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três poemas do livro ‘Juventude’, de Laís Araruna de Aquino

capa_ararunamorro na medida em que tenho consciência de morrer
(Bataille)

há dias em que não conheço a morte
são dias em que estar entre coisas
não se divide entre estar e não estar entre coisas
como viver fosse o fato mais natural

a vida sem a morte é uma canção
antiga repetida sem lembrança
não falta nem evoca nada
como os campos sob um sol casto
não suscitam a não ser si mesmos

e um deitar longa e atemporalmente sobre a relva
com todas as vozes — do eu — em silêncio
e estando sedento é como estivesse saciado

entanto acontece de se viver no limiar
de algo que escapa até o fim
tornando a vida mesma um limiar indefinido

por isso na transição do dia
divisa a réstia de luz sem a nostalgia
de mais luz
e tua vida expandirá como num sopro

meu ofício

às cinco da tarde um som de apito no ar
anunciou à rua o vendedor de doce japonês
um outro — que inusitado — cruzou comigo
meia hora mais tarde no fim do passeio
em condições ordinárias não se cruza duas vezes
com vendedores de doce japonês
hoje é um dia ordinário cortado pelo maravilhamento
como todos os dias do ano
pela manhã quando atravessava para o cais no Bairro do Recife
as águas e os céus se dividiram em duas metades
de esplêndido azul
e meu coração fundeou à-toa
junto aos barquinhos do Capiberibe
no fim da tarde eu vestia minha camisa branca
bastante usada e rasgada e gostava de que pensassem
em mim alheia às coisas materiais deste mundo
não importa mas o homem é um ser
de grandes questionamentos — inclusive dos menores
meu trabalho consiste em redigir petições
como todos os demais
entanto meu ofício é deixar o coração aberto
permanentemente

____________________o espanto não escolhe a hora de entrar

noturno no campo n. 2

sobre as vozes da tarde os noturnos de Chopin
antecipam o coração silencioso da noite
o som dos homens retumba demasiadamente no espaço
a porta está cerrada como uma metáfora
o dia finda e as janelas estão abertas em par
sobre cigarras latidos e trevas
eles se foram e tudo ficou amplo
mas as palmeiras tão familiares não dão alento
a hora do lobo não distingue forma e enterra o cortejo de sombras —
em alguma parte mais obscura também eu sou lobo
com a face voltada para a face ausente da noite
o sentido não importa mais, não há nada trágico no ar
sequer o prenúncio de uma espera
contemplo demoradamente a fixidez do breu
uma e outra árvore se entreveem tacitamente no horizonte
dedilho nas costelas uma canção há muito esquecida
mas escutando atentamente são pancadas fortes
que martelam dentro do corpo
o vazio escavou profundamente seu canto seco
como desta terra não houvesse salvação
(há salvação mas não para nós)
então faço um movimento para afastar o presságio
e acompanho um barulho que se perdeu longe na estrada

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Procuradora do Município do Recife. Juventude (Ed. Reformatório), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia 2017, é seu livro de estreia e será lançado dia 20 de novembro, em Recife, no Centro Cultural Raimundo Carrero. Lançamento [link]

três poemas de Ramon Nunes Mello

CANTO SOBRE AS RUÍNAS DA CIDADE
(OU CLAMOR AO POVO DA MATA)

para Amora Pera e Pedro Rocha

no meio do rio
enxergamos apenas os
escombros de uma cidade em ruínas
onde dançamos nosso medo e
revolta

sem saber
___________________________________para onde ir?
o poeta dançarino
foge para o coração da mata
clama por proteção
oke oke oxóssi

caboclo senhor da floresta
abra um caminho de
autocompreensão
entre os restos de
nós mesmos

sem rumo nem memória
___________________________________vagamos
entre as cinzas
de um futuro incerto
agora com o arco e flecha
na mão
o poeta cantador toca seus tambores
para chamar o povo de rua
o povo nas ruas
traz a história no verso
no canto no grito
ri ro ewá

bela virgem rainha do céu estrelado
e do cosmos que xangô se apaixonou
senhora da vidência e criatividade
mãe floresta levante a força
do feminino
nossos sonhos de séculos
não estão destruídos
cada mosaico dessa história
está em suas
raízes

procuramos a terceira margem
do rio pensamos que
___________________________________estamos sós
até ouvir seu canto
como uma oração

de resistência

MICRO UTOPIAS EFÊMERAS E TEMPORÁRIAS
(OU O VOO DE UMA BORBOLETA AO MEIO DIA)

para Guilherme Zarvos

uma borboleta entrou
na sala, ao meio dia, mas todos estavam muito ocupados para enxergá-la
chegou devagar, batendo suas asas coloridas, sobrevoou o computador da diva, que assistia vídeos de instrução de crochê
pousou por alguns segundos na mesa da flávia, sobre as flores quase pálidas com a tristeza da longa semana
era um voo fora do tempo, lento, cantava algo incompreensível, mas ana paula conseguiu ouvir, sorriu para christine em cumplicidade
de quem confidencia um segredo de vidas passadas
parem, uma borboleta entrou na sala, gritei
levantei, gritei, disse que é impossível continuarmos assim, ou vamos adoecer
um silêncio foi criado a minha volta
ainda assim ninguém enxergou a borboleta, a cada bater de assas abria-se uma janela no tempo, enxerguei algo que não sei descrever, sei apenas que era belo e colorido
parei em uma imagem, dançávamos sobre os escombros, dançávamos e chorávamos
entre as ruínas do nono andar do prédio
o que faz aqui, como ousa dançar entre nós?
planilhas, prazos e previsões do mês, tudo picotado diante da beleza
de uma borboleta
olha, leila, ela está cantando aquela canção
escuta
o que é aquele desenho em sua asa?
será que pode me levar para longe daqui?
ouço batidas de um tambor, era o andré, em seu retiro
silêncio, o douglas na aldeia afukuri
subi na mesa, gritei: uma borboleta entrou na sala
está aqui, a dançar e cantar entre nós
cantar? sim, ela canta vozes de um outro tempo
de repente, parou sobre meu ombro
não consegui reagir
uma borboleta pousou sobre mim
dancei naquela sessão, entre os nossos medos, dancei
e parti com ela, em pleno voo
eram tantas verdades, tantas bandeiras, que ninguém se deu conta
da borboleta, e de mim.

EU SOU UMA IDEIA
A EPOPEIA DE UM PRESIDENTE PRESO POLÍTICO

EU SAIREI
dessa
MAIOR MAIS FORTE MAIS VERDADEIRO E INOCENTE
porque eu quero cobrar que eles é que cometeram
um crime
CRIME POLÍTICO
perseguirumhomemquetemcinquentaanosdehistóriapolítica
eu sou o
ÚNICO
que sou processado por um apartamento que não é meu

NÃO OS PERDOO
por ter passado
para a sociedade a ideia de que sou um
ladrão
(LULA LADRÃO ROUBOU MEU CORAÇÃO!)

quanto mais me atacarem
MAIS CRESCE
minha relação com
O POVO BRASILEIRO
sonho de consumo deles é
que eu não seja
CANDIDATO
o outro é a foto da minha prisão
imagino o tesão
da veja
da globo
eles vão ter orgasmos múltiplos
crime?
colocar pobre na universidade
negro na universidade pobre comprar carro
pobre andar de avião
(LULA LIVRE!)
se esse é o crime que eu cometi eu vou continuar sendo criminoso
EU VOU FAZER MUITO MAIS

tenho a impressão que
SOU UM CONSTRUTOR DE SONHO

EU SONHEI

que era possível governar esse país
envolvendo milhões e milhões de pessoas
POBRES NA ECONOMIA
envolvendo milhões de pessoas nas universidades
criando milhões e milhões de empregos nesse país

EU SONHEI
que era possível
um metalúrgico sem diploma de universidade
cuidar mais da educação do que
os diplomados e concursados que governam esse país
(LULA LIVRE!)
EU SONHEI
que era possível a gente
diminuir
a mortalidade infantil
levando leite feijão arroz
para que as crianças pudessem comer
todos os dias
EU SONHEI
que era possível pegar os estudantes
___________________________________________________de periferia
e colocar NAS MELHORES UNIVERSIDADES desse país
para que a gente não tenha
juiz e procurador
só da elite
daqui a pouco nós vamos ter
juízes e procuradores nascidos na favela de heliópolis
nascido em itaquera nascido na
periferia

VAMOS TER MUITA GENTE
dos SEM TERRA DO MST DA CUT formado
esse crime eu cometi
(LULA LIVRE!)
não é fácil o que sofre minha família
o momento de
MAIOR INDIGNAÇÃO QUE UM SER HUMANO VIVE
não é fácil
que sofrem meus filhos não é fácil
o que sofreu
MARISA
a antecipação da morte foi
SAFADEZA & SACANAGEM
IMPRENSA &MINISTÉRIO PÚBLICO
fizeram contra ela
EU TENHO CERTEZA
companheiros
RESOLVI LEVANTAR A CABEÇA

TRF-4 MORO LAVA JATO GLOBO
têm um sonho de consumo

O GOLPE

(LULA LIVRE!)
não terminou
com
DILMA
O GOLPE
só vai concluir quando
convencer que o LULA não possa ser candidato da
REPÚBLICA em 2018

(LULA LIVRE!)
ELES NÃO QUEREM O LULA

o sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso
eles decretaram
minha prisão
EU VOU ATENDER O MANDADO DELES
eu vou atender
porque eu quero fazer a transferência da responsabilidade
eles não sabem que
O PROBLEMA DESSE PAÍS NÃO SE CHAMA LULA
o problema desse país
A CONSCIÊNCIA DO POVO
partido dos
trabalhadores pc do b mst mtst

eu não pararei
porque eu não sou mais um ser humano

EU SOU UMA IDEIA

misturada
com a ideia de
vocês
eu vou cumprir o mandado
vocês vão ter que se transformar
cada um de
vocês
(LULA LIVRE!)
não vão mais chamar
chiquinha joãozinho zezinho robertinho
TODOS VOCÊS
daqui pra frente
VÃO VIRAR LULA
e vão andar por esse país

quantos mais dias eles me deixarem lá
mais
LULA VAI NASCER NESSE PAÍS
mais gente vai querer brigar
porque
DEMOCRACIA NÃO TEM LIMITE

(LULA LIVRE!)

eu não estou
[escondido]
eu vou lá na barba deles
não tenho medo
não vou correr
VOU PROVAR A MINHA INOCÊNCIA

(LULA LIVRE! LULA LIVRE! LULA LIVRE!)

Luiz Inácio LULA-LIVRE da Silva
Brasil, 07 de abril de 2018
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, São Paulo,
durante ato em homenagem à ex-primeira-dama Marisa Letícia

Ramon Nunes Mello (Araruama/RJ, 1984) é poeta, escritor, jornalista. É autor dos livros de poemas Vinis mofados (2009); Poemas tirados de notícias de jornal (2011) e Há um mar no fundo de cada sonho (2016). Publicou o infantil A menina que queria ser árvore (2018), em parceria com o artista André Cortês. Organizou, entre outras obras, Ney Matogrosso — Vira-Lata de Raça (2018), Escolhas (2009), uma autobiografia intelectual de Heloisa Buarque de Hollanda, com quem coorganizou Enter, antologia digital (2009); em parceria com Marcio Debellian, Maria Bethânia guerreira guerrilha (2011), de Reynaldo Jardim; e Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids (2018).

acordo com a boca iluminada, poema de Luiza Nilo Nunes

Acordo com a boca iluminada pelas pérolas da morte
e o meu sorriso é uma sinistra floração,
impetuosa gargalhada a atravessar a eternidade

Acordo inteira para o luto das manhãs
como um fresquíssimo cadáver,
com este corpo de mulher a rodear-se de corais
e esta cabeça baptismal que se levanta finalmente das águas

Quando as ervas amanhecem sobre a casa
e os galos sangram sobre as fúnebres artérias do meu sopro
Quando as larvas adoecem a roseira do outono
e a luz estala por mistério sob a língua
Ou quando range bruscamente este infecundo coração
eu quero apenas sucumbir sobre o teu rosto de
rapaz evaporado entre flores,
alvorecer em tuas mãos como um junquilho
e atravessar sobre um cavalo muito negro as regiões
bombardeadas do teu sono
onde despontam as amoras dos defuntos

Por vezes tenho aves esmagadas sob as plantas dos pés
Por vezes sofro e apodreço como um anjo
vascular,
um animal renunciando sobre a neve
e só levanto quando o sol é um batimento de chicotes,
uma lâmpada enfiada nos pulmões,
um flash branco a impregnar-se nos meandros dolorosos
dos ossos

Por vezes posso ouvir-te do outro lado da parede tumular
Posso escutar-te quando as águas estremecem
Quando à sombra já fraqueja o veio amargo do sorriso
ou quando à boca desaguam sangradouros,
bandos lívidos de pombos que debicam os nossos
sexos por baixo
e nos descarnam os espíritos
— Os peitos que inauguram o amor dessas crianças
em exílio, que aceleram o bater de uma
cardíaca necrose

Mas à hora em que as cortinas esvoaçam
e os quartos ardem como altíssimas fogueiras em seus
haustos menstruados
e um ar velado purifica as nossas carnes de penumbra
e em minha pele há um registro de perfume,
tu és o homem que fervilha para sempre sob a luz dos girassóis,
o gémeo morto que acendeu os olhos
bíblicos dos pássaros

E é de lacre esta pulseira que nos cola e ossifica os tornozelos
Esta corrente em vibração subcutânea
Este cordão umbilical que nos uniu pelos canais
apodrecidos das gargantas
e costurou eternamente as nossas línguas,
uma à outra,
até que ardêssemos à sombra de abajures fascinados
como um monstro a quem chamaram
bicéfalo

Luiza Nilo Nunes nasceu em 1989, em Porto Alegre, e vive em Portugal desde a infância. É licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Editorias pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Escreve poesia e ficção. Edita a revista literária Tlön. Recentemente traduziu uma das obras da poeta chilena Teresa Wilms Montt, livro a ser lançado em breve.

sujeito, poema de Yuri Pires

Quem sou?

Alusão ao Desejo?
Ilusão de unidentidade?
Equilíbrio de paradoxos?

Esconde
________a praia
________________areia
________________________de
________________castelo
________na praia
ao longe.

Em qual lado da janela?
Palmilhando qual estrada?
Quem fala quando penso?

Imperativo de ser;
não sou: voo.

Yuri Pires nasceu em 1986 na cidade do Recife, em Pernambuco. É autor dos livros O Homem e o Seu Tempo (2014), Fábrica de Heróis (2015), Artifício (2016) e A pedra (2017).

ni hao!, poema de Sara F. Costa

queria dizer ni hao estou muito contente
por estar aqui
mas toda a gente sabe que só a pele
é expatriada.
tudo o resto pede retorno, os ossos
as veias, os traços mais poluídos
dos sinogramas.
toda a gente quer dizer xiexie
mas não me sinto grata
por cavalgar o búfalo taoista
na parede do templo,
rodopio yin yang da minha frágil convicção.
toda a gente quer dizer jiayou
mas não há combustível
para dessincronizar os sentidos.
há apenas este atravessar de estrada sem tons,
este sabor a moedas,
este odor ao incenso do corpo.
vou de bicicleta de encontro ao poema,
como um Herberto Helder taoista.
de que me serve este passado ruivo,
esta voz a cigarro,
estas corridas em direção aos poemas,
de que me serve o poema por debaixo do rosto.

| poema do livro A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018). |

Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. Participou no Festival Internacional de Poesia e Literatura de Istambul 2017 e em 2018 fez parte da organização do Festival Literário de Macau e do Festival Internacional de Literatura entre a China e a União Europeia em Shanghai e Suzhou, China. Traduz poesia chinesa para português. Livros publicados: A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos (Pé de Página editores, 2003); Uma Devastação Inteligente (Atelier Editorial, 2008); O Sono Extenso (Âncora Editora, 2012); O Movimento Impróprio do Mundo (Âncora Editora, 2016); e A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018).

três poemas de Marcos Siscar

pietà a viva

Você é a viva sim. A que recebe e ampara a que acusa e abandona. A que se projeta adiante com o corpo feito um bólido futuro um corpo erótico de puro desejo de improvável engenharia.

E eu já sem órgãos um esboço um contorno todo roído um vazio preenchido pelo escuro. Uma atmosfera na qual não estou. Apenas minhas vestes de gás eu vejo desfazendo-se no azul.

Ou então sou eu que vivo. Que estou vivo no seu corpo agora como uma encarnação ilegítima. Com um rosto em suma falso uma pele desejada uma fraude prevista. Esta que aqui

se consuma. Então nossos lugares estarão trocados nossos rostos trocados. O oco que habitamos vem se deixar habitar. Um espaço vivo como se um vazio recíproco

graças ao qual

isto não é um documentário

É sempre mais difícil lamber o fundo de um prato de sopa. Sobretudo quando se tem nariz comprido. Caros amigos não debochem da fome alheia. Ela foi feita à sua imagem. Vejam quantos versos espirrados na parede. São versos sinceros? Poderiam ser seus? Vocês decidem. Vocês sempre decidiram. Mas hoje não vai ter moqueca de poeta. Vocês tiraram a sorte grande. O poeta entortou. O poeta mordeu a língua. A poesia encarquilhou. Resta apenas lamber o prato. A verdade que nos servem é indigesta. Vocês são péssimos cozinheiros. Seu real é nauseabundo intransitável claustrofóbico. Eu quero ar. Caros amigos que nos servem a vida em prato raso é para vocês que escrevo. É sempre mais difícil lamber o fundo de um prato de sopa. Especialmente em público.

cuspindo contra o vento

mesmo em plena ditadura
algumas crianças brincavam
crianças brincavam de cuspir
exercitavam cuspe à distância
deixavam marcas no muro
faziam barreira a formigas
misturavam barro no pó
cuspiam como falavam
crianças cuspiam sem desdém
sem ódio sem ferocidade
não escarravam em alguém
então as armas eram outras
e crianças quase sem porquês
crianças brincavam com cuspir
cuspiam como falavam
jogadas no mundo crianças
cuspiam com o vento crianças
conheciam o que era o vento
não cuspiam contra o vento
tinham os olhos bem abertos
talvez fossem apenas crianças

(outubro de 2018)

Marcos Siscar nasceu em 1964 (Borborema-SP). É poeta, tradutor e professor da Unicamp. Publicou os livros de poemas Não se diz (1999), Metade da Arte (2003), O Roubo do Silêncio (2006), Interior via Satélite (2010) e Manual de flutuação para amadores (2015), entre outros. Tem livros traduzidos na Argentina (No se Dice, 2003), na França (Le rapt du silence, 2007) e na Espanha (La Mitad Del Arte, 2014). Participa em antologias de poesia brasileira publicadas na Argentina, França, Portugal, Espanha, EUA, Bélgica, Inglaterra, Alemanha e Hungria. É tradutor de Tristan Corbière, Michel Deguy e Jacques Roubaud. É também autor de vários livros ensaísticos sobre filosofia francesa e poesia.

poesia que ninguém lê, de Eltânia André

capa DuelosMeus pés avançaram, eu sem olhar para trás, esperando. Ouvido suscetível ao trágico. Passa tudo, perdeu, passa tudo, senão, morre. Parei. Retrocedi. Pensei em tempos longínquos. Temi não caber em mim a avidez, o inesperado, as lembranças; muitas intocáveis. Como posso dar o tudo, se tenho o vazio como semblante de mim? Concordo com o que ouvi, um dia, numa discussão sobre a morte da literatura: nada garante que a literatura seja imortal… O mundo pode passar muito bem sem ela, mas pode passar melhor sem o homem; ouço o filósofo e penso em mim. Eu sou esse animal a ser extinto, portanto não farei falta alguma. Ele, o homem e seu revólver, do qual nada sei; gritou ratificando sua prepotência belicosa, com aquela arma raquítica, desbotada e de cano curto. Não corra, senão, atiro. Suor escorria pelo rosto desconhecido, adrenalina e medo. Poderia apertar o gatilho. Não o fez. Gritava, trovejando suas ordens. Vadia, vagabunda, pensa que é esperta, passa tudo. Eu que tanto obedeci na vida, tanto me concentrei na sutileza da boa convivência, estava diante de mais uma guerra surda que tudo impõe e assalta. Seria bom transgredir, mas minha boca do avesso reverbera: Sim, senhor! Temi a guerra, sempre. Jamais o rotundo não, no máximo o talvez, ou o balançar indeciso de ombros, e alguns poemas na gaveta que ninguém leu. Preferia o tiro, desejei o fim a ter que obedecer novamente. Não, senhor! Não tenho nada a lhe oferecer. O tempo compacto durava menos do que eu supunha. Sem perceber, por hábito, não por pânico, obedeci. Diga sim, mulher, sussurrava a voz. Reconheci-me em seu eco. Diga sim e viva. A vida ou a bolsa? Rendida novamente, entreguei o celular que quase não tocava, tão velho e mumificado por durex fixando a bateria. O homem correu com o prêmio em suas mãos, o banal sim de minha coleção. Correu como um animal amedrontado, correu com as pernas atléticas e esguias e, por fim, desapareceu dentro da esquina. Por que as esquinas nos engolem? Não satisfeito com o tédio que plantou em mim, com a sua autoridade, protagonizou a lucidez: retirou a venda que, de tão gasta, se encaixava tão perfeitamente. Revisitei a angústia. De frente, cara a cara. Bruta. Meu desejo se camuflava em lugares improváveis. Se corajosa, tirava a venda dos olhos, via o medo maior. Na tentativa de avistar o horizonte; acídia. Se a tirasse de vez; terror. Eu tão desacostumada de mim. Pudica, evito tocar-me. Inevitável; desisto cotidianamente do embate, aprisiono-me sem gana na antessala com agulhas e linhas ou com papel e caneta. As feministas se envergonhariam de mim, sempre me deixo levar, sempre rendida. O homem da arma raquítica não atirou. Desgraçado. Minhas costas esperando o abate, alguém delineando o trajeto da bala pela fresta da janela; meu corpo antecipando a queda; o asfalto gasto a se servir de leito — ontem. Depois que ele se foi, depois do copo d’água com açúcar, eu esperei por algo que não vinha. E a sede sem fim. Não é o mundo lá fora que é cinza, mas o sótão onde caminho, dentro. A arma que eu desconhecia, inerte. Estamos ou não numa batalha? Bombardeios silenciosos. Dissimulada, de porcelana; obedecia, servindo o almoço especial de domingo. O acúmulo de paz azedando no estômago. O amanhã tão igual e resignado, persistia na expectativa do vazio, do oco. Cadê o disparo? O sangue vivo? Preparada, coração com suas batidas excitadas, mãos trêmulas, o labirinto no alto da torre aguardando o que seria o estampido. Minha morte. Talvez, tenha desejado apenas conhecê-la, sou deveras curiosa; não a morte em si, mas a vida corroída pelos dias de tensão, o destampar do fosso, fitar o abismo e reconhecer-me nele e revelá-lo a mim mesma: o seu escuro, a imensidão. E, no desfecho, acordar. Talvez. Incrível: a sensação das costas perfuradas permanece, o pequeno vaga-lume sacode meu mundo pálido; sim, é pálido, descorado. Lembrei-me do meu marido, e dos meus filhos (descabido pronome de posse). E as vasilhas na pia aguardando-me. Sujas, engorduradas. Os filhos, bons meninos, mas não preenchem o rasgo. Viver! É essa amargura iceberg. É solidão em meio a multidões. Não sou eu que provoco, é o existir — esse mistério sem fim. A cara de anos, a mesma cortina de anos, a cama dura, ortopédica, onde dois corpos desajustados unem-se vez ou outra. O raspar de garganta do meu… (novamente o descabido e irritante pronome de posse) do meu macho dando notas vulgares da convivência. Depois da novela, ou depois do silêncio, nós dois monossilábicos. Ele: Café? Eu: sim. Sigo para a cozinha, sabendo que com a cafeína no sangue, mesmo com a brutalidade da mesmice, abrirei as pernas e ele penetrará sem grande entusiasmo. O esperma escorrendo pelo lençol, o que importa? Abrirei as pernas outras e outras vezes. Disponível para ser engolida, penetrada. Eu querendo gemer, querendo morrer, mas a bala não me atravessou pelas costas. Era necessário o combate frontal. Antecipo meus ouvidos, agora para o ronco cotidiano depois do sexo, depois do escarro; ato de limpar a garganta que ele pratica ao escovar os dentes. Ele escarra. Eu? Olhos fixos no mofo da parede do quarto ou no escuro, tentando convencer-me de que assim é feita a minha história, matéria impalpável que inutilmente tento tocar com alguns dos sentidos. Há sempre algo que me escapa, dentro. Penso em Camille Claudel: Há sempre algo de ausente que me atormenta. O que eu busco? O que foi que perdi? Deixa quieto, está tudo certo, prefira a paz, dizem-me. Ouço essas vozes. Meu lar o campo iluminado, família álbum de retrato. Os filhos no mundo dos sonhos, o marido saciado — afinal eu sempre o alimento com minha boca escancarada, faço café, lavo as roupas sujas, as plantas à minha espera na varanda, digo com sorriso nos lábios: estou bem; também te amo não é exatamente mentira, então por que me desconheço nas frases que digo?: sim, sou feliz; bom dia; boa noite; Deus abençoe. Deus? Vez ou outra, mais uma poesia na gaveta. Ordinária, é certo. Intensa, talvez, mas ordinária como os vinhos que tomamos duas ou três vezes ao ano em companhia de um amigo. Que ninguém lê. Ninguém lê. Outra vez com olhos fixos no escuro encarei a insônia arquitetando palavras, os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado. E aquela manhã poderia ter sido a gênese da grande rebelião. Covarde, por que não atiraste se eu disse a princípio um não. Foi minha melhor ousadia, antes de seguir a velha estrada. Quase um fim de papo. Quase um fim de linha.

| conto do livro Duelos (Editora Patuá, 2018). |

Eltânia André nasceu em Cataguases-MG, mora em Lisboa. Autora do livro de contos Manhãs adiadas (Dobra Editorial, SP, 2012), dos romances Para fugir dos vivos (Ed. Patuá, SP, 2015) e Diolindas (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano), e do livro de contos Duelos (Ed. Patuá, SP, 2018).