nine, de Divanize Carbonieri

Do outro lado da escrivaninha, ouvia a contragosto o homem falar num tom entre calmo e irritado. Poor old man. Na verdade, não. Mr. Stuart tinha apenas quarenta e seis anos. O cabelo grisalho era mais um fator genético, assim como o diabetes e a hipertensão. Pity. Ele estava tão empenhado em ajudá-la. Shame to be so ungrateful. Ela sabia e não queria ser grosseira, mas realmente não se interessava pelo que ele dizia. Já não se importava mais. Life sucks anyway. Com muito estoicismo, suportara os dias de julgamento. Todos aqueles que considerava amigos tinham lhe indicado como a principal responsável. Mentor of crime. Mentor. A new word to be learned. Bullshit! Não tinha colocado revólver na cabeça de ninguém. They did it because they wanted to. Que podia fazer se era a mais inteligente, a única que pensava nos detalhes? Se tivessem agido conforme o combinado, nunca seriam apreendidos. Idiots who messed everything up. Era isso o que eram. E agora tentavam jogar tudo nas suas costas para livrar as próprias peles. Could have done the same? Yeah. Talvez assim também pegasse uma pena mais branda. Mas não era do seu feitio. Never, never a stool pigeon. Preferia enfrentar o pior. Não temia nada. Desde de muito nova, se sentira atraída pelo perigo, pela aventura. No lugar em que nasceu, tal modo de agir era visto como loucura. Demon possession. Tantas vezes tentaram exorcizar os diabos de dentro dela. They and only they were the demons. Queriam que fosse submissa como se esperava de todas as mulheres da comunidade. Mas apanhava como homem. Got beaten all the time. Beaten with sticks, whips, punching, kicking. It never worked. Jamais baixou a crista. Só se fortaleceu. Suportou tudo sem se render até que conseguiu escapar daquele inferno. Desde então, perambulava de um canto a outro, fazendo pequenos furtos no começo. An orange or two, some bread, a drugstore candy. Depois, aprendeu a bater carteiras. Who taught it? Já nem lembrava. Tornou-se a melhor do ramo. Passou a ser respeitada pelos outros delinquentes, todos uns pivetes, como ela. No, older. Pensavam que era mais velha do que eles, e não desmentia. Depois vieram os assaltos às lojas e por fim aos bancos. Big money. A series of successes. Só andava agora com os profissionais, os experimentados na arte de subtrair. Guns and ammunition. Just to frighten folks. Não pensava realmente em matar. Achava que nunca seria necessário. Stupid cops. Não teve o que fazer. Estavam em sua rota de fuga. E daí tudo degringolou. Killing cops is bad for business, everybody knows. A polícia não deu trégua até prender a quadrilha completa. Todos os roubos a bancos da região foram imputados a eles. What a lie! Existiam muitos grupos agindo na localidade. O dela apenas era o melhor. The best. Since always. Mas o que pesou mesmo foi o assassinato dos dois policiais. Seus colegas de farda olhavam para ela com um ódio descomunal. Só não sofreu mais na prisão porque o caso ganhou muita repercussão. All those cameras. Os olhos do país inteiro voltados para o que acontecia naquela comarca. Em algum lugar, de algum modo, um jornalista tinha obtido informações que lançavam dúvidas sobre sua biografia. How he fucking found out? No tribunal, apenas sua declaração fora suficiente. Documentos não existiam, já que as crianças da comunidade nunca eram registradas em cartórios. Homeschooling just to learn to read the Bible and use the hoe. The government couldn’t care less. Quanto mais longe aqueles fanáticos estivessem do resto da sociedade, melhor. Daí não possuía certidão de nascimento nem nada parecido. One just needs to feel they are old enough. That’s what matters. Nobody has anything to do with it. Mas a lei dizia o contrário: era fundamental saber a idade de alguém para poder determinar corretamente a sua sentença. Prisão perpétua apenas para maiores de dezesseis. E punição capital só para quem atingiu pelo menos os dezoito. Se a história contada pelos jornais fosse verdadeira, aquilo seria uma falha gravíssima do judiciário. E pouco importava que ela tivesse mentido porque, nesse caso, era uma mentira que a desfavorecia enormemente. Por essa razão, o juiz e os promotores fugiam da imprensa como se foge de um incêndio, esperando que a poeira baixasse e o que ainda pensavam ser um boato caísse no esquecimento. O defensor público, por outro lado, tinha se entusiasmado com a notícia, um presente caído do céu. Mr. Stuart era um homem generoso e totalmente contrário à pena de morte. Mesmo quando ainda acreditava que o julgamento ocorria dentro da legalidade porque nem imaginava que a ré pudesse ser outra coisa que não uma moça de vinte e um anos, fez de tudo para que o resultado fosse diferente. Agora, então, moveria céus e terras para evitar essa tragédia. Se pudesse comprovar o que diziam as reportagens, ela iria para um reformatório por pouco tempo e depois estaria livre. Uma nova carreira de crimes talvez se iniciasse depois, mas Mr. Stuart pensava que era inaceitável que o Estado assassinasse pessoas. Acreditava mesmo que não podia haver palavra mais adequada: assassinato, tanto pior se autorizado por juízes, legalizado. Dava-lhe asco pensar que muitos conterrâneos achavam isso normal, até desejável. Se pudesse salvar só essa garota, já ficaria feliz. Seria uma satisfação pessoal. Assim, viajou às próprias expensas para o rancho em que ela fora criada. O mais provável é que não existissem mesmo papéis oficiais, mas se conseguisse pelo menos três testemunhas que atestassem a veracidade do fato, a justiça teria que aceitar esses depoimentos como prova. O julgamento seria anulado e ela escaparia da injeção letal. Era justamente sobre o resultado da expedição que falava agora com sua cliente. Relatou que, depois de muitas tentativas malsucedidas, foi capaz de entrevistar o seu pai. Father? Ela estranhou porque, na comunidade, a paternidade não era biológica, mas sociológica, e todos os homens adultos deviam ser respeitados como autoridades paternas, mas sem que nenhum fosse nomeado como tal. Homens e mulheres viviam separados na maior parte do tempo e só podiam manter relações sexuais uma vez por ano, apenas para gerar novos membros. A posse das mulheres alternava-se entre os homens, pois era o líder que decidia de quais deles elas teriam filhos ano a ano. No love. No special treatment. Not even from mothers. Mother was actually another meaningless word. O contato físico era reduzidíssimo, e qualquer deslize acabava punido com surras e mais surras. Mas sabia bem de quem ele estava falando. The greatest demon. The cruelest of all. O homem que tinha inoculado sua progenitora com sêmen, possibilitando que ela fosse concebida. Era também o que parecia ter mais prazer em castigar as mulheres e crianças, sobretudo uma rebelde inveterada como ela. Mr. Stuart se punha agora a descrever como tinha sido o diálogo. You have a wonderful daughter. She had problems with the law, but we can’t turn our backs on her. You shouldn’t turn your back on her. I’d be proud to have such a child. She’s very smart and tenacious. I’m convinced she can be easily reintegrated into society after some years in reformatory. That’s why I came to ask you to testify on her behalf and declare she’s still a minor. We need witnesses to prove it. If you can persuade a few more members of your community, I’m sure your daughter will be saved. Otherwise, she’ll be executed. A resposta não demorou muito. When she left, she ceased to be our daughter. She’s now the daughter of the world. If she can’t be welcomed by the world, she won’t be by us. That bridge was forever burned. Ela riu por dentro da situação. Quase chegava a ouvir aquela voz repulsiva pronunciando tais palavras. So typical of him. Mas ficou aliviada com a recusa porque a última coisa que queria era ver a cara do cão novamente. Se tudo estava, então, resolvido, não entendia por que o advogado continuava insistindo. O esclarecimento veio em seguida. Ele lhe implorou que escrevesse uma carta para sensibilizar o “pai”, lançando mão de argumentos sentimentais para que mudasse de ideia. Que pedisse perdão, que suplicasse por sua ajuda, que se humilhasse. Qualquer esforço valeria a pena. Dessa vez, ela não pôde conter a gargalhada. Mr. Stuart, I thank you very much for all your trouble to help me, but it’s out of question. I’d rather die. If you’ll excuse me, I’m going back to my cell. Levantou-se e seguiu acompanhada pelo guarda corredor a dentro. Duas semanas depois foi levada para uma audiência, algo totalmente inesperado, uma vez que não cabia mais apelação em seu caso. Ao entrar na sala em que estava o juiz, viu seu defensor a postos e, sentadas ao lado dele, três mulheres que conhecia bem, que tinham participado de sua criação. Devia a elas a mesma obediência do que àquela que lhe deu à luz, morta quatro anos depois do seu nascimento. Escrutinou a sala para ver se encontrava algum dos homens também. Era terminantemente proibido que as mulheres da comunidade saíssem da propriedade sem alguma companhia masculina. Permanecer sozinhas numa sala cheia de estranhos era, então, algo inédito. Unthinkable. Certamente receberiam uma sanção bem severa. Talvez até fossem mortas por isso. Never thought they were so brave. Elas vieram para confirmar a sua real idade. Para mostrar que diziam a verdade, tinham reunido uma série de evidências, muitas até desconhecidas dela mesma. A principal era um prontuário hospitalar de cinco anos atrás, quando precisou de atendimento médico depois de ser brutalmente espancada. The straw that broke the camel’s back. Just two months before leaving the ranch. A razão dos ferimentos tinha sido registrada como queda de um cavalo, mas logo acima vinha o seu nome e quantos anos contava na ocasião. Nine.

Divanize Carbonieri é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia Entraves (2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, além da coletânea de contos Passagem estreita (no prelo), selecionada pelo Edital Fundo 2019/Cuiabá 300 anos. No Prêmio Off Flip, foi segunda colocada na categoria conto na edição de 2019 e finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras/MT.

a revolta de Amanda, de Antônio LaCarne

Tia Emanuela foi enterrada com um opulento colar de pérolas no pescoço. Era manca e nunca se casara. Tinha uma filha, Amanda, mas não a considerava ser de suas entranhas. A menina era tratada como uma empregada da casa. Fora rejeitada quando descobriram que era anã.

Crescera calada, com o olhar perdido, nem sequer chorava durante o velório — já acostumada a sentir-se culpada por ocupar espaços indesejados na casa e na família. Qualquer pergunta sobre o paradeiro ou a origem do pai de Amanda era assunto proibido. Diziam que a menina só podia ser filha do Diabo, afinal tia Emanuela expressava repulsa não disfarçada quando se deparava com alguma imagem de santo ou crucifixo. Dava risadas escandalosas que chocavam as pessoas. Diziam também que era uma mulher satânica, que mexia com feitiçaria, e que no inferno estaria finalmente em casa – longe do mundo e da filha que lhe causavam tanto desgosto.

Quando cheguei ao velório — após anos de recusa em visitar a cidade —, minhas tias ficaram tão contentes, que não disfarçaram os sorrisos, os abraços, as gargalhadas inapropriadas em plena sala onde o caixão era rodeado por quatro castiçais posicionados sobre quatro gigantescas colunas de mármore. Quem me abraçou por último foi Amanda. Antes que eu me ajoelhasse para dar-lhe um beijo, ela já estava grudada nas minhas pernas.

As mulheres vestidas de preto me cumprimentaram com um leve aceno de cabeça. Não havia nenhum homem na sala, além de mim. Tia Lourdes e tia Gorete me arrastaram até a cozinha, ansiosas para que eu lhes contasse as novidades sobre a minha vida. Diziam que um mês não seria suficiente para matar a saudade dos dez anos que eu me ausentara.

Amanda nos acompanhava, carregando minha enorme mala, que era maior do que ela.

— Sentimos tanto a sua falta, meu querido!

— Sim, sentimos a sua falta — concordava tia Gorete.

— Você nem imagina a alegria que você traz para essa casa, depois da tragédia que foi descobrir Emanuela caída no banheiro, estirada, com a cara grudada no ralo.

— A cara grudada no ralo — repetia tia Gorete.

— Sente aqui com a gente, Amanda — pedi, apontando uma cadeira vazia para que se aproximasse.

— Essa menina está cada dia mais estranha, mas não é por menos, foi ela quem encontrou Emanuela morta. Deve estar muito abalada, coitadinha. Está traumatizada, desde ontem que não diz uma palavra – sussurrou tia Lourdes, como se Amanda não estivesse diante de nós.

— Trouxe um presente para você — disse eu.

— Um presente para você, Amanda — repetia tia Gorete, sem olhar para ela.

— Trouxe uma boneca linda de porcelana.

— Meu filho, ela não brinca de boneca, ela já vai fazer trinta e cinco anos! — respondeu tia Lourdes, controlando a vontade de rir.

— Mas é uma boneca para enfeitar o quarto dela — respondi, tentando disfarçar a grosseria do inconveniente.

Antes de entregar-lhe o presente, ouvimos um alvoroço na sala. Quem havia acabado de chegar era o prefeito. Tia Lourdes e tia Gorete levantaram-se apressadas da mesa e correram em direção ao homem. Fingiam enxugar as falsas lágrimas que não escorriam de seus rostos. Amanda e eu observávamos a cena da cozinha.

— Vamos lá no quintal fumar um cigarro? — perguntou ela.

— E você fuma?

— Fumo escondida.

Quando já estávamos no quintal prestes a acender o cigarro, tia Gorete apareceu e me puxou pelo braço. O prefeito iria fazer um discurso em homenagem à tia Emanuela.

Após o discurso, que durou quase meia hora, as mulheres terminaram de rezar o terço. Em seguida, despediram-se. Tia Gorete fechou as portas e me levou ao meu quarto. Eram os mesmos móveis de dez anos atrás, porém as paredes estavam pintadas de amarelo, tornando o ambiente mais claro e menos obscuro. O quarto onde chorei sozinho por diversas noites.

O enterro seria pela manhã e me causava desconforto dormir naquela casa, a poucos cômodos do corpo de tia Emanuela no caixão, no escuro. Estranhei o fato das mulheres rezarem o terço. Tia Emanuela era ateia e o mínimo que deveriam fazer seria respeitar sua vontade de uma cerimônia não religiosa. Comentei com tia Lourdes e ela foi enfática:

— Ah, meu filho, morto não tem querer. O que as pessoas vão pensar?

Tia Emanuela era uma mulher de bom coração, generosa, mas que exibia certas inconstâncias emocionais, nunca fora acompanhada por um médico ou coisa do tipo.

Quando eu tinha dez anos, lembro que cheguei da escola com o nariz sangrando. Um menino que mexia comigo diariamente havia me agredido. Quem ajudou a estancar o sangramento foi ela. Ordenou que eu não contasse nada às minhas tias, pois elas fariam um escândalo na escola, exigiriam satisfações, transformando a situação num estardalhaço desnecessário. Quando pus os pés dentro de casa, ao perceber que eu estava machucado, ela me puxou para dentro do quarto, trancou a porta e cuidou do meu nariz ferido.

Sentado na cama, vi que ela destrancava o cadeado do guarda-roupa, tirando de lá uma caixinha de primeiros socorros com algodão, que ela embebeu num líquido que quase me fez sufocar.

— Um menino bateu em mim, tia. Ele me empurrou e eu caí de nariz no chão.

— Fique calado, não chore, não diga nada. O sangue de ninguém é derramado em vão.

Em poucos minutos, o sangramento e o inchaço cessaram e eu estava novo em folha. No dia seguinte fui à escola, ainda temeroso que o menino batesse em mim outra vez. No mesmo dia, surgiu a notícia de que Arthur fora encontrado afogado no açude. Uma verdadeira comoção tomou conta da cidade. Telefonaram para os pais pedindo que fossem buscar os filhos mais cedo. Quem apareceu para me buscar foi tia Emanuela.

— Não falei que o sangue de ninguém é derramado em vão? E eu é que sou chamada de louca! — disse ela, entrelaçando os dedos nos meus.

Acompanhamos a pé o carro da funerária, com cada tia enrolando os braços na minha cintura. As mesmas mulheres de preto compareceram ao enterro, além do padre, do coveiro. O padre disse poucas palavras sobre a boa conduta de tia Emanuela em vida, mulher respeitosa, íntegra: uma alma prestes a descansar eternamente.

— Amanda, estamos esperando por você, venha com a gente — perguntei, encarando a porta trancada de seu quarto.

Ela não respondeu.

— Ela disse que não vai — gritou tia Gorete, surgindo na sala e a única a vestir branco.

Ao retornarmos, poucas horas antes do almoço, fui ao meu quarto desfazer a mala. Estava exausto, triste, incomodado em revisitar a cidade, a casa, em recordar certos acontecimentos do passado, como se cada lembrança estivesse estampada nos corredores.

Ao abrir a mala, dei de cara com o embrulho do presente de Amanda. A caixa e o papel florido estavam rasgados. Dentro da caixa estava a boneca com a cabeça arrancada.

Amanda havia mexido nas minhas coisas.

Assim como ela, eu também teria me revoltado.

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Editora Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Tem poemas publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.

Ó, de Hugo Almeida

Freguesia. Quem não lembra ou já ouviu falar? No final do século passado, nos tais anos 80, a guarda particular de incerto governante aplicou bela surra, show de covardia, em populares que o vaiavam. Os jornais registraram a pancadaria, houve demorado processo, espancadores fotografados e reconhecidos. Seis anos depois, na véspera de deixar o posto, o sucessor demitiu os servidores envolvidos na agressão. O novo readmitiu todos. E nada mudou. Era assim naqueles anos.

Nossa Senhora do Ó, origem do nome do bairro, é também uma diminuta igreja barroca do século 18 em Sabará, Minas, Estado de ferro, nascimento e fé de meu bisavô, escritor de algum mérito. Metido a artista, na juventude chegou a desenhar, a lápis, aquele pequenino templo, magrinho, uma porta só, duas folhas. Guardo o papel, cópia fiel da igrejinha do Ó.

Guardo ainda vários outros papéis de meu bisavô, como as provas de seu primeiro livro, Ó, impresso numa gráfica da Freguesia. Um ó de gráfica, escreveu na agenda. Trabalho rápido, 45 dias. Tecnologia da ponta do século.

O curioso são as provas do volume. Numa delas não aparece a letra o. (Por isso o título?) “Pane no computador”, escreveu o velho. Engraçad ler aquelas linhas sem a letra o. “A gente mlhada, debaix dessa minha smbrinha que s tem flres. Nã, Fernand, não pss ficar lembrand iss agra.”

Ele anotou entre parênteses, na agenda que meu pai me presenteou, ao lado de pedaço (colado) das provas: “Escrever um texto sobre isso. O computador ‘come’ a letra o, mas ainda assim a leitura é possível. Depois, engole o a, em seguida as outras vogais e, por fim, as consoantes, até o texto tornar-se invisível. O papel em branco: o leitor completará como quiser. Quem consumiu com as letras, a máquina ou o leitor?”

Em nenhum dos sete livros seguintes — três de contos — aparece o texto planejado. Por que desistiu da ideia? Seria apenas uma brincadeira? Papai — leitor atento e estudioso de sua obra — tem uma explicação: “Ele não queria se parecer com Borges. Fazia questão de ser original”. Não trago na veia uma gota do sangue escritor de meu bisavô. Mas, ao descobrir o projeto dele, tive vontade de realizá-lo. Vai aqui, velho. Tudo escrito até agora vale. E o que se segue não é muito. Apenas uma descoberta: máquina nenhuma engoliu o algum. Era fme. Fme verbal ds datilgrafs, ds digitadres, de quem batia as letras, quand nenhum aparelh ainda era capaz de traduzir em palavras impressas nssa vz. ra, meu bisav, nã lhe crreu iss? Na tristez de su épc, surra n pv n ru, milhres sem cs, cmid, escl, educç, nd mis nturl d que se limentr de letrs, plvrs. Vej bm, just letra O, a mais gordinha e saborosa — de graça.

Ocorre-me outra hipótese. Apropriar-se das letras não seria lançar mão das ideias do autor na origem? Sem tijolo não se faz parede; sem parede, casa et cetera. Quem lê julga-se também autor. Ao subtrair os pequenos sinais que contam uma história, sustentam uma ideia, o datilógrafo vai-se sentindo dono de todo o texto, assim como o pedreiro acumulando pedra e massa, seguindo o risco do arquiteto. Assim como eu, bebendo na agenda de meu bisavô.

(1986/87-1994)

Para Elisa Guimarães e Nilo Scalzo

Hugo Almeida (1952), escritor e jornalista mineiro residente em São Paulo, é autor de vários livros, entre eles o romance Mil corações solitários (Scipione, Prêmio Bienal Nestlé 1988), os contos Cinquenta metros para esquecer (Didática Paulista, 1996) e os infantojuvenis Viagem à lua de canoa (Nankin, 2009; PNBE 2011) e Meu nome é Fogo (Dimensão, 2007). Doutor em Literatura Brasileira pela USP, com tese sobre A rainha dos cárceres da Grécia, romance de Osman Lins, fez palestra na ABL, em agosto de 2018, sobre a vida e obra do escritor pernambucano: “Osman Lins, 40 anos depois, mais atual”, disponível no YouTube: [link]. O conto “Ó” está no livro Cinquenta metros para esquecer.

úmido tríptico, de Natalie Lima

Rosario

Vai e fica. A parte dela que andou pela Paraguay, pela San Luis e pela Mitre, que comeu papas españolas encharcadas de manteiga — isso desaparecerá. Quanto às ilhas, permanecerá nelas, o rio cor de doce de leite, e ainda assim bonito, islas flotantes. Não são grandes coisas, mas coisas interessantíssimas.

No barco, sente o tapete de água sob o corpo — nunca sem galochas, pois sua pele é a superfície que aos mosquitos encanta chupar. Quer salvar ao menos os pés do alcance desses vampiros pequeninos e bárbaros. Capazes de picar, diversas vezes, sua panturrilha esquerda por cima da calça de linho, deixam finos rastros de sangue entre o tecido e a pele.

Indiferente a tudo isso, o barco bate contra a água, teimando, dizendo que sim, que segue em frente apesar de. Ao passar por algumas ilhas, diminui a velocidade para que os outros passageiros possam mergulhar. Ela não, seu corpo não quer imersões. Vai ver que é medo de afundar e não ter o que levar de si para o Brasil. Só deixa que a toquem o vento, o sol, a superfície da água e a barqueira. Tão bonita e jovem, a barqueira a ajudou a entrar e sair da lancha para turistas. Os mosquitos não contam porque o que fizeram não foi apenas tocar, mas furar e beber. Porém, graças a eles a mulher fica um pouco mais na Argentina, seu sangue na barriga de insetos rosarinos, bichos que moram e dormem e procriam em ilhas flutuantes.

O tapete de água, esses bichos não o temem. A mulher também não. Sentiu-o sob as galochas que usava, que sentiram a madeira do barquinho, que sentiu a água amuralhada e mole na horizontal, que sentiu, sob a superfície, as correntes e os peixes, que sentiram a profundidade e o fundo arenoso, que sentiram, junto com os peixes que só nadam no fundo, algo ainda mais fundo. Não se sabe o que é, mas isso, o fundo do fundo, respondeu aos peixes, à areia e à profundidade, que responderam aos outros peixes, que responderam às correntes, que responderam à superfície, que respondeu ao casco da lancha, ou do barquinho, chame-o como quiser, o barquinho tão pequeno e frágil de tanto transportar turistas, ele respondeu às solas de borracha, que fizeram de escuta um par de pés.

44, rue de l’Amiral Hamelin

O maior clichê sobre Proust é seu leito de morte, sua foto de morto no leito de morte, naquele quarto em que deveria sufocar e, ao que parece, escrever durante a noite. Mas e se ela: uma mulher encharcada com água gelada do Sena e que de cabelos molhados quase se parece com um rapaz; e se ela entrar no quarto, sem explicação alguma, e depois estender uma mão a Proust, e ele aceitar essa oferta, e a janela do quarto se abrir e começar a aumentar de tamanho, e já não for noite, e o dia estiver agradável, e houver um jardim lá fora, e a janela se abrir mais e mais e mais, a ponto de se tornar um buraco na parede do quarto que dá para o jardim do edifício de Proust, e ele e a mulher encharcada que se parece com um rapaz caminharem por esse jardim, e apanharem sol, e toparem com aquelas bandeiras tibetanas coloridas que, quando tocadas pelo vento, espalham seus mantras e seus fluidos, e Proust respirar fundo, com os pulmões infiltrados, tentando ler o que está escrito nas bandeiras, e ver ali borrado, com água do rio, o seu próprio texto?

Caetité

Ela nunca foi a Caetité, não sabe quais horizontes se consegue avistar por lá. Ainda assim é preciso, o sertão. Ir até. Não por sua lonjura — mesmo da própria Bahia Caetité se afasta —, quando sim por sua aridez inexata. É dessa maneira que a terra quase vira areia, navalha invisível de vento seco. Quem sabe ali, a sensação — aguda e como sempre, ainda sem nome, quase sem forma — estanque; no melhor dos casos, se transmute, abrindo sobre si mesma um sulco, uma fenda quente.

É possível que haja de fato pouco a ver em Caetité — o que, no fim das contas, nem importa. Muito mais interessante e capital é saber o que fazer quando uma vez lá: em que partes farejar os rastros da bisavó índia, de nação ksed-jê, cujo rosto nunca encarou e cujo nome desconhece? E em qual chão verter as águas de rio armazenadas em garrafas PET de quinhentos mililitros?

Ela mesma as colheu, essas águas, sem a intenção prévia de derramá-las no Brasil. São duas: a mais antiga e quase acidental vem da superfície de um rio argentino chamado Paraná; a outra, verde-cinza-negra-clara, saiu do fundo gelado e mítico a que chamam La Seine. Sumirão rapidamente, uma vez fora de suas respectivas garrafas. Vão se misturar ao chão, vão penetrá-lo com tal gentileza, fazer nele caminhos, para depois pouca coisa ou quase nada delas restar no visível. Imperceptíveis, mas ainda assim lá. É isso um destino. Quantos.

A importância desse gesto em Caetité, onde ninguém a conhece — exceto, justamente e com esforço, a terra: cheia de ossos que já não existem, hoje transformados em pó e revirados intensamente por formigas, ventanias, chuvas e leitos baixos, amassados com parcimônia por gado de corte ou, no pior dos casos, pelas retroescavadeiras das Indústrias Nucleares do Brasil. Então aí, mesmo aí, algo da bisavó jê, um pouco dela para molhar com água de rio estrangeiro e cheirar depois.

Não sozinha, para que sozinha, Caetité tem mais de cinquenta e três mil habitantes, diz o censo do IBGE. Então serão mais de cinquenta e três mil somados a uma, essa-ela, e vai ver aparecem as que desejam águas estrangeiras derramar também, águas de viagem e de sonho, fluxo que não é outro, mas coisa de fora que logo se junta, se espalha e repousa.

Natalie Lima nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. É doutora em Letras pela PUC-Rio e ganha a vida como editora de livros. Participou da exposição coletiva Cadernos do Corpo com o “Caderno de viagem — roteiros para uma ficção”, em 2016, no CCJF, sob curadoria de Ana Kiffer. Em 2017, publicou Jacuzzi pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras, e “Instruções para performance em hipermercado” pela Revista Garupa. Tem textos críticos e teóricos publicados em revistas como Saga, Antares e Outra Travessia e foi coidealizadora e professora do curso Escrever Resistências, realizado em 2018 e 2019 no CCE/PUC-Rio. É mãe de Madalena — talvez por isso acredite que escrever é uma forma de inventar o futuro.

a galinha, de Carolina Quintella

Em quaisquer dos vinte cantos de baixo, um homem pega o rumo de algum Norte. Ia entrando, assim, num voo de muito acento e pouca escolha. Dirigido à classe própria, avistou, respirativo, de meia risada, onde é que era o lugar dele e de quem igual.

Ali quietou, bem onde deveria: lugar da diáspora dos de baixo, dizia sem estar escrito. Sentou certo e apercebido, guardada a alegria do pairar, primeiríssima vez, rente a alvobojudos sonhos. Cintilante, ainda anônimo de si e da alheia concepção, observava o céu e o chão, encaminhado ao destino, de encontro a uma noção, sem saber, porém, então.

Enquanto suspenso o veículo, suspensa era a mente no abstratoído; esmaecidas as ideias, sentia o momento, algo estomacal, borbulhante no feliz embrulhamento: era sonho realizando. Exceto por, ainda desconhecido o porquê, algum calvo sentimento, restado miúdo nos mindinhos dos pés, uma metade nao rida, um traço de angústia.

Mas via, com os olhos meio-vividos, que já aproximava do lugar aquele, o que sonhou, continente outro, espaço outro. E vinha o sonho; ímpeto de pertencimento e empolgação. Até no chegar na famosa rua de lá, que tanto que tanto diziam, aí é que foi se aprumando do sentir e do empolgar.

Fagocitado era o lancil pela gente na noturna avenida de cruzantes etnias insolúveis. Com-fusos sentidos, tato-fusão de esbarrão, ofato-pluri, barulhão e uma palheta de luzes em quinas: feixes amarelos, violáceo, azuis-oscilantes… verdes. “Informação”! Era muito, tudo era muito. E foi uma luzinha verde com ar importunante, que ia que ia, que resolveu seguir.

Ia à direita, à esquerda, virava outra quadra, entressaía num subway, desviava de nauseabundos buracos e… right in the bull’s eyes! A luz se deteve por segundos sobre o módico quadrado, passarinho de novas cinzentas, sem dar tempo para assimilar escritos. Ele seguiu de corpo e vista: continuava. A luzinha persistia, passava infernizante em toda parte, alto baixo, sobe e desce. E, no que seguia, a espiral da luz foi dar numa ruela deserta, daquelas que falecem às dezoito, com boutiques e seus toldos crus.

Já lá, estava só, ele e a luz, tão paciente, suavezinha, pousada em escura vitrina — ninguém diria a inquietude que tinha segundo e meio atrás. A loja esta, apagada em interior, era escuridão; só se viam vitro-reflexos do de fora para dentro, além de pouco metro em que se viu coisa mais curiosa. Ali, rente ao vidro, um serzinho engraçado: uma galinha.

Parada, ela o mirava em posição inversa. Dois lados de uma moeda? Ele analisava a galinha, a rua deserta e reparava no seu repentino isolamento. Reparava em si. Com olhar suspenso, o pensar vagante, esculpia amplo: era mesmo repentino o isolamento?

Até que a galinha rouba outra vez sua atenção ao inquietar-se, pondo-se a saçaricar de um jeito engraçado. Galinha esperta, ágil galinha! — ele reparava. Voltada a atenção para ela, ele acha graça e se ri. A galinha ri com ele. Ele a imita e ela o repete. Galinha esperta, ágil galinha! Um gingado familiar.

Pé para frente, outro pra trás, gozado o movimento. Ele acha curioso, mas gosta. Ela se mexe e ele gosta. A galinha se ri junto, ginga, sacoleja, balança, cisca, saçarica. Ele quase a entende e, rindo, para os ciscantes pés, engraçadinhos, aponta. E ela aponta de volta para os dele. Foi assim que…

Em qualquer Norte, um homem pega o rumo de algum dos vinte cantos de baixo. A metade não rida; a angústia do mindinho: vinha a realidade. Quando mirados os próprios pés, apontados pela galinha, com espanto percebeu — a si, à galinha, a tudo — tinha pés ciscantes, pés maiores do que muitos, calejados do ciscar isolado e cotidiano. Ele, galinha: uma galinha latino-americana. Saçaricante. Galinha esperta, ágil galinha! O mesmo lado da moeda e nenhum pertencimento.

Carolina Quintella (Rio de Janeiro, 1996) licenciou-se em Letras Português-Espanhol pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Contista, professora e hispanista, publica em diversas revistas literárias nacionais e com frequência participa de certames internacionais. É coautora do livro sussurro:cantos de chuva (Editora Urutau, 2019) e uma das autoras do livro Filhes de Sycorax (Ganesha Cartonera e Desalinho Editorial, 2019).

círculo de influência, de Franklin Carvalho

No último sábado fui a Santa Lúcia e encontrei-me com Nadir, a feiticeira, num bar de praia da vila. Bebemos muito. Nadir, apesar de já ter passado dos cinquenta anos e ser muito magra, ou talvez por isso, soltou-se quase desmantelada dançando o reggae que tocavam no boteco, e me arrastou para suar naquele frêmito, nós dois com as cabeças quase enfiadas nas caixas de som. Havia quadros de Bob Marley e do rei Selassie pendurados na parede e uma turma de rapazes nos cercou, mexendo seus corpos rentes aos nossos. Abraçávamo-nos como se estivéssemos em nossas próprias casas e no ambiente cheio ninguém estranhava aquele excesso.

Os rapazotes aproximavam-se cada vez mais e o suor parecia uma cola, um mel que nos juntava. De vez em quando pedíamos, ou eles pediam, uma bebida de cravo, limão e outras ervas e os copos passavam por todos. Nadir, que quase nunca esquece de fechar e acender seus cigarros, bastava-se com o ar que invadia o ambiente, impregnado de charutos e outros fumos. Lambuzávamo-nos naquilo, naqueles cabelos embaraçados e bijuterias de metal e óleos perfumados dos nossos parceiros, e eu me perguntava o que fazia naquele fim de mundo, com minha amiga que pretendia me ensinar alguma bruxaria sem ter nada que eu já não soubesse. Mas eu estava gostando e, se ninguém nos tivesse salvado, ficaríamos ali a noite toda.

Quem nos resgatou, afinal, foram três jovens afeminados e uma loira metida em traje masculinos, madura ao ponto de parecer a mãe dos outros. Eles tentavam nos olhar discretamente, encostados na parede próxima à saída, porém riam do nosso desafogo. Intuitivamente, como se tivesse sido convocada, Nadir foi dançando até eles de olhos fechados, voltou com um copo de cerveja que lhe deram, deixou que eu bebesse um pouco e me puxou para fora da roda de dança. Caminhamos até o grupo, eu ainda tonto, e os quatro se apresentaram sorrindo, também eufóricos. Minha amiga sussurrou ao meu ouvido:

— Tenha calma, vamos mudar de programa.

Os rapazes que dançavam agarrados conosco pareciam nem ter notado a nossa saída, e continuaram se balançando, às vezes repetindo bordões que simulavam os refrões em inglês do reggae. Havia algo cada vez mais furioso na forma como eles se deixavam cair uns por cima dos outros, e só notamos aquela violência porque tínhamos saído do miolo da bagunça. Já na turma da loira, Ari, um dos novos amigos, puxou conversa. Ele havia saído de Santa Lúcia havia alguns anos para estudar na capital. Voltara para visitar os parentes.

— Você é o Roberto Desnos, não? Ontem eu vi umas fotos suas n’O Momento. Coisa de dez anos atrás. O jornal estava no guarda-roupas de minha família.

— Uma luz guardada numa gaveta? Por isso tenho me sentido noturno.

Falamos mais sobre jornais antigos e a imprensa do país. Dali a pouco Alexandre e Dão, que tinham vindo da capital acompanhando Ari, irromperam com comentários sarcásticos a respeito de tudo que dizíamos. Estouramos em gargalhadas e a noite toda foi assim, aquela vontade desatada de rirmos e os motivos aparecendo. Brincamos um tempo, paquerando quem passava por perto, destilando hálitos fortíssimos, e Nadir quase não parava de conversar com Cléria, a loira. As duas, aliás, ordenavam a bebida que nos era servida, e eu já não sabia quem pagaria as doses de aguardente que circulavam em poucos copos comuns para toda a turma.

Cléria, que tinha o rosto arredondado de lua, carregava uma bolsa de onde tirava cigarros para acompanhar cada trago de bebida. Nadir a seguia enrolando o tabaco que tirava de um saco plástico escondido no sutiã, e que jurava ser mais saudável do que o industrializado de papel com filtro. As duas falavam mexendo todo o corpo, como se marcassem uma a movimentação da outra e tivessem treinado alguma coreografia desde crianças. Ari, negro e magro, tinha voz suave e era muito doce. Já Alexandre fingia ser mais compenetrado, era forte, mas não muito alto. Ressaía-lhe a pele morena e o peito estufado desenhado por uma camiseta justa. Dão, que na verdade se chamava Damião, ficava pedindo a toda hora que alguém lhe aplicasse um soul na veia. Ele parecia um espírito, com aparência mutável, escondida por trás de grandes cabelos e roupas folgadas, mas afinal magro e musculoso.

— Preciso de soul — gritava ele, e mexia os seus trinta e poucos anos dançando o reggae como se fosse a música da Motown. A pele negra do rosto já tinha rugas, e elas se destacavam quando Dão gargalhava. Ele havia descoberto a sua função no meio daquela bagunça, queria mesmo dançar, e acabou nos arrastando para seu carro, um Opala de vermelho sem brilho, a nave que parecia de sonho.

Já eram quase três horas da madrugada mas nós insistimos em correr outros bares de Santa Lúcia e abusar da paciência dos proprietários sonolentos. Mesmo os que nos atendiam amigavelmente fechavam as portas assim que nos percebiam gente comum, sem propensões para grandes gastos. Arrumamos bebida e seguimos, ouvindo baladas no mais alto volume, até uma praia mais distante, totalmente deserta. Começava a clarear quando o carro parou em frente a uma casa isolada e ali, pelo ambiente parecer tão estranho, estávamos quase sóbrios novamente.

Descemos e entramos. O imóvel de alvenaria caiada era rústico, e no seu interior a mobília já muito usada, como se estivesse em sua terceira ou quarta morada. A casa tinha o telhado também antigo e os cômodos minúsculos, com dois ou três quartos. No entanto, estava limpa, dando a impressão de que alguém, um caseiro, tivesse preparado tudo para receber visitas.

— Até que enfim! — Ari gritou. — Tem uma semana que a gente fala em vir para Praia da Guia e eu não conseguia tirar esse povo de Santa Lúcia. Esse Dão quase casa com a criadagem. Você acredita que inventou até lavar o tanque da casa de minha mãe só para namorar lá dentro?

— E a mãe de Ari ficou encantada — Damião respondeu. — “Nossa, não precisa, como vocês são gentis”. Agora, a família vai beber água batizada.

Até Nadir e Cléria, que estavam sonolentas, riram daquele disparate. Os rapazes então me contaram que voltariam para a capital na terça-feira.

— É proibido dormir! Todos para a praia — Damião convocou.

Enquanto Ari procurava bermudas para nos emprestar, Nadir e Cléria se trancaram no quarto e não saíram mais de lá. Eu e os três rapazes caminhamos até a areia branca e nos jogamos nas cadeiras de madeira de uma barraca que acabava de abrir. O dono, um velho gordo que parecia morar naquela construção improvisada, nos atendeu como se fôssemos os únicos clientes de quinhentos anos para o passado e para o futuro.

Reiniciamos a bebedeira e comemos todo tipo de caldos, moluscos, cocos e pequenos peixes que pudessem nos ressuscitar. Damião e Alexandre foram caminhar na praia que já recebia alguns pescadores e nativos, e Ari começou a falar do jogo do tabuleiro ouija.

A descrição era de algo que eu conhecia como a brincadeira do copo. Segundo haviam me contado, as pessoas põem as letras do alfabeto em círculo numa mesa, invocam uma entidade, colocam o indicador sobre um copo no centro, fazem perguntas e o copo começa a deslizar de letra a letra para formar respostas. Na ouija, Ari me disse, não se usa o copo, mas um ponteiro de madeira.

— Lá na capital, a gente tinha mania de jogar. Parece que na cidade grande ficamos mais entediados do que aqui, e precisamos inventar o que fazer. Nosso grupo se reunia na casa da mãe do Alexandre e ficava quase a noite toda perguntando aos espíritos. Havia sempre duas entidades que respondiam. Uma era o Gaspar, que tinha sido um velho que bebia muito, e não era boa alma. O outro era o Carlo, um seminarista italiano que tinha vindo para o país havia uns vinte anos, andava de motocicleta e, uma noite, sofreu um acidente de moto e morreu. O Carlo gostava muito de mim, e o Gaspar odiava o Carlo. O grupo todo percebia uma tensão entre os dois. Houve uma vez em que um jarro voou no meio do jogo e veio na minha direção, só não me acertou porque me atirei no chão a tempo. Até a mãe do Alexandre, que estava do lado de fora da casa, ouviu o barulho.

— E aí?

— Aí, a gente rezava, pedia paz, se concentrava e terminava o jogo. Mas nos dias seguintes continuava, nunca parou. Outra vez, a última vez em que eu estava e os dois apareceram, o Gaspar disse que num dia tal…. No dia trinta de maio, às oito horas da noite, eu iria ser atropelado e morrer. Todo mundo ficou muito assustado com aquilo e logo a gente parou, guardou o material e ficou sem saber o que dizer.

— E você? Ficou preocupado?

— Claro! Eu comecei a ter medo mesmo, mas não entendia, porque eu nunca havia andado de moto, nem nenhum amigo meu tinha moto. Só sei que o tempo foi passando, passando, até que no dia trinta de maio, exatamente, uma colega me chamou para ir ao cinema. Interessante que justamente naquele dia eu tinha esquecido de tudo.

— Você foi com ela?

— Eu não queria ver o filme. Não sei porque, eu fiquei sem vontade. Mas eu tinha marcado com ela e resolvi que ia ao cinema só para me desculpar. Ia chegar umas sete horas, me explicar e ir embora. Sei que eu fui me atrasando, me atrasando, me atrasando e apareci na porta do cinema quase às oito. Então veio tudo na minha cabeça. Eu fiquei paralisado e, por incrível que pareça, minha amiga também tinha se atrasado e me encontrou ali, em estado de choque. Era a Cléria, essa que veio com a gente para Santa Lúcia. A Cléria me chamou para ir para a casa de Alexandre e quando a gente ia atravessando a rua, lá no começo da rua vinha uma moto a toda velocidade, eu juro. Juro que ela passou rente à minha frente, eu fiquei gelado.

— A Cléria estava contigo?

— Sim, a Cléria. A gente saiu correndo e quando chegou à casa do Alexandre, o pessoal todo estava jogando. Você acredita que eles se lembraram do aviso do Gaspar?

— E o que eles estavam lendo na Ouija?

— Nada. Eles disseram que estavam orando por mim, chamando o Carlo e o Gaspar, mas nada acontecia. Nessa hora eu me sentei, e o ponteiro começou a marcar as letras. Elas não formavam palavra nenhuma, nenhuma mesmo, mas víamos a sombra de um nome sobre o tabuleiro.

— Que nome?

— O nome de Carlo. Até hoje eu acho que aquela moto era dele. Era ele quem estava por perto para ninguém encostar em mim. Daí a mãe do Alexandre, que simpatizava muito comigo, chamou a gente para orar e nunca mais a gente jogou.

— Mas você tem vontade, não?

De repente, Nadir chegou com Cléria, brincando, e a minha conversa com Ari parecia não fazer mais sentido naquele sol matinal. As mulheres se sentaram e logo Damião e Alexandre apareceram rindo e gritando, falando das brincadeiras com os nativos, carregando uma enorme corda de caranguejos que tinham comprado por trocados, e que ninguém sabia como preparar. Ficamos naquela farra, tomamos banho de mar, comemos os caranguejos que o dono da barraca cozinhou e bebemos até o fim da tarde. Depois do pôr do sol, voltamos para a casa da praia, para um banho de água doce com água tirada de um poço.

A noite mostrou como poderia ser escura sem luz elétrica, marcada somente por dois lampiões que foram acesos com os isqueiros das fumantes. Nadir sumiu novamente com Cléria, e eu e Alexandre apagamos no sofá da sala. Ari e Dão começaram a cozinhar e tomaram o estoque de bebida da casa até dormirem, também na sala, num tapete de lã.

Ainda devia ser dez da noite e a casa já estava totalmente silenciosa quando eu acordei e fiquei olhando o mato no quintal, com um cigarro de Cléria na mão. Tinha uma sensação boa, de estar com as pessoas certas e de ser amado por elas. Logo uma chuva de pingos grossos começou a atravessar o silêncio, e eu entrei e voltei a dormir, novamente partilhando o sofá com Alexandre.

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

a palavra, de Nic Cardeal

A gente tinha um nome pra essa coisa que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair. Dizia-se na aldeia que era uma palavra esquisita, mas que pronunciá-la de um certo modo até aliviava um bocadinho a dor. Então a gente aprendia, desde miudinho, a dizer. Depois a gente crescia, cada dia um pouquinho, e essa coisa ficava cada vez mais apertada contra as paredes do peito, não cabendo mais em si, nem em mim, nem em ti, e a gente ia perdendo, sem querer, a vontade de dizer… Até que a lembrança dessa coisa que apertava o peito desaparecia por inteiro do pensamento, e a gente ia vivendo como se nunca tivesse sentido, como se nunca tivesse pronunciado aquela palavra esquisita…

Às vezes até que a lembrança voltava, meio sorrateira, toda clandestina, fazendo a gente espreitar devagarinho por entre as frestas, pra espiar aquela coisa que nos deixava em completo desatino…

Às vezes essa coisa, que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair, acontecia de aparecer na hora em que a gente não tinha como escapar de sentir — bem na hora da viagem sem volta de alguém que resolvia partir lá pros confins dos céus onde criança nenhuma conseguia alcançar com a mão — o braço era curto, a mão pequena… só a vontade era comprida — e nem adiantava subir no banquinho — não havia jeito de tocar na ponta do céu e implorar pros anjos devolverem aquele alguém importante que tinha deixado todo mundo aqui embaixo “a ver navios” (ou melhor, “a ver aviões”, já que tinha ido pro céu…)

Outras vezes essa coisa comprimia o peito de um jeito tão estrangeiro, que era como se um paraíso inteiro houvesse de ser expulso de solavanco do mundo pra dar lugar a algum respiro profundo, pois se não fosse o respiro, nem a coisa suportaria comprimir o peito daquele jeito de doer os olhos até a lágrima cair… Nessas horas era porque viera morar por dentro, junto da coisa e do peito, aquele sentimento tão bobo e tão louco, que fazia toda criança já quase gentinha grande de verdade, pela primeira vez sentir vontade de gritar de dor porque era caso da mordida do amor — daquele jeitinho doido e doído feito uma flecha que acerta o coração e faz a gente passar ridículos de paixão…

Fora isso, poucas as vezes que essa coisa era de doer a fazer a gente lembrar da palavra esquisita de dizer… como numa despedida de avó, ou um pai indo embora solto no mundo sem hora de voltar, um filho crescido dizendo “tô indo”, ou um amigo querido deixando um abraço apertado como lembrança por toda uma vida sofrida…

Era bem assim — quando a palavra esquisita era dita, muito dita, repetida um bom par de vezes, até que a aldeia inteira dizia em coro a palavra esquisita, sentindo juntinha o mesmo aperto no peito a fazer doer os olhos e a lágrima cair… Era quando o milagre acontecia — pronunciar a palavra esquisita pela aldeia inteira virava uma espécie de mantra de cura da dor nos olhos e do aperto no peito — todos repartiam a dor de um — e a dor virava um pão fatiado em tantos pedaços quanto o número de pessoas da aldeia, como se cada um mastigasse um naco da dor de um, diluída em amor. A palavra esquisita vinha ao mundo pra virar amor — o amor daquele jeitinho bonito: ninguém soltava a mão de ninguém numa ciranda quase sem fim de diluir a dor até a própria dor virar “um ninguém”.

Porque a saudade precisava ser dita, ainda que na aldeia fosse uma palavra esquisita…

Nic Cardeal é catarinense, graduada em Direito pela UNISUL/SC, e exerceu atividade jurídica por 27 anos junto à Justiça Federal de SC e do PR. Desde 2016 dedica-se às letras e aos livros, junto à Mahatma Livraria de Expansão, em Curitiba/PR. Participou de diversas antologias de poesia, conto e crônica, entre elas as mais recentes: Brumas e brisas (org. Cristiana Seixas, Niterói/RJ: Ed. Cândido, 2017); Antologia de poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas, 2017); Mulherio das Letras — contos e crônicas — vol. 4 (org. Henriette Effenberger, Recife/PE: Mariposa Cartonera, 2017); Revista Plural — Wild Nights (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2017); Mulherio das Letras pela Paz — Contos & Poesias Alemanha/Brasil (org. Alexandra Magalhães Zeiner e Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); Conexões atlânticas I e Conexões atlânticas II (org. Adriana Mayrinck, Lisboa/PT: In-finita Lisboa, 2018); 2ª Coletânea poética Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); 2ª Coletânea de prosa Mulherio das Letras (org. Cleonice Alves Lopes-Flois, Toledo/PR: Indicto Ed., 2018); V Prêmio literário cidade poesia e III Láurea cidade poesia (org. ASES, Bragança Paulista/SP: ABR Ed., 2018); Um girassol nos teus cabelos — poemas para Marielle Franco (org. Mulherio das Letras, Belo Horizonte/MG: Quintal Ed., 2018); Marielle’s (org. Andri Galvão, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Sete luas (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Redemoinho — novembro/2018 (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Feminismos, artes e direitos das humanas (org. Aline Gostinski, Ezilda Melo e Gisela Maria Bester, Florianópolis/SC: Tirant Lo Blanch, 2018); e Elas e as letras (org. Aldirene Máximo e Jullie Veiga, São Paulo/SP: Versejar, 2018). É integrante do grupo Mulherio das Letras desde a sua criação, em 2016. Seus escritos estão compilados na página no Facebook ‘escrevo porque sou rascunho’ (@Niccardealpoesias), além de fazer ‘resenhas afetivas’ de livros de autores(as) amigos(as), na página no Facebook ‘minha lavra do teu livro’ (“porque quando eu leio um livro minha alma precisa dizê-lo… então escrevo o que sinto, porque no meu profundo é onde eu encontro o teu livro”). É autora de Sede de céu — poemas (Guaratinguetá/SP: Penalux, 2019).