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fragmento do livro ‘Nessa boca que te beija’, de Leonardo Almeida Filho

capa_nbocaDo capítulo “O grande autor”, do romance Nessa boca que te beija (Editora Patuá, 2019).

Levantou-se arqueado. Observando a estante, delirou ante os volumes lidos e desejados na esperança de que, em algum deles, pudesse estar a receita. Quanto entulho! pensou babento enquanto sonhava em aparar as unhas, depois de estraçalhar os ratos. Buzinaram um escapamento pipocou lá fora e entrou pela janela os carros saracoteiam uma puta é arrastada por policiais na 12ª DP barulho de garrafas e pigarro e alegria ébria vêm do Pavão Azul vento de pré-chuva levanta poeira e folhas secas pela rua arrasta grãos de areia na praça Sezerdelo no Posto 3 levam os jornais que cobriam um sem-teto na Domingos Ferreira o delírio, o delírio, o delírio… pardais avoaçando penas de pulgas e parasitas que as titicas desovam na calçada escarrada pelo senhor tísico das aulas de latim no seminário de meninos crentes e quentes nas camas do monsenhor que se atira na campanha anti teologia da libertação e reza seu terço de pedras verdes como os olhos da serpente que inocula credos e peçonha na bundinha de Ela que não reza e que não sabe um terço da missa que não frequento e que o diabo cospe de lado e malha o casco nas costas de um povo que masca a coca-cola e os bublegummers dos fuzis AR15 interceptados por colecionadores que assinam a gazeta mercantil para melhor negociar as almas das senhoras que contam e recortam os bingos das tevês insones que preenchem a existência de funcionários públicos em dias de jogos da seleção canarinho que também tem seus vermes e parasitas expostos na titica dos hotéis baratos e ruelas de crack e merla e merda e coca e camisinhas e sonhos rarefeitos e desfeitos e refeitos sem dó ou pena dos desejos assanhados e presos nas tranças da menina ruiva protestante cujo pai estupra toda noite em que a mãe sai para distribuir revistas de testemunhas de um deus omisso como muito pai e Ela que se encolhe na própria sina de ser apenas Ela um monstro górgona e seu mistério que decifro e leio num versículo de palavras que atribui ao Salvador dessa porra em que comemos e amamos e bebemos e cagamos e criamos e destruímos e matamos e elegemos e derrubamos e sorrimos e choramos e broxamos e mentimos e mesmotonamos e barbarizamos e confudízimos e neobramos e persistimos toscos e lânguidos e crédulos e perfídicos e tresfódicos e amórficos e amásicos e trôpegos e brasilúdicos e atávicos e serpentílicos e baboseiricos como nenhum outro povo antes ou mesmo porque somos o depois de quilos insondáveis de éter afrofortespérbano mergulhados à força e sob a benção de um Deus de carne e osso palestino no caldo tupinicosmicoriginário redemuinizados no caldeirão medieval do branco ibérico e mouro protetor da pele branca e destruidor das cores que lhe afrontam o bolso e o tesouro que se entregará logo ao novo testamento do planeta que caminha inexoravelmente para o buraco do Quasar de Campos e concretos com validade vencida e vazios feito a pança enorme do menino de Uganda que era e é um negro a mais que se vai sem deixar a marca possível da grandeza da alma humana na aventura desumana do útero à sepultura assim sem grandes travessias e destinos epopéicos além das serpentes no cabelo da moça que vende o corpo para pais estressados com a preocupação que lhes dá a filha namoradeira e Ela e Ela e Ela e o namorado noiado que masca o rock and roll enquanto vende Bach e Telleman para um interceptador paraguaio que coça o saco e barrocamente pigarreia o negro fumo que alimenta o câncer da mulher do deputado que nos vende e tripudia sobre os pequenos barrigudos do Vale do Ribeira sem eira nem mesmo que se queira e se vão aos bandos para as beiras beiradas na periferia onde Maria se prostituía antes de cair doente aos pés da cama e da cruz dos crentes que arrecadam montanhas maométicas do vil metal para as grades dos apartamentos e sobrados que abrigam senhores e senhoras e filhotes de senhores e senhoras e o circo típico das relações furadas da burguesia e suas crises conjugais sem romeus ou julietas além do fogo das bocetas ardendo na hípica e no Iate Clube repleto de machos e fêmeas não parideiras que como Ela jogam jogos das carnes que não se vendem nos açougues portugueses onde os patrícios riem de nossas piadas como rimos de nossos pais esclerosados e prostrados e abatidos e mastigados e derrotados e frustrados e tão sós quanto nós mesmos nessa fila infinita de personagens vivas de suas próprias e insignificantes histórias que são lidas nas certidões e nada consta e fichas de ocorrência policial e diplomas e fotografias de santinhos de missa de sétimo dia ou espalhadas pelos cantos de nossas casas alugadas ou mesmo sob pontes e viadutos e sobre lagoas fétidas que quase se equilibram espelhadas nas encostas das montanhas que frequentemente se derretem como trágicos sorvetes de lama e limo e lodo que nos cobrem e nos aliviam da dor e da alegria de estarmos e sermos ou mesmo até pensarmos que estamos ou que somos e por isso mesmo o rádio do automóvel cantou desesperado quando um escapamento pipocou pela janela e o café de Vitória é bom como a saliva de Ela… de Ela, ele sorriu, tocou-se, respirou profundamente de olhos fechados. Ela, Ela.

| para comprar o livro no site da editora [link]. |

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito). Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano, como Antologia do Conto Brasiliense (2004) e Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poemas em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira, como Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesia Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinquentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Publicou em 2018 o volume de poesia Babelical, pela Editora Patuá. E-mail: leo.almeidafilho@gmail.com

cinco poemas de Reynaldo Damazio

1.

poema é um bicho que devora a vida
e se transforma toda vez que você
tenta guardar num canto só seu numa
caixa de memórias perecíveis ou num
dispositivo de efeitos para bem do espírito
poema não serve de guia nem guru suas
estrias queimam como gelo e nos
lembram que nada pode traduzir o que
as imagens corroem e corrompem as falas
inaudíveis na algazarra de festas e feiras
e festivais o poema nunca está onde o
querem onde explicam onde capturam
porque sua teimosia é seu pulmão e
ele resiste para que seu osso fure mas
não trinque seu grito enlouqueça seu olho
não se canse de ver pelo avesso o que
se sabe como falta ou excesso

2.

a gente aprende a ser ridículo
fingir que sabe o que não
dizer pelos cotovelos o nada
ferir e aprisionar com o desejo
a gente cospe no prato que
não sacia e esquece o sentido
de um pedido ou da despedida
é pouco o que fica guardado
o que a gente consegue trocar
antes que o ridículo nos fira

3.

carece de uma folha
em branco no meio da avenida
como um falso prognóstico
a greve geral
um grave registro por fazer
livros empacotados sem destino
a sonolência do amor interrompido
por um frase torta
essa doida sensação de que tudo desaba
porque você não está por perto
porque a fila não anda
a boca se fecha antes da vírgula
cão que salta sobre a cama
suco de melancia derramado
o universo não conspira, esquece
e a vida espera por relatórios
que o tempo apaga sem dó
um após o outro
os cacos do quadro pop
na angústia da parede
aquele texto do Cortázar
sem pontuação
perdido no redemoinho de mensagens
tão virtuais e quentes
como o hálito no começo da noite
lembrança de aroeira
a cicatriz rosa
no trânsito bloqueado

4.

esse rosto que você toca e
tenta rasgar pelo avesso
que você pega emprestado
e esquece na próxima curva
entre meneios e esgares
que desdenha e insinua
máscara das fases da lua
raízes do gozo e da dor
rabiscadas sutilmente
em rugas inexatas
testemunho viciado
para cativar ou seduzir
como máquina de sombras
um rosto no meio da multidão
descartável ou substituível
simulacro de semblantes
serpentes enredadas no cenho
rosto que fala pelo reflexo
que grita por frestas
e você diz que é mistério
como se o disfarce não fosse
a verdade do rosto
como se bem lá no meio das
incongruências do que o rosto
expressa não coubesse algo
do olhar que você suplica e
e sequestra

5.

bem de perto
as marcas na pele
são mapas de
viagens perdidas
ensaio sem o
canto de sereias
atalhos para
nervos e rastros
da batalha final
do grito original
um corte aberto
na epopeia de
arrepios até a fuga
noutro corpo

Reynaldo Damazio é editor, crítico literário e autor. Formado em Ciências Sociais pela USP. Foi coeditor do jornal Caderno de Leitura, da EdUSP, e colaborador do Guia de Livros da Folha de S.Paulo e das revistas Cult, Arte Brasileiros, Entrelivros, Mente e Cérebro, Nossa América e Literatura: Conhecimento Prático. É coordenador do Centro de Apoio ao Escritor do museu Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Autor de Poesia, linguagem (Memorial da América Latina), Nu entre nuvens (Ciência do Acidente), Horas perplexas (Editora 34), Com os dentes na esquina e trilhas, notas & outras tramas (Dobradura Editorial), entre outros. Traduziu Calvina (SM Editora), de Carlo Frabetti.

cinco poemas de Carol Sanches

a mudança

a casa era nova
o cheiro cheio de verniz
cheirava a vazio de memória
uma única pedra, quebrada
contornava o fogão a lenha
teria sido o calor?
ao primeiro sinal de vida
se quebrou,
repare.

os banheiros excedem os quartos
em número e intenções
o gesso o verniz
a tinta o batente
a pingadeira as portas
batem ao primeiro vento
as janelas ensaiam a chuva
a terra agora se molha
sob a tutela dos novos vizinhos
as telhas perdem a virgindade
enquanto, à noite,
os ruídos de amor acontecem uníssonos
aos estalos de madeira
em um ninho estranho

até o momento
cinco banheiros desistem
de ser limpos
três quartos esperam
sonos profundos

a casa
aguarda
a alma

o desabrochar

até o flamboyant floresceu
antes de você
disse enquanto espreguiçava
o comprido das árvores

a picada

há cerca de uma hora
vi uma picada na mata:
um pequeno ajuste
para conter árvores
perigosamente próximas

foi então que me lembrei
do último momento
em que você esteve presente:
a quatro passos de distância
aproximadamente segura

a notícia

uma fração de segundos
ela disse,
tudo acontece nesse trecho
miserável de tempo

continuou andando
cinco passos se ele de fato
havia morrido
tem certeza? ela disse
segure forte a minha mão
os dedos suados, o quadro,
mãe, você está me apertando
a essa altura o corpo já se derreteu
olha lá olha lá
não viemos comprar nada, querida
por que não me contou antes?
que diferença faria?
câncer, você disse?
talvez tenha sido o silêncio
os sonhos não vividos?
as palavras não ditas
solta, mãe

um homem vestido de caveira
com suas caveiretes
dança macarena
na feira hippie

a estática

2 corpos imóveis,
frente a frente,
36 graus e subindo

desça, por favor,
disse num ímpeto
de fricção

encostou uma das mãos
no lado esquerdo
do seu peito

você mora na minha garganta,
disse,
o tempo está seco
as moléculas, histéricas
desça daí
me toque
aqui
onde é úmido:

apertou a palma
contra as cortinas do coração;
com a mão que sobrava
manobrou suavemente
acima da testa
dos cabelos
num desejo espiritual
de desajustar miolos
eficientes

sentiu a densidade
descer pelos dedos
massageou as pontas
em movimentos circulares

levantou o olhar.

perceba, disse
mostrando-lhe os dedos:
ainda estalam
ainda são resultado
da nossa estática

Carol Sanches nasceu em Campinas em 5 de agosto de 1981. Tem poemas publicados em revistas digitais e é autora dos livros independentes Poesias pormenores (2008) e Toda diva tem divã (2009). Seu livro mais recente, Não me espere para jantar, com lançamento previsto pela Editora Patuá em 2019, recebeu menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018. Os poemas aqui publicados fazem parte de uma série inédita da autora sobre cotidianos escondidos.

seis poemas de Rubens Jardim

exercício de viagem

entre a via veneto
e a peixoto Gomide

existe um fosso
e nenhum castelo

existe um poço
e nenhuma água

existe eu posso?

albergue

Amor é
albergue
de
andorinha
:
coisa
arisca.

Quem se arrisca?

artimanha

A arte é
manha
de ver

A arte é
manha
de vir

A artimanha:
Viver

flagrante

O morto na avenida
está livre da sepultura.

Não sei se é desaforo
ficar assim estendido

no chão. Mas a morte
é a quebra de protocolo,

a entrega de uma carta
endereçada ao nada.

dedo em riste

Este poema não diz nada
da mesma forma
que a história não diz tudo.
Língua cortada:
este poema não fala
— falha.
E insiste
— dedo em riste.

pietá

Tão longe do meu olhar
fechada em si
e a si mesma devotada
a pedra na Pietá
adentra o gesto
adensa a face
no apedrar-se da luz
no apiedar-se da pedra

Rubens Jardim, 72 anos, jornalista e poeta. Publicou poemas em diversas antologias no Brasil e no exterior. É autor de cinco livros de poemas. Promoveu e organizou o Ano Jorge de Lima (1973) e publicou Jorge, 80 anos. Integrou o movimento Catequese Poética (1964), cujo lema era “O lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares”. Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008). Faz leitura pública de poemas, está presente em vários sites e possui o seu próprio espaço virtual: www.rubensjardim.com

a hora em que as putas envelhecem, de Leonardo Araújo

Toda noite ela executava o mesmo ritual. Depois do banho demorado, em que cuidadosamente lavava todo o corpo com sabonete de camomila, vestia a calcinha de renda, a meia-calça preta, já gasta de tanto tirar e colocar, o vestido vermelho e, por fim, o salto alto. Só então se sentava na penteadeira improvisada, ao mesmo tempo em que envolvia os cabelos ainda molhados com uma toalha. Diante do grande espelho trincado — repartira-se em vários pequenos pedaços, onde podia ver muitas imagens de si mesma: puta, mulher, mãe — passava o batom carmesim, o delineador para os olhos e a base para disfarçar o rosto vincado, especialmente ao redor da boca e perto dos olhos. Fora um dos presentes que um antigo cliente havia lhe deixado. O outro, dormia todo esparramado em sua cama, a qual exalava um reconfortante cheiro de lavanda.

Já de pé, secava os cabelos e em seguida passava a escová-los vigorosamente, com a ajuda de um creme. O perfume era estrategicamente borrifado atrás das orelhas, no pescoço e nos pulsos. Quando jovem, aprendera com as mais experientes que não devia nunca colocar perfume nas virilhas e muito menos nos seios e na bunda, “Ou você acha que algum homem vai gostar de lamber perfume, menina? Homem gosta é do gosto de mulher. Tem até um cliente meu que pede pra que eu não lave minhas partes. Diz que o sabonete tira o cheiro da buceta”.

Ao terminar de se aprontar, ela se olhava uma última vez no espelho, a ver se não havia esquecido de nenhum detalhe. Então, descobria novamente em si a beleza fugida, o rosto da jovem que costumava dar nome às estrelas nas noites solitárias dos primeiros dias. Antes de apagar a luz, pegava a bolsinha que deixava sempre pronta em cima da cômoda, a qual continha os artigos de primeira necessidade para toda mulher da vida que se preze: um canivete sempre afiado, preservativos, cigarro e dinheiro para alguma emergência.

O último e mais importante ato do ritual diário, meticulosamente cumprido, era o beijo que dava na testa do filho. Por vezes, lhe doía tanto ter de deixar seu pequeno tão só e indefeso, inocente como só as crianças podiam ser, que pensava em não sair de casa nunca mais, em ficar deitada a seu lado guardando-lhe o sono, protegendo-lhe do mundo que sabia por experiência ser mau e cheio de surpresas trágicas.

Porém, algo mais forte que seu instinto materno reclamava sua presença nas esquinas desertas da cidade escura. Se quisesse, poderia ter outra vida. Por várias vezes havia recebido promessa de casa e até de colégio bom para o filho. No entanto, recusava-as todas, sem vacilar, porque sua independência era preciosa demais, algo de que não conseguiria abrir mão. Apesar do amor que sentia pelo menino, achava que ele deveria viver a vida que ela podia lhe dar, com o trabalho que havia escolhido para si. Não que se tratasse de uma escolha consciente, arquitetada. Apenas deixara-se levar pelas forças estranhas que dirigiam os destinos de todos nós.

Essa sabedoria a fazia diferente das demais, que ansiavam pelo dia em que alguém finalmente viesse resgatá-las daquela situação. Por não suportarem a barra, afogavam a própria dor como podiam, e, no processo, iam perdendo a juventude, a vida e, principalmente, o dinheiro. Tinha muita pena dessas meninas que se sentiam sujas e marcadas pelo trabalho. A elas dava conselhos, embora soubesse que seus caminhos já estavam traçados.

Tomava o cuidado de sempre fechar a porta com duas voltas completas, e só então ganhava as ruas, com o olhar atento, a cabeça erguida e o passo firme, sem dar ouvidos aos elogios grosseiros que jogavam em sua direção ao passar pelos bares repletos de bêbados. Deixava para sair de casa um pouco mais tarde que as outras, pois, já tendo adquirido certo prestígio e respeito, não precisava mais tomar posição na selvagem luta por espaço, que ficava por conta das mais jovens. Costumava ficar na esquina de uma rua próxima à antiga ponte, hoje quase esquecida, de onde, quando adolescente, costumava ver o sol magnífico se pôr atrás da linha do horizonte, enquanto a lua esperava sua hora de chegar.

O vento fresco que soprava do oceano a fazia serenar, tornando-a, ainda que por alguns instantes, esquecida de si mesma. Desaparecia na própria brisa, passando a fazer parte dela, sublimando-se lentamente em pequenas gotículas de água a envolver todas as coisas. Tais momentos só eram interrompidos pelos carros que se aproximavam convidativos. Insinuava-se a eles de modo inocente, sabendo que isso a tornava mais desejável. Num sussurro, como se o pudor lhe tornasse difícil a voz, anunciava seu preço. A maioria aceitava sem reclamar. Dali, deixava-se levar para aonde quer que fosse. A única exigência que fazia era a de que, ao final, a devolvessem para o mesmo lugar. Nas noites movimentadas, chegava a perder a conta de quantos homens atendia. Embora, nessas ocasiões, o dinheiro corresse mais solto, preferia as noites calmas e os clientes menos apressados.

Por volta das cinco da manhã, quando a noite já agonizava, caminhava lentamente para casa com os sapatos nas mãos e o coração tranquilo. Quase sempre trazia uma canção nos lábios. “Sempre que o amor fecha uma porta, ele abre uma janela, emoção que entra por ela, pode ser até mais bela, pode ser até mais doce”. Só então voltava a se lembrar do pequeno que a essa hora já devia estar perto de despertar.

Ao abrir a porta, desfazendo as duas voltas da chave, abria um sorriso enternecido ao encontrar o filho ainda deitado. Custava-lhe controlar a vontade que tinha de cobrir-lhe com seus beijos quentes de amor, mas não se atrevia a tocar-lhe antes do banho. Colocava a bolsinha de volta na cômoda, e ainda em pé ia tirando o vestido, a meia-calça preta, já gasta de tanto tirar e colocar, a calcinha de renda. Diante do grande espelho trincado — repartira-se em vários pequenos pedaços, onde podia ver muitas imagens de si mesma: mãe, mulher, puta — tirava o batom carmesim, o delineador para os olhos e a base para disfarçar o rosto vincado, especialmente ao redor da boca e perto dos olhos.

Ao retirar a maquiagem, sentia os anos retornarem numa velocidade estonteante. O rosto coberto de volúpia, os lábios entreabertos, o olhar malicioso davam lugar a um semblante plácido e ao mesmo tempo grave, maternal. No chuveiro, deixava a água massagear o corpo cansado da noite não dormida, sentindo-se purificada.

Acordava o filho para ir à escola com pequenas cócegas nos pés. “Vá pro chuveiro e tome um banho bem gostoso, que a mamãe quer ver você cheiroso, viu?”. Enquanto ele se lavava, ela punha, entre bocejos, a mesinha do café só para os dois.

Leonardo Araújo é cearense, psicanalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Escreve contos.

dois poemas do livro ‘A serenidade do zero’, de Alexandra Vieira de Almeida

alfabeto transcendental

Para Raquel Naveira

Um alfabeto que silencia a escrita
Que faz das letras um atalho para uma estrada esburacada
No meio da lama, encontro uma joia de medos
O medo insípido da humanidade
Em soletrar um alfabeto de cemitérios
Busco a transcendência das formas das letras
Suas sobrevidas, seus fantasmas
As palavras se inauguram na sua disformidade
Não na sua incumbência de levar a outro signo
Que não os signos das estrelas
As letras do alfabeto desencarnadas da vida
Não se fazem corpo de memórias
Mas batismo de espíritos translúcidos
Nas águas da unidade em meio a qualquer diferença enganosa
A comunhão dos signos
Se faz pela hóstia do silêncio
Que traduz o que a boca não vê
Transcendência de nomescapa_serenidadeNo papel mágico da vida.

cápsula

Para Luiz Otávio Oliani

Introdutório — como uma cápsula essencial
Introdução dos mitos, ele se detém na lanterna
O que convém à florescência que emerge
como arquitetura do mistério
A cor que se debruça
nos lábios dos dois seres
costura o artefato do milagre
não em deter-se na antevisão dos ritos
mas por si só soçobrar qualquer sombra de certezas
O animal que se esconde na moita
já está preparado para morrer
E nós jogamos o jogo da sorte?
Introduz-se no ser
a altaneira madrugada dos tecidos
Vértebras que se carcomem
na poeira dos lençóis
O homem-ser de pano
se extravasa de dores
Saem os suores do corpo
Os temores da sombra
se amotinam na cama
A cápsula da essência interior
é seu remédio mais preciso
mais vidente que o sol que folgueia
com as árvores em penitência
Introdutório — o sorriso do ser-homem
ultrapassa a sorte para se fazer destino
no entreabrir dos versos desta cápsula insana
que é o mundo.

| poemas do livro A serenidade do zero (Editora Penalux, 2017). |

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente A serenidade do zero (Editora Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.