nada para contemplar, de Marcelo Maluf

Nada para contemplar além da imensidão silenciosa do deserto. Como havíamos chegado? Nem mesmo ele saberia dizer com precisão. Ele que sempre soube perceber os espaços, coordenar nossas vidas, que nunca deixou faltar nada a nossa casa, que sempre soube o que fazer, estava tão perdido quanto eu, tão sem saber quanto eu. Tão frágil quanto eu. Mas uma coisa era certa, ele quis que estivéssemos ali. E fez de tudo para que chegássemos ao deserto. Foi só depois que ele descaminhou. Se lhe perguntassem se tinha algum arrependimento na vida, a resposta era sempre a mesma: a de não ter sido um santo. Estávamos no deserto. Sem água há doze horas e ele não parava de repetir que me amava. Há três dias que só víamos areia e vento. Céu sem nuvens. E ele a repetir eu te amo, eu te amo, eu te amo. Apesar da sede e do sol eu ainda me mantinha lúcida. Comecei a compreender que poderia perdê-lo a qualquer momento. E pedi para que ele não dissesse mais. A boca poderia secar. A língua ficar pesada. Estávamos a sós. Enfim. Tínhamos desistido da vida na cidade, tínhamos desistido da vida em sociedade. Há três anos que vivíamos como nômades descobrindo e desistindo de lugares, não se fixando nem a terras, nem a pessoas. Só tínhamos a nós dois como cúmplices nessa jornada. Questionávamos, às vezes, se não era egoísmo vivermos assim sós. Ensimesmados. Mas Dalton sempre tinha resposta para tudo e logo ele nos convencia, a mim e a ele mesmo, de que o nosso estilo de vida era o menos egoísta de todos. Havíamos escolhido o anonimato e a não continuidade, ele dizia. Havíamos escolhido a certeza da impermanência. Havíamos escolhido todos e não alguns. “Hilda, querida, nascemos para servir aos outros, e só podemos fazer isso vivendo desta maneira”. Dalton sempre me convencia com seu modo lento e fino de falar. Foi por isso que me apaixonei por ele. Éramos jovens demais quando nos conhecemos. Mas Dalton sempre pareceu mais maduro do que sua idade. Vivia falando dos poetas e dos santos. Trazia na carteira um retrato de Garcia Lorca e uma imagem de São João da Cruz. Para ele, seus poetas preferidos. Gostava da coragem com que Lorca encarou a morte de frente e sempre achou burra a igreja por não compreender, verdadeiramente, homens como João da Cruz e Francisco de Assis. Ele se enchia de entusiasmo quando falava deles. Eu, ainda menina, mesmo sem saber exatamente por que, fui atraída pelo seu mundo e, aos poucos, descobrindo que aquele também era o meu mundo. Há vinte e cinco anos que comungávamos tudo. Mas no deserto, tudo aquilo era tão pouco. Só tínhamos a nós mesmos. E era de nós que teríamos tudo. De nós, a vida possível naquele mar sem fim de areia. Dalton perdia as forças. Falava mais lento ainda. Sintetizava sua declaração apenas numa única palavra: amor. A M O R. Desejei ser água, nuvem de chuva, casa de gelo, sereno e gota de orvalho. Para que ele me bebesse. Para que ele não secasse. Dalton sempre temeu sentir sede no deserto. Esse era o seu único medo. Não eram a insolação, os escorpiões e as tempestades de areia. Nada. “Tenho medo da sede, posso não me saciar”, ele dizia. Num ato de desespero, por que queria salvá-lo, beijei-lhe a boca de modo a deixar que minha saliva pudesse servir-lhe de água. Sua língua estava tão pesada e seca que tive que salivar muito para trazê-la à sua consistência natural. A sede começava também a tomar conta de mim. E quanto mais sede eu sentia, mais deserto ficava o deserto. Caminhávamos para não desfalecer e ser encobertos por areia. As mãos dadas. Seguíamos sem pronunciar qualquer palavra. Silenciávamos. Contemplávamos a nós mesmos naquela situação e chorávamos, mesmo sem lágrimas para escorrer. Há cinco dias que eu e Dalton estávamos perdidos no deserto.

Na manhã do sexto dia, Dalton me acordou fazendo um gesto de carinho nos meus ombros. Gesto seguido por cinco palavras: “Amor, Eu Não Sinto Sede”. Dalton tinha os lábios vermelhos, o rosto corado. Uma felicidade iluminava o seu corpo inteiro e contagiava o seu olhar e me contagiava, a ponto de eu também não sentir mais sede alguma. No sétimo dia, levantamos cheios de entusiasmo, seguimos dançando por entre as dunas. Não demorou muito para que a areia cedesse lugar ao oceano. E onde antes víamos escorpiões e tempestades de areia, passamos a contemplar peixinhos, baleias, cavalos-marinhos e ondas. De longe avistamos um humilde barco de pescadores. Dalton me disse com seu jeito fino e lento, que era provável que fosse apenas miragem. Nadávamos.

| conto do livro Esquece tudo agora (Terracota editora, 2012). |

Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Autor do romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório, 2015), livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.

Brasil: (im)possíveis diálogos #4

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Merda

Por Alexandre Marques Rodrigues

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Vitor Rocha

“Com catástrofes a gente não precisa verdadeiramente de se preocupar, elas surgem com certeza. Mas talvez haja necessidade de as provocar, de vez em quando, porque para virem por si próprias leva muito tempo.” (Thomas Bernhard)

Nós não somos mais um país, o Ruivo disse, saiu da cama: andou pelo quarto a procurar a roupa, o pau insistia ainda em ficar duro, o suor no corpo era um acaso; a televisão ligada, na sala, arremessava o noticiário contra as paredes, os apresentadores, a fingir histerias, se esparramavam pela porta sem pedir Com licença, sem perguntar Posso entrar. Victor recobrava o fôlego; deitado, seguia o Ruivo com os olhos, revezava os ouvidos entre as notícias e a frase dele, já repetida tantas vezes, Nós não somos mais um país. Por que você sempre sai da cama com tanta pressa, perguntou, disse Eu odeio isso; o Ruivo encontrou a cueca na sala, Era mais fácil quando trepávamos naquele seu ateliê, comentou, ficava tudo junto: a cama, as tintas, as telas, a cozinha, a sua poltrona: eu não perdia minha roupa um pouco em cada lado. Victor resmungou Realmente odeio isso, o Ruivo se assustou O quê, sugeriu Que a casa fique toda junta, e o outro precisou explicar o óbvio, Que você esteja aí na sala, disse, a procurar sua roupa, e não aqui na cama, junto comigo —

ainda assim, o Ruivo resistiu: não voltou para o quarto. Ficou postado diante da televisão. A imagem na tela mostrava uma multidão a se alastrar pela cidade; um jornalista tentava explicar alguma daquelas coisas que eles nunca conseguem explicar, o rei Alberto pega a mesma arma que arranjou na época das bombas, a arma com que brincou de roleta russa com Jacqueline — pega a mesma arma, balança a cabeça como quem lamenta, olha para Larissa. Ela chora; entendeu que não há solução: seja para o mundo ou para a vida, não há solução, é chegado o reino da merda, não há para onde fugir, não dá para passar uma porta, ir para o lado de fora com quem sai de um bar para fumar um cigarro na calçada; e o tempo não ajuda, não pode, com um soluço, não implanta Larissa de volta para o colo da mãe, para os passeios que dava na praia, segurando a mão do pai, cheia de orgulho por passear com aquele homem que apenas por um acaso era o seu pai. O rei Alberto diz Você já entendeu, Victor ruminou Eu era uma fraude, disse depois em voz alta Eu era uma fraude, Larissa não responde, o Ruivo perguntou O que você quer dizer com isso, continuou a olhar na televisão as pessoas que protestavam mais uma vez. Como se recordasse outra vida, Victor se lembrava, se lembrou, Já quando aquele seu amigo me encomendou as cópias dos quadros, disse, se corrigiu Falsificações, retomou do início, Já quando aquele seu amigo me encomendou as falsificações todo mundo viu, pôde ver: eu era uma fraude, não conseguia nem fazer umas bandeirinhas de merda coloridas com tinta óleo. O Ruivo vestiu a camisa, de volta ao quarto, vestiu a camisa e ficou de pé junto à cama, a velar um morto que tinham plantado dentro de um caixão imenso,

o rei Alberto insiste com Larissa, repete a pergunta, que não é uma pergunta, Você já entendeu, ele repete, ela concorda Sim. Eu olho a janela: você me disse Vai chover a semana inteira, e chove a semana inteira, por isso Larissa continua a chorar, chora com a inevitabilidade das leis da física — suas lágrimas caem como a entropia aumenta, como a inércia impõe a falta de fim ao movimento —; me perguntou O que vai fazer no domingo, me perguntou e eu não sei o que vou fazer no domingo, não sei o que faço hoje, mas Da próxima vez sou eu quem prepara o jantar, me explicou. Você não era uma fraude, o Ruivo disse para o caixão, para a cama, para Victor, que não se levantou, os mortos não se levantam; Apenas se cansou da pintura, o Ruivo ponderou, concluiu É isso, depois citou Igual Roberto se cansou do banco, igual eu me cansei da. Não foi em Natacha que ele pensou, é claro que não: o rei Alberto assente É isso mesmo, Larissa acende um cigarro, ele diz Não dá mais, como quem diagnostica É um câncer, ou É preciso operar, diz Não dá mais; anda de um lado para o outro na sala, não mais a sala onde Larissa tinha escrito na parede uma frase da Ulrike Meinhof —

o rei Alberto anda de um lado para o outro da sala, a arma na mão, de um lado para o outro, a arma que engatilha e desengatilha, de um lado para o outro, engatilha e desengatilha. Acha mesmo que não tem outro jeito, Larissa pergunta. Eu odeio esse seu otimismo — você me disse Vai passar, me mandou ouvir os discos do Glenn Gould e me disse Vai passar —, Eu odeio esse seu otimismo, rebateu Victor, reforçou Odeio, montou o deboche sobre a cara, imitou o Ruivo, disse em falsete A-pe-nas-se-can-sou-da-pin-tu-ra, depois perguntou com jeito de quem repreende, ou mesmo repreendeu Que merda você entende de pintura e de se cansar da pintura; o Ruivo se sentou na cama: pôs os sapatos, Nós não somos mais um país, disse outra vez, a apontar com o queixo na direção da sala, da televisão, das notícias, Não somos mais a porra de um país. Você me emprestou o Torga, eu perguntei se o Houellebecq tinha ficado na sua casa, Larissa duvida Acha mesmo que vai conseguir — O mundo é tudo o que é o caso, Wittgenstein escreveu, abriu com essa sura o Tractatus que você lia ontem —; Ele tem seguranças, ela continua, deve usar um colete a prova de balas, com certeza agora sempre usa um colete a prova de balas,

As bombas não adiantaram, o Ruivo disse cheio de pena, como quem se lembra das flores que se desfizeram quando o vaso caiu da mesa, As bombas não adiantaram de nada. Vê se pega na cozinha alguma coisa para a gente beber, pediu Victor, de repente um morto muito exigente, refastelado em seu caixão cheio de lençóis a imitar a seda, pediu E desliga essa televisão, pelo amor de deus; Eu preciso tentar, o rei Alberto contesta, mostra a arma para Larissa, É o que eu quero, explica, é o que todos querem: é o que eu espero, o que você espera, o que todos esperam. Eu perguntei se você já sabia, você me respondeu Sim, mas não me respondeu, não me disse Sim, apenas acenou com a cabeça, desviou os olhos para o chão, o rei Alberto argumenta Para que aquela gente toda foi às ruas, argumenta sem esperar qualquer resposta de Larissa, ela sentencia Você não vai conseguir, o Ruivo saiu do quarto, foi na direção da cozinha para pegar água, suco, whisky, vinho, chá, qualquer coisa para Victor beber — mas não conseguiu, não passou da sala:

parou outra vez na frente da televisão: olhou a multidão que a câmera, de dentro de um helicóptero, mostrava cheia de semelhanças com qualquer coisa que não era mais humana — a multidão era uma floresta, ou um rio, ou um mar, um deserto imenso a avançar suas dunas sobre a cidade. Não vai resolver, o Ruivo disse, disse É preciso algo mais, disse Desse jeito não vai mais resolver; em dezembro eu era um homem carregando um bonsai dentro do metrô, você se lembra, o rei Alberto recita Eu vou fazer, recita cheio de ênfases, como se dizer fosse já metade do gesto, Eu vou fazer, completa Vou matar o filho da puta. Victor perdeu a paciência, Quando é que você vai me chupar direito, perguntou para o Ruivo, se ergueu na cama como se tivesse chegado o terceiro dia, Quando é que vai me chupar até o final;

É preciso fazer alguma coisa, o rei Alberto insiste, o Ruivo voltou para o quarto, É preciso fazer qualquer coisa, voltou para o quarto sem água, sem suco, sem whisky, sem vinho, sem chá. Acha mesmo que vai ser assim — foi o que você me perguntou, e eu não sabia: não sei. Sentado na cama, Victor pediu Conversa comigo, pediu para o Ruivo, Larissa olha a arma que o rei Alberto muda de mão, mas não põe sobre a mesa, pede Conversa comigo, você também, Conversa comigo, me pede. É tão simples. Nós não somos mais um país, o Ruivo repete, Victor contesta Nós não somos mais um casal, o rei Alberto pergunta O que há ainda para conversar, você concorda com ele, concorda comigo, Tem razão, diz — Larissa para de chorar, Estou tão cansada, ela suspira —, o Ruivo desvia os olhos de Victor, os arremessa pela janela atrás da cama, onze andares para baixo, você me abre a porta, ele murmura, devagar, uma sílaba de cada vez, murmura

Merda.

Alexandre Marques Rodrigues é autor de Porca (Editora Record, 2019), Entropia (Editora Record, 2016; Teodolito, 2017) e Parafilias (Editora Record, 2014; Editora Teodolito, 2018).

Brasil: (im)possíveis diálogos #2

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Empregadas

Por Tiago Germano

Para Leandro Assis e Triscila Oliveira

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Vitor Rocha

“Na família da minha mãe nós somos os mais ricos…”

Ela abriu a cueca branca entre os dedos e pediu que eu colocasse uma perna de cada vez.

“…mas na do meu pai eu já não sei dizer.”

Fez o mesmo com a calça jeans, fechando depois o zíper.

“Talvez os segundos… ou terceiros…”

Colocou o primeiro botão da camisa em sua casa. Deixou que eu tentasse abotoar o resto.

“O tio Duda tem dois carros, então acho que ele é o primeiro mais rico…”

Eu cheguei no botão da gola e percebi que alguma coisa estava errada.

“… e o tio Mário tem duas televisões.”

Ela me mostrou que eu havia pulado uma casa. Tirou os botões das casas erradas e guiou os meus dedos pelas certas.

“Isso sem contar o Master System do Rafa, né?”

Ela penteou o meu cabelo para frente. Depois para trás dividindo no meio.

“Mas aqui na rua sem dúvida nós somos os mais ricos.”

Eu ainda não precisava usar desodorante, então ela colocou a colônia, uma gota de cada vez, bem atrás das minhas orelhas.

“O vizinho pensa que é mais rico só porque tem uma antena parabólica no jardim.”

Ela me fez sentar na cama e calçou os meus tênis.

“No jardim! Você já viu?”

Eu nunca soube como ela fazia aquele nó tão fácil de desfazer, mas que não desmanchava nunca.

“E do que que adianta ter tanto canal só de boi?”

Ela recolheu a roupa suja e fez uma trouxa delas na toalha molhada.

“Na sua casa também tem canal de boi?”

Ela me deu as costas e saiu do meu quarto.

* * *

“São tempos difíceis. Tá quase impossível encontrar alguém de confiança…”

Minha mãe havia se aposentado mas não conseguia dar conta sozinha da casa. Uma diarista vinha uma vez por semana para ajudar na limpeza.

“…e comer de marmita todo dia você sabe como é, né, o seu pai reclama.”

Havíamos recém comprado uma máquina de lavar. Meu pai culpava a função de secagem por ter, segundo ele, encolhido suas camisas de linho.

“Eu já tenho que aguentar a obsessão dele com os fios de cabelo no chão e a poeira nos móveis.”

Meu pai passava os dedos nos móveis para conferir se estavam limpos. Já havia demitido mais de uma empregada por causa disso.

“Isso porque a Cida é limpinha e deixa tudo tinindo na segunda.”

Minha mãe o havia proibido de fazer o mesmo com a Cida.

“Mas sabe como é, né, uma vez por semana… consegue imaginar o tanto de poeira que entra por essas janelas?”

Havia uma obra no terreno da frente. O prédio começava a tomar a nossa vista para o mar.

“Lembra o drama que foi com a Zefa, na época da casa?”

Zefa: melhor bife da infância. Não sabia o que era a parmegiana mas acertou de primeira porque, quando viu a receita, disse que fazia pros filhos com ovo e queijo, sempre que dava pra comprar.

“Cozinhava direitinho aquela, mas era porca. Seu pai dava um chilique todo dia que passava o dedo no balcão da cozinha.”

Zefa tinha vergonha de comer na mesa mesmo depois de nós. Para falar a verdade, eu nunca tinha visto a Zefa comer.

“Mas pelo menos não roubava, né. Lembra daquela que escondia as coisas de vocês no quintal e depois pulava o muro de noite, pra pegar pros filhos?”

Neide: tinha voltado de São Paulo, grávida aos dezesseis. Foi a maior decepção da minha mãe quando engravidou de novo, ninguém sabia de quem. Meu pai pagou até a licença-maternidade e achou aquele roubo uma falha imperdoável, logo que ela voltou a trabalhar para nós.

“Sabe que a menina dessa Neide passou na Federal agora?

Eu gostava da Neide.

“Cotas, né? E a gente tendo que pagar faculdade particular por causa disso.”

Eu gostava na verdade da vitamina de abacate da Neide.

“Ah, mas a pior de todas foi aquela Nina, lembra, aquela com espírito de rica, que se metia nas conversas?”

Nina, a que mais havia durado. Deu banho de álcool em meu irmão pra baixar a febre e dormiu todas noites em nossa casa quando meus pais viajaram para fora pela primeira vez.

“Aquela eu nem quero saber por onde anda.”

Nina sempre resmungava quando tinha que arrumar a nossa cama.

“A gente sempre teve o dedo meio sujo pra empregada.”

Nina hoje tinha um pequeno ateliê de costura.

* * *

A Cida tinha acabado de ser demitida num acesso de fúria do meu pai, antes de sair para o trabalho.

“Eu digo, a gente só pode ter o dedo podre.”

Na área de serviço, a máquina de lavar ainda terminava o ciclo rápido com todas as minhas roupas acumuladas ao longo da semana. Eu já podia finalmente me vestir e ir para a faculdade também. Eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente da minha mãe, então fui para a dependência de empregada.

“Você não se lembra, mas a única que deu certo com a gente pediu demissão quando vocês eram ainda pequenos.”

Troquei primeiro a cueca suja por outra limpa, quentinha, ainda com o calor da máquina.

“Aquela sim, era uma pessoa digna… simples, mas digna. Nunca tive do que reclamar.”

Sacudi a calça jeans ainda meio amassada e a vesti. Primeiro uma perna, depois a outra.

“Era a única que conseguia tirar você da cama de manhã e arrumar a tempo de chegar no colégio.”

Conferi o cheiro das minhas axilas antes de colocar a camisa, ainda com o aroma do amaciante.

“Só que teve esse dia, você não vai lembrar. Ela levou vocês pra escola, fez o serviço da casa, deixou tudo impecável, mas saiu sem dizer nada e encontrei um bilhete dela pedindo desculpas, dizendo que tinha que ir embora e que a gente não precisava se preocupar com o pagamento dos últimos dias.”

Demorei a desfazer o nó cego dos sapatos e a colocá-los nos pés.

“Nunca entendi porque ela foi embora.”

Penteei os cabelos no espelho da sala.

“Engraçado… Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o nome dela.”

Me despedi da minha mãe e só na porta percebi que tinha pulado um botão da camisa.

Tiago Germano é escritor e jornalista paraibano. Autor do romance A Mulher Faminta (Editora Moinhos, 2018) e da coletânea de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), vencedora do Prêmio Minuano e indicada ao Prêmio Jabuti. Mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é bolsista do Programa de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da Universidade de East Anglia (UEA), em Norwich (Inglaterra), por onde já passaram escritores como Ian McEwan e Kazuo Ishiguro. Seu romance O Que Pesa no Norte será lançado ainda este ano pela Editora Moinhos.

a única estação, de Rafael Gallo

“No fundo, posso dizer que um verão depressa substituiu outro verão.”
(O estrangeiro, Albert Camus)

Deveria ter pensado melhor, antes de sair de casa. “O casaco não coube na mala, vou carregar comigo”, escreve para Pedro, após despachar as bagagens. O corretor ortográfico do celular sempre a atrapalha quando redige mensagens em inglês, mas a língua é o ponto de encontro entre o casal, a meio caminho dos idiomas de cada um. “Pode deixar aí no aeroporto, nunca vai usar aqui”, a reposta dele almeja algum riso; quase tudo o que diz tem pitadas de humor, feito o ingrediente típico da gastronomia de outro país.

O difícil, para Kathrin, é ter a medida exata do que considerar com seriedade, ou relevar, entre as falas do namorado. As menções dele ao calor de lá — onde mora e para onde ela está prestes a se mudar — soam quase irreais, diante da neve de fevereiro que vê do lado de fora das vidraças. Pedro costuma dizer que na região dele é verão o ano inteiro. Kathrin acredita que só pode ser outro de seus exageros essa fala; a percepção dela há de ser diferente. É impossível ser verão o ano inteiro, isso acabaria com a própria ideia de ciclos anuais. Restariam apenas repetições de um estado do qual nunca se sai. Ela imagina: o tempo todo, uma única estação; suga com nervosismo o cigarro, na cabine fechada do aeroporto.

* * *

A viagem é longa: além do trem que a trouxe de Salzburgo — onde se despediu de todos — serão três voos daqui, de Viena, até o destino final: Recife-Guararapes. Impronunciáveis esses nomes em português; e pensar que Pedro reclama da dificuldade de falar alemão. Todo o período que ele passou na Áustria, por conta do doutorado, apoiou-se na língua inglesa ou, depois que se conheceram, na ajuda dela. Ninguém apostava na união dos dois, mas “o brasileiro” abriu leque tão novo de vivências, que Kathrin se atraiu quase de imediato. A volta dele para o Brasil daria fim à história dos dois ou novo começo. Escolheram a segunda opção.

O avião pousa no Recife, afinal. É a primeira viagem dela para outro continente; logo essa, permanente. Saber que Pedro a espera logo ali, na saída desses caminhos estrangeiros, dá segurança à excitação. Quando o encontra, ele está segurando uma placa com o nome dela escrito errado, feito um funcionário que não conhece quem veio buscar. Ela gargalha. Beijam-se, em comemoração a tanto porvir.

“Não está tão quente, está agradável até”, Kathrin caminha contente pelo terminal, o casaco nos braços. “Você ainda não viu lá fora”. Assim que a porta ao exterior se abre, ela compreende. É tanto calor, tanto. E há algo diferente de outras temperaturas quentes com as quais se deparou antes; a pele fica pegajosa e, por cima dos braços, o casaco parece prestes a inflamar-se. Quando entram no carro, o ar-condicionado refresca um pouco, mas a dor de cabeça já está instalada: talvez do cansaço das tantas horas de voo, talvez da insolação nesses poucos minutos em solo pernambucano.

No trajeto para casa, Kathrin olha curiosa os entornos do que agora se torna seu país de morada. Preferia ter outra sensação íntima quanto ao que se apresenta. Quantas vezes pensou nesses preconceitos a serem evitados, na disposição para um contexto muito distinto do que viveu até hoje; mas alguma sensibilidade no corpo reage de outra maneira quando se está cercado pelo que antes era só hipótese. Vai ficar tudo bem, é apenas o estranhamento inicial, ela se convence.

O apartamento de Pedro é aconchegante, um oásis de reconhecimento por tê-lo visto nas conversas em vídeo, enquanto estiveram longe. “Casa”, ela pronuncia uma das poucas palavras em português que conhece, boas-vindas a si mesma. Eles deixam as malas na sala, circulam pelos cômodos e vão à cozinha. “Que barulho é esse?”, Kathrin pergunta e Pedro tem de encontrar brechas de silêncio entre os motores dos carros lá fora, para captar bem o som. “Esse tum-tum? É alguém tocando música na rua. Mas está longe. Bem que você falou que tem ouvidos sensíveis”.

* * *

Música: aqui, é quase onipresente. No começo, parece divertido ver a empolgação induzida, em quase todos os lugares. É como se houvesse, espalhadas, partes de uma daquelas festas temáticas de férias, na qual estereótipos tropicais — ajudados pela embriaguez alcoólica — servem de brincadeira a adultos, fomentam alegria. Kathrin filma, com a câmera do celular, gente dançando na rua, nos botequins, no meio de alguma atividade de trabalho. Nunca viu povo tão musical. Manda os vídeos, pela internet, para os pais na Áustria e para Ilse, a melhor amiga. Riem como se vissem um lugar que nunca poderia ser a residência dela. Mas agora é.

Só que tal qual acontece em toda festa — e toda embriaguez — o barulho constante, depois de algum tempo, começa a exasperá-la. Muitas vezes Kathrin quer silêncio, mas é acossada pelas batidas daquele estilo dominante, que lhe soa como mistura de guitarras caribenhas, programações de teclados de karaokê antigos, cornetas mariachi e vozes que — Deus do céu — vão das repetições mecanizadas do pop moderno até os arroubos mais melodramáticos dos filmes de Bollywood. Perde a graça rápido. E a quietude, que ela aprecia, é tratada como um mal a ser erradicado. Alto-falantes se projetam de todos os cantos — desde barracas de vendas até igrejas pentecostais — televisões permanecem ligadas onde quer que haja tomada elétrica, carros espirram o gosto musical dos donos pelas ruas. Até no modo de falar das pessoas há algo de música alta.

O corpo de Kathrin não processa tantos impulsos e decibéis da mesma maneira. Continua a reagir como se perturbado por um agente invasor, cada vez mais fatigante. Passadas as primeiras semanas, por mais que resista a se queixar com Pedro, a exaltação compulsória acaba por dobrá-la. “É sempre assim? Ou só na temporada de férias?”, ela vislumbra a possibilidade de ter fim a sagração generalizada do verão. Na mesa ocupada por eles no restaurante, os copos em tremores de vidro a cada golpe do bumbo, vindo de um carro parado na esquina. O namorado responde e ela pouco se atenta às palavras dele; o que a choca é perceber em si mesma o comportamento, até então, julgado bizarro: o de falar alto demais, para encobrir os ruídos de fora, que também se erguem continuamente. Acaba de cair no ciclo inflacionário de ruídos e sons, que leva todos a um estado de tumulto constante.

É muito discrepante de sua terra natal. “Terra natal”, ela repete em pensamento, na língua-mãe. Impressionante como a expressão adquiriu tons diferentes em tão pouco tempo. A imagem mental de Salzburgo recoberta de nostalgia e distância, como se no porta-retratos da memória o vidro se empoeirasse. A música seguinte tem início no carro ao longe e ela percebe: só ouviu o próprio pensamento, agora, por conta da pausa entre uma faixa e outra.

* * *

Perto do prédio deles, Kathrin descobre por acaso um grupo que treina capoeira a céu aberto. Transforma em ritual sentar-se à mesa do bar mais perto, de onde é possível observá-los. Na primeira vez, acende um cigarro, mas logo o garçom manda apagar, por ser proibido fumar ali. Ela não considera esse um lugar fechado — a mesa fica na calçada — mas aparentemente a presença do toldo é o bastante para a interdição.

Ver os capoeiristas compensa, eles a fascinam de verdade. Por mais estranho que possa parecer, são eles que mais a lembram do lugar de origem. As únicas pessoas, entre as conhecidas aqui, absolutamente centradas nas próprias ações, na atividade à qual se dedicam. Estão inteiras no que fazem, não há distrações forçosas, dispersões de energia e ruído. E são magníficos na realização da luta, da dança. A ela, parece mais dança do que luta. É tão belo de ver: pernas que se erguem velozes e rentes, mãos precisas nos pontos de força, composições detalhadas dos gestos. São como os músicos que tocam Mozart em Salzburgo: graciosos e potentes, indefectíveis nos movimentos. Ela se anima, só por acompanhá-los com o olhar. Negros como se eternamente resistentes ao sol, eles jogam até o cair da noite, que, infelizmente, chega rápido demais. No verão da Áustria, anoitece só por volta das 21h; é no inverno de lá que o crepúsculo se dá nessa faixa das 17h30. Nem a duração dos dias se alterará aqui?

* * *

A solução encontrada para a vontade de fumar é fazê-lo em casa. Kathrin vai para perto da janela do apartamento com o maço e o cinzeiro. Quando perguntou a Pedro se deveria ficar na rua, com seus cigarros — dadas as proibições e falta de alternativas — ele alertou para o perigo de assaltos, ataques. “Especialmente porque você é um alvo fácil, com sua aparência de estrangeira”.

Sua aparência de estrangeira. Pele tão mais branca que as dos outros, sem proteção do sol inclemente; olhos claros, também alérgicos a tanta luz. Cabeleira ruiva, que na Áustria era, no máximo, comentada com elogios esparsos, mas aqui se tornou uma espécie de atração turística reversa, chamativa aos locais. A forma mais frequente de interagirem com tal beleza forasteira é com as mãos. Parentes de Pedro, amigos e gente próxima dele, estranhos que ela nunca viu antes, atendentes ou clientes dos estabelecimentos aonde vai, não há diferença: todos se dão o direito de pegarem nos cabelos dela. Às vezes, riem dos sustos que leva; Kathrin protege os peitos, à altura onde as madeixas terminam e onde quase sempre são buscadas. E, talvez seja falta de entendimento dela, mas parece haver certo ressentimento nesses gestos de cordialidade. Algum rancor pelo que apreciam, mas não possuem.

“É normal isso, de colocarem as mãos na gente, mesmo quem a gente não conhece?”, pergunta a Pedro, que balança a cabeça em confirmação. Kathrin não consegue se acostumar; depois de algumas semanas, entra no salão e pede um corte bem curto, rente à cabeça. “Muito calor”, a moça com a tesoura repete para ela, como se falasse com uma criança que não entende quase nada. Kathrin sinaliza concordância, aprendeu logo essas duas palavras, por serem proeminentes no que há para se falar aqui. Muito. Calor.

“Eu preferia comprido”, o namorado diz, quando se depara com a novidade. “Ah, é? Eu também. Mas se todo mundo pegasse no seu pau quando sai na rua, você também ia querer resolver isso”. Ele fala para a companheira, que se afasta: “Vamos lá, é bem diferente. Ninguém enfiou a mão dentro da sua calça”. Kathrin volta para perto, irascível feito todo animal que se vê sob ameaça: “Não é tão diferente quanto você pensa. E faz eu me sentir perto de ter alguém enfiando a mão na minha calça. Você mesmo falou: é perigoso pra mim, na rua”.

* * *

Conversando com os pais todos os dias, pela internet, ela percebe que suas experiências se abstraem na percepção deles. O corte de cabelo foi tratado como uma pequena excentricidade; quando lhes mostra algumas das músicas que agora a irritam, os dois riem do lado de lá. Claro, falta potência de som, falta constância e proximidade real, para que compreendam. Aos poucos, a distância entre eles parece aumentar, como se a deriva continental ainda estivesse em curso, afastando ainda mais o que antigamente foi uma só Pangeia.

Esse efeito se atenua quando o avô participa das conversas. Os pais vão à casa dele para fazer tais chamadas. Muitas vezes, deixam-na sozinha com o velho, que sempre tem histórias para contar e, mais do que isso, também a escuta com atenção. Pede para ensiná-lo palavras em português conforme as aprende. É bom ouvi-las na voz dele, adquirem outro aspecto, mais brando. “Saudades” é a preferida dos dois, sempre se despedem com o termo tão singular do idioma de onde ela mora. Quase todas as vezes, Kathrin chora ao desligar as chamadas.

Outro contato frequente é Ilse, a melhor amiga. Mas os diálogos com ela têm se escasseado mais rápido do que com os pais. Kathrin não tem muito que contar: nenhum amigo ou experiências interessantes lá fora, nenhuma perspectiva de atividades com sua formação profissional. Nada de novo debaixo do sol. Já as transformações na vida de Ilse perdem substância, por serem transmitidas só em discurso. O novo namorado dela, por exemplo, é descrito com todos os pormenores, tem fotos mostradas e ações narradas, mas continua a ser um estranho, de certa forma. Não se conhece uma pessoa através de explicações. E Kathrin também só pode ser ditada para ele; configurou-se como “a amiga que foi morar no Brasil”. Não é quem queria ser.

* * *

Chega a data de início oficial do outono; Kathrin a pesquisou na internet antes, marcou no calendário. Embora Pedro houvesse dito que, no Recife, ninguém acredita nas previsões meteorológicas, ela conferiu-as dia a dia: hoje é esperado que chova. Fica à janela, fumando os últimos cigarros do maço, enquanto aguarda a chuva prometida pelos satélites. Talvez as quatro estações se assemelhem aqui, mas está confiante de que haverá diferenças: hoje pode ser apenas o começo de algo semelhante a um outono veranil, mas já significa mudança. Imagina o desconhecido a partir do que viu antes: há de vir um inverno veranil e a primavera veranil, antes de ser retomado o verão veranil, esse excesso da qual se livra hoje.

O vento começa a soprar, caem os primeiros pingos. Ela inspira o ar molhado, a esperança na transformação. Tudo precisa ser renovado, em algum momento, é a natureza das coisas: bichos e homens têm seus momentos de recolhimento, de migrações ou colheitas, de extroversão; as plantas florescem, dão frutos, depois ressecam, guardam energia e brotam de novo. São imprescindíveis à vida esses ciclos, nada sobrevive na intempérie ou no cio permanentes. Ela sabe através do corpo agora: é necessário o tempo de se fechar e de se abrir, as transições. E essas chuvas hão de direcionar todos a um estado menos eufórico, é bom que seja assim. Ela sorri por um instante.

Dura menos de quinze minutos, a chuva. Logo o sol retoma o poder, esgarça as nuvens e arrebenta em luz amarela. As paredes não demoram a esquentar, do asfalto sobe o vapor estremecido. Carros abrem os vidros, um deles lança no ar a música que insiste, viril: “Senta, senta, senta”. Kathrin conhece ambos os significados do termo, passa a mão nos cabelos encurtados. Os termômetros se restabelecem. Hoje é todos os dias.

Quando Pedro chega em casa, faz piada sobre o aguardado início da outra estação. Pela primeira vez, Kathrin mantém a cara fechada com um gracejo dele.

* * *

O outono se vai como se não fosse nada, a passagem dos meses confirma: é mesmo verão o ano inteiro aqui. Pedro estava certo, aquela fala dele era para ter sido levada a sério. Kathrin sente-se como se traída, pelo fato de ele ter brincado tanto antes, diluindo previamente a gravidade dos avisos quanto ao que a esperava. Ele deveria ter enfatizado que é exasperante esse verão crônico, que há barulho demais, caos, tensão constante entre as pessoas acaloradas, e nada disso concede alívio. Nada se renova, só se reitera. Não que seja calor absoluto todo o tempo, há chuvas e dias nublados, mas são meras variações de humor da atmosfera, passageiras. Falta separação verdadeira entre fases, alterações mais consistentes. As folhas deveriam ter caído nesse hemisfério, a atmosfera se apaziguado; a luz deveria ter se tornado mais tênue, em tons de sépia e azul claro, inspirando sobriedade. O frio se anunciaria em seguida, convocando a diferentes atividades, demandas, temperamentos. É preciso sair desse torpor coletivo, dessa tensão de cio nunca concluído.

E pensar que em Salzburgo, a essa altura, a primavera tem nutrido outras belezas, coloridas, depois da neve. Nessas imediações da linha do Equador, o sol está sempre perto demais, dá a impressão de que o planeta nunca sai do mesmo ponto, apenas gira ao redor de si mesmo. Um presente perpétuo, dividido somente entre dia e noite, mas sempre o mesmo dia e a mesma noite. Sem alívio, sem horizonte. Plantada na estagnação, Kathrin resseca.

* * *

Por dias seguidos, ela volta à mesa de onde assiste à roda de capoeira, buscando ânimo na força daqueles rapazes e garotas, daquele mestre distante. Mas o espaço ocupado por eles, a certa altura, esvazia-se e permanece assim. No começo, Kathrin pensa que a ausência pode ser temporária, mas com o passar do tempo fica claro não ser o caso. Pensar que seria por conta do chamado inverno não faz sentido; o calor permanece o mesmo de sempre, nada se alterou na rotina de ninguém. Aqui está ela, na mesma mesa, rodeada pelos garçons de sempre, as ruas em seu moto-contínuo. Só os capoeiristas sumiram.

Sem domínio suficiente do idioma, ela pede que Pedro a acompanhe até o bar, para perguntar aos garçons sobre o que aconteceu. O diálogo que se dá à frente dela é incompreensível. Ao fim, o namorado explica-lhe, em inglês: “O mestre foi preso. Tentou proteger um aluno, pego por policiais, e se lascou junto”. A perplexidade nos olhos dela expõe mil perguntas, antes de ser pronunciada a primeira: “Eles eram bandidos, então?” Pedro indica as cadeiras para que se sentem. Pede uma cerveja, estende-se sobre os muitos sins e nãos cabíveis entre prisão e crime, entre policiais e pobres, culpados e negros. Kathrin não se conforma. Olha para o vazio deixado no lugar do mestre e seus alunos. O sol, ainda potente, parece que nunca mais vai baixar.

* * *

O sono dela continua prejudicado, mesmo passados meses, como se o fuso horário não se ajustasse. O problema é outro: o sol, penetrante pelas frestas do quarto desde às 5h da manhã. Pedro dorme sem problemas, depois passa os dias fora, na universidade. Ela não tem muito mais o que falar com os pais ou Ilse. Os capoeiristas se perderam. E dentro do apartamento, ou fora, faz tanto calor, tanto barulho. Ela, muitas vezes, lembra-se de uma Kathrin muito diferente dessa, que vaga pelos cômodos, à espera de nada. Quem é ela?

Entre todas as mudanças possíveis, a única que acontece é para pior: a chamada dos pais, tão fora de hora, provoca nela alarmes antes mesmo de atender. Nem mesmo calcula que altura da madrugada é em Salzburgo, quando o celular toca. Na tela que se abre, do aplicativo de vídeo-chamadas, os dois choram. Pedro, ao lado de Kathrin na cama, nada compreende das palavras, mas deve conseguir presumir — pelas reações, pelo cenário vazio na casa do avô, pelo choro — que o velho faleceu. É isso mesmo, ela confirma, antes de sair do quarto.

Na sala, está quente demais, apesar de ser noite há horas, de ser inverno no calendário. Tudo se configura absurdo: esse calor, o desarranjo do tempo e do espaço, a morte, a impossibilidade de se estar onde deveria estar. Ainda que fantasie os itinerários mais mirabolantes, a conclusão fatal é de que não há como chegar em Salzburgo, dar o adeus final ao avô. Kathrin odeia estar aqui, odeia a si mesma, e seu ódio é constituído de desamparo.

Pedro a abraça no sofá, ela treme em choro. Ficam ali até o sol nascer. O que não tarda.

* * *

“Existe alguma palavra em português para quando as coisas ficam piores do que insuportáveis?”, Kathrin pergunta com olhos trincados, dias depois. Pedro responde com uma negativa. “Eu imaginei. Acho que não existe em nenhuma língua”.

Ela precisa, de alguma forma, ter alívio. Alívio de tudo, de si mesma. Sair da letargia perturbada. Mas não há trégua: o luto, somado às angústias anteriores, a deixa mais fragilizada às apoquentações de buzinas e músicas, gritos e risadas, precariedades e excessos de toda espécie. Outro dia de sol e mais outro. Kathrin não consegue comer, não consegue ficar parada, nem iniciar qualquer coisa. Fica fechada em casa, em meio às janelas incandescentes e as paredes febris. A morte do avô é vasta, impõe outra dimensão a tudo; mas os ruídos da vida e da alegria lá fora não se remodelam, continuam a zunir e picar feito mosquitos. Enxames deles.

Nas ruas, a cidade que já lhe parecia hostil se torna doentia: o lixo espalhado tem mais lixo, o cheiro de mijo entra mais alcalino pelas narinas, as rachaduras nas calçadas se aprofundam, a miséria impõe outro nível de horror, os ruídos das pessoas são mais pontiagudos. Risadas e falas altas, gritinhos de crianças, correria, música para dançar: o absurdo nauseante da alegria.

Ela decide ir à farmácia, precisa comprar algum remédio para a dor de cabeça, a apatia e tantas outras coisas. A melancolia. Existe medicação suficiente para tudo isso? Na entrada, um homem grita ao microfone as promoções de remédios. Mexe com Kathrin, que só entende, ao final, a palavra “gringa”. Todo mundo ri no balcão de atendimento.

Todo mundo ri. É tanta alegria, tanta. Por todos os lados, a alegria a encurrala. Crianças correm entre as prateleiras de medicamentos, berrando de alegria. A música no sistema de som, assim que o anunciante para, bombardeia alegria por entre as paredes. Não há resguardo possível. Kathrin menciona à atendente os sintomas decorados em português, vistos no aplicativo de tradução. Recebe comprimidos que desconhece e nos quais deposita pouca fé. Queria dizer: o que precisa ser detida é toda essa alegria, essa terrível alegria. Ela chora no meio de todos.

* * *

Se fosse só luto pelo avô, já teria passado. Se fosse só luto pelo avô, não estaria presente nela desde antes: essa desolação, esse estado do qual nunca sai. Weltschmerz. Kathrin acende cigarros que se queimam até o fim, sem que ela sequer os leve à boca.

É primavera. Que diferença faz? Nem as flores realizam seu potencial completo aqui. Quase não se vê cores brotarem pelos caminhos, por entre as calçadas cinzas, quebradas.

Ilse, após sinalizar preocupação tantas vezes, diz em uma das chamadas por vídeo: “Eu decidi que vou te visitar no fim do ano”. Kathrin, depois que desliga, percebe nem ter agradecido. Não foi indiferença, foi alguma outra coisa que deixou de ser acionada no raciocínio. Parece que em seu corpo os fios de energia se derreteram.

* * *

No dia da chegada de Ilse, Kathrin espera do lado de fora do portão de desembarque, olha-se no reflexo do vidro: a amiga deve estranhá-la bastante. Além do cabelo curto — já visto nas chamadas por vídeo — a pele adquiriu outro tom e textura, as roupas parecem de alguém muito diferente dela. Encosta o nariz ao ombro nu, até seu cheiro mudou; tem algo de maresia.

A amiga surge, as duas se abraçam e começam a chorar juntas. Não são lágrimas do mesmo tipo. Elas caminham pelo aeroporto, têm mil coisas para falarem uma à outra, mas não ultrapassam perguntas e comentários banais, sobre o voo, o aeroporto daqui, o clima. Um constrangimento novo entre elas demora a se dissipar. Nos dias seguintes, a presença da amiga austríaca traz algum alento: conversar o dia todo na língua-mãe, ter perto de si essa voz germânica — e inteira, sem o achatamento da transmissão eletrônica — atentar para pequenos hábitos, microscópicos, que ela já perdeu e agora relembra na outra. Tantos detalhes de familiaridade, a companhia de alguém que também se sente morrer pelo calor. É verão de novo, porque nunca deixou de ser. Ilse tem a vantagem de estar na posição de turista; sabe que não se afogará nessa imensidão de sol e caos, só faz um breve mergulho e volta para respirar no seu habitat. Isso lhe dá a liberdade da qual Kathrin se perdeu.

Quando saem em viagem — itinerário bolado por Pedro até Maceió, indo pelo interior e voltando pelo litoral — a visitante tem disposição para conversar com ele sobre o Brasil; faz muitas perguntas e ouve longas explicações. A História do país, os caminhos pelos quais chegaram até a situação atual. Kathrin percebe, escutando a amiga falar estranhamente em inglês, o quanto deixou de descobrir sobre o lugar onde veio morar. Nunca fez todos esses questionamentos; mal chegou aqui, perdeu o fôlego e não recuperou mais. Pedro, ao volante, explica sobre a colonização, as capitanias hereditárias, a escravatura e o tráfico negreiro, a república e as ditaduras.

“Está tudo aqui ainda”, Kathrin quebra o silêncio de repente, após observar as grandes fazendas na estrada, os casarões coloniais, a presença intimidadora de militares. Pedro a provoca, dizendo que na Europa não foi muito melhor, com todas as batalhas sangrentas e os sistemas de dominação. Também há os muitos resquícios da História lá. Aliás, em Salzburgo tem aquela fortaleza medieval, acima de toda a cidade. “Eu sei, não estou dizendo que lá foi melhor. Só é diferente. Depois de tantos séculos de guerras e revoluções, das muitas reconfigurações dos territórios… As coisas mudaram mais, acho. Aqui parece estar tudo ainda sob os mesmos controles, desde o começo. Não se supera o começo. É o mesmo estado, do qual nunca se sai, uma espécie de presente perpétuo. E, sim, nós ainda temos a fortaleza, mas ela não é mais o que era, ninguém mais fica preso nas masmorras de lá. Nas daqui, sim”. Ilse olha para Pedro, esperando ver qual será a reação. Ele concorda, resignado. “É desolador”, Kathrin murmura, antes de cair em silêncio de novo.

Em meio às plantações, ela vê um menino cravar enxada na terra. Pede que Pedro pare o carro. Desce e vai até o garoto, negro como se eternamente sob o sol mais opressor. Não deve ter mais do que oito ou nove anos de idade; é pouco maior do que a enxada. “Como você se chama?”, ela pergunta em português, já aprendeu um tanto do idioma. “Antônio”, quase nada da voz dele sai da boca. “Onde você mora?”, esforça-se para evitar sotaque muito diferente. “Aqui, ué”, o pequeno fala em tom quase aborrecido, como se a única constatação possível fosse esse lugar, de onde nunca saiu. Um senhor se aproxima, também negro, de cabelos grisalhos. Lembra o mestre de capoeira, mas tem outro aspecto. “Tudo bem, dona?” Ela balança a cabeça, tenta o melhor sorriso do qual dispõe agora. Pedro vem até eles, é perceptível no companheiro o temor. Tanto medo aqui no Brasil, Kathrin pressente; enxerga-o manifestado também nas maneiras e nos olhos do velho e do menino, precavidos contra ela. É como se estivessem todos aqui sob alguma ameaça invisível, ou como se para cada pessoa as demais representassem perigo. Cada um esperando ser predado pelo outro. “O senhor é pai dele?”, ela pergunta e, antes que o senhor responda, Antônio se antecipa: “Vô”.

“Vô”, ela repete. Fica um tempo em silêncio. “Você mora aqui também?”, pergunta a ele, cobrindo os olhos do sol, que não aguenta. “Sempre morei, dona”. Há quietude nesses campos, ouvem-se aqui os detalhes pouco percebidos na cidade. Ela tem poucas palavras ainda a oferecer, eles também. “Para ir a Maceió, é por essa estrada mesmo?”, Pedro atravessa a conversa, na intenção de disfarçar motivo justificável para a abordagem. Não precisam disso, Kathrin tem vontade de dizer; por que sempre essa mania de disfarçar as tensões? Qual é o próximo passo: ligarem o som alto no carro, dançarem ao redor das enxadas, dessa criança na lavoura? O mal-estar geral, aqui, resplandece feito o sol. E, tal qual, não se olha diretamente para ele.

Pedro põe a mão no ombro de Kathrin, “É melhor a gente ir embora”, diz em inglês, código cifrado aos outros dois. Ela se volta para Ilse no carro, que em breve voltará a Salzburgo; olha para o namorado, que pode transitar entre estados e países; Antônio e o avô, que nunca saíram nem sairão dessas terras. Baixa o rosto e vê sua sombra inscrita pelo sol no solo desse lugar. “É melhor a gente ir embora”, repete, sem saber ainda o alcance exato da frase.

Rafael Gallo nasceu em São Paulo em 1981. É autor de Rebentar (Editora Record, 2015), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2016, e de Réveillon e outros dias (Editora Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012. Tem ainda diversos textos em antologias e coletâneas, incluindo publicações na França, nos Estados Unidos, no Equador e em Moçambique.

infância, de Fred Di Giacomo

Observava, faminto, as duas meninas. Claudete e Marina girando. Rodopia céu pra cima. Rodopia verde aos lados. Rodopia chão, terra esvoaçante, frágil marrom. Partículas poeirentas tingindo o azul de barro seco. Cantam a cantiga rápida, mastigando as palavras. Ao soltar as mãos uma da outra, são arremessadas pela força centrífuga ao chão. Gargalhadas espalham-se pelo mato. Sol das quatro da tarde. Formigas em fila na terra tremem ao terremoto das titãs. Um Jaó distante. Gritaria verde. Maritacas. Claudete pele canela, Marina pele carvão. Vontade de beijá-las. Naqueles tempos ainda sabia o que era ser cabra inteiro. Gambé me segurou.

— Tás doido? Não vinhemo pro sertão deflorá virge, Cuiabano.

Não tinha me atentado pra pouca idade das duas. Irritei-me com o sol, pelos do braço e da cabeça coçando. Terra de ladrão de cavalo. Odiava ladrão. Meus pais tiveram a vida desgraçada por bandoleiro no Mato Grosso. Queimaram nosso sítio. Pai tinha sobrenome Correia, mas mudou pra Correto pra deixar claro de que lado da vida estava. Quando furtei goiabas no pomar da véia torta, me encheu de cacete. Pegou na vara de marmelo e sangrou minhas pernas. Quando joguei o gato no tacho de doce de banana quebrou um cabo de vassoura piaçava nas minhas costas. “Prefiro ter filho defunto que filho bandido”. Ser honesto em terras onde só manda o artigo 44? Onde o calibre é a lei? Quem tem inimigo não dorme nunca. Rajadas de piripipi eram normais por lá. Tretas de coronéis sempre. Lembro da cara de ódio dele quando os vagabundos do Wa’uburé Negro botaram a 44 na cabeça da Mãe e disseram que iam violar ela e a Mana de cinco anos se Pai não entrasse em acordo com o Doutor Salles. Mãe branca, Pai preto e eu dessa cor sem nome. O sentimento de impotência do Pai, seu olhar repentinamente frágil parecendo que ia desmanchar, aquilo foi o pior castigo pra mim. Credo. Cheguei a pensar que Pai ia chorar. “Se ele chora, eu implodo.” Ia ter que pular na orelha do Wa’uburé e arrancá-la com o dente, mesmo sabendo que me matavam. Mas era a única coisa que se podia fazer. Lágrimas do Pai valiam mais que a honra da Mana. Ninguém podia roubar aquilo dele. Pai chorando? Desaba o céu sobre nós e esmaga tudo que nos sustenta. Senti o osso molinho, molinho.

— Marina, sua peste. Tio me mata.

— No duro?

— Cê sabe que é verdade.

— Tua mãe volta mais, não?

— Sei nem se tá viva.

— Queria ser igual seu tio Rabo Gordo.

— Credo cruz, creio em Deus pai.

— Vida de bicho solto é tão bonita.

— Que o que, Marina? Se nóis casa com algum hómi menos imprestáver já tamo no lucro. Muié bicho solto?

Nessa hora ouviu-se baque. “Mapinguari?” “Pé de Garrafa?”. Grito doido. Marina e Claudete. Coração serelepe rebolando peitos púberes. Suspiro de virgem. Rabo Gordo tinha rastreado onça-canguçu dia inteiro. Comera-lhe um bezerro. Marina, engolindo angústia, queria averiguar. Franziu o cenho, como o pai fazia. Sol cocento. Arrepio na espinha: “Passa morte que eu tô forte”. Viram um bugiozinho feio demais se pendurando nas árvores. Barba e bócio, macaquinho barulhento. “Era bugio, Claudete, afe que cagona”. Flauteado de Sabiá-laranjeira lembrava que entardecia. Melodia agudinha agradava. Claudete precisava cozinhar pra vô Felipinho e Rabo Gordo. “Vida miserável”, pensava Marina. Claudete achava que miserável era complicar a vida. Marina, tão sonhadora, não se conformava com único destino. Caminharam de mãos dadas pela estradinha de terra, no sentido contrário à vara de porcos que Carlão Vaca Louca, filho do maquinista, tocava. Cabelos fartos e negros, nariz grande e bem desenhado, peito de pomba. Claudete olhou pra ele até que o moço tímido se sentisse obrigado a cumprimentá-la.

— Tá facinha, hein, Claudete?

— Cê que não gosta de hómi, Marina.

— Credo, fia, meu mano cheira calçolas até da mamãe. Homem é âncora na vida.

— Por que ele apronta dessas?

— Sei lá, cheira as calçolas sujas de toda mulher que acha na frente e mexe no pingolim até espumar nata do leite.

— Até as suas? Que nojo!

— Hómi, Claudete. Que cê acha que o Carlão Vaca Louca vai colocar dentro d’ocê pra ter fio?

— Não tenho nojo de espuma de hómi, Marina, mas dessas coisa de cheirar calçola suja.

— Mano diz que tudo nas muié é sagrado, mas suspeito que seja balela. Hómi gosta de buraco quente. Já viu quantidade de moleque barranqueiro que propaga em Penápolis?

Deviam separar-se na encruzilhada, mas Claudete estava tão empolgada em encontrar Carlão que caminhou até a casinha de Marina.

Meio da mata, entre aroeiras e angicos — jacutinga no céu, uma família de quatís correndo no chão — a uns 50 passos largos do bugio berrante, Tenente Galinha esfolava um homem lentamente. Eu não gostava desse procedimento. Por mim era bala e pronto. Nem bicho eu gostava de fazer sofrer.

— Bandido gente tem que surrar bem, cambada.

— Sou bandido não, moço.

— Alguém, aqui é moço, Serelepe?

O jovem golfava sangue. Porrada cantava. A Captura procurava ladrão de cavalo e cigano. Éramos policiais da Força Pública convocados para missões especiais no interior do estado. Trombamos o rapaz; pele escura, roupa velha. Se engruvinhava atrás daquele sítio, casinha barreada de pau a pique. “Sou bandido, não”. Se não era bandido, que porra estava fazendo atrás de casa de família com aquela calcinha na mão? “Tarado também vai pra vala”.

Naquela tarde Marina não encontrou o mano em casa. Claudete ficou proseando um pouco e depois se mandou pra cozinhar pros parentes. A mãe de Marina se preocupou com o filho mais velho. Moleque andava estranho, muitas espinhas na cara, voz grossa, sempre agitado. Precisava pedir pra Dona Hermínia rezar um terço pra ele, mas o filho nunca voltou. Encontraram o cadáver desfigurado e apodrecido num charco.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia, caipira punk, nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Editora Reformatório, 2018) esteve finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti 2017. Tem sido convidado para debater literatura e narrativas multimídia em eventos como a Primavera Literária Brasileira, em Paris, a Feira do Livro de Frankfurt e a Campus Party. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê.

a mulher engoliu um Pinóquio, de Micheliny Verunschk

A mulher engoliu um Pinóquio quando era criança. Não lembrava desse episódio e espantada e incrédula vê o médico apontar na radiografia a exata localização do boneco, ao fim da traqueia, onde deveria estar o brônquio direito. Não é grande, deve medir uns oito centímetros de altura talvez, e na chapa de acetato, se percebe no brilho branco-azulado, o seu contorno humano, o seu nariz de mentiroso, e mesmo o chapeuzinho pontudo. A mulher imagina que ele está vestido, pois não faria sentido um boneco nu apenas de chapéu, mas não consegue distinguir se está de botas ou descalço, e pensa que não é nada impossível que ele esteja despido, mesmo de chapéu, o que a faz lembrar rapidamente de um conto de fadas em que um rei estava nu, embora pensasse que estivesse vestido.

O médico numa voz calma e confiante pergunta se seus pais ou outro familiar poderiam elucidar as questões que surgem a partir da inequívoca imagem: com quantos anos ela estava quando engolira o Pinóquio? Por que não se fizera nenhuma cirurgia para tentar extraí-lo? Se era de plástico ou madeira, uma pergunta importante, afinal, pois se fosse de plástico, seria uma réplica, mas se fosse de madeira era um autêntico Pinóquio, o que certamente teria consequências diversas. Doera? Chorara? Sentira imediata dificuldade para engolir ou respirar?

O consultório é espaçoso, há diplomas e certificados na parede, e em um quadro se pode ver todo o sistema pulmonar em relevo. Sobre a mesa de vidro alguns porta-retratos, um porta-lápis preto com detalhes em bege e o laptop prateado atrás do qual o médico fala como se estivesse defendendo uma tese acadêmica, a voz monótona e ligeiramente anasalada. Os brônquios são os tubos que levam o ar aos pulmões, estruturas que se assemelham a árvores, termo que aliás se usa, “árvore brônquica”, que é o conjunto formado pelos brônquios principais e suas ramificações pelos pulmões. Fala-se em brônquios principais ou de primeira ordem, porque existem ainda os brônquios de segunda e de terceira ordem. O brônquio direito é menor, mais vertical e mais largo que o esquerdo.

Mas a mulher não escuta nada ou quase nada que o médico diz àquela altura, já que sua atenção se dispersou no exato momento em que ele proferira a palavra árvore e ela lembrara que comera brócolis no almoço do dia anterior e que possivelmente faria mais sentido se as ondas eletromagnéticas detectadas no alvo, que era ela, revelassem que seu brônquio direito tivesse se transformado num talo generoso de brócolis com centenas de pedúnculos florais densos e verde-escuros.

A mulher aperta a mão do médico e sai com requisições de exames soltas de maneira desleixada dentro da bolsa. Avisa à secretária, sem muita convicção, que telefona depois para agendar o retorno. A secretária é uma moça magra e morena, muito bem ajustada ao uniforme cor-de-rosa, e com unhas pintadas de base e decoradas com flores de pétalas vermelhas. A secretária balança positivamente a cabeça e sugere um sorriso enquanto entrega o recibo pela consulta.

A mulher desce três andares de elevador e se vê na rua, sem muita noção do que deve fazer em seguida. Vai caminhando pela calçada, compassadamente. O dia está frio e ela não colocou sapatos adequados por isso sente os pés um pouco adormecidos. Ela se sente perplexa e seu percurso é realizado ora como se estivesse anestesiada, ora como se pudesse sentir a ponta do chapéu, ou seria do nariz?, do Pinóquio, a espetar-lhe a garganta.

Por mais que remexa nas memórias não lembra do dia em que engoliu o boneco, nem mesmo de a família tocar nesse assunto, mas aos poucos uma vaga noção de que tenha realmente acontecido começa a se infiltrar em pequenos flashes, como num sonho. Então começam a surgir os questionamentos que lhe fugiram diante do médico. Se eu engoli mesmo um Pinóquio, isso significa que alguém mentiu para mim e eu aceitei a mentira ou que a mentirosa sempre fui eu, e de um modo mecânico e pouco inteligente, dei um jeito de fazer com que isso se tornasse parte de mim? Se meu brônquio direito foi substituído pelo Pinóquio isso significa que ele está vivo e é por ele que respiro? Se é assim, é impossível removê-lo? Se ele está vivo isso significa que a cada mentira que eu possa eventualmente contar seu nariz cresça e se pudermos observar isso, seu nariz crescendo entre as capilaridades do que antes seria um brônquio, é possível que perfure cartilagens, ossos, músculos e me fure a garganta de dentro para fora me matando ou, na melhor das hipóteses, me transformando numa aberração a olhos vistos? É possível conviver com ele? Há algum remédio ou tratamento que possa controlá-lo ou até mesmo matá-lo?

A mulher se desespera de que o médico não esteja lá para responder às perguntas que teimam em jorrar, atropeladamente, e pensa em retornar correndo ao consultório o que seria, decerto, uma loucura, pois não poderia invadir o horário de atendimento da mulher seguinte, aquela senhora de vestido azul que com toda a certeza sentia os efeitos da menopausa, o suor teimando em escorrer da testa, a afobação que, indisfarçável, ameaçava romper os limites do busto, decote afora. Então a mulher pensa que talvez o Pinóquio, o seu Pinóquio, seja o efeito de uma menopausa precoce, afinal no mês anterior a menstruação atrasara um tanto, coisa que a assustara na possibilidade de uma não planejada gravidez. Entretanto duas semanas depois o sangue fluiu como se nunca tivesse faltado ao compromisso, e ela prontamente esqueceu a ausência, desculpando o corpo como desculpara sua memória pelo descuido.

A mulher dá voltas em torno de si mesma enquanto caminha e se pergunta, no meio a tantas questões, se o Pinóquio terá uma voz e se a tiver não se confundiria com a sua. Em desespero, começa a cogitar que talvez aquela faringite que a fez perder a voz no dia da apresentação do trabalho, quando ainda fazia faculdade, não teria sido uma abrupta substituição da sua voz pela voz do boneco, coisa que poderia soar absurda uma semana antes, mas que agora, depois do exame e da consulta, não parecia nada inverossímil. A mulher para por um instante e retira da bolsa um pequeno estojo redondo que se fecha sobre si mesmo em dois espelhos, um normal e outro de aumento, depois de abri-lo se mira detidamente para constatar que ainda é ela a dona do seu rosto e não o Pinóquio que se alastrou para fora de si.

A mulher continua andando e anda horas até que chega à entrada do seu prédio. O primeiro portão é aberto, ela fica entre as duas portas de vidro por instantes, o segundo portão então se abre e o porteiro a cumprimenta. Ela o cumprimenta de volta, mas na verdade sua percepção não registra essa interação. Um outro problema se agiganta em sua mente, como contar qual é sua doença, como detalhar e exibir o exame que aponta a presença de um boneco mentiroso de madeira (ou plástico, caso seja uma réplica) onde deveria existir um brônquio. A mulher entra no elevador, suas paredes metálicas e frias fazem disparar o seu coração porque por um instante se imagina morta, dentro de um caixão sendo conduzida terra abaixo, embora claramente o elevador ascenda ao décimo quinto andar.

O elevador chega, finalmente, ao destino e a mulher hesita, entra ou não em casa? Não entra, fica parada diante da porta procurando um meio de entrar, de chegar ao apartamento em que vive. Pode ficar uma eternidade ali, pensa. Ou pode fugir, recomeçar a rota sem rumo entre ruas e calçadas, com o Pinóquio que ela traz consigo e que de certo modo, ou de modo total, agora é ela. Não precisa esperar muito, a porta se abre, o marido que iria comprar pão se depara com ela, imóvel. Então a mulher fala, e nessa hora não se sabe se é ela mesma ou o boneco quem flexiona as palavras da curta frase: Eu tenho câncer.

Micheliny Verunschk é autora dos romances O amor, esse obstáculo (Editora Patuá, 2018), O peso do coração de um homem (Editora Patuá, 2017), Aqui, no coração do inferno (Editora Patuá, 2016) e nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014), projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora do livro Geografia Íntima do deserto (Landy, 2003), finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2004. O romance nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida foi ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.

krypton e krypton, de Raquel Laranjeira Pais

Rómulo e Remo, duas crianças na teta de uma loba. Os rostos em bronze, em mármore, em cobre. Há quem diga que se trata de Krip e Ton, e que Roma, com seus frescos, o seu papado, o seu pó amarelo sobre a cidade, seriam o princípio de uma encenação tosca sobre a história do mundo. Fellini teria muito a dizer, mas o apocalipse* não era nos seus filmes, mais que o encontro de um jovem menino com um mulherão size 42. Talvez o sexo seja sempre assim, um intervalo entre o lógico e o absurdo, entre o natural e o oculto.

Talvez como os dois homens tocando os dedos sobre a capela sistina, criando Adão parece, ocultando e mostrando um cérebro como possível origem da vida, não passe de uma encenação do Big Bang de Krypton. Dois irmãos tocam os dedos e nasce o mundo. Talvez Kryp e Ton não fossem nem irmãos, mas amantes, e o sexo, afinal, só contorne a questão da origem da vida, como uma formiga africana que caminha sobre a banda de Möebius, sem nunca achar início ou fim de nada.

O importante de reter, desta encenação romanesca, é que há origens e origens, e o paradigma científico das mesmas descansa sobre os ombros do Apocalipse, esse filho de Bertron** e da ciência, a mistura do adn de bebês escravos com animais pré-históricos. Uma coisa assim entre humanos vitimizados num shaker com dinossauros. Uma imagem a mais, um passo além do Jurassic Park, o filme, os filmes. A mesma ideia, no entanto, a vaidade humana em primeiro plano, e depois dois ou três tiozinhos procurando criar um Supersoldado. Algo como um elemento suspenso entre a vaidade e a ganância. Fantasias. Sexuais, como em Freud. De poder, como em Adler. De evolução, como em Darwin. Referências bibliográficas em rodapé. Em todos os casos: o Apocalipse. O fim dos Voch, de Bertron, dos científicos do Jurrassic Park, sobretudo aquele gordinho que faz de “Newwwwman” em Seinfeld.

É claro que enquanto o mundo gira e o mito desliza, algumas luzes se acendem no horizonte: o cinema, a literatura, a música, e a própria luz. Uma luz que se pode apresentar como oculta, lançando a inevitável questão: haverá outra luz que não aquela que brota no intervalo entre a fantasia e a procura, o dentro e o fora, a insistência no vazio?

Analisemos o caso de William Ramsey. Isso mesmo, Ramsey. No dia 30 de maio de 1898, em Londres, Ramsey, em conjunto com Morris Travers, um homem que podemos facilmente imaginar um híbrido entre Alfred, o mordomo de Batman, e Watson, aquele do Elementar, meu caro Watson, descobriram algo. Primeiro o árgon, quase como o filme Argo, mas sem N. Quase como Fargo, o filme, a série, mas não quero ir demasiado longe nas minhas especulações, se bem que, nenhum elemento da vida, ou da tabela periódica é sem relação com o anterior, isso estes homens deixaram provado. Descoberto o árgon, ficaram como Fellini olhando para a dona descalça à beira-mar, a suspeita de algo a mais ali, aquele plus onde o desejo se reactiva, se renova, nunca cessa de não se realizar. Decidiram liquefazer o ar, destilando o ar líquido e separando-o em frações, depois exploraram as mais leves procurando um elemento gasoso. Como Bertron descobriu ao criar o Apocalipse, o erro é parte do mistério da vida, parte desse salto em suspenso. Aqueceram demasiado o ar, a maior parte da amostra evaporou. Restaram 100ml. Insistiram. Eliminaram o oxigénio e o nitrogênio usando cobre e magnésio aquecido a alta voltagem dentro de um tubo vermelho. Ali estava o árgon ainda, mas também duas novas linhas: uma amarela e outra verde, nunca antes observadas. Mais tarde, devido ao sol que se faz sentir na região desértica de Los Angeles, e ao consequente uso de lentes polarizadas, seriam adulteradas para vermelho e azul e usadas em fatos de lycra com chumaços. Para mais, veja-se notas em rodapé.

Ramsey e Travers calcularam o calor específico e a pressão constante, o valor foi de 1,66. Era um gás. Um novo gás. Um gás até ali, oculto.

Impunha-se a nomeação, e ao tratar-se do oculto, a imprudência era pecado, estávamos apenas em 1898. A mulher de Ramsey sugeriu então: Um nome em grego, grego ninguém entende. Estava o gás apadrinhado: Krypton. De número atómico 36, três vezes mais denso que o ar, o intervalo entre o dedo de Kryp e Ton.

Foi com Dirty Dancing e Coktail, os cabelos permanentados e as franjas lisas, as camisas havaianas, e o mundo rendido aos chapéusinhos chineses nas bebidas alcoólicas que Krypton brilhou: As luzes neón, as máquinas fotográficas de alta velocidade, os flashes. Um mundo cruel para epiléticos, mas romântico à sua maneira, deliciava-se com gente que dançava enquanto a luz piscava, algo do tempo entrecortado, suspenso entre um gesto e o outro parecia prometer a captura, o isolamento do instante em que o desejo se apresenta e desaparece, em que o tempo fica e o tempo passa, em que saltamos de um elemento da tabela periódica para o seguinte. Tudo, pela excitação do Kripton.

Cabe registar que nem só de vaidade vive o homem, os frescos apagados na construção do metro de Roma, bem o recordam. O homem move-se no instante entre a lentidão e a procura da rapidez, entre o eterno e o efémero. Manter a vida. E por isso encontramos Krypton também nos laboratórios, nos hospitais, nas cirurgias médicas, que abrem as entranhas sem medo de deixar escapar as 21 gramas, elemento ainda não inscrito na tabela, para concertar os fusíveis de uma raça híbrida entre escravos e animais pré-históricos, reconectando cabos, e fios, e ataduras, ignorando que o Apocalipse aconteceu no passado e viaja à velocidade da luz.

Charles Wibstear , Chemistry Today, dezembro 2019——————————————————————————————

Podem chamar-lhe Verdade, e apontava para a gata, obesa e cinzenta que dormia sobre o tampo da secretária. Verdade tinha o nariz raspado e a cauda demasiado longa. Quando ouvia o seu nome, levantava o focinho e estendia a pata direita, juramento ou aceno. Cresciam-lhe, como a Charles Wibstear pêlos brancos, no bigode, nas orelhas, na barriga contornando a zona genital.

Charles notara isso há mais de vinte anos, um pêlo branco aqui, outro ali. Não tinha com quem dividir essas questões, foi assim que começou o seu sistema de anotação. No canto inferior direito da página do livro que estava a trabalhar, logo depois das notas de rodapé, acrescentava em letra miudinha: Acontecimento, (Quantidade), data (dia, mês, ano). Por exemplo: Ruga persistente no canto da boca, 1, 23/07/1998; Hoje foi o funeral de John, triste infinito, 15/02/2001; Hoje Stephen Hawkins apareceu no Big Bang Theory, episódio 108, 05/04/2012. Coisas que lhe pareciam relevantes.

Podemos assim, para efeitos da escrita deste livro, reconstruir com base na sua biblioteca, como foi o caminho do brilhante químico, professor catedrático da Universidade de Columbia, três vezes nomeado a Nobel, até ao artigo de Dezembro de 2019, na Chemistry Today.

O posterior suicídio de Charles em pouco nos deve impressionar, defendera sempre que para homens e Verdades, o melhor era escolher a retirada, ser posto a dormir antes de que por a ou b o paradigma que sustinha a existência particular fosse quebrado.

Apesar de o ter desacreditado como científico, é pela infeliz publicação, e não pelas três nomeações, que ficou conhecido do público estado unidense, e quem sabe, mundial. Stan Lee Inc., que o próprio é falecido, declarou na primeira terça-feira do ano 2020, que tinha interesse em adquirir os direitos de autor da vida de Charles. Também por esta biografia, escrita por Ghost Writer, embora todos saibam que o autor sou eu, o seu sobrinho, acedendo ao pedido que o próprio me fez no natal de 2018, a editora Penguin declarou seu interesse. Investigando a biblioteca do tio, pude localizar o motivo de seu pedido:” Estudos sobre a tabela periódica”, página 30, nota de rodapé: Perdi meu último pentelho negro, 0, 25/12/18.

Charles negava-se a quantificar o tempo, mas para efeitos desta narração direi que passou pouco entre a saída do artigo e o seu último suspiro. Foi Luísa Bettencourt de Aragão, a empregada, que o encontrou sem vida, e para mim a sua primeira chamada. O escritório estava quente ainda, e Verdade dormia sobre o seminário de Lacan, volume X, A Angústia. Pelas suas patas percebíamos que o livro era branco, mas o seu pêlo tapava a imagem central: várias formigas gordas passeando sobre uma fita de Möebius. Perto do candeeiro verde o compilado da editora Honey-trap “Krypton, o planeta e o mito, muito além de Superman”, a Bíblia com as suas folhas de papel de arroz, e uma edição antiga de “O poder do mito” de Joseph Campell. No centro uma lupa, um caderno de folhas impressas, scans aparentemente, do artigo original de Ramsey e Travers: “Krypton, o gás oculto”. Um post-it amarelo sobre a primeira folha com a letra meu tio: Nego-me a usar a forma portuguesa de Crípton ou a brasileira, pior ainda, de Criptônio.

Ao que tudo indica as notas sobre Fellini e demais referências cinematográficas foram feitas de memória, uma quebra no seu estilo científico rigoroso, que demonstra um amor oculto, kryptónico, pela sétima arte.

De Seinfeld o único registo encontrado foi um dvd da temporada 5 esquecido ao lado do tomilho, na janela da cozinha. Não saberíamos precisar como e quando ali chegou. O tomilho estava seco.

Michael Tissue da Chemistry today, declarou ainda, na semana do suicídio do tio que se perdera “Um grande homem, capaz de tecer fios profundos entre a humanidade e a ciência”.

Deste grande homem fica ainda a cadeira gasta, sóbria como o mogno, mas danificada por uma unhada de Verdade.

John Wibstear, O grande homem e a pergunta (em processo)

* Apocalipse, significa Descoberta.** Origem pré-histórica de Krypton, fonte: Wikipedia.

Raquel Laranjeira Pais nasceu em Lisboa. É licenciada em Psicologia e mestre em Psicanálise e Filosofia da Cultura pela Universidade Complutense de Madri. Dá continuidade à sua formação em São Paulo onde frequenta o centro literário Escrevedeira e publica contos em revistas literárias. Em novembro de 2019 publicou o seu primeiro livro de contos Trinta e Três de Agosto na coleção Arranhacéu da editora Perspectiva. Atualmente vive e trabalha na sua cidade natal.