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três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).

happyland, um conto de Natal de Marcos Vinícius Almeida

No meu primeiro dia na agência HappyLand, eu estava destruído. Tinha acabado de me separar. Minha mulher se apaixonou por um cara. Algo difícil de engolir, mas também um tanto comum. Acontece o tempo todo, com todo mundo, eu repetia. Mas a coisa toda se tornou um bueiro sem fundo quando descobri que ela andava há meses trocando mensagens com esse cara e esse cara, na verdade, nem era um cara. Era um pastor. O diabo de um pastor. Pastor e síndico. Eu o tinha visto algumas vezes. Estacionando um SUV platinado, com adesivo traseiro EU ❤️ GRANJA VIANA, na padaria ao lado do prédio. Um panaca escroto.

Descobri a senha do telefone, vi um monte de coisas, dessas coisas que é melhor nunca saber. Juntei tudo que era meu — um punhado de livros, uma guitarra sem a última corda, duas malas de roupas — e mudei para o sofá da minha irmã. Um lugar pequeno, com vizinhos barulhentos, numa rua sem saída do outro lado da cidade. Eu mal sabia pegar ônibus por aqueles lados e os livros não cabiam na casa. Tive que empilhar as caixas na garagem. E toda vez que olhava aquelas caixas destampava a chorar.

* * *

Era véspera do meu aniversário. O primeiro aniversário que passaria longe do meu filho nestes cinco anos. Minha irmã pediu uma pizza. Então eu tirei essa selfie, com o filtro de 8mm do Instagram. Para documentar o momento, ou seja, capturar um fantasma.

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* * *

Ser feliz é nosso negócio. O slogan laranja neon cobria toda a parede da recepção da agência HappyLand. Uma mulher negra de dreadlocks e All Star amarelo me atendeu sorrindo, ligou para alguém e me mandou esperar. Cimento queimado. Encanamentos expostos tingidos de laranja. E meia dúzia de quadros de mil cores mais ou menos abstratos. Nunca tinha visto nada parecido. Depois de dois anos vivendo na bolha austera do mundo acadêmico, e frilas no jornalismo e no mercado editorial, jamais imaginaria algo deste nível. Lugares nos quais um joelho de cano expressasse com todas suas forças a Estética da Grande Felicidade Universal.

* * *

Nos primeiros dias fora de casa, minha cabeça funcionava em outra rotação. Lembrei de uma memória antiga. Quando era criança e andava de fusca com meu pai. Um sovina desgraçado. Sempre desligava o motor na ladeira, pra economizar gasolina. Pisava na embreagem, engatava o ponto morto e acelerava uma última vez. O silêncio que vinha depois daquele clique na chave sempre me pareceu uma explosão invertida. As árvores lá fora passavam meio segundo mais lentas. Naqueles primeiros dias de separação, minha cabeça trabalhava com meio segundo de atraso. Uma névoa temporal. Então eu saía e perambulava pelo centro. Acordei uma vez na casa de uma jornalista, semidesconhecida, de calça jeans, com um gato preto dormindo no peito. E num sábado de chuva terminei a noite chorando nos braços de uma garota de programa — que rodava bambolês fosforescentes em rave —num motel barato da Augusta. Minha vida sequestrada por algum letrista de samba dos anos quarenta. Sonhava com estantes.

* * *

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A Estação Santana foi inaugurada no dia 26 de setembro de 1975. Durante 22 anos e 7 meses foi ponto-final da Linha 1–Azul, em sua parte norte. Copiei isso da Wikipédia. Hoje, o ponto-final é a Estação Tucuruvi. Depois da Tiradentes, o trem sai do túnel subterrâneo e trafega pela superfície. Em dias de chuva, é uma cena bonita, se a gente prestar atenção naqueles telhados tristes e prédios decadentes vistos por cima do chiado de metal. Não tanto como antes, mas sempre que entrava na Linha Azul, ainda ficava parado olhando aquelas placas, aquele enigma milenar, as palavras: Jabaquara ou Tucuruvi.

* * *

Artur me disse que você é muito criativo, disse o Diretor de Criação. Era um cara de cabelos encaracolados, bochechas de tomate e camisa florida chamado Maurício e a especialidade do Maurício era deixar todo mundo à vontade. Eu trabalho bastante com texto, eu disse. Há bastante tempo. Mas nunca trabalhei em agência. Maurício sorriu. Um cara talentoso como você tira isso de letra. Eu sorri de volta. E cada sorriso tinha o custo colateral de um prédio implodindo sob as costelas. O trabalho é simples, disse Maurício. Estamos com um job gigantesco, com deadline curto. Cartões de Natal. Mensagens felizes, fofas, alegres. E personalizadas. Um pack diário de cinquenta. Daqui, até à véspera de Natal. Parece ótimo, eu talvez tenha dito, ou apenas pensado em dizer.

* * *

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Perto da estação tem uma rua de nome Ezequiel. Nunca tinha reparado.  Teve dias que eu não consegui voltar pra casa que não era a minha casa. Então parava naqueles bares de cadeira de plástico nas ruas paralelas. Ezequiel viu o céu de abrir. E nunca mais parou de escrever. Saí do bar pra pegar o último ônibus. Cheiro de óleo sob o vento de agosto. Então um cara muito parecido comigo (mochila nas costas, meio bêbado, barba e cabelos descuidados), passou do meu lado. A semelhança era tanta que me deu um arrepio no braço. Andei atrás dele, mas andava rápido demais.

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* * *

Eu tinha encontrado o Artur, numa sexta, e contado tudo. Preciso de um emprego novo, eu disse. Ele pediu meu currículo e três dias depois eu estava sentado num coworking, com baias coloridas, um banheiro tocando música, emojis sorridentes em balões, na agência HappyLand. Eu sentava ao lado de um menino de uns vinte anos, diretor de arte, que costumava rezar antes de esquentar a marmita. Aquilo acabava comigo. Ou quando eu subia num patinete no fim do dia, e via aquela placa na esquina: Shopping Granja Viana. Eu precisava me inspirar pra escrever. Então colocava Nelson Cavaquinho no Spotify. Abria o Word. E escrevia. Com raiva. Serotonina lá embaixo, sem parar. Cartões de Natal, e-mails de Natal. Os cartões de Natal mais felizes do mundo.

* * *

A rua da casa que não é minha se chama Manoel de Deus. É uma rua sem saída. Na casa que não é minha tem uma área de serviço fechada, cheia de grades, que dá para uma outra de serviço aberta, com outras grades. Nos dias quentes, eu ficava ali parado olhando nos vãos, tentando avistar o horizonte, fumando meu cigarro. Uma luz mercúrio alaranjada caía sobre elas e construía mais uma camada. Grades fantasmas. Achei aquilo muito bonito.

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* * *

Na véspera de Natal, fiz o que sempre fazia. Acordei por volta das sete. Fumei um cigarro e atravessei a cidade. Estava chovendo e o metrô um tanto vazio e o combinado era trabalhar até meio dia. Já tinha terminado meu trabalho por volta das onze e saí dali onze e meia. Ia passar numa livraria e comprar o presente do meu filho. Edição especial e ilustrada de Harry Potter. Quando lembrava dele imitando um Expecto Patronum, meus ossos das costelas paravam de queimar. A livraria estava cheia. Essas crianças quase sempre tropeçando por todos os lados. Demorei um pouco entre as estantes, folheando livros que já tinha, até me deixar surpreender por algo novo. Na fila do caixa, uma moça de cabelos pretos-chumbo carregava um monte de livros, abraçados, junto ao peito. Vi seu rosto só de relance, meio de lado, um relâmpago — meio turca, indígena, espanhola, uns olhos impossíveis. É terrível e não tem volta. Livre-arbítrio, essa palavra oca. Um chicote de ar. Tinha um punhado de anéis nos dedos e quando foi atender o celular, os livros despencaram. Putz grila!, ela disse. Eu sou um desastre! Me abaixei. Um livro verde, de umas quinhentas páginas, chamou minha atenção. Metamorfoses, de Ovídio. Eu o peguei. Adoro esse livro, eu disse. Ela me olhou dos pés à cabeça. Mexeu no cabelo. Um tanto estrábica. E sorriu de canto de boca, uns lábios bravos. Olhos arrogantes de tão pretos, tristes e sem fundo, e vivos. Tô usando numa pesquisa, ela disse. Olhou minhas mãos segurando o livro: mas tô só começando. Entreguei o livro pra ela. Ficamos ali parados. Olhando um para o outro. Parados em silêncio no meio daquela livraria barulhenta. Quer tomar um café?, eu disse, mas a voz saiu despressurizada, numa língua muda, incompreensível, jamais proferida antes. O quê?, ela disse — e ela pisca os olhos muito depressa quando fica em dúvida. Nunca vi olhos tão ambíguos. Preciso ir embora, ela disse. E ficou ali parada, me olhando, com os livros enroscados no corpo. Ah, tudo bem, então, eu disse. E fui pagar minhas compras. Quando terminei, ela ainda estava ali parada, do lado da fila, olhando para loja inteira e para lugar nenhum. Passei perto dela de novo, sorri um tanto sem sorrir. Então ela disse, meio tossindo, num estalo: Escuta. Parei ao lado dela. Mudei de ideia. É mesmo? Peguei uma das sacolas. Ela sorriu aquele riso meio sem fôlego. Conheço um lugar aqui perto. Acho que você vai gostar.

Marcos Vinícius Almeida, escritor e jornalista, é mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e autor de Paisagem Interior (Editora Penalux). Curador editorial da revista gueto, publicou trabalhos na Ilustríssima, Época e Cult. Vive em São Paulo. Site: https://mvalmeida7.wixsite.com/marcosalmeida

alguns poemas de amor, de Ruy Espinheira Filho

EPIFANIA

Alguns anos não consigo
deixar nas águas do Lete:
os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete.
Muitas coisas se afogaram,
e rostos, e pensamentos,
e sonhos, e até paixões
que eram imortais…
_______________Porém,
os meus magros dezessete
e os teus catorze morenos
não entram nem em reflexo
nesse Rio do Esquecimento.

Que magia nos levou
a um espaço e a um momento
para que de nós soubéssemos:
tu, meus magros dezessete;
eu, teus catorze morenos?
Que astúcia do Imponderável
nos abriu aqueles dias
que permanecem tão claros
como quando nos surgiram?
Eu não sei. Mas sei que a vida
nunca mais me foi vazia.

Como não foi fácil, nunca,
por tanto me visitarem
os Arcanjos da Agonia.
Pois, se fui iluminado
por estarmos lado a lado
— os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete —,
seria fatal que também
viesse a sentir a alma
em chagas multiplicadas
por setenta vezes sete.

Ah, os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete!…
Quanto sofrimento fundo
— mas quanto sonho profundo
e alto!
_______________Que belo mundo
foi-me então descortinado,
porquanto me era dado
o privilégio preclaro
de penar de amor no claro,
no escuro, em todas as cores,
em todos os tons da vida,
dia e noite, noite e dia,
varrido ao vento das asas
dos Arcanjos da Agonia
(que eram, por algum prodígio,
os mesmos da Alegria!…).

Ah, que por mim chorem flautas,
pianos, violoncelos,
as cachoeiras, os céus
comovidos dos invernos…
Chorem, chorem, que mereço
essas lágrimas, porque
tudo sofri no mais pleno
de paraísos e infernos.
Que chorem…
_______________Mas eu, eu mesmo,
não choro… Como chorar,
se mereci essa dádiva
de um amor doer na vida
por setenta vezes sete
mais que qualquer outra dor,
mais que qualquer outro amor?
Só me cabe agradecer,
pois a vida perderia
(e, o que ainda é mais cruel,
sem nem saber que a perdia…)
se não provasse os enredos,
insônias, febres, venenos
que em meus magros dezessete
acendeu a epifania
dos teus catorze morenos!

SONETO DA NEGRA

a Maria da Paixão

A cor da suavidade é que a modula.
Nela se abisma a luz e se revela
incapaz de alterar nada daquela
penumbra que a atrai, absorve, anula.

Nessa paisagem que coleia, ondula
como um rio, ou o mar (e é dela e ela),
um vento violento me desvela
um animal que me trucida e ulula.

O tom da suavidade não se altera,
eleva um canto cálido e me diz
que são garras de amor, e é bela a fera.

E assim, em carne rubra e cicatriz,
entrego à cor profunda que me espera
estes despojos em que sou feliz.

VOO CEGO

Um pássaro te procura
na cidade adormecida.
Vai em voo cego: seus olhos
só verão quando te virem.

E onde te ver? Não sabe.
Só conhece o procurar,
indiferente às ressacas
do vento e ao seu cessar.

Pássaro, a noite já finda
e continuas trevado
pela flama que não viste
nos olhos da procurada!

Eis que retorna como em
outras tantas madrugadas,
trazendo nada da busca
em suas asas exaustas.

Frágil perfil, contra a aurora,
de um cinzento voo desfeito,
ele se transforma em vácuo
e se recolhe ao meu peito.

SONETO DO ANJO DE MAIO

Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me

o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida – e a mágoa desertou-me.

Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!

Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!

CAMPO DE EROS

Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.

E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.

E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),

o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes

a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.

Amor. Do extinto pássaro, o voo
prossegue, inexorável. Mas perdoo,

eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,

amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.

Ruy Espinheira Filho é baiano de Salvador. Poeta, cronista, contista, romancista, recebeu algumas das principais premiações literárias do país, como o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa (1981), o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia (1998), o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2006) e o Prêmio Jabuti de Poesia (2º lugar, 2006), entre outros. Aposentou-se como professor de Literatura Brasileira no Instituto de Letras de UFBA em 2010.

kalunga, auê, poema de Neide Almeida

Em nossos mares
ainda são muitos os navios malditos
imensos, sufocantes porões
odor de maresia e sangue
ainda inundam as memórias de nossa gente.
Essas águas não nos embalam
arrancam a vida de nossas entranhas
devoram nossos filhos
enlouquecem as mães de nossas crianças.

O fundo dos oceanos
está coberto de disformes pedras de sal
tíbias, mãos, crânios
fósseis curados por lágrimas,
vertidas das vísceras de nossos ancestres
que desde sempre permanecem
invocando as mãos de Xangô.
Encosta o ouvido na concha,
escuta o grito!

A areia das nossas praias
está repleta de banzo
corpos de nossa gente
estirados sob o sol
continuam sendo devorados.
Bandos de aves de rapina
roubam dos nossos
o pulso, as vértebras, o vigor.
Sente na pele o eco dessas dores!

As ondas dos mares que somos
estão sempre tão cheias
prenhes, reverberam indignação.
Arregalamos os olhos e nos lançamos nas águas mais turbulentas
nossas meninas, os meninos nossos
sendo surrados nos recifes
jogados em alto mar como redes de pesca
arrastados, esvaziados
extenuados,
ainda assim nos cabe
converter essas águas
Kalunga, auê
Kalunga, auê
kalunga, auê

Neide Almeida é escritora, poeta, produtora cultural pela Fio.de.Contas Produções.

cinco poemas de Carlos Barbosa

queda

ainda caminho de lado,
com as mãos na parede
para não cair,
como fazia na primeira infância,
já corroída na memória

caminho de lado
para não cair
definitivamente em mim

a porta no chão

a John Irving

há duas portas em meus olhos,
do tipo corta-fogo
há uma dura mão-de-pilão
em meu coração

minhas mãos,
toda manhã,
colhem o orvalho que cobre meu peito

há sempre uma porta no chão,
meu eterno tropeço

o menino e eu

tenho dor, obrigações e conta bancária

o menino tem fantasia
e histórias pra contar

por isso me consumo em fortalecê-lo:
quando eu partir, ele prosseguirá

o poste de ferro

o poste de ferro cantava,
quando nele a gente batia,
toda vez que passava
no caminho da escola

o poste de ferro era
um violão sem cordas

meio-dia,
o poste ainda cantava
uma canção aflita,
de órfão desnudo,
no areão fincado

desligado do mundo,
o poste de ferro aguardava pelo toque,
todo dia,
para lembrar o tempo
em que bem servia ao telégrafo

o tempo em que vingava
seu bom ferro,
em que não cantava aflito,
cravado no areão,
mas sustentava, sim,
o doce milagre
de sinais e vozes viajantes
e bandos de andorinhas
num sempiterno verão

borboletas baianas

tomo conhecimento das borboletas baianas,
não das que vejo nos jardins,
mas daquelas que voejam em casamentos

nossas borboletas fazem sucesso
em casórios Brasil afora
viajam de avião,
em caixinhas com furos para ventilação

as borboletas são exigência de noivos românticos:
querem com elas embelezar
suas histórias de amor

mas são caras nossas borboletas,
muito caras
precisam ser contadas
para o devido pagamento
e para tanto,
colocam as caixas por um tempinho em geladeiras:
é que assim as borboletas desmaiam
e é possível então fazer a contagem

por fim, as caixas são levadas ao pé do altar
e lá aguardam pelo grande momento,
as sobreviventes

após o beijo do novo casal,
as borboletas são soltas
mas estão fragilizadas, tontas, combalidas

então o pessoal dá o último toque ao show:
batem nas caixas para espantar as borboletas
que se projetam no ar
em arquejo final de vida,
para morrer em seguida em pleno voo

ou onde quer que pousem,
depois de obterem o aplauso da plateia
e ares de extremo contentamento
dos nubentes,
aquele batalhão de borboletas baianas

borboletas que viajaram de avião
e desmaiaram no gelo
em suas curtas vidas de tortura e horror
para beleza e glória do amor

| poemas que integram Inventário da triste figura, livro inédito. |

Carlos Barbosa nasceu no sertão do São Francisco, interior da Bahia (1958), e vive hoje em Salvador. Graduado em Jornalismo e Direito, tem romances, livros de contos, de minicontos e de poemas publicados desde 1998. Tem participado de antologias e coletâneas de contos. Mantém um blog, Minicontos, no qual publica textos inéditos e comentários sobre livros cuja leitura recomenda. Segue em dúvidas e dívidas, longe de divididas, em cultivo de amizades.