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círculo de influência, de Franklin Carvalho

No último sábado fui a Santa Lúcia e encontrei-me com Nadir, a feiticeira, num bar de praia da vila. Bebemos muito. Nadir, apesar de já ter passado dos cinquenta anos e ser muito magra, ou talvez por isso, soltou-se quase desmantelada dançando o reggae que tocavam no boteco, e me arrastou para suar naquele frêmito, nós dois com as cabeças quase enfiadas nas caixas de som. Havia quadros de Bob Marley e do rei Selassie pendurados na parede e uma turma de rapazes nos cercou, mexendo seus corpos rentes aos nossos. Abraçávamo-nos como se estivéssemos em nossas próprias casas e no ambiente cheio ninguém estranhava aquele excesso.

Os rapazotes aproximavam-se cada vez mais e o suor parecia uma cola, um mel que nos juntava. De vez em quando pedíamos, ou eles pediam, uma bebida de cravo, limão e outras ervas e os copos passavam por todos. Nadir, que quase nunca esquece de fechar e acender seus cigarros, bastava-se com o ar que invadia o ambiente, impregnado de charutos e outros fumos. Lambuzávamo-nos naquilo, naqueles cabelos embaraçados e bijuterias de metal e óleos perfumados dos nossos parceiros, e eu me perguntava o que fazia naquele fim de mundo, com minha amiga que pretendia me ensinar alguma bruxaria sem ter nada que eu já não soubesse. Mas eu estava gostando e, se ninguém nos tivesse salvado, ficaríamos ali a noite toda.

Quem nos resgatou, afinal, foram três jovens afeminados e uma loira metida em traje masculinos, madura ao ponto de parecer a mãe dos outros. Eles tentavam nos olhar discretamente, encostados na parede próxima à saída, porém riam do nosso desafogo. Intuitivamente, como se tivesse sido convocada, Nadir foi dançando até eles de olhos fechados, voltou com um copo de cerveja que lhe deram, deixou que eu bebesse um pouco e me puxou para fora da roda de dança. Caminhamos até o grupo, eu ainda tonto, e os quatro se apresentaram sorrindo, também eufóricos. Minha amiga sussurrou ao meu ouvido:

— Tenha calma, vamos mudar de programa.

Os rapazes que dançavam agarrados conosco pareciam nem ter notado a nossa saída, e continuaram se balançando, às vezes repetindo bordões que simulavam os refrões em inglês do reggae. Havia algo cada vez mais furioso na forma como eles se deixavam cair uns por cima dos outros, e só notamos aquela violência porque tínhamos saído do miolo da bagunça. Já na turma da loira, Ari, um dos novos amigos, puxou conversa. Ele havia saído de Santa Lúcia havia alguns anos para estudar na capital. Voltara para visitar os parentes.

— Você é o Roberto Desnos, não? Ontem eu vi umas fotos suas n’O Momento. Coisa de dez anos atrás. O jornal estava no guarda-roupas de minha família.

— Uma luz guardada numa gaveta? Por isso tenho me sentido noturno.

Falamos mais sobre jornais antigos e a imprensa do país. Dali a pouco Alexandre e Dão, que tinham vindo da capital acompanhando Ari, irromperam com comentários sarcásticos a respeito de tudo que dizíamos. Estouramos em gargalhadas e a noite toda foi assim, aquela vontade desatada de rirmos e os motivos aparecendo. Brincamos um tempo, paquerando quem passava por perto, destilando hálitos fortíssimos, e Nadir quase não parava de conversar com Cléria, a loira. As duas, aliás, ordenavam a bebida que nos era servida, e eu já não sabia quem pagaria as doses de aguardente que circulavam em poucos copos comuns para toda a turma.

Cléria, que tinha o rosto arredondado de lua, carregava uma bolsa de onde tirava cigarros para acompanhar cada trago de bebida. Nadir a seguia enrolando o tabaco que tirava de um saco plástico escondido no sutiã, e que jurava ser mais saudável do que o industrializado de papel com filtro. As duas falavam mexendo todo o corpo, como se marcassem uma a movimentação da outra e tivessem treinado alguma coreografia desde crianças. Ari, negro e magro, tinha voz suave e era muito doce. Já Alexandre fingia ser mais compenetrado, era forte, mas não muito alto. Ressaía-lhe a pele morena e o peito estufado desenhado por uma camiseta justa. Dão, que na verdade se chamava Damião, ficava pedindo a toda hora que alguém lhe aplicasse um soul na veia. Ele parecia um espírito, com aparência mutável, escondida por trás de grandes cabelos e roupas folgadas, mas afinal magro e musculoso.

— Preciso de soul — gritava ele, e mexia os seus trinta e poucos anos dançando o reggae como se fosse a música da Motown. A pele negra do rosto já tinha rugas, e elas se destacavam quando Dão gargalhava. Ele havia descoberto a sua função no meio daquela bagunça, queria mesmo dançar, e acabou nos arrastando para seu carro, um Opala de vermelho sem brilho, a nave que parecia de sonho.

Já eram quase três horas da madrugada mas nós insistimos em correr outros bares de Santa Lúcia e abusar da paciência dos proprietários sonolentos. Mesmo os que nos atendiam amigavelmente fechavam as portas assim que nos percebiam gente comum, sem propensões para grandes gastos. Arrumamos bebida e seguimos, ouvindo baladas no mais alto volume, até uma praia mais distante, totalmente deserta. Começava a clarear quando o carro parou em frente a uma casa isolada e ali, pelo ambiente parecer tão estranho, estávamos quase sóbrios novamente.

Descemos e entramos. O imóvel de alvenaria caiada era rústico, e no seu interior a mobília já muito usada, como se estivesse em sua terceira ou quarta morada. A casa tinha o telhado também antigo e os cômodos minúsculos, com dois ou três quartos. No entanto, estava limpa, dando a impressão de que alguém, um caseiro, tivesse preparado tudo para receber visitas.

— Até que enfim! — Ari gritou. — Tem uma semana que a gente fala em vir para Praia da Guia e eu não conseguia tirar esse povo de Santa Lúcia. Esse Dão quase casa com a criadagem. Você acredita que inventou até lavar o tanque da casa de minha mãe só para namorar lá dentro?

— E a mãe de Ari ficou encantada — Damião respondeu. — “Nossa, não precisa, como vocês são gentis”. Agora, a família vai beber água batizada.

Até Nadir e Cléria, que estavam sonolentas, riram daquele disparate. Os rapazes então me contaram que voltariam para a capital na terça-feira.

— É proibido dormir! Todos para a praia — Damião convocou.

Enquanto Ari procurava bermudas para nos emprestar, Nadir e Cléria se trancaram no quarto e não saíram mais de lá. Eu e os três rapazes caminhamos até a areia branca e nos jogamos nas cadeiras de madeira de uma barraca que acabava de abrir. O dono, um velho gordo que parecia morar naquela construção improvisada, nos atendeu como se fôssemos os únicos clientes de quinhentos anos para o passado e para o futuro.

Reiniciamos a bebedeira e comemos todo tipo de caldos, moluscos, cocos e pequenos peixes que pudessem nos ressuscitar. Damião e Alexandre foram caminhar na praia que já recebia alguns pescadores e nativos, e Ari começou a falar do jogo do tabuleiro ouija.

A descrição era de algo que eu conhecia como a brincadeira do copo. Segundo haviam me contado, as pessoas põem as letras do alfabeto em círculo numa mesa, invocam uma entidade, colocam o indicador sobre um copo no centro, fazem perguntas e o copo começa a deslizar de letra a letra para formar respostas. Na ouija, Ari me disse, não se usa o copo, mas um ponteiro de madeira.

— Lá na capital, a gente tinha mania de jogar. Parece que na cidade grande ficamos mais entediados do que aqui, e precisamos inventar o que fazer. Nosso grupo se reunia na casa da mãe do Alexandre e ficava quase a noite toda perguntando aos espíritos. Havia sempre duas entidades que respondiam. Uma era o Gaspar, que tinha sido um velho que bebia muito, e não era boa alma. O outro era o Carlo, um seminarista italiano que tinha vindo para o país havia uns vinte anos, andava de motocicleta e, uma noite, sofreu um acidente de moto e morreu. O Carlo gostava muito de mim, e o Gaspar odiava o Carlo. O grupo todo percebia uma tensão entre os dois. Houve uma vez em que um jarro voou no meio do jogo e veio na minha direção, só não me acertou porque me atirei no chão a tempo. Até a mãe do Alexandre, que estava do lado de fora da casa, ouviu o barulho.

— E aí?

— Aí, a gente rezava, pedia paz, se concentrava e terminava o jogo. Mas nos dias seguintes continuava, nunca parou. Outra vez, a última vez em que eu estava e os dois apareceram, o Gaspar disse que num dia tal…. No dia trinta de maio, às oito horas da noite, eu iria ser atropelado e morrer. Todo mundo ficou muito assustado com aquilo e logo a gente parou, guardou o material e ficou sem saber o que dizer.

— E você? Ficou preocupado?

— Claro! Eu comecei a ter medo mesmo, mas não entendia, porque eu nunca havia andado de moto, nem nenhum amigo meu tinha moto. Só sei que o tempo foi passando, passando, até que no dia trinta de maio, exatamente, uma colega me chamou para ir ao cinema. Interessante que justamente naquele dia eu tinha esquecido de tudo.

— Você foi com ela?

— Eu não queria ver o filme. Não sei porque, eu fiquei sem vontade. Mas eu tinha marcado com ela e resolvi que ia ao cinema só para me desculpar. Ia chegar umas sete horas, me explicar e ir embora. Sei que eu fui me atrasando, me atrasando, me atrasando e apareci na porta do cinema quase às oito. Então veio tudo na minha cabeça. Eu fiquei paralisado e, por incrível que pareça, minha amiga também tinha se atrasado e me encontrou ali, em estado de choque. Era a Cléria, essa que veio com a gente para Santa Lúcia. A Cléria me chamou para ir para a casa de Alexandre e quando a gente ia atravessando a rua, lá no começo da rua vinha uma moto a toda velocidade, eu juro. Juro que ela passou rente à minha frente, eu fiquei gelado.

— A Cléria estava contigo?

— Sim, a Cléria. A gente saiu correndo e quando chegou à casa do Alexandre, o pessoal todo estava jogando. Você acredita que eles se lembraram do aviso do Gaspar?

— E o que eles estavam lendo na Ouija?

— Nada. Eles disseram que estavam orando por mim, chamando o Carlo e o Gaspar, mas nada acontecia. Nessa hora eu me sentei, e o ponteiro começou a marcar as letras. Elas não formavam palavra nenhuma, nenhuma mesmo, mas víamos a sombra de um nome sobre o tabuleiro.

— Que nome?

— O nome de Carlo. Até hoje eu acho que aquela moto era dele. Era ele quem estava por perto para ninguém encostar em mim. Daí a mãe do Alexandre, que simpatizava muito comigo, chamou a gente para orar e nunca mais a gente jogou.

— Mas você tem vontade, não?

De repente, Nadir chegou com Cléria, brincando, e a minha conversa com Ari parecia não fazer mais sentido naquele sol matinal. As mulheres se sentaram e logo Damião e Alexandre apareceram rindo e gritando, falando das brincadeiras com os nativos, carregando uma enorme corda de caranguejos que tinham comprado por trocados, e que ninguém sabia como preparar. Ficamos naquela farra, tomamos banho de mar, comemos os caranguejos que o dono da barraca cozinhou e bebemos até o fim da tarde. Depois do pôr do sol, voltamos para a casa da praia, para um banho de água doce com água tirada de um poço.

A noite mostrou como poderia ser escura sem luz elétrica, marcada somente por dois lampiões que foram acesos com os isqueiros das fumantes. Nadir sumiu novamente com Cléria, e eu e Alexandre apagamos no sofá da sala. Ari e Dão começaram a cozinhar e tomaram o estoque de bebida da casa até dormirem, também na sala, num tapete de lã.

Ainda devia ser dez da noite e a casa já estava totalmente silenciosa quando eu acordei e fiquei olhando o mato no quintal, com um cigarro de Cléria na mão. Tinha uma sensação boa, de estar com as pessoas certas e de ser amado por elas. Logo uma chuva de pingos grossos começou a atravessar o silêncio, e eu entrei e voltei a dormir, novamente partilhando o sofá com Alexandre.

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

sete poemas do livro ‘Pés pequenos pra tanto corpo’, de Manuella Bezerra de Melo

A guerra reage ao nada com muitas coisas e
a piedade nos distrai pra que nos sintamos úteis
Inúteis, sobrevivemos da fome de morte
deitamo-nos fora de nós por exaustão
A guerra sacode nossos dejetos e nos renega
lápides; recorda o quão ninguém somos nem
fomos nem hemos de ser — controlados vivos
redesenhados úteis bélicos e sem querer servir servimos
auscultados pela indústria cardiogramáticamente
pulsamos jus às balas evocadas bombas explodidas
e ouro gerado dessa desgraça de sermos em carne
ou ossos o engenho vivo e morto da guerra

* * *

capa_pespequenos

Para José Gil

chegaram as marcas na cara e
correspondeu a mim meu retrato
nele desenhado os versos
do escudo de Aquiles
deixei de ser juventude
meu rosto não é território
é multidão

* * *

Dormem os cumes das montanhas de Álcman
e lá os macacos e saguins; dorme a esfinge
de Gizé as lembranças de paz as mulheres
deprimidas e exaustas seus filhos raquíticos
os homens bêbados de testa nas mesas das
tabernas e as prostitutas entorpecidas das
suas camas insalubres. Dormem os rios em
seu leito, a foz que não desagua, os abissais
nas profundezas, serpentes de todas espécimes
humanas dormem nas árvores que também cochilam
aproveitando o vendo da tarde; dormem como
crianças batedores de panela e dormem também
as crianças, porque essas devem mesmo dormir.
Dorme mais ainda a revolução e dormem todos
os outros à rivotril ou prozac; menos o poeta

* * *

Esta paixão é um jabuti de apartamento
corre quatro cômodos em quarenta dias
fecha o mês ocultado pela samambaia
com saldos de alfaces velhas às patas

* * *

Disseram quando nasci nem chorei
gritei como hiena e pequena
já a postos com escudo e armadura
a me proteger de você à minha frente
cá prostrada de peito pro alto
esqueci o formato das nuvens
ouço dos pássaros as ultimas histórias
débeis sobre dribles em gatos
fui percebida e quase desviei do coice
do céu faustoso mas não foi possível hoje
demente segui com as marcas da pata
celeste na caixa torácica duas ferraduras
do lado esquerdo do peito

* * *

Despertar-te nu horizonte rigidez
pulso vibrante cilindro rosado
sangue nas passagens sementes
explosivas na extremidade, sementes
são seres humanos perigosos
não se sabe o que esperar delas

* * *

Meti a poeta na jaula
como macaca brava de circo
rosnava assustadoramente
faminta e incontornável
poetas devem ser sublimes
não feias, vulgares, mondrongas
poeta é tênue, intocável
não disforme, buguio, cacajao
Vez por outra escapava
pra me encher de culpa pelo poema
que não paga as contas do mercado
a comunista me viu acabrunhada
Reclamou:
— Você é poeta. O demônio tem medo
da poesia!
Taí a função da poeta primata

| saiba mais sobre o livro no site da Editora Urutau [link]. |

Manuella Bezerra de Melo, jornalista nascida em Pernambuco, foi repórter e especializou-se em Literatura Brasileira e Interculturalidade. É poeta, cronista de rede social e autora infanto-juvenil. Quando viveu nas Serras de Córdoba, na Argentina, publicou sua primeira obra, Desanônima (Autografia, 2017). Já em Portugal, publicou Existem Sonhos na Rua Amarela (Multifoco, 2018) e Pés pequenos pra tanto corpo (Urutau, 2019) e participou da antologia Pedaladas Poéticas (Aquarela Brasileira, 2017). Mora em Guimarães e dedica-se a um mestrado em Teoria da Literatura na Uminho.

cinco poemas de Kátia Borges

o gourmet momentâneo

Margaret Atwood parece estar com frio
o modo como aperta o casaco preto na parte da frente
amo seu nariz, seus pequenos olhos azuis
e aquele poema sobre o coração arrancado do peito
que lemos na aula de teoria da lírica
o papel amassado
passando de mão em mão como se fosse o órgão vivo.

a dor fantasma

Tenho as mãos vazias
e horizontes perdidos.
Meu coração vai
onde a vista não alcança.

Meu coração,
treze caravelas,
não descobriu
país algum.

Meus dedos festejam
um braço invisível
e dores fantasmas,
esse vício:
agarrar-se às coisas.

Sinto o vazio espalmado
contra o vento que me cobra
ser possível,
uma pilhéria
de que os livros não dão conta.

teu movimento

Antes que te chame
o pelotão de fuzilamento
repara o pássaro
apara o dia.

Há um olhar que se derrama
lento sobre a vigia
e graciosidade no andar
do carcereiro.

Antes, sim, que chamem
o teu nome, anota
num papel ou na parede
certo verso de cimento.

o amor na gare de Astapovo

O Cristo no quarto
talvez adivinhe que ando triste.
Por educação, não diz.
Apenas espia, expia,
braços abertos em cruz.

As ruas hoje parecem longe,
cada bairro é um país.
E o amor é este trem descarrilado
rumo a Astapovo.

Se perguntarem de mim,
diga que planejo fugas
espetaculares, minta,
invente algo selvagem
que me faça rir.

Andam nuvens pelo céu
sempre em brasa por aqui,
e os dias correm,
despudoradamente.

Ainda ontem, juro, te vi descer
na estação errada e seguir
na direção contrária a mim.

observação da rosa

Há um certificado, dizem, um título, um prêmio,
(algo assim) para quem melhor conseguir
descrever a rosa.

Sua haste, dizem, seu corpo, e tudo aquilo
que a sustenta, pétalas
e espinhos (em botânica, dizem, órgão
axial ou apendicular)

Mas, eis que seu efeito sobre nós
(e já o fez Clarice, não sei se opiáceo)
nos levaria a esquecer o que motiva
a perseguir a forma.

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Ed. Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Ed. Global, 2009), Traversée d’Océans — Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

quatro poemas de Elke Lubitz Lautert

o rio dos meus olhos

Flutuações ante o espelho
rios cansados a correr pelos olhos
esperanças que encurtam distâncias
E se revelam saciadas de lonjuras

Aves no horizonte
cascatas cantantes
luzes de um sonho
perdido e flamejante

Como uma estrela atrasada
bem no meio do cosmo
Pétala rutilante, cometa fragmentado
num céu de
Rosas brancas.

cristais

Rosas de ravina na memória

O signo da lágrima
no sopro da noite

Aspersão de raios
nas asas estriadas

Sons silvestres a espalhar ramagens
um sismo pulsante gerando a palavra

Como cristais de chuva
abençoando os versos.

cansaço

Alinhavo palavras
para sobreviver das mortes diárias

Ressurgimento

O corpo do poema
zarabatana
setas silenciosas lançadas ao mar

Batalha ignóbil :
um leão de pedra contra a borrasca
o cansaço é sombra
na ferida do vento

Versos repousam na lã estendida
há festa lá fora para aplaudir o sonho
no meio da paisagem
o sino solitário silencia

Sem ressonâncias,

As palavras descansam
como noivas.

metade é mar

Navego
Neste
Há perigo nestes olhos
de tantas proas
Na cauda dessa onda
meu sacrifício é rede
Mar alto de alumbramento
multiplicadas embarcações
Para um só peixe
aprender a nadar.

Elke Lubitz Lautert é catarinense radicada em Jacaré (SP) há 34 anos. Pedagoga, pós-graduada, atuou na área educacional por 3 anos. Buscou outros rumos no empreendedorismo, trabalhando diretamente com literatura. Por meio das redes sociais, divulga atualmente sua escrita, escrevendo em sua fan page e outros veículos virtuais. Participou de várias antologias no Brasil e em Portugal. Seu livro solo, Um quase agora, tomará corpo em breve pela Editora Penalux.

gueto entrevista Jozias Benedicto

capa_jozias1. Para começar, conta um pouco sobre o livro Erotiscências & embustes.

Este é meu primeiro livro de poesia, foi publicado com esmero pela Editora Urutau e lançado no princípio deste mês de agosto. É um livro bonito e descomplicado, de leitura agradável, são 76 páginas com 37 poemas, prefácio do poeta Félix Alberto Lima e edição do poeta Tiago Fabris Rendelli. A capa, do designer Wladimir Vaz, também é ousada como os textos — sofreu censura mais de uma vez nas redes sociais. Gosto de dizer que são poemas eróticos/irônicos, e esta mistura de um erotismo um tanto esquisito com um humor meio sarcástico, zombeteiro, é uma das características de minha escrita que já aparece em meus livros anteriores, os dois de contos: Estranhas criaturas noturnas (2013) e Como não aprender a nadar (2016).

2. Como costuma ser seu processo de criação?

Sou um bom ouvinte, mais que isso sou uma “esponja”, absorvo as histórias que me contam, trechos de conversas que escuto no metrô, na fila do banco, em restaurantes, até em velórios. Anoto tudo, em cadernos, pequenos pedaços de papel ou no celular: detalhes dessas conversas, as ideias que surgem “do nada”, fatias de sonhos. E sou um leitor compulsivo, desde criança. Este material um dia aflora: uma frase, um parágrafo, uma situação ou um personagem que nasce já lutando por seu espaço — e com isso a escrita flui. Em geral escrevo de um jato, fragmentos que depois reviso e reviso até a exaustão, combino com outros textos ou simplesmente guardo em pastas em meu computador onde dormem até a hora de virem à luz.

3. E como foi o processo de criação com Erotiscências & embustes?

Escrevo poesia desde adolescente, mas só comecei a me ver como escritor já na maturidade, quando fui para a prosa, os contos, que me trouxeram o reconhecimento de algumas premiações. Sou também artista visual, e utilizo muito a palavra, em especial a palavra poética, em meu trabalho de arte — vídeos, instalações, performances e pinturas nos quais “a palavra é trama e urdidura”. Em 2015 passei por um incêndio em meu apartamento, que destruiu muita coisa, inclusive meus cadernos antigos de poesia — que raramente eu tinha mostrado ou utilizado em algo que não meus vídeos e performances. A perda me jogou no desejo de recuperar o possível daqueles textos, buscá-los nas minhas memórias, reescrevê-los, preservá-los, e, um dia, entregá-los aos leitores.

Este desejo só se transformou em um projeto a partir uma palavra que me veio em um sonho, justamente as “erotiscências” que, para minha surpresa, não encontrei nos dicionários. Foi o mote que me fez escrever poemas, usando reminiscências eróticas ou fatos da atualidade (há dois pequenos poemas que subvertem declarações de ministros). E os “embustes” para mim significam a própria condição do artista, do escritor, lidando com a ficção, tornando-a real para os leitores e ao mesmo tempo deixando claro que tudo é um jogo; este embate constante do artista entre a forma e o conteúdo (“os ardis que faço/para esquartejar a última flor do Lácio”) e também como o artista, para se fazer ouvir, tem que driblar preconceitos, censura e todo o tipo de restrições e perseguições.

Tive um cuidado — já que costurei textos criados em épocas diferentes, de temáticas diversas e formas muito variadas, para que o livro não fosse uma colcha de retalhos — e creio que ele ficou multifacetado porém alcançou uma unidade.

Finalmente, quis fugir do padrão do texto erótico-pornô, dos estereótipos sofisticação/escatologia, da mitificação e objetificação dos protagonistas e das experiências. Meu erotismo é “natural”, quase prosaico, mesmo quando é “estranho” ou quando leva a tragédias.

4. Já tem um novo projeto em mente? Qual é? Ou costuma dar um intervalo na escrita entre um livro e outro?

Nunca faço esses intervalos, estou sempre com projetos, tanto de escrita como de artes visuais, o tempo todo trabalhando em mais de um projeto ao mesmo tempo. Acabei de fechar outro livro de poesia e estou fechando mais um livro de contos. Nas minhas “gavetas” (as pastas de meu computador) o tempo todo olham para mim: contos, poesias, textos com forma ainda indefinida, esqueletos de romances às vezes com pouca carne, às vezes com excesso de gordura e um projeto ambicioso de metalinguagem. E em artes visuais estou trabalhando em pinturas sobre os Sonetos de Shakespeare, fazem parte de uma série de escritas “através do espelho” que desenvolvo desde 2016 e já mostrei em alguns espaços institucionais no Rio.

5. O que você diria para quem está começando a escrever? Por que você começou a escrever?

Sempre escrevi, acho que em decorrência de minha paixão pela leitura. Eu era aquele aluno chato que sempre tirava 10 nas redações no colégio — mas precisei de muito tempo até ter a coragem para expor minha escrita, inicialmente em blogs, até chegar na palavra impressa. Hoje, escrever é tão vital para mim como acordar pela manhã, me alimentar, amar, uma atividade que faz com que eu me sinta vivo e no mundo.

Para quem está começando a escrever, eu diria: 1) “leia, leia muito”; 2) “escreva, escreva muito”; 3) “revise, corte e reescreva”. Acho que é por aí.

Jozias Benedicto é escritor e artista visual nascido em São Luís, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pós-graduado em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. Publicou os livros de contos Estranhas criaturas noturnas (2013, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e Como não aprender a nadar (2016, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura). Em 2018 recebeu premiações pelos livros de contos ainda inéditos Um livro quase vermelho (Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Governo do Estado do Maranhão). Teve contos publicados nas antologias Sábado na Estação (2012, organizada por Luiz Ruffato) e Contágios (2016, organizada por José Castello). Em artes visuais, entre outras mostras, participou da XVI Bienal de São Paulo. Erotiscências & embustes é seu primeiro livro de poesia.

Quatro poemas do livro Erotiscências & embustes (Editora Urutau, 2019), de Jozias Benedicto, saíram na revista gueto no dia 3 de agosto, você pode ler aqui: [link]

a palavra, de Nic Cardeal

A gente tinha um nome pra essa coisa que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair. Dizia-se na aldeia que era uma palavra esquisita, mas que pronunciá-la de um certo modo até aliviava um bocadinho a dor. Então a gente aprendia, desde miudinho, a dizer. Depois a gente crescia, cada dia um pouquinho, e essa coisa ficava cada vez mais apertada contra as paredes do peito, não cabendo mais em si, nem em mim, nem em ti, e a gente ia perdendo, sem querer, a vontade de dizer… Até que a lembrança dessa coisa que apertava o peito desaparecia por inteiro do pensamento, e a gente ia vivendo como se nunca tivesse sentido, como se nunca tivesse pronunciado aquela palavra esquisita…

Às vezes até que a lembrança voltava, meio sorrateira, toda clandestina, fazendo a gente espreitar devagarinho por entre as frestas, pra espiar aquela coisa que nos deixava em completo desatino…

Às vezes essa coisa, que apertava o peito e fazia doer os olhos até a lágrima cair, acontecia de aparecer na hora em que a gente não tinha como escapar de sentir — bem na hora da viagem sem volta de alguém que resolvia partir lá pros confins dos céus onde criança nenhuma conseguia alcançar com a mão — o braço era curto, a mão pequena… só a vontade era comprida — e nem adiantava subir no banquinho — não havia jeito de tocar na ponta do céu e implorar pros anjos devolverem aquele alguém importante que tinha deixado todo mundo aqui embaixo “a ver navios” (ou melhor, “a ver aviões”, já que tinha ido pro céu…)

Outras vezes essa coisa comprimia o peito de um jeito tão estrangeiro, que era como se um paraíso inteiro houvesse de ser expulso de solavanco do mundo pra dar lugar a algum respiro profundo, pois se não fosse o respiro, nem a coisa suportaria comprimir o peito daquele jeito de doer os olhos até a lágrima cair… Nessas horas era porque viera morar por dentro, junto da coisa e do peito, aquele sentimento tão bobo e tão louco, que fazia toda criança já quase gentinha grande de verdade, pela primeira vez sentir vontade de gritar de dor porque era caso da mordida do amor — daquele jeitinho doido e doído feito uma flecha que acerta o coração e faz a gente passar ridículos de paixão…

Fora isso, poucas as vezes que essa coisa era de doer a fazer a gente lembrar da palavra esquisita de dizer… como numa despedida de avó, ou um pai indo embora solto no mundo sem hora de voltar, um filho crescido dizendo “tô indo”, ou um amigo querido deixando um abraço apertado como lembrança por toda uma vida sofrida…

Era bem assim — quando a palavra esquisita era dita, muito dita, repetida um bom par de vezes, até que a aldeia inteira dizia em coro a palavra esquisita, sentindo juntinha o mesmo aperto no peito a fazer doer os olhos e a lágrima cair… Era quando o milagre acontecia — pronunciar a palavra esquisita pela aldeia inteira virava uma espécie de mantra de cura da dor nos olhos e do aperto no peito — todos repartiam a dor de um — e a dor virava um pão fatiado em tantos pedaços quanto o número de pessoas da aldeia, como se cada um mastigasse um naco da dor de um, diluída em amor. A palavra esquisita vinha ao mundo pra virar amor — o amor daquele jeitinho bonito: ninguém soltava a mão de ninguém numa ciranda quase sem fim de diluir a dor até a própria dor virar “um ninguém”.

Porque a saudade precisava ser dita, ainda que na aldeia fosse uma palavra esquisita…

Nic Cardeal é catarinense, graduada em Direito pela UNISUL/SC, e exerceu atividade jurídica por 27 anos junto à Justiça Federal de SC e do PR. Desde 2016 dedica-se às letras e aos livros, junto à Mahatma Livraria de Expansão, em Curitiba/PR. Participou de diversas antologias de poesia, conto e crônica, entre elas as mais recentes: Brumas e brisas (org. Cristiana Seixas, Niterói/RJ: Ed. Cândido, 2017); Antologia de poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas, 2017); Mulherio das Letras — contos e crônicas — vol. 4 (org. Henriette Effenberger, Recife/PE: Mariposa Cartonera, 2017); Revista Plural — Wild Nights (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2017); Mulherio das Letras pela Paz — Contos & Poesias Alemanha/Brasil (org. Alexandra Magalhães Zeiner e Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); Conexões atlânticas I e Conexões atlânticas II (org. Adriana Mayrinck, Lisboa/PT: In-finita Lisboa, 2018); 2ª Coletânea poética Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR Ed., 2018); 2ª Coletânea de prosa Mulherio das Letras (org. Cleonice Alves Lopes-Flois, Toledo/PR: Indicto Ed., 2018); V Prêmio literário cidade poesia e III Láurea cidade poesia (org. ASES, Bragança Paulista/SP: ABR Ed., 2018); Um girassol nos teus cabelos — poemas para Marielle Franco (org. Mulherio das Letras, Belo Horizonte/MG: Quintal Ed., 2018); Marielle’s (org. Andri Galvão, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Sete luas (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Redemoinho — novembro/2018 (org. Lunna Guedes, São Paulo/SP: Scenarium Livros Artesanais, 2018); Feminismos, artes e direitos das humanas (org. Aline Gostinski, Ezilda Melo e Gisela Maria Bester, Florianópolis/SC: Tirant Lo Blanch, 2018); e Elas e as letras (org. Aldirene Máximo e Jullie Veiga, São Paulo/SP: Versejar, 2018). É integrante do grupo Mulherio das Letras desde a sua criação, em 2016. Seus escritos estão compilados na página no Facebook ‘escrevo porque sou rascunho’ (@Niccardealpoesias), além de fazer ‘resenhas afetivas’ de livros de autores(as) amigos(as), na página no Facebook ‘minha lavra do teu livro’ (“porque quando eu leio um livro minha alma precisa dizê-lo… então escrevo o que sinto, porque no meu profundo é onde eu encontro o teu livro”). É autora de Sede de céu — poemas (Guaratinguetá/SP: Penalux, 2019).

quatro poemas de Chantal Castelli

na colônia de pescadores

Minha filha achou a coisa
mais nojenta do mundo.

Primeiro, a cabeça cortada;
depois, as vísceras
atropelando-se na saída
do corpo.

Fazia muito calor
e os gatos já haviam recuado
para a sesta.
Só as moscas pousavam
nervosas nos poucos restos,
líquidos, escamas.

Alguém poderia lembrar
a enorme variedade de insetos
e as inúmeras espécies extintas
antes de conhecidas
como se nunca houvessem existido.

Ou então: “áreas menores
abrigam populações menores,
e populações menores são mais
vulneráveis ao acaso”.

Mas ela só perguntava
isto: por que o menino
levantou a camiseta
mostrando as costas cheias
de tatuagens e de pontos
vermelhos
culpa de um enxame
cujo nome não entendemos?

na emergência

“The elevator always seeks out
the floor of the fire
and automatically opens
and won’t shut”
(Anne Sexton)

Você achou que sairia assim?

Às quatro:
dor de barriga
o som dos carros
25 andares
abaixo.

As mandíbulas
nos calcanhares
ao contrário.

Você achou que sairia assim,
como nos filmes de treinamento?

No escorregador inflável
após a pane
sem coisas
sem laços?

Você achou que sairia assim:
seu mundo controlado
reduzido
no quarto de hotel

não a floresta de objetos à deriva
e a porta fechada
pela pressão da água.

Não há nada no imóvel vazio
fora o corpo
incômodo.

na presença de alguém

Ela também tentou suicídio aos oito
ligando a máquina de lavar
como toda criança depois
de se olhar no espelho
e ver a si mesma
olhando-se no espelho.

Ela continuaria provando
maneiras estúpidas
de fazer o mesmo
anos a fio:
mastigando vidro
cortando a pele
imóvel por muito tempo, dias inteiros.

Nada parecido
com a clareza do menino correndo
direto, janela afora.
Cinquenta e três andares
quarenta e nove andares
nesta mesma cidade.

uma anatomia

Dizem que o menino se enforcou com o cinto do pai, na escada da casa, à vista de todos (se quisessem ver). Por que “estranho”? Você também tinha quase sete anos e ganas de chegar ao fim, até o muro onde pregaram uma das pontas da corda de pular, para descansar segura junto à hera. Ninguém a procurava no recreio, mas estavam mais ou menos perto quando você prendeu a ponta solta no pescoço e começou a girar, enrolando a corda comprida como um colar tailandês, daqueles que as meninas pequenas já usam para alongar o corpo. Felizmente ninguém veio, ninguém testemunhou o vexame: parar no meio ao se dar conta, encalacrada, olhos inchados. Você queria era chamar a atenção — como quando entrou na escola e ficou uns meses sem falar; a professora logo viu que estava fazendo tipo, tão sorridente na saída, me contando tudo. A gente tem de sentir o momento, saber quando os filhos estão preparados para a separação. Ele apenas foi adiante, completou a tarefa, traiu o corpo, mas não há culpa. Você, ao contrário, será sempre responsável porque é frágil (olha essa sua mania de antecipar o desastre, fotografar a própria filha de costas para ver melhor o que espreita, o que há em volta). Eu tomaria conta de tudo, de novo (e se possível ele morreria ainda uma segunda vez; então saberíamos ao certo as providências, onde cortar, como descrever), se você deixasse; mas na minha província, onde os mortos dão nome aos cães.

Chantal Castelli nasceu em São Paulo, em 1975. Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, é poeta, escritora, tradutora e professora. Teve poemas publicados em diversas revistas e antologias. É autora de Memória Prévia (São Paulo: Com-Arte, 2000) e Os cães de que desistimos (São Paulo: Hedra, 2016) — este último recebeu o patrocínio do programa Petrobrás Cultural.