publicações

cinco poemas de Lourença Lou

à espreita

nada em mim é pouco
nada chega devagar
nada segreda silêncios
em tudo sou vontade
devoradora de todos os sossegos
o que me devassa as noites
é o que sangra os ouvidos
é o que infinda os sentidos
:
ao longe um lobo uiva.

ancestral

aguentar
meus poemas batidos
a pregmo e fogo

minhas obras cunhadas
em moedas falsas

meus traços riscados
em tinta d’água

fica mais fácil
quando a poesia
me pega pela palavra

e me mostra o reflexo
do que corre em minhas veias.

à janela do quarto de dormir

devorando vazios
esqueço-me
numa espera inexistente

lá fora
a madrugada geme
a solidão da rua

nada há
além do silêncio
que se instalou na memória

alguns dias
não foram feitos para nascer.

fragilidades do outono

eu andava pelas ruas esquecida dos pés
a fome abria em mim suas bocas sem-fim
querendo o que o amor jamais preencheria

eu andava comida e bebida nas entranhas
dia após dia sentindo sem ver
a música despudorada do idílio das rolinhas

eu andava sangrando sangrando carências
que disfarçava em crenças duras e retumbantes
até tropeçar na exuberância de setembro

então me enxerguei
:
tinha a lírica que calaria todas as bocas
um jardim de miragens para driblar inseguranças

mas não sabia plantar primavera em minhas fomes.

movimento vital

manchar a página
com o sangue das palavras
que nascem nuas

rasgar o peito
como pelicano
a alimentar rebentos

depois
aspirar profundamente
o que sobra de vida
:
escrever é um ato de rebeldia

| poemas do livro Equilibrista (Editora Penalux, 2016). |

Lourença Lou às vezes é prosa, outras poesia, sempre encantada com quem faz literatura. Formada em Letras pela UFMG, pós-graduada em administração escolar, continua sendo aprendiz de viver. Faz parte de várias coletâneas de poesia, crônicas e contos, e várias vezes foi publicada no Livro da Tribo. Pela Editora Penalux publicou Equilibrista (2016), Pontiaguda (2017), Náufraga (2018), todos de poesia. Ainda este ano publicará O lado oculto do amor e outros contos.

maria eugênia, conto inédito de Matheus Arcaro

Com dificuldade, vovó senta-se na poltrona ao lado da cama. Parece desconcertada. Não era só a notícia sobre a minha gravidez, mas a confirmação de que seria uma menina. Fazia três meses que não a via, senti vontade de ouvi-la. Perguntei-lhe o que primeiro me veio à língua.

* * *

Da minha infância, não me lembro de muitas coisas. É como se minha cabeça reproduzisse um clipe televisivo. Melhor: episódios desconexos de uma telenovela. O laço do avental balançando, isso eu me lembro. Mamãe de costas no fogão à lenha, vestido xadrez desbotado e o laço a dançar com o vento que entrava pela porta. O quintal, chão de costelas à mostra, era imenso, com a cana-de-açúcar a cumprir papel de cerca. Meu quarto, cama de palha e uns brinquedos de lata soldados pela inspiração do meu pai. Lembro da ausência do meu pai. A tosse que não mais tomava a casa, os vãos deixados quando ele saiu com aquelas malas emprestadas. Talvez isso tudo não tenha acontecido assim. É que quando a memória não dá conta, puxa a imaginação pelo braço, pedindo socorro.

Ah, mas Maria Eugênia sempre surge nítida à minha mente, muito inteira, mesmo enquanto estou dormindo. Hoje, com 82 anos, me soa pedante, mas naquela época, eu achava chique nome composto, coisa de gente rica.

Quem me deu Maria Eugênia foi tio Osvaldo, mas isso só fui saber tempos depois. Porque naquele ano, o presente foi de Papai Noel. O tio era apenas o emissário, ou melhor, o carteiro do velho barbudo, já que as renas não conseguiam andar em caminhos empoeirados. Renas com rinite. O irmão da minha mãe vinha todo ano na antevéspera de natal e ficava até o réveillon. Na manhã de 25 de dezembro, me entregou uma caixa comprida. Ermelinda, o Papai Noel pediu pra dar isso a você. Mas tem uma condição. Você não pode abrir a caixa, senão ele não dá presente ano que vem.

Eu não soube mastigar as palavras do titio, pedaços grandes entupiram minha garganta. Sacudi a cabeça para cima e para baixo. Rasguei o embrulho, sem ouvir o pedido de mamãe. O papel, a gente usa de novo, filha! Antes mesmo que eu terminasse, o êxtase brotou no meu peito, irrigou-se corpo adentro e saiu pela boca num grito sussurrado. Eu estava frente a frente com a utopia. A maior utopia que uma menina de oito anos podia suportar. A boneca de porcelana tinha mais da metade do meu tamanho, franja cor de mel, cílios compridos, vestidinho rodado azul claro. A beleza metamorfoseada em brinquedo, vista através do celofane. Aqueles olhos verdes olharam para os meus, éramos íntimas. Pedi ao meu tio que agradecesse ao Papai Noel, pedi licença à mamãe e corri para o quarto. Abracei a boneca com cuidado, não podia amassar sua armadura de papelão. Fiquei com a caixa colada ao peito até sentir o coração de Maria Eugênia. Eu merecia um presente assim?

Dormi abraçada à caixa. Não, não. Dormi ao lado da caixa, medo de descumprir a promessa feita mentalmente ao Papai Noel. Maria Eugênia no meu travesseiro e, sobre ela, a manta rosa que também me esquentava. Espremidinha, olhei para a boca rosada até que meus olhos se fecharam. Setenta e cinco anos depois, me lembro do sonho que tive. Eu e a boneca passeávamos de mãos dadas pela escola, assobiando as músicas que aprendêramos na aula de canto. Sonho demasiadamente colorido? Só quem nunca lidou com a ausência de presentes em natais e aniversários, julgá-lo-ia com tamanha leviandade. E mais: não foram poucas as vezes que sonhos semelhantes a este me tomaram as noites. Em outras, transferi para a boneca minhas insônias: ao lado do candeeiro embalava a caixa com as canções que há tempos mamãe não me cantava.

Sim, aos poucos, mamãe parou de cantar. É que a voz da necessidade ficou mais alta que a dela após a partida do meu pai. Entregou-se ao tanque e ao fogão. Quando viu tomarem corpo minhas conversas com a boneca, quando percebeu que Maria Eugênia tapava um buraco cavado pelos seus afazeres, o olhar dela demonstrou-se anestesiado. Obviamente só consigo observar agora estes olhos ressacados. Naqueles meses, eu só via Maria Eugênia.

— Por que não, mamãe?

— Ermelinda, escola não é lugar de brinquedo. Ainda mais uma boneca deste tamanho.

Eu voltava num fôlego da escola para casa. Jogava a mochila na cama, almoçava e passava a tarde com a caixa para lá e para cá. Brincávamos de comidinha, de esconde-esconde, de mamãe-da-rua. De quando em vez, eu era a professora, depois ela era dona da loja de roupas e me apresentava as últimas modas para bonecas. À noite, eu a acariciava, minha mão e seu rosto intermediados pelo plástico.

Num final de tarde, mamãe foi entregar a roupa que tinha lavado nos últimos dois dias. Espiei pela janela até ela virar a esquina, voltei na ponta dos pés. Se eu tirar você da caixa um pouquinho, quem vai saber? É só um beijo. Mas o cérebro não foi capaz de delegar o comando às mãos ou, se o fez, elas não obedeceram. Talvez foram impedidas pelo coração que não arremessou sangue suficiente. Fato é que logo inventei que Maria Eugênia era um bebê doente e não podia sair daquela incubadora, risco de morte.

A rotina das tardes tinha se solidificado, a boneca e eu já esperávamos uma à outra. Mas algo desmoronou naquele 5 de agosto de 1944. Como nos últimos meses, voei para casa. Boa tarde, filha. Você não imagina quem saiu daqui agorinha! Perguntei “quem” por compaixão. É que os olhos da mamãe pareciam um pouco mais vivos, não seria eu a desbotá-los. A Solange, lembra dela? Menti que sim. E trouxe a filhinha dela, 3 anos, uma graça! Subiu-me um frio pela barriga, faltou-me ar. Corri para o quarto, pernas estrangeiras do corpo e, o que era especulação, fez-se real: Maria Eugênia estava jogada no chão, despenteada e sem roupa. A caixa sobre minha cama com o celofane rasgado. Foi como se algo implodisse em mim, como se os andaimes do meu corpo se derretessem. Pela janela, vi o Papai Noel com lágrimas a sacudir-me a mão em despedida.

Acordei com um pano úmido sobre a testa. Mamãe sorriu, o único sorriso em três semanas. Dois dias depois, pediu que buscassem o médico. Minha filha não melhora. Acho que foi a comida da escola, doutor! Salsicha vencida. Hum, pouco provável, senhora. O que posso receitar é remédio pra febre. Recomendo repouso e hidratação. Volto em três dias. Nem recomendação nem remédio resgataram o rosto da saúde. No dia seguinte, mamãe chamou dona Valquíria, benzedeira famosa na região, que esfregou-me ervas nos braços e pernas, cochichou olhando para os céus e, com as mãos esticadas sobre mim, disse:

— Essa menina tem pássaro preto no peito que se debate e machuca ela por dentro. Precisa abrir a gaiola.

— E como se faz isso?

— Ela vai saber.

Sim, eu soube. Aos poucos, fui encontrando as chaves, eram muitos cadeados trancando a gaiola. O maior deles: se Papai Noel não viesse no natal seguinte, tudo bem. Maria Eugênia e eu agora éramos inteiras: ela sem caixa e sem plástico; eu sem medo. Menos de um mês depois do desmaio, pedi que mamãe convidasse Solange para um café e que trouxesse sua filhinha. Brincamos, nós três, a tarde inteira.

* * *

Vovó se levanta, apoia-se no andador e chega ao guarda-roupa. Abre a porta e me entrega um embrulho grande. É pra sua filha! Tirei a coberta, os olhos verdes me olharam. Os meus, encharcados, não puderam corresponder no mesmo nível de profundidade.

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Editora Patuá, 2016) e dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014) e Amortalha (Editora Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

partes de ‘Corpo Extranho’, três poemas de Rafa Ireno

prefácio ou epitáfio

Sempre quis que seus livros tivessem o reconhecimento das frases nas portas de banheiro: que a pessoa terminasse, mas continuasse lendo.

irreversível

Hoje um homem morreu. Atropelado no pé do bairro, ele morreu. 8hs da manhã? Por volta, sim, já são onze e o corpo dele está lá. No chão, o sol queima forte, é de manhã, já é calor. Os comentários correm as ruas, vielas, escadões, botecos: jogo da seleção, bandeirinhas, era caminhoneiro, menino esperto, como foi morrer assim? Poxa… Entregava gás, não, não, ele fazia carreto — foi tomar café do outro lado da avenida, esqueceu de olhar a reversível. Não era filho do Zé? Mais um. Toda semana morre na M’boi Mirim. Toma cuidado, velho, atravessa só no farol, presta atenção. Também, a vida toda os busão só vinha numa direção, agora, nem sei, de manhã é daquele, de tarde de outro, tem motoqueiro — raça ruim — que passa rasgando e nem vê QUE TÁ VERMELHO, PORRA! E cobriram ou nem? Você, viu? Foi feio, né? Arregaçou tudo vermelho? Pintaram sua rua? BRASIL bem grande. IML tinha que tirar isso daí. Vixi, vai demorar. Um homem morreu. Atropelado, foi sim, também, por que não esperou fechar? Desceu correndo, ufa, não é meu marido… parece mesmo, não é, graças a Deus e ao Espirito Santo! Desse jeito aí, as mosca bicheira tudo rodeando, curiosos, espera só cozinhar no asfalto.

são luiz

O estômago doí, esqueceu de comer, só café até de manhã. E aí? Tudo bem? Muita gente hoje aqui. Infelizmente. É… Mano, deixa eu perguntar: teria problema se a gente passar aquele pessoal na frente? Oi, desculpa? A bolacha de maizena salvou a noite, se não só o cafezinho requentando a madrugada não ia dar. Eu perguntei pra passar na frente o lá de fora, o sol está derretendo, pode ser? Ah… entendi, porra, é claro. Não doí tanto, incomoda. Uma azia bem no fundo da garganta, que desce pra barriga. Obrigadão, mano, de verdade, gratidão, mas é que tem gente demais e não tem lugar pra todos, vocês deram sorte! De boa, dá pra segurar um pouco mais, é até melhor, um dos filhos não chegou ainda, talvez, consiga. Obrigado mesmo, vai adiantar o meu lado. Não pega nada, vai tranquilo. Valeu e… desculpa perguntar, mas quem era? Queimação nas entranhas, café maldito e mabel amanhecida, que vida de merda. Minha mãe. Quem? Minha mãe, velho. Caramba, era nova… nem diria que tinha um filho desse tamanho. É. Bom, vou lá avisar o pessoal que já pode enterrar a Dona Francisca, valeu, meus pêsames, garoto. De nada.

[Estes poemas em prosa são de um fascículo chamado Corpo Extranho lançado em 2015 na Cooperifa, em São Paulo. Trata-se do primeiro de uma série de fascículos, que, por sua vez, completaram um projeto chamado 5318 — o número do ônibus do seu bairro — projeto ainda em construção.]

Rafa Ireno é um escritor e crítico da periferia de São Paulo. Neste momento, faz um doutorado em cotutela sobre poesia e política nas obras de Rubem Braga e Jacques Prévert na Universidade de São Paulo e na Université Sorbonne Nouvelle — Paris 3. Recentemente, publicou de maneira independente o seu segundo fascículo de poemas em prosa chamado Três por Quatro. Desde abril de 2019, contribui com o blog Letras in.verno e re.verso [link] e, não tão amiúde como gostaria, escreve em seu próprio blog [link]. Pode ser encontrado frequentemente no Sarau da Cooperifa ou no e-mail: irenorafa@gmail.com.

a diplomacia em banho-maria, de Dirce Waltrick do Amarante

As relações entre a Índia e o Brasil iam de mal a pior e tudo começou quando passamos a comprar vacas indianas, as quais, segundo o contrato, deveriam ser tratadas com a deferência que lhes cabe por sua condição sagrada, mas acabavam mesmo era virando churrasco (sim, comemos churrasco de gato, gambá e vaca), recheio de pastel etc. por aqui.

E os indianos descobriram isso num vídeo do YouTube, que viralizou, no qual um diplomata brasileiro ensinava como fazer pastel com recheio de carne de vaca indiana. Aliás, o diplomata era conhecido por seus talentos culinários e fazia parte de renomado clube de gourmets da cidade de Vagens, no interior de Santa Catarina.

Foi um escândalo diplomático que o fez perder seu posto duramente conquistado no Itamaraty. Pensando bem, não foi duramente conquistado, porque não era diplomata de carreira, havia sido indicado para o cargo pelo presidente do Clube dos Gourmets de Vagens, um fazendeiro que fabricava um dos melhores iogurtes do mundo, melhor até do que os Iogurtes de Popesco Rosenfeld, os preferidos do senhor e da senhora Smith e do dramaturgo romeno, naturalizado francês, Eugène Ionesco.

Ocorre que o diplomata conhecia alguns segredos de Estado e, de forma nada ética, ameaçou lançá-los aos quatro ventos: um deles era o de que os frangos exportados para a Índia, com os quais os indianos faziam um delicioso chicken tikka masala, eram alimentados com hormônios que, em seres humanos, ou melhor, nos homens, provocavam a diminuição dos testículos e faziam surgir brotos mamários. Não sem razão, quando um diplomata indiano chegou ao Brasil, muitos acharam se tratar de uma mulher.

Esse imbróglio internacional só acabou quando deram ao diplomata o cargo de embaixador no Consulado do Samba, uma escola de samba da capital catarinense. Desde então ele é visto nos barracões da escola bordando e costurando lantejoulas em fantasias de carnaval.

Dirce Waltrick do Amarante é professora, ensaísta e tradutora. O conto integrará o livro Antropologia urbana, ainda sem data de lançamento.

cinco poemas inéditos de Heitor Ferraz Mello

nota para um projeto

Nesta tarde fria,
ouvindo no celular
uma leitura
de Chico Alvim
Um nó na garganta
me fala de um país
que
acabou

Aquela voz
parece provir de uma nítida
percepção de que a beleza
é venenosa
Que pode fazer vibrar
os sentidos
Mas pode ao mesmo tempo
nessa informalidade
estropiada da língua
estrangulá-los

Não é mais possível
fazer poesia sem que
o horrível se manifeste
e se projete
num tempo sufocante
e ameace
toda a solaridade
toda a paisagem viva

Sinto a mesma dor
ouvindo “Undiú”
de João Gilberto.

hábitos noturnos

Agora, sim
devo me deitar
Agora, sim
apagar as luzes da casa
A gata continua
em cima da máquina de lavar
na mesma posição
esfíngica e provocativa
À noite
fecho as janelas
para que ela não fuja
e apago o último cigarro
Agora, sim
devo procurar novamente
o sono
que está em cima
da máquina de lavar
na mesma posição da gata
Não há mais nenhuma sombra
Não, minto
Há a sombra da janela da sala
projetada no tapete
pela luz dos postes de rua
Toda sombra
é recolhimento
Também encontro
ainda
este outro feixe
de sombras
em cima
da máquina de lavar.

para os que ainda podem dormir

Não há mais noite
que não seja inventada
O homem que se deita numa cama
inventa sua própria noite
Fala antes de dormir
para que algum planeta disperso
na órbita do quarto
possa ouvi-lo

O discurso solto de quem
está e não está mais
Parece ter aquela autoridade
dos moribundos
dos narradores que escoam

A voz vai se desarticulando
como letras que se embaralham
diante do leitor sonolento

O homem inventa suas noites
suas mortes
para suportar
o peso imenso
do desencontro
com seu corpo.

certas palavras

Às vezes
preciso de uma palavra errada
Ela me indica caminhos
que não estavam
no roteiro dos dias

O sentido da palavra
errada
em outra
mesma língua
pode romper a manhã
em que ansioso
não me punha em pé
mas num estado irrequieto
pondo fogo em pinheirinhos ornamentais
Todos os pinheirinhos ornamentais
de minha cabeça em frangalhos

Só uma palavra errada
poderia me resgatar
de tanto desgaste
Como se o erro
de sentido
tirasse da sombra
como um sol violento
a sombra
do que sou.

em resumo

Também se destrói um país
com palavras
e canetas ordinárias
Também se enterra um sonho
Com a mais ordinária
das falas

Heitor Ferraz Mello nasceu na França, em 1964. É jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela USP. É professor na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Em poesia, publicou, entre outros, Coisas Imediatas (1996-2004), Um a menos (2009) e Meu Semelhante (2016), todos pela Editora 7Letras.

quatro poemas do livro ‘Erotiscências & embustes’, de Jozias Benedicto

67162232_1199205776926392_319728562493980672_oO lançamento é neste domingo, 4 de agosto, na Casa Quintal de Artes Cênicas, no Rio de Janeiro. Mais informações [link]

autorretrato 3 por 4

(adolescentepoema
quatro versos
sem rima
nem métrica

um retrato
trêsporquatro
adolescentes
embustes

um caderno
poemas datilografados em noites insones
depois anos e anos e anos até
o fogo:)

_______________olho esquerdo inquisidor
_______________o direito, acolhedor
_______________orelhudo, surdo, mudo
_______________ante a vida ante tudo

(um pequeno poema queimado para sempre em um incêndio
e recuperado no meio das trevas de um sonho:
o sonho dos monstros produz
razão)

uma fábula

Era uma vez.

Tive um analista
que repetia
e repetia
repetia:
“Por que as pessoas só querem plantar arroz
em terreno onde não nasce arroz?”

Penso em minha vida e vejo isso,
sempre isso:
arroz
em terreno
onde não
nasce
arroz.

Mas afinal estou vivo, com arroz ou sem arroz.

E ele, o analista,
já morreu há muito tempo,
já não deve mais nem ter carne nem pele nem ossos no caixão dele,
muito menos
arroz.

erotiscências VII (impenetrabilidades)

Penso em: vencer o tempo.
E o espaço.
A distância,
reduzi-la a zero.
Aquela lei da física — é a primeira ou a segunda lei daquele tal de newton? —,
dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço,
para mim, para nós, é pura bobagem.
Podemos sim, ser um,
um universo infinito.
Digo estas coisas de forma meio
atabalhoada
confusa
olhos úmidos
(bêbado).

Você apenas
sorri.

Talvez, talvez,
talvez seja possível, um dia,
esta impossibilidade.

Também sorrio, e mudo de assunto.

Chove.

valongo II (barco de refugiados)

As portas e os mares já estão fechados
com lutas insanas. Trilhas de sangue
no mapa-múndi dos refugiados
escrito em dor que só a morte extingue.

Por que foges assim, barco ligeiro?
O peso que carregas é tamanho,
se naufragas, já não és o primeiro
a levar pro fundo tua carga humana:

homens, mulheres, crianças — fugindo
da guerra, da morte, a paz buscando
no exílio; mas num barco submergindo

no frio mar; a foice veio célere
ceifar quem nada vale, existindo:
uma praia coberta de cadáveres.

| poemas do livro Erotiscências & embustes (Editora Urutau, 2019). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual nascido em São Luís, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pós-graduado em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. Publicou os livros de contos Estranhas criaturas noturnas (2013, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e Como não aprender a nadar (2016, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura). Em 2018 recebeu premiações pelos livros de contos ainda inéditos Um livro quase vermelho (Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Governo do Estado do Maranhão). Teve contos publicados nas antologias Sábado na Estação (2012, organizada por Luiz Ruffato) e Contágios (2016, organizada por José Castello). Em artes visuais, entre outras mostras, participou da XVI Bienal de São Paulo. Erotiscências & embustes é seu primeiro livro de poesia.

cinco poemas de Luci Collin

alinho

É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece

é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia

voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.

Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.

É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho

e saborear
o estremecimento.

de se fazer

quando desenlouqueceu
amélia pôs-se a queimar a comida
a adoçar a sopa
a ter vaidades ruidosas

queria dançar mazurcas
quadrilha___tango___burlesca
o que fosse______o que desse

queria pintar-se___alçar-se
exercer-se

viu sua cara no espelho
deu sua cara a bater

banhou-se___perfumou-se
batizou-se

e tratou de aprumar
as asas que a vida lhe deu

aquilo sim é que era voo de verdade

peça

o homem
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes

a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada

a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher

o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras

aos pés da letra

não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto

não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago

não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho

pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto

declaração

que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema

não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta

sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade

sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci

Luci Collin, poeta e ficcionista curitibana, tem diversos livros publicados entre os quais A árvore todas (contos), Querer falar (poesia, finalista do Prêmio Oceanos 2015), Nossa Senhora D’Aqui (romance) e A Palavra Algo (Editora Iluminuras, 2016), premiado com a segunda colocação na 59ª Edição do Prêmio Jabuti, na categoria Poesia. Participou de antologias nacionais (como Geração 90 — os transgressores e 25 Mulheres que estão fazendo a literatura brasileira), e internacionais (nos EUA, Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Peru e México). Também já traduziu Gertrude Stein, E. E. Cummings, Gary Snyder, Eiléan Ní Chuilleanáin, entre outros. Leciona Literaturas de Língua Inglesa na UFPR.