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cinco poemas de Adri Aleixo

o recado do morro

O luar estava muito branco
um pedacinho de mata aparecia longe
dava para separar as flores azuis dos pau-terra

a vista era cansada
tinha lido muita coisa nessa vida
e nessa hora atalhava
ouvia tudo
o recado
se chove se faz sol
o morro fala
a cerração confirma
o gado espera
o tempo é quem faz tocaia
e sorrateiro avisa

A história é a mesma, embora já seja outra

sertão

este friso
entre
água e rio
morro, casa, curva
Este chão sempre de mim partindo

mulher na roca

Se o sol batesse nela
a essa hora do dia
teríamos a imagem de um jarro
as mãos em cálice amparando
o som os fios

olhando mais de perto, sentiríamos vivos

a casa, os móveis
as folhas de carvalho
onde vivem a neta, os filhos

falaríamos de coisas complicadas e outras elementares

de certo, eu acharia tudo doído
mas ela diria: é o ciclo

estiagem

Ela traz um rio no corpo
e o rio dentro dela
só quer ser mais fundo

retorno

Ontem foi a última vez
que seus olhos viram
isso que chamamos de vida
ela sorria, a pele cheirando a terra
o sol se demorando nela
a voz cheia de horizontes anunciava:
— a vida te prepara pra partir

Adri Aleixo é poeta, professora e mestranda pelo CEFET-MG em Literatura feminina. Participa das antologias Escriptonita, 30 anos do Psiu Poético, Contemporâneas, Planner 2018 e Poesia de Ouro. Tem textos publicados em sites e revistas como Suplemento Literário de Minas Gerais, Caderno Pensar do Jornal Estado de Minas, Zona da Palavra, Incomunidade, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou dois livros de poesia pela Editora Patuá: Des.caminhos (2014) e Pés (2016) e a Plaquete Impublicáveis em 2017. Integrou, no ano de 2018, o Circuito Arte da Palavra pelo Sesc Nacional. Em 2019, lançará pela Editora Ramalhete o livro Das muitas formas de dizer o tempo.

cinco poemas de Tarso de Melo

hoje

Amanhã vai chover mais forte,
todos nós já sabemos.
E é estranha a calma dos rios.

Os guarda-chuvas seguem fechados,
os meteorologistas fingem não ter nada com isso,
o barro não demonstra qualquer apreensão,
o vento lambe as roupas secas no varal,
nenhuma janela ainda se fechou.

A água vai vir, forte, como sempre,
engolindo todo o sossego ao redor,
mas os buracos não confessam
as tristes poças de amanhã.

As casas, as coisas, as vidas,
o que sucumbirá ao mar inevitável
não dá sequer um suspiro,
não se despede de nós, de nada.

Plantamos no solo morto
esse esquecimento do futuro
— e tudo o que brota chamamos

hoje.

desencontros

foram apenas nove
talvez dez
os meus encontros
com Orides Fontela

no primeiro
ela me perguntou
como aprendi a voar
e eu expliquei
que foi da primeira vez
em que caí
de um de seus versos
e ela torceu o nariz
para meus voos

no segundo
e também no quinto
ela me explicou
que Kant não sabia amar
nem dizer
para que servem
os pássaros
e as asas de quem anda

no terceiro
improvisamos
um mapa-múndi na toalha
e os povos solitários
expulsos do poema
cruzavam os hemisférios
tropeçando em copos sujos
e migalhas de um pão
que não nos atrevemos
a comer

no quarto
nada além de silêncio
nada tecemos
nada trouxe comigo

no sexto encontro
ela jogava uma canção
de uma mão para a outra
esticava e amassava os versos
rasgava as palavras
e deixava cair
com os pedaços delas
tudo que eu fingia
e fingia entender

no sétimo
talvez no oitavo
Orides reclamava da forma
como o fotógrafo
insistia em buscar
detrás dos seus óculos pesados
alguém que já havia partido

Orides não apareceu
na nona ou décima vez
em que a esperei
na porta do prédio
sob o bronze da placa
cujas letras precárias
gritavam INVISÍVEL

foi apenas um
meu encontro
com Orides Fontela

: foi nenhum

tigre

triste-distante, diante
dos últimos
acontecimentos:

tempo de silêncio
concêntrico
nervos de aço
mar de papel

mente a mil
mas serena
quieta (espinha
ereta, coração
tranquilo)

como quem se prepara
(tigre, tigre, brilho, brasa
: um amanhã a cada manhã)
para as artes
infalíveis
do ataque

por que

retrair-se à agenda alheia — desistir
dos cinco sentidos — por que o relógio,
as distâncias que cria, o mover-se
a sua sombra — por que as chaves
giradas, o diário trancar-se com a família
— por que a gravata, esperar o fim do dia,
dos dias — por que o espelho, o asseio,
a rotina dos sapatos — por que as senhas,
os códigos, os telefones de emergência,
endereços — por que os passos, os prazos
exíguos, as datas consumidas
como aspirinas

matas

já tínhamos prometido não falar mais de poemas
pensei em pegar uma pá ou a marreta dos dias
quebrar as calçadas todas da cidade
até que se erga novamente o que enterramos

não é apenas sobre nós que cai todo esse sufoco

os antigos falam de um rio que corria bem aqui
e se espantam quando digo que apenas sete por cento
da mata antiga resistiu às serras do nosso desejo

e eu me espanto mais que eles quando penso
que nem mesmo sete por cento dos poemas
que cobrem como mata densa o que chamamos mundo
devem resistir ao silêncio atlântico que se projeta
daqui até a mais distante das línguas

Tarso de Melo é poeta e ensaísta, nascido em Santo André/SP em 1976. Lançou, entre outros, Íntimo desabrigo (2017), Dois mil e quatrocentos quilômetros, aqui (com Carlos Augusto Lima, 2018) e Alguns rastros (2018). Em breve lançará a antologia Rastros, reunindo grande parte dos poemas que publicou desde sua estreia, há vinte anos. Advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. Colaborador das revistas Cult e Quatro Cinco Um. É curador de “Vozes Versos” na Tapera Taperá (com Heitor Ferraz Mello), de “Passaporte: Literatura” no Goethe-Institut SP (com Marcelo Lotufo) e de “Algaravia! poesia na Mário e nos bairros”, da Biblioteca Mário de Andrade.

três poemas do livro inédito ‘A implantação de um trauma e seu sucesso’, de Ricardo Escudeiro

pole walk in planche

“[…] And you think love is to pray
But I’m sorry I don’t pray that way […]”
(In: The Golden age of grotesque, Marilyn Manson, 2003)

com Anastasia Sokolova

há registro de uma foto de um caso
semifamoso ou nada
de um sanatório em massachussetts
mil novecentos e vinte e oito
uma foto de seis mulheres
flutuando
contra uma parede
as seis bruxas irmãs uma das traduções
que encontrei pelos sítios de busca
pra six sister witches ou levitating portuguese witch sisters
e não na foto e nem nos sites
mas aqui quase era e é ainda audível elas
sussurrando
pro acabamento descascado da parede coisas como
erigir um muro de sentenças pra o depois derrubá-lo
produzir o que é importante no aço dos lábios
mas e a questão da foto ser uma fraude
nada
já era impossível não
enxergá-las como deusas
as deidades que tomam conta
das artes da gravidade anjos
da totalidade

sete

: nós queremos o fim imediato da brutalidade policial
e dos assassinatos de pessoas negras.

coloca pra passar aí alguma miséria
faz dela uma prenda
um objeto de estudo
um alívio cômico dentro do horário
nobre um linchamento desnecessário com fins lucrativos
e cada um encena um suspiro de gala enquanto só assiste
enquanto no enterro de mais
uma irmã de mais um irmão uma voz
segurando na oitava da outra canta
o fruto estranho a carne
mais barata do mercado é a carne negra

ah mas como é que faz pra ter vontade
pra agir

mas quem mesmo o monstro
que te crava nas costas os dentes e você
é quem sente o gosto
calçar os sapatos do outro nada disso funciona nem
basta
você imaginar numa barca de gente comercializada
tua boca pra sempre no grupo
das bocas em semi alegria forçada pra despistar açoite
nem basta você imaginar um capuz
branco enforcando pra sempre a tua pele
ao lado de uma cruz em chamas
nem basta você imaginar um capitão do mato
te usando pra sempre
de cobaia em exemplos de estrangulamentos
gratuitamente e com abuso desde as fazendas
até as filas dos caixas
nem
basta você imaginar um coturno
tático pisando seu rosto humano pra sempre
e você mesmo ao lado pra sempre um verme
passeando na calçada sua isenção ou elegância

ah mas pra mudar essas coisas leva tempo

é o que diz o branco
apresentador do programa vespertino
há uns quatrocentos anos mais ou menos

ao infinito e além

para L. L.

em meados dos anos noventa um grupo
de excelentes cineastas como hoje o sabemos
lançava toy story pela disney pixar e com um intervalo
de quatro anos era lançada a sequência da animação
no mesmo passo de tempo eu descobria antes mesmo
de usarem as palavras que hoje usam pra isso
meu primeiro amor
no mesmo passo de tempo eu passava pelo fundamental dois
e aprendia também com uma enchente
que arrastara todos os muros possíveis
do que eu chamava casa que arrastara
todos meus pertences que então eram uns gibis e uns brinquedos
aprendia sobre abandono e sobre acolhimento
aprendia podemos dizer
sobre o que pode carregar os bracinhos de um brinquedo
que não é só fobia e trauma que nos incitam os inanimados
aprendia uns usos específicos de algumas palavras
bom falarmos disso
assim damos jeito de incluir aqui algo sobre as linguagens
e evitamos situações de equívoco das leituras
como aquela onde ninguém que dissesse-nos
que de cada vez que se pronuncia
vida
é pouco ou nada provável que tenhamos
vida entre os lábios
é raro
aprendia o peso de alguém escrever o nome
na sola de nosso pé direito
como a criança fazia em seus brinquedos no desenho
e como hoje sei fazem parecido os legistas
e pode ser um defeito de nosso ritmo e direção de leitura
mas essa inscrição nada tinha a ver com posse
veja-se pela ordenação das cenas o que vinha primeiro
significava you’ve got a friend in me
como hoje o sabemos eu aprendia então
com meu primeiro amor dividindo
uns gibis e uns brinquedos comigo
um amor sem essa de pertencimentos

ow isso não é voar
isso é cair com estilo
isso
é um verdadeiro salto no tempo e presencio
com meus olhos de agora
um nosso primeiro beijo
o ruim de certas quedas é que o atrito seca a retina

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como editor na Fractal e assistente editorial na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Poesia Avulsa, entre outras. Traduziu poemas da poeta afro americana Nayyirah Waheed, que foram publicados para download livre, pelo selo gueto editorial, da Revista Gueto, em 2017. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias Os pastéis de nata ali não valem uma beata — antologia de 2017 (Enfermaria 6, 2018), 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015), Patuscada: antologia inaugural (Editora Patuá, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Punks Pôneis, 2016) e Poemas para ler nas ocupa (Editora Estranhos Atratores, 2016).

pescaria, poema de Clarissa Macedo

Na fila de emprego
me deram uma vara de pescar.

Contrariando as profecias,
não conquistei o universo.

Não havia isca
não havia lago
não havia nada.

Os peixes sumiram (!)
sugados por quem já sabia pescar,
por aqueles que pescam de família em família
com o mar à mão
e dedos ensinados;

será que têm varinha mágica?
Será por isso que não pesco?

Há tempos desato o ofício da pescaria
e nunca dá certo.

Faz anos também
que o cheiro do peixe invade as paredes, o catre, os sonhos, a minha oração.

Eu continuo: persisto,
de anzol gasto,
no exercício de dar de comer
à mãe, às filhas, às irmãs;
mas todas minguam
na tarefa diáfana
de enganar a fome
de soletrar a morte.

Por isso, no auge daquele dia,
convencida de que pescar
sem isca, peixe ou lago
não enganaria a dor, a miséria,
amarrei a linha no tronco mais rijo;
e lá, de corpo pendurado,
olhei pra sempre o açude vazio da minha casa.

Clarissa Macedo (Salvador-BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e o livro Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; em 2ª edição pela Editora Penalux, 2017; e traduzido ao espanhol por Verónica Aranda, Editorial Polibea, 2017). Integrou, em 2018, o Circuito de Escritores pelo Arte da Palavra, promovido pelo SESC. Lançará este ano o livro O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (poesia). Site: http://www.clarissamacedo.com.br/ 

a luz vence a escuridão, de Marcelo da Silva Antunes

capa_outroscortesAcender vela no jantar era tão certo quanto morar na casa dos fundos de favor. Última casa do quintal, de uma irmã da igreja. Sem CEP, sem videocassete e com banheiro fora.

“Tá sem luz, posso acender as velas hoje, mãe?” — dizia quando a noite se apresentava.

“Espera menino, tem que economizar essa vela, tenho que dar banho no seu irmão”.

Ir pra escola, nem de longe me agradava. Brincar no pátio eu gostava, mesmo sozinho. Apanhar dos meninos mais velhos era o problema. A merenda tinha gosto azedo, e salsicha dentro de lata de sardinha não é gostoso.

Minha paixão sempre foi o fogo. Gostava de olhar pra ele. Ficava olhando sua luz e sentindo seu calor até pegar no sono. De alguma forma me acalentava. Mamãe dizia que eu era fogo. Ela cuidava de apagar todas as luzes antes de deitar. E palestrava sobre o perigo. Apagava com os dedos, me ensinou que assoprar velas traz maus agouros. Mãe sempre contava histórias de noite, todas muito parecidas. “Foram felizes para sempre, e acabou”.

Sempre fui o homem da casa, segundo mãe. Mas ela que mandava. Um novo emprego longe do cachoeirinha me deixou responsável pela casa. Já tinha 11 anos.

Irmãzinha da igreja ajudava de dia com alguma comida. De noite ia pro culto. Ficava com o quintal todo pra mim. Já tinha a chave do portão e da casa, receber a da gaveta de mantimentos foi de grande honra e responsabilidade. Eu era mesmo o homem de casa.

“Cuidado com as bolachas, caixas de fósforo e velas, só acende quando escurecer e se precisar, senão, dorme que a mãe já tá chegando, abre só pra pegar açúcar e leite do seu irmão, se acabar”.

Tivemos dias de luz. E dias que a mãe não voltou. Cada chegada da mãe, festa. Seu novo trabalho traria coisas melhores, ela dizia. O armário apresentava sinais disso e quando eu comia um pacote inteiro de bolacha, não tinha bronca.

Mãe chegava muito cansada, quase 23h, quase sempre.

Passei a ser um estranho na escola, eles me chamavam de turista.

“Hoje estamos sem luz” — gritou meu irmão, Pedrinho.

Ficar sem luz era certo. Projeto de redução do governo, alguma coisa a ver com água, não sei bem. Sempre homens pendurados nos fios, mexendo pra lá e pra cá. Em casa tinha relógio, com garrafas de água em cima.

Pela primeira vez eu seria o responsável de vencer a escuridão.

Abri o pacote de velas. Fiquei esperando escurecer. Escurece rápido por aqui, sem horário de verão. Peguei o fósforo e acendi todas, quatro no total. Tão bonita a claridade do quarto e cozinha. E ficou tão quentinho.

Embalei Pedrinho cantando a música da mãe. Ele dormiu. Fui apagando as luzes com os dedos — igual aprendi. Deixei uma. Coloquei do meu lado no chão, deitei pra esperar mãe. Ela não chegava nunca.

Peguei no sono, lembro que o calor aumentou. Parecia que tinha alguém me abraçando. Ouvi berros da rua. Senti gosto de terra.

Última imagem que me lembro foi de cinzas voando e o fogo ao fundo. O fogo ardia tão bonito naquela escuridão.

| conto do livro Outros Cortes (2019). |

Marcelo da Silva Antunes nasceu em São Paulo, no dia 13 de junho de 1992, dia de Santo Antônio e de Exu. É Autor de VIVAVACA (2017), SP: Sem Patuá (2018) e Outros Cortes (2019). Editor do selo literário Borboleta Azul, agitador cultural e oficineiro de escrita criativa. É poeta nas horas cheias. Instagram: marcelodasilvaantunes_poeta

aquário, de Penélope Martins

1.
era um ferrão de arraia no estômago. meus pulmões paralisados. retomando do princípio, refiz o passo a passo desde que autorizei sua entrada. não sou o tipo de pessoa que se importa com datas e isso pode parecer uma desqualificação sumária dos meus sentimentos. imagino, no entanto, que você veio me buscar numa quarta-feira. a honestidade do seu convite fez com que eu deixasse de fingir o que eu não era. o que me causa espanto até agora é como vínhamos evitando esse confronto de apaziguadas verdades. lembro como agora, sua mão sobre a minha impedindo que eu desfizesse o movimento. eu disse “tamborilar é verbo substantivo, um sobressalto quase doloroso”. seus olhos sinalizaram perplexidade e deslumbre. eu repetia repetia repetia na quietude da mesa. veio a voz ordenando: “fique assim”. a fotografia é menor do que a memória. ainda há tristeza nos olhos, mas só podemos rever os dedos semi erguidos e um vestido admirável.

2.
quando R. me tocou a primeira vez, não houve nenhuma timidez de minha parte. aquilo parecia natural como tomar banho ou ir à feira. R. tinha um cheiro adocicado na pele, mas nada comparado às essências florais que me enjoam. era um cheiro de mato, óleo de madeira, visgo de peixe. era ela no meu ouvido em gemidos inocentes. Não havia em suas palavras a presença de uma memória que a pudesse excitar. Eu me excitava no total desmemoriamento dela, suas mãos pequenas que tentavam em vão apanhar o meu corpo. a inteireza com R. fez com que eu me esquecesse do que ela poderia esperar de mim. devolvi uma curiosidade mesmo infantil. ela segurou minha mão, colocou sobre o seu sexo. deslizando meus dedos para dentro dela eu fixei seu perfume. não são poucas as vezes que fecho os olhos e escuto os gemidinhos fracos repetidos repetidos repetidos mantra.

3.
naquela paisagem milimetricamente fria, uma onda de arrependimento nos abateu. você tentou disfarçar pedindo que eu começasse uma leitura. vi como endurecemos dos calcanhares aos ombros. busquei açúcares, sua voz encarnou. “coma chocolates, pequena suja”. a embalagem se rompeu. simulamos recato. você abriu uma garrafa. o açúcar no álcool embebeu palavras ridículas. “quando foi que começamos?”, “aquela dose de conhaque a mais e eu soltando bobagens, lembra?”, “poderíamos ter evitado?”, “ainda não há o acontecido.”, “eu voltei ao mesmo ponto porque senti algo mal resolvido.”, “sinto que podemos nos afogar nisso.”, “talvez seja exagero de precaução.”, “é só tirar a prova de que isso não é nada significativo.”, “devemos ter mais da prática do que da teoria.”, “na pior das hipóteses, poderemos rir.”, “lembra a fotografia?”, “ como se fosse agora.”, “já me faz falta aquele vestido branco.”, “imagino você nua, um vestido branco no sol.”, “quando foi que você me percebeu?”, “quando foi que você me percebeu?”, “eu gostaria de estar na biblioteca.”, “seríamos dispersos na biblioteca.”, “estou tonta.”, “deite-se um pouco.”, “eu não vou conseguir evitar que aconteça.”, “não se preocupe, somos dois peixes no aquário, nada mais do que isso…”.

4.
uma vez R. me convidou para uma festa. eu confiava plenamente em R., embora soubesse que ela precisava de alguma dose de cicuta para sobreviver. R. foi molestada pelo pai. isso poderia explicar sua fixação em dominar o medo. cheguei no endereço vestindo alguma coisa muito séria. R. estava meio alta. ao fundo da sala, a janela de vidro substituía uma parede. eu sempre tive pavor de altura. as luzinhas vertiginosas desenhando um mapa. fiquei parada no centro da sala. aquele medo de altura. aquele medo de ser dominada pelo medo. R. se estirou sobre um sofá. sugeriu que eu relaxasse. um sujeito passou a mão na minha cintura. por um momento eu pensei que seguiríamos no inevitável. eram dois homens, R. e eu. a plateia esperando, o foco da pergunta repetida repetida repetida sobre mim. R. poderia ter me avisado. era uma questão de sobrevivência. R. no sofá já beijava um cara de cabelos longos, enfiava os dedos por trás de sua nuca. transfigurei ao retomar a memória, os dedos de R. deslizando entre minhas pernas. o homem de olhos azuis disse que eu deveria beber algo. não fosse o fascínio que R. exercia sobre mim eu jamais entraria naquele apartamento. apanhei a bolsa. abri a porta, entrei no elevador calada como um coral pálido. corais respiram? os olhos azuis me seguiram até o carro afirmando sorriso nervoso de caninos pontiagudos. entrei no carro. tranquei e não pude evitar o alívio olhando o homem pelo retrovisor. parti para nunca mais voltar a ver R. vez em quando sonho seu corpo envolto por almofadas e ácidos.

5.
sou uma interiorana convencional. sei que isso não combina com o fato de acordar nua numa cama cujos lençóis não são os meus. a assepsia me obriga que eu pense na lista de pessoas que se deitaram sobre esses lençóis. pessoas cujo espírito eu gostaria de manter distância. cabeças engorduradas, silicones, saliva, suor, porra. repetição de movimentos daqueles desconhecidos dentro da minha cabeça. nauseante ser eu. retomo dignidade em poema arrogante. desenho a palavra. atinjo seus olhos. amanheço onda. bato sobre seu peito repetidas repetidas repetidas vezes. os lençóis brancos, a espuma do mar ainda que houvessem vestígios. “calma, dois peixes no aquário.” “amor é tempo relativo.” e tantas outras coisas que eu posso intuir de sua boca sobre a angústia de não ser nada. filtro inteligível que me apaixona. a lista de títulos enfileirados. antes era o medo de saber você, depois, o medo de que me deixasse ali sobre a espuma de algodão, nosso aquário redondinho, pedras brancas. para se esconder do fato. três fios de plástico-planta para dizer “esta é sua casa”. a culpa que eu carrego é por vezes ter sido distraída com a vida. deixei a janela aberta. tocava diamante verdadeiro na vitrola, disso eu posso afirmar como se fosse agora. alcancei a cena a tempo de ver o imenso gato partindo entre as grades. o corpo frágil escamado entre caninos pontiagudos. três filetes de plástico no chão e aquelas pedras entre cacos de vidro. o esconderijo não serviu para nada.

Penélope Martins (Mogi das Cruzes, 1973) é escritora, narradora de histórias e articuladora em projetos de fomento da palavra escrita e falada. Pós-graduada em Direitos Humanos pela PUC-Campinas, dedica-se à formação de novos leitores desde 2006, produzindo conteúdo para encontros presenciais e plataformas digitais. Colabora com a articulação de reflexões sobre a leitura com a Editora do Brasil e outras instituições. Participou de coletivos de mulheres com poesia autoral e faz a curadoria do projeto Mulheres que Leem Mulheres, com ações em diversas instituições culturais como o Sesc. Entre suas obras publicadas estão Minha vida não é cor-de-rosa (2018) e Que amores de sons! (2018), ambos pela Editora do Brasil, Poemas do jardim (2013), Editora Cortez, Quintalzinho (2014), Editora Bolacha Maria, e As aventuras de Pinóquio (2018), Panda Books. Integrou a antologia Sete, de poetas contemporâneas, organizada pela Editora Essencial, e é autora do livro de poesia Que culpa é essa? (2018), pela Editora Patuá.

gueto entrevista Tito Leite

capa_cedro1. Para começar, conta um pouco sobre o livro Aurora de cedro.

Aurora de Cedro é um livro que nasce das minhas inquietações, dúvidas e sentimentos, de modo especial, do nó na garganta com determinadas situações, assim como a minha indignação com os problemas atuais desse fascismo crescente. No primeiro momento, trato do cenário político e dos abutres que roubam a nossa liberdade, com temáticas voltadas para o imigrante, o trabalho, os sistemas de vigilâncias e o consumismo. No decorrer do livro, procuro expressar os espantos da vida urbana em um mundo fugaz e muitas vezes desprovido de sentidos. Neste livro, afirmo a vida, o corpo, o canto e a festa: numa vida estilhaçada, queremos a vontade de eternidade no transitório, a vontade de amar em tempos de ódio, a vontade de se embriagar e viver loucamente em tempos do bestialmente correto. Em todos os poemas há uma busca pela resistência, a melhor palavra que expresse a grande recusa. Enfim, acredito que é um livro sobre a resistência, a vontade de manter-se na luz e abraçar a noite escura da alma em meio a tantos ventos contrários e salteadores da paz. Por isso, uma aurora de cedro, uma luz leve e uma sombra sóbria, uma aurora armada de cedro.

2. Como costuma ser seu processo de criação?

Começo a escrever num pequeno intervalo que encontro entre 06h05 e 06h45, quando gosto de reler o que escrevi na noite anterior e burilar os poemas. Durante o dia, sempre tento guardar um verso ou uma estrofe que fiz para esperar algo de bom pela manhã e, com isso, fechar o poema. Depois, refaço alguns poemas e procuro escrever outros, alguns surgem de carreirinha, há os que demoram muito tempo. Durante as minhas atividades no Mosteiro, sempre fico à espreita de algum verso ou palavra que abra o poema, lembrando-me de Vicente Huidobro: “Por que cantais a rosa, ó poetas!/ Fazei-a florescer no poema”. Para mim não é complicado começar um poema, difícil é deixar como quero. Quando escrevo, gosto de criar imagens, buscar o inusitado e juntar palavras que, normalmente, não fazem parte do mesmo campo semântico. Depois das imagens, tenho uma preocupação com a sonoridade e gosto muito de ler em voz alta.

3. E como foi o processo de criação com Aurora de cedro?

Aurora de Cedro, inicialmente, foi um desafio, porque eu queria escrever um livro mais sonoro e menos hermético, uma poesia para ser ouvida. Comecei a escrever em 2017. Os primeiros poemas eram imagéticos e de inclinação surrealista. Em muitos momentos eu me perdia entre algumas poluições de imagens. Por isso, sempre procurei ser cuidadoso com o trabalho de linguagem. Então coloco toda a minha paciência monástica, não tenho pressa para publicar, refaço várias vezes. Alguns poemas ficam guardados e depois de um bom tempo, volto a trabalhar e os deixo guardados novamente, até que um dia fiquem como desejei. Assim, vou jogando fora o que fica ruim. Tenho uma excelente relação com a minha lixeira. Sempre penso em não queimar cartucho e assim fui jogando alguns fora, lapidando outros e procurando colocar ritmo e som. Eu só bato o martelo quando sinto que está como eu quero.

4. Já tem um novo projeto em mente? Qual é? Ou costuma dar um intervalo na escrita entre um livro e outro?

Eu não consigo dar um intervalo. Sou um crítico do que escrevo e quando penso num projeto futuro, estudo onde acertei e errei no anterior. Na verdade, penso em escrever um livro de poesia inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário, mas não sei se vou levar adiante. Toda obra desse autor é uma máquina resistente contra o esquecimento e totalmente subversiva. É interessante que, dentro de um manicômio, onde eles eram tratados como lixo, o Bispo começou a tecer sua obra a partir do lixo da instituição, desconstruindo a farda e toda a simbologia de sua camisa de força.

5. O que você diria para quem está começando a escrever? Por que você começou a escrever?

Eu diria para quem está começando que poesia não se faz com bula de remédio ou com nota de rodapé, então tome cuidado para não colocar o leitor num quarto fechado que não entra ar. Por que comecei a escrever? Porque a minha cabeça sempre foi um espanto de dúvidas — nunca tive medo de colocar o meu mundo em questão e a poesia surgiu no momento em que precisava recriar minha vida como quem junta todos os cacos do velho vaso que quebrou. Além disso, sempre acreditei que o poeta é uma ponte entre o homem e Deus.

Sete poemas do livro Aurora de Cedro (Editora 7Letras, 2019), de Tito Leite, saíram na revista gueto no dia 13 de maio, você pode ler aqui: [link]

Resenha do livro na Revista CULT, por Alexandra Vieira de Almeida: [link]

Link para comprar o livro no site da editora: [link]

Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo Edith, 2016). Poeta e monge beneditino, é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Curador da revista Gueto. Aurora de Cedro (Editora 7Letras, 2019) é sua mais recente obra.