publicações

uma viagem, poema inédito de Yuri Pires

E se não ir for
não querer voltar
a um estado já
não natural do ser?

E se ficar for já
estar onde não
se pode ver
que ir é voltar já
a um estado
de querer não ser?

E se ficar não for
não ir e sim voltar?

E se cada viagem
for só uma imagem
dum outro querer?

E se voltar
não tiver a ver
com ser ou não ser?

E se a vida for
ser e não ser?

Yuri Pires é recifense, professor de Literatura e escritor. Autor dos livros Artifício (Intermeios, 2016) e A Pedra (Lote 42, 2017), entre outros.

das viagens que se quer ficar, crônica de Luciana Rangel

quase_tudo_bem

Do livro Está (quase) tudo bem (Folhas de Relva, 2020).

Do Rio de Janeiro a Belém são três horas e meia de voo. O mesmo tempo de viagem de Berlim a Lisboa. A mesma sensação de encantamento com o novo. Talvez a sensação de um alemão que chega na capital de Portugal. O avião pousou com chuva, ao fim da tarde. Conseguimos chegar ao Mangal das Garças, mas a situação se agravou e fomos presenteados com um temporal de boas-vindas. Era lindo, um calor e uma chuva que parecia que vinha do chão, pois te molhava por dentro da roupa. A água quicava no solo e subia pelas pernas. Não dói, nem incomoda. Estar inteiramente molhada em um calor sauna é algo adoravelmente relaxante. José era nosso motorista. Era magro, bronzeado, cabelos lisos. Um tipo elegante e comum. Não se incomodou com nossos risos e nossa água enlameando seu carro. Fingia que não via e nos contava histórias, dava dicas da cidade. Sabia muito sobre Belém, o clima e a hora da chuva.

Chove todos os dias no lugar mais lindo que eu já conheci. O andar acima do paraíso. Era um deslumbramento eufórico, completamente proibido aos jornalistas, muitíssimo recomendado aos seres humanos. A cidade era repleta de árvores frutíferas. Tinha cheiro de manga.

Belém é pobre, abandonada. A maior sorte do mundo terem se esquecido de Belém. Aquele centro intacto, casebres centenários caindo aos pedaços, desbotados, sujos, grandes contadores de histórias. Retratos do ciclo da borracha e da riqueza que por lá andou. Casebres com alma. Uma personalidade forte tem Belém. José nos apresenta a comida. Sofisticada, aromática. Filhote é um peixe delicioso, o peixe dos peixes. Vejo tudo superlativo, estou sendo seduzida pela terra e me deixo levar. Frutas que nunca mais vou lembrar o nome. Tem fruta no suco, no sorvete, na pizza. É tudo gostoso. Sinto-me onde deveria estar. O taxista não aceita ficar com o troco, me devolve. O garçom devolve uma parte da gorjeta, pois acha que dei muito dinheiro. Entro numa loja para comprar algo que nunca me faça esquecer a cidade. Escolho um CD de um cantor local. Acho muiraquitãs, a pedra protetora em forma de sapo, aos baldes. Quero presentear sobrinhas, irmãs, filhos. Acredito realmente que ela proteja e traga boa sorte. O cinegrafista acha graça da minha crença, mas não questiona. Me pede ajuda para comprar um presente para a namorada. Eu ajudo e tomamos o décimo sorvete do dia. Dessa vez de uma fruta que eu nem sabia que existia. Vamos cedo para o hotel, pois precisamos acordar às três da manhã para filmar o Mercado Ver-o-Peso. O maior, o mais antigo da América Latina. Durmo mal. Estamos no hotel mais caro da cidade. O hotel é horrível. Móveis da década de 1960 são de uma madeira quase podre. O quarto cheira a mofo. A cortina é desbotada. O banheiro é sujo. Azulejos velhos e quebrados. Tudo isso numa rede hoteleira que se diz quatro estrelas. Mas nada atrapalha a minha animação em estar na cidade e conhecer o mercado. Acordo cedo, tomo banho. Como todo mundo faz, vou para o bufê do café da manhã e como por horas. Frutas que conheço, frutas desconhecidas, tomo chá, tomo suco. Como um pão de coco. Provo de tudo para registrar com o paladar aquele momento único.

A equipe apareceu pontualmente na recepção. A movimentação do hotel àquela hora já era grande. A cidade acorda com a lua no céu e dorme com a chuva. Chegamos ao mercado às quatro horas, antes do amanhecer. Cravei em minha memória as centenas de cestas de açaí espelhando a luz da aurora. Um céu de estrelas de açaí. O cheiro, a cor forte do fruto. Centenas de homens negociavam. Precisávamos filmar rapidamente, pois as vendas aconteciam em um ritmo acelerado. Fotografo, aspiro o aroma dos frutos, provo. Ando entre as cestas. Faço meu trabalho com concentração e experiência. Quero viver intensamente aquele pedaço de terra e de gente. E vivo. O dia vai amanhecendo e vejo um pouco mais além das barracas, a neblina desaparece e vira um mundo de peixes, frutas, mangas e barcos. O açaí esvai-se dos cestos. Mas ainda há ervas, legumes, frutas. Começamos a circular pelos galpões. Entramos em um transe sensorial. Esqueço-me de ser eu. Não sou nada, sou apenas o que provo, o que sinto, o que cheiro. Há poesias nas paredes dos galpões. Artesanato. Me dispo do trabalho e me visto de viver. Sou uma vida no meio daquilo tudo. Sou uma mulher no meio da multidão olhando o artesanato. Uma carioca visitando Belém. Nunca fui tão brasileira como em Belém. Senti orgulho de ter um laço com aquelas pessoas. Lisonjeada por estar embalada por cheiros e sabores. Curti cada minuto, cada gota de chuva. No Mangal das Garças, uma reserva como toda reserva deveria ser, garças passeavam ao meu redor enquanto ligava para o meu pai. Conversamos por algum tempo. Ele estava fraquinho. Sentei-me numa pedra enquanto a equipe filmava. Choveu bastante e fingi não ter guarda-chuva. Fui libertada da dor, da indecisão, da culpa, fui lavada de minhas dores. Belém é a porta da floresta. Belém foi a porta que faltava para me abrir para as minhas fragilidades. Voltamos para o hotel para arrumar as malas e ir para o aeroporto, precisávamos voar para Marabá. De lá, pegaríamos um carro e viajaríamos horas e horas para chegar à tribo dos Xikrin. Desço mais cedo para o lobby, José já está lá. Faço o pagamento dele, agradeço. A TV alemã não dá gorjeta. Eu dou. Ele agradeceu e disse que naquele dia completava 50 anos. Dou os parabéns, meio sem graça. José é um tipo fino e apático. Para ele está tudo bem, tanto faz. Ele é tão profissional e educado que seus sentimentos não são necessários. Fica incomodado com o atraso do grupo. Um dos colegas perdera a hora. No fim deu tudo certo. Em produção de TV, tudo precisa dar certo. Nos despedimos de José. Ele me falou da vida na cidade com pouco entusiasmo. Em dois intensos dias de trabalho, era a primeira vez que realmente papeávamos. Contou-me que tem dois filhos e é professor de história formado, o que me explicava a sua eloquência. Está frustrado. Não me disse, mas seu desânimo em contar a história mostrou a infelicidade de estudar anos para virar motorista. Ele tem dois filhos, repete. A escola particular é cara. “Você estuda com eles também? Ensina história?” Ele responde irritado que não. Uma irritação sofisticada. Pergunto mais, pergunto se seria possível dar aula e ser motorista ao mesmo tempo. Pergunto se a mulher dele trabalha, pergunto por que ele não mudou de cidade. Pergunto, pergunto… e ele se despede aliviado, tirando apressado as muitas malas do carro. Ele não gostou de mim. Eu também não gostei dele. Era bom profissional, excelente. Contrataria de novo. Mas ele não sentia o cheiro de manga. José não suspirou com o mangal. José me lembrava o Brasil doído e real em um lugar que eu só queria o Brasil imaginário. Eu só queria a fantasia. Acabou. José ficou em sua vida e eu segui meu roteiro. Tinha datas, horários, endereços, tudo super bem orquestrado, diferentemente da minha vida pessoal, completamente desestruturada.

Luciana Rangel é jornalista e escritora carioca. Mora na Alemanha desde 2005. Em sua trajetória, soma experiência na imprensa internacional e nacional. Suas produções sobre história, política e cultura foram premiadas pela União Europeia e TV Globo. Recebeu também o Prêmio Petrobras pelo documentário Brasil: País da saudade. Como autora, participou da antologia bilíngue Saudade é uma palavra estragada (Bübül Verlag), de Escrever Berlim (Editora Nós) e do Salão de Outono do Teatro Maxim-Gorki de Berlim. É doutoranda do Instituto Latino-Americano da Universidade de Bielefeld.

a sombra do mentiroso, artigo de Uwe Fleckner

Artigo do Historiador de Arte Uwe Fleckner, traduzido por Werner Heidermann e Maria Aparecida Barbosa para o livro Levantar bem alto um livro! (Rafael Copetti Editor, 2019. Org. Maria Aparecida Barbosa, Meritxell Hernando Marsal e Jair Fonseca).

Neste artigo, Fleckner analisa a obra de arte escolhida por Donald Trump para a sua posse presidencial nos Estados Unidos, tradição que guarda sempre uma relação com os princípios políticos do novo governo. É só clicar a seguir para abrir o PDF e ler online ou fazer o download.

Fleckner

três poemas de Jussara Resende

quase um andor

os segundos são aves disfarçadas
por vezes leves e ágeis
noutras
trazem consigo toda uma eternidade

há humanos que controlam o tempo
e suas ansiedades
nunca me dei para essas contagens
muito embora parte de mim
seja ânsia de um porvir
que nem sempre chegou
chega ou chegará

o meu passar do tempo
segue envolto em mistério
tem de tal sorte vida própria
que me curvo humilde
diante dele

assim tenho sido
por ele surpreendida
ao longo da estrada
como agora
em que me dou conta
de que cada semana dos últimos três meses
revela-se a mim como um ano inteiro
anos desapercebidos

da fronteira que atravessei
no carnaval
sentindo a juventude
com que a montanha sempre me enfeita
acordo
passado o corpus christi
uma senhora ancorada
numa espécie de padiola
sozinha e sem ornamentos
restam memórias
alguns lamentos
e a certeza de que
a contagem dos anos deva ser
daqui para frente invertida

alguma verdade há de vir
deste tormento
e se verdades não há
luzes iluminarão
o que sempre fiz questão de ver brilhar
até mesmo na escuridão

enquanto isso
refaço questionamentos:
quantos anos ainda tenho?
o que deixei de fazer
que ainda acredito deva ser feito?
com quantos afetos se prepara e tempera?
amargos adocicados pelo olhar

se para ver
não mais dispenso os óculos
para sentir
basta-me viva.

no tempo dos homens

amanheceu a segunda-feira
no tempo dos homens
no meu calendário…
meu calendário está perdido
na gaveta das lembranças
experiências que me compõem

mas meu relógio soa ligeiro
de hora em hora
a me gritar pelo espelho

às vezes, faço-me de tonta
e ignoro solene
isso que chamam
de passar do tempo

melhor era passar anel
como fazíamos
quando crianças
inocentes dos muitos mundos
que há no mundo
e o maior mistério
era a descoberta
da mão certa
hoje procuro as mãos
talvez não as certas
mas as afetuosas
que me apoiem
e nas quais
eu possa me apoiar
não será preciso
que me conduzam
os caminhos saberão
por onde nos levar

mas careço do sorriso
do olhar amigo
de abraços que acolhem
e aplacam as angústias:
angústias divididas
que nos tornam iguais
na dor e na busca
por uma razão para tudo isto
a que chamam vida.

tempo

há muito tenho notado
a presença de um artista
tatuando em meu corpo
silencioso
trabalha linha a linha
formando teias
verdadeiros bordados
que uns chamam de estrias

prefiro tratar por linhas
ou traços
dos quais retiro versos
entoando rimas
que brotam como um sopro
em olhos de células
nada inflamadas: espertas
vestem-se de tecido vivo
e aparecem para a festa

neste corpo feito ao leite
transformado pelo vento
em cacau setenta por cento
os dias das vergonhas
passam longe
ruga, estria, celulite
sim, eu as tenho, todas
obra de arte
do tempo artista
que me presenteia
quase todos os dias
também com pintas lindas
pretinhas e branquinhas
nos braços, no peito
e nas canelas

altas horas
quando todos dormem
elas dançam
comigo
o balé da vida.

Jussara Resende é brasiliense, graduada em Comunicação Social e Direito. Faz da escrita sua morada pessoal e profissional. Seus poemas, contos e crônicas transitam por temas que vão desde as relações afetivas à filosofia do cotidiano, marcados pela realidade e pela composição urbanística de Brasília. A poeta divulga seus textos nas redes sociais, contando com algumas publicações em revistas eletrônicas.

quatro poemas de Regina Azevedo

pitangas

olha
cansei de chorar
as pitangas
da tua ausência
o cão que abanava o rabo
virou gata no cio
que saudade tenho
do teu corpo
sobre o meu
coladosuado
cruzaria o continente
só pra ter o gostinho
de sentar de novo na tua cara

maria

meu nome é maria
terra vermelha
banho, prece
vela sempre acesa

o coração pesa
na hora de voltar
pra casa
mas ela me disse
pra pisar firme

ela sabe
que tudo passa
no balanço da maraca

e eu sou mesmo
muitas mulheres,
um país

cavernas curadas
com água e palavra

na veia
é mãe luiza, ceará mirim,
riacho da palha e potengi

sei o caminho
porque elas mostram a mim

resiste

gostava de se olhar
como se carregasse uma bomba
debaixo do braço gostava de se olhar
e imaginar a palavra sovaco sendo lida
na academia gostava de se olhar
como se seus olhos revelassem
o paradeiro de deus gostava
de se olhar como se pudesse falar
e ser ouvida além de ser olhada
gostava de se olhar e pensar
em uma coisa dentro de outra coisa
uma música dentro de um vidro ou
ele dentro dela vidrado
gostava de se olhar
como se fosse a linha de frente
gostava de se olhar
e imaginar que a palavra
era um superpoder gostava de se olhar
como se seu cabelo fosse
uma lamparina gostava de se olhar
e imaginar a terra
tomada de volta de assalto
gostava de se olhar
e se imaginar rocha,
pele, pólvora
piolho é um bicho que existe
mesmo que ninguém se importe
mesmo que ninguém acredite
gostava de se olhar e se imaginar
vulcão
melhor: mulher
bicho que aprende a andar
e a derrubar

com licença, vandal

eu te amo e eu não vou falar
de novo eu te amo
e amo desde o caos, os pulos
desde os teus poros, teus polos
teus beijos-polga
as explosões
as coisas químicas
os mil minerais
que tu acha no meu rosto
a reencarnação de basquiat
e as dúvidas sobre deus
o calção preto, as camisas sujas
os pelos
as descobertas
as cobertas
do escuro
as coisas escondidas
em plena luz do dia
teus medos,
tua coragem de ser
teus jeitos de dizer
de novo
o teu barulho
teus gritos no pé douvido
as pinturas e as músicas
ainda na cabeça
os cochichos, os sustos
tua mão molhada
e o meu peito pronto
tua cabeça e o meu ombro
teu cabelo e meu cabelo
crescendo juntos
teu jeito de chegar
como quem finalmente chega
teu jeito de ir
como quem precisa voltar
eu te amo e eu não vou falar
de novo

Regina Azevedo nasceu em Natal-RN, em janeiro de 2000, e é poeta, técnica em Multimídia pelo IFRN e graduanda em Letras — Língua Portuguesa na UFRN. Publicou os livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso, Pirueta e Vermelho fogo. Seus livros podem sem adquiridos no site da própria autora [link].

três poemas de Thiago Alexandre Tonussi

a-mar/é

não desejo que saiba quem eu fui
nem meu nome espero que pronuncie

que celebre o dia do meu aniversário
ou relembre o dia de minha morte,

mas que seja o seu nós o seu amar
e o seu dizer amo seu afirmar somos.

de resto eu vim para ser um pingo;
ainda que não pareça, acredito:

um dia o rio do amor se tornará mar
do amar… neste dia eu estarei lá

na beira da praia, como poeta, só
só esperando pela maré alta.

crepúsculo

É hora, voltemos.

O tempo não se cansa
e o mudar de tudo é nossa mudança.
A terra na Terra é sangrada por bandeiras.

É hora, partamos.

Sem pedir desculpa ou licença;
não olhemos suas festas e guerras.
Sigamos nossa tristeza.

É hora!

Deixemos a sós os homens com sua efêmera beleza.
Não olhemos para trás. Para nós é finito.
Lembremos de quem somos, olhando para o infinito.

carne brasileira

Sangue de veias abertas sem mãos que o acolham colore
o negro corpo finalmente em repouso. Osso transparecendo
e roto é alvo de fotos e nenhum soluço. É todo ele só forma
escura rabiscada sobre o quente do asfalto que velozmente
será limpado: passam carros e carros e carros e mais carros
e outros carros e caminhões apagando qualquer passado
manchado e qualquer sangue jorrado daquele traço inexistente
enquanto sendo traçado. Quadro inacabado ao fim do retrato
não identificado. Não há rosto para a boca sem dentes desse
que já foi criança, para muitos, pivete; e hoje não é lembrança,
para muitos, bem feito.

Thiago Alexandre Tonussi nasceu em Uberlândia-MG, cresceu em Piracicaba-SP e vive em Londres, na Inglaterra. Formado em Línguas Modernas (Português & Espanhol) e com um mestrado em Literatura Comparativa, ambos pela universidade Birkbeck College de Londres. Tradutor de poesia contemporânea de língua portuguesa e inglesa, é criador e organizador, junto dxs poetas Nuno Rau e Amanda Vital, da mallarsérie “To Be Tupi” na revista Mallarmargens. Mundo na boca é o seu primeiro livro de poemas. Vive com Juliana C. Mazzero Tonussi e Bella, suas melhores amigas, grandes amantes e únicas namoradas.

quatro poemas de Davi Koteck

não apenas mastigar
salivas queimadas e o gosto
de fórmica no canto da língua
você dirigindo na contramão
com os faróis apagados
é noite e
enfrentamos fantasmas feitos de areia
há muito pela frente
tudo que me for possível, ou menos

* * *

antes de partir me conta
sobre teorias absurdas
a psicanálise selvagem
lê os poemas da tua vida
e se não souber dizer
escreve um agora
conta sobre a tua infância
um barco pequeno e branco
o guaíba pintado de blues
os amores descascados
mapeia tuas cicatrizes
mais de mil vezes
até que eu possa contar tudo de novo pra ti

* * *

viajo porque preciso volto porque te amo

sentamos no chão do aeroporto
imaginando destinos prováveis para
o resto dos passageiros
você com a mala pequena
uma caixa de sapato enterrada
com segredos embaixo da terra
quem irá abrir um clube de jazz
na periferia de Paris
quem visitará um filho perdido
no dia dos pais
o título daquele filme que assisti
num dia cansado
se você for mesmo olha para trás
repetiremos outra cena comum

* * *

e se acordasse dizendo
que não sinto mais tua falta
e se só sentisse saudade agora
do teu gato amarelo e gordo
ou da maneira que você se concentra
em frente ao computador
mas não de você
de gritar mazel tov quando a louça quebrar
ainda que agora eu só use copos descartáveis
e mesmo que agora eu só beba água da torneira
hoje é o terceiro dia que acordo sem sede

Davi Koteck nasceu em Porto Alegre (RS) em 1995. Publicou o livro O que acontece no escuro (Editora Taverna), e participou da antologia Qualquer Ontem (Editora Bestiário). Tem contos e poemas publicados na São Paulo Review, Ruído Manifesto, Etudes Lusophones (França), Revista Travessa em Três Tempos, Mallarmargens, e outros. Edita a Revista Rusga. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel (Editora 7letras, 2020) é sua estreia na poesia.

três poemas de Everardo Norões

fractais

Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).

A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.

a música
Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…

pampas
Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.

Everardo Norões nasceu no Crato, Ceará (Brasil). Viveu na França, Argélia, Moçambique. Atualmente reside em Portugal. É autor de vários livros de poesia, entre os quais A rua do padre inglês, Retábulo de Jerônimo Bosch e Poeiras na réstia. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais o Portugal Telecom da Língua Portuguesa 2014 pelo livro de contos Entre moscas. Publicado em várias revistas literárias, como Granta (edição brasileira), Gare Maritime e Bacchanales (França), Quimera (Espanha), Martín (Peru), entre outras. Seus poemas foram traduzidos em francês, inglês, italiano, espanhol, catalão e quíchua.

três poemas de Luamba Muinga

estes caminhos do medo
Pelas manifestações em Luanda

Agradecemos a formação de pessoas à rua
Agradecemos o medo formado e o fulgor tomado;
o retrocesso circunspecto que não se suporta tenderá ao irreal, ao feroz segredo
E os prisioneiros da tarde ascenderão heroicos quando brotar a noite limítrofe
E os opressores por estes caminhos do medo saberão que a fome não se vence somente com a cantata e a poesia.
E os canais das sarjetas formarão suas secretas fontes enquanto pela fronte ninguém passa
Por este alvorecer de jubilo e caça.

a mulher do bar

“Está fechado”, dizes. Mas eles batem.
Não batem apenas a porta de um bar fechado, batem também a porta do teu cansaço, da tua inconstância e do teu medo latente.
Batem e desfazem a força do cigarro que o teu filho pedirá para apagar quando for manhã, mas ainda assim o fumo circunda-me enquanto deixamos um bar fechado, sem a alma brilhante da madrugada.
Batem enquanto repuxas lembranças tuas ao meu ouvido,
Batem enquanto me pedes o sexo e eu calado para te não molestar ainda mais.
Batem e eu me pergunto pela impermanência desta intimidade (fechamos o bar?)
Continuarão a bater mesmo que já tenhas aberto o teu quarto a um tipo que apenas te ouviu.

Batem porque é a policia quem ordenou.

funeral para um elevador

O mijo que suplanta o beijo
O medo na encosta da rodovia
As salas das prisões que refreiam a crueldade
A ternura dos missionários católicos
A decifração da idade que embeleza a juventude na sua brava crença
Os campos límpidos e cultivados pelos sangues inocentes
Serás tu que negarás a beleza da baba dos recém-nascidos e aceitarás o seu crescimento, o passo seguinte, mas negarás a sua idade adulta, a adolescência fervente, pois são fezes fora do teu fruto.
O sofrimento das religiões e o suborno de uma branda adoração, o que te servirá?
Campos límpidos retratados nas pinturas holandesas, e ninguém te lembrará que no vidro dos elevadores perdem todos os sentidos

Luamba Muinga nasceu em Luanda, Angola, na última década do século XX. É crítico cultural, produtor e também curador de arte. É cofundador da revista eletrónica Palavra&Arte, centrada na produção artística emergente em Angola. Em 2018 dirigiu o minidoc Capitães Vulneráveis — A vida de crianças em situação de rua. A sua produção artística passa pela prosa, poesia e textos performáticos.

três poemas inéditos de Laura Erber

erber_img
Laura Erber ©

circunstância da luz

estamos voando em círculos
os pássaros também
presos
nos feixes de luz
exaustos
sem saber
que rodeiam
a própria morte

tartarugas perderam o horizonte
ao nascer ficam tontas
desbussoladas
vão errantes pela praia
morrem demais

não só a falta
o excesso
de luz
também
liquida
diz a cientista das estrelas
diz o guardião da noite escura
diz o vendedor de um novo tipo
de luz amiga das tartarugas
diz o pesquisador das consequências do azul no olho
diz a especialista em ossos de passarinhos
diz o homem contra postos de gasolina
mais claros que a luz do dia

aquela noite em Budapeste
agora sei
não eram morcegos
em dança notívaga
mas bandos de pássaros
presos na luz dos holofotes

por inépcia
dificuldade
ou cálculo
as coisas mudam
bem devagar

uma cigana me disse
nem sempre vale mais
o que magoa menos
vi estrelas tatuadas no seu braço
foi na Avenida Rio Branco
antes de uma grande inundação

o mundo tem tantos problemas
a poeta nem consegue ser boêmia
abstratora sismógrafa coletora
de quintessências fenomenais

não quero falar dos bichos abatidos
mas da raposa-poema
nascendo noite após noite
das páginas de um livro

vem e pousa ao meu lado
vamos ver as hortênsias
o opala da noite
o sentimento modulado
o ano inteiro
a vida inteira

outras circunstâncias

o poema depende
de coisas pequenas
conseguir
esperar
ver
o animal saindo
da fábula real
tabaco prosa
raposa ao relento
passos de veludo
o melro derrotado
dentro de um quadro
coisas girando
no desespero
de outro livro
tudo depende
de pequenas coisas
um olho machucado
intensidade do talvez
o animal pequeno
rasgando o poema
enrolando nomes
em folhas de tabaco

você também vai flutuar
sumir do filme
irretocável do que quase
nada segue sendo sempre
espera
inundação
estrago
dedo enfiado na ferida
todas as palavras
que trocamos
moedas sujas
o poema não depende
de nós
de mão em mão
as imagens
voltarão a circular
entre o fosso e o postigo
depois do fim do tempo
das coisas girando
guerra do doce
contra o amargo
a impressão de tudo
se apagando ao redor
até discretamente
sumir
sumiremos também
nas letras
furos
no alfabeto

versos de circunstância

gosto quando nas aulas
alunas desatentas
despertam do profundo cansaço
como deidades muito antigas
em ondas de sobrevivência
a vida numa certa idade se parece um pouco ao cansaço mítico
— um comboio comprido passando depressa
mas devagar demais depressa —
e dizem de uma só vez toda a verdade
sobre os textos que não leram
(uma amiga diz que
coisas mágicas acontecem
em sala de aula
mas também coisas súbitas
como pessoas
pedindo licença ajuda
mostrando cicatrizes
receitas
e depois sumindo
para sempre)
gosto quando nas aulas
alunos muito atentos
fazem as perguntas
que mais gosto de fingir
saber responder
o que é anacronismo?
o que significa signo?
gosto quando nas variações da vida
que são as aulas
me perco no meio de uma frase
perco todas as palavras
peço ajuda às alunas cansadas
distantes em seus comboios
infinitos vagarosos porém frenéticos
e ninguém ousa dizer
professora não temos a vida toda
ande com essa frase precisamos dormir
fazer xerox sofrer
transar e outras coisas
menos palpáveis
voluptuosas
ande com isso que não temos
a menor ideia da sua ideia
de frase
às vezes me salvam dos lapsos
às vezes me jogam dentro deles
um pouco mais
profundamente
às vezes não quero ser salva
há dias — todos os dias — em que sei que sou
o professor de natação
sem água

Laura Erber nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É escritora, editora e pesquisadora. Publicou Os corpos e os dias (Editora de Cultura, 2008), A retornada (Relicário Edições, 2016) e Theadoro Theodor (Editora Quelônio, 2018). Dirige a Zazie Edições, editora independente, sem fins lucrativos, que publica livros digitais em sistema de open access. Atualmente vive em Copenhague.