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menina na pedra

O calor, o calor, o calor… Sensação térmica de 47 graus e o termômetro no poste mente dez a menos.

Pessoas com rostos deformados, esgares, testas franzidas. Canícula de deserto. Quem ousava sair de casa assim, ao meio dia, refugiava-se nas poças mais frescas sob as copas das árvores, parava um pouco, ofegante, e mergulhava até a próxima sombra,projeção rendada de amendoeira onde retomava o fôlego. Duro enfrentar o asfalto derretido que os aguardava, rostos já alaranjados pelo lança-chamas do sol.

Dobrou a esquina.

Ali naquele muro de pedra fora imprensada. Homem enorme, enfiando ásperas mãos por baixo da saia azul marinho do uniforme, pois ela vinha do colégio, a correr. De nada adiantou gritar bem alto para a rua vazia.

Mesmo agora, trinta anos depois, quando vira a esquina seu coração dispara.

As costas doem por causa das pedras pontudas que rasgaram sua blusa de um azul mais claro que a saia.

Ali. Era ali.

Chegou pero desafiando o calor, o horror, o bafo de forno crematório e viu, no muro, a figura impressa dela mesma, aquela menina magra, treze anos de idade e seu pavor, parada no tempo como uma fotografia: olhos esbugalhados, cabelos de hera a escalar parede acima, ar de susto, boca traçada no oco das pedras, lábios rebordados pelo exército de formigas em fileiras.

A moça que vinha na direção contrária tocou em seu ombro:

— A senhora se machucou. Há sangue em suas costas. A blusa chegou a rasgar.

O tom da voz mostrava mais preocupação com o estrago na roupa do que com seu destino de criança-impressa para sempre naquele muro antigo, como as crianças de Hiroshima após a bomba.

| do livro Vida Louca (Chiado Editora, 2017) | o lançamento é amanhã, dia 12 de dezembro, às 19h, na Casa de Pedra, Rua Redentor, 64, em Ipanema-RJ. |

Regina Taccola tem 77 anos, é médica, psicanalista e escritora. Autora do livro Uma tarde embalada pelo mar (Editora Frutos, 2016) e Vida Louca (Chiado Editora, 2017).

vampira debaixo do sol

Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava preste a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.

Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pelos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos sêmens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.

O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.

* Vontade de Poder

Vinícius Canhoto é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo e autor de Livro do Esquecimento.

três poemas

espinho & saciedade

A cidade sangra rosas de lata.
Menores dormem em hemorragia
— jejum forçado — colheita maldita.

Há poesia após o anjo sírio ceifar?
Poetas em via-crúcis das palavras
têm o mormaço que salva
do automático.

Plataformas no deserto, cães e dentes, tubarões.
Crua, uma pétala ulcerada
deseja fosforescer — ter bodas.

Em electrochoque — o futuro é azul metálico —
a recusa, um leão alado
na proa de um barco
em chagas.

Néctares robotizados em virtude de morte.
Muitos bens — pouca alma.
Minha inquietude precisa
voltar ao celeste.

amadurecer instantes

No entreter das capitais,
o lenho da solidão é consumido
pela geleira da multidão.

A lua late para o húmus —
o mar cega o sol:
o mundo é diáspora.

Enxadas em Orion,
corpos nos canaviais.

O fim não faz juízo:
o inferno reclama o céu.

A vida custa menos do que uma bala:
natureza morta das constituições.

Para o velho escriba
a tipografia é mais potente
que uma usina nuclear.
Ele faz, sangrando,
uma casa na nuvem.

substrato

O ilimitado é um número
anárquico. O céu range:
não há lençol para cobrir
a fonte do poente.

A poética da alma é arrepiante.

Invejo o cinismo de Diógenes:
um cão tinha os dentes
mais brancos que
os caninos da miss mercado.

Para salvar a si mesmo
é preciso perícia
na ciência de vermes.

Tito Leite nasceu em Aurora-CE (1980). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Têm outras coletâneas publicadas nas revistas Mallarmargens, Germina e na portuguesa TriploV. Digitais do caos (selo Edith, 2016) é o seu primeiro livro.

dois poemas

pelos caminhos e pedra onde jazem a poesia

Nenhuma flor como essa flor
que se sabe no jardim

orquídea impossível da
realidade

o poeta fumegante
essência clara viril
e clichê

seu corpo casas bahia
seu tenro corpo manso seu

sem tempo fluido
coração submarino
em que rangem um ou dois poemas

existindo em perpétua e furiosa mudez.

hoje eu vou ficar em casa

Ou talvez meus longos bigodes já ressecados
cansados de pensar sobre si mesmos saiam para dançar onde se escondem
leopardos maciços
e os filhotes
do
meu
desejo.

Macaio Poetônio nasceu em 1990 na Pauliceia, sob o signo do centauro e filho de Murilo e Roberto. É um dos fundadores do portal de literatura Poesia Primata e da Editora Primata, nos quais exerce as funções de editor e de diagramador. Por meio da última, publicou as plaquetes noturno (2014) e seu cadáver estava repleto de mundo (2015), e o livro de poemas Os bares do Estado (2016).