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sem olhar a quem, de Neno Moura

Saiu eu e o Doca pra manifestação. Ele veio aqui em casa uma hora antes e a gente matou o tempo vendo uns bandido se foder no Youtube. Taí uma coisa que faz o meu dia passar voando, assistir uns filho da puta se dando mal. Melhor que cinema. É o tal negócio, quando a presa tá armada, o predador dorme com fome.

A gente ia saindo e o Doca pra mim não preparou nenhum cartaz, nada? Eu virei pra ele e ele já foi se encolhendo. Que cartaz o quê cara, tu acha que a gente vai ficar que nem duas bicha segurando cartazinho, tipo programa da Xuxa? a gente vai com a cara e com a coragem porra, meu cartaz é essa camiseta aqui, relaxa que lá vai ter cartaz, faixa, essa porra toda. O Doca é meio lerdo, mas tem boa índole.

Lá não tava como eu esperava. Tinha menos do que o anunciado, mas a gente sabe que o trabalho é de formiga. Juntando com o resto do país dava uma cacetada de gente. Tinha uma faixa grandona que o pessoal abria quando fechava o sinal. Isso incomodou um bocado de comunista e teve uns que quase saíro na mão, mas o pessoal deu uma segurada porque sabe que isso queima o filme. O Carlos Alberto comandava o pessoal dizendo calma que vai chegar a hora deles. Ele é o cabeça do grupo. Esse cara é mito.

Eu desde a hora que cheguei fiquei cismado com um negócio que ninguém tinha notado. Eu conhecia quase todo mundo que tava ali, se não pessoalmente, pelo zap, mas tinha um que eu nunca tinha visto, nem nos outros dias nem no grupo. O cara tava sozinho, sem cartaz, sem nada, só filmando com o celular na mão, tava de calça verde e jaqueta, mas de camisa vermelha por baixo. Era o único ali de camisa vermelha. Ninguém mais tava de camisa vermelha. Não que não possa, mas é uma questão de bom senso caralho!. Isso que eu vou falar não tem nada a ver, mas o cara ainda por cima era preto. Tipo, tem uns meio preto no grupo e tudo, qualquer um pode fazer parte, desde que feche com as nossas ideia, mas ali era o único preto-preto mesmo. Tem um monte de misturado ali, essa putaria que é o Brasil, né? o Doca até tem cabelo ruim, isso aí não tem nada a ver, mas eu fiquei cuidando, o cara tinha todo jeito de infiltrado.

Eu cutuquei o Doca e disse se liga naquele cara ali, estranho né? O Doca entortou a boca pra baixo, como ele faz sempre que não sabe o que pensar. O bicho é devagar, mas eu dou um tranco e ele pega. A partir daí eu não me liguei mais na manifestação, fiquei só de olho no negão. Lá pelas tantas, anoitecendo, o cara guardou o celular no bolso e foi se afastando do grupo, sem se despedir de ninguém nem nada. Parou na faixa pra atravessar a rua. Quando a luz de pedestre abriu eu chamei ô Doca, vamo atrás do cara.

Chegamo na faixa bem na hora que fechou o sinal pra gente. Beleza, deixa o cara tomar distância. Doca, abre a mochila aí e vê o que tem dentro. Ele abriu e meio que se espantou. Eu disse é só pra defesa, enquanto não tem porte de arma nessa porra. Abriu o sinal. O negão já ia dobrando a esquina falando no celular. Eu disse apura Doca. O cara virou a esquina e entrou pelo lado do carona num carro estacionado. A gente parou e ficou esperando o carro arrancar. Não arrancou. Tinha outro cara no volante. Eles ficaro ali um tempo conversando, de repente se abraçaro e não se soltaro mais. Puta que pariu, Doca! O negão ainda por cima é viado! Aí é que me deu um nojo daquele cara, deu vontade de ir pra cima e tirar os dois do carro na porrada. Mas aí o viado saiu e o carro arrancou. Eu falei pro Doca, vamo tirar a limpo isso daí.

Ele tava passando na frente de um recuo onde tinha a lixeira de um prédio. A gente apressou o passo e chegou logo atrás dele, daí eu chamei ô parceiro! Ele se virou, eu perguntei o que ele tava fazendo lá na manifestação. Ele disse que tava só acompanhando e eu disse e tu foi lá de camisa vermelha só pra provocar. Ele disse nada a ver cara, e eu não me chama de cara que tu nem me conhece. Ele disse calma amigo, e foi botando a mão no meu ombro. Eu disse calma é o caralho! tu não sabe que preto não põe a mão em branco? e abri a testa dele com um soco que chegou a doer a minha mão. Ele caiu desnorteado e eu tirei o cassetete da mochila e já fui descendo a porrada na cabeça, na perna, nas costas, na costela, onde dava eu acertava. Nisso o cara já tava que nem um boneco no chão, eu disse pro Doca vamo comer o cu desse negão. O Doca já ia tirando a calça do cara! O Doca tem problema na cabeça, só pode. Eu disse ô Doca, tá maluco ou tu é viado? ainda se fosse cu de branco, mas vira ele aí que eu vou enfiar o cassetete no cu dele. Aí eu só empurrei o cacete na bunda dele, por cima da calça mesmo, que eu não tava a fim de sujar de merda. Falei pro Doca vamo parar com essa porra que ele pode se apaixonar, e a gente riu pra caralho. Eu dei mais umas bicuda na costela dele, e ele nada, tava desmaiado ou sei lá o quê. Eu puxei o Doca e disse chega, vãobora. Quando a gente se afastou o Doca falou que ele parecia um saco de lixo lá jogado no chão. Eu disse é Doca, um saco de lixo preto. E o Doca riu. Eu tava orgulhoso. A gente fez a coisa certa.

Neno Moura nasceu em Florianópolis em 1983. Ele mesmo é quem se apresenta aqui, mas finge que é outra pessoa. Finge que é músico para não trabalhar. Finge que trabalha para se ocupar. Finge que se ocupa para não pensar. Neno Moura não é escritor.

Tem textos publicados em Jornal RelevO, Revista Libertinagem, Revista Gueto e Jornal Ô Catarina!. Tem doze títulos para um livro de contos que não publicará. Escreve (e apaga) esporadicamente no blogue Palavra Provisória. Pelo selo editorial da revista Gueto publicou o e-book lagoa miúda, livro dezesseis da coleção #breves.

três poemas de André Siqueira

quarentena

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

o cabide

O cabide quase
terno de precisas
curvas e despidas,
na ausência do terno
mostra o figurino
vazado, vazio
de nada. Percebo
na estranheza tão
guardada que posso,
atento, vestir
a roupa de magra
vista do cabide
discreto, guardado,
dispensado só.

cama, mesa e banho

a fome não repousa
em cama pula e grita
em casa já relustra
os buracos da boca
de modorra morada
mas que se atiça agora
sedento peixe trêmulo
no ardor de nada ver
ômega apenas quieto
mas estrala a madeira
da cama mais e mais
de fome cancro unguento
limpa textura e lenta
secura a minha fome

André Siqueira mora em Jacareí, interior de São Paulo. Já publicou em diversas revistas, jornais, coletâneas, blogues e, atualmente, é colaborador da revista de arte e literatura Pixé. Lançou recentemente seu primeiro livro de poesia intitulado As manhãs fechadas, pela Editora Gataria. Cursou a faculdade de Letras, porém não concluiu.

o tanto que vale a minha vida, de Eduardo Salgueiro Peretti

Na plaqueta se lia “Limonada grátis. Por favor, sirva-se”. Sem pensar duas vezes, o rapaz pega a jarra e enche um copo. Não é que gostasse de limão, mas não resistia a uma boa oportunidade. Espia a coleção de pratos decorativos pintados em temas florais, coisa mais cafona. O tipo do bibelô que você encontra na casa dos seus avós. Mas ao preço de um real cada, conclui duas coisas sobre quem está organizando a venda: Primeiro, que é uma velha. Sim, uma velha e não um velho. Só uma senhora idosa acumularia tantos querubins de porcelana, para não falar dos bordados de crochê. E por fim, e mais importante, a velha deveria estar num baita sufoco para apreçar seus bens com tanta modéstia.

Você conhece o lugar. Já viu vários lugares assim. Um sobrado de dois andares com a varanda escancarada, convidativa. Grama verde, caixa de correio e bebedouro para beija-flores. O sonho suburbano. Ele veio gingando, atraído pela curiosidade. Confere a miscelânea de tranqueiras expostas. Não encontra mais ninguém, está só. Senta no sofá de três lugares e descansa os pés na mesa de centro. A etiqueta diz que o conjunto valia duzentos e setenta e cinco reais. Na frente dele, um televisor de cinquenta polegadas com o preço módico de outros cento e cinquenta. Aposto que consigo baixar para cem., pensou.

Parece que a casa está toda montada do lado de fora. A cama de casal sobre o gramado. Um tesouro de jatobá maciço e cheio de entalhes. Peça em extinção. Agora apenas tristes imitações industriais em chapas de compensado. Coisas mais práticas, e sem história alguma. A palavra cai bem, história. Tudo ali parece contar a sua própria. Feitas com o mesmo material nobre, duas mesinhas de cabeceira idênticas. Cada uma carrega um abajur na cabeça. O quarto havia se instalado no jardim. Armário e gaveteiro alinhados à disposição do cômodo. Colchão e travesseiros desnudos, todavia. As fronhas, lençóis e cobertores repousavam dobrados com esmero e dispostos em caixas sobre a calçadeira.

Nota que alguém tinha puxado a extensão para fora da casa, de maneira que aperta o controle remoto como um velocista. Futebol, novela, jornal, futebol. Beberica a limonada, faz careta e atira o copo fora., Gostou de alguma coisa, querido?, perguntou a senhora na cadeira de rodas, que ele nem tinha visto chegar.

Opa, boa tarde! Tava só dando uma espiada. Legal a tevê., Sim, é uma boa televisão. Sai por cento e cinquenta, baratinho., Não faz por cem?, Cem está bom sim, pode levar por cem.

Maravilha, e se vier o sofá e a mesinha juntos, fica tudo por duzentos e vinte e cinco?, ele pensa que poderia reformar seu apartamento., Ai, você é um danado, rapazinho., A senhora tinha uma compleição magra e quebradiça. Mesmo sendo idosa, usava a cabeleira longa e branca, o que lhe conferia uma aparência estranha de hippie., Posso fazer sim.

Ela diz que ambos deveriam beber alguma coisa pra brindar à venda, estão só os dois ali mesmo. Ninguém para incomodar. O rapaz confessa que não é fã de limonada. A senhora então pede para ele ir buscar um vinho que estava na mesa de jantar, por conta da casa. A mesa era outra maravilhosa antiguidade, que fora arrastada até a garagem. Sobre a mobília, vê expostos à venda utensílios de cozinha, um relógio de parede e pinturas a óleo. Uma delas exibe uma bailarina alongando a perna na barra, o corpo arqueado para frente. Ele percebe semelhanças entre a moça na tela e a velha senhora, se ela fosse mais jovem, loura e de pernas torneadas. Volta com uma garrafa de vinho do porto e duas taças pequenas.

Saúde, Dona…, Isadora, seu danado, mas deixe o Dona em casa, vá., Clóvis, prazer. Então… saúde, Isadora sem o Dona., ele pisca e ela ri.

Os cristais tilintam e a bebida sobe ligeira à cabeça do rapaz.

Ela diz que seria bom pôr uma música para tocar. Liga um jazz na vitrola. O rapaz cobiça o aparelho.

Também está à venda, pus tudo à venda, faço esse por cinquenta junto com a caixa de discos., Pago vinte., Ai, seu danado…

Clóvis vê uma penteadeira e uma arara. Tem de apertar os olhos para ajustar o foco. Estranho, ele sempre teve vista perfeita. Enche outra taça e bebe com gosto, ao som do saxofone que sopra da vitrola. A senhora se levanta da cadeira de rodas. Nega a assistência do jovem com um gesto de mão., Bobagem, bobagem, uma mulher na minha idade pode ter orgulho uma vez ou outra., lança a juba para trás. Olhando de perto, ela não parecia tão velha, nem seus cabelos todos brancos. Umas madeixas platinadas de louro que o rapaz acha, a partir de agora, muito bonitas.

Sabe o que devemos fazer? Devemos dançar. Isso, dançar. Não seria revigorante?

Ele hesita, mas já foram três taças e então Clóvis põe a mão na cintura dela. Sente fineza nos contornos. É mais firme do que ele esperava, parece cintura de moça. Ela veste uma saia longa indiana, blusa justa e uma echarpe. Seus olhos são azuis-cobalto. Ele a puxa para perto. Sente tontura, uma fraqueza nas pernas, nos ossos. Que diabos, o homem é jovem e cuida do corpo. Tem saúde de ferro. Deve ser o vinho, essa vertigem. Vinho do porto é coisa traiçoeira, é sim. Isadora dança. Uma dança fluida, envolvente. Às vezes ela fecha os olhos e ele se pergunta em silêncio no que ela deve estar se lembrando. Ele tenta pensar os pensamentos dela, como quem conduz a dança. Ele pensa que mulheres na idade dela passam mais tempo recordando do que vivendo. Aí depois quando elas não conseguem mais fugir para suas memórias, fica tudo mais nublado, leitoso. E então não há mais pra quê viver. A gente perde a vida junto com as memórias. A venda de garagem dela é cheia de lembranças. Clóvis pondera sobre as coisas que possuímos, as coisas com as quais nós realmente nos importamos. Coisas assim carregam um pouco de nós mesmos. Uma parte de nossa história. E comprar isso de alguém que viveu essas histórias, seria comprar para si um tanto da vida dessa pessoa. Ele sente os dedos dormentes, a vista ameaça escurecer.

Por que, Isadora?, ele pergunta., Por que pôr toda sua vida à venda assim, pra um desconhecido?, A moça abre os olhos, Clóvis se encanta com seus pés de galinha, são muito charmosos os pequenos pés de galinha que ressaltam o cobalto dos olhos., Não é minha vida, meu querido, são só umas coisinhas que eu juntei aqui e acolá., Mesmo assim…

Eles rodopiam na grama. Por mais de uma vez o rapaz sente que perdeu o ritmo, ouve o joelho estalar, a coluna arqueia. Mas ela não parece se importar, linda e juvenil.

Eu é que não morro que nem Faraó, enterrada junto de meu cabedal., ela ri, um riso jovial. Parece uma adolescente rindo., Nem exército de terracota, já pensou? A gente chega e sai desse mundo nu, meu anjo., E ela provoca., Vai querer mais alguma coisa?.

Vou sim… quero tudo. Faça um preço bom. Vou arrematar tudo, tipo venda de atacado.

Ela acelera o ritmo da dança, Clóvis acha difícil acompanhar. Parece ter a coordenação de um idoso. Isadora enrubesce., Você poderia me beijar, querido? Faz tanto tempo desde a última vez que… sabe?, Um beijo e você me faz um desconto especial pra eu levar tudo?, Ah! Seu danado…

Depois do beijo ele sente que vai enfartar. Encerra a dança, precisa tomar um fôlego.

Faça uma proposta., ela diz., Diga aí você o tanto que vale a minha vida.

Os cabelos dela são louros e vastos, o corpo é esguio, as pernas são torneadas. Pernas de bailarina. São perfeitas a suas pernas, e a sua idade também. Não há uma ruga, uma prega. Pura beleza e juventude. A cabeça de Clóvis gira, sua vista falha, os ombros pesam.

Mil… Não! Quinhentos. Eu levo tudo por quinhentos, é pegar ou largar.

Ele tira a carteira do bolso de trás da calça com as mãos trêmulas. Pesca três notas de cem e mais duas de cinquenta. Diz que no momento é tudo o que dispõe, mas que vai ali no caixa eletrônico, vai num pé e volta noutro, rapidinho, pra sacar os cem reais faltantes. Não demora nada e num instante fica todo mundo feliz.

Ela encosta o dedo indicador nos lábios dele. Guia-o até a cama. A bela cama estilo imperial de madeira de jatobá, cheia de capricho, história e vida. A cama que dentro em breve seria dele. Ele se arrasta para um dos lados do colchão. Ela o guia para o outro. Aquele deveria ser o lado dela, ele pensa. Os olhos azuis-cobalto ficam lhe avaliando deitado ali, no lado dele. O que será que veem? Um corpo curvado, cansado e frágil. O corpo velho de um homem provisório. A que corpo deveria pertencer este lado da cama antes dele, imagina Clóvis. Tentando viver na vida dela. Em quem ela estaria lembrando, quem ela havia perdido. Gente com muita idade, muita coisa e muita história já perdeu muito, é assim que funciona.

Clóvis tosse seco e olha para cima, percebe que está anoitecendo. Já se podiam ver algumas estrelas no céu, ele tem dúvidas que amanhecerá. Isadora pula em cima dele. Puxa a saia até as coxas e deixa a extensa cabeleira loura afogar o rosto do velho. Ele sente um tremor, um medo genuíno de ser mesmo sufocado por aqueles cabelos dourados.

Pela manhã, ao acordar, ele ainda consegue ver a moça, sentada do lado dela, prendendo os cabelos num coque. A respiração dele está pesada. Tenta falar, mas a voz não sai. Ela puxa uma caixa de sapatos debaixo da cama e tira de lá um par de sapatilhas de ballet. Troca as sandálias que veste pelo calçado de dança e entrelaça as faixas cor-de-rosa ao redor do tornozelo.

Fico com estas., diz a jovem para o senhor enrugado e lânguido sob as cobertas., Compro-as de você pelos cem que ficou faltando, é um bom negócio., Ela tira as três notas de cem e duas de cinquenta da carteira dele e tasca-lhe um beijo na testa. Clóvis sente um espasmo involuntário, seguido de uma dor aguda no peito.

Seu danado., ela diz, e vai embora dali com passos macios, assobiando uma música que Clóvis não conhecia.

Não era de seu tempo.

Eduardo Salgueiro Peretti nasceu em Recife-PE e é formado em Psicologia. Gosta de escrever contos e poesias.

três poemas de Ana Marta Cattani

tutano

1.
escrevo para os teus ossos
mal me aguento de inveja
do técnico de raio xis

ah imagina só
todos os teus 206 ossinhos
uma radiografia emoldurada na parede

Jean-Nicolas
Esqueleto Deitado
branco cintilante sobre fundo preto opaco
75,5cm X 50,1 cm
sem data

2.
escrevo para os teus ossos
faço figas para que o exumador
te desenterre inteiro

ah imagina só
todos os teus 206 ossinhos
um altar mexicano de sete níveis

eu te faria mil oferendas —
uma dose da melhor tequila
girassóis fresquinhos
do jeito que você gosta —
entoaria cânticos em náuatle
declamaria a Odisseia de trás para diante
e depois comeria tua caveira
como se fosse de chocolate

3.
meu reumatologista disse que
esse tecido líquido-gelatinoso
que preenche minhas cavidades
é o teu tutano

recomendou continuar escrevendo
para os teus ossos &
_______________repouso

rastreamento à moda antiga

grudo 206 etiquetas com o teu nome
uma em cada osso do meu corpo

grudo 206 etiquetas com o meu nome
uma em cada osso do teu corpo

rastreamento em tempos modernos

Se eu pudesse te localizar
só um pouquinho
baixar software
instalar um chip
alugar drone
só um pouquinho
quem sabe uma tornozeleira eletrônica
se eu pudesse
só um pouquinho
te seguir
te encontraria por acaso
naquele bar
em que nunca fomos
beberíamos um vinho ruim
é julho faz frio
recitaria poemas no teu ouvido
até você me dizer
meio sem jeito
que não entende nada de poesia
se eu soubesse
bem que podíamos tomar outro vinho
te sirvo uma taça antes que você me diga
que prefere cerveja
só mais um pouquinho você diz
meio sem jeito
tiro a sua tornozeleira
(sempre fui habilidosa com artefatos eletrônicos)
você se impressiona
você me agradece
você pede a conta
brindo sozinha a Ada Lovelace
amanhã recomeço.

Ana Marta Cattani é advogada e escritora. Nasceu em São Paulo e se formou em Direito pela Universidade de São Paulo — Largo de São Francisco, onde também concluiu o mestrado em Direito Civil. Tem livros e artigos publicados na área jurídica. Cursou a pós graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz — SP e frequentou várias oficinas de poesia e escrita criativa com Angélica Freitas, Fabrício Corsaletti, Rodrigo Petrônio, Vanessa Ferrari, etc. Foi cronista convidada da plataforma e revista digital Infame. Em 2018 participou da plaquete coletiva Orquídeas como cultivar — poemas pela democracia. Tem poemas publicados na revista Ruído Manifesto e no zine-periódico Fluxos, organizado por Tarso de Melo. Em 2020 fundou A Capivara (@acapivaracultural), onde se dedica a organizar cursos, oficinas e encontros literários.

o ordinário crime de Teresa, de Denise Sintani

Tinha praticamente certeza de que Lucinda — a mula — não se importava de receber visitas. Isso, isso mesmo, leva a amada para passear, Lucinda, para amar, para se infectar e infectar sua velha. Dois semelhantes podem se infectar com tudo: vida, morte, vidinha e mortezinha, tanto faz. Burrice também vale. Ai, não posso deixar a raiva da tua burrice piorar a lesão interior, isso não consta no script.

O mal do século? O mal do século é a burrice, a cegueira, a corrupção (isso mais parece panfletagem de político) — não posso deixar a tristeza piorar a lesão, tenho que viver ainda, antes mesmo de inventarem a vacina. Depois dessa vacina, terão de inventar outras, já tinha dito Nostradamus, no metafórico — este é o grande problema: quase ninguém consegue interpretar metáforas, coisa de gente que pensa — raro — pensar hoje em dia é um porre da porra, piora as lesões. Então não pensa, minha filha, não pensa não, que a aposentadoria ainda demora e o ócio causa dor nas articulações.

Isso tudo poderiam ser pensamentos de Teresa, caso ela soubesse pensar, mas então que sejam pensamentos avulsos de algum ser emocionado que escreve por linhas tortíssimas, um deus que se considera deus de tão arrogante, mas que só assiste a tudo de braços cruzados — afinal, que culpa tenho Eu, se já avisei de tudo o que é imoral, ilegal ou engorda. Outro nome que lhe dão: contador de histórias. Histórias bonitas como aquelas de gente vencedora. Definitivamente essa história de gente vencedora é um pensamento de Teresa.

Por que se chama Teresa? Coisa de pais que escolhem os nomes dos pimpolhos como se essa escolha fosse premonitória. Coisa de pais, ah, os pais e as mães de Freud, dissimulação do amor perverso, amor disfarçado daquilo de não amar ou amar de longe.

Teresa é um nome que muitas vezes acaba presa por assassinato.

Então essa criminosa foi até a grade da janela que dava para o pátio das inmates — na televisão era possível aprender inglês e até falar fluentemente, se houvesse boa vontade — e respirou ainda pensando em Freud e nos complexíssimos complexos. Aquela história do Édipo ficaria mais triste se Jocasta não tivesse pernas, fosse imóvel — coisa cruel de se dizer, será que a crueldade piora as lesões? Mas nota a mãe do Coringa, que no fundo era doidão. Ou ficou doidão depois de descobrir que sua Jocasta é que era a doidona que tinha fornicado com o pai de Bruce? Willis Wayne. Ou não tinha? Ficou meio confusa essa parte na cabeça.

Lá fora, as detentas andavam em círculos ou estavam recebendo visitas das pessoas que supostamente, como Lucinda, não acreditavam. Em quê?

Tu sabes.

Usavam diminutivos para amenizar impactos negativos, aquelas coisas de afetividade que a língua proporciona. A língua de Lori, a língua de papis e a língua do moço infectado, tudo caminhava para a língua. Já comeste língua de boi? Nojento e delicioso — a aditiva tem valor de aditiva, isso para quem estudou direitinho a gramática — nomenclaturas que impressionam e amedrontam — e a voz da professora nunca mais desaparecia; Teresa adorava duplos travessões — estilística complexa e sofisticada — mas nunca qualquer outro duplo, porque em dupla ficava mais difícil. Muito hermético, muito subjetivo, professora?

Certo, vamos lá à história de Teresa.

Essa moça seria o quê? Definições — nova rica, classe média, emergente resultado da meritocracia desmerecida ou pertencente à raça reptiliana — definições quaisquer dificilmente poderiam definir Teresa, mesmo porque definir alguém pela raça ou classe social seria coisa de comunista. Mas Teresa saiu do nada, fez curso supletivo e conseguiu chegar a líder dos vendedores de uma empresa importadora de acessórios eletrônicos que vinham da China. Como ela se familiarizou com a teoria freudiana? Viu numa novela alguns termos e julgou bonito. Procurou na internet, achou os textos curtos que explicavam mais ou menos essas coisas de filho querer trepar com a mãe, mas não admitir, resumindo. O curso de vendas também foi mais ou menos assim, bem resumido, e era tudo o que a senhora Lin-Chou, líder dos líderes, precisava para enriquecer às custas de Teresa e de seus colegas. Da gramática, além da voz da professora, ficaram as estratégias da função apelativa.

Bonita história: luta diária, de sol a sol, nada de vadiagem, o ócio era coisa do demo articulado. Teresa sempre dizia que era só ver o exemplo dos artistas. Todos morriam cedo porque vibravam na sintonia do mal, aquelas coisas que pensavam podiam causar câncer, aids, loucura e a loucura vinha do inferno. Levou algum tempo para chegar a essas conclusões, muita leitura de textos curtos e oitivas dos programas super didáticos das aulas à distância. Vídeos nem sempre, ainda saía caro sinal de wi-fi. Desse jeito então decidiu que ninguém poderia acusá-la de não se dedicar a estudos de diversos segmentos, segredo do sucesso no empreendedorismo.

Essa moça seria o quê? Ser humano tipo normal, como diria o robocop? Tão normal, que conquistava o direito de, em um momento de insana lucidez, praticar a justiça de roubar dos mais ricos para dar ela — mais pobre — o ouro do oriente? Teresa não roubou ouro oriental, mas ainda sob o efeito da impossível lucidez, jogou um ser escada abaixo — ah, se eu fizesse tudo por vontade, jogaria milhões, escada abaixo; alienígenas, janela do quinto dos infernos, avião. Mas nem sempre. Isso seriam os pensamentos do deus onipresente de braços cruzados.

Jogou o gerente pela escada abaixo, enquanto ele recitava a fórmula daquela tal de hipotenusa, nome de mulher. Se tivesse uma filha, dar-lhe-ia o nome de Hipotenusa; Hipotenusa de Almeida Shultz, o pai precisaria ser alemão — alemão é tudo, soava riqueza e glória, até mesmo um pouco mais de inteligência, embora coisa desvalorizada atualmente, sem falar que é chato pra caralho — e o apelido abreviado da amada neném soaria carinhoso: Hipoquita, tendendo à fonética da língua castelhana. Claro que muito em breve também a jogaria pela janela.

Você é louca de acreditar nessas coisas que ele diz. Mas Teresa acreditava. Fim da sujeira, riqueza e glória, extinção total daquela exploração de comer num refeitório fedendo a chulé de operários, fim da marmita, nada disso, coisas do passado. Amor, muito amor e conexão transcendente, Robin Hood estava morto e enterrado.

Vamos lá à história de Teresa. Para ela, a quarentena não fazia diferença, prisão era prisão, com grade, sem grade, com chulé, sem chulé, com lesões ou sem lesões. A única coisa que realmente fazia diferença era o assassinato, o roubo e a morte de Robin Hood. Por que empurrou o gerente escada abaixo? Só Teresa sabia o quanto tinha empurrado aquele ser irresponsável, cujo progenitor tinha há anos prometido que grande homem haveria de ser, tanto faz se infectasse a digníssima esposa, a filha magrela e todas as moças que espirravam jatos de comoção. Tanto faz, tanto fazia, agora eram várias vozes, como todo povo que tinha várias vozes.

Pois bem, Teresa tinha sido humilhada. Humilhar uma pessoa pode levá-la ao assassinato, murder, lucidez momentânea. Teresa então empurrou. Por isso, dizem as vozes do povo: humilhe até certo ponto. Se passar desse ponto, pode ocorrer um crime gravíssimo. O gerente tinha noção disso exatamente como os candidatos a ingressar no mercado de trabalho têm noções de espanhol. Assim como um polícia mais ou menos sensato determina de modo bem positivista não bato na cara não, isso dá ruim. Todo mundo tem seu preço, sabia? Ah.

Ele puxou demais a corda, não encontrou o equilíbrio, subestimou a humilhação; daí arrebentou e ele caiu, rolou escada abaixo feito um caqui maduro. Por que caqui, Teresa? Porque aquele caqui mole e maduro explode, feito um tomate. Um tomate sempre conta com testemunhas oculares do crime e dessa vez não foi diferente. O mais diferente do crime: a motivação, que foi passional. Quando se fala a palavra gerente, já todo mundo pensa ah, matou por dinheiro. Gente apressada, não pensa direito, não analisa a proposta, não delimita o ponto de vista e vai logo recortando o tema conforme costuma sonhar todo dia.

Não, não.

O gerente comentava certa vez num almoço com os vendedores mais antigos e, no comentário, deixou escapar a palavra comível. Outro interrompeu e disse comestível, animal, é comestível que fala. Daí o gerente corrigiu mais ainda: comestível a gente diz pra comida. Então riam, gargalhavam, felizes demais com a idiotice toda das mulheres não amadas e por terem aprendido tantas coisas nas aulas de gramática, naquele mundo distante do mercado de trabalho, quando achavam que tudo podia ser. Orgulhosos, prepotentes, grandes pais de família que já eram ou haveriam de ser em breve, caminho traçado e magnífico. No fundo, no fundo, já possuíam a vontade de humilhar. Nunca tinham sido humilhados, não se tratava de vingança, mas era a simples vontade, o simples prazer, que culpa? Talvez a genética explique, como eles mesmos tantas vezes procuraram explicar pela genética, porque a genética era objetiva, nada tinha a ver com essa tralha toda de humano: oi? Devia existir algum ressentimento contra Teresa, com origem nos primórdios da humanidade. Ressentimento fica na memória genética e acaba transmitido de geração em geração; talvez Teresa tenha, na época da Revolução Francesa, humilhado o gerente e ele nunca mais esqueceu. A memória alcançaria o paleolítico? Tudo é talvez, gente do bem.

A humilhação é assim: o gerente comeu Teresa umas três vezes. Deve-se mencionar o pequeno detalhe de que o gerente vivia maritalmente com outra mulher — sem graça, diziam mais na intenção de consolar Teresa — e inclusive ela estava embuchada, feliz com a missão mágica de se tornar mamãe, que lindo isso. As vozes do povo aconselhavam: cuidado, menina, apaixone não, é só carência tipo genética, todo homem que vive maritalmente com uma mulher embuchada fica carente tipo genética.

Não generalize sem argumentos concretos, dizia sempre a voz da professora, quando tentava ensinar a estrutura do texto dissertativo. Isso se remete ao preconceito e, por conseguinte, ao desrespeito dos direitos humanos. Mas não estavam generalizando, ninguém de verdade afirmou que todo homem fazia assim de comer fora quando sua dona fica embuchada, ainda mais por simples carência tipo genética. Só o gerente fez isso. Três vezes.

Então Teresa apaixonou, porque três vezes ninguém merece. A primeira começou com um jantar no restaurante chinês preferido da senhora Lin-Chou, era a confraternização de fim de ano. Comeram água-viva com cheiro verde, tomaram todas as biritas necessárias para o xô inibição. Sabe aquela coisa de todo mundo acabar indo embora e só sobrar Teresa e o gerente? Pois é, gente do bem, o demo é articulado. A segunda vez foi no happy hour, no dia que atingiram a meta do mês. Felicidade transbordante. Todos acabaram indo embora antes, igualzinho. Teresa ria até mesmo pelo rim, tudo ria nela, vários risinhos do povo no sistema respiratório, digestório, reprodutório, endocrinório, ório-ório-ório, ai que delícia, Teresinha, ai que gostoso gerentezinho! Teresinha, você merece tudo desse mundo cão: um castelo enorme, roupas caras, a melhor comida e a melhor bebida, vou sustentar seus luxos mais luxuosos, minha mulher Teresa, vou te assumir, meu amor, você vai parar de trabalhar nessa imundície, seu lugar é no meu castelo, minha rainha, mas não para de fazer isso daí que você tá fazendo.

Teresa esperava aquele grande acontecimento que tinham lhe ensinado, o grande amor. Gerente esperava o pimpolho por nascer. As vozes do povo comentavam sabe-se lá em que momento passou pela cabeça de Teresa que aquele homem falava a verdade na hora que estava sendo engolido. No máximo, não falaria nada, mas verdades pelo amor de deus, é ruim, hem.

Pois não é que, na terceira vez, ele já parecia menos carente tipo genética e mais preocupado em continuar com a vida de sempre? Nem mesmo beberam — direto pro fuc-fuc. Hashtag. Eu avisei, Teresa. Como uma moça tão inteligente pode ser tão ingênua? Esqueceu de tudo o que o gerente é, a vida que leva até hoje, não é possível, quantas vezes na história da humanidade.

Ah, mas ele prometeu que acabaria com a corrupção.

Começou com as negativas, conforme previram sabiamente as várias vozes do povo: vamos hoje? Ah, preciso terminar os relatórios da semana. Vamos hoje? Ah, hoje tem festa de aniversário da cunhada. Vamos hoje? Ah, minha mãe quer visitar dona Otacila.

Até que apareceram as lesões e o médico disse que sexualmente transmissível era pouco. Teresa precisava avisar, atitude cidadã. Mas o que o gerente fez:

Quê? Ficou louca? Nada a ver com as tuas lesões.

É o que daria para reproduzir, o resto seria para imaginar. Pois então vamos imaginar o que um homem gerente prestes a mergulhar na mágica de ser pai diria para a amante numa situação constrangedora dessa, a ponto de a amante nascer tanto ódio de empurrar escada abaixo. Teresa nunca tinha sentido um ódio tão gostoso, esse de matar. As pessoas viviam matando e raras vezes não tinham ódio, mas Teresa nunca. Foi só dessa vez. Sempre que sentia ódio de matar, quando pensava na pessoa morta, ficava com dó. Foi só dessa vez que não.

Não sei o que me deu, não pensei, só senti que, se empurrasse o gerente escada abaixo, ele explodiria como um tomate-caqui-maduro. Daí me deu vontade de comer um prato enorme de espaguete.

Comível ou comestível — eis a questão.

Denise Sintani é professora de literatura e redação, formada em Letras e mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Livro de contos publicado pela Editora Multifoco, em 2014, Cartas de Zi, e seis outros de publicação independente pelo grupo Amazon, em 2015: Caricaturas, Contos de espanto, Contos e crônicas, entre outros. Contos selecionados em concursos promovidos pelas editoras Zouk e Nosotros Editorial, integrando as antologias Novas contistas da literatura brasileira (2018) e Golpe: antologia manifesto (2017), respectivamente. Poemas, artigos, outros contos e crônicas publicados no blog literário: https://escritoscontemporaneos.wordpress.com/

bartlebiana pandêmica, de Sanchez

A cama, o cobertor e o travesseiro formam um casulo. Exercem uma força inexplicável sobre e sob o corpo. Embora seja possível rolar de um lado para o outro dentro dos limites do colchão, não consigo reunir forças para erguer o tronco. Nem vale a pena tentar. Entendam, não há nada de errado comigo — a questão não é a capacidade de sair daqui: poderia muito bem me levantar e ir até a cozinha, por exemplo. O problema é a vontade — ou melhor, a falta dela. É como se houvesse uma camada invisível prendendo o corpo. Uma camada que suga toda e qualquer possibilidade de interação com o mundo ao redor. Estendo as mãos e quase consigo tocá-la. Quente e maleável como um cobertor. Quente e maleável como o cobertor que cobre minhas pernas. Um sintoma inconsciente de uma constatação bem consciente.

Nem sempre foi assim. Juro que tentei ser um prisioneiro mais ativo durante as primeiras semanas de quarentena. Procurei na internet maneiras de exercitar as pernas, comecei a estudar Espanhol e até organizei todos os livros na estante, tamanha era a vontade de resistir ao sedentarismo naturalmente propiciado pelos longos períodos em casa. A distância do mundo externo era um mal a ser mitigado. Entretanto, conforme os dias foram passando, o magnetismo da cama foi se tornando mais potente. Não demorou muito para que compreendesse sua origem. A questão é: pra quê? Pra que encontrar novas atividades caseiras? Pra que atenuar o isolamento? Se não podemos sair de casa, não sair da cama parece o próximo passo lógico. Além disso, o que estaria perdendo ao fazê-lo? Desde que o isolamento começou, consegui organizar as tarefas cotidianas de tal modo que, com exceção do banho e da comida, posso muito bem ficar deitado o dia todo. O trabalho de escritório que agora realizo à distância requer apenas um computador — repousado sobre as coxas — e uma boa conexão de internet. Bed office. Assim, ficar deitado aqui sentindo essa camada de veludo conter meu corpo não parece algo necessariamente ruim.

Dizem que devemos tirar boas lições da pandemia e do fato de estarmos presos em casa. Copo meio cheio? Talvez; mas acho mesmo que aperfeiçoei uma habilidade crucial em meio a tudo isso: a possibilidade de existir e até mesmo agir como um ser social deitado na cama. Há aplicativos para isso. Sim, o encontro semanal com os amigos agora é virtual. A distância entre os corpos não diminui a experiência em absolutamente nada: as pessoas são as mesmas, a marca de cerveja é a mesma e os assuntos são os mesmos. Até brindamos pela webcam! A não-presença é apenas um detalhe. Uma daquelas instâncias em que a alteração da forma em nada prejudica o conteúdo. O mesmo poderia ser dito em relação a quase todas as adaptações que tivemos de fazer nessa quarentena. Se pararmos para pensar, não faz sentindo associarmos uma visão negativa à distância. Do ponto de vista moral, não há nada de errado com ela. Trata-se apenas de uma outra maneira de viver. Sim! Viver à distância: a metade do meu copo meio cheio! Em lugar nenhum está escrito que a vida deve ser vivida em pé e ao lado de outras pessoas. É isso! Deveria fundar um movimento, uma religião, um culto. “O deitismo”. “O camismo”. Algo assim. Rejeitamos radicalmente a obrigação de ficar em pé! Rejeitamos radicalmente a ditadura da presença! Rejeitamos radicalmente a imposição da proximidade física! De agora em diante, tudo poderá ser feito à distância! As relações sociais e as relações de trabalho terão de se adequar a essa nova e excitante lógica!

É claro que ideias tão radicais assim sofrerão muita resistência por parte dos incrédulos, até mesmo dentro de nossas casas. O colega com quem divido o apartamento, por exemplo, não entende o comportamento que tenho exibido nas últimas semanas. Diz que justamente por estarmos isolados é que devemos dar mais valor à época em que ainda podíamos nos abraçar. Diz que o ser humano não nasceu para viver trancado. Nada mais natural, já que desde pequenos somos ensinados a procurar a companhia dos outros, a privilegiar o olho no olho. Pois eu vos digo, irmãos, não caiam na tentação da companhia! Fujam dos olhares ameaçadores. Esqueçam a época em que ainda tínhamos de nos locomover usando as pernas. Tais tempos sombrios serão conhecidos no futuro como a verdadeira pré-história da humanidade. Pensem bem: sempre reclamamos da qualidade de vida nas grandes cidades, não é mesmo? Já faz tempo que a palavra estresse entrou no nosso vocabulário. Finalmente a solução veio em forma de vírus! O deitismo/camismo chegou para libertá-los das horas perdidas no trânsito, da violência, da poluição! O futuro é a distância, o futuro é uma sala virtual habitada por inúmeras miniaturas de webcams onde cada avatar espera sua vez de abrir o microfone! Tudo de maneira ordenada e harmoniosa! O futuro é brilhante!

Já está na hora de reabastecer a dispensa. É a sua vez de ir ao supermercado. Feita uma onda, a voz do colega invade o ambiente, interrompendo a revolução que desenhava em minha cabeça. A intensa alegria de uma lembrança inesperada toma conta do meu ser e tudo parece mais colorido, mais vibrante. Abre-se o casulo. Respondo alegremente, oferecendo-me para realizar a tarefa bissemanal. Levanto da cama e acendo a luz. Sim! Como pude me esquecer?! É a minha vez de ir ao supermercado! Esqueça a cama, o cobertor e o Wi-Fi. Que se fodam minhas ideias de religião, o boteco online e os afazeres do escritório! Acima de tudo, que se foda a distância! É hora de tomar um banho, colocar minha melhor roupa e vestir a máscara mais confortável para gozar da liberdade de caminhar até a esquina carregado de sacolas ecológicas! Já posso até sentir minhas mãos guiando um carrinho enferrujado e barulhento pelos corredores de laticínios! O ar puro do oceano vindo da seção de peixes! A emoção de cruzar com outras pessoas mascaradas numa grande comunhão pandêmica! A misteriosa distância de um metro e meio na fila do caixa! A sensação de proteção ao chegar em casa e lavar cada batata! Sim, era isso que faltava em minha vida. Animado, inicio uma lista mental de tudo que precisamos. Arroz, feijão, ovos, álcool em gel…

Eu prefiro fazê-lo.

Sanchez é natural de São Paulo/SP e tem 30 anos de idade. É formado em Letras pela Universidade de São Paulo e Mestre em Literatura Inglesa pela mesma instituição. Atualmente trabalha como revisor e tradutor em uma editora de livros didáticos.

cinco poemas de Thiago Medeiros

pressa em dizer
tanta coisa

sinto a presença
divina quase a
encostar-me os
calcanhares

* * *

acho abusivo
ligeiramente
abusivo

de todas as
minhas
desistências
é a única
que insiste

* * *

foi meu
primeiro medo
e até hoje não
nos falamos

te confundia
com a lerdeza
de uma noite
inteira com os
olhos abertos

nunca temi
escuridão
tempo é
que me
apavora

e disseram
que és
senhor dele

depois cultivei
medo das rãs
e de penas de
pavão

disseram-me
que também
eram crias
suas

de certas colheitas
também me veio
medo dos cabelos
em ralo de chuveiro

disseram-me
que nenhum
deles me cai
sem tua vontade

* * *

eternidade
eu que não
a compreendo

de certeza
envolve
tédio

suficiente para
que te preocupes
em tirar-nos fios
de cabelo um a um

há hecatombes
há holocaustos
há dores de hérnia
há extinção dos ursos polares

mas tuas vontades
residem no escalpelamento
de bulbos capilares
em um por um

* * *

então repito
que tenho
pressa

sigo
a correr

antes que
emudeça
de exaustão

sei que
um dia
me alcançarás

é teu hálito
que me faz
suar os calcanhares

e é lá
que há
de me tocar

grande será
minha queda

já ouço os
aplausos do
mundo

já ouço meu
nome em
boca de
pastores

acompanhados
provavelmente

de

satanista
maldito
viciado
alcoólatra
depravado
divorciado
enganador de velhinhos nas apostas de jogo do palito
[afinal
_____valia cerveja]
comunista
canibal amante de corpos
e
carnavalesco

na verdade

só tive um
grande medo
na vida

um medo
de quatro
letras

tenho medo
do amor

disseram-me
que todos os
infernos das
terras que
sequer conheço

foram criados
por amor a mim

deus

depois
de tanto
tempo

apenas peço

não me
toque
os
calcanhares

não enquanto
corro com medo

do teu amor
por mim

Thiago Medeiros é pernambucano de Caruaru. Escritor e agitador cultural. Idealizador do Encontro Literário Letras Em Barro e da Oficina Levante Literário. Publicou o livro de contos Claro é o mundo à minha volta, pela Editora Patuá. Organiza, junto com o poeta Andri Carvão, o Simpósio de Poetas Bêbadxs. Publicou em revistas como Mallarmargens, Gueto, Bibliofilia Cotidiana, Variações e Xapuri. Escreve para não esquecer de si mesmo.

equilibrista, poema de Natalia Timerman

Ontem fomos ao circo
meu pai queria
levar os netos
fomos todos
um circo de lona

seria bom poder dizer
todos os dias
fomos ao circo
mas isso só acontece
uma vez
ou uma vez
de vinte em vinte anos

ir ao circo é medir o tempo
em passadas de elefante
não há mais elefantes no circo
só sua grandiosidade
os olhos das crianças abertos
olhando para cima
para o alto do circo
o auge da vida da criança
quem sabe o auge da vida

sem que se perceba
de repente já passou e só depois
muitos anos depois
numa lembrança repentina
diante de um saco de pão
aquilo lá
tão pouco, tão nada, veloz
foi o auge
e já passou

estávamos atrasados
queríamos estar felizes
como devem estar
pessoas a caminho do circo
meu pai estava bravo
eu estava tensa
cansada do dia e das noites
as crianças estavam felizes
por trás do silêncio que
o rosto dos adultos
exigia delas

meu pai não disse
oi
demoramos a achar os lugares
que eram
separados
estava cheio
alguém perdeu o ingresso
não sabíamos onde uma pessoa
de tantas que éramos nós
(somos uma família grande, percebi)
deveria se sentar

quando começou
o espetáculo
percebi a boca seca a garganta
pedindo água e os ombros duros
como nunca imaginei
no dia de ir ao circo

uma mulher equilibrou pás
longas de madeira
talvez fossem de plástico
do lugar onde eu estava
não conseguia enxergar
só ver que a mulher
equilibrou várias delas
fazendo com seu corpo
um móbile de calder
vivo como os dias
que acontecem
que passam como são
não como queremos que sejam

foi um auge e foi
bonito mesmo que triste
bonito porque triste
porque vivo
porque estávamos todos
vendo a mulher
equilibrar as pás
e os homens pulando alto

quando acabou
as crianças sorriam
os adultos sorriam
já esquecidos
do atraso da sede
do dia das noites

nos abraçamos nos perdoamos
sem uma palavra
enquanto as crianças
comiam pipoca
e espalhavam pelo chão

Natalia Timerman é escritora, psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. Publicou Desterros — histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017) e a coletânea de contos Rachaduras (Editora Quelônio, 2019). Seu primeiro romance sai em 2021 pela Editora Todavia.

o ofício da fome, de Alexandre Arbex

A amizade, por vezes, impõe-nos estranhas obrigações. Não me julgo, falando honestamente, à altura da tarefa que me coube desempenhar em memória de meu velho camarada Florentim Avesso, cujas partes finais enterrei na tarde de ontem após tantos meses de dolorosas experimentações. Creio, porém, que, se me negasse a satisfazer seu último pedido, a deslealdade dessa recusa evasiva anularia de uma vez todos os méritos da verdadeira devoção com que acompanhei as etapas finais de sua longa penitência. Informo de antemão que jamais reivindiquei qualquer compensação em troca da assistência assídua que dediquei às suas crescentes necessidades, e que tampouco pretendo servir-me deste relato para granjear em meu favor a atenção pública, se é que minhas palavras sairão à luz um dia.

Seria, sem dúvida, desejável e correto introduzir este depoimento com uma síntese cronológica dos fatos que precederam à radical resolução de meu amigo, mas Florentim nunca me confidenciou os motivos que o haviam determinado a se submeter voluntariamente a tão severas provações, e eu, a despeito de ter a princípio tentado desesperadamente demovê-lo de seu propósito, confesso que logo desisti de esperar qualquer esclarecimento ou, ao menos, qualquer justificativa, ainda que insensata ou absurda, que me permitisse situar seus atos no campo do martírio ou do delírio. Estou certo, ou folgaria muito de estar, de que meu amigo, ao me encarregar da missão de empreender narrativa de sua morte, tampouco tinha intenção de figurar nela como um herói incompreendido, capaz de inspirar nos corações ingênuos o anseio de repetir seu trágico exemplo. Por essa razão, serei prudente ao especular sobre os sentimentos que pareceram perturbá-lo, sobretudo nas suas últimas incisões, quando, ainda relutante, ele concedeu uma trégua à dor e aceitou morfina. Para ser fiel à promessa que lhe fiz e imprimir a este memorial o caráter desapaixonado que certamente agradaria a Florentim, guardarei silêncio sobre meus próprios juízos morais diante dos fatos que me disponho a descrever, e somente farei algum acréscimo de opinião ou hipótese quando for conveniente evitar que o leitor crie, a respeito de meu amigo, uma imagem imerecidamente atroz.

Florentim procurou-me no consultório quando já havia perdido o pé direito, dois dedos da mão esquerda e o saco escrotal. Chegou só, arrimado a uma bengala de alumínio, sem marcar hora, e se valeu de sua deplorável condição física e de nossa velha camaradagem dos tempos colegiais para ser recebido imediatamente. De início, não me contou como tais acidentes se sucederam, e me deixou atribuí-los, com essa deliberada omissão, aos efeitos de um inexistente diabetes. Apenas algum tempo depois, eu atinaria que aquela visita tinha o duplo propósito de despertar meu interesse pelo seu caso e sondar minha discrição; de fato, se me fosse dado saber tudo de repente, uma repugnância invencível pela sua figura teria interditado definitivamente o diálogo entre nós. Ajudei-o a se despir, apalpei um pouco constrangido o ponto de sua castração e atestei afinal que, a despeito das estranhas cicatrizes de suas mutilações, Florentim gozava de uma saúde perfeita. Ele sorriu sem satisfação e se limitou a responder que aquela boa notícia o autorizava a dar seguimento aos seus projetos. Convidou-me a ir vê-lo em seu apartamento no fim de semana, a pretexto de compensar com um almoço a generosidade daquela consulta intempestiva e gratuita, e eu, supondo que suas evidentes dificuldades de locomoção deviam privá-lo de companhia, acabei por aceitar a proposta, embora não houvesse entre nós intimidade suficiente para justificar uma visita tão pessoal.

Ao cumprimentá-lo na chegada à sua casa, notei a falta do terceiro dedo na sua mão esquerda. Eu teria facilmente associado essa inesperada lacuna a uma traição da memória se não tivesse percebido que a lesão sobre o talo do metacarpo ainda parecia fresca, quase suculenta. Florentim, apoiando-se nos móveis, indicou-me, com um aceno, um sofá de palhinha, submerso numa nuvem de almofadas brancas, e se atirou à poltrona de couro sintético, carcomido nas costuras, a mesma onde o vi morrer dois dias atrás. Não emiti de princípio nenhum comentário sobre sua ferida recente e, evitando olhá-la, tentava concentrar minha atenção noutros objetos da sala, um vaso de cristal jateado na mesa de centro, um estojo de baralho, um porta-retratos vazio. Monossilábico e vigilante, o anfitrião mal e mal respondia às frases com que eu me empenhava em prolongar as aflitivas cordialidades iniciais, e parecia apenas cronometrar em segredo por quanto tempo eu seguiria adiando a pergunta tão nitidamente estampada no espanto da minha fisionomia. Esse jogo depressa desgastou minha paciência: desabotoando o paletó, já à espera de uma longa conversa, e assumindo um tom franco, quase hostil, perguntei-lhe, então, meu caro, o que aconteceu com o dedo? Ele suspirou, aliviado de poder afinal dizer as palavras que pareciam tolhê-lo dentro de si desde minha entrada, e, como uma criança que sabe ter ido longe demais mas se julga já suficientemente punida pelo próprio erro, respondeu, sorrindo, eu comi.

Não consegui almoçar, mas aceitei o chá sem a sobremesa, esforçando-me por dominar aos poucos as ânsias que me subiam por dentro com uma efervescência amarga. Depois de uma hora, de pé ante a entrada da varanda contígua à sala de visitas, pus-me a escutar as confissões que Florentim, de volta à poltrona, lentamente desfiava às minhas costas. Ele contou que, certa tarde, deitado na cama, com a cabeça ligeiramente suspensa e apoiada contra um travesseiro, começou, por uma distração inquieta, a balançar os pés. Ficara assim a admirá-los, como se a sincronia desse movimento fosse uma manifestação espontânea deles, uma exibição graciosa de um par de dançarinos siameses. A longa e passiva contemplação o fez aos poucos cair num estado de torpor próximo ao da hipnose. Seus pés pareceram-lhe tão suaves e sinuosos em sua forma, tão crescidos em sua massa, que ele os apeteceu. De súbito, então, lançou-se num salto sobre eles com uma irresistível voracidade. Calhou pela sorte que pegasse primeiro o direito. Comprimiu as mandíbulas com tanta força que, ao soltá-lo, sentiu que lhe sobrara dentro da boca uma tira de carne. O pedaço soube-lhe a algo como uma capa de gordura fria e insossa que ele teria certamente cuspido se, em seguida, inesperadamente, não lhe subisse aos poucos ao palato um deleite insólito, que se intensificava, preenchendo seu paladar, à medida que a polpa dura do pé se dissolvia na saliva. Quando a engoliu, afinal, uma sensação de saciedade assolou tão violentamente seus sentidos que ele quase desfaleceu: deu-se conta, então, de que não poderia mais viver sem atingir outra vez a delícia extrema daquela deglutição cujo prazer estava além dos limites do sofrimento físico e da náusea.

Terminou de comer o pé em uma semana, disse-me, com uma entonação exultante, e eu compreendi que ele descortinara com esse triunfo um horizonte de ainda mais espetaculares realizações. Naquela ocasião, não tive espírito para inquiri-lo acerca das presumíveis dificuldades de execução desse ato, mas Florentim explicou-me depois que havia recorrido aos mais lacerantes meios contra a resistência dos ossos, fracionando-os em partes pequenas como comprimidos para engoli-los com conhaque. Uma noite, ao assistir a um desses programas de curiosidades científicas, estrelados por jovens de colete, gravata borboleta e gel capilar, ele descobrira um método módico para amolecer ossos de galinha: vinagre quente. Encheu quase até a borda uma panela com o líquido, ferveu-o um pouco para acelerar a fermentação, despejou o conteúdo num largo recipiente de louça e, tão logo a temperatura lhe pareceu suportável, imergiu nele o pé um tanto destroçado, com as falanges e metatarsos já aparentes. Reaquecendo a intervalos o conteúdo, submeteu-se a esse experimento por um prazo maior que o aplicado aos galináceos, certo de que os ossos humanos, mais grossos, não se quebrariam com igual facilidade. Perguntei-lhe, tornando a encará-lo pela primeira vez desde o início de sua narração, se a reação química havia sido eficaz. Em parte, ele respondeu, precisei complementar o efeito com o auxílio da força, e, calculando que meus ossos estavam já tão esfarelados que poderia martelá-los quase insensivelmente, acabei por desmaiar de dor após uma sequência de golpes. Recostado à porta da cozinha, servindo-se também de uma xícara de chá, Florentim disse-me que esses procedimentos não lhe eram mais tão penosos e que, aliás, já os tinha incorporado ao seu ritual. Tão logo, porém, disse esta última palavra, apressou-se a esclarecer que suas práticas não tinham qualquer inspiração mística ou religiosa, e que, se algum ritual havia nelas, era somente o da refeição. O gosto dos tecidos moles encavados nas reentrâncias ósseas o havia extasiado e, desde então, ele se habituara a deixar as feridas à vista, sem curativos, para aguçar o apetite. Mas aquelas primeiras e excruciantes tentativas de comer o pé quase o tinham feito duvidar se aguentaria levar adiante o que tinha iniciado. Dias depois, no banho, teve vontade de comer o saco escrotal: disse-me, com um riso envergonhado, que se sentara no piso do box, esticando as pernas contra o blindex e dobrando o abdômen, para pôr ao alcance dos dentes aquelas partes, até que uma fisgada muscular o fez desistir do ato e o obrigou a usar as mãos para trazê-las à boca. Aos repuxões, aos rasgos, aos arrancos, esgarçou as pregas até abrir pequenas fendas — precisei fazer muita força, disse, muita força mesmo — e, em seguida, estendendo as mãos para apanhar, numa gaveta sob a pia, o alicate de unha, retalhou os pedaços pendentes, e os comeu, como já havia comido os testículos, cuja consistência descreveu como semelhante à de um caroço de sebo. Indaguei-lhe como ele pudera resistir àquele suplício absurdo, e Florentim, fechando os olhos com o regozijo da lembrança, respondeu, o sabor é indescritível.

A amputação desastrosa, contou-me ele, pusera-o a perder muito sangue e o submetera a um repouso demorado. Àquela altura, apenas a muito custo eu conseguia dominar a ojeriza e a indignação que o relato de Florentim me causava, e creio que, ao perguntar-lhe sobre as consequências daquela hemorragia, deixei que essas emoções imprimissem à minha voz um tom colérico, que o assustou. Falando mais baixo e devagar, como se por um momento tomasse consciência dos seus abomináveis feitos, Florentim respondeu que havia ele próprio providenciado a sutura do corte com materiais esterilizados, mandados vir da farmácia, mas que, na noite do incidente, arrepios o percorreram por dentro como aranhas geladas subindo sob a pele, e ele teve muito medo de morrer. Estava claro, disse, que não poderia prosseguir assim, sem método, tão desassistidamente, se desejava ir além. Ao ouvi-lo anunciar assim seu propósito, compreendi de chofre o motivo da minha presença em sua casa, e me dei conta de que seu discurso, tão meticuloso e ponderado, soava não como o desabafo cruel de um homem doente, mas como o discreto preâmbulo de um convite. Não o autorizei a formulá-lo: pus-me à distância, como se quisesse repelir as palavras que se seguiriam, e, primeiro com sobriedade e depois com aspereza, procurei persuadi-lo de todas as formas a não se entregar àquele brutal e desumano programa. Disse-lhe que, cedo ou tarde, as sequelas o obrigariam a recolher-se a um hospital, onde, preso a uma cama e reduzido à mais infame invalidez, ele certamente se arrependeria de se ter sujeitado àquele castigo selvagem. Cabisbaixo, meu pobre amigo esperou que eu me calasse para afinal responder, com uma voz resoluta e serena, que iria o mais longe que pudesse.

Pouco a pouco, porém, observando o quanto Florentim parecia insensível às próprias dores, eu deixaria de nutrir qualquer compaixão por ele, e logo as minhas preocupações passariam a concentrar-se menos em sua pessoa que em sua arte. Soube depois que, desde o desastroso episódio no banho, Florentim se dedicara a estudar técnicas finas de corte e excisão, mapeando, com polígonos pontilhados de caneta preta, as partes mais vascularizadas de seu corpo, a fim de controlar os sangramentos. Como o cheiro das pomadas anestesiantes na pele lhe tirava completamente o apetite, ele adotara, em seus começos, o hábito de tomar três pílulas de analgésico com chá de camomila misturado a uma bebida alcoólica para evitar que a dor em excesso, perturbando-o na operação, o fizesse errar as mordidas. Aprendera, enfim, com a experiência: notando, por exemplo, que a ingestão de pelos lhe dava azia, depilou de vez todos os seus membros. Quando começara a comer os dedos da mão, Florentim observava já um escrupuloso conjunto de práticas seguras que a pesquisa e a autoanálise o haviam induzido a estabelecer e para cujo aprimoramento eu viria contribuir modestamente. O que lhe faltara, no seu impetuoso início, era certo senso estratégico, conforme ele próprio admitiu: por equívoco não previra, por exemplo, o quanto a falta dos dedos dificultaria a abertura dos frascos, a administração correta dos socorros necessários, o manejo da lâmina e outros instrumentos que o auxiliavam a cindir e lancetar as fibras e os tendões mais duros.

Naquela primeira tarde, entretanto, despedi-me horrorizado de Florentim. Com uma recusa ríspida, deixei claro que não tomaria parte em seu projeto e lhe sugeri que, em vez de médicos, ele recrutasse sádicos. Em casa, preparei uma sopa para quebrar a onda de enjoo que me revolvia o estômago e liguei a televisão para apagar da cabeça as imagens que me haviam ficado daquela visita. Lembro-me de esperar o início de uma partida de futebol quando entrou no ar a propaganda de um dentifrício, com cenas de esportes aquáticos sob uma fosforescência azulada, ao som da voz de um locutor que exclamava repetidamente que a maior concentração de flúor da nova fórmula garantia um sorriso ainda mais branco e limpo, a maior concentração de flúor da nova fórmula garantia um sorriso ainda mais branco e limpo, a maior concentração de flúor, flúor, flúor, sim, era isso, levantei-me às pressas, destaquei uma folha do bloco de prontuários médicos e escrevi essas duas palavras, ácido fluorídrico. A intuição confirmar-se-ia em seguida: consultando um compêndio de química, verifiquei que o ácido fluorídrico, diluído, era capaz de penetrar a pele e dissolver por dentro os ossos. Calculei que, combinada com o vinagre em certa quantidade — cuja dosagem não revelo aqui porque pretendo aperfeiçoar a composição e patenteá-la —, essa substância precipitaria os efeitos corrosivos que Florentim desejava aplicar às frações comestíveis de seu esqueleto. O estranho entusiasmo que se apoderou de mim com a descoberta me obrigou a admitir que a proposta de meu amigo definitivamente me interessava.

Após alguns exames que supervisionei pessoalmente, estabeleci um cronograma para as atividades alimentares de Florentim, propondo intervalos regulares entre as porções e prescrevendo uma quantidade padrão para estas, além de acrescentar novos expedientes de atenuação da dor. Passei a visitá-lo todos os dias, às vezes pela manhã e à noite: auscultava-o, media sua temperatura e pressão e, tanto quanto possível, punha ordem nas coisas da casa, efetuando as adaptações necessárias ao seu estado e assumindo alguns cuidados com seu asseio. Não demorei a conseguir assistir às suas refeições com uma atenção tranquila, sem engulhos, e a minha simples companhia nessas ocasiões lhe transmitia, como ele próprio me revelou, uma confiança estimulante. Jamais deixou de me admirar o apetite com que Florentim comia: uma cintilação de prazer parecia preencher seus olhos amarelados enquanto ele mascava longa e lentamente, como um chiclete massudo que crescesse na boca, um pedaço seu. Ao princípio, ele rejeitava qualquer outra comida, alegando que nada lhe sabia melhor ao paladar que sua própria carne, mas o forcei a alternar essa preferência com a ingestão de alimentos convencionais, visto que as pausas entre as perdas de suas partes, previstas no nosso planejamento, acarretar-lhe-iam jejuns relativamente demorados.

No espaço de poucas semanas, Florentim comeu os dois últimos dedos da mão esquerda, a mão esquerda, a superfície do seu antebraço e as peles flácidas que revestiam aquela camada em geral mais gorda e macia — que ele também comeu — junto ao cotovelo. Não sei se me surpreendia mais a estabilidade de seus sinais clínicos ou a lucidez imperturbável com que ele conversava sobre os pequenos fatos do cotidiano, o clima, o noticiário, o vinho. Às vezes, quando eu emendava duas, três noites em sua casa, a excepcionalidade da situação de Florentim parecia suavizar-se, e uma sensação de paz doméstica harmonizava com tal placidez nosso convívio que eu, obrigado a comparecer toda manhã ao consultório, comecei a considerar o trabalho externo uma ocupação secundária e enfadonha, um tributo que pagava ao tempo em troca de mais uma tarde aprazível em companhia de meu amigo.

Essa calmaria, conjugada com o perfeito cumprimento de nosso programa e a correta prevenção de todas as eventualidades — febres, vomições, desarranjos —, iludira-me por bom tempo acerca da conduta de Florentim, mas as dissimulações que ele empregava para comer às escondidas acabaram por ter um grave desfecho de cuja responsabilidade não posso isentar-me inteiramente. A verdade é que, por mais que uma intimidade saudável se tivesse já estabelecido entre nós, nunca me senti à vontade com a tarefa, cada vez mais difícil e necessária, de auxiliá-lo no banho. Não me incomodava, de nenhum modo, a obrigação médica de fazer a assepsia de seus ferimentos recentes, ainda que tivesse preferido delegar o serviço a um enfermeiro. Contudo, lavar e ensaboar seu corpo de homem, nu e meio amorfo, sob o chuveiro, dava-me a sensação desagradável de ter à mercê de minha força um animal pesado e inútil, cuja pele ainda se crispava ao tato da água fria e cujos músculos ainda se retesavam ao contato de minhas mãos, e ao qual eu devotava todavia um incompreensível desvelo. Meus escrúpulos de decência, a pretexto de proteger sua privacidade, me faziam sair do banheiro tão logo o via bem instalado no box, com o corpo recostado e seguro. Punha-me, então, porta fora, à espera do chamado para dobrar a maçaneta e recebê-lo com a toalha seca. Uma noite, porém, quando Florentim tardava mais que o habitual e sua voz parecia extinguir-se num longo sussurro ao responder a meus apelos, precisei entrar. Surpreendi-o, sentado, exangue e sonolento, no meio de uma poça de sangue, com o pé esquerdo estraçalhado. Puxei-o às pressas para fora, estanquei a hemorragia com sua própria roupa umedecida pelo vapor quente do chuveiro e providenciei um curativo precário, que completaria após reanimá-lo. Considerei por um instante recorrer à injeção de adrenalina que guardara no armário da cozinha e tentar o procedimento de ressuscitação com uma aplicação intracardíaca de emergência, mas, de súbito, num estremecimento, Florentim golfou um pedaço duro e vermelho de carne, lustroso como um rubi, e, puxando-me pela gola da camisa com os dedos encavalados, pediu água. Abracei-o, ainda muito abalado, acolhendo no calor da minha mão sua testa fria, e senti, então, que o perdoava por aquela desobediência, que o perdoava por qualquer coisa, porque o amava como a um filho que eu tivesse tirado do fundo da morte.

Passamos a madrugada no banheiro: quando Florentim acordou, ainda no meu colo, as primeiras luzes da manhã já penetravam o vidro frisado dos basculantes. Seus olhos, fixando-se na parede branca, pareciam recobrar aos poucos as circunstâncias anteriores a seu desfalecimento. Ele me fitou com o rosto manchado pela vergonha de sua degradação, e baixou depressa a vista. Levantei-me, comovido, ergui-o ainda mais alto nos braços, esplêndido como um animal sagrado sobrevivente ao seu próprio sacrifício, e o fiz mirar-se demoradamente no espelho. Quando ele, afinal mais calmo, restituído em sua dignidade, parecia já distinguir no reflexo o que lhe faltava e o que lhe sobrava, eu lhe disse, vai ficar tudo bem, seu corpo está assimilando melhor a dieta, aliás, se não fosse a perda de tantas partes, talvez você tivesse até ganhado peso. Sorri, Florentim sorriu, gargalhamos até.

Desde então, passei a vigiar Florentim diuturnamente, já não com o intuito de constrangê-lo a observar o calendário que lhe receitara e do qual acabei por abrir mão, mas com a preocupação de prover condições tão seguras quanto possível para que ele seguisse doravante apenas a lei da sua própria fome. A crescente dependência de meu amigo, além dos cuidados médicos de rotina, determinou-me a tirar férias do consultório e a me alojar, de fato, no seu apartamento. Somente pude vencer sua obstinada e entretanto justificável recusa a contratar auxiliares para os serviços mais pesados quando o ambiente se tornou a tal ponto caótico que era quase impossível encontrar um espaço livre e limpo na casa onde ele pudesse descansar. Em dias de faxina, mantinha-o sempre trancado no quarto, a salvo do espanto dos empregados, cuja curiosidade era felizmente menor que o alívio de ter um cômodo a menos para varrer. Às noites, acomodava-o na poltrona da sala, examinava por alto as feridas frescas e perguntava o que ele comeria no dia seguinte. Florentim brandia os talos roliços dos braços mutilados enquanto falava, e eu, exausto, pestanejando, sucumbia pouco a pouco e antes dele ao sono. A certa altura, começaram a sobrevir algumas dificuldades imprevistas. Florentim já tinha comido todas as partes do corpo que conseguia levar à boca, ainda que essas manobras lhe exigissem flexões abdominais cada vez mais penosas e rendessem rações cada vez mais parcas. Conforme escasseava a carnação mole dos membros mais acessíveis, ele tentava, com espetaculares contorções que arqueavam sua coluna até o estalo, alcançar os pedaços mais fibrosos e rijos das terminações do tronco, e eu, cingindo-o com os braços, precisava empregar toda minha energia para mantê-lo nessa posição pelo tempo necessário às suas mastigações. Numa etapa seguinte, após ouvi-lo às lágrimas apelar por uma solução, consenti em realizar uma temerária intervenção: removi duas de suas costelas a fim de reduzir a angulação entre o tórax e os destroços restantes dos membros abaixo da cintura. Confesso que, ao concordar em submeter um paciente no estado de Florentim a essa cirurgia, transgredi conscientemente o código de ética de minha profissão, e não hesito em antecipar que muitos leitores acusar-me-ão mesmo de ter cometido uma desumanidade; contudo, dói-me admiti-lo, Florentim já estava reduzido então a uma forma apenas vagamente humana ou, se me é permitido usar de sinceridade sem parecer cruel, à forma de um feto inacabado e descomunal. Apesar disso, faço registro de que a operação domiciliar transcorreu segundo o mais rigoroso protocolo médico: não poupei despesas para cercar o paciente de todos os aparatos e precauções que tal procedimento reclamaria em um ambiente hospitalar adequado, e rogo aos colegas de ofício a cujo conhecimento estas notas tenham acaso chegado que, antes de me denunciarem à corporação, deem-se por favor o trabalho de consultar as seções finais do longo prontuário que mantive, dia após dia, no decurso desse tratamento e em cuja redação creio ter empregado a mais minuciosa e elucidativa tecnicalidade.

Aludi, mais acima, de maneira sucinta e discreta, ao choro de Florentim, e na verdade não pretendia sequer mencionar esse acontecimento, sob pena de fazê-lo parecer um homem frágil e emotivo, quando a nota dominante de seu comportamento, ao longo de todo o tempo em que o acompanhei, foi uma inquebrantável resistência à dor. Essa reação, no entanto, abalou-me fortemente: era o sinal de que meu infeliz amigo já não raciocinava com clareza e que eu deveria preparar-me para o pior. Nas semanas finais, assolado de espasmos lancinantes, ele já não conseguia manter a coluna ereta, e entretanto persistia em sua fome. Ainda o ajudei a ganhar mais alguma envergadura, desatando, a frio, com um instrumento de incisão, as ligas dos músculos, os nós das nervuras e cartilagens que estorvavam seu movimento e o impediam de comer. Seu pequeno corpo torcia-se, dobrava-se sobre si mesmo, versátil como um invertebrado, enquanto ele remordia as coxas lisas, os nacos das nádegas, os flancos. Uma tarde, num momento de descontração, cobrindo de ataduras embebidas em água morna sua barriga inchada e luzidia, perguntei-lhe, ao acaso, de que parte havia gostado mais. Das panturrilhas, disse Florentim, usando de um tom professoral, como se a resposta fosse óbvia. O silêncio risonho que se seguiu pareceu recriar por um instante entre nós uma cumplicidade que se havia naturalmente deteriorado com a progressiva dependência que o unia a mim, e então tornou a me ocorrer, após muito tempo, a ideia de questioná-lo outra vez sobre o sentido de tudo aquilo. Encarei-o a sério, exalei um sopro longo e relaxado, e carreguei dentro da boca a primeira palavra. Florentim, rolando numa languidez pastosa sobre a poltrona, fitou-me de volta com uma inesperada altivez que imediatamente repôs em seus lugares as coisas entre nós e, antes que eu pudesse articular qualquer som, disse-me, não fale nada, Alexandre, por favor. Baixei os olhos tristemente, desapontado com minha própria fraqueza, e retirei-me levando as compressas para mergulhá-las novamente na água aquecida. Já na cozinha, ouvi Florentim dizer com emoção, é muito gostoso, eu como porque é muito gostoso.

Quando sua miséria física atingiu o sofrimento extremo e somente podia ser atenuada com hiperdoses de narcóticos e analgésicos ministradas em intervalos curtos, Florentim chamou-me para junto de si e me fez saber que morreria depressa. Adverti-o de que, como médico, me recusava a acelerar esse desfecho, mas ele, repudiando a insinuação, respondeu-me que precisava apenas transmitir-me certas instruções na forma de um pedido. Disse-me, então, que não pudera deixar de reparar que eu fazia anotações regulares dos fatos que passara ao seu lado e que, tendo certeza de que elas ofereciam um registro sóbrio e fiel de suas experiências, me autorizava a publicá-las. Aliás, completou, é meu desejo. Assenti com a cabeça e pousei a mão em seu peito nu, como se jurasse sobre seu corpo. Tive a impressão de vê-lo chorar outra vez, embora fosse impossível então distinguir entre os efeitos colaterais da medicação e as manifestações genuínas de sua sentimentalidade. Perguntei-lhe, com os eufemismos de praxe que a proximidade da morte recomenda, quais eram suas disposições com respeito ao funeral, se ele não preferiria, por exemplo, uma cerimônia adequada e a discrição de um caixão, uma vez que a cremação o exporia em sua forma terminal. Florentim arregalou de repente os olhos numa expressão de revolta, e, como se reagisse a um insulto, disse-me, você sabe exatamente como eu gostaria de acabar. Nada respondi: era um desejo que eu não me sentia capaz de satisfazer, e creio que este limite estava já implícito em nossas relações desde o momento em que se tornara patente que eu o seguiria até o fim. Creio que foi a última frase sensata que o ouvi dizer: depois de um dia de febres ferozes e balbuciações desatinadas, Florentim morreu. Enterrei seus restos no jardim ao fundo do pequeno prédio onde está meu consultório, ontem à tarde, na solitária deserção de um domingo. Ainda me recrimino intimamente por não ter ao menos tentado, sobrava muito pouco dele, afinal. Sua fome poderia ser também a minha, não sei, dói escrever, dói muito, mas menos do que eu pensava, talvez seja o sal do suor, talvez seja a luz quente do abajur, dourando a carne tenra da palma da minha mão, que me faça querer outra mordida.

Alexandre Arbex nasceu em 1980 em Resende-RJ, mas cresceu no Rio de Janeiro. Trabalhou como revisor e preparador de originais no mercado editorial por quase dez anos. Publicou o livro infantil O livro (Casa da Palavra, 2001) e o livro de contos Da utilidade das coisas (Editora 7Letras, 2017), finalista do Prêmio Jabuti 2018. “O ofício da fome” faz parte deste livro. Mora em Brasília desde 2009.

versão brasileira, de Nathalie Lourenço

Os estrangeiros eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
(Raul Seixas)

One-caipirinya-sir?, me perguntou a garçonete, uma garota tão redonda que parecia ter sido desenhada com nada além de um compasso, assim que eu e Erika nos sentamos. Era tudo um mal-entendido: primeiro porque eu falo português, segundo porque eu logo descobriria que aquilo mal poderia ser qualificado como caipirinha. Eram sucos de frutas com vodka, sakê, rum, qualquer líquido menos cachaça e qualquer fruta menos limão. Eu respondi a ela yes-please, sem contradizer o que minha própria cara vermelha sugeria. Sempre acontece de acharem que sou gringo. É o preço que pago por ter olhos azuis e pele tão branca que revela as veias da mesma cor. Erika deixou escapar uma risada assim que a mulher saiu, levando a mistura de gelo derretido e guardanapos deixada pelos ocupantes anteriores da mesa. Reconheci a expressão marota em seu rosto. Era algo que a gente fazia no início de namoro, desde que voltamos do intercâmbio na Austrália, onde nos conhecemos, mal saídos da adolescência. Isso de nos passar por gringos enquanto fazíamos as coisas mais corriqueiras, na pizzaria ou no mercado, pedindo ajuda no metrô, comparando no bar as cervejas locais com as da nossa fictícia cidade natal no interior do Canadá, disfarce perfeito para o sotaque apenas passável do nosso inglês. Começava assim, com esse olhar que ela estava fazendo, que incluía um levantar de uma sobrancelha quase invisível de tão loira, e a partir dali só falávamos em inglês entre nós e com os outros. Olhando para o céu, aceitei o papel com um simples isn’t-this-lovely-my-dear, que ela respondeu com um elegante yes-indeed, e fui preenchido por uma alegria que só poderia ser sentida por quem há muito não via o mar, enfurnado em sua gelada vila canadense. Era bom ver Erika sorrir.

O gosto de vodka barata se sobrepunha ao morango da so-called-caipirinya, fazendo meu rosto queimar ainda mais. A língua já enrolava, mas nós mantínhamos a conversa em inglês, comentávamos os pedidos das mesas ao lado, nos perguntávamos o que haveria nas pequenas ilhas ao redor da praia, observávamos o barco de pesca ao longe, nos perguntando quais seriam os peixes típicos deste litoral, tomando sempre o cuidado de não notar a mulher grávida que se bronzeava na areia. Depois de meses horríveis, experimentávamos o exotismo de sermos dois gringos pagando caro demais por um drinque ruim em um dia de sol. Comendo e bebendo sem pensar nas contas bancárias minguando, apesar de saber que os imaginários dólares canadenses nunca chegariam a cair. Nadamos no mar de águas escuras, eu com calção colorido e Erika com o maiô de corpo todo, escolhido para esconder as listras vermelhas que ilustravam sua barriga. A versão canadense de nós dois mergulhava e jogava a água pra cima, e se esquecia de renovar o protetor solar como crianças, e gritava oh-no-don’t-you-dare antes de ter a cabeça afundada pelo outro entre as ondas e emergir com as mãos no ar, prontas para a efusiva vingança. A versão canadense de nós dois poderia, ao fim de duas semanas, pegar o avião de volta para o Canadá, com nossos bronzeados que descascariam quase imediatamente, como se fosse efeito do choque térmico, onde contaríamos para colegas chamados Frances e Colin sobre nossas aventuras brasileiras e então voltaríamos para aquela vida imaginada, onde havia noites de jogos de tabuleiro e limpadores de gelo e onde os bebês tão esperados não morriam durante o parto.

O sol se pôs e tentamos puxar os aplausos, mas não era aquele tipo de praia. Pedimos the-check-please e entramos no carro, para procurar a pousada que meu cunhado tinha reservado, cuidando do check-in e toda a papelada. Vantagens de ter um agente de turismo na família. Dez anos atrás, essa brincadeira acabava logo, depois de uma ou duas horas, assim que o primeiro de nós deixasse escapar uma palavra em português. Desta vez era como uma partida de tênis perfeita, os dois jogadores lançando a bola para outro sem que nenhum errasse ou tropeçasse. A cada movimento a adrenalina aumentava: uma sílaba errada, um tropeço, um uau em vez wow estilhaçaria a vida boa e leve que conseguimos manter durante a tarde inteira. E assim nossa pousada virou our-inn, e como chegamos lá virou how-do-we-get-there. Quando nos apresentamos na recepção da pousada, Erika e Benjamin foram pronunciados como Ehricá e Béndjamin, com a conivência do meu sobrenome ambíguo. Não era tarde. O sono pesava nossos corpos pouco habituados a sun-and-salt, amolecidos pela vodka e uma leve desidratação. Dormimos sem desfazer as malas e posso jurar que sonhei em inglês.

Acordei com a pele ardendo e Erika me desejou good-morning, enquanto eu me besuntava de loção. It-was-obvious que o jogo ainda estava acontecendo. Ela tinha separado uma camiseta de turista que tínhamos comprado em Paraty uns dois anos atrás, e um chapéu de praia que me fez parecer o mais gringo entre todos os casais de gringos no breakfast, onde uma garota enorme de grávida servia o café. Pelo som ao redor, éramos os únicos brasileiros hospedados. Só meu cunhado mesmo conheceria esse segredo bem guardado, essa praia do tipo exportação. Era agradável ouvir diferentes línguas, os ritmos e tons misturados, instrumentos em uma mesma música. Propus que a gente skip-the-beach, pra dar um descanso aos meus ombros, que emanavam uma aura de calor. Teríamos ainda duas semanas de vacation pela frente. Praia do Alemão era o nome daquela vila pequena, pouco acima de Ubatuba. Nunca tínhamos heard-about-it até a indicação do nosso cunhado. Minhas férias já estavam marcadas para aquela época, quando a Erika voltaria da licença maternidade. Nós dois precisávamos sair de casa. Sair de perto daquele quartinho pintado de amarelo. Talvez achar um lugar bonito para espalhar o montinho de cinzas que tínhamos pensado em chamar de Talita. Mas a nossa versão canadense não estava em busca de um penhasco de onde jogar a tristeza. Nossa versão canadense queria apenas caminhar, tirar fotos, comprar quinquilharias. Observar the-locals e tomar açaí como se nunca tivéssemos visto aquela pasta roxa antes.

Mesmo com a gente protestando que just-bananas-please, a atendente colocou de tudo no açaí. M&Ms, leite condensado, leite ninho, frutas cristalizadas. Brazilian-Way, ela sorriu, entregando os dois potes, depois enxugando a mão no avental que cobria sua barriga. Os nossos dedos gelavam enquanto caminhávamos pela vila, que era muitas vezes bigger-cleaner-and-more-organized do que imaginávamos. Havia um hospital recém-construído, ainda cheirando a tinta, com pirâmides de cascalho e pedrisco ao redor. Todas as ruas eram asfaltadas, contrastando com os trechos de terra e vias esburacadas que havíamos tomado pra chegar ali. Canteiros cheio de flores dividiam a rua principal que beirava a praia. Havia uma estátua de Iemanjá pintada de branco e azul. Os barcos dos pescadores pareciam novos na ponta da praia. Um parquinho com os balanços rangendo ao vento. Tudo parecia brand-new. Era como se tudo ali tivesse acabado de se materializar. Caminhamos ao longo da praia de volta para a pousada. Erika parava de quando em quando para catar uma conchinha: look-how-pink-it-is. Não era temporada, havia uns poucos guarda-sóis espalhados aqui e ali, casais se bronzeando, e mulheres com grandes barrigas aproveitando as sombras naturais das árvores que cresciam ao longo da orla. Por que tinha que ter tantas grávidas ali? Ou era eu quem não conseguia deixar de notá-las? Felizmente, Erika estava compenetrada no chão de areia, a palma cheia de conchas miúdas, algumas lascadas, outras ainda presas aos seus pares, asas endurecidas de borboleta. Passamos o resto do dia dormitando e lendo sob a varanda da pousada e subimos para tomar um banho no chuveiro, que era excelente, melhor que o de casa.

No saguão, dois outros casais esperavam o horário do jantar. Um homem alto e ruivo, de bigode, brincava com os dedos da esposa, uma loira gordinha de pele fina. O outro casal era pequeno e mais velho e ainda vestia as roupas de praia. Os dois baixinhos abriram sorrisos quase simultâneos ao nos ver, enquanto os outros dois apenas acenaram. Anxious? Perguntou a baixinha, e como não tínhamos almoçado por causa do açaí, respondi que yes, estávamos com muita fome. Eles deram risada e logo começamos a conversar. Um dos casais era sueco, o outro, holandês. Ninguém pareceu duvidar da nossa canadensidade. Erika de repente ficou mais falante e animada. Fazer meia dúzia de brasileiros acreditarem que éramos de fora era uma coisa. Fazer o mesmo com gente que deveria ser muito viajada era harder-and-dangerous. Naquela meia hora ela falou de tudo: que eu era tradutor e ela era contadora, que não tínhamos filhos, que gostava da praia, mas odiava acampar e que sua mãe tinha tido câncer de útero, assim como a holandesa que gostava de dar detalhes demais. Era tudo verdade, tirando o Canadá. Meu orgulho pela performance de Erika só era atrapalhado pela impaciência dos suecos, que no momento interpretei como muita fome e alguma falta de educação. Enfim a dona da pousada apareceu dizendo que the-dinner-is-ready.

O salão estava organizado em três mesas pequenas, e cada casal seguiu para uma. Quem servia a comida era uma jovem de tranças pretas, com uma barriga tão avantajada que Erika, que se lembrava bem de como era tentar se mover com outro ser humano dentro de si, se levantou para ajudar, e pediu para que ela sit-down-a-little-bit. A moça parecia não entender muito bem, e Erika teve que gesticular até que ela se acomodasse. Que raiva da dona daquele lugar. Perguntamos, numa língua que misturava inglês e mímica, se ela deveria estar trabalhando, de quanto meses ela estava? Ela levantou as duas mãos, uma com todos os dedos à mostra, outra com apenas um escondido. Ela olhava para baixo o tempo todo. Pensei que estivesse com vergonha de estar sentada em vez de trabalhando. Ela nos perguntou where-you-from, num inglês decorado e precário. Tentamos contar sobre nossa cidadezinha fictícia onde havia um lago onde as crianças patinavam no inverno. Mas ela não parecia compreender e falar disso já não fazia Erika sorrir. Os outros dois casais viravam para olhar nossa mesa não uma vez, nem duas, all-the-time. Perguntei what’s-your-name e ela disse Miranda, levantando com dificuldade e indo servir as outras duas mesas. Levamos nossos próprios pratos para a cozinha, incomodados com a perspectiva de Miranda ter que carregar tudo aquilo naquele estado. A barriga da moça parecia um mundo e sua gravidade atraía os olhos de Erika. Nossa outra vida começava a falhar. Perdia altura, voltava ao chão. Éramos só um casal de brasileiros com uma caixinha cheia de cinzas no fundo da mala.

Que merda. Foram minhas primeiras palavras em português em quase dois dias. Foi assim que eu encerrei o jogo, entreguei os pontos. Que merda. Nossa versão brasileira precisava de uma bebida forte. Pegamos o que havia no frigobar, umas latas de Coca-cola e minigarrafinhas e passamos a noite cantando canções de ninar para Talita. Passamos todo o dia seguinte trancados, cortinas fechadas para bloquear a dor que a luz impunha aos meus olhos, abrindo a porta somente para receber o serviço de quarto. Os sons do hotel funcionando martelavam minha cabeça, insuportáveis. Foi nosso último dia em família. Eu, Erika e Talita.

Decidimos espalhar suas cinzas na praia ao amanhecer. Nossa versão brasileira caminhou até as pedras, com o mar batendo nas canelas, e tirou a tampa da caixa, não virou, não sacudiu, deixou o vento soprar e soprar até levar tudo. Ficamos um tempo segurando uma caixa vazia e olhando para o céu nublado e as árvores de troncos finos, inclinadas pelo vento como se tentassem fugir. Ainda estava frio e preferimos calçar os sapatos e caminhar de volta pela cidade. As lojas não estavam abertas, a padaria estava fechada, a banca de revistas também. Tudo estava quieto, tirando o hospital branquíssimo, na frente dele um carro com as portas da frente abertas. O casal de suecos conversava com a dona da pousada, que tinha nos braços o que me pareceu ser um cobertor enrolado, mas que se mexia e chorava. A sueca estendeu os braços e pegou a criança, a segurou longe do corpo por um segundo, como se a inspecionasse. Então a abraçou e entrou no carro enquanto o marido trocava gentilezas com a dona da pousada.

Na manhã seguinte, quem serviu o café da manhã não foi Miranda, mas outra mulher, esta também extremamente grávida. Perto da mesa que oferecia sucos e frutas cortadas, o casal de holandeses conversava com ela.

Nathalie Lourenço nasceu em 1984, é redatora publicitária, paulistana e autora do livro Morri por Educação (2017).