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cinco poemas de Adriane Garcia

poema para um sábado

Luz amena
O céu coberto de
Manta de algodão
Experimenta a preguiça
(como são deliciosos
os pecados capitais)

Manda uma chuva
Fininha
Para nos distrair
Do atraso do Sol

A água
Lânguida
Lambe plantas
E pedras

O dia é um gato
Se enroscando
Nas pernas.

oftalmológico

Um céu tão amplo
O mar este vasto
O mundo grande
A perder de vista

De repente céu
Para além da ponta
Dos edifícios

Miopia é vício
De só enxergar
De perto.

os vivos

Da não agressão
Da inveja nula
Da cobrança reduzida a
Zero
Da aceitação sem nome e do
Silêncio
Do livre transitar sem
Julgamento:

Gosto mais dos mortos.

vó preta

Minha avó morreu hoje
Não creio que mortos
Descansem

Creio sim que vivos
Percorrem
O caminho entre as tumbas
Cansados

Passam pássaros em revoada
Um cão tranquilo adota uma lápide
Crianças não dão a mínima
Para o que não seja
Brinquedo

Eu sinto o odor incômodo
Dos crisântemos
Arrancados.

morrer

A beleza pousa na ampulheta
Ruflar asinhas ninguém escuta
A vida e a morte no pé de murta

Só dura um dia essa borboleta.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (coleção Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Ed. Penalux, 2018).

shirley e as batatas, de Leonardo Valente

A batata estava assando. Com o olho esquerdo inchado e roxo, Shirley colocou uma batata, daquelas bem grandes, tipo as de loja de shopping, no forno. Era para o pai. Cozinhou em água e sal, tirou um tampo com a faca, acrescentou azeite, alecrim e outro temperinho especial seu que guardara, e botou para assar em um pirex baratinho de vidro fumê. O pai mandou. O pai estava com fome. O pai havia lhe dado o soco no olho. Shirley obedeceu. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley levou o soco porque foi votar de vermelho, era dia de eleição para presidente. O pai era verde e amarelo. “Viado vagabundo! Tem que levar porrada, tem que morrer, seu filho de puta!”, gritou o pai assim que Shirley chegou. Shirley na carteira ainda era Adolfo, mas operou escondida aos 21 anos pelo SUS, com a ajuda de uma amiga médica. Depois disso, não conseguiu mais emprego e não queria se prostituir. Virou empregada semiescrava do pai pedreiro morador de meia água com parede no emboço em São Gonçalo e que nunca teve dinheiro para pagar uma diarista. Depois do soco, o pai bêbado e furioso gritou “agora vai fazer o almoço, caralho, estou com fome!”. Shirley obedeceu. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley perdeu a mãe quando nasceu, e o irmão mais velho foi morar nos Estados Unidos há cinco anos e nunca mais deu notícia, dizem que também virou pedreiro. Fazia bico de dia como faxineira em casa de semi-madame em rua melhorzinha do seu bairro muito pobre. À noite, cursava escondido Serviço Social na UERJ, viado não podia estudar segundo o pai, e queria se formar aos 26, ano que vem. O pai não sabia o que era Serviço Social, não sabia nem que o viado tinha terminado o Ensino Médio. O pai tinha certeza de que Shirley se prostituía porque chegava tarde todo dia em casa. O pai comeu Shirley à força por três vezes no último mês e pegou todo o dinheiro da carteira dela na noite anterior à eleição. Shirley não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

A batata estava assando. O pai se levantou da poltrona velha de veludo vermelho carcomida pelo tempo e caminhou da sala até a cozinha, uma grudada na outra, com o peito estufado e a empáfia de quem se achava rei daquele monte de tijolos quase expostos e daquele chão mal cimentado, abaixo do nível do riacho vala negra que passava pelos fundos e que enchia a casa de esgoto de tempos em tempos. Caminhou de camiseta branca que ressaltava sua barriga feito bola de futebol só que um pouco maior, e mostrava os pelos do peito meio pretos meio brancos, com gingado malandro e com braços soltos, cabeça um tanto quanto caída de molecagem para a direita, olhar de canalha daqueles olhos já enrugados mas que insistiam em ser de garotão e sorriso de pecado genuíno, de pecado digno do inferno. Caminhou indiferente à goteira insistente do teto de laje infiltrada por causa da falta de telha, goteira entre a sala e a cozinha que formava uma cortininha divisória entre os dois cômodos sem divisão, sem fronteira. Shirley tremia por dentro de frente para a pia, encostada pelo abdômen lavando copo de geleia com marca de café e faca lambuzada de margarina, mas ela só fez o café e não tomou, saiu cedo para votar e sem comer. Tremia discreta de costas para a sala e de frente para a pia pequena e tosca, de mármore do mais barato catado em demolição ali perto, com cano vagabundo de PVC à mostra por baixo que ligava a tubulação ao riacho vala negra, porque água até chegava de vez em quando, uma vez por semana quando muito, mas esgoto não tinha. Olhar compenetrado na tarefa de limpar a mancha de café do copo e de tirar a margarina da faca com o dedo de detergente que ainda tinha na garrafa de plástico, quando a mão direita e suja daquele homem sujo pegou em cheio a sua bunda, apertou com vontade e mistura de raiva, desdém e tesão aquelas carnes saturadas de injeção de silicone líquido, mais perigoso, mais barato e mais fácil de aplicar. “Está pronta esta merda, viado comunista filho da puta?”, urrou o macho alfa cidadão de bem, eleitor de candidato cristão e defensor da família. “Ainda não, está quase”, respondeu Shirley, sem se virar, sem encarar, trêmula e indefesa, com o olho esquerdo dolorido e lacrimejante, o direito também, mesmo sem o soco. “Tira essa merda”, gritou o hétero convicto e que foi dispensado do Exército por ser magro demais quando tinha dezoito anos, mas que venerava o capitão candidato, ao rasgar a blusa vermelha dela de alto a baixo, a começar pela gola. Rasgo que pareceu arrancar o pescoço de tão violento, blusa baratinha e de malha fina que comprou em uma loja de departamentos de um shopping em Alcântara com o dinheiro da faxina, rasgo que a deixou de costas morenas desnudas, com o sutiã à mostra, também baratinho e já desbotado de tanto lavar com sabão ruim, desbotado que não permitia ver a cor original, mas que um dia também fora vermelho. Rasgou, deu as costas e voltou da mesma forma em que foi, com o mesmo jeito patife, para a poltrona carcomida, único móvel da sala além da estante de aglomerado com três bibelôs cafonas e da TV de 29 polegadas com antena interna e que só pegava as emissoras que defendiam com vigor o verde e amarelo. Shirley chorou para dentro, mas continuou a fazer o que estava fazendo e não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

O pai não sabia, mas Shirley era mais verde e mais amarelo de que ele, aquelas cores eram mais suas do que dele, mas ele não deixava, as roubara dela, como roubava o dinheiro da carteira. O pai fazia a vez de bom homem com o pastor nos cultos de sexta na pentecostal da esquina de casa. Shirley não podia entrar na igreja, mas ajudava, sem receber um tostão, crianças em um hospital de câncer no Rio uma vez por semana, porque amava o que fazia e porque precisava de horas complementares e de estágio para se formar. O pai pagava prostitutas quando dava, com o dinheiro do viado ou com o trocado dos bicos que fazia, mas Shirley ainda sonhava em se casar e morar em Niterói, ter dois filhos e trabalhar na profissão que escolheu. O pastor disse para o pai que vermelho era coisa do diabo, de comunista, e que comunista e diabo eram a mesma coisa, e que viado, comunista e diabo também eram a mesma coisa. Disse ainda que o verde e o amarelo iriam acertar as coisas, dar um jeito naquilo tudo, resolver a situação, e que com a situação resolvida, diabo preso no inferno, o dinheiro chegaria, o dinheiro só não vinha porque o diabo não permitia. Quem era do vermelho, insistia o pastor, tinha que aprender levando surra e cano de revolver na goela. O pai gostava do que ouvia, mas como não tinha ainda dinheiro para comprar o revólver com cano para enfiar na goela, dava a surra e enfiava outro cano na goela de cima e na goela de baixo dela, achava justo, tinha o devido respaldo, era coisa do pastor, não do diabo, diabo era o viado. Shirley não sabia de quem tinha mais medo, do pastor ou do pai. Do diabo tinha menos, esse nunca incomodou. O pastor também a molestou meia dúzia de vezes em sessões de exorcismo e descarrego, em que ficava amarrada e sem roupa nos fundos da igreja. O pai sabia e aprovava, o pastor podia, a porra do diabo é que não saía dela, então ele repetia, e ela aceitava, nunca reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

A batata estava assando. Shirley se curvou e quase dobrou com o rasgo violento, deu para ver os contornos das vértebras que sustentavam o corpo franzino, ossinhos frágeis forrados com peles finas e carnes magras; com os braços fez um x instintivo sobre os seios pequenos para protegê-los, braços ainda molhados, um pouco engordurados e com cheiro de detergente. Caminhou cabisbaixa até o minúsculo quartinho também grudado na sala, tudo era grudado nela, onde tinha um armário de duas portas em que guardava sua meia dúzia de mudas de roupa. Quartinho em que cabia o armário, um colchonete forrado com lençol velho e ela. Caminhou ligeira e curvada, submissa e leve nos passos para não chamar a atenção, para não parecer ousadia ou descontentamento, para não exalar afronta. Fechou delicadamente a porta que não fechava direito, empenada porque o pai nada certo fazia, para escolher outra roupa. Olhou no espelho da parede o estrago, que a blusinha vermelha só serviria para pano de chão dali por diante, mas Shirley não reclamou. Shirley sempre obedecia. Shirley tinha medo.

Shirley morria de medo também de andar por sua rua e pelo bairro, a vizinhança toda era verde e amarela por causa do pastor, e o vermelho do diabo reluzia nela mesmo vestida de branco. Foi muita coragem e ousadia ter ido votar de vermelho e com adesivo, certamente estava jurada de surra a pedido do pastor, com certeza o pai aprovaria a medida. O homem de Deus falava e todo mundo obedecia. Parece que tinha um homem de Deus acima daquele, de outra cidade, que falava para aquele do bairro obedecer, e outro ainda acima, que tinha contato direto, não com Deus, mas com o verde e amarelo. Ninguém ali entendia, mas Shirley era vermelho porque sabia quem era e de onde vinha, ninguém ali nada sabia, nem como gerenciar a própria vida, eram rebanho e apenas isso, uns mais, outros menos desgarrados, dentro do limite elástico e convenientemente estabelecido, mas todos rebanho.

A batata estava assando. “Essa porra de comida não está pronta, caralho?” gritou o pai sentado na poltrona de veludo vermelho carcomida, grito de autoridade e de imposição de urgência. Shirley abriu delicadamente a porta do quartinho, mas dessa vez não saiu curvada. De salto alto e rubro, vestido vermelho sangue bem acetinado, o único que tinha e que comprou para um aniversário, e um chapéu vermelho escuro bem antigo e empoeirado, que foi da mãe que nunca conheceu, mas que guardou com zelo por anos; caminhou com altivez, pela primeira vez com nariz em ângulo reto os poucos metros até a cozinha quase cravada na sala, passos com barulho de gente que àquela altura se achava gente. Com uma gaze presa por esparadrapo no olho esquerdo, feito um tapa olho, chapéu levemente caído para o mesmo lado para fazer sombra, desfilou, não andou.

“Deve estar locou, esse filho da puta”, pensou o pai ao acompanhar incrédulo a cena. Shirley se aproximou do forno, abriu e viu que a batata ainda não estava completamente assada, mas a retirou assim mesmo. Colocou-a com prazer e semblante de leveza no prato branco do pai, como quem preparava a refeição de um filho ou de um marido querido, com um prazer que poucas vezes tivera; salpicou mais uma vez o temperinho especial que preparara, complementou com três colheres de arroz do dia anterior que havia deixado no fogão, domingo não tinha carne nem frango, e levou para a sala. Entregou com sorriso escorpiano o almoço ao pai que, esfomeado e sem nove horas, começou a devorá-lo feito um porco, sem pensar, sem sentir. Pouco mais de um minuto depois daquela cena grotesca, daquela alimentação animalesca, veio um engasgo repentino seguido de violenta quentura no rosto e a pergunta:

— O que você colocou nessa comida?

Shirley não reclamou da pergunta, Shirley sempre obedecia, mas Shirley agora não tinha medo. O pai não sabia, mas Shirley também gostava de idiomas, aprendera francês escondida e sozinha, achava glamouroso. Só gente estúpida pensava que vermelho não aprendia. Não era fluente ainda, mas conseguia se comunicar. Resolveu, então, mostrar que sabia e responder no idioma que mais gostava de falar, com o ar blasé, o rosto inclinado para o alto, o olhar desviado daquele ser abjeto e a mão direita sem cheiro de detergente, suavemente encostada no queixo:

Venin!

O pai não entendeu, mas também não precisava. O prato caiu, a vista escureceu, o coração parou de bater e ele não tinha mais nada a compreender, nada que pudesse fazer. A batata assara finalmente.

Leonardo Valente é escritor, jornalista e professor universitário, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, tem um romance publicado, Charlotte Tábua Rasa (2016), e o livro de contos Apoteose (Editora Mondrongo, 2018), obra finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2018. Entre seus originais inéditos destacam-se A procissão, vencedor do Prêmio José de Alencar 2017, e O beijo da Pombagira, romance finalista do Prêmio Rio de Literatura 2016.

seis poemas do livro ‘Erosão’, de Gisela Casimiro

02 gisela_caparaízes

Tens a altura das raízes
que prendem a terra ao seu eixo.

cicatrizes

Nada as fará desaparecer
por isso chora o que quiseres
sobre as tuas cicatrizes.

Elas limitam a tua invisibilidade
por isso escreve o que puderes
sobre as tuas cicatrizes.

o meu corpo

Este é o meu corpo,
mas ainda não é o meu corpo.
Este já não é o meu corpo
e nunca voltará a ser o meu corpo.
Mas este já foi o meu corpo
e ainda virá a ser o meu corpo.
Este já parece o meu corpo,
mas eu não sei se o meu corpo
ainda se lembra do meu corpo
ou se terá de esculpir outro.

o poema é um campo de batalha

O poema é um campo de batalha, é um corvo. É a senhora que pede esmola sentada à beira das escadas rolantes na estação de comboios e que eu ignoro de cada vez que por ela passo. O poema é a nobreza que essa senhora terá a mais do que eu, é a esmola pura que eu não mereço, sequer, pedir-lhe. O poema é a árvore do cimo da qual eu aprendo que o meu coração tem fundo. Em algumas manhãs, talvez por os anjos se demorarem mais à minha volta, vejo-a da janela do meu quarto e sei: o poema é este comover contínuo. O poema é o caminho que ainda me falta percorrer para o amor que me foi destinado e que se apresenta sob a forma de imagens esbatidas, difusas de quem sei que espera por mim nalgum país distante e que se distingue do que eu habito agora por não bastar um abrir ou fechar de olhos para lá chegar. O poema é o verbo salvar. O poema é a criança que no metro toca acordeão com um cachorro ao ombro, é um quadro. É o pé da minha avó, amputado, é uma nuvem. O poema é o meu silêncio para com o mundo. O poema é como sei que Deus é o ser mais solitário do Universo; é a minha oração, a minha forma desajeitada de fazer-lhe companhia.

mantenha a porta fechada

Mantenha a porta fechada, disseram,
mas a nossa segurança acabou aqui.
Ficou o lixo após a feira.
Ficou o descampado.
Ficou o nojo após o atentado.
E toda a roupa branca nos estendais
me parece manchada.
Um dia a chuva vai voltar,
mas flores de plástico
não precisam de ser regadas.

quando for grande

Quando for grande quero ser polícia
para bater nos pais de outros meninos
em frente aos outros meninos.

O meu pai sempre me disse:
cuidado a quem dás bastonadas.
Nunca dês bastonadas a um preto
senão vão achar que és racista.
Se deres bastonadas a um branco
estarás apenas a ser polícia.

Ainda bem que não somos pretos.
Imaginem se fôssemos pretos.
Já não podia ser polícia.

| poemas do livro Erosão (Editora Urutau, 2018). |

Gisela Casimiro nasceu na Guiné-Bissau em 1984. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas. Participou como poeta convidada no International Young Writers Meeting 2017, na Turquia. Tem textos publicados em português e em turco. É cronista no jornal Hoje Macau, e publicou seu primeiro livro de poesia em 2018 pela editora brasileira Urutau. Faz teatro e fotografia. Vive em Portugal. Site: http://giselacasimiro.tumblr.com/

a mulher que escorreu pelo ralo, de Gael Rodrigues

Aconteceu na primeira semana de junho. José José chegou em casa no início da noite e cansado jogou-se no sofá. Chamou pela mulher, sua mulher, Valquíria. Não veio. Chamou e chamou e ela não apareceu, muito menos respondeu. Uma dos pequenos passou pela sala e alertou ao pai que a mãe devia estar no banho, era

só reparar no barulho do chuveiro.

Isso não é hora de banho, é hora de me receber

e,

maldição, essa mulher está cada vez mais estranha e cheia de quereres.

Quando ele foi à cozinha notou que não havia nada no fogão, sequer na mesa, e deveria haver jantar pronto porque ele chegava sempre nessa mesma hora cansado e com fome. A calma que era quase nenhuma se esvaiu e ele foi ao banheiro. Bateu na porta.

Cadê o jantar,

perguntou enquanto batia, bateu mais e, como ela continuava sem responder, abriu a porta e perguntou pela última vez, e

essa mulher deve estar surda.

Ele afastou a cortina que cobria o box. Descobriu o chuveiro a molhar coisa alguma, apenas o chão do minúsculo banheiro.

Onde está sua mãe,

exclamou e o pequeno ao lado da pequena apenas mexeu a cabeça, ambos assustados, em frente a porta onde o pai se exaltava. E realmente não sabiam, a mãe estava com eles o dia todo e arrumou toda a casa, brincou um pouco depois que voltaram da escola, foram dizendo sem fôlego ao pai, então

ela entrou no banho e

— Estou aqui.

Eles se voltaram para dentro do banheiro. Ninguém estava lá. A mulher não estava lá. Fora também não estava. O homem, antes nervoso, ficou nervoso e assustado, pensando ouvir espírito mas não, os filhos também buscavam com os olhos a mãe e

— Estou aqui embaixo.

Foram em direção ao box do banho. Ele entendeu o que tinha acontecido: Valquíria havia escorrido pelo ralo.

Sai já daí. Vem fazer o jantar.

— Não vou, não.

E não foi. Não saiu mesmo de dentro daquele ralo. Um insuspeitável ralo de inox como cúmplice. Vez ou outra ele voltava lá e a chamava, mandava que saísse, que

tem seus afazeres, seus deveres,

seus filhos estão à míngua,

eu estou à míngua.

Ela respondia que

— Não vou voltar,

_______________— Estou feliz aqui,

______________________________— Feliz como nunca fui.

Depois de um tempo parou de responder, mas ele sabia que continuava lá: podia ver a fumaça que saía do ralo. Continuava a fumar, e ele odiava que ela fumasse.

Vocês estão dando cigarro para ela?

Os pequenos mexeram a cabeça em negativa. Mexiam-se por medo de falar, e o medo que tinham do pai só aumentava e nem era pouco antes que a mãe escorresse ralo abaixo. Aproveitaram um dia em que ele estava no trabalho, juntaram as coisas, poucas coisas afinal eram crianças, não podiam esquecer os brinquedos e o cigarro que mãe pediu. Entraram no banheiro, giraram o registo, o chuveiro encharcou os dois de mãos dadas e desceram pelo ralo.

Quando o pai chegou em casa, e mais uma vez havia chegado cansado, gritou pelos filhos, exclamando

onde está o jantar,

eram eles agora os responsáveis pela casa, e ao não receber nenhuma resposta, além de cansado ficou irritado. Ao ouvir o chuveiro ligado, novamente sabia o que aconteceu.

A mãe pediu que eles ficassem quietos, enquanto o pai gritava por eles, mas o pequeno não se aguentou e riu, riu-se deveras, e a mãe e a pequena também riram porque rir é um processo osmótico.

O pai xingou todos eles, os maldisse e mandou que eles

saiam daí agora,

agorinha mesmo.

Não saíram.

O tempo passou e José José encolheu-se um pouco, penou um pouco, estar só não era uma coisa que estava acostumado ou preparado ou tivesse aprendido então, resolveu que era hora de conseguir outra mulher para botar em casa.

Botou.

Na primeira semana mal lembrava do nome dela, mas na segunda já sabia que era Lourdes, Lourdes moça nova que morava só com a mãe e não tinha muita opção, então casar com José José era

bom sim, muito bom,

a mãe falou querendo que a filha saísse de casa. Era calada, dessas que falavam pouco por ter conhecido poucas pessoas na vida, a língua pouco usada e treinada. Respondia,

sim,

sim,

e

não

e com pouco tempo na casa passou a responder apenas

sim.

Até que numa madrugada, notando o lado da cama vazia, ele se levantou e ouviu a voz dela. Eram tantas palavras que era como ouvi-la pela primeira vez. Falava, ria, contava confidências, segredos de uma vida sem segredos, e calou-se assim que ele a surpreendeu falando sozinha no banheiro.

Com quem você está falando,

bradou e ela fingiu-se de sonâmbula, falando como louca, olhando para o nada e gesticulando com os braços. Voltou para a cama e José José demorou a acreditar, mas acreditou, afinal aquela mulher, que ele havia esquecido o nome mas era Lourdes, não tinha cérebro o suficiente para fingir-se de louca. Devia ser sonâmbula mesmo, e sonâmbula falante.

Não era.

No outro dia, assim que ele voltou para casa, cansado e dessa vez irritado de véspera, notando a casa vazia e silenciosa, ouviu o chuveiro e nem chamou. Já sabia. Derrubou a porta xingando e esbravejando em direção ao ralo simples de inox e de lá pôde ouvir a risadaria e felicidade que os quatro, sem ele, compartilhavam. Não era possível. Não era possível que aqueles quatro estivessem fazendo isso com ele. Sem ele. Era hora de ele descer naquele ralo e trazê-los de volta.

Tirou as roupas, sem certeza das regras que deveria seguir para escorrer, girou o registro, o chuveiro o encharcou e num instante estava ele, conseguira sim, embaixo do ralo.Olhou para os lados e a escuridão o circundava. Podia ouvir o barulho do chuveiro que lá em cima ainda chuviscava.

Gritou pela primeira mulher. Nada. Depois pelos dois pequenos. Depois pela segunda mulher que ele não lembrava o nome mas era Lourdes. Nada. Não havia ninguém embaixo do ralo. A água que caía de cima parou de cair. Alguém havia desligado o chuveiro.

Ei,

ele gritou fraco quase deixando de ser grito,

quem está aí.

Ninguém respondeu, mas ele conseguia ouvir um riso, riso que de início tentou se conter, do pequeno, o pequeno que não precisava mais se conter. Logo depois os quatro riam, em cima, longe dele. Continuou gritando, e gritando, grito transmutado em pedido chamando eles. Antes que ficasse rouco, os risos pararam. Viu os últimos segundos de luminosidade quando taparam o ralo.

Ninguém mais escorreu.

Gael Rodrigues nasceu bode na Paraíba, e hoje metamorfoseado em homem vive em São Paulo. Seu livro Terra Laranja venceu os Prêmios Literários 2017 da Fundação Cultural do Pará como melhor romance. O infantojuvenil A menina que engoliu o céu estrelado foi finalista dos prêmios CEPE 2017 e Barco a Vapor 2018.

quatro poemas de Ricardo Silvestrin

paisagem nº 3

ainda não é noite
mas o sol já se foi
o canto esparso dos pássaros
reivindica o último azul
a célula fotoelétrica na beira da casa
os postes ao longe ao longo da rua
acendem ao comando da primeira estrela

logo o mar reflete a lua
deserto da agitação dos banhistas
ensimesmado, mar calmo, profundo
faz seu acerto de contas, de conchas
de ondas e ondas e espuma

um trilho de prata entre as vagas
sobre ele caminha Iemanjá
mas vai tão pequena
de manto azul noite
que nenhum telescópio consegue enxergar

só o pescador que lançou sua rede
o boto, a enguia
e mesmo a estrela do mar (estrela-guia)
vão dizer — salve, dona das águas,
__________salve, nossa rainha!

s/título

mais um passarinho
que eu não conhecia
canta no poste
e quase digo:
bom dia

o rabo-de-palha
pousa ao seu lado
e faz coro
esse é velho conhecido
se não é o mesmo
é muito parecido

chega um de peito amarelo
com canto estridente
um canto-martelo
no ouvido da gente

ficam os três
por segundos
cantando
como não subo
saem voando

s/título

dois ritmos em disputa
o mar e meu pensamento
o mar maior
logo vence a luta
e me sento lento lendo

no imenso silêncio
que se abre por dentro
o canto do pássaro
o canto do vento
o tempo desacelerando
momento a momento

a Terra é redonda, comprovo
há céu por todo lado
tudo termina e começa de novo
na velocidade da onda

pego a estrada
e volto à metrópole
(depois de oito dias)
eu
que de mais nada precisava
além de conchas e quilhas
estou outra vez cheio
de quinquilharias

quando um mar de afazeres
invadir a hora pequena
trouxe na memória uma cena
pra acalmar minha ira:
deixo a onda passar
enterrado na areia
como vi fazer
a tatuíra

bate e volta

1 (09:50/11:30)

entramos na cidade pelo mar
lá do alto eu via
a faixa de areia
o planisfério vivo
ruas riscadas e casas
até que os edifícios se erguiam
mas não roçavam nossas asas

viemos do oceano
das montanhas
vagamos entres nuvens fantasmas

com olhos fartos de azul
descemos do céu
o que, constatamos,
não é privilégio de deus

2 (20:50/22:30)

quero levar estas jóias para minha esposa
imenso porta-jóias luzindo
contra o céu escuro
veja, Thomas Edson, aqui de cima
com quantas lâmpadas se faz uma cidade
com quantos desconhecidos se faz uma nação
com quantas estrelas se faz o infinito

e com uma gota de sol se acende uma lua

veja, Santos Dumont, o passageiro ao meu lado
adormece coma biografia de Steve Jobs no colo
e nem vai lembrar de você
quando estivermos no solo

| poemas do livro Metal (Editora Artes & Ofícios, 2013). |

Ricardo Silvestrin é autor de dez livros de poesia, um livro de contos, um romance e oito livros de poesia infantis. É músico e lançou o EP Duk7. Também integra a banda os poETs. É formado em Letras pela UFRGS. Site: www.ricardosilvestrin.com.br