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dois poemas de Rudá Ventura

sementes

Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
Castro Alves

O futuro em sementes:
Um fruto nasce ao forjar a terra…

Pode ferir-se a mão,
Pode sangrar a seiva,
Mas o desejo revela suas folhas:
Bandeiras contra a cela.

Enfim, o pranto seca,
As pedras somem
E os olhos contemplam a primavera.

preamar

Escreva meu nome na areia
Pra que nele habitem as linhas do Mar
E só o que diga a água
Ressoe em minha sorte,
Pelo sal que se estende aos olhos,
Pelas ondas que retêm meu ar.

Há um brilho de Lua no dia,
Há uma chama de Sol pela noite
E há um caminho de estrelas sobre as águas.

Escreva meu nome na areia
E deixa que as ondas me façam lembrar…

Eu sou da preamar
E eu trago em minha boca
A voz do Oceano.

Rudá Ventura é poeta, músico e educador paulistano. Autor do livro Preamar, lançado em 2017 pela editora Laranja Original, tem poemas publicados também em revistas literárias do Brasil e de Portugal. Encontrou na música a oportunidade de estender sua linguagem poética, tornando-se cantor e compositor. Comprometido com a arte-educação, realiza palestras e apresentações de poesia recitada em escolas e eventos literários.

dois poemas de Itamar Vieira Junior

méxico

Tudo que interessava nesta cidade
eram suas orillas
a crescerem em relevo
no que está além
não muito longe do vulcão

“su construcción fue uno de los pocos a resistir intacta”
diz o taxista olhando para o edifício
replicando o terremoto de 1985
quando alguma coisa aconteceu ao sul de meu corpo

uma placa tectônica engoliu outra placa
sete horas e dezenove minutos
chegou por aqui dois minutos depois de surgir no seu epicentro
e as palavras do trabalhador continuam a replicar
na chuva de outubro de 2014
culpa das correntes de ar que chegam do Pacífico

as orillas são gigantes
nelas estão os segredos sussurrados
o que nunca será ocultado
não há tempestade nem abalos
capazes de desfazê-las definitivamente
nada que as transforme em ruínas

um guarda-chuva gentil vem até a mim
naquela mesma noite de chuva
encolho para que nele se abriguem dois
em movimentos que provocam pequenos choques de corpos
e mesmo assim tudo permanece de pé

peso

caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
arrebentando
a terra
vou me despindo
de roupas
palavras
vou me desfazendo
de lágrimas
e sorrisos
corto as unhas
não quero mais nada
a tesoura chega à carne
o sangue
goteja quente
e flui
não seco
nada desejo
do que me deixa
fecho os olhos
e os pensamentos
remanescem
por mais que deseje
desfazê-los
insistentes
desobedecem
apenas caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
esmagando
o que não retorna

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Dois de seus contos foram traduzidos e publicados em revistas especializadas na França.

insana honestidade noturna, de Glória Tavares

Era muito tarde da noite. Vitória devia ter uns quatro ou cinco anos quando acordou com os gritos violentos de seu pai: “Meu irmão é honesto e o seu não é, minha mãe é honesta e a sua não é, meu pai é honesto e o seu não é, eu sou honesto e você não é e… e eu estou pensando em pegar meu facão e cortar o seu pescoço.” Esta última afirmação ameaçadora fez Vitória tremer de medo. O lençol parecia se mexer com seu tremor. Pânico. Pavor. Insegurança. Respiração ofegante.

É incrível o que um ser humano consegue guardar na memória desde os tempos de criança. Hoje com quarenta anos, ela não lembra o desfecho da noite, não lembra o que aconteceu depois, mas ela jamais esqueceu aqueles gritos noturnos e insanos rasgando violentamente o silêncio de seu sono infantil. Aqueles gritos que os vizinhos certamente ouviram. Sua mãe não havia perdido o pescoço, ainda estava viva até hoje. Seu pai já havia feito a passagem. Viveu bebendo, morreu de beber.

Um pai alcoólatra deixa de cumprir muitas promessas. Chega atrasado demais para levar os filhos aos aniversários, quebra a televisão preto e branco, quebra o rádio no corredor, destrata os amigos das crianças, expulsa visitas de casa. Mas uma promessa aquele pai certamente cumpriu quando disse que só deixaria de beber quando morresse. O casamento teve um fim décadas antes da partida de seu pai.

Vitória lembrava que sua mãe amava plantas, flores e mesmo não havendo nada de sofisticado em sua casa, as plantas estavam em todo lugar. Seu pai sóbrio cuidava das plantas quando não estava trabalhando. Certo dia, bêbado e vestido de fúria, pegou o facão vermelho e cortou todas as plantas de casa, do quintal e do jardim. Não, ele nunca havia cortado o pescoço de sua mãe. Porém, naquele dia havia definitivamente cortado o seu coração. Aquele facão vermelho que ele sóbrio usava para podar as plantas e deixá-las mais belas. Aquele facão vermelho que ele sóbrio usava para cortar cana. Havia plantação de cana perto do muro do quintal e era tão bom sentar na grama e chupar aquela cana. Era muito doce. Havia cana também nos jogos do Ceará no Castelão.

Nunca havia usado de violência física contra sua família. A violência era emocional, verbal. A violência física em si era contra coisas e plantas. Em casa de pai alcoólatra há sempre uma aflição no ar. As mãos estremecem ao botar a mesa, ao lavar a louça. Os olhos são tensos. Não se pode receber os amigos das crianças em casa, pois a qualquer momento, o pai pode chegar em condições vexaminosas. O pai sóbrio era amoroso e cômico. Pedia beijos e cheiros, contava piadas. A mãe aflita fazia sinal com os olhos para que Vitória o beijasse, mas isso jamais aconteceu. Várias noites, quando Vitória beijava sua mãe na cama antes de dormir, sua mãe pedia para que os beijos não fossem sonoros, pois assim o pai não ouviria e não ficaria triste porque a filha só beijava sua mãe. A mãe temia que fosse mais um motivo para brigas em momentos de álcool.

Um dia Vitória queria muito sair de casa para brincar na calçada e decidiu pular o muro para evitar o portão. Seu pai estava a beber na área que dava vista para o portão. Seu pai a avistou e indagou:

— Por que você pulou o muro?

— Porque eu quis, mentiu Vitória.

— Fale a verdade, pediu sua mãe.

— Porque eu quis, repetiu a filha em pânico.

E o pai saiu com um ar vitorioso olhando para sua mãe. O silêncio de seu pai claramente falava à sua mãe “ela pulou porque quis, não por minha causa, não por medo de mim.” Assim coexistiam os gritos, o silêncio, a aflição, o doce da cana e o medo. Uma família vivendo sobre uma areia movediça. A força daquela areia era o álcool. A mãe era uma espécie de árvore à beira da areia onde os quatro filhos se agarravam.

Há quem diga que o perdão e o esquecimento devem ser irmãos bem unidos. Há uma intrínseca relação entre perdoar e esquecer. Em inglês “forgive and forget”. Perdoe e esqueça. Naquela noite, dirigindo de volta para casa, Vitória se viu soterrada em fortes lembranças. Tantas memórias que estavam guardadas. Não vivia pensando nelas. Raramente escolhia pensar nelas. Era uma mulher alegre. Na maioria das vezes, fazia jus a seu nome. Mas as memórias estavam lá disponíveis para resgate. Atormentada por meteóricas lembranças familiares em intensas colisões com sua mente, concluiu que tinha que fazer um pedido a Deus. Era um pedido tão forte que talvez até ela tenha pensado alto ao fazê-lo. Disso ela não lembra. Mas é certo que ela falou com Deus em pensamento e disse: “Meu Deus, fazei com que o esquecimento não seja a única evidência válida do perdão”.

Glória Tavares é professora do Departamento de Estudos de Língua Inglesa, suas literaturas e tradução da Universidade Federal do Ceará, tem mestrado e doutorado em Letras — Inglês e Literatura Correspondente pela Universidade Federal de Santa Catarina. Durante o terceiro ano de doutorado foi pesquisadora visitante na Universidade de Auckland, Nova Zelândia. Amante da fotografia e da escrita, considera as duas como dois olhos de uma mesma face.

três poemas de Arthur Lungov

na cena final

A bala cruza a avenida
alcança Belmondo pelas costas
cabeça arremessada pra trás
os brações pendentes cipós
a ponta do sapato dobrada
tenta deter
a queda.

Um desenho em giz
no asfalto
não traz pistas
de Bogart.

O nome das coisas não dura mais
que o gesto de batismo
do nome que as coisas gostariam de ter
afunilando sílabas
até cingir uma mudez
brusca.

ele

ele não viu
ele não viu nada
ele não viu nada que não fosse a bala
cortando curiosa
um assovio leve e ligeiro
derrubando um garoto preto
no chão

ele não viu nada além de pele morena
vazando a camisa branca
lisa passada sem
manchas

ele mastigou raivoso um furo na tarde
que sugou fundo e forte
e deixou no centro de tudo o verbo vibrando
“morreu”

ele não viu ninguém

presságio

Quando a manada soltava larga
pela pradaria
e o búfalo não era um búfalo mas
um pistão a mais
castigando firme e duro o maquinário ruge da terra
os astecas em travessia abaixavam o rosto
e liam o mundo
nas rachaduras paridas
pelo som.

O silêncio vertical e liso
intocado
deixaria seus adivinhos
em pânico.

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da Lavoura, revista de literatura contemporânea. É autor dos livros Luzes fortes, delírios urbanos (Ed. Patuá, 2016) e Corpos (inédito). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias (Philos, Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Raimundo, O Casulo, Poesia do poeta etc.). Foi curador convidado da Casa Philos na Flip 2018. Email para contato: albugelli@gmail.com

o prêmio do poeta, de Rosângela Vieira Rocha

Há tempos quero escrever sobre o espaço inbox do Facebook, por perceber que ali se desenvolve uma outra rede social, de fios mais finos e retorcidos, que se desdobram em outras teias menores, cheias de nós, sujeitas — em igual proporção — a acertos, erros e mal-entendidos. Tenho notícias de casamentos iniciados naquele espaço tão incômodo quanto prático, de términos de relações virtuais e reais, de discussões e arengas que poriam no bolso as Histórias das Mil e Uma Noites. É uma rede subterrânea aparentemente invisível, mas que tem vida própria e deve ser levada a sério.

Nada contra o espaço em si — que tem me permitido vender exemplares de livros, receber convites para palestras, oficinas, lançamentos e atividades artísticas de modo geral, além da solicitação de entrevistas, prefácios, contos e crônicas de pessoas e revistas literárias eletrônicas e impressas.

Ao lado do importante papel que desempenha na vida literária, que é o principal motivo que me leva a utilizar o Facebook, o inbox serve também para a troca de notícias rápidas com amigos queridos, convites em cima da hora, troca de informações sobre livros.

Mas o que importa mesmo, neste texto, é o uso daquele espaço para outros tipos de atividades, pertencentes, digamos, ao mundo subjetivo. Para ilustrar o tema, passo a narrar um diálogo pra lá de improvável que tive há alguns dias com um poeta estrangeiro.

Inicialmente, recebi um pedido de mensagem — que ocorre quando o ser não pertence à nossa lista de amigos — de um estrangeiro que escreve mais ou menos bem, dizendo que queria me conhecer, visando estabelecer uma grande amizade. Li várias vezes a mensagem, que nada tinha de invasiva ou perigosa, pelo menos explicitamente. O que me levantou suspeitas foi a figura aparentemente inocente de uma rosinha vermelha, no final do pequeno texto. Estranhei a vermelhidão toda. Rosa vermelha, numa mensagem inicial?

Dei um desconto pelo fato de ele ter outra cultura. Afinal, escreve em outro idioma. Que eu domino, mas não é o meu, e isso sempre pode gerar empecilhos à comunicação. Mesmo assim, não respondi. Rosa por rosa, breguice por breguice, a gente encontra aqui mesmo. Ocupada, fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo, dei o assunto por encerrado e me esqueci completamente do ser que se apresentou como poeta.

Três dias depois ele enviou nova mensagem, muito semelhante a primeira. E tome mais rosinha vermelha, com folha, cabinho e tudo. Li e reli as poucas frases — o segundo texto foi mais curto — e novamente não respondi.

Passados alguns dias, eis que chega uma terceira mensagem, num tom mais contundente, dessa vez acompanhada de pedido de amizade. Achei que era insistência demais — não dá pra dar tantos pontapés na sorte — e resolvi reconsiderar, aceitando logo a solicitação e iniciando uma resposta.

Ocorre que o cidadão estava online e logo deu o ar de sua graça. Perguntei-lhe como havia me descoberto na rede social. Por acaso, respondeu. (A menção ao acaso me pôs de cabelo em pé). Por acaso como, perguntei? Ah, uma coincidência, disse. Achei a resposta surreal e pedi que me contasse quem era ele. Sou estrangeiro, nascido no país X e morando em Y. O que faz aí? Quis saber. Trabalho com vendas, contestou vagamente. Vendas? Ah, sim, vendas. Sei. Além disso — continuou, com ironia mal contida — sou divorciado há X anos, não fumo há 17, não bebo há 12, não tomo café há dez, não jogo desde criancinha. E sou um tipo antifacebuquiano. Satisfeita? O tom desdenhoso e a referência ao cigarro me deram raiva, sou fumante. Pois eu fumo, tomo café várias vezes ao dia, não bebo álcool e não sei jogar pôquer, respondi.

Gosta de poesia? Sou poeta por hobby, um humilde poeta de província. Você é romântica? Mora sozinha?

Danou-se, pensei. Não vou conseguir conversar com essa criatura. Comentei como detesto a palavra “humilde”, quando se trata de arte. Nenhuma arte é humilde, disse. Por que humilde? Sem conseguir conter a irritação, ele fez a defesa da humildade, de cabo a rabo. Humildade é palavra digna, escreveu. Sim, disse eu, mas não combina com arte, não casa, não dá jogo, não dá liga.

Deixei de lado o tema da humildade e passei ao gosto pela poesia. Para descobrir se ele de fato sabia quem eu era, comentei que sou escritora. A criatura não passou recibo algum. (Se não sabe, pensei, é porque nunca buscou informações a meu respeito e deve ter enviado a mesma mensagem a dezenas de mulheres, indiscriminadamente).

Decidi perguntar de maneira direta a quantas mulheres aquele texto tinha sido mandado. Ele negaceou, de maus modos, mas não explicou o motivo de tê-lo enviado a mim. Aflita com o caminho que a tentativa de conversa tomava, tentei pôr panos quentes, buscar neutralidade, indagando como é o país, que não conheço, e a cidade onde ele mora, esforço que se revelou absolutamente inútil. Voltou à carga: pensei que, sendo professora, poderíamos ter uma conversa de alto nível, mas vejo que me enganei. Ainda não falou nada de si, e me fez um interrogatório. Não tenho de lhe provar nada, eu só queria me aproximar, ter uma “relação harmoniosa” com você.

Nesse ponto eu já tinha entendido que o tal poeta estava me cantando, que não tinha jeito de conversar com ele normalmente, civilizadamente, e que caíra numa esparrela. O jeito era fugir, e bem depressa.

Para meu espanto, ele perguntou novamente: você é romântica? Depende, disse eu. De quê? Depende do significado que a palavra tem para você. Como assim, você não sabe o que significa? Na literatura, sei, respondi. Mas na vida não sei direito, não. Gostaria que me explicasse.

Ah, já sei, é uma “intelectual”, respondeu. Talvez, disse eu. Ah, é? Por causa disso você merece um prêmio. Antes de qualquer reação minha, ele escreveu: sabe que prêmio? Um BLOQUEIO!!!

Perplexa, não entendendo nada do que tinha ocorrido, testei. Sim, o poeta tinha me bloqueado mesmo, com letras maiúsculas. O recém-aceito pedido de amizade já fora para os ares. Diante de caso tão surreal, procurei saber quem era. E se fosse outra pessoa se fazendo passar por ele? Um robô, um zumbi, que sei eu? Mas não, ele existe, encontrei provas materiais. Existe e teve muita raiva porque lambuzou o selo e não colou. Sem contar a notória falta de fair play. E de senso de humor, claro.

Agora, quando quero rir, repito baixinho a frase: Sabe que prêmio? Um BLOQUEIO. Parece mentira, mas não é. Um bloqueio. Assim, sem mais. E estamos conversados.

Rosângela Vieira Rocha é escritora, jornalista e professora da FAC-UnB aposentada. Tem doze livros publicados, cinco para adultos e sete infantojuvenis. É autora do romance O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2107).

quimera, de Alessandra Barcelar

O céu de Miragem acinzentou depois da tarde. Um apagão! Um acontecimento não inventado, o deslumbre: uma revoada de ventos arranhavam os cabelos, quase todos crespos, e os corações, quase todos secos, da gente. Não sabíamos se era nervoso, se era um nevoeiro perdido, se era falta de costume ou vontade de começar logo a chuva, porque as agonias eram de criança e a fé era de quem tinha acabado de ver Deus. Já se tinha como prenúncio, o sumário, a demora de meses em que não se pingava nenhum molhado. Apenas neblina enganada. E nada, nadinha! Era o quase sertão de sempre e tinha que parecer sofrido e faziam parecer. Acreditávamos! O turrão era o tijolo no barranco, quase uma anemia de chão. Era pedra esfarelada na mão como se fosse farinha de beiju. Endureceu tanto que morreu como poeira. Convalesceu sem misericórdias, sem condescendência, sem um piu. E não era sozinho no velório. Tinham outros tantos moribundos: gados inteiros, alqueires inteiros e lembranças inteiras morridas assim ao léu. Tudo porque foi dito que com sertão não se brinca, mesmo que fosse um quase sertão. E que era sempre lugar de gente que urra, de labutas, de gentes crentes de fé e de castigo. E vinha na memória o cisco e as recordações de quando apanhávamos como malinos em recreios de rua, de depois de mainha gritar: corre pra dentro, peste! Um frio na barriga, quase de barrela. Ardia e pulsava dentro dando choques e brilhinhos. Era assim que senti quando escureceu o céu. E começaram os trovões. O som, do que estava pra armar no céu, fazia a gente querer sombrear a gente mesmo. Pra ver a festa, a esperança de ter um lajedo, mesmo que fosse só até perder o olhar. Esperávamos como santos ocos na certeza de festejos. Demorava derramar. E mais outro trovão. Depois da pintura de tons gris, os relâmpagos. Eram trocados. Primeiro um, depois o outro. Rasgavam a lonjura os raios. Era tão bonito de se ver, que dava uma sensação estranha de que tudo começaria de novo, e de novo. Invertido! E que se faria separação da luz e das trevas no primeiro dia ou seria novamente o ardido da explosão do início, dos elementos dos entendidos das letras. A mistura! Que algumas coisas estariam recomeçando, talvez os mesmo erros. E era isso que sentíamos. Sem a menor consideração pelos costumes. Era tudo rebeldia. A cada estrondo os bichos aquietavam. Era o silêncio. Só ouvimos o que tínhamos dentro de nós e era bem pouquinho. Uma ninharia. Era quase nada, igual a isso tudo ao redor. Juvenal tentava puxar sua tropa para os coxos; Dona Amélia, já octogenária, brincava feito filhote desmamado atrás dos vagalumes atordoados pelos mexidos dos matos; Bigode latia o desespero e a confusão das folhas que tufavam perto da cancela. Parecia final de ano, quando a gente sabia que amanhã seria sempre a mesma coisa, mas que hoje parecia só com hoje. O rebolado de dentro já fazia redemoinhos, já eram maremotos e salvem-se quem puder. Mas nem uma gota descia. As lamparinas já inflamavam a escurecida tarde mágica. Os baldes postos, as gamelas todas desemborcadas. Os meninos já estavam peladinhos para o banho, para as bicas. Corava a gente a esperança que engrandecia pequena e depois desmedida. E mais um rasgo do céu e outro trovão. Parelhavam! Num instante tive a impressão de que o chão tremeu apavorado com o suor que estava por vir. E veio ansioso o tardio. Pingou o primeiro caldo doce de Deus. Depois mais um, dois, três e a testa já lacrimejava. Não sabia se era de dentro o choro ou se era banhado. Caiu feito parido. De uma vez. Não era nem fria, nem de vez a água. Era sonhada. E os barulhos e os alumiares harmonizaram. Eram juntas e siamesas. E do derramado veio o sereno, a chuva acalmada que molhava os pés da gente, depois molhava os pés do chão e, ainda mais depois, os pés dos sorrisos parcos. Vó Luzia já tinha falado que iria ir sem ver arco-íris, mas se viu encantada ao ver que as cores dele nunca tinham morrido e eram iguais ao que era antes, quando menina. Ficou sentada na cadeira, cúmplice, bem na porta da rua, e só deixando os pés molhando debaixo da chuva. A quentura se foi tomando afrescos, se lavando, boiando para outra margem e aí veio aquela certeza de que tudo começaria de novo e de novo. Foi tudo rasteiro e o sol veio num estalo. Primeiro secou o caminho, depois a janela, e seguiu o varal até esturricar os matos, os pelos, a garganta e o sono, que veio suave, ralentando, estiando até parar no acostumado.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou em várias revistas literárias do Brasil e de Portugal. Colaborou com a Antologia Mitos Modernos I (no prelo), premiada com o Prêmio Le Blanc de Arte sequencial, Animação e Literatura Fantástica.