publicações

hildegard, de Cinthia Kriemler

Ela sorri. E só isso já é um espanto. Faz tempo que ninguém a vê assim. Antes, os olhos sempre mortos, as sobrancelhas desistentes, a boca inerte. E de repente esse riso que ninguém sabe de onde vem. Espantoso, intenso. Como um deslumbramento.

A neve, a neve!, ela diz com excitação. Os dedos trêmulos apontam para a janela, acompanhados de mais um sorriso. Os olhos embaçados pelos anos estão vivos de novo, azuis como águas-marinhas. Eu queria estar lá fora na neve, ela continua. A mão enrugada se ergue e tenta traçar alguma coisa na vidraça embaçada. Mas desiste. Ela resmunga.

Eu fazia bonecos de neve muito bonitos. Você se lembra, Matilda?

A mulher jovem ao seu lado não se lembra. Nunca chegou a conhecer Matilda. Sabe apenas que era a irmã mais velha da mulher à sua frente, Hildegard Stern, sua avó, nascida Hildegard Adler, essa senhora de 83 anos que olha pela janela. A irmã que morreu no gueto de Theresienstadt, em 1942, como o restante da família. Assassinados.

Menos Hildegard. Uma dessas coisas inexplicáveis da guerra. Sobrevivente. Uma palavra tão cheia de significados. É isso que Hildegard é.

Depois da guerra, foi adotada por uma família judia que veio morar no Brasil. E cresceu com possibilidades. Todas as possibilidades que outras tantas crianças judias perderam nos trens da morte alemães, ou em fuzilamentos públicos, ou nas experiências daquele médico maldito.

A morte sempre vem, na sua busca cega e sedenta. Mas a existência, esse contraponto, também faz suas escolhas. Hildegard é uma escolha.

Isaac Stern. Esse o homem que se casou com ela. Um judeu que não conheceu a guerra. Que não sabia que a guerra é mais do que uma história passada. Foi feliz. Ela, Hildegard, a sobrevivente. Sem explosões de afeto ou de sonhos, mas foi feliz. Sobreviventes são criaturas discretas. Acomodou-se. Aceitou o jeito do marido, os negócios do marido, a casa comprada pelo marido, as joias dadas pelo marido, os silêncios do marido. Aceitou os filhos afastados pelo marido para colégios distantes, em países distantes. Só não se acomodou à saudade que sentia, e ainda sente, de Hanau, sua cidade natal. De onde foi arrancada pelos nazistas aos nove anos de idade. Última referência de um lugar legítimo em sua vida.

Todos os anos, pedia ao marido que a levasse à Alemanha. Ele ignorou cada pedido. Até morrer. Então, foi a vez dos filhos dizerem não.

Pra quê, mamãe? Deixa o passado pra lá! Por que você quer voltar a um lugar onde você sofreu tanto?

Porque queria. Porque ao contrário do que diziam aqueles rostos que ela começava a não reconhecer, ela tinha sido feliz naquela cidade distante em que havia pais e tios e amigos e Matilda. E neve.

Olha, Matilda, olha! Aqueles bonecos de neve estão muito feios, não estão?

A neta concorda com um aceno. Contendo-se para não dizer que lá fora só tem um parque cheio de sol onde crianças, pais e babás aproveitam uma manhã perfeita de verão. Contendo-se para não gritar Eu me chamo Erika, eu me chamo Erika, eu me chamo Erika!

Já faz um tempo que Hildegard tem delírios. No começo, Erika se assustou. Depois, chorou. Brigou com a idosa porque ela estava vendo coisas, falando de pessoas que não estavam mais vivas. Então, rendeu-se ao que disseram os médicos. Que a memória presente seria cada vez menor. Que a lembrança dos lugares, das coisas e das pessoas do passado seriam cada vez mais comuns. Até que não houvesse mais memória alguma. Uma nova avó. Feita de esquecimento, depressão, choro, saudade. E de quase nenhum riso.

Por isso, quando Hildegard a chama de Matilda, Erika responde.

É verdade, Hilde. Você faz bonecos de neve muito mais bonitos do que esses.

Porque não dá mais tempo de levar essa senhora frágil para Hanau. Para brincar com ela na neve de verdade. Porque nem faria diferença. Mas porque ainda é possível conceder a essa criança da guerra uma ilusão feliz neste dia raro de sorrisos lindos. Antes que o tempo se apague nela por inteiro.

Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017. Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018); Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015. Semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); Sob os escombros (Contos, 2014); Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). E do livro de contos Para enfim me deitar na minha alma (FAC-DF, 2010). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017). Escreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em Mallarmargens, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos afins, Revista Philos, Revista InComunidade e na Gueto.

dança da chuva, poema de Andri Carvão

Fazer uma fogueira com ossos
humanos. Assar um cão na brasa.
Comer a brasa regada a vinho.
Vinho servido numa taça feita
de um crânio canino. Vinho tinto
tipo A. Quando o fogo cessar,
apagar as brasas num jorro
de mijo comunitário. Pintar
o rosto com carvão. Encher
os bolsos de carvão. Vomitar
no rio e depois bebê-lo até o fim
para tirar o gosto ruim da boca.
Chorar e sorrir. Subir na árvore
mais alta, no alto da copa, no galho
mais fino a suportar o peso do corpo
humano. Procurar deitar o mais
confortável possível. Fechar os olhos
e relaxar… Soltar o corpo… Abster-se,
abstrair-se e esvair-se até tombar
no vazio da chama primordial.

Um raio abre uma cratera na montanha.
A montanha expele e jorra seu magma,
o sangue sagrado da terra. A lava
escorre e mergulha na água do mar,
petrificando. As rochas como icebergs,
mais da metade dentro d’água,
são açoitadas pela arrebentação,
sob o voo e o canto das gaivotas.
Nas rochas, nova morada da fauna
e da flora a beira-mar, pássaros se aninham
em suas frestas no alto e mais abaixo,
caranguejos, aranhas e siris fazem
a festa. Um homem, eu, você, nós,
ou quem quer que seja, se atira
da árvore de cabeça entre os rochedos.
Ele desaparece por alguns instantes,
tragado pelas águas do mar bravio.
Mas, de repente, emerge e transpõe
a barreira das ondas a braçadas
até alcançar a base da rocha mais
próxima. Alça-se das águas escalando
o paredão, alvejado pelos respingos
da arrebentação, como numa chuva
de verão. No caminho pega um ovo
de um ninho e o esconde no bolso
da camisa. Em seguida agarra um siri
e termina a escalada com a força
dos dedos dos pés e segurando-se
apenas com uma mão livre. Junta
alguns galhos e gravetos. Acende
uma tora na boca da cratera e faz
uma bela fogueira, onde se aquece
e assa o siri e o ovo na brasa.

Nosso herói adormece. O estrondo
de um trovão anuncia a chuva.
Uma sucessão de raios e trovões
anuncia a tempestade. O dia escurece.
A ventania aumenta a chama e a chuva
a apaga. O dilúvio cobre as rochas,
casa de pássaros e artrópodes.
As águas turbulentas invadem
a cratera em cascatas. O homem, eu,
você, o outro, adormece profundo,
boiando de braços e pernas abertos
como uma estrela do céu ou do mar,
calmo como nunca com as mãos
na nuca como num berço natural.

Andri Carvão cursou Artes Plásticas na Escola Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte (SP). Participou do Sarau do KVA e do grupo Trem Lúdico na virada dos anos 90 para 2000. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo com habilitação em espanhol, o autor possui publicações nas revistas online Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal (ambas pela Appaloosa Books) e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos — um manifesto contra o fascismo (org. por Rojefferson Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos (Appaloosa Books), O Poeta e a Cidade (Coleção Breves Gueto), Puizya Pop & outros Bagaços no Abismo e Marielle’s (ambos pela Scenarium). Acaba de lançar Um Sol Para Cada Montanha — poemas de formação (Chiado Books).

carta de novembro, de Mariana Ianelli

Não leve a mal o silêncio, meu amigo. São horas de equilíbrio instável até chegar a uma trilha arborizada, depois mais algumas horas até poder pensar uma palavra. E assim vão as semanas. Passando um tempo imenso sem registro. Um tempo imenso livre de ser registrado. Nenhuma peripécia aparente. Nada de prazeres transatlânticos. É só um café depois do almoço. Uma hora a mais de sono de vez em quando. Um banho morno. Um chá à noite. Prazeres inversamente proporcionais a seu nível de extravagância, mas como fossem graças, pequenas graças. Uma cópula aérea de borboletas. Seis hibiscos abertos mais três brotos. Um reflexo de fogo no vidro do apartamento em frente. Coisa pouca, para cuidar que os ecos do mundo não quebrem uma alma através dessas janelas para os muitos cantos da Terra com seus meninos cobertos de cinzas, como tatus enfiados em abrigos, retirados de escombros, meninos salvos de bombardeios, meninos em botes apinhados de gente em pânico, bichos enlouquecendo em cativeiros, essas imagens do dia que entram por nossos olhos e depositam seus ovos aqui dentro. Então o silêncio. Então um tempo imenso sem registro, mas de íntimas batalhas. Para colher do mundo um mundo que mereça uma criança. Como aquela mulher que caminhava debaixo de chuva, com bolhas nos pés, em tempos de guerra, procurando um ramo de rosas para trazer para casa. Como o passarinho que vai preparando seu ninho contra o vento com centenas de minúsculos gravetos: ainda cuidar de fazer dentro de um dia uma cama de pequenas graças. Não são as palavras que custam a ganhar forma, custa é colocar alento nelas. Não leve a mal, meu amigo. Uma palavra demora um milagre a nascer.

| crônica do livro Entre imagens para guardar (Ed. ardotempo, 2017). |

Mariana Ianelli, nascida em São Paulo em 1979, estreou na literatura em 1999. É autora de oito livros de poesia, entre eles Fazer silêncio (2005), O amor e depois (2012) e Tempo de voltar (2016). Recebeu o prêmio Fundação Bunge de Literatura (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e foi quatro vezes finalista do Jabuti. Tem dois livros de crônicas, Breves anotações sobre um tigre (2013) e Entre imagens para guardar (2017). Escreve quinzenalmente aos sábados na revista digital de crônicas Rubem. Em 2018 estreou na literatura infantil com o livro Bichos da noite.

a história do corpo, de Santiago Nazarian

Como se houvesse realmente uma alma a ser libertada, o corpo ascendeu à superfície da água. Gases escapando do pulmão, bolhas à boca. Veio à tona como não conseguiria se ainda vivesse, ainda se debatesse, lutasse contra as ondas buscando uma saída, buscando a luz que vinha de cima, dos lados, onde estava a luz da superfície? Se o corpo ainda vivesse, não saberia, e enquanto dava seus últimos engasgos parecia tão difícil perceber o óbvio: em que direção nadar, para que nadar, como romper aquela linha. Agora que era apenas um corpo, tudo era mais simples. Nem a gravidade a puxar para baixo, nem o desespero a desorientar. Apenas os gases seguindo seu curso, a alma seguindo o fluxo. E o corpo vinha à tona como para zombar de um homem que se afogou.

Boiando com os surfistas, num final de tarde. Acompanhava as pranchas, rabeava-lhes ondas, era despercebido e deliberadamente ignorado, na mesma proporção; não era possível que ninguém não notasse aquilo. Ninguém queria se responsabilizar por um corpo que boiava entre ondas. Marcelo e Benjamin fingindo não ver. Manoel não vendo realmente. Cristóvão espichando o pescoço e se perguntando o que era aquele corpo, que hora vinha, hora sumia, inchado, disforme e esverdeado como um animal marinho. Há de se pensar que surfistas seriam mais solidários, mas ninguém tinha nada com aquilo.

Então, como corpo sem vontades que era, ele abandonou os surfistas. Como corpo sem vontade que era, ele seguiu correntezas contra as quais lutavam homens decididos. Apenas meninos. Um corpo sem vontade se deixou ser levado, como partículas, conchas e lixo. Enroscou-se em algas, acumulou areia. Levou mordiscadas de manjubas, nos dedos, nos olhos, nas calosidades dos pés. Então se cansou.

O mar o levou até a areia e o deixou lá. O mar recuou e o corpo agarrou-se à areia como o atrito de um surfista que não quer escorregar da prancha, agarrando-se à vida. O corpo ficou lá de bruços. As costas viradas para um sol que já não era suficiente para esquentá-lo. Nenhum sol seria suficiente para esquentá-lo. E as costas permaneceram viradas para um sol que nem esquentaria um corpo vivo. Um banhista vindo à areia, encolhido, retorcido, oferecendo as costas aos pingos esperando que o sol o rendesse e o secasse, não. O sol não esquentaria nem mesmo um verdadeiro banhista e faria com que aquele corpo permanecesse como um pecilotérmico, menos do que um pinguim. Inchando e esvaindo-se após a morte com um pulsar de vida. Pulsando por gases e líquidos e animais marinhos que escapavam e o invadiam. A vida continuava dentro dele, sobre ele, por todos os lados, apodrecendo.

Há de se pensar que os urubus chegariam primeiro. Ou os siris, os caranguejos, beliscariam sua carne e o limpariam em restos. Mas havia tanto mais naquela praia a digerir. As partículas de vidas, animais esquecidos, aquecidos, pelo sol ressecados, decomposição em estágio avançado. Peixes, pássaros, crustáceos. Qualquer praia é um banquete para necrófagos e os urubus podiam esperar. Antes, o corpo era um autofágico, invadido por si mesmo.

De dentro, fungos e bactérias, larvas e vermes. Todos os silenciosos que sempre habitaram o homem vivente agora se alimentavam do corpo dele, de dentro para fora, de cima a baixo, consumindo o corpo numa luta vencida. Luta perdida. Os vermes que se alimentavam de um estômago que acabaria na boca de um urubu. As larvas que seriam consumidas pelos siris que ainda viriam. O coração na boca de um aquelminto, no estômago de um osteícte, no bico de uma gaivota… voando. O corpo em nada interferia. Permanecia com as costas viradas para o sol, como se manteria se ainda tivesse vida, com os mesmos vermes, as mesmas bactérias, a mesma luta dentro de si.

E quem era, o que pensava? O corpo não pensa. Apenas vem à tona, é levado pelas ondas, é consumido e rejeitado e aguarda um local final para atracar. O corpo estava lá. E quisera ser colocado embaixo da terra, cremado, crucificado, ressuscitado em três dias e três noites, não faria diferença. O corpo não tem vontades. Quisesse reencontrar antepassados, uma lápide para ser lembrado, tivesse comprado uma sepultura e escolhido uma música para seu velório, não lhe valeria de nada. E fosse jovem ou fosse velho, em forma ou acima do peso, com traços harmônicos ou desgraçados, não seria possível dizer. Se comeu demais nas últimas semanas. Se voltou a frequentar a academia. Se absteve-se das drogas e da bebida, do cigarro e do açúcar, não faria diferença. Terminaria do mesmo modo, terminaria lá.

Com as costas para o pôr-do-sol, os urubus começando a rodeá-lo, não há mais possibilidades para o corpo; ou há uma infinidade de possibilidades, todas fragmentadas. A carne que é repartida entre irmãos. Os ossos que confraternizarão com as conchas. Seus parasitas que viverão novas vidas, novas mortes, os rastejantes microscópicos que encontrarão nova morada. Do corpo resta muito pouco agora. Do corpo não resta quase nada. O corpo tem apenas isso, apenas uma história. E essa história acabou.

Santiago Nazarian é tradutor e autor de nove livros, incluindo Neve Negra (Companhia das Letras, 2017) e Biofobia (Ed. Record, 2014).

parceiros, de Mauro Paz

Faz uma semana que não saio do quarto. Abro a porta três vezes ao dia para receber café da manhã, almoço e janta. Ontem abri a porta no meio da tarde. Passei o braço pelo vão e deixei com a camareira as roupas do corpo mais uma nota de cinquenta reais. Precisava das roupas lavadas e secas o quanto antes. A praia estava vazia, disse a camareira. Sugeriu que eu saísse para um mergulho. Entreguei outra nota de cinquenta. Pedi um pacote de cem folhas pautadas e três canetas azuis. Por um bom pedaço da noite, olhei o teto até decidir o que escrever. Hoje comecei este relato, assim ganho tempo e o pessoal do hotel pensa que sou algum escritor excêntrico. É difícil acreditar que me tranquei aqui por medo.

Edgar sempre diz que nego feio e alto igual a mim não precisa ter medo de porra nenhuma. Besteira. Desde moleque eu sou assim. Edgar sabe disso. Na oitava série, Cesão, um marmanjo repetente, cismou comigo. Disse que eu abri o bico para o diretor. Como se precisasse. Todos os professores sentiam o cheiro de maconha na volta do intervalo. Sou cagado. Fiquei três dias sem aparecer na escola. Ficaria mais. Voltei porque Edgar quebrou o braço de Cesão num jogo de futebol.

É perda de tempo me comparar com o Edgar. Uma vez fomos ao centro de manhã para uma instalação de TV. Terminamos o serviço depois da uma hora. Estômago colado nas costelas. Entramos numa lanchonete perto da Avenida São João. Levantei o braço pra pedir: dois pratos do dia, duas cocas sem gelo, por favor. O garçom cabeçudo de queixo largo trouxe tudo empilhado na mesma bandeja. Edgar cortou um pedaço do contrafilé. Quando arrastou o arroz para fazer a mistura, um dente rolou sobre o prato. Era um pré-molar obturado com a raiz quebrada e sangue na base. Qualquer um chamaria o garçom, o gerente, xingaria o cozinheiro. Ou até denunciaria a lanchonete para a vigilância sanitária. Edgar riu. Enrolou o dente num guardanapo e comeu tudo do prato. Sou cagado. Eu nunca mais comi arroz.

Edgar é o típico baixinho que encara tudo. Quase tudo. Detesta mulher feia. Na firma tem uma baranguinha chamada Veruska, trabalha no teleantendimento. Além de pintar o cabelo de vermelho e vestir umas blusas curtas que deixam a dobra de banha pra fora, a desgraçada tem uma voz aguda de morrer. Certeza que a empresa contratou pra foder com a vida de quem liga reclamando. Edgar não tinha nada contra Veruska, até trocarem as atendentes de sala. Na mudança, o Oliveira, do almoxarifado, encontrou uma foto do Edgar na gaveta de Veruska. Piada pronta. A foto acabou colada no mural com um coração de isopor e marca de batom. Edgar só perdeu a fama de namorado da Veruska semana passada. Eu não fazia a menor ideia que tinha câmera de segurança na escadaria do estacionamento. Boa parte do pessoal deve achar que eu sumi porque o vídeo vazou. Foda-se. Pelo jeito que Veruska baixou as calças e pegou no meu pau, não dava há um ano. Essa é a grande vantagem das barangas. Como Deus não ajudou no layout, capricham no boquete. Não fosse a história do filme, eu pegaria outras vezes.

Edgar sempre diz que quando faz merda, o melhor é agir como se nada aconteceu. Aposto que hoje pela manhã Edgar desceu ao depósito da firma, separou codificadores, modens, cabos e olhou a lista de visitas. Edgar sempre deixa para o fim do dia as visitas agendadas com nomes velhos, como Elza, Lauro, Décio. Velho não entende nada de TV e internet. É só remendar a instalação para funcionar por uns dias e dar baixa no codificador novo como se o tivesse instalado. A parte mais fácil do negócio é achar quem compre um codificador desbloqueado. Garanto. A gente vendeu mais de duzentos em três anos. Quatrocentos reais cada. Você compra uma belezinha dessas e nunca mais paga mensalidade de TV a cabo. Um bom negócio para nós e para quem compra. Para a firma, um rombo. Cada vez que ia ao banco depositar dinheiro na poupança, pensava na prisão. É lance temporário, dizia Edgar. Só o tempo de juntarmos cem mil para abrir um boteco no bairro e ficar de boa. Sou cagado. Na cadeia, nego medroso igual a mim vira a mulherzinha da cela.

Garanto que ontem o Jorge, do RH, ligou lá pra casa. Minha mãe não faz ideia de onde estou. Melhor assim. Edgar conhece bem Dona Marta. Seria dois palitos para descobrir o endereço aqui do hotel. Depois que deixei o bilhete sobre a mesa de Jorge contando como somem os codificadores, o clima na firma ficou tenso. Certeza. Pior ainda para Edgar. Além de responder um milhão de perguntas, está longe de saber pra onde fugi. Espero que nunca saiba. Não importa que eu dê a metade do dinheiro. Edgar não perdoa. Conheço bem. Agora quer as duas partes. Quer a minha orelha raspada contra a laje da calçada. Quer Dona Marta envergonhada pelo filho traidor. Sou cagado, Edgar não. Duvido que algum colega de cela toque na bunda de Edgar.

Mauro Paz é escritor, publicitário e cineasta. Além da participação de diversas antologias, tem três livros publicados: Por Razões Desconhecidas (IELRS), finalista do Prêmio SESC de 2012; São Paulo — CidadExpressa (Editora Patuá); e o romance Entre Lembrar e Esquecer (Editora Patuá), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

memória, de Fabiane Guimarães

A cidade inteira só sabia amar o General. Por isso fincaram bandeiras a meio mastro em pano preto e choraram lágrimas gordas de besouro. Sobraram mãos para carregarem o caixão e, na cerimônia solene, deram-lhe de presente uma rua. Homenagem maior, num pedaço de sertão goiano, a placa que assinala uma esquina. Rua do General. Ninguém sabia o primeiro nome dele, nem o último, o que vinha além de tudo. Mas o amor do povo era assim anônimo.

Para confessar, no começo, eu não sabia sequer de onde vinha o apelido. Quando o General chegou já era velho, encardido e pequeno, com uma espessa cabeleira branca e a perna meio manca, troncha; não fazia, aos meus olhos, o tipo militar. Além de tudo tinha um sorriso fácil, um gosto pela cachaça de banana ao meio-dia, pelo futebol de domingo. Um homem simples. Forasteiro, mas simples. Talvez inspirasse ali algum respeito, e era isso. Um general de bons modos.

A notícia era que tinha terras, mas não cuidava delas, preferia recostar-se ali tranquilo, sempre no corredor das calçadas onde se erguiam as mesas de bar, com um baralho no bolso à espera de parceiro. Fazia piada com a fábrica de leite e queijo, dizia que amava o cheiro, que se lembrava das tetas da mãe; o cheiro que empesteava tudo, azedo e cremoso. Nesta época eu não achava nada disso divertido, mas ria para o General me pagar outra cerveja. A fábrica de leite era dura, e meu pai trabalhava dois turnos para garantir-nos a comida. Eu tinha cinco irmãos.

Apesar de tudo, do falatório incessante e vazio de graça, gostava da companhia do General. Não achava, como o resto, que fosse um deus. Não me alimentava de seu dinheiro, não mais do que alguns trocados. Gostava de ouvi-lo suspirar, olhando para o nada, até escurecerem os olhos. Cedo demais compreendi que o General era um homem que todo mundo amava sem entender.

Ele devia ter lá seus setenta anos quando se casou com a Maria das Graças e assumiu, de papel passado e tudo, a Manoela. Pegou menina, viu crescer, era assim como pai mesmo. Eu, dezoito anos e cheio de desejos imperturbáveis, de namorico sincero e cristão, fui pedir a mão da Manoela em casamento. Estava suando frio. O General me via como um garoto leiteiro de bigode ralo, filho de operário, parceiro de buraco ocasional, companhia de boteco. Não me via como genro. E não me viu. Nem me ouviu dizendo que pretendia estudar, que Manoela seria rainha.

Segurou meu braço com força e disse, com a voz tranquila e morna, que podia me matar ali mesmo, depois dar de comer aos cachorros. Acreditei, porque houve medo.

Rompi com Manoela, gostaria de dizer que não por esse motivo. As notícias de seu pai me chegavam meio tortas, eu ressabiado estranhava o sentimento: tratava-se de um homem muito bom, que mandava construir igrejas e comprava cadeiras de rodas para os velhinhos do asilo, um amigo querido, o que pensava eu de sua conduta protetora e zelosa? Fiz as malas para estudar em Brasília, meu próprio pai não ajudou em nada, mas disse que sentia orgulho do seu filho que não iria cheirar a leite.

“Sabe, Augusto, qual é a maior esperteza do diabo?”, o General me perguntou uma vez enquanto jogávamos buraco, eu ainda tinha treze anos, ainda não namorava meninas proibidas. “O diabo, mesmo, nunca faz nada”.

Disse isso com um tom sério, amargo, depois armou um sorriso para disfarçar. Não me lembro do assunto em pauta. Talvez algo sobre as contendas religiosas que ele travava. Talvez sobre o meu nariz quebrado em uma briga de escola. O General era mais pai do que o meu pai que cheirava a leite. Até não ser.

Manoela me ligou duas vezes em sete anos. Na primeira vez, não atendi. Não queria alimentar nela falsas esperanças. Na segunda, trabalhando como escrivão em uma delegacia abarrotada, atendi por curiosidade. Ela estava chorando. Quase não entendi as palavras que chegavam atropeladas em um engulho só: meajudamatarammeupai.

Aos oitenta e cinco anos, enquanto cruzava pacificamente a pracinha principal, com uma sacola de compras nas mãos, o General tinha levado sete tiros. Cinco no peito, o resto na cabeça. O caixão estaria irremediavelmente fechado. Eu disse a Manoela que iria para o enterro, sim, com certeza, dali a observar o festival de lágrimas de besouro, de bandeiras a meio mastro, de emplacamento de esquinas. O delegado local, conhecido meu, me colocou a par dos suspeitos: nenhum.

Uma execução completamente limpa.

Por dias, Maria das Graças e Manoela, recebendo-me com biscoitos e cafezinho, achavam que eu prestava considerações de luto com a posição de um especialista forense. E que, se pedia acesso aos documentos pessoais e rastros do General, eu o fazia para descobrir o culpado de sua morte, para fazer-lhes justiça ao resolver o grande mistério.

Foi só assim que eu descobri que ele se chamava Paulo Mendes de Fonseca Aguiar, formado na Academia Militar das Agulhas Negras do Rio de Janeiro, que tinha uma ex-esposa e três filhas na mesma cidade em questão; e só assim descobri que ele tinha sido um proeminente carcereiro com especialidade em correntes elétricas e banhos gelados; que adorava arrancar unhas e seu passatempo preferido era fazer os outros engolirem lâminas de barbear até cagarem o próprio intestino em retalhos.

Nem Manoela, nem Maria das Graças, ninguém deu muita atenção aos fatos recortados de jornais antigos que narravam o sumiço do figurão, dado como muito conveniente e depois disperso na atmosfera do tempo. Depois, me acusaram de não respeitar a história alheia e de acobertar assassinos que dão exatos sete tiros em homens de bem. A placa ficou, o amor restou sereno, indelével, pela alma do injustiçado. De minha parte, só posso compreender um pensamento, uma memória de leite despontando no céu da boca: o diabo, mesmo, não faz nada, nunca fez nada.

É que fazem por ele.

Fabiane Guimarães é jornalista e escritora nascida no interior de Goiás, e atualmente mora em Brasília. Aguarda a publicação de seu primeiro livro, Pequenas esposas.

pólvora, de Diego Moraes

Homem apaixonado é barril de pólvora. Explode. Tive um padastro negão quando era moleque. Da polícia. Barra pesada. Linha de frente. Cara que ia pra trocação de tiros com a bandidagem nas décadas de 80/90. O chamavam de “Apollo Creed” na delegacia onde tirava plantão. Tratava minha mãe muito bem. Como rainha. Nunca tocou o dedo nela, mas pirava nos ciúmes. De chegar a bater cabeça na parede e chorar no meio da sala na frente de mim e da minha irmã. Não entendia muita coisa. Devia ter sete ou oito anos. Minha vida era ver desenho e chupar sorvete. A vida é tão simples quando a gente só se preocupa em ver desenhos e chupar sorvete. Acontece que certa vez o telefone tocou lá em casa e ele ficou puto. Botou uma camiseta havaiana e o revólver na cintura. “esse filho da puta não passa de hoje!”. Certeza que ele mataria alguém. Talvez um cara que tivesse na moita com a minha mãe. Dando em cima. Importunando. Ou só um vagabundo traficante ou assaltante de banco. Ele segurou minha mão com força e me colocou no banco de passageiro do carro velho dele e dirigiu até uma ladeira onde tava rolando uma banda de carnaval no bairro Educandos. Ficamos distante do frevo. Da muvuca. Acho que pra não dar manchete. A morte não faz alarde. A morte não gosta de enxame. “não sai daqui! Se eu demorar muito você corre naquele bar e fala que mataram seu pai”. E apontou com o braço preto para um barzinho chamado “dois irmãos”. Esse bar existe até hoje. Ele não era meu pai. Não tinha consideração nenhuma por ele. Só o respeitava por ser maior do que eu, mas no fundo o achava bobalhão. “A gente só chora quando é criança” era o que eu dizia para amigos do colégio. Então, ele acendeu um cigarro e saiu com todos os demônios na caçada de um cara e eu fiquei no carro escutando um hit qualquer. Tava com vontade de fazer xixi, mas fiquei segurando. E ele demorou, demorou tanto que tive que abrir a porta do Passat e urinar na rua mesmo. Uma mulher gorda e bêbada, muito gorda e bêbada, com olheiras, bafo de cerveja e estrias no peito começou a me chupar. Meu pintinho não levantou. Meninos tem pinto. Homens tem pau. Ela chupou e depois virou o rabo grande cheio de purpurina na minha cara “morde meu rabo. Dá um beijo bem gostoso no meu rabão”. Eu mordi com tanta força que fiz xixi na calça e ela saiu pulando carnaval. Meu padastro voltou com o nariz sangrando espalhando lodo vermelho na camiseta. Então comecei a chorar. Meus lábios começaram a arder muito. Acho que a gorda tinha passado pimenta no rabo. Chorei, chorei e meu padastro disse pra eu não me preocupar, mas não tava chorando por ele. O tempo passou. Assassinaram meu padastro com 8 tiros num motel da zona sul e hoje, já crescido, sei que o amor arde nos lábios por um tempo e depois some da vida da gente feito miragem. Feito uma gorda pedófila e bêbada que só quer pular carnaval.

Diego Moraes é poeta e contista. Tem sete livros publicados. Alguns dizem que ele é uma das melhores novidades surgidas em nossa literatura nos últimos anos. Os inimigos discordam, é claro.