poesia que ninguém lê, de Eltânia André

capa DuelosMeus pés avançaram, eu sem olhar para trás, esperando. Ouvido suscetível ao trágico. Passa tudo, perdeu, passa tudo, senão, morre. Parei. Retrocedi. Pensei em tempos longínquos. Temi não caber em mim a avidez, o inesperado, as lembranças; muitas intocáveis. Como posso dar o tudo, se tenho o vazio como semblante de mim? Concordo com o que ouvi, um dia, numa discussão sobre a morte da literatura: nada garante que a literatura seja imortal… O mundo pode passar muito bem sem ela, mas pode passar melhor sem o homem; ouço o filósofo e penso em mim. Eu sou esse animal a ser extinto, portanto não farei falta alguma. Ele, o homem e seu revólver, do qual nada sei; gritou ratificando sua prepotência belicosa, com aquela arma raquítica, desbotada e de cano curto. Não corra, senão, atiro. Suor escorria pelo rosto desconhecido, adrenalina e medo. Poderia apertar o gatilho. Não o fez. Gritava, trovejando suas ordens. Vadia, vagabunda, pensa que é esperta, passa tudo. Eu que tanto obedeci na vida, tanto me concentrei na sutileza da boa convivência, estava diante de mais uma guerra surda que tudo impõe e assalta. Seria bom transgredir, mas minha boca do avesso reverbera: Sim, senhor! Temi a guerra, sempre. Jamais o rotundo não, no máximo o talvez, ou o balançar indeciso de ombros, e alguns poemas na gaveta que ninguém leu. Preferia o tiro, desejei o fim a ter que obedecer novamente. Não, senhor! Não tenho nada a lhe oferecer. O tempo compacto durava menos do que eu supunha. Sem perceber, por hábito, não por pânico, obedeci. Diga sim, mulher, sussurrava a voz. Reconheci-me em seu eco. Diga sim e viva. A vida ou a bolsa? Rendida novamente, entreguei o celular que quase não tocava, tão velho e mumificado por durex fixando a bateria. O homem correu com o prêmio em suas mãos, o banal sim de minha coleção. Correu como um animal amedrontado, correu com as pernas atléticas e esguias e, por fim, desapareceu dentro da esquina. Por que as esquinas nos engolem? Não satisfeito com o tédio que plantou em mim, com a sua autoridade, protagonizou a lucidez: retirou a venda que, de tão gasta, se encaixava tão perfeitamente. Revisitei a angústia. De frente, cara a cara. Bruta. Meu desejo se camuflava em lugares improváveis. Se corajosa, tirava a venda dos olhos, via o medo maior. Na tentativa de avistar o horizonte; acídia. Se a tirasse de vez; terror. Eu tão desacostumada de mim. Pudica, evito tocar-me. Inevitável; desisto cotidianamente do embate, aprisiono-me sem gana na antessala com agulhas e linhas ou com papel e caneta. As feministas se envergonhariam de mim, sempre me deixo levar, sempre rendida. O homem da arma raquítica não atirou. Desgraçado. Minhas costas esperando o abate, alguém delineando o trajeto da bala pela fresta da janela; meu corpo antecipando a queda; o asfalto gasto a se servir de leito — ontem. Depois que ele se foi, depois do copo d’água com açúcar, eu esperei por algo que não vinha. E a sede sem fim. Não é o mundo lá fora que é cinza, mas o sótão onde caminho, dentro. A arma que eu desconhecia, inerte. Estamos ou não numa batalha? Bombardeios silenciosos. Dissimulada, de porcelana; obedecia, servindo o almoço especial de domingo. O acúmulo de paz azedando no estômago. O amanhã tão igual e resignado, persistia na expectativa do vazio, do oco. Cadê o disparo? O sangue vivo? Preparada, coração com suas batidas excitadas, mãos trêmulas, o labirinto no alto da torre aguardando o que seria o estampido. Minha morte. Talvez, tenha desejado apenas conhecê-la, sou deveras curiosa; não a morte em si, mas a vida corroída pelos dias de tensão, o destampar do fosso, fitar o abismo e reconhecer-me nele e revelá-lo a mim mesma: o seu escuro, a imensidão. E, no desfecho, acordar. Talvez. Incrível: a sensação das costas perfuradas permanece, o pequeno vaga-lume sacode meu mundo pálido; sim, é pálido, descorado. Lembrei-me do meu marido, e dos meus filhos (descabido pronome de posse). E as vasilhas na pia aguardando-me. Sujas, engorduradas. Os filhos, bons meninos, mas não preenchem o rasgo. Viver! É essa amargura iceberg. É solidão em meio a multidões. Não sou eu que provoco, é o existir — esse mistério sem fim. A cara de anos, a mesma cortina de anos, a cama dura, ortopédica, onde dois corpos desajustados unem-se vez ou outra. O raspar de garganta do meu… (novamente o descabido e irritante pronome de posse) do meu macho dando notas vulgares da convivência. Depois da novela, ou depois do silêncio, nós dois monossilábicos. Ele: Café? Eu: sim. Sigo para a cozinha, sabendo que com a cafeína no sangue, mesmo com a brutalidade da mesmice, abrirei as pernas e ele penetrará sem grande entusiasmo. O esperma escorrendo pelo lençol, o que importa? Abrirei as pernas outras e outras vezes. Disponível para ser engolida, penetrada. Eu querendo gemer, querendo morrer, mas a bala não me atravessou pelas costas. Era necessário o combate frontal. Antecipo meus ouvidos, agora para o ronco cotidiano depois do sexo, depois do escarro; ato de limpar a garganta que ele pratica ao escovar os dentes. Ele escarra. Eu? Olhos fixos no mofo da parede do quarto ou no escuro, tentando convencer-me de que assim é feita a minha história, matéria impalpável que inutilmente tento tocar com alguns dos sentidos. Há sempre algo que me escapa, dentro. Penso em Camille Claudel: Há sempre algo de ausente que me atormenta. O que eu busco? O que foi que perdi? Deixa quieto, está tudo certo, prefira a paz, dizem-me. Ouço essas vozes. Meu lar o campo iluminado, família álbum de retrato. Os filhos no mundo dos sonhos, o marido saciado — afinal eu sempre o alimento com minha boca escancarada, faço café, lavo as roupas sujas, as plantas à minha espera na varanda, digo com sorriso nos lábios: estou bem; também te amo não é exatamente mentira, então por que me desconheço nas frases que digo?: sim, sou feliz; bom dia; boa noite; Deus abençoe. Deus? Vez ou outra, mais uma poesia na gaveta. Ordinária, é certo. Intensa, talvez, mas ordinária como os vinhos que tomamos duas ou três vezes ao ano em companhia de um amigo. Que ninguém lê. Ninguém lê. Outra vez com olhos fixos no escuro encarei a insônia arquitetando palavras, os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado. E aquela manhã poderia ter sido a gênese da grande rebelião. Covarde, por que não atiraste se eu disse a princípio um não. Foi minha melhor ousadia, antes de seguir a velha estrada. Quase um fim de papo. Quase um fim de linha.

| conto do livro Duelos (Editora Patuá, 2018). |

Eltânia André nasceu em Cataguases-MG, mora em Lisboa. Autora do livro de contos Manhãs adiadas (Dobra Editorial, SP, 2012), dos romances Para fugir dos vivos (Ed. Patuá, SP, 2015) e Diolindas (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano), e do livro de contos Duelos (Ed. Patuá, SP, 2018).

estes olhos, de Franklin Carvalho

Acordei com uns pipocos e achei estranho. Pensei que santo era hoje, a memória não veio. Olhei a penteadeira, o oratório. A vista turva ainda, aquela neblina do quarto escuro, procurando lembrar. Santo nenhum. Não eram foguetes, atiraram no Ferrugem.

O Ferrugem, filho do Jorge Liso, foi baleado. Três tiros na caixa do peito, mas escaparam do coração. O pai levou para Feira de Santana esvaindo em sangue, jurando nunca mais roubar. O pai e o filho no mesmo caminho, o Jorge Liso ladrão de gado, o Ferrugem desde pequeno finório, amigo do alheio.

Quando afanaram as roupas do Zé, o meu filho, o Zé veio me dizer “Sabe, mãe, o Ferrugem deve ter comprado as minhas roupas do ladrão. Passa com elas na rua”. Isso tem mais de vinte anos. Minha neta nem tinha nascido, hoje ela é mãe. Eu falei “Zé, qual é a lei? Perdoai, assim como nós perdoamos as nossas falhas, não é mesmo?”

Mas hoje o Ferrugem já é um homem, deveria ter tomado jeito. O pai dele, Jorge, ninguém compra no açougue em sua mão, só se for por muita necessidade. As famílias que sabem dos mal feitos, quase todo mundo já foi lesado, ninguém compra a carne dele. Mas vamos deixando para trás.

Não falo dos outros por mal costume, não observo. Uma mulher tão cega como eu, coitada, a vista miúda, os dentes escassos e também cegos, eu nunca tive vício de especular. Sou avessa a comentários, apartada.

Esses dias de São João, quando completei idade, o Zé me perguntou “Mamãe, não vai fazer festa?” e eu respondi “Menino, esquece que o povo esquece” E assim foi, enojei de aniversário. O Zé tinha boa intenção e memória, desde moderna que festejo. Mas quando fechei setenta me veio um vazio de gosto, um pensamento severo e sempre assim. Deito no travesseiro e vejo os sentimentos aumentados, como passados em uma lente. Por isso falei do Ferrugem, mas quero contar de mim na minha casa.

Eu vejo os rigores que fiz com o Zé na infância do garoto, que deixei ele chorar de tonta que eu era, distraída. Certo que não foi por maldade, mas fui cruel. Eu envergonhei o menino na frente do pai e o pai na frente do menino, dizendo que não eram o que eu queria, que não pareciam dessa casa, que a casa era minha, que eu mandava nela. Agora, quando ponho a orelha na fronha sinto ali mesmo o cabelo encanecer e os olhos perolarem a cada sono mais um pouco, seja de noite, seja de descanso do almoço, o tempo talhando as rugas em cruz, a pele cheia de quadradinho. Foi maldade sim deixar o Zé chorar, e humilhar o coitado.

* * *

Nem me preocupa pensar o que eu penso, sentir o que eu sinto, mas me pergunto porque vêm agora essas considerações sobre a vida inteira, como uma conta. Será que é o fim, meu Deus, será?

Esse menino, o Zé, já tem cinquenta anos mas vive aqui, se separou da mulher. Tem a casa dele mas só vai lá dormir, ceia comigo. De dia ele me toma pelo braço, me acompanha no banco e até a porta da igreja para eu não tropeçar, é meu anjo gordo.

Finjo distração para os cães que andam pela rua. Os cães acham que sou cão também e me olham encurvar, sumir, querendo que eu morra. Os cães são as moças e os moços mais modernos que o meu filho. Que me rejeitam, que rejeitam ele, e que cobiçam a pouca luz que gastamos para nossas sombras. Será o fim?

Quando deito no travesseiro, fico lembrando e sonhado, sem saber quando e quando. Anteontem me apareceu o Manuel, meu finado marido, dizendo:

— Raimunda, vem comigo. — E repetia, e eu dizia:

— Vou não, Manuca, vou não.

Olha, e o Manuel já tinha morrido antes do Jorge casar, ter a filha, agora me volta. E eu só via as costas, porque os mortos não mostram o rosto. Via assim um desenho que eu sabia que era ele, com roupas brancas numa plantação de bananeiras. Isso foi duas vezes. Ao menos estava de branco, e a plantação era verde, sinal de bom lugar. Deus o guarde nessas cores elegantes, seguimos orando.

* * *

Minha neta é que tinha apego ao Manuel sem sequer conhecer. Menina ainda, com dois anos, olhava o retrato na parede e dizia “Eu falei com vovô Manuca” e todo mundo ficava espantado. A mãe, minha nora, mandava calar. Uma vez eu tirei o retrato da sala, não queria mais, a criança começou a chorar e a apontar para o lugar. Tive que prometer nunca mais mexer no quadro.

Puxando bem da memória, já sonhei com o falecido outras vezes, mas coisa mais pequena, só aquela presença passando. Uma noite ouvi a voz e quando acordei a cadeira rangia, ao pé da cama, alguém tinha se levantado. Mas nesta semana a visão foi mais clara, mensagem assim calma, confortável.

Outro dia eu tive um sonho bom, via a roça do alto, voava. Lá embaixo passava um rio cheio, agitado, refrescando tudo, e uns cavalos gordos corriam sobre as espumas, e soava alto uma música que Zé ouve todos os dias no rádio. Não sei cantar, é estrangeira. Quando eu estava naquela delícia, uma zoada qualquer me despertou. Perdi a delícia.

* * *

O meu sono é leve. Desperto se faz frio no meio da noite, porque tenho a pele fina e os ossos ariscos. Só esmoreço de vez com muito cansaço, como num dia desses, em que eu estava cozendo a mortalha de comadre Leotina. Eu apurava a vista, ia quase pelas onze da noite, e decaí sobre o pano alinhavado. Acordei com aquele relance:

— Acorda, Raimunda, capricha que estou necessitada.

Era a alma da comadre, advertindo. Acordei no susto e estranhei que a costura estava adiantada, como se a agulha tivesse trabalhado sozinha, e faltasse só o arremate. Meia hora depois e findou-se, e eu senti um perfume de mulher adocicado passando pela sala assim suave. Nem digo de quem era, pois na verdade eu não sei. Apenas me deu satisfação, como a música que eu contei dos cavalos. Vou lembrar o resto dos dias, mesmo que eu não saiba o nome, porque a gente não precisa saber para gostar.

* * *

Desculpem mais uma vez que eu falei dos vizinhos, mas a verdade é que eu aqui oro por todos. Vejam, o Zé meu filho me disse de um sonho que lhe perseguia, que ele e o pai tinham matado um homem e juraram nunca tocar no assunto. Naquele devaneio o tal crime nunca era descoberto, mas o Zé acordava arrasado. A culpa de uma morte que nunca houve, o remorso sem ter sido nada, só um pesadelo, vez ou outra, só um pesadelo, vez ou outra. Até que um dia, faz mais ou menos um mês, ele se chegou bem cedinho:

— Mãe, pai já matou alguém? — E contou o resto.

É claro que eu fiquei alarmada, aquele sentimento que ele tinha, de sangue coalhado. No sonho havia uma cova de inocente, de um jovem que os dois tinham calado, ele e o pai. Não foi nada não, dali a pouco passou em minha porta a Semíramis, filha da velha Damiana. Ela me cumprimentou, a Semíramis sempre foi moça educada, embora eu na mocidade não me desse com a mãe dela. Então me lembrei de uma coisa que tratava sem consideração.

O meu marido tinha uma amante, justamente a Damiana, que por sua vez Deus levou também. E ela pariu um menino que o Manuel não quis saber. Eu indagava a ele “Olha lá, é a tua cara” mas o homem rejeitava, difamando a concubina, que tinha dormido com outro. O tempo passou, os velhos se consumiram e a criança cresceu. O menino da Damiana era alienado, o povo ajudava, até os parentes nossos, mas foi a Semíramis que arcou com o irmão, até ele falecer, já homem, um ano atrás. Eu sei que é uma história assim cruel, mas o Manuca era moço, e os moços são o que são.

Quando eu vi a Semíramis passar na minha porta toda gentil e serena, eu chamei o Zé lá de dentro e rezamos. Recordo daquela manhã, fazia frio. Nas plantas do meu jardim eu lembrava do filho da Damiana, que vestia as calças amarradas lá em cima, pobre rapazinho bronco que os moleques arreliavam. Era um jovem do corpo magro e branco demais, puxando à mãe, mas os olhos eram o amarelo mel das vistas do Manuel, das vistas do meu Zé, olhos de gato de pobre.

E por ser sem remédio a situação dos homens, então tratamos das almas, a quem demos a intenção. Não foram poucas as vezes que o Zé fez preces, a vela fincada na areia das plantas, e encomendou missas aos falecidos. Ele rezou mais do que eu, por ser do sangue do Manuel, e ter perdido um irmão e experimentado a pena. Só depois que assim foi feito veio essa calmaria de eu ver o meu marido de branco, apresentável, no frescor da plantação.

Eu não explico essas coisas, nem os sonhos que hoje mesmo vou ter. É só uma lente delicada, do fundo transparente. É só uma lente de água da minha vista cansada, da clareza de uma lágrima, da largura de um coração.

| com algumas fontes orais, inclusive uma recolhida pelo historiador Cícero Joaquim dos Santos, da Universidade Regional do Cariri (CE). Para Gilda Osvaldo Cruz. |

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017) e na Festa Literária de Paraty 2018.

vento noroeste, de Mônica Rinaldi

Ana veio me visitar numa noite fria de julho. Por aqueles dias, soube que ela havia voltado. No começo, trocamos cartas e bilhetes, telefonemas rápidos. Nossos pais morreram alguns anos depois que ela foi embora, nos anos 70. Ana não veio para o enterro e fomos perdendo o contato.

De camisola de flanela, eu estava na poltrona do meu quarto-e-sala, enrolada num cobertor que levei da nossa antiga casa. Ainda que puído, esquentava muito, talvez porque de lã de carneiro, daqueles que não se fabricam mais. Meus pés vestidos com meias grossas descansavam sobre a banqueta de alumínio. Eu lia o jornal, algo sobre os grafites apagados nas ruas de São Paulo. Não fui até o fim; virei a página e comecei a ler uma reportagem sobre os cemitérios da cidade: Dom Bosco, Perus, zona noroeste.

Não escutei a campainha tocar, quando vi, lá estava Ana. Abracei-a demoradamente, acariciei seus cabelos. Continuavam negros e brilhantes, os meus já esbranquiçados, fios rebeldes que eu amarrava num rabo de cavalo.

Uma correnteza de vento frio no vão da porta entreaberta. Ana foi sentando ali mesmo, na banqueta. Não, minha irmã, sente na poltrona, aí é muito gelado. Ela mal respondeu quando escutamos uma música ao longe.

Eu sou o negro gato. Eu sou o negro gato.

Ana sabia que eu odiava. Colocava na nossa vitrolinha, certeira com a agulha. Quando acabava, punha de novo, e de novo e de novo, tantas vezes que acabou riscando o disco. Ela se divertia.

Eu sou o negro gato. Eu sou o negro gato.

Ela começou a cantar, acompanhando o som de fora.

Aquilo não é gato, sua bobona, é um rato!

Saí correndo, descendo os degraus das escadas, os ouvidos tampados, como eu fazia quando ela me provocava. Era o gato, era o rato, era o vento noroeste. Tropecei e caí numa vala. Vai para o morto, Ana, não reclama. Na queimada eu era melhor; esconde-esconde não, ela desaparecia nos lugares mais improváveis.

Eu sou o negro gato. Eu sou o negro gato.

Ana veio atrás de mim, descendo os degraus de dois em dois. Amarelinha, Ana, deixa que eu desenho. Pronto, céu-inferno. Ela pulava entre as marcas de giz, acompanhando o ritmo da música. Meus pés escorregavam na terra, eu suava muito, mas finalmente saí de lá. Ofereci minha mão, ela não conseguia alcançar.

Eu sou o negro gato.

Para com isso, Ana. Vamos de crapô? Foi ela quem me ensinou; eu nunca vencia, mas precisava distraí-la. Sorriu sem mostrar os dentes, os olhos apertados. Um baralho para cada um; conta doze, vira o morto. Carta preta, carta vermelha, preta, vermelha, preta. Jogamos uma partida, duas, três, perdi a conta.

Sua voz começou a sumir, foi escasseando, embora eu ainda conseguisse ler os lábios. Ana interrompeu o verso e fechou a boca. A música de fora parou no mesmo instante. A última palavra ecoava na minha cabeça — gato, gato, gato. Foi diminuindo aos poucos até sumir completamente. E veio o silêncio.

Eu lia o jornal, algo sobre os grafites apagados nas ruas de São Paulo. Não fui até o fim; virei a página e comecei a ler uma reportagem sobre os cemitérios da cidade.

Dom Bosco, Perus, zona noroeste, o nome foi mudado para Colina dos Mártires. No muro, grafitado: aqui tentaram esconder os desaparecidos.

Quando vi, lá estava Ana. Os cabelos continuavam negros e brilhantes. Uma correnteza de vento frio no vão da porta entreaberta. Não, minha irmã, sente na poltrona, aí é muito gelado.

Mônica Rinaldi é paulistana, mestre em Literatura Brasileira pela USP. Trabalha com edição e revisão de textos. Publicou contos em coletâneas pelas editoras Leonella Ateliê e Patuá.

um milhão de fantoches (ou mais), de Matheus Borges

Observe este boneco, disse o titereiro ao indicar um dos muitos homúnculos de espalhados no palco. Observe este boneco e tente confundi-lo com alguém de carne e osso, talvez um amigo ou familiar. Observe este boneco e tente confundi-lo com um vizinho, até mesmo com seu pai, o homem que você vê quase todos os dias e pensa reconhecer a cor de seus olhos ou a extensão de seus braços. Tente por alguns segundos e você perceberá que essa é uma tarefa impossível. Porque, por mais que você tente, um boneco nunca poderá ser confundido com uma pessoa de carne e osso. Um boneco tem braços e pernas, tem olhos e boca, alguns inclusive têm belos cabelos e barbas compridas, unhas e articulações, covinhas nas bochechas e cicatrizes cirúrgicas. Um boneco, porém, não poderá ser confundido com uma pessoa de carne e osso, pois todos sabemos que um boneco é um boneco, por mais semelhanças que guarde com os seres humanos. Ainda que feito à imagem e semelhança de quem o criou, um boneco é um boneco e nunca será um homem, da mesma maneira que um homem nunca será Deus. Peço a você que pense nisso, disse o titereiro ao segurar as cordas que pendiam da parte mais baixa do auditório, peço que pense nisso por alguns segundos e peço também que considere a possibilidade de confundir a si mesmo com um desses curiosos modelos humanos feitos de tecido e arame, bem como peço, porém, que logo se esqueça de que pedi tudo isso. Afinal de contas, não estou aqui para falar de um boneco, ou fantoche, mas sim de um milhão (ou mais).

Um milhão de fantoches (ou mais), disse o titereiro ao desenrolar as cordas, vistos de longe se comportam como criaturas vivas. Não têm desejos ou ambições, porém se movimentam e é importante que se movimentem a fim de parecer coisas vivas. Para movimentar um milhão de fantoches ou títeres ou marionetes não é nem preciso que um milhão de bonequeiros se envolvam no processo, disse o titereiro ao estender as cordas sobre o palco, provocando a plateia com seus dedos de mago desempregado. Basta arrecadar uma vultosa quantia de dinheiro e adquirir sofisticado maquinário que emule as articulações dos membros superiores humanos, como se já é sabido que exista nos países desenvolvidos. Disse o titereiro, ao abrir o baú dourado, que é impossível reverter o processo de automatização iniciado ao final do século dezenove e que, disse ele manejando os membros superiores de um boneco caolho, as máquinas são capazes de quase tudo e muito em breve serão capazes de tudo, absolutamente, inclusive do pouco que não conseguem executar nos dias de hoje. Algumas máquinas hospitalares já respiram por nós, disse o titereiro ao abrir as costas do boneco caolho, já se movimentam e tomam decisões baseadas em uma série de complexas simulações.

Um milhão de fantoches (ou mais), disse o titereiro ao encaixar a primeira corda no boneco caolho, movimentados por maquinário oculto, podem ser vistos como uma multidão de carne e osso, especialmente se vistos de longe, como, por exemplo, através das lentes de uma câmera televisiva afixada num helicóptero que paira a duzentos metros do chão. Disse o titereiro que este ângulo em especial, chamado de plongée, é o mais eficaz para que a ilusão seja fabricada com êxito. Isso porque a câmera televisiva não conseguiria captar o maquinário oculto sob as vestes dos bonecos, digamos que longas batas amarelas, vistosas e reluzentes, que cintilam a cada movimento das engrenagens. Para que tais títeres sejam vistos como uma multidão de carne e osso, disse o titereiro ao colocar o boneco sobre a tampa fechada do baú dourado, é preciso que se estabeleça as condições necessárias para que exista verossimilhança no fato de um milhão de pessoas (ou mais) se movimentarem nas ruas, vestidas com longas batas amarelas. Assim que as batas estejam justificadas, estará justificada a procissão e a ilusão poderá ser considerada um sucesso. Assim sendo, é importante também que o titereiro estabeleça uma narrativa prévia. Basta que pareçam reais a fim de se tornarem reais, pois não estamos tratando aqui de indivíduos dotados de características complexas, mas de uma massa sem rosto que se move numa única direção.

Imagine porém, disse o titereiro com suas longas mãos controlando pandorgas invisíveis, que um observador externo se disponha a um exame minucioso da procissão de um milhão (ou mais) de fantoches ou coisas, indivíduos para todos os efeitos, gente letárgica ou eufórica, marchando em compasso sincrônico, o ritmo das máquinas ocultas que dominam o espaço público. Imaginem que esse observador externo se aproxima e descobre ao menos um indício da existência do maquinário. Um titereiro experiente, como eu, como todos vocês, um dia espero, não se deixará abater por esse ínfimo deslize. Basta que recuperemos a narrativa prévia oferecida como justificativa à procissão de um milhão de fantoches (ou mais), a procissão de indivíduos. Ao recuperar essas informações, explicou o titereiro ao sentar no baú dourado ao lado do boneco caolho, os indivíduos de carne e osso que nunca marcharam na procissão fabricada, mas que, ao observá-la através das câmeras televisivas em plongée a duzentos metros do chão, sentiram-se representados por toda aquela gente, sejam títeres ou não, pois bem, disse o titereiro ao cruzar as pernas, essas pessoas se tornam extensões de nossos bonecos e defenderão suas existências custe o que custar. Vejam bem que a partir daqui os títeres deixam de ser títeres e se transformam em avatares das pessoas de carne e osso contaminadas pela narrativa prévia.

O titereiro novamente se ergueu e soltou um pigarro, gesto espontâneo que serviu como primeiro indício de que ele próprio era um indivíduo de carne e osso e não apenas outro boneco entre tantos outros bonecos que ornavam o auditório, inclusive na plateia, como se atentos ao discurso daquele que os fabricou numa oficina grosseira. Um milhão de fantoches (ou mais), disse o titereiro, movimentando-se a céu aberto numa tarde quente. Por mais concretos que se mostrem os indícios de um maquinário secreto, o indivíduo de carne e osso contaminado pela narrativa prévia nunca admitirá a existência mirabolante de tal mecanismo. Afinal de contas, admitir a existência de um maquinário secreto é assumir que a multidão que o representava não passava de um exército de títeres — e isso seria o mesmo que admitir que o indivíduo, ele próprio, não passa de um títere. E sob quais circunstâncias um títere poderia descobrir que é um títere?, perguntou o titereiro. Nenhuma, é claro. Pois o títere não pensa e não descobre. Esse também é o raciocínio dos indivíduos de carne e osso: “Se um títere não pensa e não descobre, então o fato de que me acusam de títere é falso, porque eu penso e descubro e acredito”.

O que o indivíduo de carne e osso falha em apontar é que, para todos os propósitos, ele agora também é um títere, pois seus pensamentos e descobertas de nada valem àqueles que nele provocaram essa estranha identificação com objetos inanimados. Só o que importa ao titereiro é essa identificação, ou o fato de que o indivíduo de carne e osso também se movimenta, assim como aquele milhão de fantoches (ou mais). Enquanto o indivíduo se movimentar e associar seus movimentos ao movimento da falsa procissão, então a ilusão permanecerá intocada. “Se um títere não pensa e não descobre, então o fato de que me acusam de títere é falso, porque eu penso e descubro e acredito”, repete o indivíduo, sem perceber que esse raciocínio que lhe confere autonomia é o mesmo que lhe impede de enxergar os dedos que manipulam suas cordas. Falha também ao títere, fantoche ou marionete perceber que nunca é ele próprio o centro do espetáculo. Quando cerrarem as cortinas, ele será colocado de lado, guardado num baú dourado como o meu, e quem toma o centro do palco, a fim de receber os aplausos, é o mestre titereiro, ele próprio parte ilusionista e parte dramaturgo, o homem que dita as regras de seu universo-modelo, cujas palavras foram reproduzidas ao longo de sessenta minutos por uma criatura descartável de tecido e arame.

O titereiro disse tudo isso e retornou ao centro do palco, onde um holofote o iluminou por trinta segundos enquanto era aplaudido. Assim que cessaram os aplausos, o feixe de luz acompanhou sua caminhada ao baú. Ele ergueu a tampa usando as duas mãos, acomodou a si mesmo junto ao boneco caolho e ambos permaneceram imóveis. De cima do palco vieram duas mãos enluvadas e fecharam o baú com uma imensa chave de prata. As luzes se apagaram, mas ninguém percebeu que o espetáculo chegava ao fim.

Matheus Borges (Porto Alegre, 1992) é escritor e roteirista de cinema, formado pelo curso de Realização Audiovisual da Unisinos. Foi aluno de Luiz Antonio de Assis Brasil em sua oficina de criação literária. Seus contos já foram publicados em revistas no Brasil (Sexus, Subversa, Gueto) e no exterior (Waccamaw, Fiction International). A Colmeia, seu primeiro longa como roteirista, tem estreia prevista para 2019.

a feira, de Priscila Branco

lembro da feira. a melhor parte de mim. não que gostasse de frutas e legumes variados, sempre fui fã mesmo é de batatas, apesar de não ser vencedora em nada na vida. mas a feira era mais do que isso. até mais que o aipim cozido com margarina que minha mãe, muito docemente, e meu pai, muito euforicamente como sou às vezes hoje em dia, ofereciam às pessoas.

eu acordava às 6 horas da manhã com o barulho das coisas. os caixotes se moviam com raiva do chão. a porta da garagem se abria, como quem espera a semana inteira para beber uma cerveja, a verdadeira sexta-feira santa. um passarinho cantava na árvore do lado, que há muito foi abatida. mesma árvore que minha gata escalava, e mesma árvore também onde jogava uma pedrinha amarrada num barbante para alcançar os galhos. no fundo sempre quis ser gato.

eu parecia um ser insone. num sábado, quem acorda às 6 da manhã sem precisar acordar? eu sentia o cheiro do tempo. não sabia naquela época, mas era ele, era sim, e conversava comigo.

sentada num caixote qualquer, observava as lindas velhinhas que chegavam ali para comprar qualquer coisa, e adorava escutar histórias sem sentido, lembranças disso ou daquilo e o que eu mais gostava era ir na casa delas com meu pai, naquela kombi velha, entregar as compras.

a kombi era tão importante pra mim que uma vez acordei desesperada de um sonho em que estava dirigindo e caía com meu pai e a kombi e tudo dentro de mim no rio ali perto de casa. o mesmo rio em que desovavam corpos, imaginei também toda minha felicidade e nossos corpos sendo desovados.

lá pras 10 horas, pegava minha bicicleta ou montava minha banquinha de troca de revistas da turma da mônica. nada me dava maior leveza e simplicidade do que pedalar pelas ruas amanhecendo. podia sentir o bocejo do dia, eu era um galo solitário descobrindo o mundo.

voltar para casa e sentir o rumor da feira. meus pais sorrindo com uma fruta do conde na mão, descascando um abacaxi, minha mãe tirando os carocinhos da melancia pra eu comer e não criar sementes no estômago. uma preocupação de nascer devagar, de esperar minhas raízes tomarem forma.

depois, o desarrumar das coisas, o desdobramento do tempo no tempo, mesmo com tempestades o ritual era refeito. voltar para o meu quarto e acender velas, pegar nas mãos livros estranhos que me confundiam e já começar a colocar no meu pequeno diário colorido a conversa que eu tinha tido com meu amigo iago, sentada na calçada do lado da feira.

o silêncio do meu corpo inebriado ainda pela manhã que já acabara. o gosto da lembrança muito prodigiosa me abraçava, exatamente como me abraça agora.

era nesse crepúsculo que chorava. sem saber muito bem por quê, com minhas mãos de crianças e meu coração ainda sem enfartos, a feira era já um abismo, e eu andava na corda bamba.

Priscila Branco é escritora de guardanapos. Ainda não descobriu o que é poesia e se encaminha pelas tentativas e erros. Escreve desde que achou um lápis e um papel caídos no chão, lá naquele tempo que chamamos infância. Antes de tudo, porém, é leitora devoradora e estuda Literatura Brasileira no mestrado da UFRJ.

divã, de Luciana Pinsky

Eu a encontrava nas terças-feiras às seis da manhã. Ela sabia tudo da minha vida: do meu primeiro grito, da minha última fuga, do meu intenso amor, e de tantas e inúmeras falhas tão bem escondidas até então. Também de Luís, claro. Que não era minha vida, mas tinha sido um pouco mais que isso.

Era boa ouvinte e eu uma faladeira de marca maior. Se ela sabia tudo de mim, o oposto não poderia ser mais falso. Aos cacos, depois de meses, uma coisa ou outra eu pegava. Que ela, como eu, sofria de gastrite, mas a dela estava controlada e a minha em plena ação. Que ela, como eu, adorava praia, mas que construiu intimidade foi com montanha. Mas eu nem investigava muito, pois, como bem diz uma amiga, há coisas que é melhor a gente não saber.

Pois por dois anos e nove meses eu ia me revelando e me entendendo. Luís rareava no papo, mas de vez em quando surgia e ela me ajudava a vê-lo sem os óculos de 3D da labirintite. Em uma dada semana, porém, ela pediu para trocar o horário de terça para quinta. E aí…

* * *

Sempre fui fã de Aurora, apesar do medo que por vezes sentia dela. Nessas horas nem queria aparecer, pois temia a mirada daqueles olhos falsamente plácidos. Naquele tempo de antigamente, cheguei a contar para Rosa o conteúdo de algumas sessões e ela reagiu com raiva de Aurora. Imagina… Tudo para não ficar com raiva de mim, creio.

O que eu omitia, disfarçava, procurava não perceber, lá eu contava, explicitava, percebia. Eu que nunca fui de chorar, passei a soluçar. É como diz um amigo: a vida não é fácil. Mas também não precisa ser tão difícil, Aurora. E ela, de certa forma, foi me mostrando que eu não precisava cultivar minhas dores com o mesmo carinho com que cuidava da horta lá de casa. Passei a regar menos as mágoas, as dores, as tragédias.

Depois de uns cinco anos entre idas e vindas, sentia-me finalmente mais leve, mais centrado, quase calmo. O tempo, Aurora, me resta pouco tempo para encontrar a paz. Você, uma antiga hippie, me diga, a paz existe? Foi assim que minha última sessão terminou, sem nem uma lágrima.

Na quinta-feira seguinte cheguei meia hora adiantado, às 7h, pois caminhei em ritmo decidido, raro em mim. Entrei, sentei na sala de espera, pus meus óculos de leitura e concentrei-me naquele livrão que me arrebata. Mesmo profundamente entregue à leitura, algo me fez levantar o olhar. Havia um jeito muito familiar naquele descer de escada que eu só enxergara com o rabo do olho.

— Fulô? O que você está fazendo aqui?

— Eu que te pergunto, Luís, o que você está fazendo aqui? Eu acabei de sair da minha terapia, ora.

— E eu vou entrar na minha.

— Com a Aurora?

Ai.

Sim, os dois dividiam a terapeuta sem saber. Aurora nunca notara, pois Luís se chamava Luís Paulo e sempre se apresentava pelo segundo nome. Rosa era a única a chamá-lo de Luís “para ser original”, dizia. E ele só a tratava por “Fulô”. Ele, tão pouco dado a apelidos, encasquetou com esse desde… desde sempre talvez. A “Fulô” a quem Luís se referia, tão generosa e calma, em nada parecia com a Rosa ansiosa que Aurora atendia. Já o “Luís” de Rosa, quase sobrenatural, era muito diferente do Paulo absolutamente mundano que toda semana deitava no divã de Aurora.

— Mas o que vamos fazer?

Rosa deu meia volta. Subiram a escada juntos e assim entraram na sala. Revelado o problema, Aurora ficou confusa. Em trinta anos de profissão, nunca nada parecido ocorrera. E agora?

— Nós temos uma sugestão, disse Rosa (a Fulô).

— Já que você nos conhece bem, tanto como sujeito quanto como objeto, queremos ser atendidos juntos, completou Luís (o Paulo).

— Mas…

— Sim, achamos que esse encontro agora, do nada, tem sua razão de ser. Talvez seja isso. Conversaremos sobre aquele momento e entenderemos quem somos, quem fomos, quem seremos.

E assim, Rosa e Paulo (ou Fulô e Luís, se assim você preferir) passaram a se encontrar toda quarta-feira às 6h30 da manhã no divã de Aurora.

Luciana Pinsky é, originalmente, jornalista, com passagem pela revista Época e pelo jornal Valor Econômico, entre outras publicações, e se enveredou para a ficção, especialmente para crônicas. Publicou um romance, Sujeito oculto e demais graças do amor (Editora Record). Atua, desde 2005, como editora de livros pela Contexto. E mantém seu blogue de textos ficcionais: http://lucianapinsky.blogspot.com/

sobre o não-dito, de Luís Roberto Amabile

“Do que você está escrevendo?”

“De um cara.”

“Que cara?”

“Um cara que mata a mulher numa estância hidromineral.”

“Nossa! E como ela morre?”

“Sufocada. Enquanto dormia.”

“É uma noite de chuva?”

“Não. Nos filmes e livros os assassinatos costumam ocorrer em noites de chuva. Cansei disso. Este vai ser num dia de tempo bom. Um dia igual aos outros. Nada de especial. Eles estão no hotel, dormindo. Quer dizer, ela está dormindo. Ele a observa dormir e pensa na vida.”

“E na morte, né. Se ele mata a mulher…”

“É… Claro que ele pensa na morte. Mas acho que mais na vida. Na vida que ele leva.”

“Ele não tem uma boa vida?”

“Sim. Ou não. Depende.”

“Ele está até viajando. Eles estão de férias, não é isso?”

“Sim.”

“Quem quis ir para a estância?”

“Ele. Foi ideia dele.”

“Então.”

“É que depende. Do ponto de vista. Do que você espera.”

“Do que eu espero?”

“Hum…Você, eu. Do que as pessoas esperam.”

“Do que as pessoas esperam uma da outra?”

“Não… Também, mas não só. Esse cara, por exemplo, olha a mulher dormir e se lembra de que alguns anos atrás ele voltava de um fim de semana na praia com os amigos. Passavam por uma daquelas cidades à beira da rodovia. Ele viu uma família atravessando a pista. Um casal e dois filhos. Um menino e uma menina. Todos vermelhos do sol. O cara barrigudo. A mulher também gorda. Os filhos já ficando. Todos gordos e vermelhos, usando as economias para aquelas férias. Um panorama terrível, ele pensou na época.”

“Mas não precisa ser assim. Você pode alugar uma casa mais perto da praia, uma que não precisa atravessar a rodovia. Você pode passar bloqueador solar e evitar o sol do meio-dia. E você pode fazer regime. É mais difícil do que o resto, mas é possível.”

“Sim…Teoricamente é possível. Mas sabe o que é? No fim, mesmo que se faça tudo da melhor maneira possível. Mesmo que se tenha dinheiro para comprar uma super casa numa praia particular; e que se proteja a pele e que seja magro, um dia você acaba numa estância hidromineral com um monte de velhinhos.”

“O seu cara não gosta de velhinhos?”

“Até que gosta; o problema é que são muitos. Sabe? Velhinhos juntos. Sempre. Hotel com diária completa. Sempre sopa de entrada. Os velhinhos e suas conversas de doenças. Ele não pode suportar isso.”

“Ele por acaso é um velhinho?”

“Não, mas ele percebe isso tudo que te falei.”

“Tá, entendi. Ele tem medo de envelhecer e mata a mulher.”

“É que os velhinhos o deixam um pouco deprimido.”

“Bom motivo. O juiz deve aceitar como justificativa.”

“Muito engraçado.”

“Mas é, não é?”

“Pensando bem, acho que ficaria legal finalizar com o cara no tribunal, dando esta explicação sobre a morte da mulher. Adoro quando você me dá ideias.”

“Eu nunca percebo quando estou fazendo isso. Mas disponha. Agora vou dormir. Você vem?”

“Não, vou escrever mais um pouco.”

“Será que é uma boa ideia eu fechar os olhos?”

“Se você está com sono.”

“Com essa chuvinha fica fácil…”

“Então esquenta a cama que daqui a pouco eu vou.”

“Não demora.”

“Só vou terminar a cena da morte.”

“A gente tem de acordar cedo. O banho sulfuroso é às 8h e eu quero tomar café antes.”

“Tá bom.”

“Boa noite. Beijinho.”

“Boa noite.”

Luís Roberto Amabile é professor de Escrita Criativa e Teoria Literária na PUCRS. É autor de O amor é um lugar estranho (Grua, 2012, finalista do Prêmio Açorianos) e O Livro dos cachorros (Editora Patuá, 2015, vencedor da chamada de publicação do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul). Também colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção, que a Companhia das Letras lança em 2019.