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a agência, conto inédito de Micheliny Verunschk

Era mais uma sexta-feira quente como outras daquele mês, o barulho do ventilador se repetindo como um mantra, seu ciclo sonolento e desalentador. Eu gostava de me imaginar como Dupin, decadente em Montmartre, mas a verdade é que me faltaria sempre o brilhantismo intensamente humano do personagem de Poe. A chamada que me levou ao Trevo do Corredor me sacudiu do marasmo, um corpo dentro de um carro esperava pela composição de uma narrativa. E se eu não me mexesse, ela permaneceria congelada, à espera de alguém que a fizesse se movimentar.

O homem estava sentado no banco do carona. A cabeça fora esfacelada por cerca de 15 tiros e os dedos arrancados grosseiramente, o que sugeria que o crime fora passional ou, por outro lado, se tenha tido o intuito de dificultar a identificação do cadáver. Fiquei com a segunda hipótese, muito embora soubesse que se o assassino quisesse mesmo embaralhar a investigação seria mais produtivo incinerá-lo e, aí sim, atravancar o trabalho em meses. Entretanto, se aprendi algo nesses anos de profissão é que o criminoso sempre deixa a senha para ser pego, uma pequena negligência, um aparente descuido. Mesmo no crime perfeito, a chave está lá, é preciso apenas ter olhos para ver. Nem sempre os tenho, é verdade.

O que me sugeria que não fosse um crime passional? A uma primeira vista, a posição da vítima dentro do carro me dizia que ela fora morta em outro local. Num segundo momento, eu soube que aquele corpo com a cabeça horrivelmente disforme morava a poucos metros de mim, no mesmo conjunto de apartamentos da zona sul da cidade. Eu já havia visto no elevador aquela combinação de calças listradas e camisa xadrez, e a proximidade do crime a poucos metros da minha vida me deu um arrepio. O corpo foi enviado à Medicina Legal e eu, cumprindo o meu papel, resolvi tudo em quatro linhas.

Gazeta da Aurora
26/01/2018

Corpo é encontrado desfigurado

O corpo de um homem não identificado, com o rosto desfigurado, foi encontrado num carro abandonado próximo ao Trevo do Corredor. Segundo os policiais, os assassinos desfiguraram a vítima no intuito de dificultar sua identificação. O corpo, que teria recebido cerca de 20 tiros, foi encaminhado ao IML.

A última vez que eu vira o sujeito fora mesmo no elevador cerca de três dias antes. Ele levava duas caixas consigo e suava desesperadamente, olhou para mim algumas vezes como se procurasse algo, talvez empatia. Na garagem, deixara a chave do carro cair algumas vezes. Não ofereci ajuda, afinal nunca nos cumprimentamos. Achei patético e agora sabia o quão de espetáculo grotesco pode haver numa morte anunciada, porque estava claro que o homem saíra de casa para morrer e estava ciente disso e, mais, haveria de saber também que não haveria fuga possível, contorno que pudesse fazer que o colocasse fora do alcance do seu destino.

Resolvi voltar para casa aquela noite. Nem sempre eu voltava, é certo, perdido entre rodas de cerveja e mulheres anônimas. O apartamento estava um verdadeiro pardieiro, cheiro de comida azeda e tabaco, livros por todos os lados. Por baixo da porta, um envelope pardo se comportava como um inseto sem nome, parado, atento ao que eu faria, o joguei em cima da mesa e desabei no sofá. No dia seguinte, ao examiná-lo, uma série de recortes noticiavam atividades antigas da Agência de Controle Epidemiológico. Não entendi nada até a hora em que fui conversar com o porteiro sobre o vizinho de calças listradas. Foi aí que consegui um nome, André Salviano, e sua ocupação, funcionário da Agência.

O homem morto havia, finalmente, conseguido a minha atenção.

Liguei para a Agência e perguntei pelo homem. Três ramais depois, um sujeito perguntou grosseiramente o que eu queria com André. Preciso falar com ele, respondi, sabendo da impossibilidade do meu pedido. Do outro lado, o baque do aparelho sendo desligado sem nenhum esclarecimento possível, tornava as coisas mais sombrias. Foi quando lembrei de fazer uma devassa nas reportagens mais recentes sobre a Agência. Recordei de tê-la visto nas páginas policiais não havia muito tempo.

Sim, fato corriqueiro, um arrombamento, nada de valor aparentemente levado, e algum vandalismo. Mas agora, um funcionário morto trazia um elemento a mais para a trama na qual eu me enredava.

Gazeta da Aurora
19/01/2018

Criminosos arrombam escritório central da Agência de Controle Epidemiológico

O escritório central da Agência, na zona sul, foi arrombada nesta madrugada. Não há informações sobre o que foi levado e até o momento, ninguém foi preso.

A vida oficial de André Salviano parecia monótona. Seu perfil no facebook mostrava um homem solitário. As postagens públicas em geral compartilhavam insistentes alertas de cuidados com a saúde, meios de evitar surtos e epidemias, o que me levou a crer que fosse um desses maníacos por limpeza. Sem relacionamentos aparentes, nada o direcionava para a trágica cena da qual fui uma das primeiras testemunhas e foi crescendo em mim a certeza de que aquele desfecho estivesse relacionado à Agência. Os rumos da investigação policial, sempre lentos, me desmentiam. Colegas reconheceram o cadáver e uma suposta amante misteriosa foi trazida ao enredo por uma titubeante testemunha.

João Oliveira dos Ramos, ambulante, depôs que por volta do dia 23 ou 24/01/2018, ofereceu água e balas a um homem com as mesmas características de André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico, encontrado morto em circunstâncias misteriosas no último dia 26. Segundo a testemunha, uma mulher de cabelos claros acompanhava o homem”.

A Agência sempre gozou de boa reputação por seu trabalho social, entretanto em 2015, havia se associado a um grande laboratório multinacional para a prevenção de epidemias e desenvolvimento de novas vacinas. Na época, setores ligados aos movimentos sociais levantaram bandeiras contra uma suposta privatização da agência, denunciando também intervenções não muito éticas do tal laboratório em países da América Latina e África. Em 2016, o governo determinou sigilo de 50 anos nas atividades da instituição. Quanto mais eu pesquisava sobre a Agência mais me convencia de que havia algo cheirando mal naquilo tudo e não, não era apenas o cadáver.

No apartamento de Salviano, nenhuma pista que pudesse levar à mulher misteriosa. No seu enterro, apenas os colegas da Agência. O seu computador não foi investigado. Um crime sem solução, diriam alguns. As pás do ventilador eram agora a trilha da minha obsessão e um homem sem obsessões é pouco menos que fumaça de cigarro, gelo derretendo dentro de um copo.

Foi então que conheci a família de Salviano meses depois, em outro estado. Não pareceu que seus pais estivessem interessados ou animados em quem afirmasse tentar descobrir a verdade sobre a morte de seu filho. Mas antes que eu partisse, recebi no hotel duas caixas misteriosas, da qual dou notícia agora e que são responsáveis por parte da minha teoria.

Março/Abril de 2016, o país ferve com mudanças radicais na vida política. Grupos oponentes se enfrentam nas ruas. Uma série de insurreições contra um golpe desferido nos anseios democráticos do país transforma as cidades em palcos de uma guerra amplamente anunciada. No auge das contendas, um vírus mortal passa a se propagar entre a população causando perdas de vidas, hospitais e emergências inchados. André Salviano, 45 anos, funcionário da Agência de Controle Epidemiológico documenta os passos dessa receita para o caos minuciosamente. Políticos e Empresários trabalham de mãos dadas para esvaziar as ruas com uma epidemia em proporções alarmantes. Com material suficiente para responsabilizar os mandantes de gabinete, André Salviano é eliminado. Agora que estou com suficientes provas materiais, começo a receber ameaças veladas. Ontem uma mulher loira me observou por vários minutos no bar. Não é a primeira vez que a vejo. Se você estiver lendo esse relato, minha vida corre perigo.

Hoje recebi um telefonema: André Salviano não está morto, mas você está.

Nota da autora: Em março de 2016 fui convidada a escrever este conto para servir de base, junto a outro texto, de autoria de Luiz Roberto Guedes, da dramaturgia da peça “Urubus Noir”, da Cia Quase Cinema. Este conto acabou por me surpreender nos últimos dias, após revisitá-lo em leitura, por ocasião da reestreia da peça em formato de live por conta das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Muito embora retrate as tensões políticas presentes naquele início de ano, parece antecipar o cenário do mundo pandêmico que passaríamos a viver exatamente quatro anos depois. Obviamente isso não parece ser uma qualidade da autora, mas uma característica da literatura e do fazer literário, antena a prenunciar o futuro, ou como disse Oscar Wilde, “a literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios”.

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa — vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. É autora também de O movimento dos pássaros (Martelo, 2020) e de O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021).

três poemas do livro ‘grão, gota’, de Eduardo Rezende Pereira

grao_gota_capablues

Me é estranho pensar que posso
ter o mundo em minhas mãos

— sendo eu rapaz
de pouco dinheiro e bens,
sem altos cargos de prestígio e poder,
sem passaporte ou documentos importantes
de livre acesso às fronteiras,
ou mesmo detentor das raras chaves
dos preceitos e amarras sentimentais.

Me é estranho,
mas não impossível.

Não se faz impossível quando me noto, emudecido,
com versos prontos desprendendo dos meus bolsos,
do céu azul de minha boca e do fundo quente da casa-forte
que se faz em eterna alvorada
dentro do meu peito imenso.

Dentro do meu peito imenso
habita uma palavra cara demais
aos homens do mundo:

liberdade

[na língua minha,
e em seus segredos de paladar e semântica,
traduz-se seu sinônimo
como vastidão]

quarentena I (Ou: Fissuras)

I. A primeira poesia de quarentena
tem gosto amargo
de própolis de dor de garganta
e de melancolia de dor de existência.

O vírus arrasa
meu país e meu povo.
Encurralados estamos sem nenhuma opção
resistindo à guerra microscópica.

Cinza amanheceu o dia
na alegoria e na concretude:
é como se o vírus conseguisse
carregar a melancolia minha
junto aos seus arrasos,
tropeços
e mortes gerais.

Esse apartamento
parece pequeno demais
para meu peito apartado
cheio d’água por cair;
para meu corpo
necessitado de apertados abraços;
para esse barulho
confinado em minha garganta fogo;
para meus ansiosos passos
movendo poeira e areia
às fissuras da madeira.

Quero na rua brincar feito criança
e ver a praça da Matriz de perto
cheia de gente, cor e cheiro: gente feliz, gente minha.

Quero a normalidade da vida
para além das panelas que batem na varanda
suplicando o fim desse governo de morte e medo.

II.
Já tirei o relógio do pulso:
que me importam as horas?
É o fim dos tempos — o apocalipse mundial.
Me questiono a duração desse maldito terror,
sabendo não saber a resposta.

Ao vírus não importam as etnias,
as histórias, as crenças, as fronteiras;
o vírus desfaz o teatro do atual sistema:
poderoso e visceral, governa os governos.

III.
O semáforo na esquina pisca toscamente:

Vermelho, amarelo, verde.

Ninguém passa. Não há ninguém para passar.

Os semáforos
não deviam trabalhar;
e nem as empregadas
e os porteiros do prédio vizinho.

Elas e eles até que bons sujeitos são;
deixar de trabalhar é que não é opção.

ipê-amarelo

I.
Eu sinto muito as dores do mundo,
a paleta de cores do nascer do dia
e o significado fatal do seu repouso.
Eu sinto muito cada gesto e lembrança
e cada começo, meio e fim.

E sinto tudo, ainda mais,
quando estou sentindo algo por alguém:

eu sinto a paixão chegar em mim
e estacionar-se em meus vazios,
preenchendo com calor cada canto solitário

— acampando, indeterminadamente, como tiver que ser.

II.
O muito sentir me faz pesado na leveza do que sou.

A inspiração é um arcanjo que nos leva às alturas do mundo,
e poeta que sou sempre enxergo a beleza em seus detalhes.

III.
Confesso que os ipês-amarelos são especiais,
e que também me encanta o cantor do quadro verde,
a fotografia do filme italiano de nome inglês
e a vista da janela se abrindo às cortinas da imensidão cinza.

[Eu poderia derrubar estrela por estrela
e prometer-te remendá-las depois no tecido da noite

— só para dançarmos nus, no semiescuro,
agraciados pelos brilhos dos cacos na varanda:
sem medo do tempo, do espaço
e dos sentimentos em colapso].

| poemas do livro grão, gota (Folhas de Relva Edições, 2020). |

Eduardo Rezende Pereira nasceu no interior paulista, no verão de 1996. É jornalista, jovem militante incansável, e cientista social formado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Entre a primavera de 2014 e o inverno de 2016, publicou uma sequência de artigos sobre cultura, política e sociedade no jornal impresso em que trabalhou durante a sua adolescência. Além de muros, já escreveu em algumas seleções de poesia. grão, gota (2020) é sua primeira publicação impressa, feita pela Folhas de Relva Edições.

disfarces ocultos, de Julianne Veiga

capa_meio_do_mundoNão importa aqui para o relato dar a ela um nome, ele se perde em meio ao das demais que como ela vivem histórias com enredo assemelhado. É que, no geral, muitas das mulheres, muitas, a maioria delas, talvez, podem se reunir num mesmo e amplo perfil de lutas e recaídas pela individualidade, sobrevivência, integridade e dignidade. A mulher deste caso há muito não tem mais pouca idade. O que a deixa tão envelhecida é a percepção de que falhou em suas escolhas, em sua vida, de que a desperdiçou, de que não há mais saída possível, de que está definitivamente enredada nas teias de casulo que tece desde que conheceu este homem com quem vive e que pensou dela fosse.

Ela olha para ele ali do outro lado da sala e conclui, depois de décadas de convivência, que o conhece bem, que hoje sabe onde encontrar seu verso e reverso. Sabe por quais vias periféricas transitam as suas mal disfarçadas intenções, agora já para ela reveladas. Aprendeu a ler suas entrelinhas, seus olhos fechados em falso, a ouvir as palavras não ditas. Sabe dos atalhos usados. Sabe quantas voltas ele dá, por quantos becos caminha para chegar soturno até ela. Consegue identificar seus ares de desdém e deles se defender. Hoje ela sabe que não é dele o objeto de afeto, sequer o é do desejo. Sabe, no entanto, que sua vida ocupa lugar central na dele, porque é ela o ponto para onde convergem todas as pedras por ele jogadas com suas mãos ocultas. Hoje, ela o conhece.

Nunca se calou, mas inutilmente, como muda, gritou palavras inadequadas que ele jamais ouviu. Travou, só, batalhas invencíveis. Esbravejou desorientada, num enfrentamento cego, irresponsável, se expondo ingênua e sem reservas para ele. Deixou à mostra suas fragilidades. Consumiu longo tempo até perceber que tudo que revelava voltava-se contra ela como munição usada em arma de ataque. Descobriu tarde, tarde demais, não sabe sequer onde cavar trincheiras para nelas se jogar. Nada mais pode fazer. E, por isto, trata de eliminar mágoas. Resta pouco mais que tolerância. Se perdoa. Afasta a amargura e continua firme no propósito de ser feliz: sozinha, ela decide.

Pouco tempo passado, porém, ela percebe que ele a está vendo. Ela se aquece. Ele lhe faz uns agrados banais, ela fica agradecida. Ele fala com ela em tom quase gentil, ela se envergonha do que lhe disse antes e dos pensamentos que sustentaram sua equivocada fala estridente, é como passa a lhe parecer. Ele lhe dá um beijo na testa antes de dormir, ela se enternece. Tais fatos bastam para que ela comece a acreditar que se enganou outra vez. Outra vez depois de tantas outras. Ele é bom, é um tanto rude, mas é bom, ela se convence. Acaba por acreditar, também, que ela mesma, dominada por seus antigos fantasmas, foi quem deu margem ao surgimento desta nova crise, assim como das anteriores. Perde a segurança quanto a si mesma e a seus julgamentos. Acha que faz transferências indevidas. Começa a duvidar de sua sanidade. Não se conhece bem como pensava, volta a concluir angustiada. Não o conhece, também. Não por inteiro. Constata que ela não é quem julgava ser e que ele é mais do que consegue enxergar, ou do que antes cria ver. Sente-se desequilibrada. Envergonha-se.

Resolve afastar as lentes duras do seu olhar. Tenta se desfaz de velhas certezas que passa agora a considerar inúteis. Aceita suas oscilações de entendimento e de sentimentos. Aceita igualmente as dele. Perdoa a si e a ele. Perdoa aos dois até por seus próprios erros de percepção e decide continuar firme no propósito de ser feliz. De ser feliz junto dele. Continua ao seu lado, ele que há muito está ali, do outro lado da sala.

Convicta do erro de seu julgamento sobre o companheiro, ela torna a baixar todas suas guardas. Sai da trincheira emocional em que havia se colocado. Retoma antigos gestos de carinho. Se oferece. Entrega-se. De novo, desnuda sua alma para aquele homem rude que está do outro lado da mesa. Ele, por sua vez, (re)impulsionando o velho círculo vicioso, volta a fazer dela seu objeto de desdém, brinquedo estragado, sem uso, abandonado para não ser visto, não ser tocado. Ela está ali do outro lado da cama entregue a ninguém. Ela que outra vez, outra vez, de novo, volta sofrida a se sentir recusada, humilhada, recaindo em seu antigo e destrutivo sentimento de menos valia. A diferença nesta crise derradeira, entretanto, está na ciência que ela vem consolidando de que enquanto não tirar aquele homem do outro lado da sala, da mesa, da cama, não conseguirá ter paz. Já não cogita mais ser feliz.

| conto do livro Histórias do meio do mundo (Editora Patuá, 2021). |

Julianne Veiga nasceu, em dezembro de 1957, na histórica cidade de Goiás, antiga capital de seu estado, onde voltou a residir no final de 2010. É casada, mãe de três filhos e avó quatro vezes. Servidora pública aposentada como procuradora de seu estado. Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Goiás — UFG, e em Direito, também, pela UFG. Iniciou, em 2017, bacharelado em Filosofia, novamente pela UFG. Como amadora, borda e toca tambor. Tem contos e crônicas publicadas pela Gueto, revista online de literatura em língua portuguesa. Participou com crônicas das coletâneas Literatura Goyas — Antologia 2015, Livres Pensadores, e Histórias de ternura, Kelps, 2015. Histórias do meio do mundo é seu primeiro livro publicado.

três poemas do livro ‘Essa palavra sem coração’, de Tatiana Fraga

capa_essapalavrao que nos sustenta é teia tênue

bordada de delicadezas
ponto cheio, nós, correntes
retalhos adormecidos
costurados
avesso emaranhado de fios
remendo no peito
cerzir onde passa o frio
coser sutilmente o
tecido gasto, proteger-se
com dedal de prata
o que nos acalenta é teia tênue
trançada mal traçada quente
rede que suporta o peso
manta que resiste ao tempo

* * *

tudo vermelho hoje

a noite vermelha
minha conta no vermelho
minha calcinha vermelha
hoje não verei as estrelas
atrás das sirenes
dos semáforos vermelhos
das luzes de freio
nem irei a lugar algum
— tenho contas a pagar —
tampouco farei um filho
tudo vermelho hoje
até mesmo o céu
o sangue e as maçãs

* * *

carta aos sobreviventes
para Nahum All

Sobrevive-se às distopias, sobrevive-se às
tragédias planejadas, às leis do desespero.
Sobrevive-se

porque há estrelas sobre nossas cabeças,
porque os deuses de hoje são os mesmos
do começo e do fim do mundo.

Quando a aeronave caiu a trinta e cinco mil
pés, você sorriu. Entre os destroços, me
plantou a memória de que caminhávamos
pela lua. Os sobreviventes do incêndio
brincam com as cinzas em suas mãos.
Elas são mornas e surpreendentes.

Sonhei que escrevia um poema sobre você
e sobre as conversas que tivemos.
Preferimos ser picados pela serpente a
morrer sem tocar as pedras preciosas.

Onde não há gravidade a pinhata não pode
ser destruída. Sobreviveremos brincando.

| poemas do livro Essa palavra sem coração (Selo Demônio Negro, 2021). |

Tatiana Fraga é poeta, jornalista e gestora de projetos educativos e culturais. Foi idealizadora e diretora do Espaço de Leitura no Parque da Água Branca, diretora do Projeto PraLer — Prazeres da Leitura e diretora cultural da Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campo de Poesia e Literatura. Atriz e cocriadora do espetáculo Anti-pássaro — poemas de Orides Fontela e autora dos livros Nino e Nina (Editora Mundo Mirim, 2012), Brasa (Editora Dulcinéia Catadora, 2009) e Espelho (edição da autora, 2008).

as vítimas secundárias da COVID-19, de Priscila Costa Campelo B. Alves

O legado oculto da pandemia que não entra nas estatísticas

26 de outubro de 2020: Há cinco meses recebi uma ligação desalentadora que me deixou completamente estática, sem saber o que fazer. Era minha tia, minha única tia que, em apelo desesperado, implorava por ajuda pois sofria com dores excruciantes em sua perna, provocadas pela falta de circulação e que levou à abertura de um pequeno ferimento, bastante doloroso, característico de pessoas portadoras de diabetes.

Minha tia só queria ser examinada por um médico, queria uma prescrição que aliviasse suas dores; as físicas e as da alma. Levava alguns meses presa em casa, isolada e com medo do algoz que ronda e ameaça humanos de saúde mais frágil. Idosos, imunodeficientes, obesos, diabéticos, pessoas pobres. Todos apavorados enquanto os mais saudáveis gozam de liberdade e desfrutam de uma pseudonormalidade.

A eugenia massiva dos anos 2020.

O medo da Covid e a depressão agravada pelo isolamento, a impediam de buscar tratamento em um hospital, como sempre fez em ocasiões anteriores, quando padecia das úlceras nas pernas. O martírio de minha tia estava apenas no começo, pois o tratamento em casa era inviável e pouco eficiente.

A evolução da úlcera associada às dores e nossa insistência, finalmente a convenceu a aceitar a internação hospitalar. Entre lágrimas e medo, exatos dois meses depois daquela ligação, minha tia se internava para dar início ao tratamento. Era dia 26 e dezembro, um dia após o Natal, que ela tinha implorado por ficar em casa.

O atraso no tratamento foi crucial para o avanço da necrose e minha tia perdeu o Tendão de Aquiles, o que a impedia de caminhar sozinha para sempre e lhe provocava ainda mais desespero. A depressão piorou e ela, que tanto gostava de conversar, já não atendia ligações, não aceitava sair da cama, não comia bem nem tolerava as sessões de fisioterapia e psicoterapia. O declínio físico e psicológico veio e, com isso, a evolução de outras úlceras, agora nos pés.

O medo da Covid-19 e de uma nova “mutilação”, como ela chamava o procedimento que removeu o seu tendão, a impediu de aceitar o retorno ao hospital. Embora tentássemos, de todas as formas, convencê-la da necessidade de internação, não havia acordo. Minha tia sabia dos riscos, mas tinha medo, medo de ter os pés amputados e cair em um abismo maior ainda de dependência, insegurança e vergonha. Preferiu esperar a morte chegar em casa. Durante todo esse tempo, chorava, clamava, pedia para morrer. A dor de viver “mutilada” e o medo do coronavírus pareciam maiores.

Embora quisesse, não pude fazer nada além de tentar, em vão, convencê-la. No entanto, como nenhum paciente consciente e orientado pode ser obrigado a submeter-se a tratamento médico contra sua vontade (Resolução 1995/2012 CFM), nos restavam os cuidados paliativos e esperar.

O avanço da infecção, a depressão e a falta de vontade de viver, conduziram à desorientação e perda de consciência, quando enfim pudemos interná-la. Com a capacidade dos hospitais extrapolando os 100% de ocupação, conseguimos, quase por milagre, uma vaga em um hospital particular na cidade. Era dia 20 de março.

Hoje completam 5 dias da partida da minha tia por complicações do pé diabético que evoluiu a um quadro de septicemia e lhe tirou a vida aos 65 anos. Minha tia não entrará nas estatísticas, para todos os fins de direito, ela não pertence aos 310 mil brasileiros que tiveram suas vidas interrompidas pelo coronavírus mas, certamente, estaria entre nós ainda hoje se não fossem os danos colaterais de uma doença que ameaça, como um serial killer, a todos aqueles que são considerados frágeis.

Embora não faça parte das estatísticas, assim como um paciente de Covid-19, minha tia morreu solitária, em um leito de UTI, longe de seus entes queridos e inconsciente. Cercada de poucos e, embora não fosse acometida pela doença, seu funeral foi igualmente triste e solitário, assim como seus últimos meses. Seus amigos e alguns familiares, também amedrontados, não puderam ou não quiseram estar presentes temendo aglomerações e contágio.

Como se não bastasse, a pandemia também me impediu de vê-la. Eu não pude estar lá, não pude segurar sua mão, nem ouvir suas últimas palavras. Não pude prestar minhas últimas homenagens à segunda mulher mais importante da minha vida. Ela se foi e, assim como outras milhares de famílias brasileiras, eu, minhas irmãs e minha mãe hoje choramos a perda prematura de mais uma vítima colateral da pandemia.

Ela não soube, mas a vacina para sua faixa etária chegou no dia de sua morte. Já era tarde.

Ela não vai entrar nas estatísticas, mas a pandemia levou minha tia. E como ela, muitas outras não entrarão, mas também fazem parte do rastro de sangue deixado pela Covid-19.

São as vítimas secundárias. As que morrem diariamente de outras doenças, de falta de assistência do poder público, de violência doméstica, de solidão e de fome.

Em memória de Maria Sandra da Silva Costa.

Espanha, 29 de março de 2021.

Priscila Costa Campelo B. Alves é advogada e consultora jurídica (Brasil) — OAB/PA 19.280. Especialista em Direito Público e Direito do Consumidor. Doutoranda em Estudos Migratórios e Relações de Gênero — Universidade de Granada, Espanha. Mestra em Governança e Direitos Humanos pela Universidade Autônoma de Madrid. Mestra em Igualdade de Gênero pela Universidade de Jaén, Espanha.

posta restante, poema inédito de Mariana Ianelli

Ainda estás aí? Em que recanto estás?
(Rainer Maria Rilke)

I.

Tornaremos a nos conhecer
Diferentes de quem fomos
Mas qual viagem não nos muda?
Esqueçamos os códigos criados
Para escoteiros doutro mundo
Esqueçamos a tristeza humana
Se já éramos como estranhos
Se o amor se nos antecipou na morte
Tornaremos a nos conhecer
Como corações de novo livres
Para um encontro às escuras
Será outro começo para o tato
Será uma nova intimidade nossa
Um presépio advindo de despojos
Será afinal o descanso da prosa
O riso debulhado de um corpo
Um canto em ondas uma fragrância
Estaremos na cidade das nossas sombras
Com lampiões molhando em calma
A pedra da ponte entre as ruas
E as lidas e as lutas da pequena vida
Não serão mais moinhos nossos
Nosso trabalho de ser girará
Nos arbustos doces de morangos
Na fabulosa proximidade da lua
Em caminhos de água e superfícies
Onde ainda agora se projeta a nossa dança

II.

Quisera te dizer que nada vibra
Que nada continua ao fechar-se o livro
Diria até que histórias terminadas
São histórias finalmente redimidas
Se por algum atalho te apazigua
Isso de um dia rebentarmos em nada
E toda dor de beleza ou de crueza
Perder seu eco entre estrelas goradas
Mas e se por acaso eu te dissesse
Que mesmo depois existe música
Depois de depois das mãos pensas
Depois de depois do fim do mundo
E se eu te dissesse que existe um arroio
Um pensar imparável de nuvens
Pétalas chovendo em outubro
Um gozo nosso gozando em outros corpos
E se eu te dissesse que existe um jorro
Depois de depois do sangue estanque
Depois de depois da casa oca
Que nenhuma solidão é sem testemunha
E que outros poetas também já o disseram
E outros ainda alcançaram pelo faro
Nosso pulso latejando transplantado
Meu rosto e o teu rosto em holograma
Sobre um rosto que ainda virá
Arruinaria teu suicídio e o meu
A respiração dessa vida além da paz?

III.

É a canção do eterno infante
É o alento que insufla essa canção
É a doçura final do soldado
Uma água dourada de chá com peixes
Onde todos nós bebemos mais a lua
É nossa chance adubada nos jardins
Entre cigarras e mariposas
Nosso longo amor fantasmagórico
Na aurora ainda úmida de escuro
Nosso brincar sem mais propósito
Como brinca a natureza quando isenta
Se regozijando por seus meneios e aromas
É minha alma errando por Amsterdam
É tua alma pelas tardes de Lisboa
Todos os nossos instantes miraculosos
Na corda bêbada continuando
É a ampla noite que nos inicia
Que nos alfabetiza na língua dos cânticos
É a nossa alma no ar salmeado de Ouro Preto
E nos mares dos poemas que amamos
No empíreo a partir de uma viola
No precipício à sombra de olhos mexicanos
Embora soe obscuro dizer
Expressar-nos será claro nesse idioma
Coincidirá com o vasto sono humano
Nesta madrugada sem palavras
Nuançada de um sem número de sons

Mariana Ianelli nasceu em São Paulo, em 1979. Em 2016, tornou-se mãe de Yolanda. É autora de onze livros de poesia, o mais recente deles Terra Natal (Editora Cousa, 2021). Tem três livros de crônicas e dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 e foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia. Escreve crônicas aos sábados na revista digital Rubem e no site do jornal Rascunho.

sabe com quem está falando?, poema de Bruno Molinero

você escolhe o melhor clube
paga quinhentos mil no título
as mensalidades em dia
vira a sócia responsável
pelas buchas do balé fitness
toma posse como conselheira
e ainda assim é barrada feito
cadela
só porque a neide não estava
toda de branco
francamente
uma vergonha
claro que fiz o maior barraco
disse que minha empregada
veste o que eu bem entender
e não deixo ela ser maltratada
até porque a lei está pesada
o que eu acho certíssimo
viu?
agora…
o clube quer mandar
mais do que eu nos
meus próprios funcionários?
era só o que me faltava
gritei na guarita
rodei a baiana
sabe com quem está falando?
porque precisei ir pra casa, né
não ia ficar lá sem ajuda da neide
cuidar de duas crianças sozinha
ainda mais com o zeca desse jeito
pré-adolescente
quer tudo na hora
mas eles vão ver
já mandei o estêvão procurar o dono
aquele cara que passou o ano novo
com a gente lá em trancoso
lembra?
esse mesmo
se quiser indico o seu nome
o clube é ótimo
dez piscinas
dezesseis quadras
sauna play
gente bonita
você vai amar

só um segundinho, amiga

neide
você
fala
por
tu
guês
?

disse
que
não
posso
mais
comer
açúcar
criatura!
traz o adoçante
pelo amor de deus

oi, flor
desculpa
ela trouxe um cafezinho delícia
pão de queijo bolo de cenoura
mas às vezes preciso ser dura
ou a neide vira a dona da casa

me parte o coração
você sabe

| mais quatro poemas do livro Férias na Disney (Editora Patuá, 2020) no [link]. |

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido (Editora Patuá, 2015), livro que venceu o prêmio Guavira de Literatura em 2016. Este poema faz parte de Férias na Disney, seu segundo livro, lançado no fim de 2020 pela mesma editora.

dois poemas de Milton Rezende

árvores

Há na rua uma árvore
cuja beleza consiste
apenas em existir e
estar ali, ao vento.

Ela simplesmente existe
e nos transmite a mensagem
que eventualmente quisermos
lhe atribuir à distância.

Seu discurso, para si mesma,
é a propagação de sua sombra
na coreografia de suas folhas
e sua linguagem é a do silêncio.

Esta árvore não diz nada
de coisa nenhuma. A metafísica
está no bêbado que lhe atribui
significados além do estar-ali.

Aquela árvore será sempre
(para aquém e além dela mesma)
exclusivamente árvore e isso
é tudo. O mais é estar a vê-la.

Subitamente um carro passa na rua
e arranca as folhas da nossa árvore.
Como não temos galhos para protestar
escancaramos os dentes e voltamos
putos pra casa.

Milton Rezende in: Inventário de sombras.

um cão

Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.

No entanto este cão
traz em seu latido
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.

A chuva não consegue abafar
este inquietante latir,
profanando o sono dos homens
e o sectarismo estático
das coisas e dos seres.

Alguém para se ver livre
do incômodo latido
desfechou tiros na escuridão,
e a noite se arrastou em insônia.

Da boca sangrenta daquele cão morto
brotaram ruídos confusos
que invadiram as ruas e as casas,
mostrando a todos a inutilidade do ato.

Milton Rezende in: O acaso das manhãs.

Milton Rezende nasceu em Ervália-MG, em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora-MG, onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha-MG. Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas-SP. Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de 12 livros publicados. Fortuna crítica: Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende, de Maria José Rezende Campos (Editora Penalux, 2015).

autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

três poemas de Joana Futre

exercício

Exercita os teus demónios
Manda-os fazer o sagrado jogging matinal.
Avisa-os de que são os jokers do baralho,
Faz pouco deles
Mesmo que quebrar o gelo dê trabalho.
Que eles se ponham em bicos de pés,
Se multipliquem e sejas tu versus dez
Numa luta constante e desigual.

E por favor, diz-lhes para não romantizarem
O amor à primeira vista.
Já temos no mundo filmes suficientes
A explorarem essa temática irrealista.

Desejo que os demónios façam gazeta
Dentro da tua bonita cabeça.
Vão antes para a rua protestar de cartaz no ar
Perguntar porque é que o Estado nunca está do lado do artista.

um brinde

Inevitavelmente, brindamos
Ao que ainda temos,
Tanto à generosidade humana
Como aos deuses em que cremos
(Por igual, para não ficarem amuados).

Para evitarmos esquecermos
Que ainda não sabemos
Ressuscitar as almas,
Para que nos possam bater palmas
Quando merecemos e nas ocasiões certas.

O som e o silêncio
São como a mãe e a filha que caminham
De mão dada.
Lembro-me de ti como uma ferida
Que nunca será sarada.
Como aquela de que sinto mais falta
Mas que sei que ainda me guarda

Com o mesmo apreço, a mesma gentileza
Com que se esforçava para remover vestígios de tristeza.
Devo alguns dos melhores pedaços da vida íntima
A quem me ensinou o que era a verdadeira leveza.

Levo o teu espírito na algibeira
E bebo-o quando preciso.
Sabe-me a vinho tinto
Doce com a luz a que te pinto
Sempre que te apresento
A quem te é desconhecido.

Leve-leve é o lema
Só assim será divina a oferenda.
Mesmo depois de já não o vermos
O rosto de uma mãe
Será sempre, sempre um belo poema.

oferenda divina

Deixa-nos ser só um esboço.
Tu, velha lenda dos mares antigos
Eu, um conto esquecido e por ler;
Agora sinto só vergonha.
Afinal nunca fizemos por merecer
O amor que os Deuses em concílio
Nos resolveram oferecer.

Joana Futre é natural de Viseu, Portugal, e mudou-se para Lisboa para perseguir a sua paixão por Línguas, Literaturas e Culturas, acabando por tirar um Major em Estudos Ingleses. Ao abrigo do Programa Erasmus +, passou nove meses na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao regressar à capital, inscreveu-se no mestrado de Jornalismo. Atualmente trabalha como copywriter e content manager, aliando a investigação típica do jornalismo à criatividade necessária para ser feliz em indústrias criativas.