certezas, de Sergio Leo

Acho que acabava de abrir uma garrafa de cerveja quando vi o primeiro crocodilo, ou assim me pareceu; como se um pedaço da carapaça pardacenta do bicho deslizasse acima da linha d’água por segundos, para submergir rapidamente em seguida. Não tive tempo de avisar Marina, distraída na popa da pequena lancha de motor discreto, nem Marcelo. Ele, apoiado no banco de madeira do barco — ou ligeiramente inclinado em minha direção, sorrindo, as duas imagens se confundem na memória — tagarelava, falando mal das nossas origens.

Creio que não cheguei a comentar sobre o bicho. Marcelo ou Marina, naturalmente, duvidariam da aparição de um réptil, tranquilo, a passeio em um canal europeu. Não me lembro se tiveram essa reação. Seria previsível, bem provável, mas, se aconteceu, não mudou a falta de rumo da conversa, frouxa, distraída.

É possível eu não ter mencionado o animal, e notado, apenas, as poucas garrafas plásticas de água mineral e latas de cerveja boiando, por perto. Deve ter sido, aliás, um comentário sobre canais e sujeira que levou Marcelo a falar das tantas vantagens de viver sob costumes da Holanda.

“Imagina se os holandeses, e não os portugueses, tivessem colonizado o Brasil”.

“O país seria um imenso Suriname”.

Marcelo riu; e levei um tapa no braço. Nada disso, camarada.

Eu não sabia nada de ocupação holandesa, nem imaginava o que Nassau fez em Recife e Olinda. De como era democrática a política no Brasil holandês. Do financiamento pioneiro aos usineiros de cana de açúcar.

Não, eu não conhecia nada, não tinha ideia, nem sabia se ele estava falando a verdade ou confundia a história. Mas, se progresso fosse financiamento a usineiro, o Brasil, hoje, seria uma Suécia.

Marina riu alto. Você é um idiota, ela disse.

Eu sempre fui um idiota. Não lembro se concordei, rindo também, ou se fiz algum gesto amistoso, enquanto aproveitava para me recostar no assento, entorpecido pelo calor, meio hipnotizado pelas oscilações do barco.

Talvez tenha sido, aquele, o momento em que vi o segundo crocodilo, algo que poderia ser o topo da cabeça do bicho, de olhos opacos, aflorar por um instante na superfície cinzenta do canal e desaparecer em uma espuma amarelada, fazendo rodopiar um copo de plástico também acinzentado. Uma janela amarela refletida na água tremulou, mais adiante, num movimento que pareceu, por um momento, provocado pela passagem de um bote, à direita do nosso, ou por algum animal submerso, grande, lento.

No restaurante, foi Marina quem passou cuspir no país em que nasceu. Alguma coisa sobre nossa incapacidade de usar lixeiras, a falta de regras e respeito aos outros. Ou isso das lixeiras ela havia dito no barco, já a caminho do hotel.

Complexo de vira-lata, eu disse. Vira-lata é elogio, ela respondeu. O vira-lata é independente, ladino, um sobrevivente que aprendeu a explorar ou evitar o ser humano, conforme o caso. Sem dívidas com a humanidade. Quem é submisso, de saúde frágil, bajulador e previsível é o cão de raça, o fifi da madame.

Marina era boa de argumentos. Mas, agora, já não lembro se foi mesmo ela ou Marcelo quem veio com essa história de vira-latas e cachorros com pedigree. Poderia ter sido ele. Lembro vagamente de ambos discutindo sobre vídeos de gatos no Facebook e como os detestavam mas não conseguiam deixar de vê-los, todos. É possível que essa história de gatos tenha surgido depois da conversa sobre vira-latices. Eu tinha abusado do vinho. E pensava, calado, como sobreviveriam os crocodilos, em canais urbanos, por mais limpos que fossem — e esses não eram limpos, nem de longe. Talvez os bichos estivessem acostumados, por anos de sujeira; talvez a sujeira os tivesse atraído. Fosse no Brasil, quem sabe, eu veria capivaras.

Não sei se saímos tarde do restaurante porque havíamos chegado tarde, ou porque nos demoramos no almoço; lembro que abri a porta para Marina, Marcelo veio atrás, os dois argumentavam, concordavam, e soltavam palavras desbotadas, que se dobravam sobre si mesmas assim que pronunciadas, e rachavam ao tocar o chão, seus pedaços bicados pelos pombos, em meio a migalhas de pão, restos de comidas, resíduos de turistas. A luz da tarde deixava reflexos amarelados nos olhos de Marina, tornava enrugada a pele de Marcelo, me feria os olhos.

Falavam, os dois, àquela altura, de uma notícia, lida no avião, sobre salários absurdamente altos de professores de ensino médio em alguma capital brasileira importante. Não me recordo se usaram exatamente esse adjetivo, mas acho que não prestaram atenção quando lhes disse que, convertidos em dólares, absurdo era o muito pouco que as escolas pagavam para ensinar.

Talvez eu nem tenha falado, só pensado nisso, ao ouvir de Marina que era compreensível pagar o triplo a funcionários do Banco Central. Marcelo, provavelmente, teria lembrado que trabalhava no Banco Central, antes de se aposentar, dias antes de nos convidar para aquela viagem. Ou semanas antes, eu não sabia com certeza.

Por cima dos ombros de Marcelo, eu via os lampejos do sol refletidos nas águas do canal, remexidas pelas embarcações. Eu enjoava. O canal parecia pulsar, num movimento estranho. E meus amigos, com sorrisos de dentes pontudos e movimentos nervosos, de réptil, me convenceram a terminar a tarde — ou começar a noite — numa coffee shop.

Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos Mentiras do Rio (Editora Record); publicou Ascensão e Queda do Império X, sobre o fiasco de Eike Batista (Editora Nova Fronteira), “Segundas Pessoas” (conto, e-galáxia) e contos nas revistas Pessoa, La Pecera e Flaubert. Foi curador da 3ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, e jurado do concurso de contos Machado de Assis (Sesc/DF); participou de duas exposições coletivas no Museu Nacional de Brasília. Trabalhou no Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Isto É Dinheiro e Isto É.

happyland, um conto de Natal de Marcos Vinícius Almeida

No meu primeiro dia na agência HappyLand, eu estava destruído. Tinha acabado de me separar. Minha mulher se apaixonou por um cara. Algo difícil de engolir, mas também um tanto comum. Acontece o tempo todo, com todo mundo, eu repetia. Mas a coisa toda se tornou um bueiro sem fundo quando descobri que ela andava há meses trocando mensagens com esse cara e esse cara, na verdade, nem era um cara. Era um pastor. O diabo de um pastor. Pastor e síndico. Eu o tinha visto algumas vezes. Estacionando um SUV platinado, com adesivo traseiro EU ❤️ GRANJA VIANA, na padaria ao lado do prédio. Um panaca escroto.

Descobri a senha do telefone, vi um monte de coisas, dessas coisas que é melhor nunca saber. Juntei tudo que era meu — um punhado de livros, uma guitarra sem a última corda, duas malas de roupas — e mudei para o sofá da minha irmã. Um lugar pequeno, com vizinhos barulhentos, numa rua sem saída do outro lado da cidade. Eu mal sabia pegar ônibus por aqueles lados e os livros não cabiam na casa. Tive que empilhar as caixas na garagem. E toda vez que olhava aquelas caixas destampava a chorar.

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Era véspera do meu aniversário. O primeiro aniversário que passaria longe do meu filho nestes cinco anos. Minha irmã pediu uma pizza. Então eu tirei essa selfie, com o filtro de 8mm do Instagram. Para documentar o momento, ou seja, capturar um fantasma.

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Ser feliz é nosso negócio. O slogan laranja neon cobria toda a parede da recepção da agência HappyLand. Uma mulher negra de dreadlocks e All Star amarelo me atendeu sorrindo, ligou para alguém e me mandou esperar. Cimento queimado. Encanamentos expostos tingidos de laranja. E meia dúzia de quadros de mil cores mais ou menos abstratos. Nunca tinha visto nada parecido. Depois de dois anos vivendo na bolha austera do mundo acadêmico, e frilas no jornalismo e no mercado editorial, jamais imaginaria algo deste nível. Lugares nos quais um joelho de cano expressasse com todas suas forças a Estética da Grande Felicidade Universal.

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Nos primeiros dias fora de casa, minha cabeça funcionava em outra rotação. Lembrei de uma memória antiga. Quando era criança e andava de fusca com meu pai. Um sovina desgraçado. Sempre desligava o motor na ladeira, pra economizar gasolina. Pisava na embreagem, engatava o ponto morto e acelerava uma última vez. O silêncio que vinha depois daquele clique na chave sempre me pareceu uma explosão invertida. As árvores lá fora passavam meio segundo mais lentas. Naqueles primeiros dias de separação, minha cabeça trabalhava com meio segundo de atraso. Uma névoa temporal. Então eu saía e perambulava pelo centro. Acordei uma vez na casa de uma jornalista, semidesconhecida, de calça jeans, com um gato preto dormindo no peito. E num sábado de chuva terminei a noite chorando nos braços de uma garota de programa — que rodava bambolês fosforescentes em rave —num motel barato da Augusta. Minha vida sequestrada por algum letrista de samba dos anos quarenta. Sonhava com estantes.

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A Estação Santana foi inaugurada no dia 26 de setembro de 1975. Durante 22 anos e 7 meses foi ponto-final da Linha 1–Azul, em sua parte norte. Copiei isso da Wikipédia. Hoje, o ponto-final é a Estação Tucuruvi. Depois da Tiradentes, o trem sai do túnel subterrâneo e trafega pela superfície. Em dias de chuva, é uma cena bonita, se a gente prestar atenção naqueles telhados tristes e prédios decadentes vistos por cima do chiado de metal. Não tanto como antes, mas sempre que entrava na Linha Azul, ainda ficava parado olhando aquelas placas, aquele enigma milenar, as palavras: Jabaquara ou Tucuruvi.

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Artur me disse que você é muito criativo, disse o Diretor de Criação. Era um cara de cabelos encaracolados, bochechas de tomate e camisa florida chamado Maurício e a especialidade do Maurício era deixar todo mundo à vontade. Eu trabalho bastante com texto, eu disse. Há bastante tempo. Mas nunca trabalhei em agência. Maurício sorriu. Um cara talentoso como você tira isso de letra. Eu sorri de volta. E cada sorriso tinha o custo colateral de um prédio implodindo sob as costelas. O trabalho é simples, disse Maurício. Estamos com um job gigantesco, com deadline curto. Cartões de Natal. Mensagens felizes, fofas, alegres. E personalizadas. Um pack diário de cinquenta. Daqui, até à véspera de Natal. Parece ótimo, eu talvez tenha dito, ou apenas pensado em dizer.

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Perto da estação tem uma rua de nome Ezequiel. Nunca tinha reparado.  Teve dias que eu não consegui voltar pra casa que não era a minha casa. Então parava naqueles bares de cadeira de plástico nas ruas paralelas. Ezequiel viu o céu de abrir. E nunca mais parou de escrever. Saí do bar pra pegar o último ônibus. Cheiro de óleo sob o vento de agosto. Então um cara muito parecido comigo (mochila nas costas, meio bêbado, barba e cabelos descuidados), passou do meu lado. A semelhança era tanta que me deu um arrepio no braço. Andei atrás dele, mas andava rápido demais.

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Eu tinha encontrado o Artur, numa sexta, e contado tudo. Preciso de um emprego novo, eu disse. Ele pediu meu currículo e três dias depois eu estava sentado num coworking, com baias coloridas, um banheiro tocando música, emojis sorridentes em balões, na agência HappyLand. Eu sentava ao lado de um menino de uns vinte anos, diretor de arte, que costumava rezar antes de esquentar a marmita. Aquilo acabava comigo. Ou quando eu subia num patinete no fim do dia, e via aquela placa na esquina: Shopping Granja Viana. Eu precisava me inspirar pra escrever. Então colocava Nelson Cavaquinho no Spotify. Abria o Word. E escrevia. Com raiva. Serotonina lá embaixo, sem parar. Cartões de Natal, e-mails de Natal. Os cartões de Natal mais felizes do mundo.

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A rua da casa que não é minha se chama Manoel de Deus. É uma rua sem saída. Na casa que não é minha tem uma área de serviço fechada, cheia de grades, que dá para uma outra de serviço aberta, com outras grades. Nos dias quentes, eu ficava ali parado olhando nos vãos, tentando avistar o horizonte, fumando meu cigarro. Uma luz mercúrio alaranjada caía sobre elas e construía mais uma camada. Grades fantasmas. Achei aquilo muito bonito.

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Na véspera de Natal, fiz o que sempre fazia. Acordei por volta das sete. Fumei um cigarro e atravessei a cidade. Estava chovendo e o metrô um tanto vazio e o combinado era trabalhar até meio dia. Já tinha terminado meu trabalho por volta das onze e saí dali onze e meia. Ia passar numa livraria e comprar o presente do meu filho. Edição especial e ilustrada de Harry Potter. Quando lembrava dele imitando um Expecto Patronum, meus ossos das costelas paravam de queimar. A livraria estava cheia. Essas crianças quase sempre tropeçando por todos os lados. Demorei um pouco entre as estantes, folheando livros que já tinha, até me deixar surpreender por algo novo. Na fila do caixa, uma moça de cabelos pretos-chumbo carregava um monte de livros, abraçados, junto ao peito. Vi seu rosto só de relance, meio de lado, um relâmpago — meio turca, indígena, espanhola, uns olhos impossíveis. É terrível e não tem volta. Livre-arbítrio, essa palavra oca. Um chicote de ar. Tinha um punhado de anéis nos dedos e quando foi atender o celular, os livros despencaram. Putz grila!, ela disse. Eu sou um desastre! Me abaixei. Um livro verde, de umas quinhentas páginas, chamou minha atenção. Metamorfoses, de Ovídio. Eu o peguei. Adoro esse livro, eu disse. Ela me olhou dos pés à cabeça. Mexeu no cabelo. Um tanto estrábica. E sorriu de canto de boca, uns lábios bravos. Olhos arrogantes de tão pretos, tristes e sem fundo, e vivos. Tô usando numa pesquisa, ela disse. Olhou minhas mãos segurando o livro: mas tô só começando. Entreguei o livro pra ela. Ficamos ali parados. Olhando um para o outro. Parados em silêncio no meio daquela livraria barulhenta. Quer tomar um café?, eu disse, mas a voz saiu despressurizada, numa língua muda, incompreensível, jamais proferida antes. O quê?, ela disse — e ela pisca os olhos muito depressa quando fica em dúvida. Nunca vi olhos tão ambíguos. Preciso ir embora, ela disse. E ficou ali parada, me olhando, com os livros enroscados no corpo. Ah, tudo bem, então, eu disse. E fui pagar minhas compras. Quando terminei, ela ainda estava ali parada, do lado da fila, olhando para loja inteira e para lugar nenhum. Passei perto dela de novo, sorri um tanto sem sorrir. Então ela disse, meio tossindo, num estalo: Escuta. Parei ao lado dela. Mudei de ideia. É mesmo? Peguei uma das sacolas. Ela sorriu aquele riso meio sem fôlego. Conheço um lugar aqui perto. Acho que você vai gostar.

Marcos Vinícius Almeida, escritor e jornalista, é mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e autor de Paisagem Interior (Editora Penalux). Curador editorial da revista gueto, publicou trabalhos na Ilustríssima, Época e Cult. Vive em São Paulo. Site: https://mvalmeida7.wixsite.com/marcosalmeida

a escritora suicida, de Márcia Barbieri

Espero que o fato de uma morta voltar para narrar o resto de sua história não os assustem, não há motivo para espanto, não há qualquer tentativa ou indício de originalidade neste fato, Brás Cubas fez isso e ninguém o recriminou, achei que seria de bom tom usar do mesmo artifício, já que em carne, osso e palavras minha vida fora toda dedicada a narrar as tragédias alheias, por que temeria contar minha própria desgraça?

Confesso que minha vida poderia ter sido muito, muito melhor, no entanto, escolhi a via tortuosa da literatura e não foi por falta de aviso ou por ignorância bibliográfica, já tinha lido centenas de escritores, cuja biografia descrevia homicídios, prostituição, alcoolismo, morte súbita, suicídio e uma conta bancária risível. Não acreditei em nada disso, nunca matei com minhas próprias mãos, bebi tudo que pude, entornei garrafas e mais garrafas, fiz sexo descompromissado, verdade que nunca cobrei por uma chupada, bem, minha conta bancária sempre fez jus ao meu papel de escritora marginal.

Apesar das evidências pouco favoráveis, nada me tirou da cabeça que ficaria para história e tive isso confirmado em um sonho com o meu avô defunto, ele confirmou a minha sina, parece que nasci mesmo com a bunda virada para Lua, nada me dissuadiu da ideia de ser uma grande escritora e entrar para os anais da Literatura mundial, com direito a pompas e prêmio Nobel, claro que faria como Cortázar, não aceitaria o prêmio e daria um salto ainda maior na minha imortalidade.

Pouco escutei os conselhos de amigos ou escritores caquéticos e fracassados, digo, senhores escritores de idade um tanto quanto avançada, eles viviam tentando me convencer da sandice da minha ideia, se davam como exemplos, explicavam com detalhes tudo que deixaram para trás para seguir essa dama ingrata. Porém, via aquilo como puro despeito, provavelmente não queriam ver uma mulher prosperar. Vocês sabem como são as coisas, é um homem ver uma mulher crescer e logo quer cortar o mal pela raiz, morrem de medo que suas esposas sigam o mesmo exemplo. Não dei corda e também não dei outra coisa, eles já não se interessavam pelos prazeres da carne, o que realmente é uma pena, meus maiores favores consegui através de uma boa abertura de pernas e isso mesmo sem saber um passo sequer de dança.

Deixei uma carta mais parecida com um bilhete, não achei conveniente explicar em detalhes o motivo do meu suicídio, uma escritora é escritora até o fim, eu precisava dar margens para que a história tomasse forma na boca do povo, explicar demais estragaria a minha fama e quando morri ainda não tinha galgado o posto de maior escritora da literatura mundial, portanto, essa era a minha última chance, não poderia desperdiçá-la.

Não pensem que tirei minha própria vida em vão, por loucura, paixão ou desespero. Tive tantas paixões que se me matasse cada vez que me apaixonasse não sopraria morte para o fim. Quanto à loucura e ao desespero estive a vida inteira acompanhada por eles, eram totalmente inofensivos. A minha morte foi milimetricamente calculada e totalmente dedicada à literatura. Eu sei que muitos acharão um despautério sem tamanho tirar a própria vida em nome da arte. Contudo, o que somos nós sem a Arte? Reles animais desprovidos de rabo. Não me julguem, vi muita gente se matar por paixão não correspondida ou por fome passageira, guardem suas indignações para estes. A minha causa foi nobre. Finalmente sairei desse mundinho mesquinho e entrarei nas páginas dos livros, ou melhor, daqui alguns anos ninguém se lembrará do meu rosto, mas terão na boca todas as minhas histórias. E elas passarão de geração a geração e terei cumprido fielmente meu destino.

Já me expliquei além do necessário, agora vamos ao que interessa. Morri faz sete dias, como sabem, normalmente fazem missas para a morta no sétimo dia, comigo foi diferente, afinal, sou uma grande escritora, então, resolveram fazer uma homenagem em uma livraria esnobe, em um bairro rico da cidade. Vocês sabem, para ser considerado uma escritora de primeira é preciso ser comunista e comemorar em um café que sirva champanhe francesa. De qualquer forma, morta não paga, mas também não bebe, embora posso fingir pegar a taça e levar aos lábios vaporosos. Se soubesse que morrer era essa facilidade teria me matado antes, evitaria minha preocupação constante em como quitar o aluguel e o medo da água e da luz serem cortadas. Sem carne é uma beleza, ficamos vagando e não pagamos por nada, agora entendo porque ninguém divulga sobre o morrer, não haveria um ser vivo sobre a terra.

Bem, mas não estou aqui por isso, quero me prestigiar e provar para todos vocês que a minha ideia foi genial. Vejam, olha só, a livraria está lotada, nem eu sabia que tinha tantos fãs, decerto a maioria consegui depois da morte, porque em vida raramente vendia mais que dez exemplares e metade eram vendidos para homens que tinham a intenção de trepar comigo, e a outra metade para os que já tinham trepado e queriam repetir. Estou realmente impressionada com a quantidade de gente! Gente de todas as idades! Eu tinha certeza que o meu suicídio funcionaria, mas confesso que imaginava que levaria mais algum tempo. Estou rindo aqui só lembrando daqueles parentes e amigos infernais, com risinhos no canto da boca quando eu dizia que seria uma escritora lida no mundo inteiro, estou vendo a cara deles de arrependidos por terem doado os meus exemplares para as bibliotecas do bairro. Já estou vendo os milhares de exemplares que tenho empilhados em casa sendo disputados a tapa, no estilo de venda daquelas lojas de eletrodomésticos que fazem promoção no final do ano. Como é bom o sucesso!!!!! Isso é para os idiotas que não acreditavam no meu trabalho, para os que me chamavam de putazinha metida a intelectual. Quem é a puta agora?

Nossa, olha só aqueles dois, um deles está com o meu livro na mão, eu o conheço, o rosto não é estranho, não lembro se já… Ah, acabo de me lembrar, nunca tive nada com ele, só mandei alguns nudes inofensivos, fiquei com pena do coitado, tão feio, não devia ser muito fácil arranjar sexo, então, me compadeci e enviei umas fotos para ajudar na punheta.

Vou encostar neles, nem acredito que poderei fazer isso!!!!! Desde criança sonho com isso, ser invisível e poder escutar tudo que falam sobre mim:

— Pelo tanto de gente aí dentro ela deveria ser uma escritora e tanto!

— Que nada! Esse pessoal todo não veio por causa dela não, é um autor estrangeiro que está autografando lá dentro. Um dos ex-maridos da escritora doida é influente no high society e insistiu para que fosse feita uma homenagem à ex-mulher, nunca leu uma página do que ela escreveu, mas achou que devia isso a ela. O dono da livraria aceitou torcendo a cara, deixou uma mesinha escondida com os livros.

— Mas, vi que você está com o livro, então, deve gostar.

— Para te falar a verdade, o dono da livraria está empurrando os livros para os clientes, está dando de graça, com certeza não quer que fique ocupando espaço no estoque, ele sabe que não vai vender mesmo.

— Você acha também que é tão ruim assim?

— Não posso dizer nada, nunca li uma linha do que aquela ninfomaníaca escrevia!

— Sério?

— Claro! E duvido que tinha algum leitor sério, os homens acompanhavam seu perfil apenas para apreciar as fotos pornográficas que colocava por lá, costumava colocar uns textos junto, mas tenho certeza que ninguém tinha paciência pra ler.

— Que coisa! Começando a ficar com pena da defunta…

— Não fique! Teve cinco maridos e as más línguas comentam que saía com todos ao mesmo tempo depois do divórcio, dizem que se aproveitava dos coitados para conseguir favores literários.

— Pelo jeito não funcionou.

— Não mesmo! Gastava feito uma doida, parece que se endividou até o pescoço e os ex-maridos se recusaram a ajudar.

— Então, foi esse o motivo do suicídio?

— Pode ter certeza que foi, deixou um bilhete que não dizia lé com cré, a única palavra que dava para entender era Nobel e Cortázar, ninguém viu sentido naquilo, acho que ficou envergonhada de admitir que tirava a própria vida por causa de dívidas.

— E os livros? O que acontecerá com eles?

— O último ex-marido encontrou um quarto repleto de exemplares do livro novo e dos antigos. Mandou cremar junto com o corpo. Era mais fácil do que vender.

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (edição independente, 2009), As mãos mirradas de Deus (Editora Multifoco, 2011) e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas (Appaloosa Books, 2018). Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Terracota Editora, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta (Terracota Editora, 2014) e O enterro do lobo branco (Editora Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

as batatas, de Antônio LaCarne

Dentro de um depósito de plástico sobre a pia da cozinha estão três batatas cozidas e descascadas — para que você as coma antes de fechar a porta para sempre e não atender às minhas súplicas. Deixei molho na geladeira. Peço então que não mande mensagens ou que me informe, didaticamente, que sou uma pessoa maravilhosa e que mereço alguém à minha altura. São bobagens terríveis que ninguém precisa trazer à tona. Meus ouvidos é que merecem ser poupados. Por favor, lave o depósito e os talheres. Não esqueça de fechar bem a torneira, é preciso observá-la por alguns segundos para ter certeza. Inclusive eu poderia ter envenenado as batatas. Pela tua distração de escorpiano, só encontraria o bilhete ao vomitar pela primeira vez, desconfiado de que fui maquiavélica o suficiente, demoníaca, satânica. Você sempre foi impressionável, fuçando as minhas coisas, esmiuçando as anotações escondidas nas caixas. É bem típico dos teus erros não descobrir informações práticas. Acusou-me de feitiçaria ao encontrar o livro sob o travesseiro, como se a literatura não fosse um dos meus maiores prazeres. Não tomou o vinho que comprei e que escolhi atentíssima, manteve o tom irritado durante o jantar, tocando no mesmo assunto, fazendo-me prometer que eu não mexia com qualquer meio obscuro de alcançar os desejos. Se por acaso as pesquisas e os rituais me trouxessem verdades, teria nas mãos a certeza de que você foi a pessoa errada. Teria me poupado o trabalho de me desfazer do veneno, de jogá-lo no ralo, e de descascar as três batatas que você saboreia com o meu sangue; pois nunca fui muito boa em manusear facas.

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Editora Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Tem poemas publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.

nanete em dó maior, de Mário Sérgio Baggio

Alguém cantava longe dali, era um homem, e a voz chegava abafada. A mulher apurou os ouvidos, queria escutar, a música trazia alívio. Estava sozinha no barraco com três crianças, o mais velho ardendo em febre. Quando acreditava ouvir barulho de carro ou de pata de cavalo se aproximando, corria para a porta, os olhos ansiosos. Procurava e não via ninguém. Voltava então para o quarto — que também era sala e cozinha, o banheiro ficava fora — e se jogava na cadeira, numa espécie de inconsciência em que o tempo não passava e, quando passava, só aumentava sua ansiedade.

O barraco era o retrato da miséria, tão sujo e velho, tão nada. A vida ali dentro era vivida entre terra e fuligem. Virava barro quando chovia e tornava-se quase inabitável não fosse a teimosia em permanecer ali. Ela sabia que não poderia sair, não tinha outro lugar para ir com os filhos. Havia um marido, que trabalhava longe e só de vez em quando voltava para casa. As gêmeas, Joana e Catarina, se distraíam no chão com bonequinhas encardidas de pano. Geraldinho, o mais velho, gemia baixinho em cima da única cama. Não reclamava, só pedia água o tempo todo, a garganta em brasa.

Pensou ouvir vozes e correu até a porta, talvez fosse alguém chegando, mas não era. Geraldinho chamou por ela Mãe, não era o papai? Ela levou um copo d’água Não, seu pai vem outro dia. Não era ninguém. Pôs a mão na testa do menino, a febre ainda lá. Eu vi ele, mãe, tava aqui e me trouxe um presente. A mãe não respondeu, fez que não ouviu. Sentou-se na cama, arriou como arriam os troncos velhos que apodrecem por dentro e um dia caem sem que se espere. Precisava dar um remédio ao menino, mas como? Por onde andava o marido ela não sabia, mas

seguramente devia estar trabalhando, era obrigação do homem que tinha mulher e três filhos, e ela ali pensando no que fazer, e o menino doente, e as meninas daqui a pouco vão pedir alguma coisa para comer, e ela vai dar o quê? Não quer que o marido volte e encontre gente morta naquele barraco miserável. A voz do cantor ainda chegava até lá, a mulher ouvia de olhos fechados.

Um carro passou ali perto e parou. Ela foi ver. Alguém veio subindo. Primeiro viu um chapéu, depois uns ombros, logo um homem inteiro veio se aproximando devagar. Ela esticou as narinas para receber mais ar, o coração aos pulos. Seu primeiro impulso foi entrar e fechar a porta, mas não fez, ficou parada, olhando, esperando.

É aqui que mora o Teodoro? Ele está? Tenho um serviço pra ele, o vozeirão soou e ele nem estava tão perto dela ainda. A poucos passos, ela olhou nos olhos do desconhecido e respondeu, envergonhada, Tá fora, trabalhando, volta semana que vem, acho. O homem parou Que pena! e olhou com mais atenção para a mulher. Ela sentiu, mais que compreendeu, que naquele que pena!, junto com o olhar, havia outro significado escondido.

Quando ele voltar, diga que Baltazar esteve aqui procurando por ele. Fale que tenho um serviço, o homem falou e continuou parado, olhando para ela. Não fez menção de ir embora e enfim tirar a mulher daquela agonia, daquela situação incômoda. Ficou ali, parado, os braços imóveis, só o olhar parecia ter vida. Sem saber direito o que fazia, a mulher estendeu as duas mãos e, em súplica, abriu a boca e falou Me dê alguma coisa, por favor, um troco qualquer, uma nota, uma moeda, qualquer coisa.

O desconhecido a mediu inteira com os olhos. Era uma mulher magra e desnutrida mas ainda assim bonita, apesar da pele castigada. Como é seu nome, criatura?, o vozeirão a sacudiu. Nanete, voz débil. Ernestina, mas me chamam de Nanete. E continuou: Um trocado, meu filho tem febre, preciso comprar remédio e alguma coisa pra comer, tenho duas gêmeas também, logo vão pedir comida e eu não sei o que fazer, o dinheiro que o Teodoro deixou já foi, ela chegou ao fim da frase sem respirar. E finalizou: Eu dou, se o senhor quiser. Quis morrer por dentro, Teodoro não a ouvisse assim, biscate, pensando em sujeira numa hora daquelas. Baltazar ouviu, fez silêncio e depois sorriu de leve, Dá, é? Ela, rápida, Dou. Tinha música no ar, o homem olhou ao redor para descobrir de onde é que vinha. É algum cantor que mora aí na vizinhança, ela se apressou em esclarecer.

Nanete saiu da porta e deu passagem para o homem, que entrou e olhou em volta. Viu o menino dormindo sobre a cama, o corpo franzino e a cara vermelha de febre. Sorriu de leve quando olhou para as gêmeas brincando no chão. Fez cara de nojo quando volteou o olhar para o teto e as paredes do barraco. Não quero comer, não tenho tempo, mas uma gozada agora não vai mal, disse o muito cafajeste. Chupa? Ela: Chupo. Ele: Engole? Ela: Engulo, e cobriu o rosto com as mãos para que as lágrimas não descessem. Ele abriu o cinturão e abaixou a calça, ela indicou Ali, atrás do fogareiro. Ela se ajoelhou e sentiu o cheiro de mijo que vinha do membro a dois centímetros de seu rosto. Fique de costas pra lá, não deixe que as meninas vejam, não faça barulho para não acordar o menino, ela pediu, antes de fechar os olhos e abrir a boca. Ele puxou a cabeça dela contra si e mexeu os quadris. Gozou. Abra a boca, quero ver se engoliu mesmo. Ela

obedeceu. Bom, disse ele subindo a calça e ajustando o cinturão, fala pro Teodoro me procurar. Deu o dinheiro a ela e saiu.

Geraldinho chamou Mãe, era o papai? Ela tapou a boca para responder, o menino não a visse cuspindo nem sentisse o cheiro insuportável do esperma, Não, seu pai vem depois, mais tarde, outro dia. Vou sair e comprar um remédio pra você e um pouco de comida, aguenta ficar aí sozinho e cuidar das gêmeas? Vou num pé e volto noutro, é um instantinho só. Prendeu os cabelos, jogou uma blusa surrada nos ombros e saiu apressada. Numa das mãos, bem apertadas, as notas que o sujeito tinha dado. Na cabeça, o pensamento claro Não é dinheiro sujo, não me arrependo, é pras crianças.

Já na rua, passos apressados, quase correndo, ouviu a música com mais nitidez. O cantor caprichava no Dó de peito.

Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador de São Paulo — Capital, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. É dono do blog Homem de Palavra.

ypy, de Fred Di Giacomo

Ypy (tupi-guarani): Primeiro, começo, origem.

“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.” (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)

Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se na silhueta cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Rupave) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam as matas dos tapuy-ú. Um terceiro, casado, fizera sua roça na região dos grandes morros. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla oca. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Rupave chamou o segundo:

— Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Tumé Arandú engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas fogueiras de ervas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Japeusá, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Tumé Arandú não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Japeusá tinha sido esmigalhado.

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Sypave. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Rupave parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para trabalhar a roça, para rastrear as antas, para roubar o mel das abelhas e para caçar o tempo perdido. Tumé Arandú e Japeusá esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Rupave emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Tumé Arandú ou Japeusá. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Sypave todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, jacus e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Rupave sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga onças selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Sypave é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um tacape dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da oca. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Porâsý. Porâsý nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Sypave, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia:

— Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do tacape vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Rupave contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Porâsý? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Porâsý. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Sypave faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Rupave recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Sypave espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

— Eu preciso da vida dos meus filhos, Rupave. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Rupave sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos — e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Rupave espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Caupé, jovem viúva de seu filho Marangatu. Marangatu era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Caupé; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o negro da noite represado em seus olhos. Caupé brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Rupave a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas, o boato de que Rupave já não podia efetivar sua descendência. Sypave não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Rupave — 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Rupave conduz Caupé pelo braço. A jovem vermelha tem os cabelos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Uma saia de palha e um cinto de tucum tomam emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Rupave ordenou a Sypave que fosse dormir em rede distante, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Caupé. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Rupave assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção à rede do marido. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho jaguar que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Caupé se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Marangatu. Chamam-no Tupãberaba e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que firma-se, ironicamente, sobre a tragédia.

Tupãberaba não foi criado como o restante da prole de Rupave. Seus privilégios brotam do ódio que Caupé carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Marangatu livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Tupãberaba seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos vermelhos, cabelos brancos grossos e pele esbranquiçada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Tupãberaba. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Tupãberaba escuta Rupave sussurrando com Sypave.

— Sypave, feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Tupãberaba. Não adianta a bela Caupé insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu tacape.

— Rupave, meu marido, tens deixado a jovem Caupé assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

— Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Caupé! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nossa rede.

— Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, Rupave, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossa rede…

— Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu tacape!

Desesperado, o pequeno Tupãberaba procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da oca até estancarem na saída. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Caupé olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Rupave amoleça. Rupave inveja a velocidade com que Tupãberaba pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O Tupãberaba infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Rupave estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

— Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

Os dias passam na cama para Tupãberaba. De lá, ele vigia a janela, as queixadas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Tupãberaba achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Caupé culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Rupave sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Tupãberaba planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Sypave com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa eternamente.

Numa noite sem lua, foge para parte alguma.

O que irritava Tupãberaba é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha espalhado roças de mandioca pelas redondezas, tornado-se amigo dos bugios que enchiam o vazio da floresta de berros e procurado seus irmãos mais velhos entre os tapuy-ú. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões — pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Marangatu fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Caupé. Apreensivo, Tupãberaba pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Rupave a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.

Era costume da gente de Rupave refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Tupãberaba passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final do mito que narro se aproxima. Rupave, observado por Tupãberaba, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Caupé, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Rupave machucam as forças de Tupãberaba. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Caupé deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Tupãberaba sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Rupave em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Tupãberaba queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava — escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

| uma primeira versão de “Ypy” foi publicada no livro Canções para ninar adultos (Editora Patuá, 2012) sob o título de “Gênesis”. |

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia, caipira punk, nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Editora Reformatório, 2018) esteve finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti 2017. Tem sido convidado para debater literatura e narrativas multimídia em eventos como a Primavera Literária Brasileira, em Paris, a Feira do Livro de Frankfurt e a Campus Party. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê.

o novo cinema nacional, de Dirce Waltrick do Amarante

Para o Sérgio

Mostrou o roteiro ao companheiro, era o roteiro de um filme gótico à moda dos romances de Shirley Jackson.

O companheiro, acostumado com Pasolini e Godard, ficou em choque ao ler o que a companheira havia escrito. Havia enredo! Erro fatal!

A companheira tentou explicar que muita coisa muda do papel para a tela. Além disso, as cenas, que pareceriam a princípio serem bastante simples, poderiam se tornar complexas e repetitivas, como quando a personagem toma banho e ouve uma briga. “O diretor pode filmar só a água escorrendo do chuveiro”. O companheiro seguiu incrédulo. Ela então completou: “E por cinco minutos… só a água escorrendo”. Mas o companheiro seguia em choque. “Por 15 minutos”, prosseguiu a roteirista. O companheiro esboçou uma leve reação.

Depois de algum tempo de conversa e muitas reflexões estéticas, o roteiro ganhou corpo e o diretor ideal.

Durante 90 minutos a câmera parada filmou a água escorrendo do chuveiro, a qual mudava de cor conforme os raios solares incidiam nela. As cores foram do vermelho rosado ao azul e o filme foi intitulado “As cores de Yves Klein”.

Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina, ensaísta e tradutora.