reforma, de Tiago Germano

Meu avô costumava dizer que ter saúde era ter capacidade para trabalhar. Era o mote que repetia quando caiu do telhado e como que por milagre se safou, sem fraturar nenhum osso. Tinha setenta e nove anos e tentava consertar uma goteira da sala. Sentiu os pingos escorrerem pela aba do boné, assim que parou para assistir ao jornal. Todas as noites, por uma hora ou pelo quanto durassem as notícias, se espichava em sua espreguiçadeira para acompanhá-las. Deixava suas costas se afundarem no tecido da cadeira e colava os joelhos no peito, agachando-se com os pés apoiados na armação. Os braços envolviam as canelas, finas como as de um sabiá. Nas noites de frio, se enrolava numa manta e ficava ali todo embrulhadinho, parecendo o fantasma de uma criança. Nós comíamos na mesa enquanto ele jantava naquela posição, que não parecia muito confortável para alguém da sua idade. Ríamos constrangidos quando ele peidava e soltava um aboio para disfarçar o barulho. “Velho frouxo”, resmungava minha avó. Ele levantava para deixar o prato na cozinha, se agachava mais três vezes e dizia com orgulho: “Pelos menos minhas juntas são melhores que as suas”.

Depois do acidente, ficamos de olho nele. O velho subiu ao telhado outra vez, com a ajuda de uma escada que ele mesmo construiu e escondia no quintal, entre galhos e pedaços de madeira. Desta vez, manteve o equilíbrio e caminhou até a casa vizinha, que era sua mas que estava alugada há meses. Seu objetivo era destelhar o teto e intimidar o inquilino, que segundo ele atrasara o pagamento do aluguel. Antes disso, já havia tirado a porta, cuja chave ainda mantinha guardada. Por sorte, não choveu. Os móveis do inquilino não foram roubados e o caso não foi parar na delegacia.

Mais ou menos por essa época, começou a nutrir um ciúme insano de minha avó. Ela ia com frequência à igreja e não aguentava mais as bravatas do velho, que passara a estranhar sua ausência e desconfiar de suas saídas. A gota d’água foi quando minha avó voltou para casa e constatou que meu avô havia mudado a fechadura. “Menos mal”, pensou. “Pelo menos ele não tirou as telhas.” Mas não conseguiu manter o humor quando meu avô passou a gritar seus impropérios da janela e a insinuar que ela não estava indo à missa coisíssima nenhuma, ao menos não para ouvir o que o padre tinha a dizer. Mudou-se para a casa de uma das filhas e jurou que, enquanto vivesse, jamais colocaria os pés naquela casa.

Passaram anos sem se ver. Anos em que meu avô se distraiu assistindo sozinho ao jornal e trabalhando em sucessivas reformas na casa. Na última, que começou depois que o inquilino enfim quitou suas dívidas e se mudou, decidiu derrubar a parede do banheiro que era usado pela minha avó e incorporá-lo à casa vizinha. Concluído o projeto, não conseguiu voltar a alugar a casa. Todos que a visitavam reclamavam do banheiro cuja entrada dava direto no box, bem embaixo do chuveiro. Meu avô sentava-se na tampa do vaso, cruzava as pernas, olhava para a porta e não conseguia entender o problema.

Um dia viajou para o Sertão e, como sempre fazia, voltou com o carro carregado de frutas. Visitava cada uma das filhas, e a cada uma presenteava com um tacho. Nesta altura minha avó já morava sozinha e, numa passada por sua casa, alguém descobriu um tacho dessas frutas escondido na cozinha, abrindo a cortina do armário de panelas. Nenhuma das filhas havia levado as frutas para lá. Desconfiamos assim que ela também podia ter recebido a visita de meu avô. Que eles talvez estivessem se reaproximando, sem revelar nada a ninguém.

Minha avó cumpriu o prometido e jamais pôs os pés de volta na casa do meu avô. Na última noite antes de ele ser transferido para o hospital, recebemos uma ligação muito estranha da parte dela, preocupada. Meu avô havia batido em sua porta e pedido para dormir lá. Dizia que não conseguia pregar os olhos com a casa cheia de mortos. Fomos até lá no outro dia e o descobrimos quieto na espreguiçadeira, um prato vazio em cima da mesa e a televisão ligada no mudo, fora do horário do jornal.

No leito, antes de morrer, suas pernas se dobravam naquela mesma posição e era impossível ver os seus cambitos, cobertos com a manta do hospital. Parecia ainda o fantasma de um menino, embora tivessem tirado o seu boné e seu fino topete insistisse em se erguer orgulhoso, mantendo-se sempre de pé.

Ajudei-o duas vezes a ir ao banheiro. Nas duas, agradeci imensamente o fato de a porta dar direto no vaso e não no box.

Tiago Germano é autor do romance A Mulher Faminta (Ed. Moinhos, 2018) e do livro de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), indicado ao Prêmio Jabuti.

ato final, de Lourença Lou

Com o rosto entre as mãos, sentou-se aos pés da cama. Finalmente tomara a decisão. Nunca mais veria o armário ser esvaziado. Nunca mais a solidão invadiria lençóis amarrando-o aos dias vazios. Havia se rendido a ela. Aceitou sua volta em silêncio. Como das outras vezes. Como se as longas ausências não tivessem estraçalhado com sua autoestima e definitivamente o transformado num arremedo de si mesmo, num monte de medos. Aceitou sua volta escondendo o quanto a queria. O quanto suas mãos precisavam fechar-se em volta dela. Suas mãos sempre foram instrumentos do prazer da mulher. Os gemidos dela faziam sua boca secar e o sexo doer, enquanto permanecia mudo, covardemente mudo. Excitava-se com a excitação dela. Mesmo quando se negava a ele. Quantas vezes ele tivera que se satisfazer tocando-se, tocando-se, enquanto a olhava masturbar-se e gritava o nome de outro. Feri-lo era o maior prazer dela. Era seu capricho transformá-lo naquele monte de merda que boiava nas águas do sofrimento e da castidade que lhe impunha. Não se arrependia de ter-lhe feito todos os caprichos. Mas chegara ao limite, aquela tênue linha que separa a sanidade do nonsense. Uma linha que ele esticara diversas vezes até tê-la arrebentada, trazendo-lhe de volta o orgulho. Ela fora sua única mulher. Única. Sofreu com os mistérios que a cercavam, mas sabia que para tê-la tinha que aceitar aquela ferida aberta sangrando diariamente seu amor-próprio. Tinha que engolir os silêncios que respondiam suas perguntas. Tinha que continuar vomitando escondido o fel do ciúme. Ao acordar, existia sempre aquela boca ao lado da sua. Aqueles seios arrogantes a ditar-lhe ordens. E ele, vassalo, tirando-a dos sonhos com a língua em seu corpo. Invariavelmente, ela lhe agarrava os cabelos até arrancar-lhe um grito de dor. Cuspindo-lhe insultos, fechava-lhe as pernas e mandava-o se masturbar. A raiva fazia seu sexo doer. Em movimentos fortes e rápidos, ele esvaziava-se daquele sêmen covarde, lambuzando barriga, coxas e pernas da mulher. O prazer da vingança durava até ela exigir que a limpasse com lambidas rápidas. Ele sentia seu próprio gosto e a humilhação devassava o que lhe restava de respeito próprio. Depois deitava-se ao seu lado. Era o que importava. Fechava os olhos e inspirava sua respiração. Alimentava-se da esperança de cada dia que nascia nela. Até que, enfastiada, empurrava-o para o chão e se vestia para outras vidas. Também não se arrependia agora do ato final. Estavam ambos descansados daquela inquietude que fazia da mulher um frio algoz, o que levava seu coração a espremer-se no peito. Outra despedida ele não suportaria. Não mais a imaginaria dividindo lençóis, somando bocas, multiplicando gozos. Não mais se sentiria morrendo, lenta e dolorosamente, naquelas incontáveis horas de espera. De agora em diante, seguiriam separados. Não por obra da vontade dela, mas pela indestrutível necessidade dele. Deu uma última olhada no vermelho que escorria aos seus pés. Finalmente dormiriam sob o mesmo teto. Ela debaixo dele, como nunca estivera. E ele a caminho do inferno.

| conto inédito do livro O lado oculto do amor e outros contos (no prelo). |

Lourença Lou é mineira, de Belo Horizonte. Cursou Letras na UFMG e se especializou em Administração Escolar. Após mais de vinte anos de carreira acadêmica, voltou-se para o mercado empresarial. Entretanto, continuou escrevendo. Participou de inúmeras antologias, de sites e revistas literárias, nos quais teve publicados contos, crônicas e poesia. Publicou, pela Editora Penalux, os livros de poesia Equilibrista, Pontiaguda e Náufraga. Ainda este ano, lançará o livro O lado Oculto do amor e outros contos, com foco no universo feminino.

“You know me, I don´t… but who cares?”, de Ana Célia de Mendonça Goda

You know me, I don´t… but who cares? You, me, you, me, yummy. I don… Trombou com o carrinho ali depois da porta, apinhado e atrevido nas quatro rodas [nem deu pra ela contar os dois passos tão ensaiados]. Alguns livros caíram. Desastre total. Logo de cara [e olha que ela tinha preparado tudo pra se encontrar com ele na biblioteca: a música a roupa a entrada perfeita]. A sua vergonha ocupou toda a sala e ela se abaixou rápido para pegá-los, enrolando-se como um caracol de capuz. De joelhos olhou em volta da sala estranhamente mal iluminada, então percebeu que estava sozinha.

Who, who, who cares? Espiando os títulos [Ossos do Ofídio, Carne Quebrada, Crepúsculo], catou os livros com a mão direita e os enterrou no único vão da parte de baixo do carro. Com a esquerda puxou os fones enquanto se levantava.

Não soubesse da greve de ônibus, que havia impedido a vinda da maior parte dos funcionários e alunos [ela veio de bicicleta], teria se assustado com o silêncio escorrendo seus olhos por entre os livros das estantes. Sentiu-se até um pouco sépia, tomada por esses outros olhos que não os de cão de guarda por trás da escrivaninha da bibliotecária. De súbito se dando conta da lombada sólida de dicionário daquela mulher, sempre costurada em tranças na cadeira.

Balançando os braços e os cabelos [Será que ele vem mesmo?] recobrou o controle, recolocou os fones e escolheu o computador mais isolado, o último da fileira — ele chegaria a qualquer momento.

You know me, I don´t… but who cares? You, me, you, me, yummy. Conversou com a melhor amiga, que desconectou de repente porque a mãe entrou no quarto [era pra ela estar estudando].

Entrou num blog de beleza, pegou uns toques de maquiagem para o próximo encontro, aprendeu a amarrar um lenço de um jeito diferente [ela nunca tinha usado lenço]. Depois, como estava muito ansiosa porque causa do atraso dele, entrou no blog do seu comediante favorito para relaxar.

Funcionou. O vídeo do cara reclamando da operadora de telefonia era hilário [ela não sabia que o correto era “hilariante”]. Ali ela descontraiu; viu o rosto da mãe no lugar do dele, já tinha visto isso se passar com ela várias vezes, e riu pra caramba da cara dela.

Se ele tivesse tocado primeiro em seu pescoço, ela teria levado o maior susto. Mas ele puxou os cabelos enrolados dela para trás, como costumavam fazer nas longas sessões de beijo. Ela imediatamente soltou o teclado e colocou as mãos sobre as dele, reconhecendo o anel de caveira que tinha lhe dado de presente. Ele percorreu os dedos com leveza por todo o pescoço, o colo dela sardento de desejo e os olhos fechados apenas para sentir.

Bem devagar, ele desceu a mão esquerda por dentro do sutiã e foi nos suspiros daquela biblioteca com ares de câmara secreta que o seu mamilo perdeu a virgindade. De tanto prazer, quis ver o rosto do seu amor, mas antes mesmo que se virasse, estarreceu com o reflexo estampado na tela.

— Se você não vai ser minha, dele nem pensar — disse o irmão gêmeo, sufocando-a com as mãos duras de inveja desde a infância. — Ele sempre roubou tudo de mim.

Ana Célia de Mendonça Goda é graduada e licenciada em Letras pela PUC-SP, 1989. Pós-graduada em Administração e Organização de Eventos pelo SENAC-SP, 1994, e pós-graduada em Formação de Escritor — núcleo ficção pelo ISE Vera Cruz, 2017. Trabalhou para diversas organizações e casas editorias, entre elas o Círculo do Livro (como revisora e editora-assistente) e a Editora Melhoramentos (como editora e gerente editorial, de 1996 a 2013). Atualmente atua como freelancer, escrevendo, editando, ensinando etc.

a primeira aranha, de Henrique Balbi

Os gritos já tinham cessado quando os meninos, esgueirando-se, chegaram à beira do buraco.

Era a sétima noite que ela estava lá embaixo, mas a primeira em que sua voz não montava no vento úmido e subia rasgando o ar da fazenda adormecida. Diziam que lá em cima a sinhá não conseguia dormir, que quando pregava o olho logo vinha o lamento a gorar os sonhos. Diziam que o grito era contagioso, porque os gêmeos acordavam em seguida, gritando também. Só quem dormia a sono solto, um sono bruto e oco, era o senhor.

Os meninos chegaram de mãos dadas, caminhando pela mata. Não ousavam nem sussurrar. Teriam chegado bem antes, se não tivessem vindo devagar, calculando cada passo, pisando sempre em mato fofo, pé ante pé. Não podia ter barulho, ao menos nenhum barulho grande — o chiado da grama até que tudo bem, pois era fácil confundir com uma paca, ou um desses bichos miúdos que aproveitam o frescor da noite e o sono da fazenda para andar. Os meninos sabiam como era: agora, aproveitavam eles mesmos as horas de guarda baixa, as horas vesgas dos sentinelas.

Tinham caminhado bastante. O buraco ficava longe, meia légua antes do rio. Diziam que de propósito, para os castigados terem medo de ficar lá até e durante os meses de cheia. Os meninos mal conseguiam imaginar o terror de estar no fundo do chão e começar a chover. Se fosse tempestade de trovão, era pior ainda: os primeiros a se afogar eram os gritos.

A última chuva, ainda bem, havia sido há duas missas. É verdade que isso aliviava um pouco para ela, lá embaixo, mas não ajudava em mais nada: sozinha, já quase sem voz, as costas laceradas, talvez com uma perna quebrada na queda. Tinham dito para os meninos que gritos trazem várias cores de dor. Ela parecia estar com um arco-íris delas, pelo som que vinha da goela da terra.

Ao ouvir isso, um dos meninos, o mais velho, não pôde dormir. A cabeça parecia alternar, ali dentro, dia e noite, tão rápido quanto um rio bravo. Às vezes ele via para trás: ele e os outros dois no colo dela, ou sentados em roda perto dela, ouvindo os relatos cantados com o sol a pino. Outras vezes ele via para frente: quatro sombras à beira do buraco, a primeira noite de lua nova, o gargarejo da água bem baixinho. Teve certeza de que não eram sonhos na manhã seguinte, porque conseguiu segurar consigo a visão, que escapava, mas não se esfumaçava — o que revia e o que previa eram todas lembranças, por mais esquisito que fosse uma lembrança ainda não acontecida.

O menino levou os dias e noites seguintes para contar e convencer os outros dois de que ela só sairia de lá de baixo com a ajuda deles. Os dois relutaram. Primeiro, acharam impossível: o buraco era fundo, eles fracos, a escuridão feroz. Mas estava plantada a semente de ideia, que começou a brotar naquela mesma noite, regada a gritos. Depois, eles acharam difícil: o buraco era longe, eles lerdos, a escuridão larga. O menino aceitou as razões, mas não a conclusão. Bolou um plano de ida e um de volta. Na terceira conversa, mostrou aos outros o que tinha pensado — eles, por sua vez, acharam possível, apesar do buraco, deles e da escuridão. As últimas resistências foram vencidas no quinto dia, quando disseram que a sinhá mandara não mais descer comida para o buraco — quem sabe assim não se fazia algum silêncio enfim?

Isso precipitou os planos dos meninos, mas não os desanimou. Foram. De mãos dadas, mas foram. Pisando leve e lento, mas foram. Morrendo de medo de onça e de chibata, mas foram. Depois de muita andança, pensaram que a noite acabaria antes do caminho, de tão longa a picada mato adentro.

Afinal chegaram. Na beira do buraco, o menino mais velho encarou o escuro do poço e se abismou: antes já era difícil ver alguma coisa, agora ali só via coisa alguma. Seus olhos e os dos outros dois, depois de muita noite, tinham se acostumado às beiras difusas dos objetos, aos contornos mais adivinhados do que distinguidos, mas ali o costume de nada adiantava — era uma escuridão mais grossa que a sombra da lua nova.

O menino mais velho sussurrou o nome da segunda mãe, mas não veio resposta.

Um dos outros meninos disse que talvez ela estivesse dormindo. Os três, então, chamaram juntos, sussurrando em sincronia, para ver se ela acordava.

Não escutaram nada de volta.

Resolveram aumentar o volume. Chamaram o nome de batismo dela, chamaram o outro nome dela — o de verdade, o nome profundo, que os brancos nunca saberiam — e até, mais por eles do que por ela, cantaram uma cena de um relato dela.

Era a história da primeira aranha, que roubou da baba de um touro o segredo de tecer. Ela o ensinou aos filhotes e, sabendo que o touro viria se vingar dela, teceu três teias: uma pequena, que os alimentaria; uma média, que prenderia o touro; e uma grande, por onde fugir.

A menor deu certo, tanto que toda aranha sabe tecer. A média deu errado, porque na sua fúria o touro a arrebentou, arrebatando a primeira aranha junto, pisoteada na confusão. A maior não se sabe no que deu, quer dizer, quem souber cantar a história acaba deduzindo: deu no céu. Cada estrela é um nó da teia da primeira aranha.

Não havendo nenhuma resposta, o menino mais velho se encheu de coragem e resolveu prosseguir com o plano, do mesmo jeito. Pediu que os outros dois lhe dessem os trapos que tinham juntado, amarrados uns aos outros numa longa corda. Prendeu uma ponta numa árvore ali perto e a outra ao redor do peito, debaixo dos braços. Desceu pelo buraco, metendo-se bem no centro do obscuro. Desceu o mais devagar que conseguiu. Se pudesse, roubaria um vaga-lume para usar de lampião.

Ao chegar no chão sob o chão, ele chamou mais uma vez a segunda mãe. Nada. Caminhou pelo buraco, também calculando cada passo. Agachou-se, tateou a terra. Deu duas, três voltas por ali. Era como se nunca ninguém não tivesse ficado ali.

Daí, o menino mais velho começou a subir. Os outros dois o ajudaram. Ali, na beira do buraco, sem ela, os três ficaram com a mesma cara de surpresa que, no dia seguinte, contagiou o resto da fazenda: como assim, onde ela tinha ido parar? Nada? Nenhum sinal? Nem um trapo, uma marca, um fio de cabelo? As versões se espalharam: fugida, raptada, escondida, abandonada, morta, encantada. Mas no fundo nada explicava.

O menino mais velho muito menos. A princípio, lá embaixo, ele ficou aflito, achando que era tarde demais. Depois, desconfiou. No fim, deixou estar: agarrou firme na corda de trapos, pôs-se a subir de volta, quase escalando. Ia com o olhar fixo na boca do buraco, que parecia uma janela para o céu.

Nela despontavam um punhado de estrelas, alumiando o domingo que nascia.

Henrique Balbi é escritor, professor e jornalista. Nasceu em São Paulo, em 1992, mas morou em Botucatu (SP) até 2011, quando voltou à capital para estudar jornalismo na ECA-USP. Em 2014, estagiou no núcleo de revistas da Folha de S.Paulo, mas preferiu os caminhos da literatura: trabalha atualmente como assistente de ensino no Anglo Vestibulares e, em 2017, concluiu um mestrado no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), com foco na obra de Fernando Sabino. Além disso, entre 2013 e 2017 escreveu para o site Salada de Cinema, onde publicava a “Cine-Remix”, coluna que misturava enredos, gêneros e temas de filmes.

o mais novo discreto charme da burguesia, de Dirce Waltrick do Amarante

Formei-me em jornalismo, sem falar inglês, espanhol ou francês; então, para não morrer de fome, aceitei o primeiro emprego que apareceu e foi justamente na Sociedade dos Gourmands da minha cidade natal.

Minha função era fotografar as festas e fazer um dossiê anual dos encontros. Pagavam bem (bem mal), e eu ainda bebia champagne de primeira e ganhava uns agradinhos das senhoras socialites do grupo. Perdoem-me os vocábulos em língua estrangeira, mas é cacoete, os membros gourmands pediam para eu usar estrangeirismos nos dossiês, para ficar mais chic.

O fato é que todos os homens eram chamados de chef e, em dias festivos, carregavam no pescoço uma medalha, o que os deixavam parecidos com vacas suíças com sininhos pendurados. Bom, eram chefs mas não cozinhavam coisa alguma. Para todos os encontros contratavam a mesma cozinheira, que fazia sempre os mesmos pratos, os quais, contudo, eram nomeados de forma diferente a cada reunião: um simples arroz com feijão virava “cassoulet” e uma simples galinhada virava coq au vin e assim por diante. Até o brigadeiro, com outra roupagem e uma gota de conhaque, ganhava os nomes mais estapafúrdios.

Mas minha função não era reflexiva, era apenas registrar momentos, descrever esses cardápios alucinados e revelar os talentos dos membros do grupo. Daí soltava a imaginação, dava título de mestrado para um, título de doutorado para outro. Aqueles que não passavam de jeito nenhum por mestres ou doutores ganhavam o título de conde, embaixador ou presidente.

O mais interessante desse grupo “heterogenicamente” homogêneo é que todos se achavam da elite e se consideravam ricos, ainda que muitos não tivessem onde cair mortos — estavam no grupo porque um dia foram ricos ou porque mantinham a pose… Sim, a pose era o mais importante, a pose e as convicções políticas e econômicas, que tinham que combinar com as da elite.

Num dos dossiês que escrevi, tive que fazer uma breve entrevista com cada um dos membros do grupo. Elaborei perguntas simples, do tipo: “Onde nasceu?”, “Desde quando pertence ao grupo?”

As respostas foram as mais estapafúrdias: sobre o local de nascimento, por exemplo, uns iam lá atrás até parar no tataravô, um alemão, suíço, italiano… e, por isso, concluíam que de fato tinham nascido na Europa e não numa cidade qualquer do interior do estado.

Outras perguntas ficavam sem resposta, mas isso não importava, pois eles nunca liam os textos, liam palavras soltas como “doutor”, “emérito”, “sumidade”, e olhavam as imagens e, se elas estivessem bonitas, ficavam satisfeitos.

Hoje continuo trabalhando na Sociedade dos Gourmands, mas ando tão cansada dessa gente que decidi criticá-la nos textos dos dossiês usando metáforas. Já estou no quinto dossiê e até agora ninguém percebeu (ou entendeu) o teor dos meus textos… Seguem olhando só as figurinhas e procurando adjetivos positivos que, sem juntar alhos com bugalhos, acreditam fazer deferência a eles.

Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, escritora e professora da UFSC.

a demasia dos meus despudores, de Thiago Medeiros

Espreitava pelo gramado com a mão em concha na orelha, a outra suspensa e espalmada abanando um pedido de silêncio. Fui o único a acompanhá-lo.

— Preste atenção. Vai fazer de novo.

Pouco antes insistia que saíssemos para ouvir. Alguém revirou os olhos. Uma das filhas foi a primeira a não dar discrição a um suspiro.

— Agora. Ouviu?

Não. Nada além das ondas duas ruas abaixo. Quis olhar para o céu, noite clara de estrelas renitentes, mas um pudor respeitoso ao velho mantinha meus olhos na grama.

— Realmente é muito baixo. Pare de andar. Esse arrastado do chinelo atrapalha.

Havia saltado no meio de todo mundo agitando os braços. Aqui é perigoso. Minha mãe, mais para um coice que um pergunta, soltou um de novo, papai, e ele repetindo que se duvidavam viessem ouvir. Aquele primo, que aparecia uma vez por ano, se permitia rir e perguntar se o velho não era homem. Todos continuaram colados às cadeiras, só o meu avô rodando no meio, naquela ladainha de venham ouvir, venham ouvir.

Abandonei um colo qualquer. Tudo o que me parecia fazer sentido ao longo de quase uma década de existência se resumia a provar que não tinha medo. Até a voz engrossei, quase uma declamação, ao afirmar vou com você, vovô.

Meu pai foi o primeiro a estourar com um olha aí, olha aí, o menino se impressiona com tudo, e esse velho não ajuda. Não era um discurso à distinta plateia. Ainda que se espalhasse pela sala, crescendo e inchando, tapando a todos do lugar, era para minha mãe que se dirigia, enquanto ela dizia o amuado de sempre. Deixa o menino, homem. Deixa o menino.

E foi assim que saímos. Ele à frente, numa tocaia silenciosa, aguçando os ouvidos calejados — qualquer conversa com ele era gritada — em busca do que ninguém mais se dava ao trabalho de ouvir.

— Ela faz sempre, preste atenção.

Caçávamos cobras.

Ouvia os chocalhos do mar, mas esperava outros serpenteios. Um rastejo, as maracas frenéticas de uma cascavel em bote.

— Ouviu?

Vi uma naja num filme. Chiava o som de uma onda que não deixava morrer o fervilhar da espuma das bordas. Estava pronto para dizer que era apenas o mar.

— Agora. Escutou o piado?

Não. Não ouvi. Sequer sabia que cobras piassem.

O velho tremia agarrado a minha mão, com a boca despencada. Não precisava falar. Reverberava junto ao vento a insistência da pergunta; ouviu? ouviu?

— Ouvi, sim.

Contemplei sua falta de dentes. Os dedos afrouxaram minha mão. Voltou para espalhar o triunfo.

— Viram aí. O menino também ouviu. Tem cobra por aqui. Posso dormir tranquilo.

Fiquei da entrada acompanhando o caminho do velho. Todos me encaravam. Eu massageava a mão dolorida do desespero do meu avô. Vi alguém balançar a cabeça e me antecipei.

— Ouvi, sim.

Meu pai descruzou os braços e veio até onde eu estava. Ajoelhou-se e disse, não minta.

— Eu ouvi o piado da cobra.

Ouvíamos o cochicho sem fim que vinha do mar, duas ruas abaixo. Latejava uma veia na têmpora úmida do homem. Não minta.

— É fino. Faz até música.

Agarrou meus ombros finos e apertou. Não se mente ao pai.

— Ouvi muito. Lembra um canário.

Minha mãe se levantou, sempre com o seu deixa o menino murcho. Ele rosnou que as coisas não eram assim.

Apertou ainda mais meus braços e me lembrou que os olhos de Deus estão em todo lugar e quem mente ao pai mente direto a Deus e que o pai da mentira é o diabo e o mentiroso é filho do diabo e quem se entrega à mentira renega a Deus e ao pai e torrará num lago de enxofre e é maldito diante de pai e mãe e não há nada pior que a maldição de um pai.

— Eram tantos piados que devia ser uma ninhada inteira.

Me arremessou longe e saiu de casa acendendo um cigarro.

Acho que apenas eu respirava. O sangue faltando na cara da minha mãe, numa mísera palidez que parecia não ter fim. Duas tias retorcendo os dedos. O primo que só aparecia uma vez por ano limpando as unhas com um fósforo. Ouvíamos apenas o ronco alto vindo do quarto do meu avô.

Thiago Medeiros é pernambucano de Caruaru. Escritor e produtor cultural, idealizador o Encontro Literário Letras Em Barro, cuja segunda edição foi realizada em outubro de 2018. Participou da Oficina Literária de Raimundo Carrero. Menção Honrosa no II Prêmio Pernambuco de Literatura, com a obra Púrpura, encarnado em escarlate, ainda não publicada. Aguarda o lançamento do seu primeiro livro de contos, Claro é o mundo à minha volta, pela Editora Patuá, ainda sem data definida. Escreve para não esquecer de si mesmo.

a ausência e eu, de Adriano de Andrade

— Já reparou que você sempre mata alguém nas suas histórias? Não entendo essa sua mania ou, sei lá, obsessão com a morte. Às vezes eu tenho medo de você, do que sai da tua mente.

— Meu amor, a morte é um elemento essencial nas minhas histórias. Algo do tipo, minha história só faz sentido quando eu decido matar alguém. E a coisa vai desenrolando, me impulsiona a escrever, nem tanto pela morte em si, mas pelo fato de alterar a trama, criar um clímax, tudo bem, você não entende, já cansei de explicar, não sou obcecado.

Essa conversa eu pude escutar a uma distância segura enquanto o casal folheava um exemplar na seção de Contos e Crônicas. Acredito que o autor seja ele mesmo, pois a discussão era seguida de dedos que percorriam as páginas e a mulher enumerava as mortes em várias partes do livro. Aliás, eu disse que o casal estava na seção de Contos e Crônicas, mas nada indicava esse local. Somente eu sabia disso, porque sou o dono da livraria e organizei os livros dessa forma. Prateleira direita acima, clássicos da literatura estrangeira. Abaixo, autores nacionais. No lado esquerdo, uma mistura de poesia, filosofia e infanto-juvenil. No meio da loja, algumas promoções e outros títulos inclassificáveis. Perto dos fundos, lá estavam contos e crônicas. Já pensei em colocar pequenas placas para orientar meus clientes. Mas não era necessário, eles eram poucos, o espaço não era tão grande e eu estava lá para responder perguntas simples: “O senhor poderia me dizer onde ficam os livros de autoajuda?”, “Clarice Lispector está desse lado ou do outro?”, “Tem alguma bancada só de lançamentos?”.

A primeira coisa que me disseram é que ficava na Galeria Menescal, ocupando uma pequena loja com saída para a Barata Ribeiro. O lugar é antigo, mas você vai gostar, ouvi do testamenteiro tão logo ele meu deu a notícia da herança.

Herdei a livraria do meu pai, que herdou do meu avô, que começou a montar o negócio com alguns exemplares raros que meu bisavô guardava numa pequena biblioteca montada em sua fazenda, isso lá pelos idos de 1900.

Depois de tanto tempo, precisei voltar ao Rio para tocar o negócio. Quando recebi as chaves, a poeira acumulada era proporcional ao tempo em que a livraria permaneceu fechada desde a morte de meu pai. Finas camadas de partículas que viajaram de lugares distantes e se depositaram caprichosamente sobre capas, contracapas, lombadas e folhas, milhares delas. Do pó se recolhe as passagens, o passado, a experiência, os caminhos e as entranhas do que podemos ver, tocar, sentir e, muitas vezes, não podemos evitar. O pó simboliza o início e o fim. Já ouvi isso em algum lugar. Limpar e tirar a sujeira não significa varrer o passado. A poeira e a ausência dela definem os ciclos das coisas que guardamos e das coisas que descartamos.

Foram semanas mergulhado na rotina de desempilhar, organizar, empilhar, enfileirar. Catalogar e classificar eram o último estágio. Por fim, muito trabalho e pouco resultado.

Assim que decidi assumir a livraria, percebi o contraste. A vida agitada dos cariocas não alterava a calmaria dos livros definhando aqui dentro. Uma loja às moscas. A não ser pela Dona Beatriz.

No início, observava aquela senhora e seu cachorro que paravam todos os dias diante da vitrine. Enquanto o cão se preocupava em cheirar a parede e marcar território, a mulher desviava o olhar de mim e buscava mirar qualquer livro que estivesse ao alcance da sua visão. Esse processo não levava mais que dois ou três minutos, mas eu não podia deixar de reparar um misto de melancolia e angústia.

Aos poucos, ela passou a fazer algumas perguntas tímidas que revelavam um gosto apurado pela leitura. Eu procurava atendê-la com atenção, dando alguns palpites, recomendando obras e autores de acordo com o perfil dela. E o interesse criou o hábito de uma cliente fiel.

— Bom dia, Dona Beatriz, o que a senhora vai querer hoje?

— Hoje estou com um pouco de pressa, preciso correr para levar o Tino no oftalmologista, acho que ele está com catarata.

— Veterinário não resolve isso, não, Dona Beatriz?

— O oftalmologista é um veterinário, uma especialização para animais também, agora é assim, na minha época não tinha isso.

Dona Beatriz passava todo dia em frente à livraria, conversava um pouco comigo, esperava até o Tino puxar seu braço pela coleira e se despedia correndo.

Às terças, ela prendia o cachorro à entrada da loja e levava quatro ou cinco livros. Uns eram dicas minhas. Outros ela já dizia o que queria porque havia lido em uma revista especializada.

Adorava os clássicos. Nacionais e internacionais. Mário de Andrade, Erico Verissimo, Jorge Amado, Liev Tolstói, George Orwell, Mark Twain, Gabriel García Márquez.

— Dona Beatriz, que tal Capitães de Areia?

— Ótimo, excelente, de muita sensibilidade.

— Gostou de 1984? Percebeu como a história é atual?

— Ah, sim, muito atual, sem dúvida.

Dia desses ela me pediu a edição especial do Raduan Nassar. Capa dura, comentou. Demorou um mês para chegar, estava em falta na editora.

Os meses se passaram e completei um ano de fiasco na livraria. Decidi que faria uma promoção de aniversário. Uma quinzena inteira de liquidação. Nesse período, Dona Beatriz me disse que não iria aparecer. Acho que ela queria a loja só para si, em dias comuns e vazios.

Depois que terminou a promoção, abri a livraria na segunda-feira e reparei que havia um senhor me aguardando na porta, com um papel em suas mãos e olhando com atenção o letreiro e o interior da loja.

— Bom dia, o senhor conheceu a senhora Beatriz Mendes de Castro e Silva?

— Bem, se for a Dona Beatriz, conheço, ela é minha cliente.

— Lamento informar, mas a senhora Beatriz faleceu na última semana.

— Como assim? Ela estava ótima, passava aqui todos os dias, sempre comprando livros, conversando, levando o Tino para passear.

— O cachorro também veio a óbito.

— Que estranho, não? Eu gostaria de ter dado um último abraço nela, ter ido ao enterro, prestar homenagem.

Ele se identificou como um policial, um investigador, e que estava fazendo algumas verificações na vizinhança sobre a Dona Beatriz, pelas circunstâncias da morte.

— Que circunstâncias?

— Os médicos que a atenderam nos informaram que foi morte natural, mas um exame mais detalhado revelou uma pequena quantidade de um tipo de veneno em seu sangue, ainda não confirmado. Ela estava sozinha em casa, foi encontrada na cama com o cachorro. Aliás, ela morava sozinha, não tinha filhos nem parentes próximos. Conhecia poucas pessoas, e uma delas é você.

O policial se aproximou e perguntou se eu poderia acompanhá-lo até o apartamento de Dona Beatriz, seria importante que eu visse pessoalmente o “cenário”, mas ele não poderia me dizer.

Como ainda era cedo, fechei novamente a livraria e caminhamos até o apartamento dela, que ficava a três quadras da Galeria Menescal.

Ao abrir a porta da sala, o policial cedeu a passagem e ouvi dele um aviso antes de entrar.

— Cuidado onde pisa.

Para minha surpresa, o chão estava forrado de capas de livros, todos encaixados entre si formando um tapete. Eu me abaixei para pegar uma capa de Cem Anos de Solidão quando o policial me segurou pelo braço.

— Não adianta, as capas estão coladas no assoalho de madeira, sem as folhas.

E minha pergunta foi mais do que natural:

— Ela descartou as folhas e fez um carpete de capas de livro?

— Não é só isso, vamos entrar um pouco mais. Ao percorrer o corredor que dava acesso aos quartos, as paredes e o teto estavam cobertos de milhares de folhas arrancadas de todos os livros que ela comprava, coladas uma a uma.

Reconheci todos os autores e livros espalhados pelo apartamento inteiro. A minha livraria desfeita e ao mesmo tempo refeita, uma verdadeira obra de arte. O policial dissera que Dona Beatriz morava sozinha, mas ela não conhecia a solidão. Estava muito bem acompanhada. Lovecraft, Drummond, Cortázar, Hemingway, Machado, Pirandello e tantos outros.

Era desse jeito que Dona Beatriz vivia. Cozinhava inspirada por O Grande Gatsby, dormia vigiada por O estrangeiro e trocava-se diante dos sonetos de Vinícius de Moraes.

Não voltei para a livraria, fui para casa com aquela imagem disforme, a lembrança recente de Dona Beatriz e os meus livros carinhosamente despedaçados.

No dia seguinte, mantive as portas fechadas e apenas organizei o que restava nas estantes por conta da liquidação.

Antes de sair, pendurei um anúncio na frente da loja que dizia: “Vende-se”.

Adriano de Andrade é engenheiro e escritor, e mora em Niterói-RJ. É autor do livro de contos O inverno que não acabou (Editora Novo Século, 2015) e participou de diversas coletâneas, como Contágios, lançada pela Editora Oito e Meio com organização de José Castello. Está no prelo seu segundo livro de contos, A umidade relativa das palavras, que sairá pela Editora Jaguatirica.