flip 2018

DSCN0449

A Festa Literária Inclusiva de Paraty (Flip)

A Flip — Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, com todas as suas casas e editoras independentes (foram 23 casas paralelas), foi, mais do que nos demais anos, a Flip da visibilidade. Nas mesas que participamos, nós, editores da Gueto, falamos dessa necessidade. É especialmente importante que tenha acontecido agora, com a homenagem à Hilda Hilst, neste segundo ano de curadoria de Josélia Aguiar, que tem feito um trabalho admirável. Foi também a Flip da resistência e do encontro de forças. Foi a Flip do afeto, da alteridade, da sororidade. Um movimento de união que se consolida na construção de discursos e narrativas. E foi, sem sombra de dúvida, uma Flip politizada, como não poderia mais deixar de ser.

20180726_132948Apresentação na Casa da Porta Amarela do coletivo Samba Sampa durante o lançamento da coleção Sambas Escritos

A programação da Casa da Porta Amarela, por exemplo, capitaneada pela editora Lizandra Magon de Almeida (Editora Pólen e selo Ferina) e pelo diretor de arte e ilustrador Murilo Martins, trouxe o protagonismo de escritoras negras. Um dos destaques foi o lançamento da coleção Sambas Escritos, do coletivo Samba Sampa. Os quatro volumes, organizados por Maitê Freitas, Carmen Faustino e Patrícia Costa Vaz, reúnem textos sobre história do samba, com ênfase especial nas mulheres pioneiras do ritmo e da tradição do samba em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nossa editora, Christiane Angelotti, que também é fundadora do site Para Educar, participou da mesa “Histórias de livros, histórias de leitores” com Neide Almeida, coordenadora do Educativo do Museu Afro, e Penélope Martins, autora e contadora de histórias. Elas compartilharam suas histórias sobre mediação de leitura para pais e professores.

20180727_124824Penélope Martins, Lizandra Magon de Almeida, Christiane Angelotti e Neide Almeida durante a mesa “Histórias de livros, histórias de leitores” na Casa da Porta Amarela

A pauta de inclusão também esteve presente nas mesas da Casa Libre & Nuvem de Livros. Nomes como Conceição Evaristo, Volnei Canonica, Renata Nakano, Roger Mello, Raquel Matsushita, Pilar Lacerda, Lêda Fonseca, Anna Cláudia Ramos e Sergio Alves estiveram nas mesas e a casa trouxe reflexões importantes a respeito do direito à literatura desde a infância.

A Casa do Desejo, idealizada pelo editor Eduardo Lacerda (Editora Patuá), esteve lotada todos os dias, com mesas sobre ações poéticas das periferias, resistência das ruas, golpe militar de 1964 e golpe parlamentar de 2016, entre tantos outros temas de grande importância para os nossos dias.

20180728_152711Ricardo Terto, Bruna Mitrano, Pricila Gunutzmann (mediadora) e Paulo Oliveira durante a mesa “Ações poéticas das periferias” na Casa do Desejo

“Não acredito numa arte que não tenha preocupação com o mundo, não acredito numa literatura que não busque não apenas representar o mundo, como também nos levar a refletir e a participar da transformação do mundo, não acredito numa vida que não seja voltada, cada um com suas habilidades e em sua área de saber, a melhorar o mundo, a combater as desigualdades, a intolerância e o autoritarismo. Temos o dever de denunciar essas injustiças.” (Rodrigo Novaes de Almeida, escritor e editor da Revista Gueto, durante a mesa Paralelos entre o Golpe de 1964 e o de 2016: O papel da arte na resistência, na Casa do Desejo — 16ª Festa Literária Internacional de Paraty)

20180727_174047Sylvia Soares, Rodrigo Novaes de Almeida, Rosângela Vieira Rocha e Wilson Alves Bezerra participaram da mesa Paralelos entre o Golpe de 1964 e o de 2016: O papel da arte na resistência

Link do áudio da mesa na íntegra.

Também na Casa do Desejo, sábado, ocorreu uma mesa sobre coletivos de autoria feminina. Participaram Ana Carol, da Confraria Poética, Sandra Regina de Souza, do Senhoras Obscenas, Vanessa Ratton, do Mulherio das Letras e Penelope Martins, do Mulheres que leem mulheres. A fala potente e necessária de Penélope Martins sobre racismo foi o ponto alto da mesa.

20180728_102106Penelope Martins, do Mulheres que leem mulheres, fala para o público durante a mesa na Casa do Desejo

Uma das melhores conversas aconteceu na quinta-feira, na Casa Philos, chamada “Metonímia da linguagem prisional — quando o cárcere vira arte: as desigualdades e a coesão social”, com Lucas Verzola, editor da Revista Lavoura, e o diretor teatral Adilson Dias, um dos sobreviventes da chacina da Candelária, que deu um depoimento emocionante. Já Verzola trabalha no Tribunal de Justiça de SP e falou sobre o seu livro Em conflito com a lei (contos, Editora Reformatório), com relatos sobre a vida de jovens infratores. Esta mesa teve a mediação da fotógrafa e jornalista Priscila Urpia, que retratou em exposição o cotidiano de reeducandas da Colônia Penal Feminina do Recife.

20180726_095515Lucas Verzola, Priscila Urpia e Adilson Dias durante a mesa “Metonímia da linguagem prisional” na Casa Philos

Foi também na Casa Philos, com curadoria geral de Jorge Pereira e co-curadoria de Cristina Judar, Arthur Lungov, Thassio Ferreira, André Balbo, Lucas Verzola, Daiane Ciriaco e Aline Maia, que ocorreu uma programação intensa sobre LGBT+ e uma reflexão sobre revistas literárias, em que nós, editores da Gueto, participamos. Nela tivemos a oportunidade de discutir um pouco sobre a presença cada vez mais marcante das revistas literárias no cenário cultural, movimento que realizou, com o surgimento das plataformas de blog e o crescimento da internet nos últimos quinze anos, o caminho inverso dos grandes jornais impressos, estes em declínio evidente, com o fechamento de seus suplementos literários. Fizemos o paralelo do sucesso dessas revistas com a proliferação de editoras independentes, publicando autores novos e de qualidade, alguns premiados, enquanto grandes editoras colocavam em seu catálogo autores estrangeiros e nacionais já consagrados.

20180728_181424Yassu Noguchi (Jornal Plástico Bolha), Natália Figueiredo (Blog da Estante Virtual), Arthur Lungov (Revista Lavoura), Rodrigo Novaes de Almeida (Revista Gueto) e Thassio Ferreira (Revista Philos) na mesa “Revistas literárias – linguagens do contemporâneo”

O que fica dessa Flip é o sentimento de que não há mais volta. Editoras independentes, coletivos literários, as muitas vozes das minorias, escritores e poetas fora do mainstream serão cada vez mais o que existirá de mais relevante na festa, e o público já sabe disso, pois as casas ficaram lotadas todos os dias este ano.

Contudo, precisamos, todos nós, pensar na inclusão dos indígenas da região. Não apenas de modo pontual, mas permanente, trazendo-os para a programação, ouvindo suas vozes, suas narrativas. Eles não podem ser um “nó” na cidade, um “problema sem solução” do poder público do município. Estamos falando também das suas crianças cantando para os turistas nas ruas. Será que a “visibilidade” deles ficará restrita a isso?

20180727_214650Bloco de Carnaval “Só paro no próximo capítulo”, que saiu da Casa Santa Rita da Cassia e percorreu o centro histórico até a Casa Libre & Nuvem de Livros na noite de sexta-feira, 27 de julho

A 16ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty não foi somente uma festa literária. Não foi só encontrar amigos. Ainda estamos processando o que essa Flip significou para nós. Disseram que desde o ano passado está assim, mas agora, com o número de casas triplicado, explodiu. E ainda teve eclipse lunar. Quem puder vá no ano que vem para viver isso. Provavelmente nos encontraremos lá.

20180726_152030Paraty-RJ

Literatura é resistência!