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nine, de Divanize Carbonieri

Do outro lado da escrivaninha, ouvia a contragosto o homem falar num tom entre calmo e irritado. Poor old man. Na verdade, não. Mr. Stuart tinha apenas quarenta e seis anos. O cabelo grisalho era mais um fator genético, assim como o diabetes e a hipertensão. Pity. Ele estava tão empenhado em ajudá-la. Shame to be so ungrateful. Ela sabia e não queria ser grosseira, mas realmente não se interessava pelo que ele dizia. Já não se importava mais. Life sucks anyway. Com muito estoicismo, suportara os dias de julgamento. Todos aqueles que considerava amigos tinham lhe indicado como a principal responsável. Mentor of crime. Mentor. A new word to be learned. Bullshit! Não tinha colocado revólver na cabeça de ninguém. They did it because they wanted to. Que podia fazer se era a mais inteligente, a única que pensava nos detalhes? Se tivessem agido conforme o combinado, nunca seriam apreendidos. Idiots who messed everything up. Era isso o que eram. E agora tentavam jogar tudo nas suas costas para livrar as próprias peles. Could have done the same? Yeah. Talvez assim também pegasse uma pena mais branda. Mas não era do seu feitio. Never, never a stool pigeon. Preferia enfrentar o pior. Não temia nada. Desde de muito nova, se sentira atraída pelo perigo, pela aventura. No lugar em que nasceu, tal modo de agir era visto como loucura. Demon possession. Tantas vezes tentaram exorcizar os diabos de dentro dela. They and only they were the demons. Queriam que fosse submissa como se esperava de todas as mulheres da comunidade. Mas apanhava como homem. Got beaten all the time. Beaten with sticks, whips, punching, kicking. It never worked. Jamais baixou a crista. Só se fortaleceu. Suportou tudo sem se render até que conseguiu escapar daquele inferno. Desde então, perambulava de um canto a outro, fazendo pequenos furtos no começo. An orange or two, some bread, a drugstore candy. Depois, aprendeu a bater carteiras. Who taught it? Já nem lembrava. Tornou-se a melhor do ramo. Passou a ser respeitada pelos outros delinquentes, todos uns pivetes, como ela. No, older. Pensavam que era mais velha do que eles, e não desmentia. Depois vieram os assaltos às lojas e por fim aos bancos. Big money. A series of successes. Só andava agora com os profissionais, os experimentados na arte de subtrair. Guns and ammunition. Just to frighten folks. Não pensava realmente em matar. Achava que nunca seria necessário. Stupid cops. Não teve o que fazer. Estavam em sua rota de fuga. E daí tudo degringolou. Killing cops is bad for business, everybody knows. A polícia não deu trégua até prender a quadrilha completa. Todos os roubos a bancos da região foram imputados a eles. What a lie! Existiam muitos grupos agindo na localidade. O dela apenas era o melhor. The best. Since always. Mas o que pesou mesmo foi o assassinato dos dois policiais. Seus colegas de farda olhavam para ela com um ódio descomunal. Só não sofreu mais na prisão porque o caso ganhou muita repercussão. All those cameras. Os olhos do país inteiro voltados para o que acontecia naquela comarca. Em algum lugar, de algum modo, um jornalista tinha obtido informações que lançavam dúvidas sobre sua biografia. How he fucking found out? No tribunal, apenas sua declaração fora suficiente. Documentos não existiam, já que as crianças da comunidade nunca eram registradas em cartórios. Homeschooling just to learn to read the Bible and use the hoe. The government couldn’t care less. Quanto mais longe aqueles fanáticos estivessem do resto da sociedade, melhor. Daí não possuía certidão de nascimento nem nada parecido. One just needs to feel they are old enough. That’s what matters. Nobody has anything to do with it. Mas a lei dizia o contrário: era fundamental saber a idade de alguém para poder determinar corretamente a sua sentença. Prisão perpétua apenas para maiores de dezesseis. E punição capital só para quem atingiu pelo menos os dezoito. Se a história contada pelos jornais fosse verdadeira, aquilo seria uma falha gravíssima do judiciário. E pouco importava que ela tivesse mentido porque, nesse caso, era uma mentira que a desfavorecia enormemente. Por essa razão, o juiz e os promotores fugiam da imprensa como se foge de um incêndio, esperando que a poeira baixasse e o que ainda pensavam ser um boato caísse no esquecimento. O defensor público, por outro lado, tinha se entusiasmado com a notícia, um presente caído do céu. Mr. Stuart era um homem generoso e totalmente contrário à pena de morte. Mesmo quando ainda acreditava que o julgamento ocorria dentro da legalidade porque nem imaginava que a ré pudesse ser outra coisa que não uma moça de vinte e um anos, fez de tudo para que o resultado fosse diferente. Agora, então, moveria céus e terras para evitar essa tragédia. Se pudesse comprovar o que diziam as reportagens, ela iria para um reformatório por pouco tempo e depois estaria livre. Uma nova carreira de crimes talvez se iniciasse depois, mas Mr. Stuart pensava que era inaceitável que o Estado assassinasse pessoas. Acreditava mesmo que não podia haver palavra mais adequada: assassinato, tanto pior se autorizado por juízes, legalizado. Dava-lhe asco pensar que muitos conterrâneos achavam isso normal, até desejável. Se pudesse salvar só essa garota, já ficaria feliz. Seria uma satisfação pessoal. Assim, viajou às próprias expensas para o rancho em que ela fora criada. O mais provável é que não existissem mesmo papéis oficiais, mas se conseguisse pelo menos três testemunhas que atestassem a veracidade do fato, a justiça teria que aceitar esses depoimentos como prova. O julgamento seria anulado e ela escaparia da injeção letal. Era justamente sobre o resultado da expedição que falava agora com sua cliente. Relatou que, depois de muitas tentativas malsucedidas, foi capaz de entrevistar o seu pai. Father? Ela estranhou porque, na comunidade, a paternidade não era biológica, mas sociológica, e todos os homens adultos deviam ser respeitados como autoridades paternas, mas sem que nenhum fosse nomeado como tal. Homens e mulheres viviam separados na maior parte do tempo e só podiam manter relações sexuais uma vez por ano, apenas para gerar novos membros. A posse das mulheres alternava-se entre os homens, pois era o líder que decidia de quais deles elas teriam filhos ano a ano. No love. No special treatment. Not even from mothers. Mother was actually another meaningless word. O contato físico era reduzidíssimo, e qualquer deslize acabava punido com surras e mais surras. Mas sabia bem de quem ele estava falando. The greatest demon. The cruelest of all. O homem que tinha inoculado sua progenitora com sêmen, possibilitando que ela fosse concebida. Era também o que parecia ter mais prazer em castigar as mulheres e crianças, sobretudo uma rebelde inveterada como ela. Mr. Stuart se punha agora a descrever como tinha sido o diálogo. You have a wonderful daughter. She had problems with the law, but we can’t turn our backs on her. You shouldn’t turn your back on her. I’d be proud to have such a child. She’s very smart and tenacious. I’m convinced she can be easily reintegrated into society after some years in reformatory. That’s why I came to ask you to testify on her behalf and declare she’s still a minor. We need witnesses to prove it. If you can persuade a few more members of your community, I’m sure your daughter will be saved. Otherwise, she’ll be executed. A resposta não demorou muito. When she left, she ceased to be our daughter. She’s now the daughter of the world. If she can’t be welcomed by the world, she won’t be by us. That bridge was forever burned. Ela riu por dentro da situação. Quase chegava a ouvir aquela voz repulsiva pronunciando tais palavras. So typical of him. Mas ficou aliviada com a recusa porque a última coisa que queria era ver a cara do cão novamente. Se tudo estava, então, resolvido, não entendia por que o advogado continuava insistindo. O esclarecimento veio em seguida. Ele lhe implorou que escrevesse uma carta para sensibilizar o “pai”, lançando mão de argumentos sentimentais para que mudasse de ideia. Que pedisse perdão, que suplicasse por sua ajuda, que se humilhasse. Qualquer esforço valeria a pena. Dessa vez, ela não pôde conter a gargalhada. Mr. Stuart, I thank you very much for all your trouble to help me, but it’s out of question. I’d rather die. If you’ll excuse me, I’m going back to my cell. Levantou-se e seguiu acompanhada pelo guarda corredor a dentro. Duas semanas depois foi levada para uma audiência, algo totalmente inesperado, uma vez que não cabia mais apelação em seu caso. Ao entrar na sala em que estava o juiz, viu seu defensor a postos e, sentadas ao lado dele, três mulheres que conhecia bem, que tinham participado de sua criação. Devia a elas a mesma obediência do que àquela que lhe deu à luz, morta quatro anos depois do seu nascimento. Escrutinou a sala para ver se encontrava algum dos homens também. Era terminantemente proibido que as mulheres da comunidade saíssem da propriedade sem alguma companhia masculina. Permanecer sozinhas numa sala cheia de estranhos era, então, algo inédito. Unthinkable. Certamente receberiam uma sanção bem severa. Talvez até fossem mortas por isso. Never thought they were so brave. Elas vieram para confirmar a sua real idade. Para mostrar que diziam a verdade, tinham reunido uma série de evidências, muitas até desconhecidas dela mesma. A principal era um prontuário hospitalar de cinco anos atrás, quando precisou de atendimento médico depois de ser brutalmente espancada. The straw that broke the camel’s back. Just two months before leaving the ranch. A razão dos ferimentos tinha sido registrada como queda de um cavalo, mas logo acima vinha o seu nome e quantos anos contava na ocasião. Nine.

Divanize Carbonieri é doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia Entraves (2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, além da coletânea de contos Passagem estreita (no prelo), selecionada pelo Edital Fundo 2019/Cuiabá 300 anos. No Prêmio Off Flip, foi segunda colocada na categoria conto na edição de 2019 e finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras/MT.

seis poemas de Mailson Furtado Viana

as sandálias ao canto
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte

guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa

* * *

no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.

a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo

_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome

a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa

* * *

naquele tempo
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto

__________
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada

a gente era tão longe

do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei

* * *

a nuvem
não tem nome
é e é
e pronto
não mais

não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária

é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser

: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)

se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será

não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são

* * *

a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está

de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio

são só vistos
pela estante
que ali não pisou

na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)

dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar

* * *

a tudo basta
o ser
ou se por em fotografia

ou
nada seria?

Mailson Furtado Viana é escritor, ator, diretor, produtor cultural e cirurgião-dentista. Com seu livro à cidade foi vencedor nas categorias de livro do ano e de poesia no Prêmio Jabuti 2018. Em Varjota, zona norte do Ceará, é produtor cultural da Casa de Arte CriAr, e desenvolve trabalhos como ator, diretor e dramaturgo e, atualmente, lidera a CIA teatral Criando Arte.

sete poemas de Michaela v. Schmaedel

destruição

Nada de novo no fogo
nada a declarar no amor.
Tudo fugiu muito rápido.
Só ficaram as palavras:
desejo
morte
sobrevivência.

aturdida

Para Bartolomeu Campos de Queirós

Aturdida é uma palavra da qual gosto muito.
Aturdida com a cidade.
Aturdida com as lojas.
Aturdida com os bares.
Aturdida com os carros.
Aturdida com as buzinas.
Aturdida com as crianças.
Aturdida com os amigos.
Aturdida com os irmãos.
Aturdida com os pais.
Aturdida com os desconhecidos.
aturdida eternamente.
Até a morte.
Amém, amém.

solo

“— Imagino que as canções de Bob Dylan
existam para nos fazer suportar dias
como este —” (Fabiano Calixto)

Esqueça aquela gaitinha,
concentre-se nas guitarras
distorcidas.
São dias difíceis,
my friend,
nem Bob Dylan dá conta.

lição (II)

Arrumar a gaveta como quem arruma o coração:
deixando sempre espaço para uma certa desordem.

estratégias para entrar e sair de crises

Entre na crise
saia da crise
entre na crise
saia da crise
entre na crise
saia para beber.

correio

Um postal cotidiano
para você que está
no país distante.

Um postal cotidiano
para contar das montanhas
do sol daqui
do azul absurdo.

Um postal cotidiano
para falar da saudade
num texto curto
não-sentimental.

pai (II)

“Não há mortos que morram tanto como os nossos”
(Gonçalo M. Tavares)

Não há dia em que não pense em ti.
Dias felizes,
dias tristes,
dias normais.
Minto.
Não há ainda dias felizes
nem dias normais.

Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, tem três filhos, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia. Atualmente, cursa o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e também escreve resenhas para jornais e revistas sobre o assunto. Seu primeiro livro de poesia, Coração cansado, está em fase de edição.

a revolta de Amanda, de Antônio LaCarne

Tia Emanuela foi enterrada com um opulento colar de pérolas no pescoço. Era manca e nunca se casara. Tinha uma filha, Amanda, mas não a considerava ser de suas entranhas. A menina era tratada como uma empregada da casa. Fora rejeitada quando descobriram que era anã.

Crescera calada, com o olhar perdido, nem sequer chorava durante o velório — já acostumada a sentir-se culpada por ocupar espaços indesejados na casa e na família. Qualquer pergunta sobre o paradeiro ou a origem do pai de Amanda era assunto proibido. Diziam que a menina só podia ser filha do Diabo, afinal tia Emanuela expressava repulsa não disfarçada quando se deparava com alguma imagem de santo ou crucifixo. Dava risadas escandalosas que chocavam as pessoas. Diziam também que era uma mulher satânica, que mexia com feitiçaria, e que no inferno estaria finalmente em casa – longe do mundo e da filha que lhe causavam tanto desgosto.

Quando cheguei ao velório — após anos de recusa em visitar a cidade —, minhas tias ficaram tão contentes, que não disfarçaram os sorrisos, os abraços, as gargalhadas inapropriadas em plena sala onde o caixão era rodeado por quatro castiçais posicionados sobre quatro gigantescas colunas de mármore. Quem me abraçou por último foi Amanda. Antes que eu me ajoelhasse para dar-lhe um beijo, ela já estava grudada nas minhas pernas.

As mulheres vestidas de preto me cumprimentaram com um leve aceno de cabeça. Não havia nenhum homem na sala, além de mim. Tia Lourdes e tia Gorete me arrastaram até a cozinha, ansiosas para que eu lhes contasse as novidades sobre a minha vida. Diziam que um mês não seria suficiente para matar a saudade dos dez anos que eu me ausentara.

Amanda nos acompanhava, carregando minha enorme mala, que era maior do que ela.

— Sentimos tanto a sua falta, meu querido!

— Sim, sentimos a sua falta — concordava tia Gorete.

— Você nem imagina a alegria que você traz para essa casa, depois da tragédia que foi descobrir Emanuela caída no banheiro, estirada, com a cara grudada no ralo.

— A cara grudada no ralo — repetia tia Gorete.

— Sente aqui com a gente, Amanda — pedi, apontando uma cadeira vazia para que se aproximasse.

— Essa menina está cada dia mais estranha, mas não é por menos, foi ela quem encontrou Emanuela morta. Deve estar muito abalada, coitadinha. Está traumatizada, desde ontem que não diz uma palavra – sussurrou tia Lourdes, como se Amanda não estivesse diante de nós.

— Trouxe um presente para você — disse eu.

— Um presente para você, Amanda — repetia tia Gorete, sem olhar para ela.

— Trouxe uma boneca linda de porcelana.

— Meu filho, ela não brinca de boneca, ela já vai fazer trinta e cinco anos! — respondeu tia Lourdes, controlando a vontade de rir.

— Mas é uma boneca para enfeitar o quarto dela — respondi, tentando disfarçar a grosseria do inconveniente.

Antes de entregar-lhe o presente, ouvimos um alvoroço na sala. Quem havia acabado de chegar era o prefeito. Tia Lourdes e tia Gorete levantaram-se apressadas da mesa e correram em direção ao homem. Fingiam enxugar as falsas lágrimas que não escorriam de seus rostos. Amanda e eu observávamos a cena da cozinha.

— Vamos lá no quintal fumar um cigarro? — perguntou ela.

— E você fuma?

— Fumo escondida.

Quando já estávamos no quintal prestes a acender o cigarro, tia Gorete apareceu e me puxou pelo braço. O prefeito iria fazer um discurso em homenagem à tia Emanuela.

Após o discurso, que durou quase meia hora, as mulheres terminaram de rezar o terço. Em seguida, despediram-se. Tia Gorete fechou as portas e me levou ao meu quarto. Eram os mesmos móveis de dez anos atrás, porém as paredes estavam pintadas de amarelo, tornando o ambiente mais claro e menos obscuro. O quarto onde chorei sozinho por diversas noites.

O enterro seria pela manhã e me causava desconforto dormir naquela casa, a poucos cômodos do corpo de tia Emanuela no caixão, no escuro. Estranhei o fato das mulheres rezarem o terço. Tia Emanuela era ateia e o mínimo que deveriam fazer seria respeitar sua vontade de uma cerimônia não religiosa. Comentei com tia Lourdes e ela foi enfática:

— Ah, meu filho, morto não tem querer. O que as pessoas vão pensar?

Tia Emanuela era uma mulher de bom coração, generosa, mas que exibia certas inconstâncias emocionais, nunca fora acompanhada por um médico ou coisa do tipo.

Quando eu tinha dez anos, lembro que cheguei da escola com o nariz sangrando. Um menino que mexia comigo diariamente havia me agredido. Quem ajudou a estancar o sangramento foi ela. Ordenou que eu não contasse nada às minhas tias, pois elas fariam um escândalo na escola, exigiriam satisfações, transformando a situação num estardalhaço desnecessário. Quando pus os pés dentro de casa, ao perceber que eu estava machucado, ela me puxou para dentro do quarto, trancou a porta e cuidou do meu nariz ferido.

Sentado na cama, vi que ela destrancava o cadeado do guarda-roupa, tirando de lá uma caixinha de primeiros socorros com algodão, que ela embebeu num líquido que quase me fez sufocar.

— Um menino bateu em mim, tia. Ele me empurrou e eu caí de nariz no chão.

— Fique calado, não chore, não diga nada. O sangue de ninguém é derramado em vão.

Em poucos minutos, o sangramento e o inchaço cessaram e eu estava novo em folha. No dia seguinte fui à escola, ainda temeroso que o menino batesse em mim outra vez. No mesmo dia, surgiu a notícia de que Arthur fora encontrado afogado no açude. Uma verdadeira comoção tomou conta da cidade. Telefonaram para os pais pedindo que fossem buscar os filhos mais cedo. Quem apareceu para me buscar foi tia Emanuela.

— Não falei que o sangue de ninguém é derramado em vão? E eu é que sou chamada de louca! — disse ela, entrelaçando os dedos nos meus.

Acompanhamos a pé o carro da funerária, com cada tia enrolando os braços na minha cintura. As mesmas mulheres de preto compareceram ao enterro, além do padre, do coveiro. O padre disse poucas palavras sobre a boa conduta de tia Emanuela em vida, mulher respeitosa, íntegra: uma alma prestes a descansar eternamente.

— Amanda, estamos esperando por você, venha com a gente — perguntei, encarando a porta trancada de seu quarto.

Ela não respondeu.

— Ela disse que não vai — gritou tia Gorete, surgindo na sala e a única a vestir branco.

Ao retornarmos, poucas horas antes do almoço, fui ao meu quarto desfazer a mala. Estava exausto, triste, incomodado em revisitar a cidade, a casa, em recordar certos acontecimentos do passado, como se cada lembrança estivesse estampada nos corredores.

Ao abrir a mala, dei de cara com o embrulho do presente de Amanda. A caixa e o papel florido estavam rasgados. Dentro da caixa estava a boneca com a cabeça arrancada.

Amanda havia mexido nas minhas coisas.

Assim como ela, eu também teria me revoltado.

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Editora Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Tem poemas publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.

Ó, de Hugo Almeida

Freguesia. Quem não lembra ou já ouviu falar? No final do século passado, nos tais anos 80, a guarda particular de incerto governante aplicou bela surra, show de covardia, em populares que o vaiavam. Os jornais registraram a pancadaria, houve demorado processo, espancadores fotografados e reconhecidos. Seis anos depois, na véspera de deixar o posto, o sucessor demitiu os servidores envolvidos na agressão. O novo readmitiu todos. E nada mudou. Era assim naqueles anos.

Nossa Senhora do Ó, origem do nome do bairro, é também uma diminuta igreja barroca do século 18 em Sabará, Minas, Estado de ferro, nascimento e fé de meu bisavô, escritor de algum mérito. Metido a artista, na juventude chegou a desenhar, a lápis, aquele pequenino templo, magrinho, uma porta só, duas folhas. Guardo o papel, cópia fiel da igrejinha do Ó.

Guardo ainda vários outros papéis de meu bisavô, como as provas de seu primeiro livro, Ó, impresso numa gráfica da Freguesia. Um ó de gráfica, escreveu na agenda. Trabalho rápido, 45 dias. Tecnologia da ponta do século.

O curioso são as provas do volume. Numa delas não aparece a letra o. (Por isso o título?) “Pane no computador”, escreveu o velho. Engraçad ler aquelas linhas sem a letra o. “A gente mlhada, debaix dessa minha smbrinha que s tem flres. Nã, Fernand, não pss ficar lembrand iss agra.”

Ele anotou entre parênteses, na agenda que meu pai me presenteou, ao lado de pedaço (colado) das provas: “Escrever um texto sobre isso. O computador ‘come’ a letra o, mas ainda assim a leitura é possível. Depois, engole o a, em seguida as outras vogais e, por fim, as consoantes, até o texto tornar-se invisível. O papel em branco: o leitor completará como quiser. Quem consumiu com as letras, a máquina ou o leitor?”

Em nenhum dos sete livros seguintes — três de contos — aparece o texto planejado. Por que desistiu da ideia? Seria apenas uma brincadeira? Papai — leitor atento e estudioso de sua obra — tem uma explicação: “Ele não queria se parecer com Borges. Fazia questão de ser original”. Não trago na veia uma gota do sangue escritor de meu bisavô. Mas, ao descobrir o projeto dele, tive vontade de realizá-lo. Vai aqui, velho. Tudo escrito até agora vale. E o que se segue não é muito. Apenas uma descoberta: máquina nenhuma engoliu o algum. Era fme. Fme verbal ds datilgrafs, ds digitadres, de quem batia as letras, quand nenhum aparelh ainda era capaz de traduzir em palavras impressas nssa vz. ra, meu bisav, nã lhe crreu iss? Na tristez de su épc, surra n pv n ru, milhres sem cs, cmid, escl, educç, nd mis nturl d que se limentr de letrs, plvrs. Vej bm, just letra O, a mais gordinha e saborosa — de graça.

Ocorre-me outra hipótese. Apropriar-se das letras não seria lançar mão das ideias do autor na origem? Sem tijolo não se faz parede; sem parede, casa et cetera. Quem lê julga-se também autor. Ao subtrair os pequenos sinais que contam uma história, sustentam uma ideia, o datilógrafo vai-se sentindo dono de todo o texto, assim como o pedreiro acumulando pedra e massa, seguindo o risco do arquiteto. Assim como eu, bebendo na agenda de meu bisavô.

(1986/87-1994)

Para Elisa Guimarães e Nilo Scalzo

Hugo Almeida (1952), escritor e jornalista mineiro residente em São Paulo, é autor de vários livros, entre eles o romance Mil corações solitários (Scipione, Prêmio Bienal Nestlé 1988), os contos Cinquenta metros para esquecer (Didática Paulista, 1996) e os infantojuvenis Viagem à lua de canoa (Nankin, 2009; PNBE 2011) e Meu nome é Fogo (Dimensão, 2007). Doutor em Literatura Brasileira pela USP, com tese sobre A rainha dos cárceres da Grécia, romance de Osman Lins, fez palestra na ABL, em agosto de 2018, sobre a vida e obra do escritor pernambucano: “Osman Lins, 40 anos depois, mais atual”, disponível no YouTube: [link]. O conto “Ó” está no livro Cinquenta metros para esquecer.

úmido tríptico, de Natalie Lima

Rosario

Vai e fica. A parte dela que andou pela Paraguay, pela San Luis e pela Mitre, que comeu papas españolas encharcadas de manteiga — isso desaparecerá. Quanto às ilhas, permanecerá nelas, o rio cor de doce de leite, e ainda assim bonito, islas flotantes. Não são grandes coisas, mas coisas interessantíssimas.

No barco, sente o tapete de água sob o corpo — nunca sem galochas, pois sua pele é a superfície que aos mosquitos encanta chupar. Quer salvar ao menos os pés do alcance desses vampiros pequeninos e bárbaros. Capazes de picar, diversas vezes, sua panturrilha esquerda por cima da calça de linho, deixam finos rastros de sangue entre o tecido e a pele.

Indiferente a tudo isso, o barco bate contra a água, teimando, dizendo que sim, que segue em frente apesar de. Ao passar por algumas ilhas, diminui a velocidade para que os outros passageiros possam mergulhar. Ela não, seu corpo não quer imersões. Vai ver que é medo de afundar e não ter o que levar de si para o Brasil. Só deixa que a toquem o vento, o sol, a superfície da água e a barqueira. Tão bonita e jovem, a barqueira a ajudou a entrar e sair da lancha para turistas. Os mosquitos não contam porque o que fizeram não foi apenas tocar, mas furar e beber. Porém, graças a eles a mulher fica um pouco mais na Argentina, seu sangue na barriga de insetos rosarinos, bichos que moram e dormem e procriam em ilhas flutuantes.

O tapete de água, esses bichos não o temem. A mulher também não. Sentiu-o sob as galochas que usava, que sentiram a madeira do barquinho, que sentiu a água amuralhada e mole na horizontal, que sentiu, sob a superfície, as correntes e os peixes, que sentiram a profundidade e o fundo arenoso, que sentiram, junto com os peixes que só nadam no fundo, algo ainda mais fundo. Não se sabe o que é, mas isso, o fundo do fundo, respondeu aos peixes, à areia e à profundidade, que responderam aos outros peixes, que responderam às correntes, que responderam à superfície, que respondeu ao casco da lancha, ou do barquinho, chame-o como quiser, o barquinho tão pequeno e frágil de tanto transportar turistas, ele respondeu às solas de borracha, que fizeram de escuta um par de pés.

44, rue de l’Amiral Hamelin

O maior clichê sobre Proust é seu leito de morte, sua foto de morto no leito de morte, naquele quarto em que deveria sufocar e, ao que parece, escrever durante a noite. Mas e se ela: uma mulher encharcada com água gelada do Sena e que de cabelos molhados quase se parece com um rapaz; e se ela entrar no quarto, sem explicação alguma, e depois estender uma mão a Proust, e ele aceitar essa oferta, e a janela do quarto se abrir e começar a aumentar de tamanho, e já não for noite, e o dia estiver agradável, e houver um jardim lá fora, e a janela se abrir mais e mais e mais, a ponto de se tornar um buraco na parede do quarto que dá para o jardim do edifício de Proust, e ele e a mulher encharcada que se parece com um rapaz caminharem por esse jardim, e apanharem sol, e toparem com aquelas bandeiras tibetanas coloridas que, quando tocadas pelo vento, espalham seus mantras e seus fluidos, e Proust respirar fundo, com os pulmões infiltrados, tentando ler o que está escrito nas bandeiras, e ver ali borrado, com água do rio, o seu próprio texto?

Caetité

Ela nunca foi a Caetité, não sabe quais horizontes se consegue avistar por lá. Ainda assim é preciso, o sertão. Ir até. Não por sua lonjura — mesmo da própria Bahia Caetité se afasta —, quando sim por sua aridez inexata. É dessa maneira que a terra quase vira areia, navalha invisível de vento seco. Quem sabe ali, a sensação — aguda e como sempre, ainda sem nome, quase sem forma — estanque; no melhor dos casos, se transmute, abrindo sobre si mesma um sulco, uma fenda quente.

É possível que haja de fato pouco a ver em Caetité — o que, no fim das contas, nem importa. Muito mais interessante e capital é saber o que fazer quando uma vez lá: em que partes farejar os rastros da bisavó índia, de nação ksed-jê, cujo rosto nunca encarou e cujo nome desconhece? E em qual chão verter as águas de rio armazenadas em garrafas PET de quinhentos mililitros?

Ela mesma as colheu, essas águas, sem a intenção prévia de derramá-las no Brasil. São duas: a mais antiga e quase acidental vem da superfície de um rio argentino chamado Paraná; a outra, verde-cinza-negra-clara, saiu do fundo gelado e mítico a que chamam La Seine. Sumirão rapidamente, uma vez fora de suas respectivas garrafas. Vão se misturar ao chão, vão penetrá-lo com tal gentileza, fazer nele caminhos, para depois pouca coisa ou quase nada delas restar no visível. Imperceptíveis, mas ainda assim lá. É isso um destino. Quantos.

A importância desse gesto em Caetité, onde ninguém a conhece — exceto, justamente e com esforço, a terra: cheia de ossos que já não existem, hoje transformados em pó e revirados intensamente por formigas, ventanias, chuvas e leitos baixos, amassados com parcimônia por gado de corte ou, no pior dos casos, pelas retroescavadeiras das Indústrias Nucleares do Brasil. Então aí, mesmo aí, algo da bisavó jê, um pouco dela para molhar com água de rio estrangeiro e cheirar depois.

Não sozinha, para que sozinha, Caetité tem mais de cinquenta e três mil habitantes, diz o censo do IBGE. Então serão mais de cinquenta e três mil somados a uma, essa-ela, e vai ver aparecem as que desejam águas estrangeiras derramar também, águas de viagem e de sonho, fluxo que não é outro, mas coisa de fora que logo se junta, se espalha e repousa.

Natalie Lima nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. É doutora em Letras pela PUC-Rio e ganha a vida como editora de livros. Participou da exposição coletiva Cadernos do Corpo com o “Caderno de viagem — roteiros para uma ficção”, em 2016, no CCJF, sob curadoria de Ana Kiffer. Em 2017, publicou Jacuzzi pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras, e “Instruções para performance em hipermercado” pela Revista Garupa. Tem textos críticos e teóricos publicados em revistas como Saga, Antares e Outra Travessia e foi coidealizadora e professora do curso Escrever Resistências, realizado em 2018 e 2019 no CCE/PUC-Rio. É mãe de Madalena — talvez por isso acredite que escrever é uma forma de inventar o futuro.

notas esparsas para um mundo áspero, poema de Leonardo Tonus

xxx
minha escrita não tolera,
ela acolhe.

tolerância não é direito,
é favor concedido num tempo
e num espaço
pré-definidos.

eu não vivo de favores,
nem tampouco minha poesia.

xxx
meu único consolo é saber
que antes do fogo furtado
já havia a poesia :
intelecção de mundo que sedimenta
o meu traimento,
ao mundo

xxx
como pensar quem somos
se do outro — que também somos —
esquecemos o desafio.

xxx
para além do visível
aspirar ao sujeito
potencialmente
audível.

xxx
entre cães e lobos uivam tuas dúvidas,
até o amigo te sorrir,
a manhã.

xxx
à beira dos abismos
se levanta a primeira palavra
do meu verso.
a mesma e única
que se faz grito
a cada novo dia.

xxx
que não me vejam até apagar os vestígios
da linha da melodia quando em ti estou,
quando em ti apenas sou
uma vaga ideia de mundo.

xxx
desejar para nada possuir.
em conjunto construir a força contínua
do que nos deseja todas as manhãs.

xxx
não se pode aceitar o silenciamento de alguém,
nem tampouco a espessura do medo.

cultivar a subversiva anarquia da felicidade,
é o que nos resta.

as palavras não são minhas,
somente esta triste
e profunda
alegria.

xxx
ser coerente
com o que se diz,
com o que se escreve :
aporias das inseguras zonas
de minha escrita.

xxx
não te esqueças :
literatura não é aspirina,
não consola
nem apazigua.

xxx
só me pergunto para onde ir
quando o mundo de nós
se cansar.

xxx
de ponta cabeça o mundo virar
até a chuva parar de cair
até às nuvens ela subir
até ela cocegar o teu nariz

xxx
rasguei todos os guias ao teu corpo
por saber que o sol já não cabe em lugar algum
nem o perfume da transparência de teus olhos

xxx
somos todos
e ninguém
ao mesmo tempo

xxx
a transgressão não parte do deslocamento em si,
mas do ímpeto de promover intervenções,
do mundo figurar
no mundo transfigurar
o mundo.

xxx
fazer corpo com o silêncio das cores,
o azul profundo dos girassóis de Van Gogh,
fora de qualquer dimensão,
sob o bombardeio de Hiroshima

xxx
quando a história reescreverem,
não se esqueçam de contar o gosto
das cinzas trituradas
entre os dentes.

Agosto de 2019

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal (Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Em outubro de 2019 será lançada sua segunda antologia de poemas pela Editora Nós.