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cinco poemas de Ludmila Rodrigues

domingo

também estou com saudade dela, frida
eu digo triste
com uma resignação própria de quem sabe
que cachorros não entendem língua de gente
é fim de tarde, eu fumo na janela
trago seu bilhete nas mãos
que diz fique calma, tudo é passageiro e ainda podemos
morar numa casa com piso de madeira etc.
já reli vinte vezes
e ainda não consegui compreender nada
exceto a parte de que tudo é passageiro
penso numa casa com o piso de madeira
vejo a cidade de cima
tá tudo dourado
e ninguém percebe que eu grito

maldição

eu passei a minha vida inteira
rindo sem vontade
de tudo que homens falavam
aceitando impertinências
e tentando, a qualquer custo
ser palatável a suas goelas frágeis
minha vida inteira pedindo desculpas
pelo que quer que fosse
e sentindo o estômago embrulhar
por nunca ser boa o suficiente
eu passei minha vida inteira tentando
caber no que haviam planejado
rompendo contratos, jogando roupas pela janela
tendo crises intempestivas dentro do carro
em movimento
dormindo ao lado de monstros tenebrosos
ou contando as folhas secas do chão
por sempre estar de cabeça baixa
e eu não me lembro de ter atinado
em nenhum momento
para o fato de que as coisas absolutamente
não precisavam ser daquele jeito
hoje, de um lugar calmo e quieto
eu passo noites inteiras tentando
suportar acordada
a tortura de rever minha vida nessa espécie
de filme maldito
que teima em me exibir
agonizante
durante anos a fio
sufocada do lado de dentro
da minha própria pele

sputnik 2

o que será que a gente pensa
quando planeja um ano inteiro num bloco de papel
faz xis no calendário
quando tem insônia e afaga o cachorro
quando toma café pra ficar acordada depois da madrugada?
o que a gente pensa
quando comemora nossos aniversários
compra livros, faz listas
estipula metas?
e quando para de comer carne, o que a gente pensa?
o que será que a gente pensa, por deus
quando lamenta o suicídio alheio
e jamais admite que um atropelo em plena quarta-feira
também pode ser chamado de salvação?
quem nós pensamos que somos
quando dizemos que buscamos vida em outros cantos do universo
mas na verdade o que buscamos são pessoas como nós?
ou quando mandamos a outros planetas
cachorros, cadeiras, bonecos e aparelhos com informações
sobre nós mesmos
para que daqui a um bilhão de anos alguém saiba quem éramos
do que gostávamos e que música ouvíamos?
quando a gente olha pro céu e vê bilhões de pontos brilhantes de luz
num azul-marinho quase preto
é aterrador como nem assim a gente percebe
que nossos caminhos são tão extremamente desimportantes
tão diminutos quanto essa formiga que, agora, no parapeito de mármore
luta contra uma piscina de água do tamanho de uma moeda
essa formiga que eu só consigo ver porque estou bem do lado da janela

namorada

uma vez conheci uma mulher
que me fazia rir de coisas inimagináveis
para minha natureza indolente
como por exemplo
o cu de um gato
gargalhávamos na cama enquanto o gato descansava apático
nos azulejos frios embora fosse verão
não conseguíamos olhar para o gato
porque desmanchávamos e nos contorcíamos na cama
perdíamos o ar e enfim respirávamos fundo
vencidas
mas isso foi há muito tempo
dentro de um quarto com paredes verdes
que ficava parecendo um grande aquário de peixes
quando entravam as primeiras fendas de luz
da manhã

o corvo

já faz muito tempo
que existe um pequeno corvo no meu ventre
não sei como ele se instalou tão firme
em um corpo ainda jovem e quente
um dia simplesmente estava lá
e desde então se alimenta do meu sangue
e da minha força
enquanto convalesço calada
com os olhos trincados e as pálpebras frias
sem entender muito bem
o que ele faz aqui e por que eu
por que minhas vísceras e não outras
por que meu sangue e não outro
quando ele bate as asas dentro de mim
e perfura minhas entranhas com seu bico fino
eu me aquieto e deixo que ele se alimente
(embora doa um pouco
depois do corvo quase tudo me é indiferente)
ele me faz acumular papéis não lidos
cancelar encontros
e não querer lavar os cabelos
(não importa se o sol está escaldante)
repito, ele não é grande
mas é inexplicavelmente forte
e parece pesar uma tonelada
mesmo quando só repousa

Ludmila Rodrigues é formada em Letras pela Universidade Federal da Bahia e mora em Salvador. Publicou os livros O rosto na xícara e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes e mantém o blog http://medium.com/@ludmilardgs.

primeiro capítulo da novela ‘Epilepsia — uma fábula’, de Samuel Kavalerski

00 epilepsia_capaPreâmbulo
Numa noite imóvel

A lua branca era um ponto raro de esperança na noite tão escura. A água da chuva ainda se acomodava pelo asfalto e refletia a claridade em milhares de migalhas líquidas. Era uma cidade grande, dessas com estações de trem, chafarizes e teatros. Fazia frio e o vento fraco não movia nem o que havia de muito leve. Àquela hora, instaurava-se um vazio profundo e espaçoso. O silêncio era um rei tirano. Edifícios e monumentos pesavam indiferentes sobre a terra. As ruas úmidas eram um deserto. Nenhum passo, som ou respiração. A neutralidade havia se imposto ao tempo e parecia ter suprimido qualquer ação, qualquer presença. Parecia que tudo tinha ido embora e aberto espaço para o nada. A ausência se dilatava e deslocava lenta no contorno de uma carícia sobre cada centímetro da superfície da cidade.

De uma das ruas brotava uma fenda entre blocos de concreto: um beco estreito e escuro. Um labirinto tão objetivo que, se alguém decidisse explorá-lo, teria como sentença o retorno sobre os próprios passos. A certa altura da noite imóvel, a luz da lua lambeu o breu e revelou, ao longe, na extremidade do beco, um homem deitado no chão. Do negrume, a claridade desenterrou lentamente as pontas de um corpo abandonado ao próprio peso.

O homem dormia imóvel como a noite.

Alguém que decidisse se aproximar, passo após passo, beco adentro, veria de perto, sobre os ângulos daquela carcaça, o depósito de uma grossa crosta de sujeira. Na pele, feridas abertas e sangue; sobre ela, o acúmulo de suor e poeira; sob as unhas, como terra cavoucada, uma matéria compacta e escura. O cabelo era uma massa disforme, embolada com sebo; e, pela barba, catarro, saliva e restos de algo que serviu de alimento. As vestes gastas estavam sujas pelo que vinha de dentro e pelo de fora. Uma aura pesada cheirava o azedume da imundice humana, mistura apurada de suor, secreções, excreções e hálito. Muito tempo e matéria tinham se sobreposto e sedimentado sobre o corpo e essas camadas, por apego e hábito, já eram parte do que era o homem.

O olhar que enfim chegasse ao fim do beco e, disposto a uma aproximação maior, assumiria o ponto de vista dos parasitas que habitavam o seu corpo. Bem de perto, aderido ao visco da sujeira, o olhar curioso teria uma revelação: a aparente imobilidade daquela noite era uma farsa. Pelo corpo, músculos se contraíam, cavando vales. Depois, relaxavam. Artérias mais superficiais elevavam ondas na pele enquanto bombeavam o sangue. O caminho do ar ampliava e diminuía o volume do tórax. O coração batia. Havia correntes elétricas. O corpo pulsava numa dança mínima. Em meio a tanta imobilidade, até mesmo das horas, nem tudo estava perdido. Um compasso constante e sereno embalava o sono. Havia calma e constância.

Num repente, como numa erupção e sem motivo, algo muda: o corpo encrespa; a respiração acelera; o coração bomba impetuoso, soca o peito; o sangue engrossa, a circulação não flui, há atrito; há esforço; o tórax infla, puxa mais ar e murcha em sopros rápidos; há calor, o suor verte; o corpo lateja num ritmo de esquizofrenia; oscilações incoerentes descompassam expansões e contrações, sístoles e diástoles; tudo se torna abrupto. Na tentativa de conter os impulsos por dentro, o invólucro do corpo se enrijece, aperta e empedra. A explosão teria sido um caminho mais fácil. O romper latente passa a transfigurar as formas do corpo. A nuca se espreme e arqueia o pescoço para trás; a boca abre numa fresta; língua, palato e garganta, úmidos de saliva sentem o ar que entra seco e sai em sons manchados; os poros se alargam e a casca dura da pele vira uma membrana fina. Os pelos levantam e repuxam incontáveis pequeníssimos cumes; o tato se amplifica e a pele sente o toque do ar, da sujeira, o arranhão da fibra dos tecidos, a umidade áspera do chão; os olhos se reviram, as pálpebras batem como asas de um inseto; o sexo endurece; os punhos cerram com força e as unhas afundam na pele das palmas das mãos; na face, uma carranca se contrai por dor e negação; a saliva abunda, espuma e escorre pelas laterais da boca. Espasmos contorcem a musculatura, contraindo, retendo tensão até afrouxarem quase à morte; o peito se afunda e os ombros fecham; as escápulas se abrem para, em seguida, juntarem-se apertando a musculatura das costas; a coluna arqueia reabrindo o peito ao ponto de rompê-lo. É preciso mais ar; o ventre oscila entre idas e vindas até que se contrai, repuxa o quadril em direção ao estômago e condensa todas as pulsões num núcleo, na potência de uma concentração atômica; a matéria do corpo se força a uma levitação tesa; o homem todo se comprime e rejeita o chão, recusa a gravidade num esforço por se elevar, descolar, desprender, até que o cérebro pesa num escuro profundo.

A queda.
O gozo imaculado.

Toda tensão finalmente se esvai, derrama-se púbis abaixo, rolando a pelve como uma bacia que emborca. O corpo transborda. Do meio da escuridão, um gole de claridade. Na matéria, o tremor do êxtase. A linha de pele, que até então separava o dentro e o fora, desmantela-se. Limites se dissolvem e o que é do homem se mistura ao que é do mundo. Uma comunhão: o ar da noite perpassa fibras, tecidos e ossos do corpo aberto; o essencial do homem desliza e escorre pelas dobras da matéria da noite. Homem e noite deixam rastros um no outro.

Entre borrões de contrações e arrepios, o corpo lentamente assossega e acomoda. Ondas amaciam pedaços da carne. O que antes se espremia afrouxa, o que explodiria abranda e, pouco a pouco, a quietude interpõe seus véus.

O fluido derramado escorre na pele e fica impresso como uma camada a mais de matéria. Findados os fatos, a lua seguiria seus passos e entregaria o beco de volta ao breu. Tudo passa. O homem dormiria por milênios. Inspiraria como um lobo que uiva para dentro. Expiraria, entregue e frágil. A arbitrariedade do tempo se interporia à escuridão e o infinito ganharia espaço até que o amanhecer viesse matar a noite. Apesar do homem, essa derradeira paz seria o mais próximo que a noite enfim chegaria da tão virtuosa imobilidade.

| primeiro capítulo da novela Epilepsia — uma fábula (Folhas de Relva Edições, 2018). |

Samuel Kavalerski é bailarino, coreógrafo e artista visual. Epilepsia — uma fábula é seu primeiro livro. Dirigiu “Céu de Espelhos”, projeto vencedor do 20º Cultura Inglesa Festival, dividindo a criação e a cena com a bailarina argentina Irupé Sarmiento. O espetáculo rendeu-lhes uma indicação ao prêmio de melhor interpretação da APCA. Foi professor, coreógrafo e ensaiador do Corpo Jovem da Escola de Dança do Theatro Municipal de São Paulo. Foi solista da São Paulo Cia. de Dança, integrou o elenco da Quasar Cia de Dança, de Goiânia, e o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba. É graduado em Artes Visuais com Ênfase em Computação pela Universidade Tuiuti do Paraná e tem desenvolvido trabalhos que integram as diferentes linguagens artísticas: dança, artes visuais, teatro e, agora, a literatura.

tesão substantivo feminino, poemas de Sofia Vietchie

Um puta medo,
esta puta tesão:

Errada

Agora tenho uma pasta
no meu computador
(velho)
com teu nome
(feio).

Agora tenho tesão
no teu texto.

— Que fase.

Incerta

Agora tenho tesão nos pelos do teu braço,
na tua mão quando pegas a caneta do bolso
e nos teus dedos quando seguras os óculos
(as unhas impecáveis).

Imagino-a pegando a minha bunda,
depois dos cabelos.

Imagino-os tocando a minha vulva,
depois dos mamilos.

Imagino os pelos dos teus braços nas minhas costas,
depois sobre meus seios.

Exatamente assim: me penetrando
e me dando bronca no ouvido.

Correta

A tesão agora é na tua boca e nos teus olhos,
nos lábios carnudo-finos da boca pequena,
nos olhos vivos sob as sobrancelhas pretas.

Não é por que sejas bonito:

é porque me imagino te vendo de cima,
tua língua, tua boca, que já não vejo,
mas cujo desenho sei
de cor;

é porque me imagino te vendo de cima,
os fios raros da tua cabeça que já não evito
tocar e pego e seguro
com as duas mãos.

É porque te imagino me vendo de baixo,
teus olhos, como quando pensas,
para conferir já fora de ti
o intangível.

É porque tento fugir da boca que avança,
com ainda mais voracidade a cada fuga,
mãos nas nádegas, prevendo
minha falta

de saída,

é porque espremida entre a cabeceira e a imagem
agarro-me ao travesseiro que primeiro encontro
e deixo fluir o mel que soubeste
extrair,

entre minhas pernas,

ausente.

Concreta

Eu estava perdida
nos pelos bem pretos do teu braço direito,
tua pele bem branquinha mais macia que a minha,
em contraste com a madeira da mesa.

— Deusa, que bonito…

Eu pensava,
quando vi:
aquelas três pintinhas,
sob o pelo preto,
sobre a pele branca.

Arrepiei,
quis beijar as três pintinhas,
tua mão,
tua boca,
teus olhos.

Se assentisses, eu continuaria:
no teu colo, de frente:
tua orelha,
teu pescoço,
teu peito.

(Como são teus pelos ali?)

Aos teus pés, eu louvaria o que em mim é falta:
teu pau duro
eu beijaria,
com carinho,
com dedinhos,
até o fim.

Não é porque sejas bonito,
não és;
és gostoso, como o diabo
gosta.

| extraído do livro Ela está no bolso e escrito sob o efeito do doce e dele. |

Sofia Vietchie nasceu numa aldeia onde passeava de bicicleta por aleias de areia, mas sempre foi atraída pela cidade grande. Escreve poesia descabeçada quando não tem outro jeito, quando não dá para disfarçar o lirismo ou precisa sublimar desejos tão inconfessáveis quanto impossíveis. Os poemas vieram em sonho, mas foram lapidados para a revista gueto.

fragmento de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, de 18/31 de maio de 1920*

18/31 мая 1920 г. Письмо к Вячеславу

Персписываю, чтобы потом не забыть, как любила.

[…]

Теперь о другом. Одно меня в Вас сегодня как-то растравительно тронуло: «много страдал — люблю жизнь — но как-то отрешенно»… Го-спо-ди! — Ведь это — живая я. Потому так всё и встречаю, что уже наперед рассталась. Издалека люблю, à vol d’oiseau люблю, хотя как будто в самой толще жизни.

Когда я с Вами сегодня шла, у меня было чувство, что иду не с Вами, а за Вами, даже не как ученик, а как собака, хорошая, преданная, веселая — и только одного не могущая: уйти.

Много собак за Вами ходило следом, дорогой В. И., но — клянусь богом! — такой веселой, удобной, знающей время и место собаки у Вас еще не было. — Купите собачий билет и везите во Флоренцию! — Но Вы уедете! уедете! уедете!

Здесь в Москве я спокойна, я всегда могу Вам написать (злоупотреблять не буду, хотя — 3-ья страница! — уже злоупотребляю!) — могу окликнуть Вас на каком-нибудь вечере, услышать Ваш старинно-коварно-ласковый голос, — да просто сознание, что по одним арбатским переулкам ходим, — я дом Ваш знаю, — значит Вы есть!

А во Флоренции я и мысленно не смогу ходить за Вами следом, я ни одной улицы не знаю, я во Флоренции не была! Сейчас глубокая ночь, Вы спите. — Кто это был в красном платьице? — Ваш сын? — Он Алин однолеток, о нем мне когда-то восторженно рассказывала мать Макса.

Шлю Вам привет — кладу Вам — по собачьи — голову в колени. — Не сердитесь! Я не буду Вам надоедать, я Вас слишком люблю.
МЦ.

Tradução de Paula Vaz de Almeida

Copio, para depois não esquecer como eu amava.

[…]

Agora, uma outra coisa. Hoje, de alguma maneira, algo no senhor abriu em mim uma ferida: “sofri muito — amo a vida — mas de um modo ensimesmado”. Deus! — Afinal — estou viva. Pois também são assim meus encontros, já me despedindo de antemão. Amo de longe, à vol d’oiseau**, amo, ainda que seja a parte mais densa da vida.

Quando estive, hoje, com o senhor, tive a sensação de que ia não consigo, mas atrás de si, até nem como uma aluna, mas como uma cachorrinha, boazinha, fiel, alegre — só que uma cachorrinha não sabe: partir.

Muitos cãezinhos andam em fila atrás do senhor, querido V. I., mas — juro por Deus! — uma assim tão alegre, amigável, que conhece seu tempo e seu lugar de cãozinho, o senhor nunca teve. Compre passagens para a cachorrinha e a leve a Florença!

Mas o senhor vai partir! ah, vai! se vai!

Estou tranquila aqui em Moscou, posso escrever-lhe sempre (não vou abusar!, embora — 3ª página! – já esteja abusando!) — posso gritar-lhe uma noite dessas, ouvir sua voz experiente-capciosa-carinhosa — e basta a consciência de que vamos caminhando pelas travessas da Arbat — eu conheço sua casa — significa que você existe!

Em Florença, nem em pensamento posso andar atrás do senhor, não conheço nenhuma rua, nunca fui a Florença! Agora é tarde da noite, o senhor está dormindo. — Quem era aquele de roupinha vermelha? Seu filho? Ália e ele são da mesma idade, um dia a mãe do Max me falou dele com entusiasmo.

Envio-lhe saudações — deitando a cabeça — como um cachorrinho — no seu colo. Não se zangue! Não vou aborrecê-lo, amo demais o senhor.

M.T.

*A tradução que aqui se publica foi feita a partir do original disponível em <http://www.tsvetayeva.com/prose/pr_8zap_11>. O fragmento corresponde ao trecho final de uma carta de Marina Tsvetáieva a Viatcheslav Ivánov, constante de seu caderno de notas dos anos de 1920-1921. Não há registros de que a carta tenha sido enviada.
**Em francês, no original: “em linha reta”.

Marina Tsvetáieva (1892-1941) | Poeta. Seu destino esteve imbricado nos principais acontecimentos políticos do século XX. Além das duas Grandes Guerras, foi testemunha da Revolução Russa. Emigrou em 1922 e viveu na França de 1925 a 1939, ano em que retorna à URSS; a filha, Ariadna Efron, retornara em 1935, e o marido, Serguei Efron, em 1937. Ex-iúnker tornado agente stalinista, Efron se envolve no assassinato de Ignace Reiss, comunista polonês que rompe com Ióssif Stálin em 1937 e previne os trotskistas da perseguição que se armava contra eles em âmbito internacional. A poeta ficara sozinha, em Paris, com o filho mais novo, Gueórgui, apelidado de Mur. Seja em virtude dos ataques da chamada comunidade Branca da emigração russa, do isolamento a que foi levada a poeta, das sucessivas investidas das polícias francesa e suíça, seja por pressões de agentes soviéticos ou por total falta de meios para garantir seu sustento e o do filho, podemos dizer que seu retorno, como de muitos outros russos, está relacionado ao contexto maior dos Processos de Moscou. Tsvetáieva estava envolta, talvez sem que soubesse, já que defendeu a inocência do marido até o fim, e ainda contra tudo e todos, em um plano que, apesar de o objetivo da eliminação de Reiss atingido, tinha sido fracassado, pois fora descoberto. Quando chega a Moscou, é imediatamente conduzida a uma datcha de propriedade do NKVD (sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Internos), órgão que vinha desempenhando desde 1934, entre outras funções, a de polícia política. A essa altura a poeta, certamente, já tomara consciência da gravidade da situação de sua família e dos demais moradores da datcha de Bolchevo, amigos que conheceram em Paris e que ingressaram no serviço secreto pelas mãos de Efron. Ficaram ali, em uma espécie de prisão domiciliar, por 5 meses, para serem, em seguida, aprisionados na Lubianka. A poeta foi poupada: estava, novamente, sozinha com o filho e, outra vez, passa a se virar como pode para sobreviver. Quando, em 1941, em meio à ofensiva nazista sobre Moscou, a cidade é evacuada, a poeta é levada, juntamente com outros escritores considerados de segunda categoria, à Elabuga, cidade russa da República Tártara, onde se suicida no último dia de agosto de 1941.

Viatcheslav Ivánov (1866-1949) | Poeta; crítico literário. Foi o principal teórico do Simbolismo russo. Homem erudito, manteve em seu apartamento, no início do século XX, um salão literário que ficou conhecido como “Torre” (Башня/Báchnia, em russo), por onde passou quase toda a Idade de Prata da poesia russa. Recebe autorização para trabalhar na Itália em 1921, onde permanecerá até sua morte.

Paula Vaz de Almeida | Tradutora; revisora. Pesquisa a prosa de Marina Tsvetáieva, dá aulas na Escola de Língua Russa para Bolchelindas/os e é doutora em cultura e literatura russas pela Universidade de São Paulo — USP.

três poemas de Casé Lontra Marques

uma intensidade que caminhe

Uma intensidade que caminhe
perto da leveza,
na rota (se possível)
do pescoço:
intensidade tornada
aldeia
— língua começando,
os primeiros
ossos respiram em águas
muito
mais estreitas.

imergir em seu fôlego

Imergir em seu fôlego;
as mãos,
as línguas todas estendidas —
ato que começa
e recomeça no miolo
das moléculas,
na palma (ou placenta)
de
cada partícula:
em doses
densas.

um gozo tem muitos gumes

Um gozo tem muitos gumes,
além de incontáveis
gatilhos; um gozo: exercício
(demorado
e exímio) de demolição —
seus ácidos
digerem a altura
do desamparo.

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou O som das coisas se descolando, Enquanto perder for habitar com exatidão e Mares inacabados, entre outros. Reúne o que escreve no blog: [link]

feminicídio, de Rodrigo Novaes de Almeida

Exclusivo na Revista Gueto, conto inédito que dá continuidade aos temas do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

Safada. Sumiu por dez dias e eu procurando ela como louco, nossa filha ligando pra todo mundo, fui bater nos hospitais, no IML, na puta que pariu, em tudo que é lugar que aquela vagabunda já frequentou, ninguém sabia dela, nada. Aí me liga, diz que não vai voltar, pede pra falar com a nossa filha. Pergunto onde estava. Num motel da BR 101 perto de Tarituba. O que fazia lá, vagabunda? Não importa, não é da sua conta, disse. Não é da minha conta? Vou arrancar todos os seus dentes, sua desgraçada. Me conta? Ela contou. Acredita que estava com um namoradinho da adolescência? Tava com o amor da oitava série, disse. Não deixei ela falar com a nossa filha. Então a safada foi atrás da menina. Vou ficar com o amor da oitava série, filha. Não quero continuar com o seu pai. Vagabunda, passa dez dias fodendo como uma piranha, depois decide morar com o tal do namoradinho, quer viver os anos da juventude, recuperar alguma coisa, sei lá, isso a desgraçada me falou quando fui atrás dela. Descobri onde o traste mora. Eu amava ela. Vinte e cinco anos de casamento. Nossa filha tem vinte. Ela sempre foi uma mãe exemplar. Mulher do lar, sabe? Nunca me traiu, a filha da puta, até esse namoradinho da oitava série aparecer. Como eu sei? Na verdade, agora pensando bem, eu não sei. Vagabunda. Não vou botar a minha mão no fogo. Dez dias desaparecida. Dez dias, e eu vendo cadáver de mulher-qualquer pra reconhecer a mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Não se faz isso, fornicando em motel de estrada e abandonando tudo pra viver com outro homem. Fiquei remoendo a vergonha, a humilhação. Daí tive uma ideia. Não vou enganar ninguém agora. Premeditei tudo. Falei que a nossa filha precisava conversar com ela, pedi pra vir aqui em casa, a menina não estava, tinha aula, ela estuda no Paula Souza, vai se formar técnica de enfermagem. Ela veio. Deixei entrar. Chorei, fiquei de joelhos, abracei a cintura da desgraçada. Eu beijei sua testa. Implorei, sabe? Implorei que voltasse. Eu perdoo a traição, falei pra mulher que vivi sob o mesmo teto vinte e cinco anos. Ela disse que não ia voltar, que me amou, mas que a gente vivia infeliz há muitos anos, que ninguém merecia viver infeliz, que ia ser melhor pra todo mundo, e que um dia eu ia agradecer. Agradecer? Filha da puta, eu gritei. Filha da puta. Agradecer ter levado um par de chifres? Ser corno na frente de toda a vizinhança, dos parentes, dos amigos? Ela pediu pra eu me acalmar. Eu xinguei. Xinguei ela de tudo que é nome. Aí ela endureceu, seus olhos ficaram gelados e disse que a nossa filha ia morar com ela, que já tinham conversado. Eu fiquei com mais ódio. Minha filha, não. Então eu disse que precisava ir ao banheiro. Mas fui, na verdade, até o quarto, abri o armário e peguei o trinta e oito dentro da última gaveta. Guardo ele atrás das meias, dezenas de pares de meias pretas. Não gosto das brancas, sabe? Então, voltei pra sala. Ela estava arrumando os controles da tevê que deixei largados na mesinha de centro e não no porta controle estúpido que ela havia comprado na última liquidação de alguma loja de departamentos. Mulher é foda. Eu não ia deixar por isso mesmo. Saquei o trinta e oito da cintura, escondido debaixo da blusa, e descarreguei tudo na vagabunda. Mirei na cabeça. À queima-roupa. Matei, sim. Se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém. E não vai levar minha menina pra morar com outro homem. Confesso que matei. A mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, não era pra ser? Eu disse a vida toda pra ela, meio de brincadeira, mas falando muito sério, se me trair um dia eu te mato, mulher. Isso é tudo. Quer dizer, depois liguei no um-nove-zero e chamei vocês. Defesa da honra, sabe?

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside há quatro anos em São Paulo. Autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.

O lançamento de Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018) acontece no dia 19 de maio (sábado) a partir das 19h no Patuscada — Livraria, Bar e Café — Rua Luís Murat, 40 — Vila Madalena — São Paulo — SP. Evento no Facebook: [link]

noêmia, de Lizandra Magon de Almeida

Nada de mal acontece a uma mãe que espera.

Sentada na poltrona ao lado do telefone, na madrugada, aguardando notícias do filho hospitalizado, ela jamais terá um enfarte. Mães que esperam não são acometidas de desgraças comezinhas na vigília. Mães que esperam, esperam. Lúcidas, tensas, ansiosas, mas a salvo.

Noêmia mais uma vez esperava um telefonema súbito do médico plantonista para dizer que o filho não resistira aos ferimentos do acidente. Fazia mais de mês que ele estava internado, intubado, na UTI daquele hospital público, do outro lado da cidade.

Noêmia tinha problema de coração. Nunca tinha feito exames, nem sentido qualquer sintoma. Por isso ninguém sabia que havia um coágulo em sua circulação, avançando lentamente por sua carótida. Resultado de uma queda e do excesso de placas ateroscleróticas em suas artérias, o trombo um dia bloquearia sua corrente sanguínea e obrigaria Noêmia a correr para o hospital, do qual escaparia por pouco.

Mas quando isso acontecesse, o filho já teria partido. Pela primeira vez em paz, pela primeira vez lentamente, ao contrário de todos os dias, quando pegava a chave da moto, lhe dava um beijo rápido no rosto com o capacete já meio colocado, correndo, trabalho, entregas, pacotes, mercadorias, um ônibus, correndo, contramão. Seu filho. A moto. O cruzamento.

Noêmia passaria mais de dois meses atravessando a cidade, condução, trem, metrô, uma hora por dia ao lado dele, mais tempo do que jamais passara. Sempre correndo, desde pequeno, sempre louco por carros. E daquela vez em que sumiu, desapareceu? Tinha quantos anos? Sete, oito?

Um dia inteiro sem notícias. Ele tinha se escondido na boleia do caminhão do vizinho, sempre louco por velocidade. O homem ligou do meio da estrada dizendo que já estava longe quando descobriu o pequeno intruso dormindo tranquilo atrás de seu banco. Não tinha como voltar, tinha entrega para fazer, mas cuidaria do menino. Que se lembraria desses dias na estrada como os melhores de sua vida. Sempre quis ser caminhoneiro, o dinheiro só deu para a moto. Noêmia só reencontrou o filho três dias depois.

Agora que não havia mais o que esperar, que o filho estava enterrado, morto, o coágulo podia se deslocar. Podia se posicionar em uma artéria estreita, com paredes forradas de colesterol, e assim obstruí-la. Fosse no cérebro, teria uma embolia cerebral. Ali perto do coração, infarto.

A mãe de Noêmia, dona Aurora, 88 anos, agora esperava ao lado da filha, na ala cardíaca do hospital público do bairro. Cateterismo, cirurgia, UTI, semi-intensiva, enfermaria. Diariamente a velha senhora visitava a filha. Em seu estômago, um câncer furtivamente se desenvolvia. Mas ali, enquanto velava a filha operada, a reprodução celular maligna se deteve.

Nada de mal acontece a uma mãe que espera.

Lizandra Magon de Almeida é editora, jornalista, tradutora e poeta, nessa ordem, atividades que exerce desde 2001 na Pólen Editorial, que hoje também publica seus próprios títulos, a Pólen Livros. É diretora editorial do selo Ferina, em parceria com a escritora e cordelista Jarid Arraes.

gueto entrevista Geovanne Otavio Ursulino

geovanne1. Para começar, conta um pouco sobre o livro Os gigantes atravessam o Eufrates (poemas, Editora Patuá, 2018).

Gigantes costumam aparecer em várias civilizações através dos milênios: os ciclopes na mitologia grega; Golias na mitologia judaico-cristã; na mitologia islâmica se acredita que Adão, o primeiro homem, foi criado por Alá como um gigante; os alquimistas buscavam criar seu golem — só para citar alguns exemplos. Há alguns poucos anos, neste lado do Eufrates (ou seria do Atlântico?) — o gigante acordou. Despertou consigo legiões de bestas devoradoras, saqueadoras, famintas. O que são características comum à maioria das narrativas envolvendo gigantes, assim também como todo um imaginário envolvendo brutalidade, violência, “barbaridade”, primitividade. Neste livro, os gigantes tomam o centro de boa parte das narrativas. Os quarenta poemas reunidos aqui transitam por perspectivas e vivências variadas: buscando não somente perceber as pontes (para o futuro) que proporcionaram a travessia dos gigantes: mas também tantas outras experiências que nos atravessam diariamente.

2. Como costuma ser seu processo de criação?

São raras as vezes em que saio de casa sem um dos meus cadernos de anotações: minha vida está rabiscada neles. Deste modo, todos os poemas que estão em os gigantes atravessam o eufrates, e também os poemas de como num inferno pra marinheiros, o livro anterior: foram escritos à mão entre lembretes de atividades do dia e anotações dos textos da universidade, somente depois foram ao editor de texto. Então são mais várias correções até eu não conseguir mais ler o poema. Acredito que seja uma atividade laboriosa, que demanda tempo, paciência, envolvimento para o poema ser lido, relido, corrigido, amadurecido, repensado — até alcançar sua forma final.

3. E como foi o processo de criação com Os gigantes atravessam o Eufrates? Você precisou realizar muitas pesquisas para escrever este livro?

Todos somos testemunhas oculares da mais recente farsa que envolveu o Brasil (este sonho/pesadelo colonial português) nos últimos anos. Basta sairmos à rua, pegar um ônibus, ou ir à padaria: somos atravessados por muitas manifestações de ódio, violência e ignorância descaradas. Costumamos dizer que o descaramento que tomou estas pessoas é um reflexo do mundo em que vivemos. O que não deixa de ser correto. Mas o inverso também o é. Não somos apenas um reflexo pálido do mundo que nos produz. Somos, nós mesmos, os produtores do Real. Portanto, temos parte no horror que aí está. Foi com isto em mente que me apropriei da imagem do gigante enquanto criatura bruta, bestial, primitiva e que possui uma grande potência à destruição — como forma de pensar sobre esta farsa que insistimos em discutir se é melhor chamar de impedimento ou de golpe enquanto não atentamos para as bases em que tudo isto se sustenta: o rapaz bem vestido e perfumado que encontramos quando saímos à rua, o senhor calmo que divide conosco os poucos centímetros que nos restaram no ônibus cheio, o jovem padeiro que acorda às 4h da manhã sonhando com seu primeiro salário. São pessoas comuns que narram este conjunto de poemas. São pessoas comuns, como qualquer outra pessoa, que dão a base para este horror. A proposta é, então, identificar como bestas gigantescas estes produtores e mantenedores.

4. Já tem um novo projeto em mente? Qual é? Ou costuma dar um intervalo na escrita entre um livro e outro?

Há sim alguns rascunhos espalhados por cadernos de anotações. Mas nada que nem se aproxime de um livro. E, devido à academia, duvido muito da possibilidade de escrever outro por algum tempo. É difícil pensar em intervalos ou não-intervalos entre a escrita de dois livros: há período em que se escreve muito em pouco tempo; mas também há períodos em que não se escreve nada em muito tempo. E, quanto a isso, ao menos comigo, pouco ou nada se tem para fazer.

5. O que você diria para quem está começando a escrever? Por que você começou a escrever?

A literatura é uma ferramenta única para a compreensão do mundo. Ela nos afeta de maneiras incríveis. Antes de mais nada, escrever é uma forma de ver o mundo que toca primeiro quem produz: talvez por isso tenha eu mesmo começado a escrever (claro que com um entendimento menor do que tenho hoje sobre essas questões). Só o ato de começar a escrever já demonstra um interesse nessas possibilidades mil que a literatura oferece. Então é continuar lendo, escrevendo, olhando o mundo, estando aberto às pessoas, situações, desejos que nos rodeiam. Na verdade, tento ficar com isso em mente o tempo todo, sendo eu mesmo alguém que estou começando a escrever.

Geovanne Otavio Ursulino vive em Maceió. Historiador. Editor da revista Alagunas. Publica no blog Amorfo Poema. Publicou o livro de poemas como num inferno pra marinheiros (Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2017) e, agora, os gigantes atravessam o eufrates (São Paulo: Editora Patuá, 2018). Contato: ursulino@alagunas.com.

Três poemas do livro Os gigantes atravessam o Eufrates (Editora Patuá, 2018) saiu na revista gueto no dia 1 de maio, você pode ler aqui: [link]

O lançamento será na segunda metade do mês de maio, no espaço cultural La Rosa Mossoró, em Maceió, no bairro do Jaraguá.