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equilibrista, poema de Natalia Timerman

Ontem fomos ao circo
meu pai queria
levar os netos
fomos todos
um circo de lona

seria bom poder dizer
todos os dias
fomos ao circo
mas isso só acontece
uma vez
ou uma vez
de vinte em vinte anos

ir ao circo é medir o tempo
em passadas de elefante
não há mais elefantes no circo
só sua grandiosidade
os olhos das crianças abertos
olhando para cima
para o alto do circo
o auge da vida da criança
quem sabe o auge da vida

sem que se perceba
de repente já passou e só depois
muitos anos depois
numa lembrança repentina
diante de um saco de pão
aquilo lá
tão pouco, tão nada, veloz
foi o auge
e já passou

estávamos atrasados
queríamos estar felizes
como devem estar
pessoas a caminho do circo
meu pai estava bravo
eu estava tensa
cansada do dia e das noites
as crianças estavam felizes
por trás do silêncio que
o rosto dos adultos
exigia delas

meu pai não disse
oi
demoramos a achar os lugares
que eram
separados
estava cheio
alguém perdeu o ingresso
não sabíamos onde uma pessoa
de tantas que éramos nós
(somos uma família grande, percebi)
deveria se sentar

quando começou
o espetáculo
percebi a boca seca a garganta
pedindo água e os ombros duros
como nunca imaginei
no dia de ir ao circo

uma mulher equilibrou pás
longas de madeira
talvez fossem de plástico
do lugar onde eu estava
não conseguia enxergar
só ver que a mulher
equilibrou várias delas
fazendo com seu corpo
um móbile de calder
vivo como os dias
que acontecem
que passam como são
não como queremos que sejam

foi um auge e foi
bonito mesmo que triste
bonito porque triste
porque vivo
porque estávamos todos
vendo a mulher
equilibrar as pás
e os homens pulando alto

quando acabou
as crianças sorriam
os adultos sorriam
já esquecidos
do atraso da sede
do dia das noites

nos abraçamos nos perdoamos
sem uma palavra
enquanto as crianças
comiam pipoca
e espalhavam pelo chão

Natalia Timerman é escritora, psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017) e a coletânea de contos Rachaduras (Editora Quelônio, 2019). Seu primeiro romance sai em 2021 pela Editora Todavia.

o ofício da fome, de Alexandre Arbex

A amizade, por vezes, impõe-nos estranhas obrigações. Não me julgo, falando honestamente, à altura da tarefa que me coube desempenhar em memória de meu velho camarada Florentim Avesso, cujas partes finais enterrei na tarde de ontem após tantos meses de dolorosas experimentações. Creio, porém, que, se me negasse a satisfazer seu último pedido, a deslealdade dessa recusa evasiva anularia de uma vez todos os méritos da verdadeira devoção com que acompanhei as etapas finais de sua longa penitência. Informo de antemão que jamais reivindiquei qualquer compensação em troca da assistência assídua que dediquei às suas crescentes necessidades, e que tampouco pretendo servir-me deste relato para granjear em meu favor a atenção pública, se é que minhas palavras sairão à luz um dia.

Seria, sem dúvida, desejável e correto introduzir este depoimento com uma síntese cronológica dos fatos que precederam à radical resolução de meu amigo, mas Florentim nunca me confidenciou os motivos que o haviam determinado a se submeter voluntariamente a tão severas provações, e eu, a despeito de ter a princípio tentado desesperadamente demovê-lo de seu propósito, confesso que logo desisti de esperar qualquer esclarecimento ou, ao menos, qualquer justificativa, ainda que insensata ou absurda, que me permitisse situar seus atos no campo do martírio ou do delírio. Estou certo, ou folgaria muito de estar, de que meu amigo, ao me encarregar da missão de empreender narrativa de sua morte, tampouco tinha intenção de figurar nela como um herói incompreendido, capaz de inspirar nos corações ingênuos o anseio de repetir seu trágico exemplo. Por essa razão, serei prudente ao especular sobre os sentimentos que pareceram perturbá-lo, sobretudo nas suas últimas incisões, quando, ainda relutante, ele concedeu uma trégua à dor e aceitou morfina. Para ser fiel à promessa que lhe fiz e imprimir a este memorial o caráter desapaixonado que certamente agradaria a Florentim, guardarei silêncio sobre meus próprios juízos morais diante dos fatos que me disponho a descrever, e somente farei algum acréscimo de opinião ou hipótese quando for conveniente evitar que o leitor crie, a respeito de meu amigo, uma imagem imerecidamente atroz.

Florentim procurou-me no consultório quando já havia perdido o pé direito, dois dedos da mão esquerda e o saco escrotal. Chegou só, arrimado a uma bengala de alumínio, sem marcar hora, e se valeu de sua deplorável condição física e de nossa velha camaradagem dos tempos colegiais para ser recebido imediatamente. De início, não me contou como tais acidentes se sucederam, e me deixou atribuí-los, com essa deliberada omissão, aos efeitos de um inexistente diabetes. Apenas algum tempo depois, eu atinaria que aquela visita tinha o duplo propósito de despertar meu interesse pelo seu caso e sondar minha discrição; de fato, se me fosse dado saber tudo de repente, uma repugnância invencível pela sua figura teria interditado definitivamente o diálogo entre nós. Ajudei-o a se despir, apalpei um pouco constrangido o ponto de sua castração e atestei afinal que, a despeito das estranhas cicatrizes de suas mutilações, Florentim gozava de uma saúde perfeita. Ele sorriu sem satisfação e se limitou a responder que aquela boa notícia o autorizava a dar seguimento aos seus projetos. Convidou-me a ir vê-lo em seu apartamento no fim de semana, a pretexto de compensar com um almoço a generosidade daquela consulta intempestiva e gratuita, e eu, supondo que suas evidentes dificuldades de locomoção deviam privá-lo de companhia, acabei por aceitar a proposta, embora não houvesse entre nós intimidade suficiente para justificar uma visita tão pessoal.

Ao cumprimentá-lo na chegada à sua casa, notei a falta do terceiro dedo na sua mão esquerda. Eu teria facilmente associado essa inesperada lacuna a uma traição da memória se não tivesse percebido que a lesão sobre o talo do metacarpo ainda parecia fresca, quase suculenta. Florentim, apoiando-se nos móveis, indicou-me, com um aceno, um sofá de palhinha, submerso numa nuvem de almofadas brancas, e se atirou à poltrona de couro sintético, carcomido nas costuras, a mesma onde o vi morrer dois dias atrás. Não emiti de princípio nenhum comentário sobre sua ferida recente e, evitando olhá-la, tentava concentrar minha atenção noutros objetos da sala, um vaso de cristal jateado na mesa de centro, um estojo de baralho, um porta-retratos vazio. Monossilábico e vigilante, o anfitrião mal e mal respondia às frases com que eu me empenhava em prolongar as aflitivas cordialidades iniciais, e parecia apenas cronometrar em segredo por quanto tempo eu seguiria adiando a pergunta tão nitidamente estampada no espanto da minha fisionomia. Esse jogo depressa desgastou minha paciência: desabotoando o paletó, já à espera de uma longa conversa, e assumindo um tom franco, quase hostil, perguntei-lhe, então, meu caro, o que aconteceu com o dedo? Ele suspirou, aliviado de poder afinal dizer as palavras que pareciam tolhê-lo dentro de si desde minha entrada, e, como uma criança que sabe ter ido longe demais mas se julga já suficientemente punida pelo próprio erro, respondeu, sorrindo, eu comi.

Não consegui almoçar, mas aceitei o chá sem a sobremesa, esforçando-me por dominar aos poucos as ânsias que me subiam por dentro com uma efervescência amarga. Depois de uma hora, de pé ante a entrada da varanda contígua à sala de visitas, pus-me a escutar as confissões que Florentim, de volta à poltrona, lentamente desfiava às minhas costas. Ele contou que, certa tarde, deitado na cama, com a cabeça ligeiramente suspensa e apoiada contra um travesseiro, começou, por uma distração inquieta, a balançar os pés. Ficara assim a admirá-los, como se a sincronia desse movimento fosse uma manifestação espontânea deles, uma exibição graciosa de um par de dançarinos siameses. A longa e passiva contemplação o fez aos poucos cair num estado de torpor próximo ao da hipnose. Seus pés pareceram-lhe tão suaves e sinuosos em sua forma, tão crescidos em sua massa, que ele os apeteceu. De súbito, então, lançou-se num salto sobre eles com uma irresistível voracidade. Calhou pela sorte que pegasse primeiro o direito. Comprimiu as mandíbulas com tanta força que, ao soltá-lo, sentiu que lhe sobrara dentro da boca uma tira de carne. O pedaço soube-lhe a algo como uma capa de gordura fria e insossa que ele teria certamente cuspido se, em seguida, inesperadamente, não lhe subisse aos poucos ao palato um deleite insólito, que se intensificava, preenchendo seu paladar, à medida que a polpa dura do pé se dissolvia na saliva. Quando a engoliu, afinal, uma sensação de saciedade assolou tão violentamente seus sentidos que ele quase desfaleceu: deu-se conta, então, de que não poderia mais viver sem atingir outra vez a delícia extrema daquela deglutição cujo prazer estava além dos limites do sofrimento físico e da náusea.

Terminou de comer o pé em uma semana, disse-me, com uma entonação exultante, e eu compreendi que ele descortinara com esse triunfo um horizonte de ainda mais espetaculares realizações. Naquela ocasião, não tive espírito para inquiri-lo acerca das presumíveis dificuldades de execução desse ato, mas Florentim explicou-me depois que havia recorrido aos mais lacerantes meios contra a resistência dos ossos, fracionando-os em partes pequenas como comprimidos para engoli-los com conhaque. Uma noite, ao assistir a um desses programas de curiosidades científicas, estrelados por jovens de colete, gravata borboleta e gel capilar, ele descobrira um método módico para amolecer ossos de galinha: vinagre quente. Encheu quase até a borda uma panela com o líquido, ferveu-o um pouco para acelerar a fermentação, despejou o conteúdo num largo recipiente de louça e, tão logo a temperatura lhe pareceu suportável, imergiu nele o pé um tanto destroçado, com as falanges e metatarsos já aparentes. Reaquecendo a intervalos o conteúdo, submeteu-se a esse experimento por um prazo maior que o aplicado aos galináceos, certo de que os ossos humanos, mais grossos, não se quebrariam com igual facilidade. Perguntei-lhe, tornando a encará-lo pela primeira vez desde o início de sua narração, se a reação química havia sido eficaz. Em parte, ele respondeu, precisei complementar o efeito com o auxílio da força, e, calculando que meus ossos estavam já tão esfarelados que poderia martelá-los quase insensivelmente, acabei por desmaiar de dor após uma sequência de golpes. Recostado à porta da cozinha, servindo-se também de uma xícara de chá, Florentim disse-me que esses procedimentos não lhe eram mais tão penosos e que, aliás, já os tinha incorporado ao seu ritual. Tão logo, porém, disse esta última palavra, apressou-se a esclarecer que suas práticas não tinham qualquer inspiração mística ou religiosa, e que, se algum ritual havia nelas, era somente o da refeição. O gosto dos tecidos moles encavados nas reentrâncias ósseas o havia extasiado e, desde então, ele se habituara a deixar as feridas à vista, sem curativos, para aguçar o apetite. Mas aquelas primeiras e excruciantes tentativas de comer o pé quase o tinham feito duvidar se aguentaria levar adiante o que tinha iniciado. Dias depois, no banho, teve vontade de comer o saco escrotal: disse-me, com um riso envergonhado, que se sentara no piso do box, esticando as pernas contra o blindex e dobrando o abdômen, para pôr ao alcance dos dentes aquelas partes, até que uma fisgada muscular o fez desistir do ato e o obrigou a usar as mãos para trazê-las à boca. Aos repuxões, aos rasgos, aos arrancos, esgarçou as pregas até abrir pequenas fendas — precisei fazer muita força, disse, muita força mesmo — e, em seguida, estendendo as mãos para apanhar, numa gaveta sob a pia, o alicate de unha, retalhou os pedaços pendentes, e os comeu, como já havia comido os testículos, cuja consistência descreveu como semelhante à de um caroço de sebo. Indaguei-lhe como ele pudera resistir àquele suplício absurdo, e Florentim, fechando os olhos com o regozijo da lembrança, respondeu, o sabor é indescritível.

A amputação desastrosa, contou-me ele, pusera-o a perder muito sangue e o submetera a um repouso demorado. Àquela altura, apenas a muito custo eu conseguia dominar a ojeriza e a indignação que o relato de Florentim me causava, e creio que, ao perguntar-lhe sobre as consequências daquela hemorragia, deixei que essas emoções imprimissem à minha voz um tom colérico, que o assustou. Falando mais baixo e devagar, como se por um momento tomasse consciência dos seus abomináveis feitos, Florentim respondeu que havia ele próprio providenciado a sutura do corte com materiais esterilizados, mandados vir da farmácia, mas que, na noite do incidente, arrepios o percorreram por dentro como aranhas geladas subindo sob a pele, e ele teve muito medo de morrer. Estava claro, disse, que não poderia prosseguir assim, sem método, tão desassistidamente, se desejava ir além. Ao ouvi-lo anunciar assim seu propósito, compreendi de chofre o motivo da minha presença em sua casa, e me dei conta de que seu discurso, tão meticuloso e ponderado, soava não como o desabafo cruel de um homem doente, mas como o discreto preâmbulo de um convite. Não o autorizei a formulá-lo: pus-me à distância, como se quisesse repelir as palavras que se seguiriam, e, primeiro com sobriedade e depois com aspereza, procurei persuadi-lo de todas as formas a não se entregar àquele brutal e desumano programa. Disse-lhe que, cedo ou tarde, as sequelas o obrigariam a recolher-se a um hospital, onde, preso a uma cama e reduzido à mais infame invalidez, ele certamente se arrependeria de se ter sujeitado àquele castigo selvagem. Cabisbaixo, meu pobre amigo esperou que eu me calasse para afinal responder, com uma voz resoluta e serena, que iria o mais longe que pudesse.

Pouco a pouco, porém, observando o quanto Florentim parecia insensível às próprias dores, eu deixaria de nutrir qualquer compaixão por ele, e logo as minhas preocupações passariam a concentrar-se menos em sua pessoa que em sua arte. Soube depois que, desde o desastroso episódio no banho, Florentim se dedicara a estudar técnicas finas de corte e excisão, mapeando, com polígonos pontilhados de caneta preta, as partes mais vascularizadas de seu corpo, a fim de controlar os sangramentos. Como o cheiro das pomadas anestesiantes na pele lhe tirava completamente o apetite, ele adotara, em seus começos, o hábito de tomar três pílulas de analgésico com chá de camomila misturado a uma bebida alcoólica para evitar que a dor em excesso, perturbando-o na operação, o fizesse errar as mordidas. Aprendera, enfim, com a experiência: notando, por exemplo, que a ingestão de pelos lhe dava azia, depilou de vez todos os seus membros. Quando começara a comer os dedos da mão, Florentim observava já um escrupuloso conjunto de práticas seguras que a pesquisa e a autoanálise o haviam induzido a estabelecer e para cujo aprimoramento eu viria contribuir modestamente. O que lhe faltara, no seu impetuoso início, era certo senso estratégico, conforme ele próprio admitiu: por equívoco não previra, por exemplo, o quanto a falta dos dedos dificultaria a abertura dos frascos, a administração correta dos socorros necessários, o manejo da lâmina e outros instrumentos que o auxiliavam a cindir e lancetar as fibras e os tendões mais duros.

Naquela primeira tarde, entretanto, despedi-me horrorizado de Florentim. Com uma recusa ríspida, deixei claro que não tomaria parte em seu projeto e lhe sugeri que, em vez de médicos, ele recrutasse sádicos. Em casa, preparei uma sopa para quebrar a onda de enjoo que me revolvia o estômago e liguei a televisão para apagar da cabeça as imagens que me haviam ficado daquela visita. Lembro-me de esperar o início de uma partida de futebol quando entrou no ar a propaganda de um dentifrício, com cenas de esportes aquáticos sob uma fosforescência azulada, ao som da voz de um locutor que exclamava repetidamente que a maior concentração de flúor da nova fórmula garantia um sorriso ainda mais branco e limpo, a maior concentração de flúor da nova fórmula garantia um sorriso ainda mais branco e limpo, a maior concentração de flúor, flúor, flúor, sim, era isso, levantei-me às pressas, destaquei uma folha do bloco de prontuários médicos e escrevi essas duas palavras, ácido fluorídrico. A intuição confirmar-se-ia em seguida: consultando um compêndio de química, verifiquei que o ácido fluorídrico, diluído, era capaz de penetrar a pele e dissolver por dentro os ossos. Calculei que, combinada com o vinagre em certa quantidade — cuja dosagem não revelo aqui porque pretendo aperfeiçoar a composição e patenteá-la —, essa substância precipitaria os efeitos corrosivos que Florentim desejava aplicar às frações comestíveis de seu esqueleto. O estranho entusiasmo que se apoderou de mim com a descoberta me obrigou a admitir que a proposta de meu amigo definitivamente me interessava.

Após alguns exames que supervisionei pessoalmente, estabeleci um cronograma para as atividades alimentares de Florentim, propondo intervalos regulares entre as porções e prescrevendo uma quantidade padrão para estas, além de acrescentar novos expedientes de atenuação da dor. Passei a visitá-lo todos os dias, às vezes pela manhã e à noite: auscultava-o, media sua temperatura e pressão e, tanto quanto possível, punha ordem nas coisas da casa, efetuando as adaptações necessárias ao seu estado e assumindo alguns cuidados com seu asseio. Não demorei a conseguir assistir às suas refeições com uma atenção tranquila, sem engulhos, e a minha simples companhia nessas ocasiões lhe transmitia, como ele próprio me revelou, uma confiança estimulante. Jamais deixou de me admirar o apetite com que Florentim comia: uma cintilação de prazer parecia preencher seus olhos amarelados enquanto ele mascava longa e lentamente, como um chiclete massudo que crescesse na boca, um pedaço seu. Ao princípio, ele rejeitava qualquer outra comida, alegando que nada lhe sabia melhor ao paladar que sua própria carne, mas o forcei a alternar essa preferência com a ingestão de alimentos convencionais, visto que as pausas entre as perdas de suas partes, previstas no nosso planejamento, acarretar-lhe-iam jejuns relativamente demorados.

No espaço de poucas semanas, Florentim comeu os dois últimos dedos da mão esquerda, a mão esquerda, a superfície do seu antebraço e as peles flácidas que revestiam aquela camada em geral mais gorda e macia — que ele também comeu — junto ao cotovelo. Não sei se me surpreendia mais a estabilidade de seus sinais clínicos ou a lucidez imperturbável com que ele conversava sobre os pequenos fatos do cotidiano, o clima, o noticiário, o vinho. Às vezes, quando eu emendava duas, três noites em sua casa, a excepcionalidade da situação de Florentim parecia suavizar-se, e uma sensação de paz doméstica harmonizava com tal placidez nosso convívio que eu, obrigado a comparecer toda manhã ao consultório, comecei a considerar o trabalho externo uma ocupação secundária e enfadonha, um tributo que pagava ao tempo em troca de mais uma tarde aprazível em companhia de meu amigo.

Essa calmaria, conjugada com o perfeito cumprimento de nosso programa e a correta prevenção de todas as eventualidades — febres, vomições, desarranjos —, iludira-me por bom tempo acerca da conduta de Florentim, mas as dissimulações que ele empregava para comer às escondidas acabaram por ter um grave desfecho de cuja responsabilidade não posso isentar-me inteiramente. A verdade é que, por mais que uma intimidade saudável se tivesse já estabelecido entre nós, nunca me senti à vontade com a tarefa, cada vez mais difícil e necessária, de auxiliá-lo no banho. Não me incomodava, de nenhum modo, a obrigação médica de fazer a assepsia de seus ferimentos recentes, ainda que tivesse preferido delegar o serviço a um enfermeiro. Contudo, lavar e ensaboar seu corpo de homem, nu e meio amorfo, sob o chuveiro, dava-me a sensação desagradável de ter à mercê de minha força um animal pesado e inútil, cuja pele ainda se crispava ao tato da água fria e cujos músculos ainda se retesavam ao contato de minhas mãos, e ao qual eu devotava todavia um incompreensível desvelo. Meus escrúpulos de decência, a pretexto de proteger sua privacidade, me faziam sair do banheiro tão logo o via bem instalado no box, com o corpo recostado e seguro. Punha-me, então, porta fora, à espera do chamado para dobrar a maçaneta e recebê-lo com a toalha seca. Uma noite, porém, quando Florentim tardava mais que o habitual e sua voz parecia extinguir-se num longo sussurro ao responder a meus apelos, precisei entrar. Surpreendi-o, sentado, exangue e sonolento, no meio de uma poça de sangue, com o pé esquerdo estraçalhado. Puxei-o às pressas para fora, estanquei a hemorragia com sua própria roupa umedecida pelo vapor quente do chuveiro e providenciei um curativo precário, que completaria após reanimá-lo. Considerei por um instante recorrer à injeção de adrenalina que guardara no armário da cozinha e tentar o procedimento de ressuscitação com uma aplicação intracardíaca de emergência, mas, de súbito, num estremecimento, Florentim golfou um pedaço duro e vermelho de carne, lustroso como um rubi, e, puxando-me pela gola da camisa com os dedos encavalados, pediu água. Abracei-o, ainda muito abalado, acolhendo no calor da minha mão sua testa fria, e senti, então, que o perdoava por aquela desobediência, que o perdoava por qualquer coisa, porque o amava como a um filho que eu tivesse tirado do fundo da morte.

Passamos a madrugada no banheiro: quando Florentim acordou, ainda no meu colo, as primeiras luzes da manhã já penetravam o vidro frisado dos basculantes. Seus olhos, fixando-se na parede branca, pareciam recobrar aos poucos as circunstâncias anteriores a seu desfalecimento. Ele me fitou com o rosto manchado pela vergonha de sua degradação, e baixou depressa a vista. Levantei-me, comovido, ergui-o ainda mais alto nos braços, esplêndido como um animal sagrado sobrevivente ao seu próprio sacrifício, e o fiz mirar-se demoradamente no espelho. Quando ele, afinal mais calmo, restituído em sua dignidade, parecia já distinguir no reflexo o que lhe faltava e o que lhe sobrava, eu lhe disse, vai ficar tudo bem, seu corpo está assimilando melhor a dieta, aliás, se não fosse a perda de tantas partes, talvez você tivesse até ganhado peso. Sorri, Florentim sorriu, gargalhamos até.

Desde então, passei a vigiar Florentim diuturnamente, já não com o intuito de constrangê-lo a observar o calendário que lhe receitara e do qual acabei por abrir mão, mas com a preocupação de prover condições tão seguras quanto possível para que ele seguisse doravante apenas a lei da sua própria fome. A crescente dependência de meu amigo, além dos cuidados médicos de rotina, determinou-me a tirar férias do consultório e a me alojar, de fato, no seu apartamento. Somente pude vencer sua obstinada e entretanto justificável recusa a contratar auxiliares para os serviços mais pesados quando o ambiente se tornou a tal ponto caótico que era quase impossível encontrar um espaço livre e limpo na casa onde ele pudesse descansar. Em dias de faxina, mantinha-o sempre trancado no quarto, a salvo do espanto dos empregados, cuja curiosidade era felizmente menor que o alívio de ter um cômodo a menos para varrer. Às noites, acomodava-o na poltrona da sala, examinava por alto as feridas frescas e perguntava o que ele comeria no dia seguinte. Florentim brandia os talos roliços dos braços mutilados enquanto falava, e eu, exausto, pestanejando, sucumbia pouco a pouco e antes dele ao sono. A certa altura, começaram a sobrevir algumas dificuldades imprevistas. Florentim já tinha comido todas as partes do corpo que conseguia levar à boca, ainda que essas manobras lhe exigissem flexões abdominais cada vez mais penosas e rendessem rações cada vez mais parcas. Conforme escasseava a carnação mole dos membros mais acessíveis, ele tentava, com espetaculares contorções que arqueavam sua coluna até o estalo, alcançar os pedaços mais fibrosos e rijos das terminações do tronco, e eu, cingindo-o com os braços, precisava empregar toda minha energia para mantê-lo nessa posição pelo tempo necessário às suas mastigações. Numa etapa seguinte, após ouvi-lo às lágrimas apelar por uma solução, consenti em realizar uma temerária intervenção: removi duas de suas costelas a fim de reduzir a angulação entre o tórax e os destroços restantes dos membros abaixo da cintura. Confesso que, ao concordar em submeter um paciente no estado de Florentim a essa cirurgia, transgredi conscientemente o código de ética de minha profissão, e não hesito em antecipar que muitos leitores acusar-me-ão mesmo de ter cometido uma desumanidade; contudo, dói-me admiti-lo, Florentim já estava reduzido então a uma forma apenas vagamente humana ou, se me é permitido usar de sinceridade sem parecer cruel, à forma de um feto inacabado e descomunal. Apesar disso, faço registro de que a operação domiciliar transcorreu segundo o mais rigoroso protocolo médico: não poupei despesas para cercar o paciente de todos os aparatos e precauções que tal procedimento reclamaria em um ambiente hospitalar adequado, e rogo aos colegas de ofício a cujo conhecimento estas notas tenham acaso chegado que, antes de me denunciarem à corporação, deem-se por favor o trabalho de consultar as seções finais do longo prontuário que mantive, dia após dia, no decurso desse tratamento e em cuja redação creio ter empregado a mais minuciosa e elucidativa tecnicalidade.

Aludi, mais acima, de maneira sucinta e discreta, ao choro de Florentim, e na verdade não pretendia sequer mencionar esse acontecimento, sob pena de fazê-lo parecer um homem frágil e emotivo, quando a nota dominante de seu comportamento, ao longo de todo o tempo em que o acompanhei, foi uma inquebrantável resistência à dor. Essa reação, no entanto, abalou-me fortemente: era o sinal de que meu infeliz amigo já não raciocinava com clareza e que eu deveria preparar-me para o pior. Nas semanas finais, assolado de espasmos lancinantes, ele já não conseguia manter a coluna ereta, e entretanto persistia em sua fome. Ainda o ajudei a ganhar mais alguma envergadura, desatando, a frio, com um instrumento de incisão, as ligas dos músculos, os nós das nervuras e cartilagens que estorvavam seu movimento e o impediam de comer. Seu pequeno corpo torcia-se, dobrava-se sobre si mesmo, versátil como um invertebrado, enquanto ele remordia as coxas lisas, os nacos das nádegas, os flancos. Uma tarde, num momento de descontração, cobrindo de ataduras embebidas em água morna sua barriga inchada e luzidia, perguntei-lhe, ao acaso, de que parte havia gostado mais. Das panturrilhas, disse Florentim, usando de um tom professoral, como se a resposta fosse óbvia. O silêncio risonho que se seguiu pareceu recriar por um instante entre nós uma cumplicidade que se havia naturalmente deteriorado com a progressiva dependência que o unia a mim, e então tornou a me ocorrer, após muito tempo, a ideia de questioná-lo outra vez sobre o sentido de tudo aquilo. Encarei-o a sério, exalei um sopro longo e relaxado, e carreguei dentro da boca a primeira palavra. Florentim, rolando numa languidez pastosa sobre a poltrona, fitou-me de volta com uma inesperada altivez que imediatamente repôs em seus lugares as coisas entre nós e, antes que eu pudesse articular qualquer som, disse-me, não fale nada, Alexandre, por favor. Baixei os olhos tristemente, desapontado com minha própria fraqueza, e retirei-me levando as compressas para mergulhá-las novamente na água aquecida. Já na cozinha, ouvi Florentim dizer com emoção, é muito gostoso, eu como porque é muito gostoso.

Quando sua miséria física atingiu o sofrimento extremo e somente podia ser atenuada com hiperdoses de narcóticos e analgésicos ministradas em intervalos curtos, Florentim chamou-me para junto de si e me fez saber que morreria depressa. Adverti-o de que, como médico, me recusava a acelerar esse desfecho, mas ele, repudiando a insinuação, respondeu-me que precisava apenas transmitir-me certas instruções na forma de um pedido. Disse-me, então, que não pudera deixar de reparar que eu fazia anotações regulares dos fatos que passara ao seu lado e que, tendo certeza de que elas ofereciam um registro sóbrio e fiel de suas experiências, me autorizava a publicá-las. Aliás, completou, é meu desejo. Assenti com a cabeça e pousei a mão em seu peito nu, como se jurasse sobre seu corpo. Tive a impressão de vê-lo chorar outra vez, embora fosse impossível então distinguir entre os efeitos colaterais da medicação e as manifestações genuínas de sua sentimentalidade. Perguntei-lhe, com os eufemismos de praxe que a proximidade da morte recomenda, quais eram suas disposições com respeito ao funeral, se ele não preferiria, por exemplo, uma cerimônia adequada e a discrição de um caixão, uma vez que a cremação o exporia em sua forma terminal. Florentim arregalou de repente os olhos numa expressão de revolta, e, como se reagisse a um insulto, disse-me, você sabe exatamente como eu gostaria de acabar. Nada respondi: era um desejo que eu não me sentia capaz de satisfazer, e creio que este limite estava já implícito em nossas relações desde o momento em que se tornara patente que eu o seguiria até o fim. Creio que foi a última frase sensata que o ouvi dizer: depois de um dia de febres ferozes e balbuciações desatinadas, Florentim morreu. Enterrei seus restos no jardim ao fundo do pequeno prédio onde está meu consultório, ontem à tarde, na solitária deserção de um domingo. Ainda me recrimino intimamente por não ter ao menos tentado, sobrava muito pouco dele, afinal. Sua fome poderia ser também a minha, não sei, dói escrever, dói muito, mas menos do que eu pensava, talvez seja o sal do suor, talvez seja a luz quente do abajur, dourando a carne tenra da palma da minha mão, que me faça querer outra mordida.

Alexandre Arbex nasceu em 1980 em Resende-RJ, mas cresceu no Rio de Janeiro. Trabalhou como revisor e preparador de originais no mercado editorial por quase dez anos. Publicou o livro infantil O livro (Casa da Palavra, 2001) e o livro de contos Da utilidade das coisas (Editora 7Letras, 2017), finalista do Prêmio Jabuti 2018. “O ofício da fome” faz parte deste livro. Mora em Brasília desde 2009.

versão brasileira, de Nathalie Lourenço

Os estrangeiros eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
(Raul Seixas)

One-caipirinya-sir?, me perguntou a garçonete, uma garota tão redonda que parecia ter sido desenhada com nada além de um compasso, assim que eu e Erika nos sentamos. Era tudo um mal-entendido: primeiro porque eu falo português, segundo porque eu logo descobriria que aquilo mal poderia ser qualificado como caipirinha. Eram sucos de frutas com vodka, sakê, rum, qualquer líquido menos cachaça e qualquer fruta menos limão. Eu respondi a ela yes-please, sem contradizer o que minha própria cara vermelha sugeria. Sempre acontece de acharem que sou gringo. É o preço que pago por ter olhos azuis e pele tão branca que revela as veias da mesma cor. Erika deixou escapar uma risada assim que a mulher saiu, levando a mistura de gelo derretido e guardanapos deixada pelos ocupantes anteriores da mesa. Reconheci a expressão marota em seu rosto. Era algo que a gente fazia no início de namoro, desde que voltamos do intercâmbio na Austrália, onde nos conhecemos, mal saídos da adolescência. Isso de nos passar por gringos enquanto fazíamos as coisas mais corriqueiras, na pizzaria ou no mercado, pedindo ajuda no metrô, comparando no bar as cervejas locais com as da nossa fictícia cidade natal no interior do Canadá, disfarce perfeito para o sotaque apenas passável do nosso inglês. Começava assim, com esse olhar que ela estava fazendo, que incluía um levantar de uma sobrancelha quase invisível de tão loira, e a partir dali só falávamos em inglês entre nós e com os outros. Olhando para o céu, aceitei o papel com um simples isn’t-this-lovely-my-dear, que ela respondeu com um elegante yes-indeed, e fui preenchido por uma alegria que só poderia ser sentida por quem há muito não via o mar, enfurnado em sua gelada vila canadense. Era bom ver Erika sorrir.

O gosto de vodka barata se sobrepunha ao morango da so-called-caipirinya, fazendo meu rosto queimar ainda mais. A língua já enrolava, mas nós mantínhamos a conversa em inglês, comentávamos os pedidos das mesas ao lado, nos perguntávamos o que haveria nas pequenas ilhas ao redor da praia, observávamos o barco de pesca ao longe, nos perguntando quais seriam os peixes típicos deste litoral, tomando sempre o cuidado de não notar a mulher grávida que se bronzeava na areia. Depois de meses horríveis, experimentávamos o exotismo de sermos dois gringos pagando caro demais por um drinque ruim em um dia de sol. Comendo e bebendo sem pensar nas contas bancárias minguando, apesar de saber que os imaginários dólares canadenses nunca chegariam a cair. Nadamos no mar de águas escuras, eu com calção colorido e Erika com o maiô de corpo todo, escolhido para esconder as listras vermelhas que ilustravam sua barriga. A versão canadense de nós dois mergulhava e jogava a água pra cima, e se esquecia de renovar o protetor solar como crianças, e gritava oh-no-don’t-you-dare antes de ter a cabeça afundada pelo outro entre as ondas e emergir com as mãos no ar, prontas para a efusiva vingança. A versão canadense de nós dois poderia, ao fim de duas semanas, pegar o avião de volta para o Canadá, com nossos bronzeados que descascariam quase imediatamente, como se fosse efeito do choque térmico, onde contaríamos para colegas chamados Frances e Colin sobre nossas aventuras brasileiras e então voltaríamos para aquela vida imaginada, onde havia noites de jogos de tabuleiro e limpadores de gelo e onde os bebês tão esperados não morriam durante o parto.

O sol se pôs e tentamos puxar os aplausos, mas não era aquele tipo de praia. Pedimos the-check-please e entramos no carro, para procurar a pousada que meu cunhado tinha reservado, cuidando do check-in e toda a papelada. Vantagens de ter um agente de turismo na família. Dez anos atrás, essa brincadeira acabava logo, depois de uma ou duas horas, assim que o primeiro de nós deixasse escapar uma palavra em português. Desta vez era como uma partida de tênis perfeita, os dois jogadores lançando a bola para outro sem que nenhum errasse ou tropeçasse. A cada movimento a adrenalina aumentava: uma sílaba errada, um tropeço, um uau em vez wow estilhaçaria a vida boa e leve que conseguimos manter durante a tarde inteira. E assim nossa pousada virou our-inn, e como chegamos lá virou how-do-we-get-there. Quando nos apresentamos na recepção da pousada, Erika e Benjamin foram pronunciados como Ehricá e Béndjamin, com a conivência do meu sobrenome ambíguo. Não era tarde. O sono pesava nossos corpos pouco habituados a sun-and-salt, amolecidos pela vodka e uma leve desidratação. Dormimos sem desfazer as malas e posso jurar que sonhei em inglês.

Acordei com a pele ardendo e Erika me desejou good-morning, enquanto eu me besuntava de loção. It-was-obvious que o jogo ainda estava acontecendo. Ela tinha separado uma camiseta de turista que tínhamos comprado em Paraty uns dois anos atrás, e um chapéu de praia que me fez parecer o mais gringo entre todos os casais de gringos no breakfast, onde uma garota enorme de grávida servia o café. Pelo som ao redor, éramos os únicos brasileiros hospedados. Só meu cunhado mesmo conheceria esse segredo bem guardado, essa praia do tipo exportação. Era agradável ouvir diferentes línguas, os ritmos e tons misturados, instrumentos em uma mesma música. Propus que a gente skip-the-beach, pra dar um descanso aos meus ombros, que emanavam uma aura de calor. Teríamos ainda duas semanas de vacation pela frente. Praia do Alemão era o nome daquela vila pequena, pouco acima de Ubatuba. Nunca tínhamos heard-about-it até a indicação do nosso cunhado. Minhas férias já estavam marcadas para aquela época, quando a Erika voltaria da licença maternidade. Nós dois precisávamos sair de casa. Sair de perto daquele quartinho pintado de amarelo. Talvez achar um lugar bonito para espalhar o montinho de cinzas que tínhamos pensado em chamar de Talita. Mas a nossa versão canadense não estava em busca de um penhasco de onde jogar a tristeza. Nossa versão canadense queria apenas caminhar, tirar fotos, comprar quinquilharias. Observar the-locals e tomar açaí como se nunca tivéssemos visto aquela pasta roxa antes.

Mesmo com a gente protestando que just-bananas-please, a atendente colocou de tudo no açaí. M&Ms, leite condensado, leite ninho, frutas cristalizadas. Brazilian-Way, ela sorriu, entregando os dois potes, depois enxugando a mão no avental que cobria sua barriga. Os nossos dedos gelavam enquanto caminhávamos pela vila, que era muitas vezes bigger-cleaner-and-more-organized do que imaginávamos. Havia um hospital recém-construído, ainda cheirando a tinta, com pirâmides de cascalho e pedrisco ao redor. Todas as ruas eram asfaltadas, contrastando com os trechos de terra e vias esburacadas que havíamos tomado pra chegar ali. Canteiros cheio de flores dividiam a rua principal que beirava a praia. Havia uma estátua de Iemanjá pintada de branco e azul. Os barcos dos pescadores pareciam novos na ponta da praia. Um parquinho com os balanços rangendo ao vento. Tudo parecia brand-new. Era como se tudo ali tivesse acabado de se materializar. Caminhamos ao longo da praia de volta para a pousada. Erika parava de quando em quando para catar uma conchinha: look-how-pink-it-is. Não era temporada, havia uns poucos guarda-sóis espalhados aqui e ali, casais se bronzeando, e mulheres com grandes barrigas aproveitando as sombras naturais das árvores que cresciam ao longo da orla. Por que tinha que ter tantas grávidas ali? Ou era eu quem não conseguia deixar de notá-las? Felizmente, Erika estava compenetrada no chão de areia, a palma cheia de conchas miúdas, algumas lascadas, outras ainda presas aos seus pares, asas endurecidas de borboleta. Passamos o resto do dia dormitando e lendo sob a varanda da pousada e subimos para tomar um banho no chuveiro, que era excelente, melhor que o de casa.

No saguão, dois outros casais esperavam o horário do jantar. Um homem alto e ruivo, de bigode, brincava com os dedos da esposa, uma loira gordinha de pele fina. O outro casal era pequeno e mais velho e ainda vestia as roupas de praia. Os dois baixinhos abriram sorrisos quase simultâneos ao nos ver, enquanto os outros dois apenas acenaram. Anxious? Perguntou a baixinha, e como não tínhamos almoçado por causa do açaí, respondi que yes, estávamos com muita fome. Eles deram risada e logo começamos a conversar. Um dos casais era sueco, o outro, holandês. Ninguém pareceu duvidar da nossa canadensidade. Erika de repente ficou mais falante e animada. Fazer meia dúzia de brasileiros acreditarem que éramos de fora era uma coisa. Fazer o mesmo com gente que deveria ser muito viajada era harder-and-dangerous. Naquela meia hora ela falou de tudo: que eu era tradutor e ela era contadora, que não tínhamos filhos, que gostava da praia, mas odiava acampar e que sua mãe tinha tido câncer de útero, assim como a holandesa que gostava de dar detalhes demais. Era tudo verdade, tirando o Canadá. Meu orgulho pela performance de Erika só era atrapalhado pela impaciência dos suecos, que no momento interpretei como muita fome e alguma falta de educação. Enfim a dona da pousada apareceu dizendo que the-dinner-is-ready.

O salão estava organizado em três mesas pequenas, e cada casal seguiu para uma. Quem servia a comida era uma jovem de tranças pretas, com uma barriga tão avantajada que Erika, que se lembrava bem de como era tentar se mover com outro ser humano dentro de si, se levantou para ajudar, e pediu para que ela sit-down-a-little-bit. A moça parecia não entender muito bem, e Erika teve que gesticular até que ela se acomodasse. Que raiva da dona daquele lugar. Perguntamos, numa língua que misturava inglês e mímica, se ela deveria estar trabalhando, de quanto meses ela estava? Ela levantou as duas mãos, uma com todos os dedos à mostra, outra com apenas um escondido. Ela olhava para baixo o tempo todo. Pensei que estivesse com vergonha de estar sentada em vez de trabalhando. Ela nos perguntou where-you-from, num inglês decorado e precário. Tentamos contar sobre nossa cidadezinha fictícia onde havia um lago onde as crianças patinavam no inverno. Mas ela não parecia compreender e falar disso já não fazia Erika sorrir. Os outros dois casais viravam para olhar nossa mesa não uma vez, nem duas, all-the-time. Perguntei what’s-your-name e ela disse Miranda, levantando com dificuldade e indo servir as outras duas mesas. Levamos nossos próprios pratos para a cozinha, incomodados com a perspectiva de Miranda ter que carregar tudo aquilo naquele estado. A barriga da moça parecia um mundo e sua gravidade atraía os olhos de Erika. Nossa outra vida começava a falhar. Perdia altura, voltava ao chão. Éramos só um casal de brasileiros com uma caixinha cheia de cinzas no fundo da mala.

Que merda. Foram minhas primeiras palavras em português em quase dois dias. Foi assim que eu encerrei o jogo, entreguei os pontos. Que merda. Nossa versão brasileira precisava de uma bebida forte. Pegamos o que havia no frigobar, umas latas de Coca-cola e minigarrafinhas e passamos a noite cantando canções de ninar para Talita. Passamos todo o dia seguinte trancados, cortinas fechadas para bloquear a dor que a luz impunha aos meus olhos, abrindo a porta somente para receber o serviço de quarto. Os sons do hotel funcionando martelavam minha cabeça, insuportáveis. Foi nosso último dia em família. Eu, Erika e Talita.

Decidimos espalhar suas cinzas na praia ao amanhecer. Nossa versão brasileira caminhou até as pedras, com o mar batendo nas canelas, e tirou a tampa da caixa, não virou, não sacudiu, deixou o vento soprar e soprar até levar tudo. Ficamos um tempo segurando uma caixa vazia e olhando para o céu nublado e as árvores de troncos finos, inclinadas pelo vento como se tentassem fugir. Ainda estava frio e preferimos calçar os sapatos e caminhar de volta pela cidade. As lojas não estavam abertas, a padaria estava fechada, a banca de revistas também. Tudo estava quieto, tirando o hospital branquíssimo, na frente dele um carro com as portas da frente abertas. O casal de suecos conversava com a dona da pousada, que tinha nos braços o que me pareceu ser um cobertor enrolado, mas que se mexia e chorava. A sueca estendeu os braços e pegou a criança, a segurou longe do corpo por um segundo, como se a inspecionasse. Então a abraçou e entrou no carro enquanto o marido trocava gentilezas com a dona da pousada.

Na manhã seguinte, quem serviu o café da manhã não foi Miranda, mas outra mulher, esta também extremamente grávida. Perto da mesa que oferecia sucos e frutas cortadas, o casal de holandeses conversava com ela.

Nathalie Lourenço nasceu em 1984, é redatora publicitária, paulistana e autora do livro Morri por Educação (2017).

ode às poetas e aos poetos, de Marcella Wolkers e Andri Carvão

Poema do livro DE QUATRO — Poemas a quatro mãos de Marcella Wolkers e Andri Carvão [no prelo].

Madrinha
Puxei teus dotes de fada-poeta
Mas queria mais!
Ter a sua mão doce
Pras palavras
E para os quitutes
É que às vezes sou amarga e erro a mão…

Minha madrinha dos Velho Goiás
Ainda hoje me lembro do seu quarto
Do seu quintal
Da sala
Da água do rio passando por debaixo da ponte
Dos paralelepípedos do chão onde tropecei em criança
Do coração de gesso rosa que comprei
Como souvenir para dar à minha mãe
Do frango caipira com pequi
De você ali em todo lado
E ainda comigo aqui

Me conta os causos das vielas
Pinta no meu peito uma aquarela
Borda-me de amor
E de simplicidade
Cora-me com a sua frontalidade…

Madrinha minha de Goiás Velho
A sua afilhada te ama
E juro que ainda volto a pisar na sua casa

Puxei teus dotes de fada-poeta
Mas queria mais!
Ter a sua mão doce
Pras palavras
E para os quitutes
É que às vezes erro a mão…

Bora chupar jabuticaba
E roer uns caroços de pequi?
Você me faz um doce de pau de mamão
E eu te digo como anda o meu coração

* * *

Fui pra Pasárgada e lembrei de você
Tosse tosse tosse
pra dar ritmo ao tango argentino
Trilha do seu viver desenganado
por mais de 80 primaveras
Ansiando pela indesejada das gentes
na cinza das horas
Andorinha andorinha à toa à toa
Os sapos e o porquinho da índia
no beco dos meninos carvoeiros de pernas estúpidas
Carnaval
ô libertinagem boa
Belo Belo
Assim eu quereria o meu último poema

* * *

Eu queria morar nos olhos teus
Como os peixes verdes do teu poema Adeus

Queria que as palavras não se gastassem nunca
Mas elas são notas
E quanto mais dei de mim
Menos deu de si, quem muito amei

És um Génio.
Eu… acho!

Bem sabias que o amor é ave que se vai
Que tudo se apequena num quadro com moldura
Que com o tempo o amor
Perde a doçura…

Que a água seca
Acreditas que não há mais nada nele que me peça água?
Que se tremo,
É de tristeza
Por já não ser tão amada?

Tu sempre tiveste razão
Não há mão na mão
Há pés, mas não há chão…

Se ao menos eu tivesse a esperança verde dos teus olhos de poeta
Para voltar a acreditar no Amor…

Se isto fosse um Até já.

Saio, de algibeiras rotas e vazias.

Adeus…
Escolha seu sonho menina
Ou isto ou aquilo não importa
No espelho da minha retina
A janela é a porta

Viagem numa vaga música
Retrato natural em mar absoluto
A poeta não é poetísica
Espectros de luto

Romanceira inconfidente
Sem solombra de dúvida
Meu amor no mar imanente
Vívida vida vivida

* * *

Suas poesias
Cantadas no vinil
Giram dentro de mim
Poetinha vagabundo
Saravá!
Disseste que a mulher de Touro é exclusivista
E eu como boa taurina
Boa de cama e de mesa
Nasci com a gentileza
E com o sangue no olhar
Sou a rosa com cirrose
De brincos de espinhos
Eu gosto de água
Mas bebo muito mais dos vinhos

Poetinha da pesada
Do bom samba
Das belezas
Das tristezas
Dos sonetos
Dos amores amiúde
Do que tudo pode
Do que nada pude…

Saravá

E que seja!
Porque tudo é eterno
Enquanto dure

* * *

Do barco bêbado atiro as vogais
Uma temporada no inferno das iluminações
Duas vidas vividas num só corpo
Uma vida não basta se somos vários
se somos vastos
se somamos multidões
O estro lírico púbere e o aventureiro sem limites
Se o marido da outra é poeta ele é meu
Tão meu
Todo meu
Mesmo que eu leve um tiro
Mesmo que eu cante e dance sapateando sobre a mesa
Mesmo que eu urine na taça de cada um de vocês
Absinto muito mas não sinto nada e sinto demais
Minha vida não é os cafés
Minha vida não é os cabarés
O menino bonito e sedutor demoníaco não vai se enforcar
De túnica branca traficando armas na África deixa um pacote de cartas à irmã enquanto se amotinam vogais no barco bêbado

* * *

Já to disse tantas vezes
Que adoro-te
Já pulei tantas vezes no teu doce mar
E de tanto afogar-me em minhas amarguras…
Tenho vergonha de pedir-te um novo conselho…

Mergulhar nesse aMar ou não mergulhar?
Pulo de cabeça?
Ou esqueço todos os corais bonitos que vi?
Todas as estrelinhas marinhas
Todos os cavalitos
Anêmonas
Água-vivas
Lapas
Pérolas
Mexilhões
Berbigões
Amêijoas…

Almejo saber!

Será que ele gosta da Ostra
E não de mim?

Neste instante sinto-me tão pequenina como a tu menina do mar
Carregada no balde

Cuida de mim
E do meu coração que é um búzio quebrado sem nada dentro.

* * *

Fechada no quarto
Apartada enfim
Me parto
Em mim

Marcella Wolkers nasceu em Goiânia (GO), Brasil e reside em Portugal há 21 anos. Tem quatro obras lançadas assinadas como Marcella Reis, coordenou três antologias e participou em mais de 30. A autora é membro acadêmico da ALAF (Academia de Letras e Artes de Fortaleza), conquistou alguns prêmios literários no Brasil e em Portugal e tem formação profissional em CENFA (cenografia, figurinos e adereços — Ofícios do Espetáculo pela Escola Circense Chapitô), além de Técnica em Acção Educativa.

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há colaborações do autor em diversas revistas e coletâneas. Suas últimas publicações foram Um Sol Para Cada Montanha (Chiado Books) e Poemas do Golpe (Editora Patuá). Integra o Coletivo de Literatura Glauco Mattoso, criado pelo prof. Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, apresenta poetas e poetos no Simpósio de Poetas Bêbadxs em parceria com Thiago Medeiros e é um dos idealizadores do Ping Poesia juntamente com Noélia Ribeiro e José Danilo Rangel.

três poemas de Luciana Barreto

nunca é casto o fio do poema

Nunca é casto o fio do poema:
sangramos as pontas dos dedos
a cada palavra que soluça o grito
a cada flor calcinada no peito
no estalo seco da pólvora covarde.

Nunca é casto o fio do poema:
tombamos nossos olhos de espanto
a cada criança suspensa no vento
a cada jovem arrancado do voo
naquela mulher de face vazia.

Nunca é casto o fio do poema
– e nesse corredor de sustos de luas
[tonto minotauro acuado]
de súbito a ternura dos anjos
de novo a palavra em brasa.

toda palavra há de ser dita

Toda palavra há de ser dita
— seja em sua força de minério
— seja em seu voo de dálias
Signos sons sensações
rebentam as ondas
invadem o peito.

Toda palavra sustém um altar
E se a (des)palavra nos fere a face
o gosto se verte em desgosto
as flores pendem do jarro
o cacto seca de súbito
e o amor outrora madrepérola
desapontado escapa do mar
— e jaz na areia bruta
daquele dia sem sombras.

Toda palavra persegue o seu eco
— zonzo, móvel, estéril —
Mas o barulho difuso da rua
o brado de aço da bala
o grito agudo de mais uma Pietá
os cascos covardes da elite
devolvem à garganta
o osso o susto o calo
devolvem à sua face viva
(e de fronte suada)
a que veio o verbo inaugural:
a de que toda palavra há de ser dita.

antes no meio depois

Antes do fim do mundo
animais acuados corriam do fogo
passos metálicos avançavam insones
[a pressa cega a vedar as vidraças]
ruas noturnas corriam surdas
rostos sem nomes sumiam vagos
— e o céu se tomava de fuligem e ventos.

No meio do fim do mundo
o inimigo invisível invade os peitos
esquinas de pedra ardem ao sol
[almas evolando-se náufragas, lilases]
janelas pra dentro suspendem o tempo
ponteiros recuam e iluminam ternuras
peixes e aves retomam saltos, luas, mares
— e todo luto emerge impossível.

Depois do fim do mundo
aquela praça relembra os seus velhos
o menino redescobre peões e pipas
[os bancos ainda verdejados de limo]
Onde Teodora em seu pulôver de lã?
Onde Sophia em seu jaleco alvejado?
Muros calcinados circulam o vazio
— e a mais irreal das pombas recobra o seu voo.

Luciana Barreto, nascida no início da década de 1970, na cidade de Brasília, é formada em Comunicação/Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Tem mestrado e doutorado em Teoria Literária também pela UnB e desenvolveu pesquisas nos universos de Hilda Hilst, Dante Alighieri e Osman Lins, participando de congressos e publicando ensaios e artigos relacionados em livros e periódicos acadêmicos. Atua como professora universitária em Teoria Literária e Literaturas. Tem poemas em blogs e coletâneas e o seu primeiro livro, Nunca é casto o fio do poema, está prestes a ser publicado.

quatro poemas de Susanna Busato

enlagarça I

Sou um corpo.
E isso dói.
Um corpo carne
um corpo verme
um corpo canto
um corpo que não
um corpo que nem
tanto.
Um corpo que
em carícia e saliva
tece a substância
com que enclausura
o corpo que procura
e o que mais não seja
corpo usura.
E assim a fome
devora o que some
e revela no centro
o sendo
o corpo com que me

sur

(acima e através)

pre

(antes de tudo)

endo

(seja)

a poesia é

A poesia é
______tiro no vácuo
______no vão do espelho
______desconcerto
______e bote armado.

______Quando sangra um pouco
______eu sinto o gosto
______dos caninos no meu corpo.

entre

Dos limites conheço
as bordas
os prefácios
os precipícios
as capas
as altas ondas
as orelhas
as quinas pontiagudas
das facas
estiletes
de ar.

Dos medos conheço
a falta
a culpa
a partida
a solidão
de uma janela aberta sobre a noite
a mudez
de uma parede depois de trancada a porta
a página aberta
a palavra alerta
a luz branca
a testa estanque
na ruga rente
a dividir o corpo
antes e depois
da sede.

suruba na gaveta dos papéis mofados

Um ácaro acaricia
a sílaba-chama.

Na pele da palavra
suor em escamas.

Um ácaro aguarda
a sílaba em pelo.

Uma palavra ama
um ácaro de joelhos.

| poemas do livro Moldura de Lagartas (Selo Demônio Negro, 2020). |

Susanna Busato é poeta e professora de Poesia Brasileira (UNESP). Autora do livro Moldura de Lagartas (2020), pelo Selo Demônio Negro, e do livro de poemas Corpos em Cena (2013), pela Editora Patuá, com o qual foi finalista do 56º Prêmio Jabuti de Literatura, categoria Poesia, em 2014. Publicou a plaquete Papel de Riscos, pelo Centro Cultural São Paulo, em 2013. Ganhadora do Mapa Cultural Paulista, categoria Poesia, em 2010. Tem poemas publicados em vários sites e revistas de poesia e literatura. Participou da Mostra “Poesia Agora” no Museu da Língua Portuguesa (2015), na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (2017) e na Caixa Cultural de Salvador (2017). Como declamadora, participou do Recital Multitudo Haroldo de Campos, no Itaú Cultural (2011), em São Paulo e do Recital Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros (homenagem a Oswald de Andrade), na FLIP de 2012, em Paraty.

s/título, poema de Carolina Alves

se isto é uma cena paralisante,
o braço que se estende nunca perde a força
se mantém em uma linha perpendicular com o eventual balanço
os vincos, as pequenas irrupções da pele são às pressas;
as minúcias que não questionam o totalizante
do braço paralisado que se estica, continua em ascensão ao interesse fantástico
sobre o ato
ao lado, questiono a base de uma forca e a possibilidade
da mão tombar com a fragilidade do pulso, se houver
as chances do cansaço, um esgotamento que convém
e parte ao imaginário;
nada retém a luz que derrete a cena, ela permanece imóvel
onde nada garante ao que se olha, o braço cobrindo galhos e
ganhando o aspecto semelhante ao musgo, da textura esverdeada e
gélida que cobre uma árvore, uma pedra pontiaguda que não se movimenta:
essa característica atribuída;
ao mover o braço do referente, não perde o significado e o
percurso que o segue já faz rastros,
o que acompanha a questão é
agora
onde pousa
é suficiente para um naufrágio, se dirige ao que resta.
faz um corte entre os músculos do antebraço, posicionam muitas cargas
e desfaz o gesto
como uma imagem sem futuro
(não solidifica a morte);
eu falo em referência a ti
um braço é somente um braço,
sob teus olhos.
se ao terminar uma série de possibilidades,
segura um copo e pergunta como estou
isso é sobre o tempo.

Carolina Alves é catarinense, de 1997, formada em Cinema pela UFSC.

três poemas do livro ‘Tutano’, de Leonardo Almeida Filho

capa_tutanotantos mortos

Como moscas no inseticida
debatendo-se
em vão
eles tentam respirar.
Pulmões apodrecidos
corações em fiapos
febre, febre e febre
sinfonia de tosse interminável
lembram moscas no inseticida
debatendo-se
o ar negando-se
a vida lhes fugindo.

A santa paz dos inocentes
repousando sobre a cama limpa
e quase casta, quase virgem, quase nada
das consciências sujas
nos diz que
são apenas cem mil.

Os dias seguem
penetrando as ventas
das bestas das manhãs
que vêm arfando,
ciscando
com seus cascos fendidos
o capim contaminado desse pasto
imunes às peçonhas dos insetos
que estertoram
perninhas para cima
num terrível esforço
e a vida se indo num golpe
numa última golfada de ar.

ogiva

Para Alberto Bresciani

Armar um poema requer lógica.
Uma lógica secreta,
de seita, confraria,
e que apenas os poetas,
iniciados nas artes dessa alquimia,
conhecem e arriscam articular.

Armar um poema é sempre forma
de amar o poema
que o leitor, ao final,
amando-o também,
tentará eternamente,
e sem sucesso,
desarmar.

um pássaro e uma mulher

aos poetas sem leitores

Um pássaro sangra na janela deste quarto
andar.
Gotas rubras de
asas
feridas
no parapeito de mármore branco
Ela se despe,
a pele branca,
e se pinta ao toucador. A noite
é fria como
a língua de um defunto
Quem poderia, eu lhe pergunto,
sob a chuva
que a tudo encharca,
vê-lo claudicar, como eu o vejo?
Vê-la a chorar, como eu a vejo?
e dessa visão extrair a
poesia?

Grandes engrenagens movem as nuvens
cinzas,
em silêncio que apavora
e esse pássaro se alimenta
de sonhos como os dela
Observo e lamento
que a máquina do céu movimente
as nuvens e as águas e o pássaro
e que vida siga
borrada
exatamente como os olhos
da mulher que chora
sob a noite fria

Há poesia no claudicar e nas lágrimas?
Há poesia no sangue que mancha
o mármore,
no frio dessa noite,
na língua de um defunto?
Há poesia no pássaro e na mulher
destes versos?

Oh, aflição tremenda
a busca da poesia
quando o que eu mais queria
era que o pássaro se fosse num voo
e que ela dormisse em mansidão
e que eu pudesse esfregar esses versos
ruins em suas fuças
metê-los em sua garganta
perfurar, com eles, esses seus olhos
que tudo ignoram
que nada sabem de poesia
que não querem saber de poesia.

| poemas do livro Tutano (Editora Patuá, 2020). |

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Publicou O Livro de Loraine (contos, Imprell/PB, 1998), logomaquia (edição do autor, 2007), Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB, 2008), Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos, Editora e-galaxia, 2013), e pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018) e o romance Nessa boca que te beija (2019).

lockdown, seis poemas de Rafael Mendes

ensaio sobre a loucura — lockdown dia 4

Dividir as sílabas dos dias.
Abolir o tempo através dos cálculos:
faturar os cigarros, caloria dos petiscos,
pássaros nas antenas.
Observar gestos frívolos:
trocar os freios da bicicleta
enquanto estamos todos, máquinas
e condutores, no recesso da normalidade.
Terraças e seus ladrilhos cor de terra,
mesas vazias, flores mortas sendo regadas.
Camaradas: onde se escondem?
Nem mesmo o pássaro azul brinca no céu.
Observo o céu de ponta cabeça:
a beleza repousa na desordem.

o fim do mundo é agora — lockdown dia 6

Não caem bombas deste céu em guerra.
Nas ruas, de mãos dadas, milicos e republicanos.
Não há tanques nas ruas, nem automóveis.
Nas ruas apenas o vírus?
As quitandas fecham cedo.
A barbearia, a tabacaria, os bares: nem abriram.
São tristes essas ruas.
Os milicos mandam os republicanos para casa.
Não agridem. Mas ternura não é ensinado nos quartéis.
Aplaudem das terraças, soltam fogos, bradamos heróis.
Não conheço heróis, somos todos malditos.
São tristes esses balcões.
Há tantos mortos, somos todos estúpidos.
Não aprendemos contabilidade.
Algum dia aprende(re)mos algo?
Abro os dicionários, encontro três substantivos:
bomba, peste, merda.
Uma rosa feia rasgava o asfalto.
Veio o milico e pisou nela.

do nono andar — lockdown dia 9

Conheço um mundo pequeno.
Esquadrinho a janela com dois palmos e meio.
Cruzo a floresta do quarto, a planície da sala,
sertões da cozinha, litoral da varanda.
O mundo é isto: três prédios em frente da janela.
Os vizinhos não sorriem qualquer sorriso.
Ouvem tangos. Aceitam o funeral e cerram cortinas.
Partilhamos o sol. Não ousam olhar meu rosto.
O verão brilha qualquer calor fugaz.
As crianças vestem pijamas, tramam brincadeiras
futuras confabulando através das varandas.
É triste este mundo pequeno.

estudo sobre janelas III — lockdown dia 23

lá embaixo no térreo
o filho deitado na esteira de sol
enquanto o pai curvado talvez
ouça-o ou veja mesmas notícias
de todos os dias a filha acaricia
o cão pelo sedoso brilhante
pigmentação preta agente do caos
corre e busca qualquer objeto
de plástico a mãe rega plantas
são quatro ou oito no quintal
na altura da minha janela
um homem de barba e cabelos
branquíssimos senta com o caderno
aberto e me observa enquanto eu
o observo e assim nos observamos
ele não acena eu não aceno
vai escrevendo no caderno com um
lápis amarelo vou escrevendo com
uma bic preta sempre canetas pretas
será que ele também tem manias
escreve apenas com lápis amarelos
sobe um andar à direita o pai trabalha
no computador que eu não vejo
mas imagino e a mãe no quintal
ou varanda não sei se o tamanho
muda o substantivo usado mas
a mãe sim a mãe pula corda novamente
pula corda sempre ou só nestes dias
de anormalidade usando exercícios
para gastar energia dela e dos filhos
para não surtar surtar surtar surtar
eu ela filhos pais o velho escritor
loucura é buscar normalidade
dentro desta anomalia que é a vida
o vírus quantos mortos o impacto
econômico-social quantos mortos
quarenta antena na antena um
pássaro canta eu tenho medo da
liberdade dos pássaros loucos

estudo sobre janelas IV — lockdown dia 26

Resistiré, para seguir viviendo
cantamos todas as noites.
No grito da criança
repousa esperança dúbia.
Amanhã, quem sobreviver, cantará
uma vez mais: resistiré.
Que não falte ar.
Alguns, já entregues ao medo do outro,
permanecem com cortinas fechadas.
Nós, que mostramos o rosto,
olhamos uns aos outros para
manter viva qualquer camaradagem.
Cada aplauso golpeia o muro
da morte e desesperança.
A casa do horror virá abaixo.
Nos abraçaremos outra vez.

nas ruas — lockdown dia 51

Redescobrimos o capim, a erva daninha, o dente-de-leão,
entrelaçados aos bancos dispostos na rua.
Calculamos a distância, o raio de proteção.
Os seios das árvores, fartos e primaveris,
deram sempre esta máscara contra o sol?
Nas sarjetas, brilhando sobre os paralelepípedos,
laranjas ou mexericas, desconhecemos esta selva,
incham, apodrecem, são atravessadas por vermes.
Veja esta rua íngreme e estreita, era o que chamávamos solidão.
Nossos olhos ardem, tanta luz, tanto mundo para nomear.
Somos crianças novamente.
Apontamos para tudo e tentamos recordar os nomes.
Chamamos a praça—praça, lago—lago, loja—loja.
Nos olhamos, há incerteza nos olhos.
Usamos as palavras corretas para começar o novo mundo?
Os miseráveis ainda são miseráveis.
Quem são estes que caminham ao nosso lado?
Compramos pão e café.
Ainda têm o mesmo nome?
É preciso fundar uma nova língua.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

passos na esfera lunar, de Renata Py

Você dava um gemido fundo quando me ensinava a entender o mar. Além disso, devo acrescentar que, nessa miragem, você levava mais tempo para piscar. Foi assim que tatuei o caleidoscópio da sua retina na minha memória e ainda posso retratá-lo de forma exata. Já era hábito, chegava a passar um tempo avantajado nessa introspecção. Donana dizia que era maluquice; o tio, que era evocação dos entes idos. Pluralidade nas crendices nunca faltou na nossa família.

O fato é que eu invejava o seu descaso com o mundo, seus momentos solitários, você conseguia ir para longe dessas terras de ares salgados. Eu não, escravizado no próprio território. “Menina que vive no mundo da lua”, as tias comentavam. Falando nisso, achávamos graça das pessoas que duvidavam do homem na esfera lunar, questionamento comum por essas bandas. Saíamos imitando passos flutuantes e sem gravidade. Virou nossa zombaria preferida, onde quer que estivéssemos, mesmo em público.

Intelecto Divino, foi a expressão que você usou, quando um dia, depois de roubarmos a garrafa do tio, começamos a soltar intimidades nunca ditas e eu lhe questionei sobre suas miragens. O que me deixou ébrio não foi a cachaça, nem o seu vocábulo, mas a sua intimidade com o assunto. Mangou de mim, querendo me despistar. Eu zonzo, por ter dito algo, que naquela altura era mais íntimo meu do que seu.

Numa noite dessas, você mirou e ficou. Por instantes quase acreditei no chamado de familiares antigos, mas entendi ser mais profundo do que isso. Por mais especialista em te observar que eu fosse, esse conhecimento já necessitava uma ciência desconhecida. Fiquei na sua frente, como espectro, vidro limpo, cristal reluzente. Chamei três vezes seu nome de duas sílabas fortes, foi assim que te invadi.

Um frágil eco me guiou, claridade demais, perdi a vista naquela espécie de portal. Seu pulso marcava que eu tinha pouco tempo para desbravar o seu vazio. Eu corria, amedrontado, com receio de nunca mais querer sair de ti. Pelo amor de meu Pai, Dora, que visão apocalíptica. Como você conseguia manter um pingo de sanidade? Ao mesmo tempo, você era colorida demais, tons que jamais havia conhecido.

Vi a morte, quando o tio Agenor lhe abusava pelas saias de menina. A professora amarga do primário lhe repreendendo por seus assobios de alegria. Quis te pegar no colo, mas estava inteiramente dentro de ti, e mesmo que eu quisesse te afagar não conseguia colocar meus braços para fora.

Ainda assim, Dora Maria, encontrei alento. A voz do vô cantarolando para dormirmos. O arrepio na espinha quando você me via chegar, o sabor do mungunzá lhe fazendo festa, os seios fartos da senhora sua mãe lhe alimentando de existência, seu pequeno coração se formando até a primeira batida.

Voltei num ronco de laringe, cuspido para fora. Você sorria, Dora, caçoando. Eu correspondia aliviado. Não cometeria o erro habitual de lhe julgar. Tamanha impotência me restava, sabia que jamais conseguiria te expulsar de mim. Ainda que fosse eu quem a tivesse penetrado. Seu coração tocado e retocado numa repetição sem fim, movimento sem descanso, passou a me orientar. Para minha surpresa, nunca mais vi uma miragem sua. Como se não precisasse mais buscar explicação para nada, voltou a assobiar sem ser repreendida e seguiu com passos na esfera lunar.

Renata Py é publicitária, foi editora-chefe da PUNKnet e locutora na Antena Zero. Trabalhou com jornalismo cultural em veículos como Showlivre e Kultme. Hoje dedica-se apenas à escrita literária. Já participou de várias coletâneas. Lançou seu primeiro romance, Firmina, pela editora Laranja Original (2019).