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quatro poemas de Michaela v. Schmaedel

presente

Viver o campo
o campo é a casa

flores amarelas
em meio ao verde
vigoroso

viver o campo
o campo é a casa

como se a morte
fosse agora.

solidão

A semente selvagem
é o denominador comum
das ilusões que vagam
nas grandes cidades.

Entre arranha-céus
uma gaivota gira
fantasmagórica
na noite de verão.

Olhar para cima
é o que se faz
enquanto nos arrancam
o coração.

semelhança

Tem uma coisa do corpo
o mar

algo do primeiro líquido
balanço

depois o lançamento
à linguagem.

Tem uma coisa da palavra
o mar

algo que canta ao ouvido
aspiral

a negação da solidão
martírio dela.

O mar
como a um irmão.

novo mundo

Há sempre mais carneiros
do que gente
nas montanhas da ilha sul.

Um modo de pensar o mundo:
trocar os humanos por carneiros

um campo cheio de pontinhos
pretos e brancos

ver as caras inocentes e
ouvir os berros delicados

não apelar ao matadouro
não cortar a lã.

Michaela v. Schmaedel nasceu e mora em São Paulo. É jornalista e poeta, autora do livro Coração Cansado (Editora Penalux, 2020). Para 2021, prepara o livro Quênia — poemas de viagem, que sairá pela Cas’a Edições.

rosa, de Rafael Mendes

A janela escancarada, o verão jogando amarelinha nas ruas. Tu nua sobre o parapeito, teus olhos castanhos de terra arada e ansiosa pelo plantio. Na sua mão uma laranja, que poderia ser tanto fruta quanto revelação da memória, orbe de nosso amor ainda jovem ou mesmo uma opala bruta de sangue. O sol caindo atrás dos prédios da Rua Augusta, eu deitado na sua cama, sentindo o olor de teus lençóis, teus livros empilhados desordenadamente pelo quarto, um desenho de margaridas pendurado bem ao lado da sua cama. Tu veio até mim, boca suja de laranja, e me beijou, falando sobre teatro, abrindo mapas que eu não conhecia. Ali eu já era um louco, se me largassem num hospício eu gritaria teu nome, nosso amor.

Escuta, Rosa, então não te amei? Se o ínterim entre aquela tarde — quase natal, teu corpo gestando uma retidão moral pura diante da parede azul petróleo — e esta noite de céu apagado, resoluto em não ser fuga das atribulações, onde nossos corpos já nem precisam verbalizar o adeus, fomos felizes, como poderia não ter me amado? Diga, Rosa, como? Eu lembro do teu corpo nu sobre o parapeito. Uma febre de melanina emanando, escorreita seiva de suas funduras me lavando, nossa primeira vigília. Eu tinha toda a sede e você foi tonéis de vinho.

O amor nascido de um acaso, uma chave esquecida, acompanho o Pedro até o metrô Armênia, você aparece, sorrindo, gesticulando e falando rapidamente, cheia de ânsia para resolver problemas, para fazer coisas. Lembro que teus olhos percorreram meu corpo, me senti desejado, ardi. Me ofereceu uma garrafa d’água, eu queria que me oferecesse suas mãos, sua fala, que apresentasse teus planos para salvar o mundo. Eu iniciaria uma guerrilha, leria novamente Marighella, roubaria dois bancos, se você me amasse. O segundo encontro. Aniversário de um amigo. Não me recordo se foi do Pedro. Não importa, não estávamos presentes. Os corpos próximos, nossas mãos se tocaram por acidente algumas vezes, e quando isso acontecia, teus olhos chispando. Quando a noite acabou todos na expectativa de um beijo, da confissão da paixão. Na volta o Pedro disse ela está apaixonada e na outra ponta do vagão podem sentir sua paixão por ela.

Por acaso não nos amamos, Rosa? Me recordo dos lampejos: banhos quentes após o sexo, cervejas compartilhadas nas últimas horas da noite, aroma de pães frescos que assávamos aos domingos, teus dedos frágeis segurando uma colher com pudim. Foi tudo tão intenso, nós não sabíamos como falar do amor, tudo era beijos, tato, medições dos pontos cardeais do nosso corpo. Naquela viagem que você foi a Minas Gerais, você e suas amigas querendo salvar o mundo, registrar a tragédia de Mariana, na véspera da partida você fazendo suas malas, experimentando roupas, e eu só pensava em roubar uma camisola, qualquer peça, para dormir tranquilo com teu cheiro de amêndoa. Rosa, sofri tanto naqueles dias. Você ligava no final do dia, contava do trajeto, das conversas nas paradas para almoço. Quando chegou em Mariana cada palavra sua tinha desespero, que ecoava através da fiação que nos conectava. Você retornou e nada foi o mesmo.

Você por acaso me amou, Rosa? Nas salas de teu silêncio havia uma canção de despedida, marinheiros deixando a baía em busca de uma terra já perdida. Teus olhos escapavam dos quadros e fotografias, focavam apenas a distância até a saída mais próxima. Nas suas palavras residiam luto. Você foi se distanciando até nossa última manhã juntos. Fomos ao samba com sorrisos enormes, a cerveja descendo pela garganta com sabor de liberdade, você com teu vestido solto e leve, brincos pequenos suspensos nos teus lóbulos, no teu punho uma pulseira que comprei dos hippies, disseram que representava o amor. Depois, as janelas do carro vaporizadas por nossos suspiros longos, não tínhamos medo de um assalto, não nos importamos nem com os feirantes que montavam barracas enquanto nos amávamos. Fomos para um motel. Na banheira teus cabelos molhados brilhavam, você sorria, sim, sorria, eu querendo eternizar teu sorriso, teus olhos, suas manchas nas costas, teu cheiro. No início do dia seguinte, me levou para comer no teu café preferido, mas você não tomava café como eu, então pediu suco de laranja, e todo aquele amarelo, aquela luz, aquele ouro, reluzindo entre teu corpo e suas mãos. O porteiro do teu prédio já me conhecia, disse bom dia e sorriu, como se enxergasse em nós algum éden, ele conhecia meu nervosismo, o cigarro fumado em tragadas curtas, até você aparecer para me receber. Foi a última vez que eu o vi. A última que vez que eu a vi.

Nunca mais visitei sua rua, teu bairro. Quanto eu chorei, Rosa, você não tem ideia do quanto eu chorei. Minha mãe me consolava, você foi feliz, não foi meu filho? Guarda a boa memória, guarda esse amor com carinho. Não queria guardar nada, eu queria entender, Rosa, eu ainda quero entender. No mundo que eu vejo os movimentos precisam ter ordem, eu gosto de estabilidade, meu coração tem um sistema de amortecimento com molas. Tu não me ligava mais, não escrevia. Foi só silêncio. Rosa, se eu soubesse desenhar ainda poderia traçar cada linha da sua face, a calma de teus dedos, teus lábios tênues, teu cheiro Rosa, teu cheiro. Nossos amigos nada falavam, tentaram cuidar do meu desagravo com abraços, ligações na madrugada. E foram meses, Rosa, meses assim. Outras mulheres me olhavam com pena, uma disse que queria cuidar de mim, pois meus olhos naufragavam em devaneio.

Então, no carnaval, você me escreve Rosa. Dizendo que me amou, talvez ainda me amasse, mas precisou me abandonar. Tinhas teus propósitos, tuas causas. Tu sempre acreditou que poderia mudar o mundo, que precisava transformar teus privilégios em equidade. Não havia espaço para mim, o amor demandava, o amor é um bebê que quer cuidados, alimento, roupas limpas. Tu não podia. Talvez em outra vida, talvez em outro planos nós seriamos amantes por toda a vida. Eu não quero outros planos, Rosa, a morte é a morte. Aposto apenas naquilo que eu tenho. Eu tenho essa vida, esse amor. Rosa, ainda te gosto tanto.

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 Ensaio sobre o belos e o caos pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Gazeta da Poesia Inédita, Revista Gueto, Mallarmargens, Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução Poetry Bilingue.

três poemas de Iolanda Brito Costa

vazante

Ao que tem sede, a recrudescência
da sede. O peixe de salina, na vaga, expia,
da escama, a boca sufragada do expiado.

O rezo em sal, a ida ao barco, ao copo
emborcado do copo, salitrando, à altura
das vagas, o corpo sedento.

Ao que tem sede, a vaza, a baixa das marés,
a ova oleada dos peixes. Abster-se de si,
por si, em sequioso exílio.

Como, então, emergir, da água (ou dela
banhar-se) se à carne o batismo
foi negado?

ipês-rosas

deus não esteve nas entrecascas amolecidas de seiva dos troncos sulcados das peúvas quando elas se incendiaram, no pantanal. o fogo não veio dos raios que as chuvas trazem. os homens fizeram o fogo para espantar os mosquitos. os homens fizeram o fogo para renovar os pastos. os homens fizeram o fogo para o seu agronegócio. para o seu agroenguiço. deus não esteve com as rosas senhoras florando, suas folhas caindo, compostas, oblongas, demoradas. nada havia entre elas, as ipês e a seneh do horeb, a tal acácia, em chamas, não consumida. não consumada. não era uma visão, um enteógeno, uma miração de moisés, uma revelação divina, uma passagem do êxodo, uma chacrona, uma sarça ardente não crestada. eram as tabebuias. as ipiúnas. viu-se, ali, o próprio deserto que não precisaria ser atravessado por não haver terra trópica prometida.

aganju

era aganju pela fresta da crosta. aquele que habita as câmaras de magmas, aganju, roncou pelas frinchas. aquele que vive no fundo da terra, recolhido, aganju, roncou pelas fendas. aquele que habita o fogo nas entranhas da terra, aganju, roncou pelas falhas. boca e garganta são aganju. não silencia. costa e ombro são aganju. não descansa. seus olhos do escuro que a tudo enxerga. seus ouvidos do silêncio que a tudo escuta. do recôncavo, do paraguaçu, do jiquiriçá, do baixo sul, da baía de todos os santos, os homens e seus abalos sísmicos. os homens e suas cismas. os homens, quizila de aganju. come amalá. come bode castrado. orixá de terra firme. orixá de terra inculta. defende os menos favorecidos. parte o coração do inimigo no oxê.

Iolanda Brito Costa (Itabuna-BA). Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas editados em jornais, agendas, antologias, revistas impressas e eletrônicas e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento (UESC, 2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (FICC, 2004), Amarelo Por Dentro (Independente, 2009), Filosofia Líquida (Agora, 2012) e Colar de Absinto (Lumme, 2017). Coordena a coleção de plaquetes poéticas Pedra Palavra (Agora, 2012 -2020).

não percam a próxima chamada de poemas, de Pádua Fernandes

I

Recebemos poemas, folhas, sapatos e chuva ácida para a próxima edição da revista de poesia. Já publicamos sete edições que se autodestruíram assim que foram lidas. Os autores serão avisados quando chegar o pacote com a bomba. O conselho editorial não elaborará pareceres para textos não aceitos. Os conselheiros são especialistas em explosivos.

(aceitam-se poemas,
mas só os não aceitos
vão ao que interessa)

— É verdade que os poemas recusados exilam-se num gueto?
— Gueto na garganta.
— Qual é a cidadania do gueto?
— A guerra.

O currículo do editor-chefe registrou boletim de ocorrência sobre o sequestro da poesia? Não podemos confirmar. Fiquem atentos às nossas chamadas de textos, todas em branco. De que outra forma receberíamos o silêncio e o grito?

(aceitam-se poemas,
mas nos aceitariam
estes que interessam?)

— Como conversam a garganta e o gueto?
— A questão é que, onde há passos, há campo minado.
— A revista só aceita poemas inéditos?
— O futuro da terra: a luta pelo futuro.

Poesia talvez seja material físsil, mas os sobreviventes da explosão ainda não acordaram para confirmá-lo.

II

Currículo do editor-chefe: detonadores para instaurar o diálogo entre o país e o gueto.

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) publicou, entre outras obras, o romance Gravata lavada (São Paulo: Patuá, 2019), o livro de contos Cidadania da bomba (São Paulo: Patuá, 2015), o ensaio Para que servem os direitos humanos? (Coimbra: Angelus Novus, 2009) e os livros de poesia O desvio das gentes (São Paulo: Patuá, 2019) e Canção de ninar com fuzis (Bragança Paulista: Urutau, 2019).

três poemas de Beatriz H. Ramos Amaral

avesso

No avesso do arquipélago
existem mosaicos e ilhas
brasões e miniaturas

no avesso das fagulhas
a lenta história de pérolas

entre fugazes semínimas
que adentram teus compassos
existem frações de lúcido silêncio

no avesso da avenida
existe outra avenida
mais larga e bem mais densa

no avesso do que é imenso
existe a inexistência

canto n. 2

nas permissões quânticas
da temporalidade
que ondas
conjugam as margens?

quando se refaz
a cena do princípio?

que lagos
abrem o segredo
das hipóteses?

onde pousa
o pássaro branco
cuja altura
— necessária —
te abriga?

dois noturnos

1

as salamandras convidam
para a dança das chuvas
e adormecem

serenas
sabem respostas
de escolher perguntas

a madrugada dos galopes
no estrábico desígnio
floresce

2

a erosão é busca
que revela os ventos

se alguém toca os sinos
na grande barca da noite

raio de luz submerge
no ventre da história

um vácuo de vontade
em lâmina se abre

Beatriz H. Ramos Amaral, poeta, contista e ensaísta paulistana, publicou Primeira Lua, Os Fios do Anagrama, Peixe Papiro, O Avesso do Arquipélago, A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga, Encadeamentos, Alquimia dos Círculos, Planagem, Poema sine praevia lege, entre outros. Doutoranda em Comunicação em Semiótica na PUC-SP e Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Formada em Direito (USP), em Música (FASM), recebeu 7 prêmios de literatura e cultura no Brasil e na Itália. Finalista dos Prêmios Jabuti 1994 e Anpoll 2008. Tem poemas e contos publicados em Portugal, nas Revistas Caliban, In-Comunidade, TriploV, In-Finita, na Argentina, na Archivos Del Sur, e também na França, na Itália e nos Estados Unidos. No Brasil, poemas publicados na Folha de S.Paulo, Mallarmargens, Germina, Ângulo, Escrita Droide, Cigarra, Rascunho, Dimensão, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, entre outras. É Diretora de Publicações do MPD. Coordenou ciclos literários na Secretaria Municipal de Cultura.

trecho do romance ‘O coração pensa constantemente’, de Rosângela Vieira Rocha

capa_coracaoNo ano que passou, vi repetidas vezes nos seus olhos a vontade de ter liberdade para viajar como eu, mostrando seus quadros e suas esculturas. A série de comentários meio ácidos que me dirigiu também não me passou despercebida. Viajando de novo? Mas você não para, mal acabou de chegar. Como assim, vai de novo para o Nordeste? Pensando em se mudar para lá? Não vai, não, senhora.

Eu ficava calada, mas sentia desconforto, urgência em sair de perto dela. Aquelas exclamações me perturbavam muito. Reconhecia a emoção que usualmente chamamos de inveja. Sentia tristeza, como se de repente tivesse ficado desprotegida, sozinha no mundo. Tive vontade de conversar sobre o assunto, mas faltou-me coragem. Podia parecer um golpe baixo, uma jogada de má-fé desfiar tema tão complexo com alguém nas suas condições. Mas me sentia injustiçada, pois ninguém melhor do que ela conhecia o meu esforço para chegar até aqui. Como é do meu feitio, fui pesquisar; só através do conhecimento consigo superar as fases ruins. O que é, afinal, a inveja? O que representa, que significado possui? Por que é tão malvista e ao mesmo tempo tão banal, se dela ninguém está livre? Quem pode ficar eternamente imune ao canto dessa sereia que nos puxa, nos puxa sempre para o fundo de nós mesmos?

As explicações de psicanalistas e psicólogos não me pareceram suficientes. A literatura também não ofereceu grande contribuição. Shakespeare confundiu ciúme com inveja, enfatizando o primeiro. O verdadeiro vilão não era Otelo, o ciumento, embora tenha cometido um crime, e, sim, Iago, o invejoso intrigante. Sem as mentiras de Iago, Otelo não teria matado Desdêmona. Seu ciúme foi tecido por Iago, fio por fio, de caso pensado. A prevalência do ciúme sobre a inveja e a confusão estabelecida criaram até uma alcunha para o ciúme, “o monstro de olhos verdes”. Resolvi buscar na filosofia, e encontrei em São Tomás de Aquino definições mais compreensíveis. Para os tomistas, o ciúme é diferente da inveja por exigir sempre três elementos, diferentemente da inveja, que exige dois. Invejar não é desejar o que o outro possui, material ou espiritualmente, como estamos habituados a pensar. Se não houver o desejo de retirar o bem do outro, de lhe fazer mal, trata-se de cobiça. Quanto à inveja, não existe “inveja boa”, “invejinha” ou “inveja branca”. É uma emoção que não admite adjetivos.

A questão da inveja se tornou complicada demais porque recebeu um julgamento moral desde o início dos tempos. Tão humana quanto qualquer outra, já que atinge todos, é uma emoção que pode ser sentida várias vezes ao dia. Por si só, não faz mal ao outro, como estamos habituados a pensar. “Olho gordo” é superstição, não tem valor real. E, segundo os tomistas, na maioria dos casos o que sentimos não é inveja e sim cobiça. Desejamos em muitos momentos imitar e assegurar para nós a qualidade do outro, o talento do outro, sua beleza, sua sorte, seus bens e tudo aquilo que nele valorizamos. Mas isso não significa que queremos subtrair-lhe algo. Cobiça seria o fruto de uma admiração profunda. Não cobiçamos nada que não admiramos. Sem o fascínio, é impossível cobiçar.

O investimento ético-moral que se fez no termo inveja dificulta muito as relações. Ninguém reconhece que a sente, a inveja é sempre do outro, pertence ao outro, nós a afastamos como se fosse indigno senti-la. Quando temos a coragem de reconhecê-la, enfrentamos a ressaca moral, o sentimento de culpa, nos sentimos seres sujos e de segunda categoria. Para nos defendermos dela, a projetamos quase sempre no outro, considerado o malvado, o invejoso, o pecador. O fato de ser considerada um dos sete pecados capitais fez com que se tornasse socialmente ainda mais reprovável.

Percebi a inveja — para dizer corretamente, a cobiça — de Rubi. Mas quem não a sentiria, consciente de que está no limiar da morte, diante de uma irmã mais jovem e saudável? Que espécie de supermulher seria essa, que vê as conquistas tão palpáveis do outro e não gostaria de estar também na mesma situação? Quem não quereria continuar vivo e fazendo o que gosta?

Passado o susto inicial de me sentir alvo de sua cobiça, e depois de compreender o que essa emoção realmente significa, senti compaixão e uma vontade imensa de dividir com ela minhas realizações, não as contar apenas, mas fazê-las também suas. Percebi que ela sofria muito por sentir o que sentia, mas não soube como lhe dizer que compreendia, que a “absolvia”, não tinha importância nenhuma, e que meu amor continuava absolutamente inalterado.

| trecho do romance O coração pensa constantemente, a ser lançado no final deste mês, pela Editora Arribaçã, PB. |

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. O coração pensa constantemente é o seu 6º romance para o público adulto. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente, no prelo. Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.

três poemas inéditos de Itamar Vieira Junior

, por exemplo,
não tem nada a ver
os fantasmas vestidos de branco
os ruídos das correntes
os homens sérios
sinto-me menos livre do que antes
atormentado
não mudaram nada
os ratos
continuam roendo o edifício
não se preocupam com o que me preocupo
poderia descansar um pouco do jogo
da brincadeira
do país
“agora venha tomar banho”
o que isso significa quando o que está em jogo é o que não compreendo?

roubei dinheiro
queimaram minhas mãos
todos estavam certos
era perfeitamente natural
sobrenatural
é a linguagem e dela me falam
há uma placa ali, mas nada diz
combina?
um, dois, três, um com o outro
um gozo múltiplo
só estou repetindo o que me dizem
e mudo a página
duzentos e quarenta e um
é a sua vez
é uma ideia estranha imaginar o que dizem
algo vai acontecer, sussurram
eu espero
pode ser não pode ser
no final podem dizer que é invenção
mas é claro que estou ali
que estou aqui
que sou palavra
já não posso imaginar
atiram uma, duas, três cabeças
por cima do muro
não há nada nosso nesse contexto
há o que o mundo exige
não há como dizer que tudo é um sonho
há fragmentos de referências

quando começo é o começo
gradualmente
é uma dimensão, uma estrutura
pouco a pouco vou me perdendo
uma ponte que atravessa de um abismo a outro
o que não vemos é de uma grande riqueza
cortado a alicate
esculpindo cristais
a organização, o método, o sistema, o comando, a hierarquia
a lista de coisas que exigem
a burocracia
para extinguir o possível

“eu tenho o que é preciso”
perdido em algum lugar daquele outro quarto
sem abandonar
há algo realmente puro?
o que equilibrar?
eu que estou condenado,
por exemplo,

escolhas

É preferível a casa violada
a casa cerrada
o sentimento acerca das coisas
às coisas cercadas de sentimentos
é preferível as pichações nas paredes
ao idiota limpando-a
ou o ponto de partida
ao ponto de chegada
é preferível a falsificação
à crucificação
quase sempre é preferível a mentira
à verdade
a criatura
ao criador
ou a personagem
ao autor
é preferível a página rasgada
a que está inteira
a paz solitária
ao amor que aprisiona
é preferível desferir o golpe
a oferecer a outra face
ou deixar tudo no começo
a terminar sem nada
é preferível a prisão da rotina
à liberdade vigiada
guardar um pensamento consigo
a revelá-lo como um poema

entre

Aventurar-se no espaço
entre a parede e a cama
tentando alcançar
o que pudesse ter entre as mãos
a luz tremula
desenhando sombras no domínio
a boca seca
silenciosa como o aviso
agoniza o corpo
entre a cama e o abismo
as mãos mais que nuas
sentem o acaso
entre os dedos cresce
o que colheu neste vão
sujo, o corpo refuga
o metal
entre o abismo e a correnteza
algo que se movimente
como o começo

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias, de 2012, vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco, de 2017, obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, e o romance Torto arado, vencedor do Prémio LeYa em 2018.

a culpa é dos poetas, de Liliane Prata

Poucas horas depois de sair da prisão, Estevão virou pó. Foi assim. Estevão era um poeta que foi preso após publicar poemas com versos livres — sua licença lhe dava direito de publicar apenas poemas rimados. Quando ele foi libertado, soube que sua licença poética havia sido cassada e que a partir de agora só tinha autorização para escrever sobre como ganhar dinheiro de acordo com a visão quântica. Após caminhar por ruas vazias, chegou desolado em casa, onde morava com seu amigo Joel, e a única coisa que o animava era reencontrar seu cachorro.

— Cadê o Ulysses? — Estevão perguntou, após assobiar pela casa.

— Puxa, cara, lamento, mas ele foi recolhido — Joel respondeu, tomando um copo d’água.

— Como assim, recolhido?

— Recolheram todos os cachorros que se recusavam a aprender a falar. Eu me esforcei, todos os dias dava aula para o Ulysses, mas ele continuou latindo.

— Será que é porque ele é um cachorro?

— Disseram que era má vontade da parte dele e que ele não havia se esforçado o suficiente.

— Puxa vida! Ei, não tô vendo as plantas… E as plantas aqui de casa? A samambaia?

— Recolheram também. De acordo com uma nova lei, todas as plantas precisam assinar uma via se comprometendo a fornecer mais oxigênio por hora e a limitar a produção de gás carbônico, e ela se negou a assinar. Ficou parada, diante do fiscal da prefeitura.

— Putz, cara… Preciso de uma cerveja, tem? Ou vai me dizer que elas foram recolhidas?

— Pelo contrário, os fabricantes agora são obrigados por lei a quadruplicar o valor alcoólico de cada lata, além de anexar um papelzinho com ensinamentos morais em cada uma.

— Sério? Bom, o papelzinho eu não sei, mas o álcool a mais não é uma ideia de todo ruim, né?

— Olha, para mim é meio complicado, porque acordo cedo para trabalhar amanhã e se eu beber uma lata já vai ser foda, mas tudo bem, bebo meia lata…

— Você tá trabalhando com o quê?

— Motorista.

— De Uber?

— Se liga, Uber não existe mais, porque todo mundo parou de sair de casa. Por isso as ruas estão vazias… Depois de mais uma pandemia mundial, todo mundo trabalha em casa ou dorme no escritório ou dorme na rua, estuda pela internet ou não estuda e fica sozinho ou se encontra online, não tem por que pegar Uber.

— Você é entregador de comida, então?

— Se liga, ninguém mais come comida depois que os laboratórios farmacêuticos desenvolveram as modernas injeções mensais de satisfação estomacal. É mais prático, as terras estavam todas inférteis e a comida estava toda envenenada, mesmo.

— Puxa, você não está sentindo falta de comer?

— Ah, quem ficar triste com isso, é só tomar um novíssimo antidepressivo de efeito instantâneo! E ele vem com sabor pizza.

— Entendi. Bom, não me diga que você dirige para o gover…

— Isso aí. Eu passo o dia recolhendo coisas nas casas das pessoas.

— Você é um agente de recolhimento?

— Bingo!

— Foi você… Foi você mesmo que recolheu o Ulysses?

— E as nossas plantinhas. Mas olha, insisti com eles antes, tenho coração. Eles que não facilitaram o diálogo, então…

— Será que era melhor eu ter ficado na prisão?

— Legal! Estou feliz que você está falando isso, fica mais fácil te recolher pra lá. Vem comigo.

— Hã? Mas por quê, cara? O que eu fiz?

— Mais de dez perguntas depois que você chegou, e agora os pontos de interrogação foram limitados a três por dia. Nem adianta disfarçar, o algoritmo ouve tudo!

— Puxa vida! Posso pelo menos terminar minha cerveja?

— Olha, até poderia, antes de mais esse ponto de interrogação. Agora, infelizmente, você vai ser cancelado.

— Puxa vida, eu…

Shssissjjjjjj foi o som do spray oficial. E foi assim que Estevão virou pó. Alegremente, Joel fez uma carreirinha, cheirou tudo e foi todo empolgado trabalhar na manhã seguinte.

| este conto faz parte do livro Tem alguma coisa na água, ainda inédito. |

Liliane Prata é autora de O mundo que habita em nós e Ela queria amar, mas estava armada (finalista do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Contos), entre outros livros. Tem alguma coisa na água está em pré-venda. Site: http://www.lilianeprata.com.br/

a noite e mais um dia, de Franklin Carvalho

“Aquela mulher, aquele demônio de anáguas, aquela bruxa…”
(Euclides da Cunha, Os sertões)

capa_ordemA forma errada de começar esta história é se perguntando quem é o soldado Pedro Expedito, quantos anos ele tem ou há quantos é policial. Não sabemos nada disso, porque ele também não sabe. Expedito parece muito novo, um garoto de dezoito anos com o corpo delgado e a pele e olhos variando de mel a castanho-escuro, a depender da estação do ano e de seus rigores climáticos. O cabelo, se o deixasse crescer além do corte militar repetido a cada semana com navalha, teria o castanho destes mestiços indígenas que são comuns em Uauá, minúsculo viveiro de gente no sertão da Bahia.

Uauá é terra que Pedro habita como um sonâmbulo. Ele nem sabe quando chegou à cidade, que fica numa das partes mais áridas do continente sul-americano. O soldado policia o pouco mato, a pouca população, policia o calor e as moscas e também não sabe porque o faz. Tampouco sabem dele os seus colegas de batalhão, inclusive os mais novos, trazidos recentemente de outras regiões para reforçar a guarda. Nem os superiores na capital lhe perguntam nada.

Estranham aquele morto-vivo, e não há só um esquisito como ele, mas três ou quatro iguais que compõem a corporação desde eras ignoradas, com farda renovada somente por força da norma. Nem adianta indagar por suas famílias porque eles, os sonâmbulos, não têm ninguém, e a única documentação sobre eles é composta por papéis desbotados. Como por encanto, porém, ninguém põe a mão sobre essa verdade. É que há mortos-vivos também nos mais altos postos das chefias executivas.

Esta não é ainda a parte mais grave da história. Preocupamo-nos com a saúde do soldado Pedro Expedito. Sem parentes, ele dispende quase todo o soldo pagando um quarto numa pensão antiquíssima, onde os seus colegas também estão instalados numa ordem de caserna, alimentados pelo rancho pálido que a proprietária fornece a par de algum adicional. Assim também com a limpeza dos cômodos. Só a lavagem e a goma das fardas aqueles homens fazem na pensão, por regra. Risque-se das demandas de solteiro as gripes, disenterias, infecções e ferimentos que aqueles homens não têm, são de ferro. Expedito, porém, é incomodado por terríveis pesadelos nas noites em que consegue dormir.

Ele sonha com casebres miseráveis de barro amontoados uns sobre os outros e encharcados por chuvas torrenciais, e famílias paupérrimas tremendo numa penumbra mal cortada por lampiões de querosene. Acorda no meio da noite e, sentado na cama, medita sobre o realismo daquelas visões, abalado como se já houvesse habitado tamanha miséria alguma vez. E não entende, dias seguidos aquele pesadelo recorrente, porque Uauá, mesmo sendo cidade pobre do sertão, não chega àquele extremo de degradação, de violência e de fome. As imagens dos sonhos parecem-lhe as periferias dos grandes centros urbanos brasileiros que ele vê pela TV da delegacia em que dá plantão, mas Pedro não conhece as metrópoles, isso está bem claro em sua memória, nunca viajou até elas.

* * *

As coisas vinham nessa marcha, assim mesmo desconformes, até o dia em que o soldado e alguns colegas foram chamados para resolver um desentendimento na zona rural, na fazenda de um grande proprietário. O patrão daquelas terras tinha despedido por desgosto uma trabalhadora que vivia ali havia tempos, cabocla que aparentava cinquenta anos de idade, os dois já não se suportavam. Existia muita mágoa na contenda e os outros peões da fazenda correram para defender o chefe, quase bateram na empregada. Vencida a animosidade maior, a viatura policial voltou à cidade carregando a mulher e suas poucas posses, ela desistida de qualquer revide, mas indignada.

— Esse povo está assim porque o patrão é padrinho deles. É meu padrinho também, e a gente respeita porque padrinho é a voz de Deus na terra. Isso é consagrado com água benta. Mas patrão e padrinho têm que merecer a consideração, para tudo há limites. Até o Rei Saul, que era ungido de Deus, foi repugnado.

A equipe a bordo ouvia aquela rebelde com senso de muar, feliz por voltar à base no horário regular do expediente. Não havendo queixa a se registrar, deixaram-na pelo caminho, em alguma rua mais pobre onde disse ter parentes. Finalmente, o carro dispensou os homens na delegacia já no fim da tarde de verão, que escurecia pelo crepúsculo e pela formação de uma tempestade funesta.

Mais tarde, na pensão, veio a ração de todas as noites, pão duro e sopa de restos do almoço. Nenhum rádio, nenhuma televisão. Lá fora a chuva barulhava tão terrível quanto aquelas que Pedro Expedito via em seu sonho, cheias de raios. Como sempre acontecia, às oito horas todos naquele ambiente sem diversão se recolheram e ele fez o mesmo. Quando o soldado foi entrando no seu quarto, no entanto, uma lufada de ar frio lhe cortou a passagem e o despertou para uma lembrança da tarde, do rosto da mulher conduzida; e uma palpitação sacudiu o seu coração. Descorado, sentou-se imediatamente na rede que cruzava o cômodo e se deixou ficar ali, algum remorso por não ter ajudado aquela dona, algum não entender desse remorso, até que apagou. No abafamento que era o geral da noite suava as roupas domésticas puídas, mas caiu no sono de pedra.

Teve novamente o pesadelo dos casebres com as mesmas cenas, com muitas mulheres enroladas em trapos negros abraçadas 84 85 a crianças nuas, raquíticos mães e filhos, mas daquela vez havia um odor de podridão que nunca tinha sentido, um barulho de bombas e de tiros que nunca tinha ouvido, a água lhe molhava e Pedro Expedito acordou. Acordou muito bem desperto, vendo tudo com uma nitidez incomum na sua vida sem datas. Acordou num campo de guerra, e sabia exatamente o que estava fazendo.

Estava com outros policiais e soldados do exército marchando na lama dentro da noite, e todos usavam armas muito antigas. A farda da tropa tinha se reduzido a farrapos depois de os homens se debaterem no labirinto dos becos e nos barracos cheios de armadilhas. Os militares, exaustos, lutavam contra os moradores daqueles casebres, um povo ainda mais esgotado, mais faminto e mais exasperado que eles, mas que resistia usando galhos de espinheiros, trastes incendiados e armas caseiras.

Pedro também se recordou de que não estava numa dessas periferias urbanas modernas, nem caminhava nos dias atuais. Ele pisava o solo encharcado de uma noite tempestuosa na guerra de Canudos, nos seus últimos dias, em outubro de 1897. Assaltou-lhe então o desespero, seu e dos homens que, transportados de vários lugares para a batalha, topavam ali com a resistência dos habitantes do local, dispostos a lutarem até a morte na tática de tocaias e ciladas.

O objetivo das tropas era justamente abafar o povoado que em poucos anos havia surgido e se dilatado com milhares de habitações. A cada semana chegavam no local muitas levas de migrantes miseráveis em busca da redenção espiritual prometida por Antônio Conselheiro, messias alucinado que ponteava em Canudos. Lavradores, ferreiros, beatos, carpinteiros, artífices e loucos, despossuídos e desocupados queriam também beber da solidariedade de uma congregação completa, e convergiam com seus últimos recursos e ferramentas para uma vida comunitária em torno da religião. Tomados por perigosos, párias, sub-raça e desordeiros, foram atraindo progressivamente a inimizade e a perseguição dos senhores da terra e do gado das vizinhanças, dos burocratas, da imprensa, do poder político e dos militares Brasil afora.

Ao se ver naquela noite de chuva da guerra — ele não estava sonhando! — Pedro Expedito sentia o cansaço verdadeiro de um soldado em batalha. Andava com outros companheiros para um dos postos militares que ficava no morro da Favela, ali em Canudos, enquanto ruminava um episódio marcante daquele confronto. À tarde havia chegado no acampamento um grupo de trezentos prisioneiros, somente mulheres, crianças e velhos que resolveram se entregar às forças do estado, todos em condições lastimáveis. O exército acreditava que aquela rendição era outro ardil, servia somente para aliviar os combatentes de Conselheiro e gerar sobrecarga aos batalhões fardados.

Perambulando pelas ruelas, encharcado, silencioso e perdido, o soldado meditava na situação dos trezentos prisioneiros, porque ele já sabia que o exército não admitia cativos. Pelo contrário, todos os inimigos que caíam eram executados das formas mais cruéis, fosse por vingança, fosse por desprezo, fosse porque havia gente fardada que se comprazia em matar, e os generais não se importavam com o expurgo.

Pedro Expedito não fazia aquilo, matar pessoas detidas. Nem assistia às execuções, mas todos os soldados sabiam como elas eram feitas e quem as praticava. Ele tinha interesse naqueles casos porque guardava a recordação dos rostos deformados, dos olhares torturados, dos corpos secos, da muita gente que vira tombada pelas cercanias. Após tantos meses de guerra, também temia que o horror, partindo dos seus, partindo dos contrários, se desatasse ainda mais atroz, e o fizesse perecer absolutamente em vão.

Para não sucumbir àqueles pensamentos tão duros, Pedro Expedito afrouxou a camisa na gola. Chovia mas era outubro, fazia calor, e ele olhou para cima esperando alguma fresca. Foi um momento de feliz distração, um rápido desafogo, mas o venceu um 86 87 tiro errado, uma bala perdida cruzada no seu abdome. Impossível saber de onde partira o projétil, porque àquela altura havia disparos de todos os lados, com armas dos mesmos tipos, que uma das partes do conflito tomava da outra.

* * *

O soldado acordou em sua rede na pensão, muito assustado. Passou a mão por dentro da camisa e percebeu na lateral esquerda, à altura do umbigo, uma cicatriz que nunca notara ali. Entendeu que não havia sonhado, não era como das outras vezes. Estava lembrando. Recordava fatos de mais de cem anos e tinha sobrevivido aquele tempo todo sem nenhum estremecimento, sem qualquer ventura ou mínima delícia, nem mesmo uma pequena dor que alterasse a sua rotina.

O mais estranho é que continuava morando no mesmo sertão, não mais em Canudos, não. Canudos, após o desastre da guerra, havia se despovoado e depois renascera como uma pequena cidade pobre. Uauá, o lugar em que Pedro Expedito passava aquele transe mais de um século depois, ficava a apenas sessenta quilômetros do antigo campo de batalha. No entanto, ele nunca se perguntara sobre o conflito em torno de Antônio Conselheiro e seus seguidores, nem cogitara estar ali, tão próximo, a origem e o cenário dos seus pesadelos. E nunca fora visitar Canudos, ao contrário de muitos pesquisadores e turistas que atravessavam Uauá em direção ao sítio histórico da guerra.

Sentado ereto na rede, só uma réstia de luz invadindo o quarto por uma fresta na janela de madeira, o silêncio eterno lá fora, Pedro Expedito sentiu um frio intenso abraçá-lo. Lembrou-se da sensação que teve ao levar o tiro, como se um animal peçonhento, ao fisgá-lo, espalhasse fogo e gelo fatais no seu sangue. Procurou controlar a respiração cada vez mais intensa, que lhe vinha como soluço. Então se lembrou do chamado policial da tarde anterior, que o colocara em contato com a empregada despedida da fazenda. Veio-lhe tudo à mente, como se o veneno do animal peçonhento tomasse também o seu cérebro. Conhecia aquela dona de muito tempo.

Ela também tinha sido prisioneira em Canudos, mas não do grupo dos trezentos. Fora detida sozinha em pleno combate, dias antes daquela massa famélica se entregar. Na ocasião, não estava disposta a facilitar o interrogatório. A tudo respondia não saber e, tomada de sereno desprezo, despejou uma maldição quando a fustigou o general da campanha:

— Vocês não estão aqui para prender. Vocês é que são os presos de Canudos. Não serão capazes de voltar para casa, como os soldados que vieram antes. E mais, ficarão todos cegos, tateando por estas terras!

Pedro Expedito sentiu-se desmanchar como uma rocha que o tempo varresse, erodindo. Por que ele tinha vivido tanto tempo? Para ver a miséria de Canudos se espalhar por todo o país, todo o continente, em outros conflitos e periferias batizadas de favela? Para assegurar-se que aquele caos, aquele traçado torto, aquela precariedade iam se manter, restando salvos e protegidos sempre os mesmos donos de tudo, atrás dos mesmos muros, atrás dos mesmos guardas?

Então notou que havia mais perguntas do que ele poderia resolver, como uma espiral, como um redemoinho, e sua vista se turvou completamente. Mesmo assim se sentia aliviado de alguma forma, esvaziando-se, vomitando ali na rede uma lama antiga que preenchia a sua boca desde o dia em que caíra baleado em Canudos. Havia de tudo na lama, ensinamentos sobre Deus, manuscritos de ordens militares e recortes de jornais com notícias inventadas sobre a guerra. E havia a fuligem de corpos humanos, de animais e da flora incendiados.

A voz da dona rebelde também não saía do pensamento do soldado, e ele resolveu procurá-la imediatamente e lhe fazer todas as perguntas que lhe surgiam em torrente. Por isso levantou-se, 88 89 mesmo com dificuldade, mesmo sem conseguir enxergar, e foi apalpando as paredes em direção à rua, onde tentaria encontrar aquela mulher. Não deixou, porém, de regurgitar mais lama envenenada pelo caminho. A cada minuto daquela marcha torpe sentia-se mais leve ainda, cuspindo uma grande mágoa, descobrindo por si mesmo todos os mistérios, quebrando um encanto, uma maldição antiga, vivo novamente.

Mas ao se perceber ao ar livre, com a chuva e o vento golpeando-o, desistiu. Ficou de repente abismado porque a cegueira o envolvia ainda mais e o afastava do mundo, e também o afastava da memória. Acreditou que seria inútil procurar pessoas que deveriam estar tão perdidas quanto ele, antigos soldados e prisioneiros sem paradeiro, sem nome e sem rosto, que os livros de História nem sequer lhes reservara lugar, eles cegos também. Ali mesmo, na porta da pensão, nem mais conseguia recordar as faces dos seus companheiros e da mulher rebelde que alterara o seu cotidiano na véspera, ela era só uma voz a perturbá-lo.

Pedro Expedito voltou ao seu quarto e procurou dormir, mesmo incomodado porque sentia a rede rançosa, impregnada do odor acre de suor. Antes de adormecer, pensou em reclamar do fedor com a dona da pensão no dia seguinte. Foi o que fez.

Embora tenha acordado muito cansado, mal lembrando-se de algum pesadelo com o velho tema recorrente, embora enxergasse o seu quarto asseado, como a dona da pensão sempre o mantinha, ao sentar-se na copa para tomar o café matinal ele a chamou e pediu que quarasse e lavasse a rede e as cobertas. Ela não se opôs, tinha um enxoval sobressalente na casa para emprestar aos hóspedes em situações como aquela.

Isso resolvido, Pedro Expedito foi trabalhar. Em seu caminho até a delegacia, o sol fazia o mormaço saltar da terra molhada pela chuva da véspera.

| conto da coletânea A ordem interior do mundo (Editora 7Letras, 2020). |

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

três poemas do livro ‘O enigma das ondas’, de Rodrigo Garcia Lopes

capa_enigmapós-verdade

Manhã de chuva, carrancuda
como um general russo.

Do nada, desanda a pensar:
a metalinguagem repôs (perigosa-

mente) o solipsismo do eu-lírico romântico.
Por que não o som do caminhão de lixo

ou a pitanga no bico do pássaro
contra um céu ardente ardósia?

A mancha de mostarda em sua blusa?
A menor distância entre dois pontos

não é você, Ego, seu tonto.
Céus, que luta mais inútil

se pode travar num papel?
Pra que se encalacrar com este encavalar

de palavras parvas que não levam a nada,
nenhum Valhala, Alamut, nenhuma Atlândida?

E o pior cego, insisto, é o que disse
que a vida não vale um alpiste

e que o dia é fake news e não existe.
Faça o seguinte, ou não faça:

Substitua a arrogante arte da recusa
pela simples e grata aceitação das coisas.

vontade de crer

Preso no inferno da torre
ou sem boia, em mar aberto.
Impossível curar este porre.
Tudo vai dar certo.

Nada será como nunca.
O real abraço e nada aperto.
Cansaço desta espelunca.
Tudo vai dar certo.

Estamos à beira do abismo.
O amor naufragou aqui perto.
Tempos de barbárie e cinismo.
Tudo vai dar certo.

Do nada, pessoas somem.
Nosso plano foi descoberto.
Deletaram nossos nomes.
Tudo vai dar certo.

Pior do que está pode ficar.
Dias sombrios, céu encoberto.
Mentiras turvam o ar.
Tudo vai dar certo.

Sem grana, cama, namorada.
Da janela só este deserto.
A espera deu em nada.
Tudo vai dar certo.

Patifes e assassinos por toda parte,
Hipócritas ditam o que é correto.
Só nos resta o agora, esta arte.
Tudo vai dar certo.

Acabou a caneta, o vinho tinto.
O esplendor será secreto.
O espelho nunca esteve tão sozinho.
Mas tudo vai dar certo.

breve história da solidão

No escuro de uma caverna,
nas paredes de Pompeia,

na superfície de um papiro,
na solidão de uma tela,

num grafite imprevisto
ou na imensidão sidérea,

esses escritos, frágeis rabiscos,
querem dizer apenas isto:

existo.

| poemas do livro O enigma das ondas (Editora Iluminuras, 2020), na loja virtual editora com 40% de desconto [link]. |

Rodrigo Garcia Lopes (Londrina, PR, 1965) é poeta, romancista, tradutor, compositor, ensaísta e jornalista. Publicou os livros de poesia Solarium (1994), Visibilia (1996), Polivox (2002), Nômada (2004), Estúdio realidade (2013), Experiências extraordinárias (2015) e O enigma das ondas (2020). É autor do romance policial O Trovador (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2015).