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autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

três poemas de Joana Futre

exercício

Exercita os teus demónios
Manda-os fazer o sagrado jogging matinal.
Avisa-os de que são os jokers do baralho,
Faz pouco deles
Mesmo que quebrar o gelo dê trabalho.
Que eles se ponham em bicos de pés,
Se multipliquem e sejas tu versus dez
Numa luta constante e desigual.

E por favor, diz-lhes para não romantizarem
O amor à primeira vista.
Já temos no mundo filmes suficientes
A explorarem essa temática irrealista.

Desejo que os demónios façam gazeta
Dentro da tua bonita cabeça.
Vão antes para a rua protestar de cartaz no ar
Perguntar porque é que o Estado nunca está do lado do artista.

um brinde

Inevitavelmente, brindamos
Ao que ainda temos,
Tanto à generosidade humana
Como aos deuses em que cremos
(Por igual, para não ficarem amuados).

Para evitarmos esquecermos
Que ainda não sabemos
Ressuscitar as almas,
Para que nos possam bater palmas
Quando merecemos e nas ocasiões certas.

O som e o silêncio
São como a mãe e a filha que caminham
De mão dada.
Lembro-me de ti como uma ferida
Que nunca será sarada.
Como aquela de que sinto mais falta
Mas que sei que ainda me guarda

Com o mesmo apreço, a mesma gentileza
Com que se esforçava para remover vestígios de tristeza.
Devo alguns dos melhores pedaços da vida íntima
A quem me ensinou o que era a verdadeira leveza.

Levo o teu espírito na algibeira
E bebo-o quando preciso.
Sabe-me a vinho tinto
Doce com a luz a que te pinto
Sempre que te apresento
A quem te é desconhecido.

Leve-leve é o lema
Só assim será divina a oferenda.
Mesmo depois de já não o vermos
O rosto de uma mãe
Será sempre, sempre um belo poema.

oferenda divina

Deixa-nos ser só um esboço.
Tu, velha lenda dos mares antigos
Eu, um conto esquecido e por ler;
Agora sinto só vergonha.
Afinal nunca fizemos por merecer
O amor que os Deuses em concílio
Nos resolveram oferecer.

Joana Futre é natural de Viseu, Portugal, e mudou-se para Lisboa para perseguir a sua paixão por Línguas, Literaturas e Culturas, acabando por tirar um Major em Estudos Ingleses. Ao abrigo do Programa Erasmus +, passou nove meses na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao regressar à capital, inscreveu-se no mestrado de Jornalismo. Atualmente trabalha como copywriter e content manager, aliando a investigação típica do jornalismo à criatividade necessária para ser feliz em indústrias criativas.

o nome de minha bisavó, poema de Tatiana Lazzarotto

descobri hoje o nome de uma de minhas bisavós

o espaço oco na árvore ganhou letras que deslizaram em minha boca de bisneta

Maria Rita

perguntei dela para uma tia, já muito velha, meia-irmã de minha avó

era cozinheira, me disse

ordeira, simples

e sozinha

pensei na bisavó que não conheci alimentando muitas bocas

deitando barriga num fogão quente de Recife

perdeu um filho cedo

a outra filha, minha avó, encaminhou-se para a morte também depressa

Maria Rita

um nome duplo que esconde a revoada de se ser só

morreu de câncer, assinalou minha tia

a língua pequena dizia que era pela quentura da cozinha

me apequeno sem saber não de quê, mas como ela partiu

se temia a doença desgraçada, se alguém segurava suas mãos mentindo que ia ficar tudo bem

se os médicos lançaram um olhar de lamento para o corpo com hora marcada de ser coberto

se ela sabia que eu existiria, mesmo em delírio

acendi uma vela para o nome que se descortinou nos galhos da minha ascendência

tentei atribuir um rosto ao nome envelhecido na certidão de óbito de minha avó materna

escrutinei em meu corpo qualquer traço do que me deixou Maria Rita

qualquer linha de expressão que ao bater o olho ela dissesse: essa é minha

ou será que é quando eu cozinho feito feitiçaria que Maria Rita vive em mim?

meia vela se consome sem respostas, eu me conformo com a imagem disforme da bisavó que concebi no peito

de posse do seu nome eu adentro a enfermaria abafada, confusa, com dois números que podem ser seu paradeiro

não me aborreço na procura, porque minha bisavó me sabe

cheguei com atraso, pergunto, pegando nas minhas a mão direita frágil que empunhou tantas colheres

é tempo, acolhe-me Maria Rita baixinho

a voz quase não sai, embargada pela doença, pelo reencontro que aboleta tempo e espaço

minha bisavó é pequena, mas se agiganta pelo fato de sermos duas

Silvas

o sol se põe e em meu invento não a deixo sozinha como passou a vida

percorro em seu rosto amarelado um sinal de que ela ainda se move

a mão que guiou as panelas me solta, como que me conduzindo ao fim do alento

foi quando descobri o nome de minha bisavó que me permiti encontrá-la morrer

Tatiana Lazzarotto é natural de São Lourenço do Oeste-SC e reside em São Paulo-SP desde 2011. É escritora, jornalista e mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). Participou da antologia independente Sós (2018) e é uma das integrantes do Clube da Escrita para Mulheres. Foi uma das contempladas pelo edital ProAC de Obras de Ficção 2020 e em 2021 publicará seu primeiro livro.

a biblioteca, de Jozias Benedicto

capa_aquinoceuFinalmente, uma biblioteca. Uma verdadeira biblioteca. A Atenas Brasileira, diziam os antigos, entretanto os livros todos mofando com a umidade de tantos invernos, juntos de qualquer forma em lugares improvisados, o Liceu, uma sala do convento, um qualquer lugar. Agora, afinal juntos em estantes no belo edifício com colunata de templo grego, ah Atenas!, e portentosamente cilíndrico como um bolo de festa de fim de ano ou um elefante entronizado sobre a praça mais alta de onde a vista alcança descendo pela Rua da Paz e a Rua Grande até o Largo do Carmo e de lá até a Catedral e o Palácio dos Leões e as águas tormentosas da Baía de São Marcos onde deságua o Rio Anil e de lá se chega a Alcântara e se a nossa vista fosse um pássaro ou um avião ou um dirigível, os mais pesados que o ar, nele poderíamos deixar a grande Ilha e em um sobrevoo sobre Alcântara, a ilha de Santana e as terras do continente até chegar sem fazer esforço, carregado pelos ventos, até Atins onde a todo dia toda hora um mesmo navio naufraga de novo e de novo e de novo e nele o poeta, fragilizado pela poesia pela tísica e pelos amores, preso em seu camarote naufraga e sente as águas quentes invadirem seu pulmão como um bálsamo uma benção, se sente queimar como queimava decerto com as paixões, ah as paixões!.

Mas divago. Não queria falar sobre naufrágios, sobre aviões ou dirigíveis, sobre pássaros, sobre poetas, muito menos sobre paixões. Queria falar da biblioteca, e de meu júbilo ao vê-la pronta, sólida, imortal, eterna. As paredes grossas, as amplas escadarias, os capitéis coríntios, as luzes em formato de finas estrelas, as coleções, os in-fólios, os fascículos, as brochuras, os pergaminhos, os autógrafos, as ricas encadernações. Tudo, tudo lá, uma verdadeira biblioteca. Este humilde mortal sabia que não ia deixar a terra sem que minha marca nesta vida, meus tímidos opúsculos com sonetos de amor dedicados à minha esposa, a mui querida Maria Eugênia, aqui estivessem abrigados, para sempre, a salvo do mofo e das traças e da umidade de tantos invernos em sítios improvisados, o Liceu, uma sala do convento, um qualquer lugar.

Eternamente guardados na biblioteca os meu versos feitos com tanta dedicação, com tanto amor, de coração dedicados à pura Maria Eugênia, sonetos que podem não ser perfeitos como os do poeta mas agora, com a infinita biblioteca que os guarda, são como os versos dele, eternos.

E eu sei bem o que é a eternidade pois nela habito desde que aquele tiro certeiro que levei ao surpreender minha adorada esposa com sua prima em uma situação constrangedora que eu preferia nunca ter presenciado, era o cair da tarde e estava quente e por passar mal com o calor cheguei mais cedo em casa e ao reagir como faria qualquer homem honrado, talvez por tão quente minha esposa e sua querida prima nuas, e eu reagi e em gritos indaguei o que estava se passando e em seguida só ouvi o estrondo do tiro certeiro que me expôs o sangue e a vergonha (Maria Eugênia, como sempre perfeita em tudo o que faz, é excelente atiradora) e me condenou a passar toda a eternidade aqui, nesta biblioteca, mirando a ilusão do amor que me levou a sonetear nestes folhetos de minha lavra que aqui estão para sempre protegidos, instalados, preservados e só me resta torcer para que estas traças que se avizinham deles sejam competentes e terminem a obra que as antepassadas delas apenas iniciaram.

| conto do livro Aqui até o céu escreve ficção (Editora Patuá, 2020). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Tem especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Suas videoinstalações, performances e pinturas que unem literatura e artes visuais foram apresentadas em seis mostras individuais e em exposições como a XVI Bienal de São Paulo e o Salão Nacional de Artes Plásticas. Atua também como curador independente. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas, foi finalista do Concurso Sesc de Literatura 2012-2013. Como não aprender a nadar conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 (Contos) e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Recebeu premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção, publicado pela Editora Patuá em 2020. Publicou também dois livros de poesia, Erotiscências & embustes (2019) e A ópera náufraga (2020), ambos pela Editora Urutau.

fragmento do romance inédito ‘Ensaio sobre a paisagem’, de Rodrigo Novaes de Almeida

NA CLAREIRA

Saio da frente da escrivaninha e deixo o escritório. Não é um dia bom para escrever. Decido que preciso andar e respirar o ar de outono da montanha. Desço a colina coberta pela floresta de pinheiros. Observo o rio, abaixo, serpenteando o vale e cruzando a cidade. O céu está sem nuvens. Não venta. Sigo por um caminho de terra, estreito, margeado por raízes delgadas. De repente, estou em uma clareira diante de um grande jequitibá-rosa, com tronco espesso, cujos galhos nus se torcem uns sobre os outros. É a primeira vez que faço esse caminho para ir à cidade, evitando a estrada principal. A visão da árvore solitária me remete à decadência e ao pessimismo (ou à consciência de o alto idealismo ter cedido espaço definitivamente ao ceticismo). De qualquer forma, restou-nos pouca coisa; para ser exato, restou-nos nada. Antes havia os deuses, o destino, ou a expectativa de propósito, e a civilização. E se no lugar dos deuses colocamos a nós mesmos, a partir da busca do autoconhecimento, o lugar, por outro lado, não desaparecera. O último ato da tragédia é esse homem desprezível em pé na clareira ante o espanto de reencontrar o sagrado. Mas já é tarde para ele. Já é tarde para mim. Já é tarde para todos nós. A nossa espécie não tem futuro. Sento-me sob o grande jequitibá-rosa. O céu continua sem nuvens. Não há sequer uma brisa. Recordo não apenas os fatos, mas também as frases que escutei e li um dia. As horas passam, anoitece, e não tenho mais certeza se estou acordado quando um homem com vestes arcaicas se põe à minha frente; ele se apresenta: Marco Túlio Cícero. Interrogo-o sobre o seu país e a sua república, e ele faz o mesmo comigo, e nos regozijamos da nossa mútua curiosidade. Ele aponta, então, para a abóbada celeste, que, da clareira, só podemos ver uma parte ínfima. Mesmo assim, ele diz, nunca deixa de surpreender o espetáculo dessas pedras siderais, cujas magnitudes nunca pudemos conceber. Eu concordo e, ao mesmo tempo, me entristeço. Cícero percebe e me pergunta o motivo de eu ter ficado triste. Eu respondo que li as suas obras, conheci os seus pensamentos e a sua filosofia, e muitos que vieram depois dele o leram e o conheceram, e nos importamos com o que ele disse, e fizemos tantas coisas inspirados em suas palavras, mas, concluo, agora é tarde, erramos, fomos longe demais, perdemos tudo, a eternidade das nossas ideias e a imortalidade das nossas almas, e logo a espécie deixará de vagar, errante, por este mundo e não chegará aos outros lá fora — e aponto para o alto.

A visão desaparece, então desperto em meu tempo infinito e desisto de ir à cidade. Eu retorno para casa.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

um haicai e dois poemas de Cida Pedrosa

Bicicletas voam
Na cidade que não vê.
Dor no app.

Haicai em Estesia, 2020.

* * *

rainha dos degredados

salve-me rainha
pois a vida não é doce nem misericordiosa

hoje só tem panela
e um pouco de maçunim

o marido se foi para as bandas do beberibe e vende caranguejo na feira de peixinhos

salve-me rainha
antes que os de eva morram
sem direito a maçãs ou coisa assim

o gás acabou
os jambeiros do cemitério de santo amaro desde ontem não safrejam
e minha filha menstruada
não pode frequentar o ponto hoje à noite

salve-me rainha e desterre
esta vontade de incendiar a vida e a dor que assola as mãos

Em Gris, 2018.

* * *

tereza

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza

quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa de varanda
e passar uma semana em bariloche

neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo

mãos enormes as de geraldo

tão grandes que se espremem nas algemas e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida no carro do iml
para exame de corpo de delito sob suspeita de estrangulamento

Em As filhas de Lilith, 2009.

Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, Sertão do Araripe Pernambucano, em 1963. Foi uma das militantes do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco na década de 1980 e daí vem seu gosto e experiência com a récita. Publicou dez livros de poemas, sendo os mais recentes Estesia (2020); Solo para vialejo (2019), Prêmio Jabuti (Livro do Ano e Livro de Poesia); Gris (2018); Claranã (2015); Miúdos (2011) e As filhas de Lilith (2009). Tem participação em antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior. Alguns de seus livros foram selecionados pelos prêmios Portugal Telecom e Prêmio Oceanos de Literatura. Está no seu primeiro mandato como vereadora eleita do Recife e fala sobre literatura no canal Fresta (youtube.com/cidapedrosa).

s/título, poema de Carlos Emilio Faraco

Eu sinto falta de um Deus
Que ordene ao deputado
Terrivelmente evangélico:
— Pega teu filho mais novo,
Retira-o à força de casa,
Leva-o ao alto de um prédio
E o sacrifica ao Senhor!

Eu sinto falta de um Deus
Que procurasse dez justos
No coração do poder
E, não os tendo encontrado,
Destruísse a cidade com fogo
E rios revoltos de enxofre,
Transformando os renitentes
Em brancas estátuas de sal.

Eu sinto falta de um Deus
Que tranque as portas da pátria
A todas as hostes fascistas,
Fazendo-as vagar a esmo
Sem ter casa e sem comida,
Por mais de quarenta anos
No mais adverso deserto.

Eu sinto falta de um Deus
Que em plena pandemia
Premiasse a teimosia
Com mil gigantescas crateras
Qu’ engolissem os debochados
E suas toscas ousadias.

Eu sinto falta de um Deus
Que exigisse da terra
E suas gentes folgadas,
O que exigiu do seu filho,
Ainda que para isso
Tivesse de transformar
O pouco que existe em nada.

Eu sinto falta de um deus…

Carlos Emilio Faraco é professor aposentado. Autor de obras educacionais e de um livro de poemas. Comete textos no Facebook. Ancião brasileiro (71 anos) esperando o gigante amanhecer.

st. Christopher’s Inn, Rosa-Luxemburg-Platz, de Thais Lancman

capa_lancmanTudo de valor fica em um pequeno armário de madeira, pouco acima dos meus pés. Há anos não durmo em beliche, quanto mais um triliche. Quase bato no teto. A mala fica aberta mesmo, no chão, como todas as outras, as tripas de roupas expostas, escorrendo, como se mulheres automaticamente fossem confiáveis. Mulheres meninas que pagam quinze euros a noite, café incluso, uma porta com senha que as isola dos outros.

Dez da noite e lá fora os postes de luz parecem fornecer uma iluminação redundante. O dia faz sombra no trecho de céu visível em uma janela comprida e alta, antecipando que as cortinas farão falta na hora de dormir. O cheiro de esmalte que vem da cama de baixo. Uma menina pinta as unhas, vejo na fresta entre a cama e a parede. Outra dorme do lado oposto à nossa cama. Já ou ainda? Não sei.

Uma sirene escandalosa me tira de um marasmo cheio de culpa por estar fechada em um quarto na cidade em que piso pela primeira vez, viajando sozinha pela primeira vez. Pego a cerveja grátis a que tenho direito no bar do albergue e, como sou a única cliente, é minha única bebida. Garrafas de vidro se espatifam no chão a todo instante na rua. Quero sair para quebrar a minha garrafa também, mas volto para o quarto, espatifo a garrafa em um cesto de lixo do corredor, volto para a cama elevada com o teto me claustrofobizando.

A menina de baixo fala ao telefone e reconheço que fala em francês não pelas palavras, mas pela ausência de silêncio entre elas, com um zumbido de boca semiaberta persistente. Em outro canto, a conversa entre duas garotas que não aparentam mais de vinte anos soa como uma gravação tocando ao contrário. Sueco? As três passam a interagir, agora em inglês, jogando nomes de festas e bares com naturalidade. Assisto do alto, e contra a luz das luminárias apontadas para cada cama — não há iluminação direta no dormitório — as cabeças magras parecem raspadas. Ossudas. Incomodada, desvio o olhar.

As malas são diversas como as fisionomias. Uma tem grossas peças de tricô, outra é uma bagunça babando roupas pelo chão. Pequenas, enormes parecendo serem de alguém de mudança, a minha é vermelha fechada, incomunicável, um coração hermético. A enorme coincidência de estarem todas ali, de estarmos reunidas, minha mente transatlântica faz o caminho inverso e leva a bagagem a seu local de origem, em trens, trilhos de outra época cruzando a Europa e chegando naqueles beliches, naquelas promessas. As malas como que voam aos locais de origem, a embarques, ao seu preparo em casas cuja arquitetura desconheço.

Chega a garota polonesa enrolada em uma toalha. Se troca com as costas para a parede, esquálida, reluzente como a lua. Ao vestir seu pijama, procuro uma estrela amarela no seu peito de forma quase instintiva. Uma bobagem, penso, não porque estamos em dois mil e quinze, mas porque ela não pode ser judia e polonesa, é improvável demais. Os alemães venceram, disse a minha orientadora uma vez. Seis milhões, ou melhor, para ser minimamente acadêmica, talvez algo próximo a cinco milhões e meio.

Em dois dias começa o curso, então não mais menina francesa, polonesa, as suecas e suas mochilas minúsculas de ar infantil. Suas calças sarcásticas, a ansiedade delas em estarem no epicentro do deslocado, ideia da qual compartilho, mas algo no final me segura. A sirene escandalosa. Culpa, tudo envolto em um mar de culpa, uma pororoca de ressentimento dos alemães e seu monumento grandioso e asséptico, eu e minha cerveja, minha curiosidade em saber onde compro aquelas mochilinhas. Demonstro interesse naquela conversa que se desenrola em um inglês truncado, perdida naquelas vozes, nos móveis de madeira, estilhaços, beliches beliches beliches gente empilhada, acumulada na Europa em quartos imensos, trabalhos forçados, judeus carga, judeus entulho, judeus nada. Tenho vergonha dessa comparação idiota, mas imagino que ela foi prevista por meus avós, tão contra qualquer viagem à Alemanha, terra dos nazistas, dos yekkes, para mim um mero objeto de estudo no qual aprendi a mergulhar e agora me sentia submersa, de outro jeito, na Berlim dos desmandos, nas leis arianas, estou pronta, de pé, jaqueta grossa, curta e moderna, parte de mim quer ouvir um convite das garotas e outra, tem um surto de coragem para encarar a cidade sozinha, e ela que vai, passa o cartão para abrir a porta, se encolhe no vento frio, atravessa mundos, turcos e seus döners, o prédio onde David Bowie viveu em Charlottesburg, faz fotografias e torce para não ser pega no metrô sem catraca, desiste do metrô e caminha.

Para chegar a uma fábrica, pessoas em fila aguardam benevolentes. Guardas gritam com elas em alemão, quem não responde já é despachado para outro lado, fumaça. Quando chega a minha vez, atravesso fazendo sinais com a cabeça. Me revistam no escuro, recolhem meu telefone celular, todos empilhados em um canto, penso nas posses desprendidas de seus donos para todo o sempre, aqueles amontoados de sapatos cor de terra e um salpicado de vermelho, azul com salto, verniz. Me devolvem o telefone com um adesivo na lente da câmera, agora aquilo ficará entre nós, o que está por vir e a minha confusão proposital, que eu carrego como as panelas, aquilo que se pegava antes de nunca voltar à casa, não sabendo para onde se vai, mas com a certeza de que vai cozinhar. No fundo, se sabia para onde ia, e que lá não haveria o que comer.

Aprender a viajar, a andar por corredores escuros de todos os tipos sem saber o que vai surgir no final, é como essa música, dentro dela há tantas mais. Um espaço enorme, o da fábrica, escuro e cheio de sons graves que vão escavando de mim a visão das meninas carecas, fazendo um rombo, me fazendo expurgar essas imagens em um espasmo, em movimentos como os de uma vela, é o que manda os livros sagrados, ler e se mover como a chama de uma vela, e assim fecho os olhos, me movo, gravidade, escuridão.

Transpiro, penso em câmaras de gás escuras e nos gritos, em como eles seriam, o choro coletivo e o silenciamento que vem com a morte, se eu tentaria fugir escalando pessoas ou me recolheria em um canto esperando cair desacordada, pesquiso quanto tempo levava, lembro de algum filme, agora é difícil não pensar em cinema, e não quero nenhum lugar mental em que não seja verão. Filmes de Segunda Guerra sempre se passam no inverno. E, de repente, me vejo sem estação do ano definida naquela fábrica, olhos abertos, meninas japonesas se aproximando de mim em movimentos sincronizados mas não idênticos, me resgatando de algum breu mental para me integrarem a algum ato coletivo de redenção, de fé no nada. O livro de comemoração de cinquenta anos de relações entre Alemanha e Israel é “nós não nos esquecemos, nós dançamos”. Ouço vozes em hebraico, mãos me tocam no escuro, os dois grandes templos do passado deviam ser assim, negros.

Sou arrastada para uma colmeia imensa de concreto, escalo três alvéolos para chegar a um rosto convidativo. O fetiche dos empreendimentos humanos, sempre prontos para se tornar outra coisa. Outros corpos, línguas, buracos em que se escondem fórmulas mágicas de desaparecimento, a fábrica se mostra em fundição de matéria anônima, fluidos, nenhum idioma que precise ser reconhecido. Volumes chacoalhados naquele espaço dois metros por dois metros, no fundo é um só fetiche, o do sol nascente na volta para casa.

Não há gritos ou gemidos, apenas a respiração alta daquele organismo coletivo, de onde é parido um rosto e um corpo musculoso, que se vira e simplesmente sai do casulo sem dono ocupado por nós. Enorme, loiro, ajeitando a bermuda preta, camisa e em quepe, busco algo como o distintivo da SS em qualquer parte, em pé, ele é gigantesco e opressor. Não consigo me mexer, observo meu suor pensando que enquanto ele estiver lá, estou salva do extermínio. Que aquela colmeia é o meu bunker, a casa em que só posso me mexer à noite, quando os hipócritas dormem. Me pergunto se chegarei no albergue e minhas coisas estarão sendo leiloadas, se não deveria ter vindo.

Tenho certeza que assim vai ser. É assim na Alemanha, terra que não correspondeu ao amor que os judeus tiveram por ela. E aqui estou eu, com os restos desse amor, não, com um sentimento do rejeitado bêbado, saindo do meu trabalho forçado na fábrica, tentando cantar alguma canção, ter a bissale mazal e ainda ver minha mala me esperando ao lado do triliche onde eu e tantas fomos jogadas.

Ou posso driblar a sorte, jogar no inesperado, fugir do delírio nazista pois não existe sol nem calor no extermínio. Primeiro é encarar o medo de comprar um bilhete no metrô, basta apertar alguns botões, não é nem medo que devia se chamar essa insegurança. Os trens de Berlim cruzam a cidade e já cruzavam quando Hitler subiu ao poder. Chego a Wansee antes das cinco da manhã, com uma garrafa de Club-Mate na mão. A casa-museu está fechada mas lagos não fecham. Lago pois See é lago em alemão, um falso cognato. Wansee nomeia a conferência na qual a decisão final se consagrou. O local visto de fora é apenas uma casa de veraneio e assim que o verei para sempre, do início daquele longo verão para a eternidade. Sigo para a água, nua como os alemães, os nazistas. Água fria com vista para A Questão Judaica, parada, inerte, congelada no tempo, com memória de mineral, resquícios daqueles dias, de todos os verões que nos separam.

A água dos campos correu para onde? Só se vê a fumaça antes da dispersão. A água tem que estar em algum lugar, chovendo sobre nós, em fontes tão puras, esgotos pestilentos. Mergulho e seguro a respiração até não aguentar mais, assustada por mais que eu saiba que é impossível alguém morrer afogado dessa forma. Me seco ao sol, o mesmo sol que deve acordar as vizinhas dos beliches do meu quarto, que nina meus cúmplices de bençãos na fábrica, o sol de outrora.

| conto do livro Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá, 2020). |

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo, onde vive. É doutoranda em Letras pela Universidade Mackenzie, onde estuda a relação entre arte contemporânea e ficção. Além de Pessoas promíscuas de águas e pedras (Editora Patuá), publicou Palito de Fosfeno (Editora Reformatório) e, em breve, lançará Meu ano Flávio de Carvalho.

sete poemas de ‘Cabeça do dragão’ (inédito), de Júlia de Carvalho Hansen

MEMÓRIA

Ao chegar numa festa
lotada você imagina
quem vê a festa sou eu
mas é a festa quem vê você.

JUVENTUDE

Já me refiro a ela como a outra.

MATURIDADE

Levei anos para aprender a gritar.
E agora que sou livre
estou dentro de casa.

TEMPO

Ainda não estou pronta
para escrever este poema.

ANCESTRAL

Mais antigo do que a morte
sábio que o esquecimento
dom do treino acumulado
adubo da metamorfose
trauma crônico
esperança de rebote
cordão helicoidal do umbigo
pó da atmosfera terrestre
fundo do mar, búzio celeste.

MÉTODO

Às vezes o poema
vai parar tão alto
a gente acha o poema
está tentando se esconder
se a gente sobe
tentando pegar
o poema cai por terra.

ÁRVORE

Fincar balanço
no rumo do sol
no céu, o ramo
a gênese.

O pescoço vem desde o pé
eu que só tenho olhos
a tua elegância de tronco e casca
eu que não tenho sequer raiz.

Deve fazer uns três mil anos
os meus antepassados não quiseram
entender os teus, eles utilizaram
a tua sabedoria como se fosse a minha.

Se você agora quisesse conversar
por que falaria comigo?
Que ainda não sou ninguém.
Que ainda envergo pouco.

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É poeta e dedica-se cotidianamente à astrologia. Autora de livros publicados no Brasil e em Portugal, sendo os mais recentes Seiva veneno ou fruto (2016) e Romã (2019), os dois publicados pela Chão da Feira.

ata de reunião, de Luís Fernando Amâncio

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Ata de número 137 da Reunião Ordinária do Conselho de Diretores da Empresa Encaixota Brasil, realizada no dia 05 de fevereiro de 2019, na sede, na Sala de Reuniões da empresa, localizada na Rua Raja Gabaglia, 1654, Belo Horizonte.

Estiveram presentes o presidente da empresa, Sr. Adalberto da Costa Guimarães; o vice-presidente, Sr. João Vicente Coelho Ventura; e os seguintes diretores: Sr. Ricardo Almeida Távora, Sr. Júlio Camargos, Sra. Vera Maria da Silveira, Sr. Felipe Leite da Costa Guimarães e Sr. Henrique Lezgrinowith. A reunião contou também com a presença do Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, que compareceu ao encontro para apresentar a planilha de gastos do ano de 2018.

Marcada para iniciar às 14h00, a reunião se iniciou efetivamente às 14h35 minutos — afinal, só precisam ser pontuais nessa empresa os trabalhadores rasos, os palhaços do baixo clero, como este que escreve a presente ata. Que, é importante frisar, chegou meia-hora antes, ajeitou a disposição das cadeiras, ligou os equipamentos multimídia, ajustou o ar-condicionado e ficou esperando a reunião ser iniciada. Este redator, também é válido destacar, tem uma mesa repleta de trabalhos que precisam ser feitos com urgência e será cobrado por isso. Justiça seja feita à Sra. Vera Maria, sempre correta em relação aos horários. Às 14h00 em ponto, ela chegou à sala de reuniões, com toda a elegância, tablet em mãos e cara de quem comeu e não gostou. Como lhe é habitual. Com todos os membros da diretoria presentes, o Sr. Adalberto da Costa Guimarães, presidente da Encaixota Brasil e, não por acaso, seu acionista majoritário, deu início à reunião, que teve a seguinte pauta:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018;

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa;

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos;

Informes gerais:

1) Aprovação da Ata nº 136 da Reunião Ordinária de 04 de dezembro de 2018. Após conversarem livremente sobre assuntos diversos, como se já não estivessem atrasados — ou talvez implicância deste redator, e seja importante saber das férias do Sr. João Vicente, na Itália; as dicas de restaurante do Sr. Henrique ou as previsões políticas do Sr. Júlio —, o Sr. Adalberto perguntou se todos haviam recebido a ata da última reunião. Após respostas afirmativas, o Sr. Adalberto perguntou se havia comentários a serem feitos e sugestões de alterações para o texto. A verdade é que nenhum desses diretores lê essas malditas atas, estão cagando para essas formalidades, então eles concordam, dizem que não precisa de alteração. Esse documento só serve para ser arquivado, torcendo para que nenhuma auditoria o desenterre do fundo de uma pasta. Mas o Sr. Ricardo Almeida Távora, um maníaco por gramática, lê. Ele pediu a palavra e começou a listar uma série de deslizes que este redator teria cometido. Alguns comentários pertinentes, reconheço, mas a maioria dos apontamentos não passa de picuinha linguística. Já foi registrado neste documento, porém não custa ressaltar, a mesa do redator está repleta de urgências. O Sr. Ricardo, quase septuagenário, o veterano da diretoria, estudou Letras. “Sou um apaixonado por latim”, segundo suas palavras. O decano pediu desculpas pelo nível de exigência, mas, com um sorrisinho asqueroso, disse que seus “olhos doem com alguns delitos contra a língua portuguesa, é um vício meu”. Deve ser o único divertimento do velho. Puto. Já que gosta tanto de gramática, por que não vai dar aulas em escolas públicas e compartilha seus enormes conhecimentos com a juventude? Certamente, é mais divertido humilhar o redator da ata, lembrá-lo de seu lugar subalterno. Após longos minutos desse exibicionismo intelectual, o Sr. Adalberto perguntou a todos se a ata, com as alterações sugeridas pelo Sr. Ricardo, poderia ser aprovada. Com o consentimento de todos, o documento foi aprovado por unanimidade. Este redator, que já tem trabalho suficiente, irá fazer a revisão do documento.

2) Discussão da planilha de gastos de 2018 da empresa: após uma nova dispersão, pois o Sr. Felipe entendeu que era pertinente mostrar os vídeos de seu filho de dois anos — embora, é preciso registrar, o menino realmente seja fofo, apesar do pai —, o Sr. Guilherme Valença Torres, chefe da Contabilidade, iniciou sua apresentação sobre os gastos da empresa durante o ano de 2018. Embora seja chefe de setor, o Sr. Guilherme não é um desses nefastos cardeais, está na luta pela sobrevivência como todos nós. Ele fez a competente exposição, usando o projetor, com planilhas bastante detalhadas. A luz apagada para a projeção, porém, fez alguns membros da direção cochilarem ou se distraírem no celular. Tamanho o respeito pelo trabalho alheio. As planilhas serão anexadas a esta ata. Após a exposição de cerca de 30 minutos, o Sr. Adalberto passou a palavra aos membros do Conselho de Diretores. A Sra. Vera fez algumas observações, tirou algumas dúvidas e mostrou que não estava cochilando durante a apresentação. O Sr. Felipe — e, confesso, dói escrever “Sr.” antes do nome deste cidadão, um playboy que, se não fosse filho do dono da empresa, teria sérios problemas em qualquer função devido à sua inépcia nata —, fez perguntas irrelevantes. O Sr. Ricardo questionou alguns gastos, porque ele gosta de causar. Durante as perguntas, a Srta. Marília, nova copeira da empresa, entrou na sala com café e pães de queijo. Enquanto ela estava depositando a bandeja na mesa, muitos dos diretores lançaram olhares devassos sobre seu corpo e emitiram, sem pudor algum, comentários elogiosos à sua saúde, digamos, para registrar de uma forma elegante. Tal é a avacalhação da reunião. O Sr. Henrique Lezgrinouwyitchakjlndfakjdsjf — sobrenome confuso da porra — ficou recentemente solteiro e particularmente empolgado. A Sra. Vera, não podia ser diferente, ficou bastante constrangida. Os membros do Conselho de Diretores, sem poderem fazer o mesmo com a Srta. Marília — ao menos, não agora —, atacaram os pães de queijo. O Sr. Adalberto, dada a dispersão do encontro, agradeceu a presença do Sr. Guilherme e encerrou a discussão do ponto de pauta.

3) Indicação de representante para participar da XII World Boxes Manufacturers Conference, a ser realizada entre os dias 10 e 13 de junho em San Diego, Estados Unidos: o Sr. Adalberto afirmou que, conforme é tradição, a empresa será representada no XII World Boxes Manufacturers Conference. Devido à recessão econômica, porém, neste ano, apenas um representante será enviado. O presidente da empresa disse que, em razão de compromissos familiares, não poderá viajar, deixando a oportunidade a algum outro membro da diretoria que se dispuser. Os Srs. Felipe e Henrique se propuseram a representar a empresa. Para resolver o impasse, o Sr. Adalberto decidiu que, neste ano, o Sr. Henrique irá à conferência, uma vez que ele nunca teve esta experiência. O Sr. Felipe, notadamente, não ficou muito satisfeito — vai reclamar com o papai, vai. Dada a afobação do Sr. Henrique com a copeira, este redator especula mentalmente se San Diego é próximo de Las Vegas.

4) Informes gerais. Houve muita conversa paralela, como de costume, mas não houve nenhum informe. Às 16h20, o Sr. Adalberto, exercendo sua função de presidente da empresa Encaixota Brasil, encerrou a reunião, agradecendo a presença de todos. O próximo encontro será no início de junho, com data a ser definida. Eu, Flávio de Carvalho Pedroso, exercendo minha função na secretaria da pocilga, lavrei a presente ata, que será assinada por todos, mas não será lida por ninguém, pois o Sr. Ricardo, aquele mala da gramática, estará de férias em junho.

Belo Horizonte, 05 de fevereiro de 2018.

Luís Fernando Amâncio é historiador de formação, escritor por teimosia, mas paga as contas trabalhando no serviço público. Em 2014, publicou seu primeiro livro, Contos de autoajuda para pessoas excessivamente otimistas. Primeira antologia do autor, o livro foi um dos selecionados em premiação promovida pela Editora LiteraCidade. É colunista do site Digestivo Cultural desde 2015. Em 2020, publicou O voo rasante do pombo sem asas pelo selo Isadora Books. “Ata de reunião” é o conto que encerra a antologia.