corrida de táxi

António é um homem simples. Taxista desde sempre, há muito que poderia ter-se retirado. Mas não quer. Gosta desta vida. E além disso, no activo, sempre é mais algum dinheiro que vai entrando. Acumulado com a reforma, permite um bocadito mais de desafogo, não muito, que a vida está cara e o movimento já não é o que era. A “crise”. Desde sempre que ouve falar em crise, mas nos últimos anos ela tem mesmo “mordido as canelas” de muito boa gente, incluindo as suas. Embora essas, sempre tenham sido magras e sem muito por onde roer. Mas não interessa, tem levado uma vida direitinha, sem grandes sobressaltos, e até conseguiu formar os dois filhos. Estão ambos bem, graças a Deus, embora longe, é certo.

Mas António é, como tantos colegas seus, uma espécie de filósofo do volante; sabe muito, ouve muito, vê muito. Pelo seu táxi já passou toda a espécie de gente, já conversou com muitas pessoas. Uma vez até transportou um Ministro. António nunca se esqueceu. E o Ministro conversou com ele e tudo. E no fim deu-lhe uma bela gratificação e disse-lhe que o país precisava era de mais homens como ele. Que dia! Memorável!

Hoje António está na praça de táxis do Parque das Nações, normalmente frequenta mais a da Aeroporto, mas calhou-lhe um serviço para aqui e deixa-se estar em amena cavaqueira com os colegas de sempre. O seu táxi já é o primeiro da fila e sabe que a qualquer momento irá ter um novo cliente, por isso está preparado.

Mal repara no casal que entra e se senta no banco de trás.

Ouve o destino e põe-se em marcha.

Os dois seguem calados e António depois de tentar por uma vez ou duas o seu sistema de abordagem preferido, “as vias de acesso na capital de que “eles” todos falam mas nenhum quer resolver, nem ouvir os que lá andam e que saberiam muito bem que soluções adoptar”, e não tendo qualquer reacção por parte de nenhum dos elementos do casal, desiste de meter conversa. Está habituado, nem todos os clientes são dados ao diálogo. Ele é que gosta de ir falando por aqui e por ali com uns e com outros, mas respeita a vontade do cliente, claro.

A uma certa altura nota que os dois lá atrás se beijam. Mas como se beijam! E continuam. Já não são nada novos, nem um nem outro. Isto foge um bocado às regras. Se fossem jovens, António chamava-lhes a atenção que não quer cá dessas coisas no seu carro, mas assim… E eles continuam. É certo que não fazem mais nada, mas beijam-se como se o mundo fosse terminar já ali à frente. A certa altura, António pigarreia. A mulher apercebe-se. Ligeiramente alterada, endireita-se no banco e olha-o através do espelho retrovisor.

— Desculpe.

É tudo quanto diz. Numa voz doce e suave e de face um pouco ruborizada.

António não diz nada. Olha-a mas nem diz nada. O olhar daquela mulher, naquele momento, tem uma dimensão infinita. António sente nele as profundezas do mar e as vagas dos Oceanos. António nunca pensara que fosse possível ver o mar no olhar de uma mulher e muito menos numa mulher de olhos castanhos.

A viagem continua e chegam ao destino.

António cobra a viagem e prepara-se para regressar a Lisboa quando a mulher se lhe aproxima da janela e, colocando a mão sobre a beira do vidro, olha para ele (ainda aquele olhar marítimo) e diz:

— Desculpe. É que não nos víamos há trinta anos.

[Pausa]

— Obrigada e tenha um bom dia.

E depois mais nada.

O casal afasta-se. António fica preso duma estranha emoção. Aqueles dois desconhecidos, que história será a deles?

Não sabe. António pensava que já tinha visto e ouvido de tudo e que já nada o surpreenderia, mas houve qualquer coisa naqueles dois e no olhar daquela mulher…

Qualquer coisa indefinível. Uma sensação estranha, ele diria até que palpável.

O dia continua. António põe o assunto de lado, até porque acha que não tem nada a ver com isso e será mais uma das muitas histórias com que já se cruzou sem nada saber delas. E são tantas!…

Seja como for, ao longo do dia, por vezes vêm-lhe à memória as palavras da desconhecida. Apenas isso, já que não lhe fixou o rosto nem qualquer traço para além daquele olhar.

Hoje sai cedo, troca com o colega às 7h da tarde. Já raramente faz as noites, embora até aprecie a generalidade da clientela nocturna. Tirando a “gandulagem” — que esses, já se sabe, é só dores de cabeça e chatices —, as pessoas à noite são diferentes: mais soltas, mais bem-dispostas.

Chega a casa, toma o seu belo banho e janta com a mulher. A sua Mariana, companheira de toda uma vida. Ainda se lembra de como se conheceram e de muitos pormenores do seu tempo de namoro. Depois casaram-se. E foi o melhor que fizeram. Sempre se amaram, mas António acha que nunca pensou sequer no assunto. E para quê? Não há nada para pensar. A vida dá, uma pessoa aceita.

António é um homem simples, mas sempre foi um bom marido e amante sensível e dedicado. Ainda gostam de se ter nos braços um do outro, embora actualmente isso já não aconteça com a frequência que lhes agradaria.

Mas hoje. Hoje António sente-se diferente, mais animado e tem uma vontade de fazer amor com ela…

Mariana não se faz rogada, de maneira nenhuma, também ela o ama desde sempre sem se atrapalhar a pensar nisso. António está revigorado, sente Mariana em todo o seu ser, ama-a profunda e entusiasticamente. Mariana, não lhe fica atrás, entrega-se-lhe toda, também ela rejuvenescida pela intensidade dele. Há muito que não partilhavam uma noite de amor como esta.

Mais tarde — calmos, sossegados, corpos ainda suados —, Mariana comenta:

— Meu Deus, homem! Que nos aconteceu hoje?

— Não sei, Mariana. Mas por momentos senti como se não te visse há trinta anos.

Ana Maria Monteiro é natural de Lisboa, reside atualmente em Braga. Precocemente aposentada duma longa carreira que se construiu no mundo dos livros. Primeiro como Diretora geral das livrarias Diário de Notícias, depois da editora espanhola Ediciones Atrium (em Portugal) e finalmente da portuguesa Epu.l — Edições e Publicações. Escreveu um pouco desde sempre, apenas por prazer e só para si mesma. Desde há algum tempo com mais regularidade, escreve apenas contos e, por vezes, alguma prosa poética.

polifemo em lilipute

Caminhamos por cerca de uma hora na trilha. Cercados por árvores gigantescas, muitas delas centenárias, como uma horda de polifemos. Em sua maioria jaqueiras, o que se podia notar caminhando descalços pela trilha. Desistimos das hawaianas, pois esmagávamos a massa melada da fruta pisoteada misturada à terra e ao mato rasteiro batido que se espremia entre os dedos dos pés. Um contato com o suprassumo da natureza selvagem. Uma mescla de cheiros tomando o ar e nossos narizes.

Em alguns trechos tínhamos que praticamente escalar entre as rochas encravadas na montanha: de um lado um paredão verde-amarronzado, do outro o desfiladeiro da mata fechada onde, de quando em vez, se avistava o mar. Atracados em troncos, em galhos mais grossos ou cordas naturais, firmávamos nossos pés entre pedras fixas e raízes expostas.

Quando atingíamos uma clareira, parávamos para o pitstop, onde bebíamos água e trocávamos impressões sobre a caminhada. Subidas íngremes, descidas idem, formigas, pernilongos e marimbondos, um esquilo, macacos, o medo das cobras, o cansaço, a amizade, a cara vermelha, o suor coletivo, os cheiros, principalmente de jaca, e o barulho da arrebentação das ondas no paredão das rochas como prêmio.

Na derradeira descida, onde praticamente escorregamos de bunda, pois era humanamente impossível descer de pé porque o verde e as rochas abandonaram nossas pisadas, tornando, devido à inclinação, o terreno espinhoso para brincadeiras desnecessárias e imprudências juvenis. Em terra firme, após um corredor de árvores mais baixas em meio a uma vegetação rasteira, finalmente, um portal se abriu e nos deu passagem: uma lagoa artificial se descortinou cercada por rochas gigantescas como polifemos enfeitiçados por Medusa. Todos nós tchibum na água e os mais audaciosos atravessaram a nado até a sequência majestosa de paredões como numa competição dentro de uma piscina natural.

Eu, como ainda não sabia nadar, entrei na água pé-um-pé-dois-pé-três, como uma lesma manca, resultado do cruzamento entre a tartaruga e o bicho-preguiça. Sempre sem pressa nenhuma, taurino que sou. Pálido, branco-gelo, quase albino com vitiligo, me lambrequei com protetor solar fator 60, para garantir que não voltasse para casa vermelho como um camarão, parente do pimentão. Caminhei naquele ritmo quase zen, absolutamente relaxado, molhando as palmas das mãos ao acariciar a superfície das águas. Atravessei seguramente até as rochas, depois de perceber que à minha direita havia uma corrente mais forte que desembocava num poço mais fundo. No sentido que tomei, onde visualizei famílias com crianças, me senti seguro para atravessar: além de conseguir enxergar meus pés, a água chegava no máximo até os meus ombros.

Transposta a barreira líquida, me escorei numa rocha, alçando-me para fora da lagoa natural como o homem primevo, surgido das águas do mar imenso. Passei por um casal de mãos dadas que colhia conchinhas e apreciava siris e caranguejos em meio aos musgos que se formavam nas rochas como dentes careados. Logo escalei uma das mais altas, pés molhados secando ao sol e também ao contato com as rochas polifêmicas. Levei pouco mais de cinco minutos, mas que pareceram uma eternidade devido ao risco de queda iminente. Elevado, sentei no topo da rocha e contemplei o quadro romântico emoldurado pela força das ondas da arrebentação, logo abaixo de mim, espirrando espuma num estrondo incessante. No horizonte distante gaivotas pescadoras e, no mais palpável a minha volta, no chão da rocha que me abrigava havia esconderijos de siris, aranhas e caranguejos.

Só então fui sofrendo um processo de metamorfose, me tornando cada vez mais liliputiano, de modo que compus um poema mental que me acompanhou durante o resto da tarde até o camping e o fim da viagem no regresso para casa, como um mantra.

Eu não tinha uma câmera, na época não existia celular — pelo menos não desses com câmera —, mas de qualquer forma eis o registro. Pronto e ponto. Éramos todos tão jovens, rebeldes e loucos. Agora estamos a sós aqui, só nós dois — você, azul de cima abaixo; eu, transparente e invisível; e a música das esferas! —, aprisionados na minha memória. Não existe mais ninguém, não existe mais nada.

Andri Carvão cursou Artes Plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte. Graduando em Letras pela USP, publica poemas regularmente na revista on-line Labirinto Literário, é colunista do site Educa2 e participou da antologia on-line Gengibre: Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos (WordPress) e da antologia de poesia brasileira contemporânea Além da Terra, Além do Céu (Editora Chiado).

festa

Não sei ao certo quantos são; talvez quatro ou cinco. Meus olhos teimam em ficar embaçados, talvez receosos de que isso seja verdadeiro. Ou talvez eles prefiram ocultar o que não são capazes de enfrentar. São quatro, agora está claro. Papai e mamãe de um lado, Marta e Ricardo do outro. Os oito olhos como se fossem facas apontadas para mim. O ambiente, mais escuro que nas noites anteriores, ostenta alguns enfeites: bexigas roxas à porta e uma fita avermelhada que, com aparente desprezo, cruza a parede da esquerda. O quarto está feito uma moça pálida que se maquia pela primeira vez. Ao lado da cadeira de rodas, um bolo redondo com velas acesas ao centro. A pilha de embrulhos brilhantes ao pé da cama traz à tona os natais da minha infância: papai vestido de vermelho com barba postiça e sorriso autêntico, pondo os presentes sob o pinheiro. Depois do monte harmonicamente construído, ele me pegava no colo e me perguntava se eu tinha sido uma boa menina durante o ano. Rapidamente, eu balançava a cabeça para cima e para baixo e ele me colocava na pilha colorida. Aqui, os embrulhos não passam de um espectro da alegria; um exemplo de que a boa vontade tem o poder de ofuscar o bom senso.

[Parabéns pra você, nesta data querida.] Seis mãos se autoflagelam para darem ritmo aos lábios de onde saltam as sílabas da cantiga popular. Mamãe não bate palmas porque segura as rosas. Todos os dias ela traz um ramalhete. Há quantos dias? Ouvi o Ricardo dizendo ao telefone que estou aqui há três semanas. Semanas ou meses? Nunca contei à minha mãe que sou alérgica a rosas? Não lhe disse tantas coisas! Por quê? Sei bem por quê. Porque tive medo de que minhas palavras ficassem à deriva. Medo de que elas voltassem vazias para os meus ouvidos. Mas digo agora, mãe. Não por piedade, não por arrependimento. Digo para tentar me desfazer destas palavras. Quem sabe, sem elas, seja mais fácil desgrudar-me destes lençóis ensopados. Esforço em vão: de tão pesadas, minhas frases não conseguem alcançar seus tímpanos; estão tão imóveis quanto o meu corpo. Condenadas a apodrecerem na minha língua!

Ricardo, por que estas palmas trêmulas? Por que estas mãos que mais parecem as de uma criança constrangida? [Muitas felicidades, muitos anos de vida.] Eu quero as suas mãos, aquelas que me apertavam até eu gozar. Suas mãos que se encaixavam às minhas, nossas linhas da vida sobrepostas numa cópula que jurávamos eterna. Quanta ingenuidade! Não há juramentos de amor que o acaso não aniquile.

[Viva a Marcela!] Viver? O que significa isso, papai? Com a dificuldade de quem carrega uma biografia espessa nos ombros, ele se abaixa e, num sussurro, despeja palavras em meu ouvido, como fazia quando eu chegava com o boletim escolar pintado de vermelho: aproximava o bigode grisalho do meu rosto e minhas lágrimas, intimidadas pela candura das palavras, cessavam de descer. [No ano que vem tenho certeza de que você vai soprar as velinhas, minha filha]. A mágica acabou, papai: suas palavras não podem reanimar meus membros. [A Marcela vai ser abençoada, porque o Senhor vai derramar o seu amor.] Que derrame uma avalanche até me asfixiar!

Colocando seus velhos pulmões a meu favor, papai acaba com o escárnio das chamas que dançam acima das velas enterradas no meio do bolo branco. Sim, sou os pavios apagados presos aos dois números “dois” feitos de parafina, chamas que nunca voltarão a arder. Após a cantoria, mamãe acende as luzes. Abruptamente, vejo o farol daquele carro: noite turva, neblina, água, vento, o motorista não tinha como me ver. Asfalto escorregadio, freio algum funcionaria bem. E por que eu caminhava tão perto do meio-fio? Sempre tive medo de muros e grades; desde pequena andava de mão dada com o papai pela cidade, ele sempre do lado de dentro da calçada, me protegendo das paredes. Onde estava sua mão naquela hora, pai? As luzes cresceram à minha frente. Cresceram. Cresceram mais. Ficaram dolorosamente sublimes e se estilhaçaram ao encontrarem meu corpo. Meu corpo estilhaçado. O motorista desceu para me socorrer? Sim, fez tudo o que podia, papai jurou. E daí? O farol do carro apagou as luzes do meu porvir.

[Não há problemas com o aparelho vocal da Marcela. Deve ser algum entrave psicológico que impede sua filha de falar, senhor Cícero]. Após ouvir a sentença do médico, no mesmo dia que aqui me colocaram, papai sugeriu que me comunicasse com os olhos até que eu voltasse a conversar. De certa forma, só dávamos continuidade ao que fazíamos desde que eu era muito pequena. Sempre que tinha algo a falar a ele, algo que minha mãe não podia saber, dizia com os olhos. Foi assim quando quebrei o vaso de porcelana que ela tinha ganhado da vó Maria, herança de gerações remotas. Fui eu quem quebrou o vaso, disse papai à esposa indignada quando sentiu a aflição nos meus olhos.

[Agora é hora de abrir os presentes.] Marta pega a caixa mais brilhante do monte ao lado dos meus pés entregues. [Adivinha quem trouxe este aqui… Vou dar uma dica: esta pessoa saiu do mesmo buraco que você!] Mesmo presa em meu silêncio, cumpro minha função de irmã mais velha: Marta, que modo de falar da vagina da nossa mãe! Ela se aproxima e estende o colar a menos de um palmo do meu rosto. [Gostou?] Pisco uma vez, ela sorri. É o que ela precisa para abraçar a bijuteria prateada em meu pescoço. Nas lentes dos seus óculos vejo novamente o reflexo desfigurado que me atormentara em algumas madrugadas: um rosto roxo com a boca curvada para baixo; um pescoço deflorado por um tubo de plástico. Um bicho que não quero que seja eu. Mas o que pode a vontade perante a fortuna? [Ficou lindo, não?] Com olhos que agora parecem estrangeiros, pisco novamente: não tenho o direito de arrebentar as fronteiras do mundo da minha irmã.

Marta cede lugar à nossa mãe, que coloca seu embrulho sobre a barriga que já me pertencera. Feito um animal faminto, ela rasga o papel brilhante e retira um quadro grande com moldura rococó de dentro da caixa. Com a voz vacilante, diz que aquela imagem de São Judas Tadeu me ajudará a sair dessa situação. [Você precisa acreditar, minha filha. Nós não compreendemos os planos de Deus, mas Ele sabe o que faz da nossa vida. Nunca perca a fé. Reze, reze bastante porque Deus vai te escutar!] Não transfira para Deus o que você não soube fazer, mãe.

Ricardo se aproxima da cabeceira, não consigo ver nitidamente sua feição: o tubo de oxigênio priva minhas retinas da metade esquerda da sua face. Ele se ajoelha na cama e beija minha testa. Não me olhe assim. Onde estão os olhos que me engoliam antes mesmo que eu me despisse por completo? Numa das mãos, meu namorado traz ao pé da cama a caixinha aveludada que pertencia à pilha. [Amor, comprei seu presente dois dias antes do acidente. Já tinha planejado esta surpresa há quase um ano para o dia do seu aniversário.] Onde está sua outra mão? Deve estar apertando a minha. [Você aceita se casar comigo?] Brincadeira de mau gosto, Ricardo! Guarde este anel. [Ficou lindo.] Ele traz minha mão direita para junto dos meus olhos: um animal asqueroso agarrado ao meu dedo anular. [Não chore, amor.] Você ainda não se deu conta?

[Que apito é este? Chame a enfermeira, Marta. Rápido.] Nenhum de vocês percebeu que não há como enfeitar os fatos? [Coração disparado, acione o bipe do doutor Edmundo.] Sou eu que estou vegetando aqui? [Doutor, salve a minha menina.] [Ela está se urinando] Vocês não conseguem ou não querem enxergar? [Por favor, senhora, afaste-se da cama.] Não quero que sintam pena de mim, ouviram bem? [Marcela, olhe pra mim!] Estou olhando, pai. Como sempre. [Ela parou. Reanimação, enfermeira: oxigênio. De novo. Temos pouco tempo; ela pode ficar com sequelas neurológicas. Desfibrilador a 240 joules. Afastem-se da paciente. Um, dois, três, vai! Mais uma vez, agora em 360.]

*

Levanto as pálpebras como fossem as grossas cortinas do mundo, espetáculo de estreia. A luz do sol ilumina levemente o que se assemelha a um quarto de hospital. Um homem me observa atentamente. O que são estas bexigas murchas à porta? E esta fita vermelha pendurada? Um bolo de aniversário virgem: quem está completando 22 anos? Tento me levantar, porém meus braços e minhas pernas parecem costurados à cama. Acabei de acordar, como posso estar tão cansada? Com licença, o senhor poderia me ajudar, por favor? O homem, que sustenta uma caixa colorida no regaço, não me escuta. Eu não me escuto. Mas ele percebe meus olhos inquietos e se aproxima. Ao lado da cama, fica um longo tempo acariciando meus cabelos. [Sente-se melhor?] Não, não sinto nada, senhor. Absolutamente nada. [Não chore. Eu trouxe uma coisa que você vai gostar.] Ele retira uma foto de dentro da caixa e me mostra: um homem sentado numa cadeira de balanço com uma menininha de uns dois anos no colo. Homem que se parece muito com ele. É ele. [Você se lembra de quando tiramos essa foto, minha filha?] Filha? Ele me chamou de filha?

Matheus Arcaro (1984) é professor de Filosofia, artista plástico e escritor com dois livros publicados: Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016). Tem textos no Mallarmargens e na Germina. Além disso, é colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiterturaBr.

a força que rege o mundo

O homem passou por mim, voltou, tirou uma fita métrica do bolso e me mediu: os braços, as palavras mudas, a disposição. Daí sacou o celular e tirou uma foto. Havia satisfação em seu rosto.

A noite caiu feito um viaduto, e junto a ela um silêncio de cores e formas que eu nunca tinha experimentado. Acho que fiquei feliz.

Acordei com um menino à minha frente. Também ele me mediu, fotografou.

— Por que não vai embora?

— Não posso — respondi, e ele se foi, decepcionado. Compreendi imediatamente: não é nada estimulante ver um homem assim, rendido. Talvez ele esperasse de mim uma saraivada de palavrões, gritos, lágrimas. Não lhe ofereci nada. Não transformei a sua vida, o seu dia. Nessa pequena troca, se alguém ganhou alguma coisa fui eu: um inimigo.

No meio da tarde chegou a equipe de TV: luzes na minha cara, a câmera apontada na minha direção, a repórter contando uma história que não é a minha. Nenhuma pergunta. Um grupo silencioso se formou à nossa volta: equipamento sofisticado, a emissora mais importante do país, essas coisas sempre chamam a atenção.

Percebo agora pela cor, sempre a cor, que já é madrugada. À minha frente um bando de cachorros vadios me observa. Estão famintos, eu sei, mas algo os impede de se aproximarem. Eu, é isso, eu os impeço. Não vale a pena arriscar, é claro. Não sabem do que eu sou capaz.

E tem sido assim: os meninos, as fotos, as TVs, os cachorros. Eu exposto em praça pública por um capricho da força que rege o mundo. Tudo isso, ainda, é uma novidade — mas em breve todos perderão o interesse.

Eu já perdi.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: [link]

melinda e o vampiro

A maioria não sabe que os ponteiros de um relógio numa montanha andam mais rápido que os de um relógio num vale […] o “presente estendido” é a maior mudança na compreensão da estrutura temporal do mundo […] não existe “o estado de tudo exatamente agora”. Passagem do tempo é determinada por um campo (gravidade quântica). O tempo oscila continuamente, se move para frente e para trás […]
Carlo Rovelli, físico quântico

— Olá, Melinda.

O homem a cumprimenta. Custa a reconhecê-lo. De repente se lembra do casamento dele com Maria. Servira de dama de honra. Devia ter uns quatro, cinco anos, no máximo. Não via essa criatura há séculos.

Melinda se chocava com aquela sua estranha mania de relógios. Um em cada pulso, outros distribuídos pelos tornozelos. Diziam que em sua casa os havia até no banheiro e ele, religiosamente, não deixava passar vinte e quatro horas sem lhes dar corda, acertá-los. Se via vagareza em algum ponteiro desobediente, a casa vinha abaixo: brigava com a mulher, com a empregada, com o mundo inteiro. Saía batendo portas, furioso.

Para Melinda-criança aquilo era muito esquisito. Tinha medo.

Olha bem a figura: terno, gravata frouxa, sentado no bar com a perna cruzada, o que expõe sua canela. Perto do tornozelo uma plaquinha incrustada pressiona a pele de dentro para fora. Ali, no mesmo lugar onde, antes, trazia um dos relógios. A placa subcutânea é um chip. Ela tem certeza: um implante. Procura por mais e os vê, sob os pulsos. Ambos. Como usava os relógios. Há séculos.

Ao notar que os olhos da moça percorrem seu corpo, retruca:

— Os chips, Melinda, servem para controlar o tempo. Isso de se passarem minutos, horas, dias, anos e por fim marcharmos de volta ao pó, nunca me satisfez. Agora diminuo a velocidade com que os eventos nos acontecem. Vivo lento rio e não violenta cachoeira de acontecimentos, até consigo me desviar de alguns mais perigosos. Nunca mais nos cairão à cabeça coisas inesperadas. Graças a essa nova tecnologia.

Ruperto Ruiz, enfim se lembra do nome, enche a boca de palavras, pleno de empáfia por se achar imortal. Pensa manter a morte sob controle, com rédea curta, será?

Respira fundo e continua:

— Tão magra que parece 16 anos e não os 26 que sei que já fez. Lembro-me de você pequena, quando Maria ainda estava viva.

Prossegue:

— Seu presente está fraco, se desfaz. Tudo em preto e branco como um filme de Antonioni. Pobre de você. Venha, continua Ruperto, vou te apresentar a uma amiga. Ela tem um poderoso guia. Pode ser que você o veja, pode ser que não. Talvez consiga te trazer de volta ao presente, te tirar desse limbo, te ancorar no aqui-e-agora, enfim.

Ajuda a moça a se levantar. Insiste:

— Mas o que houve com você? A quem entregou tudo o que era? Onde foi parar aquela daminha saltitante?

Ao saírem do bar ele lhe oferece o braço.

Na esquina, topam com uma senhora de meia idade, tranças cor de cobre presas no alto da cabeça e olhos mansos. Tem mãos de pianista e seu jeito de andar mal tocando o chão, de virar a cabeça para ouvir melhor, lembra um passarinho. Um pássaro pequeno, desses que têm topete.

Confiante, solta o braço de Ruperto e aproxima-se dela que logo lhe toma as mãos entre as suas. Suaves mãos. Lembram pétalas de rosa recém colhidas.

Com carinho, ela diz:

— Você sofreu uma enorme sangria, minha filha. Agora está que é só resíduo. Precisa me contar tudo, todo horror por que passou para que eu tente te ajudar.

Ruperto Ruiz interrompe a amiga:

— Ela não passou por nada, o mal ainda a arrasta por um passado descolorido.

A moça sorri: será que falar a respeito a ajudará? Por outro lado, o que tem a perder?

Conta, então, que passara anos como uma flor de lótus cujo botão não abre. Nem pode dizer que o vampiro a escravizara: ela lhe entregara seu sangue, sua moral e sua vida. O pior foi quando perdeu as cores do mundo. Aquele ser fez dessa perda um banquete enquanto ela sumia sem forças, prostrada. Não consegue escapar do círculo vicioso. Está sem futuro, presa. Branca e preta é a realidade por onde caminha.

Fala para a senhora:

— Seus olhos. Eu gostaria de saber se esses olhos claros são azuis, esverdeados, ou cor de âmbar, não tenho ideia. Pra mim são olhos transparentes, de uma cor morta.

Diz isso e se encolhe ainda mais.

— Preciso das minhas cores, murmura.

A senhora sorri e a puxa para o banco de pedra do calçadão da praia. Melinda vê o mar cinzento, a areia incolor, um céu sem luz onde o sol é uma lua cheia. São duas da tarde, mas, para ela, o dia está morrendo.

Melinda chora.

As mãos da mulher-passarinho esvoaçam à sua volta sem tocá-la. Asas. Querem despi-la desse véu onde ela se afoga. Melinda tem a alma quase morta de tristeza. Encosta a cabeça no ombro da senhora e geme.

— A soma de nossas forças é essencial, você vai ver.

Melinda fica meio tonta.

Um arrepio a sacode.

— Onde estão as cores? Só usar o preto e o branco esgota-me como uma semana mal dormida. Então, desfaleço.

— Bem, o homem-chip serve de porta-voz. Bem, prossegue, escute com atenção. Você tem que voltar a ser você mesma. Catar os cacos de seu caleidoscópio, reconstruir-se. O vampiro já se foi. Cabe a você sair da sombra que ele deixou.

As palavras a embalam, afetuosamente.

Melinda havia esquecido essa doçura trancada no botão da flor de lótus.

Sente um calor explodindo no peito. Seu coração começa a derreter e o hálito que sai de sua boca tem perfume de flor.

Não se sabe de onde, uma aquarela desaba sobre a cidade.

Cores, cores e mais cores.

O espetáculo é de tirar o fôlego.

Melinda bate palmas: estava salva.

Os olhos da senhora, de um azul escuro, brilham, vitoriosos.

Regina Taccola é médica, psicanalista e escritora. Autora do livro Uma tarde embalada pelo mar (contos, 2016). Seu conto “O Eunuco” sairá na Antologia de Cem Mulheres Latino-americanas, organizada por Sidney Rocha.

dia ruim

quo minus oculos insolito spectaculo impleret

Fiz merda. Saí do mercado, estava puto, a velha na minha frente na fila virou-se toda educada e disse que tinha guardado o lugar de outra velha. Duas velhas filhas da puta. Sentadas em seus sofás macios, devem assistir aos telejornais com seus rabos cheios de talco e ficar indignadas com tanta corrupção no mundo, mas guardam lugar pra outra na fila do mercado. Pior é a educação fingida. Gente dissimulada. Como a minha sogra, outra velha filha da puta. Na festa de réveillon estava se achando tesuda porque usava um short amarelo gema de ovo apertado no rabo e na boceta que mais parecia capô de fusca. Argh! Por que fui me lembrar disso agora? Boceta gorda e suada, aquilo deve feder pra caralho. Já tive até pesadelo com a velha, eu estava deitado na minha cama, ela abria a porta do quarto e vinha sussurrar no meu ouvido como se fosse o capeta, era um bafo, uma coisa desgraçada, não sei se ela queria pegar no meu caralho ou me enfiar um cabo de vassoura no cu, um horror, horror da porra, cramunhão dos infernos, minha sogra é um cramunhão dos infernos. Saí do mercado puto, entrei no ônibus e na hora de descer no meu ponto aquele china não me deu licença, ficou fechando o caminho. Explodi. Porra, não acredito que o trinta e dois falhou. Culpa do Chicão que me passou aquelas balas fodidas. Quer dizer que o china está no outro quarto? O policial disse japonês. Japonês, chinês, coreano, tudo a mesma merda. Bruce Lee desgraçado, vou pegar você. Caralho, tenho que avisar a Bruninha que não vai dar pra passar na casa dela hoje. Bruninha, que pena! Minha delícia. Melhor que aquela porra de mulher quadrada que tenho lá em casa. Dezenove aninhos e já trepa como gente grande. Bruninha. Gosta de uma pica, essa menina. Não posso me apaixonar. Seria roubada ficar caído por essazinha. E aquele dia que ela fingiu que estava dormindo e eu coloquei o pau na sua boca? Os dentes estavam trincados e meu pau ficou entre eles e a bochecha, indo e vindo, e ela acordou babando porra quente, mãe do céu, como foi bom. E ela sorriu. E depois pediu que eu a enrabasse. Safada. Pelo menos agora vejo que o meu pau está funcionando. Queria que ela estivesse aqui agora pra me chupar. Nem uma punheta consigo, que merda! Esses policiais não vão embora? Saíram. Ótimo. Não tenho como fugir daqui. Dessa vez entrei numa enrascada das boas. Eita-ferro, mas que porra é essa? Como é que deixaram o china entrar aqui? O que ele está dizendo? Fala português, seu viado filho da puta! Cuzão o quê? Cuzão de cu é rola, seu filho da puta! Que merda, nem falar eu consigo. Você me fez um baita estrago, seu china desgraçado! Kazuo? É o que, teu nome? Yakuza! Você é da Yakuza? Puta que pariu, me fodi bonito nessa. Não! Não faça isso, china de merda! Não arranca isso aí! Enfermeira! Enfermeira! Alguém nessa porra de hospital, socorro! Tem um maluco filho da puta querendo me matar. Que merda, não consigo falar. Você fodeu com a minha garganta, patife! Que espada é essa? Você não tinha espada no ônibus. Puta que pariu, o Bruce Lee tem uma porra de uma espada. Ninja filho da puta. Não! Não! Socorro! Esse sangue todo nas paredes é meu? Minhas tripas estão no chão, santa mãe dos aflitos. Socorro! Ele foi embora. Ufa. Enfermeira, por que demorou tanto? Não grita, idiota! Chama um médico! Faça alguma coisa! Sim, você pisou nos meus intestinos. O quê? Os policiais, o que adianta eles aqui? Voltaram por quê? Preciso de um médico, caralho! Quem? O china fugiu? Claro que a porra do china fugiu, foi ele quem fez essa sujeira toda, seus imbecis! Pegaram o nome dele? Grande coisa. Sim, ele deve estar longe agora. Está ficando escuro aqui. Sinto frio. Muito frio. Ligaram o ar condicionado? Não. Acho que não. Sou eu morrendo. Acabou tudo. Que dia ruim, meu deus!

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor, editor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.

carinho

Você engorda. Emagrece. Faz cooper. Matricula-se no inglês. Senta direito. Anda com postura. Come com talher. Bota menos sal no picadinho. Come mais frutas pra cagar molinho e nunca deixa o celular descarregar pra ela não pensar que você está fodendo com outra no horário do almoço. Você exclui os nudes das leitoras. Fala que agora é algo sério para sua melhor amiga de Porto Alegre. Bloqueia os trafica e jura que agora lerá livros mais edificantes como “A história do direito em 12 fascículos”. Você varre o quarto e junta boletos de cobrança e diz pra si mesmo que prosperará. E que talvez vá até à igreja no domingo só para fingir que se emociona com o teatro do pastor ladrão. “viu só? Estou mudando” e ela vira pra você num sábado quente como o cu de Cleópatra virgem e fala: “acho que estou gostando do meu professor de química. Ele faz diferente. Não é brutal como você. Quantas vezes pedi pra você meter com carinho?” então você corre pra sala. Para o esconderijo onde está a arma carregada. Ela ri. Debocha. Caga para seu sofrimento. Você então chora e acerta dois tiros nela. Um em cada joelho. “agora quero ver se ele vai abandonar mulher e filhos pra meter em você com carinho” ela grita. Esperneia na poça de sangue. “Nem aleijada volto pra ti! Seu corno desgraçado!” então outro tiro acerta a cabeça dela. Miolos mancham o quadro falso de Dali. “E agora, Ana? Ele ainda faz com carinho?”

Diego Moraes é poeta, contista e romancista. Autor de 7 livros. Publicado no Brasil e Portugal.