audiência de apresentação

Magistrado: Tá aqui por quê?
Representado: Briga.
Magistrado: Tô lendo aqui que o senhor lesionou o funcionário Paulo Francisco. É verdade?
Representado: É sim, senhor.
Magistrado: E o senhor agrediu mesmo um funcionário da Fundação CASA?
Representado: Agredi não, senhor.
Magistrado: Ué, mas aqui tá falando que o senhor deu um soco no rosto dele e tem um laudo mostrando que o supercílio dele abriu.
Representado: Foi sem querer.
Magistrado: Mas o senhor não disse que foi briga?
Representado: Não com o Paulo Francisco. Foi com outro moleque, o Jefferson. A gente foi pra cela forte porque ele tentou roubar meu pão e saímos na trocação. Ele fez de propósito porque tinham negado a L.A. pra ele e queria me prejudicar. Aí fomos parar, os dois, no castigo.
Magistrado: E onde entra o Paulo Francisco?
Representado: Ele era o guarda do castigo. O Jefferson começou a rir de mim e eu parti pra cima. O Paulo Francisco veio e tentou separar. Aí acabei acertando o olho dele.
Magistrado: E foi sem querer?
Representado: Sim, senhor.
Magistrado: Tem certeza?
Representado: Sim, senhor.
Magistrado: Então tá bom, pode ir.
Representado: Senhor, foi sem querer. Mas foi bom pra caralho.

Lucas Verzola, 29, é autor de São Paulo Depois de Horas (Editora Patuá, 2014), finalista do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014 na categoria contos; e de Em Conflito Com a Lei — Submundos (Editora Reformatório, 2016), realizado com apoio do ProAC 2015, na modalidade “criação literária — prosa”, do qual foi extraído este conto. Em 2017 foi um dos fundadores da Revista Lavoura e integra seu conselho editorial.

o cu não é humano

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

Refere Hamlet a Horácio haver mais coisas no céu e na terra do que sonha a (sua) filosofia.

Críticos literários, filósofos, psicanalistas, teólogos, acadêmicos e esotéricos de toda espécie por séculos botaram-se a tudo, gastaram seu latim para entrever na célebre passagem shakespeariana um mar de angústias de perquirições humanas e espirituais das mais abstrusas, quando, em verdade, aquilo a que se referia o diretor cênico e casualmente príncipe dinamarquês não era nada disso, senão, pura e simplesmente, o cu.

Segundo a Clinical Enciclopedia of Proctology, o ânus é o orifício final do intestino grosso — conceito que pode ter levado a ciência e o prosaísmo a embaraços teóricos. O comentário do Dr. Harry Townled no artigo “Anus: a complete immersion” (Martinnopolis, 1971), presente na Enciclopedia, indica que, em razão de ser o cu prerrogativa final, fim do sistema digestório e fim de e em si mesmo, sobre si atuam influxos bioepistemológicos universais, o que se traduziu, do ponto de vista linguístico, em uma correspondência sígnica plúrima, multifacetada, sendo certo haver, em todas as línguas conhecidas, uma palavra ou expressão a ele — o cu — correspondente para cada uma das 23 letras do alfabeto latino original. Sobrelevam-se algumas em português:

Aro 13. Brioco. Carió. Digníssimo. Entrada USB. Fandango. Girassol. Holofote. Intencionado. Junta-mosca. Lado B. Mialheiro. Nadeguete. Olho-cego. Preguiado. Quadrado redondo sem tela. Rego. Soprador. Toba. Urna. Vesúvio. Xilindró. Zingaleta.

Contudo, a asserção do Dr. Townled e seu curioso rol igualmente permitiram uma sorte de equívocos conceituais. Para esmiuçar o problema, ao cabo é preciso definir o que é o cu.

O cu é o nada, o vazio. Não se confunde ele, o cu, com seu entorno, a parede do reto; é ele, o cu, justamente o espaço vazio da extremidade retal. Disso decorre, portanto, que o cu é o que não é — isto é, o que é não sendo; o cu é senda, e equivale ao não-ser. Parmênides de Eleia, um dos primeiros cuzões da história da filosofia, inconscientemente desvendou o segredo do cu; ainda que “desvendar” — ou mesmo as equivalentes “desvelar”, “descobrir” e outras — sejam imprecisas, eis que não se venda, vela ou cobre aquilo que não é. O que não é, por definição, não existe, e portanto não pode ser passivo daquilo que é (desvendamento, desvelamento e descoberta são). Se para Heidegger a linguagem é a casa do ser, sensato inferir que a linguagem, portanto, não é a casa do não-ser; sensato inferir, ainda, que, se o cu tem casa, esta é a não-linguagem. Se o cu tem casa, portanto, trata-se de uma casa evacuada, um asilo solitário onde não vigoram os princípios que regem o mundo da linguagem, que é a casa do ser. Sensato inferir, portanto, que o cu não é linear; não porque seja redondo, como quer fazer crer a filosofia barata — o cu não é linear do ponto de vista lógico-matemático. Daí que mandar o outro tomar no cu é equivalente a dizer vá viver com suas regras próprias lá na casa do caralho, que alguns pensam ser o cu. Ledo engano. O chamado prazer anal, ao contrário do que reza o juízo comum, não incumbe ao cu, mas às terminações nervosas do reto que são, isto é, que existem, ao contrário do cu. E em falar em expressões, habitual ouvir dizer que determinado lugar é o cu do mundo — equivalente a dizer, metaforicamente, que tal lugar é mais longe que Interlagos, de modo que a ele é impossível se chegar. Portanto, tal lugar não existiria — conferir o artigo “Un viaggio per Brasile: ma vaffanculo, l’Acre veramente esiste?”, de Italo Calvino.

Ora, e faz algo o cu, ou, em não sendo, apenas senda, nada faz? Não faz, rigorosamente, mas serve — não o cu, propriamente, que não é, mas aquilo que cotidianamente se diz e se pensa ser o cu — a uma política biológica utilitária: é através do cu que sucedem o peido e a merda. O peido, como se sabe, foi a última tentativa da natureza de fazer com que o cu falasse. Afinal, é bem assim: o peido é a fala do cu, uma fala própria, individual, inexistente na linguagem do mundo que existe — o peido é uma não-linguagem. A merda, por seu turno, é privilégio final da alimentação humana, cuja circunstância de ser expelida passando exatamente pelo cu não é casual: para que uma coisa que era parte de um ser que é deixe de ser, é preciso que tenha de si sua presença retirada, o que se dá a partir de uma transitória viagem pelo mundo do nada, vale dizer, pela casa do não-ser: a casa do cu, crivo quimérico que retira o ser da linguagem, tornando-o, assim, não-ser. E daí dizer ao outro que é uma merda de pessoa é o mesmo que dizer que não vale nada, que é mais que insignificante, é inexistente para o mundo daqueles que são. Portanto, não resta dúvida: a ideia de cu é inconcebível. Ergo, o cu não é humano.

| esta peça foi escrita à razão da primeira e da segunda teses de Piglia, que em janeiro deste ano foi se juntar ao cego bibliotecário na inconcebível Babel |

André Balbo nasceu em São Paulo em 1991. Autor do livro de contos Estórias autênticas — importunâncias do engenho alheio (Patuá, 2017). É conselheiro editorial e colunista da revista Lavoura. Já foi trainee da Folha de S.Paulo, editor-chefe e colunista do Arcadas, jornal da Faculdade de Direito da USP, na qual acidentalmente está concluindo a graduação.

a perna postiça

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

— Pai, trouxe essa perna pra você. Quer comprar?

— Que isso, menina?

— O filho da dona Jussara morreu, não vai mais precisar. Quer ou não?

— Eu não perdi minha perna.

— Ainda não perdeu, pai. O médico falou que vai ter que amputar se você continuar comendo essas porcarias. Vai querer ou não?

— Não vou querer coisa alguma, menina. Que desaforo! Não perdi minha perna. Ela está aqui, veja!

— Estou vendo, pai. Um horror! A mãe disse que você nem levanta mais desse sofá sozinho. Essa perna aqui ainda pode ser útil.

— Ela é pequena pra mim, filha, não está vendo?

— Deve servir.

— O filho da dona Jussara tinha o quê? Um metro e sessenta? Eu tenho um e noventa, não vai servir.

— Usa muleta, pai.

— Eu não vou usar nada. Não perdi minha perna. Mulher, venha cá! Veja o que sua filha está fazendo? Quer me vender uma porcaria de perna de anão, como se eu já tivesse perdido a minha.

— O que é essa gritaria? O que foi, homem?

— É sua filha. Veja!

— Mãe, eu peguei essa perna com a dona Jussara pro pai. Ele não quer comprar. Pode ser útil pra ele em breve.

— Dona Jussara deu essa perna pra você?

— Sim, mãe.

— Por quê? Você precisa de uma terceira perna?

— Na-não.

— Por quê, então?

— Ela de-deu pro pai, ca-caso ele perca a perna.

— Essa menina tentou me vender a perna, mulher. Sua filha tentou me vender a perna!

— É sua filha também, homem. Agora, se ela deu pro pai por que você quer vender pra ele?

— Só pe-pensei… Ah, quer saber de uma coisa, fica com a perna pai. Toma! Tenho mais o que fazer.

— Viu isso, mulher? Que desaforo! Nem perdi minha perna.

— Deixa a menina, homem. O almoço está quase pronto.

— Não tem uns torresmos pra tira-gosto enquanto espero?

— Quer saber de uma coisa, homem? Essa perna postiça ainda pode ser muito útil.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor, editor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.

achados e perdidos

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

Amiga, santo Uber, viu? Se eu precisasse cuidar de mim ontem, estava perdida. Nunca mais bebo daquele jeito. Sim, fui embora com o moço, o moreno baixinho. Era ruivo? Pois é, eu também lembrava dele ruivo quando a gente se beijou na festa. Ruivo, barbudo, alto. Mas a noite foi tão louca que no final ele virou moreno de cara lisa, todo atarraxado. Sei lá, também não entendi. Vamos pedir esse café e te conto tudo. Quer dizer, nem tudo, tem parte que não lembro. Apaguei, menina, logo depois de entrar no carro, deitei no banco de trás a caminho da casa dele. Oi? Quando te falei que ia pra minha casa? Eu não estava falando coisa com coisa. Abri os olhos e mal lembrava onde estava. Mas o destino era a casa dele, lá pros lados de Higienópolis. Acho que ele também tinha passado da conta. Sentava longe de mim, todo desconfortável, olhando o celular. Pouco antes a gente se agarrava. Bastou dar uma dormidinha e a gente nem se falava mais direito. O motorista ofereceu água, ele aceitou… acredita que nem perguntou se eu queria um pouco? Nossa, achei grosso. Uma hora, soltei: você deve me achar uma doida, né? Ele olhou espantado, disse não, imagine, normal, todo envergonhado. Se vacilar, estava passando mal, não faço ideia. Só sei que me bateu um bode e, quase chegando ao prédio do cara, decidi que precisava da minha cama. E sozinha. Foi o carro parar, segurei o braço dele e falei a real. Que era melhor cada um ir pro seu lado, que foi legal a gente se conhecer, mas que não era o momento certo e que, sinceramente, no dia seguinte ele nem ia lembrar do meu nome. Sabe o que ele respondeu, meio rindo? Eu não sei o seu nome agora. É, dá para acreditar? Ah, você me conhece. Eu sou calma, só não seja estúpido comigo. Mandei tomar no cu e escorracei o babaca do carro. O tiozinho do Uber me pediu calma, só que eu já estava puta da vida. Disse pra seguir até a Vila Mariana. De novo?, o senhor perguntou. E eu vou saber? Acho que tinha feito corrida pra lá pouco antes. Só confirmei e fui todo o caminho desabafando. Falei que homem não presta, que os caras se acham os fodões. Era um senhorzinho todo gentil, ouviu tudo, confirmando com a cabeça, e me deixou em casa sã e salva. Ah, teve um bêbado ruivo que me segurou quando eu ia entrar no prédio. Ele nem imaginava, escolheu o dia errado pra me encher. Acertei uma joelhada certeira nos bagos dele e fui embora. Ruivo, sim. Esse era ruivo, tenho certeza.

***

Amor, não peço mais Uber Pool sábado à noite. Você paga mais barato, mas acaba compartilhando viagem com tudo que é maluco. O que houve? Já te conto. Só preciso tirar os sapatos. Fique à vontade para me fazer uma massagem… Agora mesmo, lá na Paulista, vindo pra cá. Dividi com uma perua completamente chapada, você não imagina o estado. Pra começar, estava desmaiada no banco de trás quando abri a porta. Pensei por um segundo em me sentar na frente, mas, sei lá, entrei. Ela se ligou do mico e acordou meio desorientada. Fiquei na minha. Só que não parava de me olhar. Ah, sei lá se era bonita, não reparei, estava cansado e… ok, ok, até que era bonitinha, mas nada a ver. Sabe o mais engraçado? Fui ver no celular e não aparecia no aplicativo que eu estava dividindo aquela viagem com alguém. É, vai saber, essas coisas dão pau. Juro que fiquei afastado, sentado bem no canto, olhando pela janela. E ela me vigiando, noiada. Baita climão no carro. Tanto que, quando o motorista ofereceu água, mesmo sem sede peguei. Só pra disfarçar. De repente, ela vira pra mim: você deve me achar uma doida, né? Verdade! O que eu ia dizer? Sim, você parece psicopata, por favor, não me mate. Disse que não, claro. Fiquei feliz quando entramos na sua rua. Mas, nem te conto, chegando aqui, ao descer, ela segurou meu braço. O que eu podia fazer? Gelei. Não, foi tudo muito rápido. Ela veio com um papo de que curtiu a viagem, mas cada um tinha que seguir com sua vida e que eu nem ia lembrar o nome dela. Então, foi o que eu respondi, pô! Como eu ia lembrar se eu nem sabia o nome dela? A mulher virou um bicho. Precisava ver. Gritou, xingou, me empurrou pra fora do carro. Agora, sério, só tem maluco na noite de São Paulo.

***

Pois é, doutor. Eu não dou sorte com mulher. Quando acho que elas me dão bola… Não é justo terminar minha noite nesse hospital com uma bolsa de gelo no saco. Dói, claro… Caramba, nunca te acertaram os ovos? Eu fiquei um bom tempo na posição fetal lá na calçada. E o que eu fiz? Troquei a maior ideia com a gatinha, a gente se pegou gostoso e sugeri ir lá pro meu apartamento. Eu moro em Pinheiros, a duas quadras da balada… É o ou não o mais fácil? Só que ela quis me levar pra casa dela, lá longe, na Vila Mariana. Beleza, eu estava muito a fim, topei. Até pedi o Uber! Eu sei, eu sei, tinha bebido um pouco também. E a vontade de ir ao banheiro? Levamos uns vinte minutos até lá. Talvez menos. Admito que pesquei algumas vezes. Sei que quando o carro encostou, nem me despedi do motorista. Desci do carro. E xixi é psicológico, né? Seu cérebro sabe que está chegando e te deixa com mais vontade ainda. Eu ia molhar as calças antes de transar. O que teria feito? Corri pra uma árvore grande e mijei no canto. Foi ótimo. Ouvi o carro acelerando e nem imaginei que a menina foi junto. Não entendi nada. Fiquei lá que nem um idiota pensando em uma razão pra ela decidir não descer. Será que mentiu e aquele não era o endereço dela? Ou ficou ofendida com a minha bexiga solta? Porra, doutor, necessidades fisiológicas, diz aí. Melhor que pegar uma infecção urinária, não é? Então, fiquei uma meia hora sentado na sarjeta, na maior deprê. E não é que a dita cuja reapareceu… no mesmo Uber! Olha, gosto das coisas bem resolvidas e fui lá de boa. Ela já era outra. Do nada, soltou o joelho no meio das minhas pernas e me largou lá. Pode? Ficar brava por causa de uma mijadinha…

***

Filha, sei que a ideia desse Uber Pool é boa, mas as pessoas não estão se entendendo muito bem, não. Fui atender a uma chamada em Pinheiros e entrou uma moça e um rapaz no banco de trás. Primeiro achei que era um casal, mas depois vi que nem se conheciam, cada um cochilou de um lado. E quando a gente chegou ao destino, na Vila Mariana, pensava que os dois iam descer, encerrei a corrida e fui embora. Logo apareceu uma corrida compartilhada na Paulista e começou a ficar estranho demais. Peguei um sujeito moreno e fomos lá pra Higienópolis. No meio do caminho, eu vejo no retrovisor a moça da primeira viagem. Sim, ela continuava lá! Ou seja, compartilhando a viagem, não é assim que funciona? Não sei, no aplicativo não aparecia pra onde a moça ia. Ofereci água, segui o manual como se tudo estivesse certo. Até pensei que era esse que ela conhecia e não o outro, porque teve um momento no qual eles conversaram na maior intimidade. Pensei: se não aparece, é porque vão pro mesmo canto. Eu que sei como o aplicativo adivinha que conhecidos vão pegar o mesmo carro? Inteligência artificial, ué? Só que não acabou. Na chegada, de novo, só ele desceu. Ela ficou, depois dos dois baterem boca e tudo. Ela estava nervosa, pedi calma. Mas, espera, tem mais. Adivinha pra onde ela queria ir agora… Vila Mariana! De volta ao mesmo endereço de antes. Faz sentido? Pior que não aparecia nada no aplicativo. Àquela altura, achei melhor não entrar em detalhes e leva a mulher de volta. Falava muito. Preferi não contrariar. Dessa vez, desceu do carro e fiquei aliviado. E quem me aparece? O primeiro cara! E ela bate nesse também. Como vou saber? Preferi puxar o carro na ignorância a tentar entender o que aconteceu.

Alex Xavier, 42 anos, é jornalista refugiado na ficção. Publica contos no Medium: @alexxavier_27042

like eu

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

E foi assim de repente, no metrô: vi primeiro as orelhonas, depois a cara comprida, os dentes inesquecíveis. Sim, era um jumento azul.

Fiz de conta que não, disfarcei, olhei para o outro lado. E encontrei mais um jumento, azul igualzinho.

— Like eu — ele disse.

— Como é?

— Like eu, like eu — ele implorou.

Saltei na Estação Paraíso, ainda sem entender. Coisas da vida contemporânea, essas pequenas miudezas da existência. Talvez o bolinho de ovo com pimenta tenha caído mal; preciso ser mais cuidadoso com o café da manhã.

No meu caminho começaram a aparecer dezenas, centenas de jumentos azuis. E todos eles implorantes, lacrimosos:

— Like eu!

Pensei em correr, fugir, mas resolvi encarar: tudo aquilo fazia parte da paisagem urbana, deveria fazer, pelo menos. Só não gostei do fato de não ter sido avisado com antecedência, logo eu que me considero tão informado.

Passei o resto do dia encontrando jumentos azuis: no trabalho, no almoço, no banheiro — sim, porque essa é a sequência lógica desses nossos tempos: você trabalha (quando tem um emprego, naturalmente), almoça e depois dispensa tudo no banheiro. Ou vai ao banheiro, almoça e despeja tudo no trabalho. São milhares as combinações, é sabido. O que é o que, é com você.

— Like eu — ouvi de novo o mantra.

Por volta das seis da tarde, já de saco cheio de tanta jumentice, explodi com o azulado mirim à minha frente:

— Liko não! Vai sifudê!

Péssima ideia: em dois segundos fui cercado de jumentos armados e enfurecidos; não tivesse corrido, seria um a mais para a estatística diária dos linchamentos.

Voltei para casa me sentindo assim: smile

Na minha cabeça a frase em loop infinito: Like eu.

Exausto e com a sensação de que algo havia mudado em mim, liguei para um amigo. Parece que ouvi um relincho.

— Like eu — ele disse.

— Você também?

— Já se olhou no espelho?

Azul nunca foi a minha cor predileta. Vou ter que me acostumar.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: Claudio Parreira.

a metade de tudo

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

Sua vida seguia muito bem, podia continuar daquele jeitinho sem nunca receber notícia tão desagradável; sem um linguarudo como eu deixar escapar que sim, você é anão, todo mundo sabia menos você, rá rá. Nasceu pronto, nunca cresceu, rá rá. Desculpe. Eu mesmo não superaria, é provável que até encolhesse de desgosto. Acho que me sentiria menosprezado. Rá rá, entendeu? Desculpe, desculpe. Se me permite, você reagiu mais ou menos bem. Sempre é possível piorar. Poderia ter corrido para casa com as perninhas recém-descobertas, tomado impulso e saltado na cama para dela nunca mais sair.

Eu preferiria que você jamais soubesse, evidente! E que pudesse continuar entre nós como sempre foi. Há verdades que não precisam ser ditas. Preciso medir minhas palavras, eu sei. Mas eu me contenho bastante, você não faz ideia! A maioria dos clientes deste bar bebe uma ou duas e já vem me vomitar as suas desgraças. Do lado de cá do balcão eu sirvo outra dose, finjo que escuto, faço pinta de consolador. Mas o que desejo mesmo é rir na cara dura, dizer que problema não é exclusividade de ninguém e mandar se foder.

Desculpe o palavreado. Você é um sujeitinho decente, um dos poucos que vêm aqui. Divertido, generoso, não merece ouvir as minhas baixarias. Você costumava aguentar firme, já o vi entornar canecos da sua altura! Sei que está alegre o suficiente quando perde a noção do perigo, escala os engradados, trepa num dos bancos fixos do balcão e fica aí dando espetáculo sem se desequilibrar. Já trabalhou em circo? Pergunto só porque qualquer outro desabaria de tão mamado. Mas você parece experiente, sabe o que está fazendo. Sempre teve o domínio da situação. Até que, bem, até eu lhe dizer que você é anão.

Anão sim, e daí? Você tinha a sorte grande. Suas medidas lhe caíam muito bem. Por que mudou assim, de uma hora para a outra? Anão ou não, sempre foi superior a essa gentinha normal que se diz gente grande, pais de família, filhos de Deus.

Ok, ok, eu entendo. De que adianta falar agora, não é? Sinto muito, estou sendo sincero. Na mesma hora saquei o tamanho da minha indiscrição. Saquei também que as consequências não seriam boas. Passadas as minhas gargalhadas solitárias, naquele silêncio que se fez quando a sua ficha caiu, restou aí meio homem. Todo mundo olhando para mim, todo mundo vendo em você apenas metade do camarada de sempre, metade do bom caráter, metade da alegria. A metade de tudo. E sorriso nenhum. Não havia sequer meio sorriso nessa sua cabeça avantajada, rá rá.

Não deveria ser um problema grande assim! Você precisava ser tão dramático? Depois que falei da sua condição, passou a ver tudo por outro ponto de vista. Nossa cidadezinha ficou maior, os objetivos ficaram mais difíceis de alcançar. Já não dirigia porque os pedais do carro ficaram distantes, e a visão do para-brisa comprometida. O computador parecia ter um teclado de piano, você acabou preferindo um tablet. Não apertava as mãos dos bacanas, não fechava mais negócios. As oportunidades passavam, você tentava correr atrás delas, mas seus passos eram curtos demais; você saltava, mas seus dedos eram curtos demais para agarrá-las. Que coisa triste, olha só, dá até uma vontadezinha de chorar. Tá vendo a lágrima? Aqui, ó, deixa eu abaixar para você ver melhor.

Depois de tantos anos, faz bem lembrar daquele tempo. Ficou difícil preencher o vazio que a minha palavrinha causara. Você nunca me culpou, e por isso sou muito agradecido. Os companheiros agiram diferente, disseram que a minha verdade bateu forte demais, que acabou botando para baixo toda a sua vontade de viver. Depois eles perceberam que eu estava mal e que o bar podia fechar. Quiseram reverter a situação. Disseram que era melhor assim, que era melhor você viver consciente da sua condição a se enganar para sempre, que uma hora ou outra você teria mesmo que descobrir. Acho que queriam me consolar. Ou queriam uma dose por conta da casa.

Fato é que, depois de eu botar a língua para funcionar, você já não media a realidade com olho no olho. Ficou um nível abaixo de todo mundo. Esses bocós aqui abaixavam a cabeça quando lhe encontravam pelas ruas, tinham dó do anão.

O que dizer a um anão que descobre, à meia idade, a sua condição? Como consolar o coitadinho? Nascido de pais normais, veja bem. Nem podia ser acusado de filho do padeiro, não existe outro anão neste canto do mundo. Quiseram chamar você de filho do capeta, mas isso é baixo demais até mesmo para nós. Além do que, sabemos muito bem, não é só a estatura que faz um anão.

Me deixa triste é o jeito como aconteceu. Um dia você estava aí, empoleirado nesse banco alto, no dia seguinte já não estava mais. Disseram que você botou as suas coisinhas numa mochila, montou uma totoca e pedalou na direção da cidade grande, onde alguém haveria de esticá-lo. Como puderam? Os bocós deram a dica na maldade, disseram que a medicina estava avançada, até corno se remediava, rá rá. O nanismo não seria um desafio tão considerável.

Outros contaram história diferente, disseram que você encolheu mais ainda de tanta vergonha e desceu pelo ralo do chuveiro, desceu pela privada, foi levado pela enxurrada. Tudo piada de mau gosto.

Prefiro acreditar em outra coisa, que ao menos tem jeito de meia verdade: você foi para a cidade grande, não foi? O que aconteceu depois? Tantos anos se passaram! Quero ouvir as suas histórias sobre tudo o que aconteceu até hoje! Ficou na outra cidade não porque o esticaram, claro que não, mas porque no meio daqueles prédios gigantes todo mundo é anão. Não foi? Aquela cidade não tem a medida dos homens, ela é trocentas vezes maior. E depois, o que mais? Ninguém ali notaria qualquer diferença em você, não é?

Aliás, você percebeu como ninguém reparou na sua presença hoje? Só eu o notei. Senti sua falta. De verdade. Espero que tenha vivido bem e bastante. Tinha certeza de que você jamais voltaria para esta cidade enquanto vivesse, depois de tudo que passou. Mas quem diria que voltaria para cá depois de morto! Isso nem eu imaginaria, meu querido anão.

Por que você está me olhando desse jeito? Você sabe que morreu, não sabe?

Eduardo A. A. Almeida é escritor, roteirista, redator. Doutorando em Teoria e Crítica de Arte na USP. Membro do coletivo literário Discórdia. Colunista de cultura do Correio Popular. Professor de teoria, crítica e história da arte. Pesquisador de poéticas contemporâneas. Autor do livro Por que a Lua brilha (Cultura e Barbárie, 2017) e do site www.artefazparte.com.

um negócio justo

Uma troca: você nos dá o seu sangue e nós pagamos o seu salário.

Era necessário, por isso concordei.

Eles foram gentis no começo: sangue novo, sabe como é. Agulhas descartáveis, seringas esterilizadas. Sorrisos a cada coleta, manhã, tarde e noite. Um negócio justo, sim, senhor.

O que eu não sabia é que em bem pouco tempo só o sangue não seria suficiente: quiseram também a minha concordância.

— Você concorda e nós pagamos o seu salário.

Avaliei a situação e fui obrigado a concordar: um negócio justo, sim, senhor. O que eu não sabia é que em bem pouco tempo só o sangue e a concordância não seriam suficientes.

Faz nove anos que exigiram o meu silêncio.

— Você cala a boca e nós pagamos o seu salário.

Fiz uma rápida contabilidade e cheguei à conclusão de que seria um bom negócio: quem precisa de palavras, afinal?

Desde então as exigências aumentaram: deixei para eles a minha liberdade, a dignidade, meus desejos e sonhos. Tudo com contrato assinado. Um negócio justo, sim, senhor.

Faz vinte e cinco anos que aquela massa disforme sobre a mesa sou eu. Fui eu: todo o conteúdo foi trocado pelo salário. Diante do sacrifício exigido para a manutenção do Todo, no entanto, convenci a mim mesmo de que esse é um negócio justo, sim, senhor.

Tenho de mim, agora, apenas a alma. Sei que em breve alguém vai propor:

— Você nos dá a sua alma e nós pagamos o seu salário.

É necessário, pois é, claro que sim.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: Claudio Parreira.