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coluna últimas páginas #10

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a décima. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

O relato de um forasteiro

Rio de Janeiro, 18 de julho de 2020.

Eu vi uma águia com cabeça de leão usar suas garras para submeter caprídeos, enquanto sete vitelas se agachavam em adoração, aos olhos de Ningirsu, deus de Lagash. Eu vi um vaso feito com uma única folha de prata, e que um dia pertencerá ao sultão Abd-ul Hamid. Eu vi outro personagem que usava uma barba bem trabalhada, na qual faixas ondulantes terminavam em garbosas espirais. Um par de cornos enfeitava o seu capacete, conferindo-lhe status divino. Eu vi Bactrio vestindo-se apenas com uma tanga. Trazia ele uma grande cicatriz no rosto, que ia da testa ao queixo. A barba curta estava aparada com esmero. O corpo era coberto de escamas de cobra desenhadas. Baianas bactrianas de uma região norte afegã dançavam. No horizonte, uma montanha com picos brancos. Nela vivia um gênio alado, cuja cabeça era de ave de rapina. Em Lagash diziam que era ele quem tocava a flauta para chamar a deusa, que vinha ao seu encontro montada num dragão unicórnio. Mas a deusa-mãe neolítica com suas formas generosas seria agora passado. Marinheiros intrépidos contavam histórias sobre o seu aprisionamento nos mares exteriores. Rabo de peixe em corpo feminino. Cantos lamurientos. Promessas. Despojos de guerra. Eu vi Hamurabi usar um gorro redondo, próprio da realeza, no momento em que se ajoelhava e colocava a mão direita à frente da boca — em sinal de devoção, diante do novo deus, solar, que se fazia agora presente, sentado em um trono envolto em chamas. Eu vi duas sacerdotisas, nuas, agachadas frente a frente, cabeças raspadas, preparando-se para as oferendas do dia. Bacias com grãos e pequenos altares rodeavam-nas, e também louças em alabastro, caixas de pó de arroz, baús em faiança policromada, utensílios em cornalina, folhas de ouro e marfim; em breve, elas fariam amanhecer… Eu vi tudo isso e, como Assurbanipal em seu carro da vitória, retornei para casa. Trouxe comigo esses e muitos outros instantâneos da Humanidade. São eles, os homens, supersticiosos e vis, mas de extraordinária beleza.

CITAÇÃO

“Conta Valéry que certa vez o pintor Degas se queixou a Mallarmé de ter perdido o dia na vã tentativa de escrever um soneto. ‘No entanto’, acrescentou, ‘não são as ideias que me faltam… Tenho-as até demais.’ Ao que o mestre respondeu: ‘Mas, Degas, não é com ideias que se fazem versos: é com palavras.’ Para Mallarmé, como para todo verdadeiro poeta, a poesia se confunde com a linguagem, e, como explicou Valéry, é linguagem em estado nascente.” (Manuel Bandeira, p. 61, Seleta em prosa e verso: organização, estudos e notas de Emanuel de Moraes. 2 ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1975)

POESIA

NOVA POÉTICA
(de Manuel Bandeira, p. 96, Seleta em prosa e verso: organização, estudos e notas de Emanuel de Moraes. 2 ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1975)

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito
_______________[bem engomada, e na primeira esquina
_______________[passa um caminhão, salpica-lhe o paletó
_______________[ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens
______________________________[cem por cento e as amadas que
______________________________[envelheceram sem maldade.

DICAS DE LEITURA

1. A aceleração da História e o vírus veloz, texto do psicanalista e ensaísta Tales Ab’Sáber, no site n-1 Edições.

Link: https://n-1edicoes.org/098

2. “Não estamos entrando em recuperação econômica e o próximo colapso financeiro está chegando”, por Grace Blakeley, na revista Jacobin.

Link: https://bit.ly/jacobin_colapso

3. Entrevista com o professor titular de literatura comparada da Uerj João Cezar de Castro Rocha sobre o bolsonarismo e guerra cultural, para a Agência Pública.

[TRECHO] “A Doutrina de Segurança Nacional de eliminação do inimigo interno está sendo levada com uma seriedade que nem a ditadura militar teve. Ou nós paramos essa sanha de destruição, ou o mesmo vai acontecer em todas as áreas. […] Nós vivemos hoje a iminência, um risco sério de um golpe autoritário, que será mais violento que a ditadura militar porque esse desejo de eliminação das instituições não fazia parte da ditadura militar. A ditadura militar queria criar instituições à sua imagem e semelhança. O bolsonarismo pretende destruir instituições.”

Link: https://bit.ly/3iYDyFf

DICA PARA ASSISTIR

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Conversei sábado passado com o editor da Urutau Tiago Fabris Rendelli na live de lançamento do meu livro A clareira e a cidade (Editora Urutau, 2020). Está disponível no Youtube para quem perdeu.

Link: https://bit.ly/rna_live

Paris, la ville à remonter le temps. Documentário que mostra a cidade de Paris através do espaço e tempo em 5 mil anos de história. Com cenas de ficção, efeitos especiais, imagens inéditas possíveis graças ao trabalho de recuperação e tecnologia de realidade virtual, pesquisa documental aprofundada etc.

Link: https://vimeo.com/221856975

A coluna voltará em setembro de 2020.

toneladas na cabeça, de Alex Xavier

A queda levou três segundos e dezesseis décimos e se estendeu por três anos e cinco meses. Difícil precisar. O colapso exigiu uma nova percepção do tempo. A correria daria lugar à espera. A paciência substituiria a ansiedade. Mas, antes, foi necessário reiniciar o sistema com um suicídio nada metafórico. Então, olhei lá para baixo e pulei sem hesitar.

Nada colapsa da noite para o dia. Trata-se de um processo de deterioração tão lento que ninguém repara até as estruturas desabarem de vez. Mesmo quando uma construtora derruba um casarão e faz brotar ali um edifício como se plantasse um feijão mágico, há o abandono, a especulação do terreno, a pressão sobre moradores, as brechas no zoneamento e uma campanha para depreciar o imóvel sem desvalorizar a vizinhança.

Com um segundo, minha queda ainda parecia um voo. Eu me via com asas, confiante, inquebrável. Não era a primeira vez que me arriscava assim. Em 39 anos, escapei ileso de aventuras, acidentes, cirurgias, perdas, crises, paixões e desilusões. E cada ruptura me levava a um momento melhor. Então, por que me preocupar? No salto, estava bem confortável. Dinheiro no banco, saúde em dia, muita história para contar, um relacionamento seguro, início em um emprego estável, nenhum grande desafio à vista. Subi no parapeito daquela ponte em busca do caos.

O primeiro sinal do meu declínio foi um tropicão quase imperceptível. Raspei a ponta do pé em um calçamento liso e plano. Achei graça. Mais tarde, um amigo que caminhava ao meu lado na rua comentou que eu tinha “um passo maior do que o outro”. Ri de novo. Um dia, voltando do mercado, perdi o equilíbrio e bati a sacola com os ovos contra um muro. Coloquei na minha lista de patetadas. Errei a porta e raspei o ombro no batente. Sentei-me na cama só para calçar uma meia ou vestir as calças. Puxei a perna esquerda com a mão ao entrar em um carro. Demorou um ano e meio até aceitar que desaprendi a andar.

Mudanças não são repentinas. O Império Romano demorou, pelo menos, dois séculos para sucumbir, resistindo às invasões bárbaras, adaptando sua economia ao fim do sistema escravista e sucumbindo a disputas internas pelo poder. O colonialismo europeu, a monarquia francesa, o czarismo russo, todos os governos, ditatoriais ou democráticos, acumularam anos de declínio até sofrer revoluções ou golpes.

Na metade da queda, pairou a dúvida, o receio de não estar preparado para aquilo. Tudo que fiz foi largar o corpo lá do alto e deixar a gravidade agir. Seria melhor abrir os braços, criando resistência ao ar? Talvez melhorar o ângulo de mergulho. Mas nunca fui paraquedista ou atleta de saltos ornamentais. Gastei todas as vidas a que tinha direito contando com a sorte e não por alguma destreza pessoal. Só comecei a cuidar da saúde depois que meu pai faleceu. De quê? De tudo, segundo o médico. Tive medo de também morrer de tudo. Sou especialista em perder em meses o que economizei por anos. Vesti uma armadura antirromântica para me proteger do impacto de uma rejeição. E deixei tantos projetos pessoais pelo caminho que poderia segui-los de volta até o ventre da minha mãe.

Enquanto eu adaptava meu caminhar entre o compasso do Carlitos e a marcha do Robocop, notei que meu braço já não me pertencia. Ele tremeu quando levava o garfo à boca e eu fiz piada com testes psicotécnicos. Apresentou leves espasmos ao carregar um copinho entre a máquina de café e a mesa no escritório e eu fingi estar em uma gincana, equilibrando um ovo em uma colher. O médio e o indicador travaram na tecla Shift e eu brinquei que assim meus textos chamariam a atenção, escritos em capitulares. Abrir e fechar os dedos passou a ser um exercício de ioga. O teclado do piano perdeu o arpejo. A mão se escondeu no bolso do agasalho para não parecer de boneco de posto de gasolina. Após dois anos, eu aceitei que desaprendi a segurar objetos.

Mudanças são constantes, não têm fim. Formada há 4,6 bilhões de anos, a Terra nunca deixou de se transformar. De poeira espacial, passou a uma bola de fogo. Mais uns milênios e já era uma nuvem de gases metano e amônia, vaporizando repetidamente até resfriar sua superfície e inundar tudo. Cerca de 800 milhões de anos se passaram até o planeta se solidificar e surgirem bactérias unicelulares por aqui. Evoluções, extinções, glaciações, colisões, uma torta mil-folhas de eras geológicas até a geografia atual dos continentes. E como a crosta terrestre não para de se movimentar, em alguns milênios a configuração será outra, sem que nenhum de nós testemunhe a mudança. Só sei que, depois do meu salto, o eixo do mundo entortou e ele ficou instável e bem mais lento.

A um segundo da água, a corda elástica que segurava meus pés ainda não estava esticada. Perdi qualquer esperança de me salvar. Estava certo do fim, até o desejava. Chega logo! Mas demorou demais. Apresentei minha rendição. Larguei histórias sem fim, fotos jamais reveladas, desenhos apagados. Ao me deparar com encruzilhadas, muitas vezes optei em dar meia volta e ir para casa, não importa quão longe havia chegado. Acumulei paixões platônicas, deixei boletos vencerem, me dei alta da terapia. Restaram muitos verbos no futuro do pretérito.

Estava acostumado a ter mulheres correndo atrás de mim. Literalmente, pois tenho pernas longas e andava rápido, sem motivo algum. Em geral, minhas namoradas eram baixinhas e sofriam para me alcançar. De repente, a moça com quem eu saía comentou que meus movimentos pareciam em câmera lenta e era eu que não conseguia acompanhá-la. No trabalho, também demorava demais para digitar um texto simples. Fui dispensado. Parei de me exercitar porque precisava de muito mais tempo para completar uma série. Caminhar na rua se tornou uma prova de obstáculos, como se buracos, postes, degraus e lixos não estivessem lá antes. Em vez de matar um prato como um esfomeado, meus almoços se prolongaram, com o esforço dobrado para cortar um bife. Em três anos, nenhuma resposta dos médicos para o meu colapso. Para eles, eu não tinha nada. E esse nada me levou a não sair mais da cama.

O brasileiro Lazaro Schaller é o recordista mundial de mergulho de grandes alturas. Em agosto de 2015, ele saltou de uma plataforma a 59 metros em uma cachoeira na Suíça. Em pé, lesionando uma das pernas. Um ano e meio antes, pulei de cabeça de uma ponte de 50 metros de altura ao praticar bungee-jump no norte da Argentina. Um erro de cálculo fez com que eu me chocasse contra a água sem qualquer resistência, o impacto de uma tonelada sobre o cérebro. Saí andando de lá. As sequelas só apareceriam bem depois, nos membros do lado esquerdo. E, sete médicos mais tarde, finalmente recebi um diagnóstico: micro AVC causado por uma pancada. Levantei da cama e comprei uma bengala.

Alex Xavier é um jornalista refugiado na ficção. Autor do livro de contos O teatro da rotina (Editora Patuá, 2018), participou das coletâneas Não pretendia criar discórdia (Editora Giostri, 2017), Eros Ex Machina (Editora Alink, 2018) e Era de Aquária (Editora Oito e Meio, 2019). Membro do coletivo Discórdia, produz zines para feiras de publicação independente.

Brasil: (im)possíveis diálogos #27

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Uma rede cor de palha

Por Christiane Angelotti

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Um aroma inebriante de bolo recém tirado do forno tomava conta da casa. Enquanto o bolo esfriava e Dulce preparava a cobertura de brigadeiro, era imediatamente transportada para cinquenta anos atrás, em que ela, aos seis anos, se equilibrava na ponta dos pés para ver a mãe retirando a panela de brigadeiro do fogão, ansiando em ajudar a enrolá-los, embora a mãe soubesse que não era bem essa a única intenção da menina. Era uma época feliz, da qual Dulce lembrava com nostalgia e resignação. Ela acreditava que na vida todos têm sua cota de felicidade e a dela havia sido consumida em alguns períodos da infância.

Dante, seu cachorro, estava completando onze anos e, como todos os anos, Dulce preparava um bolo para comemorar. Ele era um cão vira-latas que ela adotou quando tinha aproximadamente um ano, magro, bege encardido e de olhar triste. Ele tinha uma história de maus tratos em sua antiga casa. Foi resgatado após uma denúncia e foi parar em um lar temporário, na casa de Eduarda, colega de trabalho de Dulce. Eduarda contou para ela que o cão morava em uma casa de praia e passava fome, pois só era alimentado quando seus donos iam para lá. Ficava trancado em um pequeno quintal sem cobertura. Ao relento. Tomava sol e chuva. Passava frio e calor. Não tinha interação com seres humanos e apenas quando o casal, dono da casa, chegava, mais ou menos de quinze em quinze dias para passar o final de semana ou uma temporada, ele recebia ração e água fresca que ficavam lá ao relento até que acabasse. Ninguém compreendia como ele não havia morrido ainda. Dulce, ao conhecer um cãozinho tão novo com essa história, logo se apaixonou. E se reconheceu nele. Ela também era uma sobrevivente.

Quando criança, pouco tempo depois do seu aniversário que ficaria marcado em sua memória como um momento feliz, sua mãe desapareceu misteriosamente junto com seu irmão caçula de apenas cinco meses. Ela nunca esquecera a sensação e o desespero de chegar em casa e não encontrar a mãe. O pai, que fora buscá-la na escola após o expediente de trabalho, ficou transtornado. Procurou a mulher pelo sobrado em que moravam várias vezes. Checou se o telefone estava funcionando. Ligou para os sogros, para alguns amigos e nenhuma notícia. Saiu chorando pela rua, com Dulce em seu colo. Perguntou aos vizinhos, mas ninguém tinha visto sua esposa. Ao anoitecer ligou para a polícia, que só registrou o desaparecimento no dia seguinte. Horas se passaram. Depois dias, semanas… E nenhum sinal. A investigação policial registrou a denúncia como abandono do lar, uma vez que ela havia levado malas com roupas dela e do pequeno José.

Dulce jamais superou essa ausência. Nunca deixou de sentir que foi preterida pela sua mãe, que só levara o bebê com ela. Seus avós maternos ficaram abalados e brigaram na justiça contra o seu pai para ficar com a sua guarda. Mas a briga demorou muito. Enquanto isso, a menina convivia com períodos de tranquilidade do pai e outros em que ele perdia a luta contra o alcoolismo. Como o cachorrinho Dante, Dulce conhecia muito bem o que era ficar trancada em casa sem comida por alguns dias. Sozinha e assustada. Conhecia o medo, a rejeição e até a dor de ser espancada, sem compreender o motivo. Cresceu com o pai a chamando de “karma” e “castigo”, e reforçando que “nem a sua mãe te quis”. Quando estava sóbrio ele pedia desculpas, tentava agradar, mas a ferida já estava aberta. E sangrava.

A pequena Dulce passou uma parte da infância em um lar temporário, onde ficava a maior parte do tempo sozinha, pois as crianças mais velhas a agrediam. Voltou para a casa do pai quando ele se casou e mudou de vida, mas já não era bem-vinda. Morou com os avós maternos dos quinze aos vinte anos, época feliz, mas a jovem Dulce já não se permitia sentir felicidade e se isolava.

Aos vinte e cinco anos começou a trabalhar como revisora em um jornal. Não foi ao enterro do pai. Aos trinta, quando sua avó morreu, ela não chorou. Ficaram só ela e o avô, que encontrava somente em casa à noite e não tinham assunto. Quando ele ficou muito doente, Dulce internou-o em um asilo. Não gostava de visitá-lo, o lugar tinha cheiro de urina e mofo. Três anos depois ele faleceu.

Dulce agora era sozinha no mundo.

* * *

Dante demorou para fazer amizade com Dulce. Para ela, um mês pareceu um ano. Por outro lado, em pouco tempo o pequeno cão já tinha outra aparência. Estava gordinho, seu pelo bege ficou macio e brilhante. E até o seu olhar foi enchendo-se de vida e alegria. Dulce levava Dante impreterivelmente a cada quinze dias ao pet shop. Ele era um cão de dentro de casa e precisava estar sempre muito bem cuidado. Dulce e Dante moravam em uma pequena casa de vila que ela comprou havia quinze anos.

Dulce nunca se casou e não teve filhos. Também não tinha amigos, tinha colegas, como ela gostava de reforçar para si mesma.

Antes de se aposentar almoçava com os colegas de trabalho. Sempre reservada e fechada. Muitos deles não gostavam dela, diziam que Dulce não sorria, não falava de sua vida. Só conversava de coisas pontuais de trabalho, mas por algum motivo Eduarda gostava de Dulce. Por quase doze anos se sentou ao seu lado no trabalho. Era a única pessoa que ainda insistia em arrancar opiniões da colega. Era a única também que a chamava para almoçar.

Eduarda foi também a única visita que Dulce recebera em casa. Foram duas vezes, quando ela fez uma cirurgia no dente e outra no aniversário de onze anos de Dante. Foi uma tarde agradável em que ela riu, se divertiu, ficou sabendo histórias da redação do jornal, dos poucos funcionários antigos que ainda estavam na ativa, e recebeu uma crítica educada de sua colega:

— Dulce, você é muito nova para ficar em casa trancada com um cachorro. Você não faz uma atividade física, não interage com outras pessoas, não sai, não viaja. Não é possível que seja feliz assim!

Dulce não gostou. Achou extremamente ofensivo o comentário de Eduarda. Desconversou e tratou de apressar a comemoração. Decidiu que não convidaria mais a colega para ir à sua casa. Ninguém tinha o direito de julgá-la.

A vila na qual Dulce morava tinha dez casas. Eram pequenas casas coloridas, todas de mesmo tamanho e padrão. Casas planas com dois quartos, banheiro, sala, cozinha, uma área na parte de trás e uma pequena varanda logo na entrada, onde Dulce pendurava diariamente uma rede cor de palha, mas que nunca usava. Passou a fazer parte de uma espécie de ritual pendurar a rede e no final do dia enrolá-la e guardá-la. Alguns vizinhos reparavam nisso e imaginavam que ela poderia estar sempre esperando alguém. Quando ela foi morar lá havia um jardim florido, que diariamente ela regava. Flores perfumadas, uma pequena área gramada e verde. Aos poucos, Dulce parou de cuidar do jardim, que foi ficando seco, sem vida, abandonado. E um pouco antes de Dante chegar em sua vida, ela mandou cimentar tudo e aproveitou para pintar a casa toda de branco. No meio das casinhas coloridas da vila a de Dulce destoava. Era branca, sem jardim, com a janela e porta da sala sempre fechadas, dando sinal de que estava ocupada somente pela rede cor de palha na varanda.

Os dias passavam. Dulce saía com Dante para passear e levá-lo ao petshop. Ia ao mercado, cozinhava e comia sozinha. Corria com uma vassoura na mão para espantar as crianças que tocavam a campainha e fugiam. Xingava o vizinho que insistia em estacionar o carro na sombra da árvore de sua calçada. Mandou cortar a árvore.

Certa vez, alguém garantiu ter visto Dulce e Dante deitados na rede da varanda balançando. Ouviram-se risadas e latidos.

Dante viveu até os quinze anos. Tempo bom para um cãozinho vira-lata que poderia não ter passado do seu primeiro ano de vida.

Após a última ida ao hospital veterinário Dulce nunca mais foi vista. Diziam que ela havia enlouquecido. Podia ter adotado outro cachorro, pensavam os vizinhos.

A rede cor de palha, porém, continuava estendida na varanda.

Christiane Angelotti é escritora, fonoaudióloga, especialista em Distúrbios da Comunicação / Neurorreabilitação, editora de livros de literatura, literatura infantojuvenil e educação. Desde 2002 trabalha com conteúdo para sites infantis. Tem textos publicados em livros didáticos e sites de educação. É produtora de conteúdo, pesquisadora em infância e educação, fundadora do portal Para Educar.

quatro poemas do livro ‘Férias na Disney’, de Bruno Molinero

açougue

não
não
o que eu ensinei naquele vídeo
foi a desossar um leitão inteiro
só isso
como posso ter culpa do que
aquela molecada aprontou?
rejeito
nego
recuso
afinal
todo mundo gosta de assistir
barriga de bicho sendo aberta
ver focinho em tigela gelada
enquanto escuta problemas
debate úlceras e amarguras
não gosta?
tenho mais
de cem mil
views e só
tentei aproveitar a audiência
unir a carcaça aos despojos
entende?
quando faca afiada de lâmina fina
corta superficialmente as costelas
tiradas osso a osso a osso a osso
é como se eu pegasse as cédulas
desviadas das nossas mil estatais
e escancarasse o sistema podre
berrando
vagabundos
canalhas
o porco escavado ao vivo
com suas miudezas flácidas
a coluna vertebral já extraída
garras ósseas feito crustáceos
dedos em menstruação suína
zurro
suado
mexido
quando foi a última vez que
você saiu de casa sem medo?
hein?
quando?
faz tempo?
os bandidos balançam na
ponta de inox que decepa
cada bochecha gorducha
do bacorinho destampado
rasgando ocos e articulações
as patas serradas e estáticas
lombo dilacerado rumo ao rabo
gume abrindo vasos como livros
o ísquio preso à cartilagem tenra
torcido até que o branco do nervo
fique visível e possa ser retirado
como todos os nossos políticos
devem ser extirpados deste país
esgoelo
escumo
besunto
mas nunca nunca podia pensar
que essa molecada tão jovem
faria uma barbaridade dessas
jesus
tão meninos tão menininhos
meus sentimentos à família
lamento
mas e daí?
como eu teria evitado?
não estava lá na hora
sequer conheço essas
crianças ou a vítima
só gravo vídeos
apenas isso
e desosso
leitões

não tenho nada contra

mas

um corpo

olha
olha ali, pai
uma sereia
berra o menino
sunguinha vermelha
dedo apontado pro
corpo roliço e cinza
lambuzado de areia
não
isso é um golfinho
aplaude o homem
as mãos no animal
buraco de respiração
abrindo e fechando
pupilas derretidas
guarda-sóis azuis
vitrais de igreja
veja, amor
o que achamos na beirinha
anuncia o pai de férias para
a mulher que afasta curiosos
melecados por breja e sacolé
ombro a ombro gesticulando
corre, tem um golfinho aqui
é meu
nem vem
nós vimos primeiro
trovoa a voz da mãe
na amarela maresia
o celular já preparado
ei
moço
tira uma foto nossa com
essa dádiva de deus?
mas a multidão de dedos e
bundas de biquíni fio-dental
leva pra longe a pele rachada
do bicho que balanga cheio
de protetor solar e amendoim
credo, achei que fosse cobra
guincha a velha de maiô rosa
pras crianças excitadíssimas
nossa, mas ele tem dentinhos!
barbatanas de mão em mão
o bico sorridente na internet
um homem põe dois dedos
e uma lata de cerveja
no orifício respiratório do corpo
que chega ao carrinho de mate
meio troncho, quase abalofado
mas tá morto essa desgraça
chuta o vendedor de fruta
aquele peso preto
filé milanesa
prato feito
urubu
boneco
empalhado
afastado
dos parças no futevôlei
da velha bêbada no maiô
das crianças baratas tontas
do chá gelado, meu bom?
do caldinho mais barato
e daquele menino
sunguinha vermelha
que desenterra
uma concha
olha
olha, pai
uma armadura

top

polegar e
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

posso
tentar
também
papai?

pequeno
polegar e
pequeno
indicador
apontados
em pose
de pistola

pou
pou
pou

papai
papai?
papai!

| poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo). |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido, livro que venceu o Prêmio Guavira de Literatura, e Férias na Disney (Editora Patuá, no prelo).

quatro poemas do livro ‘Corvos contra a noite’, de Diego Vinhas

corvos_contra_a_noite_capababel

dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
_______________a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

da pós-verdade ao
pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

giallo

empunhar o cansaço como
uma espada de iansã, proteção contra
estar dentro de um filme italiano
em que do matador em série
aparecem apenas as luvas pretas
de couro. escolher as armas: livros e
amores (os mais queridos, de segunda
mão), além de imagens riscadas em
sonho, como o olhar de vidro dos
pescadores saudosos de algo que o mar
não devolve. como as guirlandas,
helênias, gérberas e outros nomes reais
ou inventados de flores ou de meninas
assassinadas. você sabe, esta casa
retrocede e dobra e se curva ao sabor
da fuga. só temos que voltar antes
que o filme acabe. por enquanto, pilhar
toda ninharia que componha o paiol —
uma península, uma paz tarja-preta, um
bestiário de figurinhas autocolantes,
o cheiro de chuva do seu cabelo.
escolher as armas na pressa, sob
o manto protetor do meu cansaço.
há mandíbulas em volta se fechando
em carniça, não há muito tempo.
você tem a chave, mas não é fácil ler
as linhas borradas do seu rosto.
daqui parece um sorriso

sesmarias

1% dos mais ricos do mundo detém a mesma
riqueza que o resto dos 99%.

seis brasileiros concentram a mesma renda
que 50% dos mais pobres.

nos EUA a média diária de consumo de água
per capita é de 575 litros enquanto na Etiópia
é de 15 litros.

dez multinacionais têm mais capital que 180 países.

mulheres recebem, em média, salários 30% menores
que os homens quando ocupam os mesmos cargos
e com a mesma formação.

o motorista do Dr. Mansur
é filho do motorista do pai do Dr. Mansur.

aquele zé-ninguém puxando conversa com a
madame. se o coronel manda apagar não dá nada.

advogados só podem despachar com magistrados
às 3as e 5as, das 14hs às 17hs (alguns
não atendem mesmo).

você sabe com que está falando?

pão nosso

com tanto amor
totalitário
pingando
de vossa excelência

este que vos fala

tão menor
tão merecedor
de amparo
piedade e esmola

só poderia

agora
na ágora
do corpo

replicar com
ódio

| poemas do livro Corvos contra a noite (Editora 7Letras, 2020). |

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza em 1980. É defensor público e participou de antologias do Brasil, EUA e Portugal, além de ter publicado em diversas revistas, como Inimigo Rumor, Cult, Sibila, Escamandro, Modo de Usar & Co, Gueto, Zunai, dentre outros. É autor dos livros de poemas Primeiro as coisas morrem (2004), Nenhum nome onde morar (2014) e Corvos contra a noite (2020), todos pela Editora 7Letras (RJ).

o capador, de Leonardo Almeida Filho

Pode perguntar por aí a quem quiser e vão lhe confirmar. Todo mundo dessas bandas conhecia o sujeito. Conhecia de vista, pois Zé Firmino era homem de poucas palavras, um bruto com pouca história. Pela profissão que tinha, e que todos comentavam ao pé da orelha, com medo, até que se mostrava muito, pois era sempre possível encontrá-lo no bar do Peixoto, na esquina da 11 de Setembro. Não estivesse por ali, era só bater na casa dele. Não tinha erro. Não se escondia de ninguém. Mas isso foi antes, bem antes de ele ganhar fama e se tornar lenda por estas bandas. Desapareceu, virou um fantasma que metia medo em todo mundo. Seu paradeiro tornou-se um mistério. O que se sabe é que ele levou muita gente para o outro lado. Era um cabra frio. Dois olhos gelados que quando grudavam na gente dava um arrepio ruim. E é curioso notar que ele até que não tinha a cara feia, era bem apessoado, imberbe, traços finos, quase femininos, o que aumentava ainda mais a curiosidade: de onde vinha tamanha crueldade? Tinha a merecida fama de maior matador dessas redondezas e ninguém se metia com ele, nem a polícia, que fazia vista grossa àquela sucessão de defuntos que eram manchete de jornal, aqui e ali, de Santana à Freguesia de Água Funda. Quase todos na conta do Zé Firmino, normalmente pequenos proprietários em litígio com algum poderoso, um amante justiçado, um político em ascensão, um devedor inveterado. Quando aparecia um corpo de homem, só de olhar, já se sabia de quem era o trabalho. Essa sabença era fácil de ser sedimentada no conceito das gentes, uma vez que o matador costumava assinar sua obra arrancando os ovos do finado. Assim como lhe digo. Zé Firmino decepava o saco de todo o macho que eliminava, sem exceção. Capava o cabra como se capa um boi. Ele não se metia com mulheres, nem crianças, tinha lá seu código de ética. Quando o padre de Santa Rita foi encontrado no fundo da casa paroquial, isso há muitos anos, o que mais chamou a atenção não foi o fato de ele ter sido assassinado com um tiro certeiro de escopeta. O vigário era carta marcada para morrer, mexia com gente poderosa dali, defendia um bando de sem terras, comprava briga com fazendeiros e políticos, diziam que era comunista, não tinha medo de ninguém, acreditava que Jesus estava ao seu lado e o protegeria. Não protegeu. O que chocou mesmo foi encontrá-lo com a batina levantada até o pescoço, o rombo no peito, e a surpreendente ausência dos ovos, além da poça de sangue em que dormia o frio sono dos defuntos. Padre Baggio deve ter sido a primeira encomenda de Zé Firmino, pois foi o primeiro defunto capado que se tem registro. Discutia-se o porquê desse jeito de matar. Isso não é comum, pelo contrário, ninguém, por mais cruel que seja, sai por aí dando-se ao trabalho de castrar defuntos. Então, por que ele fazia isso? Discutia-se nas barbearias, nos bares, nas feiras. Uns sugeriam que ele queria dizer que era mais macho que suas vítimas. Outros inventaram uma história, nunca confirmada, de que ele havia sido casado e que a mulher lhe passara uns cornos bem passados e era por essa razão que ele deixava marcada a sua vingança arrancando os bagos de todo o macho que matava. Havia até quem jurasse de pé junto que ele, num ritual de bruxaria, comia a iguaria frita, com farofa, porque acreditava que ia lhe dar mais brabeza. A verdade é que ninguém nunca soube o motivo dessa estranha mania do grande pistoleiro da região de Santana do Faro, conhecido por muita gente como O Capador.

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Gilvan, o Bacamartinho, era vereador em Goiana, cidadezinha localizada exatamente no meio do caminho entre Recife e João Pessoa. Sujeito gordo e suarento como meu primo Julião, casado com Marina, e tão safado quanto. Cabra sem palavra, enrolador de marca maior, cheio de noveora, um vaselina completo. Filho do finado Pedro do Bacamarte, Gilvan acabou se elegendo vereador às custas do bom nome do pai que, durante muitos anos, foi também vereador do município e que, embora não tivesse feito grande coisa, também não tinha feito grande merda na investidura do mandato. Acreditando que filho de peixe é sempre peixinho, um punhado de eleitores o colocou na câmara local, lugar que, no fim das contas, ele pouco frequentava, preferindo sempre a companhia das quengas, dos bares, dos arrasta-pés da região. Foi justamente num desses assustados que desgraçou-se ao se engraçar por uma mocinha das coxas grossas, olhar molhado e lábios de pão doce. Juliana, dos olhinhos negros e levemente estrábicos, era filha única do velho coronel Alceste, neto de antigo usineiro e proprietário de um pedaço de terra fértil por ali. Homem rígido, de moral com mofo e limo, de costumes mais antigos que cagar de cócoras, sujeito-homem de palavra e zelo, Alceste tinha em Juliana a sua princesa, sua menina preciosa. Gilvan acabou se metendo com a morena errada. Quando ela comunicou, entre soluços sinceros, que as regras estavam atrasadas e que um filho seu estava a caminho, Gilvan, para desespero da mocinha, negou-se a reconhecer a paternidade da criança. Juliana pariu o filho do vereador já na zona, a casa de Lizete Rabada, para onde foi encaminhada pelo próprio pai, depois de aplicar-lhe uma surra e cortar-lhe os cabelos. Com espuma no canto dos lábios, disse ele à filha ao empurrá-la para fora do carro: Para mim, você morreu, desgraça. Mas as coisas não ficariam assim, impunes. Há uma lei maior na região: a lei da vingança. Por ali, safado não se cria, é o que dizem. Aqui se faz, aqui se paga, todos repetem. Espalharam que o Coronel Alceste deixou que as coisas esfriassem um pouco e foi procurar Zé Firmino com o trabalho: eliminar Gilvan Bacarmartinho.

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Nessas terras de meu Deus, não existem segredos que perdurem. Quem quiser que se engane, eu não. Essas coisas não se escondem por muito tempo, são sussurradas pelos cantos, parece que pulam dos espinhos do mandacaru para o vento, e desse para as frestas nas portas de madeira, chegando aos ouvidos do povo que, para esse tipo de assunto, nunca dorme. Coisas assim não se guardam facilmente, acabam vazando como infiltração no teto, na parede, fazem mancha, anunciam-se pelo mofo, pelo cheiro ruim que exalam, e assustam. Podem até não ser verdadeiras, mas quem se importa? Foi assim que cantaram, não sem uma gota de sadismo, ao pé do ouvido de Gilvan: “Estão dizendo por aí, soube agorinha, que contrataram Zé Firmino para matá-lo, visse? Andasse bulindo com quem não devia. Se eu fosse tu, fugia daqui, ia para bem longe, sumia.” Consciência é um embornal onde a gente guarda as coisas que não tem orgulho de ter feito. Vira e mexe, estão lá, hibernando, a vergonha, o arrependimento, o medo. Lembrou-se logo de Juliana e do velho coronel Alceste. Era coisa dele, engoliu em seco. A notícia caiu-lhe feito um tiro de bacamarte numa noite de silêncio, espantando grilos e corujas, tirando todo o sossego do vivente. O vereador sabia muito bem de quem se tratava e, num ato reflexo, movido pelo instinto inconsciente de preservação, levou imediatamente a mão aos ovos, pousando os dedos sobre eles, apertando-os com carinho e muito medo, como se o pânico antecipasse o corte entre as suas pernas. Eram as primeiras das incontáveis horas de pavor que ele teria pela frente. A situação exigia que ele adotasse medidas extremas, alheias à sua índole. Gilvan não era de briga, nunca foi. Não passava de um mau caráter, de um frouxo. Sempre fora assim, um covarde. Passou a andar armado e deixou de frequentar as festas, os bares, os prostíbulos. Tornou-se arredio, quase um monge. Era comum pegá-lo em silêncio, em local público, postado estrategicamente num canto que lhe possibilitava a visão de todo ambiente. “Não se sabe de onde vem o tiro”, ele dizia, “mas virá”. E ele acreditava nisso, pois a fama do matador Zé Firmino era de total eficiência. Ordem dada, ordem cumprida. Serviço encomendado, defunto entregue e, ele tremia ao pensar, os ovos cortados. Era esse o motivo para o seu grande desespero, ser encontrado com as pernas abertas, capado, humilhado, emasculado, exposto a Deus e ao mundo como um sub-homem, um eunuco, uma coisa desprezível, um maricas, um baitola. “Não!” Ele se dizia baixinho, “isso não. Um homem deve morrer homem, inteiro.” Redobrou o cuidado, passando a não sair de casa. Perdeu o apetite, mergulhado que estava na paranoia absoluta. Qualquer barulho o deixava em estado de alerta, perdia o sono facilmente. Quantas vezes, durante a noite, vigiava, à janela, o movimento na rua deserta. Para Gilvan Bacamartinho, a vida perdera todo o sentido, tudo agora era apenas medo, não de morrer, que fique claro, mas de perder as partes e virar notícia em toda Goiana, Santana do Faro, Freguesia de Água Funda. Quando imaginava o jornal anunciando a sua morte, sentia calafrios terríveis, pois se via na primeira página, estirado, olho fixo no nada, capado, e todo o populacho nas feiras, nos mercados, nos puteiros, comentando e sorrindo de sua imolação. Viraria motivo de chacota. Foi quando ouviu o barulho de passos sobre as folhas secas da mangueira, no fundo do quintal. Levantou-se da cama num pulo. “Era Zé Firmino”, ele pensou e tremeu. O coração acelerado, o suor na testa, a arma engatilhada. “É Zé Firmino”, falava baixinho, “o matador infalível, uma cinquentena de machos capados no currículo, impossível escapar”. Tudo isso lhe vinha à mente, enquanto os olhos arregalados tentavam enxergar alguma coisa na escuridão do quintal. Apenas sombras que ele confundia com uma figura humana caminhando em direção à casa. Mas o barulho de passos era real, ele se dizia, e se encolhia com uma mão entre as pernas, protegendo seu tesouro, e a outra no .38 que pertencera ao velho Pedro Bacamarte. Um ruído na lateral da casa, perto do tanque de lavar roupa. Ele teve a impressão de ouvir alguém forçando a porta. “É ele, é ele”. Desesperou-se. Gilvan abriu a porta da sala e saiu correndo feito um louco pela rua.

* * *

Disseram as testemunhas que o vereador veio correndo desembestado pela calçada, parou em frente ao bar. Não falava coisa com coisa, assustado, tremendo como vara verde. Afirmava que Zé Firmino estava atrás dele e pedia que não permitissem que ele tocasse em seu corpo. “Não deixem que ele me toque, não deixem”, repetia. Encostou o trinta e oito na testa e puxou o gatilho. A gente não pôde fazer nada, disseram. A polícia não encontrou nenhum sinal do matador, apenas um casal de gatos no quintal.

* * *

Meses depois da morte de Gilvan Bacamartinho, a polícia de Recife, seguindo uma denúncia anônima, invadiu um endereço na comunidade da Baixa da Égua, perto do rio, região de mangue. Segundo a denúncia, na casa de porta cor-de-rosa, a única do lugar com essa cor, se escondia o tal Zé Firmino. Os policiais o encontraram na rede, fumando calmamente. Não esboçou reação alguma: fumando estava, fumando continuou, como se nada estivesse acontecendo. Chamou a atenção dos policiais o fato de que o afamado e temido assassino era, na verdade, um sujeito de baixa estatura, franzino, corpo miúdo e gestos muito suaves. Nada que impusesse temor a quem quer que fosse. Não havia nele nenhum sinal de violência, era pura delicadeza e gestos afetados. No armário da cozinha, trinta e sete potes de vidro, cheios de formol, preservavam trinta e sete pares de testículos: era a prova inconteste de que o grande matador finalmente fora encontrado e preso. Mas a mais chocante descoberta desse dia aconteceu no IML, durante o exame de corpo de delito: Zé Firmino era, na verdade, uma mulher de nome Maria Rita das Dores dos Anjos, paraibana de Uiraúna, procurada há anos pelo assassinato do marido, de quem arrancou os ovos depois de meter-lhe uma peixeira no bucho e expor-lhe as tripas. Vizinhos disseram, à época, que Raimundo Nonato espancava regularmente a mulher, que um dia reagiu e sumiu no mundo.

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Maria Rita afirmou ao delegado que nunca ouviu falar em Gilvan Bacamartinho.

Brasília, julho 2020 (ano da pandemia).

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Publicou O Livro de Loraine (contos, Imprell/PB, 1998), logomaquia (edição do autor, 2007), Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB, 2008), Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos, Editora e-galaxia, 2013), e pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018) e o romance Nessa boca que te beija (2019).

prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura

mix_literarioO Mix Literário, programação sobre livros e LGBTQIA+ apresentada anualmente durante o tradicional Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade, entra em sua terceira edição com uma novidade importante. Em ano de pandemia e indecisão política, promove mais uma ação que promete fortalecer o meio, o Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura, destinado à publicação em livro de uma obra literária inédita que tenha como foco a diversidade.

Segundo Alexandre Rabelo, escritor e idealizador dessas ações, “a obra de Caio alcança muitos leitores para além de suas narrativas mais biográficas como homem gay. Talvez isso não seja um acaso, já que nutria uma profunda ligação com a força do feminino, seja em grandes personagens, seja em sua relação com grandes damas de nossa literatura. Essa perspectiva é muitas vezes tomada como seu eixo de resistência, como em ‘Dama da Noite’. Além disso, Caio foi um dos primeiros autores queer brasileiros a receber reconhecimento geral, mesmo assumindo publicamente sua sexualidade. Sobretudo, Caio era muito atento a novas vozes dissidentes, tendo resenhado grandes estreias como as de João Silvério Trevisan, Ana Cristina César e Claudia Wonder.”

caio_fernando_abreuO prêmio, de abrangência nacional, será realizado em parceria com a Editora Reformatório, casa que acolherá a obra com um contrato exclusivo de publicação. As inscrições são abertas não só a autores estreantes, como também aos que já publicaram livros e têm uma obra inédita na gaveta. Os gêneros aceitos são romance, conto, crônica e poesia, valendo as linguagens híbridas. Marcelo Nocelli, editor da casa, avalia a importância dessa ação para um reconhecimento ainda maior de uma literatura de matriz queer por parte do meio editorial brasileiro: “A literatura, entre tantas outras disposições, também tem o compromisso de registrar o seu tempo, pois ela é um reflexo da sociedade, e nada mais importante neste momento que mostrar a diversidade, representá-la como algo natural que é, eis o trabalho desta literatura queer — por enquanto — normatizar estes personagens muito além das suas sexualidades, apresentá-los por suas vivências naturais como as de todo mundo, seus conflitos e angústias internas, afinal, até o ponto em que um leitor heterossexual mais conservador não estranhe ao ler que dois personagens homens se apaixonaram, e assim as grandes editoras parem de reservar uma pequena caixinha escondida para esta literatura.”

Para ler o regulamento e obter mais informações, acesse:
https://www.mixbrasil.org.br/mix/mix-literario-2020/

coluna últimas páginas #9

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a nona. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Confissões de um escritor em quarentena

Rio de Janeiro, 11 de julho de 2020.

Há alguns anos sempre me pergunto se o que estou para escrever é realmente importante, se não para os outros, ao menos para mim — principalmente para mim. Faço assim com os poemas, os contos e as crônicas, e com o romance que terminei poucas semanas atrás e está guardado esperando uma última leitura antes que eu vá procurar uma editora que o publique.

capa_urutau-1Desse modo, passei a escrever bem menos e a ler bem mais, tanto os clássicos quanto os colegas contemporâneos. Poesia, então, é bastante raro escrever, e se tivesse dado tempo para o meu poema “Tocata e fuga funestas” entrar no livro A clareira e a cidade (Editora Urutau, 2020), eu não pensaria em escrever outro livro desse gênero e estaria satisfeito com esta obra que encerra, de certa forma, toda a minha filosofia, que é também, como escreveu em outro sentido Tito Leite no seu posfácio, uma antropologia.

Já o romance é algo que não me dá prazer escrever. A necessidade — e a urgência — de escrever este, o qual dei o nome de Ensaio sobre a paisagem, tem a ver com o fato de nunca ter publicado um e de achar a experiência necessária, pelo menos antes que o romance como gênero morra definitivamente (como tudo mais, se não a nossa espécie inteira, esse mundo erigido pelo humanismo nos últimos séculos, séculos estes que assistiram à ascensão do romance). Por outro lado, é uma experiência que deve se repetir no futuro, porque outras questões se abriram e precisarei retomá-las. A urgência, todavia, teve a ver com a descoberta do câncer, e este é de modo particular um ano de urgências, por estar passando ainda por ele e por ter passado, durante o final da quimioterapia no mês passado, pelo novo coronavírus da famigerada e mortal Covid-19 (achei que os sintomas fossem da quimio, mas a médica que identificou no meu pulmão o coronavírus analisando a tomografia disse que alguns remédios do tratamento teriam atacado o coronavírus, então talvez estar fazendo quimio no momento em que peguei Covid-19 tenha sido um golpe de sorte do destino, como se costuma dizer, e salvado a minha vida). Se o ano de 2020 fosse uma pessoa, eu diria que ela está tentando me matar. Sendo assim, precavido que sou, como daqui a poucos dias passarei por uma cirurgia (por isto este balanço de minhas atividades na forma de crônica hoje), fiz questão de deixar todos os meus arquivos com originais em andamento arrumados — além do arquivo do romance, há o de crônicas e o de contos.

E sobre o arquivo de contos, o que tenho a dizer?

O conto é o gênero em que me sinto à vontade, é nele, ao escrever, que sinto também prazer, e é para ele que volto minha atenção e faço os meus estudos mais diligentes. Daí também a importância de escrever menos e refletir sempre se uma ideia vale realmente a pena ser colocada no papel (ainda uso papel e caneta [no lugar da pena supracitada, que, mesmo para mim, seria anacrônica demais] para escrever a primeira versão de um texto). Gostaria de voltar agora, nestas semanas de confinamento e de tratamento médico, ao conto (estou com alguns inéditos e acredito que, para um livro, eu esteja na metade do caminho), mas a necessidade — e não a urgência, neste caso — me colocou diante dessas crônicas que tenho escrito nos últimos dois meses, primeiro para trabalhar sobre temas mais brandos do que vinha fazendo no romance, ou que desenvolveria no conto, e depois porque percebi que seria uma forma mais direta de refletir sobre tudo o que estamos todos vivendo neste período sem ser fatalista (no conto ou no romance eu seria um deus do flagelo) e de poder conversar a respeito com os leitores quase simultaneamente.

O romance não sei quando será publicado, talvez no ano que vem ou no outro — é o segundo que escrevo —, e diferentemente do anterior, abortado e com trechos que eram já nas primeiras versões verdadeiros contos indo parar no Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), este novo romance está pronto. Mas por ora ficarei à disposição do recém-lançado livro de poesia, o primeiro, como eu já disse, a encerrar minha filosofia, e isto num gênero que considero difícil, ou, colocando de outro modo, num gênero feito para os raros, e que eu ouso entregar-me apenas excepcionalmente.

HOJE, LIVE DE LANÇAMENTO

insta_liveO meu livro mais recente, A clareira e a cidade, já está disponível para pré-venda no site da Editora Urutau no [link]. Hoje, às 19h, participarei de uma live de lançamento no Instagram da editora. Estão todos convidados para assistir e brindar comigo. O posfácio do livro é do poeta Tito Leite, curador da revista gueto. Saiba mais [aqui].

“A verdade nunca é uma chave, mas um enigma que tem seu sustentáculo numa clareira de luzes e sombras. Nessa direção, de forma leve e meditativa, algumas questões filosóficas ganham densidade nas mãos do poeta — pois a poesia, qual a filosofia, também começa do espanto; tirando, todavia, dos estrondos de seu íntimo e das coisas todo o nó da garganta.” (Tito Leite, no posfácio)

CITAÇÃO

achille-mbembe“Acredito, por fim, que nosso mundo se divide em dois. De um lado, há aqueles que, como eu, estão convencidos de que somos apenas passantes, que caminham sabendo que caminhar é procurar na incerteza e no desconhecido. Do outro, há os que acreditam deter as verdades sobre todos os fatos, e buscam impor essas verdades a todos, pouco importando a diversidade das experiências e das situações. O abismo entre nós não cessa de aumentar.” (Achille Mbembe em “Carta aos alemães”, Goethe-Institut)

DICAS DE LEITURA

1. Uma boa oportunidade, ensaio do filósofo Jacques Rancière, em tradução de Peter Pál Pelbart, no site n-1 Edições, sobre a pandemia e pós-confinamento.

Link: https://n-1edicoes.org/039-1

2. “Mike Davis sobre os crimes do socialismo e do capitalismo”, entrevista na revista Jacobin.

Link: https://bit.ly/jacobin_davis

boaventura-livro3. Duas obras da coleção Pandemia Capital, da Boitempo Editorial, em e-book: A cruel pedagogia do vírus, de Boaventura de Sousa Santos, e A arte da quarentena para principiantes, de Christian Ingo Lenz Dunker, respectivamente nos links:

Link para Boaventura: https://amzn.to/31QkS4x

Link para Dunker: https://amzn.to/3dVJKu1

DICA PARA ASSISTIR

1. “História: Direto ao Assunto”. Documentários socioculturais. Data de lançamento: 22/05/2020. Sinopse: Aulas curtas de história que usam infográficos e imagens de arquivo falam sobre avanços da ciência, movimentos sociais e descobertas que mudaram o mundo. Episódios com cerca de 20 minutos. Disponível na Netflix.

POESIA

NA BAIXA ANDALUZIA
(de João Cabral de Melo Neto)

Nessa Andaluzia coisa nenhuma cessa
completamente de ser da e de terra;
e de uma terra dessa sua, de noiva,
de entreperna: terra de vale, coxa;
donde germinarem ali pelos telhados,
e verdadeiros, jardins de jaramago:
a terra das telhas, apesar de cozida,
nem cessa de parir nem a ninfomania.
De parir flores de flor, não de urtiga:
os jardins germinam sobre casas sadias,
que exibem os tais jardins suspensos
e outro interior, no pátio de dentro,
e outros sempre onde da terra incasta
dessa Andaluzia, terra sem menopausa,
que fácil deita e deixa, nunca enviúva,
e que de ser fêmea nenhum forno cura.

2

A terra das telhas, apesar de cozida,
não cessa de dar-se ao que engravida:
segue do feminino; aliás, são do gênero
as cidades ali, sem pedra nem cimento,
feitas só de tijolo de terra parideira
de que herdam tais traços de femeeza.
(Sevilha os herdou todos e ao extremo:
a menos macha, e tendo pedra e cimento.)

A próxima coluna será publicada sábado, 18 de julho de 2020.

desculpas, conto do livro ‘Velhos’, de Alê Motta

capa_velhosSou preto e sou velho. Diferente da maioria dos pretos no Brasil, sou rico. Moro num condomínio sofisticado, num bairro de brancos que acham muito esquisito a minha família preta morar ali.

Tenho setenta anos e pratico muitos esportes. Gosto especialmente de corrida.

Dia desses fui correr até a beira da praia. Na segunda quadra após o condomínio, passei em frente ao posto de gasolina. No momento em que passei, acontecia um assalto.

Dois dentes quebrados, três costelas fraturadas, as maçãs do rosto raladas, nariz sangrando, braço esquerdo luxado. Cusparadas na cara, tapas na orelha, vários socos no estômago.

Uns brutamontes me agarraram, me esfregaram no chão de asfalto e me levaram para a delegacia como suspeito.

Meu advogado-branco veio me socorrer. Sou médico, sou dono de uma clínica, tenho três especializações, dou aulas, tenho vários livros publicados, falo quatro idiomas.

Até agora ninguém me pediu desculpas. Ficam repetindo que eu sou preto, nem pareço um velho e estava correndo, como iam saber que eu não era um marginal?

| conto do livro Velhos (Editora Reformatório, 2020). |

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020).

Brasil: (im)possíveis diálogos #26

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Alerta Brasil

Por Mariana Salomão Carrara

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Nunca trabalhe
nem tome um café sozinho
onde houver uma escola um recreio.
As crianças têm mania de gargalhadas
sem merenda sem pai sem país
Nunca trabalhe
com as gargalhadas ao fundo
espicaçando a sua tarde
sem merenda sem país
O seu ouvido paralisado
gargalhadas
Sua mão gigante:
o gira-gira paralisado
paralisado o pega-pega
Silêncio! o seu grito
o recreio paralisado:
Atenção, crianças,
o futuro acabou.

Mariana Salomão Carrara é paulistana, Defensora Pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos (Delicada uma de nós — Off-Flip, 2015), e os romances Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017), e Se deus me chamar não vou (Editoras Nós, 2019). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-Flip (2012), Sesc-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, Josué Guimarães e Ignácio de Loyola Brandão. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar. Integra o Coletivo literário Água na Peneira.