publicações

submissão, de Christiane Angelotti

Vitor e Rosa casaram-se. Rosa passava o dia cuidando da casa, costurando e vendo tevê. Vitor não queria que ela trabalhasse fora, nem mesmo que aceitasse costurar para a vizinhança. Pouco tempo depois de casados Rosa ficou grávida. Aprendeu crochê e tricô para fazer o enxoval do bebê. Vitor trazia presentes com frequência para a esposa. Como era marceneiro, fez um lindo berço de madeira.

Em uma manhã de sábado nasceu Luana. Ana Maria queria estar mais presente na vida da neta e da filha. Com o tempo, Vitor implicou com as visitas frequentes da sogra, que passaram a acontecer somente na sua presença, uma vez por semana. Vitor tinha ciúme de Rosa. Tinha ciúme, inclusive, dela com o bebê. Rosa estava proibida de sair de casa, mesmo que fosse para ir ao mercado ou atender o portão. Nem à casa de sua cunhada, Berenice, sua vizinha, ela podia ir sozinha. A jovem sentia-se triste. Era prisioneira em sua própria casa.

Para não piorar a situação, ela omitiu do marido que o cunhado Eraldo dava em cima dela com frequência. Contou à única visita que recebia, sua amiga Marluce, que Eraldo havia tentado beijá-la a força outro dia e que só conseguiu escapar porque ele ouviu Berenice chegando da padaria. Rosa passou a trancar a casa durante o dia com medo do cunhado. Só ficava relaxada quando tinha certeza de que ele estava no trabalho.

Quando Luana ia completar três anos, Rosa e Vitor resolveram fazer um almoço para a família. Ana Maria não pôde ir, pois estava com um resfriado muito forte. Como ela havia feito um bolo para a neta, Rosa foi buscar. Mãe e filha passaram a tarde juntas. Conversaram, choraram e se lamentaram de se verem tão pouco.

Rosa voltou para casa de carona com um casal, vizinho de sua mãe. O marido a viu chegando e não gostou. Gritou com Rosa e a recebeu com um tapa no rosto. Tiveram uma de suas piores brigas. Rosa sentiu medo, decepção, raiva. Ameaçou ir embora de casa. Foi empurrada contra a parede. Vitor ameaçou que se ela fosse embora jamais veria a filha outra vez. Rosa chorou. Seu marido havia se tornado um homem possessivo, ciumento e violento. Na mesma semana, Vitor pediu que seu amigo e cunhado, Eraldo, vigiasse Rosa sempre que estivesse por perto. Eraldo alimentava o ciúme de Vitor.

Rosa hesitou contar para o marido que estava grávida. Já não tinha certeza sobre as reações de Vitor. Quando a barriga estava quase aparecendo, na décima terceira semana, ela tomou coragem e contou, mas mentiu sobre o tempo de gestação. Tinha muito medo de que ele brigasse com ela mesmo sem motivo. Como explicar que ela sentia pavor dele? Ainda assim, ela mais uma vez pensou que tudo ficaria bem, pois Vitor estava radiante com a notícia de que teria outro filho. Ele passou a ficar mais em casa, era carinhoso com Rosa e continuava mimando a pequena Luana.

Cerca de dois meses se passaram. Era aniversário de Rosa e ela preparava o jantar. Ana Maria esteve na casa da filha mais cedo, havia trazido de presente uma camisola e tecidos para Rosa fazer novos vestidos para sua neta. Vitor tinha saído com Eraldo, que disse precisar desabafar com o cunhado. Voltariam antes do jantar.

Eraldo iniciou a conversa aos prantos, dizendo estar triste por ter que se abrir com o seu grande amigo, pois sabia que o cunhado estava em uma fase muito feliz com a família, mas que não podia deixar que ele continuasse a ser enganado por sua esposa. Afirmou, então, que a criança que Rosa esperava não era filha de Vitor, e sim dele, que Rosa o havia seduzido em um dia que ele estava fora de si. Vitor, transtornado, deu um soco no cunhado e foi embora para casa.

Rosa recebeu-o com um beijo. Percebeu que o marido estava ofegante e tenso. Tentou conversar, mas Vitor permanecia calado. Disse que Luana estava na casa da tia, para que eles tivessem um jantar a dois.

— A dois? — Vitor murmurou.

—Não sou mais uma, não é mesmo? Mas não tira o romantismo do nosso jantar, Vitor! — disse Rosa, sorrindo.

Rosa levantou-se para tirar o assado do forno. Vitor pegou uma faca grande de cortar carne. Ouvia a mulher falando, ainda de costas, e era como se a voz dela ficasse cada vez mais distante à medida que ele se aproximava. Rosa estava prestes a se virar com a travessa de carne nas mãos, quando foi contida com força pelo marido. Rosa sentiu algo gelado perfurar suas costas. Depois veio uma dor aguda.

A travessa com a carne caiu no chão e Rosa tombou morta ao lado.

| conto originalmente publicado na coletânea Laudelinas, 2020, no [link]. |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

sorriso amarelo e a luta antirracista ou os ‘tamagotchis’ da branquitude, de Henrique Yagui Takahashi

No dia 25 de maio de 2020, Derek Chauvin assassinou George Floyd após asfixiá-lo com o seu joelho. O primeiro estava armado, o segundo, desarmado. O primeiro era um policial com um contingente de 3 policiais para apoiá-lo, enquanto o segundo, um cidadão comum que estava sozinho. O primeiro é um homem branco, o segundo, um homem negro. Ambos, estadunidenses.

Durante os 8:46 minutos, havia um policial que os observava calado. Floyd agonizando sob o joelho de Chauvin. Calado porque era o seu trabalho. Calado porque não tinha nada a ver com ele. Calado porque era mais um dado para a estatística.

Este policial é Tou Thao, da etnia Hmong, imigrante oriundo do Laos, no Sudeste Asiático.

Um imigrante que trabalhou duro em busca de uma vida melhor, sem reclamar. Esta história não te parece familiar?

Tou Thao é um de nós. Não porque ele tenha as mesmas feições, mas porque é um imigrante que buscou uma vida melhor. Ele poderia ser o teu bisavô, avô, pai, tio, primo ou irmão. É o imigrante que sob qualquer custo buscou sua ascensão social. Ascensão que é sinônimo de assimilação. No caso brasileiro, não seria a assimilação festiva e banal. Não é somente o “japonês que gosta de samba”. É a assimilação que se integra à estrutura do mito da democracia racial.

Os amarelos ocupam uma posição estratégica dentro do gradiente racial brasileiro entre brancos e negros. Por não pertencermos à identidade nacional brasileira, somos considerados os “estrangeiros perpétuos”. Sempre que me perguntavam: “De onde você é? Da China, do Japão ou da Coréia?”. Respondia calmamente: “Do Brasil”. O emissor da pergunta me olhava inquieto, tentando digerir a resposta que lhe havia acabado de dar e me perguntava novamente: “MAS DE ON-DE VO-CÊ RE-AL-MEN-TE É?”. Respirava fundo e dizia: “BRA-SIL”.

Esta posição de ser o estrangeiro perpétuo parece irrelevante, porque pode soar como uma “simples brincadeira”. Contudo, por detrás desta “brincadeira”, há a constituição dos asiáticos-brasileiros como engrenagens que reforçam o racismo estrutural.

O nome para isto é o conceito de “minoria modelo”. Por sermos os eternos estrangeiros, a única forma de sermos assimilados pela sociedade brasileira foi trabalhar muito. Trabalhar mais do que o salário recebido. Estudar mais do que o solicitado. Trabalhar sem se queixar. Estudar, mas algo que dê dinheiro. Eles nos deixaram ser doutô, mas calados e resignados.

Ou não diria totalmente calados, pois expressamos nossa opinião em um caso particular.

Os asiáticos são instrumentalizados pela branquitude para ser o seu habeas corpus racista. Alguns de nós afirmam orgulhosamente esta lógica de desumanização, bradando: “Eles são preguiçosos! Nós trabalhamos duro!”. Este é um dos raros momentos que você vai ver um “japonês” expressar-se politicamente em público.

Em 2017, na sede da Hebraica no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro proferiu um discurso que ilustraria a “minoria modelo”: “Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”. E complementou, “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”.

Não é por um mero acaso que Bolsonaro proferiu este discurso eugenista, referindo-se especificamente ao quilombo. Ele quer diminuí-lo, pois ele sabe de sua potência de transformação radical na sociedade brasileira. O quilombo representa o símbolo de agência política e luta por dignidade humana protagonizada pela comunidade negra.

Aqueles de olhos puxados que apoiam o Bolsonaro em coro representam o duplo ressentimento da diáspora asiática. O ressentimento do poder hegemônico da branquitude e o ressentimento do poder de resistência da negritude. Talvez venha daí a origem do “sorriso amarelo”.

Eu tenho uma tradução particular para o conceito de “minoria modelo”. O definiria como “bicho de estimação da branquitude”. Onde passeamos com o nosso dono três vezes por semana e comemos a ração Pedigree Frango Orgânico com Espinafre. Temos o nosso lugar para fazer xixi e cocô. Temos uma casinha no quintal feita de pinho e uma almofada da IKEA na sala de estar. Porém, se fazemos algo que não agrada o nosso dono, ele bate no nosso bumbum e diz: “Feio! Isso é muito feio!”. Nos escondemos calados, com o rabo entre as pernas.

A “minoria modelo” gera uma forma de existir que chamaria de ontologia do pastel de flango. A expressão “pastel de flango”, construída pela branquitude, significa ao mesmo tempo: “você me serve” e “você nunca será um de nós”. Por isso a diferença entre “flango” e “frango” não é apenas uma questão de correção gramatical, mas uma subserviência ao modelo hegemônico de existência.

Você pode me perguntar: “Se você critica o Brasil, por que você não volta para o seu país?”. Primeiro, já respondi esta pergunta. Segundo, não critico a brasilidade para defender os nacionalismos asiáticos. A China e o Japão ocupam historicamente na Ásia a mesma posição imperialista dos EUA e Europa no Ocidente.

Peço licença a José Martí, mas por detrás de patriotismos como o brasileiro, o japonês, o cubano, o estadunidense ou o chinês, há genocídios. Não é à toa que o filho do rei português que virou imperador do Brasil por ME-RE-CI-MEN-TO bradou: Independência ou Morte! Ou mesmo, a famosa frase do comandante Che Guevara: “¡Patria o Muerte!”. Ambos sinalizaram que não há pátria sem morte. O auto sacrifício como sinal de heroísmo demonstra que não há ação política patriarcal sem a aniquilação de si e do outro. Apesar de Dom Pedro I e Che Guevara estejam em espectros políticos diametralmente opostos, ambos, argumentam o uso político da morte em defesa da pátria. O sacrifício do herói com sua pátria é, em última instância, a aniquilação para a manutenção patriarcal do poder. Não é por coincidência que a origem etimológica de pátria em latim é patrius, terra dos antepassados aka terra do pai.

Com as manifestações do Black Lives Matter eclodiram vários movimentos em defesa de uma solidariedade antirracista. Sem nenhuma surpresa, vi alguns brancos progressistas tupiniquins declarando que as marchas são manifestações românticas e impulsivas. Dizem não se comover pelo “surto de empatia”. Em resumo, formularam as mais variadas explicações para argumentar que seus privilégios como herdeiros da Casa Grande no Brasil não se estenderiam em terras estadunidenses, por este motivo, infelizmente, não poderiam ir às manifestações.

Na hora “H”, o branco progressista fala, fala e fala (porque tem muita visibilidade para falar), justificando com termos acadêmicos bem precisos o seu medo da soberania popular. Tem medo porque ele precisa que haja um sistema de opressão para a manutenção de seu privilégio.

No horizonte utópico de transformação social, não haveria nem a esquerda patriarcal nem o progressismo branco. As feministas latino-americanas, em especial as feministas negras brasileiras, vêm construindo há décadas esse modelo de solidariedade antirracista, antipatriarcal e anticapitalista. Não é como algum de nós, que se deparou com estas lutas somente agora.

Para citar algumas dessas intelectuais-militantes: Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Rita Segato e Silva Rivera Cusicanqui.

Por isso, Marielle Franco mobilizou e mobiliza tanta gente. Marielle como mulher, negra, lésbica, acadêmica, vereadora e de favela não representa apenas uma pessoa individual com todas estas identidades. Marielle Franco, parafraseando a antropóloga argentina Rita Segato, é o símbolo vivo da política como poder coletivo e solidário.

O assassinato de Marielle simboliza a política de aniquilação constitutiva da branquitude, do patriarcado e do capitalismo. A lógica de extermínio representada hoje por Jair Bolsonaro.

Elas nos mostram como o pensamento feminista construiu um modo de pensar o mundo criticamente, não se restringindo à vagueza da abstração autorreferente, produzindo assim uma ação prática. Elas que me ensinaram os sentidos das relações interseccionais que me atravessavam como homem amarelo emasculado que aspirou integrar-se à minoria modelo. Este pensamento produz uma ação com reflexão, ao mesmo tempo estrutural e existencial, do mundo.

Até quando seremos os tamagotchis da branquitude?

Henrique Yagui Takahashi nasceu em São José do Rio Preto, interior do estado de São Paulo. Possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Foi professor de sociologia e filosofia no ensino básico e superior no Brasil. Atualmente é doutorando em Estudos Literários e Culturais Latino-americanos pela The Ohio State University. Integrante do podcast Amefrica Landina, um espaço de discussões em português, espanhol, portuñol e spanglish sobre América Latina.

lançamento do livro ‘A clareira e a cidade’, de Rodrigo Novaes de Almeida

capa_urutau-1
Clique na imagem para comprar o livro no site da Editora Urutau.

A Editora Urutau e o autor apresentam o livro A clareira e a cidade, já disponível para venda no [link]. E sábado, dia 11 de julho, teremos uma live de lançamento. Veja mais detalhes no [link].

* * *

A clareira e a cidade é o quinto livro de Rodrigo Novaes de Almeida, sendo sua primeira antologia poética. O título remete ao pensamento de Martin Heidegger — para este, a linguagem é a morada do Ser e cabe aos poetas e pensadores habitar nessa morada.

No entanto, as questões levantadas na obra que o leitor tem em mãos não são metafísicas, e sim aquelas que exigem uma práxis que liberte o homem da vida massificada. A proposta heideggeriana é ontológica. As inquietações filosóficas do poeta buscam um pensamento que não atropele os movimentos sociais e ao mesmo tempo dialogue com as questões atuais. De modo especial, uma antropologia.

Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.

(Tito Leite para o posfácio de A clareira e a cidade)

DO FILHO MALSUCEDIDO

há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)

um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz

como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si

SOBRE O QUE SONHAM MONÓCEROS?

Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;

_____(mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
_____em que erramos em tudo,
_____em que nunca estivemos tão tristes,
_____e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.)

Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?

capa_urutau-2

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti em 2019, e Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

três poemas do livro ‘Midiaserável’, de Delalves Costa

1 CAPA Midiaserável 2020 Editora Patuámade in Brazil

O catador pão-dormido então acordou
envolto ao frio e vento
sob notícias do jornal.
O café matinal é farto:
folhados, quinhentos-queijos café
expresso londrino pães
leite suíço (vacas azuis)
e sucos do laranjal tipo export.
Made in Brazil, a fome à farta
mesa tupiniquim: suor
de sol a sol bordado com petróleo
e estampa canavieira.
Enquanto isso, brasil
(de ruas viadutos calçadas)
vaga à revelia empurrando
recicru i fasso linpesa,
a língua-urgência de quem quer comer.

o cobertor-jornal

E de quebranto, o céu da minha boca
conheceu a Noite. A criança
levada de rua, pelos cabelos
arrastada posta aos olhos do caos.
Sempre que nos sepultam
neste mundo vaidoso, condolente,
um súbito mau-olhado desalinha-
se os gritos a infância toda
pede socorro a quem cerra os dentes.
Quer-se fôlego? Suplica-se!
Lua, estrelas de férias no bocejo
não iluminam o cobertor-jornal
sobre o feto já sem útero.
Nessas horas ninguém vê nada:
até vento atravessa a rua
para não acordar a pátria
entre as notícias que já não sonham.

ousa — dia de nascer

Se se sabia que era impossível? Ora,
existir é para quem ousa
e planta penso no útero,
resistência para a letal inconstância,
às g(estações do tempo)
que alimenta pensantes
e mata homemporâneos.
Refletida em alto-relevo,
seca, é cor terra a mente
eis um dia viva semente
no torto voo do pássaro
dos monstros, liberte-me
e faça in(tenso amor comigo). Ora
gauche, ora genética. Eis
que o verso nasce, e finjo
disfarço invento e insurjo
para os tortos filhos (sobre trilhos)
falarem de ética no caos!

| poemas do livro Midiaserável (Editora Patuá, 2020), saiba mais no [link]. |

Delalves Costa (13 de dezembro, 1981 — Osório, RS), poeta e escritor com vários livros editados. Obras recentes: extemporâneo (Editora Coralina, 2019), Midiaserável (Editora Patuá, 2020) e Óculos de princesa (Papo Abissal, 2020, infantil). Em 2019, foi um dos 60 autores selecionados para o Projeto Autor Presente, do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Mestre em Educação (Uergs). Graduação em Letras Português e Literatura Portuguesa (Unicnec). É professor de Língua Portuguesa, Literatura, Metodologia de pesquisa e Linguagens Aplicadas na rede pública estadual de ensino do RS.

coluna últimas páginas #7

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a sétima. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Fuga para as estrelas

Rio de Janeiro, 27 de junho de 2020.

Estou por fora das novidades do gênero de ficção científica na literatura, o último autor que li além dos clássicos foi China Miéville, com a obra A cidade e a cidade. No entanto, quando estou realmente cansado do trabalho, do cotidiano e até das leituras obrigatórias bastante comuns a um editor, como também dos noticiários e das pessoas do meu dia a dia, tenho uma fuga por hábito há cerca de vinte e cinco anos: reler os livros da saga Fundação, de Isaac Asimov, ou os da saga Rama, de Arthur C. Clarke.

Ano passado reli os cinco livros da saga de Asimov, que descrevem em detalhes a História, com H maiúsculo, de um futuro distante da humanidade, espalhada pela galáxia. Governada por um imperador, a civilização corre o risco de se fragmentar com a queda do império. A premissa da narrativa é o livro de Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano. Para evitar essa fragmentação, um psicohistoriador (uma nova ciência inventada pelo autor) decide criar um grupo de enciclopedistas para reunir todo o conhecimento da humanidade. Acompanhamos quase mil anos de aventura dos seres humanos para recuperar a unidade perdida.

01_retrofuturismo-sovietico-urrs-7Agora, durante a quarentena, sem conseguir realmente fixar a leitura em um único livro (vinha lendo vários, ou fragmentos deles, não concluindo de fato nenhum), decidi reler a saga de Arthur C. Clarke*. São quatro livros, o primeiro — Encontro com Rama — lido no sábado passado. Uma gigantesca nave alienígena, um cilindro medindo cerca de 50 quilômetros de comprimento, chega ao nosso sistema solar, desencadeando uma série de acontecimentos (e levantando várias questões existenciais, já que é a comprovação de que não estamos sozinhos no universo, pensamento, aliás, demasiadamente arrogante de nossa parte) que levará um grupo de seres humanos a viajar pela galáxia.

Entrar em naves espaciais e percorrer, portanto, a galáxia em aventuras é para mim a fuga perfeita para esquecer completamente esse nosso mundo cada vez menos propenso a olhar para novos e instigantes futuros possíveis em vez de repetir o que existe de mais atrasado em nosso passado, uma mistura de ladainhas fundamentalistas baseadas em uma religiosidade arcaica e tacanha e de um viés ideológico anticiência e anti-iluminista. Infelizmente, não são apenas o Brasil e os Estados Unidos que passam por isso, cada um com suas características particulares, mas boa parte do globo. É um sinal da década, um triste e terrível sinal.

O fato de termos um presidente da República mau, e não simplesmente ruim, mas essencialmente mau e sem empatia alguma, despreparado e burro, uma burrice assassina, que algum dia o levará a prestar contas no tribunal de Haia (assim espero!), nos deixa ainda mais exaustos. Sonhar com as estrelas é a minha fuga, um intervalo que me dou o direito a fim de limpar a mente e voltar com energia para lidar com esse nosso mundo e responder à barbárie.

* As três continuações do clássico Encontro com Rama foram escritas em parceria com o engenheiro-chefe de importantes missões da NASA Gentry Lee.

CITAÇÕES SOBRE GUERRA

hemingway“Guerras produzem suas fraudes verbais e frases antissépticas, como ‘dano colateral’. Mas assassinato tem de ser chamado pelo que é: assassinato.” (Robert Fisk, correspondente do jornal britânico Independent)

“Se você nunca viu uma batalha, sua educação foi negligenciada. Afinal, a guerra sempre foi uma das principais funções da Humanidade. Se não vir homens lutando, terá perdido algo fundamental.” (Herbert Matthews, correspondente na Segunda Guerra Mundial)

“Foi um belo dia aquele dia.” (Ernest Hemingway, se referindo ao dia em que encontrou soldados da resistência marchando para Paris na Segunda Guerra Mundial)

POESIA

A QUEIMA DOS LIVROS
(de Bertolt Brecht, tradução de Paulo César de Souza)

Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista de livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!

DICA DE LEITURA

1. O poema “Festim em tempo de peste”, do poeta russo Alexander S. Púschkin, com tradução e introdução do professor da USP Boris Schnaiderman, publicado em edição da Revista USP.

Link: https://bit.ly/usp_puschkin

DICAS PARA ASSISTIR

1. Cineclube Vladimir Herzog disponibiliza filmes clássicos no seu canal no Youtube. Confira no [link].

2. O site que simula um passeio de carro por cidades do mundo. No projeto Drive and Listen, é possível visualizar as ruas e ouvir a rádio local de diversos lugares. Confira no [link].

CITAÇÃO

“Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.” (Guimarães Rosa)

A próxima coluna será publicada sábado, 4 de julho de 2020.

joey, o extraterrestre, de Victor Toscano

Foi como ver um fantasma. Era o Joey mesmo vindo na direção contrária na faixa de pedestres? Havia sempre tanta gente atravessando a Conde da Boa Vista, seria ele? V. interrompeu a marcha, esperando que o velho amigo cruzasse seu caminho. Era ele, sim. O mesmo rosto de cavalo triste, o mesmo caminhar de orangotango. “Cara, é tu!” Sem parecer ter escutado, Joey virou o rosto pro outro lado e seguiu. V. ficou ali, vendo seu primeiro grande amigo tratá-lo como um panfleto de dieta, enquanto carros e motoqueiros, enxergando-o muito bem, espremiam suas buzinas para o basbaque paralisado na rua mais movimentada do centro.

Eles se conheceram quando tinham doze anos de idade no colégio Dourado. Joey viera do período da tarde para o da manhã. Falava rápido demais, com um sotaque do sul. No recreio, conversaram sobre Cavaleiros do Zodíaco e Mega Drive. Ficaram melhores amigos.

Às tardes, V. ia na casa de Joey. Dona Lúcia, mãe dele, uma velhinha de olhos felizes, preparava uma baita de uma galinha com farofa. Ela fazia os meninos rezarem antes de comer, depois contava algumas histórias sobre anjos que ficam de olho na vida dos humanos. Joey disse qual era a religião deles, mas V. nunca conseguiu lembrar o nome. Faziam o dever de casa, jogavam videogames e tomavam banho de piscina. “Teu pai deve ser rico”, disse V. Joey morava em cima de uma padaria, que pertencia a sua família. Perto das seis da noite, um cheiro macio de pão invadia a sala. Dona Lúcia falava um pouco mais sobre espíritos caridosos enquanto os meninos comiam pão com margarina e esperavam o pai de V. ir buscá-lo.

Demorou um bocado para que V. enxergasse em Joey o que os outros conseguiam com tanta facilidade.

Joey raramente dizia coisas sem se babar um pouquinho. Quando jogava futebol, parecia ter mais pernas que um polvo; se enroscava nelas caindo de bunda no chão duas de quatro vezes em que recebia um passe. Era muito alto pra sua idade, mais alto até que os professores, porém nada atlético, o que o fazia pender de um lado ao outro quando andava, como o simpático personagem do filme E.T. Havia em seu rosto como que duas bengalas de costas uma para a outra compondo nariz e sobrancelhas. Os olhos pareciam uvas chupadas e cuspidas por alguém que as detestou, e a boca não era mais que um rasgo rugoso na pele. Os meninos gostavam de chegar bem pertinho dele, tocar o indicador na ponta do nariz de Joey e dizer: “E.T., telefone, minha casa”. As meninas riam sobremaneira.

Uma vez que viu, não conseguiu mais desver. Primeiro, V. presenciou Eduarda e Marcela dizendo a Joey que tinha meleca saindo do nariz dele. Ele se punha a enfiar o dedo na venta e contestar. “Não tem nada, tão vendo?”, fumaçava, erguendo o anelar. As meninas gargalharam tanto que começou a sair meleca do nariz delas. Depois, foi quando encontrou o amigo no centro de uma roda sendo interpelado sobre a existência de anjos e espíritos. Os meninos atiravam montinhos de areia molhada na boca e olhos de Joey toda vez que ele dizia a palavra “anjo da guarda”.

Naquele mesmo dia, enquanto caminhavam para casa, V. disse ou suspirou: “Tu sois meio retardado”. Trilhou o resto do caminho pelo menos cinco passos à frente do colega. Foram almoçar, como era de costume, na casa de Joey. Dessa vez, a pele da galinha estava gelada e a farofa sem tempero. Dona Lúcia, V. percebeu, tinha um nariz estreito e lacunoso como o do filho. O cabelo grisalho e sem vida daquela velhaca fazia o hábito da reza parecer um filme de terror. E que família era aquela cujo pai só aparecia uma ou duas vezes ao mês? Depois do almoço, V. não quis jogar futebol de botão nem assistir à Sessão da Tarde, nem tomar banho de piscina. Joey sugeriu que fossem comprar sacolé na padaria. Mas a verdade mesmo era que aquele cheiro de fermento de pão o dia inteiro na casa do colega só dava vontade de vomitar. V. respondeu que ele precisava ir pra casa. Depois de levar V. até o portão e se despedir, coçando com aperreio os olhos, Joey disse: “Acho que você é meu anjo da guarda”.

Foi a gota d’água. Não bastava ser o único e melhor amigo de uma criatura do Spielberg, tinha que ainda por cima bancar o anjo da guarda da coisa! Quando viu Joey no dia seguinte, tratou de ir sentar bem longe. Na aula de Educação Física, fez de tudo pra não ficar no mesmo time do E.T. No primeiro recreio, ficou do lado de fora do colégio contando fuscas por vinte e cinco minutos. No segundo recreio, fingiu uma dor de barriga e lá se foram dez minutos no banheiro. Joey o aguardou com olhos tão grandes quanto luas cheias. “Tá melhor?”, perguntou quando V. saiu. Mas a decisão já fora tomada: V. não iria mais dirigir uma palavra que fosse àquela criatura. Sendo assim, passou reto. Quando chegou a hora de ir embora, Joey se aproximou com suas passadas tortas, os ombros banzeando pra por as alças da mochila no lugar. “Tás pronto?” Nenhuma resposta. V. ergueu a mão para alguém que já ia saindo da sala. “Espera aí!”

Nos dias seguintes, Joey virou um fantasma desconhecido até mesmo pelo seu anjo da guarda. Não raro, V. o surpreendia lançando-lhe olhares de longe. Esquisitíssimo. O fantasma perambulava pelos cantos passando o dedo em buracos de parede. Nos recreios, comia coxinha escondido no fundo da escola, que estava em perpétua reforma. Os meninos pararam de jogar areia na cara dele pois ele já não falava que espíritos são mágicos; as meninas não tentavam mais fazê-lo chorar porque Joey já não perdia a calma, aí não tinha graça.

Mais um mês desse jeito e um dia desapareceu. Alguém disse que ele pedira à mãe para ser transferido. Quatorze anos depois, Joey passava reto por V. na Conde da Boa Vista, parecia até mesmo erguer a mão e chamar alguém que vinha descendo a calçada. Carros e motos não esperaram pela boa vontade do rapaz imóvel depois de o sinal já estar verde por uns dez segundos; avançaram barulhentos tirando fino de V., que escutou de um motoqueiro: “Tu é retardado, mermão?”

Aquela frase que um dia disse para aquele amigo. Um gesto irrefletido, de peso quase inexistente mas com ampla esfera de ação, como a pata de um besouro que não perfura o orvalho, por ora. Após tantos anos não devia mais ser difícil enxergar por que incontáveis vezes V. escolheu a garota mais bonita em lugar daquela que o faz sorrir, a cidade em que as luzes piscam mais forte, a língua mais falada em lugar da mais sonora, os amigos mais experimentados em lugar dos que aprendem da vida juntos, as drogas mais silenciadoras, as relações rarefeitas em lugar das porosas, o que há, enfim, de mais terráqueo nele próprio em lugar do extraterrestre.

Victor Toscano nasceu no Recife, onde estudou psicologia e Jornalismo. Venceu o concurso da Editora Benfazeja e publicou o livro Breves Delírios (2018). Seu segundo livro, O último minuto custa a chegar, mas é maravilhoso, saiu pela editora Moinhos no mesmo ano.

Brasil: (im)possíveis diálogos #24

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Luzia

Por Maira Garcia

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Ela atendeu o último cliente e ascende a luz amarela atrás do Sol que faltou naquele quarto. O olho borrado vai manchar o lençol. Quando for uma hora, a mãe dela vai ligar para falar como anda a menina, o que aprontou na escola, o que descobriu sem ter ela por perto. O quarto deserto recolhe as sombras do dia. Perto das duas horas, depois do choro, toma um banho, esfrega o azeite no olho e aproveita pra tirar a maquiagem. Toma um leite morno, veste o short de malha e a blusa de gorro e apaga o Sol ao se esconder debaixo da manta bordada da avó. Pede pra sonhar com a filha, e que Deus a proteja que amanhã ainda é dia.

* * *

O mundo está acabando,
disse uma matéria
do jornal
que embrulhava o peixe
Na feira.
O mundo está acabando
e quando acabar
eu quero ver você
pra gente arrumar
a casa que a gente vai morar.
A casa que vai receber o jornal
dizendo que o mundo não acabou.
Que era tudo fake news.

* * *

Você tem dormido
comigo e não sabe,
sinto sua batata
da perna
quando abraço
suas costas,
sinto outras coisas
mas dizer seria
um embaraço,
não importa.
Então continue dormindo
comigo,
eu agradeço a preferência,
tem sido a alegria
da minha quarentena
contar com a sua perna
e presença.

* * *

Ouço o barulho
lá fora,
Sinto medo.
O barulho lá fora,
E você aqui dentro
É silêncio.

Maira Garcia nasceu em Ribeirão Pires, uma das cidades que integram a Grande São Paulo. Formada em Propaganda pela Eca-USP, é uma das mediadoras da Roda de Poesia e do Sarau Constelação Poética do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú, onde também é voluntária na Comunicação. Redatora, cantora e compositora, se assumiu poeta depois dos 40. Em 2011 começa o blog Depois da Lua de Ontem, hoje com mais de 3.100 textos escritos dentro do trem que sai do ABC para São Paulo. Em 2019, lança seu livro pela Editora Patuá, Depois da Lua de Ontem, onde se transfigura também em loba, astronauta e alienígena. No mesmo ano participa de mediações em rodas de poesia no Sesc São Paulo, nas unidades Interlagos, Itaquera e no Senac Aclimação. Em 2020 é selecionada para o Clipe de Poesia da Casa das Rosas e é convidada para a Primavera Literária Brasileira em Paris e Braga.

o valor do lixo, Luanda Julião

A riqueza e o desperdício de uma cidade podem ser mensurados em seu lixão, porque dinheiro sempre vira lixo e no lixão, lixo vira dinheiro.

No alto do morro, Dilermando avista as montanhas de lixo. Está a cerca de trezentos metros do lixão, falta só descer o aclive, mas já sente o seu cheiro fétido e dificuldades de discernir quem é homem, quem é bicho e quem é lixo. A nuvem de poeira tóxica e fedida que propaga no ar, levantada principalmente quando os caminhões descarregam entulhos de construção, cega a todos: motoristas, animais e homens. Ali todos eles se misturam numa única função: sobreviver.

Dilermando é um dos motoristas de caminhões que diariamente depositam no lixão uma média de cem toneladas de lixo produzido pelos cidadãos na cidade. Só a esse depósito de lixo, Dilermando faz duas, às vezes três viagens por dia. Detesta o lugar. Queria ser motorista de caminhão do correio ou de uma grande transportadora de móveis, mas há cinco anos o que ele transporta de um lado para o outro é lixo. Lixo de todos os tipos: orgânico, inorgânico, hospitalar, eletrônico, industrial, construção civil, restos de vegetais e de poda, carcaças de animais, alimentos vencidos. Tudo o que não serve mais, tudo o que não convém mais à cidade que fica a alguns quilômetros atrás do morro, é jogado no lado de cá, no depósito de lixo.

Todos os caminhões que chegam ao local são recebidos em festa pelos catadores, pelos urubus e pelos porcos. Dilermando gostaria de ser invisível nessa hora, pois assim evitaria acidentes e mortes. Quatro meses atrás, esmagou uma garotinha de oito anos. Não viu que ela estava atrás, esperando o lixo ser descarregado. A criança queria ser a primeira, ficar com o que eles chamam de “a nata do lixo”. Quem sabe, encontrar outra boneca ou um celular, como ela já havia achado uma vez. Distraído, falando com a mulher no celular e concentrado em olhar apenas o retrovisor esquerdo, Dilermando despejou oito toneladas de lixo em cima dela. Só conseguiram retirar o corpo debaixo do lixo depois dos catadores fazerem a triagem. Ele lembra com lágrimas nos olhos daquele dia.

Dilermando desce a última ribanceira com o caminhão. Em menos de um minuto entrará no campo de despejo do lixo. Ele sabe que precisa ser rápido, pois assim como os sedentos e famintos, os catadores não esperam. Correm desesperados em direção da carreta assim que escutam qualquer ronco de motor descendo o morro. Dilermando é cercado e sente vontade de afastar aqueles catadores de lixo da mesma forma que ele afasta as moscas que tentam pousar em seu rosto coberto de sujeira e suor.

Os urubus também atrapalham o trabalho de Dilermando. Sentem o cheiro de carniça nova antes de qualquer caminhão entrar no lixão. Ficam alvoroçados e assim como os catadores também cercam o caminhão atrapalhando a sua passagem. Permanecem voando em círculos até os catadores se afastarem daquilo que julgam não servirão para nada, mas que para as aves será um grande banquete. É assim que os urubus ficam quietos, estacionados em algum montante de lixo já vasculhado e abandonado pelos catadores.

Josefino, um dos tratoristas e funcionário do lixão, avista Dilermando que acabou de chegar e vai cumprimentá-lo.

— O que tem de bom aí? — pergunta Josefino

— Fala sério, Josefino! Tem algo de bom nesse lixão?

— Não se faça de desentendido, homem!

— Nada demais, lixo doméstico, só isso.

— Tô de olho em você, Dilermando. Seu último despejo de ontem tinha lixo hospitalar. Um dos catadores não viu e se feriu em uma das agulhas, indevidamente aqui descartada. Eu mesmo não acreditei quando vieram me contar e fui olhar. Achei restos de sonda. Daqui a pouco você começa a trazer lixo radioativo para cá.

— Não pega nada. Fica tranquilo, Josefino.

— Como não pega nada, Dilermando? — grita Josefino, irritando com o descaso de Dilermando. — Não quero ver meu lixão ir parar nas páginas dos jornais.

— Teu lixão, Josefino? Você é só mais um tratorista contratado aqui. Sobrevive do lixo igualzinho eu e os outros que colocam a mão na massa, ou melhor, no lixo.

— Na hierarquia daqui eu sou melhor que você e os catadores — protesta Josefino.

— E quem tá no lixo tem hierarquia? Você lá entende de hierarquia, Josefino? Aqui todo mundo fede igual, aqui todo mundo pisa na carniça.

Josefino coça a cabeça, sua frio, aperta os dedos da mão. Se não fosse a fumaça pútrida que pesa o ar e encobre a cor natural da sua pele, Dilermando conseguiria ver o tratorista vermelho de raiva. Um não gosta do outro, fingem amenidades, mas disputam poder e temor entre os catadores. Em terra de lixo e podridão, quem manda mais é menos tem que colocar as mãos na imundice. A poeira e o cheiro podre que permeia o lugar parecem contaminar o raciocínio e o instinto de todos os que ali tiram o seu sustento e sobrevivência.

— Não se faça de besta homem! — diz Josefino. – Sei muito bem que você ganha um dinheirinho extra dos hospitais da cidade para recolher a imundice de lá.

— Quem tem que se preocupar com isso é a prefeitura, que deveria multar quem desobedece a lei e não você que deve se preocupar em aplanar direito o lixo que eu descarrego — retruca Dilermando. — Se o hospital mistura lixo infectante com lixo doméstico a culpa não é minha. Isso não é problema meu!

— Tô só te observando, Dilermando! Quem tem coragem de despejar aqui lixo perigoso tem coragem também desembarcar bomba e até gente.

— Faço apenas o meu trabalho, Josefino! Transfiro pra cá o que é recolhido nas ruas pelos garis e coletores de lixo. Não tem como eu abrir o compactador do caminhão antes de despejá-lo aqui.

Josefino dá uma arfada e desiste de continuar discutindo com Dilermando. Tem muito trabalho a fazer, muito lixo para sobrepujar. Três caminhões despejaram tudo de uma só vez, num mesmo lugar, e o tratorista sabe que quanto mais tempo ele demorar em aplanar o volume do lixo, maiores serão os ratos e baratas que ali aparecerão para se alimentarem do lixo. “Já bastam os porcos”, pensa Josefino, mas logo em seguida corrige seu pensamento: “já basta a gente, catadores, caminhoneiros, tratoristas, políticos, empresas e todos aqueles que indiretamente ou diretamente exploram o lixo”.

Dilermando manobra o caminhão, puxa-o um pouco mais para frente para que os catadores não precisem se enfurnar debaixo do veículo. Depois acende um cigarro e fica observando a agilidade dos trabalhadores que metem sem hesitar a mão no lixo. Procuram plástico, metal, latinhas, vidros, garrafas pet e embalagens cartonadas. Tudo o que pode ser reaproveitado, os catadores pegam, porque vale dinheiro. Observa quando uma senhora encontra um frasco de perfume, vazio e sorri. Aquele recipiente desprezado depois do uso renderá vinte e cinco centavos a ela. Dilermando percebe o quanto aquela senhora toma cuidado para não cortar a mão. Parece ter perícia em mexer com lixos em que os cacos de vidro não foram embalados devidamente ou se quebraram no compactador. Dilermando olha a cicatriz que tem na mão direita e se lembra de quando quase a perdeu ajudando a mãe a separar o lixo orgânico daquilo que ainda pode ser reaproveitado e vendido.

Dilermando contempla o horizonte e o que vê é lixo em cima de lixo. O lugar está cada vez mais cheio. Se por um lado se aumenta a riqueza do lado de fora do lixão, em compensação dentro dele aumenta a pobreza e a miséria. De repente, escuta Josefino acelerar o trator, tentando espantar os catadores. Eles protestam, gritando. Parece que acharam algo valioso. É uma lavadora de roupa seminova. Deve ter no máximo cinco anos de uso, se bobear nem isso. Os catadores brigam por ela. Todos a querem, inclusive Josefino. Dilermando corre em direção ao lugar onde está o eletrodoméstico cobiçado. Grita para Josefino:

— Ô esfomeado, arria a guarda! Deixa o lixo pra quem depende dele!

Os catadores apoiam Dilermando e começam a vaiar Josefino, que desiste. Numa assembleia improvisada, em meio a resquícios e dejetos humanos, os catadores decidem dividir o objeto cobiçado. Usam as próprias mãos e desmontam a lavadora em questão de poucos minutos. Cada um sai feliz com a parte que lhe coube, uma ou duas peças. É o lucro do dia. Só a peça da lavadora de roupa vale mais que uma dezena de garrafas pet.

O vento trouxe mais nuvens, o céu escureceu, encobrindo o sol. Vai chover. Dilermando pensa no chorume. Odeia entrar em contato com a lama do lixo. Verifica a hora e se apressa em sair do lixão. Engata a ré e olha os dois retrovisores. Está se preparando para manobrar o caminhão, quando percebe que uma revoada de abutres se intensificou de repente. Ele olha para o céu e vê alguns abutres quase se chocarem uns contra os outros. Algumas penas se desprendem e caem, misturando-se quase que imperceptivelmente ao lixo. O último descarregamento de lixo foi algumas horas atrás, momento em que normalmente os urubus ficam ensandecidos com a chegada do lixo fresco. Agora é hora de caminhões voltarem vazios para a garagem e se preparem para mais uma coleta de lixo da população que não para de produzi-los.

Curioso, Dilermando coloca suas luvas de proteção e desce do caminhão. Caminha em direção aos abutres, tentando se desviar o máximo que pode dos lixos que estão por toda a parte. Os abutres percebem a chegando de Dilermando, que não é bem-vindo, e grasnam cada vez mais forte. Sentem-se ameaçados e continuam persistentemente sobrevoando o local. Dilermando olha para trás, pensa em pedir ajuda a outro catador, mas o vento forte levanta mais alto ainda a poeira de lixo e resto de entulho. Caminha com cuidado, tem medo de ser atacado pela multidão de urubus.

Dilermando observa todos os lados. Não há carcaças de animais, nem lixo orgânico protuberante ou saliente. Ao menos naquela parte do terreno, onde aparentemente os tratores passaram a pouco tempo. Um sulco de luz ilumina uma caixa de papelão. É ali que está o banquete dos urubus insaciáveis. Sem saber o que tem dentro, Dilermando a chuta. A caixa vira e ele tem um sobressalto quando percebe o que chutou: o corpo de um bebê recém-nascido, ainda de fralda, porém rígido e frio. Dilermando sente as pernas tremerem, o coração palpitar bem forte. Exceto pelas lesões causadas pelas bicadas dos abutres que deixaram buracos na pele, o bebê parecia dormir, como dormem os recém-nascidos.

Um dos urubus desce do céu e pousa na caixa. Dilermando o encara. A ave recolhe as asas e usa as patas afiadas para se aproximar do corpo do bebê. Seu porte cobre o único fio de claridade que iluminava o recém-nascido. Dá um salto e se debruça sobre a pele do bebê. Tem dificuldades em se equilibrar diante de um corpo tão pequeno. A ave encara novamente Dilermando como se o desafiasse. Está preparada para arrancar mais um pedacinho do bebê-cadáver, mas Dilermando é mais rápido. Acerta-lhe um chute tão forte que imediatamente o derruba. Sem perder tempo, Dilermando apanha o primeiro pedaço de tábua e destroça o pássaro. Os outros abutres ficam assustados e se afastam. Ele grita, mas ninguém o ouve. Sozinho, parado no meio do lixão, Dilermando chora. Não há mais nenhum feixe de sol no céu. A chuva cai e lava as lágrimas de Dilermando. O chorume molha os seus sapatos. Ele sente o líquido escuro e poluído perfurarem suas meias e molharem os seus pés, mas dessa vez ele não se importa.

Luanda Julião nasceu em São Paulo em 30 de junho de 1982. Atualmente cursa doutorado em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos. É professora de Filosofia e História numa escola estadual no bairro do Ipiranga, na capital paulista. Publicou pela Editora Patuá, em setembro de 2018, seu primeiro romance: A ária das águas.

Brasil: (im)possíveis diálogos #23

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Errância: Late Afternoon

Por Carolyne Wright

(Anna Maria Maiolino, “Errância Poética” — from Da Terra Series)

printemps_nao_ficcao
Vitor Rocha

Their footprints lead away from the brick kiln
past storage urns of pummeled, thumb-pressed clay
waiting in darkness for the potter. Their tracks
stray across the cobbled patio and studio garden
where the tortoise family feeds on mango pulp
and overripe papaya round a terracotta plate.

They move through the palm grove’s fallen coconuts
and into shade of the wide, whitewashed veranda
where they kick off flip-flops and unfasten sandal straps.
Bare-soled and empty-handed, they let themselves out
through the heavy grille-work gate, over dune grass
and onto the narrow, plank-work pier that crosses

the tidal stream. At the pier’s end, their naked feet
press into the ladder’s splintered rungs. They let go
and drop to the sand, where the praia extends a mile
at low tide into the Bay of All Saints.
Sun declining in the tropic sky, how far to wander,
they ask themselves, as evening shorebirds fly low

over the tide’s returning swell and night mists gather?

Publication credit:

First published by Hauser & Wirth New York, 2018, on a gallery “take-away” card for the exhibit, Errância Poética (Poetic Wanderings), of work by Anna Maria Maiolino (14 Nov — 22 Dec 2018). In collaboration with the Poetry Society of America.

Errância: à Tardinha

(Anna Maria Maiolino, “Errância Poética” — from Da Terra Series)

Suas pegadas levam para longe do forno à lenha
passando urnas de estocagem de argila socada
_____e desenhada a dedos
esperando na escuridão pelo oleiro. Suas trilhas
vagueiam pelo pátio de paralelepípedos e o jardim do estúdio
onde a família de tartarugas devora polpa de manga
e mamão passado em volta de um prato de terracota.

Movem-se entre os cocos caídos do palmeiral
e para dentro da sombra da larga varanda caiada
onde chutam chinelos e soltam tiras de sandália.
De solas nuas e mãos vazias, deixam-se sair
através do pesado portão gradeado, sobre a grama
de dunas e no cais estreito de tábua que cruza

o fluxo das marés. No final do cais, seus pés descalços
pressionam nas lascas dos degraus da escada. Soltam-se
e pousam de pé na areia, onde a praia se estende
meia légua na maré baixa da Baía de Todos os Santos.
O sol declinando no céu tropical, até onde vagar,
perguntam-se, enquanto as aves costeiras da noite voam baixo

sobre o retorno inchaço da maré e as névoas noturnas se reúnem.

Tradução para o Português da autora com Emanuella Leite Rodrigues de Moraes, Décio Torres e Marcelo Thomaz.

Crédito da primeira publicação:

O poema no inglês original foi publicado pela primeira vez por Hauser & Wirth New York, 2018, em um cartão da galeria “take-away” (para levar) para a exposição Errância Poética (Poetic Wanderings), de arte de Anna Maria Maiolino (14 de novembro a 22 de dezembro de 2018). Em colaboração com a Poetry Society of America.

About the Origin of This Poem — by Carolyne Wright

In October 2018, I was invited by Hauser & Wirth Gallery in NYC (in conjunction with the Poetry Society of America) to write a poem in response to a work of art in their upcoming exhibit, Errância Poética (Poetic Wanderings), from Da Terra series, by Italian-born Brazilian artist Anna Maria Maiolino. The poem would be printed on a take-away card featuring the artwork on one side and the poem on the other, and it would be free to gallery visitors. Since I had just spent two months in Bahia, Brazil, on an Instituto Sacatar Artist Residency, my thoughts were full of imagery from Bahia, and the sounds and rhythms of Bahian Portuguese. The poem’s errância takes place on the island of Itaparica in Bahia, and incorporates terms and materials from the artwork–tactile images, shapes, and textures–as well as the human inhabitants, possibly artists of Sacatar, who are moving through the landscape of the poem.

Sobre a origem deste poema — por Carolyne Wright

Em outubro de 2018, fui convidada pela Hauser & Wirth Galeria em Nova York (em conjunto com a Poetry Society of America) para escrever um poema em resposta a uma obra de arte em uma nova exposição, Errância Poética (Poetic Wanderings), da série Da Terra, da artista brasileira nascida na Itália, Anna Maria Maiolino. O poema seria impresso em um cartão para os visitantes levarem, e apresentaria a obra de arte de um lado e o poema do outro e estaria de graça para os visitantes da galeria. Desde que eu acabei de passar dois meses na Bahia, Brasil, em uma Residência Artística do Instituto Sacatar, os meus pensamentos estavam cheios de imagens da Bahia e dos sons e ritmos do português baiano. A errância do poema acontece na Ilha de Itaparica, na Bahia, e incorpora termos e materiais da obra – imagens, formas e texturas táteis – bem como a vida animal e os habitantes humanos, possivelmente artistas do Sacatar, que estão se movendo pela paisagem do poema.

Carolyne Wright’s most recent books are This Dream the World: New & Selected Poems (Lost Horse Press, 2017), whose title poem received a Pushcart Prize and appeared in The Best American Poetry 2009; and the bilingual volume by Chilean poet Eugenia Toledo, Trazas de mapa, trazas de sangre / Map Traces, Blood Traces (Mayapple Press, 2017). Carolyne spent a year in Chile on a Fulbright Study Grant and also traveled throughout Brazil. She returned to Brazil in 2018 on an Instituto Sacatar artists residency on the Island of Itaparica in Bahia. Since then, from her home in Seattle, she has been writing about Bahia and translating poetry from Portuguese, including the work of Leonardo Tonus.

Carolyne Wright. Seus livros mais recentes são This Dream the World: New & Selected Poems (Lost Horse Press, 2017), cujo poema título recebeu um Prêmio Pushcart e apareceu em The Best American Poetry 2009; e o volume bilíngue da poeta chilena Eugenia Toledo, Trazas de mapa, trazas de sangre / Map Traces, Blood Traces (Mayapple Press, 2017). Carolyne passou um ano no Chile em uma Bolsa de Estudo Fulbright, e também viajou pelo Brasil. Ela voltou ao Brasil em 2018 em uma residência artística do Instituto Sacatar na Ilha de Itaparica, Bahia. Desde então, da sua casa em Seattle, ela escreve sobre a Bahia e traduz poesia do português, inclusive a obra de Leonardo Tonus.

príncipe, de Rafa Carvalho

o asfalto da rua de casa era mal feito.

não é para reclamar. a rua de baixo nem sequer era asfaltada. mas era assim. restos de massa batida nas frentes das casas mal limpas nos finais dos dias de obra. irregularidades buracos pedras soltas. nas horas mais quentes derretia o piche um pouco e isto grudava nos chinelos.

a combinação do calor que era preponderante nos anos e o tipo tosco do asfalto dificultavam andar descalço. jogar bola então nem se fala. estouravam todas as correias dos chinelos de dedo bem impróprios ao futebol. e sem eles estourava a sola dos pés. fazia bolhas que depois também estouravam. ficava o sangue no asfalto. e um dedão destroncado. com a unha virada pra cima na topada com a massa mal limpa das obras. o furo da pedra do caco de vidro enfiado. bater o que já estava batido e ainda incurado. o asfalto com pus. pedaços de pele que ficavam pelo caminho. numa partida de esconde-esconde. ou de golzinho.

tudo isso me fazia crer que eu precisava muito um par de tênis. mas não dava. tinha um conga pra sair e era só. visitar a vó noutra cidade. sem correria na escada com os primos. ir à igreja ao shopping ver as coisas. mas não pode pedir nada. apenas vamos passear.

mamãe trabalhava de chinelos. lavava a roupa de casa e da casa dos outros. passava a roupa de casa. e da casa dos outros. limpava a casa dos outros. fazia geladinho pra vender pros outros. tudo de chinelo. batiam palma em casa pra gente vender mas chupar não podia. só de vez em quando. tinha que ajudar era difícil. o suco vazava tudo era prejuízo. a gente andava descalço em casa e o chão melava todo.

a gente voltava descalço da rua o pé preto sujando o piso e era tapa na orelha. vai lavar o pé no tanque. bronca berreiro. a mãe batia na bunda da gente com o chinelo. e cinta espadada de são jorge vara. mas de vez em quando dava um bom banho de tanque. com carinho. tinha bacia calma e pente fino pra tirar piolhos. sunga e biquíni de tomar sol pelo quintal. mãe jogava junto com a gente umas coisas dava risada era bonito. o abraço. o colo da mãe. mas batia na gente quando a gente apanhava na rua. quando caía quando machucava na rua. esfregava forte a bucha com sabão pra não infeccionar. e não vai arrancar essa casquinha.

dava janta pra gente fumava um cigarro assistia novela. chorava escondido. pegava o ônibus com o caçula pra ir nos médicos. trabalhava em casa nas outras casas. trabalhava pros outros. e a gente também era um tipo de outros. fazia sempre pra gente nunca pra ela. a gente dava trabalho. tudo era os outros.

seo zeferino vez ou outra dava abacates maduros pra nós. ela amassava tudo num prato. botava com açúcar. pingava limão. e a gente sentava na sala em roda no chão. uma colherada pra ela e uma pra nós rodando assim. ela ajeitava as nossas colheres lambendo as beiradas pra não derrubar. numa vez dessas no intervalo do jornal eu vi a propaganda. do rainha system. eu achava o nome um pouco engraçado mas o tênis era demais. eu disse mãe olha que lindo. ela me deu o abacate.

pouco tempo depois o fabrício apareceu na escola com um daqueles. desceu do carro do pai já chamando toda atenção pra ele. a gente chegava a pé. de chinelo. às vezes tinha arrebentado no jogo e se prendia remendando com um grampo ou um prego. tinha muitos que iam mesmo descalços pras aulas. mas de carro quase nenhum. só o fabrício mesmo a gláucia às vezes.

mas aquele tênis era fantástico. a gente seguia o fabrício o recreio inteiro pra ver. as cores o desenho. um amortecedor que o deixava mais veloz que os carros mais alto mais forte. mais bonito. a vanessa só quis conversar com o fabrício nesse dia. não teve pega-pega com o fabrício. mas se tivesse ninguém ia pegar.

fui pra casa encasquetado. cheguei nem tomei bença disse oi. só logo mãe preciso muito de um rainha system. sai de casa agora menino. e quando entrar de novo peça a bença. depois já passe reto e deixa a mochila lave bem essa boca. essas mãos. que o almoço tá pronto. depois cê vai cuidar do seu irmão que eu vou trabalhar na dona ângela.

os dias foram passando. o pus no asfalto. as unhas caindo. e um desafeto imenso foi me corroendo todo. meu caderno já não tinha mais cópia de nada da lousa. nem disputava mais as corridas de quem escreve mais rápido. que mesmo sendo corrida sem pés só com os olhos e as mãos sem meu rainha eu não podia. perderia tudo. não me casaria mais com vanessa. não seria bombeiro nem astrônomo nem feliz. meu caderno agora eram só desenhos de rainha. eu com eles em situações distintas. diversas delas.

eu de tênis.

quando peguei uma febre e não sarei com nada por sete dias nem com o benzimento da tia cicinha. nem compressa oração ou simpatia. o salmo sob o travesseiro. e emagreci feio enfiei os olhos pro fundo da cara com marcas e olheiras e a diarreia não parava. vovó perguntou à mamãe. o menino tá com vontade de quê.

mãezinha voltou do orelhão na praça da sorveteria e do ponto final do ônibus e levou uma sopa de bolacha na maior caneca de casa. sentou do meu lado na cama e enquanto eu resistia em comer ela me disse. rainha o quê.

system.

beijou minha cabeça pediu uns dias. e prometeu que trabalharia extra pra comprar um par. mas você precisa comer direito tudo. e sarar logo. tá muito magro perdeu escola. a mãe promete.

eu sarei na hora. copiava as matérias primeiro de todos. até do fabrício. passava o resto de tempo que os outros levavam para terminar desenhando ainda meu rainha. tive um impasse danado com as cores. quase deprimi. tive coragem de olhar e sorrir pra vanessa. pensei que poderia vencer qualquer asfalto com ele. os restos de massa batida a terra batida da rua de baixo tudo. os golaços que marcaria de calcanhar chapéu bicicleta. a invencibilidade no pega-pega o beijo na vanessa a inveja nos primos. e iam me contratar pra jogar profissional. gravar propaganda fazer novela. e eu ia ganhar muito dinheiro e tirar minha mãe do trabalho. comprar uma casa pra nós. muito maior com banheira e sem aluguel. com piscina e espaço pra ela plantar suas plantas. quantas quisesse. e um quintal grande pra um cachorro grande que vai no veterinário e tudo. tudo. e um carro me buscaria na escola para levar numa sorveteria bem melhor que aquela do bairro. eu e a vanessa.

tudo graças a ela. minha mãe. ela que afinal era uma rainha. isso sim fazia muito mais sentido que o tênis que devia ter outro nome qualquer. esse talvez fosse o seu único defeito. o único. o resto era perfeito. como mamãe. que era brava às vezes. triste às vezes. chata às vezes. mas era uma perfeita rainha. ela sim. minha rainha. eu tinha que agradecer pra sempre. e fazer tudo por ela. minha rainha. mãe.

e eu era seu príncipe. mas depois com meu tênis seria também o do mundo.

chegou num sábado e disse é hoje menino se arruma. ela tinha um sorriso de contentamento íntimo quase escondido. eu dei pulos de alegria tropecei na sala bati o dedinho no pé da cama dei um grito e pensei. com meu novo rainha isso nunca mais vai acontecer. me vinguei com esse futuro botei a camiseta do avesso minha mãe disse põe essa roupa direito e assim fomos.

o ônibus demorou uma vida inteira pra sair. depois outra vida e meia pra chegar no centro. aquilo fervia de gente. estava quente. as pessoas iam pisando no meu chinelo e no da minha mãe. a gente se atrapalhava um pouco no meio de tanta multidão e tínhamos que passar em outra loja antes. pagar primeiro um crediário.

nem vi as mesmas cenas que me impressionavam sempre. o sanfoneiro cego. o outro com elefantíase. a mãe banguela com lenço na cabeça e cada vez um bebezinho num braço com o outro estendo a mão em concha pelo amor de deus moço. pelo amor de deus moça.

e quando chegamos na loja de calçados aquilo parecia um templo. quatro andares com tudo de vidro. as vitrines brilhando os tênis todos reluzentes e os funcionários perfumados com cabelos penteados parecendo muito felizes com as camisas por dentro da calças. posso ajudar. pode sim a gente quer ver um rainha system pro meu filho. claro senhora e a gente sentou numa cadeira fofa e o cara subiu as escadas com uma classe impressionante e voltou lá de cima empilhando várias caixas de uma vez e foi demais. rapidinho estava ajoelhado aos nossos pés abrindo as caixas todas retirando seus papéis de seda amassados de dentro dos rainhas nos mostrando um por um. eram vários de três numerações distintas e cores e modelos e também preços variados.

provei até achar o número. depois provei até achar o modelo. mas precisava ser o mais barato e eu disse tudo bem mãe é lindo. aí provei até achar as cores foi difícil. mas quando deu botei o outro e fui andar pela loja. tinha espelhos pros pés por todos os lados. tanto brilho luzia de quase doer os olhos. as pessoas parecem que olhavam pra mim. os funcionários sorriam e quase queriam me aplaudir. minha mãe tinha um misto de satisfação e medo numa lágrima que não caía presa no olho esquerdo. aquele chão era tão branquíssimo e liso que eu parecia estar além deste mundo. no paraíso ou coisa assim. tudo era cheiroso. principalmente o meu rainha.

vamos pôr ele na caixa ensacar e é só retirar ali depois do pagamento muito obrigado senhora. posso parcelar abrir um crediário. com os documentos certos pode sim. obrigada. eu fiquei ouvindo aquilo tudo pensando que não queria devolver mais meu rainha pra caixa. moço. e eu não posso ir com ele no pé. ao fim de alguma conversa sobre febre e doença ele acabou compreendendo e eu pude. mamãe pegou uma fila entregou os documentos preencheram toda aquela papelada carimbo assina. depois tirou um tanto de notas bem dobradas de sua bolsinha para a entrada. pegou um cupom a sacola da loja com a caixa vazia. e começamos a sair juntos em direção à rua.

conforme fomos nos aproximando o barulho da rua me invadiu a mente. burburinhos de passantes sons de carros e buzinas arredores. microfones com locuções de promoção música eletrônica de fachada. o bafo de fora começava a anular os últimos suspiros do ar condicionado de dentro. avistei o chão da rua de pedestres. todo meio cinzento encardido com cocôs de cães de rua chicletes cuspidos e moles ao sol do meio-dia. pessoas se esbarrando sem querer entre discretas rasteiras pisadas nos pés. escarradas verde amarelas bitucas de cigarro um sorvete que caiu da mão daquela velha. tudo aquilo foi me causando um pânico e eu travei.

travei na saída da loja com meu rainha system ainda impecável e quando fiz o breque total ouviu-se aquele barulhinho típico dos tênis novos num chão lisinho. mamãe se voltou pra mim uns passos à frente pisando já na rua. disse e então menino como é. vamos ou não vamos para a casa. é hora do almoço e seu irmão está com a sheila já faz tempo.

não podia submeter meu rainha àquele mundo. era tudo muito cruel pra ele. aquele chão as ruas o jeito das coisas. e das pessoas. ele perderia seu cheiro sua cor intacta perfeita gastaria sua sola. talvez já pegasse um chiclete de cara. um cocô daqueles que envolvem todo o pé enquanto afunda e chegam mesmo a sujar as laterais do tênis. poderia ralar o seu tecido lindo nalgum pisão mais forte um meio fio mais áspero. numa manobra qualquer dessas muitas que temos que fazer no meio do povaréu.

pensei no asfalto da rua de casa. nos ladrões de tênis da cidade. nos rituais de batismo que se faz e de como ficou o rainha do fabrício depois deles. e das aulas de educação física recreios. pensei em tudo isso. e na vanessa não me querendo mais quando meu tênis se estragasse. meus empregos no futebol profissional e nas novelas. toda a fortuna e conforto que daria a minha mãe. minha rainha.

meu rainha. via tudo aquilo. e o medo me impedia de seguir. simplesmente me impedia.

mãe. você pode me levar no colo.

Rafa Carvalho é um poeta brasileiro que carrega em seu corpo raízes do mundo inteiro e a poesia como raiz de todas as artes e gêneros literários, como da vida em si. Soma 16 anos de carreira, com trabalhos em arte e educação por mais de 20 países. Integrou o coletivo Poetas del 15 Mayo na Espanha em 2011, tendo parte em sua antologia homônima. É autor de auto-mar (poesia; Editora Patuá) lançado no Brasil e em Angola; e contas de mar (contos; Editora Pontes). Finalista do Prêmio Sesc de Literatura, tem forte atuação social em sua comunidade periférica de origem e por onde esteja. Curador do projeto “papos de versos”, idealizador do Sarau da Dalva, é um forte representante do fundamento antropofágico e cada vez mais considerado por sua capacidade de criar pontes, entre o aparente incompatível.