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quatro poemas de Roberta Tostes Daniel

s/título

A batalha começa
nas duas crateras
do meu rosto.

Quieta
é preciso
incidir

sobre o
hostil

com o impulso de
Tales
navegar

todas as coisas.
Órficas, Sáficas —

o tempo ancestral
é a semente de que preciso

para tanger este lado impossível
e presente

que não é retroceder
à anti-paisagem humana.

Achar um nome
pras coisas duras

ainda menores que dores.
Ao mundo diminuto

me resta esburacado
o rosto

o fosso da boca
incapaz de mapear

as avarias do poder.
Ao desértico de um corpo

que se sabe pórtico
e ouviu: você me abre

os braços e a gente
faz um país

entrincheirado
do lado de cá

do outro lado do mundo.

fenomenologia

Não há nada sendo dito dentro do costume.
O hábito é um império extinto
e sem arejamento.
O costume não tem irmãos
mas correias que prendem Anaxágoras
ou as mãos do homem que pensa
e pensa porque tem mãos
desfeitas para o hábito.

órion

Falo de um mundo decadente
concluído na emancipação do sangue
um mundo sem nome
um mundo sem mim
onde pouso, pairando
minha própria decadência
espécie fúlgida
desalinhada em dedos
veias abertas da entrega
possuída.

s/título

Encontro a nudez
com que vestir
este nada:
velame de horas
e êxtases
— teresas ávidas;
e pés que naufragam
este tempo insondável.

Roberta Tostes Daniel é poeta, autora de Uma casa perto de um vulcão (Ed. Patuá 2018) e Ainda ancora o infinito (Ed. Moinhos, 2019). Tem participações em coletâneas e revistas literárias, impressas e digitais. Blogue [link]

carta para vovó, de Rodrigo Novaes de Almeida

“O céu está alegremente salpicado de estrelas cintilantes, e a Via Láctea destaca-se com tal claridade, como se antes da festa alguém a tivesse lavado e esfregado com neve…” (em “Vanka”, de Anton Tchékhov)

Rosana Batista era uma menina de onze anos quando fora entregue para uma família de classe média alta de São Paulo. Naquela noite ela chorou mais uma vez no quartinho sem janelas da área de serviço do apartamento. Sentia-se sozinha e abandonada. Encostou a porta que dava para a lavanderia e pegou sob o travesseiro o bloco de papel, a caneta Bic e o envelope que furtara de uma gaveta da sala de televisão.

“Querida vovó Lurdes Batista” — redigiu ela. “Escrevo esta carta para pedir à senhora que venha me buscar”.

Rosana parou e olhou para o papel. Releu a primeira frase. Respirou profundamente e enxugou as lágrimas.

“Estou nesta casa há três meses, eu acho. Não sei muito bem. O senhor e a senhora Freitas me tratam muito mal. Eu vi quando eles prometeram à senhora que eu teria estudo aqui, eles chegaram sorridentes na cozinha da fazenda do senhor Vieira, disseram que ali eu seria um peso depois que mamãe morreu e que o meu futuro estava na capital, com eles e com seus dois filhos, eu seria a filha que eles não tiveram…”

A menina imaginou a avó na cozinha fazendo as comidas que o senhor Vieira adorava, o cheiro da lenha e da manteiga derretendo, do pão no forno. Ela pensou em pegar alguma coisa para comer na geladeira, mas se lembrou da única vez que fez isso e da surra que levou da dona da casa, senhora Márcia. Era ela quem fazia seu prato diariamente e não podia comer nada fora das três refeições. Mais lágrimas escorreram pelo seu rosto. Rosana as enxugou e continuou a escrever:

“Vovó, a senhora Márcia é uma bruxa, ela é muito má comigo. Ela me acorda para eu arrumar as crianças para ir para a escola, depois me obriga a varrer a casa e a passar pano nos móveis. Outro dia deixei cair e quebrar alguns copos, ela gritou comigo e disse que eu pagaria por eles, que eram caros. Ela brigava comigo com um caco de vidro na mão, achei que fosse me cortar”.

“Ah, vovó, a senhora sabe que não sou de reclamar das coisas, que eu a ajudava na cozinha, eu varria o chão para a senhora, por causa da sua dor nas costas, lembra? E a senhora me dava aqueles pães maravilhosos que preparava para o senhor Vieira. Era tão boa a vida na fazenda, mesmo depois que a mamãe morreu daquela doença terrível no pulmão. Foi tudo tão rápido. A tosse que não parava, depois o sangue, aí ela foi para o hospital e não voltou mais. Sinto muita falta da mamãe, e da senhora também. Eu sei que achou que era o melhor para mim, mas eu tenho medo de morrer se ficar aqui”.

“As crianças são pequenas, o mais velho tem sete anos e o caçula, cinco. Eles gostam de mim, mas eu não posso brincar com eles. Eu não posso brincar com ninguém. E que falta eu sinto! O Pedrinho, filho do seu Antônio, como ele está? Ele ainda vai mergulhar no açude? Aqui no prédio tem piscina, eu vi da janela outro dia. Não posso descer. Não posso sair do apartamento”.

Rosana suspirou e se lembrou dos passeios que dava até o açude depois da escola com o Pedrinho, filho do administrador da fazenda. Os dois atravessavam um bosque de pinhais, e no verão a sombra das árvores refrescava seus corpos e era sempre muito agradável. Éramos tão felizes, pensou a menina, com lágrimas escorrendo na face outra vez.

“Saí apenas uma vez nesses meses que estou aqui para ajudar a senhora Márcia a levar as crianças num shopping” — continuou. — “Eu nunca tinha visto vitrines tão iluminadas, pareciam aquelas luzes que colocamos na varanda do casarão nas épocas de festas em junho. E São Paulo é tão grande, tão cheia de carros. Os prédios são altos e as pessoas são muito ricas, mas vi também na rua quando passamos de carro algumas pessoas pobres deitadas na calçada. É triste demais, vovó. Tudo aqui é triste demais. E eu estou com muito medo. Não é somente da senhora Márcia. É do senhor Carlos também. Acho que tenho até mais pavor dele do que dela. Ele sempre me olha de forma estranha, e outro dia ele deu um tapa no meu bumbum e disse que eu era crescidinha para onze anos. Eu nunca tive tanto medo em toda a minha vida”.

“Vovó amada, por favor, eu suplico à senhora, venha me buscar. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, não me abandone. Tem dó de mim, vovó. Serei sempre sua netinha, Rosana.”

A menina soltou o papel do bloco, dobrou e colocou dentro do envelope. Guardou tudo sob o travesseiro. Precisava agora arrumar um jeito de colocar a carta nos Correios. Lembrou-se que faltara algo. Pegou novamente o envelope e a caneta e escreveu:

“Para a vovó Lurdes, na fazenda do senhor Vieira”.

| publicado originalmente na Revista Philos, setembro de 2018. |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside em São Paulo. Autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.

a carta de Glória, de Paula Bajer

capa_bajerGlória, de intensa beleza.

Filha única. Criada a mamão com açúcar e farinha láctea. Estudou em colégio de freiras. Aprendeu balé. Sempre gostou de português, literatura e história.

Em 1975, completando vinte anos, estudante de direito, participava de grupos secretos de leitura e estudos. Lia textos censurados. Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho.

Os pais desconfiaram. Aquilo não ia dar certo. As pessoas que expressavam opiniões contrárias ao regime estavam sendo presas. Disseram e avisaram mil vezes.

A mãe implorou: sai disso.

Mas não se pode nem ler?

O pai era professor de matemática. A justiça dele era a dos números, representada pelo sinal de igual. Glória logo percebeu que, na vida, nada era igual. O pai sabia contar e os resultados de qualquer operação eram sempre negativos. Até mesmo pra ele, um homem triste.

Glória lia porque o mundo era quente e seco ao redor. Ela queria ar.

Não se conformou quando Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, foi censurado. Em 76, proibiram até Romeu e Julieta, do grupo do teatro Bolshoi, na TV. Proibiram Shakespeare.

Como alguém pode proibir Shakespeare?

Mataram Wladimir Herzog e ela foi ao ato ecumênico na Praça da Sé. Não conseguiu entrar na catedral. Ficou fora, mas cantou “Caminhando e cantando”, de Vandré.

Chegando em casa, encontrou a mãe chorando. Aquilo tinha que terminar. Por que ela não viajava um pouco? Podia ir à França.

Brasil, ame-o ou deixe-o? Tinha dúvidas.

Gostava de ouvir “O que será que será” (nas três versões).

À noite, no quarto, lia textos que circulavam, manifestos mimeografados.

De manhã, ia para a faculdade. Os professores de direito não falavam sobre ditadura. No máximo, discursavam sobre as várias acepções da palavra liberdade, como se liberdade fosse um conceito abstrato. A liberdade era um conceito real, físico, ela achava.

Ia largar a faculdade. Queria ser atriz. Só não tinha voz.

Redigia manifestos, mas não distribuía. Tinha vergonha. Escrevia que a abertura lenta, gradual e segura, anunciada pelo presidente, era uma mentira. Parecia ser uma mentira.

Enquanto isso, em casa, a mãe assistia à novela Anjo Mau e o pai corrigia equações. Eles quase não conversavam e só tinham uma opinião em comum: a de que Glória devia ir para a Europa.

Foi em 1976, em uma manhã de outubro, qualquer manhã, que Glória saiu cedo com a pasta que carregava todos os dias, uma pasta marrom. Naquele dia, a pasta tinha um documento diferente: uma carta escrita pelo irmão de uma vizinha do prédio. Ele estava preso e tinha sido torturado por um mês, quase todos os dias. Passou a carta à família por um companheiro solto. A vizinha achou que podia dar uma cópia da carta à Glória. Achou que ela estudava direito e faria alguma coisa com aquela carta. Pela primeira vez alguém lhe deu uma função assim importante. Leu o texto manuscrito. Nunca tinha lido um relato tão detalhado do sofrimento. Embora lesse muito, não sabia que a dor podia ser expressa em palavras. Nunca tinha lido nada assim. O corpo de Glória sentiu açoites e perfurações, o corpo parou de respirar por alguns momentos. Ainda não sabia o que fazer com a carta porque, afinal, não estava tão envolvida na luta contra a repressão. Não conhecia caminhos e pessoas que pudessem levar a carta adiante. Ela só participava de grupos de estudos. E de leitura.

Aquela carta não era um panfleto, um documento, um poema, uma análise, um refrão, um conto. Era um depoimento, um testemunho, um S.O.S., um pedido de providências, um grito, uma explosão.

Pensava nisso ao sair de casa: no que fazer com a bomba.

Pegou o ônibus e sentou-se na primeira fila. Um homem grande chegou perto e ficou de pé ao lado dela, embora houvesse lugares vazios no ônibus. Ela achou que já o tinha visto antes. Tocando a campainha da vizinha? Amigo do pai da vizinha? O dia em que ela desceu de escadas porque o elevador estava quebrado ele subia? Impressão. Era um estranho. Mas o estranho prestou atenção na pasta que estava no seu colo. Ela agarrou a pasta com força, os dedos de Glória apertaram aquela pasta marrom. O homem de barba olhava a pasta. Ele usava óculos escuros. Vestia uma camisa comum, um pouco aberta, ela olhou para cima e viu os pelos pretos do peito dele aparecendo, saltando. Ela começou a transpirar, sentiu a blusa molhar na região das axilas. Pensou nessa palavra, axilas, e riu do pensamento idiota. Axilas. Aí ela lembrou dos relatórios e das descrições de tortura que tinha lido. Aquele homem ao lado dela não tinha encostado um dedo no seu ombro e ela imaginava choques elétricos em seu corpo, em partes que ela não conseguia nominar em pensamento.

Glória pressentiu que aquele homem era da repressão. Ou ela estava sendo perseguida, ou ele suspeitava da pasta, ou os dedos apertados e o suor delatavam seu medo, alguma coisa estava deslocada, ali. Fora do compasso. Ou não.

A saída foi fazer cálculos. Quando estava muito nervosa, recorria aos cálculos. Faltavam quinze minutos para chegar à faculdade, e em doze minutos o ônibus estaria no Viaduto do Chá, e ela precisava de um minuto para chegar à porta do ônibus quando ele parasse no sinal fechado e não daria tempo, o homem desceria atrás dela. Que cálculo o pai faria naquele momento? Como a matemática a salvaria daquele terror e quando ela poderia assistir Romeu e Julieta na TV?

Glória nem pensou em rezar porque não acreditava em Deus. Mas recorreu aos números e zero era uma saída possível, na maioria das vezes. Zero e nada. Zero como o livro censurado de Loyola. Zero e vazio e ausência e silêncio e medo.

Glória ficou ali, zerada. O ponto da faculdade chegou e ela não desceu. Quando as coisas estavam complicadas, o melhor era não fazer nada. Parou de pensar e de ver e de sentir e os dedos relaxaram de tal maneira que a pasta marrom caiu no chão. Ela olhou e nem pensou em pegar, ia deixar a pasta ali. Aí o homem, ainda parado — ele não desistia – abaixou-se, pegou a pasta e disse:

— É sua?

Quase disse não. Seria pior. Ele ficaria com a pasta e leria a carta. Confirmou e pegou a pasta marrom. Agradeceu com a cabeça. Ele deve ter sentido o cheiro do medo. Mas, quando o ônibus parou, ele desceu. O homem deu uma oportunidade a Glória.

Ela ficou ali ainda um tempo, sentada, respirando, comemorando a sorte, agradecendo os cálculos. Desceu no ponto seguinte, atravessou a rua e pegou o ônibus da volta. Iria para a faculdade de qualquer jeito.

Chegando à escola, Glória viu o homem barbudo, de pé. Gelou e, em vez de virar de costas, disfarçar, correr, continuou, firme. Não fez mais cálculos. A equação tinha terminado. Entrou na faculdade, passou pelo homem, segurando a pasta contra o peito. Esperava uma segunda chance.

E ouviu aquela voz:

— Senhorita, queira me acompanhar, por favor.

| conto do livro Um enterro para Suzana (Ed. Patuá, 2019); lançamento amanhã, 19 de março, no Patuscada, em São Paulo [link do evento]. |

Paula Bajer é autora de Viagem sentimental ao Japão (Ed. Apicuri, 2013), Nove tiros em Chef Lidu (Circuito, 2014, e-book, e-galáxia, 2015), Feliz aniversário, Sílvia (Ed. Patuá, 2017), de Asfalto (e-book, e-galaxia, 2014), e Um enterro para Suzana (Ed. Patuá, 2019). Integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro e participa de todas as suas publicações. Participa, também, de diversas publicações do Mulherio das Letras.

a festa, de Márcia Barbieri

— Já voltou?

— Quase todos foram embora, achei melhor dormir um pouco, estou cansada.

— Não falei na hora que saiu, você fica bonita de preto e o brinco de prata combinou tão bem…

— Papai gostava bastante de me ver com esses brincos.

— Bem… não se pode negar que ele tinha um grande senso estético! Era ótimo para escolher joias e mulheres.

— Senti uma ponta de ironia no seu comentário.

— Esquece, discutir sobre isso é inútil, você sempre defende seu pai. Não é o momento apropriado para isso.

— Tem razão… Não dormiu?

— Você sabe… não poderia dormir.

— Carmem estava lá?

— A amiga do papai?

— Se prefere chamá-la assim…

— Lá vem você cheia de veneno.

— Estava ou não estava?

— Por que não estaria?

— Se tivesse vergonha na cara não estaria.

— É, mas também tem muita gente achando que se você tivesse vergonha na cara estaria.

— Tou pouco me lixando para o que eles pensam, falsos moralistas! Algum deles está na minha pele?

— A família inteira da Tininha estava lá, perguntaram de você.

— Engraçado, muito engraçado mesmo! Durante anos não me visitaram para saber se eu estava viva ou morta, agora sentem minha falta? Balela! Um bando de mexeriqueiros.

— É normal que as pessoas fiquem curiosas. Afinal, era seu marido lá.

— E algum dia ele soube disso?

— Ressentimentos não levem a nada, já conversamos sobre isso, precisa relevar, as coisas aconteceram há tanto tempo! Pelo amor de Deus!

— Tanto tempo? Não brinca! As coisas aconteciam todos os dias, não foram uma ou duas vezes como você tenta me convencer. Ou você é ingênua demais ou quer absolver o seu pai de todas as perversidades.

— Não seja tonta! Não quero absolver ninguém, só não quero que sofra com bobagens, as pessoas erram, as pessoas são falhas, é só isso que quero dizer.

— Sei…

— Você já sofreu demais, tenta descansar um pouco.

— Não consigo, os ansiolíticos não fazem mais efeito.

— Você irá vê-lo?

— Você sabe que não.

— A vovó disse que ele está com o olho aberto e ninguém consegue fechá-lo, disse que só você conseguiria, que precisa perdoá-lo. Afinal, aos mortos tudo se perdoa, não é mesmo?

— Eu o perdoaria se ele tivesse morrido vinte anos antes, agora já não posso, estou tão morta quanto ele.

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Participa do projeto Senhoras Obscenas. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (edição independente, 2009), As mãos mirradas de Deus (Ed. Multifoco, 2011) e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas (Ed. Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Ed. Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta (Ed. Terracota, 2014) e O enterro do lobo branco (Ed. Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

plano-piloto v.2222, de Stella Paterniani

i.
era uma vez uma família
que foi morar embaixo do toldo azul
da comercial da 215 norte
uma vez rui
me chegou pedindo um prato de comida
eu comia sete corações de galinha
num prato branco me engasguei
vomitei quatro galinhas
cheias de pena de baba
e com casquinhas de feijão
se empoleiraram no rui
que se enroscou nos fios de couve
e levitou

ii.
na 105 sul o latido do cachorro lembrou
meu pai fazendo da mão uma conchinha e
assoprando
não era uivo silvo badalada brinde sirene
era eu agora embaixo d’água

e agora as superquadras submersas
acolhiam no playground um presépio
pequenos postes sinalizadores
amarelo sobre preto
pequenos cones bicolores
todas cores sobre preto
dançariam soltinhos
na gravidade subaquática

desprezando mijos de cachorros
desprezando beija-flores caramujos comemorações

e o cine brasília era um grande bolsão
de pouso submarino
pista de corrida de obstáculos pra peixes-palhaços
ponto de descanso de ouriços
cavalos-marinhos fazendo troça
e humanos brancos achando graça
em descobrir lavar polir verificar catalogar
nova espécie de coral

Stella Paterniani é antropóloga, professora, pesquisadora e traduz e escreve poesia. Tem se dedicado a pesquisar desafios a enquadramentos modernos com pessoas que lutam por um lugar para morar. Tem se dedicado também a traduzir poetas decoloniais. Já publicou na Revista Lavoura, traduções de Safia Elhillo na Pontes Outras e outras traduções no Ponto Virgulina. “plano-piloto v.2222” é inédito.

intercâmbio (In the Mouth a Desert), de Thais Lancman

Can you treat it like an oil well
When it’s underground, out of sight?

Se não tem nada para falar, é melhor ficar quieta. Conselho que nunca segui, não sem arrependimentos e promessas futuras. Minto, segui uma vez, não por achar que era o mais prudente a se fazer e sim como um desafio imposto a mim mesma. Jogar vaca amarela sozinha, com a intenção de esmaecer. O Rodrigo Naves escreveu aquela coisa de a Mira Schendel só querer sumir, e por que eu não posso também? Ser invisível sem ser reclusa, ser só mais uma e assim fazer o que eu quiser.

Com essa vontade eu optei por um silêncio gradual, uma purificação do meu hábito de me contar, me despir, me gritar, uma vez que ele só diz respeito a mim e não ao outro. Falando menos, revelando menos, entrego o que tenho de mais verdadeiro e me afasto de todos à minha volta como um barco não amarrado no cais.

And if the site is just a whore-sign
Can it make enough sense to me?

Minha experiência começou com amigos, e fracassou no terceiro gin tônica, quando me vi às voltas com uma história idiota, porque minhas histórias são idiotas, e não poderiam deixar de ser se sempre começam na primeira pessoa, com os verbos ler, ver, pensar, e o resto é tudo na terceira pessoa. Sou eu mesma expectadora do que narro, discursando da minha janela para o Minhocão, fofocando a visão de poucos metros de via elevada como se fosse o mundo e o que tenho de mundo para me relacionar.

Os meus amigos falam de viagens e trabalho, eu não viajo nem trabalho mas já viajei e já trabalhei então posso ser uma boa ouvinte. Posso rir e fazer ahãs e a-ãhns de forma que, sóbria, tudo funciona muito bem. Consigo me relacionar de certa forma com o que eles me contam, Ao falarem da ida à Tailândia nas próximas férias, posso relacionar com alguém que eu conheci que fez viagem semelhante, ou quando falam da Europa posso concordar com as expectativas e rir das gafes que as diferenças idiomáticas provocam. E é fácil me recolher quando chega a minha vez de falar — embora com certos tipos de pessoa não existe essa organização — pois, novamente, eu não tenho muito que continue uma conversa, são sempre ideias soltas e desconexas com qualquer projeto de realidade. Nada disso faz diferença quando se está com um drink na mão, então me vejo vítima da minha armadilha. O protótipo número um da experiência de silenciamento falhou, estou novamente sinalizando que preciso de todos, me destacando ainda que seja como uma caricatura patética de alguém exótico ou, como talvez meus amigos falem de mim, alternativa. Alternativa a eles.

Pretend the table is a trust-knot
We’ll put our labels down, favors down

Manter o silêncio quando estou em família é fácil. Porque eu quase nunca bebo — sou caçula, eterna criança — e quando bebo fico melancólica e casmurra, naturalmente em silêncio para não começar a chorar de forma descompensada. Fico quieta e mordendo os lábios, me retraindo, me aninhando no ombro de qualquer um que vai saber me dar carinho e achar doce aquilo que acabei de fazer. Todos ganham. Se bem que, em família, falar e não falar dá no mesmo. Outro experimento interessante foi contar histórias nos almoços de família parando de repente, para testar quem estava prestando atenção. O resultado, pouco surpreendente mas mesmo assim irritante, foi que em nenhuma vez houve pedidos para que eu retomasse a história, nem mesmo uma cara de questionamento quando eu interrompia uma frase pela metade. Extasiada e revoltada com o resultado, fui mais longe e comecei a inserir escatologias sem sentido no meio das histórias. Contando as novidades do mestrado, vez ou outra dizia algo de nojento e inadequado, uma descrição detalhada do processo de enfiar uma agulha no olho e cavucar o que estivesse lá dentro, sem que recebesse em troca uma expressão de nojo sequer. Como eu queria ouvir “pare por favor!”. Mas, no final, a única incomodada era eu mesma, com nojo do que eu falava e da falta da resposta, eu já disse, gosto de me contar. Confesso que há um lado bom no silêncio, o papel de observadora, não é meu favorito mas também não me desagrada.

I’ll watch a yarn of twine unravel
And you’ll never get it back

Em casa, o emudecimento progressivo gerou até preocupação no começo. Mil perguntas, tá tudo bem, quer alguma coisa.

It’s what I want (it’s what I want)
It’s what I want (twine comes down)
It’s what I want (it’s what I want)

Depois do interrogatório inicial, fica mais fácil. É só ouvi-lo contar do seu trabalho, dos pagamentos, dos funcionários.

Don’t you know
I could make a try
Make a try
Make a try
Make a try

Sem beber e sem falar de mim, já não sei do que eu sou e do que gosto, ou do que gostar a partir de agora. A experiência só se completará quando estiver no fundo desse mergulho do silêncio, já se falava em meditação Vipassana e outras ideias de silêncio contemplativo. O meu não tem nada sacro, sou apenas eu demonstrando meu cansaço das outras pessoas, minha vontade de desaparecer. Estando sempre sóbria, e como todos vão falando mais e mais alto quando bebem eu vou como que minguando nos eventos sociais. Até que vou embora em silêncio, andando afoita para casa, fones de ouvido, música instrumental alta para nem me dar vontade de cantar junto, tamanho o poder que o emudecimento impõe sobre mim.

Aos poucos, disseco o meu pensamento:

Uma mania antiga de me auto entrevistar. Caminho imaginando explicações sobre a minha rotina, meu bairro, o Minhocão e o que penso de sua desativação, os tantos motivos que me levam a não ter mais um carro, as explicações sobre minha casa, uma definição de rotina saudável e vida em equilíbrio, o tempo passa e dentro de algumas horas começa de novo a entrevista, um perfil eterno que nunca será publicado e está sempre sendo reescrito, as respostas cada vez mais certeiras, frases bonitas que vão dar bons destaques na edição final. Preciso parar com isso. Aprender o que se pode pensar sem que seja um diálogo, ainda que seja comigo mesmo ou com uma figura difusa a minha cabeça só funciona em diálogo. O silêncio precisa me invadir, a falta de verbo, por isso música instrumental.

I’ve been crowned the King of Id
And Id is all we have, so wait
To hear my words
And they’re diamond-sharp

Como é o pensamento não verbalizado? Como aprender a machucar e se preservar sem ser com palavras é impossível, desapareço no horizonte. É preciso se manter firme para recusar convites, não aparecer da mesma forma sutil que se vai embora. Teve a vez em que um dos integrantes da banda contratada, o baterista — sempre ele — veio conversar comigo enquanto eu aguentava um cigarro para ter motivo para estar do lado de fora. Afastada para evitar conversa, e ele veio me perguntar o que eu tinha achado do som deles. O que responder para um monte de versões genéricas de clássicos, o bom é que uma palavra basta, apesar de uma sílaba já bastasse para me arrastar ao ponto de partida desse jogo de tabuleiro da afonia. Também foi a largada para uma corrida de autoelogios que ele se fez, e promessas de que seria famoso. É engraçado, a fama para mim nunca foi um valor em si, e não foi a primeira vez que ouvi algo do tipo, a outra foi a ex-namorada do amigo corporate.

Outra coisa é como as pessoas podem gostar de alguém ou algo que não é inteligente. Na festa tinha um cachorro com a dona e ela se derretendo em elogios ao seu companheirismo e à graça de sua burrice. Um cachorro não tem obrigação de tem inteligência, mas ela não deixa de ser virtude. Talvez essa seja a primeira afirmação que faço sobre uma pessoa ou um animal. Ou até mesmo sobre um equipamento eletrônico. E na mesma lógica do “fotografamos o que temos medo de perder”, assim como temo parecer burra deixo transparecer o quanto isso é a minha redoma de vidro através da qual interajo com o mundo, ainda que ela seja à prova de ruído então nada eu ouça nem me faça ouvir. No silêncio o meu intelecto fica hermeticamente fechado, e se lá dentro está um pote de veneno que pode abrir ou não a qualquer momento, sem emitir sons ou opiniões me reservo o privilégio de ser, ao mesmo tempo, gênio e idiota. Na eterna expectativa, a minha, de algo derradeiro sair pela minha boca e que todos aguardam ansiosamente por essas pérolas e a espera só desperta curiosidade.

I could open it up
And it’s up and down

Então o baterista foi até o Uber que eu chamei para me levar para casa e começou a cantar segurando a porta do carro e não deixando que eu a fechasse. Senti que ia ter que gritar mas logo pensei que um gesto seria mais potente. Puxo a porta enquanto guardo as pernas, o motorista ri e me dá boa noite. Ele sente que tem algo a dizer embora eu discorde, eu tenho muito a dizer, acusar, mas prefiro o silêncio, até sorrio. Penso na minha casa e na minha gata, lá eu converso contemplada pela falta de resposta humana. Lá eu reino ou sou a escrava de um animal que parece ter um prazer enorme em me ver limpar suas fezes na caixa de areia.

Quando encontro pessoas, existe sempre uma espécie de solidão, para além do estar no meio de gente e mesmo assim estar sozinha, isso não me incomoda até eu notar o segundo passo: não saber desenvolver os micro relacionamentos dessas ocasiões. Existem conversas ligeiras, mas nada que vire algo além, nem curiosidade. Não lembro a última vez que fiz um amigo. Quero deixar morrer essa vontade de cativar, conquistar da inveja a indiferença, e talvez o melhor jeito de conseguir isso seja me escondendo, não, me dissipando no espaço da vida agitada da cidade, dos prédios que escondem personalidades e defeitos, no silêncio ruidoso do falatório sem sentido e exibicionista de filosofia barata, problematização excessiva. Por isso prefiro ser ignorante, a ansiedade em não saber o suficiente nunca, mas como podem esses que sabem menos sentirem que sabem tanto? Me perder em um mar de filmes que desconheço, literatura clássica que não li apesar de tão básica, para mim e para os outros que importam. Meus pares perdidos no tempo. Não chamar a atenção nem chamar a atenção por não chamar a atenção. Não ser esquisita. Não mais eu. Não-eu.

Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh-ooh (8x)

Eu tenho medo de usar droga, de virar alcoólatra, eu tenho medo de vento forte, só não tenho medo de andar sozinha na rua à noite porque nunca me aconteceu nada. Mas tenho medo de semi-conhecidos que querem me levar na porta de casa, me acompanhar no metrô ou falam perto demais do meu rosto. O teste das 16 personalidades disponível online e gratuito me situa no perfil do arquiteto, apenas 0,8% da população mundial corresponde a mulheres desse tipo. E não apenas pela baixa frequência mas também pelas nossas características fundamentais, sou marcada pela solitude.

O astrólogo me falou de desapego, atravessar uma ponte com uma mochila em vez das duas malas pesadas com as quais estou acostumada. E disse que sou ambiciosa por reconhecimento, admiração, porém que vai demorar. Sento e espero, às vezes fazendo algo a respeito.

It’s what (it’s what I want)
I’ll see you beg like a little dog (ball and twine)
Don’t you know that
It’s what I want? (it’s what I want)
I’ll see you beg and it makes you dry

Porque você só pergunta se está tudo bem e nada mais, você não quer me ouvir contar das minhas coisas, quanto menos eu faço menos novidades tenho e elas são todas como as de uma perua de meia idade: a casa, a gata, picuinhas no prédio, musculação e tevê. Poderia ler para você os poemas favoritos do Álvaro de Campos mas nunca seria como antes, quando você riu e disse que eu tenho um poema para cada situação. Você quer que eu fale mas não quer ouvir, quer que eu seja um cachorrinho brincalhão mas não brinca comigo, e agora me cobra uma postura sei lá qual, me deixe em paz. Talvez essa seja minha autodestruição, nem mesmo seguir até o fim com essa brincadeira de silêncio, meu fracasso é estar condenada a boiar como se estivesse no Mar Morto, há profundidade mas eu não chego a ela, você me prende na mediocridade, não, eu mesma me mantenho assim por vergonha, preguiça, autoengano. A diferença entre os normais e os gênios é que eles atravessam a fronteira da auto complacência, chegam até o fim da própria estupidez e de lá começam a erguer o castelo, nós os outros nos deixamos levar pela ideia de que já existe algo erguido e que nosso trabalho é só dar um acabamento, uma cara, encher de adornos. A superficialidade das minhas ações é a boia das minhas ideias.

Make me dry
Make me dry
Make me dry

De boca fechada parece que a saliva vai deixando de ser produzida, talvez o corpo saiba que ela se faz menos necessária e entra num modo defensivo e preguiçoso de ser. A boca seca quando a utilizo menos, vai se retraindo e colando, tornando uma retomada mais difícil. Ela também se adapta, o indivíduo tem muito mais poder dentro de si e no sentido infinitamente interior do que em constante expansão, é como se ele soubesse que isso não vai muito longe. Na direção de si mesmo, tudo é possível, os dentes mastigarem a língua e deglutirem as gengivas, tudo virar uma farofa prestes a ser engolida, digerida e retrabalhada nos tecidos. Ou então nada disso acontece e essa ponta do aparelho digestivo, responsável por iniciar o processamento do que ingerimos e também pela fala, o fim do trabalho do raciocínio culminando na expressão, esses órgãos interligados entra em modo de espera, hiberna, e ou se torna outra coisa ou atrofia de vez.

I’ve been down, the King of Id’s
Id’s all we have, I’ve been down

É preciso secar para mergulhar em mim mesma, a minha única chance de saber o que eu posso ser, e enxergar na possibilidade uma redenção. Só assim vou descobrir se tenho uma voz, parar de dialogar é também ficar com a boca cheia de flores e peixes, segredos prenhes, tesouros. E esse mergulho vira um passeio em dunas infinitas, paisagem alienígena do tipo que não se crê na existência. Mas se espera por ela como pelo Papai Noel. Eu vou aprender comigo porque assim terei histórias, um poço infinito delas, tanto em profundidade quando em água a ser oferecida para uma imensidão de sedentos.

And I could wait
To hear the words
They’re diamond-sharp today

Meu som. Meu ar.

Thais Lancman é uma escritora paulistana. Publicou em 2014 Palito de Fosfeno (Ed. Reformatório) e agora está publicando seu segundo livro, Elementos Fundamentais, na forma de um perfil de Instagram de mesmo nome: [link]

três poemas de Maria João Cantinho

abate diário

1.

porque só se pode sonhar
no lugar de um outro, escrevo
e ainda assim sucumbo
numa mudez sem saída
porque a língua não salva o olhar
nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te.

Percorres, de olhos no chão,
essa linha traçada pela promessa
pela qual trocaste todo o dinheiro
trazendo os filhos,
a quem, sorrindo, falaste
de um novo mundo
longe da guerra longe da fome

esperaste longos dias à deriva
enquanto a criança morria nos braços da mãe
e a terra se avistava ao longe

cantaste, baixinho, enquanto choravas
e vestias a mortalha do olhar
deus, esse deus, onde estava agora?
Nenhum canto nenhum salmo
o vento calou-se sob o mar

Mais tarde seria um outro
no lugar de um outro, sem fim,
a luz do mar é cruel, senhor
e a terra está cada vez mais próxima
mas os lábios secam, a fome devasta
as noites são frias frias
deus, esse deus, o deus dos outros, onde estava agora?

A terra está tão perto
os olhos cegaram-me
de tanto olhar a luz deste mar
a promessa fez-se noite
e canto, baixinho, um salmo
à espera que ele nos responda

deus, esse deus, abandonou-nos?

A terra estava tão perto. À distância de um sonho.

2.

Vieram do norte e ocuparam o seu lugar
estenderam uma manta negra
tão grande que tapou o sol
e o mundo mergulhou na sombra

o ar que as mulheres respiravam era fétido
e as crianças ficavam doentes
e de olhos vazios, com males estranhos
e os pássaros fugiram, não se sabe para onde
mesmo na Primavera não regressaram
porque a sombra não desaparecia
e a sombra estendia-se cada vez mais

agora não era só a terra, mas havia também o mar
que já nem era claro e transparente
e os peixes davam à costa, sem vida.

Os homens procuravam o esquecimento
nos braços das mulheres e nos bares
enquanto o velho pescador lhes falava
do mar antes da chegada da sombra.

Os homens cansavam-se das palavras do velho
esse louco preso ao passado
mas qualquer coisa os levava
todos os dias ao bar
a ouvir as histórias do velho

lá fora era o vento, sabiam,
o silvo do mal, essa sombra ininterrupta
que trazia doenças e escuridão.

Qualquer coisa os fazia acreditar
um fio longínquo que os trazia de volta
ao tempo dos nomes
ao tempo de um silêncio cheio
e sem medo.

Pode um homem sonhar, ainda,
enquanto as asas do mal o assaltam?

afrin
Para Hussein Hasbach

Dizem que o pesadelo dos soldados do Estado Islâmico
é ser morto por uma mulher,
dizem que não terão as 72 virgens
nesse paraíso sonhado que os espera.

E elas, peshmerga, enfrentando a morte,
olhos de tigre, saltam-lhes ao caminho como demónios
livres e sem véus, implacáveis,
elas que, no amor e nos filhos, respiram a ternura
e a salvação.

Ceylan matou-se com a última bala de que dispunha,
talvez tivesse tido medo nessa hora,
mas o tempo não é para medos nem delongas
e Ceylan também não sabe ser heroína
que isso é para as ocidentais plasmadas
No tédio das suas vidas vazias,
entregues à contemplação de miragens,
criadas pelos que vendem a morte
em longínquas paragens.

Arin fez-se explodir, para não cair em mãos inimigas,
O seu corpo matou tantos quanto pôde,
em nome de um povo, que só na alma e no coração
conhece a sua pátria,ardendo
no olhar das suas crianças, quietas,
à espera do futuro, que silva entre as balas
e o sangue, as vísceras dos seus mortos.

Aqui, em Efrin, só a morte canta,
só ela floresce, petrificando,
diante da nossa indiferença gelada, muda.

*

na terra do meu pai corria um rio
e não era ainda o do tempo
nem eu nadara nas múltiplas
águas de Heraclito, um rio
onde a sombra e o riso
acolhiam o nosso corpo
ainda intacto
no incêndio da manhã

na terra do meu pai havia laranjas
e chão, havia sol
e nós ouvíamos a respiração da noite
por dentro das raízes das árvores
e o rio falava com as pedras
e com a luz
e nós corríamos
ou éramos levados pelo vento

na terra do meu pai não havia medo
só um rio
e os homens tinham nome
era um rio por coração
era um nome
para um homem.

savana

Se eu te pedisse a demora, pai,
De um corpo adiado, ainda,
e te contasse de novo as viagens
que fazíamos no tempo antigo
e as minhas palavras pudessem
aquecer o teu olhar, trazê-lo de novo
ao meu chão, às minhas mãos,
como as histórias que me contavas
e depois ríamos inteiros.

Se eu te pedisse a demora, pai
para recomeçar a vida, para recompor
a ruína, juntar todos os ossos
para te devolver a luz da savana
e a respiração das árvores, o inexaurível canto
da terra, do rio que havia
e do olhar bravio das gazelas
no fulvo dorso da madrugada.

Se eu te pedisse a demora, pai
para recomeçar tudo de novo,
infância e areia correndo por nós,
só a música e o segredo da savana
o fogo da tribo, a dança
e sempre o tempo
o da fala antiga
o que se anela com deuses
e com o pó.

Maria João Cantinho nasceu em 1963, em Lisboa. Viveu em África durante a sua infância e licenciou-se em Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea, pela Universidade Nova de Lisboa (com co-orientação da Université Marc Bloch de Strasbourg). É ensaísta, poeta e tem colaborado em inúmeras publicações académicas e literárias, em Portugal, França, Espanha, Brasil, Índia. Publicou um livro de ensaio, livros colectivos em que participou e co-organizou (sobre Celan, Benjamin, Levinas), três livros de poesia e duas obras de ficção e foi nomeada finalista do prémio Telecom no ano de 2006. Actualmente é professora do Ensino Secundário e também do IADE (Creative University of Lisbon), membro integrado do Centro de Filosofia da Universidade de Letras de Lisboa, onde tem organizado congressos e conferências. Colabora regularmente com revistas de literatura e crítica literária (Colóquio-Letras, Golpe d’asa, PensarDiverso, Letras com Vida, etc.) e tem integrado várias antologias de poesia, bem como organizou algumas. Tem no prelo uma obra colectiva sobre Walter Benjamin (Brasil) que co-organizou com Amon Pinho e um livro colectivo sobre Paul Celan, em co-organização com Carlos João Correia, Cristina Beckert e Ricardo Gil Soeiro. É membro da Direcção do Pen Clube Português e da APCL (Associação Portuguesa dos Críticos Literários).