a fogueira de são joão

A cerca em cima da terra, terra em cima das raízes, raízes que envolvem-me mutuamente, e mutuamente envolvo-me com resquícios de amores passados — água corre rapidamente. Houve entre dois anônimos, a possibilidade de amor eterno, mas a palavra eterna por si só era grande demais, suas escolaridades eram rasas, houve dúvidas de escrita e entonação. A poesia que corrói a maldade não existia neles, no dia da extrema unção estavam na roça, cavando poços, desbulhando frutos vivos, ressoando diante dos irmãos as tonalidades oblíquas. Poderiam amar sim! Como poderia amar o instrumento que tornava real suas vidas, amor pelo facão, enxada… Amor é tão estranho como comidas caras em mesas pobres. Não vou dá-lhes nomes, o nome carrega obrigações, se pudesse diria logo a verdade — um deles sou eu. E nós éramos dois, dois garotos de pernas finas, olhos fundos, pensamentos longe, e com um mesmo destino — sofrer. Direi de tantas noites passadas juntos ao breu da solidão, cada um em seu mundo, mas com ligações que uniam. Corro agora, neste instante, quebro todas aquelas samambaias de pura raiva, saio de entre as raízes e corro atrás desse amor de verdade, mas não. Não posso, tenho mulher e filhos em casa, e ele mulher e filhos na sua casa, vive ele pois, enterrado assim como eu em si mesmo. Naquela tarde, em frente ao antigo igarapé dos desatinados, batizávamos, lhe dei um nome feminino e ele a mim, Lia e Iolanda, riamos sem parar, eternamente riamos, um do outro, riamos, éramos agora garotas cheias de sonhos, mas que não deixávamos de ser garotos que nós amávamos. Mas tudo durou pouco, no outro dia, garotos outra vez. Uma lição de carne doía em nossas peles, chegava o tempos das festas juninas, com quem iriamos pular fogueira? Jura aquém amor? Partilhar a maçã do amor? Ou nem comê-las? Fizemos nossa própria fogueira, chamamos os bichos e os infelizes a festejar conosco, pulamos juntos a fogueira de são joão, mãos dadas, palavras juntas — eu sempre vou te amar, vou casar contigo.

Marcos Samuel Costa é natural de Ponta de Pedras — Ilha de Marajó, Amazônia brasileira. Atualmente cursa Serviço Social na UFPA e mora em Belém do Pará. Vive perdido no caos da cidade grande e entre livros de poesia. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense e da ASPEELPP-DJ. Autor dos livros Sentimentos de um século 21 (Multifoco Editora, 2014), Titulado amor (Editora Literacidade, 2014), em coautoria com dois amigos o Interpoética (Big Times Editora 2015), Uma semana de poesia (Editora Penalux 2016) e Lugar algum (eBook 2017, Amazona), e no prelo Não me envolva no seu rolo (Livro Mínimo). Participou de mais de 20 antologias literárias, entre elas I e II Anuário de Poesia Paraense e publicou nas revistas Mallarmargens, contemporArtes, Marinatambalo e g.u.e.t.o, além de fazer parte da equipe editorial do Jornal Crescendo, em que assina a página de crônicas infantis. Colaborou na 3ª ed. da Marinatambalo: Literatura e crítica na banca avaliadora. Mantém o blog Someplace, onde divulga sua produção, e colabora com outros.

rua vergueiro, sem número

Quando ele chegou naquela rua, logo sentiu que poderia ficar. Viu de longe, enquanto caminhava com os pés descalços, um ipê rosa, florido, como havia sonhado. Ele acreditava em sinais. O ipê rosa era um sinal. Ali faria o seu abrigo, sua morada, seu lar. Pelo tempo que tivesse que ser. Para ter a paz que precisava. Ele nem se lembrava mais de seu nome. Morava na rua há tanto tempo, ou será que nem era tanto assim? Saiu do interior, de sua terra, por vergonha. Também atrás de sonhos, ou para fugir? Não sabia dizer.

Em algum lugar, em algum tempo, ele foi o João Paulo, amigo, alegre, trabalhador. Construía casas e ficava feliz em ver as pessoas sonhando com o dia da mudança, idealizando como seria tudo depois de pronto, o quarto do casal, das crianças, o quintal onde plantariam flores. Flores… João Paulo tinha um pequeno jardim, plantava roseiras, e não se irritava quando via alguém pular o muro e roubar uma rosa. Era para dar para alguém, dizia. Ninguém rouba uma flor à toa, e se faria alguém feliz era um roubo justificado. Mas não havia justificativa para o que João Paulo havia feito.

Ele amava Ângela desde a adolescência, estudaram juntos. Ela parou de estudar para cuidar dos gêmeos que tiveram muito cedo, tinha acabado de completar dezenove anos. Ele largou a faculdade de Administração para construir casas, precisava de dinheiro para sustentar a família. Viviam com o dinheiro contado, mas eram felizes. João Paulo trabalhava muito, só via Ângela e as crianças à noite, e quando chegava em casa era recebido com festa.

João Paulo estava cada dia mais cansado. Talvez por isso se esquecesse de tomar banho. Já não era tão alegre e não procurava mais seus amigos. Não era mais uma companhia agradável, bebia e ficava transtornado. Seu melhor amigo queria levá-lo ao médico, mas desistiu depois de levar um soco no rosto. Romperam relações. Às vezes, João Paulo não reconhecia sua casa, ia parar na casa do vizinho, tentava abrir a porta. O jardim estava descuidado, assim como o seu dono. Todos achavam que ele bebia. Ele andava confuso. Não queria ficar com as crianças. Pensava que Ângela estava escondendo algum segredo. Talvez ela escondesse dinheiro, o dinheiro estava acabando rápido demais.

Um dia, um dos gêmeos amanheceu com forte febre. Morreu em menos de vinte e quatro horas depois que os médicos detectaram a pneumonia. Ângela não conseguia parar de chorar. O irmão foi levado para a casa da avó materna. João Paulo não entendia o que havia acontecido. Alguém matou seu filho. Teria sido Ângela, que escondia dinheiro? Onde estava o dinheiro? Por que ela não parava de chorar? Por que gritava com ele? Ele estava sofrendo, mas não conseguia expressar seus sentimentos. Ou não estava sofrendo? Ele não sabia dizer. Só sabia que os gritos o deixavam transtornado. A cidade inteira estava gritando com ele. Todos o olhavam de forma estranha. Era suspeito? Estariam suspeitando que ele matou o próprio filho? Não foi a febre?

João Paulo não sentia mais nada, nem tristeza, nem remorso. Lembrou de ter levado o menino para tomar banho na banheira, ficaram brincando, a criança sorria e ele cansado foi dormir. Alguém deve ter tirado o menino da banheira. Ângela não estava em casa, mas sempre chegava e cuidava das crianças. Alguns fragmentos de lembrança surgiam. Ele nem sabia mais o que era lembrança, o que era imaginação. Quando sonhava, não tinha certeza se era sonho. Uma cena ele desconfiava que fosse real. Ângela caída no chão, com olhar apavorado. Ela levantou com dificuldade e o mandou embora de casa. João Paulo não tinha mais casa. Ficou andando pela cidade por horas. Pegou um ônibus em direção a São Paulo.

São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades de trabalho. Ele se assustou com a quantidade de pessoas na rodoviária. Perguntou onde poderia procurar emprego de pedreiro. O mandaram a um escritório próximo à Praça da Sé. A Praça da Sé ficou sendo seu lar, por um tempo, muito tempo. Perdeu seus documentos, não tinha nada. Fez amigos na rua, adotou um cachorro. Perdeu o cachorro. Revirava o lixo procurando comida. Dormia no chão. Dormia nos bancos. Tomava café, que os amigos traziam de manhã cedo, com um pão francês. Entrava na catedral. Tentava rezar, mas não se lembrava de nenhuma oração. Passava horas sentado no banco da praça. Catatônico. Ganhou uma sacola do padre. Nela havia um caderno e uma caneta. Como o padre sabia que ele gostava de escrever? Talvez tenha conversado com ele. Outro dia o chamaram de João, mas ele não sabia o porquê.

Quem era João? Ele havia sonhado com um grande ipê florido, queria saber onde ficava. Sonhou que lá era um lugar mais seguro para morar. Não apanharia de ninguém e não teria que sair correndo da polícia ou das pessoas que gostavam de roubar sua comida. Cada dia era um recomeço e também uma continuação. Quanto tempo havia passado? Ele não lembrava, lembrava apenas do frio, do calor, da chuva. Das pessoas que o ajudavam e das pessoas que o roubavam. Passou a andar acompanhado, era mais prudente. Ele não sabia o nome do novo amigo, mas estava sempre bem vestido e era divertido. O fazia rir. Contava histórias, o animava, dava ideias. “Vai procurar o lugar que você sonhou! Não fica aqui, não é seguro!”

Seguindo o seu conselho ele caminhou por ruas e bairros a procura do ipê rosa e do lugar para construir sua nova casa. Caminhou por alguns dias até encontrar a rua Vergueiro. Foi quando seu amigo apareceu novamente e disse: “Vê aquela esquina? É lá!” Ele reconheceu o ipê ao lado de uma pequena roseira. E lá ele construiu sua nova casa. Comprou alguns cabos de vassoura para sustentá-la, tinha tudo desenhado em sua mente. Com o dinheiro que conseguia vendendo latinhas e varrendo a praça para o dono do bar da esquina ele comprava material para a construção. Seu amigo estava certo, era aquele o seu lugar. Passaram-se semanas, talvez meses. A vida seguia com certa paz. Contemplava a roseira e o ipê por dias. Olhava desconfiado para as pessoas que passavam sempre apressadas. Via que muitos ficavam admirados com a sua cabana. “Que bem-feita!”. Algumas pessoas não gostavam de vê-lo lá. “Que absurdo!”, diziam.

O outono, enfim, chegou. As flores dos ipês caíram, as da roseira também. A cabana continuava lá, vazia, há dias. Dentro dela, a sacola com o caderno todo manuscrito. Eram poemas. Ninguém havia lido até então. O caderno e a cabana eram tudo o que ele tinha. Para onde fora? O homem sem nome. O homem da rua. O homem sem teto, sem história. Invisível.

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

epitáfio em três versos

Onofre foi enterrado às nove horas de uma manhã fria e chuvosa. Alberto, ante o lóculo onde deixaria para sempre o amigo, sentiu a tristeza comprimir o peito. Não pela separação sem retorno, mas pela despedida em dia tão feio. “Onofre merecia partir com céu claro, de azul límpido, sol manso e brisa perfumada”, pensou. Contudo, o destino escolhera a atmosfera densa, cinza, a chuva fina e constante.

No cemitério eram somente Alberto, Celeida, a dona do asilo, Karina, a psicóloga, e os coveiros. Já sem força para andar longa distância, deixaram-no ir de carro até a penúltima aleia, no cantinho à esquerda, onde ficava o mausoléu da família. Onofre fora o remanescente. Alberto acompanhara o sepultamento da mãe dele, única pessoa entre os familiares que conheceu. O amigo se foi mais de vinte anos depois da mãe.

— Não há mais ninguém que vá ocupar lugar neste jazigo — disse Alberto para si.

Desceram do carro com cuidado; a psicóloga ofereceu-lhe o braço. Com os joelhos já tão fracos, o paralelepípedo molhado era convite ao chão. Sem choro, preces ou qualquer discurso de adeus, apenas os olhares de tristeza e saudade, viram arriar à cova o caixão de luxo pago com antecedência pelo próprio Onofre. Queria sua derradeira casa “linda e confortável”.

Assim foi.

Alberto divagava. Tentava compreender os entrelaces da existência, que levaram Onofre à total solidão, embora tenha feito de seus dias os melhores que pode, por si e por quem privara da companhia dele. Nenhum parente, nenhum outro amigo, nenhum sobrinho, ninguém. E, no entanto, ali estava representado o maior amor dedicado a um ser, amor claramente expresso nos olhares de quem teve a divina graça de conviver com Onofre. Unidos por sentimento igual, permaneceram juntos — Alberto, Celeida e Karina —, flores nas mãos, a ver cada placa sendo assentada, o cimento a cobrir as frestas; o assentamento da lápide em mármore, que Onofre também mandara fazer com antecedência.

“…como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.”
Onofre. *12.01.1931 / +14.07.2017

Sem sobrenome e sem foto. Não adiantaram os insistentes rogos de Alberto e das responsáveis pelo asilo. Ele não arredou o pé.

— Parem de tentar me convencer. Quero assim e pronto — teimou.

Jamais explicou seus motivos. O mármore ficou à espera, guardada dentro do mausoléu. Poderia ter mudado de ideia e encomendado outra. No entanto, está lá, do jeito que quis, sem sobrenome e sem foto.

— Pra que foto, Alberto? Quem vai lá me visitar? Você? Vai querer ir ao cemitério pra olhar minha cara séria naquela moldura antiquada pregada numa sepultura? — perguntou ao amigo, sorrindo.

Tampouco entenderam os três versos no excerto do poema que escolhera para o epitáfio, sem citar a autoria. Onofre era desse jeito. Um jeito só dele.

A chuva fria não deu trégua. Retornaram ao asilo juntos, pois era missão de Alberto cuidar dos objetos pessoais do amigo e queria fazê-lo logo. Outros residentes os aguardavam na grande varanda do casarão; Alberto sentiu certa curiosidade nos olhares, como se quisessem saber como estava o único e leal amigo de Onofre, que morava fora e o visitava religiosamente a cada quinze dias.

Alberto estava bem. Sempre pensara que não se deve esperar do futuro a partir de certa idade. Dos oitenta e seis anos de Onofre, os últimos vinte e três passara no asilo, que todos chamavam de vila, a Vila Primavera, no Rio de Janeiro. Estabeleceu que seria sua morada definitiva após a morte da mãe, a quem cuidou até o fim. Não teve esposa, nem filhos. Do resto da família, há muito não tinha notícias. Alberto completara oitenta e quatro poucos meses antes do amigo. Viúvo, morava sozinho num apartamento no mesmo prédio que a filha. Além dela, tinha Onofre.

Diante das caixinhas e pequenos pacotes que colocara com cuidado em cima da cama e da escrivaninha, suspirou fundo antes de começar. “Não há para quem deixar nada, é preciso decidir o que fazer”, pensou. Em suas visitas, notara a organização da pequena estante e jamais pensou que fosse ele a se ocupar da vida pessoal de Onofre, trancada naquelas caixas. A filha de Alberto o aconselhou a não assumir tal responsabilidade, o pessoal do asilo ficou em dúvida, por motivo comum: a idade. No entanto, Alberto fez questão.

— Ele só tinha a mim — suspirou de novo.

Recordações retornaram à mente em cada foto, em cada peça de roupa, cartas, cartões de Natal, de aniversário, bilhetes, bilhetes. Receitas médicas, exames, mimos recebidos pelas enfermeiras, alguns poucos livros. O mais novo adquirido da escritora que viera palestrar para os residentes meses atrás.

Alberto recostou na cabeceira da cama e respirou fundo. Ao passo que saiu o ar, deixou caírem as lágrimas. Cruzou os braços no peito, como em um abraço, e largou as palavras num sopro.
— Tanta coisa por dizer… Mas que não seriam ditas, ainda que pudesse fazer voltar o tempo.

Com as mãos trêmulas, enxugou os olhos nas mangas da camisa, recolocou os óculos e se levantou para abrir o armário. Abriu as gavetas, conferindo se havia algo mais que roupas, quando deparou com uma caixa pequena, de madeira. Alberto levantou a tampa e dentro encontrou outro pacote de fotografias. Ali estavam todas as lembranças: desde o dia em que se viram pela primeira vez no baile de carnaval, quando estava com a família no clube e encontrou Onofre no balcão do bar, até reuniões e festas em casa de ambos. Eram dezenas de registros, guardados com esmero e anotados no verso com data e local. No fundo da caixa, um envelope lacrado: “Para Você”. O mundo parou em torno, enquanto Alberto leu:

Rio de Janeiro, 1º de março de 2016

Alberto,

Não sei por que lhe escrevo, se não pretendo lhe entregar esta carta. Talvez pela urgente necessidade de conforto, neste momento. Jamais teria coragem de dizer o que vem por estas linhas. Quem sabe um dia esta lhe chegue em mãos e não estarei em corpo para vexá-lo com tamanha loucura. Tanta foi minha covardia que não pude olhar-lhe com a verdade do que sinto, não soube usar da voz para confessar-me. Agora que recorro às palavras traçadas, vejo-me incapaz de expressar meu mais profundo desejo. Portanto, escolhi os versos de Vinícius, que tantas vezes repeti serem meus preferidos.

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Do seu,

Onofre.

Giovana Damaceno é jornalista e escritora, pós-graduada em Sociologia, autora dos livros Mania de escrever (2010), Depois da chuva, o recomeço (2012) e Do lado esquerdo do peito (2013). Possui blog que leva seu nome, onde publica suas crônicas. É membro da Academia Volta-redondense de Letras.

um conto e um poema

blues na marginal

Quase 6 da tarde, a menina sentada na calçada olhando a marginal chora compulsivamente. Vejo de longe, atravesso a rua, pergunto o motivo. Nada importante. Deduzo um fim de namoro. Me sento ao lado dela, ignoro o cheiro do esgoto, ofereço uma pastilha. Ela aceita e chupa o doce, agradece enquanto limpa o nariz. A coriza escorrendo. Contemplamos o céu de São Paulo disputado por helicópteros. Pergunto onde ela mora, e ela responde que veio do Nordeste pra ser bailarina, quer trabalhar no teatro municipal. Reparo no perfil magro e procuro o joanete no pé. O corpo inteiro ainda soluça de desgosto. Deve estar com saudade de casa. No trânsito, um carro avança o semáforo e para na nossa frente: um homem acena. Deve ser um tarado, ela hesita e levanta. Eu acompanho o movimento, pronta pra ir embora. Pergunto novamente o porquê daquele choro. Ficou desempregada? Está sofrendo com a distância? Foi traída? Tento adivinhar no catálogo de motivos. Ela me responde com o canto da boca: “meu choro é ritual de cura, não precisa de tristeza, acontece toda quinta, em travessia movimentada, expurgo a mágoa mais discreta, evito que ela aumente, de vez em quando lavo a melancolia e coloco pra secar no vento, outras vezes só agradeço, eu choro porque existo e a lágrima me purifica”. Fiquei em êxtase no meio da metrópole mais pragmática da América Latina. Voltei pra casa atrasada, tropeçando nos outros, mente distraída. Ando anestesiada, o peito estufado de tanto sentimento que não demonstro. Próxima semana vou voltar a ouvir The Smiths e ver um filme do Woody Allen, penso antes de entrar na padaria.

terceira guerra

não há nada melhor
ou mais urgente
a ser feito
senão tomar sol
na faixa de areia
que surge
antes do tsunami.
não posso calar Donald Trump
não posso esconder bomba atômica,
mas o poema cava um bunker
no meu peito aflito
sobrevivente de guerra
no gueto dos poetas perdidos.

Tassyla Queiroga tem 30 anos, paraibana, é poeta e escreve seu primeiro livro de poemas, sobre o exílio. Atualmente, mora em São Paulo, a cidade louca dos seus sonhos neuróticos. Coleciona diários e envia declarações de amor pelos correios. Dançante de flamenco e aprendiz de bailarina.

quarto 303

A primeira vez que meu pai olhou pra uma bunda de mulher eu levei um susto. Não pela bunda em si, que era ok, mas alguma coisa entre tudo que eu acreditava começou a desmoronar. Eu nem sei se esse é um assunto apropriado pra depois de uma foda, mas é que eu parei de fumar e talvez fosse até o caso dos motéis deixarem um plástico bolha no criado mudo pra gente ter o que fazer senão falar. Acho que eu vou colocar na caixa de sugestões. Você viu se tem uma? O fato é que era um casamento, eram duas pessoas acreditando que poderiam ser, sei lá, felizes. Essa mulher, a da bunda, era loira e usava um vestido cor de vinho. Não sei te dizer quantos anos ela tinha, chuto uns 30 e poucos ou até mais, porém bem disfarçados. Na verdade podia ser menos, quando a gente é criança acha todo mundo muito velho. E olhando agora pra esse espelho no teto, eu não acho que alguém ainda viraria o rosto pra olhar pra minha bunda. Então vou ficar com no máximo 30 mesmo pra ela. E ele ficou com os olhos super vidrados, sabe? Eu comecei a comer rápido pra ver se me sentia menos constrangida com aquilo, pra arriscar uma engasgada feia e alguém gritar “Tem algum médico aqui?”. Sempre tem, né? Médico é tipo o Sim da Tábua Ouija. Eu queria ter uma. Mas eu não engasguei. Eu não consegui tirar meu pai daquele êxtase. E eu nem sei se tinha esse direito, mas o que eu sabia da vida também não valia mais. Quando você me conheceu, você me falou que eu tinha um jeito estranho de andar, lembra? É que eu carrego uns troços esquisitos. Não na bolsa, na cabeça mesmo. Então eu acabo ficando meio encurvada pra não perder o equilíbrio. Sabe pombo? Dizem que eles mexem a cabeça pra frente e pra trás pra não caírem pro lado. Não acredito muito nisso, acho que é só o jeito deles mesmo, que um dia um resolveu fazer isso e os outros imitaram porque é assim que as coisas são. Uma vez uma tia me deu um beliscão no braço para eu parar de cheirar o sofá de casa depois que as visitas saíam, dizia que era coisa de gente porca. Ela morava lá em casa, mas eu não sei por que, nunca me explicaram. O engraçado é que eu não me lembro do rosto da mulher. Quando tava todo aquele alvoroço por causa do buquê da noiva, eu fingi que meu guardanapo tinha caído e entrei debaixo da mesa. Acho que eu não tenho as manhas de te contar mais nada. Na verdade nem é justo. Não tem aquele ditado de o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas? Devia ter um tipo para debaixo de Las Mesas também, né? Foi uma piada. Eu só queria te fazer rir mas nunca fui muito boa nisso. Daqui a pouco ligam pra falar que o prazo acabou. E eles têm um prazer todo especial em dizer que o prazo acabou, você já percebeu? Acho que eu vou falar disso também na caixa de sugestões. Você não viu mesmo se tem uma?

Adriana Brunstein é Ph.D. em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 — Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada pelo 13º Cultura Inglesa Festival com o curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental pela Panelinha Books (2012), participa das antologias de contos Casa de Orates (Editora Mondrongo, 2016) e O Outro Lado da Notícia (@link Editora, 2016). Lança, em breve, Pancho Villa não sabia esconder cavalos, pela Editora Laranja Original. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Mallarmargens, Germina, Diversos Afins e Escritoras Suicidas.

a gestação de um pai

Os filhos amam a mãe desde o início, mas o pai, o pai os filhos
têm de aprender a amar porque sempre estiveram fora dele.
(João Carrascoza)

É verdade, nunca vi teu rosto, tua pele, teus olhos. Mas o que sinto é algo que tenta se ajeitar nas minhas frestas e acaba vazando. Primeiro, pelos olhos: o líquido a escorrer rosto abaixo e salgar os lábios. Segundo, pela boca: as palavras trôpegas de um homem que nunca falou com alguém cuja carne é fruto da carne dele. Mas eu falo. Falo e sei que tu me escutas. Sei que reconheces na minha voz o veículo do afeto. Tua mãe está deitada no sofá, exibindo pra mim a parte de fora da tua casa. A barriga que te carrega, apesar de pouco mais da metade do tamanho previsto, é tão plena, tão cheia de ti! Creio que concordarás comigo quando vires as fotografias.

Ontem confirmamos o que sabíamos pelas artérias da intuição: tu és Antonella. Conforme a médica passava o aparelho pela barriga intumescida, tu ias te construindo na tela preta. De repente, te mostraste completa como um deus. Ou melhor, deusa. Tu, naquela sala esbranquiçada, me gritaste que não serás princesa ou boneca. Tu, como carregas no corpo — ainda em formação — o sangue da tua mãe, hás de ser como ela, Atena ou Tanit, a levar o presente nos dentes e o futuro no peito. Tua mãe, que agora coloca minha mão em ti, é a mulher com quem pretendo ver-te crescer. Tua mãe que, antes de ser tua mãe, é minha esposa e antes de ser minha esposa, é mãe do Arthur. Mas antes de ser mãe do Arthur é mulher. A mulher que soube transformar em palco as pedras do caminho. Agora me pego a perguntar ao tempo sobre o desenho que ele fará de ti. Provavelmente, terás da tua mãe os cabelos cacheados e os olhos verdes. O formato do nariz, delicado feito a lágrima de uma idosa, pude ver ontem graças à tecnologia.

Ela está chutando, amor. Sim, tu já respondes, Antonella. Saber que os dias tecem camadas de humanidade em ti me leva a pensar, toda noite assim que entrego a cabeça ao travesseiro, em nosso primeiro abraço. Me faz imaginar a primeira estória que te contarei. Me faz pensar em teus primeiros passos, teu primeiro dia de aula, tua primeira desilusão amorosa. Talvez meu colo não esteja disponível em todas as tuas primeiras vezes, talvez a poeira da rotina se assente entre nós. Mas, se isso acontecer, cuidarei para que o espanador esteja sempre ao nosso alcance.

No momento em que soube da tua vinda — tua mãe me enviou a imagem “eu já amo o papai” pelo celular —, minhas pernas se transformaram em estrangeiras do corpo. Não soube o que responder, a mensagem de volta foi, no mínimo, estúpida. Contudo, depois de alguns minutos, minhas costelas pareciam mais estufadas que o possível. Queria gritar, minha filha, queria abraçar o instante, queria mergulhar em tua mãe pra beijar o que se tornaria tu. Teu irmão, logo que soube, começou a conversar contigo, dizer que te ama e que cuidará de ti. Será com ele que descobrirás algumas das entrelinhas da vida. Teus avós, teus tios, os amigos do teu pai e da tua mãe, todos já te envolveram numa manta de carinho. E eu, Antonella, estarei a vida toda a remendar esta manta, caso ela se desgaste.

Filha, é bom que saibas: o ser humano não é como o apresentam nas histórias de herói. Às vezes, ele pratica o mal em nome da justiça, às vezes diz uma coisa e faz outra, às vezes enterra um punhal no peito de quem ama. É bom que saibas que, enquanto algumas pessoas apanham migalhas para tapar os buracos do estômago, outras descartam comida como se fosse água barrenta. É bom que saibas que há pessoas que julgam importante a cor da outra pessoa e o que ela carrega nos bolsos. Saibas, Antonella, que, por seres mulher, o mundo, diversas vezes, vai te esfregar a proibição nas vistas. Vai te trancar portas e podar possibilidades. Vai esconder por trás de discursos coerentes o cimento que ergue a intransigência.

Não, não quero borrar tua visão com meus juízos. Não quero mostrar-te apenas a parte suja dos fatos. Estou certo de que não te assustarás com minhas palavras, mas as usará como combustível pro teu combate diário. Além disso, tu provarás, feito um faminto, a porção suculenta da vida e, com ela, lambuzarás a alma. De alguns destes momentos, sei que vou participar. Passearemos no parque em muitos finais de tarde, iremos ao cinema, falaremos sobre as danças da existência e, com tua mãe e teu irmão, chegaremos à ousada conclusão de que a vida, justamente pela ausência de sentido prévio, tem o vigor de uma bailarina.

Observando tua mãe que cochilou há alguns minutos, filha, pula-me à mente o sono do qual não conseguirei escapar. E o imagino sem muitos pesares. Tu sentada na cama a falares com teu pai que já não fala, sorrindo pela lembrança da nossa biografia entrelaçada. Eu com o peito repleto ao recordar dos momentos em que colorimos a vida. Nós a sorvermos os instantes que restam como se usássemos os pulmões de Cronos.

| conto inédito do livro Amortalha, que será publicado em outubro pela Ed. Patuá |

Matheus Arcaro (1984) é professor de Filosofia, artista plástico e escritor com dois livros publicados: Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016). Tem textos no Mallarmargens e na Germina. Além disso, é colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiterturaBr.

felicidade talvez amanhã

Levantou-se num pulo assim que viu o metrô se aproximar. Ultrapassou a faixa amarela. Logo ela que sempre respeitara o “mind the gap”. Encarou o condutor. Dessa vez não era engano. Camisa azul, crachá, rosto oval, barba rala, com a aliança. Sim, era ele. Conseguiu que a notasse e se sentiu forte em desafiá-lo. As sobrancelhas dele franziram em expectativa e depois em reconhecimento e espanto. Ela é louca, mas não faria aquilo ou faria?

Ela quis gritar o nome dele. Não saiu. Ele se arrependeu de tê-la conhecido, de ter trocado telefone e saliva com ela. E mais ainda de ter dito que trabalhava no metrô.

Ela tinha agora a chance de se tornar inesquecível. Poderia culpá-lo. Fazê-lo se arrepender de tê-la enganado. Lágrimas borravam sua maquiagem. Ela que nunca fora ridícula e que nunca amara alguém mais do que a si mesma.

Ele teve vontade de parar o trem e o tempo, dar nela uns tapas, gritar, beijá-la na boca entre soluços e lágrimas até que ela o perdoasse.

Menos de um metro entre os dois. Um metrô entre os dois. Limpa os olhos com as palmas das mãos, tropeça no salto alto, fora vaidosa até no momento de maior desespero, e desequilibra para frente, ele grita como se pudesse salvá-la, ela forçosamente brinca de João-Bobo.

Como ela foi boba. Sentia-se desperta de um feitiço e finalmente livre. Seus cabelos esvoaçam e lhe cobrem a vista. O barulho dos vagões a ensurdecem momentaneamente, mas não sente dor, o coração aos pulos, ela caiu para trás de bunda.

Os vagões passam cenas rápidas. O primeiro encontro ali na saída da estação da Cinelândia. Combinaram de tomar um chopp, tomaram vários. Ela gostava do jeito que ele a fazia rir. Transaram na primeira noite. Tudo muito intenso e rápido como os vagões que chegavam já na metade. Lembrou-se logo do cineminha durante a semana. Ele quis ver filme de heróis, ela aceitou porque queria ficar de mãos dadas com ele.

O último vagão lhe lembrou da cena de despedida. Os desafetos trocados. Ela que fizera tantos planos com ele, via o vagão desaparecer com as suas últimas esperanças. Agora apenas a nostalgia de uma vida não vivida.

Não foi dessa vez. Levantou-se sozinha e foi embora, e isso lhe mostrou que era uma mulher forte.

Antonio de Medeiros é formado em Turismo pela UniRio e tem especialização em Literatura Brasileira pela UERJ. Foi o oitavo finalista no Primeiro Concurso de Contos do CEB, da Universidade de Salamanca. Participou da antologia de contos Contágios, organizada por José Castello. Seu primeiro romance, Sozinho esta noite, está disponível como e-book na Amazon.