publicações

quatro poemas do livro ‘Enigmas de Jaguar e Jasmim’, de Mariana Varela

capa_enigmas

construção

Da montanha vejo escorrer
o cimento febril e diário.

Ouço, enquanto caminho
o som das moedas
caindo do cofre.

Cada minuto, uma moeda
cada horizonte, um centímetro cúbico
e todo o aparato imobiliário.

Caem ações
em construções de luxo.

E refletores de prata
anunciam corredores
de mineração pesada.

Salto na água
o barco é do tempo.

Cada centímetro anuncia
a engrenagem nova que fizeram
com o vento.

artimanha

Aberta, a fresta deixa escapar
o salto do gato sedento.

A língua bebe a água
a água engole a língua.

Especialista da sede
a língua exalta as frestas
abertas pela palavra.

Palavra-maga
Fresta aberta.

Água, língua
Porta, gato.

Em toda fresta
_______um salto

mínimo vasto

Dentro do olho mágico
a tua casa quase inteira.

E a roda da carroça que contém em si
a magia da velocidade.

Meus olhos contém o mundo, quando abertos
e fechados insinuam ainda
surrealistas composições.

Na seda em que me deito
está o bicho
está China
está a Pérsia

Adoráveis folhas e sementes
de papoulas.

No chip que carrego está também
a mão de obra chinesa
vietnamita, talvez, mais barata
a tecnologia alemã
— Toda a divisão internacional do trabalho.

Sim, quando toco tua mão
também posso sentir

Astros, planetas,
constelações dominicais

O mesmo incêndio permanente
dos signos cardinais.

Sim, não é preciso viajar
para conhecer os mares

Vales, montes e lagos
— nada disso preciso.

Cada coisa contém em si
outros mosaicos

E nada está só
nem sozinho é forjado.

Recolho-me,
contente em saber
que a mais pequena fechadura

contém em si
a composição mais mínima e perfeita
da abertura.

ouronomachia

Na noite indesejada,
passa de novo por mim a serpente
Há anos sei que vem
e em silêncio vejo-a passar.

Tudo que passa traz a mensagem
maior que sua superficial imagem.

São símbolos,
minerais fundamentais da vertigem
venenos que convocam a maré cheia.

Aberta, o rio me atravessa
Deserta, o rio me envenena.

O fogo flecha o signo
e me transporta à origem
da sua imagem mediada:

Tudo é mais que nome
tudo é mais que imagem.

Tudo é símbolo
tudo é viagem.

| poemas do livro Enigmas de Jaguar e Jasmim (Editora Urutau, 2020). |

Mariana Varela é paulistana, vivendo actualmente em Lisboa. É poeta e mestre em Sociologia. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim em 2020 pela Editora Urutau.

três poemas inéditos de Tito Leite

* * *

Tirei do girassol
as suas cores matinais
e sentei a existência
num vagão embriagado.

Na angústia-férrea
de primaveras e gestos
impensáveis, extrapolei
e perdi a estação.

Nas entrelinhas
do silêncio, a palavra
pesa e o sangue não pondera.
Entre bétulas e trilhos
a loucura é bilíngue.

A mecânica
dos bons costumes
não é injetável
e o limo petrificado
do sujeito normal
não me apraz.

* * *

Um poema retirado
das entranhas, da madureza
de uma árvore, que sobrevive
às estações mais infaustas.

Um poema febril,
com a coragem de um homem
que luta contra Deus e olha
para um mundo em rascunho

e diz: farei mais poemas
que o número das estrelas
do céu. O poeta e sua

inadequação, no pescado
das palavras os cavalos
do motor do seu coração.

* * *

Antes do sol
se esvair
serenamente
nos olhos salinos
do ocaso

quero sentir
a cada momento
o poema
que deriva

do sal das águas
que banham
a minha alma.

Tito Leite nasceu em Aurora-CE (1980). É poeta e monge beneditino, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de ensino de Filosofia. É autor dos livros de poemas Digitais do Caos (Selo Edith, 2016) e Aurora de Cedro (Editora 7letras, 2019). Participou das antologias Sob a pele da língua — breviário poético brasileiro (org. Floriano Martins, Arc Edições, 2019), Revista Gueto: edição impressa n.1 (org. Rodrigo Novaes de Almeida, Editora Patuá, 2019). É curador da revista gueto. Tem poemas publicados em revistas impressas e digitais.

três poemas de Nayara C. P. Valle

* * *

Na minha rua os passarinhos são donos do céu
Ao entardecer ensaiam melodias improvisadas
de notas longas e comoventes
Ainda em casa na companhia de outras casas
da rua, há tanto tempo que é impossível dizer
Hoje, o adeus do sol desperta lirismo
na semente de coentro da horta
As canecas que não se tocaram estão vazias
Quando recolho-as, ainda há algodão preso
nos círculos de arame farpado do muro
Já bem tarde a noite desponta recortada
como peças de um quebra-cabeça

* * *

Ouço um grito na rua
cada vez mais agudo
dentro deste grito outro grito
ainda mais alto

quando passa a sirene
vejo uma poça de sangue
refletida no arame farpado
que protege o muro da casa

Proteção
é apenas uma palavra

* * *

não-retorno

O sol forte incide na varanda
Refrata na garrafa de café, já vazia
seus sonhos mais remotos

Uma palavra que quase existiu
estava prestes a dizê-los por inteiro
mas veio a época em que os termômetros mediam o tempo

Lá na última estação de trem
lamentam a primavera
de filhos que nunca conceberão

Nayara C. P. Valle nasceu em Barra do Cuieté, Minas Gerais, e atualmente reside em Belo Horizonte. Formada em Letras-Português e pós-graduada em Jornalismo Cinematográfico. É autora de Esmeril (Editora Urutau).

infierno, de Fábio Mariano

capa_ruido

Comecei a trabalhar no buffet por acaso. Um amigo meu me ligara falando sobre a vaga, e era uma época na qual os buffets infantis apareciam em cada esquina de Cartago de uma semana para outra. De repente, então, a equipe de adolescentes mal remunerados de um deles evaporava, e era necessário pedir aos restantes que ligassem para seus amigos. Eu queria ter algum dinheiro — começava a descobrir que queria cozinhar, mas era impossível pedir os ingredientes que eu queria provar à minha mãe. Surgia, diante de mim, a chance de contornar o veto da inutilidade daquele gasto (a questão não era falta de dinheiro) pelo módico preço de tolerar algumas crianças por algumas horas e dormir mal algumas noites — nada que eu já não tivesse feito sem ganhar dinheiro algum.

Era a primeira vez que eu trabalhava, e minha intuição nunca fora muito boa, de modo que não compreendi por que meu amigo me deixava de canto para conversar com todos os outros. Ele me explicou que, ali, nos organizávamos em grupos: salgadinhos, bebidas, pula-pula, piscina de bolinhas e cama elástica. Mudávamos de grupo no meio da noite, e também de um dia para o outro, e quando as festas terminavam todos faziam juntos a limpeza e a organização. Como eu morava perto do buffet (ao contrário da grande maioria das pessoas, inclusive de meu amigo), ia embora a pé. Cumpria as obrigações e ficava no meu canto, sem conversar muito, e embora soubesse os nomes dos meus colegas, não tinha qualquer outra relação com eles.

Na quinta semana em que estava trabalhando lá, meu amigo me chamou num canto. Eu estava com os salgadinhos, e ele, com as bebidas. “Você percebeu?”, me perguntou, empolgado, sem que eu tivesse a mínima noção do que ele dizia. Vendo minha cara de dúvida, sussurrou “Do lado do pula-pula, mas olha sem dar bandeira”, saindo para levar mais uma bandeja cheia de copos de refrigerante. Enquanto alinhava as coxinhas na minha bandeja, repassei, um a um, os rostos da festa. E quando estava para decidir que nada me era familiar percebi que havia, de fato, algo no rosto daquela moça ao lado do pula-pula. Só aí o sorriso que se estampava no rosto de meu amigo me contagiou.

A moça era Amanda Sky.

Terminado nosso serviço, meu amigo me pediu que ficasse. Disse que fariam uma festinha na casa de um dos meninos. “Vão todos: o Tigão, o Pingo, a Babi, a Isa, o Dedé…”, e depois, sussurrando para mim, “tenho certeza de que a Isa vai”. Eu, que nem reparara direito em quem fosse a Isa, tomei aquela informação como crucial. Perguntei a ele o que eles comeriam. “Sei lá, pedimos alguma coisa”. Minha reação imediata, antes que eu pudesse me controlar, foi perguntar se eu poderia cozinhar. “Acho que vai ter muita gente”, ao que respondi “Para mim é perfeito. E eu banco”. Meu amigo foi até André, o dono da casa, e confirmou minha autorização.

Pingo me disse que me daria uma carona até o mercado — iríamos os dois. No caminho, me informou que o André tinha gostado de eu bancar tudo, mas que, se eu precisasse, eles também ajudariam. Pensei que não seria necessário, mas no fim, acabei me excedendo um pouco. Não que eu tivesse comprado nada caro, mas pensei que não poderia faltar comida. O resto do dinheiro que estava com Pingo, que era da vaquinha do pessoal, foi para as bebidas.

Quando chegamos à casa do André me dirigi direto à cozinha, sem pegar nem mesmo uma latinha de cerveja. Os pais dele tinham viajado, e a casa era grande e cheia de livros. Ali, dois amigos dele de outro lugar já estavam sentados em dois pufes discutindo calorosamente sobre Marx, Nietzsche e Darwin; e enquanto um deles falava alto, mas sóbrio, com movimentos de mão firmes e bem desenhados, o outro parecia se atropelar, como se as ideias fluíssem em sua cabeça a uma velocidade muito maior do que a das suas palavras, de modo que, se não era um gaguejo, havia uma espécie de interrupção abrupta no meio de suas frases. Era óbvio que os dois eram muito amigos, e decidi que eles seriam as primeiras pessoas que eu serviria, se eu pudesse escolher. De dentro da cozinha ouvia uma voz esganiçada tentando cantar e uns dedos desajeitados tentando tocar violão, que foram imediatamente substituídos por alguém que só podia estar bêbado havia muito tempo, embora tocasse e cantasse com perfeição. Enquanto preparava espetinhos de muçarela de búfala envolvida em bacon usando como espetos os ramos de alecrim, macarrão com queijo e abobrinhas e tomates recheados, fui aos poucos perdendo o contato com o que acontecia ali dentro. Cruzou minha cabeça o olhar de Amanda Sky, se ela gostaria dessa refeição… Como passei a segunda metade do serviço na piscina de bolinhas (o que me permitiu um ponto de observação privilegiado), percebi apenas o amor dela diante de uma criança que obviamente não era sua filha, e seu olhar, tão diferente daquele ao qual eu estava acostumado a ver nos vídeos. A voz, no entanto, era inconfundível.

“Não era ela?”, disse meu amigo, irrompendo na sala com o braço enlaçado na cintura de Tigão. “Era óbvio que era ela, estou falando!”. Os dois debatedores entraram na cozinha, o mais calmo dizendo, “impossível, cozinheiro, é isso mesmo? Vocês viram a Amanda Sky hoje? E não fizeram nada?”, “e iam fazer o quê, ô, o que você acha, né, que eles iam, sei lá, perguntar se ela tava sem calcinha?”, questionou o outro, ao que todos rimos. Antes que eu pudesse confirmar, percebi que eles haviam saído da cozinha. André veio até mim, então, me perguntando se estava tudo bem e se eu precisava de algo. Me abriu uma lata de cerveja antes que eu pudesse responder — eu respondia às panelas –, me abraçou e agradeceu por eu estar lá. Disso me lembrou bem: ele não me agradeceu por estar cozinhando; me agradeceu por estar lá. Tomei um gole da cerveja, agradeci, pedi que ele levasse alguns espetinhos já prontos para a sala e continuei.

Alguns segundos depois, ouvi uma voz dizendo “você não tem nada para mim?”. Olhei para a mão que se apoiava no balcão da cozinha. Era a mão de Amanda. Aquela mesma mão, com o mesmo esmalte, os mesmos dedos tortos, aquela mão que eu reconhecera imediatamente ao olhar Amanda erguer sua sobrinha ou afilhada ou a filha de sua melhor amiga até o pula-pula. Mas a voz não era a de Amanda; era a de Isa, que me perguntava se eu cozinhava alguma coisa que não tivesse bacon, “ou nenhuma carne, na verdade”. Puxando um prato que não sabia se poderia usar (àquela altura eu sabia que isso já não fazia a menor diferença), montei com o macarrão o prato mais bonito que pude — que, obviamente, não era nada demais. Isa riu um pouco do meu esforço, agradeceu pegando na minha mão, e ia saindo dali olhando para mim, quando pedi que ela esperasse. Adicionei um tomate recheado ao prato. “Não tem carne nenhuma também”. Ela me olhou, como se não entendesse o que eu dizia, mas sorrindo, e ainda sorrindo foi embora.

Depois de cozinhar, me lembro de pouca coisa. Liguei para casa dizendo que dormiria na casa do amigo que me arranjara o emprego — embora obviamente fosse dormir ali mesmo, se pudesse, e não estivesse muito preocupado com isso. E então, com todos elogiando minha comida, me lembro de declarar que eu teria um restaurante, onde, um dia, todos eles iriam. “Vai se chamar Sky”, disse uma voz (a memória se turva aqui) ao que um outro respondeu que isso seria muito comum. Houve risos. “Se eu botar esse nome, vou ter que convidar a Amanda”, disse finalmente. Não me lembro de tudo o que tomei. Lembro-me, sim, da corrida até o banheiro, e das mãos de Isa em algum momento. Foi um dos dias mais felizes que vivi.

No dia seguinte faltei à escola (coisa que nunca fazia), e, chegando em casa no meio da manhã, pensei em como iria me justificar. Minha mãe estava sentada na mesa da sala, mas meu pai a acompanhava — o que, via de regra, não deveria acontecer. Ele olhava para baixo como quem houvesse sofrido uma derrota. O rosto de minha mãe estava enfurecido, e me preparei para uma bronca como nunca havia tomado, para uma expulsão de casa, para qualquer coisa. Mas minha mãe esfregava nervosamente as mãos nas coxas enquanto tamborilava os dedos. Seu olhar era descrente e cansado. Meu pai havia sido agraciado com uma escolha. Deveria se transferir para o escritório de Buenos Aires ou então procurar outro emprego. Ele aceitara a transferência. Minha mãe se separaria dele um ano depois, voltando para o Brasil — para Cartago — no dia da assinatura dos papéis do divórcio.

Liguei para meu amigo dizendo que não trabalharia mais no buffet. Ele entendeu, e nunca mais nos falamos. Fiquei em Buenos Aires com meu pai e lá estudei gastronomia. Lembrava-me sempre dos dois debatedores daquela festa ao ver os argentinos discutindo sua política e suas letras. Continuei cozinhando, estagiei com o mais famoso dos chefs argentinos, fiz carreira. Visitava minha mãe, que agora se orgulhava de ter um filho chef, com frequência. Ela ia bem, se casara de novo e entrara no ramo imobiliário. Continuei, também, acompanhando a carreira de Amanda Sky, quase sempre de passagem. No ano da festa ela ganhara um prêmio de melhor atriz pornô do mundo, o que a levara, por um breve período, aos Estados Unidos. Mas talvez, como minha mãe, ela sentisse falta do Brasil — nunca soube se ela morava em Cartago ou estava só de passagem — e me lembro de ter visto mais uma porção de vídeos dela. Num certo momento, no entanto, ela desistiu da carreira, e conseguiu trabalho em algum canal de TV. De uma certa maneira, ela se recusou a envelhecer no cinema pornográfico e seguir o caminho comum, botar silicone e passar a fazer filmes nos quais seu papel é o da mulher mais velha. Creio que ela foi fazer um curso para trabalhar na parte da produção, mudar de vida. Fui tentando pescar notícias, mas era difícil. Eu mantinha um arquivo no computador no qual digitava o que encontrava, mas num certo momento desisti. Pensei que nunca mais a veria.

Quando tinha juntado algum dinheiro, e estava com tudo pronto para buscar um estágio na Europa, meu pai me disse que eu deveria abrir meu próprio restaurante. Ele e minha mãe haviam conversado sobre isso quando eu decidira me tornar chef, e haviam guardado dinheiro sem que eu soubesse desde então. Ele me disse, no entanto, que isso não poderia acontecer em Buenos Aires, porque o tumulto político, as constantes desvalorizações da moeda e as crises sucessivas tornariam meu negócio muito vulnerável. Também me disse que estava de mudança para a França, onde eu poderia, se quisesse, ir visitá-lo e fazer meu estágio. Foi assim que retornei para Cartago e abri, lá, o Cielo.

Como já saíra do Brasil havia muito tempo, não esperei ninguém conhecido na inauguração — e estava certo ao pensar isso. Mas duas semanas depois da inauguração, o dono da casa, André, e Isa, vieram ao restaurante. Por sorte tive de atender uma dúvida de meu sommelier, de modo que pude reconhecer as mãos de Isa — pensando, primeiramente, que eram as mãos de Amanda. Fiz questão de ir até os dois e de enviar a eles uma entrada especial. Era algo que só entraria no cardápio algum tempo depois, um conjunto de três tomates recheados diferentemente — nenhum deles levando qualquer tipo de carne. Isa compreendeu. Pensei em pedir aos dois que me esperassem até o fim do serviço, mas achei melhor convidá-los para chegar mais cedo no dia seguinte, uma hora e meia antes que o restaurante abrisse. Eles vieram, e conversamos muito. Esclareceram que, originalmente, deveriam ter vindo os dois debatedores também — João e Marcelo eram os nomes deles — mas os dois estavam fazendo seus doutorados na Alemanha. André me contou que Pingo havia morrido dois anos antes de leucemia, e que meu amigo, pouco tempo depois, fora demitido do buffet e brigara com todo o grupo. Babi se tornara produtora no jornal local.

Ao saber daquilo, não pude me conter. Pedi logo o telefone de Babi, mas sabia que minha esperança podia ser infundada. Ofereci aos dois que jantassem novamente no restaurante, dessa vez sem pagar, e embora eles tenham aceitado o convite para o jantar, fizeram questão de pagar. Pude presenteá-los, ao menos, com uma garrafa de vinho. Antes de ir, Isa me mandou uma mensagem me dizendo que fora muito atencioso fazer um prato em homenagem a ela, e que Babi estava de licença maternidade, afastada do trabalho. Isa era a madrinha de sua filha.

O contato com Babi não foi de todo infrutífero. Consegui descobrir que Amanda G. S. de C., a pessoa que eu procurava, havia trabalhado com ela por um curto período de tempo. Por algum motivo não parecera se adequar — Babi chutava que o chefe canalha das duas estivesse por trás da demissão da colega. A coisa toda ocorrera no meio de uma série de cortes que a emissora fazia, então era difícil definir o que era arbitrariedade e o que era necessidade, ou ainda quem estava sendo retaliado. “Havia menos retaliações naquela época do que hoje, com certeza”, ela me disse, “e pode apostar que vai haver mais nos próximos anos. É uma época difícil para ser jornalista, e eu e a Lili estamos pensando em dar no pé.” Perguntei se alguma das duas falava francês e, tendo sido informado que o francês de ambas era muito melhor que o meu, enviei a elas o contato de meu pai, que talvez pudesse ajudar. As duas se mudaram com a filha para a França uns dois anos depois.

Continuei conversando com Isa por algum tempo, majoritariamente por mensagens no celular. Houve um hiato, no qual ela teve um namorado e, portanto, não nos falamos mais. Mas depois recebi uma nova mensagem dela e retomamos a troca normalmente. Eu estava tão imerso no trabalho que, talvez, não tenha percebido o quão chateado eu ficara. Meus cozinheiros me dizem que eu era intratável naquele período, mas contam isso agora em tom de brincadeira. Antes que ela arranjasse esse namorado, me perguntara uma vez — também em tom de brincadeira — se eu havia convidado Amanda Sky para a inauguração. Nunca soube se, naquele momento, ela sabia de minha conversa com Babi. Neguei, adicionando que não pude encontrá-la, mas que, se pudesse, teria enviado o convite.

Quando o restaurante fez três anos, tirei as primeiras férias. Eu percebia uma mudança no perfil da clientela, e conforme eu me consolidava, crescia meu medo do tipo de conversa que circulava ali dentro. Babi já havia ido embora, e eu pensava no quão bem fizera. O número de casais homossexuais começou a diminuir sensivelmente, e eu mesmo tive de expulsar um grupo de seis clientes que ofendera um casal assíduo. Eu virara manchete de jornal na cidade — Cartago tinha dessas coisas — e minha mãe, por sorte, sempre me apoiara. O Cielo se tornava mais famoso, e pessoas de outras cidades começavam a fazer reservas. Eu crescia, mas tinha medo. Foi então que decidi chamar Isa para ir comigo à França, visitar meu pai. Ela me perguntou o que aquela viagem significava. Eu disse que não sabia, ao que ela respondeu que, quando eu soubesse, podia convidá-la. Sem mágoa, e com razão, creio.

Antes de entrar no avião, procurei por ela. Talvez por ter visto séries ou filmes demais. Meu susto, ao ver alguém que falava nervosamente no celular, ao ver suas mãos, foi tanto que pedi, por um momento, que a moça da companhia aérea esperasse. Obviamente não era Isa. Mas antes que eu pudesse perceber a diferença da cor dos olhos, dos cabelos, da voz, o que percebi foi o olho roxo, o braço enfaixado, o nervosismo. Amanda G. S. de C. tremia. Sem maquiagem, vestindo roupa de frio, Amanda estava ali, e era a minha chance de convidá-la para o restaurante. Seu nervosismo se intensificava, ela olhava ao redor, e tive a impressão, a nítida impressão, de ver que homens a olhavam de pontos diferentes daquele saguão. A moça da companhia aérea ralhava comigo — eu nem conhecia Amanda G. S. de C., e nem mesmo Amanda Sky — mas eu precisava ir até lá. Amanda, então, parecendo mais calma, se dirigiu a outro portão. Os homens a seguiam com o olhar. E eu tive de entrar, tive de entrar no avião.

Amanda nunca foi ao Cielo. Nunca mais a vi. Mas sei que é a história dela, e não a minha, a que deveria ser contada.

Fábio Mariano mora em Campinas-SP. É autor de O Gelo dos Destróieres (Contos, 2018) e Habsburgo (Novela, 2019), ambos pela Editora Patuá. Numa parceria entre Patuá e Ofícios Terrestres, publica agora Ruído Branco (Contos), uma realização do ProAC 2019, no qual se encontra “Infierno”.

quatro poemas de Ronald Augusto

duas breves elegias

nessas viagens em que estradas
se desatam num sem-fim
em algum momento
entre uma e outra colina desbastada
vislumbro o mesmo sempre passarinho
em voo ansioso lado a lado com o ônibus
por alguns segundos

a noite escapa das entranhas
dos milhares de eucaliptos
e vai comendo devagarinho
a estrada pelas duas pontas

jazz coisa

um cara negro olho no olho da câmera
enquanto mete os beiços no bebedouro
destinado à branquitude

outro cara, um negro de nome clausural
mãos no teclado do piano como se dissera
me dá isso aqui que vocês vão ver só uma coisa

adorno dando com os cornos
em portões que não se abrem às suas pressuposições
sem ter ideia do como se haver com essa forma
de traição com essa sem-cerimônia no limite
da liturgia com esse
transe de desobediência civil

simplício

movimento é princípio de physis.
os céus estão sujeitos à geração e à corrupção.
para cada um dos possíveis movimentos simples
a conversiva, mover-se segundo
uma premissa que não é tolerada.

o fogo
a terra
onde se acoita o éter indefensável.
os três movimentos simples entalam o vale.
a estrada e as pedras de sal
a salmoura nos pés esfolados de simplício
simplício e a circunferência.

os corpos
os corpos
os corpos os corpos os corpos
no capítulo dois do livro um.
o que pode ser completado é não perfeito

cohabpestano

onde é pelotas, afinal de contas?
uns concordam que é no laranjal.

ou que é ali no mercado e suas imediações
a biblioteca o quindim de nozes.

os doces negros dos negros de pelotas
muitos juram que é onde pelotas.

têm aqueles que vão convencidos
de que pelotas é algo dos ramil.

de que pelotas agora é outra
que é outra onde angélica freitas.

onde é giba giba, afinal, pelotas?
é ainda pelotas ao final de tantas?

pelotas até cohabpestano
onde extremo o aeroporto é pelotas.

esgoto a céu aberto
onde o pestano a contragosto é pelotas.

onde é o povo negro no pestano
a poeira das ruas de terra e chão.

o ir e vir do povo do pestano
onde afinal é pelotas, a que eu sei.

Ronald Augusto é poeta e ensaísta. Formado em Filosofia pela UFRGS. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Oliveira Silveira: poesia reunida (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog Poesia-pau e é colunista do portal de notícias Sul21.

acto contínuo, poema de Sofia A. Carvalho

I.

enquanto
o mundo se afunda
para que viva no meu rosto
porque ainda não há
fenda
por onde os pulmões
por onde uma lâmina
por onde a espinha
por onde
amor absoluto

por distante que seja

por onde
inseguríssima manhã
ditando iniciais ao corpo
por onde
teia vocal circulando
em curto
espaço deslocado

por onde
quem desaguando
comigo se despenha

II.

cada dia isto
a carne
por dentro da pele
madrugada sondando
não sei que lugar

por onde
a consumação dos dedos
aqueduto de vários nervos
exortando a vida
para não entristecer
sozinha
isto
querendo dizer
múltiplos braços cruzando
a mesma atmosfera

por onde

alguém que mo diga

III.

por onde
puxada a ferros desde o começo
eu e a vida
impendendo sobre
décadas cobertas de frases
e às vezes
muito acima disso
olhando

estações palavras portas
a girar
se me chamas canção
gerando canção
mistura de anos na garganta
que não é senão
minha

e só uma coisa
por onde o resto acontecia

IV.

por onde
ignorando o lado escuro
a zona impossível
sem retorno
abrindo-se
por onde
nem mesmo o que ignoro
e trago comigo
por onde
um peito contra o solo
sangue
do meu sangue

então leite
desabitando as estrelas
monotonamente

V.

por onde
meio do céu se te chamo
isto
porque não há perfis
por onde
nem horóscopos
nem lanternas nem ossos
nem adjectivos cheios de gente
a compor a solidão

aquilo
valendo o sol
e o seu aspecto em cada
nome

por onde
o espírito
mexendo invariavelmente
como se fruto
deixando-me seduzir

atalaia transformando
a boca em ninho

acto contínuo

por onde
eu e tu um só corpo
pedra branca apocalíptica
subindo-me até aí


o que não me foi ensinado.

Sofia A. Carvalho é doutoranda no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [PT], com um projecto sobre Teixeira de Pascoaes. Além de uma paixão pelo teatro que a levou a sair do lugar de espectadora, tem vindo a publicar escrito, ensaios e poemas em revistas e plataformas literárias (Revista Sítio, Forma de Vida, Jogos Florais, Subversa, Ruído Manifesto, A Virada, Literatura e Crítica, Gazeta de Poesia Inédita, entre outras). A sua mais recente edição (2019) foi a de um livre-affiche, Hiante, feito em colaboração com o músico electroacústico João Castro Pinto, com a chancela helvética da Grimaces Éditions.

o momento, de Inês Filipa Vieira Brandão

Henrique dirigiu-se à sala. Sentou-se na poltrona que lhe fora deixada pela avó materna. Era castanha, com umas manchas amareladas e uns pontos descosidos, marcas do uso e do tempo. Tinha um apoio para os pés e um suporte para colocar copos, embora ele o usasse para depositar as folhas amarrotadas, outrora esboços de desenhos que, por não terem a qualidade ambicionada, não eram dignos de ser olhados por outros olhos senão os dele.

Estava feliz. Não tinha razões para não estar, embora se saiba que o cérebro humano não é tão linear assim e pode levar-nos rapidamente a um estado de tristeza, mesmo que tudo à nossa volta corra conforme o planeado.

Hoje fixou o pensamento sobre a poltrona, normalmente não o faria, sentava-se apenas, de forma mecânica e irracional. Mas hoje recordava aquela senhora, que tinha tido a sorte de poder apelidar de avó, e que lhe deixara tal objeto, não em qualquer documento escrito, mas por ter repetido várias vezes ao longo dos anos: “esta será tua quando eu… sabes?”. Não gostava de falar na morte, não tinha a frieza necessária para enfrentar uma condição na qual não tivesse oportunidade de estar com a sua família. A sua reflexão foi interrompida pelo som do telemóvel, era o seu pai. A voz trémula e praticamente irreconhecível, que se unia a um choro desesperante, dizia-lhe que a sua mãe lhe falecera nos braços. De impulso, Henrique levantou-se da poltrona e saiu. A felicidade foi-lhe arrancada, as recordações da poltrona e da sua avó depressa se dissiparam.

Tinha vendido o carro há uns meses. Por viver no centro de Lisboa, decidiu que não precisava dele; arrependia-se hoje desta decisão, porque esta o obrigava a esperar pelo próximo comboio até Coimbra, terra que o viu crescer e local onde os seus pais decidiram permanecer, mesmo depois dele se ter mudado para a capital. Comprou o bilhete às 16h40, o comboio partia dentro de dez minutos. Percorreu a gare, ouvia o bater do seu coração, acelerado, o suor escorria-lhe pela cara e havia uma ansiedade e um nervosismo persistente que o mantinha alerta e, ao mesmo tempo, o cegava em relação a tudo o que o rodeava. Mantinha os olhos fixos no comboio, era verde e branco; Estava lá ao fundo, ele via-o, quase que o sentia e, no entanto, parecia-lhe tão longe como o caminho que ainda teria de viagem até chegar à sua família.

Pela terceira vez nos últimos cinco minutos, olhou para o relógio. O tempo parecia ter parado e, ao mesmo tempo, sentia-se culpado por deixar o seu pai sozinho durante este período, que lhe pareceu mais longo do que a realidade comprovava. Colocou a mão sobre o corrimão que dava acesso à sua plataforma e percorreu-o. Estava sujo, peganhento. Pensou na quantidade de pessoas que já lá teriam pousado as mãos e, num gesto brusco e apressado, retirou a sua.

O comboio estava cada vez mais perto. Olhou novamente o relógio, 16h45. Já conseguia tocar na primeira carruagem, mas o seu lugar ficava na terceira, tinha de continuar a andar, com a mesma urgência. Ouviu a última chamada, entrou…

Já sentado no interior do comboio, a impaciência e o sentimento de impotência apoderaram-se de Henrique. Tentou ler, escrever, ver as notícias no telemóvel, mas os seus esforços revelaram-se inúteis; Seriam duas horas de sofrimento, pensou.

Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade, chegou a Coimbra. Depressa encontrou um táxi e, sem grandes explicações, disse que tinha pressa em chegar ao hospital. Armando, nome com o qual o taxista se apresentou a Henrique, ficou apreensivo com o pedido e, como tal, perguntou se ele se sentia bem. Henrique explicou aceleradamente e sem detalhe a situação; Nenhum dos dois falou mais depois disso, pelo menos até ao momento do pagamento.

Chegado ao hospital, subiu umas escadas e percorreu um longo corredor até encontrar alguém a quem poderia pedir direções que o levassem até aos seus pais. Apercebeu-se que já se teriam passado mais de 15 anos desde a última vez que entrara neste hospital, num dia em que partiu o braço direito, resultado do seu envolvimento numa luta com um rapaz que tinha tentado beijar a sua namorada da altura. Foi um namoro ingénuo, característico da idade, do início da adolescência, mas naquela época pareceu-lhe correto defender a sua honra, arremessando dois socos na direção do outro rapaz, apenas para depois sofrer o triplo.

Após falar com um funcionário, que prontamente lhe indicou o caminho, deparou-se com a porta do quarto que do outro lado revelava o corpo debilitado da sua mãe. Ouvia as máquinas a trabalhar, ouvia o pranto do seu pai, mas faltavam-lhe as forças para entrar; Num impulso, reuniu a coragem necessária, abriu a porta e caminhou na direção deles. Ela não estava morta, tal como o pai lhe tinha transmitido, pensou. Mas nos olhos dela não via vida, nem qualquer reação, as máquinas respiravam por ela, havia um hematoma no braço, provavelmente causado pelas várias tentativas que a enfermeira fizera para conseguir espetar a agulha que agora a alimentava apenas de soro.

Tentou comer algo, perto da hora a que costumava jantar, e sugeriu ao seu pai que fizesse o mesmo, embora nenhum dos dois tenha conseguido cumprir essa tarefa, outrora banal e rotineira, mas que nas últimas horas se tornara hercúlea, por força das circunstâncias.

Alcançou uma médica, uma que já tinha observado no quarto da sua mãe, mas a quem não teve a coragem de perguntar nada até este momento. Falaram durante algum tempo, ela informou Henrique da gravidade da situação e da pouca probabilidade da sua mãe passar daquela noite. Irrompeu num pranto, as lágrimas surgiram, foi a primeira vez ao longo daquele dia em que se permitiu chorar. Filipa, nome da doutora que ficaria para sempre gravado na ficha médica da sua mãe, estava certa sobre tudo o que disse. Henrique sentou-se numa outra poltrona, no corredor do hospital, na sua cidade natal, a dois metros do quarto onde a sua mãe respirara pela última vez, sem ter tido a possibilidade de se despedir dele.

Quem diria que um dia que começara calmo para Henrique, acabaria com o choro amargurado de um neto e filho que, para além sentir a falta da sua avó, teria agora também de lamentar a morte da sua mãe.

“É a vida”, todos lhe dizem desde esse dia fatídico, embora a sua se tenha alterado drasticamente, porque afinal, há pessoas, dias e momentos que nos mudam a vida, para sempre.

Inês Filipa Vieira Brandão nasceu a 29 de março de 1998, em Lisboa. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tirou o curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Publicou o seu primeiro livro infantil a Fevereiro de 2020, intitulado A Flor Margarida. Vive no centro de Lisboa, é professora e sonha um dia fazer da escrita a sua carreira profissional. Página do seu livro no [link].

dois minicontos poéticos do livro ‘Dreams’, de Olive Schreiner

Dreams (Londres: T. Fisher Unwin, 1890), de Olive Schreiner, traduzidos por Rodrigo Moncks.

Life’s gifts.

I saw a woman sleeping. In her sleep she dreamt Life stood before her, and held in each hand a gift — in the one Love, in the other Freedom. And she said to the woman, “Choose!”

And the woman waited long: and she said, “Freedom!”

And Life said, “Thou hast well chosen. If thou hadst said, ‘Love,’ I would have given thee that thou didst ask for; and I would have gone from thee, and returned to thee no more. Now, the day will come when I shall return. In that day I shall bear both gifts in one hand.”

I heard the woman laugh in her sleep.

Presentes da vida

Eu vi uma mulher dormindo.

No sono, sonhava que a Vida estava diante de si, segurando em cada mão um presente — em uma, o Amor, em outra, a Liberdade. Então ela disse à mulher: “Escolha”.

A mulher esperou muito tempo e disse: “Liberdade”.

Então a Vida disse: “Escolheste bem. Se tivesse dito Amor, eu lhe teria dado e então partido, sem nunca retornar a ti. Agora, chegará o dia em que voltarei. Nesse dia, hei de trazer os dois presentes em uma só mão”.

Eu ouvi a mulher rir enquanto dormia.

The artist’s secret.

There was an artist once, and he painted a picture. Other artists had colours richer and rarer, and painted more notable pictures. He painted his with one colour, there was a wonderful red glow on it; and the people went up and down, saying, “We like the picture, we like the glow.”

The other artists came and said, “Where does he get his colour from?” They asked him; and he smiled and said, “I cannot tell you”; and worked on with his head bent low.

And one went to the far East and bought costly pigments, and made a rare colour and painted, but after a time the picture faded. Another read in the old books, and made a colour rich and rare, but when he had put it on the picture it was dead.

But the artist painted on. Always the work got redder and redder, and the artist grew whiter and whiter. At last one day they found him dead before his picture, and they took him up to bury him. The other men looked about in all the pots and crucibles, but they found nothing they had not.

And when they undressed him to put his grave-clothes on him, they found above his left breast the mark of a wound — it was an old, old wound, that must have been there all his life, for the edges were old and hardened; but Death, who seals all things, had drawn the edges together, and closed it up.

And they buried him. And still the people went about saying, “Where did he find his colour from?”

And it came to pass that after a while the artist was forgotten — but the work lived.

O segredo do artista

Havia um artista, que pintou uma obra. Outros artistas tinham cores mais caras e mais raras e pintaram quadros mais ilustres. Ele pintou o seu com apenas uma cor, de um intenso brilho vermelho, e as pessoas viviam dizendo: “Gostamos dessa obra, gostamos do seu brilho”.

Outros artistas vinham e diziam: “De onde tira essa cor?”. Eles perguntavam ao artista, que sorria e dizia: “Não posso contar”, e voltava a trabalhar, de cabeça baixa.

Um foi para o Extremo Oriente e comprou pigmentos caros, fez uma cor rara e pintou. Depois de um tempo, porém, a obra desbotou. Outro leu os livros antigos e criou uma cor cara e rara, mas quando a colocou na sua obra, parecia morta.

O artista seguiu pintando. Seus trabalhos se tornaram cada vez mais vermelhos, e o artista, cada vez mais branco. Um dia, encontraram-no morto diante de sua obra e o levaram para ser enterrado. Os outros artistas procuraram em todos os potes e cadinhos, mas não encontraram nada que já não tivessem.

Quando o despiram para vestir as roupas do sepultamento, encontraram no lado esquerdo do peito a marca de um ferimento muito antigo, que deveria estar ali durante toda a sua vida, pois as bordas estavam duras e envelhecidas. Mas a Morte, que veda todas as coisas, havia juntado as bordas, fechando a ferida.

Então o enterraram, e o povo continuou dizendo: “De onde tirava essa cor?”.

Aconteceu que, depois de um tempo, o artista foi esquecido — mas seu trabalho seguiu vivo.

Olive Schreiner (1855 — 1920) foi uma autora sul-africana, notória por sua escrita progressista. Uma das primeiras figuras literárias da África do Sul após a colonização inglesa, a publicação de maior sucesso de Schreiner é The Story of an African Farm (1883), obra considerada precursora da escrita feminista na literatura. Além do papel da mulher, a autora promovia outros temas tabus à época, como abolicionismo, agnosticismo e vegetarianismo.

Rodrigo Moncks é tradutor e revisor de textos com formação em Letras (bacharelado, UFPel) e Estudos da Tradução (mestrado, UFSC).

quatro poemas do livro ‘o movimento dos pássaros’, de Micheliny Verunschk

capa_passaros

* * *

Toda superfície serve à palavra
o vidro da manhã por exemplo
ainda que úmido pelos humores da noite
e quebradiço por sua natureza fractal
ainda assim serve à palavra.

Serve à palavra a pedra da tarde
sua face rugosa e irregular
sua porosidade que leva
ao centro dela mesma
toda tinta toda dor e flexão.

Toda superfície serve à palavra
mesmo o voo da noite
insubmisso e imprevisível
suas asas negras compondo fúria e ventania.

A palavra
ela vem
ela é.

sobre o poema

Não necessito de outro chão
para andar
que não este poema.

A pedra do vocábulo
que ultrapasso
fere meu dedo
com seu aguilhão de zargun.

Este poema
território aberto
para além do mapa.

este poema
me alerta.

a porcelana de todas as coisas

para Assionara Souza

o pássaro retirado das garras do gato
sua pequena vida paralisada por um instante
paciente e forte
sem compreender o curativo precário
sobre o estômago delicado
pedrinhas e sementes à vista
o vermelho vibrante do sangue
e talvez um raio do sol de inverno
o atravessando.

hoje morreu uma estrela
gás e poeira em direções opostas
a mais de um milhão de quilômetros por hora
supernova que alimentará outros grupos de estrelas.

eu sei que o anjo da morte inventou essa tristeza de ser gente
e de saber da porcelana de todas as coisas.

mas o pássaro voou apesar da ferida
e a luz da estrela brilha sobre nós em nossa frágil eternidade.

sobre o antipássaro

essa caixa de guardar absurdos.
essa caixa de gerar esquecimentos.
essa caixa de ossos e lamentos.
essa caixa labirinto de ventrículos.
essa caixa de caminhos esquecidos.
essa caixa de linhas esticadas.
essa caixa de tudo tão pesada.
essa caixa essa caixa essa caixa.
teu nome dentro dela uma ave.

uma ave a bater desencontrada.

| poemas do livro o movimento dos pássaros (Martelo Casa Editorial, 2020), em pré-venda no [link]. |

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. Foi membro de vários corpos de jurados de concursos literários brasileiros, entre eles o Prêmio Jabuti e o Prêmio Sesc de Literatura.

primeiro capítulo do romance ‘Você me espera para morrer?’, de Maria Fernanda Elias Maglio

SEIS ANOS

Ilana arranca um chumaço de grama e coloca na panelinha vermelha, despeja um pouco da água que está no pote de margarina, mexe com um graveto, tá pronto o papá, nenê, agora come. Fala com a boneca de olhos vidrados de azul, o rosto rabiscado de caneta, um tufo de cabelo amarelo, quase branco, saindo do alto da cabeça. A boneca não tem roupa nenhuma, ainda assim não está pelada, porque não tem o que faz menina estar pelada. Abre as perninhas de plástico e olha: nenhum risco, nenhuma coisa escondida. Desce a saia e a calcinha até a altura dos joelhos, abre as pernas que não são de plástico e olha: o risco e as coisas escondidas. Encosta o indicador em algo que lembra um botão, o corpo se retrai, em seguida ela ri, sem barulho. Toca de novo e dessa vez nem se contrai, só o riso que ninguém ouve. Escuta a voz da mãe na cozinha e puxa saia, calcinha, a boneca ainda de pernas escancaradas, sem nada para mostrar, a comidinha de grama ao lado, nenê danada, nem comeu o papá. Leva o indicador embaixo do nariz e sente o cheiro do lugar que a mãe chama de lá. A mãe diz, lava direitinho lá, tem que lavar bem lá pra não cheirar, e sempre cheira, não importa o quanto sabonete esfregue (e é bom esfregar lá), sempre um cheiro de uma coisa que ela não sabe. A irmã tem o mesmo lá e ela queria perguntar, Line, quando você passa sabonete lá, fica cheiro de sabonete?

Mistura o resto da água do pote de margarina na terra, enrola brigadeiros de lama, pensa em fazer um bolo, uma festa para a filha que não tem lá.

Aline chega e diz, posso brincar, Lana? Ã hã, Ilana responde. Aline é mais alta, a tia Dodora sempre fala que nem parecem gêmeas. Todo mundo diz que Aline aparenta ser mais velha, até os tios de São José dos Campos que vieram no natal passado, uma mesa bonita com uva, azeitona espetada no palito, mortadela, cereja, pensa em cereja e lembra do bolo de lama. Diz para a irmã, tem que fazer um bolo, Line, é aniversário da nenê. Aline olha a boneca no cimento, as pernas para cima formando um triângulo sem fechar, os pés apontando para o céu sem nuvens, essa boneca é muito feia, Lana, faz de conta que é o nosso aniversário. Ilana não gosta que a irmã tenha dito que a filha é feia, porque ainda que seja feia, é filha. Queria que a mãe pensasse assim também, que, ainda que os cabelos sejam grossos e as unhas roídas todas, é filha. Pega a boneca do chão, a pele de plástico quente do sol, dá um abraço e cochicha: você é bonita, nenê. A mãe nunca diz nada dessas coisas, só fala, vem almoçar, vem jantar, vai tomar banho. A tia Dodora sim, fala umas coisas que dá vontade de chorar, mas não é de triste, ela diz, você parece uma princesa, Lana, quer um leite com chocolate, faço um quentinho pra você. Se a tia Dodora fosse a mãe, certeza que ia contar o nome verdadeiro do lá.

Aline está com a mão direita mergulhada no balde azul, mexe o punho como se fosse colher, estou fazendo o nosso bolo, Lana, vai ter três andares. Ilana toma coragem e pergunta: como chama de verdade o lá, Line? Aline diz, lá onde, Lana? O lá de menina e aponta o indicador roído para o meio das próprias pernas. Ah, chama perereca, não sabia? Ilana faz, ã hã, para encerrar o assunto com a irmã, precisa pensar, perereca, perereca. Ela tem medo de perereca, quando aparece uma no banheiro do sítio, corre e chama a tia Dodora, o tio Valter diz, não faz nada, Lana, é só bicho da natureza. Agora não vai ter mais medo, porque perereca é bom da gente colocar o dedo e uma vez colocou um batom dentro da calcinha, encostando no botãozinho, passou o dia inteiro e uma hora a mãe desconfiou, porque Ilana cruzava muito as pernas. A mãe deu bronca e puxou o cabelo com força, onde já se viu botar as coisas lá, deixa seu pai te pegar de sem-vergonhice. Ela gosta quando o pai não está em casa, só a mãe, o cheiro da cebola fritando no óleo, melhor ainda quando ela e a irmã estão de férias no sítio, sem a mãe, nem o pai, a tia Dodora mexendo doce no tacho, ariando panela, o tio Valter cuidando dos porquinho bebês, cavoucando a terra para mostrar minhocas, olha essa que bitela, parece cobra, e Aline pergunta para o tio como elas não sufocam debaixo da terra e o tio Valter explica que a terra é o ar delas.

Aline terminou o bolo que seca ao sol, uma vela de graveto espetada na lama, será que boto umas folhas, Lana, pra enfeitar? Ilana faz, ã hã, e continua enrolando os brigadeiros, tem um monte, tenta contar, mas se perde, não sabe o que vem depois do dezessete, acha que o dezenove, mas não tem certeza. A mãe grita, vem almoçar, e Aline diz, vamos cantar parabéns bem rápido, Lana. Em um minuto cantam parabéns, dizendo, viva a Lana, viva a Line, sopram a vela, sem fogo nenhum, e juntas seguram um pauzinho para cortarem o bolo. Aline sussurra no ouvido da irmã, vamos fazer um pedido, Lana, um só pra nós duas, e Ilana pergunta, o que a gente pede? A gente vai pedir pra uma não morrer antes da outra.

* * *

Estão sentadas, já lavaram as mãos e os braços, o pai não gosta de sujeira na hora da refeição. A panela está na mesa, o que tem dentro é macarrão, porque hoje é domingo, a mãe fez laranjada e salada de tomate com orégano e óleo. A mãe não abre a panela e nem serve a laranjada para as meninas, porque o pai ainda não sentou. A porta do banheiro encostada, escutam o jato de urina caindo na água da privada, um jorro contínuo e depois duas golfadas, barulho da descarga, torneira aberta. O pai senta e não diz nada, ainda tem sono nos olhos e na roupa amarrotada. Ilana pensa que deve ter dormido de roupa, ouviu a mãe contar para a tia Dodora que de sábado o pai chega para amanhecer o dia e deita de roupa e tudo, sem nem lavar os dentes. Ilana não sabe o que a tia Dodora respondeu, passou um caminhão na rua bem na hora e quando acabou o vrum de tremer as paredes, a mãe já tinha voltado a mexer o arroz doce e a tia falava, o cheiro tá bom, Ana.

O pai tem a boca tão cheia que é preciso abri-la para dar conta de engolir a comida. Ilana olha com o rabo do olho a boca do pai muito aberta, os dentes do fundo pintados de prateado. A dentista em que a mãe levou chama de estrelinha, Ilana tem uma e Aline, três. Doeu muito para pintar a estrelinha no dente, antes uma máquina com barulho de abelha fazendo zuuuuuuuu e abrindo um buraco, a dentista dizendo, peraí que o bicho tá saindo, e um cheiro que não é de lugar nenhum, Ilana pensou que pudesse ser de osso. O tio Valter contou que dente é osso, mas ela acha que não, porque osso fica escondido na carne e dente aparece quando a gente ri ou enche muito a boca de macarrão.

A mãe recolhe os pratos, copos, a jarra com três dedos de laranjada e diz, vão brincar, sem barulho, o pai foi descansar. Aline fala, vamos desenhar, Lana, eu faço um desenho de bicho e você adivinha, depois a gente troca. Ã hã.

* * *

Aline desenhou leão, girafa, cachorro e jacaré e Ilana só não adivinhou o jacaré. É a vez de Ilana desenhar e a ponta do lápis vermelho quebrou, justo quando desenhava a asa da borboleta e Aline não sabe ainda que é uma borboleta, era só o começo do desenho, pega apontador, Lana, tem um na gaveta do telefone que eu vi.

Não tinha nenhum apontador na gaveta, só duas bics azuis, uma lista telefônica, três clipes, um pedaço de papel escrito alguma coisa que ela não sabe, ainda não aprendeu a ler. Pensa que quando aprender, vai entender tudo e vai escrever muitas vezes, perereca, perereca, perereca. A porta do quarto do pai está encostada, nenhuma fresta. Para em frente à porta e escuta o barulho do ronco, imagina a língua mole, os dentes prateados mastigando o macarrão, ela perguntou para o tio Valter porque vaca mastiga sem parar e ele respondeu que vaca não tem o que fazer da vida, então fica mastigando. Ela quer ter o que fazer da vida, não quer ficar mastigando e não quer mais nenhuma estrela, não quer sentir nunca o cheiro de osso de novo. O que você tá fazendo aí, Lana? Ilana se assusta com a voz da irmã, dá um pulo para a frente, em direção à porta encostada, que abre em uma fresta, revelando o pai deitado de barriga para cima, está só de cueca, o ventilador em cima da cômoda, o corpo coberto por uma transpiração de gordura, já passa da uma da tarde e um calor que só pode fazer nesta terra, é o que diz a tia Dodora quando está muito quente e está muito quente todos dias. Aline solta uma risada, segurando a boca com a mão, olha o coiso dele, Lana. E Ilana vê: a cueca do pai estufada feito sonho de padaria, lotada de creme até quase estourar. O pai ronca, a boca muito aberta, o ventilador zunindo, a colcha vermelha, a cueca gorda. Ilana tem vontade de chorar, o pai ali brilhante de suor, olhando assim não parece mau, não parece capaz de fazer ruindade, judiar de criação e ela ouviu o tio Valter dizer que quem judia de criação é gente ruim. O que estão fazendo aí? As duas se assustam com a chegada da mãe e soltam dois gritos idênticos, o mesmo tom agudo, nunca parecem tão gêmeas como quando são involuntárias. O pai acorda com o barulho e diz, que é isso, com a boca de muitos dentes e língua mole. A mãe fala, nada não, João, pode tornar a dormir, e o pai olha em direção à própria cueca estufada de creme, faz um movimento com a cabeça, as meninas não percebem. A mãe manda as duas para o quintal, entra no quarto e elas escutam a chave rodando, um trec metálico.

* * *

Quer brincar de amarelinha, Lana, a gente desenha de tijolo? Ilana não quer, está sentada no chão e raspa um graveto do cimento, pensa sobre uma infinidade de coisas, dentista, perereca, sonho de padaria, queria perguntar uma coisa para a irmã, mas não sabe o que. Aline pula uma amarelinha invisível, alternando um pé, dois pés, um pé, dois pés, deixa de ser boba, Lana, vem pular. De repente sabe o que queria falar para a irmã. Antes de perguntar diz, senta, Line, para de pular igual cabrita. Aline se assusta com a ordem da irmã, que não é de dar ordens, e se senta no chão de cimento. Por que você pediu aquilo, Line, da gente morrer igual? Aline ri e diz, foi só uma coisa da minha cabeça, Lana, bobeira. Ilana diz, eu gostei, isso de uma morrer quando a outra morrer. Ilana quer explicar, mas não consegue, só entende que gostou. Combinado, Line, quando eu morrer você morre também? Tá combinado, Lana, só não vai morrer agora. As duas riem e Aline convida de novo para pular amarelinha, Ilana agora aceita.

A irmã pega o tijolo e desenha um círculo imenso e não escreve nada dentro, só desenha uma nuvem e ambas sabem que é o céu e que na outra ponta, dentro da bola, vai ter um tridente que será o inferno e Ilana tem medo de inferno, capeta, essas coisas todas, queria combinar com a irmã de, quando morrerem no mesmo dia, no mesmo segundo, irem direto para o céu. Aline procura uma pedra no canteiro e já deve ter esquecido de que vão morrer no mesmo dia, tomara que de mãos dadas, para nenhuma sentir medo, com sorte demora muitos anos, muitos, muitos, tantos que ela nem sabe contar, depois do dezessete vem o dezoito, agora ela se lembra.

O sol arde a pele das meninas, o cimento, a boneca, o pote de margarina, o barro endurecido, os riscos de tijolo da amarelinha. O céu é de um azul impossível. Um avião passa alto, as irmãs param o jogo e balançam as mãos em tchau.

| o livro concorre ao Prêmio Kindle de Literatura e está disponível na Amazon. |

Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP, em agosto de 1980. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, Enfim, imperatriz (Editora Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria Contos. Publicou também o livro de poesia 179. Resistência (Editora Patuá, 2019).