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cúpido e pungente, de Natália Zuccala

1.

Eu tenho uma ardência na boca que só passa quando eu mordo, mastigo, quando eu engulo, como. É na garganta. Chega até a língua. Às vezes dói. Principalmente consome, me consome. Por isso tenho fome, tanta. E mordo. Pra não levar mordida. Como, engulo. O tempo inteiro.

Tenho vontade de morder coisas redondas, principalmente, como algumas frutas. Maiores como o pêssego. Menores como a uva. Mas não só. Não. Há muitos objetos esféricos. Bolas, por exemplo. Bexigas. Balões. E seios. Lâmpadas. Dá vontade de colocá-las quentes na boca porque a comida aquecida é mais gostosa, mas não pode, queima. Então eu coloco fria imaginando que é quente. Não posso, porém, mordê-las. Porque uma vez eu fiz isso e rasguei o céu da boca. Foi um pouco gostoso mas eu tive que ir ao médico, ao hospital e. Eu não gosto. Eu prefiro engolir do que ir ao hospital. O problema é que eu ainda lembro do gosto ferroso e da sensação do corte no palato e tenho vontade de rasgar a pele e sugar meu próprio sangue. Alimentar-me de mim. Mas eu me controlo. Eu consigo me controlar. Ocasionalmente.

E não se trata só de morder. A sensação boa não vem só de mastigar. Não só, mas também, só de algo sendo triturando entre os dentes. Eu experimento pelos meus dentes tantas sensibilidades. Acho às vezes que tenho os dentes como a pele.

Mas não é só de triturar, macerar, amolecer que eu gosto. Transformar uma matéria dura numa substância mole. Mastigar osso até transformá-lo em carne. Às vezes tenho a ânsia de mastigar meus próprios dentes entre meus próprios dentes. Arrancá-los. Eu engoli todos os meus dentes de leite quando era criança.

Nem mesmo só a sensação de umidificar com a língua. Passar a língua nas coisas em todas as coisas que. Existirem. Passar a língua em algo é uma das sensações mais deliciosas que eu experimento. Assim como os lábios. Tocar com a ponta dos lábios. Mas não é só isso.

Eu gosto também de sentir algo descendo pela minha garganta e, principalmente, gosto muito quando as substâncias chegam na minha barriga. Quando chegam na minha barriga e vão se acumulando é tão bom. Isso de se satisfazer é tão raro. Eu quase não sei o que é isso.

O problema é quando acontece o contrário disso. Quando a barriga ronca e está vazia e não tem nada nela e dói. Quando parece que silva o estômago e seria possível passar um furacão por lá, é tão ruim e dói tanto. Arde. Cria feridas. O suco gástrico me devora desde dentro.

Pra evitar esse tipo de coisas eu como. Eu como o tempo todo. Não quero não posso me faz mal lidar com a fome.

2.

Tenho tanto desejo de enfiar as coisas pra dentro de mim de. Sentir dentro de mim que. Às vezes dá vontade de colocar pra dentro usando outros buracos. Enfiar comida no ouvido. Objetos pelas narinas. Mastigar com os olhos. Com todos os olhos. Sorver pelo umbigo. E criar ainda mais orifícios pra enfiar mais pra dentro de mim.

Eu tenho vontade, já tentei, não deu certo. Tenho vontade de me furar em várias partes do meu corpo que parecem, mas não são, orifícios. Isto é, de criar mais fissuras porque as que eu tenho não são suficientes. Como nas axilas e o espaço entre os dedos do pé. Por que não há buracos ali? E na batata da perna deveria haver furos. Não sei por que Deus não fez no corpo mais buracos pra introduzir. Seria melhor mas seria mais difícil manter-se satisfeito, Deus. Escreve torto por linhas retas.

E se houvesse um buraco no pé e fosse possível comer por lá, eu enfiaria umas laranjas umas mexericas um abacaxi e sugaria com a sola o suco o sumo a seiva ácida. Sentiria o gosto do piso da areia do asfalto da terra. Pelo buraco do meu pé. Só de falar já me dá. Muita vontade. Orifícios cavidades nas coxas nos braços nas mãos.

3.

Deus também errou em não permitir que engravidássemos eu. Queria muito poder engravidar estar. Cheio de outro ser humano. Gerar alimento pra essa outra pessoa que vai. Crescer dentro de mim e crescer de mim mesmo. Essa pessoa que vai comer a minha carne. Pra fazer sua própria carne. Eu queria tanto, mas não posso. Eu. Além disso, tenho menos buracos que elas. E, em vez de poder enfiar mais coisas em mim, eu sou obrigado a colocar nos outros. Queria não ter de colocar nada em ninguém e somente em mim criar e criar orifícios.

Tenho desejo de cortar meus dedos fora porque eu tenho medo de introduzir os dedos nos outros. Nada meu que possa ser inserido em alguém e me agrada. Os dedos do pé também me incomodam. Na verdade me agradam somente na medida que entre eles há um espaço um vão uma fenda quase um.

E eu temo o dia que a terra há de tragar-me. eu passo a vida evitando esse dia. Ensaiando pra esse dia. Todos os dias eu treino pra que, no momento em que eu morrer, ao invés de ser deglutido, eu degluta. Essa será minha única peripécia a minha única obra-prima.

Hei de engolir, comer, destruir a terra. Muito antes que ela me engula.

Natália Zuccala é contista, dramaturga e professora. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Suas peças A e Fenda foram montadas pelo coletivo de dramaturgos Antessala, do qual faz parte. É autora do volume de contos Todo mundo quer ver o morto (Ed. Patuá, 2017).

três poemas de Patrícia Reinbrecht

as outras de mim

Sou uma mulher
ainda menina.
Sou aquela que pede
e aquela que ensina.
Alugo meu ombro,
distribuo esperanças,
cobro presenças.
Sou aquela que peca
e a que dá a sentença.
Sou várias em uma,
sem me esquecer de mim.
Sigo avante nesta estrada,
sem me importar
com olhares e juízos,
nem com quem não entende
a direção que o mundo me deu,
pois, no final de tudo,
quem sabe da minha vida
e das minhas agruras
sou eu,
somente eu…

os fios

O fio da meada,
o fio de linha,
o fio da navalha,
o fim da vida.
Um fio de esperança,
um fio de novelo.
Um fio que cai da roupa
e gruda no espelho.
Um fio de luz no túnel,
um fio de amor no tempo.
O fio elétrico que me une
ao mundo e aos acontecimentos.

Fios emaranhados de mim
que passeiam por entre visões.
Pedaços de fios se perderam
em meio a vãs ilusões.

Desfiada, cansada, vazia.

Os fios que me vinculam a tudo que me cerca,
também me tornam arredia,
em busca do fio que nos liga ao infinito,
para que eu nunca perca a conexão,
Fio delicado que dá o laço no presente,
o fio de ouro que remenda o coração.

terapia

Aceitei-me como sou,
levou tempo,
precisei me educar.
Vi-me ali, tão frágil,
disposta a entender,
o que a vida faz com a gente
quando começamos a nos reconhecer.
Pés errantes,
alma grená.
Eu sou como um novelo emaranhado,
cujo nó que o desenrola
eu ainda não sei bem onde está.

Patrícia Reinbrecht (1974) nasceu em Rio Grande-RS e se mudou para a capital, Porto Alegre, no final dos anos 1990, depois morou dez anos em Florianópolis e desde 2010 é uma sulista perdida em Brasília. Publica seus poemas nas páginas do Facebook e do Instagram Minha busca em diários [link] e na revista Criado Mudo, da plataforma Medium.

dois poemas de Patrícia Lavelle

golem (1)

Argila ardilosa-
mente em sopro
modelada

o Golem na palavra
aspira pensamentos

coisa feita letra pura massa informe
a forma vazia
presa no poema

move__________move-se
os fios_______________no fluxo
da minha_______________________da tua
da tua__-___________________________da minha
inconsistência:_____________________________consciência

golem (2)

palavra de barro:

elástica liga
do âmago, ânimo
e imagem

palavra de vidro:

o que deforma
o líquido
dá forma
ao vaso

verdade é sopro
que ateia e apaga
o fogo

palavra de carne:

palavra em carne
viva

| o poema Golem (1) foi publicado em O Nervo do poema — Antologia para Orides Fontela (Relicário, 2018); o poema Golem (2) é inédito. |

Patrícia Lavelle é professora do Departamento de Letras da PUC-RJ e doutora em filosofia pela EHESS de Paris, onde morou entre 1999 e 2014. Como ensaísta, publicou Religion et Histoire. Surleconcept d’expérience chez Walter Benjamin (EditionsduCerf, 2008), O Espelho distorcido. Imagens do individuo no Brasil oitocentista (Editora UFMG, 2003) e organizou vários volumes coletivos. Como poeta, publicou Migalhas metacríticas (7Letras, Megamíni, 2017), Bye bye Babel (7Letras, 2018, primeira menção honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2016) e organizou com Paulo Henriques Britto O Nervo do poema — Antologia para Orides Fontela (Relicário, 2018).

o caderno vermelho, de Leonardo Almeida Filho

Quando mamãe morreu, enterramos papai. Em seu luto, definhou por um mês sem sair de casa. Foi sua primeira morte. Foram trinta e três anos de vida em comum, entre o casamento e o noivado. Não nos surpreendeu a sua reação à perda, pois não esperávamos outra atitude de quem, por anos, foi muito distante e frio e agora, depois de testemunhar, impotente, o corpo de minha mãe ser lentamente devorado pelo câncer, percebeu-se só. Mas o que realmente o levou à derrocada foi a descoberta dos tais diários e do caderno vermelho. Cuidadosamente guardados entre as coisas de costura de minha mãe, os livros e cadernos foram encontrados por meu pai quando selecionava objetos para jogar no lixo e para doar. Primeiro, chamou-lhe a atenção a quantidade de textos escritos com a letrinha miúda que ele imediatamente reconheceu ser daquela que, sob sua ótica, despendia todo o seu tempo no cuidado da casa, no trato com a família, na preocupação com a comida, com a roupa passada, com os deveres de casa dos filhos, com a febre do mais novo, com a tosse do mais velho, com a sua farda sempre impecável. Em que momento ela se dedicava a escrever aquelas coisas? Foi seu primeiro pensamento. Sim, que hora do dia ela usava para preencher esses cadernos? De que se tratavam esses textos? Percebeu, logo no início, que ela registrava impressões gerais sobre a vida doméstica numa espécie de diário da vida cotidiana. Assim encontrou o primeiro dia de aula de um filho, o primeiro dente que caíra, a chegada de parentes para as férias, nossas pequenas brigas, a preocupação com a febre reticente de minha irmã, a morte de meu avô. Tudo isso ela registrava com esmero e poesia, sempre com a preocupação de descrever claramente as sensações que tais eventos lhe causavam: esperança, medo, raiva, alegria, saudade, melancolia. Meu pai surpreendeu-se com essa preocupação em manter na escrita os momentos privados que ela testemunhava ativamente. Por quê? Para quê? Onde residia o interesse em registrar que no dia 17 de março de 1976 “Maurício não dormiu bem à noite. Acordei assustada com o acesso de tosse. Um pouco de vick no peito e uma colherada de mel com limão. Acalmou-se quando o dia estava nascendo. Respira suavemente. Dorme agora feito um anjo.” Qual o sentido disso? Mas o que lhe pegou de surpresa foram os textos que, discretamente, estavam no caderno de capa vermelha. Ao abri-lo, pequenos papéis caíram no chão. Eram poemas rabiscados em letras minúsculas. Lindos poemas de amor e desilusão que ela escrevera em algum momento entre a passagem de roupa, a lavagem da casa, a costura de uma barra de calça, a fritura de pasteis, a faxina de um banheiro:

De novo a solidão visitou-me
sentou-se à mesa e fitou-me os olhos
comeu do meu jantar
sou tua companhia, disse-me

Meu pai não reconhecia aquela mulher. Que estranha era essa que se apossara de sua esposa nesses momentos em que escrevia esses versos?

O ventre abriga uma flor
sem perfume e sem cor
que nenhum homem colherá.
Quem sabe esse jardim
de terra pisada e estéril
não contemple minha botânica?

Continuou mergulhado na leitura e, a cada verso, percebia que a mulher que supunha conhecer como a palma da mão era muito mais que aquela que lhe remendava a farda, que lhe abria as pernas mecanicamente, que lhe aguardava acordada para servir-lhe um prato de comida. Quem era essa nova mulher?

O meu amor não sabe desse medo
que minhas pernas guardam quando as fecho
de que não mais se abrigue em mim
seu desesperado jeito de desejar
o meu amor é cego e meu ventre é mudo

O velho militar, meu pai, percebeu que a figura de minha mãe se desconstruía dolorosamente em sua expectativa, dissolvia-se aquela imagem sacrossanta e surgia uma outra criatura, desconhecida e ameaçadora. Ele, que por anos a manteve como conquista saciada e conformada, um quase-objeto, quase-coisa, viu-se preso na armadilha de seus escritos. Sentia que estava novamente perdendo a mulher. Mas como perder aquilo que, agora ele desconfiava, nunca teve realmente?

O fardo da existência deve ser leve
pesada é a sobrevida de quem não tenta
de quem persiste distante do abismo
sem perceber que o abismo
está em toda parte
Eu arrisco o mergulho
toda queda me atrai

Os poemas revelavam uma alma brilhante, absolutamente livre e distante de qualquer coisa que significasse rotina caseira e vinha daí o grande mistério. Como? A mesma mulher que me preparava o lanche da escola, escrevia, sabe-se lá em que momento do dia

Não há remédio para Medeia
a ideia permeia o tédio
incinero a cria e me venero
quem há de me julgar?
Se o sacrilégio de uma vida perdida
é tragédia maior que os próprios gregos?

Eram belos os textos. Sim, não eram apenas poemas. Havia um romance, incompleto, que se perdeu no meio do caminho com as dores da quimioterapia. Alguns contos que renderiam um ótimo volume. Mas os poemas, esses eram belíssimos sem dúvida. Havia, é claro, altos e baixos, mas os grandes momentos eram muito maiores e deliciosos. Meu pai me ligou pela manhã e me entregou todo o material. Faça o que quiser com isso, ele me disse. Notei que ele passara a noite em claro, tentando reconhecer a mulher que pensava conhecer. Percebeu desconsolado que, por anos, havia uma joia rara em nossas vidas e que nenhum de nós se deixou ofuscar pelo seu brilho.

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Publicou O Livro de Loraine (contos, Imprell/PB, 1998), logomaquia (edição do autor, 2007), Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB, 2008), Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos, Editora e-galaxia, 2013), e pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018).

azaleia para erva de passarinho, de Andréia Pires

Não, ela disse firme. Ele não entendeu. Ou não ouviu. Ou apenas ignorou. Ele estava lá desde o início, desde os primeiros dias. Desta vez, assim que ela saiu da barriga da mãe, ele plantou-se ao seu lado, como erva de passarinho. Acompanhou, assombrou, atormentou, odiou, feriu, vociferou, aprendeu, aprisionou, amou, chorou, rezou, doeu, debochou, perdeu os pedaços, sempre ali, colado à sombra dela.

Não, ela suspeitou, quando começou a reparar, ao redor e por dentro de si, vestígios do improvável. Ele teve as primeiras pistas de que aquela era a pessoa certa, de que havia encontrado quem esteve tanto tempo à procura e exultou. Planejou, calculou, cercou o tempo e insistiu em se fazer notar. Conseguiu.

Não, ela repetiu, quando passou a sentir a presença dele, primeiro aos domingos à noite, depois com mais frequência entre momentos de ócio, até que em todas as ocasiões, especialmente durante o sono. Ele desenhava labirintos mentais com maestria e, quando sedutor, a atraía, quando furioso, a forçava a andar por caminhos movediços, cobertos de cinzas de passado.

Não, ela gritou, em cada vez que ele se materializou nos corredores da casa, no canto do quarto, na fresta da porta aberta. Depois de alguns anos, ele entendeu que quanto mais perto chegava, mais fácil era manipular as sensações e os humores, mais matava da própria fome, mais penetrava nas veias, nas entranhas, nas células, nas memórias, nas vontades dela. Sugava a vitalidade e enfraquecia qualquer tentativa de resistência. Era um vício esse do estar junto. Nenhum dos dois sabe exatamente quando o predomínio dele a contaminou, mas aconteceu. É provável que tenha sido assim todas as vezes em que ela perdeu: a honra, o controle, a lucidez, a dignidade, a fé.

Não, ela pensou, com voz atravessada no nó da garganta. Desta vez, ela estava nessa vida para ficar. Ele sempre ouviu os pensamentos dela. Sacudiu o emaranhado verde de carne decomposta que ocupava o espaço da mão direita, espantando o pensamento, como quem enxota moscas inoportunas. Às vezes ele chorava arrependido, falava e falava e falava sobre o amor desencontrado e perdido entre nasceres e morreres, encantava com tamanho entusiasmo trechos de história divida que ela acabava assaltada por lembranças. Compadecida e imersa em uma nuvem de quase ternura, ela ficava à beira da aceitação.

Não, ela o espantou tantas vezes para quase morrer de remorso depois. Era quase um exorcismo por dia, além de uma série de rituais necessários adotados e abandonados ao longo dos anos. Mas ele permanecia. Houve épocas em que se afastava dois passos, outras em que se camuflava atrás das árvores, às vezes sumia por uma semana ou três. Houve um tempo em que alternava entre meses de silêncio e dias de não arredar o pé. Ele era um susto permanente. E uma companhia para sempre.

Mas, não e não, ela frisava, quando a afeição ameaçava tornar-se mais forte e maior do que o medo, a dúvida, a repulsa. Ele empurrava de um lado, ela respondia empurrando de outro. Cara e coroa, yin e yang, gangorra, vida esvaída no ralo da pia. Ela sempre indagando os porquês, ele sempre dando voltas, mostrando poderes e aparecendo, declarando motivos para todo o resto, menos para o ficar. Os agrônomos explicam que parasitas como a erva de passarinho podem até matar plantas tropicais, se retirarem sua seiva por tempo prolongado, e que não há remédio para exterminar essa planta daninha, senão arrancá-la uma a uma dos galhos. Ela arrancava aqui e ele brotava de novo, logo adiante.

Não, ela cantarolou ao som de um rock maluco-beleza, que a fazia recordar os espaços de trégua que ele lhe deu na adolescência e na maturidade, quando pôde vibrar e gargalhar e agradecer e amar madrugadas a fio. Quando esteve felizmente só e única. Quando esteve em si. Quando esteve em outra, com outro. Não, aqui não, ela escreveu pelas paredes da casa nova, tentando demarcar fronteiras. Não, através de mim, não, rugiu mostrando unhas pontiagudas quando ele insinuou uma provável continuidade. Ela estava tão ferida e confusa e ferida e confusa, que nem assim seria capaz de amá-lo, de desejar aquela presença sem olhos, de fraldas sujas correndo pela sala. Ela saberia e o recusaria sem fim. Deixaria de morrer de medo, mas morreria de desgosto. E ela só importava a ele viva. Mesmo que vazia de vida.

Não, ela suplicou, exausta. A pele do corpo inteiro enrugada e frouxa sob um pijama azul. Andava pelas peças da casa, pintava a boca murcha com batom vermelho para sair, mas não cruzava a linha do primeiro degrau, a porta da rua. Enquanto ele esteve ali, e ele esteve sempre, ela andou ao redor de si como os cães fazem atrás do próprio rabo. Não foi longe, não foi a lugar algum. Tomada por medos que ninguém compreendia e forrada de certezas de papel de seda, nem por dentro teve condições de avançar. Ele não tinha olhos e deu-lhe a cegueira de herança. Ela investia, ensaiava corridas para rua, mas paralisava e perdia o rumo. Ela passou a esquecer dos desejos que tinha, os telefones dos amigos, os programas de tevê que gostava de assistir, a quantidade de vestidos que havia acumulado, o lugar onde havia guardado as fotos dos seus melhores dias, a cor da tintura dos cabelos, onde teria guardado dinheiro.

Não. Não mesmo, ela sussurrou, sentada na cadeira de balanço deixada por algum parente no alpendre à entrada da casa, distante três passos do primeiro degrau da escada para a rua. Ao lado esquerdo dela, sentado na pedra fria, estava ele bem quieto. Fazia um chuvisco sobre a grama não aparada e ele decidiu tocar no assunto. Porque ela já não tinha mais uma expressão de pavor estampada na testa, porque ela estava ali, serena, embalando a cadeira para frente e para trás, porque ela tinha cabelos grisalhos longos amarrados em trança, porque ela era a mesma, ele resolveu afinal abrir o jogo. Assim como negar foi espada, lança, foice, revólver, cuspe, lágrima, oração, perdão, compreender a razão da presença dele tinha sido a batalha de uma vida inteira para ela, talvez o sentido, mesmo, de manter-se viva, apesar dele sobre suas pegadas. Estar sempre armada roubou-lhe um punhado de sorrisos e a leveza. Então, ela que sempre foi azaleia rosada, desistiu.

Não, iniciou aquele ser disforme, translúcido e cansado de insistir, eu não quis te machucar. Eu sempre estive aqui, contigo, porque. Um sorriso de gengivas gastas e o movimento mais forte da cadeira para trás interromperam aquela confissão.

— Sim. — Fez ela. — Eu sei.

A cadeira balançou pela última vez.

Ele ficou ao lado do corpo frio e inerte até a noite descer.

Ele se perdeu.

Andréia Pires é escritora, jornalista e editora da Concha Editora, de Rio Grande-RS. Escreveu De solas e asas (2012), Um ninho no estranho (2013) e Azaleia para erva de passarinho (2018), finalista do Prêmio Ages. Teve contos publicados em várias antologias e revistas literárias, e coordenou o projeto Invitro, núcleo literário da produtora artística Mundo Moinho. É graduada em Jornalismo (UCPel) e em Letras — Português/ Espanhol (FURG), mestre em Letras — História da Literatura (FURG) e doutora em Letras — Escrita Criativa (PUCRS).

miúdos di passarin, poema de Ni Brisant

É aqui onde estou: agora.
Sincero como um bêbado que invade a missa, pede esmola e admite que vai usar a grana pra beber.
Um pivete que pega 10 contos com agiota pra pagar o almoço de sua namorada e… leva bolo.
Quando alguém desculpa nossos vacilos e atrasos, mas a gente
não consegue se perdoar.
É só aqui onde posso estar: agora. E eu tive o azedo no beijo como um carinho do ex marido de Virgínia Wolf. Era toda a companhia que uma nuvem pode ser para uma montanha. Eu tive no coração o que o Chile precisou atravessar para chegar à liberdade.

Estamos no mesmo barco, passarinho.
Use esta âncora como guarda-chuva
!esta âncora é teu guarda-chuva!

Ninguém foi te buscar na porta da escola
Ninguém te esperou na rodoviária, na saída dos bares nem dos hospitais
Ninguém nunca esperou por você
e isso te fez mais gente:
especialista em se virar.

Olhando do céu
alguém avista agora
estrelas no chão
quando
Palavra é pátria sem chão
aonde estamos:
agora

Apontar os sete erros deste jogo não me fez campeão (nem um segundo melhor)
goles sem copo já mataram mais sedes que águas tratadas
lençóis sem cama já foram mais acalanto que muitos hotéis por aí

A gente quer o infinito. E tudo é muito pouco — o melhor do mar é que, ele inteirinho, é estrada e, quando se nada, nosso corpo todo descobre o significado de caminhar entre a alma das nuvens.

Agradecer certas coisas, feitas tão de coração, soa até grosseria
Desculpa e obrigado: duas palavras que se anulam que nem aquelas cartas daquele jogo que você adora
então
— obrigada
— desculpa
Tudo bem a gente diz automaticamente sem dar conta que está tudo demolido — te espero no sono — a noite já vem tarde.

Teu jeito de gostar é canhoto demais, coração.

É que prometi não fazer poesia da nossa história
quando ela acabasse

e você garantiu que
quando o fim chegasse
— ele nunca atrasa —
não haveria do que reclamar

não transforme a gente em algo difícil demais
amor
é mais depois, viu?

é que toda história um dia pode acabar utensílio:
papel de parede, peso de papel, nome de bar, cachaça.
não pinte nossa história de uma cor só, viu?
que nenhuma pessoa suporta ver sua cria virar produto
artista detesta que transforme sua obra em algo repetido, funcional, reluzente, Romero Brito

resistência é um produto caro demais
a maioria só leva a embalagem

a gente gosta mesmo é do que não sabe, né?

único batismo que creio é a vaia
luz cortada, sabe?
[ainda que a gente nunca mais
Não seria o fim]

e ninguém nasce duas vezes
do mesmo modo

Depois do fim
aprendi com meu fígado, pelos, unhas e erros — a renascer — caminhei tempo demais entre armadilhas
me feri tanto a ponto de encontrar acalanto em arames
silêncio me ensinou mais que qualquer música
sem testemunha para o meu perdão
dancei no coração do mar morto

Antes
queria uma foto pra guardar de recordação
mas, ali estáticos, vi o flash imitar eternidades

E eu, que já morri tantas vezes só pra chamar sua atenção,
ao seu lado sei como sente-se a roupa em contato com o amaciante: a vida passa melhor

Antes da memória

deitava meus óculos sobre a mesa
você os calçava, mirava os três lados da janela
fazia modos de juiz de futebol com ambição de xerife num filme de Spike Lee:
— então é aqui que você se esconde, hein
— queria experimentar teus olhos, deixa
— depois devolvo, juro
— só um pouquinho, vai
E decorava capitais e poemas como se palavras pudessem comprar pão cacau show e tinta vermelho sangue para disfarçar o vazio dos lábios

Quero guardar teu perfume
igual no filme
como faz?

Ni Brisant nasceu no verão de 1985 em Acajutiba-BA. É autor do menor dicionário das galáxias e editor na Selin Trovoar. Escreve para ter no que acreditar.

eu disse por dizer, de Dirce Waltrick do Amarante

Para Nora Basurto

Estava no Chiado, em Lisboa, tomando um café e comendo um pastel de Belém (começaria a dieta no primeiro dia do ano novo sem falta), quando, de repente, na mesa ao lado, me deparei com Leonora Carrington. Curiosamente, eu lia seu livro de contos, La dame ovale, ilustrado pelo seu companheiro Max Ernst, e resolvi lhe pedir um autógrafo.

Aproximei-me da mesa e, quando ela meu viu com o seu livro na mão, disse-me impressionada:

— Onde você conseguiu esse livro? Está fora de catálogo há anos, desde que o publiquei em 1939.

— Eu consegui uma cópia na Biblioteca Nacional da França. Vou traduzi-lo para o português…

— Você é portuguesa?, me interrompeu.

— Não, sou brasileira, só vim pedir asilo em Portugal. A situação no Brasil não está nada boa, tenho medo da novíssima onda da ditadura militar… Sou professora, sabe como é…

— Que horror, o mundo desandou! O que dizer da ascensão desse louco do Hitler! Essa guerra insana… Max está preso… eu também estou em fuga.

Achei que ela falava do nosso presidente. E achei que a guerra era na Venezuela. Então perguntei:

— Já começou a guerra?

— Há mais de dois anos!

— Como assim?

— Não está sabendo? Os nazistas estão por toda parte… Vou para o México amanhã… via Estados Unidos… O Camacho, presidente do México, está tendo uma boa relação com os Estados Unidos…

— Com o Trump? E o muro?

— Que muro?

— Que o presidente americano quer construir na divisa com o México.

— Não estou sabendo disso. Quem é Trump?

— Pois é, quem é ele para propor um absurdo desses? Então os nazistas estão na Venezuela?, continuei.

— Não estou sabendo. O que eles fariam lá?

Ficamos um minuto em silêncio.

— Estou confusa, eu disse. — O presidente do México não é o Obrador?

— Não estou sabendo. Estou confusa.

Ficamos mais um minuto em silêncio.

— Dê-me aqui o livro que vou autografar. Daqui a pouco parto para Nova York.

Estendi o livro e ela assinou:

Para uma leitora, de LC.
Lisboa, 1942.

— 1942?!, perguntei.

— Sim, em qual ano acha que estamos?

— Pensei que fosse 2019!

Pensou um pouco, tomou mais um gole de café, olhou o relógio e disse:

— Será que estamos em fusos horários diferentes?

— Pode ser, eu disse por dizer.

Ela saiu abruptamente, não sem antes me pedir que pagasse seu cafezinho.

Dirce Waltrick é tradutora e ensaísta. Professora da UFSC.