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quatro poemas para o livro de um amigo, de Jozias Benedicto

[1]

“Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.”
(Wisława Skymborska)

um livro sobre o voo
sobre o tempo e suas artimanhas
sobre o passado
e sobre um futuro que logo é presente e logo é passado

é um livro sobre um cubo e ele tem asas
— um cubo ao qual chamamos de casa —
solo, pátria, mãe, moradia, lume
um livro sobre mecanismos para contar o tempo

este é um livro sobre pássaros
e suas rotas
sobre paisagens terrenas divinizadas

é um livro sobre conter o tempo
sobre buscas e reencontros,
um livro sobre o desejo.

[2]

“O tempo o mesmo tempo de si chora.”
(Luís de Camões)

o livro é como uma bala prateada sobrevoando a cidade
sobre todas as cidades e moradias humanas
sobre amores e ansiedades
cristalinos iconoclastas

este livro é sobre navegantes e navegadores
sobre os sete mares dos sete vezes sete universos
sobre risos e lágrimas, sobre o farfalhar
de miríades de borboletas todas chamadas “tempo”

ah, este vagar por espaços
por tempos
por amores e por eternidades,

este querer ser dois e ser um,
este querer guardar e querer gastar,
este eu de mim mesmo chorando.

[3]

“Vivem de pouco pão e luar.”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

lembro das lições de caligrafia
lembro das agendas rasuradas e esquecidas
lembro de línguas mortas e beijos ocultos
da lua cheia que nos enlouquecia

o mar ao longe, as ondas pálidas, o reflexo
ardente da lua nas águas
as passagens que a nenhum lugar levavam
rezas anáguas novenas jejuns e confissões

as recordações, as nuvens, o cheiro de chuva
flores que duravam apenas um dia
cantos sussurros e segredos

ruas de pedras, sobrados e azulejos
memórias
luar

[4]

“Vê-se, como tão rápido anoiteço.”
(Sousândrade)

se as manhãs trouxeram a vida e o amor
o sol dos dias
os dias que se seguem aos dias
como soldados marchando incessantes sob o sol

se as tardes vieram com flores e humores,
chás e febres
visitas inesperadas e sinos ao longe
cheiro de bolo de laranja e canela

as noites trouxeram perigos —
o esperar de alguém que nunca chega
a gargalhada descompassada ao longe

mas trouxeram também
a paciência e a temperança
as memórias guardadas nas folhas de um livro.

| os “Quatro poemas para o livro de um amigo” foram escritos para o livro Minhas verdades incompletas, do fotógrafo Denilson Machado (2020). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, com especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Participou da XVI Bienal de São Paulo, em 1981. Trabalha com videoinstalações, performances e pinturas que unem literatura e artes visuais. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas (Editora Apicuri, 2013), foi finalista do Concurso Sesc de Literatura 2012/2013. Como não aprender a nadar (Editora Apicuri, 2016) conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 na categoria Contos e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Recebeu, ainda, premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção, sendo editado pela Editora Patuá. Em 2019 lançou, pela Editora Urutau, um livro de poesia, Erotiscências & embustes.

tarauacá-ma, de Juan Manuel Domínguez

Se diz que o povo Tarauacá-ma, que ocupou uma porção pequena de solo entre o norte do Paraguai e Campo Grande, acreditava que a raça humana não passava de um sonho produzido por uma mente divina, e que o nosso destino é a irremediável e fatal desaparição. A nossa duradoura existência depende da fidelidade da memória desse deus. E a memória, para eles, é similar a uma pedra que com o tempo se desgasta e perde sua forma, até virar um pó amorfo e indistinguível.

Esse povo acreditava que a mente era algo assim como um animal selvagem, um Caite-pê (assim a chamavam). Em alguns casos, alguns de nós conseguimos dominar nosso Caite-pê, e conviver com ele em relativa paz e harmonia. Porém, os desafortunados e os delirantes herdam uma mente descontrolada, que faz enlouquecer a alma do seu possuidor. Os Tarauacá-ma, então, entendiam que o Caite-pê do deus que sonhou um planeta diverso, com uma raça bípede e falante, não conseguiu controlar sua criação, e por isso a abandonou à sua sorte. Aos poucos vamos desaparecendo. Tornamo-nos cada vez mais difusos e dispensáveis.

Os Tarauacá-ma sabiam que seu entendimento teológico não era o único. Perto da cultura Tupí, por um lado, e da Aimará, por outro, fundamentaram que a diversidade se deve a que Deus precisa se disfarçar de diferentes formas para cada povo. O entendimento pleno da origem e da existência divina não são uma coisa com a qual o nosso Caite-pê conseguiria lidar. O segredo que revela todas as coisas, em todos os tempos, permanece velado a nós porque ele é parte substancial de nós (o segredo da existência está dentro de nós) e subjaz a nosso entendimento.

Existem boatos que especulam com a existência de um livro, escrito por um expedicionário espanhol que avistou o povo dos Tarauacá-ma à beira do rio Paraguai, entre 1734-36. O nome desse explorador é Fernando de Nordoñas e o nome do livro diz-se que é Nômades da Luz, o misterioso povo dos Tarauacá-ma. No livro, Nordoñas afirma ter convivido com ele, e compara essa cultura aos exóticos povos da Ásia meridional. Segundo os que afirmam ter lido a obra, a comunidade inteira reunia-se toda noite ao redor de uma fogueira para permanecer por umas horas em estado de semi meditação. Alimentavam-se, sobretudo, dos peixes que conseguiam pescar, de forma bastante rústica, no rio, também de frutos silvestres e de Javalis.

Entre as lendas que ainda sobrevivem naquela região, existe uma que indica que a cidade de “Lucia del Valle” leva o nome da sacerdotisa suprema dos Tarauacá-ma. A história (supersticiosa e banal, claro está) diz que os Tarauacá-ma suplicaram a Fernando de Nordoñas que não divulgasse a existência deles, nem o local onde eles costumavam habitar. Ante a negativa do espanhol, a sacerdotisa suprema, de uma beleza incomparável, ofereceu-se para casar-se com o explorador, em troca de não marcar o local onde tinha coabitado com aqueles indígenas.

A penemandu é uma flor que os indígenas costumavam usar para curar as crianças dos traumas ocasionados pelos pesadelos. Um chá produzido com flores de penemandu, bebido muitas vezes ao longo do tempo, poderia fazer a pessoa perder a memória. Além de usá-la para decorar a casa, Lucia se valia de flores de penemandu para cheirar a sala de jantar. O méleo perfume e seu açucarado sabor encantavam o espanhol. Seus efeitos fizeram que aos poucos o entusiasta homem perdesse o rastro, na lembrança, do local onde tinha encontrado a divina e inusitada tribo. Lucia, que também bebia do chá amnésico, e cheirava das flores na sala de jantar, aos poucos começou a esquecer seu papel divino, sua missão como líder espiritual. O risco assumido, abandonar sua identidade, não significava uma despesa, comparado ao perigo de extinção que assolava à sua cultura, a todas suas crenças que agora desapareciam lentamente para serem substituídas por outras, as do cruel invasor. Lucia aceitou mudar de afetos, com a certeza de que assim salvaria seus verdadeiros sentimentos.

Durante todos os anos em que esteve casada com o espanhol, Lucia, o nome que a sacerdotisa dos Tarauacá-ma adotou para se confundir com os colonizadores, dedicou-se a preencher e alegrar o coração do seu eventual marido, por amor ao seu verdadeiro deus, ao seu povo e, com o passar do tempo, por amor ao destino que uma indecifrável divindade tinha encomendado para ela. Em 1740, Fernando de Nordoñas foi eleito prefeito da cidade. Dois anos depois, uma poderosa doença quase o fulminou de forma definitiva. Só os cuidados da sua dedicada mulher, de quem pouco se conhecia sua origem, conseguiram salvar aquele valioso cidadão. Honrando a cristã devoção da dama, o povo decidiu batizar a cidade com o nome de “Lucia del Valle”. A história dos colonizadores lembra dela como uma devota da fé católica, apaixonada pelo seu marido, pelos seus filhos e por umas flores provenientes de plantas que só ela conseguia germinar no seu jardim. Ao ficar viúva, se recolheu de forma quase permanente na sua casa. Morreu sendo uma anciã alegre. Tem alguém que afirma que suas últimas palavras foram numa língua similar à Tupí Guaraní, mas é coisa do povo inventar histórias para criar confusão.

Juan Manuel Domínguez é escritor e jornalista, com colaborações no Le Monde Diplomatique BR e Arg, Mídia Ninja e Caos filosófico. É também produtor e diretor de fotografia especializado em fotografia de documentários para a defesa dos direitos humanos.

sete poemas de Rodrigo Garcia Lopes

um sonho

Nas ruínas dos shoppings, nas ruas vazias
de uma metrópole em miniatura, sem nome,
o mato dominando tudo. Ruídos estranhos.

Vitrines quebradas lembrando teias de aranha,
caixas de produtos, bolor, pôsteres manchados
de sangue. Um telefone público tocando para ninguém.

Elevadores, escadas rolantes (ainda funcionam)
E você alcança o quarto 2014 através
das barbas-de-velho e goteiras nos corredores.

Labirinto de imagens, HOTEL HADES, fantasmas
da amnésia afetiva. Você não só jamais esteve aqui
Como percebe um bilhete diante da porta

a seus pés, onde se lê:
Faltam só mais alguns segundos
para Nada acontecer.

quarto escuro

O detetive avança pela desordem do estúdio.
A mobília está calada como testemunha.
Lá fora folhas se reviram, se estudam.

O telefone calado como um caramujo.
Um ano depois e todas as pistas
Deram em becos sem saída e luto.

“Nada disso está acontecendo, escuto
meus próprios passos sobre o escuro.
Dois gatos negros transando num muro.”

E o criminoso ali perto,
pronto para revelar quase tudo.
E na pequena floresta da biblioteca

O verde é um código secreto.
O detetive deita e cai num sono profundo.
E a carta o tempo todo sobre o criado-mudo.

a última viagem

Pisou na praia
pela primeira vez
em séculos —
Gaivotas o vigiavam.
Olor de algas.
O vento salino, ardente e Sul.
Odisseu desceu
da balsa murmurando
alguma coisa para si
num dialeto quase extinto.
Arrumou os remos, poucos peixes,
sob a música de um alto-falante
contra um por de sol salmão.
Depois, viu as lâmpadas frouxas
piscando nas casas do povoado.
Maresia de maconha alcançou suas narinas.
Funk.
Risadas altas.
Nenhum pescador o reconheceu.
Penélope nunca existira.
Aquela não era sua lenda.
Ítaca nunca existira.
Odisseu virou-se para a praia sem história
e nada disse:
acendeu um cigarro e contemplou
o azul escuro absurdo do mar noturno
contra as linhas brancas incansáveis
da arrebentação.

tempos de celebridade

Carlos, na próxima encadernação
Nascerei filho de alguém famoso.
E então, como um cão raivoso,
Não largarei meu precioso osso.

Quem disse que é preciso ler,
Ter talento? Não seja ridículo.
Esforço é coisa de otário.
Meu sobrenome será meu currículo.

Vou escrever uns poemas fofos
Umas cançõezinhas ordinárias
Com uma certeza: o Brasil nunca saiu
Das capitanias hereditárias.

et in Arcadia ego era seu lema

Viveu anos isolado no mato
Acreditando ser seu próprio mito.
Gordas gaivotas eram suas pastoras, Egito,
sua sala de estar. Amigos,
quase não tinha. Sua amante,
a escrita.
Termópilas, a caminhada pela trilha
até a praia do dia.
Por um tempo praticou a arte
da invisibilidade.
Levitação.
Hipnose de ondas.
Bibliomancia.
Com a natureza aprendeu a ficar mudo.
Fazia poesia sem receio, de tudo.
Da natureza aprendeu a ter apenas medo
Ou um imenso respeito.
Et in Arcadia Ego era seu lema.
Do que escreveu, ninguém se lembra,
Queimaram tudo.
Mas sua vida virou objeto de estudo.

Manasota Key

Nas páginas do mar
pelicanos em linha
escrevem as sombras de seus peitos
ao quase tocarem uma onda.
O sol rascunha rubros
bilhetes de despedida, toda tarde.
Golfinhos, suas barbatanas
relatam os rudes caminhos
pela pradaria das baleias.
Mergulhões redigem sua escrita kamikaze,
suicida, invisível por instantes.

Nas páginas da areia
(cujas conchas são suas obras completas)
fósseis negros de dentes de tubarão
escrevem a autobiografia
de dois milhões de anos.
Rastro de guaxinim,
seu romance de aventura
da duna à estrada.
Um siri deixa sua assinatura
sobre marcas de pneus de um SUV.
Garrafa com uma mensagem, um pen drive
com a história de um naufrágio.

Nas páginas do céu
nuvens ancestrais e sempre-novas relatam
suas viagens sobre o mundo, infinitas.
Furacões emplacam best-sellers
sobre o Golfo do México
enquanto folhas de outono caligrafam no ar
ideogramas precisos,
memórias do vento.
Satélites traçam haicais de luz.
A lua amarelo-limão descreve seu brilho solene
sobre as palmeiras da Flórida.

Eu não escrevo nada.

romance policial

A lanterna da lua banhava o morto.
No rosto do detetive, nenhum sopro
A não ser o ar pesado do mangue, o corpo
Caído, espesso sangue, e o pouco
Dito pelo policial com cara de mau
Que agora segurava um castiçal
Interrogando a loira de olhos negros
Que trabalhava para um restaurante grego
Da grana e dos bilhetes estranhos no porta-luvas,
Do estranho esgar de sorriso, do sangue em sua luva.
E antes que a canção no rádio acabe
Ele diz: “Para salvá-la, só um milagre”.
Nas mãos, a carta rasgada ao meio, garrafa de uísque
Pela metade. Mas ainda é cedo para que ele se arrisque.
Nada ficou claro nos depoimentos, de como essa sereia
Foi encontrada pela estrada à lua cheia:
“Do que não se pode falar, deve se calar”,
Ela disse, bem no momento dele virar
E ser beijado por seus lábios fatais.
A lua aumentava seus cristais.
Seguiu-se um minuto de silêncio
E os grilos pontuavam um indício. Ela disse:
“As pistas estão em toda parte, em seu diário,
No dia dezesseis em vermelho no calendário”.
Enquanto o detetive revistava a lua
A loira derramou uma poção branca na sua
Garrafinha de uísque. “Nessa profissão, é preciso jeito
Para resolver este quase crime perfeito”.
Ela não dizia nada, ou quase nada, só o olhava
Sabendo que a verdade estava em cada palavra.
A esta altura, tudo parecia bem nítido
E agora ele a forçava a beber o líquido.

Rodrigo Garcia Lopes é poeta, compositor, romancista, jornalista e tradutor (Walt Whitman, Sylvia Plath, Arthur Rimbaud, Laura Riding, The Seafarer, entre outros). Em 2011 seu poema “Stanzas in Meditation” foi publicado no best-seller Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século 20 (Editora Objetiva). É Mestre em Humanidades Interdisciplinares pela Arizona State University, com tese sobre William Burroughs, e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre Laura Riding. Em 1997 lançou Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Iluminuras), com 19 entrevistas com nomes como William Burroughs, John Cage, Charles Bernstein, Marjorie Perloff, Chick Corea, Meredith Monk e Allen Ginsberg. Em 2018 lançou Epigramas, de Marco Valério Marcial (Ateliê Editorial) e Roteiro Literário Paulo Leminski (Biblioteca Pública do Paraná). Experiências Extraordinárias (poesia, 2015) e O Trovador (romance policial, 2014), foram finalistas do prêmio Oceanos de Literatura. O Trovador foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.

Facebook: https://www.facebook.com/RGLoficial/

Site oficial: www.rgarcialopes.wix.com/site

seis poemas de Adriane Garcia

mandrágoras

Nas profundezas escolho e colho
Tem que ser muito fêmea
Pra saber lavoura
Pedra, praga, erva daninha
Terra que não ajuda, chuva pouca

Nada de alfaces, a folha verde e suave:
Eu só arranco tubérculos.

a teia

Presa
A aranha
Tece

o tamanho da fila

Olhe para trás
Sua fila
Todos esperam
O que você não tem
E você não diz
Eles têm olhos pedintes
E você quer fugir
A fila persegue

Olhe para trás
Melhore ou piore
A fila é insensível
E estendem a mão
E você não dorme
Tem pesadelos
A fila penetra
Seus sonhos

Você quer explodir
Quer mandar ao alto
A fila em pedaços
Mas o vendedor
Da nitroglicerina
Também vai para a fila

Você olha para os lados
Vê a fila dos outros
E vê você próprio
Várias vezes
Noutras filas.

o ovo

A Solidão botou um ovo
Azul, grande, esperançoso

A Solidão sonhou em ser
Para sempre acompanhada

A Solidão chocou sozinha
Meses, anos, séculos a fio

Seu mudo ovo gorado.

esculturas vivas

Repare nas mães
Tendo ao colo filhos dormindo:
Pietás de carne e osso
Carregando destinos.

necrose

Tem coisa que dá errada
É certo
É saber escrever, dar ponto
Final com linha cirúrgica
Torcer que feche e ajudar
Não abrindo com os dedos
Ferida
Mas cheia de apego, a memória
Quer a sobra do amor
E gangrena.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Editora Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Editora Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Editora Confraria do Vento, 2015), Enlouquecer é ganhar mil pássaros (e-book pela Vida Secreta, no Issuu, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Editora Penalux, 2018) e Arraial do Curral del Rey (Conceito Editorial, 2019).

contos de quarentena: release

capa (1)

Quando a realidade limita os horizontes, a literatura convida para passear. Essa foi a semente para a criação da antologia Contos de Quarentena. Organizada por Mauro Paz, a antologia tem como objetivo levar a literatura contemporânea para aqueles que estão em casa na luta contra a proliferação do CoviD-19. A publicação tem distribuição gratuita no site da Revista Vício Velho e na Amazon Brasil entre 31/03 e 04/04. Depois de 04/04, na Amazon, terá o valor simbólico de R$ 1,99.

Entre os autores estão alguns dos mais inquietos e talentosos nomes da literatura brasileira produzida hoje: Ana Squilanti, Camilla Loreta, Camilo Gomide, Débora Ferraz, Eltânia André, Gabriela Silva, Gustavo Melo Czekster, Helena Terra, Henrique Balbi, Jeferson Tenório, Jessica Cardin, Marcelo Ariel, Marcelo Conde, Marcos Vinícius Almeida, Maria Fernanda Elias Maglio, Mariana Salomão Carrara, Mauro Paz, Mayara Floss, Natalia Timerman, Rodrigo Novaes de Almeida, Rodrigo Tavares, Ronaldo Cagiano, Tiago Germano, Tobias Carvalho, Vera Saad e Walther Moreira Santo.

Fique em casa e boa viagem.

Revista Vício Velho | Download free nos formatos PDF e Epub.
[link]

Amazon | Por R$ 1,99. Entre 31/03 e 04/04 por R$ 0,00.
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nada para contemplar, de Marcelo Maluf

Nada para contemplar além da imensidão silenciosa do deserto. Como havíamos chegado? Nem mesmo ele saberia dizer com precisão. Ele que sempre soube perceber os espaços, coordenar nossas vidas, que nunca deixou faltar nada a nossa casa, que sempre soube o que fazer, estava tão perdido quanto eu, tão sem saber quanto eu. Tão frágil quanto eu. Mas uma coisa era certa, ele quis que estivéssemos ali. E fez de tudo para que chegássemos ao deserto. Foi só depois que ele descaminhou. Se lhe perguntassem se tinha algum arrependimento na vida, a resposta era sempre a mesma: a de não ter sido um santo. Estávamos no deserto. Sem água há doze horas e ele não parava de repetir que me amava. Há três dias que só víamos areia e vento. Céu sem nuvens. E ele a repetir eu te amo, eu te amo, eu te amo. Apesar da sede e do sol eu ainda me mantinha lúcida. Comecei a compreender que poderia perdê-lo a qualquer momento. E pedi para que ele não dissesse mais. A boca poderia secar. A língua ficar pesada. Estávamos a sós. Enfim. Tínhamos desistido da vida na cidade, tínhamos desistido da vida em sociedade. Há três anos que vivíamos como nômades descobrindo e desistindo de lugares, não se fixando nem a terras, nem a pessoas. Só tínhamos a nós dois como cúmplices nessa jornada. Questionávamos, às vezes, se não era egoísmo vivermos assim sós. Ensimesmados. Mas Dalton sempre tinha resposta para tudo e logo ele nos convencia, a mim e a ele mesmo, de que o nosso estilo de vida era o menos egoísta de todos. Havíamos escolhido o anonimato e a não continuidade, ele dizia. Havíamos escolhido a certeza da impermanência. Havíamos escolhido todos e não alguns. “Hilda, querida, nascemos para servir aos outros, e só podemos fazer isso vivendo desta maneira”. Dalton sempre me convencia com seu modo lento e fino de falar. Foi por isso que me apaixonei por ele. Éramos jovens demais quando nos conhecemos. Mas Dalton sempre pareceu mais maduro do que sua idade. Vivia falando dos poetas e dos santos. Trazia na carteira um retrato de Garcia Lorca e uma imagem de São João da Cruz. Para ele, seus poetas preferidos. Gostava da coragem com que Lorca encarou a morte de frente e sempre achou burra a igreja por não compreender, verdadeiramente, homens como João da Cruz e Francisco de Assis. Ele se enchia de entusiasmo quando falava deles. Eu, ainda menina, mesmo sem saber exatamente por que, fui atraída pelo seu mundo e, aos poucos, descobrindo que aquele também era o meu mundo. Há vinte e cinco anos que comungávamos tudo. Mas no deserto, tudo aquilo era tão pouco. Só tínhamos a nós mesmos. E era de nós que teríamos tudo. De nós, a vida possível naquele mar sem fim de areia. Dalton perdia as forças. Falava mais lento ainda. Sintetizava sua declaração apenas numa única palavra: amor. A M O R. Desejei ser água, nuvem de chuva, casa de gelo, sereno e gota de orvalho. Para que ele me bebesse. Para que ele não secasse. Dalton sempre temeu sentir sede no deserto. Esse era o seu único medo. Não eram a insolação, os escorpiões e as tempestades de areia. Nada. “Tenho medo da sede, posso não me saciar”, ele dizia. Num ato de desespero, por que queria salvá-lo, beijei-lhe a boca de modo a deixar que minha saliva pudesse servir-lhe de água. Sua língua estava tão pesada e seca que tive que salivar muito para trazê-la à sua consistência natural. A sede começava também a tomar conta de mim. E quanto mais sede eu sentia, mais deserto ficava o deserto. Caminhávamos para não desfalecer e ser encobertos por areia. As mãos dadas. Seguíamos sem pronunciar qualquer palavra. Silenciávamos. Contemplávamos a nós mesmos naquela situação e chorávamos, mesmo sem lágrimas para escorrer. Há cinco dias que eu e Dalton estávamos perdidos no deserto.

Na manhã do sexto dia, Dalton me acordou fazendo um gesto de carinho nos meus ombros. Gesto seguido por cinco palavras: “Amor, Eu Não Sinto Sede”. Dalton tinha os lábios vermelhos, o rosto corado. Uma felicidade iluminava o seu corpo inteiro e contagiava o seu olhar e me contagiava, a ponto de eu também não sentir mais sede alguma. No sétimo dia, levantamos cheios de entusiasmo, seguimos dançando por entre as dunas. Não demorou muito para que a areia cedesse lugar ao oceano. E onde antes víamos escorpiões e tempestades de areia, passamos a contemplar peixinhos, baleias, cavalos-marinhos e ondas. De longe avistamos um humilde barco de pescadores. Dalton me disse com seu jeito fino e lento, que era provável que fosse apenas miragem. Nadávamos.

| conto do livro Esquece tudo agora (Terracota editora, 2012). |

Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Autor do romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório, 2015), livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.

cinco poemas de Mário Alex Rosa

a dimensão das coisas

Tenho por ela
a dimensão das coisas:
à noite, as estrelas aventuradas
contadas como segredo revelado.
O céu que se expande
no amor que se ganha
amplia o toque das mãos
enlaçadas por instantes de afetos
demorados na eternidade.
Tenho por ela
o que não se pode perder:
o silêncio das manhãs de cafés
a cor viva da laranja que convida
a palavra repartida na ponta da língua
a dar ao dia sua melhor fatia.
Tenho por ela
o que não se dimensiona
a começar pelo começo
que já é infinito.

poetry

Escrever preto no preto
não na imagem branca do branco
árido de luz branca que se ofende
ao dar a escrever preto no branco
vazio de infiltração?
Escrever com a luz negra da ponta
do lápis firme na sua empreitada
divergente à luz pálida do branco.
Escrever no escuro do preto
contra e sem ver você.

dúvidas apócrifas de JCMN

Sempre quis evitar a si,
Mas evitando um eu,
Outros apareceram:
Pernambucou-se e sevilhizou-se.
Não há de quê não testemunhar
Que se seu pudor cabralizou-se
Na confissão que por avesso se impôs
Habitado por fora o que se esconde por dentro?
Entre a palavra e a pedra, o poeta
Quis falar da coisa em si,
Substantivo concreto ou mineral
Quem não duvida era o (in)certo?
Não há como saber,
Mas sabendo por saber
Que diante de tantas coisas
Contrárias em si não seria a mesma coisa?

catar o sujo

Fazer o poema
é varrer o sujo da casa
acumulado por todos os cantos
da quina dos quartos
ao fundo das gavetas
abarrotadas de mundos
impróprios.
Fazer o poema
é refazer o sujo
habitado na incômoda
cômoda estacionada
no quarto do passado.
Fazer o poema
é catar o sujo de onde mais
se esconde o oculto presente.
É olhar no espelho de frente
a impureza do poema.

três palavras

Tenho três palavras:
alegria, felicidade e amor.
E nada sei delas e nem elas de mim.
Se for para compor um poema sobre a primeira,
Bastaria apenas dizer: alegria.
E nada seria diferente com a segunda: felicidade.
Já o amor, essa sim demoraria o infinito
Para sabê-la numa só palavra
Que por si só o poema bastaria.

Mário Alex Rosa é natural de São João Del Rei. Licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Universidade de São Paulo, com dissertação sobre o livro Farewell de Carlos Drummond de Andrade, e Doutor em Literatura Brasileira também pela USP, com tese sobre a poesia de Armando Freitas Filho. É autor dos livros infantis ABC futebol clube (Editora Aletria, 2015) e Formigas (Cosac Naify, 2013); dos livros de poesia Ouro Preto (Editora Scriptum, 2012) e Via Férrea (Editora Cosac Naify, 2013). É editor na editora Scriptum — BH e da coleção Lição de coisas — Tipografia do Zé — Belo Horizonte.

Brasil: (im)possíveis diálogos #4

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Merda

Por Alexandre Marques Rodrigues

printemps_ficcao
Vitor Rocha

“Com catástrofes a gente não precisa verdadeiramente de se preocupar, elas surgem com certeza. Mas talvez haja necessidade de as provocar, de vez em quando, porque para virem por si próprias leva muito tempo.” (Thomas Bernhard)

Nós não somos mais um país, o Ruivo disse, saiu da cama: andou pelo quarto a procurar a roupa, o pau insistia ainda em ficar duro, o suor no corpo era um acaso; a televisão ligada, na sala, arremessava o noticiário contra as paredes, os apresentadores, a fingir histerias, se esparramavam pela porta sem pedir Com licença, sem perguntar Posso entrar. Victor recobrava o fôlego; deitado, seguia o Ruivo com os olhos, revezava os ouvidos entre as notícias e a frase dele, já repetida tantas vezes, Nós não somos mais um país. Por que você sempre sai da cama com tanta pressa, perguntou, disse Eu odeio isso; o Ruivo encontrou a cueca na sala, Era mais fácil quando trepávamos naquele seu ateliê, comentou, ficava tudo junto: a cama, as tintas, as telas, a cozinha, a sua poltrona: eu não perdia minha roupa um pouco em cada lado. Victor resmungou Realmente odeio isso, o Ruivo se assustou O quê, sugeriu Que a casa fique toda junta, e o outro precisou explicar o óbvio, Que você esteja aí na sala, disse, a procurar sua roupa, e não aqui na cama, junto comigo —

ainda assim, o Ruivo resistiu: não voltou para o quarto. Ficou postado diante da televisão. A imagem na tela mostrava uma multidão a se alastrar pela cidade; um jornalista tentava explicar alguma daquelas coisas que eles nunca conseguem explicar, o rei Alberto pega a mesma arma que arranjou na época das bombas, a arma com que brincou de roleta russa com Jacqueline — pega a mesma arma, balança a cabeça como quem lamenta, olha para Larissa. Ela chora; entendeu que não há solução: seja para o mundo ou para a vida, não há solução, é chegado o reino da merda, não há para onde fugir, não dá para passar uma porta, ir para o lado de fora com quem sai de um bar para fumar um cigarro na calçada; e o tempo não ajuda, não pode, com um soluço, não implanta Larissa de volta para o colo da mãe, para os passeios que dava na praia, segurando a mão do pai, cheia de orgulho por passear com aquele homem que apenas por um acaso era o seu pai. O rei Alberto diz Você já entendeu, Victor ruminou Eu era uma fraude, disse depois em voz alta Eu era uma fraude, Larissa não responde, o Ruivo perguntou O que você quer dizer com isso, continuou a olhar na televisão as pessoas que protestavam mais uma vez. Como se recordasse outra vida, Victor se lembrava, se lembrou, Já quando aquele seu amigo me encomendou as cópias dos quadros, disse, se corrigiu Falsificações, retomou do início, Já quando aquele seu amigo me encomendou as falsificações todo mundo viu, pôde ver: eu era uma fraude, não conseguia nem fazer umas bandeirinhas de merda coloridas com tinta óleo. O Ruivo vestiu a camisa, de volta ao quarto, vestiu a camisa e ficou de pé junto à cama, a velar um morto que tinham plantado dentro de um caixão imenso,

o rei Alberto insiste com Larissa, repete a pergunta, que não é uma pergunta, Você já entendeu, ele repete, ela concorda Sim. Eu olho a janela: você me disse Vai chover a semana inteira, e chove a semana inteira, por isso Larissa continua a chorar, chora com a inevitabilidade das leis da física — suas lágrimas caem como a entropia aumenta, como a inércia impõe a falta de fim ao movimento —; me perguntou O que vai fazer no domingo, me perguntou e eu não sei o que vou fazer no domingo, não sei o que faço hoje, mas Da próxima vez sou eu quem prepara o jantar, me explicou. Você não era uma fraude, o Ruivo disse para o caixão, para a cama, para Victor, que não se levantou, os mortos não se levantam; Apenas se cansou da pintura, o Ruivo ponderou, concluiu É isso, depois citou Igual Roberto se cansou do banco, igual eu me cansei da. Não foi em Natacha que ele pensou, é claro que não: o rei Alberto assente É isso mesmo, Larissa acende um cigarro, ele diz Não dá mais, como quem diagnostica É um câncer, ou É preciso operar, diz Não dá mais; anda de um lado para o outro na sala, não mais a sala onde Larissa tinha escrito na parede uma frase da Ulrike Meinhof —

o rei Alberto anda de um lado para o outro da sala, a arma na mão, de um lado para o outro, a arma que engatilha e desengatilha, de um lado para o outro, engatilha e desengatilha. Acha mesmo que não tem outro jeito, Larissa pergunta. Eu odeio esse seu otimismo — você me disse Vai passar, me mandou ouvir os discos do Glenn Gould e me disse Vai passar —, Eu odeio esse seu otimismo, rebateu Victor, reforçou Odeio, montou o deboche sobre a cara, imitou o Ruivo, disse em falsete A-pe-nas-se-can-sou-da-pin-tu-ra, depois perguntou com jeito de quem repreende, ou mesmo repreendeu Que merda você entende de pintura e de se cansar da pintura; o Ruivo se sentou na cama: pôs os sapatos, Nós não somos mais um país, disse outra vez, a apontar com o queixo na direção da sala, da televisão, das notícias, Não somos mais a porra de um país. Você me emprestou o Torga, eu perguntei se o Houellebecq tinha ficado na sua casa, Larissa duvida Acha mesmo que vai conseguir — O mundo é tudo o que é o caso, Wittgenstein escreveu, abriu com essa sura o Tractatus que você lia ontem —; Ele tem seguranças, ela continua, deve usar um colete a prova de balas, com certeza agora sempre usa um colete a prova de balas,

As bombas não adiantaram, o Ruivo disse cheio de pena, como quem se lembra das flores que se desfizeram quando o vaso caiu da mesa, As bombas não adiantaram de nada. Vê se pega na cozinha alguma coisa para a gente beber, pediu Victor, de repente um morto muito exigente, refastelado em seu caixão cheio de lençóis a imitar a seda, pediu E desliga essa televisão, pelo amor de deus; Eu preciso tentar, o rei Alberto contesta, mostra a arma para Larissa, É o que eu quero, explica, é o que todos querem: é o que eu espero, o que você espera, o que todos esperam. Eu perguntei se você já sabia, você me respondeu Sim, mas não me respondeu, não me disse Sim, apenas acenou com a cabeça, desviou os olhos para o chão, o rei Alberto argumenta Para que aquela gente toda foi às ruas, argumenta sem esperar qualquer resposta de Larissa, ela sentencia Você não vai conseguir, o Ruivo saiu do quarto, foi na direção da cozinha para pegar água, suco, whisky, vinho, chá, qualquer coisa para Victor beber — mas não conseguiu, não passou da sala:

parou outra vez na frente da televisão: olhou a multidão que a câmera, de dentro de um helicóptero, mostrava cheia de semelhanças com qualquer coisa que não era mais humana — a multidão era uma floresta, ou um rio, ou um mar, um deserto imenso a avançar suas dunas sobre a cidade. Não vai resolver, o Ruivo disse, disse É preciso algo mais, disse Desse jeito não vai mais resolver; em dezembro eu era um homem carregando um bonsai dentro do metrô, você se lembra, o rei Alberto recita Eu vou fazer, recita cheio de ênfases, como se dizer fosse já metade do gesto, Eu vou fazer, completa Vou matar o filho da puta. Victor perdeu a paciência, Quando é que você vai me chupar direito, perguntou para o Ruivo, se ergueu na cama como se tivesse chegado o terceiro dia, Quando é que vai me chupar até o final;

É preciso fazer alguma coisa, o rei Alberto insiste, o Ruivo voltou para o quarto, É preciso fazer qualquer coisa, voltou para o quarto sem água, sem suco, sem whisky, sem vinho, sem chá. Acha mesmo que vai ser assim — foi o que você me perguntou, e eu não sabia: não sei. Sentado na cama, Victor pediu Conversa comigo, pediu para o Ruivo, Larissa olha a arma que o rei Alberto muda de mão, mas não põe sobre a mesa, pede Conversa comigo, você também, Conversa comigo, me pede. É tão simples. Nós não somos mais um país, o Ruivo repete, Victor contesta Nós não somos mais um casal, o rei Alberto pergunta O que há ainda para conversar, você concorda com ele, concorda comigo, Tem razão, diz — Larissa para de chorar, Estou tão cansada, ela suspira —, o Ruivo desvia os olhos de Victor, os arremessa pela janela atrás da cama, onze andares para baixo, você me abre a porta, ele murmura, devagar, uma sílaba de cada vez, murmura

Merda.

Alexandre Marques Rodrigues é autor de Porca (Editora Record, 2019), Entropia (Editora Record, 2016; Teodolito, 2017) e Parafilias (Editora Record, 2014; Editora Teodolito, 2018).

Brasil: (im)possíveis diálogos #3

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Dois poemas s/título

Por Manuella Bezerra de Melo

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Vitor Rocha

Esperar um anjo com sua trombeta
esperar cuspir as pérolas antes de engolir
os rubis na areia
a areia em cascalhos
os pés sujos de pixe
o pixe sujo de cobiça
as pérolas cagadas dos porcos

Esperar uma noite bonita
um momento sublime
a luz ideal de velas
do lustre
do sorriso do gato
do breu
do silêncio que precede a guerra

Esperar que cresça o filho
um ano tem 365 dias
um filho viverá muitos anos
até que você voltará a dormir
uma noite parcial
nunca mais voltará
nunca mais voltará a dormir

Esperar pelo verão três estações inteiras
tempo é o que dura um terço de um ano
folhas secas animais mortos
pelos de gato nas almofadas
há uma primavera no entremeio
adubo aduba tudo
tudo morreu até você

Esperar que estanque o sangue
contemplar o fim da sangria na jarra
beber o vinho do escuro de um céu
e dançar com o homem coxo
o fado da sereia minhota
sob uma pedra azul brilhante
trazida na valsa de uma águia

Esperar que cresçam os cabelos
os fios do cabelo precisam do sol do verão
não crescem porque são cortados
são cortados por não crescem
queria-os longos mas os corto
como corto minha língua
minhas asas e meus punhos

* * *

Um dia qualquer, num sonho com a morte
extraviavam miolos numa intangível nau
que boiava ao mar soprada no vento às velas
até alcançar a branca areia latina

Nas imagens desconexas como sonhar o sonho
ou como a dor do sonho e da vida
avistava acordada os sonhos de dormida
e vomitava sob a cama a vontade dos lençóis
em minutos era infeliz e insatisfeita
foi tão forte que doeu a vida inteira

As amigas estavam mortas
e seus corpos foram sepultados neste corpo
condenado a carregá-los no ventre
e as gerar inteiras, restos e suas cóleras

Como mãe, sangrei nas pernas estas vidas mortas
mas como mãe celebrei a glória do gestar
um feto despejado do seu alojamento local
depois esqueci-me do sonho mas fiz notas
nas folhas de uma agenda do ano passado
amassada, foi ao lixo junto as fezes do gato

Manuella Bezerra de Melo é licenciada em Jornalismo, pós-graduada em Literatura e Interculturalidade e mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas. Publicou Desanônima (Editora Autografia, 2017), Existem Sonhos na Rua Amarela (Editora Multifoco, 2018) e Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Editora Urutau, 2019). Participa do coletivo Palavra Voa, onde opera como facilitadora, moderadora e realizadora em atividades literárias. Já teve seus poemas publicados em portais, blogs e revistas literárias brasileiras e portuguesas, entre elas Etudes Lusophones, Incomunidade, Escamandro, Germina, Revista Pixé, Revista Gueto, Revista Palavra Comum e Mulheres que Escrevem.

Brasil: (im)possíveis diálogos #2

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Empregadas

Por Tiago Germano

Para Leandro Assis e Triscila Oliveira

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Vitor Rocha

“Na família da minha mãe nós somos os mais ricos…”

Ela abriu a cueca branca entre os dedos e pediu que eu colocasse uma perna de cada vez.

“…mas na do meu pai eu já não sei dizer.”

Fez o mesmo com a calça jeans, fechando depois o zíper.

“Talvez os segundos… ou terceiros…”

Colocou o primeiro botão da camisa em sua casa. Deixou que eu tentasse abotoar o resto.

“O tio Duda tem dois carros, então acho que ele é o primeiro mais rico…”

Eu cheguei no botão da gola e percebi que alguma coisa estava errada.

“… e o tio Mário tem duas televisões.”

Ela me mostrou que eu havia pulado uma casa. Tirou os botões das casas erradas e guiou os meus dedos pelas certas.

“Isso sem contar o Master System do Rafa, né?”

Ela penteou o meu cabelo para frente. Depois para trás dividindo no meio.

“Mas aqui na rua sem dúvida nós somos os mais ricos.”

Eu ainda não precisava usar desodorante, então ela colocou a colônia, uma gota de cada vez, bem atrás das minhas orelhas.

“O vizinho pensa que é mais rico só porque tem uma antena parabólica no jardim.”

Ela me fez sentar na cama e calçou os meus tênis.

“No jardim! Você já viu?”

Eu nunca soube como ela fazia aquele nó tão fácil de desfazer, mas que não desmanchava nunca.

“E do que que adianta ter tanto canal só de boi?”

Ela recolheu a roupa suja e fez uma trouxa delas na toalha molhada.

“Na sua casa também tem canal de boi?”

Ela me deu as costas e saiu do meu quarto.

* * *

“São tempos difíceis. Tá quase impossível encontrar alguém de confiança…”

Minha mãe havia se aposentado mas não conseguia dar conta sozinha da casa. Uma diarista vinha uma vez por semana para ajudar na limpeza.

“…e comer de marmita todo dia você sabe como é, né, o seu pai reclama.”

Havíamos recém comprado uma máquina de lavar. Meu pai culpava a função de secagem por ter, segundo ele, encolhido suas camisas de linho.

“Eu já tenho que aguentar a obsessão dele com os fios de cabelo no chão e a poeira nos móveis.”

Meu pai passava os dedos nos móveis para conferir se estavam limpos. Já havia demitido mais de uma empregada por causa disso.

“Isso porque a Cida é limpinha e deixa tudo tinindo na segunda.”

Minha mãe o havia proibido de fazer o mesmo com a Cida.

“Mas sabe como é, né, uma vez por semana… consegue imaginar o tanto de poeira que entra por essas janelas?”

Havia uma obra no terreno da frente. O prédio começava a tomar a nossa vista para o mar.

“Lembra o drama que foi com a Zefa, na época da casa?”

Zefa: melhor bife da infância. Não sabia o que era a parmegiana mas acertou de primeira porque, quando viu a receita, disse que fazia pros filhos com ovo e queijo, sempre que dava pra comprar.

“Cozinhava direitinho aquela, mas era porca. Seu pai dava um chilique todo dia que passava o dedo no balcão da cozinha.”

Zefa tinha vergonha de comer na mesa mesmo depois de nós. Para falar a verdade, eu nunca tinha visto a Zefa comer.

“Mas pelo menos não roubava, né. Lembra daquela que escondia as coisas de vocês no quintal e depois pulava o muro de noite, pra pegar pros filhos?”

Neide: tinha voltado de São Paulo, grávida aos dezesseis. Foi a maior decepção da minha mãe quando engravidou de novo, ninguém sabia de quem. Meu pai pagou até a licença-maternidade e achou aquele roubo uma falha imperdoável, logo que ela voltou a trabalhar para nós.

“Sabe que a menina dessa Neide passou na Federal agora?

Eu gostava da Neide.

“Cotas, né? E a gente tendo que pagar faculdade particular por causa disso.”

Eu gostava na verdade da vitamina de abacate da Neide.

“Ah, mas a pior de todas foi aquela Nina, lembra, aquela com espírito de rica, que se metia nas conversas?”

Nina, a que mais havia durado. Deu banho de álcool em meu irmão pra baixar a febre e dormiu todas noites em nossa casa quando meus pais viajaram para fora pela primeira vez.

“Aquela eu nem quero saber por onde anda.”

Nina sempre resmungava quando tinha que arrumar a nossa cama.

“A gente sempre teve o dedo meio sujo pra empregada.”

Nina hoje tinha um pequeno ateliê de costura.

* * *

A Cida tinha acabado de ser demitida num acesso de fúria do meu pai, antes de sair para o trabalho.

“Eu digo, a gente só pode ter o dedo podre.”

Na área de serviço, a máquina de lavar ainda terminava o ciclo rápido com todas as minhas roupas acumuladas ao longo da semana. Eu já podia finalmente me vestir e ir para a faculdade também. Eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente da minha mãe, então fui para a dependência de empregada.

“Você não se lembra, mas a única que deu certo com a gente pediu demissão quando vocês eram ainda pequenos.”

Troquei primeiro a cueca suja por outra limpa, quentinha, ainda com o calor da máquina.

“Aquela sim, era uma pessoa digna… simples, mas digna. Nunca tive do que reclamar.”

Sacudi a calça jeans ainda meio amassada e a vesti. Primeiro uma perna, depois a outra.

“Era a única que conseguia tirar você da cama de manhã e arrumar a tempo de chegar no colégio.”

Conferi o cheiro das minhas axilas antes de colocar a camisa, ainda com o aroma do amaciante.

“Só que teve esse dia, você não vai lembrar. Ela levou vocês pra escola, fez o serviço da casa, deixou tudo impecável, mas saiu sem dizer nada e encontrei um bilhete dela pedindo desculpas, dizendo que tinha que ir embora e que a gente não precisava se preocupar com o pagamento dos últimos dias.”

Demorei a desfazer o nó cego dos sapatos e a colocá-los nos pés.

“Nunca entendi porque ela foi embora.”

Penteei os cabelos no espelho da sala.

“Engraçado… Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o nome dela.”

Me despedi da minha mãe e só na porta percebi que tinha pulado um botão da camisa.

Tiago Germano é escritor e jornalista paraibano. Autor do romance A Mulher Faminta (Editora Moinhos, 2018) e da coletânea de crônicas Demônios Domésticos (Le Chien, 2017), vencedora do Prêmio Minuano e indicada ao Prêmio Jabuti. Mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é bolsista do Programa de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da Universidade de East Anglia (UEA), em Norwich (Inglaterra), por onde já passaram escritores como Ian McEwan e Kazuo Ishiguro. Seu romance O Que Pesa no Norte será lançado ainda este ano pela Editora Moinhos.