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o fogo o fogo, poema de Alberto Lins Caldas

● [o fogo o fogo — a agonia do fogo — seu tumor — ●
● a fumaça — o fogo o fogo — fogo dentro e fora — ●
● antes e sempre — devora cidades — florestas ●
● universos — fogo — a loucura fiel do fogo — o fogo ●
● o fogo — a fumaça — respirar fumaça — respirar ●
● o fogo o fogo — a carne dura do fogo — o fogo ●
● o fogo — a fome — a gula — do fogo o fogo o fogo] ●

● inexistente o tempo o fluxo amolece as carnes ●
● como doem as juntas — caem cabelos brancos ●
● como merda de pombos nos bancos das praças — ●
● a vida não brinca — a vida não ri — a vida é foda — ●
● trilhos entre rochas q se esmigalham — o corpo — ●
● trilhos q se enferrujam — mergulham na terra — ●
● nem os largos dias de prazer e alegria — a dor ●

● desabados como bonecos de palha no campo — ●
● cheios de baratas vermes ratos carrapatos — ●
● desejos mortos do sol ocultos na escuridão — ●
● olhando paredes sonhando o grande nada — ●
● não vimos q a beleza é só isca fraca e fútil — ●
● quando abrimos os olhos é hora morrer e só — ●
● resta se dissolver — deixar de ser — nonata e não ●

● nem minha morte — toda morte — morte gelada ●
● do escorpião — jamais existente o tempo beija ●
● meus olhos — a boca — as mãos — o caralho — ●
● a ponta dos peitos — os joelhos — pés e dedos ●
● dos pés o vazio — o vazio como esperma seco — ●
● depois depois nem isso — jamais jamais — não — ●
● sem deus sem anjos sem paraíso ou inferno ●

● nada juntara pedaços — as cinzas — o pó o pó — ●
● tudo só espalhara mais e mais e nem o nada — ●
● nem o aroma de flores mortas no outono — não — ●
● nem a lama de neve das ruas em ruínas — não — ●
● jamais a primavera — as chuvas — o vento — não — ●
● nem o perfume morno das vulvas vibrando — ●
● nem a desarmonia infinita do desejo — nada ●

● [o fogo o fogo — a agonia do fogo — seu tumor — ●
● o fogo o fogo — a carne dura do fogo o fogo ●
● o fogo — a fome — a gula do fogo o fogo o fogo ●
● antes e sempre — devora cidades — universos — ●
● o fogo — a fumaça — respirar fumaça — respirar ●
● o fogo — o fogo o fogo — dentro — dentro e fora ●
● o fogo o fogo — a loucura fiel do fogo — o fogo] ●

Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001), Wyk (Bagaço, Recife, 2007), Gorgonas (Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2008); os romances senhor krauze (Revan, Rio de Janeiro, 2009), Veneza (Penalux, Guaratinguetá, 2016) e a grande morte do conselheiro esterházy (Penalux, Guaratinguetá, 2018), as trinta metamorfoses de on foya (JusttFiction, Riga-Estônia, 2018). Os livros de poemas No Interior da Serpente (Pindorama, Recife, 1987), Minos (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e De Corpo Presente (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), 4×3 — Trílogo in Traduções (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014) com Tavinho Paes e João José de Melo Franco, a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016), minha pessoa sob o domínio dos bárbaros (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2018), tântalo (Flan deTal, Vila do Conde-Portugal, 2019).

Blog: http://poemasalbertolinscaldas.blogspot.com/

três poemas do livro ‘a implantação de um trauma e seu sucesso’, de Ricardo Escudeiro

contra conjunto ou neon sobre fumaça

o olhar mais se detém mesmo é quando falha
noutras vistas as minhas
descansadas param com essa coisa de

ultrapassa pelo acostamento
vai

tatear os mundos pelas suas córneas e pelas suas cordas
pois

dói na garganta o tanto seu nome nos pulmões
e nos descansos
e nos cenários
e numas pedras com umas sílabas
à tiracolo

ficar perguntando pra janela
quando a gente nem tá mais no carro

já chegou já chegou

não não
faltam ainda alguns aniversários

ver mais mesmo é quando longe

leio
claro tipo
um miopismo inexato

na fumaça do cigarro todas as esquivas tragadas
o cotovelo na mesa a cabeça entre os tabacos
como num balãozinho de hq daqueles de pensamento sabe
uma interrogativa
ou uma inlabial desleitura

faz quanto tempo desde a última
vez que sua boca nunca

poema tirado de uma notícia de portal

“anti sementes”
segundo Angharad, a esplêndida

e se é de degredo que arguimos
falemos então aqui
do degredo enquanto extermínio

por extensão
afastamento
voluntário ou compulsório de um contexto social
a fúria que recai sobre certas estradas
a fúria que recai sobre certos homens nessas estradas
de forma quase drônica muito étnica muito específica

falemos
da balística enquanto desplantio

sobre distância disseram perto o suficiente para queimar
as bordas do buraco aberto na camisa
cauterizar os panos
do uniforme escolar
desnecessário inserirmos aqui um por exemplo

falemos
do projétil diagnosticado como perdido

esse atingiu a barriga e saiu pelas costas
como a extensão
formal
e anti lírica
de um braço colonial de um capitão desses de mato
não desbravando e sim destruindo
tudo o que no trajeto
e não no caminho
era o corpo preto
de um menino
quantas mais das vezes matado também e até antes
nos comentários

cão das lágrimas

mas por que esperar alguma cegueira
para aprender
pelas mãos um rosto

capa_a_implantacao| poemas do livro a implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá e Editora Fractal, 2019) | com lançamento sábado que vem, 30 de novembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas a implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá e Editora Fractal, 2019), rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”, dividido em três temporadas. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

ato falho, de Virna Teixeira

Subiu as escadas e avançou no carpete com losangos de arlequim no andar de cima do pub, havia passagens com portas escuras e escadas em caracol que conduziam a outros aposentos. Ele/ela em modo gender fluid ia abrindo as portas. Chegaram a um quarto de paredes turquesa, com ilustrações de circo em tons de laranja e vermelho, e luminárias de microfones antigos. Ela se fechou no banheiro com piso quadriculado, branco e preto, aplicou a maquiagem e vestiu a roupa da performance. Uma espécie de acrobata fênix, com uma roupa colante e asas, tudo em negro.

Quando abriu a porta, ele/ela agora era ela. Ela(e) estava pronta para que ela a conduzisse, e portava solene um vestido preto e branco como o piso, sapatos pretos e um petticoat branco. Uma espécie de colombina. Em seguida tomaram êxtase, como num ritual, e encheram os copos de vinho.

A noite passou como uma alucinação retrógrada, onde abraçavam-se simbióticas com a epiderme quente. Ela(e) falava de um vestido queria usar quando criança, o vestido de flor da sua irmã. Foi quando começou a se vestir escondida. Ela(e) estava tão misteriosa aquela noite, tão feminina, e seus traumas subiam à superfície, como balões, enquanto a outra lhe carregava pelas costas, com suas asas. Ela(e) por si parecia levantar voo, e de repente, aterrissou no meio do quarto, um pouco eufórica, rodopiando o seu petticoat.

A outra se conteve, observando. Parecia que haviam saltado de um picadeiro, da altura de uma imagem cinemática. Como num filme de Wim Wenders. No meio da noite adormeceram exaustas depois de tantas cenas extremas, facilitadas pelo êxtase do encontro.

Na manhã seguinte ela tinha se tornado ele. Ele era tímido e metódico, rápido para despertar. Preparou dois cafés na máquina de Nespresso do quarto, e vestiu suas roupas bem passadas de drab. Ela colocou um vestido azul, e calçou as sandálias verdes. Partiram apressados, ainda tontos do delírio. Não havia ninguém quando desceram as escadas, todo o burburinho de pub tinha se evaporado. Na rua eram outros nomes, outras personas, embora ela fosse menos fendida. Ele saiu apressado para pegar o carro, e para evitar qualquer deslize emotivo. Despediram-se desajeitados.

Ela caminhou incerta, mas feliz até a estação de metrô, ou seria ainda o efeito do êxtase? Parou para comer um croissant. Então se deu conta de que se sentia frio. Procurou a jaqueta de couro na mochila. Tinha deixado a jaqueta no quarto. Era de couro legítimo. Evitavam contato telefônico como combinado, mas era uma emergência. Procurou o número guardado numa anotação de celular. Mandou uma mensagem para ele, que não respondeu. Aflita, caminhou de volta ao pub-hotel. As portas estavam trancadas. Dobrou a esquina e tentou a outra entrada. Viu um homem de uns trinta e poucos anos, com roupas brancas e um chapéu de chef, sentado em um degrau, fumando. Explicou a situação. Era cedo, o pub estava fechado, a recepção também. “Não sabe o código da porta?” Ele/ela não tinha lhe dito, mas o jovem chef passou os dígitos. Ia avisar a alguém para encontrá-la na recepção.

Ela digitou o código, deu de frente a uma recepção que parecia de hotel dos anos 50, com uma campainha vintage de cobre. Tocou, ding dong, ninguém respondeu. Subiu as escadas com carpete de arlequim na esperança de alcançar a jaqueta, mas as portas para o andar de cima estavam trancadas. Ela também não lembrava o número do quarto, pois era dada a distrações. Era estranha a atmosfera circense e ainda onírica da hospedaria à luz do dia, pois as janelas estavam parcialmente fechadas.

Saiu divagando no andar de baixo, procurando alguém, e caiu num átrio de madeira escura, um anfiteatro com fileiras e camarotes. Não sabia que neste pub havia um palco, para shows burlescos. De repente se viu trancada num teatro vazio. Como se os atores tivessem partido e a sua jaqueta de couro estivesse inalcançável, trancada no camarim, preta e opaca entre paetês e plumas. Seria uma espécie de pesadelo matinal em wonderland? O que fazia ali, afinal? Teria caído num buraco, como Alice? Como cruzar a fronteira borrada entre ilusão e realidade? Sentiu-se de repente frágil, como uma criança desamparada num labirinto. Pensou em chorar, mas conteve as lágrimas. Disse para si mesma que dominantes não choram. Ela precisava superar seus traumas.

Cheia de coragem, discou o número dele, que atendeu no primeiro toque. Sua voz era diferente, masculina mas cordial. Na prontidão de atender o próximo cliente, embora com um tom reticente. Ele sabia que era ela. Concisa, ela perguntou o número do quarto, que ele emitiu, como um código. Ela desligou. Uma moça austera de tranças apareceu na recepção. Ela explicou o problema. Eu estava aqui com o meu “namorado”. A moça ficou desconfiada. Perguntou se ele voltaria. Ela disse que não. “Como você tem tanta certeza? A chave não está aqui”. Subiram as escadas, e encontraram o quarto totalmente vazio. A jaqueta de couro com tachas estava sobre uma cadeira preta, tão aderida que se confundia com o cenário.

Ela voltou pelo mesmo trajeto até a estação, comeu o croissant, comprou uma garrafinha de suco de laranja gelado. Entrou no trem de óculos escuros. Estava ainda dispersa entre tantas sensações, saltando ainda do picadeiro imaginário, entre a decepção e o encantamento. Ele contemplava uma abóbada de vidro com estrutura poliédrica, aéreo, no centro da cidade. O que fazia ali, afinal? Criou coragem e respondeu a mensagem dela, “achou a jaqueta?”. Da janela do trem ela via o verde, a verdura, o azul do céu, sorria, tomava pequenos goles do suco. Sentiu amor por ela, por ele, por eles, pelo vestido de flor. Respondeu “ainda saboreando a noite”. Mais tarde ele deixou a cidade dirigindo no sentido oposto, e foi divagando na paisagem, e pensando nela.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza. É poeta, tradutora, tem vários livros de poesia e tradução publicados, e prepara seu primeiro livro de contos. Graduou-se em medicina, e vive em Londres, onde trabalha como psiquiatra. Virna dirige uma editora independente na Inglaterra, Carnaval Press, e é editora da revista online Theodora.

três poemas de Penélope Martins

capa_queculpaessanotícias populares

ela geme
ela grita
ela diz que vai morrer.
— eu morro.
joão tem um metro e oitenta e quatro, teresa não
passa de uma mulher de estatura pequena
contrário de maria, mulher longilínea feito
égua para antônio
ele puxa pelos seus cabelos, ela empina
— geme, grita, diz que vai morrer!
— eu morro.
pedro manipula os dias,
não dorme a noite conceição, os dedos
no gatilho, a senha bancária, a vizinhança que diz
— assim mesmo,
homem é assim mesmo.
ela geme, ela grita
ela diz que vai morrer.
— eu morro.
lúcio perde a razão
escandaliza na porta da seção
o chefe acena na despedida
— faz vergonha, rita
vê se não geme, vê se não grita.
morrer é melhor saída.

canção de origem

eu pretendia fazer isso.
eu tinha uma vaga ideia das coisas.
fazíamos empréstimos nos bancos.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu ia aos cafés atrás de um cigarro.
eu perambulava as faixas dos discos.
fazíamos reuniões nas livrarias.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu usava aqueles sapatos.
eu comia sem desconfiança.
fazíamos de conta torpor e entusiasmo.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
eu evitava olhar vitrines.
eu tomava suco ao invés de álcool.
fazíamos um debate equivocado.
talvez eu fosse dotada de algum otimismo.
adotaria algum otimismo. talvez.
algum.

os planos para a manhã de hoje

os planos para a manhã de hoje
enquanto se vê o noticiário
a xícara de café na seringa que corre as ruas
a torrada integral sem demarcação de terra
a taça de iogurte para crianças mortas a bala
os pedaços de fruta sobre mulheres violentadas
a fatia de queijo derretida na apologia à tortura
os planos para a manhã de hoje
enquanto se vê o noticiário

| poemas do livro Que culpa é essa? (Editora Patuá, 2018). |

Penélope Martins (Mogi das Cruzes, 1973) é escritora, narradora de histórias e articuladora em projetos de fomento da palavra escrita e falada. Pós-graduada em Direitos Humanos pela PUC-Campinas, dedica-se à formação de novos leitores desde 2006, produzindo conteúdo para encontros presenciais e plataformas digitais. Colabora com a articulação de reflexões sobre a leitura com a Editora do Brasil e outras instituições. Participou de coletivos de mulheres com poesia autoral e faz a curadoria do projeto Mulheres que Leem Mulheres, com ações em diversas instituições culturais como o Sesc. Entre suas obras publicadas estão Minha vida não é cor-de-rosa (2018), 1º lugar na categoria Literatura Juvenil do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2019, e Que amores de sons! (2018), ambos pela Editora do Brasil, Poemas do jardim (2013), Editora Cortez, Quintalzinho (2014), Editora Bolacha Maria, e As aventuras de Pinóquio (2018), Panda Books. Integrou a antologia Sete, de poetas contemporâneas, organizada pela Editora Essencial, e é autora do livro de poesia Que culpa é essa? (2018), pela Editora Patuá.

cinco poemas de Fábio Pessanha

carnívoro

quando os dentes se chocam uns com os outros,
os ossos se acrescentam dum inventário
de rachaduras. tal como raízes,
suas rupturas vão fundo no
destino das ruínas e se dão
com os restos em suas imperfeições.

morde-se com força a própria
boca, num exercício de
procurar rastros. depois,
afiam-se os incisivos,
a fim de cravá-los em
seu pedaço mais macio
de carne. é forte o sabor
ácido do sangue ao se
ter tão íntimo a saliva
derramada por diversas
fomes ao longo do tempo.

por horas, a digestão
soa como um carnaval
onde todos estão sem
máscaras… e os dentes à
mostra naquela mordida
sem refúgio e nem alívio…

quebra-se em partes iguais cada fêmur
para que qualquer pedaço talhado
caiba bem cuidadosamente dentro
do sacrifício da saciedade.
ninguém testemunha essa eficiência…

… e todos saem satisfeitos.

* * *

distante como se abrisse
uma janela durante
as horas de frio. o vento
na cara, a rua lá fora.

a sensação seca de uma
paisagem no meio do
peito — ausente —, desde que a
noite se estendeu e se

deu por escurecer mais
tarde… com isso, os invernos
ganharam outro contorno.
a lua cheia foi vista

do meio de uma varanda
esquecida, com a certeza
de que a noite se escondera
numa estação sem retorno.

* * *

desde que se faça tarde é deserto
nervo incerto atacado pela fome

em forma de gente a ferocidade
das palavras acoberta a nervura

verbal do espanto o corpo se consagra
pela violência da secura da

espessura do poema largado
ao excesso despovoado de

costelas carne pele sangue e dentes
nada sobrou após seu abandono

* * *

para Daniele Negreiros
(em resposta a um poema seu)

como se cada passo fosse um céu
repleto de noite. a lua brilhasse
forte no passado enquanto o futuro
jamais surgisse aos viajantes desse
rito. não se pode mesmo olhar o
devir. futuro é o que nos resta de
assombro aos tempos diurnos do engano.
enquanto minhas fadas tramam contra
a velocidade das horas, lanço-me
ao estômago dos deuses para, juntos,
alcançarmos o latrocínio do
sol. toda a verdade será contada
aos meus descendentes e o que nos falta
de vida para a vida será então
o crível enredo ao nascimento dos
meus dias. eternidade é o que me
banha a boca desde cada palavra
tomada por destinos, mas existo.
e insisto no tempo cobrindo minha
cabeça, cobrando a sagrada bênção
pelas manhãs aquecidas em minhas
letras. minha alvorada é quando acordo
no meu corpo quase eterno — poema.

* * *

de dentro de uma tristeza
sem nome ou tamanho que não
corrói mas instala a vida
sem cores ou cheiros o
poema conforta como
a ponte por onde não
se anda e compõe o mais belo
lugar perdido dos sonhos

aquele lugar que se
busca desde antes de
todas as dores que existe
desde antes os olhos se
fecharem todos em flores

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Autor do livro A hermenêutica do mar — Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento. Assina a coluna “palavra : alucinógeno” [link] na Revista Vício Velho, além de participar como ensaísta em outros livros e periódicos.

dois contos breves de Alessandra Barcelar

a sacola

A morte bateu na porta e a pequena Giovanna foi quem abriu.

“Onde está tua mãe?”, perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.

A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais.

“Siga-me”, disse a pequena Giovanna.

Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala.

“Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.

Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando no exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha.

“Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes.

“Mamãe, lê um livro pra mim?”

“Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.”

“Eu não me preocuparia com isso. Eu não acho que ele se levanta”, disse a garotinha antes de pegar um livro.

* * *

depois do fim

Elas se beijaram, e a lua não pode deixar de embrandecer-se um pouco.

Valquiria tirou a blusa com lentidão cerimonial, como se um movimento abrupto pudesse destruir o planeta. Um par de lábios pousou em seus seios, muito perto da alma, com uma delicadeza sobre-humana.

Os dedos de Valquiria viajaram para seu lugar favorito: as costas de Helena. Os lábios de ambas roçaram novamente, como o amor e a morte costumam fazer. Uma chuva tempestuosa e agradável desencadeou-se entre suas pernas.

Um homem olhou tudo de fora, com a testa beijando a janela. Não havia luxúria em seus olhos, nenhum desejo, havia lágrimas. Duas mulheres gozando dentro da cabana e uma delas era a esposa dele.

Ele subiu no cavalo, que relinchou quando sentiu o peso do cavaleiro e o de sua tristeza. Avançou ao longo da planície na direção da lua e um segundo cavalo saiu atrás dele. Este foi impulsionado pela morte, que o seguiu atraído pelo perfume de um coração partido.

Seu orgulho como homem era uma arma que não poderia ser usada neste caso. Sua pistola deveria ser usada em uma guerra entre homens, a revolução, à qual ele estava se dirigindo. Aquele par de mulheres era intocáveis: ele não podia matar sua esposa, muito menos… Sua própria irmã.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou contos em várias revistas literárias do Brasil, de Portugal e da Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos), Colaborou na coletânea Conte outra vez, um tributo a 30 anos da morte de Raul Seixas, que obteve grande repercussão na mídia. Atualmente organiza uma coletânea de contos sobre realismo mágico/fantástico com previsão de lançamento para 2020.