o assédio, de Cecília Barreira

Entrara na empresa. Estava feliz. Não era mal paga. Era a mais nova dos trabalhadores.

Foi apresentada ao chefe.

Já devia ter os seus cinquenta anos. A barriga consistente abria-se à medida que os cabelos ralos mostravam a careca oblonga.

Maria queria fazer tudo bem.

O chefe exigia que ela ficasse a trabalhar com ele no fim do expediente.

Ela achava natural, apesar de cansativo.

Começou por lhe fazer perguntas pessoais.

Ela, tímida, não abria jogo.

Respondia com um sim.

Depois pretendia levá-la a casa.

Mentia, dizendo que tinha carro.

Um dia quase que a obrigou a comer qualquer coisa num bar após o trabalho.

No local, cheio de gente, colocou uma perna junto das delas. Apalpou-a.

Maria, incomodada.

Não sabia o que fazer.

Confidenciou com a maior amiga.

Ela referenciou o assédio.

Maria não queria perder o emprego.

Começou a reagir mal quando ia para o trabalho.

O chefe, sempre de olho nela.

Os restantes colegas riam-se devagar.

Não havia solidariedade.

*

Chegara mais um fim de tarde.

Ela pediu ao chefe para ir a uma consulta.

Ele disse que a acompanhava.

Maria abordou o constrangimento de tal situação.

— Eu sou o teu maior amigo — respondeu a arfar.

Ela saiu sem se despedir.

Estava nos limites do desespero.

Pediu a um amigo que aparecesse no escritório para se passar por namorado.

Rui assim fez.

O chefe olhou-o com desdém.

Chamou-o.

— Quanto queres para deixares de namorar com ela?

— O quê?

— Sim. Diz uma quantia.

— Nunca.

— E se eu te der 20.000 euros, pode ser?

— Bem… Não sei. é muito dinheiro.

— Dá-me o teu IBAN.

— Ok.

*

Maria perguntara a Rui como tinha sido.

Ele esquivava-se.

Ia para o trabalho exausta, em risco.

Estava tão frágil que deixara de comer.

O chefe ordenou levá-la a um hospital.

Ela trémula, aceitou, chorando para dentro.

Levou-a para um apartamento sujo e esconso.

Serviu-lhe um whisky.

Ela negou a bebida.

Pegou nela e pô-la na cama.

Ela colocou-se em posição umbilical.

Um outro homem entrara no apartamento.

Pareciam discutir.

Passado um bom bocado despiram-na abruptamente.

Sem alívio, sofreu violações várias.

Sentia-se morta, com dores.

Depois, levaram-na para um sítio ermo. Sem nada.

E aí a deixaram de qualquer maneira.

Nem sequer tinha uma identificação.

As feridas alojavam-se no corpo, na alma, nas vísceras.

Para ali ficou.

Nunca mais se lembrou de nada.

Cecília Barreira é professora de Cultura Portuguesa Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Autora de poesia, ensaio e conto. Pertence ao PEN Club português. Em 2021, publicou o livro de contos Sangue Suor Lágrimas. Também de poesia, Incêndio, da Poética Edições. Publica regularmente recensões críticas e ensaio em várias revistas.

Arnaldo e Dirceu, de Thaíse Santana

“Enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas.”
(Jeremias 17:9)

No final da antiga Rua do Ouro, há uma ponte. Embaixo da ponte, um rio. O Rio das Velhas lambe as casas velhas. Casas encardidas onde há velhas na janela. Num casarão imponente, avistamos a placa “Medeiros Brito Advocacia”. Dentro ali, dois amigos trabalham e conversam e partilham o dia. Mais que isso, Arnaldo e Dirceu partilham memórias, segredos, a vida.

A Medeiros Brito foi criada pelos avós de Arnaldo, que foi mantida pelos seus pais e agora pertence-lhe. Arnaldo é o mais bem sucedido advogado da cidadezinha. Um homem arguto e de coração sensível. Costuma ajudar as pessoas, inclusive, advogados em início de carreira (ainda que não haja tantos como ele). O seu coração vai explicar a origem da sua amizade com Dirceu.

Há vinte anos, Arnaldo sofreu o infortúnio, que mais cedo ou mais tarde, chega a todas as gentes: a morte de um ente querido. O seu pai, o doutor Antônio de Assunção Medeiros Brito sofreu um infarto fulminante e fez a longa passagem. Não teve tempo de se despedir da família. Na triste ocasião, Arnaldo estava fora da cidade. O filho único do doutor Antônio e da Dona Maria Amélia voltou às pressas, para cumprir os rituais fúnebres.

Contudo, foi difícil para Arnaldo seguir os ritos da sua vida. Estar vivo é uma benção, ele acredita, mas sabe também que esta benção exige muitas obrigações. Ainda mais quando se é o herdeiro dos negócios da família. Por isso, Arnaldo buscou ajuda médica. Perdas e ganhos chegaram de mãos dadas à sua vida e o pobre Arnaldo (nem tão pobre assim, é verdade) não soube lidar com os eventos paradoxos. Seu coração é demasiado sensível.

Durante nove meses, Arnaldo frequentou, religiosamente, o consultório do doutor Haroldo de Carvalho. Nessa ocasião, conheceu Dirceu. Homem franzino, de vinte e pouco anos, de voz aguda e vacilante. Dirceu era branco, de uma brancura que se enxerga ao longe. Bem educado e mal vestido. Suas vestes contrastavam com o ambiente de trabalho. Por outro lado, o seu corpo exalava um cheiro de sândalo, de algum perfume francês.

Dirceu era o assistente do doutor Haroldo e também estudante de Direito, graças à ajuda do patrão. Nas horas vagas, era leitor de Flaubert e Baudelaire. E no dia a dia, cumprimentava os colegas com salut, despedia-se com au revoir, num gesto de quem agita águas rasas para parecer profundo.

— E por que não medicina?, questionou Arnaldo, enquanto entregava a Dirceu o documento para o preenchimento da ficha.

— Quero combater as injustiças desse mundo.

Dirceu não soube, mas naquele momento, conquistou o coração do advogado. Após trocarem outras palavras, Arnaldo se encaminhou ao sofá, e ali aguardou sentado, pacientemente, enquanto Dirceu preenchia a sua ficha. Disfarçadamente, o recepcionista olhava o paciente, examinando as suas roupas, o sapato, o cabelo. Quando terminou de preencher a ficha, autorizou a entrada de Arnaldo. Este agradeceu e adentrou à sala de atendimento.

Passam-se vinte anos após esse encontro. Arnaldo e Dirceu estão no escritório conversando sobre uma festa de aniversário. É o centenário da Medeiros Brito que se aproxima, e Arnaldo quer celebrar a longa e frutífera existência da empresa. Elege Dirceu para liderar a organização do evento e assegura-lhe que a sua secretária estará a postos, para executar tudo o que for preciso. Dirceu pensa que organizar festas não é tarefa para um homem da sua posição. No fim das contas, ele se contenta e aceita a incumbência.

Os dias passam e algo curioso acontece no escritório. Alguns funcionários começam a receber bilhetes anônimos. Quem os recebe, não se ofende, mas lê e joga fora, imediatamente, como se não quisesse fazer parte da trama misteriosa. O perigo ronda o escritório Medeiros Brito durante alguns dias, e logo, vai embora.

Numa bela tarde de sexta-feira, quase fim de expediente, Arnaldo é surpreendido por uma visita agradável. Recebe em sua sala uma colega de trabalho, também advogada da Medeiros Brito. Ana Cláudia foi, um dia, muito mais que colega. Hoje, ela é alguém da confiança de Arnaldo. Eles conversam por alguns minutos e ela despede-se, já saindo da sala. Arnaldo tenta voltar ao trabalho, mas o seu pensamento está distante, confuso.

Os dias que antecedem à festa exigem de Dirceu um tempo ainda maior de trabalho. Ele está sobrecarregado, a ponto de não sair do escritório antes das vinte horas. Do outro lado, Arnaldo se prepara para ir embora. Antes de sair, passa na sala do amigo. Dirceu nota Arnaldo um tanto taciturno, e demonstra preocupação com a sua saúde . Arnaldo diz que está tudo bem, e num gesto solidário, libera Dirceu do trabalho.

— Mas é só hoje, adverte Arnaldo sorrindo.

Dirceu agradece e apaga as luzes. Os dois saem juntos do escritório. Antes de chegar no carro, Dirceu percebe o seu retrovisor quebrado.

— Caralho! Quem fez isso?, pergunta Dirceu atordoado.

A noite está calada. Àquela hora, já não há velhas na janela. Então, ele mesmo vai em busca de reposta. Dirceu corre para averiguar o acontecido. Quando, finalmente, aproxima-se do veículo, ele sente um impacto. Um tiro.

Thaíse Santana nasceu em Itabuna, Bahia. Autora de Mulher-Palavra (Editora Patuá, 2021). Professora, pesquisadora, ativista e mediadora de leitura. Mestra e doutoranda em literaturas. Tem artigos publicados em revistas científicas e poemas publicados em antologias literárias. No Instagram, usa o perfil @thaisesantanasou, onde compartilha fragmentos de sua vida-escrita.

torta de ervilhas, de Julliane Albuquerque

Com a respiração ofegante, a coluna curvada e sacolas de supermercado nas mãos, Ana sobe degrau por degrau. É a segunda vez naquele mês que o elevador entra em manutenção. Ela para por um instante no segundo andar, encosta as compras no chão, respira, olha para os degraus acima e toma nos braços a comida da ceia. Dos sacos para o armário ou para a geladeira, Ana organiza legumes, carnes e latas de ervilha. Uma das latas desequilibra, rola pelo chão e entra por baixo da mesa da cozinha.

Ana reequilibra as latas que ainda estão em mãos, empilha dentro do armário e ouve a lata caída rolar de volta até seus pés. Ela fecha a porta do armário, agacha para pegar a lata e vê uma espécie de mangueira cinza por debaixo da mesa. Não é uma mangueira, é uma tromba, uma tromba de elefante. Agachada, com uma lata de ervilha em mãos e de frente para o filhote daquele animal imenso, Ana respira fundo e solta o objeto em sua direção outra vez. O elefante agarra, equilibra na ponta da tromba, sacode para os lados e deixa a lata cair. Ana ri. Ele segura a lata novamente e a empurra de volta para Ana.

Com as ervilhas numa mão e a outra esticada até a gaveta, Ana alcança um abridor de latas. Aos poucos, o elefante caminha até a comida. Enquanto ele mastiga, Ana aproxima as mãos de sua cabeça, suas orelhas gigantes, sua pele áspera. O bicho retribui o carinho com a tromba. Aos cinquenta e quatro anos, a pele de Ana é fina, mas também tem rugas. No chão, ao lado do animal, o corpo magro e opaco dela parece ainda mais frágil. Ele estica a tromba por baixo do fogão como quem tenta alcançar algo e alcança.

É uma fotografia do Natal passado. Ana vê a mesa da casa da mãe, o peru recheado, a torta de ervilhas, seu irmão mais velho, sua cunhada, seus dois sobrinhos. Ana lembra que a mãe não costumava sair nas fotos da sala porque estava sempre na cozinha. É a primeira vez que ela fica responsável pela ceia. Sua mãe não está nem na foto, nem na cozinha. No seu lugar, tem um animal enorme. É difícil cozinhar com um elefante no caminho.

Julliane Albuquerque nasceu em Alagoas e hoje mora no Rio de Janeiro. É mestre em Ciências Sociais pela UFF e bacharel em Direito pela UERJ. Publicou textos em revistas como Ruído Manifesto e Mallarmargens, além de ter produções visuais com repercussão em veículos como Catraca Livre, Sputnik Brasil, Ideia Fixa, Revista Azmina, entre outros. Reúne seus trabalhos em jullianealbuquerque.com

quando dormires, cantarei, de Krishna Monteiro

“Pois aos galos de briga, aos falcões de caça e a todas as aves que, pelas mãos do homem, foram forçadas às lides guerreiras, também será possível armar como cavaleiros.” (Tratado medieval de falcoaria e outras artes, 1386)

capa_KrishnaPisou na arena e notou apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras. Férrea, brilhante, pontiaguda, a couraça de seu oponente recobria toda a extensão da cabeça e dos membros inferiores. Pensou em si mesmo, em suas armas. Pensou também na razão para as mãos nas arquibancadas estarem tão inquietas: levantavam nuvens de poeira, debatiam-se e apunhalavam o ar, em nada recordando aquelas que, em outros tempos, iluminadas por labaredas, faziam nascer pássaros negros sobre a tela de uma parede branca. Elas, as mãos, sempre o intrigaram. Pensa: “Além de voarem feito aves com plumas de sombra, as mãos também gritam como corvos. Devem ser suas irmãs”. Os gritos das arquibancadas crescem ao redor, o outro o provoca, agitando para a direita e para a esquerda a capa, a cauda multicor. Mas não seria pego nessas artimanhas. Contenta-se em acompanhar seu duplo com movimentos pendulares do pescoço, protegendo o flanco, terçando armas, levantando a asa direita como um escudo ou uma barreira edificados bem acima da linha da cabeça. “Cuidado com a cabeça”, dizia Conceição. “Se a agulha a picar, nosso esforço não valerá de nada.” Lembra-se de como Conceição e o menino manejavam cuidadosamente os golpes da agulha de maneira a contornar seu crânio, a evitar ferir as vértebras da coluna, e ao mesmo tempo quebrando e rompendo a resistência da casca e do invólucro no interior do qual ele flutuava. Via, submerso, como a totalidade daquilo que conhecia estava prestes a se fragmentar, despedaçar. O envoltório estilhaçou. O fluido escoou. O primeiro fôlego penetrou na raiz de seus pulmões. Firmou pela primeira vez os dois pés bambos, sentiu-se aninhado entre as palmas de duas mãos. E elas o elevaram até a mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, o conduziram — e tudo era brilho — até a brandura espelhada no rosto de Conceição. Pensa: “Como eram lisas as mãos do menino naqueles tempos”. Na arena, a multidão de mãos aperta o cerco em torno dele e de seu oponente, forrando o chão com uma chuva de papéis verdes que lembravam as folhas das árvores. O outro o olha de cima, cisca riscos enfurecidos sobre a terra, esgrime a ponta do bico em busca de uma brecha onde cravar o primeiro golpe. Carrega, entretanto, por trás das próteses e proteções metálicas que revestem sua cabeça, uma expressão estranhamente perdida. O palavrório das mãos fica mais e mais alto, ele persegue e acompanha seu duplo com total simetria de movimentos. E antes que pensasse em tentar recuar, sente a pressão de duas palmas no baixo-ventre e se vê subitamente alçado ao espaço, voando a contragosto em direção aos gumes e às adagas. Uma. Duas. Três. Afasta-se arquejando depois da quarta estocada. Esfrega os olhos, sente um filete rubro e espesso escorrer pelo pescoço. Olha adiante: à sua imagem e semelhança, as penas do outro também ostentam o mesmo colar de sangue. “Pode ser que ela o acolha, pode ser que o mate”, Conceição dizia. “Trata-se do filho de outra mãe, ninguém sabe quais serão suas penas.” Conceição e o menino o pousam no solo, os domínios que agora pisa parecem se expandir ao longo de extensões sem limites. Atrás de uma malha de fios prateados, trançados até alturas a perder de vista, um par de asas se ouriça ao pressentir sua chegada. Se soubesse a palavra exata para defini-las em seus tons e cores, ele diria: “Madrepérola”. Mas só mais tarde a aprenderia. Atentas, desconfiadas, destemidas, as asas madrepérola se engatilham em postura defensiva. Sem sequer compreender a perigosa linha de fronteira sobre a qual se aventurava, ele atravessa e salta; as asas se retesam, para uma fração de segundo depois relaxarem, desabrocharem, aninhando-o no interior de uma textura muito semelhante à das pétalas. Uma escuridão densa e acolhedora o abraça, e ele se pergunta se não haveria retornado para o interior do invólucro de onde a mulher e o menino o expulsaram. Mas lá tudo era líquido, e aqui somente há um ar impregnado de reconhecimento. Além disso, não existiam lá esses estranhos seres esféricos que aqui o rodeiam recobertos por uma penugem amarelo-ouro. No escuro, ele se viu cercado por olhos curiosos, cintilantes, pequeninos: olhos em tudo distintos destas duas órbitas chamejantes que — ele sabe — querem hoje, nesta tarde, e a todo custo, destruí-lo. O outro enxuga com a ponta das asas o vermelho que brota do peito, toma fôlego, afia os esporões no chão. E ele, ao examinar reflexivo o duplo e sua triste figura perpassada por tremores, se dá conta de que nada poderá restar além de uma única alternativa. Pois atrás, às suas costas, já crescem e se aproximam as mãos. Atrás de si, ergue-se a intransponível barreira de mãos: lúgubres, calosas, insensíveis. “Cedo ou tarde irão empurrar-me”, pensa. Então se antecipa.

Pousa sobre o outro como uma farpa, cravando o mais fundo possível as pontas das esporas (eram curvas como espadas mouras). Ouve um estalido seco e sente algo se partindo. Faz como aprendera, como estava escrito: a asa direita é o escudo que apara os golpes; a esquerda é a espada que sibila; e do céu e do solo e de todos os lados o corpo trovejará, lembrando tempestades vingativas de granizo: assim estava escrito. Percebe que o outro já se afasta, o rosto assustado e lívido. Com o pé direito, prende-o junto a si, e, manejando sabiamente a espora esquerda, abre na barriga dele uma série de incisões precisas. Uma. Duas. Três. Ouvia, podia ouvir algo se partindo. Conceição contava e partia as espigas de milho, e aquelas sementes caindo sobre ele e os outros, e a cor do milho se confundindo com a de seus corpos, e as bocas colhendo o alimento que se espalhava na terra e por entre as ervas. Circulando protetoras ao redor, ceifando e ciscando, elas, as asas madrepérola. E quando o sol definitivamente se reclinava, quando os irmãos se recolhiam atrás da tela de fios prateados e a respiração compassada de seus corpos era tudo o que persistia na noite, então ele os via se materializarem, alçarem voo: pássaros com plumas de sombra, planando sobre as paredes brancas da cozinha. Diante das labaredas do fogão a lenha, as mãos de Conceição esvoaçavam. Tiravam rasantes sobre a plateia da casa e da vizinhança, amontoada nos bancos e nas mesas, assistindo quase sem piscar às evoluções daquele teatro de aves negras.

Sobre o solo, seus pés frios. À sua frente, o inimigo exausto, exaurido. Opacas são as cores que colorem o mundo, a visão se embaça, e por um momento ele julga lutar contra dois ou três. Mas percebe que agora o duplo, em vez de atacar, em cima dele cai e se apoia como numa bengala, e que sobre o corpo do outro ele também se deixa desfalecer, ambos rodando em torno de um eixo imaginário, pisando e se desfazendo em uma poça feita da essência deles mesmos. “Não é para se ver”, diz ele para seu reflexo no líquido. “Não é para se ver”, Conceição dizia. O corpo jazia estirado dentro do caldeirão, seu dorso cortado por um talho através do qual o último fôlego escoava. Friccionando sua pele em cadência impiedosa, os dedos de Conceição arrancavam as penas, lançando-as ao ar. A luz as atravessa antes que elas pousem; ele reconhece sua cor, sua textura, procura a palavra exata para nomeá-las e de repente diz para dentro de si: “Madrepérola”. Pois agora a aprendera e a conhecia. “Não é para se ver”, Conceição dizia ao menino: “Esta cozinha está infestada”. As próximas tardes, os seguintes dias, elas lhe trariam o humor cíclico dos ventos: gélidos, vagarosos, inflamados. A roda dos ventos girava, ao redor dela as estações se sucediam, e ao fugir e dar as costas à mulher e às suas mãos ele se sentia capaz de passadas cada vez mais longas. As fronteiras do mundo diminuem. A tela de fios prateados se aproxima. Um dia, para sua surpresa, viu-se erguido ao ar: era seu próprio bater de asas. E ao pousar numa trave de madeira contemplou orgulhoso os dois membros, revestidos de plumas multicores e pontiagudas.

O duplo o olha. Como Conceição o olhava. O duplo o rodeia. Como ela, de longe, o rodeava. Quando trazia a chuva de milho. Quando, sorrateira, se aproximava. Recolhido em suas feridas, o duplo o estuda de relance. Carregaria como ele o peso da lembrança? O corpo no caldeirão, as penas pisoteadas: ao recordá-las, distanciava-se, voava para longe de Conceição. Mas ela insiste, invade seus domínios, abre a cancela, senta num canto sobre a palha e lá se enreda em reflexões, cercando-o com o peso do olhar. O duplo manca, tem a perna direita esmigalhada. As mãos gritam e se espremem na arena. Então o bote, o salto de duas mãos quentes como chamas, e ele surpreendido e capturado entre os nós daquela malha de dedos: distingue um ponto em carne viva nas palmas de Conceição, fustiga-o com uma sequência de bicadas rápidas, tentando, inutilmente, se libertar (o duplo empalidece e se contrai).

Entram na cozinha, ele erguido metro e meio acima do chão. Do alto, engaiolado entre dedos e palmas que o sustêm, vê correr um desfile de coisas que não sabe nomear: panos, artefatos, objetos dependurados. O peito pulsa, bate em disparada, e talvez por sentir e temer aquela cadência as duas mãos começam a baixá-lo. Descem-no, ofertam-lhe uma cuia cheia de grãos dourados, e ao provar o primeiro ele percebe que era da mesma matéria dos que, nas tardes e manhãs, caíam sobre seu dorso e o de seus irmãos. Come e devora o milho, ao mesmo tempo que sente, roçando em vaivém nas penas das costas, a carícia dos dedos de Conceição. “Não é para se ver”, diz ela ao menino que já rondava. “Queremos estar sós.” Ao limpar a vasilha, é novamente colhido pelas mãos. E Conceição mostrando, falando e ensinando nomes, descerrando e catalogando o mundo, tudo era brilho: a imagem de São Benedito, guardião da cozinha e atrás da qual se escondiam os fósforos; a moringa d’água, tendo ao lado a caneca amassada de alumínio; panos de prato bordados, azulejos verdes vindos do outro extremo do oceano; o fogão a lenha, forja que respira e ilumina; e ele — a partir daquele instante — trilhando caminhos abertos pela mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, seguindo seus passos desde o raiar do sol até o cair do dia, todos os dias.

Fala para si mesmo que, se o duplo continuasse vagando daquela maneira ingênua à sua frente, guarda aberta, asas arqueadas, passos sem alicerce nem objetivo, era questão de tempo até tudo chegar ao fim. Decide esperar. O sangue do outro escorre e empapa a areia. “Desse jeito, logo tombará como um saco vazio”, pensa. Melhor esperar. Sabe que também está ferido, mas os anos na arena lhe ensinaram que, até certo limite — que era tênue, e cuja identificação precisa diferenciava os grandes combatentes —, havia retorno e cura para qualquer chaga. Olha para o rastro de sangue do outro. Calcula. Atrás da cabeça do duplo, nuvens correm pelo céu, enquadram seu perfil num grande panorama azul. Era como se as formas das nuvens, seus desenhos e relevos, se agrupassem e envolvessem aquela cabeça que lembrava uma auréola ou o prenúncio do sacrifício. Mas um dos cúmulos-nimbos escurece, assume uma feição pontiaguda; e antes que pudesse respirar ele sente algo cravejar como um pino em brasa na barriga. Depois de ser erguido e atirado ao chão, depois de se levantar e ver que o outro ria um riso suicida, depois de constatar como na verdade eram agourentas as nuvens e que a areia agora se ensopava com seu próprio sangue, deduz que ele, também ele, havia cruzado o ponto de não retorno.

O menino gritava nas madrugadas. Quando fora entregue ainda criança numa cesta e Conceição o abrigara nos mesmos lençóis em que dormia, o choro era afogado em gotas d’água com açúcar pingadas uma a uma entre os dentes, que trincavam, rangiam. Porém, com o tempo, com o girar da roda dos ventos, os berros daquele que crescera e já passara para a cama ao lado se intensificavam, ressoando em todo o seu terror às quatro da manhã, como o apelo de um ser aprisionado em algo que não compreendia. De nada adiantou a estátua à sua cabeceira — “É para proteger”, disse Conceição ao colocá-la; de nada serviram as rezas, as benzeduras, as infusões de sálvia; pois os gritos ecoavam, persistiam, acordavam toda a casa. Até que uma noite, correndo a mão direita naqueles cabelos lavados por um suor frio, Conceição puxou não sei de onde uma canção esquecida, cujo último verso era assim: “Quando dormires, cantarei”. Sozinha com o menino entre paredes carregadas de lembranças (só os dois restavam, os demais haviam partido), notou que os braços dele se descruzavam e enfim pendiam soltos, e que todo o seu corpo virava para o canto, adormecia. Puxou a cortina. Espiou pela janela. Viu que a manhã já se ensaiava.

Empoleirado do lado de fora sobre uma ripa, também ele ouvia a música. Sentia que uma luz gestada a partir das entranhas da noite, crescendo em intensidade atrás das cristas dos montes, clareava não só e cada vez mais o terreiro, o pilão, a máquina de moer cana, mas também o interior dele, puxava para fora dele algo que sempre existira: um querer, uma força ancestral, um estremecimento adormecido. Algo que agora, por razões misteriosas, comichava, insuportável, mais e mais intenso, correndo como uma ânsia por suas veias em direção à garganta, para então quase estourar como um espasmo, um arrebatamento, uma vontade inexorável e incompreendida. Firmou os pés no poleiro. Encheu o peito, sentiu algo florescer dentro dele. Viu através da janela a silhueta de Conceição acarinhando o menino. E, quando o grito finalmente explodiu e saltou de sua garganta, ecoando sobre os cumes dos telhados, acordando todos os vizinhos, ele pôde perceber que, à semelhança da mulher em vigília, todo o seu ser parecia afirmar: “Quando dormires, cantarei”. Repetia a plenos pulmões o verso. Cantava. O sol nascia.

O golpe atinge em cheio a cabeça do duplo. Arranca a cobertura metálica que reveste seu rosto, fazendo com que a proteção cor de bronze voe longe como um elmo que se arremessa aos ares. Mas a reação não tarda: o contragolpe relampeja, retorna desesperado, e duas são agora as cabeças descobertas, os bicos despidos, os pares de olhos nus e ofuscados. Esvaindo-se em sangue, cada vez mais fracos em meio à histeria de mãos que os infernizam, os dois trocam vergastadas a esmo. Uma a uma, as peças de suas armaduras quebram, tombam sobre o solo, e ele pensa: “Parece que foi ontem”. Num ontem hoje distante e perdido no tempo, seguia os passos de Conceição no assoalho da cozinha. Curvada sob o peso de uma braçada de lenha, ela se arrasta em direção ao fogão — o acende, o assopra, o alimenta, sorri ao ouvir o estrondo das fagulhas que bailavam. Senta-se contemplativa ao pé do fogo, morde uma broa, dividindo-a com a boca e as asas aninhadas em seu colo. Não percebe o vulto, treva na tela das paredes; não nota, lúgubres e calosas, as duas mãos que se esgueiravam. Quando pressente o rondar do menino, pensa em dizer-lhe “Não é para se ver”, mas aquela presença já se evanesce. E, mordiscando a broa de milho, Conceição conclui que os gritos que julgara ter ouvido eram apenas silvos do vento que sacudia o telhado e suas vigas.

No quintal, o menino aperta a garganta dele, sufocando o último dos pedidos de socorro. A outra mão desce até a terra, manuseia uma série de artefatos brilhantes nunca antes vistos. A mão ergue uma peça (longa, recurva, de ponta aguçada) e a encaixa em sua espora esquerda: a perna agora lhe pesava. E essa sensação de peso quase intolerável recobrindo os dois pés e a cabeça, pressionando como um fardo o pescoço, fazendo com que seu corpo, livre, solto no terreiro, tombasse e oscilasse para os lados, quase não suportando o capuz, as escarpas e os punhais de aço. Cai. Por entre os furos da cota de malha, ouve risos abafados. Olha para a cozinha. Quer chamar Conceição, comer o milho, descansar novamente aos pés da mulher e de São Benedito. Mas ela não lhe ouve. Há tempos já não ouve. Conceição atada, esterilizada, presa à cadeira com ombros inertes e a cabeça macilenta mergulhada em neblinas.

O golpe de sua perna esquerda acerta a cabeça do duplo, que tomba de joelhos. Mas ele sequer percebe a queda do inimigo. Fita um ontem distante, um quintal, as mãos do menino: naquela tarde, elas carregam cortes e cicatrizes que nem sempre existiram. Vê uma terra recortada por arames, em que mãos novamente o erguem, mas de outra forma: com a técnica de um soldado e o rigor de um mestre armoreiro. Sente o garoto — ou quem ele se tornara — limpar e polir a veste metálica. Repara que ele traz um dente de alho nas duas palmas. Aceita, bica, engole a oferenda, um fogo queima sua barriga: nota então subir-lhe um gosto, uma segurança, uma raiva surda e um querer de rinhas. A armadura de couro e bronze é bela. Os treinos se sucedem. Numa longa sequência de fins de tarde, são apresentadas manhas, golpes, técnicas. Jeitos de sangrar e resistir. A armadura parece se nutrir da carne dele, perfeitamente integrada ao pescoço e aos membros inferiores. Agora leve, flexível como uma segunda pele, ajustada quase com a minúcia e o cuidado de um ourives. O menino o põe no colo. Aponta para um círculo riscado no quintal. Juntos, caminham naquela direção. As mãos o baixam. Ao olhar para os lados, sente-se cercado por centenas de outras mãos. Pisa pela primeira vez na arena, e por um momento julga estar diante de sua própria imagem refletida. Mas ele permanece estático, enquanto o ser à sua frente se mexe: agita, como uma flâmula de guerra, uma cauda feita de todas as cores. Pisa na arena. Nota apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras.

O duplo já não respira. E ele, pisando por cima daquele corpo inerte, tenta caminhar em direção ao último reflexo da casa e da cozinha. Vê Conceição encolhida junto ao fogão a lenha. A velha treme, revira uma acha, as labaredas estouram, brilham, o sol já se reclina. Solitária, sem a plateia de dias idos, Conceição eleva as duas mãos ao ar. E ele pensa: “Não é para se ver”. Mas enxerga o primeiro deles, suas asas, suas plumas de sombra envergadas, seu dorso que esvoaça traçando curvas nas paredes. Conceição contempla as próprias mãos. Outros pássaros levantam voo: lembram, ao planarem pelo teto, pelo chão, por todos os lados, uma revoada de aves migratórias em busca do calor. Negros como corvos, eles gritam, dançam ao redor do fogo. Suas figuras, ao crescerem de tamanho, recobrem pouco a pouco o teto, as panelas, as colheres de cobre e os tijolos caiados. Estendem-se sobre panos, artefatos, sobre o verde oceânico dos azulejos, e, unidos num único corpo, fundidos de súbito num todo, descem e escurecem, pousando até mesmo sobre o santo protetor. A noite quebra as vidraças. Envolve as ervas. O milho. O pilão, a máquina de moer cana. Banha a terra, seus tons de madrepérola. E um invólucro, muito semelhante àquele do qual a mulher e seu filho o expulsaram, ergue novamente suas paredes. Denso e escuro, o fluido sobe-lhe pelas pernas, pelo dorso, pelo pescoço. Os contornos do quintal desaparecem. Um vulto se desenha na escuridão. O envoltório se fecha, o último fôlego escapa da raiz de seus pulmões. Tenta firmar os dois pés bambos, mas flutua; e à deriva, suspenso naquele líquido, ainda consegue ouvir o som: o giro da roda dos ventos, sua engrenagem, seu sopro glacial, avançando pela terra como o galope de legiões em marcha.

Krishna Monteiro é escritor e diplomata. Viveu no Sudão, Reino Unido, Índia e Tanzânia. O conto “Quando dormires, cantarei” está no livro O que não existe mais (Tordesilhas Livros, finalista do Prêmio Jabuti 2016 na categoria Contos e lançado na França). Em 2018, publicou o romance O mal de Lázaro (Tordesilhas Livros). Tem contos traduzidos em revistas do México, Reino Unido e França e integrará coletânea em chinês de autores de língua portuguesa, a ser lançada em 2022.

violências, de Alê Motta

Meu pai batia tanto na minha mãe que ela se separou dele. Ele se casou mais uma vez e tudo se repetiu — grosserias e porradas na mulher.

Numa madrugada uns homens encapuzados invadiram o apartamento do meu pai, deram uma coronhada na sua testa e dois tiros perto do coração. Ele morreu na ambulância, a caminho do hospital. Os homens nunca foram encontrados. A polícia desistiu do caso porque não tinha pessoal disponível e nem pistas.

A viúva do meu pai e a minha mãe se conheceram no enterro. Minha mãe fez questão de ir para encarar com desprezo o defunto. As duas se tornaram amigas íntimas. Saem juntas para fazer unha, massagem, depilação, compras no shopping.

Minha mãe nunca perguntou, mas tem certeza de que a viúva do meu pai pagou muito bem aos encapuzados. A viúva do meu pai pensa que minha mãe contratou os encapuzados.

Só eu sei a verdade.

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista Vício Velho.

a agência, conto inédito de Micheliny Verunschk

Era mais uma sexta-feira quente como outras daquele mês, o barulho do ventilador se repetindo como um mantra, seu ciclo sonolento e desalentador. Eu gostava de me imaginar como Dupin, decadente em Montmartre, mas a verdade é que me faltaria sempre o brilhantismo intensamente humano do personagem de Poe. A chamada que me levou ao Trevo do Corredor me sacudiu do marasmo, um corpo dentro de um carro esperava pela composição de uma narrativa. E se eu não me mexesse, ela permaneceria congelada, à espera de alguém que a fizesse se movimentar.

O homem estava sentado no banco do carona. A cabeça fora esfacelada por cerca de 15 tiros e os dedos arrancados grosseiramente, o que sugeria que o crime fora passional ou, por outro lado, se tenha tido o intuito de dificultar a identificação do cadáver. Fiquei com a segunda hipótese, muito embora soubesse que se o assassino quisesse mesmo embaralhar a investigação seria mais produtivo incinerá-lo e, aí sim, atravancar o trabalho em meses. Entretanto, se aprendi algo nesses anos de profissão é que o criminoso sempre deixa a senha para ser pego, uma pequena negligência, um aparente descuido. Mesmo no crime perfeito, a chave está lá, é preciso apenas ter olhos para ver. Nem sempre os tenho, é verdade.

O que me sugeria que não fosse um crime passional? A uma primeira vista, a posição da vítima dentro do carro me dizia que ela fora morta em outro local. Num segundo momento, eu soube que aquele corpo com a cabeça horrivelmente disforme morava a poucos metros de mim, no mesmo conjunto de apartamentos da zona sul da cidade. Eu já havia visto no elevador aquela combinação de calças listradas e camisa xadrez, e a proximidade do crime a poucos metros da minha vida me deu um arrepio. O corpo foi enviado à Medicina Legal e eu, cumprindo o meu papel, resolvi tudo em quatro linhas.

Gazeta da Aurora
26/01/2018

Corpo é encontrado desfigurado

O corpo de um homem não identificado, com o rosto desfigurado, foi encontrado num carro abandonado próximo ao Trevo do Corredor. Segundo os policiais, os assassinos desfiguraram a vítima no intuito de dificultar sua identificação. O corpo, que teria recebido cerca de 20 tiros, foi encaminhado ao IML.

A última vez que eu vira o sujeito fora mesmo no elevador cerca de três dias antes. Ele levava duas caixas consigo e suava desesperadamente, olhou para mim algumas vezes como se procurasse algo, talvez empatia. Na garagem, deixara a chave do carro cair algumas vezes. Não ofereci ajuda, afinal nunca nos cumprimentamos. Achei patético e agora sabia o quão de espetáculo grotesco pode haver numa morte anunciada, porque estava claro que o homem saíra de casa para morrer e estava ciente disso e, mais, haveria de saber também que não haveria fuga possível, contorno que pudesse fazer que o colocasse fora do alcance do seu destino.

Resolvi voltar para casa aquela noite. Nem sempre eu voltava, é certo, perdido entre rodas de cerveja e mulheres anônimas. O apartamento estava um verdadeiro pardieiro, cheiro de comida azeda e tabaco, livros por todos os lados. Por baixo da porta, um envelope pardo se comportava como um inseto sem nome, parado, atento ao que eu faria, o joguei em cima da mesa e desabei no sofá. No dia seguinte, ao examiná-lo, uma série de recortes noticiavam atividades antigas da Agência de Controle Epidemiológico. Não entendi nada até a hora em que fui conversar com o porteiro sobre o vizinho de calças listradas. Foi aí que consegui um nome, André Salviano, e sua ocupação, funcionário da Agência.

O homem morto havia, finalmente, conseguido a minha atenção.

Liguei para a Agência e perguntei pelo homem. Três ramais depois, um sujeito perguntou grosseiramente o que eu queria com André. Preciso falar com ele, respondi, sabendo da impossibilidade do meu pedido. Do outro lado, o baque do aparelho sendo desligado sem nenhum esclarecimento possível, tornava as coisas mais sombrias. Foi quando lembrei de fazer uma devassa nas reportagens mais recentes sobre a Agência. Recordei de tê-la visto nas páginas policiais não havia muito tempo.

Sim, fato corriqueiro, um arrombamento, nada de valor aparentemente levado, e algum vandalismo. Mas agora, um funcionário morto trazia um elemento a mais para a trama na qual eu me enredava.

Gazeta da Aurora
19/01/2018

Criminosos arrombam escritório central da Agência de Controle Epidemiológico

O escritório central da Agência, na zona sul, foi arrombada nesta madrugada. Não há informações sobre o que foi levado e até o momento, ninguém foi preso.

A vida oficial de André Salviano parecia monótona. Seu perfil no facebook mostrava um homem solitário. As postagens públicas em geral compartilhavam insistentes alertas de cuidados com a saúde, meios de evitar surtos e epidemias, o que me levou a crer que fosse um desses maníacos por limpeza. Sem relacionamentos aparentes, nada o direcionava para a trágica cena da qual fui uma das primeiras testemunhas e foi crescendo em mim a certeza de que aquele desfecho estivesse relacionado à Agência. Os rumos da investigação policial, sempre lentos, me desmentiam. Colegas reconheceram o cadáver e uma suposta amante misteriosa foi trazida ao enredo por uma titubeante testemunha.

João Oliveira dos Ramos, ambulante, depôs que por volta do dia 23 ou 24/01/2018, ofereceu água e balas a um homem com as mesmas características de André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico, encontrado morto em circunstâncias misteriosas no último dia 26. Segundo a testemunha, uma mulher de cabelos claros acompanhava o homem”.

A Agência sempre gozou de boa reputação por seu trabalho social, entretanto em 2015, havia se associado a um grande laboratório multinacional para a prevenção de epidemias e desenvolvimento de novas vacinas. Na época, setores ligados aos movimentos sociais levantaram bandeiras contra uma suposta privatização da agência, denunciando também intervenções não muito éticas do tal laboratório em países da América Latina e África. Em 2016, o governo determinou sigilo de 50 anos nas atividades da instituição. Quanto mais eu pesquisava sobre a Agência mais me convencia de que havia algo cheirando mal naquilo tudo e não, não era apenas o cadáver.

No apartamento de Salviano, nenhuma pista que pudesse levar à mulher misteriosa. No seu enterro, apenas os colegas da Agência. O seu computador não foi investigado. Um crime sem solução, diriam alguns. As pás do ventilador eram agora a trilha da minha obsessão e um homem sem obsessões é pouco menos que fumaça de cigarro, gelo derretendo dentro de um copo.

Foi então que conheci a família de Salviano meses depois, em outro estado. Não pareceu que seus pais estivessem interessados ou animados em quem afirmasse tentar descobrir a verdade sobre a morte de seu filho. Mas antes que eu partisse, recebi no hotel duas caixas misteriosas, da qual dou notícia agora e que são responsáveis por parte da minha teoria.

Março/Abril de 2016, o país ferve com mudanças radicais na vida política. Grupos oponentes se enfrentam nas ruas. Uma série de insurreições contra um golpe desferido nos anseios democráticos do país transforma as cidades em palcos de uma guerra amplamente anunciada. No auge das contendas, um vírus mortal passa a se propagar entre a população causando perdas de vidas, hospitais e emergências inchados. André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico documenta os passos dessa receita para o caos minuciosamente. Políticos e Empresários trabalham de mãos dadas para esvaziar as ruas com uma epidemia em proporções alarmantes. Com material suficiente para responsabilizar os mandantes de gabinete, André Salviano é eliminado. Agora que estou com suficientes provas materiais, começo a receber ameaças veladas. Ontem uma mulher loira me observou por vários minutos no bar. Não é a primeira vez que a vejo. Se você estiver lendo esse relato, minha vida corre perigo.

Hoje recebi um telefonema: André Salviano não está morto, mas você está.

Nota da autora: Em março de 2016 fui convidada a escrever este conto para servir de base, junto a outro texto, de autoria de Luiz Roberto Guedes, da dramaturgia da peça “Urubus Noir”, da Cia Quase Cinema. Este conto acabou por me surpreender nos últimos dias, após revisitá-lo em leitura, por ocasião da reestreia da peça em formato de live por conta das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Muito embora retrate as tensões políticas presentes naquele início de ano, parece antecipar o cenário do mundo pandêmico que passaríamos a viver exatamente quatro anos depois. Obviamente isso não parece ser uma qualidade da autora, mas uma característica da literatura e do fazer literário, antena a prenunciar o futuro, ou como disse Oscar Wilde, “a literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios”.

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. É autora também de O movimento dos pássaros (Martelo, 2020) e de O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021).

disfarces ocultos, de Julianne Veiga

capa_meio_do_mundoNão importa aqui para o relato dar a ela um nome, ele se perde em meio ao das demais que como ela vivem histórias com enredo assemelhado. É que, no geral, muitas das mulheres, muitas, a maioria delas, talvez, podem se reunir num mesmo e amplo perfil de lutas e recaídas pela individualidade, sobrevivência, integridade e dignidade. A mulher deste caso há muito não tem mais pouca idade. O que a deixa tão envelhecida é a percepção de que falhou em suas escolhas, em sua vida, de que a desperdiçou, de que não há mais saída possível, de que está definitivamente enredada nas teias de casulo que tece desde que conheceu este homem com quem vive e que pensou dela fosse.

Ela olha para ele ali do outro lado da sala e conclui, depois de décadas de convivência, que o conhece bem, que hoje sabe onde encontrar seu verso e reverso. Sabe por quais vias periféricas transitam as suas mal disfarçadas intenções, agora já para ela reveladas. Aprendeu a ler suas entrelinhas, seus olhos fechados em falso, a ouvir as palavras não ditas. Sabe dos atalhos usados. Sabe quantas voltas ele dá, por quantos becos caminha para chegar soturno até ela. Consegue identificar seus ares de desdém e deles se defender. Hoje ela sabe que não é dele o objeto de afeto, sequer o é do desejo. Sabe, no entanto, que sua vida ocupa lugar central na dele, porque é ela o ponto para onde convergem todas as pedras por ele jogadas com suas mãos ocultas. Hoje, ela o conhece.

Nunca se calou, mas inutilmente, como muda, gritou palavras inadequadas que ele jamais ouviu. Travou, só, batalhas invencíveis. Esbravejou desorientada, num enfrentamento cego, irresponsável, se expondo ingênua e sem reservas para ele. Deixou à mostra suas fragilidades. Consumiu longo tempo até perceber que tudo que revelava voltava-se contra ela como munição usada em arma de ataque. Descobriu tarde, tarde demais, não sabe sequer onde cavar trincheiras para nelas se jogar. Nada mais pode fazer. E, por isto, trata de eliminar mágoas. Resta pouco mais que tolerância. Se perdoa. Afasta a amargura e continua firme no propósito de ser feliz: sozinha, ela decide.

Pouco tempo passado, porém, ela percebe que ele a está vendo. Ela se aquece. Ele lhe faz uns agrados banais, ela fica agradecida. Ele fala com ela em tom quase gentil, ela se envergonha do que lhe disse antes e dos pensamentos que sustentaram sua equivocada fala estridente, é como passa a lhe parecer. Ele lhe dá um beijo na testa antes de dormir, ela se enternece. Tais fatos bastam para que ela comece a acreditar que se enganou outra vez. Outra vez depois de tantas outras. Ele é bom, é um tanto rude, mas é bom, ela se convence. Acaba por acreditar, também, que ela mesma, dominada por seus antigos fantasmas, foi quem deu margem ao surgimento desta nova crise, assim como das anteriores. Perde a segurança quanto a si mesma e a seus julgamentos. Acha que faz transferências indevidas. Começa a duvidar de sua sanidade. Não se conhece bem como pensava, volta a concluir angustiada. Não o conhece, também. Não por inteiro. Constata que ela não é quem julgava ser e que ele é mais do que consegue enxergar, ou do que antes cria ver. Sente-se desequilibrada. Envergonha-se.

Resolve afastar as lentes duras do seu olhar. Tenta se desfaz de velhas certezas que passa agora a considerar inúteis. Aceita suas oscilações de entendimento e de sentimentos. Aceita igualmente as dele. Perdoa a si e a ele. Perdoa aos dois até por seus próprios erros de percepção e decide continuar firme no propósito de ser feliz. De ser feliz junto dele. Continua ao seu lado, ele que há muito está ali, do outro lado da sala.

Convicta do erro de seu julgamento sobre o companheiro, ela torna a baixar todas suas guardas. Sai da trincheira emocional em que havia se colocado. Retoma antigos gestos de carinho. Se oferece. Entrega-se. De novo, desnuda sua alma para aquele homem rude que está do outro lado da mesa. Ele, por sua vez, (re)impulsionando o velho círculo vicioso, volta a fazer dela seu objeto de desdém, brinquedo estragado, sem uso, abandonado para não ser visto, não ser tocado. Ela está ali do outro lado da cama entregue a ninguém. Ela que outra vez, outra vez, de novo, volta sofrida a se sentir recusada, humilhada, recaindo em seu antigo e destrutivo sentimento de menos valia. A diferença nesta crise derradeira, entretanto, está na ciência que ela vem consolidando de que enquanto não tirar aquele homem do outro lado da sala, da mesa, da cama, não conseguirá ter paz. Já não cogita mais ser feliz.

| conto do livro Histórias do meio do mundo (Editora Patuá, 2021). |

Julianne Veiga nasceu, em dezembro de 1957, na histórica cidade de Goiás, antiga capital de seu estado, onde voltou a residir no final de 2010. É casada, mãe de três filhos e avó quatro vezes. Servidora pública aposentada como procuradora de seu estado. Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Goiás — UFG, e em Direito, também, pela UFG. Iniciou, em 2017, bacharelado em Filosofia, novamente pela UFG. Como amadora, borda e toca tambor. Tem contos e crônicas publicadas pela Gueto, revista online de literatura em língua portuguesa. Participou com crônicas das coletâneas Literatura Goyas — Antologia 2015, Livres Pensadores, e Histórias de ternura, Kelps, 2015. Histórias do meio do mundo é seu primeiro livro publicado.

autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

fragmento do romance inédito ‘Ensaio sobre a paisagem’, de Rodrigo Novaes de Almeida

NA CLAREIRA

Saio da frente da escrivaninha e deixo o escritório. Não é um dia bom para escrever. Decido que preciso andar e respirar o ar de outono da montanha. Desço a colina coberta pela floresta de pinheiros. Observo o rio, abaixo, serpenteando o vale e cruzando a cidade. O céu está sem nuvens. Não venta. Sigo por um caminho de terra, estreito, margeado por raízes delgadas. De repente, estou em uma clareira diante de um grande jequitibá-rosa, com tronco espesso, cujos galhos nus se torcem uns sobre os outros. É a primeira vez que faço esse caminho para ir à cidade, evitando a estrada principal. A visão da árvore solitária me remete à decadência e ao pessimismo (ou à consciência de o alto idealismo ter cedido espaço definitivamente ao ceticismo). De qualquer forma, restou-nos pouca coisa; para ser exato, restou-nos nada. Antes havia os deuses, o destino, ou a expectativa de propósito, e a civilização. E se no lugar dos deuses colocamos a nós mesmos, a partir da busca do autoconhecimento, o lugar, por outro lado, não desaparecera. O último ato da tragédia é esse homem desprezível em pé na clareira ante o espanto de reencontrar o sagrado. Mas já é tarde para ele. Já é tarde para mim. Já é tarde para todos nós. A nossa espécie não tem futuro. Sento-me sob o grande jequitibá-rosa. O céu continua sem nuvens. Não há sequer uma brisa. Recordo não apenas os fatos, mas também as frases que escutei e li um dia. As horas passam, anoitece, e não tenho mais certeza se estou acordado quando um homem com vestes arcaicas se põe à minha frente; ele se apresenta: Marco Túlio Cícero. Interrogo-o sobre o seu país e a sua república, e ele faz o mesmo comigo, e nos regozijamos da nossa mútua curiosidade. Ele aponta, então, para a abóbada celeste, que, da clareira, só podemos ver uma parte ínfima. Mesmo assim, ele diz, nunca deixa de surpreender o espetáculo dessas pedras siderais, cujas magnitudes nunca pudemos conceber. Eu concordo e, ao mesmo tempo, me entristeço. Cícero percebe e me pergunta o motivo de eu ter ficado triste. Eu respondo que li as suas obras, conheci os seus pensamentos e a sua filosofia, e muitos que vieram depois dele o leram e o conheceram, e nos importamos com o que ele disse, e fizemos tantas coisas inspirados em suas palavras, mas, concluo, agora é tarde, erramos, fomos longe demais, perdemos tudo, a eternidade das nossas ideias e a imortalidade das nossas almas, e logo a espécie deixará de vagar, errante, por este mundo e não chegará aos outros lá fora — e aponto para o alto.

A visão desaparece, então desperto em meu tempo infinito e desisto de ir à cidade. Eu retorno para casa.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

st. Christopher’s Inn, Rosa-Luxemburg-Platz, de Thais Lancman

capa_lancmanTudo de valor fica em um pequeno armário de madeira, pouco acima dos meus pés. Há anos não durmo em beliche, quanto mais um triliche. Quase bato no teto. A mala fica aberta mesmo, no chão, como todas as outras, as tripas de roupas expostas, escorrendo, como se mulheres automaticamente fossem confiáveis. Mulheres meninas que pagam quinze euros a noite, café incluso, uma porta com senha que as isola dos outros.

Dez da noite e lá fora os postes de luz parecem fornecer uma iluminação redundante. O dia faz sombra no trecho de céu visível em uma janela comprida e alta, antecipando que as cortinas farão falta na hora de dormir. O cheiro de esmalte que vem da cama de baixo. Uma menina pinta as unhas, vejo na fresta entre a cama e a parede. Outra dorme do lado oposto à nossa cama. Já ou ainda? Não sei.

Uma sirene escandalosa me tira de um marasmo cheio de culpa por estar fechada em um quarto na cidade em que piso pela primeira vez, viajando sozinha pela primeira vez. Pego a cerveja grátis a que tenho direito no bar do albergue e, como sou a única cliente, é minha única bebida. Garrafas de vidro se espatifam no chão a todo instante na rua. Quero sair para quebrar a minha garrafa também, mas volto para o quarto, espatifo a garrafa em um cesto de lixo do corredor, volto para a cama elevada com o teto me claustrofobizando.

A menina de baixo fala ao telefone e reconheço que fala em francês não pelas palavras, mas pela ausência de silêncio entre elas, com um zumbido de boca semiaberta persistente. Em outro canto, a conversa entre duas garotas que não aparentam mais de vinte anos soa como uma gravação tocando ao contrário. Sueco? As três passam a interagir, agora em inglês, jogando nomes de festas e bares com naturalidade. Assisto do alto, e contra a luz das luminárias apontadas para cada cama — não há iluminação direta no dormitório — as cabeças magras parecem raspadas. Ossudas. Incomodada, desvio o olhar.

As malas são diversas como as fisionomias. Uma tem grossas peças de tricô, outra é uma bagunça babando roupas pelo chão. Pequenas, enormes parecendo serem de alguém de mudança, a minha é vermelha fechada, incomunicável, um coração hermético. A enorme coincidência de estarem todas ali, de estarmos reunidas, minha mente transatlântica faz o caminho inverso e leva a bagagem a seu local de origem, em trens, trilhos de outra época cruzando a Europa e chegando naqueles beliches, naquelas promessas. As malas como que voam aos locais de origem, a embarques, ao seu preparo em casas cuja arquitetura desconheço.

Chega a garota polonesa enrolada em uma toalha. Se troca com as costas para a parede, esquálida, reluzente como a lua. Ao vestir seu pijama, procuro uma estrela amarela no seu peito de forma quase instintiva. Uma bobagem, penso, não porque estamos em dois mil e quinze, mas porque ela não pode ser judia e polonesa, é improvável demais. Os alemães venceram, disse a minha orientadora uma vez. Seis milhões, ou melhor, para ser minimamente acadêmica, talvez algo próximo a cinco milhões e meio.

Em dois dias começa o curso, então não mais menina francesa, polonesa, as suecas e suas mochilas minúsculas de ar infantil. Suas calças sarcásticas, a ansiedade delas em estarem no epicentro do deslocado, ideia da qual compartilho, mas algo no final me segura. A sirene escandalosa. Culpa, tudo envolto em um mar de culpa, uma pororoca de ressentimento dos alemães e seu monumento grandioso e asséptico, eu e minha cerveja, minha curiosidade em saber onde compro aquelas mochilinhas. Demonstro interesse naquela conversa que se desenrola em um inglês truncado, perdida naquelas vozes, nos móveis de madeira, estilhaços, beliches beliches beliches gente empilhada, acumulada na Europa em quartos imensos, trabalhos forçados, judeus carga, judeus entulho, judeus nada. Tenho vergonha dessa comparação idiota, mas imagino que ela foi prevista por meus avós, tão contra qualquer viagem à Alemanha, terra dos nazistas, dos yekkes, para mim um mero objeto de estudo no qual aprendi a mergulhar e agora me sentia submersa, de outro jeito, na Berlim dos desmandos, nas leis arianas, estou pronta, de pé, jaqueta grossa, curta e moderna, parte de mim quer ouvir um convite das garotas e outra, tem um surto de coragem para encarar a cidade sozinha, e ela que vai, passa o cartão para abrir a porta, se encolhe no vento frio, atravessa mundos, turcos e seus döners, o prédio onde David Bowie viveu em Charlottesburg, faz fotografias e torce para não ser pega no metrô sem catraca, desiste do metrô e caminha.

Para chegar a uma fábrica, pessoas em fila aguardam benevolentes. Guardas gritam com elas em alemão, quem não responde já é despachado para outro lado, fumaça. Quando chega a minha vez, atravesso fazendo sinais com a cabeça. Me revistam no escuro, recolhem meu telefone celular, todos empilhados em um canto, penso nas posses desprendidas de seus donos para todo o sempre, aqueles amontoados de sapatos cor de terra e um salpicado de vermelho, azul com salto, verniz. Me devolvem o telefone com um adesivo na lente da câmera, agora aquilo ficará entre nós, o que está por vir e a minha confusão proposital, que eu carrego como as panelas, aquilo que se pegava antes de nunca voltar à casa, não sabendo para onde se vai, mas com a certeza de que vai cozinhar. No fundo, se sabia para onde ia, e que lá não haveria o que comer.

Aprender a viajar, a andar por corredores escuros de todos os tipos sem saber o que vai surgir no final, é como essa música, dentro dela há tantas mais. Um espaço enorme, o da fábrica, escuro e cheio de sons graves que vão escavando de mim a visão das meninas carecas, fazendo um rombo, me fazendo expurgar essas imagens em um espasmo, em movimentos como os de uma vela, é o que manda os livros sagrados, ler e se mover como a chama de uma vela, e assim fecho os olhos, me movo, gravidade, escuridão.

Transpiro, penso em câmaras de gás escuras e nos gritos, em como eles seriam, o choro coletivo e o silenciamento que vem com a morte, se eu tentaria fugir escalando pessoas ou me recolheria em um canto esperando cair desacordada, pesquiso quanto tempo levava, lembro de algum filme, agora é difícil não pensar em cinema, e não quero nenhum lugar mental em que não seja verão. Filmes de Segunda Guerra sempre se passam no inverno. E, de repente, me vejo sem estação do ano definida naquela fábrica, olhos abertos, meninas japonesas se aproximando de mim em movimentos sincronizados mas não idênticos, me resgatando de algum breu mental para me integrarem a algum ato coletivo de redenção, de fé no nada. O livro de comemoração de cinquenta anos de relações entre Alemanha e Israel é “nós não nos esquecemos, nós dançamos”. Ouço vozes em hebraico, mãos me tocam no escuro, os dois grandes templos do passado deviam ser assim, negros.

Sou arrastada para uma colmeia imensa de concreto, escalo três alvéolos para chegar a um rosto convidativo. O fetiche dos empreendimentos humanos, sempre prontos para se tornar outra coisa. Outros corpos, línguas, buracos em que se escondem fórmulas mágicas de desaparecimento, a fábrica se mostra em fundição de matéria anônima, fluidos, nenhum idioma que precise ser reconhecido. Volumes chacoalhados naquele espaço dois metros por dois metros, no fundo é um só fetiche, o do sol nascente na volta para casa.

Não há gritos ou gemidos, apenas a respiração alta daquele organismo coletivo, de onde é parido um rosto e um corpo musculoso, que se vira e simplesmente sai do casulo sem dono ocupado por nós. Enorme, loiro, ajeitando a bermuda preta, camisa e em quepe, busco algo como o distintivo da SS em qualquer parte, em pé, ele é gigantesco e opressor. Não consigo me mexer, observo meu suor pensando que enquanto ele estiver lá, estou salva do extermínio. Que aquela colmeia é o meu bunker, a casa em que só posso me mexer à noite, quando os hipócritas dormem. Me pergunto se chegarei no albergue e minhas coisas estarão sendo leiloadas, se não deveria ter vindo.

Tenho certeza que assim vai ser. É assim na Alemanha, terra que não correspondeu ao amor que os judeus tiveram por ela. E aqui estou eu, com os restos desse amor, não, com um sentimento do rejeitado bêbado, saindo do meu trabalho forçado na fábrica, tentando cantar alguma canção, ter a bissale mazal e ainda ver minha mala me esperando ao lado do triliche onde eu e tantas fomos jogadas.

Ou posso driblar a sorte, jogar no inesperado, fugir do delírio nazista pois não existe sol nem calor no extermínio. Primeiro é encarar o medo de comprar um bilhete no metrô, basta apertar alguns botões, não é nem medo que devia se chamar essa insegurança. Os trens de Berlim cruzam a cidade e já cruzavam quando Hitler subiu ao poder. Chego a Wansee antes das cinco da manhã, com uma garrafa de Club-Mate na mão. A casa-museu está fechada mas lagos não fecham. Lago pois See é lago em alemão, um falso cognato. Wansee nomeia a conferência na qual a decisão final se consagrou. O local visto de fora é apenas uma casa de veraneio e assim que o verei para sempre, do início daquele longo verão para a eternidade. Sigo para a água, nua como os alemães, os nazistas. Água fria com vista para A Questão Judaica, parada, inerte, congelada no tempo, com memória de mineral, resquícios daqueles dias, de todos os verões que nos separam.

A água dos campos correu para onde? Só se vê a fumaça antes da dispersão. A água tem que estar em algum lugar, chovendo sobre nós, em fontes tão puras, esgotos pestilentos. Mergulho e seguro a respiração até não aguentar mais, assustada por mais que eu saiba que é impossível alguém morrer afogado dessa forma. Me seco ao sol, o mesmo sol que deve acordar as vizinhas dos beliches do meu quarto, que nina meus cúmplices de bençãos na fábrica, o sol de outrora.

| conto do livro Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá, 2020). |

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo, onde vive. É doutoranda em Letras pela Universidade Mackenzie, onde estuda a relação entre arte contemporânea e ficção. Além de Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá), publicou Palito de Fosfeno (Editora Reformatório) e, em breve, lançará Meu ano Flávio de Carvalho.