compreender um pensamento, uma memória de leite despontando no céu da boca: o diabo, mesmo, não faz nada, nunca fez nada.

É que fazem por ele.

Fabiane Guimarães é jornalista e escritora nascida no interior de Goiás, e atualmente mora em Brasília. Aguarda a publicação de seu primeiro livro, Pequenas esposas.