publicações

cinco poemas de Maria Rezende

do amor e outros demônios
(*inédito)

O amor nos tempos do cólera
o amor de coleira
amor livre mas não despido
nu de meias
o amor de capa de chuva

Amor que cuida
de si
do outro
da humanidade
amor sem temor
mas sem ingenuidade

Amor sem ilusão
amor de verdade
com força fé látex coragem

Amor que permanece
que atravessa as idades
amor que cura

Mucosa com mucosa
agora é só pra quem
mais do que duro
dura

memória e maravilha
(*inédito)

Com os cabelos cheirando a sexo
e o corpo limpíssimo de depois do gozo
me deito

A cama no cio sibila e pulsa

Uma vertigem habita a nuca
tenho um mar na carne
e uma cachoeira nas costas

A boca deságua sinuosa
a pele brilha
banhada em memória e maravilha

s/título
(*do livro Bendita palavra)

Nesse lugar-poema
Desse livro que eu escrevo
Invento uma fala clara
Palavra feita pra boca
Com jeito de todo dia
E destino de se espalhar:

Nu aqui é pelado
Seio é peito
Bruma é neblina
Pungente é tudo que dói

Vasta é grande
Casta é pura
Retém aqui é segura

Aqui bela é bonita
Adorna é enfeita
Enreda é enrosca

Aqui não cabe floreio
Aqui reverto a inversão:
Simplicidade, aqui, é sofisticação.

pulso aberto
(*do livro Carne do umbigo)

Somos porta de entrada
e porta de saída
somos deusas e escravas
há mil gerações

Dentes afiados
no escuro de entre as pernas
veneno na ponta da cauda
bruxas
putas
loucas
santas

Somos as que sangram sem ferida
donas do prazer
donas da dor
as invisíveis
as perigosas
as pecadoras
as predadoras

Insaciáveis e geradoras
os corpos secretas casas
somos seres de unhas e tetas
caminhando aos milhares as estradas

Somos a terra e a semente
carne de aluguel em alma de rainha
as submissas
as bacantes
as que procriam e as que não

Somos as que evitam o desastre
as que inventam a vida
as que adiam o fim
mulher
multidão

para Eduardo Galeano

kintsugi
(*poema do livro Hermanas)

Não ser a mulher do avião
ruminando a palavra amor
a vida escorrendo verde pelo canto da boca

Não ser a que se desculpa
pelo almoço
pela agenda
por voar
por existir

Ser vibrante
ter a voz inteira
não oferecer soluções pra inexistentes problemas
não se espatifar
não se desmilinguir

Nunca ser a mulher do avião
engolindo sua culpa com amendoins
mendigando afeto pelo telemóvel

Ser frágil
aceitar as quedas
desistir de polir cada mínima aresta
e remendar com ouro as rachaduras

Maria Rezende é poeta, performer, montadora de filmes e celebrante de casamentos. Publicou quatro livros: Substantivo feminino (2003), Bendita palavra (2008), Carne do umbigo (2015), Hermanas (2019) — edição bilíngue em parceria com a compositora espanhola Amparo Sánchez —, além de dois CDs de poesia. Em recitais e com seus espetáculos, Carne do umbigo e Mulher multidão, já se apresentou em palcos de todo o Brasil e também de Portugal, Espanha e Argentina. Como montadora audiovisual assina treze longas-metragens e pílulas de videoarte. Celebra casamentos com muita emoção, em cerimônias costuradas por poesia. Site: www.mariadapoesia.com

três poemas do livro ‘Todas as quedas são livres’, de Leandro Rodrigues

cadafalso

capa_rodriguesAs marcas de um voo morto
açúcares espalhados pelo sótão
do avesso de minha carne
costuramos madrugadas sanguíneas
marchamos para um cadafalso difuso
cores desmembram o laço
no nosso pescoço um pássaro.

Natal no morro

de sobressalto

a mãe olha para o filho
_____— são fogos de artifício!

meninos sonham acordados
castelos, dragões, bolas, cometas

e um país imaginário
sem balas perdidas.

ode/elegia

a palavra___/___o canto___/___a casca

dis
se
cá-
los

o grilo__________a cigarra
e sua ode__________e sua elegia
para a lua__________para o sol

o poeta___/___a cicatriz___/___o novelo

des
mem
brá-
los

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo, em 1976. É professor de Literatura e considera-se um antipoeta ermitão, avesso no desavesso, corinthiano de roer unhas. Pai de João Gabriel, casado com Lúcia e astrônomo de sextas e sábados. Já lançou os livros Aprendizagem cinza (Editora Patuá, 2016), Faz sol mas eu grito (Editora Patuá,2018) e Todas as quedas são livres (Editora Penalux, 2020). Participou também de diversas antologias, entre elas: Hiperconexões 3 (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019), 70x Caio (70 poetas homenageiam Caio Fernando Abreu, 2019). Já teve poemas publicados e traduzidos para Espanha e Estados Unidos (revista Dusie Nº 21 da UCLA — Universidade da Califórnia. Mas não acredita em nada disso. Continua aguardando na varanda os dois discos-voadores vistos na infância, para lhe proporcionarem um passeio que ainda não fez.

envelhecer, poema de Helena Arruda

aos 53 anos tive um insight na banheira
e
percebi que fui sendo tudo na vida
fui sendo criança sem saber
sendo adolescente sendo adulta
sendo mãe sendo velha
percebi aos 53 que não me preparei para
nada
a vida foi sendo e se desenrolando na minha frente assim
como uma árvore que vai crescendo e ficando verde e
ficando adulta e dando flores e frutos e amarelando
e caindo os frutos e continuando sem cessar sem cessar
percebi no espelho a minha cara lavada o meu corpo lavado
a minha flacidez e minha lentidão as minhas rugas e minhas mãos
percebi que não planejei a vida que ela foi acontecendo devagar e
rápida e devagar e rápida de novo e mais rápida ainda
e mais
percebi que não percebi nada e tudo foi indo e indo e tomando
proporção e eu ali meio silente meio falante fui indo
como uma pipa sem rabiola e voando e indo toda vida e
trabalhando sem cessar e vivendo um amontoado de coisas e
sendo mãe e sendo filha e sendo neta e
sendo aluna e sendo professora e
sendo irmã e sendo amiga
e sendo tudo ao mesmo tempo e
sendo mulher e sendo esposa e sendo traída
e sendo tantas e sendo eu mesma sempre e sendo tantas e sendo eu
e sendo
percebi hoje que agora posso planejar porque hoje fui acontecendo em mim
e fui percebendo o impercebível e fui vendo a minha velhice chegar e pensando
e acontecendo tudo de novo e eu sendo escritora e sendo poeta e sendo sempre
cansada e sendo mestranda e sendo doutoranda e sendo pesquisadora
vou descobrindo
e sendo tantas ao mesmo tempo
mas agora eu planejei que sendo uma sou muitas
e agora eu descobri que sou muitas e sou eu
porque sou muitas e sendo eu quero ser outras
e sendo outras quero ser eu
sendo de novo eu e outras e de novo
e assim a velhice chegando
agora vou me planejando para ficar mais velha e ter umas mazelas e sendo
e a menopausa chegando e eu sendo eu e sendo tantas
e meu assoalho pélvico envelhecendo e eu sendo eu e sendo tantas
e eu te traindo porque sendo eu fui ser outras
e eu me traindo porque sendo eu fui ser outras
e sendo outras queria ser eu de novo
e percebi que vou planejar e velhice
já que fui sendo tudo na vida quero um tempo só pra mim
para planejar a velhice
e sendo vou planejando e viajando
e sendo mãe e sendo irmã e sendo amiga e sendo adulta e sendo tantas
e sendo eu e sendo mulher e sendo madura
e sendo madura posso esverdear
e posso virar flor e posso ser semente e posso germinar
e posso nascer de novo
e sendo eu posso ser múltipla e posso ser madura
e posso ser comida
e posso ser eu mesma
e posso ser eu mesma
e posso envelhecer
sendo.

Helena Arruda nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Poeta, contista, ensaísta, pesquisadora e revisora, é autora dos livros Interditos — poemas (Batel, 2014) e Mulheres na ficção brasileira — ensaios (Batel, 2016). Publicou também nas antologias: Elas escrevem; Moedas para um barqueiro (Andross, 2011); Por detrás da cortina; Amor sem fim (Beco dos Poetas, 2012); A literatura das mulheres da floresta (Scortecci, 2013); Hoje é dia de hoje em dia: literatura brasileira do século XXI (Multifoco, 2013); Rio dos bons sinais (CMD, 2014); O protagonismo feminino (Scortecci, 2016); Escritor profissional (Oito e Meio, 2016); Mulherio das Letras (Costelas Felinas, 2017); Mulherio das Letras (Mariposa Cartonera, 2017); Tabu (Oito e Meio, 2017); Casa do Desejo (Patuá, 2018); Mulherio das Letras (Edição do Autor, 2018); Mulherio pela Paz (Edição do Autor, 2018); Ficção e travessias: uma coletânea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto (7Letras, 2019); Ato Poético (Oficina Raquel, 2020); Ruínas (Patuá, 2020). Helena é também membro do corpo editorial da Revista Topus — espaço, literatura e outras artes, da UFTM. Atualmente, dedica-se ao seu primeiro livro de contos e à pesquisa acadêmica relacionada à literatura brasileira do século XXI. Este poema está no livro Corpos-sentidos, a ser lançado, ainda este ano, pela Editora Patuá.

cinco poemas do livro ‘Cabeça de Touro’, de Guilherme Dearo

porque as samambaias são mais sábias

Veja a palmeira balançando suas garras
em abnegação selvagem. E veja

capa_dear
Capa de Cabeça de Touro

sua postura fiel e seus valores
pois silencia e permanece sob
um céu volátil e ignorado mas
firme sobre a terra. Sabe que

passará e entende
o que não enxerga.

Em movimento se solta
ao que lhe sopra aceita
seus membros estoicos
obedientes à dança natural.

E ela mesma sopra
sobre nossas faces
nos braços duros
nas pernas gordas
a paisagem perene.

Estática sabiamente
parada enraíza sua história
em sulcos profundos

eternamente ligada à terra
sólida construção edificada maleável.

E sopra a pergunta: quem chegou
primeiro quem mais pisa aqui e
dança e segue o vento sem maiores
questionamentos.

E continua a ser fiel.
E continua a silenciar

até o último de seus dias balança
suas garras na despedida de todos
nós
matéria frágil e dura.

uma manhã tropical se inicia

na praça se acumulam
esperam
palavras e ordens

(têm marcado de giz branco
suas costas e blazers)

andam sempre com uma mão
recolhida atrás do corpo
não abrem ou oferecem

mas dão breves tapas
nas costas dos companheiros
mais queridos

ali contam-se os homens
recolhem-se as mulheres
junto com os animais
outros objetos de valor:

espera-se deles o suor
e a hipocrisia
delas as pernas rotundas
e abertas
planejam apenas
breves riscos no chão:

não há muros e portas
são homens inteiros
sem ressalvas
e desentendimentos:

não esperam que haja
segredos e privacidades
entre sentimentos
puros de justiça e progresso.

nada além da limitada carne

I

Quando for para lembrar por que
se é e se está e por que tanto respira
levante quando os vasos estiverem caídos
leia os cimentos quando estiverem marcados
limpe a poeira quando a terra for muita

E quando a carne for fresca
e as moscas muitas

e as flores frescas
e as moscas muitas

E quando as moscas forem frescas
e a maçã na boca fresca
e a cidade, podre, muita

E quando o amor for fresco
e as flores, de plástico, poucas

E quando as asas baterem na boca
na narina no ouvido e zunirem muitas

e as palavras ainda tiverem um humilde significado:

lembre-se dos nomes com dignidade
lembre-se em festa dos nomes
que permanecem com dignidade
diga em voz alta os nomes
com dignidade.

II

somos a passagem das aves migratórias
somos a crueldade plantada profunda
somos as forças diárias resistentes e nulas
cada barco e porto cada festa e gozo
cada parto e cada amor

somos a crueldade que veio antes de nós
cada berro animalesco cruz e espada
que nada sabemos e tudo pagamos

somos servos de cada morto e cada morte
toda última luta e dança e fala cerimoniosa
cada corpo e inseto que não poupamos

para nos revelar a beleza
cobram ousadia
falam por nós e nos exigem
prontidão

nenhum alarde sobre os telhados

Em um breve domingo
me vejo na esquina
corpo reto no farol
que cruza o caminho
e pega o trem matinal
cheio e determinado.

Um passo
é um passo

dos destinos inéditos
dos desejos humildes e dignos
dos pequenos gestos altruístas
dos amores mais profundos
e verdadeiros.

atrás de outro passo

dos sinais cósmicos
das mensagens cifradas
das impressões digitais.

Sonho o meu sonho único
de um milhão de homens.

E assim me carrego
um lugar qualquer.

e não era com a própria boca que se ria

Ouça!
as juntas estourando
as fibras maculadas
os tendões disformes:

é o homem
virando do avesso
remexendo os mortos
reescrevendo éticas

Ouça!
as vozes cada vez mais próximas
o som do grotesco avesso
os gritos dilacerantes

são os homens
suas vozes
empurrando-nos
para mais perto das bombas

mais perto
mais perto

o homem era avesso
o avesso virou pele
a pele virou avesso
quiseram esconder
o que oculto sempre foi
para propósitos abjetos

há algo de proibido
no mau hálito de cada bom homem

Ouça!
eles querem todos falar
mandar à merda
dar bons conselhos
serem apenas honestos

Guilherme Dearo (São Paulo, 1989) é poeta e dramaturgo. Escreveu os livros de poemas Cabeça de Touro (Editora Garupa, 2019) e Duas Hipóteses Para um Acontecimento (Editora Giostri, 2014). Publicou poemas em diferentes edições da revista 7 Faces. Escreveu as peças O Mar Além (Festival Satyrianas 2013), Câmara Escura (Festival Satyrianas 2014 e Festival Janela de Dramaturgia de Belo Horizonte 2016), Obscenos Gestos Avulsos (Festival Satyrianas 2015) e Terminal Princesa Isabel (Festival Satyrianas 2019).

dois poemas de Fernando da Rocha Peres

um e outro

“Não tinham propriedade —
Um era a fazenda do outro.”
(Castro Alves, Gonzaga, 1867)

Um era a cor do outro,
Um será a igualdade do outro.

Um era a mão do outro,
Um será a cabeça do outro.

Um era a reza do outro,
Um será o grito outro.

Um era a falta do outro,
Um será o oceano do outro.

Um era o labirinto do outro,
Um será a liberdade do outro.

Um era a fome do outro,
Um será a colheita do outro.

Um era a passividade do outro,
Um será o gatilho do outro.

Um era o lamento do outro,
Um será o discurso do outro.

Um era o trapo do outro,
Um será a figura do outro.

Um era a ignorância do outro,
Um será o ensino do outro.

Um era a sede do outro,
Um será o amor do outro.

as palavras
Para Sheherazade

As palavras têm escamas
(peixes, alcachofras, cristais),
escorregam mão abaixo,
sabem sonegar sentidos
— podem ser tudo ou nada —,
abrem espaço de luz como um farol,
apagam num fusco de vaga-lume.
As palavras são o poema:
nosso suor essencial,
nossa dificuldade
(arrumação de escamas e sentidos),
nosso desespero de buscá-las
como um diamante,
as palavras,
as lavras,
as cintilâncias do desejo,
no fundo do verbo.
As palavras batem forte
no coração dos poetas.

Fernando da Rocha Peres tem vinte e três livros publicados. É Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia. Desde 1957 atua na área cultural, em Salvador, quando fundou as Jogralescas (poesia teatralizada), a revista Mapa, a Yemanjá Filmes e as edições Macunaíma, com seus companheiros de geração. Entre 1974 e 2002 foi diretor do Iphan; para a Bahia e Sergipe, diretor presidente da Fundação Cultural de Estado da Bahia, pró-reitor de extensão e diretor do Centro de Estudos Baianos da UFBA. É da Academia de Letras da Bahia.

homem-gaveta, poema de Richard Plácido

calibrações, bicicletas, terremotos
uma pilha de concreto se fazendo de morta
construções da China chegando ao Brasil
na aurora a vida
ainda
na aurora
pretos dançando na chuva
e sem querer ser firme no lampejo
não há mais o que se dizer em dez minutos
não há mais necessidades fisiológicas
o mundo se encerrou
fecharam-se as pastas
o expediente continua apenas para Carlos
tirar leite das pedras e doar à caridade
dobrar lençóis questionáveis
dividir a feira em 3x no visa ou master
e mesmo assim
mesmo quando tudo em estiver em jogo
a escuridão ameaça a tela do computador
o arquivo a salvar
os pratos batendo na cozinha, riscos pela manhã
indícios da caça
são eles
os inomináveis
fazem a festa novamente
deslizam no prato sujo e se penduram nos pequenos canos
cheiram a tua roupa, passam a pequena língua no teu seio
e mordem confusamente os teus pés
não encontram nada
encontram apenas remorsos, culpa e dívidas
partem rápido pelo lençol
o único rastro
é o seu canto

Richard Plácido é escritor. Em 2016, publicou o livro entre ratos & outras máquinas orgânicas, pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Em 2019, publicou o livro de contos Da casa o nome, pela Ofélia Edições. Contato: richardplacido.com | placidorichard@gmail.com.

três poemas de Maíra Vasconcelos

há uma casa no alto
antiga e desabitada
à espera de um corpo vivente
uma casa tão lúcida
da necessidade de alguém
que nem sei se existe
tamanho trabalho e ousadia:
a casa precisa ser repensada.

* * *

como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
e batem nas paredes
nos móveis ficam acurralados
a respiração abafada e o coração muito rápido
como o silêncio do barulho dos pássaros
quando entram nas casas
assim elas falavam das lembranças
de cenas não-imóveis
como tudo o que está fora das casas
esse princípio das asas.

* * *

não há garantia alguma
se onde estão os pés descalços estaremos
posicionados em luz.
olhe, por exemplo, aqueles barcos e as águas do rio
posicionados em luz
como se nunca pudessem nos afogar, mas apenas nos banhar.

Maíra Vasconcelos, escritora e jornalista, de Belo Horizonte. Escreve crônicas, desde 2014, para o Jornal GGN. Um quarto que fala (Editora Urutau, 2018) é seu primeiro livro de poemas. Reside em Buenos Aires, e é aluna do mestrado em Estudos Literários, na Universidade de Buenos Aires (UBA).