publicações

audiência de apresentação

Magistrado: Tá aqui por quê?
Representado: Briga.
Magistrado: Tô lendo aqui que o senhor lesionou o funcionário Paulo Francisco. É verdade?
Representado: É sim, senhor.
Magistrado: E o senhor agrediu mesmo um funcionário da Fundação CASA?
Representado: Agredi não, senhor.
Magistrado: Ué, mas aqui tá falando que o senhor deu um soco no rosto dele e tem um laudo mostrando que o supercílio dele abriu.
Representado: Foi sem querer.
Magistrado: Mas o senhor não disse que foi briga?
Representado: Não com o Paulo Francisco. Foi com outro moleque, o Jefferson. A gente foi pra cela forte porque ele tentou roubar meu pão e saímos na trocação. Ele fez de propósito porque tinham negado a L.A. pra ele e queria me prejudicar. Aí fomos parar, os dois, no castigo.
Magistrado: E onde entra o Paulo Francisco?
Representado: Ele era o guarda do castigo. O Jefferson começou a rir de mim e eu parti pra cima. O Paulo Francisco veio e tentou separar. Aí acabei acertando o olho dele.
Magistrado: E foi sem querer?
Representado: Sim, senhor.
Magistrado: Tem certeza?
Representado: Sim, senhor.
Magistrado: Então tá bom, pode ir.
Representado: Senhor, foi sem querer. Mas foi bom pra caralho.

Lucas Verzola, 29, é autor de São Paulo Depois de Horas (Editora Patuá, 2014), finalista do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014 na categoria contos; e de Em Conflito Com a Lei — Submundos (Editora Reformatório, 2016), realizado com apoio do ProAC 2015, na modalidade “criação literária — prosa”, do qual foi extraído este conto. Em 2017 foi um dos fundadores da Revista Lavoura e integra seu conselho editorial.

dois microcontos

revolução de 30
(Trecho de uma carta encontrada nos pertences da minha vó.)

Amália,

A escrita, commo  podes ver, vai torta, diversa da de antes, não por me encontrar trêmulo no mommento por cauza da metralha, das grannadas, do transtorno que é viver essa tempestade das idéas, mas por me restar, meo amor, somente a esquerda, posto que a destra levou-a a fera da guerra. Ainda assim ella diz tudo, do amor e da saudade que trago em mim, pensando em ti agora, e se ao te rever não correr desembalado rumo aos teus braços, não será por falta de vontade, mas tão-somente por ter me levado uma das pernas a bôca faminta d’uma grannada.

(…)

* * *

demência

Do umbigo do tempo até este presente, despraticando a circunspecção da linguagem, obscurecendo-a luminosamente, discursando para o nada. Sem um interlocutor à altura da sua retórica fantástica, seu exercício de semear o incomunicável, seu despir-se de todos.

Dizem no bojo do máximo espanto: alimenta-se da carne das palavras, umas com o estranho poder de eternizá-lo. Creio nesse mistério também: o modo como o tempo o tem poupado reforça a crença. Petrificou-se. Divinizou-se. Aere perennius. Não adoece, não envelhece, não carece de ninguém. A solidão é, portanto, sua trincheira absoluta. Onde o real ergue muros, lá ele principia, sem limites.

Sempre consigo mesmo, inacessível. Desavença constante com algo que inexiste. Aparentemente.  Basta entender que, o que para ele existe, existe imenso. Olhos comuns assim, dados ao mínimo, nada penetram, nada discernem.

Dizem, no entanto, ávidos de clareza:  espíritos mandam nele.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, Baque (conto, LGE Editora), UM (romance, LGE Editora) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org. por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial, 2004), Todos os portais: realidades expandidas (antologia de contos de ficção científica org. por Nelson de Oliveira, Terracota, 2012), e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013). Tem textos publicados em jornais, revistas impressas e revistas eletrônicas. É autor do roteiro do longa O colar de Coralina — direção de Reginaldo Gontijo. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br

há tantos anos, em babilônia

Quando vocês iam lá
procurar sentido
razão e sensibilidade nas muralhas da cidade
eu já estava voltando
cansado de tanto andar.

Cada passeio pela cidade
— esta cidade, hoje —
me faz lembrar a Babilônia
dos meus tempos de criança:
a feira livre
frutas e legumes
e tantos badulaques
batuques
marduk, me lembro bem
este era um deus

e aquele lá, no canto, era eu
nem venerado nem desprezado
mas quieto no meu canto
atento a qualquer coisa
porque então
— como hoje —
já se sabia
que manda quem pode
obedece quem tem juízes
vigiando seu percurso

Hoje passei em frente à uma igreja
entrei e acendi uma vela
não para santos
nem para esse deus
torturado e morto quando a Babilônia não era mais
nem um retrato na parede
nem doía.
A vela eu acendi pra lembrar
da minha mãe,
que há tantos anos perdi
nas margens de dois rios
— o Lete, do esquecimento, o Estige, do além.
quem
quem me ajudará agora?

Não me deem ouvidos.
são apenas palavras
e a Babilônia agora só existe
nas minhas lembranças.

Fábio Fernandes nasceu em 1966, no Rio de Janeiro, e vive em São Paulo. Professor e tradutor, é autor dos livros Interface com o Vampiro, Os Dias da Peste e L’Imitatore. Tem contos publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, Romênia e Itália. Ganhou duas vezes o Prêmio Argos de Literatura Fantástica (Brasil). Traduziu, entre outros livros, Laranja Mecânica e Neuromancer, além de poemas de e.e.cummings. Estudou na Clarion West Writers Workshop de Seattle, tendo como instrutores Neil Gaiman e Samuel Delany, entre outros.

sobre o mar de cabedelo

A distinção
do peso-tábua
d’uma canoa
pro aço pátrio
de um cargueiro

Se este acolhe
ferro e centeio
Na outra a fome
do mês inteiro

Em contramão
o casco feio
de um cargueiro
e o tronco sujo
d’uma canoa

Na proa a bronha
das oito horas
Nas tábuas homem
filho e patroa

Severino Figueiredo escreve em Triste, mas curto e mora em Cabedelo-PB, seu ateliê.