da porta, de dentro

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Com precisão

Vila do Sossego, Zé Ramalho

Sonhei com isso agora há pouco
Você não consegue dormir, mesmo que queira. Não existe sonífero no mundo que faça fechar os olhos. Você fica em estado de vigília constante, esperando que tudo tenha sido um pesadelo. A certeza de que não é aparece pelo resto do mundo dizendo que não foi. Todos os olhares de pena e palavras de consolação cansam, você precisa de remédios pra aguentar tudo. E mesmo tomando aqueles que fariam dormir, esquecer, estes não têm efeito. Somatiza a perda em dores de cabeça, pontadas no peito, maus-jeitos nas costas e nos braços, o que pode ser efeito das noites insones, mas você não atribui uma coisa à outra. Claro que no meio de todas as circunstâncias acima, existe, primeiro e corriqueiro sentimento, a vingança, a vontade de tomar a si a atribuição de justiçar. Coisa que não é atributo só teu, são de todos vocês. Vocês que foram privados da presença deles, do riso, da alegria inerente de quem tem só por ser genitor. Existe a vontade mas não há forças pra ir atrás, empreender caçada, nem protestos ou pedidos junto à autoridade — que eram insistentes nos primeiros dias — continuaram após certo tempo. Um que outro ainda peregrina da delegacia ao promotor, e deste ao juiz, há ainda o delegado, mas depois de um entregar ao seguinte e esclarecer suas responsabilidades, as solicitações, os mandos de que se “faça justiça” acabam ganhando uma gaveta, um armário de onde só conseguem saída com os mais insistentes, os que não conseguem acreditar, iguais a você, ser tudo real. Não fosse ter sido vítima a atriz, o caso seria esquecido por completo. E ainda existe a questão de saber se o encontro do(s) culpado(s) trará o que você almeja. Certamente não. Não é punição o que você deseja de fato. O que você deseja não te será dado, não nesta vida. Então fica o embate entre o conformismo e a indignação, mas nenhum resultado positivo e oposto a um destes restitui aquele ser. Dentro da casa vocês são fantasmas, não sabe se o outro compartilha o mesmo que você, pois não falam mais como antes depois do acontecido, o que faz pensar que o vínculo com aquela pequena criatura era o que ainda os unia. Tornaram-se desconhecidos depois do enterro. A dor pode ser a mesma atingindo cada um com impactos diferentes. Então o que resta é ficar observando aqui do alto, desta janela. Ficar olhando lá pra baixo, pro colégio que a criança frequentava, esperar que ela venha sorrindo feliz cruzando a rua e subindo pelo elevador, pelas escadas, ou que espere você descer pra buscá-la, dar um abraço cuidadoso pra não machucar e beijar as maçãs do rosto com todo o carinho e afeto possíveis. Resta essa ilusão, como tantas outras. E mesmo que você dormisse, sonhasse que estava tudo bem, que nada do que aconteceu, aconteceu, não seria pior? O que torna uma situação pior, pior? Assim, melhor contar mais um dia que você não a tem, e enquanto vê crianças saindo do colégio lá embaixo, pede que algum deus prive seus pais da mesma pena, no idêntico segundo achando que se houvesse algum deus, de fato, nem teria razão de existir tal pedido.

A nu
A menina foi encontrada como as outras. Como todos eles. Foram meninas, meninos, idades entre cinco e dezessete anos, possuindo similaridade nos corpos: as crianças e adolescentes masculinos e femininos geralmente magros, nos últimos os seios quase inexistentes como se fossem corpos dos garotos; os corpos dos adolescentes esguios, como as garotas, quase sem pelos. Tinham em comum — além dos ferimentos perfuro-cortantes (causados por uma faca, um estilete, um facão? nem a perícia tem certezas) — isto: quase sem pelos. Criaturas recém descobrindo a perversidade do mundo. Descobrindo e já esgotadas por tal saber. As meninas e moças, meninos e moços, todos foram estuprados. Os cadáveres foram localizados desovados em vários pontos da cidade — no lixão, num beco, numa obra abandonada ou não, nesse caso em horários em que não haviam testemunhas. Cruzamos os pontos de descarte pra ver se havia uma espécie de padrão, ou então se os locais estavam próximos um do outro; nada foi revelado nesse sentido. Trabalhar com tais tipos de crimes é foda. Foda no sentido ruim, claro. Não sou pai mas eu vejo a dor deles. Dá pena, muita pena mesmo. Desafiariam a nu muitos cães raivosos pra não serem privados dos filhos, fariam o que fosse preciso. Sabe, todos esses anos só me deram uma certeza: o ser humano não nasceu pra ser bom, apenas aprende a ser, mas a maldita da nossa natureza é tendenciosa ao ocaso, nosso e de quem nos rodeia. Tudo que é belo destruímos. Vivemos numa falsa felicidade, guiados por crendices de alegria que criamos, na maioria das vezes, convenientemente. Enquanto não filosofo, investigo. Fumo e tomo café com as fotos dos corpos espalhadas na mesa. Algumas bocas estão abertas em gritos audíveis só a mim.

A paz dura pouco
Existe uma falsidade inerente em crianças atrizes/atores. Mesmo ouvindo elas falarem fora do texto decorado, parecem que sempre estão atuando com frases previamente escritas. É o caso de Julieta. Seus pais gostavam tanto da peça que escolher um nome ao rebento não foi tarefa difícil. Se fosse menino seria Romeu. Julieta começou fazendo pontas em comerciais de lojas locais da cidade natal, depois a mãe decidiu colocá-la em uma agência de publicidade com sede na capital que tratou de providenciar propagandas de lojas e outros estabelecimentos conhecidos em nível estadual e nacional, com gravações, na maioria das vezes, também na capital. Na metrópole foi, após alguns testes, indicada a fazer mais testes em emissoras grandes de televisão, dos quais, ao ser aprovada, após viagens ao Rio, São Paulo e Minas Gerais, catapultou-a ao papel da filha da protagonista da novela das dez de uma delas. No país inteiro então, por cerca de dez meses, sua fofura auxiliada pelos olhos claros em heterocromia e teatralidade indisfarçadamente falsa, atribuída à sua infantilidade, dominou as tevês no horário. Depois do primeiro sucesso, a menina continuou fazendo outras novelas, um seriado e diversas propagandas, mas, como dito no início, a um analista prevenido todos os papéis, frases e atuações se resumiam a ser o que em público refletia em entrevistas. Não se dissociavam mais a vida artística da real, pela diferença de que na última ela mantinha os estudos escolares. Até que.

Vinde a mim
Da janela. Observo da janela, aqui do alto. Existe um colégio lá embaixo e quando dá quinze pras doze venho até o parapeito e miro pra lá, na direção daquelas crianças e adolescentes saindo. Consigo averiguar cada laço nos cabelos, cada tiara, cada sorriso bocó de cada figura vulnerável. Fito suas mochilas com motivos cartunísticos televisivos, suas roupas compradas com desapego e ao mesmo tempo com toda aflição financeira de dinheiro-que-nunca-chega dos seus pais ou responsáveis. Anoto mentalmente seus trejeitos, o jeito acriançado nos rapagões de quinze ou dezesseis anos e a seriedade pura nas crianças de cinco ou seis. Aguardo quando um(a) deles(as) subirá pelas escadas ou pelo elevador, trazido(a) por mim ou pelo Destino e quando tudo mudará. Pra mim e pra ele(a). Fico contente. Fico contente em poder alterar rumos tão desinteressantes.

Andrei Ribas é autor dos livros O monstro (2007), Animais loucos, suspeitos ou lascivos (2013) e Cada amanhecer me dá um soco (Bestiário, 2016). Possui trabalhos reproduzidos nas revistas eletrônicas brasileiras Plural, Flaubert, R.Nott, Pessoa, mallarmargens, 7faces, Subversa, entre outras publicações. Escreveu resenhas e críticas literárias para os sites Amálgama e Homo Literatus.

osvaldo

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Osvaldo era homem macho. Não reclamava do acaso, nem chorava morte alheia. Dizia que guardava as lágrimas para quando chegasse seu dia. Seguia a vida pelos seus passos. Mas, de todo caso, aquela não era uma morta qualquer. Era esposa de Alberto, amigo de infância, parceiro de negócios. Teria mesmo ele que fazer presença na despedida? Justo ele, que nem dela gostava, sempre pronta a dar-lhe respostas malcriadas, num ciúme doentio a julgar ser ele o ladrão dos momentos em que ausente o marido.

Mulher é bicho teimoso. Quando enfia ideia na caixa lá de cima, não tem quem a tira. Da situação, Alberto é que gostava, pois, assim, mascarada estava a constância da sua farra. Que longe do amigo tudo acontecia. Bem feito pra megera, que se achava, pensava Osvaldo, ao tempo em que se retrucava: “Mas que pensamento mais mesquinho, a esta hora, quando morta a criatura”.

Enterro é coisa chata, o defunto estirado ao centro, rezas, ladainhas e o invariável endeusamento. Nestas horas, ninguém lembra defeito. E Osvaldo, que nem sofria de esquecimento, se questionava: “vou fazer o que naquele enterro?”. Odiava obrigação. Teatro. Dissimulação. Chegou lá com a hora adiantada, no exato momento em que o Padre destacava a dor da família e, principalmente, a de Alberto, já que filhos não tinham alcançado. Pensou o amigo: “Minha avó dizia que em vaso ruim não nasce flor. Mas podia nascer diabinho, puxado no gênio da mãe”. Que horror. Bem sabia que não devia ter ido. Em horas como aquelas, alegrava-se por quase nem ter família: “Sorte a minha, que nem casei. Melhor assim a viver como Alberto, na falsidade do dia a dia, preso a um casamento sem amor, a experimentar o sexo com tantas quantas lhe ofereciam o calor”.

E eis que, cerrada a cova, floreada a lápide, choros, prantos, velas e Alberto a fingir sua dor, vem Aninha, a prima do interior, pedir licença para ler carta que a alma que se ia, escreveu ainda em vida, pedindo que fosse lida, em público e em seu último momento de luz:

Aos que aqui vieram, para minha despedida, e que cercam meu corpo, onde por certo nem mais estou, revelo: Alberto, homem bom, trabalhador, que de mim cuidou e a mim manteve-se fiel, sem nunca me dar um motivo sequer de desconfiança, merece todo meu respeito. Ainda assim, devo admitir que fraquejei ante aos encantos da carne. E agora, quando tudo é vencido e não me obrigam os segredos sociais, posso enfim confessar: dentro de mim queimava um desejo incontrolável por Osvaldo. Ah como fui ciumenta doentia, com relação a Osvaldo. Pensava eu, a todo instante, por que com Alberto passava ele tantas horas, a matar-me de inveja? Sei que minha morte terá como causa doença do corpo, espalhada pela dor que se instalou no meu coração. Ah Alberto, quantas noites sem você, distante a trabalhar, me perdi em fantasias de amor com Osvaldo, a fazer com ele as mais criativas orgias que para você não pude dar. Sim, você, homem de família, não sonhava sequer a puta que em mim habitava e nutria por ele os mais devassos desejos. Sim, era por Osvaldo, que eu gemia. Gozava quando em mim ele debruçava um simples olhar. Liberta, agora, dos desejos terrenos que me ligava a ele, seu melhor amigo, posso ser eu sua esposa, completa, ainda que em alma, mas verdadeira e celestial. Porque você, Alberto, é o homem a quem, na presença de Deus, jurei eterno amor.

Ainda bem que silêncio é marcado mesmo pela ausência de palavras, pois impossível descrever o momento. O ódio de Osvaldo por ela ganhou força: “A vaca, até morta, é porca”. Desfeita a vida dela, não contente, arruinou os negócios e a amizade de Osvaldo e Alberto. E este passou de garanhão a corno e, de súbito, assumiu posição de vítima, marido perfeito, homem de respeito.

Terminada a carta, Osvaldo secou, por dentro, todo choro que havia muito guardava e que, naquela hora, jorrou em lágrimas, molhando-o em prantos.

Chegando atrasado ao evento inesperado, colega de trabalho da agora ex-vendedora de sapatos, daqueles que se obrigam a sociais de qualquer sorte, vê, atônito, o choro descontrolado de Osvaldo, a quem consola, em forte abraço, pela viuvez.

Jussara Resende é brasiliense. Graduada em jornalismo e direito, passa os dias a escrever, quando não textos técnicos, por lazer. Ensaios, poemas, crônicas e comentários que divulga em sua página no Facebook. Escritora amadora, no exato sentido da palavra.

baile de máscaras

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate, recebeu o convite em sua casa — um sobrado caindo aos pedaços, localizado num dos piores bairros da cidade —, onde morava com a mãe, velha detestável, manca e diabética. Os olhos do mensageiro não desgrudaram dele, enquanto Zacarias segurava com dedos flácidos o papel:

— Que merda é essa?

— Esteja lá às oito em ponto. Não se atrase.

Um baile de máscaras. Zacarias pegou o terno que acabara de confeccionar para o melhor cliente, a cartola e a bengala que fora de seu pai, e a máscara que ele mesmo, Zacarias, alfaiate, costurara às pressas apenas para o evento. Uma carranca horrenda, parecida com as usadas por pigmeus africanos em rituais de feitiçaria.

— Que tal?

A mãe tirou os olhos da tevê, mediu o filho e cuspiu de lado.

— Você está a cara do prefeito — foi a única observação que ela, criatura odiosa, fez, antes de voltar a enfiar os olhos na tela prateada. A velha havia cuspido de lado porque não gostava do prefeito.

Ao chegar ao baile Zacarias percebeu que tudo não passava de uma armadilha.

— Você será enforcado, canalha dos infernos! Como tem coragem de aparecer aqui depois do que fez?

— Eu não fiz nada. Fui convidado. Deixem-me em paz.

Dezenas de máscaras o cercaram:

— Facínora!

— Assassino!

Quem regia a saraivada de insultos era justamente o prefeito, que por coincidência também se chamava Zacarias Sepúlveda Bezerra. Além disso Zacarias Sepúlveda Bezerra, prefeito, usava uma máscara que lembrava bastante o rosto de Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate.

— Tragam uma corda. De hoje esse sujeito não passa.

Havia muitos homônimos no salão, visto que todos os presentes, exceto os do sexo feminino, se chamavam Zacarias Sepúlveda Bezerra.

O prefeito com cara de alfaiate tinha violentado e estrangulado, no seu gabinete, um garoto de doze anos. Por isso o alfaiate com cara de prefeito estava sendo levado, contra sua vontade, até uma forca montada de uma hora pra outra no fundo do salão.

— Me soltem. Vão tomar no cu!

O alfaiate esperneou e distribuiu sopapos a torto e a direito. A multidão mascarada afastou-se por um instante, depois engolfou-o:

— Maníaco! Sodomita!

No chão coberto de confete e serpentina, a cartola, a bengala e o convite um pouco amarrotado.

— Meeeeee sol… teeeeeem…

Enforcaram-no. O corpo, já sem ânimo nem cor, ainda estrebuchou durante três ou quatro segundos. Quando a máscara caiu, todos viram que não era Zacarias Sepúlveda Bezerra, alfaiate, mas sua mãe.

— Escapou mais uma vez, o depravado.

Atiraram a velha pela janela e deram prosseguimento ao baile, que, apesar dos dois linchamentos posteriores, ambos transmitidos ao vivo pela tevê, não foi tão espetacular quanto os bailes do carnaval passado, em que o número de justiçados e de crianças violentadas havia sido bem maior.

Nelson de Oliveira é escritor e doutor em Letras pela USP, muito cedo percebeu que a literatura é o local ideal para o exercício da liberdade. Incapaz de ser um só, desdobrou-se em outros três autores: o poeta Valerio Oliveira, o desenhista Teo Adorno e o ficcionista Luiz Bras.

caratê colombiano

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Daí fiz uma piada sobre pó com o cara lá no trabalho. Disse que estava praticando uma nova arte marcial pra emagrecer. O caratê colombiano. Todos riram pra caralho, mas ele riu um pouco e depois ficou sério, me analisando.

Agora o filho da puta não me deixa quieto. Fico resfriado ele já me olha estranho. Apareço menos gordo e ele com cara de pena. Escrevo minhas paradas de autoficção e ele mandando mensagem do Smilinguido no inbox.

Aqui cabe uma confissão. Eu também não desmenti nada. No fundo, ou nem tão fundo assim, eu tô é gostando de ver a confusão dele.

Eu falo pra ele: “Tô bem cara, só me deixa aqui em paz.”

Ele parece que aceita com resignação, mas quando menos espero vejo ele falando pros meus amigos do trabalho:

— Alguém tem que falar alguma coisa pra ele. Tá dando muito na cara. Ele tem um problema.

— Que nada. Ele não é disso. Ele gosta é de reggae, Caetano Veloso. Tem até pulseirinha do Greenpeace.

— Sei não. Todo mundo sabe que essas coisas andam juntas.

Isso já começa a me aborrecer, mas resolvi não desmentir ainda. Quem sabe ele fica com medo, resolva que não valho a pena, sei lá, e me deixa em paz.

Um dia no almoço ele veio falar comigo:

— Pô cara. Sei que você que tá passando umas coisas aí mas não precisa ir pra esses caminhos não.

— Do que você tá falando?

— Você sabe. Relaxa cara. Eu não te julgo não.

— Eu também não julgo quem gosta, mas eu não curto, porra!

— E aqueles poemas doidões lá?

— É ressaca, fluxo de consciência, mentirinhas, sei lá cara. É ficção.

— E você emagrecendo aí, com essa cara chupada?

— Como de três em três horas e faço exercícios, não tem segredo.

Ele não escondeu a decepção. Não sei se achou que eu estava mentindo, ou se preferia que eu estivesse.

— Olha — eu digo — tá bom, você me pegou. Tô nessas aí, afundadão. Mas não fica espalhando aí, sabe? Pode dar problema pra mim.

Ele sorriu e disse:

— SABIA!

Daí ele hesitou, vacilou, ensaiou pra caralho e finalmente disse:

— Também sou do movimento, irmão! Mas tô devagar ultimamente. Você pode me arranjar um aí?

— Claro. Te entrego amanhã.

Cuzudo fdp.

Agora tô aqui. Raspando um giz, quebrando e amassando balinha de açúcar, misturando com pó royal. Tô pensando em colocar uma aspirina também, e uma pitada de rivotril vencido pra dar um grau. Depois disso vou embalar tudo num saquinho velho de supermercado e levar pra ele.

Não vou cobrar nada. A primeira é de graça. Ele vai ter a trip da vida dele.

Rafael Vieira é escritor, morador do extremo de leste de São Paulo. Participou de antologias e revistas on-line de literatura com poemas e contos, sobre faculdade largadas, casamentos desfeitos e bebedeiras (que ele diz ser ficção pra evitar processo).

quatro microcontos

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

o querido ouvinte

Adoro ouvir histórias. É a única hora em que não tenho pressa nenhuma. Se levar o dia inteiro, aí é que eu me divirto mesmo. Quando eu era pequeno, toda noite minha avó me contava uma história. Aqui é a mesma coisa. E todo mundo conta. Cada uma melhor que a outra. Ah! Como eles inventam. Mesmo que no começo eu precise incentivar, com choque elétrico, palmatória e afogamento.

classificados 2 — o especialista

O salário é ótimo, sem dúvida. E os horários, bastante flexíveis. Terei total autonomia para definir a ordem e o cronograma de todas as etapas. Me garantiram que há grandes possibilidades de ascensão na empresa e se dispuseram a arcar com as despesas de um pós-doutorado no exterior. E o melhor de tudo, as armas, a munição e os atestados de óbito, eles mesmos fornecem.

yeah, yeah, yeah

Para Natercia Rossi e Claudia Fernandes

Como sempre, não há quase nenhum movimento na rua. Os quatro rapazes chegam na esquina, com suas roupas coloridas, brincam muito uns com os outros e atravessam a rua cantando. O fotógrafo ri e vai pedir calma, pois ainda nem montou sua câmera. Mas não há tempo, um caminhão de mudanças dobra a esquina, avança o sinal e atropela os quatro.

Foi uma pena, não só pela dor das famílias, mas porque todos ali em Abbey Road dizem que eles levavam muito jeito pra música.

sim

Todos os dias, um pouco depois das seis da tarde, ela vai até o quarto, abre o guarda-roupa e tira de lá o traje, que veste com cuidado. As meias finas, o longo vestido armado, as mangas de renda, os sapatos também brancos, o véu e a grinalda.

Então senta-se em frente à janela e aguarda. Quando os sinos no campanário da igreja em frente tocam as sete horas, ela se levanta e, feliz, joga o buquê pela janela do oitavo andar.

| estes contos estão no livro Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (Editora Oito e Meio, 2017) |

Cesar Cardoso (Rio de Janeiro,1955) publicou os livros de contos As Primeiras Pessoas e Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (Editora Oito e Meio). Escreve para TV e mídia (revista Caros Amigos, jornais O Pasquim e O Planeta Diário, programas Tv Pirata, A Grande Família, Sai de Baixo, Toma Lá Dá Cá, Zorra etc). Também tem publicados livros infantojuvenis. Seu conto “Ai de Mim, Copacabana” saiu na coletânea Para Copacabana, Com Amor (Editora Oito e Meio) e no livro The Book of Rio, lançado pela Editora Comma Press, em Londres, na Inglaterra. Participou da Coletânea Prêmio Off Flip de Literatura — em 2009 com o poema “Carochinhas brazileiras” e, em 2015, com o conto “O Veredito”. Também em 2015 lançou coisa diacho tralha (poesias, Editora Texto Território). É editor do blog Patavina’s.

a baguete

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— Vou ali matar o presidente!

Ele disse e passou a mão numa baguete comprida que estava sobre a mesa.

Uns poucos passos separavam sua casa da residência presidencial. Tão logo viu a determinação do homem, um dos seguranças se aproximou com a autoridade típica dos que cumprem com seus elevados deveres:

— Visitas não são permitidas, ainda mais com baguetes.

— Avisa o seu chefe que hoje já era — afirmou o futuro assassino.

— Por quê?

— Porque sim.

— Com isso aí?

— Não duvide jamais do poder de uma baguete!

Havia muito a se considerar naquela frase: uma baguete velha, por exemplo, endurecida pelos rigores do tempo, poderia causar, sim, graves lesões em qualquer um, principalmente se a vítima fosse o presidente. O segurança se lembrou de um caso ouvido há pouco: um conde francês de nome Ferdinand Cèline saiu para caçar e, ao apontar sua baguete em direção à cabeça de um unicórnio teve morte imediata; o tiro saiu pela culatra e a notícia saiu na mesma tarde nos principais jornais europeus, o que gerou uma consternação geral de enormes proporções e nenhuma resolução prática, como é natural em situações dessa natureza. Cabia a ele, portanto, o segurança, tomar uma medida preventiva:

— Chamem o ministro da Defesa — falou em seu rádio comunicador. — É um caso de vida ou morte. Mais de morte, provavelmente.

Como era cedo ainda, o ministro compareceu vestindo sua tradicional cueca suja. Ficou ali uns bons dez minutos avaliando a baguete e o seu portador. Dada a sua larga experiência em assuntos de defesa e ataque, uma vez que fora goleiro e centroavante do Avaí FC na sua já distante juventude, ponderou: fudeu!

— O que é mesmo que você vai fazer com isso? — perguntou ao futuro assassino.

— Matar o presidente. É sim.

O ministro, defensor habilíssimo de si mesmo, tirou o seu da reta e passou a bola para a imprensa; a imprensa, por sua vez, espetacularizou tudo e transformou a baguete num fuzil israelense e o homem, que era servente de pedreiro, em um perigoso terrorista foragido que costumava se esconder em Jurerê Internacional.

Lá pelo meio-dia, alertados pelos boletins extraordinários das TVs, em frente à residência presidencial havia uma multidão composta por todos os setores da sociedade de bem: banqueiros, garis, empregadas domésticas, ladrões de galinha, vagabundos & socialaites, deputados federais empenhados em capitalizar o fato para suas futuras campanhas, soldados, ministros da Economia & Justiça, motoristas do UBER e estudantes que entoavam mantras tibetanos de paz e purificação espiritual.

O presidente aproveitou a súbita popularidade e resolveu fazer um pronunciamento relâmpago:

— Diga ao povo que fico!

Foi a gota d’água: uma confusão generalizada explodiu coxinhas voaram para o alto mortadelas eram lançadas como bombas o segurança enfiou o nariz na cueca do ministro que nem se defendeu jornalistas usaram suas câmeras e microfones como escudos e ao fim de dez segundos todos eles se mataram com requintes de estupidez jamais verificados na história deste país.

No chão restou intacta apenas a baguete.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: Claudio Parreira.