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cinco poemas de Ronaldo Cagiano

o barbeiro

De suas hábeis mãos
ele interroga as faces úmidas

no bailar da lâmina
desbasta o jardim de pelos
corrige
as voçorocas da pele.

De quantas faces
é construída a sua vida?

O salão
mais que a câmara
de seu claro ofício
é templo onde reverberam
histórias da cidade
confessionário laico
de dores que não se estancam
como as feridas
que habilidosamente
ele soube drenar
no afagar da toalha
__________com seu ácido batismo do álcool.

Ele ouve a cidade
e não pode dizer nada
além dos olhos que indagam
almas perdidas em sua cadeira
trono de reis desnudos

Bigodes, costeletas, o fio resistente
no escuro das narinas
& o solene escanhoar que se repete
no pressuroso balé de
tesouras
pentes
navalhas
__________& espumas

ele emoldura tanto desassossego

artesanato de mãos
que nunca se fatigam
nem enferrujam:
máquina de vincar rostos
tão despidos de outros
encantos.

rotina

O último trem vara meus
instintos — a vida segue como um tiro.
(Tanussi Cardoso)

Do pátio da velha estação
(esqueleto desativado onde hibernam morcegos)
procuro no tempo escuro e abissal
a histriônica locomotiva da infância
penetrando a cidade como um raio.

Fera metálica atravancando a avenida
beirava o córrego como uma centopeia arengueira
recolhendo os olhares de mulheres nas janelas
adestrando o galope dos moleques
que, disputando com a máquina alucinada,
venciam a corrida contra alguma coisa que não sabiam

Aquele trem no vai e vem
com seu barulho contumaz
emerge — feito o passado latente —
dos escaninhos da noite

Animal sem metafísica
insistente como o presente
ainda impõe a melodia insolente
dos apitos
enquanto
desconheço a tirania do futuro.

maçãs ao entardecer

Aquela cesta solitária
_____feito um alguidar de silêncios
exibe as três maçãs
_____na cozinha que se despedia do sol.

Ainda a claridade baça
_____configurando a tarde indisposta
_____amadurecia o outro fruto escondido,

um coração esquartejado
pelos vermes
de miméticas angústias

Não há como devorar o passado
com a mesma sanha,
_____a mesma fome
desses animaizinhos
que nos corroem por dentro

poema em linha torta

_________Para Leonardo Garet

Ainda tenho medo
do chapéu de meu avô
(mas eu nunca tive avô)
de suas orelhas de abano
e seu silêncio antigo como o tempo
(feito o silêncio de seu filho)

Porém
a fumaça de seus cigarros de palha
continuam
_______________atravessando

a sala
o quintal
a vida

interditando meus olhos
escurecendo minhas andanças

essa fuligem eterna impregnando tudo
essa dor itinerante
por saber impossível
(todavia necessária)
a utopia

Somos inquilinos do desassossego
e nessa manhã opaca
e fria
a sisudez da paisagem
esconde tantos mistérios

A janela da velha casa
revela segredos incontidos
enquanto capta o acelerado passo de um casal
em seu footing burocrático
de todos os dias

O mundo lá fora
é vício e desordem
há urgências
palavras de ordem
__________do tempo presente
__________da tecnologia presente
__________das competições presentes

e a Ilha de Manhattan continua intacta
queremos implodi-la com as dinamites das minas de Itabira
mas há um Atlântico a nos fatigar

Em mim
permanece uma constelação
de vazios
um mapa de varizes

a vida e seus móveis e utensílios
não parecem o que são

é preciso vivê-la
com uma faca penetrando a maçã
e o olhar desconfiando da Cruz do Calvário

De tantas entranhas
o que vamos reconhecer:
sabores ou feridas?

A matemática precária
de tantos amores
abriu uma trincheira
construiu desertos
no vazio e no silêncio
das horas mortas

trouxe a sólida
imprecisão das coisas

Anfíbia e andarilha,
a alma nutre-se do que
é migalha ou espanto

ruínas

Cadáver de um prédio
corpo inconcluso
organismo em ruínas
apedrejado pela incúria pública

Contemplo o esqueleto de cimento
contrastando com a opulência da avenida feérica
com suas vísceras à mostra
como um cão faminto
sem força para rosnar

sem alma
sem nada

desossada estrutura, palavra

sem cal
nem mal

Lugar sem nome
vazio que se impõe

ovário vertical germinando indiferenças
túmulo de histórias

Apenas um espantalho inútil
na lavoura de espantos da metrópole

passam por ti os homens
não se movem
nem têm medo

Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília e São Paulo e reside atualmente em Lisboa. É autor, dentre outros, de Dezembro indigesto (Contos — Prêmio Brasília de Produção Literária 2001), O sol nas feridas (Poesia, Ed. Dobra, Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012), Observatório do caos (Poesia, Ed. Patuá, 2016) e Eles não moram mais aqui (Contos, Ed. Patuá, Prêmio Jabuti 2016).

guinadas, de Marcos Vinícius Almeida

Uma amiga terminou o doutorado há mais ou menos dois anos e passou esses dois anos fazendo todo tipo de freela enquanto tentava concursos em universidades públicas. É o sonho dela. O mês passado ela foi aprovada para uma vaga de substituta numa cidade do Espírito Santo. Está muito feliz.

Mulher, negra, ela nasceu numa família de baixa renda, em que os pais não concluíram o ensino médio. Agora ela é doutora. Doutora de verdade, para além do hábito bacharelesco e aristocrático do pronome de tratamento para certas profissões. Passou sete anos, entre mestrado e doutorado, pesquisando o mesmo objeto. Tem um trabalho sério e consistente. De cientista, mesmo.

Ela partiu na última madrugada de ônibus do interior da Bahia e são mais ou menos umas dez horas de viagem até a cidade que vai trabalhar. Uma cidade com uma praia aconchegante, ela me disse.

Está muito feliz com seus fones de ouvido e olhando a paisagem escura e silenciosa que passa rapidamente na janela. Um tanto quanto ansiosa, talvez. Dessa ansiedade feliz que toma conta da gente nessas horas de guinadas na vida. Talvez esteja pensando em tudo que teve que superar pra ter essa oportunidade. Racismo, o preconceito de classe, de gênero, aquele olhar do avaliador na entrevista. Aquele comentário você não é bem o perfil que nós estamos procurando. O chiado abafado do ônibus que avança noite adentro rumo ao litoral.

Ela me escreve dizendo algumas dessas coisas. Outras imagino. Uso a intuição. Ela me diz que o ônibus teve um problema na porta. São umas quatro e meia da manhã. Parados num pequeno posto de gasolina melancólico próximo de Eunápolis. Apenas um velho Fiat Uno vinho parado do lado de fora.

Ela aproveita pra usar o banheiro e só há um banheiro. Cobram dois e cinquenta. Ela hesita. Mas como está muito apertada e ainda precisa aguardar o outro ônibus, conta as moedas e entra.

Está tudo muito quieto. A luz amarelada e o lugar frio. Um cheiro forte de água sanitária. Quando vira o pequeno corredor, há uma figura de costas, diante do espelho. Uma coisa meio absurda. Um palhaço, mais ou menos magro, as roupas puídas. Usa umas botinas duras. E está se pintando, sem pressa. Uma velha lata de talco branco e uma tinta gordurosa, vermelho vivo. O palhaço se vira, mas não sorri. Metade do rosto maquiado.

Me arranja uma moeda, diz o palhaço. É pra inteirar o café.

Um tanto abismada, ele tira a primeira nota que encontra na carteira. É uma nota de vinte. Entrega pra ele.

Acabei de receber, ela diz, como que se desculpando pela caridade.

Quando o novo ônibus chega, ela entra. O dia já vem saindo. Da janela, ela vê o palhaço. À beira da estrada, tentando carona. Ela até ergue a mão, pensando em fazer um tchau. Que absurdo, quase diz pra si mesma. O ônibus dá a partida. Que vida doida, ela diz. E sorri.

Marcos Vinícius Almeida é escritor e jornalista. Cresceu em Minas, mas vive em São Paulo. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, é autor do volume de contos Paisagem interior (Editora Penalux, 2017). Foi um dos vencedores do Prêmio Ufes de Literatura por duas vezes, nas edições de 2010 e 2015. E-mail: mvalmeida.7@gmail.com

três poemas de Tomaz Amorim Izabel

I.
Quando as bombas tiverem caído
e as marés tiverem subido
quando não houver mais telas
cassetes, colunas
quando o descanso for reencontrar
com as costas no mato
outras constelações no céu
— Constelação de porta-aviões,
constelação lata de ração,
quando mesmo as pupilas igualarem
o azul do céu
e se nunca mais ouvir seu nome doce
ainda assim falar, recitar
lembrar e compor com a boca
canções sobre nossos erros e perdas
e também promessas

II.
quando o mundo parece mais perto
sem que fique excessivamente pixelado
por onde eu começo,
uma rua famosa, ainda não visitada?
mandei um beijo apaixonado
para uma mulher que por poucos minutos não conheci
se quiserem falar através de mim falem
que traduzirei os coaxados e zunidos como conseguir
o motorista carrega seu carro como um filho pelos buracos
o ar-condicionado é seu próprio respiro
ainda assim, sua camisa e seu pescoço suam
Não há nada de errado mas
os bichos-da-seda expelem seu próprio cobertor
um caranguejo coloniza um balde de plástico
e nós correndo para lá e para cá
por mais que haja escadas rolantes
é difícil lembrar o lugar em que se deixou
em que ficou combinado nos reencontrarmos
com aquele lugar mais ameno

III.
shithole
câmbio, aqui é do fim do mundo
rádio pirata bioeletrônica
é aqui que se erguem topetes e pirâmides
aqui é onde a via láctea fica pequena
e se expande na pupila dilatada
colunas da criação desfilando
em meio aos répteis colossais
quando degustamos nossos chás
e tocamos as órbitas planetárias como harpa
e viramos também seu instrumento
a chuva que baba sobre a pele empapada
banhos de folhas, sim
as mais belas aves sobre nossas cabeças
segredos de sementes revelados por nossa mão
plantações e ninhos e pomares
escondidos dos satélites artificiais
banhados pela lua e vênus e avestruz
aqui onde se bebe o sangue jorrando dos matos
e galopam sem cela os trovões nos céus desabitados
engenharia que pariu a anaconda e o dromedário
favelas e aldeias, clústeres de moradas
almanaques de todas as filhas da diáspora
e cópias aprimoradas, hackeragem
revelando tantos sorrisos secretos no duro rosto do um
nunca imitável na doçura dos ossos da mão
riacho leve em nossos rostos
nunca as histórias das viagens oceânicas em canoas submarinas
cada pequeno orixá escondido no seio das avós
sim, a elegância contorcionista das línguas e conceitos
sim, o rosário das dobras do cu pelas línguas
sim, estuário, delta dos presentes que se repetem
até o futuro

Tomaz Amorim Izabel, 30, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: Blog: [link].

tecidas, poema de Eduarda Vaz

dizem que as meninas
devem costurar
bordar
e fazer tricô

a mãe sabia
a vó sabia
a bisavó sabia
(…)

costurar, bordar, tricotar
herança feminina
costurar, bordar, tricotar
amansam a menina
costurar, bordar, tricotar
até o pensamento

tua mão não corre risco
de se aventurar pelo vento
nem de mergulhar na água
está na agulha
está no pano
está na máquina
teus firmamentos,
menina,
costura os lamentos
borda os tormentos
faz de ti o tricô
para guardar
para o casamento

às vezes eu te confundo
não sei onde começa o pano
nem onde tua pele termina
já não sei o que é agulha
nem mesmo linha
nem comando
nem armadilha

costurar bordar tricotar
herança feminina
costurar bordar tricotar
espero que um dia
possa
des
atar

Eduarda Vaz nasceu em Volta Redonda (RJ), em 1997. Desde pequena, queria ser escritora. Estuda Letras: Português/Espanhol na UFRJ, escreve em sua página Eduarda Vaz / Poesia e na Revista Pólen. Também é contadora de histórias e professora. Seu primeiro livro, Aresta, foi publicado pela Macabéa Edições em dezembro de 2017.

órfãos, de Alê Motta

O pai do Valério morreu de câncer. O pai do Sílvio morreu de infarto. O pai da Celeste foi atropelado em Copa. O pai do Joca se jogou da ponte. O pai do Milton morreu de velhice. O pai da Maria morreu de susto — um assalto na Avenida Brasil. O pai do Guilherme foi uma bala perdida no Andaraí. O pai da Glória morreu esmagado por um caminhão na obra do Shopping Carioca. O pai do Soares morreu num acidente de carro na Dutra. O pai da Lenice morreu esfaqueado num bar em Campo Grande. O meu pai foi comprar cigarro e voltou.

| do livro Interrompidos (Editora Reformatório, 2017). |

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) é seu livro de estreia.