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quatro poemas de Davi Koteck

não apenas mastigar
salivas queimadas e o gosto
de fórmica no canto da língua
você dirigindo na contramão
com os faróis apagados
é noite e
enfrentamos fantasmas feitos de areia
há muito pela frente
tudo que me for possível, ou menos

* * *

antes de partir me conta
sobre teorias absurdas
a psicanálise selvagem
lê os poemas da tua vida
e se não souber dizer
escreve um agora
conta sobre a tua infância
um barco pequeno e branco
o guaíba pintado de blues
os amores descascados
mapeia tuas cicatrizes
mais de mil vezes
até que eu possa contar tudo de novo pra ti

* * *

viajo porque preciso volto porque te amo

sentamos no chão do aeroporto
imaginando destinos prováveis para
o resto dos passageiros
você com a mala pequena
uma caixa de sapato enterrada
com segredos embaixo da terra
quem irá abrir um clube de jazz
na periferia de Paris
quem visitará um filho perdido
no dia dos pais
o título daquele filme que assisti
num dia cansado
se você for mesmo olha para trás
repetiremos outra cena comum

* * *

e se acordasse dizendo
que não sinto mais tua falta
e se só sentisse saudade agora
do teu gato amarelo e gordo
ou da maneira que você se concentra
em frente ao computador
mas não de você
de gritar mazel tov quando a louça quebrar
ainda que agora eu só use copos descartáveis
e mesmo que agora eu só beba água da torneira
hoje é o terceiro dia que acordo sem sede

Davi Koteck nasceu em Porto Alegre (RS) em 1995. Publicou o livro O que acontece no escuro (Editora Taverna), e participou da antologia Qualquer Ontem (Editora Bestiário). Tem contos e poemas publicados na São Paulo Review, Ruído Manifesto, Etudes Lusophones (França), Revista Travessa em Três Tempos, Mallarmargens, e outros. Edita a Revista Rusga. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel (Editora 7letras, 2020) é sua estreia na poesia.

três poemas de Everardo Norões

fractais

Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).

A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.

a música
Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…

pampas
Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.

Everardo Norões nasceu no Crato, Ceará (Brasil). Viveu na França, Argélia, Moçambique. Atualmente reside em Portugal. É autor de vários livros de poesia, entre os quais A rua do padre inglês, Retábulo de Jerônimo Bosch e Poeiras na réstia. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais o Portugal Telecom da Língua Portuguesa 2014 pelo livro de contos Entre moscas. Publicado em várias revistas literárias, como Granta (edição brasileira), Gare Maritime e Bacchanales (França), Quimera (Espanha), Martín (Peru), entre outras. Seus poemas foram traduzidos em francês, inglês, italiano, espanhol, catalão e quíchua.

três poemas de Luamba Muinga

estes caminhos do medo
Pelas manifestações em Luanda

Agradecemos a formação de pessoas à rua
Agradecemos o medo formado e o fulgor tomado;
o retrocesso circunspecto que não se suporta tenderá ao irreal, ao feroz segredo
E os prisioneiros da tarde ascenderão heroicos quando brotar a noite limítrofe
E os opressores por estes caminhos do medo saberão que a fome não se vence somente com a cantata e a poesia.
E os canais das sarjetas formarão suas secretas fontes enquanto pela fronte ninguém passa
Por este alvorecer de jubilo e caça.

a mulher do bar

“Está fechado”, dizes. Mas eles batem.
Não batem apenas a porta de um bar fechado, batem também a porta do teu cansaço, da tua inconstância e do teu medo latente.
Batem e desfazem a força do cigarro que o teu filho pedirá para apagar quando for manhã, mas ainda assim o fumo circunda-me enquanto deixamos um bar fechado, sem a alma brilhante da madrugada.
Batem enquanto repuxas lembranças tuas ao meu ouvido,
Batem enquanto me pedes o sexo e eu calado para te não molestar ainda mais.
Batem e eu me pergunto pela impermanência desta intimidade (fechamos o bar?)
Continuarão a bater mesmo que já tenhas aberto o teu quarto a um tipo que apenas te ouviu.

Batem porque é a policia quem ordenou.

funeral para um elevador

O mijo que suplanta o beijo
O medo na encosta da rodovia
As salas das prisões que refreiam a crueldade
A ternura dos missionários católicos
A decifração da idade que embeleza a juventude na sua brava crença
Os campos límpidos e cultivados pelos sangues inocentes
Serás tu que negarás a beleza da baba dos recém-nascidos e aceitarás o seu crescimento, o passo seguinte, mas negarás a sua idade adulta, a adolescência fervente, pois são fezes fora do teu fruto.
O sofrimento das religiões e o suborno de uma branda adoração, o que te servirá?
Campos límpidos retratados nas pinturas holandesas, e ninguém te lembrará que no vidro dos elevadores perdem todos os sentidos

Luamba Muinga nasceu em Luanda, Angola, na última década do século XX. É crítico cultural, produtor e também curador de arte. É cofundador da revista eletrónica Palavra&Arte, centrada na produção artística emergente em Angola. Em 2018 dirigiu o minidoc Capitães Vulneráveis — A vida de crianças em situação de rua. A sua produção artística passa pela prosa, poesia e textos performáticos.

três poemas inéditos de Laura Erber

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Laura Erber ©

circunstância da luz

estamos voando em círculos
os pássaros também
presos
nos feixes de luz
exaustos
sem saber
que rodeiam
a própria morte

tartarugas perderam o horizonte
ao nascer ficam tontas
desbussoladas
vão errantes pela praia
morrem demais

não só a falta
o excesso
de luz
também
liquida
diz a cientista das estrelas
diz o guardião da noite escura
diz o vendedor de um novo tipo
de luz amiga das tartarugas
diz o pesquisador das consequências do azul no olho
diz a especialista em ossos de passarinhos
diz o homem contra postos de gasolina
mais claros que a luz do dia

aquela noite em Budapeste
agora sei
não eram morcegos
em dança notívaga
mas bandos de pássaros
presos na luz dos holofotes

por inépcia
dificuldade
ou cálculo
as coisas mudam
bem devagar

uma cigana me disse
nem sempre vale mais
o que magoa menos
vi estrelas tatuadas no seu braço
foi na Avenida Rio Branco
antes de uma grande inundação

o mundo tem tantos problemas
a poeta nem consegue ser boêmia
abstratora sismógrafa coletora
de quintessências fenomenais

não quero falar dos bichos abatidos
mas da raposa-poema
nascendo noite após noite
das páginas de um livro

vem e pousa ao meu lado
vamos ver as hortênsias
o opala da noite
o sentimento modulado
o ano inteiro
a vida inteira

outras circunstâncias

o poema depende
de coisas pequenas
conseguir
esperar
ver
o animal saindo
da fábula real
tabaco prosa
raposa ao relento
passos de veludo
o melro derrotado
dentro de um quadro
coisas girando
no desespero
de outro livro
tudo depende
de pequenas coisas
um olho machucado
intensidade do talvez
o animal pequeno
rasgando o poema
enrolando nomes
em folhas de tabaco

você também vai flutuar
sumir do filme
irretocável do que quase
nada segue sendo sempre
espera
inundação
estrago
dedo enfiado na ferida
todas as palavras
que trocamos
moedas sujas
o poema não depende
de nós
de mão em mão
as imagens
voltarão a circular
entre o fosso e o postigo
depois do fim do tempo
das coisas girando
guerra do doce
contra o amargo
a impressão de tudo
se apagando ao redor
até discretamente
sumir
sumiremos também
nas letras
furos
no alfabeto

versos de circunstância

gosto quando nas aulas
alunas desatentas
despertam do profundo cansaço
como deidades muito antigas
em ondas de sobrevivência
a vida numa certa idade se parece um pouco ao cansaço mítico
— um comboio comprido passando depressa
mas devagar demais depressa —
e dizem de uma só vez toda a verdade
sobre os textos que não leram
(uma amiga diz que
coisas mágicas acontecem
em sala de aula
mas também coisas súbitas
como pessoas
pedindo licença ajuda
mostrando cicatrizes
receitas
e depois sumindo
para sempre)
gosto quando nas aulas
alunos muito atentos
fazem as perguntas
que mais gosto de fingir
saber responder
o que é anacronismo?
o que significa signo?
gosto quando nas variações da vida
que são as aulas
me perco no meio de uma frase
perco todas as palavras
peço ajuda às alunas cansadas
distantes em seus comboios
infinitos vagarosos porém frenéticos
e ninguém ousa dizer
professora não temos a vida toda
ande com essa frase precisamos dormir
fazer xerox sofrer
transar e outras coisas
menos palpáveis
voluptuosas
ande com isso que não temos
a menor ideia da sua ideia
de frase
às vezes me salvam dos lapsos
às vezes me jogam dentro deles
um pouco mais
profundamente
às vezes não quero ser salva
há dias — todos os dias — em que sei que sou
o professor de natação
sem água

Laura Erber nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É escritora, editora e pesquisadora. Publicou Os corpos e os dias (Editora de Cultura, 2008), A retornada (Relicário Edições, 2016) e Theadoro Theodor (Editora Quelônio, 2018). Dirige a Zazie Edições, editora independente, sem fins lucrativos, que publica livros digitais em sistema de open access. Atualmente vive em Copenhague.

novena para rezar gritando, poema inédito de Jozias Benedicto

As mãos dele, ensanguentadas, sujas.
Com muita revolta quero gritar
a morte tão sofrida e dolorosa
de todos estes e de muitos mais:

A morte da empregada doméstica prestativa
É dele
A morte do feirante engraçado
É dele
A morte do desenhista de histórias infantis
É dele
A morte da atriz de novelas, aposentada
É dele

A morte do maior escritor do país
É dele
A morte do jornalista, radialista e advogado
É dele
A morte do político reacionário
É dele
A morte da dona de casa entediada
É dele

A morte do segundo maior escritor do país
É dele
A morte da criança autista do prédio ao lado
É dele
A morte do político progressista
É dele
A morte do político centrista descentrado
É dele

A morte da pastora e cantora gospel
É dele
A morte da médica pós-graduada
É dele
A morte do maestro e da maestrina
É dele
A morte do surfista e ator pornô tatuado
É dele

A morte da artista obesa e diabética
É dele
A morte da socialite enturmada
É dele
A morte do segurança do metrô com três filhos
É dele
A morte do sem-teto esfomeado
É dele

A morte do empresário bem sucedido
É dele
A morte do economista renomado
É dele
A morte do sogro de meu melhor amigo
É dele
A morte do porteiro bem apessoado
É dele

A morte da sonhadora professora de inglês
É dele
A morte do poeta premiado
É dele
A morte da mulher do galerista
É dele
A morte do cirurgião plástico conceituado
É dele

A morte dos padres de nossa senhora aparecida
É dele
A morte do compositor visceral engajado
É dele
A morte do programador de computadores
É dele
A morte do halterofilista bombado
É dele

A morte do neto de meu colega de trabalho
É dele
A morte do filósofo aburguesado
É dele
A morte do rápido motoboy
É dele
A morte da modelo siliconada
É dele

A morte da mãe do prefeito eleito
É dele
A morte do estudante descuidado
É dele
A morte do idoso que eu via pela janela
É dele
A morte da gerente de RH estressada
É dele

A morte do artista visual modernista
É dele
A morte do motorista descompensado
É dele
A morte da avó da primeira-dama
É dele
A morte do adolescente ensimesmado
É dele

A morte do compositor de samba enredo
É dele
A morte do dramaturgo desbundado
É dele
A morte da cantora intimista
É dele
A morte do caixeiro viajante desempregado
É dele

A morte de tantos e tantas iguais a mim ou a você
É dele
Cada morte
Cada uma destas mortes
É dele

(Repita mais de 200 mil vezes e mais e mais
E grite
Use sua indignação ou desespero
Sua raiva
Sua voz
Como uma arma
Até que o amém se transforme
De “assim seja” em “assim não seja mais”,
nunca mais)

Jozias Benedicto é escritor e artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Tem especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Suas videoinstalações, performances e pinturas que unem literatura e artes visuais foram apresentadas em seis mostras individuais e em exposições como a XVI Bienal de São Paulo e o Salão Nacional de Artes Plásticas. Atua também como curador independente. Seu primeiro livro de contos, Estranhas criaturas noturnas, foi finalista do Concurso Sesc de Literatura 2012-2013. Como não aprender a nadar conquistou o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais 2014 (Contos) e o Prêmio Moacyr Scliar 2019, da Diretoria da UBE-RJ. Recebeu premiações da Fundação Cultural do Pará (2018) por Um livro quase vermelho e da Fundação Cultural do Maranhão (2018) por Aqui até o céu escreve ficção, publicado pela Editora Patuá em 2020. Além disso, publicou dois livros de poesia, Erotiscências & embustes (2019) e A ópera náufraga (2020), ambos pela Editora Urutau.

quatro poemas de Cândido Rolim

círculo

Vale dizer o mesmo
círculo turvo de conjeturas
a exaustiva prática dos mesmos
atos tipo andar
criteriosamente em círculo sem
ir a parte alguma repetindo
olhando mesmo campo
o cumprimento automático do
mesmo percurso nada disso é
privilégio dos encarcerados

anti estirpe

Nem pai nem filho
nem as ínguas do pai
nem gorgulho da prole
nem testa de casta

Nem natureza materna
nem mácula de finado
nem blindado na lisura
de ascendente invocável

Nem perspicácia avoenga
nem padrão de laico
nem semente de víbora
ou vitalícia bondade

Nem exemplo de fibra
nem próximo ao abastado
nem enfeite de mobília
tampouco besta de carga

estofo moral do desjejum

Sente o ouro da migalha
na mesa reservada onde
ceiam mandonas pós modorra
vincos roçando os
espaldares

Repare a prole roliça
pervagueia entre rações
balanceadas de inúteis
advertências
tudo cintado a um
jugo invisível de ante
pasto

fui

Aquele menino a quem o mestre
vicente duba guardava aos pés
das fornalhas do engenho
para lhe contar piadas impróprias
palavrões desaforos — tudo em
troca da imagem crepuscular de
sua corcunda sob o vapor
adocicado das caldeiras e
a risada quase sem dentes

Cândido Rolim nasceu na cidade de Várzea Alegre, interior do estado do Ceará, nordeste do Brasil, em 1965. É poeta, crítico, fotógrafo e músico amador, reside atualmente em Fortaleza. Alguns livros publicados: Arauto (1988, Editora Dubolso, Sabará-MG), Exemplos alados (1997, Editora Letra & Música, Fortaleza-CE), Pedra habitada (2002, Editora AGE, Porto Alegre-RS), Fragma (2007, Editora Secult, Fortaleza-CE), Camisa qual (2008, Editora Éblis, Porto Alegre-RS), Orumuro & Remerzbau (2017, Editora Butecanis, Florianópolis-SC), em parceria com Ronald Augusto e Ricardo Pedrosa Alves, e Sutur (2018, Editora Texto Território, Rio de Janeiro-RJ), Miniaturas, Carnaval Press, Londres, 2018, tradução ao inglês por Virna Teixeira e Piedra Habitada, Amotape, Lima, Peru, 2013, tradução de Oscar Limache e Alfredo Ruiz.

quatro poemas de Felipe Pauluk

poema em três partes, mas é um só

escalando o tempo provisório
a mão salta para pedra mais próxima
do meu olho que te afaga
e tudo vira saltos e agulhas
ou salto-agulha
e entra pela minha veia da testa
e escreve teu nome
em uma hemácia
e pronto
abarrota meu sangue
infla meu peito

nem todo caminho de volta
é uma trilha do passado

era o que eu queria escrever
quando falei sobre o tempo

penicilina do diabo

dos corações
sangram grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na cutícula
minhas costelas dão corda no tempo
& os dedos cravam na carne de uma carpa virtual
nas entranhas encontro você
nas ovas têm um bebê-deus e um estado laico
eu fabrico poesia aos sábados
dentro de uma mesquita que me devora em sexo
todos os ratos desta cidade
dizem coisas boas sobre teu nome
a penicilina do diabo
é a saudade que mora entre o crânio e a poesia
como um cordeiro imolado
meu coração sangra grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na tua cutícula [f.p.]

crua

a risada mais crua do que nua
tão crua que se vê o vazio
um pouco de espaço
entre as paredes
e o cinza engolindo
o azul do teu olho esquerdo

nunca a solidão foi tão bem pintada
por você
sem tela alguma
sem carros ou cavalos
prédios ou vidros embaçados

a coronha da tua saliva
esfarelando a maça do meu rosto
dando cabo ao vento
e chão aos aviões

nunca a solidão foi tão bem pintada
por você

minotauro

se o tempo
me é gastura
e para o mel da tua boca
não me há o tempo
erroneamente existo

dissolvo-me em cigarros
como um deus-menino
descalço no ladrilho da sala de jantar
cometendo o crime do resfriado
pneumonia de ti

ancoro meus navios-tristezas
em lombos de minotauros
medo me assola
nesta barriga gélida
solidão do demônio

Felipe Pauluk é um curitibano residente em Londrina, jogou na loteria da vida e, numa quina, tirou o menor prêmio, a literatura. Lançou seu primeiro livro, Meu Tempo de Carne e Osso, em 2011. Hit The Road, Jack, romance, em 2012. Em 2015, Town, outro romance. Comida di butequim e Tórax de São Sebastião foram seus dois livros de poemas publicados em 2016. Em 2017, lançou pela Bar Editora Manual Prático de Perna Mecânica para Cantores. Felipe também é roteirista.

o trovador de Toledo, conto inédito de Rosângela Vieira Rocha

Descabelada, com roupa de casa, os pés enfiados em chinelos de borracha, ela desce o morro lentamente. A calçada é muito estreita e tem de se agarrar às paredes dos prédios, para não cair. O declive acentuado faz com que ande quase agachada. Mas não é só por causa do declive que se encolhe. Sente cólicas fortíssimas e sangra. As pontadas fortes provocam-lhe tonturas. Ou seria uma queda de pressão? Sua pressa a impedira de pegar o estetoscópio no armário. Justo ela, que mede a pressão arterial alheia o dia inteiro, como médica residente numa clínica.

Essa caminhada não rende, constata, com desgosto. Ainda faltam uns quatro ou cinco quarteirões. Sempre achou o hospital perto, e se vangloriava com os amigos de morar nas proximidades de um hospital público. Mas essa é uma noite diferente de todas as outras, a mais triste que já teve. Como pôde chegar a isso? Que decadência. Então, a mulher valente tem medo da mãe, em plena década de sessenta? Palavras duras ainda ressoam por todo o seu corpo: você me traiu, Adriana, com essa gravidez prematura. Não foi esse o trato que fizemos, quando prestou o vestibular. Eu me propus a ajudá-la a realizar o seu sonho, pagaria parte das mensalidades da faculdade, compraria aparelhos, e futuramente você auxiliaria a sua irmã menor. Mas agora, pondo no mundo uma criança antes de ter marido, como vai ajudar a Aninha? Que vergonha, engravidar sem ser casada. Você é uma traidora, não tem palavra, não levou o nosso trato a sério. Solteira e grávida, que horror. Não criei filha para fazer esse papelão. O que vou dizer à sua avó, às tias, à família toda? Que minha filha mais velha não tem vergonha na cara? Mas eu não vou me vingar, quem vai se vingar por mim é Deus, não vou precisar levantar um dedo. Sabe como? Você nunca, mas nunca, nunca será feliz.

Um forte arrepio toma-lhe o corpo. Sente frio, o tecido do seu vestido caseiro é muito leve, e venta. Ouve ruído de trovões, enquanto vai se arrastando, ladeira abaixo. O sangue escorre pelas pernas, não pegou nem sequer um absorvente, tal a pressa com que saiu de casa. Há quantos dias tinha ocorrido aquela conversa? Uma semana, talvez? Não consegue se lembrar, tenta fazer contas, mas as agulhadas fortes não a deixam pensar direito. É uma hemorragia, agora há sangue ao redor de si, vai deixando um rastro vermelho pelo caminho. Ainda bem que está muito escuro, é tarde e não há mais gente na rua.

Ao dobrar a esquina, percebe haver uma festa no enorme casarão cor-de-rosa. Felizmente as árvores de acácias, carregadas de flores amarelas, a tornam invisível. É uma comemoração ao ar livre, que parece muito animada. A música alta contrasta com o silêncio da rua. Reconhece a voz de Gilda Lopes, bonita e límpida:

Nas noites enluaradas
Na formosa Toledo
Alguém esconde em segredo
Um amor proibido.

Sente-se cada vez mais fraca e as dores fortes provocam-lhe enjoo. Decide contar os passos, para ocupar a mente com algo diferente das cólicas. Sabe que precisa de força, faltam ainda dois quarteirões para chegar. E se encontrar algum colega por lá? Tenta se lembrar se alguém da sua turma faz residência naquele hospital, mas não consegue. Sente mais frio ainda ao cogitar essa possibilidade. As arrogantes Marluce e Sara não trabalhavam ali? Não, agora estão na clínica São Guido, lembra-se. E o Zeca? Que bobagem, está fazendo confusão. Zeca é filho de gente rica, foi estudar na Europa. A simples lembrança de Zeca a faz vomitar ali mesmo. Foi apaixonada por ele no início do curso e rejeitada sob a alegação de que “tinha pernas finas demais”. Mal-educado e cruel, aquele bigodudo. Disse aquela frase completamente dispensável sem anestesia nem nada. Assim, de repente, no terceiro ou quarto encontro. Pernas finas demais! Não argumentou, de tão chocada. Foi a última vez que o viu, a partir daquilo não mais o enxergou. Tem essa propriedade, a de não ver mais quem a fere.

Resolve descansar um pouco sob um dos galhos de acácias. Preciso adquirir forças, tenho de continuar, sua mente grita. Mas o corpo, este deseja ficar esticado ali, coberto com o vestido ensanguentado. De repente, um casal sai da casa, caminhando até o carro. O homem está com uniforme da aeronáutica, cheio de comendas. Deve ser um brigadeiro. Se tivesse coragem, pediria uma carona até o hospital. Mas empapar a poltrona do carro dos outros de sangue? Responder a perguntas de um militar? De alguém de patente tão alta? E se acabar presa, como o filho de dona Gertrudes? Melhor ficar bem encolhida ali mesmo, até o homem dar a ré no Ford Galaxie branco e partir.

O trovador de Toledo
Pelas noites escuta
E toda gente pergunta
Qual será o segredo
De uma janela apagada,
De um balcão deserto.

Esforça-se mais um pouco. Agora, anda praticamente de gatinhas, sentindo enorme fraqueza. Devo ter perdido sangue demais. Certamente vou precisar de transfusão, raciocina. Grossas gotas de chuva começam a cair. Era só o que faltava para piorar as coisas. Se o chão ficar escorregadio, talvez seja melhor tirar as sandálias de dedo. É provável que machuque os pés, nas pedras irregulares da calçada. Mas ainda assim é melhor que uma queda, decide. Em poucos minutos a chuva se transforma em tempestade. Mas agora falta apenas um quarteirão.

Tenta pensar num show de Gilda Lopes, chamada a “Fabulosa”, a que assistiu certa vez. Tão bonita era a cantora, que não sabia se prestava atenção na voz belíssima ou na figura da moça. Sempre invejou quem consegue sustentar sons agudos, ela com sua voz grave e rouca. Mas Gilda é cantora de óperas, relembra. Tem uma técnica muito apurada e é soprano.

A chuva lavou o vestido ensanguentado, grudado ao corpo. Sente-se nua, assim descalça e mal coberta pelo pano fino. Uma residente do curso de Medicina, quem diria. E chegarei ao hospital como uma mendiga, molhada e descalça. Encontrarei alguém conhecido por lá? Um colega, um professor? Terei de preencher formulários, responder a perguntas. Como poderei provar que não provoquei isso? Será que minha palavra bastará? Avisarão à polícia? Tenta se lembrar do protocolo, já estudou os procedimentos em várias disciplinas, embora nunca tenha se interessado por ginecologia. Tudo que encontra é o branco, o vazio. Não se recorda de nenhuma vírgula do protocolo. Desde o início do curso sua paixão pela endocrinologia tinha sido tão forte que só pensava em hormônios. Como pode ter se esquecido de algo tão primário?

Continua a andar, agora ainda mais devagar, chapinhando na enxurrada. Chora. Esse sangue expulso de suas entranhas seria de um menino ou de uma menina? Que pena, o rosto, o corpinho, nunca se formarão. Ela não o queria realmente, mas jamais faria aquilo de caso pensado. Bebê, me perdoe. Não estou à sua altura, não soube lutar por sua vida, me deixei levar pelas circunstâncias, o medo me consumiu. Não pude retê-lo, meu corpo e minha mente o rejeitaram, eu não soube vencer o mundo. Sou fraca, meu bebê.

Já consegue avistar o imponente prédio branco. À medida que se aproxima, a voz da mãe vai aumentando de volume: você me traiu, não cumpriu o trato. Nunca será feliz. As palavras duras causaram feridas fundas, mas não a impedem de continuar o caminho. Posso até não ser feliz, fala alto. Mas daqui a pouco me farão uma curetagem, provavelmente passarei por transfusão de sangue, tomarei soro e ficarei internada pelo menos quarenta e oito horas. A felicidade é sempre transitória. Agora, a urgência é estancar a hemorragia, não ter infecção e permanecer viva. Vestir roupas enxutas, aquecer-me com um cobertor, sair da chuva e da escuridão, tomar antibióticos receitados corretamente e quem sabe um prato de sopa quente, quando puder.

Finalmente, chega ao grande portão do hospital e dirige-se ao pronto socorro. E logo é atendida por uma colega idosa, que não lhe faz muitas perguntas. Após a curetagem, a colocam numa cama limpíssima, na enfermaria. Antes de se render ao torpor provocado pelos medicamentos, pensa na mãe e em sua maldição. Sabe que até as pragas das mães têm limites, não valem para sempre, e não é por serem nossas mães que se transformam em pitonisas. Adormece ao som da voz de Gilda Lopes:

E uma janela apagada
é o que restou, mais nada,
dentre as lembranças que a noite
consigo guardou um dia.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente (Editora Arribaçã, 2020). Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.