piromaníaca, de Laura Elizia Haubert

capa_furacaoEla sentia intenso prazer quando via alguma coisa queimando à sua frente. Havia algo naquilo, aquela cor que só o fogo tem, aquela imensidão que só o fogo tem. Como é que as outras pessoas não ficavam assim, hipnotizadas? Como resistiam à vontade insana, que a fazia coçar os pulsos, de querer queimar tudo? Aquele instinto desgovernado era mais forte que ela, um negócio primitivo que se remexia por dentro e a fazia ficar mal quando não conseguia queimar. Se ela não queimasse algo não se sentia viva. Chegou ao ponto de não poder dormir à noite.

Não se recordava direito de como aquela obsessão tinha começado. E isso importava? Talvez não mais. O que importava é que, como os pequenos hábitos de infância que se tornam importantes, ele se manteve pelo resto de sua vida. E provavelmente a última coisa na qual pensaria antes de morrer, dali a 67 anos, é que ela gostaria de ser devorada pelas chamas de vez.

Se não se lembrava do começo, pelo menos se lembrava, com certo prazer, de quando recolhia as folhas de árvores e papéis do lixo caídos no quintal, até formar uma pilha enorme para queimar. E arder, arder, arder. E ninguém estranhava, ninguém imaginava o prazer que ela ocultava, o que acontecia à noite, ali do lado de casa, no terreno baldio, onde ela se infiltrava escondida para jogar o saco de lixo no latão gigante e, com muito furor, acender um fósforo e lançá-lo para o fundo, vendo as chamas estalarem.

Às vezes, quando estava assistindo o fogo crepitar, sentava-se tão paralisada que parecia uma escultura. O que ela via de tão fascinante? Não se sabe. Mas seus olhos tinham interesse pelo fogo, e seu corpo era desejo de fogo, e ela inteira queria ser fogo, bem lá no fundo, embora soubesse que não era possível ser assim tão quente.

Quando se esgueirava para entrar no terreno, tomava cuidado para não ser vista nem antes, nem durante, e nem depois. Não queria ter de explicar o que não conseguia explicar sequer a si mesma. Não queria ter de acalmar a mãe dizendo que não estava doida para matá-los à noite, muito menos se defender dos vizinhos que comentavam sobre os prováveis drogadinhos que vinham ali usar o espaço vazio para se aquecer e fumar ou injetar.

— Coisa de drogadinho, isso aí. Você sabe, agora que eles se espalharam pela cidade, a gente não tem mais sossego — dizia Dona Lurdes, indignada, toda vez que passava na frente do terreno baldio.

E ela, muito quieta, via que Dona Lurdes tinha uma coisa má à sua própria maneira; por isso nunca dava nenhuma resposta, por mais que desejasse.

Sua vida ia seguindo, até que um dia, lá por novembro, alguém levou seu latão embora. E ela não queria se arriscar a queimar os papéis e folhas direto no solo, porque o fogo poderia se espalhar pelo mato seco e logo estaria queimando o terreno inteiro, e quem sabe acabasse por queimar sua casa.

Aquela tinha sido uma semana perturbadora. Ficou amuada, seus sonhos não eram sonhos, eram pesadelos, e quando acordava se deparava com a infelicidade. Nos primeiros dias, resistiu com bravura, mas foi se deixando levar, o humor caiu, a esperança caiu, e ninguém conseguiu entender por que ela estava daquele jeito. Ninguém, exceto seu pai.

Ela não sabia, mas o pai conhecia seu hábito escondido. Ela não sabia, mas quando ia se deitar, o pai jogava água fria nas cinzas e ficava à espreita para ter certeza de que o latão não ia virar e botar fogo no mato, e botar fogo na casa, e botar fogo no bairro todo.

Então, quando levaram o latão embora, ele com discrição tratou de arranjar outro. No sábado, convidou a filha desanimada para tomar um sorvete e fez questão de passar na frente do terreno, mesmo a sorveteria sendo para o outro lado, para que ela pudesse ver o novo objeto. E ela viu, e ela sorriu, e ele sorriu, e ninguém disse nada.

| conto do livro Doce olho do furacão e outras fúrias (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia na Universidad Nacional de Córdoba. Graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Já participou de várias revistas literárias, entre elas Revista Subversa, Revista Gueto, Revista Ruído Manifesto e a Revista Ponto do SESI-SP. Publicou, em 2017, pela Editora Patuá, o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul; em 2019, Memórias de uma vida pequena, pela Quintal Edições; e, em 2021, pela Editora Penalux, Doce olho do furacão e outras fúrias. Atualmente, vive em Córdoba, na Argentina.

aprender outra liberdade, de Wanda Monteiro

wanda_capaPreso, numa exígua cela, dentro de um quartel de exército e sob uma excessiva segurança, Miguel ficou por muitos meses em total incomunicabilidade. Miguel nunca imaginara experimentar, um dia, essa incomunicabilidade que lhe impunha o silêncio implacável de toda e qualquer voz humana: Ninguém podia lhe dirigir a palavra, nenhum oficial, nenhum soldado e nem sequer um advogado poderia lhe dirigir a palavra. Era uma incomunicabilidade quase absoluta que só era quebrada pelos torturantes interrogatórios, onde a voz dos oficiais do comando militar martelava sua mente até o ponto em que ela não respondesse mais às lesões perpetradas contra o seu corpo físico.

A visita da esposa, dos filhos, dos pais e dos irmãos estava, terminantemente, proibida. Nem na mata densa do Curuá, região amazônica, onde ele havia se escondido por muitos dias, Miguel experimentara essa incomunicabilidade. Lá, havia o correio da mata, levado pela voz dos mateiros, pelos posseiros de terras e pelos ribeirinhos em suas canoas. Chegavam também as notícias pelo seu rádio transistor: essa era a rede de comunicação e espionagem que davam a Miguel, com segurança, as localizações e o movimento de seus perseguidores. Essa rede também levava à Miguel outras noticias: de sua cidade sitiada e militarmente ocupada, de seus pais em confinamento, de seus companheiros e de seus amigos próximos sob ameaça e tortura, e das patrulhas militares seguindo seu rastro para executar sua prisão. Mas, havia a voz da floresta: o canto dos pássaros, os sons dos animais selvagens, o farfalhar das folhas nas imensas árvores nativas, o som das águas nas corredeiras dos rios e igarapés, a música do vento e a música da chuva. Essa era a voz da mata, dos rios e dos animais que Miguel conhecia e compreendia, tal era sua intensa conexão com a natureza.

Depois, a caçada, a captura forjada e a brutal exposição de sua prisão na senda do rio e em terra firme. Sim, Miguel depois de pagar em dinheiro aos oficiais do exército por sua vida, se entregou para poupar a vida de seus pais e de seu irmão e para evitar que sua esposa e filhos sofressem mais violências. Todos que lhe eram próximos estavam sob constante ameaça pelos militares que cumpriam as ordens do comando militar. Ele fez com os militares um pacto: o de confirmar sua captura e não a sua rendição mediante um acordo financeiro.

Miguel foi exposto como um animal, amarrado, quase nu, primeiro em cima de caixotes dentro da embarcação que percorria o rio. Depois, ele foi exposto em um jipe do exército que percorreu as ruas de sua cidade natal. Ao chegar ao aeroporto da capital de seu Estado, Miguel foi exposto sob os holofotes da imprensa rendida ao sistema imposto pelos militares: os mesmos militares que promoveram o famigerado golpe contra a democracia de seu país.

Na incomunicabilidade da cela, havia a conexão de Miguel com as vozes de seu imaginário poético e mítico. Com as vozes de seus rios, de seus igarapés, de seus igapós, da mata densa de sua cidade natal. Havia também as vozes de afetos de suas histórias e sonhos: Miguel não podia ser ouvido e nada ouvir além dessas vozes. A cada amanhecer, a tortura de comer, beber e fazer suas necessidades orgânicas, mais íntimas, sob a mira de uma metralhadora apontada para sua nuca ou para sua testa. A cada anoitecer, dormir com os sons de sirenes, toques de recolher, com batidas de canos de ferro sobre a porta da cela e com o som do revólver jogado para dentro de sua cela. Na prisão, na mesma tortuosa hora de cada noite, um revólver era jogado para dentro da cela de Miguel. Ele já não se assustava mais e esperava por aquela cena. Depois que a arma era jogada, ele deixava passar algumas horas, e empurrava o revólver para fora da cela, pela mesma fresta em que ele era jogado. Ele sabia que aquela cena se repetiria dias e talvez meses, até que ele perdesse o controle. Como ele era um homem público e os olhos da imprensa local estavam voltados para sua prisão celular, ele não podia ser morto facilmente. Para o comando militar, um suicídio seria um fato conveniente para aquelas circunstâncias. Miguel sabia que aquela incomunicabilidade imposta tinha o deliberado propósito de enlouquecê-lo e de levá-lo ao suicídio.

Mais um amanhecer, a mesma tortura que parecia outra e sempre outra, mas era a mesma. Outra tarde, que parecia a mesma, sem sol, sem ar, sem vento, sem voz: a mínima portinhola de ferro de sua exígua cela se abre: Não era um oficial, mais uma vez, lhe ordenando com os olhos que o acompanhasse para mais um agonizante interrogatório. Não, não era, pelo capacete, dava para ver que era um soldado.

— Doutor! Sou eu, o senhor não tá me reconhecendo? Sou eu, filho de sua comadre, aquela que o senhor ajudou a reconhecer, na forma da lei, o nosso pedaço de terra, o senhor lembra?

Miguel, atordoado com a luz invadindo a cela e mais do que com a luz, com aquela voz que lhe quebrara um implacável silêncio, não conseguia ver nem os olhos do soldado, nem sua feição e mal conseguia lembrar se era de tarde ou se anoitecia.

— Por que estás falando comigo? Não sabes que tu podes ser preso por me dirigires a palavra? Como te chamas? Como chama tua mãe?

— Ah doutor, sou eu Firmino, mas olhe, hoje eu consegui furar esse cerco pra falar com o senhor, prometi pra minha mãezinha que daria notícias do senhor pra ela. Olhe doutor, antes que chegue mais um da tropa, deixa eu lhe dizer, eu tenho tanta pena do senhor. O senhor tá aí tão preso, preso na pior cela, preso nessa pior prisão e preso nesse silêncio. Tenho tanta pena do senhor.

No entreato desse diálogo inusitado e nervoso com o soldado, Miguel pensou no significado das palavras: pena, prisão, silêncio. E num átimo de tempo, lhe veio à mente a palavra liberdade. E lhe veio a mais clara ideia de que ele era livre para pensar. E de que o pensamento era o seu chão, era a terra onde podia nutrir, livremente, seu imaginário e suas ideias. O pensamento era a terra em que ele pisava. Por todos aqueles intermináveis meses, a incomunicabilidade de Miguel com o tudo de fora da cela o fez entrar em contato e em total sintonia com o tudo que vivia dentro de sua mente e que se movia no pensamento.

“Me sentia esmagado pelo ferro da porta, pelo ferro da grade e pelo cimento do chão, das paredes e do teto. Primeiro foi o espaço. Depois foi o tempo. O espaço, a princípio, me limitava a visão e a audição dos passos cadenciados dos soldados, não entendia o que eu tinha lido em Martin Heidegger: que escutando, o pensamento fala. Pois fala do pensamento é escutar. A escuta é a dimensão mais profunda e o modo mais simples de falar. O barulho do silêncio constitui a forma originária do dizer.” (posso ouvir as palavras de Miguel escritas em seu livro de ideias)

— Firmino, não tenha pena de mim. Tenhas um pouco de pena de ti, estás mais preso que eu.

— Como assim doutor, o senhor aí tão preso e olhe eu tenho até medo do que pode lhe acontecer, eu ouço dizer pelos oficiais que o senhor é o mais perigoso dos subversivos. Mas olhe, eu digo pra mim mesmo que mesmo não entendendo nada do que eles alegam dessa tal subversão, eu digo de sua bondade com o povo lá do nosso povoado feito com esmero na beira do rio. Mas, a modo que eu tenho é pena sim. Me desculpa o senhor. Mas como assim que eu estou mais preso que o senhor, onde está a sua liberdade?

— Firmino! Estou mais livre do que tu porque eu ainda posso pensar. É no pensamento que mora a minha mais íntima liberdade.

Um som alto de uma sirene de recolher rasgou o espaço e fraturou o tempo daquele breve e proibido diálogo. Firmino fechou, rapidamente, a mínima janela de ferro da cela, voltou para seu posto, bateu continência e ficou naquela sua prisão. Ele ficou preso em seu gesto de prontidão e vigília, com seus olhos mirando o vazio das distâncias.

Miguel fechou os olhos, respirou profundamente, e voltou para o chão do pensamento. Nesse chão, Miguel voltou a pensar, livremente.

| conto do livro Chão de Exílio (Editora AMO, 2021). |

Wanda Monteiro é advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas, em Alenquer, Pará, Brasil. Obras publicadas: O Beijo da Chuva (Editora Amazônia, 2008); Anverso (Editora Amazônia, 2011); Duas Mulheres Entardecendo (Editora Tempo, 2015), em parceria com a escritora Maria Helena Latinni; Aquatempo (Editora Literacidade, 2016); A Liturgia do Tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019); Aquatempo Aquatiempo, tradução versão em espanhol de Bianca Guzzo (Editora Patuá, 2020).

pedra de Montezuma, de Léo Tavares

capa_melancoliaPois que, Montezuma, naquele tempo, vendo-se ante as tribulações da chegada dos espanhóis, ainda na feição da profecia, mandou que vasculhassem a nação em busca de uma nova pedra sacrificial para os rituais de esfolamento. Os deuses andavam insatisfeitos, tinham gana, demonstravam sua ira por meio da natureza ou das traições humanas. Era por isso que a cidade de Tenochtitlán se encontrava à mercê das agonias do rei, torturado dia e noite pelos prodígios sucessivos que os mágicos e sacerdotes anunciavam, lendo nos céus e por meio de visões e sonhos os sinais de grande transformação.

E os tenochcas encontraram a pedra, numa colina alta na província de Chalco, uma pedra monumental que demandou a ajuda de centenas de homens de cidades confederadas para que fosse retirada de lá. Foram feitos esforços ao limite das capacidades físicas, e então foram feitas conjurações e entoados cânticos, aspersões rituais e marcações mágicas. Só assim a pedra obstinada cedeu e foi arrastada, com alavancas e cordas, por estradas e aldeias. Mas as cordas se rompiam, sucessivamente, as alavancas emperravam, sem trégua, e as gentes de províncias diversas e de cidades aliadas a Montezuma já se encontravam à beira da desistência. E a pedra disse, de voz própria e contundente, a pedra disse não querer ir a Tenochtitlán. Iria, se fosse o caso, até onde lhe aprouvesse. Era seu direito não ir. O rei, ao saber da teimosia da pedra e ao ser informado de suas palavras, em princípio não acreditou na história dos mensageiros e mandou que fossem sacrificados.

Enquanto isso, a pedra insistia em se pronunciar, a cada tentativa fracassada de demovê-la de onde estava, a meio do caminho para a capital mexica.

Será um mau sinal se eu chegar a Tenochtitlán. Não devo estar presente para assistir à catástrofe. Digam ao seu senhor Montezuma que já é tarde, o que acontecerá com o povo dele está posto e é destruição. Foi mais ou menos isso o que disse a pedra. E depois, vendo que os homens, ameaçados por Montezuma, não se conformavam em ser vencidos naquele empreendimento, deixou-se a pedra finalmente arrastar com facilidade.

Diante de Tenochtitlán, a pedra encontrou os festejos do povo. Foi recebida com incensos e cantoria, oferendas e sacrifícios. E ordenou-se que conduzissem a pedra por uma ponte de vigas grossas e maciças, disposta sobre um canal profundo, a fim de que a pedra entrasse pela porta principal da cidade. A pedra aquiesceu e seguiu, levada pelo cortejo, o rumo imposto por Montezuma. No meio da travessia, no entanto, foi ouvido por grande número de gente o estertor da madeira ao ser arrebentada. A grande pedra tinha desabado sobre o canal profundo, levando consigo dezenas de homens. Em fúria e incredulidade, nem mesmo diante dessa tragédia quis Montezuma desistir da pedra. Mandou mergulhadores com cordas para encontrá-la no leito do canal e trazê-la de volta à superfície. A pedra haveria de cumprir o desígnio que tinha sido, por ele, descendente dos deuses, determinado. Mas os mergulhadores retornaram sem nada. Não a encontraram no fundo do canal. Tendo vasculhado por todos os lados, verificaram que ela já não estava naquelas águas.

Alguns dias depois, chegou notícia do paradeiro da pedra. E Montezuma ficou sabendo que, em verdade, ela repousava em seu lugar de origem, ainda coberta de oferendas, ainda manchada do sangue dos sacrifícios.

E uma mulher, no século vinte e um, tendo organizado alguns itens pessoais em uma pequena mala, e tendo tomado o caminho de um aeroporto e lá chegado, e tendo entrado pelo portão de embarque, andado alguns passos dentro do corredor móvel que conectava o prédio a uma aeronave, de repente dava as costas e fazia o caminho inverso.

Naquela manhã de sol obstinado em janelas sujas de carros e ônibus, a mulher atravessou a cidade com o pensamento voltado a uma viagem que tinha feito há anos. Fotografou, então, as colinas e os montes, rondeou os vulcões do Vale do México, andando principalmente pelos arredores do município de Chalco, em busca de uma pedra monumental que correspondesse ao descrito nos relatos astecas da Conquista.

Tinha escrito, há poucos dias, sobre essas fotografias. Escreveu também sobre as ilustrações dos manuscritos mexicanos de antes e de poucos anos após a invasão dos espanhóis. Era o seu tema para a palestra do congresso, alguma coisa oscilante entre a arqueologia e o mito, entre a história monumental e o fenômeno poético primitivo que lhe impelia a manusear uma câmera. Agora não conseguia fazer sentido de tudo aquilo. Não é isso, pensava, relendo suas anotações e reflexões escritas no computador. Não é isso. E antes mesmo que o táxi parasse na frente do edifício, ela se disse, uma confissão há muito protelada: eu gostaria de fazer outra coisa.

Ao chegar em casa, viu-se no espelho oval do outro lado da sala, como quem não esperava se ver, por entre flores e folhagens meio murchas, amareladas. Tomada de assalto pela própria imagem, de mala na mão. Tirou a câmera portátil da mala e apontou para o espelho. Mais tarde escreveu sobre o espaço em branco da polaroid: Pedra de Montezuma. Datou a foto e a escondeu entre as páginas de um livro volumoso que trazia os códices astecas.

| conto do livro O Congresso da Melancolia (Editora Urutau, 2021). |

Léo Tavares nasceu em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, vive e trabalha no Distrito Federal. É Doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília. Pesquisa a relação entre a palavra e a imagem. Autor dos livros de contos O Congresso da Melancolia (Editora Urutau, 2021), Ruibarbo do deserto (Editora Patuá, 2019) e Os Doentes em Torno da Caixa de Mesmer (Modelo de Nuvem, 2014), prêmio Contista Estreante, pela FestiPoa Literária, de Porto Alegre.

o assédio, de Cecília Barreira

Entrara na empresa. Estava feliz. Não era mal paga. Era a mais nova dos trabalhadores.

Foi apresentada ao chefe.

Já devia ter os seus cinquenta anos. A barriga consistente abria-se à medida que os cabelos ralos mostravam a careca oblonga.

Maria queria fazer tudo bem.

O chefe exigia que ela ficasse a trabalhar com ele no fim do expediente.

Ela achava natural, apesar de cansativo.

Começou por lhe fazer perguntas pessoais.

Ela, tímida, não abria jogo.

Respondia com um sim.

Depois pretendia levá-la a casa.

Mentia, dizendo que tinha carro.

Um dia quase que a obrigou a comer qualquer coisa num bar após o trabalho.

No local, cheio de gente, colocou uma perna junto das delas. Apalpou-a.

Maria, incomodada.

Não sabia o que fazer.

Confidenciou com a maior amiga.

Ela referenciou o assédio.

Maria não queria perder o emprego.

Começou a reagir mal quando ia para o trabalho.

O chefe, sempre de olho nela.

Os restantes colegas riam-se devagar.

Não havia solidariedade.

*

Chegara mais um fim de tarde.

Ela pediu ao chefe para ir a uma consulta.

Ele disse que a acompanhava.

Maria abordou o constrangimento de tal situação.

— Eu sou o teu maior amigo — respondeu a arfar.

Ela saiu sem se despedir.

Estava nos limites do desespero.

Pediu a um amigo que aparecesse no escritório para se passar por namorado.

Rui assim fez.

O chefe olhou-o com desdém.

Chamou-o.

— Quanto queres para deixares de namorar com ela?

— O quê?

— Sim. Diz uma quantia.

— Nunca.

— E se eu te der 20.000 euros, pode ser?

— Bem… Não sei. é muito dinheiro.

— Dá-me o teu IBAN.

— Ok.

*

Maria perguntara a Rui como tinha sido.

Ele esquivava-se.

Ia para o trabalho exausta, em risco.

Estava tão frágil que deixara de comer.

O chefe ordenou levá-la a um hospital.

Ela trémula, aceitou, chorando para dentro.

Levou-a para um apartamento sujo e esconso.

Serviu-lhe um whisky.

Ela negou a bebida.

Pegou nela e pô-la na cama.

Ela colocou-se em posição umbilical.

Um outro homem entrara no apartamento.

Pareciam discutir.

Passado um bom bocado despiram-na abruptamente.

Sem alívio, sofreu violações várias.

Sentia-se morta, com dores.

Depois, levaram-na para um sítio ermo. Sem nada.

E aí a deixaram de qualquer maneira.

Nem sequer tinha uma identificação.

As feridas alojavam-se no corpo, na alma, nas vísceras.

Para ali ficou.

Nunca mais se lembrou de nada.

Cecília Barreira é professora de Cultura Portuguesa Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Autora de poesia, ensaio e conto. Pertence ao PEN Club português. Em 2021, publicou o livro de contos Sangue Suor Lágrimas. Também de poesia, Incêndio, da Poética Edições. Publica regularmente recensões críticas e ensaio em várias revistas.

Arnaldo e Dirceu, de Thaíse Santana

“Enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas.”
(Jeremias 17:9)

No final da antiga Rua do Ouro, há uma ponte. Embaixo da ponte, um rio. O Rio das Velhas lambe as casas velhas. Casas encardidas onde há velhas na janela. Num casarão imponente, avistamos a placa “Medeiros Brito Advocacia”. Dentro ali, dois amigos trabalham e conversam e partilham o dia. Mais que isso, Arnaldo e Dirceu partilham memórias, segredos, a vida.

A Medeiros Brito foi criada pelos avós de Arnaldo, que foi mantida pelos seus pais e agora pertence-lhe. Arnaldo é o mais bem sucedido advogado da cidadezinha. Um homem arguto e de coração sensível. Costuma ajudar as pessoas, inclusive, advogados em início de carreira (ainda que não haja tantos como ele). O seu coração vai explicar a origem da sua amizade com Dirceu.

Há vinte anos, Arnaldo sofreu o infortúnio, que mais cedo ou mais tarde, chega a todas as gentes: a morte de um ente querido. O seu pai, o doutor Antônio de Assunção Medeiros Brito sofreu um infarto fulminante e fez a longa passagem. Não teve tempo de se despedir da família. Na triste ocasião, Arnaldo estava fora da cidade. O filho único do doutor Antônio e da Dona Maria Amélia voltou às pressas, para cumprir os rituais fúnebres.

Contudo, foi difícil para Arnaldo seguir os ritos da sua vida. Estar vivo é uma benção, ele acredita, mas sabe também que esta benção exige muitas obrigações. Ainda mais quando se é o herdeiro dos negócios da família. Por isso, Arnaldo buscou ajuda médica. Perdas e ganhos chegaram de mãos dadas à sua vida e o pobre Arnaldo (nem tão pobre assim, é verdade) não soube lidar com os eventos paradoxos. Seu coração é demasiado sensível.

Durante nove meses, Arnaldo frequentou, religiosamente, o consultório do doutor Haroldo de Carvalho. Nessa ocasião, conheceu Dirceu. Homem franzino, de vinte e pouco anos, de voz aguda e vacilante. Dirceu era branco, de uma brancura que se enxerga ao longe. Bem educado e mal vestido. Suas vestes contrastavam com o ambiente de trabalho. Por outro lado, o seu corpo exalava um cheiro de sândalo, de algum perfume francês.

Dirceu era o assistente do doutor Haroldo e também estudante de Direito, graças à ajuda do patrão. Nas horas vagas, era leitor de Flaubert e Baudelaire. E no dia a dia, cumprimentava os colegas com salut, despedia-se com au revoir, num gesto de quem agita águas rasas para parecer profundo.

— E por que não medicina?, questionou Arnaldo, enquanto entregava a Dirceu o documento para o preenchimento da ficha.

— Quero combater as injustiças desse mundo.

Dirceu não soube, mas naquele momento, conquistou o coração do advogado. Após trocarem outras palavras, Arnaldo se encaminhou ao sofá, e ali aguardou sentado, pacientemente, enquanto Dirceu preenchia a sua ficha. Disfarçadamente, o recepcionista olhava o paciente, examinando as suas roupas, o sapato, o cabelo. Quando terminou de preencher a ficha, autorizou a entrada de Arnaldo. Este agradeceu e adentrou à sala de atendimento.

Passam-se vinte anos após esse encontro. Arnaldo e Dirceu estão no escritório conversando sobre uma festa de aniversário. É o centenário da Medeiros Brito que se aproxima, e Arnaldo quer celebrar a longa e frutífera existência da empresa. Elege Dirceu para liderar a organização do evento e assegura-lhe que a sua secretária estará a postos, para executar tudo o que for preciso. Dirceu pensa que organizar festas não é tarefa para um homem da sua posição. No fim das contas, ele se contenta e aceita a incumbência.

Os dias passam e algo curioso acontece no escritório. Alguns funcionários começam a receber bilhetes anônimos. Quem os recebe, não se ofende, mas lê e joga fora, imediatamente, como se não quisesse fazer parte da trama misteriosa. O perigo ronda o escritório Medeiros Brito durante alguns dias, e logo, vai embora.

Numa bela tarde de sexta-feira, quase fim de expediente, Arnaldo é surpreendido por uma visita agradável. Recebe em sua sala uma colega de trabalho, também advogada da Medeiros Brito. Ana Cláudia foi, um dia, muito mais que colega. Hoje, ela é alguém da confiança de Arnaldo. Eles conversam por alguns minutos e ela despede-se, já saindo da sala. Arnaldo tenta voltar ao trabalho, mas o seu pensamento está distante, confuso.

Os dias que antecedem à festa exigem de Dirceu um tempo ainda maior de trabalho. Ele está sobrecarregado, a ponto de não sair do escritório antes das vinte horas. Do outro lado, Arnaldo se prepara para ir embora. Antes de sair, passa na sala do amigo. Dirceu nota Arnaldo um tanto taciturno, e demonstra preocupação com a sua saúde . Arnaldo diz que está tudo bem, e num gesto solidário, libera Dirceu do trabalho.

— Mas é só hoje, adverte Arnaldo sorrindo.

Dirceu agradece e apaga as luzes. Os dois saem juntos do escritório. Antes de chegar no carro, Dirceu percebe o seu retrovisor quebrado.

— Caralho! Quem fez isso?, pergunta Dirceu atordoado.

A noite está calada. Àquela hora, já não há velhas na janela. Então, ele mesmo vai em busca de reposta. Dirceu corre para averiguar o acontecido. Quando, finalmente, aproxima-se do veículo, ele sente um impacto. Um tiro.

Thaíse Santana nasceu em Itabuna, Bahia. Autora de Mulher-Palavra (Editora Patuá, 2021). Professora, pesquisadora, ativista e mediadora de leitura. Mestra e doutoranda em literaturas. Tem artigos publicados em revistas científicas e poemas publicados em antologias literárias. No Instagram, usa o perfil @thaisesantanasou, onde compartilha fragmentos de sua vida-escrita.

torta de ervilhas, de Julliane Albuquerque

Com a respiração ofegante, a coluna curvada e sacolas de supermercado nas mãos, Ana sobe degrau por degrau. É a segunda vez naquele mês que o elevador entra em manutenção. Ela para por um instante no segundo andar, encosta as compras no chão, respira, olha para os degraus acima e toma nos braços a comida da ceia. Dos sacos para o armário ou para a geladeira, Ana organiza legumes, carnes e latas de ervilha. Uma das latas desequilibra, rola pelo chão e entra por baixo da mesa da cozinha.

Ana reequilibra as latas que ainda estão em mãos, empilha dentro do armário e ouve a lata caída rolar de volta até seus pés. Ela fecha a porta do armário, agacha para pegar a lata e vê uma espécie de mangueira cinza por debaixo da mesa. Não é uma mangueira, é uma tromba, uma tromba de elefante. Agachada, com uma lata de ervilha em mãos e de frente para o filhote daquele animal imenso, Ana respira fundo e solta o objeto em sua direção outra vez. O elefante agarra, equilibra na ponta da tromba, sacode para os lados e deixa a lata cair. Ana ri. Ele segura a lata novamente e a empurra de volta para Ana.

Com as ervilhas numa mão e a outra esticada até a gaveta, Ana alcança um abridor de latas. Aos poucos, o elefante caminha até a comida. Enquanto ele mastiga, Ana aproxima as mãos de sua cabeça, suas orelhas gigantes, sua pele áspera. O bicho retribui o carinho com a tromba. Aos cinquenta e quatro anos, a pele de Ana é fina, mas também tem rugas. No chão, ao lado do animal, o corpo magro e opaco dela parece ainda mais frágil. Ele estica a tromba por baixo do fogão como quem tenta alcançar algo e alcança.

É uma fotografia do Natal passado. Ana vê a mesa da casa da mãe, o peru recheado, a torta de ervilhas, seu irmão mais velho, sua cunhada, seus dois sobrinhos. Ana lembra que a mãe não costumava sair nas fotos da sala porque estava sempre na cozinha. É a primeira vez que ela fica responsável pela ceia. Sua mãe não está nem na foto, nem na cozinha. No seu lugar, tem um animal enorme. É difícil cozinhar com um elefante no caminho.

Julliane Albuquerque nasceu em Alagoas e hoje mora no Rio de Janeiro. É mestre em Ciências Sociais pela UFF e bacharel em Direito pela UERJ. Publicou textos em revistas como Ruído Manifesto e Mallarmargens, além de ter produções visuais com repercussão em veículos como Catraca Livre, Sputnik Brasil, Ideia Fixa, Revista Azmina, entre outros. Reúne seus trabalhos em jullianealbuquerque.com

quando dormires, cantarei, de Krishna Monteiro

“Pois aos galos de briga, aos falcões de caça e a todas as aves que, pelas mãos do homem, foram forçadas às lides guerreiras, também será possível armar como cavaleiros.” (Tratado medieval de falcoaria e outras artes, 1386)

capa_KrishnaPisou na arena e notou apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras. Férrea, brilhante, pontiaguda, a couraça de seu oponente recobria toda a extensão da cabeça e dos membros inferiores. Pensou em si mesmo, em suas armas. Pensou também na razão para as mãos nas arquibancadas estarem tão inquietas: levantavam nuvens de poeira, debatiam-se e apunhalavam o ar, em nada recordando aquelas que, em outros tempos, iluminadas por labaredas, faziam nascer pássaros negros sobre a tela de uma parede branca. Elas, as mãos, sempre o intrigaram. Pensa: “Além de voarem feito aves com plumas de sombra, as mãos também gritam como corvos. Devem ser suas irmãs”. Os gritos das arquibancadas crescem ao redor, o outro o provoca, agitando para a direita e para a esquerda a capa, a cauda multicor. Mas não seria pego nessas artimanhas. Contenta-se em acompanhar seu duplo com movimentos pendulares do pescoço, protegendo o flanco, terçando armas, levantando a asa direita como um escudo ou uma barreira edificados bem acima da linha da cabeça. “Cuidado com a cabeça”, dizia Conceição. “Se a agulha a picar, nosso esforço não valerá de nada.” Lembra-se de como Conceição e o menino manejavam cuidadosamente os golpes da agulha de maneira a contornar seu crânio, a evitar ferir as vértebras da coluna, e ao mesmo tempo quebrando e rompendo a resistência da casca e do invólucro no interior do qual ele flutuava. Via, submerso, como a totalidade daquilo que conhecia estava prestes a se fragmentar, despedaçar. O envoltório estilhaçou. O fluido escoou. O primeiro fôlego penetrou na raiz de seus pulmões. Firmou pela primeira vez os dois pés bambos, sentiu-se aninhado entre as palmas de duas mãos. E elas o elevaram até a mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, o conduziram — e tudo era brilho — até a brandura espelhada no rosto de Conceição. Pensa: “Como eram lisas as mãos do menino naqueles tempos”. Na arena, a multidão de mãos aperta o cerco em torno dele e de seu oponente, forrando o chão com uma chuva de papéis verdes que lembravam as folhas das árvores. O outro o olha de cima, cisca riscos enfurecidos sobre a terra, esgrime a ponta do bico em busca de uma brecha onde cravar o primeiro golpe. Carrega, entretanto, por trás das próteses e proteções metálicas que revestem sua cabeça, uma expressão estranhamente perdida. O palavrório das mãos fica mais e mais alto, ele persegue e acompanha seu duplo com total simetria de movimentos. E antes que pensasse em tentar recuar, sente a pressão de duas palmas no baixo-ventre e se vê subitamente alçado ao espaço, voando a contragosto em direção aos gumes e às adagas. Uma. Duas. Três. Afasta-se arquejando depois da quarta estocada. Esfrega os olhos, sente um filete rubro e espesso escorrer pelo pescoço. Olha adiante: à sua imagem e semelhança, as penas do outro também ostentam o mesmo colar de sangue. “Pode ser que ela o acolha, pode ser que o mate”, Conceição dizia. “Trata-se do filho de outra mãe, ninguém sabe quais serão suas penas.” Conceição e o menino o pousam no solo, os domínios que agora pisa parecem se expandir ao longo de extensões sem limites. Atrás de uma malha de fios prateados, trançados até alturas a perder de vista, um par de asas se ouriça ao pressentir sua chegada. Se soubesse a palavra exata para defini-las em seus tons e cores, ele diria: “Madrepérola”. Mas só mais tarde a aprenderia. Atentas, desconfiadas, destemidas, as asas madrepérola se engatilham em postura defensiva. Sem sequer compreender a perigosa linha de fronteira sobre a qual se aventurava, ele atravessa e salta; as asas se retesam, para uma fração de segundo depois relaxarem, desabrocharem, aninhando-o no interior de uma textura muito semelhante à das pétalas. Uma escuridão densa e acolhedora o abraça, e ele se pergunta se não haveria retornado para o interior do invólucro de onde a mulher e o menino o expulsaram. Mas lá tudo era líquido, e aqui somente há um ar impregnado de reconhecimento. Além disso, não existiam lá esses estranhos seres esféricos que aqui o rodeiam recobertos por uma penugem amarelo-ouro. No escuro, ele se viu cercado por olhos curiosos, cintilantes, pequeninos: olhos em tudo distintos destas duas órbitas chamejantes que — ele sabe — querem hoje, nesta tarde, e a todo custo, destruí-lo. O outro enxuga com a ponta das asas o vermelho que brota do peito, toma fôlego, afia os esporões no chão. E ele, ao examinar reflexivo o duplo e sua triste figura perpassada por tremores, se dá conta de que nada poderá restar além de uma única alternativa. Pois atrás, às suas costas, já crescem e se aproximam as mãos. Atrás de si, ergue-se a intransponível barreira de mãos: lúgubres, calosas, insensíveis. “Cedo ou tarde irão empurrar-me”, pensa. Então se antecipa.

Pousa sobre o outro como uma farpa, cravando o mais fundo possível as pontas das esporas (eram curvas como espadas mouras). Ouve um estalido seco e sente algo se partindo. Faz como aprendera, como estava escrito: a asa direita é o escudo que apara os golpes; a esquerda é a espada que sibila; e do céu e do solo e de todos os lados o corpo trovejará, lembrando tempestades vingativas de granizo: assim estava escrito. Percebe que o outro já se afasta, o rosto assustado e lívido. Com o pé direito, prende-o junto a si, e, manejando sabiamente a espora esquerda, abre na barriga dele uma série de incisões precisas. Uma. Duas. Três. Ouvia, podia ouvir algo se partindo. Conceição contava e partia as espigas de milho, e aquelas sementes caindo sobre ele e os outros, e a cor do milho se confundindo com a de seus corpos, e as bocas colhendo o alimento que se espalhava na terra e por entre as ervas. Circulando protetoras ao redor, ceifando e ciscando, elas, as asas madrepérola. E quando o sol definitivamente se reclinava, quando os irmãos se recolhiam atrás da tela de fios prateados e a respiração compassada de seus corpos era tudo o que persistia na noite, então ele os via se materializarem, alçarem voo: pássaros com plumas de sombra, planando sobre as paredes brancas da cozinha. Diante das labaredas do fogão a lenha, as mãos de Conceição esvoaçavam. Tiravam rasantes sobre a plateia da casa e da vizinhança, amontoada nos bancos e nas mesas, assistindo quase sem piscar às evoluções daquele teatro de aves negras.

Sobre o solo, seus pés frios. À sua frente, o inimigo exausto, exaurido. Opacas são as cores que colorem o mundo, a visão se embaça, e por um momento ele julga lutar contra dois ou três. Mas percebe que agora o duplo, em vez de atacar, em cima dele cai e se apoia como numa bengala, e que sobre o corpo do outro ele também se deixa desfalecer, ambos rodando em torno de um eixo imaginário, pisando e se desfazendo em uma poça feita da essência deles mesmos. “Não é para se ver”, diz ele para seu reflexo no líquido. “Não é para se ver”, Conceição dizia. O corpo jazia estirado dentro do caldeirão, seu dorso cortado por um talho através do qual o último fôlego escoava. Friccionando sua pele em cadência impiedosa, os dedos de Conceição arrancavam as penas, lançando-as ao ar. A luz as atravessa antes que elas pousem; ele reconhece sua cor, sua textura, procura a palavra exata para nomeá-las e de repente diz para dentro de si: “Madrepérola”. Pois agora a aprendera e a conhecia. “Não é para se ver”, Conceição dizia ao menino: “Esta cozinha está infestada”. As próximas tardes, os seguintes dias, elas lhe trariam o humor cíclico dos ventos: gélidos, vagarosos, inflamados. A roda dos ventos girava, ao redor dela as estações se sucediam, e ao fugir e dar as costas à mulher e às suas mãos ele se sentia capaz de passadas cada vez mais longas. As fronteiras do mundo diminuem. A tela de fios prateados se aproxima. Um dia, para sua surpresa, viu-se erguido ao ar: era seu próprio bater de asas. E ao pousar numa trave de madeira contemplou orgulhoso os dois membros, revestidos de plumas multicores e pontiagudas.

O duplo o olha. Como Conceição o olhava. O duplo o rodeia. Como ela, de longe, o rodeava. Quando trazia a chuva de milho. Quando, sorrateira, se aproximava. Recolhido em suas feridas, o duplo o estuda de relance. Carregaria como ele o peso da lembrança? O corpo no caldeirão, as penas pisoteadas: ao recordá-las, distanciava-se, voava para longe de Conceição. Mas ela insiste, invade seus domínios, abre a cancela, senta num canto sobre a palha e lá se enreda em reflexões, cercando-o com o peso do olhar. O duplo manca, tem a perna direita esmigalhada. As mãos gritam e se espremem na arena. Então o bote, o salto de duas mãos quentes como chamas, e ele surpreendido e capturado entre os nós daquela malha de dedos: distingue um ponto em carne viva nas palmas de Conceição, fustiga-o com uma sequência de bicadas rápidas, tentando, inutilmente, se libertar (o duplo empalidece e se contrai).

Entram na cozinha, ele erguido metro e meio acima do chão. Do alto, engaiolado entre dedos e palmas que o sustêm, vê correr um desfile de coisas que não sabe nomear: panos, artefatos, objetos dependurados. O peito pulsa, bate em disparada, e talvez por sentir e temer aquela cadência as duas mãos começam a baixá-lo. Descem-no, ofertam-lhe uma cuia cheia de grãos dourados, e ao provar o primeiro ele percebe que era da mesma matéria dos que, nas tardes e manhãs, caíam sobre seu dorso e o de seus irmãos. Come e devora o milho, ao mesmo tempo que sente, roçando em vaivém nas penas das costas, a carícia dos dedos de Conceição. “Não é para se ver”, diz ela ao menino que já rondava. “Queremos estar sós.” Ao limpar a vasilha, é novamente colhido pelas mãos. E Conceição mostrando, falando e ensinando nomes, descerrando e catalogando o mundo, tudo era brilho: a imagem de São Benedito, guardião da cozinha e atrás da qual se escondiam os fósforos; a moringa d’água, tendo ao lado a caneca amassada de alumínio; panos de prato bordados, azulejos verdes vindos do outro extremo do oceano; o fogão a lenha, forja que respira e ilumina; e ele — a partir daquele instante — trilhando caminhos abertos pela mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, seguindo seus passos desde o raiar do sol até o cair do dia, todos os dias.

Fala para si mesmo que, se o duplo continuasse vagando daquela maneira ingênua à sua frente, guarda aberta, asas arqueadas, passos sem alicerce nem objetivo, era questão de tempo até tudo chegar ao fim. Decide esperar. O sangue do outro escorre e empapa a areia. “Desse jeito, logo tombará como um saco vazio”, pensa. Melhor esperar. Sabe que também está ferido, mas os anos na arena lhe ensinaram que, até certo limite — que era tênue, e cuja identificação precisa diferenciava os grandes combatentes —, havia retorno e cura para qualquer chaga. Olha para o rastro de sangue do outro. Calcula. Atrás da cabeça do duplo, nuvens correm pelo céu, enquadram seu perfil num grande panorama azul. Era como se as formas das nuvens, seus desenhos e relevos, se agrupassem e envolvessem aquela cabeça que lembrava uma auréola ou o prenúncio do sacrifício. Mas um dos cúmulos-nimbos escurece, assume uma feição pontiaguda; e antes que pudesse respirar ele sente algo cravejar como um pino em brasa na barriga. Depois de ser erguido e atirado ao chão, depois de se levantar e ver que o outro ria um riso suicida, depois de constatar como na verdade eram agourentas as nuvens e que a areia agora se ensopava com seu próprio sangue, deduz que ele, também ele, havia cruzado o ponto de não retorno.

O menino gritava nas madrugadas. Quando fora entregue ainda criança numa cesta e Conceição o abrigara nos mesmos lençóis em que dormia, o choro era afogado em gotas d’água com açúcar pingadas uma a uma entre os dentes, que trincavam, rangiam. Porém, com o tempo, com o girar da roda dos ventos, os berros daquele que crescera e já passara para a cama ao lado se intensificavam, ressoando em todo o seu terror às quatro da manhã, como o apelo de um ser aprisionado em algo que não compreendia. De nada adiantou a estátua à sua cabeceira — “É para proteger”, disse Conceição ao colocá-la; de nada serviram as rezas, as benzeduras, as infusões de sálvia; pois os gritos ecoavam, persistiam, acordavam toda a casa. Até que uma noite, correndo a mão direita naqueles cabelos lavados por um suor frio, Conceição puxou não sei de onde uma canção esquecida, cujo último verso era assim: “Quando dormires, cantarei”. Sozinha com o menino entre paredes carregadas de lembranças (só os dois restavam, os demais haviam partido), notou que os braços dele se descruzavam e enfim pendiam soltos, e que todo o seu corpo virava para o canto, adormecia. Puxou a cortina. Espiou pela janela. Viu que a manhã já se ensaiava.

Empoleirado do lado de fora sobre uma ripa, também ele ouvia a música. Sentia que uma luz gestada a partir das entranhas da noite, crescendo em intensidade atrás das cristas dos montes, clareava não só e cada vez mais o terreiro, o pilão, a máquina de moer cana, mas também o interior dele, puxava para fora dele algo que sempre existira: um querer, uma força ancestral, um estremecimento adormecido. Algo que agora, por razões misteriosas, comichava, insuportável, mais e mais intenso, correndo como uma ânsia por suas veias em direção à garganta, para então quase estourar como um espasmo, um arrebatamento, uma vontade inexorável e incompreendida. Firmou os pés no poleiro. Encheu o peito, sentiu algo florescer dentro dele. Viu através da janela a silhueta de Conceição acarinhando o menino. E, quando o grito finalmente explodiu e saltou de sua garganta, ecoando sobre os cumes dos telhados, acordando todos os vizinhos, ele pôde perceber que, à semelhança da mulher em vigília, todo o seu ser parecia afirmar: “Quando dormires, cantarei”. Repetia a plenos pulmões o verso. Cantava. O sol nascia.

O golpe atinge em cheio a cabeça do duplo. Arranca a cobertura metálica que reveste seu rosto, fazendo com que a proteção cor de bronze voe longe como um elmo que se arremessa aos ares. Mas a reação não tarda: o contragolpe relampeja, retorna desesperado, e duas são agora as cabeças descobertas, os bicos despidos, os pares de olhos nus e ofuscados. Esvaindo-se em sangue, cada vez mais fracos em meio à histeria de mãos que os infernizam, os dois trocam vergastadas a esmo. Uma a uma, as peças de suas armaduras quebram, tombam sobre o solo, e ele pensa: “Parece que foi ontem”. Num ontem hoje distante e perdido no tempo, seguia os passos de Conceição no assoalho da cozinha. Curvada sob o peso de uma braçada de lenha, ela se arrasta em direção ao fogão — o acende, o assopra, o alimenta, sorri ao ouvir o estrondo das fagulhas que bailavam. Senta-se contemplativa ao pé do fogo, morde uma broa, dividindo-a com a boca e as asas aninhadas em seu colo. Não percebe o vulto, treva na tela das paredes; não nota, lúgubres e calosas, as duas mãos que se esgueiravam. Quando pressente o rondar do menino, pensa em dizer-lhe “Não é para se ver”, mas aquela presença já se evanesce. E, mordiscando a broa de milho, Conceição conclui que os gritos que julgara ter ouvido eram apenas silvos do vento que sacudia o telhado e suas vigas.

No quintal, o menino aperta a garganta dele, sufocando o último dos pedidos de socorro. A outra mão desce até a terra, manuseia uma série de artefatos brilhantes nunca antes vistos. A mão ergue uma peça (longa, recurva, de ponta aguçada) e a encaixa em sua espora esquerda: a perna agora lhe pesava. E essa sensação de peso quase intolerável recobrindo os dois pés e a cabeça, pressionando como um fardo o pescoço, fazendo com que seu corpo, livre, solto no terreiro, tombasse e oscilasse para os lados, quase não suportando o capuz, as escarpas e os punhais de aço. Cai. Por entre os furos da cota de malha, ouve risos abafados. Olha para a cozinha. Quer chamar Conceição, comer o milho, descansar novamente aos pés da mulher e de São Benedito. Mas ela não lhe ouve. Há tempos já não ouve. Conceição atada, esterilizada, presa à cadeira com ombros inertes e a cabeça macilenta mergulhada em neblinas.

O golpe de sua perna esquerda acerta a cabeça do duplo, que tomba de joelhos. Mas ele sequer percebe a queda do inimigo. Fita um ontem distante, um quintal, as mãos do menino: naquela tarde, elas carregam cortes e cicatrizes que nem sempre existiram. Vê uma terra recortada por arames, em que mãos novamente o erguem, mas de outra forma: com a técnica de um soldado e o rigor de um mestre armoreiro. Sente o garoto — ou quem ele se tornara — limpar e polir a veste metálica. Repara que ele traz um dente de alho nas duas palmas. Aceita, bica, engole a oferenda, um fogo queima sua barriga: nota então subir-lhe um gosto, uma segurança, uma raiva surda e um querer de rinhas. A armadura de couro e bronze é bela. Os treinos se sucedem. Numa longa sequência de fins de tarde, são apresentadas manhas, golpes, técnicas. Jeitos de sangrar e resistir. A armadura parece se nutrir da carne dele, perfeitamente integrada ao pescoço e aos membros inferiores. Agora leve, flexível como uma segunda pele, ajustada quase com a minúcia e o cuidado de um ourives. O menino o põe no colo. Aponta para um círculo riscado no quintal. Juntos, caminham naquela direção. As mãos o baixam. Ao olhar para os lados, sente-se cercado por centenas de outras mãos. Pisa pela primeira vez na arena, e por um momento julga estar diante de sua própria imagem refletida. Mas ele permanece estático, enquanto o ser à sua frente se mexe: agita, como uma flâmula de guerra, uma cauda feita de todas as cores. Pisa na arena. Nota apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras.

O duplo já não respira. E ele, pisando por cima daquele corpo inerte, tenta caminhar em direção ao último reflexo da casa e da cozinha. Vê Conceição encolhida junto ao fogão a lenha. A velha treme, revira uma acha, as labaredas estouram, brilham, o sol já se reclina. Solitária, sem a plateia de dias idos, Conceição eleva as duas mãos ao ar. E ele pensa: “Não é para se ver”. Mas enxerga o primeiro deles, suas asas, suas plumas de sombra envergadas, seu dorso que esvoaça traçando curvas nas paredes. Conceição contempla as próprias mãos. Outros pássaros levantam voo: lembram, ao planarem pelo teto, pelo chão, por todos os lados, uma revoada de aves migratórias em busca do calor. Negros como corvos, eles gritam, dançam ao redor do fogo. Suas figuras, ao crescerem de tamanho, recobrem pouco a pouco o teto, as panelas, as colheres de cobre e os tijolos caiados. Estendem-se sobre panos, artefatos, sobre o verde oceânico dos azulejos, e, unidos num único corpo, fundidos de súbito num todo, descem e escurecem, pousando até mesmo sobre o santo protetor. A noite quebra as vidraças. Envolve as ervas. O milho. O pilão, a máquina de moer cana. Banha a terra, seus tons de madrepérola. E um invólucro, muito semelhante àquele do qual a mulher e seu filho o expulsaram, ergue novamente suas paredes. Denso e escuro, o fluido sobe-lhe pelas pernas, pelo dorso, pelo pescoço. Os contornos do quintal desaparecem. Um vulto se desenha na escuridão. O envoltório se fecha, o último fôlego escapa da raiz de seus pulmões. Tenta firmar os dois pés bambos, mas flutua; e à deriva, suspenso naquele líquido, ainda consegue ouvir o som: o giro da roda dos ventos, sua engrenagem, seu sopro glacial, avançando pela terra como o galope de legiões em marcha.

Krishna Monteiro é escritor e diplomata. Viveu no Sudão, Reino Unido, Índia e Tanzânia. O conto “Quando dormires, cantarei” está no livro O que não existe mais (Tordesilhas Livros, finalista do Prêmio Jabuti 2016 na categoria Contos e lançado na França). Em 2018, publicou o romance O mal de Lázaro (Tordesilhas Livros). Tem contos traduzidos em revistas do México, Reino Unido e França e integrará coletânea em chinês de autores de língua portuguesa, a ser lançada em 2022.

violências, de Alê Motta

Meu pai batia tanto na minha mãe que ela se separou dele. Ele se casou mais uma vez e tudo se repetiu — grosserias e porradas na mulher.

Numa madrugada uns homens encapuzados invadiram o apartamento do meu pai, deram uma coronhada na sua testa e dois tiros perto do coração. Ele morreu na ambulância, a caminho do hospital. Os homens nunca foram encontrados. A polícia desistiu do caso porque não tinha pessoal disponível e nem pistas.

A viúva do meu pai e a minha mãe se conheceram no enterro. Minha mãe fez questão de ir para encarar com desprezo o defunto. As duas se tornaram amigas íntimas. Saem juntas para fazer unha, massagem, depilação, compras no shopping.

Minha mãe nunca perguntou, mas tem certeza de que a viúva do meu pai pagou muito bem aos encapuzados. A viúva do meu pai pensa que minha mãe contratou os encapuzados.

Só eu sei a verdade.

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista Vício Velho.

a agência, conto inédito de Micheliny Verunschk

Era mais uma sexta-feira quente como outras daquele mês, o barulho do ventilador se repetindo como um mantra, seu ciclo sonolento e desalentador. Eu gostava de me imaginar como Dupin, decadente em Montmartre, mas a verdade é que me faltaria sempre o brilhantismo intensamente humano do personagem de Poe. A chamada que me levou ao Trevo do Corredor me sacudiu do marasmo, um corpo dentro de um carro esperava pela composição de uma narrativa. E se eu não me mexesse, ela permaneceria congelada, à espera de alguém que a fizesse se movimentar.

O homem estava sentado no banco do carona. A cabeça fora esfacelada por cerca de 15 tiros e os dedos arrancados grosseiramente, o que sugeria que o crime fora passional ou, por outro lado, se tenha tido o intuito de dificultar a identificação do cadáver. Fiquei com a segunda hipótese, muito embora soubesse que se o assassino quisesse mesmo embaralhar a investigação seria mais produtivo incinerá-lo e, aí sim, atravancar o trabalho em meses. Entretanto, se aprendi algo nesses anos de profissão é que o criminoso sempre deixa a senha para ser pego, uma pequena negligência, um aparente descuido. Mesmo no crime perfeito, a chave está lá, é preciso apenas ter olhos para ver. Nem sempre os tenho, é verdade.

O que me sugeria que não fosse um crime passional? A uma primeira vista, a posição da vítima dentro do carro me dizia que ela fora morta em outro local. Num segundo momento, eu soube que aquele corpo com a cabeça horrivelmente disforme morava a poucos metros de mim, no mesmo conjunto de apartamentos da zona sul da cidade. Eu já havia visto no elevador aquela combinação de calças listradas e camisa xadrez, e a proximidade do crime a poucos metros da minha vida me deu um arrepio. O corpo foi enviado à Medicina Legal e eu, cumprindo o meu papel, resolvi tudo em quatro linhas.

Gazeta da Aurora
26/01/2018

Corpo é encontrado desfigurado

O corpo de um homem não identificado, com o rosto desfigurado, foi encontrado num carro abandonado próximo ao Trevo do Corredor. Segundo os policiais, os assassinos desfiguraram a vítima no intuito de dificultar sua identificação. O corpo, que teria recebido cerca de 20 tiros, foi encaminhado ao IML.

A última vez que eu vira o sujeito fora mesmo no elevador cerca de três dias antes. Ele levava duas caixas consigo e suava desesperadamente, olhou para mim algumas vezes como se procurasse algo, talvez empatia. Na garagem, deixara a chave do carro cair algumas vezes. Não ofereci ajuda, afinal nunca nos cumprimentamos. Achei patético e agora sabia o quão de espetáculo grotesco pode haver numa morte anunciada, porque estava claro que o homem saíra de casa para morrer e estava ciente disso e, mais, haveria de saber também que não haveria fuga possível, contorno que pudesse fazer que o colocasse fora do alcance do seu destino.

Resolvi voltar para casa aquela noite. Nem sempre eu voltava, é certo, perdido entre rodas de cerveja e mulheres anônimas. O apartamento estava um verdadeiro pardieiro, cheiro de comida azeda e tabaco, livros por todos os lados. Por baixo da porta, um envelope pardo se comportava como um inseto sem nome, parado, atento ao que eu faria, o joguei em cima da mesa e desabei no sofá. No dia seguinte, ao examiná-lo, uma série de recortes noticiavam atividades antigas da Agência de Controle Epidemiológico. Não entendi nada até a hora em que fui conversar com o porteiro sobre o vizinho de calças listradas. Foi aí que consegui um nome, André Salviano, e sua ocupação, funcionário da Agência.

O homem morto havia, finalmente, conseguido a minha atenção.

Liguei para a Agência e perguntei pelo homem. Três ramais depois, um sujeito perguntou grosseiramente o que eu queria com André. Preciso falar com ele, respondi, sabendo da impossibilidade do meu pedido. Do outro lado, o baque do aparelho sendo desligado sem nenhum esclarecimento possível, tornava as coisas mais sombrias. Foi quando lembrei de fazer uma devassa nas reportagens mais recentes sobre a Agência. Recordei de tê-la visto nas páginas policiais não havia muito tempo.

Sim, fato corriqueiro, um arrombamento, nada de valor aparentemente levado, e algum vandalismo. Mas agora, um funcionário morto trazia um elemento a mais para a trama na qual eu me enredava.

Gazeta da Aurora
19/01/2018

Criminosos arrombam escritório central da Agência de Controle Epidemiológico

O escritório central da Agência, na zona sul, foi arrombada nesta madrugada. Não há informações sobre o que foi levado e até o momento, ninguém foi preso.

A vida oficial de André Salviano parecia monótona. Seu perfil no facebook mostrava um homem solitário. As postagens públicas em geral compartilhavam insistentes alertas de cuidados com a saúde, meios de evitar surtos e epidemias, o que me levou a crer que fosse um desses maníacos por limpeza. Sem relacionamentos aparentes, nada o direcionava para a trágica cena da qual fui uma das primeiras testemunhas e foi crescendo em mim a certeza de que aquele desfecho estivesse relacionado à Agência. Os rumos da investigação policial, sempre lentos, me desmentiam. Colegas reconheceram o cadáver e uma suposta amante misteriosa foi trazida ao enredo por uma titubeante testemunha.

João Oliveira dos Ramos, ambulante, depôs que por volta do dia 23 ou 24/01/2018, ofereceu água e balas a um homem com as mesmas características de André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico, encontrado morto em circunstâncias misteriosas no último dia 26. Segundo a testemunha, uma mulher de cabelos claros acompanhava o homem”.

A Agência sempre gozou de boa reputação por seu trabalho social, entretanto em 2015, havia se associado a um grande laboratório multinacional para a prevenção de epidemias e desenvolvimento de novas vacinas. Na época, setores ligados aos movimentos sociais levantaram bandeiras contra uma suposta privatização da agência, denunciando também intervenções não muito éticas do tal laboratório em países da América Latina e África. Em 2016, o governo determinou sigilo de 50 anos nas atividades da instituição. Quanto mais eu pesquisava sobre a Agência mais me convencia de que havia algo cheirando mal naquilo tudo e não, não era apenas o cadáver.

No apartamento de Salviano, nenhuma pista que pudesse levar à mulher misteriosa. No seu enterro, apenas os colegas da Agência. O seu computador não foi investigado. Um crime sem solução, diriam alguns. As pás do ventilador eram agora a trilha da minha obsessão e um homem sem obsessões é pouco menos que fumaça de cigarro, gelo derretendo dentro de um copo.

Foi então que conheci a família de Salviano meses depois, em outro estado. Não pareceu que seus pais estivessem interessados ou animados em quem afirmasse tentar descobrir a verdade sobre a morte de seu filho. Mas antes que eu partisse, recebi no hotel duas caixas misteriosas, da qual dou notícia agora e que são responsáveis por parte da minha teoria.

Março/Abril de 2016, o país ferve com mudanças radicais na vida política. Grupos oponentes se enfrentam nas ruas. Uma série de insurreições contra um golpe desferido nos anseios democráticos do país transforma as cidades em palcos de uma guerra amplamente anunciada. No auge das contendas, um vírus mortal passa a se propagar entre a população causando perdas de vidas, hospitais e emergências inchados. André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico documenta os passos dessa receita para o caos minuciosamente. Políticos e Empresários trabalham de mãos dadas para esvaziar as ruas com uma epidemia em proporções alarmantes. Com material suficiente para responsabilizar os mandantes de gabinete, André Salviano é eliminado. Agora que estou com suficientes provas materiais, começo a receber ameaças veladas. Ontem uma mulher loira me observou por vários minutos no bar. Não é a primeira vez que a vejo. Se você estiver lendo esse relato, minha vida corre perigo.

Hoje recebi um telefonema: André Salviano não está morto, mas você está.

Nota da autora: Em março de 2016 fui convidada a escrever este conto para servir de base, junto a outro texto, de autoria de Luiz Roberto Guedes, da dramaturgia da peça “Urubus Noir”, da Cia Quase Cinema. Este conto acabou por me surpreender nos últimos dias, após revisitá-lo em leitura, por ocasião da reestreia da peça em formato de live por conta das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Muito embora retrate as tensões políticas presentes naquele início de ano, parece antecipar o cenário do mundo pandêmico que passaríamos a viver exatamente quatro anos depois. Obviamente isso não parece ser uma qualidade da autora, mas uma característica da literatura e do fazer literário, antena a prenunciar o futuro, ou como disse Oscar Wilde, “a literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios”.

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. É autora também de O movimento dos pássaros (Martelo, 2020) e de O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021).

disfarces ocultos, de Julianne Veiga

capa_meio_do_mundoNão importa aqui para o relato dar a ela um nome, ele se perde em meio ao das demais que como ela vivem histórias com enredo assemelhado. É que, no geral, muitas das mulheres, muitas, a maioria delas, talvez, podem se reunir num mesmo e amplo perfil de lutas e recaídas pela individualidade, sobrevivência, integridade e dignidade. A mulher deste caso há muito não tem mais pouca idade. O que a deixa tão envelhecida é a percepção de que falhou em suas escolhas, em sua vida, de que a desperdiçou, de que não há mais saída possível, de que está definitivamente enredada nas teias de casulo que tece desde que conheceu este homem com quem vive e que pensou dela fosse.

Ela olha para ele ali do outro lado da sala e conclui, depois de décadas de convivência, que o conhece bem, que hoje sabe onde encontrar seu verso e reverso. Sabe por quais vias periféricas transitam as suas mal disfarçadas intenções, agora já para ela reveladas. Aprendeu a ler suas entrelinhas, seus olhos fechados em falso, a ouvir as palavras não ditas. Sabe dos atalhos usados. Sabe quantas voltas ele dá, por quantos becos caminha para chegar soturno até ela. Consegue identificar seus ares de desdém e deles se defender. Hoje ela sabe que não é dele o objeto de afeto, sequer o é do desejo. Sabe, no entanto, que sua vida ocupa lugar central na dele, porque é ela o ponto para onde convergem todas as pedras por ele jogadas com suas mãos ocultas. Hoje, ela o conhece.

Nunca se calou, mas inutilmente, como muda, gritou palavras inadequadas que ele jamais ouviu. Travou, só, batalhas invencíveis. Esbravejou desorientada, num enfrentamento cego, irresponsável, se expondo ingênua e sem reservas para ele. Deixou à mostra suas fragilidades. Consumiu longo tempo até perceber que tudo que revelava voltava-se contra ela como munição usada em arma de ataque. Descobriu tarde, tarde demais, não sabe sequer onde cavar trincheiras para nelas se jogar. Nada mais pode fazer. E, por isto, trata de eliminar mágoas. Resta pouco mais que tolerância. Se perdoa. Afasta a amargura e continua firme no propósito de ser feliz: sozinha, ela decide.

Pouco tempo passado, porém, ela percebe que ele a está vendo. Ela se aquece. Ele lhe faz uns agrados banais, ela fica agradecida. Ele fala com ela em tom quase gentil, ela se envergonha do que lhe disse antes e dos pensamentos que sustentaram sua equivocada fala estridente, é como passa a lhe parecer. Ele lhe dá um beijo na testa antes de dormir, ela se enternece. Tais fatos bastam para que ela comece a acreditar que se enganou outra vez. Outra vez depois de tantas outras. Ele é bom, é um tanto rude, mas é bom, ela se convence. Acaba por acreditar, também, que ela mesma, dominada por seus antigos fantasmas, foi quem deu margem ao surgimento desta nova crise, assim como das anteriores. Perde a segurança quanto a si mesma e a seus julgamentos. Acha que faz transferências indevidas. Começa a duvidar de sua sanidade. Não se conhece bem como pensava, volta a concluir angustiada. Não o conhece, também. Não por inteiro. Constata que ela não é quem julgava ser e que ele é mais do que consegue enxergar, ou do que antes cria ver. Sente-se desequilibrada. Envergonha-se.

Resolve afastar as lentes duras do seu olhar. Tenta se desfaz de velhas certezas que passa agora a considerar inúteis. Aceita suas oscilações de entendimento e de sentimentos. Aceita igualmente as dele. Perdoa a si e a ele. Perdoa aos dois até por seus próprios erros de percepção e decide continuar firme no propósito de ser feliz. De ser feliz junto dele. Continua ao seu lado, ele que há muito está ali, do outro lado da sala.

Convicta do erro de seu julgamento sobre o companheiro, ela torna a baixar todas suas guardas. Sai da trincheira emocional em que havia se colocado. Retoma antigos gestos de carinho. Se oferece. Entrega-se. De novo, desnuda sua alma para aquele homem rude que está do outro lado da mesa. Ele, por sua vez, (re)impulsionando o velho círculo vicioso, volta a fazer dela seu objeto de desdém, brinquedo estragado, sem uso, abandonado para não ser visto, não ser tocado. Ela está ali do outro lado da cama entregue a ninguém. Ela que outra vez, outra vez, de novo, volta sofrida a se sentir recusada, humilhada, recaindo em seu antigo e destrutivo sentimento de menos valia. A diferença nesta crise derradeira, entretanto, está na ciência que ela vem consolidando de que enquanto não tirar aquele homem do outro lado da sala, da mesa, da cama, não conseguirá ter paz. Já não cogita mais ser feliz.

| conto do livro Histórias do meio do mundo (Editora Patuá, 2021). |

Julianne Veiga nasceu, em dezembro de 1957, na histórica cidade de Goiás, antiga capital de seu estado, onde voltou a residir no final de 2010. É casada, mãe de três filhos e avó quatro vezes. Servidora pública aposentada como procuradora de seu estado. Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Goiás — UFG, e em Direito, também, pela UFG. Iniciou, em 2017, bacharelado em Filosofia, novamente pela UFG. Como amadora, borda e toca tambor. Tem contos e crônicas publicadas pela Gueto, revista online de literatura em língua portuguesa. Participou com crônicas das coletâneas Literatura Goyas — Antologia 2015, Livres Pensadores, e Histórias de ternura, Kelps, 2015. Histórias do meio do mundo é seu primeiro livro publicado.