o trovador de Toledo, conto inédito de Rosângela Vieira Rocha

Descabelada, com roupa de casa, os pés enfiados em chinelos de borracha, ela desce o morro lentamente. A calçada é muito estreita e tem de se agarrar às paredes dos prédios, para não cair. O declive acentuado faz com que ande quase agachada. Mas não é só por causa do declive que se encolhe. Sente cólicas fortíssimas e sangra. As pontadas fortes provocam-lhe tonturas. Ou seria uma queda de pressão? Sua pressa a impedira de pegar o estetoscópio no armário. Justo ela, que mede a pressão arterial alheia o dia inteiro, como médica residente numa clínica.

Essa caminhada não rende, constata, com desgosto. Ainda faltam uns quatro ou cinco quarteirões. Sempre achou o hospital perto, e se vangloriava com os amigos de morar nas proximidades de um hospital público. Mas essa é uma noite diferente de todas as outras, a mais triste que já teve. Como pôde chegar a isso? Que decadência. Então, a mulher valente tem medo da mãe, em plena década de sessenta? Palavras duras ainda ressoam por todo o seu corpo: você me traiu, Adriana, com essa gravidez prematura. Não foi esse o trato que fizemos, quando prestou o vestibular. Eu me propus a ajudá-la a realizar o seu sonho, pagaria parte das mensalidades da faculdade, compraria aparelhos, e futuramente você auxiliaria a sua irmã menor. Mas agora, pondo no mundo uma criança antes de ter marido, como vai ajudar a Aninha? Que vergonha, engravidar sem ser casada. Você é uma traidora, não tem palavra, não levou o nosso trato a sério. Solteira e grávida, que horror. Não criei filha para fazer esse papelão. O que vou dizer à sua avó, às tias, à família toda? Que minha filha mais velha não tem vergonha na cara? Mas eu não vou me vingar, quem vai se vingar por mim é Deus, não vou precisar levantar um dedo. Sabe como? Você nunca, mas nunca, nunca será feliz.

Um forte arrepio toma-lhe o corpo. Sente frio, o tecido do seu vestido caseiro é muito leve, e venta. Ouve ruído de trovões, enquanto vai se arrastando, ladeira abaixo. O sangue escorre pelas pernas, não pegou nem sequer um absorvente, tal a pressa com que saiu de casa. Há quantos dias tinha ocorrido aquela conversa? Uma semana, talvez? Não consegue se lembrar, tenta fazer contas, mas as agulhadas fortes não a deixam pensar direito. É uma hemorragia, agora há sangue ao redor de si, vai deixando um rastro vermelho pelo caminho. Ainda bem que está muito escuro, é tarde e não há mais gente na rua.

Ao dobrar a esquina, percebe haver uma festa no enorme casarão cor-de-rosa. Felizmente as árvores de acácias, carregadas de flores amarelas, a tornam invisível. É uma comemoração ao ar livre, que parece muito animada. A música alta contrasta com o silêncio da rua. Reconhece a voz de Gilda Lopes, bonita e límpida:

Nas noites enluaradas
Na formosa Toledo
Alguém esconde em segredo
Um amor proibido.

Sente-se cada vez mais fraca e as dores fortes provocam-lhe enjoo. Decide contar os passos, para ocupar a mente com algo diferente das cólicas. Sabe que precisa de força, faltam ainda dois quarteirões para chegar. E se encontrar algum colega por lá? Tenta se lembrar se alguém da sua turma faz residência naquele hospital, mas não consegue. Sente mais frio ainda ao cogitar essa possibilidade. As arrogantes Marluce e Sara não trabalhavam ali? Não, agora estão na clínica São Guido, lembra-se. E o Zeca? Que bobagem, está fazendo confusão. Zeca é filho de gente rica, foi estudar na Europa. A simples lembrança de Zeca a faz vomitar ali mesmo. Foi apaixonada por ele no início do curso e rejeitada sob a alegação de que “tinha pernas finas demais”. Mal-educado e cruel, aquele bigodudo. Disse aquela frase completamente dispensável sem anestesia nem nada. Assim, de repente, no terceiro ou quarto encontro. Pernas finas demais! Não argumentou, de tão chocada. Foi a última vez que o viu, a partir daquilo não mais o enxergou. Tem essa propriedade, a de não ver mais quem a fere.

Resolve descansar um pouco sob um dos galhos de acácias. Preciso adquirir forças, tenho de continuar, sua mente grita. Mas o corpo, este deseja ficar esticado ali, coberto com o vestido ensanguentado. De repente, um casal sai da casa, caminhando até o carro. O homem está com uniforme da aeronáutica, cheio de comendas. Deve ser um brigadeiro. Se tivesse coragem, pediria uma carona até o hospital. Mas empapar a poltrona do carro dos outros de sangue? Responder a perguntas de um militar? De alguém de patente tão alta? E se acabar presa, como o filho de dona Gertrudes? Melhor ficar bem encolhida ali mesmo, até o homem dar a ré no Ford Galaxie branco e partir.

O trovador de Toledo
Pelas noites escuta
E toda gente pergunta
Qual será o segredo
De uma janela apagada,
De um balcão deserto.

Esforça-se mais um pouco. Agora, anda praticamente de gatinhas, sentindo enorme fraqueza. Devo ter perdido sangue demais. Certamente vou precisar de transfusão, raciocina. Grossas gotas de chuva começam a cair. Era só o que faltava para piorar as coisas. Se o chão ficar escorregadio, talvez seja melhor tirar as sandálias de dedo. É provável que machuque os pés, nas pedras irregulares da calçada. Mas ainda assim é melhor que uma queda, decide. Em poucos minutos a chuva se transforma em tempestade. Mas agora falta apenas um quarteirão.

Tenta pensar num show de Gilda Lopes, chamada a “Fabulosa”, a que assistiu certa vez. Tão bonita era a cantora, que não sabia se prestava atenção na voz belíssima ou na figura da moça. Sempre invejou quem consegue sustentar sons agudos, ela com sua voz grave e rouca. Mas Gilda é cantora de óperas, relembra. Tem uma técnica muito apurada e é soprano.

A chuva lavou o vestido ensanguentado, grudado ao corpo. Sente-se nua, assim descalça e mal coberta pelo pano fino. Uma residente do curso de Medicina, quem diria. E chegarei ao hospital como uma mendiga, molhada e descalça. Encontrarei alguém conhecido por lá? Um colega, um professor? Terei de preencher formulários, responder a perguntas. Como poderei provar que não provoquei isso? Será que minha palavra bastará? Avisarão à polícia? Tenta se lembrar do protocolo, já estudou os procedimentos em várias disciplinas, embora nunca tenha se interessado por ginecologia. Tudo que encontra é o branco, o vazio. Não se recorda de nenhuma vírgula do protocolo. Desde o início do curso sua paixão pela endocrinologia tinha sido tão forte que só pensava em hormônios. Como pode ter se esquecido de algo tão primário?

Continua a andar, agora ainda mais devagar, chapinhando na enxurrada. Chora. Esse sangue expulso de suas entranhas seria de um menino ou de uma menina? Que pena, o rosto, o corpinho, nunca se formarão. Ela não o queria realmente, mas jamais faria aquilo de caso pensado. Bebê, me perdoe. Não estou à sua altura, não soube lutar por sua vida, me deixei levar pelas circunstâncias, o medo me consumiu. Não pude retê-lo, meu corpo e minha mente o rejeitaram, eu não soube vencer o mundo. Sou fraca, meu bebê.

Já consegue avistar o imponente prédio branco. À medida que se aproxima, a voz da mãe vai aumentando de volume: você me traiu, não cumpriu o trato. Nunca será feliz. As palavras duras causaram feridas fundas, mas não a impedem de continuar o caminho. Posso até não ser feliz, fala alto. Mas daqui a pouco me farão uma curetagem, provavelmente passarei por transfusão de sangue, tomarei soro e ficarei internada pelo menos quarenta e oito horas. A felicidade é sempre transitória. Agora, a urgência é estancar a hemorragia, não ter infecção e permanecer viva. Vestir roupas enxutas, aquecer-me com um cobertor, sair da chuva e da escuridão, tomar antibióticos receitados corretamente e quem sabe um prato de sopa quente, quando puder.

Finalmente, chega ao grande portão do hospital e dirige-se ao pronto socorro. E logo é atendida por uma colega idosa, que não lhe faz muitas perguntas. Após a curetagem, a colocam numa cama limpíssima, na enfermaria. Antes de se render ao torpor provocado pelos medicamentos, pensa na mãe e em sua maldição. Sabe que até as pragas das mães têm limites, não valem para sempre, e não é por serem nossas mães que se transformam em pitonisas. Adormece ao som da voz de Gilda Lopes:

E uma janela apagada
é o que restou, mais nada,
dentre as lembranças que a noite
consigo guardou um dia.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente (Editora Arribaçã, 2020). Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.

infierno, de Fábio Mariano

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Comecei a trabalhar no buffet por acaso. Um amigo meu me ligara falando sobre a vaga, e era uma época na qual os buffets infantis apareciam em cada esquina de Cartago de uma semana para outra. De repente, então, a equipe de adolescentes mal remunerados de um deles evaporava, e era necessário pedir aos restantes que ligassem para seus amigos. Eu queria ter algum dinheiro — começava a descobrir que queria cozinhar, mas era impossível pedir os ingredientes que eu queria provar à minha mãe. Surgia, diante de mim, a chance de contornar o veto da inutilidade daquele gasto (a questão não era falta de dinheiro) pelo módico preço de tolerar algumas crianças por algumas horas e dormir mal algumas noites — nada que eu já não tivesse feito sem ganhar dinheiro algum.

Era a primeira vez que eu trabalhava, e minha intuição nunca fora muito boa, de modo que não compreendi por que meu amigo me deixava de canto para conversar com todos os outros. Ele me explicou que, ali, nos organizávamos em grupos: salgadinhos, bebidas, pula-pula, piscina de bolinhas e cama elástica. Mudávamos de grupo no meio da noite, e também de um dia para o outro, e quando as festas terminavam todos faziam juntos a limpeza e a organização. Como eu morava perto do buffet (ao contrário da grande maioria das pessoas, inclusive de meu amigo), ia embora a pé. Cumpria as obrigações e ficava no meu canto, sem conversar muito, e embora soubesse os nomes dos meus colegas, não tinha qualquer outra relação com eles.

Na quinta semana em que estava trabalhando lá, meu amigo me chamou num canto. Eu estava com os salgadinhos, e ele, com as bebidas. “Você percebeu?”, me perguntou, empolgado, sem que eu tivesse a mínima noção do que ele dizia. Vendo minha cara de dúvida, sussurrou “Do lado do pula-pula, mas olha sem dar bandeira”, saindo para levar mais uma bandeja cheia de copos de refrigerante. Enquanto alinhava as coxinhas na minha bandeja, repassei, um a um, os rostos da festa. E quando estava para decidir que nada me era familiar percebi que havia, de fato, algo no rosto daquela moça ao lado do pula-pula. Só aí o sorriso que se estampava no rosto de meu amigo me contagiou.

A moça era Amanda Sky.

Terminado nosso serviço, meu amigo me pediu que ficasse. Disse que fariam uma festinha na casa de um dos meninos. “Vão todos: o Tigão, o Pingo, a Babi, a Isa, o Dedé…”, e depois, sussurrando para mim, “tenho certeza de que a Isa vai”. Eu, que nem reparara direito em quem fosse a Isa, tomei aquela informação como crucial. Perguntei a ele o que eles comeriam. “Sei lá, pedimos alguma coisa”. Minha reação imediata, antes que eu pudesse me controlar, foi perguntar se eu poderia cozinhar. “Acho que vai ter muita gente”, ao que respondi “Para mim é perfeito. E eu banco”. Meu amigo foi até André, o dono da casa, e confirmou minha autorização.

Pingo me disse que me daria uma carona até o mercado — iríamos os dois. No caminho, me informou que o André tinha gostado de eu bancar tudo, mas que, se eu precisasse, eles também ajudariam. Pensei que não seria necessário, mas no fim, acabei me excedendo um pouco. Não que eu tivesse comprado nada caro, mas pensei que não poderia faltar comida. O resto do dinheiro que estava com Pingo, que era da vaquinha do pessoal, foi para as bebidas.

Quando chegamos à casa do André me dirigi direto à cozinha, sem pegar nem mesmo uma latinha de cerveja. Os pais dele tinham viajado, e a casa era grande e cheia de livros. Ali, dois amigos dele de outro lugar já estavam sentados em dois pufes discutindo calorosamente sobre Marx, Nietzsche e Darwin; e enquanto um deles falava alto, mas sóbrio, com movimentos de mão firmes e bem desenhados, o outro parecia se atropelar, como se as ideias fluíssem em sua cabeça a uma velocidade muito maior do que a das suas palavras, de modo que, se não era um gaguejo, havia uma espécie de interrupção abrupta no meio de suas frases. Era óbvio que os dois eram muito amigos, e decidi que eles seriam as primeiras pessoas que eu serviria, se eu pudesse escolher. De dentro da cozinha ouvia uma voz esganiçada tentando cantar e uns dedos desajeitados tentando tocar violão, que foram imediatamente substituídos por alguém que só podia estar bêbado havia muito tempo, embora tocasse e cantasse com perfeição. Enquanto preparava espetinhos de muçarela de búfala envolvida em bacon usando como espetos os ramos de alecrim, macarrão com queijo e abobrinhas e tomates recheados, fui aos poucos perdendo o contato com o que acontecia ali dentro. Cruzou minha cabeça o olhar de Amanda Sky, se ela gostaria dessa refeição… Como passei a segunda metade do serviço na piscina de bolinhas (o que me permitiu um ponto de observação privilegiado), percebi apenas o amor dela diante de uma criança que obviamente não era sua filha, e seu olhar, tão diferente daquele ao qual eu estava acostumado a ver nos vídeos. A voz, no entanto, era inconfundível.

“Não era ela?”, disse meu amigo, irrompendo na sala com o braço enlaçado na cintura de Tigão. “Era óbvio que era ela, estou falando!”. Os dois debatedores entraram na cozinha, o mais calmo dizendo, “impossível, cozinheiro, é isso mesmo? Vocês viram a Amanda Sky hoje? E não fizeram nada?”, “e iam fazer o quê, ô, o que você acha, né, que eles iam, sei lá, perguntar se ela tava sem calcinha?”, questionou o outro, ao que todos rimos. Antes que eu pudesse confirmar, percebi que eles haviam saído da cozinha. André veio até mim, então, me perguntando se estava tudo bem e se eu precisava de algo. Me abriu uma lata de cerveja antes que eu pudesse responder — eu respondia às panelas –, me abraçou e agradeceu por eu estar lá. Disso me lembrou bem: ele não me agradeceu por estar cozinhando; me agradeceu por estar lá. Tomei um gole da cerveja, agradeci, pedi que ele levasse alguns espetinhos já prontos para a sala e continuei.

Alguns segundos depois, ouvi uma voz dizendo “você não tem nada para mim?”. Olhei para a mão que se apoiava no balcão da cozinha. Era a mão de Amanda. Aquela mesma mão, com o mesmo esmalte, os mesmos dedos tortos, aquela mão que eu reconhecera imediatamente ao olhar Amanda erguer sua sobrinha ou afilhada ou a filha de sua melhor amiga até o pula-pula. Mas a voz não era a de Amanda; era a de Isa, que me perguntava se eu cozinhava alguma coisa que não tivesse bacon, “ou nenhuma carne, na verdade”. Puxando um prato que não sabia se poderia usar (àquela altura eu sabia que isso já não fazia a menor diferença), montei com o macarrão o prato mais bonito que pude — que, obviamente, não era nada demais. Isa riu um pouco do meu esforço, agradeceu pegando na minha mão, e ia saindo dali olhando para mim, quando pedi que ela esperasse. Adicionei um tomate recheado ao prato. “Não tem carne nenhuma também”. Ela me olhou, como se não entendesse o que eu dizia, mas sorrindo, e ainda sorrindo foi embora.

Depois de cozinhar, me lembro de pouca coisa. Liguei para casa dizendo que dormiria na casa do amigo que me arranjara o emprego — embora obviamente fosse dormir ali mesmo, se pudesse, e não estivesse muito preocupado com isso. E então, com todos elogiando minha comida, me lembro de declarar que eu teria um restaurante, onde, um dia, todos eles iriam. “Vai se chamar Sky”, disse uma voz (a memória se turva aqui) ao que um outro respondeu que isso seria muito comum. Houve risos. “Se eu botar esse nome, vou ter que convidar a Amanda”, disse finalmente. Não me lembro de tudo o que tomei. Lembro-me, sim, da corrida até o banheiro, e das mãos de Isa em algum momento. Foi um dos dias mais felizes que vivi.

No dia seguinte faltei à escola (coisa que nunca fazia), e, chegando em casa no meio da manhã, pensei em como iria me justificar. Minha mãe estava sentada na mesa da sala, mas meu pai a acompanhava — o que, via de regra, não deveria acontecer. Ele olhava para baixo como quem houvesse sofrido uma derrota. O rosto de minha mãe estava enfurecido, e me preparei para uma bronca como nunca havia tomado, para uma expulsão de casa, para qualquer coisa. Mas minha mãe esfregava nervosamente as mãos nas coxas enquanto tamborilava os dedos. Seu olhar era descrente e cansado. Meu pai havia sido agraciado com uma escolha. Deveria se transferir para o escritório de Buenos Aires ou então procurar outro emprego. Ele aceitara a transferência. Minha mãe se separaria dele um ano depois, voltando para o Brasil — para Cartago — no dia da assinatura dos papéis do divórcio.

Liguei para meu amigo dizendo que não trabalharia mais no buffet. Ele entendeu, e nunca mais nos falamos. Fiquei em Buenos Aires com meu pai e lá estudei gastronomia. Lembrava-me sempre dos dois debatedores daquela festa ao ver os argentinos discutindo sua política e suas letras. Continuei cozinhando, estagiei com o mais famoso dos chefs argentinos, fiz carreira. Visitava minha mãe, que agora se orgulhava de ter um filho chef, com frequência. Ela ia bem, se casara de novo e entrara no ramo imobiliário. Continuei, também, acompanhando a carreira de Amanda Sky, quase sempre de passagem. No ano da festa ela ganhara um prêmio de melhor atriz pornô do mundo, o que a levara, por um breve período, aos Estados Unidos. Mas talvez, como minha mãe, ela sentisse falta do Brasil — nunca soube se ela morava em Cartago ou estava só de passagem — e me lembro de ter visto mais uma porção de vídeos dela. Num certo momento, no entanto, ela desistiu da carreira, e conseguiu trabalho em algum canal de TV. De uma certa maneira, ela se recusou a envelhecer no cinema pornográfico e seguir o caminho comum, botar silicone e passar a fazer filmes nos quais seu papel é o da mulher mais velha. Creio que ela foi fazer um curso para trabalhar na parte da produção, mudar de vida. Fui tentando pescar notícias, mas era difícil. Eu mantinha um arquivo no computador no qual digitava o que encontrava, mas num certo momento desisti. Pensei que nunca mais a veria.

Quando tinha juntado algum dinheiro, e estava com tudo pronto para buscar um estágio na Europa, meu pai me disse que eu deveria abrir meu próprio restaurante. Ele e minha mãe haviam conversado sobre isso quando eu decidira me tornar chef, e haviam guardado dinheiro sem que eu soubesse desde então. Ele me disse, no entanto, que isso não poderia acontecer em Buenos Aires, porque o tumulto político, as constantes desvalorizações da moeda e as crises sucessivas tornariam meu negócio muito vulnerável. Também me disse que estava de mudança para a França, onde eu poderia, se quisesse, ir visitá-lo e fazer meu estágio. Foi assim que retornei para Cartago e abri, lá, o Cielo.

Como já saíra do Brasil havia muito tempo, não esperei ninguém conhecido na inauguração — e estava certo ao pensar isso. Mas duas semanas depois da inauguração, o dono da casa, André, e Isa, vieram ao restaurante. Por sorte tive de atender uma dúvida de meu sommelier, de modo que pude reconhecer as mãos de Isa — pensando, primeiramente, que eram as mãos de Amanda. Fiz questão de ir até os dois e de enviar a eles uma entrada especial. Era algo que só entraria no cardápio algum tempo depois, um conjunto de três tomates recheados diferentemente — nenhum deles levando qualquer tipo de carne. Isa compreendeu. Pensei em pedir aos dois que me esperassem até o fim do serviço, mas achei melhor convidá-los para chegar mais cedo no dia seguinte, uma hora e meia antes que o restaurante abrisse. Eles vieram, e conversamos muito. Esclareceram que, originalmente, deveriam ter vindo os dois debatedores também — João e Marcelo eram os nomes deles — mas os dois estavam fazendo seus doutorados na Alemanha. André me contou que Pingo havia morrido dois anos antes de leucemia, e que meu amigo, pouco tempo depois, fora demitido do buffet e brigara com todo o grupo. Babi se tornara produtora no jornal local.

Ao saber daquilo, não pude me conter. Pedi logo o telefone de Babi, mas sabia que minha esperança podia ser infundada. Ofereci aos dois que jantassem novamente no restaurante, dessa vez sem pagar, e embora eles tenham aceitado o convite para o jantar, fizeram questão de pagar. Pude presenteá-los, ao menos, com uma garrafa de vinho. Antes de ir, Isa me mandou uma mensagem me dizendo que fora muito atencioso fazer um prato em homenagem a ela, e que Babi estava de licença maternidade, afastada do trabalho. Isa era a madrinha de sua filha.

O contato com Babi não foi de todo infrutífero. Consegui descobrir que Amanda G. S. de C., a pessoa que eu procurava, havia trabalhado com ela por um curto período de tempo. Por algum motivo não parecera se adequar — Babi chutava que o chefe canalha das duas estivesse por trás da demissão da colega. A coisa toda ocorrera no meio de uma série de cortes que a emissora fazia, então era difícil definir o que era arbitrariedade e o que era necessidade, ou ainda quem estava sendo retaliado. “Havia menos retaliações naquela época do que hoje, com certeza”, ela me disse, “e pode apostar que vai haver mais nos próximos anos. É uma época difícil para ser jornalista, e eu e a Lili estamos pensando em dar no pé.” Perguntei se alguma das duas falava francês e, tendo sido informado que o francês de ambas era muito melhor que o meu, enviei a elas o contato de meu pai, que talvez pudesse ajudar. As duas se mudaram com a filha para a França uns dois anos depois.

Continuei conversando com Isa por algum tempo, majoritariamente por mensagens no celular. Houve um hiato, no qual ela teve um namorado e, portanto, não nos falamos mais. Mas depois recebi uma nova mensagem dela e retomamos a troca normalmente. Eu estava tão imerso no trabalho que, talvez, não tenha percebido o quão chateado eu ficara. Meus cozinheiros me dizem que eu era intratável naquele período, mas contam isso agora em tom de brincadeira. Antes que ela arranjasse esse namorado, me perguntara uma vez — também em tom de brincadeira — se eu havia convidado Amanda Sky para a inauguração. Nunca soube se, naquele momento, ela sabia de minha conversa com Babi. Neguei, adicionando que não pude encontrá-la, mas que, se pudesse, teria enviado o convite.

Quando o restaurante fez três anos, tirei as primeiras férias. Eu percebia uma mudança no perfil da clientela, e conforme eu me consolidava, crescia meu medo do tipo de conversa que circulava ali dentro. Babi já havia ido embora, e eu pensava no quão bem fizera. O número de casais homossexuais começou a diminuir sensivelmente, e eu mesmo tive de expulsar um grupo de seis clientes que ofendera um casal assíduo. Eu virara manchete de jornal na cidade — Cartago tinha dessas coisas — e minha mãe, por sorte, sempre me apoiara. O Cielo se tornava mais famoso, e pessoas de outras cidades começavam a fazer reservas. Eu crescia, mas tinha medo. Foi então que decidi chamar Isa para ir comigo à França, visitar meu pai. Ela me perguntou o que aquela viagem significava. Eu disse que não sabia, ao que ela respondeu que, quando eu soubesse, podia convidá-la. Sem mágoa, e com razão, creio.

Antes de entrar no avião, procurei por ela. Talvez por ter visto séries ou filmes demais. Meu susto, ao ver alguém que falava nervosamente no celular, ao ver suas mãos, foi tanto que pedi, por um momento, que a moça da companhia aérea esperasse. Obviamente não era Isa. Mas antes que eu pudesse perceber a diferença da cor dos olhos, dos cabelos, da voz, o que percebi foi o olho roxo, o braço enfaixado, o nervosismo. Amanda G. S. de C. tremia. Sem maquiagem, vestindo roupa de frio, Amanda estava ali, e era a minha chance de convidá-la para o restaurante. Seu nervosismo se intensificava, ela olhava ao redor, e tive a impressão, a nítida impressão, de ver que homens a olhavam de pontos diferentes daquele saguão. A moça da companhia aérea ralhava comigo — eu nem conhecia Amanda G. S. de C., e nem mesmo Amanda Sky — mas eu precisava ir até lá. Amanda, então, parecendo mais calma, se dirigiu a outro portão. Os homens a seguiam com o olhar. E eu tive de entrar, tive de entrar no avião.

Amanda nunca foi ao Cielo. Nunca mais a vi. Mas sei que é a história dela, e não a minha, a que deveria ser contada.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP. É autor de O Gelo dos Destróieres (Contos, 2018) e Habsburgo (Novela, 2019), ambos pela Editora Patuá. Numa parceria entre Patuá e Ofícios Terrestres, publica agora Ruído Branco (Contos), uma realização do ProAC 2019, no qual se encontra “Infierno”.

o momento, de Inês Filipa Vieira Brandão

Henrique dirigiu-se à sala. Sentou-se na poltrona que lhe fora deixada pela avó materna. Era castanha, com umas manchas amareladas e uns pontos descosidos, marcas do uso e do tempo. Tinha um apoio para os pés e um suporte para colocar copos, embora ele o usasse para depositar as folhas amarrotadas, outrora esboços de desenhos que, por não terem a qualidade ambicionada, não eram dignos de ser olhados por outros olhos senão os dele.

Estava feliz. Não tinha razões para não estar, embora se saiba que o cérebro humano não é tão linear assim e pode levar-nos rapidamente a um estado de tristeza, mesmo que tudo à nossa volta corra conforme o planeado.

Hoje fixou o pensamento sobre a poltrona, normalmente não o faria, sentava-se apenas, de forma mecânica e irracional. Mas hoje recordava aquela senhora, que tinha tido a sorte de poder apelidar de avó, e que lhe deixara tal objeto, não em qualquer documento escrito, mas por ter repetido várias vezes ao longo dos anos: “esta será tua quando eu… sabes?”. Não gostava de falar na morte, não tinha a frieza necessária para enfrentar uma condição na qual não tivesse oportunidade de estar com a sua família. A sua reflexão foi interrompida pelo som do telemóvel, era o seu pai. A voz trémula e praticamente irreconhecível, que se unia a um choro desesperante, dizia-lhe que a sua mãe lhe falecera nos braços. De impulso, Henrique levantou-se da poltrona e saiu. A felicidade foi-lhe arrancada, as recordações da poltrona e da sua avó depressa se dissiparam.

Tinha vendido o carro há uns meses. Por viver no centro de Lisboa, decidiu que não precisava dele; arrependia-se hoje desta decisão, porque esta o obrigava a esperar pelo próximo comboio até Coimbra, terra que o viu crescer e local onde os seus pais decidiram permanecer, mesmo depois dele se ter mudado para a capital. Comprou o bilhete às 16h40, o comboio partia dentro de dez minutos. Percorreu a gare, ouvia o bater do seu coração, acelerado, o suor escorria-lhe pela cara e havia uma ansiedade e um nervosismo persistente que o mantinha alerta e, ao mesmo tempo, o cegava em relação a tudo o que o rodeava. Mantinha os olhos fixos no comboio, era verde e branco; Estava lá ao fundo, ele via-o, quase que o sentia e, no entanto, parecia-lhe tão longe como o caminho que ainda teria de viagem até chegar à sua família.

Pela terceira vez nos últimos cinco minutos, olhou para o relógio. O tempo parecia ter parado e, ao mesmo tempo, sentia-se culpado por deixar o seu pai sozinho durante este período, que lhe pareceu mais longo do que a realidade comprovava. Colocou a mão sobre o corrimão que dava acesso à sua plataforma e percorreu-o. Estava sujo, peganhento. Pensou na quantidade de pessoas que já lá teriam pousado as mãos e, num gesto brusco e apressado, retirou a sua.

O comboio estava cada vez mais perto. Olhou novamente o relógio, 16h45. Já conseguia tocar na primeira carruagem, mas o seu lugar ficava na terceira, tinha de continuar a andar, com a mesma urgência. Ouviu a última chamada, entrou…

Já sentado no interior do comboio, a impaciência e o sentimento de impotência apoderaram-se de Henrique. Tentou ler, escrever, ver as notícias no telemóvel, mas os seus esforços revelaram-se inúteis; Seriam duas horas de sofrimento, pensou.

Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, chegou a Coimbra. Depressa encontrou um táxi e, sem grandes explicações, disse que tinha pressa em chegar ao hospital. Armando, nome com o qual o taxista se apresentou a Henrique, ficou apreensivo com o pedido e, como tal, perguntou se ele se sentia bem. Henrique explicou aceleradamente e sem detalhe a situação; Nenhum dos dois falou mais depois disso, pelo menos até ao momento do pagamento.

Chegado ao hospital, subiu umas escadas e percorreu um longo corredor até encontrar alguém a quem poderia pedir direções que o levassem até aos seus pais. Apercebeu-se que já se teriam passado mais de 15 anos desde a última vez que entrara neste hospital, num dia em que partiu o braço direito, resultado do seu envolvimento numa luta com um rapaz que tinha tentado beijar a sua namorada da altura. Foi um namoro ingénuo, característico da idade, do início da adolescência, mas naquela época pareceu-lhe correto defender a sua honra, arremessando dois socos na direção do outro rapaz, apenas para depois sofrer o triplo.

Após falar com um funcionário, que prontamente lhe indicou o caminho, deparou-se com a porta do quarto que do outro lado revelava o corpo debilitado da sua mãe. Ouvia as máquinas a trabalhar, ouvia o pranto do seu pai, mas faltavam-lhe as forças para entrar; Num impulso, reuniu a coragem necessária, abriu a porta e caminhou na direção deles. Ela não estava morta, tal como o pai lhe tinha transmitido, pensou. Mas nos olhos dela não via vida, nem qualquer reação, as máquinas respiravam por ela, havia um hematoma no braço, provavelmente causado pelas várias tentativas que a enfermeira fizera para conseguir espetar a agulha que agora a alimentava apenas de soro.

Tentou comer algo, perto da hora a que costumava jantar, e sugeriu ao seu pai que fizesse o mesmo, embora nenhum dos dois tenha conseguido cumprir essa tarefa, outrora banal e rotineira, mas que nas últimas horas se tornara hercúlea, por força das circunstâncias.

Alcançou uma médica, uma que já tinha observado no quarto da sua mãe, mas a quem não teve a coragem de perguntar nada até este momento. Falaram durante algum tempo, ela informou Henrique da gravidade da situação e da pouca probabilidade da sua mãe passar daquela noite. Irrompeu num pranto, as lágrimas surgiram, foi a primeira vez ao longo daquele dia em que se permitiu chorar. Filipa, nome da doutora que ficaria para sempre gravado na ficha médica da sua mãe, estava certa sobre tudo o que disse. Henrique sentou-se numa outra poltrona, no corredor do hospital, na sua cidade natal, a dois metros do quarto onde a sua mãe respirara pela última vez, sem ter tido a possibilidade de se despedir dele.

Quem diria que um dia que começara calmo para Henrique, acabaria com o choro amargurado de um neto e filho que, para além sentir a falta da sua avó, teria agora também de lamentar a morte da sua mãe.

“É a vida”, todos lhe dizem desde esse dia fatídico, embora a sua se tenha alterado drasticamente, porque afinal, há pessoas, dias e momentos que nos mudam a vida, para sempre.

Inês Filipa Vieira Brandão nasceu a 29 de março de 1998, em Lisboa. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tirou o curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Publicou o seu primeiro livro infantil a Fevereiro de 2020, intitulado A Flor Margarida. Vive no centro de Lisboa, é professora e sonha um dia fazer da escrita a sua carreira profissional. Página do seu livro no [link].

dois minicontos poéticos do livro ‘Dreams’, de Olive Schreiner

Dreams (Londres: T. Fisher Unwin, 1890), de Olive Schreiner, traduzidos por Rodrigo Moncks.

Life’s gifts.

I saw a woman sleeping. In her sleep she dreamt Life stood before her, and held in each hand a gift — in the one Love, in the other Freedom. And she said to the woman, “Choose!”

And the woman waited long: and she said, “Freedom!”

And Life said, “Thou hast well chosen. If thou hadst said, ‘Love,’ I would have given thee that thou didst ask for; and I would have gone from thee, and returned to thee no more. Now, the day will come when I shall return. In that day I shall bear both gifts in one hand.”

I heard the woman laugh in her sleep.

Presentes da vida

Eu vi uma mulher dormindo.

No sono, sonhava que a Vida estava diante de si, segurando em cada mão um presente — em uma, o Amor, em outra, a Liberdade. Então ela disse à mulher: “Escolha”.

A mulher esperou muito tempo e disse: “Liberdade”.

Então a Vida disse: “Escolheste bem. Se tivesse dito Amor, eu lhe teria dado e então partido, sem nunca retornar a ti. Agora, chegará o dia em que voltarei. Nesse dia, hei de trazer os dois presentes em uma só mão”.

Eu ouvi a mulher rir enquanto dormia.

The artist’s secret.

There was an artist once, and he painted a picture. Other artists had colours richer and rarer, and painted more notable pictures. He painted his with one colour, there was a wonderful red glow on it; and the people went up and down, saying, “We like the picture, we like the glow.”

The other artists came and said, “Where does he get his colour from?” They asked him; and he smiled and said, “I cannot tell you”; and worked on with his head bent low.

And one went to the far East and bought costly pigments, and made a rare colour and painted, but after a time the picture faded. Another read in the old books, and made a colour rich and rare, but when he had put it on the picture it was dead.

But the artist painted on. Always the work got redder and redder, and the artist grew whiter and whiter. At last one day they found him dead before his picture, and they took him up to bury him. The other men looked about in all the pots and crucibles, but they found nothing they had not.

And when they undressed him to put his grave-clothes on him, they found above his left breast the mark of a wound — it was an old, old wound, that must have been there all his life, for the edges were old and hardened; but Death, who seals all things, had drawn the edges together, and closed it up.

And they buried him. And still the people went about saying, “Where did he find his colour from?”

And it came to pass that after a while the artist was forgotten — but the work lived.

O segredo do artista

Havia um artista, que pintou uma obra. Outros artistas tinham cores mais caras e mais raras e pintaram quadros mais ilustres. Ele pintou o seu com apenas uma cor, de um intenso brilho vermelho, e as pessoas viviam dizendo: “Gostamos dessa obra, gostamos do seu brilho”.

Outros artistas vinham e diziam: “De onde tira essa cor?”. Eles perguntavam ao artista, que sorria e dizia: “Não posso contar”, e voltava a trabalhar, de cabeça baixa.

Um foi para o Extremo Oriente e comprou pigmentos caros, fez uma cor rara e pintou. Depois de um tempo, porém, a obra desbotou. Outro leu os livros antigos e criou uma cor cara e rara, mas quando a colocou na sua obra, parecia morta.

O artista seguiu pintando. Seus trabalhos se tornaram cada vez mais vermelhos, e o artista, cada vez mais branco. Um dia, encontraram-no morto diante de sua obra e o levaram para ser enterrado. Os outros artistas procuraram em todos os potes e cadinhos, mas não encontraram nada que já não tivessem.

Quando o despiram para vestir as roupas do sepultamento, encontraram no lado esquerdo do peito a marca de um ferimento muito antigo, que deveria estar ali durante toda a sua vida, pois as bordas estavam duras e envelhecidas. Mas a Morte, que veda todas as coisas, havia juntado as bordas, fechando a ferida.

Então o enterraram, e o povo continuou dizendo: “De onde tirava essa cor?”.

Aconteceu que, depois de um tempo, o artista foi esquecido — mas seu trabalho seguiu vivo.

Olive Schreiner (1855 — 1920) foi uma autora sul-africana, notória por sua escrita progressista. Uma das primeiras figuras literárias da África do Sul após a colonização inglesa, a publicação de maior sucesso de Schreiner é The Story of an African Farm (1883), obra considerada precursora da escrita feminista na literatura. Além do papel da mulher, a autora promovia outros temas tabus à época, como abolicionismo, agnosticismo e vegetarianismo.

Rodrigo Moncks é tradutor e revisor de textos com formação em Letras (bacharelado, UFPel) e Estudos da Tradução (mestrado, UFSC).

rosa, de Rafael Mendes

A janela escancarada, o verão jogando amarelinha nas ruas. Tu nua sobre o parapeito, teus olhos castanhos de terra arada e ansiosa pelo plantio. Na sua mão uma laranja, que poderia ser tanto fruta quanto revelação da memória, orbe de nosso amor ainda jovem ou mesmo uma opala bruta de sangue. O sol caindo atrás dos prédios da Rua Augusta, eu deitado na sua cama, sentindo o olor de teus lençóis, teus livros empilhados desordenadamente pelo quarto, um desenho de margaridas pendurado bem ao lado da sua cama. Tu veio até mim, boca suja de laranja, e me beijou, falando sobre teatro, abrindo mapas que eu não conhecia. Ali eu já era um louco, se me largassem num hospício eu gritaria teu nome, nosso amor.

Escuta, Rosa, então não te amei? Se o ínterim entre aquela tarde — quase natal, teu corpo gestando uma retidão moral pura diante da parede azul petróleo — e esta noite de céu apagado, resoluto em não ser fuga das atribulações, onde nossos corpos já nem precisam verbalizar o adeus, fomos felizes, como poderia não ter me amado? Diga, Rosa, como? Eu lembro do teu corpo nu sobre o parapeito. Uma febre de melanina emanando, escorreita seiva de suas funduras me lavando, nossa primeira vigília. Eu tinha toda a sede e você foi tonéis de vinho.

O amor nascido de um acaso, uma chave esquecida, acompanho o Pedro até o metrô Armênia, você aparece, sorrindo, gesticulando e falando rapidamente, cheia de ânsia para resolver problemas, para fazer coisas. Lembro que teus olhos percorreram meu corpo, me senti desejado, ardi. Me ofereceu uma garrafa d’água, eu queria que me oferecesse suas mãos, sua fala, que apresentasse teus planos para salvar o mundo. Eu iniciaria uma guerrilha, leria novamente Marighella, roubaria dois bancos, se você me amasse. O segundo encontro. Aniversário de um amigo. Não me recordo se foi do Pedro. Não importa, não estávamos presentes. Os corpos próximos, nossas mãos se tocaram por acidente algumas vezes, e quando isso acontecia, teus olhos chispando. Quando a noite acabou todos na expectativa de um beijo, da confissão da paixão. Na volta o Pedro disse ela está apaixonada e na outra ponta do vagão podem sentir sua paixão por ela.

Por acaso não nos amamos, Rosa? Me recordo dos lampejos: banhos quentes após o sexo, cervejas compartilhadas nas últimas horas da noite, aroma de pães frescos que assávamos aos domingos, teus dedos frágeis segurando uma colher com pudim. Foi tudo tão intenso, nós não sabíamos como falar do amor, tudo era beijos, tato, medições dos pontos cardeais do nosso corpo. Naquela viagem que você foi a Minas Gerais, você e suas amigas querendo salvar o mundo, registrar a tragédia de Mariana, na véspera da partida você fazendo suas malas, experimentando roupas, e eu só pensava em roubar uma camisola, qualquer peça, para dormir tranquilo com teu cheiro de amêndoa. Rosa, sofri tanto naqueles dias. Você ligava no final do dia, contava do trajeto, das conversas nas paradas para almoço. Quando chegou em Mariana cada palavra sua tinha desespero, que ecoava através da fiação que nos conectava. Você retornou e nada foi o mesmo.

Você por acaso me amou, Rosa? Nas salas de teu silêncio havia uma canção de despedida, marinheiros deixando a baía em busca de uma terra já perdida. Teus olhos escapavam dos quadros e fotografias, focavam apenas a distância até a saída mais próxima. Nas suas palavras residiam luto. Você foi se distanciando até nossa última manhã juntos. Fomos ao samba com sorrisos enormes, a cerveja descendo pela garganta com sabor de liberdade, você com teu vestido solto e leve, brincos pequenos suspensos nos teus lóbulos, no teu punho uma pulseira que comprei dos hippies, disseram que representava o amor. Depois, as janelas do carro vaporizadas por nossos suspiros longos, não tínhamos medo de um assalto, não nos importamos nem com os feirantes que montavam barracas enquanto nos amávamos. Fomos para um motel. Na banheira teus cabelos molhados brilhavam, você sorria, sim, sorria, eu querendo eternizar teu sorriso, teus olhos, suas manchas nas costas, teu cheiro. No início do dia seguinte, me levou para comer no teu café preferido, mas você não tomava café como eu, então pediu suco de laranja, e todo aquele amarelo, aquela luz, aquele ouro, reluzindo entre teu corpo e suas mãos. O porteiro do teu prédio já me conhecia, disse bom dia e sorriu, como se enxergasse em nós algum éden, ele conhecia meu nervosismo, o cigarro fumado em tragadas curtas, até você aparecer para me receber. Foi a última vez que eu o vi. A última que vez que eu a vi.

Nunca mais visitei sua rua, teu bairro. Quanto eu chorei, Rosa, você não tem ideia do quanto eu chorei. Minha mãe me consolava, você foi feliz, não foi meu filho? Guarda a boa memória, guarda esse amor com carinho. Não queria guardar nada, eu queria entender, Rosa, eu ainda quero entender. No mundo que eu vejo os movimentos precisam ter ordem, eu gosto de estabilidade, meu coração tem um sistema de amortecimento com molas. Tu não me ligava mais, não escrevia. Foi só silêncio. Rosa, se eu soubesse desenhar ainda poderia traçar cada linha da sua face, a calma de teus dedos, teus lábios tênues, teu cheiro Rosa, teu cheiro. Nossos amigos nada falavam, tentaram cuidar do meu desagravo com abraços, ligações na madrugada. E foram meses, Rosa, meses assim. Outras mulheres me olhavam com pena, uma disse que queria cuidar de mim, pois meus olhos naufragavam em devaneio.

Então, no carnaval, você me escreve Rosa. Dizendo que me amou, talvez ainda me amasse, mas precisou me abandonar. Tinhas teus propósitos, tuas causas. Tu sempre acreditou que poderia mudar o mundo, que precisava transformar teus privilégios em equidade. Não havia espaço para mim, o amor demandava, o amor é um bebê que quer cuidados, alimento, roupas limpas. Tu não podia. Talvez em outra vida, talvez em outro planos nós seriamos amantes por toda a vida. Eu não quero outros planos, Rosa, a morte é a morte. Aposto apenas naquilo que eu tenho. Eu tenho essa vida, esse amor. Rosa, ainda te gosto tanto.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

a noite e mais um dia, de Franklin Carvalho

“Aquela mulher, aquele demônio de anáguas, aquela bruxa…”
(Euclides da Cunha, Os sertões)

capa_ordemA forma errada de começar esta história é se perguntando quem é o soldado Pedro Expedito, quantos anos ele tem ou há quantos é policial. Não sabemos nada disso, porque ele também não sabe. Expedito parece muito novo, um garoto de dezoito anos com o corpo delgado e a pele e olhos variando de mel a castanho-escuro, a depender da estação do ano e de seus rigores climáticos. O cabelo, se o deixasse crescer além do corte militar repetido a cada semana com navalha, teria o castanho destes mestiços indígenas que são comuns em Uauá, minúsculo viveiro de gente no sertão da Bahia.

Uauá é terra que Pedro habita como um sonâmbulo. Ele nem sabe quando chegou à cidade, que fica numa das partes mais áridas do continente sul-americano. O soldado policia o pouco mato, a pouca população, policia o calor e as moscas e também não sabe porque o faz. Tampouco sabem dele os seus colegas de batalhão, inclusive os mais novos, trazidos recentemente de outras regiões para reforçar a guarda. Nem os superiores na capital lhe perguntam nada.

Estranham aquele morto-vivo, e não há só um esquisito como ele, mas três ou quatro iguais que compõem a corporação desde eras ignoradas, com farda renovada somente por força da norma. Nem adianta indagar por suas famílias porque eles, os sonâmbulos, não têm ninguém, e a única documentação sobre eles é composta por papéis desbotados. Como por encanto, porém, ninguém põe a mão sobre essa verdade. É que há mortos-vivos também nos mais altos postos das chefias executivas.

Esta não é ainda a parte mais grave da história. Preocupamo-nos com a saúde do soldado Pedro Expedito. Sem parentes, ele dispende quase todo o soldo pagando um quarto numa pensão antiquíssima, onde os seus colegas também estão instalados numa ordem de caserna, alimentados pelo rancho pálido que a proprietária fornece a par de algum adicional. Assim também com a limpeza dos cômodos. Só a lavagem e a goma das fardas aqueles homens fazem na pensão, por regra. Risque-se das demandas de solteiro as gripes, disenterias, infecções e ferimentos que aqueles homens não têm, são de ferro. Expedito, porém, é incomodado por terríveis pesadelos nas noites em que consegue dormir.

Ele sonha com casebres miseráveis de barro amontoados uns sobre os outros e encharcados por chuvas torrenciais, e famílias paupérrimas tremendo numa penumbra mal cortada por lampiões de querosene. Acorda no meio da noite e, sentado na cama, medita sobre o realismo daquelas visões, abalado como se já houvesse habitado tamanha miséria alguma vez. E não entende, dias seguidos aquele pesadelo recorrente, porque Uauá, mesmo sendo cidade pobre do sertão, não chega àquele extremo de degradação, de violência e de fome. As imagens dos sonhos parecem-lhe as periferias dos grandes centros urbanos brasileiros que ele vê pela TV da delegacia em que dá plantão, mas Pedro não conhece as metrópoles, isso está bem claro em sua memória, nunca viajou até elas.

* * *

As coisas vinham nessa marcha, assim mesmo desconformes, até o dia em que o soldado e alguns colegas foram chamados para resolver um desentendimento na zona rural, na fazenda de um grande proprietário. O patrão daquelas terras tinha despedido por desgosto uma trabalhadora que vivia ali havia tempos, cabocla que aparentava cinquenta anos de idade, os dois já não se suportavam. Existia muita mágoa na contenda e os outros peões da fazenda correram para defender o chefe, quase bateram na empregada. Vencida a animosidade maior, a viatura policial voltou à cidade carregando a mulher e suas poucas posses, ela desistida de qualquer revide, mas indignada.

— Esse povo está assim porque o patrão é padrinho deles. É meu padrinho também, e a gente respeita porque padrinho é a voz de Deus na terra. Isso é consagrado com água benta. Mas patrão e padrinho têm que merecer a consideração, para tudo há limites. Até o Rei Saul, que era ungido de Deus, foi repugnado.

A equipe a bordo ouvia aquela rebelde com senso de muar, feliz por voltar à base no horário regular do expediente. Não havendo queixa a se registrar, deixaram-na pelo caminho, em alguma rua mais pobre onde disse ter parentes. Finalmente, o carro dispensou os homens na delegacia já no fim da tarde de verão, que escurecia pelo crepúsculo e pela formação de uma tempestade funesta.

Mais tarde, na pensão, veio a ração de todas as noites, pão duro e sopa de restos do almoço. Nenhum rádio, nenhuma televisão. Lá fora a chuva barulhava tão terrível quanto aquelas que Pedro Expedito via em seu sonho, cheias de raios. Como sempre acontecia, às oito horas todos naquele ambiente sem diversão se recolheram e ele fez o mesmo. Quando o soldado foi entrando no seu quarto, no entanto, uma lufada de ar frio lhe cortou a passagem e o despertou para uma lembrança da tarde, do rosto da mulher conduzida; e uma palpitação sacudiu o seu coração. Descorado, sentou-se imediatamente na rede que cruzava o cômodo e se deixou ficar ali, algum remorso por não ter ajudado aquela dona, algum não entender desse remorso, até que apagou. No abafamento que era o geral da noite suava as roupas domésticas puídas, mas caiu no sono de pedra.

Teve novamente o pesadelo dos casebres com as mesmas cenas, com muitas mulheres enroladas em trapos negros abraçadas 84 85 a crianças nuas, raquíticos mães e filhos, mas daquela vez havia um odor de podridão que nunca tinha sentido, um barulho de bombas e de tiros que nunca tinha ouvido, a água lhe molhava e Pedro Expedito acordou. Acordou muito bem desperto, vendo tudo com uma nitidez incomum na sua vida sem datas. Acordou num campo de guerra, e sabia exatamente o que estava fazendo.

Estava com outros policiais e soldados do exército marchando na lama dentro da noite, e todos usavam armas muito antigas. A farda da tropa tinha se reduzido a farrapos depois de os homens se debaterem no labirinto dos becos e nos barracos cheios de armadilhas. Os militares, exaustos, lutavam contra os moradores daqueles casebres, um povo ainda mais esgotado, mais faminto e mais exasperado que eles, mas que resistia usando galhos de espinheiros, trastes incendiados e armas caseiras.

Pedro também se recordou de que não estava numa dessas periferias urbanas modernas, nem caminhava nos dias atuais. Ele pisava o solo encharcado de uma noite tempestuosa na guerra de Canudos, nos seus últimos dias, em outubro de 1897. Assaltou-lhe então o desespero, seu e dos homens que, transportados de vários lugares para a batalha, topavam ali com a resistência dos habitantes do local, dispostos a lutarem até a morte na tática de tocaias e ciladas.

O objetivo das tropas era justamente abafar o povoado que em poucos anos havia surgido e se dilatado com milhares de habitações. A cada semana chegavam no local muitas levas de migrantes miseráveis em busca da redenção espiritual prometida por Antônio Conselheiro, messias alucinado que ponteava em Canudos. Lavradores, ferreiros, beatos, carpinteiros, artífices e loucos, despossuídos e desocupados queriam também beber da solidariedade de uma congregação completa, e convergiam com seus últimos recursos e ferramentas para uma vida comunitária em torno da religião. Tomados por perigosos, párias, sub-raça e desordeiros, foram atraindo progressivamente a inimizade e a perseguição dos senhores da terra e do gado das vizinhanças, dos burocratas, da imprensa, do poder político e dos militares Brasil afora.

Ao se ver naquela noite de chuva da guerra — ele não estava sonhando! — Pedro Expedito sentia o cansaço verdadeiro de um soldado em batalha. Andava com outros companheiros para um dos postos militares que ficava no morro da Favela, ali em Canudos, enquanto ruminava um episódio marcante daquele confronto. À tarde havia chegado no acampamento um grupo de trezentos prisioneiros, somente mulheres, crianças e velhos que resolveram se entregar às forças do estado, todos em condições lastimáveis. O exército acreditava que aquela rendição era outro ardil, servia somente para aliviar os combatentes de Conselheiro e gerar sobrecarga aos batalhões fardados.

Perambulando pelas ruelas, encharcado, silencioso e perdido, o soldado meditava na situação dos trezentos prisioneiros, porque ele já sabia que o exército não admitia cativos. Pelo contrário, todos os inimigos que caíam eram executados das formas mais cruéis, fosse por vingança, fosse por desprezo, fosse porque havia gente fardada que se comprazia em matar, e os generais não se importavam com o expurgo.

Pedro Expedito não fazia aquilo, matar pessoas detidas. Nem assistia às execuções, mas todos os soldados sabiam como elas eram feitas e quem as praticava. Ele tinha interesse naqueles casos porque guardava a recordação dos rostos deformados, dos olhares torturados, dos corpos secos, da muita gente que vira tombada pelas cercanias. Após tantos meses de guerra, também temia que o horror, partindo dos seus, partindo dos contrários, se desatasse ainda mais atroz, e o fizesse perecer absolutamente em vão.

Para não sucumbir àqueles pensamentos tão duros, Pedro Expedito afrouxou a camisa na gola. Chovia mas era outubro, fazia calor, e ele olhou para cima esperando alguma fresca. Foi um momento de feliz distração, um rápido desafogo, mas o venceu um 86 87 tiro errado, uma bala perdida cruzada no seu abdome. Impossível saber de onde partira o projétil, porque àquela altura havia disparos de todos os lados, com armas dos mesmos tipos, que uma das partes do conflito tomava da outra.

* * *

O soldado acordou em sua rede na pensão, muito assustado. Passou a mão por dentro da camisa e percebeu na lateral esquerda, à altura do umbigo, uma cicatriz que nunca notara ali. Entendeu que não havia sonhado, não era como das outras vezes. Estava lembrando. Recordava fatos de mais de cem anos e tinha sobrevivido aquele tempo todo sem nenhum estremecimento, sem qualquer ventura ou mínima delícia, nem mesmo uma pequena dor que alterasse a sua rotina.

O mais estranho é que continuava morando no mesmo sertão, não mais em Canudos, não. Canudos, após o desastre da guerra, havia se despovoado e depois renascera como uma pequena cidade pobre. Uauá, o lugar em que Pedro Expedito passava aquele transe mais de um século depois, ficava a apenas sessenta quilômetros do antigo campo de batalha. No entanto, ele nunca se perguntara sobre o conflito em torno de Antônio Conselheiro e seus seguidores, nem cogitara estar ali, tão próximo, a origem e o cenário dos seus pesadelos. E nunca fora visitar Canudos, ao contrário de muitos pesquisadores e turistas que atravessavam Uauá em direção ao sítio histórico da guerra.

Sentado ereto na rede, só uma réstia de luz invadindo o quarto por uma fresta na janela de madeira, o silêncio eterno lá fora, Pedro Expedito sentiu um frio intenso abraçá-lo. Lembrou-se da sensação que teve ao levar o tiro, como se um animal peçonhento, ao fisgá-lo, espalhasse fogo e gelo fatais no seu sangue. Procurou controlar a respiração cada vez mais intensa, que lhe vinha como soluço. Então se lembrou do chamado policial da tarde anterior, que o colocara em contato com a empregada despedida da fazenda. Veio-lhe tudo à mente, como se o veneno do animal peçonhento tomasse também o seu cérebro. Conhecia aquela dona de muito tempo.

Ela também tinha sido prisioneira em Canudos, mas não do grupo dos trezentos. Fora detida sozinha em pleno combate, dias antes daquela massa famélica se entregar. Na ocasião, não estava disposta a facilitar o interrogatório. A tudo respondia não saber e, tomada de sereno desprezo, despejou uma maldição quando a fustigou o general da campanha:

— Vocês não estão aqui para prender. Vocês é que são os presos de Canudos. Não serão capazes de voltar para casa, como os soldados que vieram antes. E mais, ficarão todos cegos, tateando por estas terras!

Pedro Expedito sentiu-se desmanchar como uma rocha que o tempo varresse, erodindo. Por que ele tinha vivido tanto tempo? Para ver a miséria de Canudos se espalhar por todo o país, todo o continente, em outros conflitos e periferias batizadas de favela? Para assegurar-se que aquele caos, aquele traçado torto, aquela precariedade iam se manter, restando salvos e protegidos sempre os mesmos donos de tudo, atrás dos mesmos muros, atrás dos mesmos guardas?

Então notou que havia mais perguntas do que ele poderia resolver, como uma espiral, como um redemoinho, e sua vista se turvou completamente. Mesmo assim se sentia aliviado de alguma forma, esvaziando-se, vomitando ali na rede uma lama antiga que preenchia a sua boca desde o dia em que caíra baleado em Canudos. Havia de tudo na lama, ensinamentos sobre Deus, manuscritos de ordens militares e recortes de jornais com notícias inventadas sobre a guerra. E havia a fuligem de corpos humanos, de animais e da flora incendiados.

A voz da dona rebelde também não saía do pensamento do soldado, e ele resolveu procurá-la imediatamente e lhe fazer todas as perguntas que lhe surgiam em torrente. Por isso levantou-se, 88 89 mesmo com dificuldade, mesmo sem conseguir enxergar, e foi apalpando as paredes em direção à rua, onde tentaria encontrar aquela mulher. Não deixou, porém, de regurgitar mais lama envenenada pelo caminho. A cada minuto daquela marcha torpe sentia-se mais leve ainda, cuspindo uma grande mágoa, descobrindo por si mesmo todos os mistérios, quebrando um encanto, uma maldição antiga, vivo novamente.

Mas ao se perceber ao ar livre, com a chuva e o vento golpeando-o, desistiu. Ficou de repente abismado porque a cegueira o envolvia ainda mais e o afastava do mundo, e também o afastava da memória. Acreditou que seria inútil procurar pessoas que deveriam estar tão perdidas quanto ele, antigos soldados e prisioneiros sem paradeiro, sem nome e sem rosto, que os livros de História nem sequer lhes reservara lugar, eles cegos também. Ali mesmo, na porta da pensão, nem mais conseguia recordar as faces dos seus companheiros e da mulher rebelde que alterara o seu cotidiano na véspera, ela era só uma voz a perturbá-lo.

Pedro Expedito voltou ao seu quarto e procurou dormir, mesmo incomodado porque sentia a rede rançosa, impregnada do odor acre de suor. Antes de adormecer, pensou em reclamar do fedor com a dona da pensão no dia seguinte. Foi o que fez.

Embora tenha acordado muito cansado, mal lembrando-se de algum pesadelo com o velho tema recorrente, embora enxergasse o seu quarto asseado, como a dona da pensão sempre o mantinha, ao sentar-se na copa para tomar o café matinal ele a chamou e pediu que quarasse e lavasse a rede e as cobertas. Ela não se opôs, tinha um enxoval sobressalente na casa para emprestar aos hóspedes em situações como aquela.

Isso resolvido, Pedro Expedito foi trabalhar. Em seu caminho até a delegacia, o sol fazia o mormaço saltar da terra molhada pela chuva da véspera.

| conto da coletânea A ordem interior do mundo (Editora 7Letras, 2020). |

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

um cachorro vê os homens, de Beatriz Thibes

percebem que o silêncio se parece com a morte. silenciam de várias formas: uns morrem de desastre, alguns vão pro convento, outros se suicidam. estão sempre próximos à crueldade. raramente se organizam de forma a cantar o amor e a carne. chegam a sentir profundamente mas logo criam um método de punição. a vida acontece sempre com a morte. na morte. estranho segredo. eles guardam estranhos segredos e vivem sussurrando. alguns. outros gritam. os que gritam obrigam o sussurro.

girei várias vezes, sem poder respirar. é possível que ele tenha achado que eu dançava: olhos fechados, a nuca aberta: a vida já não era boa nem má. acontecia. a vida das gentes vez em quando acontece. dançar de olhos fechados. acontecer não é isso?

ele acontece sempre em sua impermanência. no mais das vezes prefere certeza nenhuma às certezas gravemente mornas. hans dançava bem, e isso me causava um desconforto. ele parecia de antemão estar em constante queda, serpenteando o rabo pra solidão. eu, ao contrário, era possível que ao cair meu rosto fitasse o inferno.

de olhos fechados, girei várias vezes. girei de olhos fechados pra não dar de cara com os olhos de hans. pela morna certeza de que se eu caísse ou tropeçasse, ele saberia se meu desequilíbrio se parecia com a morte ou com a vida. e eu saberia, pelos olhos dele, se estava a viver ou a morrer. olhar pros olhos de hans era mirar o inferno. era ser o inferno. abri os olhos. abri os olhos de vergonha da solidão. quem suporta sem nenhuma vergonha a solidão? mas quem sabe eu também tinha outras razões. tropecei uma vez, outra vez. olhei pra hans de raiva.

ele me olhava de volta com um olhar de surpresa por sermos cúmplices. solidão com solidão. ele sabia coisas a meu respeito — esses olhos de quem não sabe que vai morrer, de quem não aprendeu a morrer. eram meus esses olhos. eu não sabia morrer. eu não sabia viver: insulto maior.

lindo e miserável, hans me convidava a toda essa esquisitice de conviver bonito com o quase. com a ideia de ser feita pra acabar. eu não desejava isso, como numa espécie de contradição viva, eu não desejava a queda, a perda, o intratável. abri os olhos também por isso: perversão. arrogância. eu queria ser mais do que eu.

praticam a ação sobre-humana de se por de pé. não se sentem livres pra fracassar. fracassam e morrem. morrem de medo. silenciam também por isso: medo. começam assim e terminam por não saber viver, quase sem querer.

hans era a favor do medo. ele era a favor de sentir até o último fim — até que se possa nomear — o que permaneceria apenas vago e sufocador. de repente o medo é isso: o desamparo de estar vivo. sufocador ainda, mas menos vago. ou quase. ser a favor do medo é procurar entender esse desamparo. hans me olhava sabendo mais do que eu a prática do acontecer das coisas. maldita a fé, maldita a esperança e mais maldita ainda a paciência.

fechara os olhos pra não dar de cara com as mãos sem linhas. dançava! manca! com todos os medos! dançava, ainda assim, por isso mesmo. no enquanto: se dança e se cria a véspera. se cria. tem de haver um caminho. ajoelhou. ia rezar. mas logo se cansou de estar apoiada nos joelhos e se apoiou também nas duas mãos. maldita a fé. estava de quatro. apoiada nas mãos sem linhas, com todos os medos. maldita a esperança. assim ficou um tempo, com certeza nenhuma, nem mesmo as mornas. entre insatisfação e liberdade.

mais insatisfação que liberdade. morrer buscando lugar. agora sabemos, sempre soubemos. a morte é lugar nenhum. a vida é lugar nenhum. olhou pra hans de raiva. merda! vamos morrer, hans, vamos morrer um pro outro. solidão sem solidão. vamos morrer um do outro.

cada vez mais, eu não sei pra onde. eu não sei pra onde estamos indo. descer e depois? hans late fazendo elegia. a morte é tanto lugar

59.745 pessoas, hans. cinquentaenovemilsetecentasequarentaecincopessoas. por desastre. vê? a morte é tanto lugar — e não chateia os imbecis e não insulta os arrogantes. desastre? onde será que isso começa? será que termina?

abdicando de ser cão, passou à humanidade: detestava a morte. e eu, eu queria poder ver as coisas como um cachorro vê, ou via. essa era a minha vontade: não detestar a morte. eu queria não detestar a morte. hans se dizia com os olhos: schatten! dizia-me.

eu tentava dizê-la com o corpo

como dizê-la? como dizer a morte?

* * *

estava de quatro. apoiada nas mãos sem linhas, com todos os medos

talvez ele não tivesse abdicado de ser cão. talvez fosse ele assim meio gente meio bicho, daqui. cá da ideia de deus. maldita a fé, maldita a esperança e mais maldita ainda a paciência.

* * *

tem sido difícil acreditar que estaremos vivos. tem sido difícil acreditar que estamos vivos. estávamos?

* * *

hans, enrolado em si mesmo, adormeceu. vez em quando é bom que se feche os olhos. não ficar por cá, voltar à delicadeza. inaugurá-la talvez. levantei-me, eu dançava, tentando imitar o festival de afetos que é a vida. a solidão, aquela solidão-movimento, o corpo-véspera, as mãos sem linhas — (des)acariciando o mundo. assim não foi?

entre sono e vigília, inventávamos histórias, no de repente — o corpo-voz. nós, entusiasmados e vivos e sonhados. aprendendo a viver na verdadeira dignidade. inventar histórias é aprender a viver na verdadeira dignidade.

o amor pelo mundo voltara, girou várias vezes: ela se olha com o que a vida (ainda) tem de movimento — se equilibra. se desequilibra, aproveita o gesto: dança. contra a realidade, por ela — há o sonho. o corpo — seguindo as próprias ideias

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um truque que drible o real e o devolva na medida em que faça viver

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um movimento, inteiro e instantâneo, que disfarce a espera

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descansar sem muita pressa, eu e você — comungando a falta de sentido de tudo

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esperar sem muita pressa

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setentaecincomilquinhentasevintetrês, ele me diz. eu perdi a noção dos dias. eu perdi a noção do tempo. perdemos a noção. não estamos vivos. não sabemos estar vivos. a gente chega a não detestar a morte?

a gente não chega a não detestar a morte, aprende a dizê-la

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hans sou eu

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129.575 mortos, centoevinteenovemilquinhentosesetentaecincocorpos, anuncia a tevê em menos de nove segundos.

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a vida, ilimitada e impossível, nos despedaça

tudo será difícil de dizer

Beatriz Thibes é graduada em Letras (português-francês) pela Universidade de São Paulo (2018). Estudou na Université Paris-Sorbonne IV (2016). Cursou o Clipe-Poesia (Curso Livre de Preparação do Escritor), oferecido pela Casa das Rosas, em 2017. Atualmente é professora de francês.

cruzadismo, conto inédito de Sérgio Tavares

Selmo e Regina estavam casados há trinta anos. Ambos aposentados por tempo de contribuição no segundo governo Lula. Selmo fizera carreira na gerência de magazines, depois de ser exonerado do serviço público pelo Plano Collor. Trabalhou na Sandiz, na Mesbla e passou treze anos na chefia do SAC da C&A. Regina era pedagoga. Logo que tirou a licenciatura, foi contratada por um colégio particular de classe média alta e lá ficou por toda sua vida profissional. Era conhecida como tia Rê. Escreveu um manual sobre a construção do pensamento na pré-adolescência, publicado por uma editora anã, cuja tiragem foi toda comprada por amigos, parentes, pais e alunos. Com o resgate do 1. □□□, Selmo e Regina deram entrada no primeiro apartamento, com financiamento do Banco do Brasil. O restante aplicou em duas poupanças: uma para cada filha.

Cláudia era a mais velha. Formou-se em Biologia pela UFF, e agora trabalhava para uma 2. □□□ que administrava ações socioeducativas para crianças 3. □□□□□□□□□□□ e em áreas de manguezais. Por conta disso, foi morar em 4. □□□□□□□□. Eliana sempre foi rebelde. Viveu, na adolescência, o surgimento do movimento grunge, que levou quinze anos para superar. Pintou o cabelo de verde, usava camisões de flanela e coturno num verão tropical de quarenta graus. Fumava demasiadamente e se sustentava com empregos curiosos. Até que sofreu um acidente automobilístico e saiu do coma dizendo ter recebido um chamado. Mudou-se para o Canadá onde, de acordo com fotos que mandava, por e-mail, para os pais, ingressara numa comunidade religiosa que acreditava na Segunda Vinda. Também casou-se espiritualmente com um 5. □□□□□□□□□.

Sozinhos, num apartamento de dois quartos e uma varanda ampla, Selmo e Regina passaram a cumprir hábitos. Faziam o desjejum juntos, liam o jornal e almoçavam. À tarde, Regina sentava para escrever uma série de romances policiais há dez anos engavetada, enquanto Selmo 6. □□□ se concentrava na pintura, ora na jardinagem, ora em passatempos. À noite, assistiam uma série ou um filme na Netflix e dormiam. A exceção eram os sábados, quando chamavam um Uber e iam comer pizza e tomar vinho. Em algumas datas especiais, tinham encontros íntimos. Mas, agora, resumiam-se a carícias e chupamentos.

Então teve início a pandemia do Covid-19. Selmo e Regina se assustaram, por serem do grupo de risco, mas não embarcaram na loucura do papel higiênico e do álcool em gel. Enfrentaram o 7. □□□□□□□□ com parcimônia, fazendo compras por delivery, que higienizavam com água e sabão, depois espirros de álcool setenta graus. Selmo aprendeu, com vídeos de receitas no Youtube, a fazer pão e massa de pizza. O recorte do mundo que viam era a vista da varanda. Baixaram aplicativos de banco no celular, passaram a fazer exercícios e meditação, assistiam lives, tomando cerveja. A grande preocupação era com as filhas, sobretudo com Cláudia, que vivia no Norte do país, onde se concentrou altos casos de contágio e morte. Mas estavam bem, 8. □□□□□□□; falavam-se por Whatsapp duas vezes por semana. De resto, era o isolamento.

Quer dizer, tinha os hábitos. Selmo até tentou, esquivou-se de um e 9. □□□□□, mas havia um costume que, para ele, era insuperável. Todas as manhãs, bem cedo, saía de casa para comprar o jornal. E não era tanto pelas notícias, e sim pelas palavras cruzadas. Uma mania de longe: sentar-se à mesa do café e resolver o puzzle. Então, quando tudo fechou, enviou um zap ao jornaleiro, pedindo que deixasse a edição do dia com o porteiro, que, avisado, depositava-a sobre o capacho. O pagamento era feito via transferência bancária, cobrindo os custos mensais. Regina vestia as luvas de plástico, a máscara e pulverizava os cadernos, um a um, com lysoform, antes de entregá-los a Selmo. A chaleira àquela hora já estava piando, então era só escaldar o pó, sentar-se e dar início ao ritual.

Naquela manhã, o tempo estava negro. Temperatura sufocante, ar irrespirável e ventos fortes varriam todo o país. Selmo colocou sua caneca fumegante sobre o tampo de madeira e iniciou a leitura. Na manchete da capa, o presidente declarava que, diante da marca de cento e cinquenta mil mortos, a pandemia tinha sido superdimensionada. Regina pediu uma parte, mordeu uma torrada com brie e leu que o vice-presidente elogiava um 10. □□□□□□□ torturador da ditadura. Selmo, a essa altura, tinha passado os olhos na editoria de esportes e abria o Segundo Caderno, afoito pelas palavras cruzadas, que mal percebeu que uma 11. □□□□□□ tinha sido repreendida e proibida de se manifestar contra o governo. Enquanto Regina lia que o país voltava a figurar no mapa da fome, ele tinha preenchido metade dos quadradinhos. Até que…

BO□□□□□□O, fazia alguns segundos que Selmo tinha travado nessa. (pústula, deslustre, mancha), ele não conseguia desvendar. Pulou para uma transversal. (organização de homens armados que não integram o exército de um país) MILÍCIA, o L encaixava. BOL□□□□□O, nada ainda. Chamou Regina, que olhou, frisou a testa e saiu para encontrar o dicionário. Selmo completou mais uma palavra e, agora, encaixa ali um S. Regina retornou, de cabeça baixa, lendo: tumor, aquilo que é doente na sociedade, corrupção, pessoa de mau caráter, de hábitos infames, de conduta perniciosa. Selmo encaixou mais um O na palavra, quando se deu conta de que o L estava na posição errada. Ferida, bostela, continuava Regina. E se olharam: BOSTELOSO, gritaram juntos. Brindaram com suas canecas de café quente e sorriram.

Cumprido o mais grave dos hábitos, Selmo e Regina terminaram o desjejum dividindo um mamão papaya. Não precisam fazer o almoço, pois tinha sobrado, do jantar da noite anterior, metade de uma lasanha cuja receita pegaram do programa da 12. □□□□ □□□□, no GNT. Selmo, então, foi cuidar da sua hortinha, enquanto Regina tirava a mesa e organizava a louça. Em seguida, ela embrenhou-se no sétimo volume de sua série policial, no qual o delegado investigava um esquema de corrupção, onde um laranja depositava cheques na conta da esposa de um 13. □□□□□□□□□□ político. Tinha uma queima de arquivo ali, em algum lugar. Ou mais de uma.

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palavras_cruzadas

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, e Queda da própria altura, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

germes, de Tiago Germano

TIA ALINA ERA GERMOFÓBICA.

“Você sabe sua tia como é, cheia de frescura.”

Era a frase que eu mais ouvia antes de me mudar para sua casa, na época da faculdade.

O que, para o resto da família, era frescura, para tia Alina era “protocolo de higiene”.

“Pro-to-co-lo”, ela repetia, entrando pela porta dos fundos, colocando o jaleco na máquina de lavar e se enfiando embaixo do chuveiro.

Porque tia Alina era médica. E não era médica de consultório não. Tia Alina trabalhava num dos maiores hospitais da rede pública de saúde.

Imagine agora um carcereiro claustrofóbico ou um piloto de avião com medo de altura. Esta era a tia Alina. Se as suas manias de limpeza surgiram antes ou depois da profissão, disso nunca soube. O certo é que tia Alina era daquelas que lavava até as roupas novas antes de usá-las, e viu meu primo caminhar a muito custo, sem nem ter aprendido a engatinhar direito, já perto dos dois anos, porque ela simplesmente recusava-se a colocá-lo no chão.

“Tente ser cuidadoso”, minha mãe recomendava. “Não vá me fazer vergonha na casa dos seus tios.”

E eu bem que tentei.

Mijar sentado foi a minha primeira providência. Era uma mudança de hábito justa, visto que o quarto onde fui hospedado não tinha banheiro próprio e eu precisaria usar o do corredor, destinado às visitas. Eu tomava todas as precauções para manter a privada sempre limpa, e devo confessar que mais de uma vez me aliviei no chuveiro, durante o banho, só para evitar o ritual de desinfecção que tantas vezes me atrasou pela manhã, antes de sair para a faculdade.

Foi o meu primeiro tropeço.

Tia Alina não perdoou. Sentiu o cheiro atípico vindo do ralo e me chamou a atenção em plena mesa do almoço. Eu havia de convir que aquela não era mais uma questão de frescura ou de higiene da parte dela, mas de preguiça e falta de educação de minha parte: até o cachorro sabia o lugar certo de mijar naquela casa. Só não achei justo que ela precisasse fazer comigo o que fez com o bicho quanto era ainda um filhote, esfregando o mijo na minha cara assim, na frente de todo mundo. Terminei a refeição curvado sobre o prato, em perfeito silêncio. Rejeitei o suco de laranja, aquele líquido âmbar que debochava da minha falta e não me ajudaria a engolir o bolo de vergonha que se formou na minha garganta. Meu tio e meu primo me olhavam num misto de constrangimento e cumplicidade — ela havia aproveitado a ocorrência para passar um sabão também neles, que por vezes incorriam no mesmo vício. Dei minhas últimas garfadas e pedi licença, me trancando no quarto por todo o resto da tarde.

Não ousei usar o banheiro naquela noite.

Na manhã seguinte, tomei meu banho e deixei para fazer minhas necessidades nos banheiros da faculdade, nos reservados imundos usados por animais como eu, que não sabiam o lugar certo de mijar. O controle que eu tinha com a minha bexiga eu não tinha com aquele recente trauma, que me perseguiu por todo o resto da semana. Almoçava na casa da minha tia e logo voltava para o campus, passando as tardes e as noites na biblioteca só para ter onde fazer xixi. Foi assim durante todo o semestre. Só usava o banheiro da casa para tomar banho e escovar os dentes. Nos fins de semana, trocava o banheiro da biblioteca pelo do shopping, que passei a frequentar com o mesmo intuito de atender o chamado da natureza. Mapeei todos os assentos sanitários da cidade e mal parei em casa naquele ano.

Meu lugar vazio na privada, obviamente, se fazia menos notado que o meu lugar vazio na mesa das refeições. Minha tia atribuía minha ausência ao empenho nos estudos e reluzia de um orgulho que brilhava como os azulejos do banheiro, nunca antes tão limpos. Nossas discordâncias só voltaram a aparecer, como manchas de mofo no mármore da pia, num dia em que fui ao banheiro renovar meus suprimentos de papel higiênico (não era sempre que tinham rolos nos banheiros da faculdade), e encontrei jogado no cesto de lixo o copo de vidro com o meu suco.

Eu havia levado aquele copo para o quarto meses atrás, quando tia Alina me obrigou tomar o suco de laranja com cenoura que fez para reforçar a imunidade e eu aleguei um refluxo para me livrar de beber aquilo na frente dela. No quarto, não hesitei em atirar o líquido pela janela, ignorando o faro comprovado de tia Alina, que na certa seria capaz de identificar o odor entre as plantas. Ela não era muito de sujar as mãos na terra do jardim, no entanto. Eu nem me lembrava mais daquele copo, que havia ficado largado ao pé da cama, quando consegui comprar um laptop com o dinheiro de minha primeira bolsa de iniciação científica e o advento da internet tornou minhas necessidades fisiológicas um pouco mais… urgentes.

E distraídas.

Tia Alina não ousou me recriminar de novo. Talvez por ser algo que envergonhasse a mim, claro, mas também a ela, muito mais que o outro delito que até seu marido e seu filho já haviam cometido, e ela não soubesse nem como começar a abordar aquele tipo de coisa, num pito na mesa do almoço ou mesmo numa conversa particular. Mas o copo com meu suco estava lá, na cesta de lixo do banheiro das visitas. Não deixava de ser uma espécie de recado unicamente direcionado a mim. Imaginei o nojo de tia Alina, apanhando aquele copo com a ponta dos dedos e levando até o banheiro. Teria ela pensado em lavar e reutilizá-lo, antes de jogar no lixo?

Passei a evitar olhar tia Alina nos olhos.

Até porque, a partir deste episódio do copo, as suas preocupações com a higiene do corpo passaram a integrar um projeto muito mais amplo: o da higiene da alma. Cristã fervorosa que era (como aliás eram o meu tio e agora o meu primo, recém-matriculado na escola dominical), tia Alina passou a reivindicar minhas idas à igreja junto com a família.

“Você tem que obedecer as regras da casa”, dizia meu pai ao telefone.

E de novo: eu bem que tentei.

Fui expirar meus pecados no culto e logo percebi o empenho que a minha tia exibia na regência do coral, solicitando das vozes a mesma limpidez que ela tentava imprimir na sua, pigarreando, preparando a garganta para os cânticos e louvores dirigidos ao seu Deus. A imagem de tia Alina de olhos fechados, com uma mão pinçando o microfone e a outra se desenvolvendo no ar, marcando o compasso das canções, me revolvia o estômago com uma sensação que na época eu julgava ser o bolo da minha vergonha, gradualmente, se dissolvendo.

Afinal, eu vencera o constrangimento e estava lá com tia Alina: sendo um bom sobrinho, sendo um bom cristão.

O pastor começou o testemunho e senti uma nova pontada no estômago. Perguntei ao meu tio onde era o banheiro — no templo divino haveria de ter um trono reservado à obra de seus pobres fiéis. Meu primo me levou até os fundos. Por hábito, sentei na privada (imaculada como a do banheiro de tia Alina, bem diferente daquelas da universidade, às quais eu já me acostumara), mas logo estava ali ajoelhado, como um santo, vomitando todo o almoço daquele domingo. A náusea não era o bolo da minha vergonha diminuindo e sim aumentando, se misturando ao testemunho que ouvi do pastor naquele dia e aos sermões de tia Alina, reproduzindo suas opiniões na mesa do almoço sobre a sujeira dos homens aos olhos de Deus.

A germofobia de tia Alina passou a flertar com muitas outras fobias que, entre os amigos que fiz na faculdade de jornalismo, eu tinha vergonha de confessar. Recusava as caronas que ofereciam para ir ou voltar da universidade. Tive que abandonar a casa de tia Alina e me mudar para uma república antes de me tornar um outro tipo de pessoa, no momento em que ela percebeu que seu projeto de limpeza espiritual não surtiria efeito numa alma suja como a minha.

Voltei ainda um par de vezes à sua casa, já como visita, e não consegui nem usar o banheiro novamente nem beber o suco de laranja que ela oferecia durante as refeições. Tia Alina nos reunia em torno da mesa, nos convidava a agradecer ainda de pé a Deus, pelo alimento, e assim que nos sentávamos eu esperava que ela revelasse os meus segredos, mencionasse a urina durante o banho ou o copo cheio do meu suco, me ridicularizando diante de toda a família enquanto nos servia uma travessa de salpicão.

Demoraram alguns anos até que eu esquecesse de toda essa história, e foi preciso que o mundo enfrentasse uma pandemia para que eu finalmente passasse a julgar tia Alina com um pouco mais de condescendência. Sua casa deveria ser atualmente o lugar mais seguro do mundo, eu pensei, e me revolvi na lama de um cinismo que insistia em ignorar que, como profissional de saúde, tia Alina estaria agora na linha de frente contra o vírus, provavelmente salvando vidas, enquanto eu podia me dar ao luxo de trabalhar em casa, escrevendo textos que ninguém leria enquanto estivesse ocupado na tentativa de sobreviver.

Quando, na reunião de pauta do jornal via Skype, sugeriu-se uma reportagem sobre as estratégias de confinamento de médicos como tia Alina, não hesitei em fornecer o seu contato para a colega escalada para a matéria. O texto, no entanto, saiu na semana seguinte sem as aspas da minha tia.

Não precisei consultar minha colega para saber o porquê.

A imagem de uma tia Alina ajoelhada diante de um quartel do exército já circulava há alguns dias nos grupos de WhatsApp mais inflamados da família. Era impossível não reconhecer tia Alina, que tantas vezes havíamos visto de máscara cirúrgica, orando junto com as suas colegas de igreja, protestando contra a quarentena e a democracia. Tia Alina trocara a ciência pela religião e pela política, com a mesma facilidade com que abandonara o jaleco branco e agora trajava a camisa da seleção brasileira de futebol, com a bandeira da pátria amada amarrada no pescoço.

Revi o vídeo muitas vezes. Sua condição de funcionária de um hospital da rede pública de saúde nem chegava mais a ser uma ironia, segundo os parentes que consultei: tia Alina há muito vinha fazendo da sua posição de funcionária concursada a principal bandeira contra o SUS e contra as corrupções de um sistema que, dizia ela, conhecia por dentro. “Deixando inclusive de cumprir a carga horária dela pra ficar militando no Twitter”, criticava um primo mais exaltado, no chat privado.

Na imagem pausada na tela do meu celular, por entre os fios ainda loiros da sua franja e a máscara caseira, fabricada com um tecido verde e amarelo, eu via os olhos azuis de tia Alina bem abertos.

Eles não exibiam traço algum de vergonha.

Tiago Germano é autor do romance A Mulher Faminta (Editora Moinhos, 2018) e da coletânea de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), vencedora do Prêmio Minuano de Literatura e indicada ao Jabuti. É mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e foi bolsista do Programa Institucional de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da University of East Anglia, na Inglaterra, por onde passaram o Booker Prize Ian McEwan e o Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro.

fantasmas, de Veronica Stigger

O que se vestia de bailarina virou polícia; o que tinha ideias revolucionárias, também; a que lavava o cabelo com leite, advogada de causas perdidas; o comunista, carola; o de língua presa, chef; o mais pirado, dono de pizzaria; o que viera do centro do país, agrônomo; o bonitão da turma, médico em Estrela; a que amava os esportes, vegana; a de rosto redondo, arquiteta; o ruivo, também; o que não tinha os mamilos, contador; o que não brigava com ninguém, publicitário; a que brigava com todo mundo, técnica do Tribunal de Contas da União; o que misturava lambada com Frank Sinatra, ginecologista; a mau caráter, escritora; o discreto, fotógrafo; a fofoqueira, tabeliã; o atencioso, como era de se esperar, professor; a Branca de Neve, proctologista; a que quase não falava fugiu para a Austrália; a crespa alisou os cabelos; o liberal continuou liberal; o grandalhão está estudando húngaro; o piadista ainda sonha em ir para a Tailândia; o que tinha cabelo de Príncipe Valente, para o Canadá; os dois que tinham doenças congênitas morreram aos 30 e aos 44 anos respectivamente; há ainda o que comprou uma casinha numa praia em Santa Catarina; o que se perdeu na Patagônia; o que vai sempre esquiar em Bariloche; o que foi morar na China; a que se escondeu em São Paulo; o que foi parar numa capital do nordeste; a que se encontrou em Brasília; o que se mudou para o interior do Rio Grande do Sul; o que voltou a morar com os pais; o piloto de avião; a ecologista; o bancário; a dentista; a defensora dos animais; a cuidadora de velhinhos; o gerente da loja de eletrônicos; o diretor da firma; o analista de sistemas; o engenheiro; a esportista; o treinador de futebol; as arquitetas; os arquitetos; as advogadas; os advogados; a professora universitária; o professor de línguas; a herdeira; o mendigo. E havia o Sandro, de cujos rosto e sobrenome ninguém se lembra, mas que, durante muito tempo, se sentou ao meu lado nas aulas.

Veronica Stigger é escritora, crítica de arte e professora universitária. Tem doze livros publicados. Entre eles, estão Opisanie świata (2013), Sul (2016) e Sombrio ermo turvo (2019).