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sábado, de Natalia Timerman

rachaduras_natália timermannome: MAYKON ROMUALDO SEVERIANO DA SILVA
mãe: CRISTIANE SEVERIANO DA SILVA
pai: IGNORADO
nascimento: 10/02/1988
matrícula: 1.220.872

Lógico que era ele, quem duvida?, a gente já reconhece de longe, pelo passo, pelo andar, bandido que é bandido solta cheiro, aí chegou perto, pronto, aquelas tatuagens, pronto, confirmou, são anos de prática, dona, tava na cara, tem gente que tem cara de bandido mesmo e pronto, revistei e num deu outra, tava ali, um toletão desse tamanho, 50 gramas na pesagem, disseram, agora é muita cara de pau o sujeito achar que a gente é trouxa, que a Justiça é trouxa, a gente é a porta de entrada da Justiça, falou tá dito, é assim mesmo que tem que ser, ou você acha que a juíza vai acreditar mais no malandro que em nós?, aqui é anos de estudo, um salário a zelar, nada de outro mundo, né?, mas tem o garantido no fim do mês, quase tudo tem família, tudo na honestidade, criminoso são eles, já vem com cara de canalha, e mentem, mentem bem, viu?, se a senhora visse, num faz escola mas vai tudo pra escola da vida, é lá que aprendem o crime, a malandragem, tem que pagar por isso, é dever nosso, limpar a sociedade, cadeia é pra isso, oi?, e se não foi ele?, tá duvidando da minha palavra, dona?, olha lá, hein, eu num faltei o respeito com a senhora não, tô te dizendo, tava ali no bolso, se ele ia ser burro a esse ponto?, ué, mas foi, vou fazer o quê, tô só cumprindo o meu papel, não teve violência nem nada, tudo na medida, na medida certa, se a gente chega bonzinho também os cabra num respeita, tem que impor a autoridade, mas sem exagero, tudo dentro dos treinamentos, gritar faz parte, botar o cara de joelho é somente a técnica, vou fazer o que se o cara tava resistindo?, eu fui bonzinho, ele podia ter pego desacato, mas não quis sujar pra ele não, da próxima a dona vai ver aonde é que as coisas podem chegar.

Eu nunca passei por isso, por essa humilhação, era sábado, eu deito a cabeça de noite e passa o filme todo na minha cabeça, não durmo, não acredito, eu converso com os caras aí e eles dizem que tráfico é no mínimo cinco anos, eu volto pra cá e choro, eu não fiz nada, não era meu, quem acredita? Era sábado, eu tava com dinheiro da funilaria, te disse que tô aprendendo funilaria e pintura, né? Faz três meses, tô no EJA também, tava, eu tava, era sábado, eu tava com cinquenta reais, minha mãe disse pro policial que era meu o dinheiro, e ele, não, isso aí é de venda que eu sei, eu nunca passei por isso, eu tenho como provar, mas na audiência de custódia a juíza nem quis me escutar direito, tava comigo, pronto, é meu, foi assim. Era sábado, deixei minha namorada no ponto, às vezes eu durmo na casa dela mas nesse dia eu tava em casa, fui só deixar ela no ponto, abracei ela, beijei, despedi. Fui andando, 50 reais no bolso, não, 40, eu dei 10 reais pra ela, passei na padaria e comprei um saco de pão doce e um danone, fui comendo no caminho, aí eu fui comprar maconha, eu num sou santo, né? Sou usuário, usuário de maconha, mas o que eu faço eu assumo, eu nunca trafiquei, tem um ponto perto de casa, um ponto de droga, tava lá, já me avisaram da movimentação, uma vizinha disse que tinha polícia na área, aquele clima estranho, a gente num sabe como, por quê, mas tem alguma coisa estranha, quem sai pra fora fica pouco. Era sábado, o traficante chegou, eu queria cinco reais, ele disse pra eu segurar o bagulho que ia ver se tava tudo limpo, colocou no meu saco de pão doce, eu não vi, essa hora não, não era muito, só vi depois quando o policial pegou e jogou em cima do carro, eu fui ouvindo os passos e achei que era o cara voltando, mas era o polícia, dei bom dia, eu nunca fiz coisa errada, quer dizer, sou usuário, eu não achei que ele ia vir pra cima de mim, ele achou logo o bagulho, eu disse que não era meu, era do menino ali. Era sábado, a vizinha já foi chamando minha mãe, a cara dela, eu nunca fiz isso, as lágrimas escorrendo na cara dela, acho que ela achou que eu tinha feito sim, aí o polícia chutou minha perna por trás e eu caí de joelho, muita humilhação, chutou minha costela, veio outro e bateu mais, eu quieto, eu quieto, olhei pro lado quando alguém passou, era sábado, e me bateram mais, pra eu olhar pra baixo, as mãos pra trás, aí ele disse pra gente passar na minha casa pra pegar meu RG, de viatura, de viatura, eu nunca passei por isso, minha mãe vendo eu lá dentro, ela veio vindo atrás, chegamos antes, minha irmãzinha tava em casa, de 10 anos, eu disse, Rai, pega meu RG na bolsa da mãe. Ela chama Raiane, eu chamo ela assim, Eu num sei onde tá, a Rai disse, já tava assustada, eu naquela situação, que vergonha, mas como é que eu vou ter vergonha de alguma coisa que eu não fiz, mas tenho, como se eu tivesse feito, o polícia aí gritou, gritou com a voz alta, Como é que você não sabe onde tá a bolsa da sua mãe? Aí eu perdi a cabeça, xinguei mesmo, Cê tá louco?, num tá vendo que ela é só uma criança?, e se ela fosse tua filha?, e o polícia transtornou, disse que eu tava fudido, que ia dar desacato também, nisso minha mãe chegou, tava chorando, esfolegante, decepcionada, a decepção estampada na cara dela, eu nunca fiz nada disso, eu nunca passei por isso, mas aí na cara dela eu vi que podia ter sido eu, duvidei de mim, mas nem deu tempo, quando vi o RG já tava com o polícia e nós tava dentro da viatura. Era sábado. Ele e o outro na frente. Eu atrás.

| conto do livro Rachaduras (Editora Quelônio, 2019), com lançamento dia 29, terça-feira, em São Paulo [link do evento]. |

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia pela USP e escritora. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017), acerca das vivências no hospital penitenciário onde trabalha desde 2012, em São Paulo.

cinco poemas de Maira Garcia

capa_luadeontemSe eu gosto de um poema
leio de todo jeito,
frente e verso,
com
respeito e despeito.
De baixo pra cima,
de cima pra baixo.
Leitura corrida,
escorrida,
lenta, dormida,
ao contrário.
Se eu gosto de um poema,
leio, monto, desmonto,
caio, levanto.
Esvazio e me farto.
Me alimento,
me perco nele,
e encontro um pretexto
para sair do mesmo lugar,
ir embora agora,
e na mesma hora voltar.

* * *

Para cada verso que escrevo,
é uma noite a menos.

Há muito que não durmo.
Tenho olhos de sono,
semiabertos
descobertos.

Eu sei que a vida
é sonho desperto.

* * *

a reforma

Um tanque de água transbordando
molhava os pés em todo canto.
Enxugando com um pano
as pegadas deram pistas
que um ladrilho florescia no jardim.

* * *

É noite.
Cida coloca o sofá na frente da janela,
apaga a luz da sala
e assiste a cidade.

* * *

Menino acha que é dono da rua.
Deixa a mãe em desassossego
Empinando a lua.

Puxa um fio
Sem cortante
Desvia das estrelas com barbante

Descansa na calçada.

Mas a mãe grita:
“Já pra casa!”

| poemas do livro Depois da lua de ontem (Editora Patuá, 2019). |

Maira Garcia é formada em Propaganda pela ECA-USP e descortina versos e versadores como mediadora da Roda de Poesia do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú. Redatora, cantora e compositora, depois dos 40 se assumiu poeta para–sempre-além. Depois da lua de ontem ela se transfigura também em loba, astronauta e alienígena.

seis poemas de Cecilia Furquim

coloque as frases na ordem correta usando a gramática

aprendi com meu
pai a desconfiar de
deus estou ficando velha troquei a
noite pelo
dia meu pai é uma
dor minha mãe é mal cuidada na
clínica de idosos barata o breque do meu
carro 2007 não
funcionou e bati num
uber que agora não
anda me
declarei culpada mas meu
seguro nega com base no
artigo 36 não consigo ler sem
óculos não consigo andar de
óculos nem
usar lentes multifocais

aprendi com meu
uber que agora não
funcionou e bati num
artigo 36 nao consigo ler sem
deus estou ficando velha troquei a
dor minha mãe é mal cuidada na
noite pelo
pai a desconfiar de
óculos não consigo andar de
dia meu pai é uma
clínica de idosos barata o breque do
seguro nega com base no
óculos nem
usar lentes multifocais
declarei culpada mas meu
carro 2007 não
anda me

cara

el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
(Jorge Luis Borges)

a jovem era pequeno-burguesa
e achou o mundo muito pequeno
e buscou um mundo além do pequeno
não nasceu operária nem burguesa

mas os homens que eram da política
diziam: abaixo a vida operária

diziam: um viva à vida operária
os homens que eram contra a política

mas os burgueses que eram da arte
diziam: um viva à obra burguesa

diziam: abaixo a obra burguesa
os operários que eram da arte

e embora tenha lutado com eles,
os operários, não sendo operária

não foi aceita não sendo operária
ainda assim permaneceu com eles

e nem a uns nem a outros foi cara
solta e presa no fundo do espelho
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela a nossa própria cara

rapina

te roubei a epígrafe
como me roubaste a alegria

te roubei a dor
a confusão, a treva
como me roubaste o dia

roubei do teu relógio
as badaladas baixas
como me roubaste o sal

e carreguei junto
as tumbas, o pó, as cinzas
e as tenho na penumbra da sala

do teu papel alvo
cravado de negras palavras
pacientemente lapidadas
que acusam um fim

fiz um afoito avesso
em cinza turvo, raiva
e alvas letras
que tornam ao começo

e se teu roubo, assim consentido,
não é menos criminoso
que meu roubo ilícito

e se tua dor se apresenta sólida
a minha não é menos vasta
nem será menos coro, menos só, nada,

assim esparramada

ai

perdi, a um só tempo,
pai e país

distraída
ando, converso,
trabalho e dou risada

caída,
revejo, verso,
me atrapalho e calo

odisseu
sem ítaca e sem arca

penélope
sem amado e sem manto

homero
sem enredo e sem aedo

filha, exília,
sem país e sem pai

mão da mamãe

nas veias
que pulsam teias
corre o seu sangue
mangue meu

nele
caranguejos se esgueiram
em mormaço moroso

um bolero cadente
rói a pele
apela

e

flúmens azuis
movem-se
pelas veias

mendigando vida
espraiando
pequenos lumes

pelos flancos

desmaio

(enquanto você lê, pode ouvir a canção em https://soundcloud.com/cecilia-furquim/desmaio)

cuidado que eu sou
cuidado que eu

eu pairo, eu caio
sereno de maio
e na madrugada
meu bem não me deixa dormir

eu sou do meio

de maio das mães
das gordas cadeiras
de manhas e mamas leiteiras

severa me interno
na mágoa do rio
e muda de inverno
me planto só meia saída

sandália arrastada
e dália na sala
desfolha-me a malha voraz

mas que malcriada
criada da casa
na tortura sua eu suo

cuidado que eu sua
cuidado que eu

sereno de maio
ser nó e desmaio
e na madrugada
meu bem já me deixa dormir

Nota: “desmaio” é um poema escrito e musicado por Cecilia Furquim. Publicado no blog da autora em 2007 e gravado em junho de 2019, especialmente para o livro Mulheres salgadas; com arranjos, produção musical e violão de Carlinhos Antunes, baixo acústico, edição e mixagem de Ruy Barossi; trompete de Duca França e voz da autora.

Cecilia Furquim é professora de inglês para crianças e de português para refugiados. Pesquisa mulheres escritoras no doutorado em literatura brasileira na USP: Gilka Machado, Pagu, Ruth Guimarães. É poeta e tradutora de poesia. Lançou um livro de arte para crianças contendo dois poemas musicados em parceria com Beto Furquim, um de sua autoria e outro traduzido de Edward Lear, chamado A coruja, o gato e os filhotes (Melhoramentos, 2014). Alguns de seus poemas foram publicados em revistas e na antologia Um girassol nos seus cabelos — Poemas para Marielle Franco (Quintal Edições: Belo Horizonte, 2018). O seu primeiro livro de poesia para adultos, Mulheres salgadas, contendo cinquenta e poucos poemas, uma canção e sumiês de Lúcia Hiratsuka, aguarda publicação pela Urutau ainda este ano. Nele se debate com sua porção mulher, mãe, filha, ex-esposa, ex-namorada, amante, amiga, cidadã. Com a porção que lhe cabe e com a que cabe a outras mulheres também.

cinco poemas de José Juva

Jesus está voltando
de suas férias em Acapulco

Jesus está voltando
a falar em abdução

Jesus está voltando
com a formação original
de sua primeira banda de grindcore,
com a oficina de telepatia espontânea,
com a produção artesanal de pranchas de surf

Jesus está voltando
a deixar o cabelo crescer,
a distribuir bolinhas de gude feitas de argila,
a trabalhar como terapeuta do sono e do sonho

Jesus está voltando
a caminhar sem rumo,
a cozinhar deliciosas moquecas,
a cultivar manjericão, rúcula e coentro

Jesus está voltando
de uma temporada no Himalaia
de um inverno nas praias da Califórnia
de uma conversa com Harry Houdini

Jesus está voltando
pra casa dos pais

Jesus está voltando
a subir em árvores
a desenhar na areia
a dormir enquanto voa

Jesus está voltando
apesar de nunca ter ido embora

* * *

Charles Manson telefona todos os meses
para me dizer que o ar é deus e fumaça
é tudo que irriga os ossos do crânio

é triste que donas de casa tomem valium
e desconheçam os benefícios do lsd
contra a depressão e o tédio, fantasmas

procurando vídeos pornôs nas pupilas
de uma testemunha de jeová, fantasmas

procriando no abismo da pele, fantasmas
sampleando a tristeza de guaxinins
enfiados em gaiolas e expostos nas pontes
das cidades sufocadas no alumínio publicitário

um açougueiro dormindo em cima de uma tartaruga
ninho de parasitas no peito da promessa militar

sou um criminoso tirando cochilo, diz
sou um cafetão incompetente, diz
sou um obtuso ladrão de carros, diz

um gatuno de mão pesada que só busca
algo para fumar, uma guitarra

um bom lugar para cagar e vinagre
de maçã para os fungos nos pés

* * *

esse aí não diz coisa com coisa e vive
de mãos dadas com o silêncio dizendo
que o vento está visivelmente cansado

esse aí não diz coisa com coisa e uiva
e canta e dança e dá um nó na pança
depois joga xadrez sozinho na sarjeta

esse aí não diz coisa com coisa e vaza
entre carros, motos e corujas de plástico
antes que a polícia pule no seu pescoço

esse aí não diz coisa com coisa e vigia
os pombos comendo pipoca no asfalto
e os ratos lhe trazem um pouco de queijo

esse aí não diz coisa com coisa e visita
todas as árvores que restam na cidade
e carrega muitas folhas debaixo da língua

esse aí não diz coisa com coisa e vai
feito um vulto que valsa nas praças
no meio dos que não estão descalços

esse aí não diz coisa com coisa e vê
formigas de ferro bem no cocuruto
dos que se apressam e passam

esse aí não diz coisa com coisa e vadio
trabalha na alucinação das carnes
e consegue ser feliz ao meio-dia

* * *

hoje pela manhã um mendigo me salvou
com algumas baforadas e brasas
enquanto me dizia que
o gato é uma gota
de tigre

e que não há nada a pedir às deusas

nem desodorante, nem pizza
nem teto, nem saúde, nem dentes
nem viagens de ácido, nem travesseiros
projetados pela Nasa, nem pernas mecânicas
nem pastilhas para refrescar o hálito, nem pão

basta deixar os pés na poeira e fazer
a travessia

como um sabonete despreocupado com seu fim
deixando tudo cheiroso

* * *

enquanto a chuva diz
seus muitos nomes,
as pernas procuram
uma maneira inigualável
de reescrever uma e outra vez
a travessia sobre a terra

caminhar nos educa para o desaparecimento
e estas gotas dormem seus dias
em nossas cabeleiras

ainda é possível reconhecer os barulhos
específicos que as cabras fazem
quando estão comunicando
a presença da água?

mil cabras distribuem todos os dias milhões
de sementes em suas errâncias pelas veredas

Agora mesmo, neste poema, é possível
perceber uma planta que nasceu
no meio
dos dois olhos primatas
depois de trazida pela língua
de uma cabra

coloca as verdes folhas
no teu peito e as amamenta
enquanto a chuva canta

José Juva (Olinda, 1984). Mamífero, poeta, ensaísta. Visitante do paleolítico e ativista do movimento pelo teletransporte público. Jornalista, mestre e doutor em Teoria da Literatura. Publicou os livros Deixe a visão chegar: a poética xamânica de Roberto Piva (2012), Vupa (2013), Breve Breu: escritos sobre literatura e cinema (2015) e Watsu (2016). Os cinco poemas aqui reunidos fazem parte do livro Da boca pra fora, ainda inédito.

três poemas de Charles Bukowski

tradução de Thaís Fernandes

seja gentil

sempre nos pedem
para entender o ponto de vista
do outro
não importa o quanto
antiquado,
insensato ou
tolo.

nos pedem
para enxergar
com
flexibilidade
as suas falhas,
o desperdício das suas vidas,
especialmente se eles forem
idosos.

a velhice, porém, é fruto de
tudo que fazemos.
eles envelheceram
mal
porque
viveram
fora do eixo,
eles se recusaram a
perceber.

não é culpa deles?
de quem é a culpa?
minha?

pedem-me para esconder
deles o meu
ponto de vista
por temer os próprios
medos.

envelhecer não é um crime,

mas a vergonha
de ter uma vida
propositalmente
desperdiçada,

entre tantas
outras vidas,
deliberadamente
desperdiçadas

sim.

be kind

we are always asked
to understand the other person’s
viewpoint
no matter how
out-dated
foolish or
obnoxious.

one is asked
to view
their total error
their life-waste
with
kindliness,
especially if they are
aged.

but age is the total of
our doing.
they have aged
badly
because they have
lived
out of focus,
they have refused to
see.

not their fault?
whose fault?
mine?

I am asked to hide
my viewpoint
from them
for fear of their
fear.

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.

alienígenas

pode ser que você não acredite
mas há pessoas
que passam pela vida com
muito pouco
atrito ou
aflição.
elas se vestem bem, comem
bem, dormem bem.
são felizes em
família, e
com a vida.
elas têm momentos
tristes,
apesar disso,
não são perturbadas.
muitas vezes, sentem-se
bem.
quando falecem
é uma morte
leve, naturalmente
dormindo.
pode ser que você não acredite
nisso,
mas pessoas desse tipo
existem.
não sou uma
delas.
claro que eu não sou uma
delas!
sequer chego perto
de ser
uma delas,
pois elas estão

e eu…
aqui.

the aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction or
distress.
they dress well, eat
well, sleep well.
they are contented with
their family
life.
they have moments of
grief
but all in all
they are undisturbed
and often feel
very good.
and when they die
it is an easy
death, usually in their
sleep.
you may not believe
it
but such people do
exist.
but I am not one of
them.
oh no, I am not one
of them,
I am not even near
to being
one of
them
but they are
there
and I am
here.

verão cruel

não é tão ruim quanto o seu, Fante,
mas o suficiente. Saindo e entrando
no hospital, dentro e fora
do consultório médico, pendurado
por um fio: “você está em
remissão clínica… não, espere. 2 novas
células aqui… e suas
plaquetas estão baixas…
tem bebido?
provavelmente nós faremos
outro exame da medula óssea,
é possível…”
o médico está ocupado na
sala de espera da ala de câncer,
a enfermaria está lotada. Pessoas
leem Time, outras leem
People
e as enfermeiras são simpáticas, fazendo
graça comigo.
que legal! Soltando piadas
à beira da minha morte.
ao meu lado, a minha
esposa.
sinto muito por ela, sinto
muito pelas esposas de todos
os outros.
e então no estacionamento,
minha mulher e eu,
às vezes ela dirige,
outras sou eu,
como agora…
o verão foi cruel.
“talvez você devesse ir dar um mergulho”,
ela
disse.
o dia está mais quente como
de costume.
“sim”, respondo e deixo
o pátio.
ela é uma mulher de coragem, e age
como tudo é
naturalmente,
mas agora devo pagar por todos
aqueles anos esbanjados;
e foram quantos
deles!
o vencimento da fatura chegou
e aceita-se apenas
um tipo de
pagamento.
eu poderia muito bem
ir dar um mergulho.

cold summer

not as bad as yours, Fante,
but bad enough: in and out
of the hospital, in and out of
the doctor’s office, hanging
by a thread: “you’re in
remission… no, wait, 2 new
cells here… and your
platelets are way down…
you been drinking?
we’ll probably have to take
another bone marrow…
we’ll probably…”
the doctor is busy, the
waiting room in the cancer
ward is crowded: people
Reading Time, people reading
People…
the nurses are pleasant, they
joke with me.
I think that’s nice, joking in the
shadow of death.
my wife is with me.
I am sorry for my wife, I am
sorry for everybody’s
wife.
then we are down in the
parking lot.
she drives sometimes.
I drive sometimes.
I drive then.
it’s been a cold summer.
“maybe you should take a
little swim we get home,”
suggests my
wife.
it’s a warmer day than
usual.
“sure,” I say and pull out of
the parking lot.
she’s a brave woman, she
acts like everything is
as usual.
but now I’ve got to pay for all
those profligate years;
there were so many of
them.
the bill has come due
and they’ll accept only
one type of
payment.
might as well take a
swim.

Thaís Fernandes é professora, tradutora e pós-graduanda em Letras (Língua e Literatura Inglesas). Tem poemas e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Meta/Phor(e)/Play, Poem Hunter, Tuck Magazine e no jornal japonês, The Asahi Shimbun. Traduziu, entre outros, ensaios de Ralph Waldo Emerson e de Robert Louis Stevenson, além de poemas de Maya Angelou.

asas de anjo, de Andri Carvão

Sentado à beira do abismo balanço meus
pés no vazio, enquanto contemplo a erupção:
nuvem de fumaça, cheiro de enxofre,
chuva de pedras — um banho de sangue.

O lobo uivou, ganiu, ladrou pra lua.
E a lua revidou com seu silêncio. E o
silêncio invadiu a terra e a libertou tomando
conta de tudo. O brilho da lua, o branco
da lua, o globo ocular lunar. O lobo
com o rabo entre as pernas, abaixou
a cabeça até encostar o focinho no chão
de terra e recuou a passos curtos,
lentos e medrosos. A lua fulminou com fogo
toda a floresta. As labaredas lamberam
o paraíso terrestre como serpentes.
O lobo cercado pelas chamas arreganhou
os dentes, sua arma de defesa. Mas
sua boca não tinha mais dentes. A boca
banguela, uma caverna. A menina
adentrou a boca da gruta. Vestia vermelho.
Resistia ao vento que varria toda a cercania
há dias e dias e dias, desde o início
dos tempos. Tapando o rosto com seu
capuz. Segurando-o para se proteger do frio
cortante. Inclinada para frente, sôfrega,
opressa, lutava contra o mau tempo.
Tateando árvores retorcidas como velhas
enrugadas. Seguindo o curso do rio rubro
de sangue, vermelho lava. Rio subterrâneo,
tão doce como o mel da única maçã,
a última maçã presente pendendo
num galho seco. Brilhando como se
lustrada pelo véu das nuvens. A menina
de face corada, bochechas coradas,
açoitadas pelo vento, a menina
de maçãs coradas destaca
a fruta, a última fruta, o fruto primordial.
Morde. Então vê um bicho na maçã.
E a maçã cresce em sua mão de forma
que precisa segurá-la com ambas as mãos.
Até que não suporta mais seu peso
e a deposita no chão, maior do
que uma abóbora. E de dentro
da maçã-abóbora serpenteia uma cobra
numa dança hipnótica, insinuante,
quase indecente. Silvando sua língua
bífida com duas bolas de gelo nos olhos,
o réptil paralisa sua vítima e, ao invés
de cravar suas presas, lança um jato verde
encharcando a menina Lilith. O líquido
age de imediato, volvendo, revolvendo,
contorcendo todas as articulações da menina
de vermelho. Ela tomba de joelhos
e seus olhos brancos derramam lágrimas
de medo, de furor, lágrimas de inverno.
Sua cabeça de coruja aponta para os céus
num grito mudo e de suas costelas,
da espinha dorsal, brotam duas asas,
que a içam do chão balançando-a como a
uma marionete, até precipitá-la no abismo.
E assim ela expele, dá à luz ao fruto do futuro:
um anjo, um demônio, um monstro, seu algoz,
num deserto sem raízes nem brotos.

E aqui estou, sentado à beira do abismo,
balançando os meus pés no infinito.

Andri Carvão tem publicações tem diversas revistas digitais, publicou Um Sol para cada montanha (Chiado Books). Poemas do Golpe a sair pela Editora Patuá.