a agência, conto inédito de Micheliny Verunschk

Era mais uma sexta-feira quente como outras daquele mês, o barulho do ventilador se repetindo como um mantra, seu ciclo sonolento e desalentador. Eu gostava de me imaginar como Dupin, decadente em Montmartre, mas a verdade é que me faltaria sempre o brilhantismo intensamente humano do personagem de Poe. A chamada que me levou ao Trevo do Corredor me sacudiu do marasmo, um corpo dentro de um carro esperava pela composição de uma narrativa. E se eu não me mexesse, ela permaneceria congelada, à espera de alguém que a fizesse se movimentar.

O homem estava sentado no banco do carona. A cabeça fora esfacelada por cerca de 15 tiros e os dedos arrancados grosseiramente, o que sugeria que o crime fora passional ou, por outro lado, se tenha tido o intuito de dificultar a identificação do cadáver. Fiquei com a segunda hipótese, muito embora soubesse que se o assassino quisesse mesmo embaralhar a investigação seria mais produtivo incinerá-lo e, aí sim, atravancar o trabalho em meses. Entretanto, se aprendi algo nesses anos de profissão é que o criminoso sempre deixa a senha para ser pego, uma pequena negligência, um aparente descuido. Mesmo no crime perfeito, a chave está lá, é preciso apenas ter olhos para ver. Nem sempre os tenho, é verdade.

O que me sugeria que não fosse um crime passional? A uma primeira vista, a posição da vítima dentro do carro me dizia que ela fora morta em outro local. Num segundo momento, eu soube que aquele corpo com a cabeça horrivelmente disforme morava a poucos metros de mim, no mesmo conjunto de apartamentos da zona sul da cidade. Eu já havia visto no elevador aquela combinação de calças listradas e camisa xadrez, e a proximidade do crime a poucos metros da minha vida me deu um arrepio. O corpo foi enviado à Medicina Legal e eu, cumprindo o meu papel, resolvi tudo em quatro linhas.

Gazeta da Aurora
26/01/2018

Corpo é encontrado desfigurado

O corpo de um homem não identificado, com o rosto desfigurado, foi encontrado num carro abandonado próximo ao Trevo do Corredor. Segundo os policiais, os assassinos desfiguraram a vítima no intuito de dificultar sua identificação. O corpo, que teria recebido cerca de 20 tiros, foi encaminhado ao IML.

A última vez que eu vira o sujeito fora mesmo no elevador cerca de três dias antes. Ele levava duas caixas consigo e suava desesperadamente, olhou para mim algumas vezes como se procurasse algo, talvez empatia. Na garagem, deixara a chave do carro cair algumas vezes. Não ofereci ajuda, afinal nunca nos cumprimentamos. Achei patético e agora sabia o quão de espetáculo grotesco pode haver numa morte anunciada, porque estava claro que o homem saíra de casa para morrer e estava ciente disso e, mais, haveria de saber também que não haveria fuga possível, contorno que pudesse fazer que o colocasse fora do alcance do seu destino.

Resolvi voltar para casa aquela noite. Nem sempre eu voltava, é certo, perdido entre rodas de cerveja e mulheres anônimas. O apartamento estava um verdadeiro pardieiro, cheiro de comida azeda e tabaco, livros por todos os lados. Por baixo da porta, um envelope pardo se comportava como um inseto sem nome, parado, atento ao que eu faria, o joguei em cima da mesa e desabei no sofá. No dia seguinte, ao examiná-lo, uma série de recortes noticiavam atividades antigas da Agência de Controle Epidemiológico. Não entendi nada até a hora em que fui conversar com o porteiro sobre o vizinho de calças listradas. Foi aí que consegui um nome, André Salviano, e sua ocupação, funcionário da Agência.

O homem morto havia, finalmente, conseguido a minha atenção.

Liguei para a Agência e perguntei pelo homem. Três ramais depois, um sujeito perguntou grosseiramente o que eu queria com André. Preciso falar com ele, respondi, sabendo da impossibilidade do meu pedido. Do outro lado, o baque do aparelho sendo desligado sem nenhum esclarecimento possível, tornava as coisas mais sombrias. Foi quando lembrei de fazer uma devassa nas reportagens mais recentes sobre a Agência. Recordei de tê-la visto nas páginas policiais não havia muito tempo.

Sim, fato corriqueiro, um arrombamento, nada de valor aparentemente levado, e algum vandalismo. Mas agora, um funcionário morto trazia um elemento a mais para a trama na qual eu me enredava.

Gazeta da Aurora
19/01/2018

Criminosos arrombam escritório central da Agência de Controle Epidemiológico

O escritório central da Agência, na zona sul, foi arrombada nesta madrugada. Não há informações sobre o que foi levado e até o momento, ninguém foi preso.

A vida oficial de André Salviano parecia monótona. Seu perfil no facebook mostrava um homem solitário. As postagens públicas em geral compartilhavam insistentes alertas de cuidados com a saúde, meios de evitar surtos e epidemias, o que me levou a crer que fosse um desses maníacos por limpeza. Sem relacionamentos aparentes, nada o direcionava para a trágica cena da qual fui uma das primeiras testemunhas e foi crescendo em mim a certeza de que aquele desfecho estivesse relacionado à Agência. Os rumos da investigação policial, sempre lentos, me desmentiam. Colegas reconheceram o cadáver e uma suposta amante misteriosa foi trazida ao enredo por uma titubeante testemunha.

João Oliveira dos Ramos, ambulante, depôs que por volta do dia 23 ou 24/01/2018, ofereceu água e balas a um homem com as mesmas características de André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico, encontrado morto em circunstâncias misteriosas no último dia 26. Segundo a testemunha, uma mulher de cabelos claros acompanhava o homem”.

A Agência sempre gozou de boa reputação por seu trabalho social, entretanto em 2015, havia se associado a um grande laboratório multinacional para a prevenção de epidemias e desenvolvimento de novas vacinas. Na época, setores ligados aos movimentos sociais levantaram bandeiras contra uma suposta privatização da agência, denunciando também intervenções não muito éticas do tal laboratório em países da América Latina e África. Em 2016, o governo determinou sigilo de 50 anos nas atividades da instituição. Quanto mais eu pesquisava sobre a Agência mais me convencia de que havia algo cheirando mal naquilo tudo e não, não era apenas o cadáver.

No apartamento de Salviano, nenhuma pista que pudesse levar à mulher misteriosa. No seu enterro, apenas os colegas da Agência. O seu computador não foi investigado. Um crime sem solução, diriam alguns. As pás do ventilador eram agora a trilha da minha obsessão e um homem sem obsessões é pouco menos que fumaça de cigarro, gelo derretendo dentro de um copo.

Foi então que conheci a família de Salviano meses depois, em outro estado. Não pareceu que seus pais estivessem interessados ou animados em quem afirmasse tentar descobrir a verdade sobre a morte de seu filho. Mas antes que eu partisse, recebi no hotel duas caixas misteriosas, da qual dou notícia agora e que são responsáveis por parte da minha teoria.

Março/Abril de 2016, o país ferve com mudanças radicais na vida política. Grupos oponentes se enfrentam nas ruas. Uma série de insurreições contra um golpe desferido nos anseios democráticos do país transforma as cidades em palcos de uma guerra amplamente anunciada. No auge das contendas, um vírus mortal passa a se propagar entre a população causando perdas de vidas, hospitais e emergências inchados. André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico documenta os passos dessa receita para o caos minuciosamente. Políticos e Empresários trabalham de mãos dadas para esvaziar as ruas com uma epidemia em proporções alarmantes. Com material suficiente para responsabilizar os mandantes de gabinete, André Salviano é eliminado. Agora que estou com suficientes provas materiais, começo a receber ameaças veladas. Ontem uma mulher loira me observou por vários minutos no bar. Não é a primeira vez que a vejo. Se você estiver lendo esse relato, minha vida corre perigo.

Hoje recebi um telefonema: André Salviano não está morto, mas você está.

Nota da autora: Em março de 2016 fui convidada a escrever este conto para servir de base, junto a outro texto, de autoria de Luiz Roberto Guedes, da dramaturgia da peça “Urubus Noir”, da Cia Quase Cinema. Este conto acabou por me surpreender nos últimos dias, após revisitá-lo em leitura, por ocasião da reestreia da peça em formato de live por conta das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Muito embora retrate as tensões políticas presentes naquele início de ano, parece antecipar o cenário do mundo pandêmico que passaríamos a viver exatamente quatro anos depois. Obviamente isso não parece ser uma qualidade da autora, mas uma característica da literatura e do fazer literário, antena a prenunciar o futuro, ou como disse Oscar Wilde, “a literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios”.

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. É autora também de O movimento dos pássaros (Martelo, 2020) e de O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021).

disfarces ocultos, de Julianne Veiga

capa_meio_do_mundoNão importa aqui para o relato dar a ela um nome, ele se perde em meio ao das demais que como ela vivem histórias com enredo assemelhado. É que, no geral, muitas das mulheres, muitas, a maioria delas, talvez, podem se reunir num mesmo e amplo perfil de lutas e recaídas pela individualidade, sobrevivência, integridade e dignidade. A mulher deste caso há muito não tem mais pouca idade. O que a deixa tão envelhecida é a percepção de que falhou em suas escolhas, em sua vida, de que a desperdiçou, de que não há mais saída possível, de que está definitivamente enredada nas teias de casulo que tece desde que conheceu este homem com quem vive e que pensou dela fosse.

Ela olha para ele ali do outro lado da sala e conclui, depois de décadas de convivência, que o conhece bem, que hoje sabe onde encontrar seu verso e reverso. Sabe por quais vias periféricas transitam as suas mal disfarçadas intenções, agora já para ela reveladas. Aprendeu a ler suas entrelinhas, seus olhos fechados em falso, a ouvir as palavras não ditas. Sabe dos atalhos usados. Sabe quantas voltas ele dá, por quantos becos caminha para chegar soturno até ela. Consegue identificar seus ares de desdém e deles se defender. Hoje ela sabe que não é dele o objeto de afeto, sequer o é do desejo. Sabe, no entanto, que sua vida ocupa lugar central na dele, porque é ela o ponto para onde convergem todas as pedras por ele jogadas com suas mãos ocultas. Hoje, ela o conhece.

Nunca se calou, mas inutilmente, como muda, gritou palavras inadequadas que ele jamais ouviu. Travou, só, batalhas invencíveis. Esbravejou desorientada, num enfrentamento cego, irresponsável, se expondo ingênua e sem reservas para ele. Deixou à mostra suas fragilidades. Consumiu longo tempo até perceber que tudo que revelava voltava-se contra ela como munição usada em arma de ataque. Descobriu tarde, tarde demais, não sabe sequer onde cavar trincheiras para nelas se jogar. Nada mais pode fazer. E, por isto, trata de eliminar mágoas. Resta pouco mais que tolerância. Se perdoa. Afasta a amargura e continua firme no propósito de ser feliz: sozinha, ela decide.

Pouco tempo passado, porém, ela percebe que ele a está vendo. Ela se aquece. Ele lhe faz uns agrados banais, ela fica agradecida. Ele fala com ela em tom quase gentil, ela se envergonha do que lhe disse antes e dos pensamentos que sustentaram sua equivocada fala estridente, é como passa a lhe parecer. Ele lhe dá um beijo na testa antes de dormir, ela se enternece. Tais fatos bastam para que ela comece a acreditar que se enganou outra vez. Outra vez depois de tantas outras. Ele é bom, é um tanto rude, mas é bom, ela se convence. Acaba por acreditar, também, que ela mesma, dominada por seus antigos fantasmas, foi quem deu margem ao surgimento desta nova crise, assim como das anteriores. Perde a segurança quanto a si mesma e a seus julgamentos. Acha que faz transferências indevidas. Começa a duvidar de sua sanidade. Não se conhece bem como pensava, volta a concluir angustiada. Não o conhece, também. Não por inteiro. Constata que ela não é quem julgava ser e que ele é mais do que consegue enxergar, ou do que antes cria ver. Sente-se desequilibrada. Envergonha-se.

Resolve afastar as lentes duras do seu olhar. Tenta se desfaz de velhas certezas que passa agora a considerar inúteis. Aceita suas oscilações de entendimento e de sentimentos. Aceita igualmente as dele. Perdoa a si e a ele. Perdoa aos dois até por seus próprios erros de percepção e decide continuar firme no propósito de ser feliz. De ser feliz junto dele. Continua ao seu lado, ele que há muito está ali, do outro lado da sala.

Convicta do erro de seu julgamento sobre o companheiro, ela torna a baixar todas suas guardas. Sai da trincheira emocional em que havia se colocado. Retoma antigos gestos de carinho. Se oferece. Entrega-se. De novo, desnuda sua alma para aquele homem rude que está do outro lado da mesa. Ele, por sua vez, (re)impulsionando o velho círculo vicioso, volta a fazer dela seu objeto de desdém, brinquedo estragado, sem uso, abandonado para não ser visto, não ser tocado. Ela está ali do outro lado da cama entregue a ninguém. Ela que outra vez, outra vez, de novo, volta sofrida a se sentir recusada, humilhada, recaindo em seu antigo e destrutivo sentimento de menos valia. A diferença nesta crise derradeira, entretanto, está na ciência que ela vem consolidando de que enquanto não tirar aquele homem do outro lado da sala, da mesa, da cama, não conseguirá ter paz. Já não cogita mais ser feliz.

| conto do livro Histórias do meio do mundo (Editora Patuá, 2021). |

Julianne Veiga nasceu, em dezembro de 1957, na histórica cidade de Goiás, antiga capital de seu estado, onde voltou a residir no final de 2010. É casada, mãe de três filhos e avó quatro vezes. Servidora pública aposentada como procuradora de seu estado. Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Goiás — UFG, e em Direito, também, pela UFG. Iniciou, em 2017, bacharelado em Filosofia, novamente pela UFG. Como amadora, borda e toca tambor. Tem contos e crônicas publicadas pela Gueto, revista online de literatura em língua portuguesa. Participou com crônicas das coletâneas Literatura Goyas — Antologia 2015, Livres Pensadores, e Histórias de ternura, Kelps, 2015. Histórias do meio do mundo é seu primeiro livro publicado.

autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

fragmento do romance inédito ‘Ensaio sobre a paisagem’, de Rodrigo Novaes de Almeida

NA CLAREIRA

Saio da frente da escrivaninha e deixo o escritório. Não é um dia bom para escrever. Decido que preciso andar e respirar o ar de outono da montanha. Desço a colina coberta pela floresta de pinheiros. Observo o rio, abaixo, serpenteando o vale e cruzando a cidade. O céu está sem nuvens. Não venta. Sigo por um caminho de terra, estreito, margeado por raízes delgadas. De repente, estou em uma clareira diante de um grande jequitibá-rosa, com tronco espesso, cujos galhos nus se torcem uns sobre os outros. É a primeira vez que faço esse caminho para ir à cidade, evitando a estrada principal. A visão da árvore solitária me remete à decadência e ao pessimismo (ou à consciência de o alto idealismo ter cedido espaço definitivamente ao ceticismo). De qualquer forma, restou-nos pouca coisa; para ser exato, restou-nos nada. Antes havia os deuses, o destino, ou a expectativa de propósito, e a civilização. E se no lugar dos deuses colocamos a nós mesmos, a partir da busca do autoconhecimento, o lugar, por outro lado, não desaparecera. O último ato da tragédia é esse homem desprezível em pé na clareira ante o espanto de reencontrar o sagrado. Mas já é tarde para ele. Já é tarde para mim. Já é tarde para todos nós. A nossa espécie não tem futuro. Sento-me sob o grande jequitibá-rosa. O céu continua sem nuvens. Não há sequer uma brisa. Recordo não apenas os fatos, mas também as frases que escutei e li um dia. As horas passam, anoitece, e não tenho mais certeza se estou acordado quando um homem com vestes arcaicas se põe à minha frente; ele se apresenta: Marco Túlio Cícero. Interrogo-o sobre o seu país e a sua república, e ele faz o mesmo comigo, e nos regozijamos da nossa mútua curiosidade. Ele aponta, então, para a abóbada celeste, que, da clareira, só podemos ver uma parte ínfima. Mesmo assim, ele diz, nunca deixa de surpreender o espetáculo dessas pedras siderais, cujas magnitudes nunca pudemos conceber. Eu concordo e, ao mesmo tempo, me entristeço. Cícero percebe e me pergunta o motivo de eu ter ficado triste. Eu respondo que li as suas obras, conheci os seus pensamentos e a sua filosofia, e muitos que vieram depois dele o leram e o conheceram, e nos importamos com o que ele disse, e fizemos tantas coisas inspirados em suas palavras, mas, concluo, agora é tarde, erramos, fomos longe demais, perdemos tudo, a eternidade das nossas ideias e a imortalidade das nossas almas, e logo a espécie deixará de vagar, errante, por este mundo e não chegará aos outros lá fora — e aponto para o alto.

A visão desaparece, então desperto em meu tempo infinito e desisto de ir à cidade. Eu retorno para casa.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

st. Christopher’s Inn, Rosa-Luxemburg-Platz, de Thais Lancman

capa_lancmanTudo de valor fica em um pequeno armário de madeira, pouco acima dos meus pés. Há anos não durmo em beliche, quanto mais um triliche. Quase bato no teto. A mala fica aberta mesmo, no chão, como todas as outras, as tripas de roupas expostas, escorrendo, como se mulheres automaticamente fossem confiáveis. Mulheres meninas que pagam quinze euros a noite, café incluso, uma porta com senha que as isola dos outros.

Dez da noite e lá fora os postes de luz parecem fornecer uma iluminação redundante. O dia faz sombra no trecho de céu visível em uma janela comprida e alta, antecipando que as cortinas farão falta na hora de dormir. O cheiro de esmalte que vem da cama de baixo. Uma menina pinta as unhas, vejo na fresta entre a cama e a parede. Outra dorme do lado oposto à nossa cama. Já ou ainda? Não sei.

Uma sirene escandalosa me tira de um marasmo cheio de culpa por estar fechada em um quarto na cidade em que piso pela primeira vez, viajando sozinha pela primeira vez. Pego a cerveja grátis a que tenho direito no bar do albergue e, como sou a única cliente, é minha única bebida. Garrafas de vidro se espatifam no chão a todo instante na rua. Quero sair para quebrar a minha garrafa também, mas volto para o quarto, espatifo a garrafa em um cesto de lixo do corredor, volto para a cama elevada com o teto me claustrofobizando.

A menina de baixo fala ao telefone e reconheço que fala em francês não pelas palavras, mas pela ausência de silêncio entre elas, com um zumbido de boca semiaberta persistente. Em outro canto, a conversa entre duas garotas que não aparentam mais de vinte anos soa como uma gravação tocando ao contrário. Sueco? As três passam a interagir, agora em inglês, jogando nomes de festas e bares com naturalidade. Assisto do alto, e contra a luz das luminárias apontadas para cada cama — não há iluminação direta no dormitório — as cabeças magras parecem raspadas. Ossudas. Incomodada, desvio o olhar.

As malas são diversas como as fisionomias. Uma tem grossas peças de tricô, outra é uma bagunça babando roupas pelo chão. Pequenas, enormes parecendo serem de alguém de mudança, a minha é vermelha fechada, incomunicável, um coração hermético. A enorme coincidência de estarem todas ali, de estarmos reunidas, minha mente transatlântica faz o caminho inverso e leva a bagagem a seu local de origem, em trens, trilhos de outra época cruzando a Europa e chegando naqueles beliches, naquelas promessas. As malas como que voam aos locais de origem, a embarques, ao seu preparo em casas cuja arquitetura desconheço.

Chega a garota polonesa enrolada em uma toalha. Se troca com as costas para a parede, esquálida, reluzente como a lua. Ao vestir seu pijama, procuro uma estrela amarela no seu peito de forma quase instintiva. Uma bobagem, penso, não porque estamos em dois mil e quinze, mas porque ela não pode ser judia e polonesa, é improvável demais. Os alemães venceram, disse a minha orientadora uma vez. Seis milhões, ou melhor, para ser minimamente acadêmica, talvez algo próximo a cinco milhões e meio.

Em dois dias começa o curso, então não mais menina francesa, polonesa, as suecas e suas mochilas minúsculas de ar infantil. Suas calças sarcásticas, a ansiedade delas em estarem no epicentro do deslocado, ideia da qual compartilho, mas algo no final me segura. A sirene escandalosa. Culpa, tudo envolto em um mar de culpa, uma pororoca de ressentimento dos alemães e seu monumento grandioso e asséptico, eu e minha cerveja, minha curiosidade em saber onde compro aquelas mochilinhas. Demonstro interesse naquela conversa que se desenrola em um inglês truncado, perdida naquelas vozes, nos móveis de madeira, estilhaços, beliches beliches beliches gente empilhada, acumulada na Europa em quartos imensos, trabalhos forçados, judeus carga, judeus entulho, judeus nada. Tenho vergonha dessa comparação idiota, mas imagino que ela foi prevista por meus avós, tão contra qualquer viagem à Alemanha, terra dos nazistas, dos yekkes, para mim um mero objeto de estudo no qual aprendi a mergulhar e agora me sentia submersa, de outro jeito, na Berlim dos desmandos, nas leis arianas, estou pronta, de pé, jaqueta grossa, curta e moderna, parte de mim quer ouvir um convite das garotas e outra, tem um surto de coragem para encarar a cidade sozinha, e ela que vai, passa o cartão para abrir a porta, se encolhe no vento frio, atravessa mundos, turcos e seus döners, o prédio onde David Bowie viveu em Charlottesburg, faz fotografias e torce para não ser pega no metrô sem catraca, desiste do metrô e caminha.

Para chegar a uma fábrica, pessoas em fila aguardam benevolentes. Guardas gritam com elas em alemão, quem não responde já é despachado para outro lado, fumaça. Quando chega a minha vez, atravesso fazendo sinais com a cabeça. Me revistam no escuro, recolhem meu telefone celular, todos empilhados em um canto, penso nas posses desprendidas de seus donos para todo o sempre, aqueles amontoados de sapatos cor de terra e um salpicado de vermelho, azul com salto, verniz. Me devolvem o telefone com um adesivo na lente da câmera, agora aquilo ficará entre nós, o que está por vir e a minha confusão proposital, que eu carrego como as panelas, aquilo que se pegava antes de nunca voltar à casa, não sabendo para onde se vai, mas com a certeza de que vai cozinhar. No fundo, se sabia para onde ia, e que lá não haveria o que comer.

Aprender a viajar, a andar por corredores escuros de todos os tipos sem saber o que vai surgir no final, é como essa música, dentro dela há tantas mais. Um espaço enorme, o da fábrica, escuro e cheio de sons graves que vão escavando de mim a visão das meninas carecas, fazendo um rombo, me fazendo expurgar essas imagens em um espasmo, em movimentos como os de uma vela, é o que manda os livros sagrados, ler e se mover como a chama de uma vela, e assim fecho os olhos, me movo, gravidade, escuridão.

Transpiro, penso em câmaras de gás escuras e nos gritos, em como eles seriam, o choro coletivo e o silenciamento que vem com a morte, se eu tentaria fugir escalando pessoas ou me recolheria em um canto esperando cair desacordada, pesquiso quanto tempo levava, lembro de algum filme, agora é difícil não pensar em cinema, e não quero nenhum lugar mental em que não seja verão. Filmes de Segunda Guerra sempre se passam no inverno. E, de repente, me vejo sem estação do ano definida naquela fábrica, olhos abertos, meninas japonesas se aproximando de mim em movimentos sincronizados mas não idênticos, me resgatando de algum breu mental para me integrarem a algum ato coletivo de redenção, de fé no nada. O livro de comemoração de cinquenta anos de relações entre Alemanha e Israel é “nós não nos esquecemos, nós dançamos”. Ouço vozes em hebraico, mãos me tocam no escuro, os dois grandes templos do passado deviam ser assim, negros.

Sou arrastada para uma colmeia imensa de concreto, escalo três alvéolos para chegar a um rosto convidativo. O fetiche dos empreendimentos humanos, sempre prontos para se tornar outra coisa. Outros corpos, línguas, buracos em que se escondem fórmulas mágicas de desaparecimento, a fábrica se mostra em fundição de matéria anônima, fluidos, nenhum idioma que precise ser reconhecido. Volumes chacoalhados naquele espaço dois metros por dois metros, no fundo é um só fetiche, o do sol nascente na volta para casa.

Não há gritos ou gemidos, apenas a respiração alta daquele organismo coletivo, de onde é parido um rosto e um corpo musculoso, que se vira e simplesmente sai do casulo sem dono ocupado por nós. Enorme, loiro, ajeitando a bermuda preta, camisa e em quepe, busco algo como o distintivo da SS em qualquer parte, em pé, ele é gigantesco e opressor. Não consigo me mexer, observo meu suor pensando que enquanto ele estiver lá, estou salva do extermínio. Que aquela colmeia é o meu bunker, a casa em que só posso me mexer à noite, quando os hipócritas dormem. Me pergunto se chegarei no albergue e minhas coisas estarão sendo leiloadas, se não deveria ter vindo.

Tenho certeza que assim vai ser. É assim na Alemanha, terra que não correspondeu ao amor que os judeus tiveram por ela. E aqui estou eu, com os restos desse amor, não, com um sentimento do rejeitado bêbado, saindo do meu trabalho forçado na fábrica, tentando cantar alguma canção, ter a bissale mazal e ainda ver minha mala me esperando ao lado do triliche onde eu e tantas fomos jogadas.

Ou posso driblar a sorte, jogar no inesperado, fugir do delírio nazista pois não existe sol nem calor no extermínio. Primeiro é encarar o medo de comprar um bilhete no metrô, basta apertar alguns botões, não é nem medo que devia se chamar essa insegurança. Os trens de Berlim cruzam a cidade e já cruzavam quando Hitler subiu ao poder. Chego a Wansee antes das cinco da manhã, com uma garrafa de Club-Mate na mão. A casa-museu está fechada mas lagos não fecham. Lago pois See é lago em alemão, um falso cognato. Wansee nomeia a conferência na qual a decisão final se consagrou. O local visto de fora é apenas uma casa de veraneio e assim que o verei para sempre, do início daquele longo verão para a eternidade. Sigo para a água, nua como os alemães, os nazistas. Água fria com vista para A Questão Judaica, parada, inerte, congelada no tempo, com memória de mineral, resquícios daqueles dias, de todos os verões que nos separam.

A água dos campos correu para onde? Só se vê a fumaça antes da dispersão. A água tem que estar em algum lugar, chovendo sobre nós, em fontes tão puras, esgotos pestilentos. Mergulho e seguro a respiração até não aguentar mais, assustada por mais que eu saiba que é impossível alguém morrer afogado dessa forma. Me seco ao sol, o mesmo sol que deve acordar as vizinhas dos beliches do meu quarto, que nina meus cúmplices de bençãos na fábrica, o sol de outrora.

| conto do livro Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá, 2020). |

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo, onde vive. É doutoranda em Letras pela Universidade Mackenzie, onde estuda a relação entre arte contemporânea e ficção. Além de Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá), publicou Palito de Fosfeno (Editora Reformatório) e, em breve, lançará Meu ano Flávio de Carvalho.

ata de reunião, de Luís Fernando Amâncio

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Ata de número 137 da Reunião Ordinária do Conselho de Diretores da Empresa Encaixota Brasil, realizada no dia 05 de fevereiro de 2019, na sede, na Sala de Reuniões da empresa, localizada na Rua Raja Gabaglia, 1654, Belo Horizonte.

Estiveram presentes o presidente da empresa, Sr. Adalberto da Costa Guimarães; o vice-presidente, Sr. João Vicente Coelho Ventura; e os seguintes diretores: Sr. Ricardo Almeida Távora, Sr. Júlio Camargos, Sra. Vera Maria da Silveira, Sr. Felipe Leite da Costa Guimarães e Sr. Henrique Lezgrinowith. A reunião contou também com a presença do Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, que compareceu ao encontro para apresentar a planilha de gastos do ano de 2018.

Marcada para iniciar às 14h00, a reunião se iniciou efetivamente às 14h35 minutos — afinal, só precisam ser pontuais nessa empresa os trabalhadores rasos, os palhaços do baixo clero, como este que escreve a presente ata. Que, é importante frisar, chegou meia-hora antes, ajeitou a disposição das cadeiras, ligou os equipamentos multimídia, ajustou o ar-condicionado e ficou esperando a reunião ser iniciada. Este redator, também é válido destacar, tem uma mesa repleta de trabalhos que precisam ser feitos com urgência e será cobrado por isso. Justiça seja feita à Sra. Vera Maria, sempre correta em relação aos horários. Às 14h00 em ponto, ela chegou à sala de reuniões, com toda a elegância, tablet em mãos e cara de quem comeu e não gostou. Como lhe é habitual. Com todos os membros da diretoria presentes, o Sr. Adalberto da Costa Guimarães, presidente da Encaixota Brasil e, não por acaso, seu acionista majoritário, deu início à reunião, que teve a seguinte pauta:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018;

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa;

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos;

Informes gerais:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018. Após conversarem livremente sobre assuntos diversos, como se já não estivessem atrasados — ou talvez implicância deste redator, e seja importante saber das férias do Sr. João Vicente, na Itália; as dicas de restaurante do Sr. Henrique ou as previsões políticas do Sr. Júlio —, o Sr. Adalberto perguntou se todos haviam recebido a ata da última reunião. Após respostas afirmativas, o Sr. Adalberto perguntou se havia comentários a serem feitos e sugestões de alterações para o texto. A verdade é que nenhum desses diretores lê essas malditas atas, estão cagando para essas formalidades, então eles concordam, dizem que não precisa de alteração. Esse documento só serve para ser arquivado, torcendo para que nenhuma auditoria o desenterre do fundo de uma pasta. Mas o Sr. Ricardo Almeida Távora, um maníaco por gramática, lê. Ele pediu a palavra e começou a listar uma série de deslizes que este redator teria cometido. Alguns comentários pertinentes, reconheço, mas a maioria dos apontamentos não passa de picuinha linguística. Já foi registrado neste documento, porém não custa ressaltar, a mesa do redator está repleta de urgências. O Sr. Ricardo, quase septuagenário, o veterano da diretoria, estudou Letras. “Sou um apaixonado por latim”, segundo suas palavras. O decano pediu desculpas pelo nível de exigência, mas, com um sorrisinho asqueroso, disse que seus “olhos doem com alguns delitos contra a língua portuguesa, é um vício meu”. Deve ser o único divertimento do velho. Puto. Já que gosta tanto de gramática, por que não vai dar aulas em escolas públicas e compartilha seus enormes conhecimentos com a juventude? Certamente, é mais divertido humilhar o redator da ata, lembrá-lo de seu lugar subalterno. Após longos minutos desse exibicionismo intelectual, o Sr. Adalberto perguntou a todos se a ata, com as alterações sugeridas pelo Sr. Ricardo, poderia ser aprovada. Com o consentimento de todos, o documento foi aprovado por unanimidade. Este redator, que já tem trabalho suficiente, irá fazer a revisão do documento.

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa: após uma nova dispersão, pois o Sr. Felipe entendeu que era pertinente mostrar os vídeos de seu filho de dois anos — embora, é preciso registrar, o menino realmente seja fofo, apesar do pai —, o Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, iniciou sua apresentação sobre os gastos da empresa durante o ano de 2018. Embora seja chefe de setor, o Sr. Guilherme não é um desses nefastos cardeais, está na luta pela sobrevivência como todos nós. Ele fez a competente exposição, usando o projetor, com planilhas bastante detalhadas. A luz apagada para a projeção, porém, fez alguns membros da direção cochilarem ou se distraírem no celular. Tamanho o respeito pelo trabalho alheio. As planilhas serão anexadas a esta ata. Após a exposição de cerca de 30 minutos, o Sr. Adalberto passou a palavra aos membros do Conselho de Diretores. A Sra. Vera fez algumas observações, tirou algumas dúvidas e mostrou que não estava cochilando durante a apresentação. O Sr. Felipe — e, confesso, dói escrever “Sr.” antes do nome deste cidadão, um playboy que, se não fosse filho do dono da empresa, teria sérios problemas em qualquer função devido à sua inépcia nata —, fez perguntas irrelevantes. O Sr. Ricardo questionou alguns gastos, porque ele gosta de causar. Durante as perguntas, a Srta. Marília, nova copeira da empresa, entrou na sala com café e pães de queijo. Enquanto ela estava depositando a bandeja na mesa, muitos dos diretores lançaram olhares devassos sobre seu corpo e emitiram, sem pudor algum, comentários elogiosos à sua saúde, digamos, para registrar de uma forma elegante. Tal é a avacalhação da reunião. O Sr. Henrique Lezgrinouwyitchakjlndfakjdsjf — sobrenome confuso da porra — ficou recentemente solteiro e particularmente empolgado. A Sra. Vera, não podia ser diferente, ficou bastante constrangida. Os membros do Conselho de Diretores, sem poderem fazer o mesmo com a Srta. Marília — ao menos, não agora —, atacaram os pães de queijo. O Sr. Adalberto, dada a dispersão do encontro, agradeceu a presença do Sr. Guilherme e encerrou a discussão do ponto de pauta.

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos: o Sr. Adalberto afirmou que, conforme é tradição, a empresa será representada no XII World Boxes Manufacturers Conference. Devido à recessão econômica, porém, neste ano, apenas um representante será enviado. O presidente da empresa disse que, em razão de compromissos familiares, não poderá viajar, deixando a oportunidade a algum outro membro da diretoria que se dispuser. Os Srs. Felipe e Henrique se propuseram a representar a empresa. Para resolver o impasse, o Sr. Adalberto decidiu que, neste ano, o Sr. Henrique irá à conferência, uma vez que ele nunca teve esta experiência. O Sr. Felipe, notadamente, não ficou muito satisfeito — vai reclamar com o papai, vai. Dada a afobação do Sr. Henrique com a copeira, este redator especula mentalmente se San Diego é próximo de Las Vegas.

4) Informes gerais. Houve muita conversa paralela, como de costume, mas não houve nenhum informe. Às 16h20, o Sr. Adalberto, exercendo sua função de presidente da empresa Encaixota Brasil, encerrou a reunião, agradecendo a presença de todos. O próximo encontro será no início de junho, com data a ser definida. Eu, Flávio de Carvalho Pedroso, exercendo minha função na secretaria da pocilga, lavrei a presente ata, que será assinada por todos, mas não será lida por ninguém, pois o Sr. Ricardo, aquele mala da gramática, estará de férias em junho.

Belo Horizonte, 05 de fevereiro de 2018.

Luís Fernando Amâncio é historiador de formação, escritor por teimosia, mas paga as contas trabalhando no serviço público. Em 2014, publicou seu primeiro livro, Contos de autoajuda para pessoas excessivamente otimistas. Primeira antologia do autor, o livro foi um dos selecionados em premiação promovida pela Editora LiteraCidade. É colunista do site Digestivo Cultural desde 2015. Em 2020, publicou O voo rasante do pombo sem asas pelo selo Isadora Books. “Ata de reunião” é o conto que encerra a antologia.

a marionete, de Ary Quintella

Toda a minha vida transcorreu no exílio. Parti aos três anos de idade e nunca mais revi a pátria.

Meus pais pareciam se amar; assim pensei, ao menos, durante muito tempo. Obrigada pela família a se separar de meu pai e a retornar a seu país, minha mãe levou-me com ela. Nunca mais voltei a casa e nem revi meu pai ou a família dele. Minha mãe logo apaixonou-se por outro homem, com quem se casou quando meu pai morreu. Um dia, descobri que ela tinha dois filhos com esse segundo marido, nascidos antes mesmo de meu pai morrer. Ela foi morar na Itália, deixando-me para trás, aos cuidados de meu avô. Aconteceu de eu ficar meses, anos seguidos sem vê-la. Viúva uma segunda vez, minha mãe casou-se novamente. Houve rumores também de amores passageiros.

Meu avô me amava. Era meu padrinho. Eu era seu neto mais velho. Nunca nada me faltou. A não ser, é claro, os meus pais e a liberdade. Muitas vezes, pensei sobre a personalidade de meu avô. Homem ligado à família, sério, sóbrio, amoroso, ao mesmo tempo não hesitava em determinar o futuro de seus filhos, e o meu, sem nos consultar. Quando minha mãe tinha 18 anos, meu avô deu-a, literalmente, de presente ao meu pai, pensando nos benefícios que assim obteria. Um dia, passou a considerar a ruína de meu pai como mais condizente com seus interesses e para ela contribuiu.

Minha mãe, bela, jovem, frívola e leviana, não era má. Apenas, era fraca e deixou-se sempre levar pela vida, sem vontade própria, atrelada às estratégias de sobrevivência de meu avô. Ele fez o casamento dela com meu pai; ele ajudou a arruinar meu pai e fez a separação dos dois; ele a mandou para a Itália. Em muitas dessas decisões, meu avô escutava um conselheiro seu, que não queria bem nem à minha mãe e nem a mim.

Recebi uma educação esmerada. Dinheiro e prestígio não eram escassos. Todos veneravam meu avô, homem alto, magro, distinto e próspero. A ruína de meu pai deu-lhe novo sopro de vida e incremento de respeitabilidade. O que poderia parecer imoral — a derrocada de um genro em parte graças à atuação do próprio sogro — foi tomada por todos como algo natural e louvável.

Não tendo nunca mais visto meu pai após os três anos de idade, cresci sem lembrança sua. Sei apenas que ele me amava e que meu nascimento representou uma vitória pessoal, a coroação de sua trajetória. Eu era o seu reizinho. Ele também foi degredado, em condições porém mais difíceis do que as do meu exílio. Morreu quando eu tinha dez anos.

Chorei muitíssimo quando me deram a notícia. Embora meus familiares tenham sempre evitado enaltecê-lo, e seu nome, frente a mim, fosse tratado como um tabu, eu sabia que meu pai não era um homem comum. Ecos de suas glórias passadas chegavam aos meus ouvidos. Alguns anos mais tarde, pude ler sobre ele. Sua imagem me apequenou. Senti-me frágil e inútil diante de sua energia, sua fama e sua forte personalidade. Entendi melhor, ao mesmo tempo, a razão para a minha gaiola dourada. Seria impossível, filho de um homem assim, não querer seguir seu exemplo, se eu tivesse liberdade para fazê-lo. O conselheiro de meu avô nunca o permitiria.

Li a obra de um homem que compartilhara o degredo de meu pai e na qual narrava as conversas mantidas com ele. Ali está registrado o seu amor por mim. Senti grande revolta pelo mundo. Minha mãe o abandonara, embora tivesse professado amá-lo enquanto conviveram. Meu avô traíra laços familiares ao lutar contra o próprio genro. Seres que haviam lucrado com o sucesso de meu pai decidiram esquecê-lo. Entendi que o único sentido da vida é ela não ter sentido. Ela faz de nós suas marionetes. Percebi a melancolia da minha situação de exilado, prisioneiro abastado e privilegiado, vivendo com meus parentes maternos, mas levando uma existência distinta, menos exitosa, da que me fora prometida no berço.

Tive amigos, tive amores. Vi a neve, vi o sol. Senti frio, senti calor. Vivi como a maioria das pessoas de minha classe social. A vida é decepcionante, mas não é sempre triste. Há momentos de alegria. Havia sempre em mim, porém, o sentimento de que a vida me pregara uma peça, de que ela não havia seguido o curso previsto, aquele sonhado para mim pelo meu pai.

Um dia, descobri-me tuberculoso. Percebi que minha morte iminente seria um alívio para os parentes de minha mãe, embora eles talvez me amassem. Eu simbolizava um tempo menos edificante de suas vidas, em que haviam sido humilhados por meu pai e, depois, haviam dele se vingado. Provavelmente, viam-me também com incompreensão: embora fisicamente um homem semelhante a eles, eu era também diferente, potencialmente ameaçador, apesar de minha inocência. Imaginei que, para os parentes de meu pai, que eu não conhecia e que viviam longe, minha morte seria motivo de tristeza. Essa ironia doeu, de que minha existência valesse mais para o lado familiar que não me via desde os meus três anos. Entendi ser isso parte da ordem natural das coisas. Compreendi que eu era, apesar dos atrativos físicos, e do temperamento dócil, uma aberração. Simplesmente, não havia lugar no mundo onde eu pudesse me inserir.

Recebi a espada legada a mim pelo meu pai por testamento. Era a espada que ele usara na batalha de Austerlitz, a mais mítica de todas, e na qual derrotara meu avô e o tsar da Rússia. Oficial do exército austríaco, examinei com orgulho esse símbolo da supremacia francesa.

Em Viena, uma vez, apresentaram-me a Wellington, de passagem pela cidade. O duque inglês, eu soube depois, fez elogios a meu respeito, dizendo que eu fora com ele perfeitamente educado e correto. Não havia razão para que eu não o fosse. O vencedor de Waterloo, iludido, pensava realmente ter derrotado meu pai. Ele não entendera que fora apenas o instrumento usado pelo tsar da Rússia, o rei da Prússia, meu adorado avô e o governo britânico para livrar-se de Napoleão.

Moribundo, pressenti que o ato de morrer me engrandecia. Era melancólico viver como cidadão austríaco, se eu nascera príncipe francês e destinado a reinar sobre a Europa. Viver na Áustria, sendo filho de Napoleão.

Morri aos 21 anos. Meu avô declarou a seu conselheiro que minha morte, embora motivo de tristeza para ele, era um alívio para mim e para o mundo em geral. Minha mãe, que viera da Itália para me ver, estava ao meu lado. Enterraram-me na Áustria, ao lado dos meus antepassados maternos.

Cem anos depois, outro austríaco — este odioso, monstruoso — desenterrou-me e levou-me para Paris, onde depositaram meus restos ao lado dos de meu pai, em um jazigo grandioso. Ambos monarcas destronados, degredados, ambos mortos no exílio, saudosos um do outro, terminamos juntos, ambos repatriados após a morte. Meu coração — falo do órgão vital, não de um sentimento — separado do corpo, ficou em Viena. Teria preferido que, em vez do resto do corpo, tivesse sido levado para Paris o coração, pois ele sempre fora, secretamente, francês.

Nasci rei de Roma. Por alguns dias, na infância, fui oficialmente imperador dos Franceses. Terminei como duque de Reichstadt. Na França, fui Napoleão II. Na Áustria, chamaram-me Franz — nome de meu avô, imperador da Áustria.

Na vida, todos terminamos perdendo. Os exílios em Santa Helena e em Viena pouco importavam. Eram apenas castigos físicos. O grave é o degredo emocional. Todos somos exilados de nós mesmos, tendo de sobreviver afastados de nossas aspirações, nossos sonhos, nossas ambições.

Com minha morte, tão jovem, eu criava minha própria lenda, menos grandiosa do que a de meu pai, mas romântica e inesquecível. Victor Hugo e Edmond Rostand celebraram minha vida e meu estranho destino. Impedido de dominar o mundo, entrei na mente dos homens. Como acontecera com meu pai, o exílio e a morte consolidaram meu mito.

Mortos, realizamos nossos sonhos e vencemos o degredo.

Ary Quintella é diplomata. Embaixador na Malásia. Publica seus ensaios em aryquintella.com

dormente, de Carla Guerson

Levanto os olhos e ele ainda está aqui. Parece estar dormindo. Minha perna debaixo da dele está dormente. Tento puxar, devagar, a dor da perna tentando despertar. A dor de quem acorda de um sonho ruim, todo o corpo teimando em não corresponder.

As memórias da noite ainda estão frescas na mente de quem não dormiu. Esperava que os primeiros raios de sol apagassem o que eu não soube assimilar. Os gritos presos na garganta, as lágrimas soltas no travesseiro, o sêmen derramado no lençol. O pulso arroxeado, o não dito repetido, repetido, repetido.

Com dificuldade, me levanto, a mente ainda embaçada pelo vinho, que volta à garganta, parece não querer ficar dentro do meu corpo. Eu também não quero ficar dentro do meu corpo.

Para onde ir?, pergunto à perna, ela não responde. A dor dilacerante que não me deixa esquecer por um segundo tudo o que havia acontecido. Do lado de fora do quarto, a vida acontece como se esquecesse. Um barulho ensurdecedor.

Busco sentido na correspondência em cima da mesa da sala de jantar. Não encontro também em nenhuma parte da cozinha, na gaveta de talheres milimetricamente organizada, na estante de temperos que eu mandei fazer sob medida, como meu vestido de casamento, como a toalha para a mesa oval que sempre sonhei e demorei muito para encontrar, até que achei e agora está linda, quieta, ornando a sala de estar.

No quarto, o barulho me avisa sobre o homem deitado. O ronco do homem que dorme um sono sem sobressaltos, embalado pelos meus sonhos despedaçados. O homem com quem me casei, que me escolheu, me prometeu, o homem que se esqueceu de ter sido aquele por quem me apaixonei. O homem que me machucou. Me estuprou. Mais uma vez.

Da janela eu vejo os carros passando, naquela rua movimentada que um dia eu frequentei. Fecho a janela sem suportar a ideia de que o mundo pode continuar quando dentro de mim tudo está dormente.

A perna chama, quer acordar. Eu prefiro que não. Sento na mesa da cozinha, de costas para o relógio de parede que insiste em se movimentar. Tento respirar o mais devagar possível, para que o ar deslocado não atrapalhe esse equilíbrio complexo que a inércia é capaz de provocar.

Devia eu fugir? Ficar, discutir, confrontar, esquecer? Devia eu questionar, mais uma vez, quando foi que o sim virou não e quando foi que o não pareceu sim, e quando foi que sim ou não passaram a não fazer a menor diferença?

Se tudo o que restou é esse barulho que não me deixa escutar nada além. Se a pessoa que está ao meu lado não quer estar ao meu lado, quer estar em cima de mim e atrás de mim, não quer saber mais onde eu estou, só quer saber onde ele está, onde está ele, não, sim, não sim, agora, dentro, fora, onde está ele, ele, ele, ele, ele.

Até que não exista mais nós e só exista ele.

Não existe mais nós.

Não existo mais.

Qualquer mínima centelha e sei que tudo pode estourar.

Traço um plano. Respiro fundo. Penso em arrumar a cama, lavar os lençóis. Tirar esse cheiro das minhas narinas, da minha pele. Da minha alma. A perna não se move, o silêncio não se move, ainda não consigo fazer o barulho parar.

Digo para mim mesma, em voz alta, prefiro que tudo fique como está. No mesmo lugar.

Não há mais para onde ir. Eu só preciso esperar. E não acordar.

Carla Guerson é feminista, escritora, leitora compulsiva, uma apaixonada por narrativas. Escreve contos, poemas e crônicas, publica em revistas literárias e no seu perfil: https://carlaguerson.medium.com/

jimmy spring, de Juliana Garbayo dos Santos

A fila de formigas atravessa toda a varanda, passo o dedo entre elas, espalho o rastro que elas deixam. Catarina me ensinou, elas se orientam soltando um cheiro no chão. Mas essas formigas não se abalam com meu dedo atrapalhando o caminho, algumas carregam pedaços de folhas, vão apressadas pro formigueiro. Às vezes tento ajudar, tiro a folha dos seus ombros, deve ser tão pesada pra elas e pra mim é tão leve. Vai, formiga, continua andando, eu levo a folha pra você, não adianta, elas ficam confusas e saem da fila. Outras vezes sou menos boa, esmago uma com o dedo e observo as amigas se juntarem para carregá-la nas costas, como numa ambulância. Catarina diz que elas não estão se socorrendo, mas levando a formiga ferida pra virar comida. Não sei se acredito. Quando estou má, queimo algumas com o fósforo. Formo um montinho com seus corpos. Quando o monte fica grande que baste, levo para o quintal de trás e faço um enterro. Meu pai balançando na rede, para com isso, Luísa, olha que as amigas delas vêm à noite picar você. Ele sempre diz isso, mas nunca acontece. No jardim dos fundos cavo um buraco na terra com o palito de picolé, enterro as formigas queimadas, boto uma flor por cima, me ajoelho e rezo pelas suas almas. Depois o vento carrega a flor e nunca mais sei onde elas estão enterradas, depois a noite chega e na hora de dormir sinto um breve medo de as outras formigas virem me picar, mas logo esqueço e adormeço entre as mãos de Vick Vaporub do meu pai nas minhas costas e as risadas da Catarina ao telefone. Desde que arrumou um namorado ela fica horas rindo ao telefone, às vezes quero saber o porquê de tantos risos, mas enquanto ela ri meu pai massageia Vick no meu peito e isso é mais gostoso do que rir com a Catarina. Minha irmã mais velha, minha única irmã, bonita, grande, mais forte do que eu. Quando ela sai mexo no seu armário, experimento seus cremes e tento andar de skate segurando na borda da cama, mas sempre caio no chão. Catarina me dá dicas importantes da parte do mundo que ela conhece e eu não, no caderninho anoto tudo o que ela diz, desde quando minha letra não passava de garranchos com erres e jotas invertidos e carinhas desenhadas nos os. Tudo que minha irmã me diz e acho útil pra vida, anoto: “nunca atenda o telefone na primeira chamada”, “para iluminar a pele passe leite com mel no rosto e deixe por dez minutos”, “o mar cura as feridas porque tem iodo”, “nunca mostre medo na frente de um cachorro, eles farejam o medo”, “ande olhando para o alto, só os losers andam olhando pro chão”. Loser, uma das palavras preferidas da minha irmã, antes de entender o que era, eu já sabia que não queria ser uma, por isso andava sempre olhando pras nuvens e pras copas das árvores, mesmo com medo de pisar em algum buraco ou em cocô de cachorro. Por isso quem achou o Jimmy caído no chão foi a empregada e não eu, íamos voltando do mercado e passei reto pelo pato quase morto no chão, mas a Cida viu e chamou: olha, Luísa, um patinho! Nossas cabeças se juntaram para olhá-lo de perto: um filhote de pato pequeno, azulado, tremendo, de olhos fechados, caído na grama. Ele tá com frio, Cida!, aninhei o pato nas mãos em concha e enfiei no bolso do casaco, vou cuidar de você, vou te esquentar, rápido, Cida, vamos pra casa, ele tá com frio.

Chegar com o pato em casa foi um rebuliço, meu pai dizia que devíamos ter deixado ele lá, que a mãe devia estar procurando o filhote, mas Cida disse que tinha olhado muito bem e que não tinha pato nenhum por lá, pelo contrário, tinha era umas gaivotas voando e esperando a hora de comê-lo, batizamos o patinho de Jimmy Spring e minha mãe arrumou uma caixa de sapatos e um abajur para mantê-lo aquecido. Quando o tirávamos da caixa, ele empurrava o chão com a perna direita, mas a esquerda quase não se mexia e ele acabava rodando em círculos. Tadinho, tem a perna paralisada, por isso a mãe o abandonou, diagnosticou Catarina, e começamos todos a pesquisar as causas de paralisia da pata nos patos, todos menos eu que ria do trocadilho e Cida que voltou à cozinha pra terminar o almoço. Foi acidente, é vírus, é defeito de nascimento, é falta de vitamina B, fui com meu pai comprar complexo B na farmácia e uma seringa para colocar água, comida e vitamina no bico de Jimmy, fomos na loja de animais, mas não tinham nada para patos, o dono sugeriu ração para pintos amolecida em água morna ou mingau ralinho de arroz.

Jimmy na caixa só queria ficar encolhido embaixo da luz acesa: não comeu, não bebeu água, só uma vez abriu os olhos para nos olhar. Estudou cada rosto com curiosidade e um traço de afeto, pareceu que ia se animar, mas deitou de novo na caixa e fechou os olhos. Respirava acelerado e, enquanto meu pai procurava um veterinário que atendesse patos, começou a jogar a cabeça para trás, esticar o pescoço e as pernas e ficar duro como uma pedra, ele tá tendo convulsão, explicou minha mãe, e segurou o Jimmy com firmeza para evitar que ele quebrasse o pescoço. Em pouco tempo não podíamos mais soltá-lo: as convulsões eram cada vez mais longas e menos espaçadas, até que no fim de uma delas minha mãe olhou para a gente e, ainda com as mãos fechadas em torno de Jimmy, anunciou: o coraçãozinho dele parou. Catarina e eu choramos, mas enquanto eu chorava de tristeza, as lágrimas dela saíam com raiva: por que, mãe, por que Deus fez a Cida achar o Jimmy se era pra ele morrer? Minha mãe sentou na cama e segurou suas duas mãos, depois a puxou para perto em um abraço e Catarina chorou mais ainda. Então minha mãe puxou a mim também e, com nós duas sentadas lado a lado na cama, nos olhou de um jeito estranho que era um misto de amor, pena e paciência: vai ver Deus fez isso pra ele não morrer sozinho e triste no frio. Já pensaram? Pelo menos ele morreu no quentinho, dentro da nossa casa, aqui na minha mão, no meio de todos nós. As palavras da minha mãe foram fazendo sentido aos poucos, conforme a tarde ia se arrastando e íamos repetindo uma pra outra que ele estava com frio caído na rua, que ele não ia sobreviver na natureza com uma perna paralisada, que as gaivotas iam comê-lo e que ele tinha passado sua curta vidinha feliz, aquecido e sendo amado. Decidimos enterrar seu corpo no jardim, mas ninguém queria colocá-lo direto na terra. Concordamos que ele precisava de um caixão ou, pelo menos, de um paninho. Uma caixa de celular foi do tamanho perfeito, forramos com minha meia felpuda de algodão, deitamos Jimmy na caixinha, tampamos e fomos todos para o quintal dos fundos. Meu pai cavou um buraco ao lado da amendoeira e enterramos Jimmy ali, mas dessa vez eu não quis ajoelhar nem rezar o pai-nosso. Olhe pro chão quando andar, às vezes ele esconde tesouros. Foi a primeira lição de minha própria autoria que escrevi no caderninho.

Juliana Garbayo dos Santos é médica psiquiatra e mestre em estudos editoriais. Natural do Rio de Janeiro, mora atualmente em Portugal. Contos publicados em antologias: “O último trem”, antologia Prêmio Vip de Literatura Edição 2018; “Duro de mudar”, antologia 8º Concurso Microcontos de Humor de Piracicaba; “Sabedoria”, antologia A face do medo, Concurso literário da Editora Folheando e “Pour Elise”, IV Concurso Bunkyo de Contos.

o trovador de Toledo, conto inédito de Rosângela Vieira Rocha

Descabelada, com roupa de casa, os pés enfiados em chinelos de borracha, ela desce o morro lentamente. A calçada é muito estreita e tem de se agarrar às paredes dos prédios, para não cair. O declive acentuado faz com que ande quase agachada. Mas não é só por causa do declive que se encolhe. Sente cólicas fortíssimas e sangra. As pontadas fortes provocam-lhe tonturas. Ou seria uma queda de pressão? Sua pressa a impedira de pegar o estetoscópio no armário. Justo ela, que mede a pressão arterial alheia o dia inteiro, como médica residente numa clínica.

Essa caminhada não rende, constata, com desgosto. Ainda faltam uns quatro ou cinco quarteirões. Sempre achou o hospital perto, e se vangloriava com os amigos de morar nas proximidades de um hospital público. Mas essa é uma noite diferente de todas as outras, a mais triste que já teve. Como pôde chegar a isso? Que decadência. Então, a mulher valente tem medo da mãe, em plena década de sessenta? Palavras duras ainda ressoam por todo o seu corpo: você me traiu, Adriana, com essa gravidez prematura. Não foi esse o trato que fizemos, quando prestou o vestibular. Eu me propus a ajudá-la a realizar o seu sonho, pagaria parte das mensalidades da faculdade, compraria aparelhos, e futuramente você auxiliaria a sua irmã menor. Mas agora, pondo no mundo uma criança antes de ter marido, como vai ajudar a Aninha? Que vergonha, engravidar sem ser casada. Você é uma traidora, não tem palavra, não levou o nosso trato a sério. Solteira e grávida, que horror. Não criei filha para fazer esse papelão. O que vou dizer à sua avó, às tias, à família toda? Que minha filha mais velha não tem vergonha na cara? Mas eu não vou me vingar, quem vai se vingar por mim é Deus, não vou precisar levantar um dedo. Sabe como? Você nunca, mas nunca, nunca será feliz.

Um forte arrepio toma-lhe o corpo. Sente frio, o tecido do seu vestido caseiro é muito leve, e venta. Ouve ruído de trovões, enquanto vai se arrastando, ladeira abaixo. O sangue escorre pelas pernas, não pegou nem sequer um absorvente, tal a pressa com que saiu de casa. Há quantos dias tinha ocorrido aquela conversa? Uma semana, talvez? Não consegue se lembrar, tenta fazer contas, mas as agulhadas fortes não a deixam pensar direito. É uma hemorragia, agora há sangue ao redor de si, vai deixando um rastro vermelho pelo caminho. Ainda bem que está muito escuro, é tarde e não há mais gente na rua.

Ao dobrar a esquina, percebe haver uma festa no enorme casarão cor-de-rosa. Felizmente as árvores de acácias, carregadas de flores amarelas, a tornam invisível. É uma comemoração ao ar livre, que parece muito animada. A música alta contrasta com o silêncio da rua. Reconhece a voz de Gilda Lopes, bonita e límpida:

Nas noites enluaradas
Na formosa Toledo
Alguém esconde em segredo
Um amor proibido.

Sente-se cada vez mais fraca e as dores fortes provocam-lhe enjoo. Decide contar os passos, para ocupar a mente com algo diferente das cólicas. Sabe que precisa de força, faltam ainda dois quarteirões para chegar. E se encontrar algum colega por lá? Tenta se lembrar se alguém da sua turma faz residência naquele hospital, mas não consegue. Sente mais frio ainda ao cogitar essa possibilidade. As arrogantes Marluce e Sara não trabalhavam ali? Não, agora estão na clínica São Guido, lembra-se. E o Zeca? Que bobagem, está fazendo confusão. Zeca é filho de gente rica, foi estudar na Europa. A simples lembrança de Zeca a faz vomitar ali mesmo. Foi apaixonada por ele no início do curso e rejeitada sob a alegação de que “tinha pernas finas demais”. Mal-educado e cruel, aquele bigodudo. Disse aquela frase completamente dispensável sem anestesia nem nada. Assim, de repente, no terceiro ou quarto encontro. Pernas finas demais! Não argumentou, de tão chocada. Foi a última vez que o viu, a partir daquilo não mais o enxergou. Tem essa propriedade, a de não ver mais quem a fere.

Resolve descansar um pouco sob um dos galhos de acácias. Preciso adquirir forças, tenho de continuar, sua mente grita. Mas o corpo, este deseja ficar esticado ali, coberto com o vestido ensanguentado. De repente, um casal sai da casa, caminhando até o carro. O homem está com uniforme da aeronáutica, cheio de comendas. Deve ser um brigadeiro. Se tivesse coragem, pediria uma carona até o hospital. Mas empapar a poltrona do carro dos outros de sangue? Responder a perguntas de um militar? De alguém de patente tão alta? E se acabar presa, como o filho de dona Gertrudes? Melhor ficar bem encolhida ali mesmo, até o homem dar a ré no Ford Galaxie branco e partir.

O trovador de Toledo
Pelas noites escuta
E toda gente pergunta
Qual será o segredo
De uma janela apagada,
De um balcão deserto.

Esforça-se mais um pouco. Agora, anda praticamente de gatinhas, sentindo enorme fraqueza. Devo ter perdido sangue demais. Certamente vou precisar de transfusão, raciocina. Grossas gotas de chuva começam a cair. Era só o que faltava para piorar as coisas. Se o chão ficar escorregadio, talvez seja melhor tirar as sandálias de dedo. É provável que machuque os pés, nas pedras irregulares da calçada. Mas ainda assim é melhor que uma queda, decide. Em poucos minutos a chuva se transforma em tempestade. Mas agora falta apenas um quarteirão.

Tenta pensar num show de Gilda Lopes, chamada a “Fabulosa”, a que assistiu certa vez. Tão bonita era a cantora, que não sabia se prestava atenção na voz belíssima ou na figura da moça. Sempre invejou quem consegue sustentar sons agudos, ela com sua voz grave e rouca. Mas Gilda é cantora de óperas, relembra. Tem uma técnica muito apurada e é soprano.

A chuva lavou o vestido ensanguentado, grudado ao corpo. Sente-se nua, assim descalça e mal coberta pelo pano fino. Uma residente do curso de Medicina, quem diria. E chegarei ao hospital como uma mendiga, molhada e descalça. Encontrarei alguém conhecido por lá? Um colega, um professor? Terei de preencher formulários, responder a perguntas. Como poderei provar que não provoquei isso? Será que minha palavra bastará? Avisarão à polícia? Tenta se lembrar do protocolo, já estudou os procedimentos em várias disciplinas, embora nunca tenha se interessado por ginecologia. Tudo que encontra é o branco, o vazio. Não se recorda de nenhuma vírgula do protocolo. Desde o início do curso sua paixão pela endocrinologia tinha sido tão forte que só pensava em hormônios. Como pode ter se esquecido de algo tão primário?

Continua a andar, agora ainda mais devagar, chapinhando na enxurrada. Chora. Esse sangue expulso de suas entranhas seria de um menino ou de uma menina? Que pena, o rosto, o corpinho, nunca se formarão. Ela não o queria realmente, mas jamais faria aquilo de caso pensado. Bebê, me perdoe. Não estou à sua altura, não soube lutar por sua vida, me deixei levar pelas circunstâncias, o medo me consumiu. Não pude retê-lo, meu corpo e minha mente o rejeitaram, eu não soube vencer o mundo. Sou fraca, meu bebê.

Já consegue avistar o imponente prédio branco. À medida que se aproxima, a voz da mãe vai aumentando de volume: você me traiu, não cumpriu o trato. Nunca será feliz. As palavras duras causaram feridas fundas, mas não a impedem de continuar o caminho. Posso até não ser feliz, fala alto. Mas daqui a pouco me farão uma curetagem, provavelmente passarei por transfusão de sangue, tomarei soro e ficarei internada pelo menos quarenta e oito horas. A felicidade é sempre transitória. Agora, a urgência é estancar a hemorragia, não ter infecção e permanecer viva. Vestir roupas enxutas, aquecer-me com um cobertor, sair da chuva e da escuridão, tomar antibióticos receitados corretamente e quem sabe um prato de sopa quente, quando puder.

Finalmente, chega ao grande portão do hospital e dirige-se ao pronto socorro. E logo é atendida por uma colega idosa, que não lhe faz muitas perguntas. Após a curetagem, a colocam numa cama limpíssima, na enfermaria. Antes de se render ao torpor provocado pelos medicamentos, pensa na mãe e em sua maldição. Sabe que até as pragas das mães têm limites, não valem para sempre, e não é por serem nossas mães que se transformam em pitonisas. Adormece ao som da voz de Gilda Lopes:

E uma janela apagada
é o que restou, mais nada,
dentre as lembranças que a noite
consigo guardou um dia.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente (Editora Arribaçã, 2020). Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.