insana honestidade noturna, de Glória Tavares

Era muito tarde da noite. Vitória devia ter uns quatro ou cinco anos quando acordou com os gritos violentos de seu pai: “Meu irmão é honesto e o seu não é, minha mãe é honesta e a sua não é, meu pai é honesto e o seu não é, eu sou honesto e você não é e… e eu estou pensando em pegar meu facão e cortar o seu pescoço.” Esta última afirmação ameaçadora fez Vitória tremer de medo. O lençol parecia se mexer com seu tremor. Pânico. Pavor. Insegurança. Respiração ofegante.

É incrível o que um ser humano consegue guardar na memória desde os tempos de criança. Hoje com quarenta anos, ela não lembra o desfecho da noite, não lembra o que aconteceu depois, mas ela jamais esqueceu aqueles gritos noturnos e insanos rasgando violentamente o silêncio de seu sono infantil. Aqueles gritos que os vizinhos certamente ouviram. Sua mãe não havia perdido o pescoço, ainda estava viva até hoje. Seu pai já havia feito a passagem. Viveu bebendo, morreu de beber.

Um pai alcoólatra deixa de cumprir muitas promessas. Chega atrasado demais para levar os filhos aos aniversários, quebra a televisão preto e branco, quebra o rádio no corredor, destrata os amigos das crianças, expulsa visitas de casa. Mas uma promessa aquele pai certamente cumpriu quando disse que só deixaria de beber quando morresse. O casamento teve um fim décadas antes da partida de seu pai.

Vitória lembrava que sua mãe amava plantas, flores e mesmo não havendo nada de sofisticado em sua casa, as plantas estavam em todo lugar. Seu pai sóbrio cuidava das plantas quando não estava trabalhando. Certo dia, bêbado e vestido de fúria, pegou o facão vermelho e cortou todas as plantas de casa, do quintal e do jardim. Não, ele nunca havia cortado o pescoço de sua mãe. Porém, naquele dia havia definitivamente cortado o seu coração. Aquele facão vermelho que ele sóbrio usava para podar as plantas e deixá-las mais belas. Aquele facão vermelho que ele sóbrio usava para cortar cana. Havia plantação de cana perto do muro do quintal e era tão bom sentar na grama e chupar aquela cana. Era muito doce. Havia cana também nos jogos do Ceará no Castelão.

Nunca havia usado de violência física contra sua família. A violência era emocional, verbal. A violência física em si era contra coisas e plantas. Em casa de pai alcoólatra há sempre uma aflição no ar. As mãos estremecem ao botar a mesa, ao lavar a louça. Os olhos são tensos. Não se pode receber os amigos das crianças em casa, pois a qualquer momento, o pai pode chegar em condições vexaminosas. O pai sóbrio era amoroso e cômico. Pedia beijos e cheiros, contava piadas. A mãe aflita fazia sinal com os olhos para que Vitória o beijasse, mas isso jamais aconteceu. Várias noites, quando Vitória beijava sua mãe na cama antes de dormir, sua mãe pedia para que os beijos não fossem sonoros, pois assim o pai não ouviria e não ficaria triste porque a filha só beijava sua mãe. A mãe temia que fosse mais um motivo para brigas em momentos de álcool.

Um dia Vitória queria muito sair de casa para brincar na calçada e decidiu pular o muro para evitar o portão. Seu pai estava a beber na área que dava vista para o portão. Seu pai a avistou e indagou:

— Por que você pulou o muro?

— Porque eu quis, mentiu Vitória.

— Fale a verdade, pediu sua mãe.

— Porque eu quis, repetiu a filha em pânico.

E o pai saiu com um ar vitorioso olhando para sua mãe. O silêncio de seu pai claramente falava à sua mãe “ela pulou porque quis, não por minha causa, não por medo de mim.” Assim coexistiam os gritos, o silêncio, a aflição, o doce da cana e o medo. Uma família vivendo sobre uma areia movediça. A força daquela areia era o álcool. A mãe era uma espécie de árvore à beira da areia onde os quatro filhos se agarravam.

Há quem diga que o perdão e o esquecimento devem ser irmãos bem unidos. Há uma intrínseca relação entre perdoar e esquecer. Em inglês “forgive and forget”. Perdoe e esqueça. Naquela noite, dirigindo de volta para casa, Vitória se viu soterrada em fortes lembranças. Tantas memórias que estavam guardadas. Não vivia pensando nelas. Raramente escolhia pensar nelas. Era uma mulher alegre. Na maioria das vezes, fazia jus a seu nome. Mas as memórias estavam lá disponíveis para resgate. Atormentada por meteóricas lembranças familiares em intensas colisões com sua mente, concluiu que tinha que fazer um pedido a Deus. Era um pedido tão forte que talvez até ela tenha pensado alto ao fazê-lo. Disso ela não lembra. Mas é certo que ela falou com Deus em pensamento e disse: “Meu Deus, fazei com que o esquecimento não seja a única evidência válida do perdão”.

Glória Tavares é professora do Departamento de Estudos de Língua Inglesa, suas literaturas e tradução da Universidade Federal do Ceará, tem mestrado e doutorado em Letras — Inglês e Literatura Correspondente pela Universidade Federal de Santa Catarina. Durante o terceiro ano de doutorado foi pesquisadora visitante na Universidade de Auckland, Nova Zelândia. Amante da fotografia e da escrita, considera as duas como dois olhos de uma mesma face.

quimera, de Alessandra Barcelar

O céu de Miragem acinzentou depois da tarde. Um apagão! Um acontecimento não inventado, o deslumbre: uma revoada de ventos arranhavam os cabelos, quase todos crespos, e os corações, quase todos secos, da gente. Não sabíamos se era nervoso, se era um nevoeiro perdido, se era falta de costume ou vontade de começar logo a chuva, porque as agonias eram de criança e a fé era de quem tinha acabado de ver Deus. Já se tinha como prenúncio, o sumário, a demora de meses em que não se pingava nenhum molhado. Apenas neblina enganada. E nada, nadinha! Era o quase sertão de sempre e tinha que parecer sofrido e faziam parecer. Acreditávamos! O turrão era o tijolo no barranco, quase uma anemia de chão. Era pedra esfarelada na mão como se fosse farinha de beiju. Endureceu tanto que morreu como poeira. Convalesceu sem misericórdias, sem condescendência, sem um piu. E não era sozinho no velório. Tinham outros tantos moribundos: gados inteiros, alqueires inteiros e lembranças inteiras morridas assim ao léu. Tudo porque foi dito que com sertão não se brinca, mesmo que fosse um quase sertão. E que era sempre lugar de gente que urra, de labutas, de gentes crentes de fé e de castigo. E vinha na memória o cisco e as recordações de quando apanhávamos como malinos em recreios de rua, de depois de mainha gritar: corre pra dentro, peste! Um frio na barriga, quase de barrela. Ardia e pulsava dentro dando choques e brilhinhos. Era assim que senti quando escureceu o céu. E começaram os trovões. O som, do que estava pra armar no céu, fazia a gente querer sombrear a gente mesmo. Pra ver a festa, a esperança de ter um lajedo, mesmo que fosse só até perder o olhar. Esperávamos como santos ocos na certeza de festejos. Demorava derramar. E mais outro trovão. Depois da pintura de tons gris, os relâmpagos. Eram trocados. Primeiro um, depois o outro. Rasgavam a lonjura os raios. Era tão bonito de se ver, que dava uma sensação estranha de que tudo começaria de novo, e de novo. Invertido! E que se faria separação da luz e das trevas no primeiro dia ou seria novamente o ardido da explosão do início, dos elementos dos entendidos das letras. A mistura! Que algumas coisas estariam recomeçando, talvez os mesmo erros. E era isso que sentíamos. Sem a menor consideração pelos costumes. Era tudo rebeldia. A cada estrondo os bichos aquietavam. Era o silêncio. Só ouvimos o que tínhamos dentro de nós e era bem pouquinho. Uma ninharia. Era quase nada, igual a isso tudo ao redor. Juvenal tentava puxar sua tropa para os coxos; Dona Amélia, já octogenária, brincava feito filhote desmamado atrás dos vagalumes atordoados pelos mexidos dos matos; Bigode latia o desespero e a confusão das folhas que tufavam perto da cancela. Parecia final de ano, quando a gente sabia que amanhã seria sempre a mesma coisa, mas que hoje parecia só com hoje. O rebolado de dentro já fazia redemoinhos, já eram maremotos e salvem-se quem puder. Mas nem uma gota descia. As lamparinas já inflamavam a escurecida tarde mágica. Os baldes postos, as gamelas todas desemborcadas. Os meninos já estavam peladinhos para o banho, para as bicas. Corava a gente a esperança que engrandecia pequena e depois desmedida. E mais um rasgo do céu e outro trovão. Parelhavam! Num instante tive a impressão de que o chão tremeu apavorado com o suor que estava por vir. E veio ansioso o tardio. Pingou o primeiro caldo doce de Deus. Depois mais um, dois, três e a testa já lacrimejava. Não sabia se era de dentro o choro ou se era banhado. Caiu feito parido. De uma vez. Não era nem fria, nem de vez a água. Era sonhada. E os barulhos e os alumiares harmonizaram. Eram juntas e siamesas. E do derramado veio o sereno, a chuva acalmada que molhava os pés da gente, depois molhava os pés do chão e, ainda mais depois, os pés dos sorrisos parcos. Vó Luzia já tinha falado que iria ir sem ver arco-íris, mas se viu encantada ao ver que as cores dele nunca tinham morrido e eram iguais ao que era antes, quando menina. Ficou sentada na cadeira, cúmplice, bem na porta da rua, e só deixando os pés molhando debaixo da chuva. A quentura se foi tomando afrescos, se lavando, boiando para outra margem e aí veio aquela certeza de que tudo começaria de novo e de novo. Foi tudo rasteiro e o sol veio num estalo. Primeiro secou o caminho, depois a janela, e seguiu o varal até esturricar os matos, os pelos, a garganta e o sono, que veio suave, ralentando, estiando até parar no acostumado.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou em várias revistas literárias do Brasil e de Portugal. Colaborou com a Antologia Mitos Modernos I (no prelo), premiada com o Prêmio Le Blanc de Arte sequencial, Animação e Literatura Fantástica.

a patética história da loba faminta e banguela, de Ivana Arruda Leite

Cá estou eu de novo. O que fazer se meu faro sempre me leva ao encontro do que mais temo? Trago a morte nas veias por isso não adormeço nunca. Já não espero salvação. Mesmo assim, vivo perguntando às pessoas: está com você? Está no seu bolso? Mas no bolso as pessoas só carregam alfinetes e maus pressentimentos.

Na padaria da esquina bebo um gole de cerveja pra parecer interessante e distender nervos tão tensos, coração à beira do colapso.

As ruas do Sumaré são cheias de subidas e descidas e eu espero não escorregar dessa vez. A loba é velha mas ainda chega lá. É este o prédio? É este o número? Minha miopia sempre aumenta quando estou nervosa. Como é essa a rotina, eu vivo cega. Um mais um, na minha conta, acaba sempre dando um.

O porteiro do prédio, ao ver a garrafa de vinho na minha mão, faz um muxoxo e comenta: lá vem a loba atrás do chapeuzinho.

E se quando eu tocar a campainha, uma mulher loira e linda atender a porta? Ele não me falou se se casou nesse tempo em que não nos vimos. Só me deu o endereço e falou: aparece lá. Se tiver mulher, faço o gênero velha amiga, tomo um café e vou embora. Chega de roubar marido dos outros.

Mas não. Menino está sozinho e ainda tem as duas lindas covinhas e o mesmo charme; a cabeça, um guidão de moto virado de ladinho; sorriso XL/250. As pernas agora têm pinos de platina, menino está todo quebrado por dentro e fala sem parar. Eu escuto sem prestar a menor atenção. Ah, essas covinhas ainda vão me matar.

Entre nós, salvaram-se todos. Só falta aprender a viver sem tanta machucadura. Vou bebendo o vinho enquanto ouço uma história comprida de trás pra frente. Menino desmente tudo o que me disse um dia. Era tudo brincadeirinha de menino que gosta de pregar peça nos outros. Ontem eu era dez anos mais velha do que ele, hoje temos a mesma idade. O que foi que aconteceu? O que te fizeram, menino? Me diz onde eles moram que eu mando matar, prender, eu arrebento quem te trancou nesse apartamento. Foge, menino, vai embora.

Menino amou, desamou, adoeceu e agora quer sarar. Menino sofre. Faço o que posso. Pego menino no colo, canto canções de ninar, mas menino é arredio, escorrega, diz que é melhor deixar pra lá. “E quando você for embora, como vai ser?”, me pergunta já sofrendo por antecipação. Eu não vou embora, menino, eu gosto muito de você. Uma hora a vida fica boa de novo, acredite em mim. Mas menino não me ouve, menino só olha pra dentro. Um dia eu te conto histórias de arrepiar, mas menino não quer saber. Pra que falar?

Olha, menino, eu também tenho medo de escuro, me dá sua mão, me deixa ficar aqui, hoje, amanhã e depois de amanhã. Eu não vou te fazer mal nenhum, prometo. E ainda te trago um monte de presentes. O que você quer? Dez big macs com batata frita, um chá de hortelã, treze bolos floresta negra, Milão, Paris, Frankfurt? Diz que eu mando buscar, mas para de chorar, pelo amor de Nossa Senhora Mãe de Deus. Menino sente muita falta da mãe. No silêncio, menino escuta sempre os mesmos pensamentos que o deixam louco.

No dia seguinte eu acordo sozinha. Menino fugiu. Ficou bom, achou o rumo e voou pra longe. De lá me manda um cartão agradecendo os presentes, os passeios, a passagem, o curso em Milão. Valeu! Eu tinha razão, menino nasceu pra muito mais.

Ao me ver sentada na calçada entornando uma garrafa de vinho, o porteiro do prédio faz um muxoxo e comenta: pobre loba, nem devorar chapeuzinho sabe mais, deixou ele escapar de novo.

Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba (SP); é mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Publicou quatro livros de contos: Histórias da Mulher do Fim do Século, Falo de Mulher e Ao homem que não me quis (reunidos na antologia Contos Reunidos) e Cachorros. Publicou ainda uma novela, Eu te darei o céu — e outras promessas dos anos 60, e três romances: Hotel Novo Mundo, Alameda Santos e Breve passeio pela história do homem. É autora de livros infantis e infanto-juvenis. Está em todas as redes sociais.

o lirismo é o único Deus em quem acredito, de Diego Moraes

Eu compro a trigésima lata de cerveja e saio caminhando até o delírio parar de latejar. Gosto de sentir a brisa de Manaus lambendo meu rosto. Não tenho dinheiro para luxo. Não tenho grana pra viajar. Não tenho grana pra passar uma temporada no Texas. Não posso pagar um psiquiatra. Quem não tem grana para fazer análise, vai para o bar ou liga a televisão. Gosto de ver televisão. Gosto de um canal de vendas na tevê a cabo em que aparece o George Foreman vendendo churrasqueiras e um troço de fazer sanduíche. Se eu não tivesse entrado nessa furada de querer ser escritor, certamente seria um baita pugilista. Um boxeador fracassado cuspindo sangue num balde de alumínio encostado nas cordas de um ringue da terceira divisão dos pesos pesados. Minha mãe virou evangélica. Tem pregado versículos da Bíblia na geladeira e colou um adesivo na traseira do carro: “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Todo mundo é contra nós e a minha literatura é contra o mundo. Fico feliz por ela. Dia desses deu pra a ouvir orando de voz embargada. As paredes da minha casa são finas. “Que meu filho arrume uma mulher e seja feliz”. O lance é que não quero arrumar uma mulher. Não quero casar. Não quero filhos e conta conjunta no Itaú. Acostumei-me com a solidão. Não tenho pensado em comer ninguém. Meu pau balança mole faz alguns meses. Nunca pensei em arrumar um emprego na Volkswagen e casar com uma loirinha formada em propaganda e marketing. Tenho só pensado em poesia o dia inteiro. Tenho sonhado com literatura. Minha cabeça anda povoada de frases e parágrafos gritantes que poderiam fazer Dostoievski me rasgar de elogios. Puxo vinte reais do bolso e dou na mão do traficante. Ele diz que pareço com o Frejat só que mais gordo. A música dele (Frejat), que fala que um cara limparia os trilhos do metrô pelo amor de uma mulher, tenta atravessar a minha memória, mas não permito. Aí Cazuza tenta invadir cantando Vida Louca, mas apago. Deixo que a imagem da fotografia do Cazuza abraçado com Caio Fernando Abreu dure três segundos e pulo para o remake de Vício Frenético filmado pelo Herzog na cena que o Nicolas Cage tá chapado de heroína e vê camaleões cantando no meio de um acidente de trânsito. Eu curto pra caralho essa cena. É uma das minhas prediletas. Também curto aquele tchau do Anthony Hopkins no desfecho de O Silêncio dos Inocentes. Hannibal Lecter vira as costas num terno azul e crianças negras seguram balões coloridos no meio da rua. Aí sobem os créditos. Sinto vontade de cheirar pó. Entro num bar que não faz bem para minha alma. De derrotado já basta eu. Saco o olhar desdenhoso de um otário que não tem a terça parte da minha vivência. Ele se escora no balcão. “Você anda escrevendo muito. Quando sai o próximo livro?” Falo que não quero papo. Ele abre um sorriso cínico. Digo pra ele cair fora. Que estou querendo ficar na minha escutando Belchior na máquina jukebox. Ele fala algo sobre Bukowski. Diz que o velho era só um bêbado. Antes de ele falar outra merda, meu cotovelo acerta o seu nariz. Respingos de sangue mancham a camiseta branca dele dos Beatles. Todo jornalista tem uma camiseta branca dos Beatles. Chuto a cara dele. Conhecidos gritam pra eu parar, mas já venho aturando esse cara faz tempo. Faz tempo que ele atravessa meu caminho com um sorriso idiota fazendo perguntas embaraçadoras como se eu não fosse escritor ou imitasse o velho Buk. Entro num táxi e acordo na porta da minha casa. Acendo um Derby na varanda e começo a rir. Minha gargalhada acorda os cães da vizinhança. Deito na minha rede e ligo a televisão. Edir Macedo fala que temos que dar para receber. O lirismo é o único Deus em quem acredito.

Diego Moraes é poeta e contista. Tem sete livros publicados. Alguns dizem que ele é uma das melhores novidades surgidas em nossa literatura nos últimos anos. Os inimigos discordam, é claro.

onde devem estar os gritos, de Cinthia Kriemler

Sempre guardou segredos. Aprendeu a ser silêncios desde pequena. A ser apenas gritos internos. Quantos anos tinha? Quatro, cinco? Memórias incertas. A babá se perfumando com os frascos caros da penteadeira da mãe. A babá ajeitando os cabelos no espelho oval do corredor. A babá encostando a língua na língua do moço que entregava as compras. Aquele passear de mãos pelo corpo inteiro; por cima e por dentro do uniforme. Os apertões, os tapas. Gemidos de dor quase não gemidos. Entrecortados, semitonados. E o rosto contorcido, exausto. Coitadinha. Não gostava do moço que fazia a babá gemer. E estranhava aquela dor que não pedia socorro. Quis respostas. Perguntou. Arrependeu-se. Você quer que a babá vá embora? Quer? Você quer ver a babá chorar? Não queria. Calou-se. Descobriu que o nome desse não contar era segredo. E que calar era um jeito de não perder as pessoas. Gostou de ser segredos. Cresceu silêncios.

Além dos gemidos e gritos, aprendeu como escoar para dentro também os risos de deboche que recebia na escola. A limpar pacientemente a terra jogada nos cabelos longos pelas meninas no recreio. A encapar os livros duas vezes, para protegê-los melhor das poças d’água nas quais eram jogados uma, duas vezes por semana. Silêncios.

Quando ouviu as meninas falando sobre o príncipe encantado que chegaria no meio da noite para levá-las na garupa de um cavalo branco, pensou em lhes contar que não havia cavalo nenhum. Que o príncipe suado viria do quarto ao lado e se deitaria sobre elas e passearia as mãos sobre seu corpo e lhes cobriria a boca com a mão pesada, repetindo em seus ouvidos: minha princesinha, minha princesinha. Contar-lhes sobre a invasão negociada a promessas de brinquedos e viagens. Sobre a verdade impedida por manipulações traiçoeiras. Se mamãe souber vai ficar triste com você. Você quer que a mamãe vá embora? Quer fazer a mamãe chorar? Mas não disse nada. Ela guardava segredos.

Aprendeu como limpar o sangue escuro que saía do sexo pequeno sem gemer a agonia das feridas. As dores na barriga, os calafrios, a tontura. Tudo fluindo para dentro. Sem voz. Sem alarde. Até que os seios fartos e as ancas redondas lhe disseram que era tempo de basta. Criou coragem de mulher. Contou à mãe sobre as noites de princesa. Arrependeu-se. Mentirosa! Você quer que seu pai vá embora? Que ele me deixe sozinha? Quer? Você sempre teve ciúme do seu pai comigo. Cala essa boca e some daqui.

Descobriu que falar era um jeito de afastar as pessoas. As piores pessoas. Que falar tinha sabor de alívio. Transbordou. Vomitou segredos e silêncios. Jogou tudo para fora. Para fora, onde devem estar os gritos.

Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance. 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura deste ano; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos. 2015. Livro semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); Sob os escombros (Contos. 2014); Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). E do livro de contos Para enfim me deitar na minha alma (FAC-DF, 2010). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de várias antologias. Escreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em Mallarmargens, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos afins, Revista Philos, Revista InComunidade e na Gueto.

a namorada turca, de Nathalie Lourenço

Era uma grande declaração de amor, mas eu não tinha nada a ver com isso. A culpa era da internet, que transformou o mundo numa cidade pequena, daquelas com fanfarra e coreto, onde meu irmão podia arranjar uma Namorada Turca (turca de verdade, turca da Turquia) como quem se apaixona por uma garota de bandana no trem. Ele poderia entrar no parperfeito.com, ou beber umas a mais e beijar uma colega de trabalho ou cruzar olhares num bar com qualquer uma que morasse a um raio de 10 quilômetros. Não. Aquele querubim safado que a gente chama de cupido não liga a mínima para a praticidade. Flechou o pobre Jairo em um fórum de internet sobre miniaturas. O resultado é esse que vocês estão vendo. Eu, na ponte que cruza o estreito de Bósforo, com um ridículo embrulho de fita rosa e uma missão. Tudo porque nasci do mesmo útero que o último dos românticos.

Não foi por causa dele que escolhi a Turquia. Inclusive, se soubesse no que estava me metendo, teria evitado. Antes da cirurgia, quando a visão vai afunilando e você se dá conta que tudo pode ficar escuro para sempre, eu pensei em todas as coisas que eu ainda não tinha visto. Nessa lista apareceram coisas que eu nem suspeitava que minhas retinas pretendiam absorver, como girafas e cavernas e o nascer do sol visto de um balão. Os balões, de todas as cores, iluminados com luz suave da cor de laranjas foi a última coisa que imaginei antes da anestesia me puxar para sob a linha d’água. Na manhã seguinte, com a boca pastosa, constatei que permanecia viva e enxergava. Descobri que o passeio de balões ao amanhecer se fazia em Sorocaba e também na Capadócia, na Turquia. E eu já conhecia Sorocaba.

A viagem foi um presente para mim mesma, pela minha sobrevivência. É verdade que meu único mérito nisso tudo foi estar em dia com o plano de saúde. Ainda assim, realizei a grande façanha de não morrer, de deixarem instalar uma bateriazinha que fazia meu coração ribombar no ritmo certo e constante, sem fatigar, sem parar, sempre no ritmo, um coração de coelho Duracell. Saquei a grana da poupança e comprei a passagem, e, com o que sobrou, uma mala boa com rodinhas que não travam. Fui me lembrar da Namorada Turca só quando notei que meu irmão ficava com as pernas inquietas toda vez que eu mencionava a viagem. A desalmada jamais me visitou no hospital, nem mesmo por skype. Nunca cheguei a prestar muita atenção nas fotos que Jairo mostrava, e sempre me esquecia da cara dela poucos segundos depois. Acho que tinha cabelos pretos e lisos, bochechas redondas. Como se fosse muito turca, mas turca de um jeito que você poderia encontrar em Juiz de Fora. Não fiz nada por ela. Fiz por Jairo, que acordou sei lá quantas manhãs com o rosto vermelho e marcado depois de cada noite passada no sofá do hospital.

A missão de amor era a seguinte:

1. Levar a Istambul o pacote.

Não sei o que há dentro dele. Quando recebi já estava lindamente embrulhado com um papel prateado, arrematado com um cartão preso com quantias obscenas de durex. Torci que “surpresa romântica” não fosse código para meio quilo de coca. Um teste perfeito para meu Coelho Duracell recém-colocado: passar pelo raio-x e pela alfândega com um pacote suspeito metido na bagagem de mão. Mentalmente, me preparei para ser parada, farejada por cães, questionada em salinhas mal iluminadas em cantos desconhecidos do aeroporto. Em vez disso, o scanner soltou um apito muito débil quando passei, e então entreguei o papel do médico que alertava que eu não poderia tirar tudo que pudesse conter metais — o celular, os brincos, o cinto — e colocar na bandeja de plástico que eles ofereciam porque um desses metais era o meu coração. Depois disso o oficial foi muito gentil e até me deixaram subir primeiro no avião.

2. Deixar o pacote em um local público e dar a meu irmão sua localização exata.

A ideia era manter segredo sobre minha viagem. Jairo não queria avisar a Namorada Turca de que eu estaria em seu país, levando um presente para ela. Diria apenas para ela ir a tal local e procurar por um pacote assim e assim. E, quando ela perguntasse como o presente apareceu ali, ele diria apenas que era mágica ou destino. E então ela não teria escolha além de largar tudo e ir ao Brasil e se casar com ele e amá-lo para sempre. Algo assim.

Não fiz isso logo de cara. A Namorada Turca estaria em Istambul todos os dias. Peguei o transfer direto para o hotelzinho em Bekisҭas, que tinha chuveiro poderoso e um frigobar cheio de refrigerante. Depois de dois dias visitando palácios e bazares, de comprar chaveiros de olho turco para todos que conhecia nas lojinhas e pedir para estranhos tirarem minha foto na frente de mesquitas, mesmo sabendo que cortariam sem piedade o topo dos minaretes, resolvi enfim ceder aos apelos de Jairo, que todos os dias me mandava uma sequência de mensagens perguntando educadamente sobre a viagem, o que tinha visto, o que tinha comido, como estava o tempo, circulando sem pousar na pergunta que queria fazer: eu tinha afinal depositado o seu pacote numa esquina?

No dia seguinte, coloquei o pacote na mochila e vesti calças, apesar do calor que fazia o suor brotar na nuca, entre os seios e atrás dos joelhos. Não queria pegar emprestados os panos que eles ofereciam na entrada das mesquitas, já empapados no suor de turistas e mais turistas. A mesquita era lindíssima, maior que a catedral de Sorocaba e mais bonita também. Devia também ser fácil de limpar, com aqueles azulejos. Só passar um pano. Simpatizei ainda mais com os turcos e depois de pedir que tirassem uma foto minha na frente do ponto turístico decidi cumprir minha missão e cimentar a união de Jairo com sua Namorada Turca.

Peguei um táxi, que em turco se escreve de forma muito melhor. TAKSI. Apontei pra ele no guia o estreito de Bósforo. Achei que seria bonito deixar o pacote ali, metade na Europa, metade na Ásia. Naquele lugar que comunicava mares tão separados. Talvez aquele pacote estivesse me infectando com o romantismo de Jairo. Demoramos vinte minutos a mais do que o guia indicava, mas a vista era tão bonita que não me importei. Perto do ancoradouro havia um deque com bares e restaurantes, e pássaros marinhos aboletados em mourões. Mais pra frente, havia um canteiro de plantas e ali eu deixei o pacote de fita rosa, debaixo de um arbusto, e contei quantas árvores havia desde a água.

Já no hotel, enviei a localização por e-mail. Meu irmão me mandou um vídeo emocionado, agradecendo e dizendo que já tinha passado tudo para ela. Sorria tanto que era possível ver 22 dos seus dentes pela tela do celular. O canino estava um pouquinho amarelo e pensei que seria bom se ele os escovasse antes de encontrar a namorada pela webcam.

Na tarde seguinte, não resisti. Fui verificar se o pacote ainda estava lá. Umas folhas tinham caído sobre ele, e o papel estava quente de sol. O Coelho Duracell bateu mais fraquinho. Será que ela viria? A Namorada Turca trabalhava e ainda eram 16h. Sentei no restaurante em frente. Se ela viesse, ah, se ela viesse, eu poderia filmar com o celular a sua reação. Jairo ia ficar tão feliz. Talvez, ela até abrisse ali na hora, matando também a minha curiosidade sobre o que havia no diabo do pacote.

Pedi uma cerveja e uma porção de Mezze. Vieram azeitonas grandes como olhos e um patê que parecia feito de farelos, além de legumes curtidos e um grande pão redondo. Conforme a tarde se esvaía, mais vezes eu precisava erguer meus olhos do guia turístico. O cais era ponto de encontro de jovens, e eles desciam em rebanhos alegres de quatro ou cinco e se sentavam nos mourões para ver o dia acabar. Às vezes passava uma moça sozinha, de cabelos pretos, e eu pensava É Agora, Caralho. Mas não. Anoitecia tarde no verão e aos poucos os estudantes e os pássaros foram embora. Mastiguei um bom tempo a última azeitona, e depois chupei o caroço, adiando a hora de pedir a conta.

Quando o garçom trouxe a cadernetinha de couro com o recibo, ouvi o barulho das folhas se mexendo. Era a Namorada Turca! Joguei o dinheiro sem saber muito bem se o valor estava certo e corri até ela com o celular na mão, tentando desbloquear a tela e ativar câmera, enquanto tropeçava no escuro. Ela se virou, assustada, e a luz do flash pegou direto em seu rosto. Os lábios marcados, o cabelo de um preto profundo e cílios espessos como vassouras. Entendi só pessoalmente o que Jairo tinha entendido via câmeras toscas de velhos laptops. Não haviam turcas como aquela em Juiz de Fora. Não haviam mulheres como aquela em lugar nenhum. Me expliquei em um inglês gaguejado e ela me levou para sua casa e me deixou ficar ali.

Nunca descobri o que estava no pacote de Jairo.

Mesmo hoje, ela ainda o guarda sem abrir, na cristaleira trancada a chave da nossa casa. Ela, minha Namorada Turca, gosta de dizer (e diz sempre que bebe demais) que o presente que ele tinha mandado era eu.

Nathalie Lourenço é publicitária por profissão e paulistana por nascença. Nunca possuiu um pônei. Seu livro de estreia, Morri por Educação, foi finalista do concurso Maratona Literária e publicado pela Editora Oito e Meio. Teve contos publicados em revistas literárias como Blecaute!, Flaubert, Parênteses, Vacatussa, Philos, Subversa, Raimundo e outras. Escreve também crônicas em medium.com/@ridicula.

capítulo do romance ‘O indizível sentido do amor’, de Rosângela Vieira Rocha

capa_vieiraSó quem perdeu alguém muito querido sabe da terrível aflição que é não ver mais a pessoa de uma hora para outra, como se tivesse sido tragada por um bueiro gigantesco, como se tivesse sido ocultada por um eclipse sem fim ou desaparecido do ar sem a nossa anuência, sem o nosso conhecimento e sem a nossa permissão.

E queremos respostas, ah, se queremos, queremos que nos prestem contas do que foi mesmo que ocorreu, desejamos de qualquer maneira que nos expliquem o porquê dessa falta que nada é capaz de preencher. E agora?, perguntamos. Como fica? Mesmo sabendo que é impossível, almejamos que o cosmos nos devolva o ser que se foi. Ou, na pior das hipóteses, que nos “pague uma indenização”, faça algo por nós a fim de apaziguar o nosso coração, retire as folhas de urtiga e a sensação de incompletude, refaça a teia esgarçada que antes fora um sofisticado conjunto de fios bem tramados e arrematados.

A cada manhã, a mesma pergunta: onde está ele? O que foi feito do seu riso, das suas maneiras contidas e bem-educadas, dos seus gestos finos, da sua racionalidade, da sua estabilidade, do seu bom senso, da sua cortesia? Como pode uma pessoa tão importante em nossa vida desaparecer assim, sem deixar rastros, e se transformar em alguém para quem não é mais possível telefonar, a quem não se pode recorrer, com quem é vedado conversar? De que maneira classificar essa não estrada, essa impotência, essa interdição absoluta?

Como não se trata de uma doença, cuja cura é gradativa, não existem medicamentos para o luto. Caracteriza-se, entre outros sintomas, pela ida e vinda de algo semelhante a uma lava vulcânica, uma emoção horrível que é também uma sensação física, pois dói e aperta o peito, e o enlutado pensa que vai morrer. O que se deseja nesse momento é ter o morto de volta a qualquer preço, tocá-lo de novo, colocá-lo sob nossos olhos, como uma criança que quer obter algo, mesmo sabendo que é impossível. Depois a lava acaba passando, até o surgimento da próxima.

| do romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017, p. 157-158). |

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem doze livros publicados, cinco para adultos e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais se destacam o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Lançou o romance O indizível sentido do amor em 2017. Participou de várias coletâneas de contos, entre as quais Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Além de escritora, é jornalista, mestre em Comunicação Social, advogada e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília — UnB. É colunista de revistas culturais e literárias digitais. Ministra oficinas de textos e de literatura, além de palestras.