menina na pedra

O calor, o calor, o calor… Sensação térmica de 47 graus e o termômetro no poste mente dez a menos.

Pessoas com rostos deformados, esgares, testas franzidas. Canícula de deserto. Quem ousava sair de casa assim, ao meio dia, refugiava-se nas poças mais frescas sob as copas das árvores, parava um pouco, ofegante, e mergulhava até a próxima sombra,projeção rendada de amendoeira onde retomava o fôlego. Duro enfrentar o asfalto derretido que os aguardava, rostos já alaranjados pelo lança-chamas do sol.

Dobrou a esquina.

Ali naquele muro de pedra fora imprensada. Homem enorme, enfiando ásperas mãos por baixo da saia azul marinho do uniforme, pois ela vinha do colégio, a correr. De nada adiantou gritar bem alto para a rua vazia.

Mesmo agora, trinta anos depois, quando vira a esquina seu coração dispara.

As costas doem por causa das pedras pontudas que rasgaram sua blusa de um azul mais claro que a saia.

Ali. Era ali.

Chegou pero desafiando o calor, o horror, o bafo de forno crematório e viu, no muro, a figura impressa dela mesma, aquela menina magra, treze anos de idade e seu pavor, parada no tempo como uma fotografia: olhos esbugalhados, cabelos de hera a escalar parede acima, ar de susto, boca traçada no oco das pedras, lábios rebordados pelo exército de formigas em fileiras.

A moça que vinha na direção contrária tocou em seu ombro:

— A senhora se machucou. Há sangue em suas costas. A blusa chegou a rasgar.

O tom da voz mostrava mais preocupação com o estrago na roupa do que com seu destino de criança-impressa para sempre naquele muro antigo, como as crianças de Hiroshima após a bomba.

| do livro Vida Louca (Chiado Editora, 2017) | o lançamento é amanhã, dia 12 de dezembro, às 19h, na Casa de Pedra, Rua Redentor, 64, em Ipanema-RJ. |

Regina Taccola tem 77 anos, é médica, psicanalista e escritora. Autora do livro Uma tarde embalada pelo mar (Editora Frutos, 2016) e Vida Louca (Chiado Editora, 2017).

vampira debaixo do sol

Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava preste a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.

Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pelos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos sêmens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.

O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.

* Vontade de Poder

Vinícius Canhoto é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo e autor de Livro do Esquecimento.

três contos

1.
Eu sou o que restou de todas aquelas inúteis tentativas de suicídio. Ainda posso sentir o cheiro da enfermaria daquele hospital psiquiátrico. No leito ao lado, um japonês com uma orelha partida ao meio matava o tempo com caça-palavras. Havia pilhas de caça-palavras na sua mesa de cabeceira. Eu me contentava em olhar para a janela. Não dava para fugir dali. No máximo, eu quebraria as duas pernas e amargaria mais alguns meses naquele maldito lugar. Eu não tinha tanta certeza se queria encarar novamente o mundo lá fora. Os loucos eram os mesmos, só que sem prescrição médica. Procurei algum pássaro na paisagem. Eu precisava sentir alguma presença não-humana naquele lugar insólito. Ver alguns vermes devorando um pedaço de carne podre já me ajudaria, mas só haviam moscas. Várias moscas circundando nossas cabeças. As moscas, testemunhas oculares de toda a nossa miséria. Estão conosco desde o dia em que Napoleão invadiu a Rússia. Ou desde o dia em que Jesus ofereceu a outra face. As moscas carregam em si todo o prognóstico de insanidade da raça humana. Elas sentem de longe o nosso cheiro de merda, por isso nos espreitam, chegam mais perto, pousam sobre nossa carne, esfregam suas patas e logo vão embora. Não passamos de mero objeto de uso e desuso para elas. Algo podre demais para tamanha proximidade.

2.
Quando completei dezoito anos, ganhei uma câmera filmadora do meu avô. Último lançamento do ano de 1996. O velho sabia do que eu gostava. Comecei filmando de forma amadora. Casamentos, festas de debutantes, aniversários, velórios e até orgias carnavalescas. Foi numa dessas que conheci o Lindomar, diretor de filmes pornôs de uma produtora local. Entre um chopp e outro, ele me contou que o seu antigo cinegrafista havia pedido demissão e entrado para a Assembleia de Deus. Me senti intimado. No outro dia haveria uma gravação com a famosa Raquel Blond, e ele me garantiu um bom pagamento. À tarde, estávamos todos no set de gravação. Inclusive o marido da Raquel, um office-boy que sempre largava o serviço para acompanhar o trabalho da sua esposa. A cena seria gravada com o Jair Madureira, ex-pedreiro que havia sido descoberto pelo Lindomar durante a reforma da sua casa de praia. Eu já dominava aquela câmera, e até ajudava Lindomar dando pitaco nas melhores posições e enquadramentos. A cena corria bem. Lindomar se empolgava. “Isso, é assim que eu quero: HARDCORE, PORRA!”. Até que algo saiu do lugar: um beijo de língua entre Jair e Raquel tirou o office-boy ciumento do sério. “Ô, Lindomar, beijo de língua já é demais, né? Tá de sacanagem!”. A porrada comeu solta no set de gravação. Jair armou um soco no office-boy, mas acabou acertando o olho esquerdo de Raquel. O office-boy não deixou barato: devolveu o soco no Jair, mas acabou acertando o meu queixo. Corpo para um lado, câmera para o outro. Maxilar deslocado. Câmera estilhaçada. Peguei a minha mochila, recolhi os restos mortais da câmera e me mandei daquele lugar. No caminho de casa, tirei a câmera da mochila e arremessei ela na primeira lata de lixo que encontrei pela frente. Olhei ao redor, e a cidade parecia uma grande betoneira traçando pessoas com seus sonhos fugazes. Dali em diante, eu faria questão de manter tudo perdido como sempre estivera.

3.
Conheci Danusa ainda na cadeia. Ela estava cumprindo pena por tráfico de drogas. Eu estava apenas desentupindo a fossa da ala prisional onde ela se encontrava. Uma bela argentina com os olhos mais azuis que eu já vira. Fumava de forma compulsiva. À cada novo cigarro que tirava de dentro do bolso de seu moletom, me pedia o isqueiro e um beijo seco. Certo dia, lhe concederam habeas corpus. Fomos direto para a minha quitinete. Trepadas ao relento. Ela pensava em voltar para La Plata. Eu pensava em dar um tiro na têmpora. Negamos nossa própria redenção. Não me contentaria em vê-la debruçada sobre a janela vendo o sol pratear o rio todas as manhãs enquanto as fossas do presídio feminino me esperavam transbordantes. Não demorou muito para ela ir embora, levando todo o meu dinheiro e quebrando tudo o que havia naquele minúsculo cubículo. Eu a entendi. O tal estado natural das coisas. Talvez ela soubesse que eu precisava me enxergar nos estilhaços do espelho espalhados sobre o chão da sala. Talvez ela soubesse que eu precisava daquele desencontro para alimentar todas as lembranças fugidias que viriam depois.

Giordano Andriola, potiguar, nascido em 1990. É autor do livro de contos Memórias Pútridas de um Voyeur Cego (Appaloosa Books, 2017).

o amigo vivo

A gilette de plástico laranja desliza com um movimento desgovernado e você meio que espera o sangue, algum tipo de vazamento, algum tipo de dor. Mesmo agora. O sangue não virá. Pressiona o gume contra o dedo, também sem efeito. Você segura com mais força a lâmina, deixa que ela arranhe a sua pele com o fio gélido, separando dela um tufo de barba preta e espessa. Os emaranhados pousam suaves sobre a pia de louça, desenhando linhas e pontos, entupindo o ralo do banheiro de Mousta. Você e Mousta se conhecem há alguns anos, e ele já te viu rezar de olhos fechados e ele já te viu se coçar e ele já te viu dormindo e desperto e comendo e e dançando e mijando e rindo e suando, tudo isso ele viu.

Agora Mousta não te vê, está sentado sobre a privada, olhos no piso. Você bate a gilette contra a pia, uma, duas, três vezes, não para descolar os fios que se abraçam à lâmina mas para forçá-lo a te encarar, quem sabe agora, protegido pela distância do espelho. Quem sabe agora, com você de costas, ele se anime a olhá-lo nos olhos, a ver o seu rosto-reflexo metade barbeado. Não. O tapete de ráfia no chão exige a total a atenção do seu amigo, corpo para frente em uma corcunda temporária. Ainda hoje ele estava falante, insistiu que você comesse também o pão dele pela manhã, distribuiu tapas nas costas e abraços, descreveu quase 20 das 72 virgens que estariam lá para te receber. Esta manhã. Então você volta a atenção para a sua própria imagem. Os olhos pretos seguem pretos, o nariz continua adunco como se um peso invisível o puxasse para baixo. Pálpebras inchadas e os lábios secos, cobertos de peles finas como papel vegetal. A máscara da barba vai perdendo volume e revelando um queixo anguloso que você já não conhecia, aqui uma pinta saltada com a qual você tomaria cuidado ao se barbear se este fosse outro dia, ali uma ruga ainda rasa que agora terá a chance se aprofundar.

Você fez tudo o que deveria. Não economizou no C4, os fios de cobre foram desencapados e testados com uma lâmpada. Funcionavam. Era uma lâmpada vermelha, pequena, com soquete cheirando a plástico, daquelas chinesas que os cristãos colocam para decorar árvores no nascimento do seu profeta. Daquelas bem vagabundas. Mousta a comprou na loja do senhor japonês, junto com o alicate, fita adesiva e um canudo colorido que faz o líquido dar muitas voltas antes de chegar na boca. Tinha rido e soprado bolhas por ele. O canudo não era para a bomba, apenas uma das bobagens que Mousta às vezes gostava de comprar. O bigode agora diminui, fatia por fatia, com a passagem da gilette. Há uma dobra sobre o seu lábio superior de covarde. O que as virgens pensariam dessa pele áspera, mais clara que as outras porções do rosto? Você passa os dedos úmidos pelo queixo e bochechas, em uma mímica do que seriam os gestos delas, das garotas que nunca fizeram sexo e que Allah escolhera a dedo apenas para você. Será que se você se deitar com uma, ela é substituída por outra virgem? Ou após 72 vezes você teria que passar a eternidade sem virgem nenhuma — 72 mulheres normais? Será que elas ainda estão esperando? Você merece. Fez tudo direito, exceto sobreviver.

Mousta parece se sentir melhor e encontra os olhos do seu rosto-reflexo. Está desolado porque você não está morto. É um bom amigo. Queria ter conhecidos no paraíso, para abraçá-lo e estapear suas costas quando ele mesmo chegasse. Uma vontade de se desculpar faz voltas no seu estômago, mas você não sabe pelo quê. Você fez tudo direito. O colete foi preso com muita fita adesiva. Um suéter grosso e longo por cima, apesar do dia de sol. Os movimentos foram calculados para evitar o desencaixe dos fios ou o disparo antes do momento certo. A posição foi a combinada, sob uma árvore de tronco imenso, a sombra refrescando o suor que se acumulava no pescoço. Em frente à saída da escola judaica. Foi difícil segurar o sobressalto e o movimento do dedão quando o sinal tocou, o trinado de um implacável pássaro metálico.

Você fez uma prece enquanto esperava que as crianças se acumulassem na calçada, numa sobreposição de mochilas e mãos segurando latas de coca-cola. Judeus são os mesmos em toda a parte. São ainda mais judeus fora de Israel, vagando sem pátria como merecem. Mesmo daqui, desse lugar distante, em um bairro de nome Jardins, em um país de nome Brasil, você pode sujar as mãos com os serviços de Allah. Sim, porque eles estão aqui e você também. Vocês trouxeram as fronteiras consigo. Você estava pronto. Foi só depois de sentir o botão afundar sob o dedo que uma vontade de viver ofuscante tomou a sua mente. Explodindo junto com o calor e a luz e a falta de oxigênio que deve ter durado poucos segundos. Você fez tudo direito. A princípio os olhos viam só uma branquidão calcinada e, aos poucos, as cores voltaram a se infiltrar e cresceram até formar figuras de novo. Há mochilas de personagem e carros trincados e galhos de árvore e mãos avulsas em torno de latas de coca-cola e papel de caderno e vidro e tecido e carne de gente por todo o chão. Mousta não entendeu quando você voltou a pé, muitas horas mais tarde, pela tevezinha ele via a comoção e o seu rosto ampliado a partir das imagens de uma câmera de segurança de um posto de gasolina a uma quadra da escola. Você também não entende. Talvez Allah tenha trocado suas virgens pela vida que você desejou cegamente, sem querer. Talvez elas estejam a esperar pacientes pelo dia em que você morrerá de causas naturais. Ao ver que seu rosto está limpo, Mousta se aproxima com uma toalha e uma camisa e diz apenas Chega. Fora daqui.

Você sabe que deveria estar triste, e meio que espera uma pontada que nunca chega. Agora, nada pode te machucar.

Nathalie Lourenço é publicitária por profissão e paulistana por nascença. Nunca possuiu um pônei. Seu livro de estreia, Morri por Educação, foi finalista do concurso Maratona Literária e publicado pela Editora Oito e Meio. Teve contos publicados em revistas literárias como Blecaute!, Flaubert, Parênteses, Vacatussa, Philos, Subversa, Raimundo e outras. Escreve também crônicas em medium.com/@ridicula.

formigas… formigas…

Madrugada de sábado.

Fila de ambulâncias na porta do hospital.

A emergência fervilhava, grande desastre nas imediações.

A maca da penúltima vítima passou voando, mal tocava as rodinhas nos azulejos do corredor abalroado de colchões improvisados aguardando quem mais viesse. A vítima era um rapaz bonito, moreno, com a testa afundada pelo choque do carro com o poste. Cacos de vidro caíam do corpo tilintando no chão enquanto os enfermeiros gritavam: neurocirurgião, neurocirurgião! Era uma desabalada corrida contra a morte.

A equipe estava exausta. Não dera para sequer fazer aquele rodízio habitual, vocês dormem as primeiras duas horas, enquanto batalhamos, depois é a nossa vez de descansar.

Foi aí, do meio do caos, que chamaram Roberto para atender a mulher desmaiada.

Parecendo irritado e nitidamente aos frangalhos depois de tanta correria para suturar um, imobilizar outro, entrar e sair de cirurgias, Roberto largou a menina de cinco anos com o bracinho quebrado e correu até o leito onde a criatura babava.

Fez o procedimento padrão para esvaziar seu estômago do excesso de barbitúricos e, após a lavagem, colocou o soro na veia. Por fim, ela abriu uns olhos ressacados, sem sorrir. Muitíssimo aborrecida tentou levantar. Roberto explodiu:

— Da próxima vez, vê se não atrapalha! Toma formicida com guaraná! É tiro e queda!

Falou furioso, e virou-se, pois já o chamavam em outro leito.

A mulher fixou os olhos nas costas do médico que se afastava como quem cravasse um punhal: ódio puro.

Chegou ao leito da criança ensanguentada que uivava.

— Pediatria! Pediatria! Clamou enquanto apertava o torniquete na coxinha fina.

A estudante que o auxiliava estranhou o modo ríspido de Roberto com a pobre suicida frustrada. Afinal, ele deveria tê-la tratado com mais atenção, apesar de seu evidente cansaço. Fizera o juramento de Hipócrates, jamais causar dor, sempre aliviá-la.

Voltou, assim, constrangida, para a cama onde a haviam deixado, com esperança de reduzir o dano, dar um pouco de apoio à criatura, mas encontrou o leito vazio. Havia fugido. Escreveriam em sua ficha: alta à revelia, caso encerrado.

Uma semana depois, no mesmo horário, a mesma mulher deu entrada no hospital. Em coma irreversível.

— Doutor Roberto, dessa ela não sai, de formicida com guaraná ninguém escapa! O tom de voz do enfermeiro era quase sarcástico, como se parabenizasse o médico: “Viu? Você a matou! Que sucesso!”

A estudante ficou chocada. Roberto baqueou. Sentado na beira da cama, de onde retiravam o corpo já sem vida, cobriu o rosto com as mãos para que não o vissem chorar, mas os ombros subiam e desciam, denunciando os soluços.

Em seguida, tirou o jaleco e se foi.

Anos mais tarde, já formada, a moça que o auxiliava naqueles dias tormentosos, soube que Roberto abandonara a medicina.

Na época, sacou o dinheiro do Fundo de Garantia, juntou ao que havia guardado a vida toda e comprou um barranco no garimpo de Serra Pelada.

Achou muito ouro naquele formigueiro humano, ficou milionário, gastou tudo nos bordéis de quinta categoria, pegou sífilis e não se tratou.

A doença comeu parte de seu cérebro.

No final, só repetia como um refrão macabro:

— Formicida com guaraná! Tiro e queda! Formicida com guaraná! Tiro e queda!

Morreu jovem, ainda.

Trinta anos, na flor da idade.

Regina Taccola é médica, psicanalista e escritora. Autora do livro Uma tarde embalada pelo mar (contos, 2016). Seu conto “O Eunuco” sairá na Antologia de Cem Mulheres Latino-americanas, organizada por Sidney Rocha.

toda verdade será questionada

1. O pátio do supermercado está vazio naquela hora da manhã. Olha em volta. Manobra, estaciona, desliga o carro, respira fundo… Vira-se, pega no banco traseiro (debaixo de uma manta) uma espingarda de cano serrado… Aponta-a na direção do queixo (gesto que o obriga a inclinar a cabeça pra trás), fecha os olhos e… dispara. O silêncio que se segue indica que o socorro vai demorar.

2. Como a vida pode imitar a arte? Essa história já foi exposta em livro, artigos, possui verbete na Wikipédia e até li que o Steven Spielberg adquiriu os direitos de transpor para o cinema as desventuras do protagonista. O que não é de modo algum inapropriado. Afinal, precisamos de histórias exemplares, sempre. Ainda mais por conta do avanço de tantas pautas retrógradas, fascistas mesmo.

3. O doutor Milton Diamond, certo de que está pisando em terreno minado, recebe em seu consultório um repórter de famosa revista, determinado a, finalmente, expor os métodos praticados por seu colega, o famoso psicólogo John Money, professor da John Hopkins University de Baltimore. Tem diante de si, uma pasta: — São todas minhas anotações desde que comecei, a investigar, por conta própria, o tratamento que fora imposto aos gêmeos.

4. Um policial encontra um bilhete, que não deixa dúvida: o jovem suicida chamava-se David e tinha 38 anos de idade.

5. — Conheci-o em 1997 e desde então, escandalizado, cuidei de questionar a premissa apregoada pelo doutor Money de que nascemos neutros e que nossa identidade masculina ou feminina se dá exclusivamente em função da maneira como somos criados, o que quer dizer que é possível mudar a sexualidade de uma pessoa por meio de um “redirecionamento”.

6. Em estado de depressão profunda, a mãe depõe: — Após sua história se tornar pública, perdeu o emprego; sua boa esposa Jane, com quem vivera casado desde os 24 anos e fora um bom padrasto para os seus três filhos, o deixara; seu irmão Bruce, diagnosticado esquizofrênico, cometeu suicídio dois anos atrás… Ingeriu uma overdose de antidepressivos… Carregava uma profunda culpa por ter saído ileso da operação… Foram anos de frustração por ver o irmão sofrer… Meu marido tornou-se alcoólatra… Pobre David, vivera uma vida infeliz e desgraçada graças ao egoísmo de um médico oportunista, cheio de certezas e, sobretudo, cruel.

7. — Money nasceu numa família de rígidos preceitos protestantes e ficou conhecido como uma espécie de guru da sexualidade que preconizava comportamentos sexuais ousados. Defendia os casamentos “abertos”; estimulava o sexo grupal e bissexual, além de, em momentos mais extremados, tolerar o incesto e a pedofilia. O problema é que sua teoria, embora contasse com algum respaldo na comunidade científica, era controversa e os seus experimentos bastante antiéticos, diz o doutor Milton, ao acender o cachimbo. E após uma longa baforada, continua: — David se engajou numa luta em busca do sexo perdido. Fez várias cirurgias para fechar a vagina artificial, recompor a genitália masculina com a implantação de próteses de pênis e testículos, retirar os seios crescidos a base de estrogênios, além de iniciar tratamentos hormonais para masculinizar sua musculatura.

8. Num determinado dia do ano de 1965, o jovem casal de fazendeiros, Janet e John Reimer, assistem a um programa de televisão no qual doutor Money é entrevistado. Acreditam terem encontrado a solução para o problema do filho mutilado. David começa a servir de cobaia para a experimentação de uma teoria. O médico aconselha a família a educá-lo como se fosse uma menina. Sugere chamá-lo de Brenda. Os pais nunca devem mencionar o assunto daquela sexualidade artificial. Mas não demora muito até que a “menina” comece a reagir ao tratamento; odeia bonecas e brinquedos de meninas; rasga os vestidos constantemente… O medo dos pais de que “Brenda” descubra a verdade, só cresce com o tempo e os problemas começam a ficar cada vez mais sérios. Enquanto cresce, os efeitos hormonais começam a aparecer, e apesar do tratamento de “feminização”, David começa a desenvolver musculatura e estatura masculinas. Isso tudo desencadeia uma infância e adolescência cercada de chacota e crueldade por parte das crianças de sua escola. David jamais superaria aqueles anos. Muito menos aquela experiência traumática. Um dia o doutor Money chama o casal ao seu consultório e lhes diz que existe uma equipe de médicos que trabalham com crianças nascidas com genitália anormal e que acreditam que um pênis não pode ser substituído mas uma vagina funcional poderia ser construída cirurgicamente e que o mais provável era que o filho deles viesse a ter uma bem-sucedida maturação sexual como menina do que como menino. — A mudança de sexo será o melhor para David, afirma Money.

9. — Durante muito tempo o doutor Money relatou o caso como um experimento de desenvolvimento de gênero feminino bem-sucedido, usando-o para apoiar a mudança de sexo e a reconstrução cirurgia mesmo em casos sem variação de caracteres sexuais, prossegue o doutor Diamond. — Quando conheci David foi quando me dei conta de que o que o sexólogo realizava era, talvez, o experimento mais cruel da história da Psicologia. Nos relatos de David vemos o quanto ele submeteu os meninos à práticas degradantes. Mostrava fotos sexuais explícitas e teria feito as crianças encenarem posição de coito. David disse-me que era comum o doutor Money obrigá-lo a tirar a roupa e ficar de quatro para que seu irmão simulasse uma penetração por trás.

10. Os Reimer notam algo de errado na maneira com que suas crianças de seis meses urinam. Tratam de levá-los à clínica local. Ao serem examinados por um profissional, recebem um diagnóstico trivial — fimose. A recomendação é a que os gêmeos devem ser circuncidados. O médico é enfático ao afirmar que os benefícios ultrapassam os riscos e as vantagens estão na prevenção de infecções urinárias, doenças sexualmente transmissíveis e até câncer de pênis.

11. — Isto era uma prática comum… Tratar fimose com circuncisão? Surpreendeu-se o repórter. O doutor recolocou os óculos, remexeu na papelada e selecionou alguns recortes de jornais com artigos de eminentes profissionais.

12. — É bastante comum naquela região, norte dos Estados Unidos e Canadá. Existe até uma resolução da Academia Americana de Pediatria apoiando a prática. Dois meses depois, os médicos optaram por não operar um deles, cuja fimose havia desaparecido sem qualquer intervenção cirúrgica. Um urologista realizou a operação no pequeno David utilizando o método não-convencional de cauterização — uma agulha de eletro cauterização em vez de um bisturi para retirar o prepúcio do menino. O procedimento destruiu completamente o pênis do garoto. Posteriormente o órgão necrosou e, em seguida, se desprendeu do corpo. Como os procedimentos de cirurgia de reconstrução genital ainda eram prematuros, David ficou com poucas opções de ter seu pênis de volta. E aí começou o seu calvário.

Paulo Laurindo já foi ator, calculista e contador. Hoje pesquisa o mercado. Publica em www.certoscontosincertos.blogspot.com.

a trilogia da arte

1. é a lei

— Não vou!

— É para o seu bem, filho. Quero você curado.

— Não tô doente.

— Segundo a Lei, tá sim. Você vai.

— Eu fujo.

— Dá só uma olhada…

Pela fresta da janela ele viu: do lado de fora havia policiais, cães, viaturas, ambulâncias, bombeiros, vizinhos, católicos , evangélicos.

— Que palhaçada é essa?

— É a Lei, filho. Só queremos o seu bem.

* * *

Dez minutos depois o policial o deixou na sala de espera, algemado.

— Doutor — falou ele —, o rapaz chegou. Aqui está a chave.

— É seguro? — perguntou o psicólogo. — Corro algum risco?

— Acho que não, mas é bom não facilitar. Essa gente, sabe como é…

O psicólogo fechou a porta do consultório e ligou para o juiz.

— Tem certeza que isso é necessário, Excelência?

— É a Lei, doutor. Cumpra-se.

Com a chave na mão, o psicólogo se aproximou e retirou as algemas do rapaz.

— Pode ir.

— Não tô doente, doutor.

— Sei disso. Mas eles estão.

2. benditas sejam as pessoas de bem

Dois olhos vermelhos surgiram na escuridão; outros quatro apareceram logo em seguida. Quando o primeiro raio de sol atingiu a cidade, centenas de pares de olhos, vermelhíssimos, avançaram em direção à casa do pervertido.

O grupo de olhos vermelhos era bem heterogêneo: homens, mulheres, crianças espumando de pura raiva. A grande maioria vinha armada de paus, pedras, pistolas, estiletes. Sabiam todos que só o sangue poderia devolver a harmonia perdida.

— Invadimos ou esperamos ele sair? — perguntou uma mulher que tentava conter o avanço do seu cão.

— Devemos orar — disse o pastor, com a Bíblia já aberta nas mãos.

Todos os presentes baixaram os olhos vermelhos em sinal de respeito. A Palavra de Deus sempre oferece o conforto necessário em tempos difíceis.

— Benditos sejamos nós, as pessoas de bem! — gritou um jovem. — Vamos seguir os exemplos da Bíblia e punir com a Ira de Deus todos aqueles que desafiam a nossa santa harmonia!

Ao grupo, que já era grande, foram se juntando outros personagens: a polícia fortemente armada, deputados e senadores de ilibada reputação, banqueiros imaculados, juízes cobertos pelo imparcial manto negro da Justiça, repórteres e suas câmeras prontas para registrar a limpeza que se pretendia fazer.

Quando as chamas saltaram dos olhos vermelhos, as pessoas perceberam que aquele era o sinal que tanto esperavam: o pastor fechou a sua Bíblia e a atirou contra a janela da casa. A polícia arrombou a porta e abriu caminho para as pessoas de bem. Cinco minutos depois saíram todos, exaustos e felizes, cobertos de sangue e glória, a paz cintilando nos olhos que só mesmo os puros de corpo e espírito podem ostentar.

No interior da casa jazia o corpo do artista.

3. isto não é pacu

… e o homem então, todo cagado, foi procurar o responsável pelo quadro.

— Quem pintou isso? — perguntou, a merda caindo ao chão ao mesmo tempo em que o fedor subia.

A pintura, enorme, ocupava todo o centro da galeria: um grande rolo de papel higiênico hiper-realista com uma pequena legenda no rodapé:

Isto não é pacu

— Ele pintou — falou o público, apontando para um homem que bebericava, discreto, o seu drybloodine.

Largando bosta por todo o piso de mármore italiano, o indignado se aproximou do pintor. O fedor, é claro, chegou na frente.

— Como é que o senhor se atreve a pintar tamanha mentira? Papel higiênico não é assim!

— Não é papel higiênico, senhor. É apenas um quadro.

O público já não conseguia entender se aquilo fazia parte da exibição.

— A performance mais louca que já vi!

— Divertida.

— E fedorenta também!

O pintor, entre a surpresa e a indignação, se defendeu:

Isto não é pacu, senhor. É a minha obra-prima.

O indignado cagado se esmerdalhou ainda mais, carimbando o mármore com mais uma larga e irregular camada de bosta.

— Isso não é obra, nem prima. É apenas um insulto às sensibilidades, uma ofensa ao bom senso, um ataque estético.

O público ficou entusiasmado com a repentina confusão; selfies & flashes explodiram aqui e ali.

— O seu rolo de papel higiênico é uma fraude — continuou o cagado, mais cagado ainda. — Mas acredito que faria bom uso dele em meu banheiro. Quanto custa?

O pintor terminou o seu drybloodine e a conversa:

— Conforme se pode ler e observar, isto não é pacu.

O cagado deixou a galeria sob o riso pesado do público, plantando interrogações a cada pedaço de merda que se lhe escapava pelo rabo.

— O que ele quer dizer com isto não é pacu? — pensava o homem enquanto cagava e andava.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium. Vai lançar, em breve, o romance sem noção A Lua é um Grande Queijo Suspenso no Céu, pela Editora Penalux. [Facebook]