fantasmas, de Veronica Stigger

O que se vestia de bailarina virou polícia; o que tinha ideias revolucionárias, também; a que lavava o cabelo com leite, advogada de causas perdidas; o comunista, carola; o de língua presa, chef; o mais pirado, dono de pizzaria; o que viera do centro do país, agrônomo; o bonitão da turma, médico em Estrela; a que amava os esportes, vegana; a de rosto redondo, arquiteta; o ruivo, também; o que não tinha os mamilos, contador; o que não brigava com ninguém, publicitário; a que brigava com todo mundo, técnica do Tribunal de Contas da União; o que misturava lambada com Frank Sinatra, ginecologista; a mau caráter, escritora; o discreto, fotógrafo; a fofoqueira, tabeliã; o atencioso, como era de se esperar, professor; a Branca de Neve, proctologista; a que quase não falava fugiu para a Austrália; a crespa alisou os cabelos; o liberal continuou liberal; o grandalhão está estudando húngaro; o piadista ainda sonha em ir para a Tailândia; o que tinha cabelo de Príncipe Valente, para o Canadá; os dois que tinham doenças congênitas morreram aos 30 e aos 44 anos respectivamente; há ainda o que comprou uma casinha numa praia em Santa Catarina; o que se perdeu na Patagônia; o que vai sempre esquiar em Bariloche; o que foi morar na China; a que se escondeu em São Paulo; o que foi parar numa capital do nordeste; a que se encontrou em Brasília; o que se mudou para o interior do Rio Grande do Sul; o que voltou a morar com os pais; o piloto de avião; a ecologista; o bancário; a dentista; a defensora dos animais; a cuidadora de velhinhos; o gerente da loja de eletrônicos; o diretor da firma; o analista de sistemas; o engenheiro; a esportista; o treinador de futebol; as arquitetas; os arquitetos; as advogadas; os advogados; a professora universitária; o professor de línguas; a herdeira; o mendigo. E havia o Sandro, de cujos rosto e sobrenome ninguém se lembra, mas que, durante muito tempo, se sentou ao meu lado nas aulas.

Veronica Stigger é escritora, crítica de arte e professora universitária. Tem doze livros publicados. Entre eles, estão Opisanie świata (2013), Sul (2016) e Sombrio ermo turvo (2019).

cada palavra, uma morte, de Rodrigo Novaes de Almeida

capa_mondrongo_antifaNaquele tempo, não tínhamos dimensão de nossa ruína. As instituições democráticas ainda pareciam funcionar. Tivemos eleições para escolher nossos representantes do legislativo e do executivo. Alguns poucos já denunciávamos que as arbitrariedades cometidas pelos três poderes nos levariam à ruptura do tecido social e à barbárie. Não nos escutaram. Diziam que era exagero. Então, aconteceu. Já são trinta e três milhões de mortos. A guerra civil fragmentou o país. As organizações internacionais nada puderam fazer para evitar a catástrofe. Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia não se entendem mais e travam suas próprias guerras que, apesar de permanecer na esfera econômica, atualmente vêm acompanhadas da ameaça nuclear. Logo o planeta se tornará um deserto radioativo e estaremos todos mortos e bem, porque a extinção da espécie será melhor do que o inferno que criamos para nós.

Antes da guerra eu era professora de História. Ninguém pode saber disso nos dias de hoje, eu não seria estúpida de contar e não há mais registros que nos comprometam — há anos o Ministério da Educação deixou de existir. O Brasil tornou-se a terra arrasada que os fundamentalistas neopentecostais tanto desejaram. Agora, pertencer a um templo é obrigatório e o sincretismo religioso que se manifestava em diferentes campos da nossa cultura também não existe mais. Não sei por que ainda penso nessas coisas. Talvez por nunca ter esquecido, quando entrei pela primeira vez no templo para o qual fui designada, a náusea terrível e inexorável que senti. Eu pressentia que a vida a partir daquele momento, com essa gente no poder, seria uma lenta putrefação.

Sobre os escombros do que restou do país, partes das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sobrevivo como carteira. A empresa dos Correios precisou ser reestatizada pelo governo de extrema direita, depois que os investidores estrangeiros foram embora, esse mesmo governo que provocara todo o mal através do qual passamos. Primeiro perseguiu todas as lideranças de esquerda, e as matou. Depois, as de direita que o apoiaram; a direita rentista, neoliberal, que se acreditava herdeira da longa tradição da burguesia que, um dia, em um passado agora apagado dos livros e que os fundamentalistas dizem nunca ter existido, inventou o Iluminismo.

Hoje não carrego cartas comuns em minha bolsa, mas um desses telegramas do governo central. Todos sabemos do que se trata. É a morte. Ou, antes, a notícia da morte de alguém amado para seus entes. Neste caso, para o senhor e a senhora Araújo, um casal de idosos pelo qual tenho afeição. Eu os conheci há alguns meses, quando passei a fazer as entregas no distrito que residem. Oferecem-me biscoitos e, às vezes, chá. São muito simpáticos, e sofrem por não ter notícias do filho desde o início da guerra. Eles têm esperança de que esteja vivo em algum lugar do Norte, onde as batalhas continuam. O rapaz foi lutar contra o regime que neste momento nos mantém reféns. Foi lutar por democracia e Estado laico. A senhora Araújo contou-me a história do filho tempos atrás, e eu disse que não a revelasse a mais ninguém, que não deveria ter me contado, pois era um risco desnecessário e ela e o marido poderiam ser presos apenas por proferir tais palavras. Então a senhora Araújo me respondeu de forma doce que não tinha medo, que era o medo a verdadeira arma desse governo e que ela não se renderia, como o filho não se rendeu e foi lutar por liberdade. Nesse dia, eu chorei, e choro agora porque sei que trago a morte de seu filho para sua casa.

Toco a campainha enquanto enxugo as lágrimas. A porta é aberta e vejo o casal. A senhora Araújo sorri ao me ver. Eu tento sorrir de volta, mas acho que não consigo. Tiro o telegrama da bolsa e entrego para o senhor Araújo, não quero que seja ela quem segure a morte do filho nas mãos. Mas o senhor Araújo lê o remetente e entrega o papel para a mulher. Ela abre o telegrama e, enquanto lê a breve linha, lembro-me que não lhes dirigi a palavra, nem ao menos um bom-dia. A senhora Araújo lê devagar aquela única linha, cada palavra, uma morte a respeito da morte do filho que não havia se rendido, que foi lutar por liberdade, democracia e Estado laico. Eu começo a chorar outra vez. O senhor Araújo me olha e em seus olhos enxergo o terror, um terror definitivo, mesmo depois de todos esses anos de execuções, torturas e genocídio dos nossos povos, porque éramos muitos antes. A senhora Araújo entrega o telegrama para o marido, que lê: « Teu filho, um traidor, foi morto pelos heróis da pátria em nome de Deus. » Era assim que o governo central tripudiava dos familiares de insurgentes, sempre que conseguia identificá-los. Logo o símbolo da traição seria pintado com tinta vermelha no muro da casa e eles se tornariam párias, mas o degredo não perduraria. A marca também significava que a milícia poderia entrar e fazer o que bem entendesse com quem morasse ali. Seriam mortos por alguma alma cristã com sede de sangue. No entanto, neste instante, não há mais ninguém na rua. O senhor Araújo dá três passos para trás, cambaleando. Sua mulher está encolhida, como se protegesse o próprio útero velho e vazio. Ele murmura:

— Nosso filho está morto, Anna?

Ela responde:

— Como este país, Otávio.

| este conto faz parte da coletânea Antifascistas, à venda no site da editora [link]. |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores. É autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros.

ressonância órfica, de Luci Collin

Vamos nessa viagem ao pantanal ao matagal ao bananal ao quintal, por favor, diz que concorda comigo. A gente paga em 12 (doze) vezes sem furos e nem sente. Dessa vez a gente leva pouca bagagem. A gente faz fotos belíssimas e em todas os olhos sempre abertos e nunca vermelhos. Prometo que será lindo. Podemos fazer amor no pântano, imagina que maravilha, entre jacarés a nos assistir, curicacas, piranhas abençoando nosso conluio, corumbás-de-asa-chaleira, leões, como assim É savana? Como não tem? Tem sim, basta estarmos dispostos desinibidos vitaminados determinados que tem SIM.

Pensa: sexo artesanal ortogonal emocional irracional fraternal tridimensional descomunal meridional fenomenal confessional devocional carnal excepcional passional marginal cardinal multifuncional proporcional infraconstitucional venal transcontinental tradicional patronal setentrional informacional original unidirecional adicional seminal multinacional sensacional profissional atitudinal organizacional diagonal regional ficcional

Garanto que será inesquecível e completo, será insubmisso e regenerador. Pensa, por que não? Vamos nadar no mar morto, ártico, vermelho, balsâmico, no oceano abísmico, vamos galopar na via ápia láctea sépia arterial pública. Seremos inclusive públicos e únicos, faz um esforcinho, amor da minha vida, quebra o vidro, rompe o lacre, pisa na grama, flana, frequenta, aumenta o volume, sacode a poeira, se tiver vontade boceja. Não diz simplesmente “deixa disso!”. Vamos viver com a intensidade dos grandes, pensar grande, meu benzinho.

Imagina: podemos ir às compras, receber descontos, concorrer ao carro, dar depoimento de satisfação, sair no jornalzinho do bairro com foto e tudo, ganhar amostra grátis, ficar por dentro dos lançamentos, passar cartão, receber troco, doar moedinhas, jogar uma moeda na fonte, contribuir com grandes causas, derrubar suco na roupa, receber panfletos, anúncios, filipetas, convites para uma peça de teatro infantil, cupom pra almoço por quilo, vale-ducha, tomar um sunday duplo, jogar mini-golfe, pegar um cineminha, provar uma bermuda jeans.

Basta um gesto seu que eu largo tudo, nem hesito, desisto completamente de sucesso fama louros pódio, largo emprego e nem questiono nem bufo, rompo com a família nem que não tenha, saio da fila que nunca chega mesmo a minha vez, abandono o cargo de confiança, largo vícios quaisquer que sejam, cigarro boêmia chiclete roer unhas, adoto novos hábitos, nunca mais implico, nunca mais assobio, não uso diminutivos, nunca mais ronco, nunca mais praguejo, não deixo queimar a comida, não deixo comida no prato, tomo a vacina, nunca mais palito o dente, compro roupa nova, faço regime e emagreço, faço dieta e engordo finalmente, vou pra academia, mudo de estilo, mudo o penteado, corto, deixo crescer, compro um carro, vendo o carro, compro uma bike e, sim, uso capacete sempre, vendo os meus discos e livros que afinal pra que que a gente guarda tanta coisa, torno-me minimalista, doo órgãos, troco a mobília, monto um aquário com galeão afundado, jogo fora as estátuas, rasgo cartas antigas, ando só a pé, nunca mais furo fila, nunca mais falo com a boca cheia, passo a gostar de berinjela, faço exame de sangue um hemograma completo, aprendo a fazer baliza tricô biscoitos planilha, volto pras aulas de inglês, mando cartões de natal, passo a limpo a caderneta de telefones, encero o chão da sala da área da varandinha, conserto o cano, arrumo a gaveta, queimo as fotos antigas, me desfaço da coleção de chaveiros, de autógrafos, de revistas, de selos, de posters, de esperanças, de dores, de arritmias — basta uma palavra sua.

Considera: o grau de satisfação conseguida, as estatísticas, os gráficos comprobatórios, a eficácia, a metodologia executiva, as minúcias, os lucros, as bolsas e financiamentos, os desafios, as regras claras do edital, a logística mais que propícia, os sistemas de informação, a produtividade dos sentimentos, as cláusulas vigentes e as destituídas, os fatores humanos envolvidos, a liderança, a inovação, o incremento no currículo, as voltas que dá o sol.

Amor não diz que a vida é complicação! Talvez na próxima quinta VOCÊ venha EU volte, o preço da passagem baixe, EU diga VOCÊ cale EU silencie perante a banda VOCÊ fale pelos cotovelos EU abaixe a cabeça talvez na quarta VOCÊ erga a cabeça talvez na terça EU saia antes e VOCÊ consiga ficar mais um pouco talvez os relógios todos atrasem os sinos não soem as andorinhas não cheguem as mariposas caiam no esquecimento a juventude passe talvez a velhice toda seja abortada e EU dance na frente da polícia e VOCÊ durma no topo da montanha em neve e EU cisme que o alaranjado é o mais bonito e VOCÊ confie na revolução dos astros talvez na terça talvez no sábado pela manhã talvez na casa da praia no meio da floresta na rua em dia de grandes promessas na esquina onde marcamos seria, poderia ser inevitável a perda.

Evita: dizer que maçada, seu soubesse tinha ficado em casa, nada como o travesseiro da gente, tá salgado demais, tô com uma dor na perna esquerda, minha úlcera hoje tá me matando, minha vida hoje tá me matando a saudade é corrosiva as prestações vão vencer e eu não acredito no sistema que porre que tédio, evite a todo preço dizer que nada é tão ruim que não possa piorar e, por favor, por obséquio, por gentileza, por fineza, não venha com leis de murphy leis delegadas leis imperiais leis de seno e cosseno leis de trânsito leis de newton leis do universo em movimento.

A lista que me pediste dos motivos porque te quero (separados por vírgulas): quero porque te quero, quero porque te quis sempre, quero porque quis querer-te, quero porque esperei para poder querer tanto, quero porque tanto esperei para ter o que era ter-te, quero porque ter-te era tanto e era o tanto que eu quero, quero porque querer-te era o querido desde sempre, quero porque o desde sempre fez-se ter-te, quero porque os motivos se fizeram quando esperar era já ter-te, quero porque quis-te.

São dez
São dez direções que me levam a uma única
A minha pessoa mais íntegra no em mim que só existe com você.
O último recurso seria amar-te menos. Mas já tentei tratamento terapia benzedeira greve de fome greve de cama greve de mim e não
consigo.

Luci Collin, curitibana, é ficcionista, poeta e tradutora. Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais Querer falar (Finalista do Prêmio Oceanos 2015), A palavra algo (Prêmio Jabuti 2017) e Rosa que está (2019). Participou de diversas antologias nacionais e internacionais (EUA, França, Alemanha, Bélgica, México, Argentina, Peru, Uruguai). Traduziu Gertrude Stein, Gary Snyder, E. E. Cummings, entre muitos outros.

meia de leite, de Manuella Bezerra de Melo

Sentiu um arranhão áspero, mas também suave no seu rosto. O sonho não era dos melhores, contou-me, por isto acordar pareceu-lhe bem. Fidel estava à sua frente, tão cinza como sempre. Os seus olhos azuis eram sedutores. Bem sabia que este lambia a sua cara porque desejava recompor o seu prato de ração, fez como fazem os gatos: pedem sem rodeios, incomodam sem o receio humano de não serem amados por isto, com as suas belezas e incômodos. Fidel tinha a certeza de que banalidades como a interrupção do sono não mudariam um sentimento de afeto profundo. Tinha as certezas que faltavam à Isabella, que já me contou o quanto aprende com ele. Beijou-me a testa e levantou-se. Sonolenta, vi-a caminhar até o saco de ração. Proveu a tigela, sentou-se à beira. Descabelada, vestia um pijama de flanela com motivos infantis, apreciou a fome de Fidel enquanto tirou a camisola por uns instantes. Pôs os seios à mostra para o sol. Condiziam: seios não tão jovens para uma mulher não tão jovem, seios não tão velhos para uma mulher não tão velha. Estava satisfeita. Por acaso, a luz era um evidente remédio, há de aproveitá-la.

* * *

Quando Isabela entrou na minha vida pareceu diferente desta que é agora. Sem juízo de valor, apenas diferente. Mantenho-me ao seu lado pela sua impressionante capacidade de se modificar a si, de mostrar fragilidade, da própria reinvenção, como quem cria todo dia um novo personagem. Não é do tipo que se arrepende, só arremessa o corpo. Quando desiste, avisa, não desperdiça tempo. Mas como fazer uma mulher desta estatura imensa ver-se tão enorme quando ela só se consegue percecionar pequenina?

* * *

Ela não gosta quando lhe chamam de guerreira, diz que não foi feita uma consulta para lhe dar esta condição, que nunca pediu esta patente. Mas o que ela não aceita é que há certas coisas que nós somos ainda que odiemos sê-lo. Enquanto o mundo corre atrás das suas patentes, ela rejeita-as. Só queria não tê-las, só queria não precisar de lutar, queria uma vida banal, sem armaduras nem capacetes, sem escudos nem batalhas. O cansaço vem-lhe todos os dias às 21h. Apaga-se ao meu lado como quem confia, deixando à mostra o seu flanco para o inimigo.

* * *

Um dia ensolarado, vi-a passar a pé com uma sacola. Tentei fazer com que ela percebesse que eu a tinha visto. Caminhava como quem se defende; atenta, erguida, ereta. Não tinha tempo para plenitudes, contemplações. Na cidade, em setembro, a árvore de um fruto especial florava e despejava fragmentos violeta no chão das ruas do bairro. Avistei-a a dobrar a esquina embaixo de um jambeiro, em cima de um tapete que, sem fim, era um guia, um caminho a ser seguido na trilha. Decidi esperar. Não sabia muito bem o que esperava. Supus ou convenci-me que ela apareceria novamente. Em alguns dias até me esqueci, pareceu-me delírio. Cheguei a duvidar que ela existisse. Algumas situações da vida podem parecer alucinatórias. Talvez eu tenha tentado inventar uma mulher. Nem saberia explicar o que poderia ter de especial alguém que vi passar uma vez na rua de casa, mas as nossas abstrações são o nosso traço mais bonito, alguém se torna magnífico por aquilo que nem mesmo se pode ver. Pude ler no seu andar, o de Isabella, o seu propósito de vida, ou deduzir, ou especular. Não era possível saber muito sobre ela, mas era possível desvendar seu propósito. Era possível que tivéssemos propósitos similares, acreditei.

* * *

Hoje Fidel veio lamber-me a mim. Eu já estava um pouco acordado e pela manhã todo o gato percebe quando o seu corpo já está próximo de despertar. O facto é que Fidel me lambeu uma vez só até eu abrir os meus olhos. Levantei mas fui primeiro à casa de banho. De pé, urinei a minha sensação de gozo matinal. Depois alcancei o saco de ração, encostei-me na parede e despejei na tigela. Terminei o meu sonho ali mesmo, de pé ao lado do Fidel, que não gosta de comer sozinho pela manhã. Isabella seguiu deitada. Voltei até à porta do quarto e de pé olhei-a. Dormia com a barriga para cima e as mãos sobre as coxas. Não estava totalmente entregue. Isabella vivia à espera da próxima guerra. Ela não queria, mas sabia que viria porque sempre chegava a hora.

* * *

Quando tinha nove anos, Dona Carmen casou-se outra vez. O pai biológico de Isabella é um vagabundo aproveitador de mulheres. Até que um dia dona Carmen mandou-o embora, Isabella tinha menos do que dois anos. Ficou sozinha até conhecer Gonçalo, tão gentil, carinhoso, atencioso com a sua filha, que na altura necessitava de uma referência paterna. Eis que chegou a hora, aos nove anos Isabella foi violada pela primeira vez, dentro de casa, em cima de seus lençóis cor-de-rosa. Aconteceu como um ritual de sacrifício. Assim que a Dona Carmen comentou que Isabella tinha ganho a sua primeira menstruação, ele esperou uma semana e numa oportunidade sozinho com a menina trancou-a e disse que agora ela já era uma mulher. Um dia, bebeu seis copos de vodca explicou os detalhes. Ele segurou-a de costas e a violou-a pela vagina e pelo ânus, com o pênis e outro objeto que ela ainda hoje não sabe dizer qual foi. Tinha os olhos fechados, o maxilar latejava dormente de tanto que apertava os dentes. Quando se sente desprotegida, até hoje lhe doem os maxilares. Num momento, virou-a de frente para ejacular. Consumado, espalhou o seu gozo com as mãos por onde deveriam estar os seus peitos, eram uma amostra quase imperceptível deles, e pela cara, enfiando os seus dedos sujos na sua boca pequena e roçando-os na língua. Pronto, agora Isabella era mulher. Desde então para todo o sempre, ser mulher foi sinônimo de dor, desespero, imundice, asco, ódio.

* * *

Vivo na Rua Amorosa, na esquina há uma padaria e era lá que estava, a tomar café sozinho numa mesa para quatro pessoas, quando avistei uma mulher de costas. Era só uma mulher que nunca tinha visto, mas não exatamente. Na verdade não havia reconhecido Isabella, de quem eu ainda não sabia o nome. Tinha cortado os cabelos, e do ângulo que avistei estava magra demais para ser a mulher que vi passar debaixo do jambeiro na esquina da Rua. Ou talvez já a tivesse esquecido, haviam passado meses. Sete, oito¿ Mas o esquecimento foi embora tão depressa ela virou o corpo para o lado direito, onde estava posicionada minha mesa. Não vou dizer que parecia cena de propaganda de shampoo porque talvez eu tenha inventado isto para mim mesmo como uma criança inventa os seus monstros no armário. Mas sim, ela virou-se quase em câmera lenta e piscou os olhos, os cabelos moveram-se devagar, esvoaçantes na minha direção. E ainda que pareça ridículo, foi nessa descrição patética de romance que os nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Poderia dizer que ela estava muito sedutora, mas a verdade é que ela nem é sedutora, ao menos não assim, à primeira vista. Eu vi que encontraram os olhos, mas ela jamais admitiria. Isabella não olha nos olhos dos desconhecidos, e muitas vezes não olha também dos conhecidos. De repente, ela volta-se imediatamente para o outro lado e senta-se no balcão de costas pra mim, de frente para a porta. A não ser que eu entrasse e saísse de novo da padaria poderia cruzar novamente o seu olhar. Isabella sabe defender-se. Segui de longe a observá-la e tentei não invadir o seu espaço. Seu pedido, pão com manteiga e uma meia de leite ‘com mais café do que leite’, ouvi-a dizer. A cadeira ao seu lado no balcão ficou vaga e sentei-me devagar com a cautela de quem joga um jogo desconhecido. Ela seguia de costas, calça jeans, camisa branca, os chinelos e os cabelos emaranhados decretavam o descuido de quem sai de casa para tomar um café na padaria e não deseja ser incomodado. Certamente morava próximo dali. Arrisquei uma conversa com o empregado sobre a troca da marca do café. Disse que o novo grão era muito amargo. Ponto. Ela virou-se para discordar: “Gosto deste, não troquem!”.

* * *

Num domingo de sol Isabella decidiu ir à praia. Enquanto trocava de roupa no quarto, o telefone de casa tocou. Atendi e Dona Carmem anunciou:

— Avise-a, por gentileza, que o pai morreu ontem à noite.

— O que aconteceu?, perguntei assustado.

— Matou-se enforcado.

Isabella parou à beira do corredor. Pôde ver os meus olhos arregalados, telefone na mão, o silêncio.

— Meu pai morreu?

— Sim.

* * *

Após consumar o ato, Gonçalo mandara Isabella ao banho. Ela esfregou o seu corpo até deixar parte dos braços com ferimentos. A sua vagina de criança estava ferida, o seu ânus sangrava. Colocou um absorvente, vestiu o pijama de flanela com motivos infantis, deitou-se no tapete ao lado da cama e dormiu exausta, como um desmaio. Quando Dona Carmem chegou Isabella já estava recolhida. Nada parecia fora do comum, era uma noite qualquer, mas não era. Daquele dia em diante, Gonçalo violou Isabella todas as semanas durante seis anos interruptos.

* * *

Depois daquele dia passei a frequentar a padaria diariamente na intenção de reencontrar Isabella. Cheguei a vê-la várias outras vezes por lá, cumprimentava-a como um vizinho educado. Um balançar de cabeça, uma mão suavemente levantada ao longe. Sem sorrisos ou insinuações. Ela andava como anda um trovão, pisadela forte, densa. Mulheres assim não aceitam serem surpreendidas. Depois de algumas semanas, não estou certo de quantas, pedi um pão na chapa e sentei-me ao balcão. O local estava cheio, diferente dos outros dias, posicionei o flanco de costas para a porta. Logo ficou vago o banco ao meu lado, ela sentou-se. Não levantei a cabeça, mas reconheci as sapatilhas. Mantive os olhos no telemóvel. O meu pão chegou, pedi um refrigerante de limão.

— Não gostas mesmo do novo grão?

Era ela, falava comigo pela primeira vez.

— Não, é amargo demais.

— Não podemos iludir-nos que a vida é doce.

Eu sorri um sorriso médio. Ela sorriu pequeno. Ela sorriu um sorriso que quase não se notava, mas pude ver que estava lá.

* * *

Quando o pai de Isabella se matou, ela não esboçou muita reação. Voltou para o quarto, tirou o maiô, vestiu o pijama de flanela com motivos infantis. Deitou-se na cama com um livro qualquer. Fui até sua beira e perguntei-lhe se havia algo que pudesse fazer. Perguntou-me se poderia ligar para o seu irmão para saber do enterro. O pai de Isabella achava-se esperto, mas era um canalha. Passou seis anos com Dona Carmem explorando-a diariamente. Dormia até meio dia todos os dias, não procurava emprego, não fazia comida, não lavava uma chávena. Às vezes fingia sair para procurar emprego e sentava-se no bar para passar o tempo até poder voltar para casa e passar o resto do dia a ver futebol na televisão. Era um embuste, um encosto, mas quando Isabella pensava nele tinha-lhe afeto, como quem agradece por nunca a ter violado. Ele perto de Gonçalo tinha-lhe ternura de pai, e no fundo talvez ela acreditasse que nunca tivesse acontecido caso ele não tivesse ido embora. Mas quando Dona Carmem o mandou embora, em menos de seis meses ele arranjou outra esposa, em menos de um ano ela estava grávida. Em menos de 10 anos ele estava na quarta esposa grávida. Isabella tinha três irmãos, um de cada esposa. Adélio, três anos mais jovem que ela, Priscila, a do meio, e Ana, uma miúda. Foi para o Adélio que telefonei quando o Patrício morreu.

* * *

Passamos semanas a encontrar-nos na padaria. Sentávamo-nos nos mesmos bancos e conversávamos sobre pão, café, sobre o carro do ovo que passava às quartas-feiras pra acordar a vizinhança. Nesta altura eu já sabia o seu nome, já tinha podido ver parte dos seus dentes e percebido que havia doçura escondida no meio daquele peso todo.

— Percebi que já não tomas mais café.

— O café é amargo, Isabella.

— Eu gosto do amargo.

— Eu gosto de evitar o amargo.

— Tenho café de outra marca em casa. Queres?

Subimos as escadas, três lances. Entramos devagar, em silêncio. Sentei-me no sofá cor de telha. Havia uma janela com luz, plantas com flores, uma estante com livros, havia um gato.

— Como se chama?

— Fidel.

O Fidel ronronou, esfregou-se na sola do meu sapato. Isabella trouxe o café. Bebemos em silêncio.

— Por favor, se me quiseres tocar pergunta-me primeiro se podes.

— Posso tocar no teu rosto, Isabella?

— Sim. Sou mulher desde os meus nove anos.

Manuella Bezerra de Melo é jornalista, escritora e investigadora. É mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas e doutoranda em Modernidades Comparadas; Literaturas, Artes e Cultura pela Universidade do Minho. Autora de Pés pequenos pra tanto corpo (Editora Urutau, 2019).

Laura e Sara, conto inédito de Thássio Ferreira

Na praia: elas já quarentonas, bem quarentonas, encontrando-se para um fim de semana, depois de tanto tempo. Tantos tempos, aliás. Nesta tarde se poderia marcar o tempo em muitos desdes. Trinta e sete anos desde. E trinta e dois. Vinte e nove. Vinte e quatro. E treze anos desde, este dói tanto, mas elas calam, como calam tanto. E agora sete. Sete anos desde.

Descem a pequena trilha escarpada ajudando uma à outra. Laura, a mais velha: tênis, shorts, camiseta, boné, muito protetor, muitos cuidados a cada passo, calculando-se em cada movimento. Sara de biquíni e havaianas, cabelos ondeados a média altura, as pontas mais alouradas, as raízes já brancas, vindo à frente, contravento.

Quando chegam à areia, Laura tira os tênis e a camiseta, confere se a parte de cima do biquíni está bem amarrada, e avança, a bolsa cheia ao ombro esquerdo. Sara leva às mãos apenas as havaianas, a carteira na bolsa de Laura, já que.

A praia quase inteiramente vazia de tudo que não a substância do vento, aquela luz, a quentura do sol. O mar verde.

Caminham com deleite.

— Essa areia fininha significa que a praia é bem antiga, geologicamente. Feito nós duas — diz Laura, e ri, buscando cumplicidade.

Sara ri de leve, partilhando aquele pão com a irmã, desde quando mesmo não se veem? Sete anos. Parece haver amor ali. Mas o amor é sempre por um fio. Talvez, no caso delas, como tantas de nós, o fio às vezes seja mais frágil, menos disposto a: resistir –– esse esforço que dói.

Aquele riso que não presenciava há longos anos deixa Laura confiante. O ângulo de cada onda num determinado momento em qualquer praia incita riscos imensuráveis:

— Você tem falado com o Carlos?

A outra crispa-se um pouco, mas tenta não perder a candura da voz, o sol é tão bom, sete anos, a areia molhada. Macia.

— Você sabe que não.

— Na verdade não sei. Não sabia. Não de verdade.

— Você sabe que ele não fala comigo desde… Só no velório da mamãe…

— Eu sei. Mas justamente, depois do velório, talvez…

— É. Mas não.

Chegam mais ou menos ao meio da praia. Sara olha o mar, com o queixo levemente erguido. À custa de muita porrada, aprendeu a levar o queixo sempre em riste para conseguir enxergar o horizonte. Se baixa a guarda: fim de linha. O fim da linha pode ser muito próximo, muito rápido, em cada esquina, ela sabe. Já viveu alguns. E conseguiu tecer novos carretéis.

Laura tira uma canga da bolsa e estende na areia. Em vez do mar, fica olhando a mais nova, com ternura, aquele corpo bonito. Não é que ela ainda estranhe, faz tanto tempo desde, mas por baixo da calma ela sempre se indaga como a irmã seria se ainda fosse Pedro. Se ela não fosse quem é. Lembra Simone de Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se uma.

A outra segue mirando as águas, tão longe de quando era Pedro, mas também já era Sara, ela também conhece Beauvoir e entende, e concorda, mas para ela é mais confuso e ao mesmo tempo tudo é tão certeiro, esse sorriso olhando o mar, foi tão doloroso tornar-se essa mulher que ela já era e seguir tornando-se a mulher que ela quer ser e isso não acaba nunca, ela sabe. Por isso olha o mar. E sorri.

— E você, tem falado com ele?

— Muito de vez em quando.

— E como ele está? Ele e todo mundo — pergunta, novamente compartindo pão com a irmã. Ela sabe que Carlos não pergunta dela, o amor naquela família sempre foi tão difícil. Exceto pela mãe, que feito um verbete de amor — amor \ô\ s.m. 1. Dona Carmen — dizia-se pelos cômodos da casa, cuidando da prole, feito uma cola entre todos e todas, impedindo o pai de expulsá-la quando, e quando necessário, com a dureza de que só os amores incondicionais são capazes, como: se recusando a ver o filho enquanto ele se recusasse a ver Sara, e depois tornando a vê-lo por causa da primeira neta, e o desobedecendo ao falar à menina sobre a tia, mostrar fotos. Agora são apenas ela e Laura, depois do pai, da mãe, e enquanto Carlos se recusa. O amor é tão difícil, é preciso praticar. Ela se vira para a irmã aguardando a resposta, o rosto franco, sem mágoa.

— Estão bem. Letícia vai fazer sete anos, aprendendo a ler. E o Tiago já falando. A Vanessa pergunta de você, quando o Carlos não perto.

É bom compartilhar o pão.

Sara volta a fitar o oceano. Mas em cada ângulo, em cada onda, em cada instante, o risco imenso, iminente. Ela não vê. Começa a desamarrar o biquíni.

— Vamos na água.

— Mas por que você tá tirando o biquíni? — Sara já está tirando a calcinha. As pupilas dilatadas de Laura: — Sara, por favor…

A voz dela não é apenas de súplica. Há uma ordem ali, de irmã mais velha mas também algo maior, algo que a caçula conhece bem, e que dói tanto, aquele desamor de tanta gente ordenando seu corpo, feito não tivesse o direito de sorrir ao sol e correr ao mar da forma que deseja, por que, por que não?

Ela para, a calcinha pelos tornozelos, entregando-se à areia em sua própria nudez de tecido: despida de vestir outra nudez. Dessa vez a pergunta sai-lhe petulante, como não fora quando perguntou se a irmã falava com Carlos, se ele estava bem, ele e todo mundo, as crianças, a esposa submissa:

— O que que tem, Laura?

O queixo levemente erguido. Abaixar a cabeça é fim da linha, ela conhece os fins de linha, e deixar que mandem em seu corpo é um que: nunca mais. No átimo de tempo que segue à pergunta, ela se vira, o queixo agora erguido à irmã, ela toda nua, eu sou assim, eu não sou esse biquíni, a gente tem que ser o que é, tantos anos e você ainda não entende isso, que eu tenho que ser quem eu sou?

— Isso não é uma praia de nudismo.

— Toda praia é de nudismo, Laura. Aliás, as praias não são disso, nem daquilo, nem de nada. Elas estão aí, simplesmente, e que bom que a gente pode curtir. Peladas, inclusive.

— Tá bom, eu sei, não precisa vir de papo militante, você entendeu o que eu disse. Putz, será que tudo precisa ser uma luta pra você?

— Eu luto quando preciso. — O rosto sério.

— Você não precisa lutar comigo. Não agora. Eu só acho que você não devia… A gente nem conhece aqui, pode chegar alguém a qualquer momento, pode passar um barco, eu não falando nada demais, a gente veio de biquíni, custa ficar de biquíni? — A voz trêmula. Sara luta quando precisa, e só ela pode dizer quando precisa. Laura sabe.

“Você não precisa lutar comigo”. Não? As duas se olham. Quando um não quer, dois não brigam, a mãe dizia. Não? Como é difícil saber o momento de lutar e o de estender a mão. O amor é tão difícil, a cada ângulo, cada onda, cada instante. Tantos riscos imensos, e a gente quase nunca sabe quando é mais arriscado amar ou lutar. O gosto do pão secando na boca.

— Você não precisa tirar o seu biquíni se não quiser, mas não vem mandar no meu corpo.

— Eu não quero mandar no seu corpo!

— Vocês nunca querem. Mas sempre acabam tentando.

— Que vocês, Sara, para com isso, só a gente aqui, a gente veio aqui pra se conectar…

— Exato! — Sara a interrompe. — Estamos só nós aqui, e a gente veio pra se conectar, então deixa eu me conectar com a natureza do meu jeito, e me conectar com você do jeito que eu sou, eu sou essa mulher aqui, Laura: nua, sem vergonha de quem eu sou, não vem jogar em mim nenhuma vergonha que você tenha do meu corpo ou do seu.

A outra se retrai, molusco, diante da nudez erguida da irmã. Ressentida, um pouco. Magoada, quase no sentido físico da ostra que se magoa, em sua carne gelatinosa, ao contato de qualquer rispidez, qualquer matéria afiada. Nua também, a seu jeito, na fragilidade da nudez, ao contrário da irmã: bicho forte na sua entrega ao mundo.

— Você sempre me acusa… Acusa a gente… — ela sussurra, entre atordoada e vestindo-se também para o combate, molusco-aranha, embora sem porquê. Pelo que lutam os que não precisam? Para mostrar que podem. Para fugir ao amor, tão mais difícil do que a luta mais renhida.

— Agora é a gente? Não era só nós duas? Você nem percebe… Por que você não me deixa ficar nua se eu quiser? De verdade, Laura, por quê? Eu sou tão adulta quanto você, eu sei o que eu fazendo… E daí se chegar alguém? E daí?

Ela mira firme os olhos da irmã sentada na canga, e dentro daqueles olhos o que ela sabe que eles veem, mesmo depois de tanto tempo: Pedro. Desde sempre. O amor é tão difícil, e Laura não consegue. Se não fosse aquele fantasma nos olhos da irmã, talvez Sara conseguisse, e pudesse amar pelas duas, por Carlos, pelo pai, por tanta gente do outro lado do morro que separa a praia do mundo; mas Pedro, ali, naquele olhar fechando-se como um punho, Pedro sempre nos olhos de Laura, porque ela não consegue.

Talvez se aquele olhar fosse de outro, de um estranho, talvez Sara perdoasse. Mas ela também não consegue, o amor é tão difícil, deus, e nenhuma delas consegue. “Não se nasce mulher, torna-se uma”, então eu preciso ir até onde não quero pra me tornar plenamente mulher aos seus olhos, Laura, pra extirpar esse fantasma da sua visão, então eu vou. Ela se arma com a rapidez de quem já lutou incontáveis vezes, de incontáveis maneiras, mesmo com armas que talvez não devesse, ela sabe como dói ser humilhada, ela poderia não retribuir a dor com dor, mas:

— Você tem inveja do meu corpo, Laura. Fica aí com as suas banhas se dobrando por cima do biquíni.

Tão difícil.

— Pelo menos eu não tenho esse monte de cicatrizes. Cicatriz de quem apanhou na rua, apanhou de macho, essas marcas horrorosas, olha pra você!

— Isso aqui são marcas da vida, sua escrota. A vida é isso aqui, não sua assepsia, no seu carro fechado, no GPS do celular, no ar-condicionado, naquele seu emprego, seu dia a dia sem graça, sem risco! — Ela lembra aquele vídeo engraçado que se popularizou na internet, com um cara mais velho esbravejando a um adolescente assustado: a vida não é a porra do seu toddynho gelado não, moleque! Toddynho, será que ainda existe? Toddynho, yakult, danette, marcas que não são marcas de verdade, não na concretude mais exata da existência, será que ainda existem? Essas existências sem muita concretude. Feito Pedro nos olhos da irmã.

— Vai se foder, Sara, você acha que viveu mais porque sofreu mais, porque apanhou mais?! Você acha que é melhor do que eu, do que tanta gente, porque se fodeu mais?! Talvez você tenha merecido boa parte das porradas que levou, porque você quis, porque você pediu!

— Cala a boca, você não tem ideia do que falando, você aí a mesma princesinha de sempre, achando que entende a dor dos outros e que pode mandar nos outros, mandar em mim, mas você não tem ideia do quanto você é ridícula e patética nessa sua vidinha bem comportada, sem marca, sem luta, sem sentir a porra do sol na pele nua! Você não sabe porra nenhuma, Laura!

— Sai daqui, sai daqui! Me deixa em paz, eu não vou deixar você estragar minha praia com os seus complexos e essa raiva de sempre, eu… Eu…

Antes que ela abaixe os olhos, Sara vê. Não há mais Pedro ali. Laura sentada, quase tremendo, quase à beira de chorar. Sara não queria que fosse assim, mas não consegue de outro modo: desde quando mesmo? Desde quando precisa enfiar assim suas mãos de sangue e terra na irmã até destroçar o conforto da imagem que a outra tem de si, para que só assim a imagem de Pedro também suma? Mas antes Laura se recuperava mais rápido. Ou talvez seja dizer que antes ela se recuperava.

Hoje, o sol pesa-lhe mais. Sara vira-se em silêncio, sacode a calcinha com os pés e vai ao mar. O amor é tão difícil.

Tudo isso e: ao longe, tão longe que não me enxergavam, cotovelos à areia, eu as olhava, com a banalidade de uma tarde de sol, começando a se odiarem para além do cicatrizável. E ainda seriam irmãs por muito tempo.

Thássio Ferreira. Escritor, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016), Itinerários (Editora UFPR, 2018), obra vencedora do I Concurso Literário da Editora UFPR, e agora (depois) (Autografia, 2019). Mantém a coluna “Alguma coisa em mim que eu não entendo”, na Revista Vício Velho, e tem contos e poemas publicados em revistas como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Germina, Revista Ponto (Sesi-SP) e InComunidade (Portugal). Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito Cartografias, finalista do Prêmio Sesc 2017.

aquele grão de vento no cabelo, de Helyana Manso

Dedicado a M.C.

O barulho dos compartimentos de bagagem sendo fechados, aquele estalo de plástico agora mais seco pelo ar frio e tratado da aeronave. Vozes dos comissários de bordo, as pessoas falando baixo, é meio da madrugada, silêncio dentro e fora. Fora do avião, fora da pista, dentro das casas. Silêncio.

Você fala comigo, ouço sua voz no primeiro plano desse fundo que reconheço, o barulho dos compartimentos de bagagem sendo fechados.

À sua direita, essa mulher não está com você. Você está comigo.

À sua esquerda, esse homem também não está com você. Comigo, você está comigo.

Você me fala do dia, de como se apressou, como cansou, como o almoço foi curto, mas bom; da correria para chegar ao aeroporto. Eu te ouço o tempo exato depois; começo a ouvir quando você para de falar. Enquanto te ouço, você já está falando de novo. Ouço com o olho na nova gravação sendo feita, pensando que a conversa ainda não terminou, pensando, que bom, ainda estou com ele.

Você, essa mulher, esse homem e mais tantas outras pessoas estão já compartilhando o momento tão único que é viajar de avião; e que parece banal mas não, não pode ser banal; vocês entraram dentro do corpo de metal, corredor, o bicho cilindro que aguenta a intempérie, que se equilibra em tão absurdamente pequenas rodinhas e, com vocês sentados quase sem conforto, taxia e voa. Ele voa. Ele voa com vocês dentro.

E quando vocês saem de dentro dele, vocês não estão mais aqui, estão lá. Chegaram lá como pedra que cai na água e não gera vários círculos antes do último, apenas o último que chega na borda. Chegaram lá sem pisar a terra, o asfalto, a grama, o caminho entre o aqui e o lá; sem que a umidade do ar se alterasse; sem chuvas no rosto, apenas traduzidas em turbulências, as chuvas se expressando no chacoalhar do corpo. Chegaram sem que o sol fosse esticando e encolhendo e esticando a sombra.

Você foi de um lugar a outro com sua sombra intacta.

Você, essa mulher, esse homem e mais tantas outras pessoas estão compartilhando tudo isso e, no entanto, você está comigo; você compartilha comigo, e eles que compartilhem entre eles, a mulher, o homem e todos os outros no avião. Eu fui enfiada aqui, sentada entre os dois, entrada pelo seu ouvido, saída pela sua boca.

Sorrio, sim, sorrio na madrugada da minha casa, sozinha e silenciosa, dentro e fora, esse silêncio tão especial da minha cidade mesmo durante o dia, silêncio de muitas vozes e poucas máquinas, de caminhos percorridos por braços e pernas. Sorrio agradecida pelo momento que você divide comigo como se voar nada fosse. Me conscientizo da prioridade momentânea que ganhei, seu telefone te afastando dos vizinhos de fileira, do cheiro antisséptico, mas real; dos desconhecidos, mas reais; seu telefone te aproximando da realidade do seu pensamento, nos transportando para um lugar nem cá nem lá, um lugar cavado nessa fileira de três pessoas, ela, ele, eu e você. Fui transportada para dentro desse avião e entro humilde nos seus ouvidos, vinda da sua lembrança. Não esperava ser lembrada na partida.

Obrigada pelo embarque. Pena eu não poder decolar, é do que mais gosto. Agora você viaja só, com mais tantas outras pessoas, algumas e outras não sós.

Penso que, quando você voltar, quando a ausência do ruído das máquinas da minha cidade te receber, eu voltarei a ser um ponto no radar, relembrado a cada pulso. E, em algum momento, o meu acender vai coincidir com seu círculo concêntrico mais interno e receberei uma mensagem, talvez um café, talvez um café de manhã.

Teria gostado de viajar com você, morando em seus ouvidos, em você, te acompanhando no calor dos dias. Mas não me incomoda esperar sua volta para construir, ao alcance do seu toque, a minha existência em você; a minha existência que você vai carregar consigo, nos bolsos, nos cabelos, entre os dedos e que estará mesmo quando você for, quando fechar a porta, quando atravessar, quando cobrir com o lençol e perguntar cadê.

Ainda na mesma semana, ao abrir a janela, verei minha rua transformada em canal. Minha sala transformada em canal. Finalmente Veneza será mesmo uma cidade canal. Pontes que saem das águas e levam às águas. Acqua alta. Meus móveis arruinados, os tapetes, a tinta das paredes, talvez os eletrodomésticos. A luz preventivamente desligada na madrugada.

Eu sei. Esta acqua alta formada por maré, tempestades, aquecimento, lixo na lagoa e o fato raro que precisa confluir para amarrar todos os fatores e criar o fenômeno, para que a água suba verdadeiramente. E ela subirá. A definitiva acqua alta precisa do Siroco, o vento brotado no Saara, subindo para o norte e abalando a Espanha mas que, só de vez em quando, com muita força, chega até aqui.

E se ele chegou, e então eu sorrio com a acqua alta, apesar do meu abalo pelas perdas, nossas perdas, objetos, tintas, paredes, afrescos, igrejas porque, se o Siroco chegou, é porque cheguei aí. Entrei naquele avião com você e desembarcamos no deserto.

Helyana Manso, formada em piano erudito, cantora de música popular e fotógrafa, agora também escreve. Passou por oficinas de escrita com Marcelino Freire, Ronaldo Bressane e Reynaldo Damazio. Tem dois contos publicados em coletâneas e foi selecionada para cursar, em 2020, o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), promovido pela Casa das Rosas. Nele, já passou pelos módulos de Anita Deak, Rafael Gallo, Sheyla Smanioto, Cris Judar e Cidinha da Silva.

hebo, de Luamba Muinga

Sempre retorno, em sonhos, às últimas imagens de minha avó. Da sua morte que continua sem sentido em minha memória. O cacimbo[1] esfriava todas as tardes e aquela parecia a terminável tarde. O céu estava distante de qualquer ruborização de poetas, uma tarde inútil aos que vivem atentos às questões práticas da vida como para os valiosos detentores da descrição obsessiva dos estados difusos do quotidiano. A figueira do nosso quintal permanecia seca como nos anos anteriores esteve, e reduzida do seu crescimento desde que atingira a igual altura da minha avó Hebo, ela já obedecendo à curva da idade. Das coisas que me recordo, uma delas é que naquela manhã ela não tinha regado as plantas, sua única propriedade, como fazia noutras manhãs. Durante os anos vi minha avó perder dedicação pela casa toda e ficar somente pelas plantas. Dizia-me que o nosso crescimento, as nossas necessidades adultas tomariam tudo que ela cuidava. Estava certa, naquela tarde pude confirmar. E ela ainda lembrou com seu olhar saído da cadeira onde sempre permaneceu estática.

A voz do meu irmão, surgida num grito de romper as paredes da garganta, assustava-a. Havia já dias que ele e a irmã da nossa mãe disputavam pela propriedade da casa. Hebo ensinou-nos que era também nossa mãe, que a tratássemos assim e nunca de outra forma. Agora não nos parece tanto. Desde que faleceu nossa mãe, ela nos quer tirar as coisas que elas construíram juntas em alguns negócios que faziam nas Lundas. Tirou-nos um terreno e pretendia depois nos retirar também a casa.

A fúria dos dois criava um intenso movimento e o levantar de indignações ocupava a sala de vozes. A discussão se acresceu e tomava os móveis e a decoração. Quando viu um estilhaço da loiça quebrada lhe pousar na unha enegrecida, minha avó Hebo sentiu um calafrio percorrer seu corpo. O medo de ver uma lasca lhe perfurar o dedo e o frescor misturado da tarde a fez mover os pés numa agitação incomum.

Apesar do terror, ela firmou-se no assento. Eu a observava e sentia o mesmo medo que ela, enquanto imaginava tudo ruir sobre nós os dois. Vi minha avó deitar as mãos no volume de pano e de lá retirar um terço. Os seus antebraços deixou-os caídos no colo e a cabeça no mesmo alinhamento, as duas mãos concentradas no terço, com os dedos rondando entre as contas para a reza do Pai Nosso, e, finalmente, o rosto, faziam-na numa figura inferior a despedaçar-se. Corri até seus pés em busca de segurança, embora soubesse que ela não podia mais dar-me. A fé católica de Hebo criou meu firmamento depois de nossa mãe partir. Eu a procurava sempre quando um medo como aquele controlasse os meus pensamentos.

— Nesta casa não pões os pés… não! — a voz acesa do meu irmão moveu de susto o ombro de minha avó.

A outra voz respondia asco e derrotada.

— A casa é minha, eu sei o que fazer dela. — gritou irmã de nossa mãe.

— Até onde eu sei a casa foi comprada por ela e mais ninguém, não havia essa tua parcela. — meu irmão defendia que ficássemos com a propriedade inteira da casa. Ela tinha intenções de dividi-la para novos inquilinos. Fazia assim desde que perdera os seus negócios todos nas Lundas e entrara em dívidas inacabáveis. Ao tomar primeiro o terreno de nossa mãe não se importou com a reprovação de Hebo, a quem nos últimos anos nem lhe presta visita depois de a ter abandonado connosco, duas crianças. Hebo não morreu por causa da casa, ela não precisava defender mais nada. As plantas lhe bastavam.

Eu gostava imenso da casa. Gostava das noites em meu quarto, quando acordava entre o escuro e seguia a iluminação dos candeeiros à petróleo feitos de lata que condiziam ao quarto de Hebo. Ela deixava vários acessos pelas seis divisões da casa, punha-os como um mapa do meu quarto para o seu. As negruras das chamas continuam nas paredes, não penso em tirá-las. São os traços da minha segurança. O que seria de mim sem aquelas luzes acesas nos corredores e nos compartimentos noturnos da minha infância.

Aquela confusão entre o meu irmão e a irmã de nossa mãe não matou Hebo. Ela morreu por angustia de uma profecia. Aquela ideia velha devia ter voltado a ela naquela tarde desgastante. Ouvi a profecia primeira vez durante o comba[2] da minha mãe. Ela contou para meu irmão eu e mais alguns primos, e o nosso desamparo foi maior porque se parecia que depois da nossa mãe restava apenas sua irmã que poderia ir embora a qualquer instante. Mas não foi a morte que nos tirou do afecto e da protecção da irmã da nossa mãe.

Se tivesse que escrever em livros a profecia que perseguiu Hebo desde a juventude a chamaria de profecia das ausências. Ou do desaparecimento. Todos os seus filhos tiveram mortes desaparecidas. O filho mais velho de Hebo tinha desaparecido dois meses depois das perseguições do Maio de 1977 em Luanda; a segunda filha tinha ficado por uma mina em 1988 (e isto só foi determinado anos mais tardes, enquanto a família pensava apenas no desaparecimento); Hebo enterrou o corpo do terceiro filho sem a alma estar lá, disse-nos. Tinha se ido com o estado de loucura que teve antes da morte. A história deste meu tio era interessante para mim: foi um pirateador de filmes soviéticos no mercado do Roque Santeiro e morreu quinze dias depois do país entrar oficialmente para o novo sistema político. Minha mãe morreu em Katanga, na República Democrática do Congo, depois do nosso pai a ter levado com o engano de encontrar diamantes que o negócio das Lundas já não lhes dava. Sou um órfão de diamantes.

Hebo contou-nos que a profecia lhe tinha sido anunciada na juventude. Viviam tempos de boa pesca na Ilha de Luanda, uma vez mulher entrou por sua casa. Anunciou-lhe que tudo quanto Hebo vivia não lhe pertencia. Minha avó pensava que aquela mulher devia querer o seu homem.

— Verás tudo acabar, antes de acabares tu. — disse isto e se retirou da casa de Hebo com uma pequena colher, onde minha avó viu seu reflexo em pranto. Esta mulher jamais existiu, diziam para ela quando recontava a história às outras pessoas. Na morte da nossa mãe, ela confortou-se por nos ver crentes de que era uma profecia.

Creio que Hebo viu tudo isso de volta quando meu irmão fez voar a loiça toda da nossa cozinha para expulsar a irmã de nossa mãe. Cada palavra dita entre os dois, movia Hebo nesta crença anterior. Um esclarecimento obstinado dos seus anos de velhice. O medo e a memória constituíram-se nela, iluminados como um trovão, e Hebo não suportou a ver última filha fechar sua história.

Movida por sua própria energia, esta que já há muita se julgava apagada, Hebo olhou-me de soslaio e levantou-se, quando jamais se poderia achar que conseguia. Cruzou a porta, vigiada apenas por mim, escondido atrás de sua cadeira sempre imóvel. Relinchou a porta de madeira do quintal com um movimento vagaroso. Os vizinhos estavam todos ali na frente à espreita. Vi entrar alguns para talvez conter a confusão. Todos olhavam apenas a confusão e nunca em Hebo, eu era o único. Seguia-a, notei que se desamarrava dos panos que lhe cobriam em diversas camadas e cores e padrões.

Eu não queria caminhar perto dela e perguntar,

— onde vais avó?

eu queria acompanhar os passos dela para ver sem interrupção onde ia. Os meus amigos, dias depois, contaram-me que eu corria atrás dela gritando do medo da confusão lá em casa. Mas eu cumpria o mesmo silêncio de Hebo. Ela sentia-se movida de propósito. O medo e a angústia, eram estes propósitos.

Duas ruas, uma estrada pequena e talvez novecentos metros de caminhada, Hebo tinha dado à praia. O mar não tinha grandes agitações, os passos dela também não. Tocaram-se lentamente.

Vi seus olhos entre o cristalizado e o enegrecido. Os terços sempre firmes nas mãos.

Os panos dela ondulavam de espumas.

[1] Época seca em Angola, que decorre de Maio a Agosto, caracterizada pela humidade.

[2] Ritual fúnebre em Angola.

Luamba Muinga nasceu em Luanda, Angola, na última década do século XX. É crítico cultural, produtor e também curador de arte. É cofundador da revista eletrónica Palavra&Arte, centrada na produção artística emergente em Angola. Em 2018 dirigiu o minidoc Capitães Vulneráveis — A vida de crianças em situação de rua. A sua produção artística passa pela prosa, poesia e textos performáticos.

cabeça de quimeras, de Regina Ribeiro

Os coletores passaram mais uma vez com seus grandes cachorros sem focinheira. Eu disse que não tinha nem pro osso. Esse tinha a cabeça raspada e tatuada. Um grande dragão com a cauda se enrolando no pescoço. As tatuagens cobrem as partes do seu corpo que não estão escondidas pelos couros, jeans rasgados, braceletes e grandes e grossos anéis. Eles fazem de tudo pra botar medo, esses coletores, para aparentarem serem durões. Esses dias vi um deles bater num velho raquítico e nojento, aquele asqueroso que fica de braguilha aberta, fuçando o lixo do cruzamento. O velho se agarrava a seus poucos pertences como se valessem de algo. Velho doido. Mas tinha que bater? Pra que, eu me pergunto, pra quê?

Cortei minhas luvas pra deixar metade dos meus dedos livres. Não consigo lidar com as mãos quando estão enluvadas. Com a parte que cortei fora, enfeitei os meus cabelos. Não dá pra jogar nada fora, nada. Fiz bem porque um velho, quando passei, me olhou com desejo. Fazia tempo que ninguém me olhava assim. Me mostrou uma moeda. Fingi que não entendi. Tenho que dizer que fiquei com medo. Corri pra lona e soltei Quimera. Ixi malia quem é a coisa mais fofa da mãe? Ela me olha de volta com os olhinhos pequenininhos de pura devoção. O focinho longo de tubarão eu tenho vontade de esmagar de tanto amor. O dia em que encontrei Quimeras foi o dia mais bonito da minha vida. Ela estava lá, um cocozinho escondido assustado embaixo dos entulhos da construção.

Quimeras me segue de perto enquanto vou contando para ela coisas pelas quais vale a pena viver. Como me faltam alguns dentes, minha fala está comprometida, mas Quimeras me entende e acarinha minha mão com o focinho úmido. É, eu bem que fiz de cortar as luvas. Os meninos passam e riem da nossa conversa. Tenho pena do mundo de linguagem limitada que é o deles. Nunca entenderam as coisas que eu e Quimeras entendemos.

Quando voltamos, o coletor esta lá, esperando. Veio com o facão.

Antes que eu possa pensar ou ter medo, ele já deu um golpe certeiro no pescocinho da Quimeras. Ela deu um gritinho agudo e depois agonizou. Parecia cansada até mesmo para sentir dor.

Linha, agulha, lágrimas salgadas, tiro as partes moles e costuro, costuro, as pontas da agulha furando os meus dedos, a raiva estufando o peito, a garganta comprimida, as grossas gotas de sangue nas pontas dos dedos, o ranho escorrendo, o grito de dor abafado, cérebro, córneas, sangue, nervos no saco de lixo, pele, couro, dentes costurados.

E quando os outros carrinheiros virem o horror, quando mães olharem pelas suas janelas e virem, quando os vendedores ambulantes, pipoca, picolé, algodão-doce virem, eles vão vir.

E, enquanto ele receber pauladas de tudo quanto é lado, enquanto o sangue quente jorrar, por trás da multidão que lincha, ele vai me ver, meu sorriso desdentado escondido debaixo da pele, do focinho, da cabeça da Quimeras morta que agora é chapéu, segunda pele, totem, prova. Eu, vestida de Quimeras, as peles da Quimeras, a força da Quimeras, eu, mulher com cabeça de cachorra, cabeça cheia de dentes.

Regina Ribeiro é formada em Comunicação Social no Paraná e desde 2013 mora na França, onde fez graduação e mestrado em Filosofia pela Universidade Paris-Sorbonne. Acabou de finalizar o seu primeiro romance.

em três atos, de Danilo Brandão

01. Prefácio

já reparou? já reparou que engraçado o apontador? ao mesmo tempo que destrói, constrói. em zigue, zague. zigue. zague. o desenho abstrato se forma metodicamente. ponta a ponta. como um bando de soldados alienados. vai um. depois outro. depois outro. o ritmo depende do comandante. daí vai do observador. se decide pela revolta ou pelo legalismo. se olha bem atentamente para uma ponta, verá uma lança. pontiaguda, linda, formando-se meticulosamente numa unidade quase patriótica. mas se volta as suas retinas para a outra ponta, o que verá é a diminuição. a perda da potência. do pior jeito, aos poucos. a desintegração do território. o ato de apontar é também um ato totalitário.

por que diz isso agora?

olha. aquela velha aponta um lápis sentada na praça. não deveria estar ali. um lápis pode ser apontado dentro de casa. um lápis pode ser apontado de qualquer lugar.

mas você mesmo acaba de exaltar o ato. se ela estivesse dentro de casa, como deveria, não teria essa reflexão. estranho momento, por sinal.

veste um vestido estranho. cheio de remendos. as cores não estão uniformes. olha. olha a meia. veste de um lado só. continua apontando o lápis. aponta e aponta.

aponta com certa frieza. é estranho o que algumas pessoas ainda são capazes de fazer em público. mesmo em um momento como esse. mesmo depois de tudo. não é o que dizem? num momento como esse. todo mundo perdendo o controle de tudo. tudo. e algumas pessoas continuam apontando o lápis. qual o objetivo final.

às vezes, faz um protesto.

não seja ridículo. protesta contra o quê? apontar um lápis. uma velha apontando um lápis, em um momento como esse. é uma merda.

às vezes, se prepara para anotar algo. um diário talvez. a lista do supermercado. a dosagem correta do remédio. Indapamida. 05 mm. Minoxidil. 02 mm. Nifedipina. 10 mm. pode ser uma carta de amor. um bilhete indignado. pode ser poeta. tanta coisa se pode fazer segurando um lápis na mão. até mesmo um bilhete suicida.

para todas essas possibilidades, porém, falta-lhe o papel. cadê o seu papel? sua caderneta. alguma superfície onde possa anotar.

pode estar a procura de um. escrever numa…veja. olhe agora. parece finalmente ter se cansado de apontar. está minúsculo. o seu lápis quase chega ao fim. quase.

em tempos como esse. que loucura. uma velha numa praça apontando um lápis.

coisa bonita é o apontar de um lápis.

você já disse isso. todos os detalhes. coisa bonita é o respeitar os momentos ruins. coisa bonita são as pessoas terem consciência.

quero falar com ela. vou descer. vamos. vamos os dois perguntar a ela o que faz apontando um lápis no meio de uma praça. curioso demais. aliás, que protesto mais maluco de uma velha. olhe pra cima. veja as janelas. quantas janelas somos capazes de contar somente se olharmos paralelamente ao asfalto? elas parecem cada vez mais perto umas das outras. não acha? parece que o concreto entre elas diminuem a cada dia. se desgastam. perdem a força. estão se tornando uma unidade. uma unidade de concreto.

você ficou maluco? não podemos simplesmente ir até lá só porque está tendo uma espécie de epifania. principalmente em tempos como esses. há dias não saio. deixo que eles façam isso por mim. são tempos ruins.

sim. ficamos aqui. é verdade. mas a velha não. deve saber de algo. algo grande se esconde em seu lápis minúsculo. ele está apontado. parece consciente de seu ato. tranquila na rua.

deixe que eles saiam por nós, menino. não perca a esperança dessa maneira. estamos indo bem por aqui. são os nervos. são os tempos.

eu já estou cansado. não são apenas mais os tempos. é a nossa vida. há quantos dias? quantos dias não pisamos no asfalto. presos no concreto. olhando o mundo por um ângulo só.

como pretende fugir disso?

do quê?

de olhar o mundo por um único ângulo. é impossível fugir. podemos sair por aí por horas. correr por dias inteiros. sem parar. subir e descer os arranha céus. escalar as mais altas montanhas do mundo. nada irá mudar. ainda assim iremos olhar o mundo por um único ângulo. é tudo que nos resta. nada vai mudar. fique em casa. não jogue simplesmente tudo para o alto. a velha está ali. algo me diz que logo saberemos o que faz na praça. são tempos difíceis.

não gosto de pensar em como tem razão. são dias. nada mudou. não temos mais futuro.

creio que nunca tivemos. eles saem por nós. fiquemos em casa. vamos. eu preparo um café.

02. Depois do ato.

já fecharam. não. não quero ver. deixa-o descansar. eu não sei bem. e como pode saber de uma coisa dessas? já disse isso. como pode saber que só os pulmões foram prejudicados. matuto dos infernos. esse ai já nasceu meio morto. todo quebrado por dentro. claro que sofro. mas isso não é da sua conta. ora essa. vá chamar o médico, por favor. todos já foram, graças a deus todos se foram. doutor, o que preciso fazer agora. a delegacia? por que precisaria fazer uma coisa dessas? assinar uns papéis, claro. problema nenhum. mas em tempos como esses. os médicos já liberaram. não é isso? não é só isso que é necessário para saber a causa da morte, é. os pulmões foram prejudicados. o matuto mesmo falou. está claro a causa da morte. saiu nos jornais: não é pra ficar nas ruas. dando mole pra ele. pra ele mesmo. que dia? hoje. não. ainda não. preciso ir pra casa. as meninas não comem há três dias. filhos? não. são as nossas gatas. quer dizer, são as minhas gatas. agora elas são apenas minhas. enfim. estão em casa. os vizinhos não podem cuidar. não entram em casa. tenho medo. devem ter revirado tudo atrás de comida. da última vez foram fundo no bueiro do quintal. pegaram uns ratos que moscavam por lá. foi sujo. é uma complicação. uma complicação. já vou indo. vou indo. meire há dias que não me liga.

saiu sentindo que não deveria ter tido aquela conversa. homem dos diabos. a faz passar vergonha até depois da morte. morte. o brasil tem escutado muito essa palavra. passaram a fazer a contagem por dias. 455. 677. 801. 920. 1002. engraçado como crescia a cada dia, ela pensava. mas as pessoas morrem todos os dias. engraçado. agora eles contam e passa até na televisão. foi para a casa sem se despedir dos parentes. pessoas que nem deveriam estar ali. mas elas foram. despediram-se do seu marido, colocando os cotovelos em seus ombros. uma de cada vez. não era mais permitido abraços. abolido também foi o encontro mão a mão. o tradicional entrelaces de dedos. ela foi. homem dos infernos. deu os primeiros passos na calçada e olhou para o outro lado da rua. ali costumava ser um ponto de encontro de jovens. vivia abarrotado de gente. aglomerações. agora não havia ninguém. talvez seja engraçado. agora não havia mais ninguém nas ruas. ela que sempre gostou da sensação do fedor da cidade. cruzava as esquinas em busca de engarrafamentos. sempre fazia caminhadas masoquistas pelos bairros, olhando pra baixo, contanto as rachaduras das calçadas, tropeçando nas pedras soltas do concreto, adiando a volta pra casa. agora não havia mais nada. nem ninguém nas ruas. tudo era espaço. em seu rosto, não sentia mais nada. não podia ter sentido. seu marido morreu ontem. e hoje foi o enterro.

03. O ato

meire ligou e disse: seu filho morreu. pegou ele. pegou a doença. não acreditava nessas coisas. menino novo. ruim de escola, mas bom filho. mais ou menos trabalhador. a televisão era ligada. sempre. mal se podia pensar com todo esse barulho. homem dos infernos. ela mesmo me disse. os hospitais estavam abarrotados. uma cara de fim de festa nas salas dos hospitais do país inteiro. não tinha sobrado nada. e seu filho morreu na esquina. misturando um último suspiro, como se tragasse o resquício do cigarro aceso há muito tempo. era sua derradeira força. a busca pelo último ar. estranho. esse negócio rouba o ar da gente é? como pode uma coisa dessa? já vou. está no fogo. no fogo, homem. como pode uma coisa dessa? um homem desse. meu deus. ela me explicou: o filho tentava ir pra casa depois de ter seu atendimento recusado. era só ter escutado o menino. mas que diabo de hospital. a enfermeira disse que não tinha como. que coisa mais estranha. como um hospital pode não atender? o menino se irritou. puxou meire pelos braços e atravessou a sala de atendimento com ódio. bravo demais. passou pelos corredores sujos. foi em direção às ruas. antes de colocar o pé na recepção, o ar acabou. teve sorte de andar mais alguns passos até a esquina. caiu. isso meire contando. achei uma coisa esquisita. meire não ia inventar uma história dessa. os mortos. eles não estão mais fazendo exames para saber a causa da morte. a morte. o que seria mais uma morte? todos estão indo. meire me disse mais uma coisa. mas essa televisão não me deixa pesar. meu deus. homem dos infernos. ela não me deixa pensar em mais nada. é enlouquecedor. ainda dói. homem dos infernos. ainda dói aquele da última vez. no banho, quando a água bateu no meu rosto, ainda senti o formato do tapa. o formato do tapa ainda está na minha cara, não é nada engraçado. desgraçado. mas você ria. caralho. eles não estão mais fazendo os exames. as pessoas estão morrendo. as mortes no país. não tem mais ninguém nas ruas. no fogo. a comida está no fogo. tudo que preciso está no meu bolso. vai, minha filha. anda com isso. puta que pariu, que barulho. que merda de barulho. que merda de homem. que merda de vida. pega, menina. dança. lembro que tinha dança. a gente se conheceu durante uma dança. isso. puxa. puxa. joga na mesa. o filho de meire era ruim na escola, mas bom menino. já foram oito vezes. homem dos infernos. oito vezes, no mesmo lugar, que barulho. as mortes hoje subiram ainda mais. o país já nem existe. como podem não ter atendido com o menino dentro de um hospital. com o menino dentro da porra de um hospital, manifestantes tomaram as ruas nesta quinta-feira pedindo o fim do isolamento. a volta do comércio. a vida normal. manifestantes. não estão mais fazendo exames. as pessoas morrem, mulher. elas morrem e eles agora nem querem mais saber a causa. manda pra cova. perfeito. isso. manda. pega. agora pega o outro. o outro. estou velha. pega o outro. joga na mesa. que barulho é esse? o jornal acabou. ele vai levantar. anda. pega o prato, a colher, o feijão, o chumbinho, o apontador, raspa o chumbinho, joga o arroz, a carne. ele se levanta. aponta o chumbinho, empurra ele. joga mais pra dentro. afunda. afunda no apontador com o lápis. acabou o jornal. lá vem ele. um minuto. acaba de ficar pronto. vou tirar do fogo. agora mesmo. voltou. aponta o chumbinho. larga o lápis. aponta. mistura. da pra ele. volta. aponta o lápis. aponta. homem dos infernos. come tudo. você não passa de um número. agora.

aponta. aponta. aponta o lápis. assiste a derrota do país. acalme-se:

a novela já vai começar.

Danilo Brandão (23 anos) é redator publicitário e jornalista. Publicou recentemente seu primeiro livro de contos Os minutos que me restam (BAR Editora, 2020). Além disso, tem textos publicados em revistas, sites e portais de literatura.

sem olhar a quem, de Neno Moura

Saiu eu e o Doca pra manifestação. Ele veio aqui em casa uma hora antes e a gente matou o tempo vendo uns bandido se foder no Youtube. Taí uma coisa que faz o meu dia passar voando, assistir uns filho da puta se dando mal. Melhor que cinema. É o tal negócio, quando a presa tá armada, o predador dorme com fome.

A gente ia saindo e o Doca pra mim não preparou nenhum cartaz, nada? Eu virei pra ele e ele já foi se encolhendo. Que cartaz o quê cara, tu acha que a gente vai ficar que nem duas bicha segurando cartazinho, tipo programa da Xuxa? a gente vai com a cara e com a coragem porra, meu cartaz é essa camiseta aqui, relaxa que lá vai ter cartaz, faixa, essa porra toda. O Doca é meio lerdo, mas tem boa índole.

Lá não tava como eu esperava. Tinha menos do que o anunciado, mas a gente sabe que o trabalho é de formiga. Juntando com o resto do país dava uma cacetada de gente. Tinha uma faixa grandona que o pessoal abria quando fechava o sinal. Isso incomodou um bocado de comunista e teve uns que quase saíro na mão, mas o pessoal deu uma segurada porque sabe que isso queima o filme. O Carlos Alberto comandava o pessoal dizendo calma que vai chegar a hora deles. Ele é o cabeça do grupo. Esse cara é mito.

Eu desde a hora que cheguei fiquei cismado com um negócio que ninguém tinha notado. Eu conhecia quase todo mundo que tava ali, se não pessoalmente, pelo zap, mas tinha um que eu nunca tinha visto, nem nos outros dias nem no grupo. O cara tava sozinho, sem cartaz, sem nada, só filmando com o celular na mão, tava de calça verde e jaqueta, mas de camisa vermelha por baixo. Era o único ali de camisa vermelha. Ninguém mais tava de camisa vermelha. Não que não possa, mas é uma questão de bom senso caralho!. Isso que eu vou falar não tem nada a ver, mas o cara ainda por cima era preto. Tipo, tem uns meio preto no grupo e tudo, qualquer um pode fazer parte, desde que feche com as nossas ideia, mas ali era o único preto-preto mesmo. Tem um monte de misturado ali, essa putaria que é o Brasil, né? o Doca até tem cabelo ruim, isso aí não tem nada a ver, mas eu fiquei cuidando, o cara tinha todo jeito de infiltrado.

Eu cutuquei o Doca e disse se liga naquele cara ali, estranho né? O Doca entortou a boca pra baixo, como ele faz sempre que não sabe o que pensar. O bicho é devagar, mas eu dou um tranco e ele pega. A partir daí eu não me liguei mais na manifestação, fiquei só de olho no negão. Lá pelas tantas, anoitecendo, o cara guardou o celular no bolso e foi se afastando do grupo, sem se despedir de ninguém nem nada. Parou na faixa pra atravessar a rua. Quando a luz de pedestre abriu eu chamei ô Doca, vamo atrás do cara.

Chegamo na faixa bem na hora que fechou o sinal pra gente. Beleza, deixa o cara tomar distância. Doca, abre a mochila aí e vê o que tem dentro. Ele abriu e meio que se espantou. Eu disse é só pra defesa, enquanto não tem porte de arma nessa porra. Abriu o sinal. O negão já ia dobrando a esquina falando no celular. Eu disse apura Doca. O cara virou a esquina e entrou pelo lado do carona num carro estacionado. A gente parou e ficou esperando o carro arrancar. Não arrancou. Tinha outro cara no volante. Eles ficaro ali um tempo conversando, de repente se abraçaro e não se soltaro mais. Puta que pariu, Doca! O negão ainda por cima é viado! Aí é que me deu um nojo daquele cara, deu vontade de ir pra cima e tirar os dois do carro na porrada. Mas aí o viado saiu e o carro arrancou. Eu falei pro Doca, vamo tirar a limpo isso daí.

Ele tava passando na frente de um recuo onde tinha a lixeira de um prédio. A gente apressou o passo e chegou logo atrás dele, daí eu chamei ô parceiro! Ele se virou, eu perguntei o que ele tava fazendo lá na manifestação. Ele disse que tava só acompanhando e eu disse e tu foi lá de camisa vermelha só pra provocar. Ele disse nada a ver cara, e eu não me chama de cara que tu nem me conhece. Ele disse calma amigo, e foi botando a mão no meu ombro. Eu disse calma é o caralho! tu não sabe que preto não põe a mão em branco? e abri a testa dele com um soco que chegou a doer a minha mão. Ele caiu desnorteado e eu tirei o cassetete da mochila e já fui descendo a porrada na cabeça, na perna, nas costas, na costela, onde dava eu acertava. Nisso o cara já tava que nem um boneco no chão, eu disse pro Doca vamo comer o cu desse negão. O Doca já ia tirando a calça do cara! O Doca tem problema na cabeça, só pode. Eu disse ô Doca, tá maluco ou tu é viado? ainda se fosse cu de branco, mas vira ele aí que eu vou enfiar o cassetete no cu dele. Aí eu só empurrei o cacete na bunda dele, por cima da calça mesmo, que eu não tava a fim de sujar de merda. Falei pro Doca vamo parar com essa porra que ele pode se apaixonar, e a gente riu pra caralho. Eu dei mais umas bicuda na costela dele, e ele nada, tava desmaiado ou sei lá o quê. Eu puxei o Doca e disse chega, vãobora. Quando a gente se afastou o Doca falou que ele parecia um saco de lixo lá jogado no chão. Eu disse é Doca, um saco de lixo preto. E o Doca riu. Eu tava orgulhoso. A gente fez a coisa certa.

Neno Moura nasceu em Florianópolis em 1983. Ele mesmo é quem se apresenta aqui, mas finge que é outra pessoa. Finge que é músico para não trabalhar. Finge que trabalha para se ocupar. Finge que se ocupa para não pensar. Neno Moura não é escritor.

Tem textos publicados em Jornal RelevO, Revista Libertinagem, Revista Gueto e Jornal Ô Catarina!. Tem doze títulos para um livro de contos que não publicará. Escreve (e apaga) esporadicamente no blogue Palavra Provisória. Pelo selo editorial da revista Gueto publicou o e-book lagoa miúda, livro dezesseis da coleção #breves.