dois contos breves de Alessandra Barcelar

a sacola

A morte bateu na porta e a pequena Giovanna foi quem abriu.

“Onde está tua mãe?”, perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.

A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais.

“Siga-me”, disse a pequena Giovanna.

Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala.

“Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.

Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando no exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha.

“Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes.

“Mamãe, lê um livro pra mim?”

“Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.”

“Eu não me preocuparia com isso. Eu não acho que ele se levanta”, disse a garotinha antes de pegar um livro.

* * *

depois do fim

Elas se beijaram, e a lua não pode deixar de embrandecer-se um pouco.

Valquiria tirou a blusa com lentidão cerimonial, como se um movimento abrupto pudesse destruir o planeta. Um par de lábios pousou em seus seios, muito perto da alma, com uma delicadeza sobre-humana.

Os dedos de Valquiria viajaram para seu lugar favorito: as costas de Helena. Os lábios de ambas roçaram novamente, como o amor e a morte costumam fazer. Uma chuva tempestuosa e agradável desencadeou-se entre suas pernas.

Um homem olhou tudo de fora, com a testa beijando a janela. Não havia luxúria em seus olhos, nenhum desejo, havia lágrimas. Duas mulheres gozando dentro da cabana e uma delas era a esposa dele.

Ele subiu no cavalo, que relinchou quando sentiu o peso do cavaleiro e o de sua tristeza. Avançou ao longo da planície na direção da lua e um segundo cavalo saiu atrás dele. Este foi impulsionado pela morte, que o seguiu atraído pelo perfume de um coração partido.

Seu orgulho como homem era uma arma que não poderia ser usada neste caso. Sua pistola deveria ser usada em uma guerra entre homens, a revolução, à qual ele estava se dirigindo. Aquele par de mulheres era intocáveis: ele não podia matar sua esposa, muito menos… Sua própria irmã.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou contos em várias revistas literárias do Brasil, de Portugal e da Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos), Colaborou na coletânea Conte outra vez, um tributo a 30 anos da morte de Raul Seixas, que obteve grande repercussão na mídia. Atualmente organiza uma coletânea de contos sobre realismo mágico/fantástico com previsão de lançamento para 2020.

o feitiço, de Julie Dorrico

Conto do livro Eu sou macuxi e outras histórias, que a Editora Caos & Letras lançará dia 14 de dezembro [link].

A bisa sentou confortavelmente na sua cadeira de palha. A Ada já estava passando um chá de capim santo, ela já sabia que na boca da noite minha bisa se preparava para contar mais uma de suas histórias. Ada já se ajeitava também pra traduzir pra mim a história no mesmo tom da vó, como sempre fazia.

A Ada antes de chegar junto e se sentar perto de nós, mexeu na lenha do fogão de barro. Enquanto vovó contava sua história que depois seria nossa, o som dos toquinhos da madeira estalavam como se acompanhassem o enredo assustador que eu iria ouvir.

O fogo, atento, escutava a memória da bisa. As gentes-fumaça envolviam todos os aposentos da casa que, apesar de ter divisórias nos quartos, parecia uma grande e tradicional maloca. As gentes-fumaça criaram um cenário de suspense à história contada pela minha velha matriarca.

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A história a seguir aconteceu com a nossa família.

Um dia um homem tentou cortejar a mulher mais bonita da comunidade. Ela não quis. Ela amava seu marido. Não queria namorar na roça com outro homem, não.

O homem ficou tão ressentido que recorreu à prática da feitiçaria. Numa noite de lua cheia, esse macuxês foi na floresta e procurou lugares onde a gente-onça, onde a gente-cobra, onde a gente-anta haviam dormido.

Ao encontrar vestígios dos repousos, o macuxês deitou-se em cada um dos lugares para vestir a pele dessas gentes não humanas, que no passado eram conhecidos como animais ancestrais da primeira humanidade.

Depois de vestido tomou a forma da onça, da cobra e da anta, e desejou que a mulher adoecesse. Ofertou a stekaton dela, a sua alma, aos omá:kon, os espíritos-seres do mundo intermediário, que são caçadores das almas de homens e mulheres macuxi.

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Contam os antigos que eles aparecem sob a forma de animais de caça ou na forma de humanos com unhas e cabelos muito longos e falas inarticuladas. Eles ensinam aos macuxês lições de morte. Só quem pode resgatar as stekaton deles são os xamãs com ações terapêuticas bem ritualizadas: os piatzán são iniciados desde cedo nos ritos de cura.

Ao terminar o feitiço, o macuxês vestiu novamente sua pele de homem e desapareceu no bananal. Desapareceu na floresta e nunca mais ninguém ouviu falar dele.

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A mãe era ainda criança quando a vó ficou doente. Aos poucos ela foi ficando fraca, e a mãe não sabia o que era, mas sabia que a vó estava morrendo. Os médicos já tinham desistido dela, eles só sabiam curar o corpo. Não sabiam que a doença da vó era doença de espírito.

A mãe viu todo o feitiço agonizar os últimos dias da vó, que, com uma dor profunda, resistiu à morte, por alguns dias. O feitiço lançado na vó era aquele que ia quebrando seus ossos aos pouquinhos, quebrando o corpo todo, tirando toda força de querer viver nesse mundo.

As forças da vó se esvaíram e ela rapidamente ficou presa à cama, último reduto de sua vida. A essa altura ninguém podia tocar naquela mulher, jovem e enferma, os tios e a mãe já não podiam pedir damurida, nem pedir ajuda com a roça, nem com as lições da vida.A vó não faria mais panela de barro.

Não sabemos onde está a alma da vó, se ficou presa com os omá:kon, ou se descansa em paz. Sem xamãs corremos o risco de não sabermos para onde vão nossos ancestrais.

A mãe se despediu da vó com um beijo na cabeça, a cabeça era o único lugar que o feitiço não tinha chegado, os cabelos macuxi têm a força de Makunaima.

Quando a bisavó terminou de contar a história do feitiço, eu vi a saudade subir na sua garganta e marejar os seus olhos idosos. Ela olhou pro lado, talvez procurando a alma da vó, talvez só sentindo saudade da filha que tinha partido há muito tempo.

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A mãe me contou uma vez só, quando eu era criança, da despedida dela e da vó, de seu último beijo.

Mais tarde eu descobri que ali na região entre Roraima e Guiana, ali no que hoje é conhecido como fronteira entre Bonfim e Lethen, os feitiços são praticados com frequência, por isso é preciso sempre cantar e dançar pra mandar pra longe os espíritos ruins.

Já tarde da noite, as gentes-fumaça começaram a se retirar, assim como nós. Naquela noite eu vi a bisa sentir saudade da filha, lembrei da saudade longa que minha mãe sentia da sua, e eu senti saudade da minha, que estava nessa época nos afluentes do rio Madeira, bem longe de nós, como parece querer a vida.

O fogo aos poucos se despediu, deixando somente as cinzas no fogão de barro. A pouca luz que ele projetava se apagou, escurecendo de vez nossa maloca. Nós três nos recolhemos, e eu fui dormir pensando em todos os tipos de gentes não humanas, no que se transformavam durante a noite, quem eram e como se chamavam na língua de Makunaima.

Hoje, sinto saudades da bisa, que fez a passagem para o mundo dos ancestrais. De lá ela me espia, esperando o tempo certo de me encontrar em sonho e contar mais uma de suas histórias, insistindo pelo dia que também serei avó. Eu sempre acordo nessa parte do sonho. Toda colheita tem seu tempo.

Verdes verdes verdes

As pimentas dançam nos meus sonhos

Verdes vermelhas amarelas

Julie Dorrico nasceu nas terras da cachoeira pequena, mais conhecida como Guajará-Mirim. Mas foi às margens do Rio Madeira que cresceu ouvindo a mãe contar as memórias da família, dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas. Um dia atravessaram esse rio gigante e foram conhecer os parentes em Boa Vista, em Bonfim (RR) e em Lethen (Guiana). Essa travessia, feita ainda na infância, foi, por meio da sua bisavó, o seu encontro com Makunaima e com o povo macuxi. Escreveu esse livro, objeto usado por não indígenas para contar por muitos séculos nossas histórias, para ocupar esse lugar de autoria, tão caro aos sujeitos indígenas. Também é doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Saiba mais sobre a obra no [link].

projeção, de Fábio Mariano

Procurava o papel. O professor lhe escrevera dois dias antes, no corredor, quando visitou o cursinho para agradecer pelas provas difíceis. Apalpou os seis bolsos da bermuda até que o retirasse do meio do livro que levava. “Pegue o 4.82, desça na frente do Açougue do Massa e lá pegue o 1.19. Passa de vinte em vinte minutos. Para na frente do shopping.” Volte de táxi, adicionou verbalmente. Era talvez a oitava vez que olhava para os rabiscos a caneta. Guardou-os, deixou dinheiro no balcão da padaria e foi.

A entrevista fora rápida; o emprego, conseguido. Você vem aqui, bota o filme, aperta o botão, olha bem essa tabela aqui dos protocolos, sincroniza tudo direitinho. Não tem mais muito segredo com essa projeção digital, é só deixar o negócio rolando. Lembrava-se das palavras do gerente que atendia por um sobrenome de cabo da PM. Quando sair, apaga a luz. Se o pessoal começar a gritar, é porque tem alguma coisa errada. Essa salinha aqui tem luz e isolamento suficientes para você ficar estudando. O que é que você faz na faculdade, história? Ajuda. A gente projeta muita coisa legal, e vai que dá para fazer algum trabalho sobre um dos filmes daqui. É possível, sempre, claro. Só fica com o ouvido esperto, porque de vez em quando eles chiam. Aí é só me chamar e a gente dá uma cortesia e manda eles virem outro dia. Como não tem outro cinema decente na cidade, eles voltam. Reclamam, é verdade. Mas voltam.

O Açougue do Massa tinha cheiro de churrasquinho de gato feito com carne de cachorro. Ao lado dele, um sebo que estampava revistas pornô cobertas por tarjas pretas muito malfeitas. No ponto, dois homens esperavam para entrar e pregar a salvação das drogas vendendo uns cartõezinhos de palhaço, um terceiro tinha pipoca água refrigerante e bacon, e sete pessoas esperavam o urro das portas do seu número se abrindo. 3.24, 5.13, 2.76, 2.75, e ela pensava que tinha se passado sete minutos. Olhou para o papel mais uma vez, para se certificar do número 1.19, e ao pegar sentiu um roçar nas suas costas. Levou a mão até a caneta tinteiro que trazia no bolso esquerdo, mas era só uma mulher com uma bolsa na mão e uma criança na outra. O ponto ia se esvaziando, doze, treze, quinze minutos. Ele disse vinte, pensava, e eu preciso que dê certo nesse cinema. O cheiro dos cachorros assados se misturava com o dos ônibus, o da criança cagada do lado e o dos pacotes de salgadinho de bacon. Passa logo, passa logo. 1.19. O número fez a curva, se projetou, aumentou. Ao contrário do 4.82, aquele estava quase vazio, e ela se sentou rapidamente na única poltrona única. Não sabia se era pior virem de pé ou sentados ao seu lado, mas preferiu assim. Botava a mochila no colo e fim de papo. Faltava pouco. Respirou e olhou o ponto.

Agora é só passar com o chefe para acertar, moça. Boa sorte. O pessoal é gente fina aqui. Ele disse. A porta entreaberta, o cheiro do desodorante velho. Não era a primeira vez. O primeiro era simpático, legal. Agora, ela tinha que entrar. Pagar a kitnet, pagar a padaria, continuar estudando. Continuar indo embora. Foi recebida por K., que lhe pediu que sentasse e lhe explicou os ordenados. Registro, um pouco mais que o salário mínimo, tá? Não tem benefício quase, e o vale não dá para quase nada, mas já é um começo. Ela olhava, atônita, o contrato. Para não olhar a cara. Olhara desde o primeiro momento para a escrivaninha. Não ouvira a voz. Era bom, era só o necessário. Não podia colocar tudo a perder. Meu Deus, não coloca tudo a perder dessa vez. Levantou os olhos, e viu — e respirou — os seios de K.

Foi só quando o motorista desceu, gritando “uma coxinha”, que começou a sentir medo. Olhou fixamente pela janela, na direção do ponto, para não ver. Não sabia o que era pior, o ônibus lotado ou vazio. Contou os segundos. Não se atreveria a abrir, nem por um segundo, o livro. Não até que o ônibus estivesse em movimento, com as luzes acesas. De relance, teve a impressão de ver seu professor do cursinho passar em algum lugar. Impressão. Viu o motorista voltar, a boca suja com fiapos de frango, e fechar as portas. O abdome finalmente liberou a tensão. Olhou para fora, e então viu. Dois homens se acercavam da menina que, agora, sozinha, esperava no ponto. Tentou trocar olhares com ela. O ônibus seguiu.

O papel do professor era, ainda, um amuleto. Não pensou muito quando o colocou ao lado do aparelho projetor, nem quando, de propósito, retardou a projeção. A impressão que dava era de que o filme estava sendo carregado por streaming, e de que alguns momentos eram em câmera lenta. O público era basicamente masculino — embora houvesse mulheres — e era também basicamente chato. Começou a gritaria, que ela já conhecia há algumas semanas. Ouviu o gerente com nome de cabo da PM e também K. se mexendo em algum lugar, e começou a ouvir seus passos fortes. Era a única sessão daquele filme que parecia lotada, talvez porque fosse quarta-feira de cinzas. O ator acabara de ganhar o Oscar, e tinha acusações de abuso. Tinha que ser naquele filme, com aquele ator e naquela sessão. K. logo viria. Sentiu saudade do cinema de sua infância, o Kino. Riu, e precisou disfarçar o riso. Os espectadores eram todos muito impacientes. Logo começaram a se levantar. Agora, ela distribuía, com K. e o gerente, as cortesias. Mas os espectadores iam embora. Então, ela pegou seu papelzinho, seu amuleto. Com o número 1.19 grifado. “Minha cortesia, moça”, diz a voz, que ela não ouve. “A cortesia? Moça, a cortesia? Moça?” E então se vira. E então vê, no escuro, brava, a mocinha do ponto de ônibus.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP e é autor de O Gelo dos Destróieres (contos, 2018) e Habsburgo (novela, 2019).

táxi, de Myriam Campello

Sem desmerecer: se a senhora não está bem imagina eu, casado há cinco anos com mulher que mal vejo, li numa revista que após três anos há sempre uma sacudidela, casamento e torradeira falham, parece que não gostam de sossego

Não sei como se desenrola sua vida (é resfriado não? Ou dengue chicungunha mosquito faz estrago tá com febre?)

dois filhos pequenos

apaixonado

sei que cada um é cada qual, o que chove cá não chove lá e sou mais velho. A senhora acha que idade diferente pesa?

Repentino

a amizade dela com a vizinha da frente. Até gostei, sabe, às vezes chego tarde, achei bom que tivesse companhia

Quando voltei nem sinal de janta no fogão. Meia hora depois chegou nervosa e aprontou a comida em três minutos, puta dona de casa desculpe a expressão, não posso me queixar

A vizinha é até uma moça legal. Mas daí a largar tudo pra ficar de conversa, a casa revirada assim não é possível, ontem eu é que dei banho nas crianças

por que não?

botei na casa tudo que uma mulher pode querer churrasqueira piscininha as crianças se esbaldam Net pros filmes românticos, levo todo domingo no pagode (agora menos já que não faz questão, prefere ficar quieta e navegar no seu mundo — me trancando de fora)

atazanado

até queria a sua opinião

atormentado

Meu irmão fala que casamento desafina sozinho nem precisa ninguém, a coisa sai dos eixos perde o tom, ele toca na banda e entende de instrumentos, é assim mesmo, cara, não encana, dá um trato nela, faz vontades, não trabalha tanto e volta tudo ao normal. Venho fazendo isso há quatro meses, não mudou foi nada!

perdido

como é que pode essa transformação?

Não me trata mal mas distante, fechada em si nenhuma fresta. Olhar fixo sempre em outra coisa que está longe. Perguntei se deparava com fantasma: seu sorriso me cortou ao meio a tal ponto me pareceu disperso. Sorriu não para mim mas abraçando o que anda dentro dela

Cabeça de mulher a gente não entende, o problema de pedir opinião a homem é que ele vem com uma linha de montagem de patifarias, que é só no que pensam

Medo dos postes sim já que pouco durmo, então tome de café e coca-cola, a cada três horas à noite uma eu capoto, levanto como um vampiro enxovalhado, sem repouso nenhum
Sou mais velho quinze anos, ela costumava achar isso um tesão e fazia por onde. Fomos felizes até a gente se mudar para cá, “cuidado quando a casa ficar pronta” é um ditado chinês, será que tinta fresca atrai o que não deve? Seja lá o que for chinês é bicho sábio

Eu perguntei!
Que eu estava imaginando coisas: só cansada casa crianças muitos afazeres.
Eu é que sei.

Quis passar uns dias na casa da mãe, dei o dinheiro achando que podia melhorar. Voltou de Colatina mais enfiada nos próprios pensamentos. Quando pressinto que vai despejar revelação me afasto pra não ouvir, a coragem sobe e desce ribanceira de segunda a segunda. Terça quero saber mas na quarta deixo a noite me engolir, brinco com as crianças janto e pronto, hora da cama. Mesmo ruim a rotina está ali de sentinela reforçando os dias, a gente afunda nessa massa parda e vai vivendo, ninguém presta atenção o tempo todo. De longe tudo parece como antes. Deslizo junto com a vida mas sei que nada é o mesmo.

No outro dia me ligou que a vizinha tinha adoecido e precisava dela, ia ficar por lá naquela noite. Melhor passar mesmo mais tempo com a vizinha que sumir de vez, sei que não tem amigas, sente falta. E a senhora o que que está achando?

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

Tarzan, o filho do alfaiate, de Sergio Leo

Você pode ouvir a música de Noel Rosa na voz de Zeca Pagodinho em que este conto foi inspirado no [link].

Tudo começou porque nada começava: nem os pelos, nem centímetros a mais, nenhum dos sinais esperados de masculinidade amadurecia no corpo magro. Nos shorts apertados da época, onde amigos de praia exibiam uma virilidade distraída, era evidente, nele, a criancice sem volume.

Como um herói, superou por conta própria a inimizade do destino: um enchimento de meias grossas, enroladas, passou a ocupar, no short, o lugar em que falhavam os hormônios. Cedo, abdicou do futebol, por medo de que, em alguma jogada brusca, lhe caíssem os colhões postiços, de algodão e poliéster.

Deixou os esportes, mas aprendeu a inflar os pulmões, com roupas de tecidos grossos, e sustentar, com o fôlego, uma robustez que não tinha. Empinava-se, controlava a respiração e andava como um lorde atlético, confiante, até tagarela, parecia mais velho. Talvez pelo esforço de carregar uma idade que não era dele, sentia uma preguiça danada.

Horas na cama, em silêncio, lia muito, e debatia, com o travesseiro, planos ambiciosos para enfrentar a indiferença do mundo. Podia passar um ano sem se aproximar da praia, do outro lado do túnel, marulhando em Copacabana. E ambicionava, muito. Cobiçava as mulheres, principalmente.

Seguia com os olhos, pelas ruas do Centro, a vendedora da loja de roupas; a cobradora do ônibus 433, que parava na Praça XV; a executiva que atravessou a rua do Comércio, sem notá-lo, e entrou elegante no edifício da Bolsa de Valores; a moça da portaria no número 9 da rua Candelária. Imaginava como seria levar à praia a ruiva com que cruzou uma vez na rua Sete de Setembro ou a secretária vista rapidamente numa breve passagem pelo Instituto de Educação, costurava fantasias com as dezenas de meninas do Instituto…

Mas a alma cobiçosa de Clayton era sabotada pelo corpo: quando, afinal, pôde dispensar a meia-enchimento da infância, espinhas tomaram-lhe a pele.

Em toda a adolescência, experimentou cremes, banhos, dietas. Por pouco tempo, tentou, na academia, expulsar a acne com exercícios entre esteiras, roldanas e pesos de ferro.

Por pouquíssimo tempo. Um leve enjoo lhe feria o estômago ao pensar em ser visto com roupas de ginástica. Não tinha paciência para movimentos repetitivos.

“Não tenho saco”, dizia, muito à vontade com a metáfora, que, no passado, o perturbava.

De peito estufado sob um terno, camiseta, blusa de malha e camisa de brim, tinha ânimo de frequentar as gafieiras, onde, suando, exercitava pulmões e panturrilhas conduzindo as moças que se deixassem levar. Passou de garoto a homem frequentando, ereto e almofadado, botecos e certos lugares na Lapa. Descobriu que, em troca de modesta e merecida recompensa em dinheiro, havia quem não só aceitasse ser levada para dançar como também lhe vendesse — barato, até — noitadas amorosas. No escuro, demorava pouco em se livrar das roupas e meter-se entre lençóis, como um gato magro e libidinoso.

Não era negócio, era romance; fazia poesia às parceiras. “O vil metal atrai as joias mais fugidias, sabia?”

Algumas faziam careta.

Mais que a leitura e um vocabulário antigo, valia o dinheiro, que gastava fartamente com os prazeres a emagrecer ainda mais o corpo miúdo.

“Economia sempre acaba em porcaria”, dizia, o lábio fino e meio torto sorrindo com o sabor da frase roubada de outro boêmio.

Era mais procurado pelos agiotas que por mulheres interesseiras. Administrava o assédio como financista amador, xingando-os sempre pelas costas; na falta de dinheiro investia em preconceito: o credor que o perturbava era “o judeu”, “o turco”, às vezes até “o armênio” — ainda que o dinheiro cobrado tivesse origem em algum comerciante de traços asiáticos.

Com as namoradas, não discriminava; apaixonava-se, em várias formas e cores. Não dava exclusividade a nenhuma, sabia que também tinha limites nas exigências.

“Estou cismado com a Maria…”

“Mas… você acha que ela…??”

“Não acho nada, estou cada vez mais perdido.”

“E…?”

“E como dizia o outro, a paixão é dor para o crânio, não para o coração. Me passa a cerveja.”

Havia, sim, algumas paixões dolorosas. Mas, enxaqueca séria eram os agiotas que financiavam as bebidas, os amores e as apostas em jogos de azar.

“Salve Clayton, quanta saudade!”

“Mas, nos vimos anteontem, esqueceu?”

“Saudade daquele dinheiro que te emprestei; há quanto tempo não dá as caras!”

Piadas velhas, argumentos batidos, os cobradores não tinha originalidade; e ainda prometiam tragédia. Com cinco anos de trânsito pela Lapa, Clayton percebeu que já não podia mais afastar credores prometendo que pagaria quando pudesse, se a loteria permitisse, se a polícia quisesse — desculpa emprestada de outro dos sócios de bebida e gafieira, que devia ter roubado de alguém.

Precisava botar de lado seu instinto de nobreza (ou de parasita, não há muita diferença nesses comportamentos instintivos).

Resolveu buscar emprego. Não foi difícil encontrar um, quando desistiu de pedir aos conhecidos uma colocação em alguma empresa privada. As leituras que não serviam para conquistar mulheres lhe facilitaram boas notas em um concurso público.

Mas, empossado na engrenagem burocrática, o salário de técnico administrativo de nível médio foi insuficiente para pedir alforria aos agiotas, a quem estavam amarrados o sexo e outras alegrias. Confiava resolver esse problema. Só não sabia como.

“Sou pobre em dinheiro, mas rico em ideias”, repetia Clayton, um pouco para si mesmo. A frase, copiava do mesmo amigo de farra que lhe dera desculpas para nunca economizar, mas os meses que se seguiram foram pobres em resultados.

Malsucedido, ouvia, miserável e interessado, histórias de companheiros de boteco, sobre mulheres apaixonadas que, em vez de despesas, davam renda. Aparentemente, estava nos músculos vistosos dos fanfarrões o poder de atração masculina que não tinha.

Os exercícios respiratórios e os cuidados de vestuário, o desembaraço, a habilidade na gafieira, todos os ativos de seu patrimônio espiritual não valiam. O caso não era de fortaleza de caráter; era de robustez visível, pujante, tônus, hipertrofia, força física.

Contaminado estava por esse desejo de potência, quando, no Antiquário da Gema, a gafieira preferida, entre uma dose de cachaça e dois copos de cerveja, após um prato de linguiças, dançando com uma senhorinha robusta chamada Adelaide, mais conhecida como Marli, Clayton teve, finalmente, uma ideia de como livrar-se da angústia que passara a ser sua companheira de copo.

Era noite de quinta-feira, quando a densa resistência dos seios abundantes colados a seu peito angustiado lhe trouxe uma epifania. Não era a primeira vez que notava, ao dançar na gafieira, uma densidade um tanto artificial ao encostar seu tórax empinado nos peitos de alguém; mas, conversando com a companheira de dança, lembrou-se de que o artifício não era privilégio das mulheres.

“Doeu muito?”

“Doeu nada, bobo; te dão anestesia antes de fazer o implante”.

Era mentira, dores incômodas haviam perturbado alguns dias de pós-operatório; mas Marli achava deselegante revelar as dores e desconfortos comuns à vida das mulheres belas.

O fim de semana foi dedicado à intensa pesquisa sobre o tema, entre amigas e amigos da fauna boêmia. E, três quintas-feiras depois, Clayton viu-se na horizontal, em uma cama cirúrgica, o peito liso decorado com marcas tracejadas na extensão do músculo peitoral maior, num desenho com dezessete centímetros de distância entre o ponto mais baixo e o mais próximo do ombro.

O médico, recomendado após uma rodada de consultas à rede de relações formada por ele em tardes e noites de exploração da selva noturna do Rio de Janeiro, havia lhe mostrado já na sala de operação a bolsa de silicone almofadada, com quinze centímetros de extensão, que lhe seria incorporada, dando-lhe um volume de halterofilista amador.

“Esse troço não rasga?”, havia perguntado o paciente, apontando o singelo e maleável peito artificial.

“Não tem chance. Isso é material europeu”, tranquilizou o doutor, sopesando com a mão segura o volume translúcido e gelatinoso.

Amparado pela escuridão da anestesia exigida por ele, Clayton dormia quando o médico inseriu, nas marcas pontilhadas, a agulha grossa por onde injetou um líquido destinado a facilitar o trabalho de descolar seus músculos de sua cama óssea, para, entre carne e esqueleto, meter o pacote de silicone. Um corte seguro na axila abriu na pele de Clayton uma fenda avermelhada, uma boca sem dentes, de lábios finíssimos e gengivas amarelentas de gordura encaroçada, logo arregaçada para os lados por largas pinças metálicas e penetrada suavemente pelo cirurgião com uma espécie de tesoura de bico encurvado, os dedos enluvados de borracha e uma gaze enfiados também para separar cuidadosamente os tecidos, de forma a abrir um buraco por onde meter, em seguida, o acréscimo artificial nos peitos do herói.

O dedo enluvado do médico enfiou-se totalmente na cavidade mole e indefesa rompida no peito de Clayton, e se mexeu lá dentro, um volume móvel, visível e decidido sob a pele, testando os limites da incisão cirúrgica. Pelo buraco aberto, um outro instrumento, como uma colher de metal brilhante, completou a tarefa de descolar músculos e outros tecidos, lacerando Clayton como a um frango inerte em que se abrisse uma enorme ferida sem sangue.

De olhos fechados, rosto sereno, o herói não moveu uma fibra muscular no rosto enquanto, pela abertura criada, o médico lhe introduzia no corpo a prótese almofadada, de cor ligeiramente leitosa, apoiando o dedo indicador esquerdo para criar uma pequena dobra na bolsa de silicone, e usando o direito para conduzir o pacotinho espremido corpo adentro, empurrando o volume pela abertura estreita. Uma vez colocada sob o músculo, a mama artificial foi acomodada com uma precisa massagem das duas mãos do doutor por cima do peito de Clayton, até encaixar o material no lugar marcado.

Um bem definido peitoral de atleta passou a luzir onde antes havia o tórax de um frangote. Em menos de uma hora, o médico lavava as mãos, assoviando. Intervenções semelhantes deram a Clayton um abdômen definido, novos braços e antebraços de grande primata civilizado.

As primeiras semanas com o novo corpo foram dolorosas. Clayton teve de usar uma camiseta elástica e evitar movimentos amplos nos braços. Aprendeu a valorizar pequenos gestos. Demorou um pouco até passar o medo pânico de deslocar o novo complemento corporal, em algum movimento brusco.

De peito novo, ele foi à luta. Teve alguns sucessos amorosos, mas desidratou-se, pouco a pouco, a esperança de pagar a dívida contraída para a operação com dinheiro generoso das amantes, que não veio nas medidas das necessidades.

E, por elas, as necessidades, perdeu o controle. Acreditou ter a força que só existia nos olhares impressionados, das moças e dos turistas na praia que voltou a frequentar para exibir a boa forma.

Ameaçou briga, quis rasgar os contratos com os agiotas. Com o silicone, e o desespero das finanças em crise, viu implantada na alma uma ferocidade sobre-humana, que desconhecia.

Para surpresa até dele mesmo, cercado um dia por emissários violentos de um dos credores, ao sair de um bar que já ia fechar, em um canto mais escuro dos Arcos da Lapa, partiu de peito aberto para enfrentar os gorilas.

Aos gritos, bradava insultos, a face vermelha.

E veio aquele soco.

Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos Mentiras do Rio (Editora Record); publicou Ascensão e Queda do Império X, sobre o fiasco de Eike Batista (Editora Nova Fronteira), “Segundas Pessoas” (conto, e-galáxia) e contos nas revistas Pessoa, La Pecera e Flaubert. Foi curador da 3ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, e jurado do concurso de contos Machado de Assis (Sesc/DF); participou de duas exposições coletivas no Museu Nacional de Brasília. Trabalhou no Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Isto É Dinheiro e Isto É.

o buraco, de Luciana Pinsky

Passa por lá todos os dias. E todos os dias vê o bueiro. Inicialmente a tampa não encaixava direito. Sempre que algum carro cruzava a esquina o som metálico da dança da tampa a incomodava. Com o tempo, os carros evitavam o lugar, tornou-se um transtorno. Quando chovia, a tampa pulava e rios invadiam a pista, como cupim no fim da tarde quente de verão.

Depois da chuva só ficava a desgraceira. A sujeira. Atordoados, vizinhos colocavam cones para indicar que o lugar já não era rua, era breu, era o fim. Ainda assim, alguns carros metiam a roda; e o prejuízo em tempo, dinheiro e saúde mental era certo. Por sorte a tampa não foi roubada, destino de várias outras tampas de bueiro da cidade.

Um belo dia de sol o buraco estava fechado. A tampa não estava nem um milímetro para cá ou para lá. Milagre? No dia anterior, ela vira 13 homens uniformizados, 10 pás, um caminhão e uma máquina inédita. Tudo isso para domar o buraco que voltara. O buraco que sempre voltava. Alice, desconfiada, pediu para falar com o chefe.

— Vocês estão fechando o buraco?

— Sim.

— Tá feio, né?

— Sim.

Os 13 homens trabalharam por duas horas. O asfalto ficou brilhando, sem um buraquinho. O bueiro fechado. Mas Alice sabia que nem seria preciso esperar pelo verão. A chuva de outono já faria jorrar um rio, o rio levantaria a tampa, a tampa ficaria perigosa para todos que passam e o buraco retornaria.

— Mas alguém consertou o encanamento lá embaixo do bueiro, que faz com que ele transborde toda vez que chove um pouco mais?

— Nosso trabalho é fechar o buraco e é isso que vamos fazer. Com licença.

Rio, buraco, bueiro, asfalto arrumado, asfalto rompido… ah, Alice conhece tanto essa história. Tanto tempo fechando buraco para quê? De outra feita, ela vira, jogaram asfalto frio no buraco e ajeitaram com o tal rolo-compressor. Premido pelo rolo, o buraco ficou intimidado. Mas um mês depois já começava a se revelar, primeiro timidamente, depois em sua plenitude.

Ela também guarda um rio em sua alma, que não raro invade seu corpo. E ela fecha, sempre fecha. Com antibióticos, antidepressivos, anti-inflamatórios e mais tantos antis que achar na farmácia. E o buraco fecha, fica tudo bem, a chuva vem e.

— Mas, senhor, enquanto o encanamento que vai abaixo do bueiro não for consertado, você fecha hoje e na primeira chuva abre de novo.

— Olha, até pode ser. Mas isso é outro departamento. Nós cuidamos de fechar buraco.

Seu rio caudaloso começou com um lago tranquilo. As chuvas vieram sem avisar e as águas nunca mais foram calmas. Às vezes, represadas, mantinham-se na linha. O sol parecia um alento. Mas logo o céu cinzento fazia o rio explodir e a tampa do bueiro da alma ganhava os ares.

— Não seria melhor chamar alguém para consertar o problema das águas antes de mexer no buraco?

— Moça, o que você quer de mim? Não dá para deixar o buraco desse jeito, é perigoso, alguém pode cair.

Alice ainda testemunhou aquele buraco voltar algumas vezes. Na última, puseram uma cadeira dentro. Um senhor sentou e começou a ler um livro, como se estivesse na sala de casa. Tiraram foto, apareceu em rede social, em TV, em jornal.

Dois dias depois, dois homens estavam junto ao bueiro. Um entrou, o outro tratou de fornecer o que o primeiro pedia lá de dentro. Quando Alice passou novamente, na hora do almoço, eles estavam partindo.

— Vocês consertaram o vazamento?

— Sim, acho que fazia tempo que ninguém entrava aí.

Investigar os recônditos do corpo, descobrir o que transforma águas calmas em tsunami. Ah, como é difícil. Fazer isso em pleno ataque das águas é impossível. Alice esperou dias ensolarados e lá foi, escarafunchar a pele até encontrar em lugares que nem imaginava existir dentro de si os ventos que enfureciam as águas que abriam crateras que exigiam tantos antis. Falou com os ventos, pediu calma às águas, mas antes de fechar buraco deixou escorrerem bile, secreções, excrementos.

— Mas consertaram para sempre?

— Para sempre é muito tempo. Mas posso dizer que o problema que havia foi reparado. O bueiro fica em área de declive e quando chovia vinha tudo de uma vez, a força das águas era inclemente. Agora a água chegará de forma mais suave evitando novos danos.

Evitar novos danos. Por ora, bom demais.

Luciana Pinsky é, originalmente, jornalista, com passagem pela revista Época e pelo jornal Valor Econômico, entre outras publicações, e se enveredou para a ficção, especialmente para crônicas. Publicou um romance, Sujeito oculto e demais graças do amor (Editora Record). Atua, desde 2005, como editora de livros pela Contexto. E mantém seu blogue de textos ficcionais: http://lucianapinsky.blogspot.com/

caso esteja por aí, de Ivan Hegen

Dava um certo ódio quando meu pai falava, com a maior naturalidade, para mim e para meu irmão, Uma pena que vocês não tiveram mãe. Posso não me lembrar de nada, mas eu tive mãe. Por dois anos, que seja, mas a sensação permaneceu, um calor, uma reminiscência mais física do que mental, uma espécie de rede protetora colada à pele que levarei para o resto da minha vida. E nós temos os vídeos, posso ver e sentir que era uma mãe afetuosa. Meu irmão bem pequeno, no colo, ela cuidando dele como criatura frágil e preciosa recém-gerada, ou brincando comigo, me fazendo cócegas e soprando em meu ouvido para eu dar risada.

Eu tive uma mãe pura como ninguém mais teve. É um saco ela não ter me acompanhado, não ter me visto crescer. Por outro lado, não tive a chance de decepcioná-la, ela se foi cedo, ficou livre de testemunhar todos os meus erros. Também permaneci pura enquanto ela viveu. Deve ser por isso que ainda carrego uma inocência no olhar, que sofrimento algum consegue apagar de todo. Este meu olhar resiste às intempéries, resiste à minha própria degradação, algo que permanece irredutível aos acontecimentos. Ao menos uma pequena parte de mim não se deforma pelo que me ocorre, escapa ao alcance de tudo que se corrompe.

Também não gosto de ser vista como uma coitada por ser órfã, apesar de admitir, com uma infelicidade, que tudo se passou mais devagar para mim por não ter tido esse exemplo maternal enquanto crescia. Meu grande esforço não pôde deixar de ter sido esse, o de ser menos seca, menos fatalista, e descobrir praticamente sozinha como me afeiçoar ao mundo, como receber alguma ternura e me humanizar. Crescer só com o pai. Muito mais difícil para mim, entender a dinâmica adulta entre um homem e uma mulher sem acompanhar desde o lar o que é um casal.

Nos meus momentos mais sombrios, é inevitável, imagino que meu pai, de alguma maneira que nem sequer vou saber com muita precisão, deve ter adoecido minha mãe. Eu sei que é um exagero, mas ainda pior é pensar que o amor filial de minha parte e do meu irmão não a salvaram. Eu me culpo também, e é o tipo da coisa que nem adianta falar com ninguém, porque só vão dizer que é besteira minha — e, na verdade, é mesmo uma besteira sem tamanho. Um peso que me acomete de vez em quando, mas depois de me torturar um pouco eu respiro fundo e me aprumo, sabendo que é um masoquismo dos mais desaconselháveis. Quando assisto aos vídeos, a sensação que prevalece é a de que ela tinha amor de sobra por mim e pelo meu irmão. Pelo meu pai, não tenho certeza. A tia Clara diz que meu pai ficou enciumado quando ela passou a dar mais atenção para os filhos do que para ele. Dizem que isso é comum, o pai preterido, com dificuldade para se conformar em ficar para segundo plano. Vez em quando parece ter algo de mórbido no velho, que drena as energias de quem fica muito perto dele. Na verdade, o que me incomoda é ele falar muito pouco, quase nada, sobre a mãe, e eu nunca sei se é por a dor ser grande demais e jamais ter se fechado ou se porque ele já não tinha amor por ela nem quando estava viva, quando menos por uma esposa morta.

Este texto não se dirige a ninguém aqui da terra, mas pode ser que do além possam nos observar, que minha mãe esteja bem aqui, ao meu ombro, acompanhando cada palavra que aparece na tela do computador. Como é que vou saber, se não morri? O que não me convence é o Deus moralista, não consigo levar a sério a ideia de um Deus barbudo e onisciente que tem a manha de criar um universo inteiro e, depois dessa obra tão vasta e complexa, só se interessa pela mixaria de saber se você vai se casar virgem, se masturbar, falar palavrão ou beijar gente do mesmo sexo. Também tem gente que acha que Deus é bondoso, que ele tirou minha mãe de mim aos dois anos de idade porque escreve certo por linhas tortas. De linhas tortas já me bastam as que estou digitando agora. Ao menos tenho a humildade de dizer que não faço ideia do que acontece depois da morte. Acho desastrosa a prepotência dos que julgam que você vai para o inferno se não agir exatamente como querem, mas também acho o materialismo convicto uma posição acomodada. Quando foi que a ciência provou que não existe vida após a morte? Pode até ser que exista uma espécie de “Deus”, mas provavelmente muito diferente do que a imaginação humana concebeu até agora. Acho que exige maior caráter ser agnóstica do que ser ateia, porque a gente vive com a dúvida em aberto. Até o materialismo é uma certeza apaziguadora, porque põe tudo nos eixos, torna o mundo previsível e explicável.

Dito isto, eu me sinto bem ridícula falando diretamente para ela, mas lá vou eu. Mãe, desculpa por essas páginas confusas. Foi só pensar em você pra minha escrita ficar toda em ziguezague, indo e voltando, hesitante como eu sou quando não sei o que há a um palmo do meu nariz, seja em relação a esta vida ou à outra. Mãe, para mim você é principalmente um conceito, de bondade e de pureza, que eu carrego sempre dentro de mim, mas confesso que não penso em você tanto quanto deveria ou poderia. Se você de algum jeito me observa, já deve desconfiar disso, que eu sou inconstante, que eu sou volúvel, que eu erro muito. Eu gostaria que você tivesse ajudado a guiar meus passos, me aconselhado, me irritado um pouco, até mesmo brigado comigo. Você aí, no além… eu estou falando para você, mas é melhor ser franca e dizer que estou me dirigindo a você como uma hipótese.

No fim das contas, é preferível me considerar desgarrada de você, e eu também prefiro pensar que a culpa pelos meus atos é toda minha, que você não falhou como mãe. Triste que minha fé seja fraca e interesseira, que eu só me ponha a imaginar que você está ao meu lado me escutando nos meus momentos de desespero. Estou sem pistas, mal sei para que lado virar. Eu não tenho a menor ideia de como é a logística aí do além-túmulo, mas se puder me mandar algum sinal, se puder me ajudar a fazer minhas escolhas, aproveite agora, quando estou mais vulnerável do que meu normal, para me fazer prestar atenção. Nem depois de morta eu te dou descanso, não é, mãezinha? O mundo dos vivos é um caos, sorte sua não pertencer mais a isto aqui. A qualquer momento, portanto, um sinal. No fundo eu quero, eu quero muito, mudar, só não encontro forças, encorajamento. E eu queria, sim, a minha mãe, quem não quer?

Ivan Hegen nasceu em São Paulo, em 1980. Formou-se em Artes Plásticas e tem mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Publicou os livros A Grande Incógnita (Annablume, contos, 2005), Será (Ragnarok, romance, 2007), Puro Enquanto, (E Editorial, romance, 2009) e Rock Book — Contos da Era da Guitarra (org., Prumo, 2011), A Lâmina que Fere Chronos (Prumo, 2013) e Clarice Lispector e as Fronteiras da Linguagem (Benjamin, 2016), além de artigos para diversos sites e revistas sobre estética e política.