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quatro poemas do livro ‘Corvos contra a noite’, de Diego Vinhas

corvos_contra_a_noite_capababel

dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
_______________a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

da pós-verdade ao
pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

giallo

empunhar o cansaço como
uma espada de iansã, proteção contra
estar dentro de um filme italiano
em que do matador em série
aparecem apenas as luvas pretas
de couro. escolher as armas: livros e
amores (os mais queridos, de segunda
mão), além de imagens riscadas em
sonho, como o olhar de vidro dos
pescadores saudosos de algo que o mar
não devolve. como as guirlandas,
helênias, gérberas e outros nomes reais
ou inventados de flores ou de meninas
assassinadas. você sabe, esta casa
retrocede e dobra e se curva ao sabor
da fuga. só temos que voltar antes
que o filme acabe. por enquanto, pilhar
toda ninharia que componha o paiol —
uma península, uma paz tarja-preta, um
bestiário de figurinhas autocolantes,
o cheiro de chuva do seu cabelo.
escolher as armas na pressa, sob
o manto protetor do meu cansaço.
há mandíbulas em volta se fechando
em carniça, não há muito tempo.
você tem a chave, mas não é fácil ler
as linhas borradas do seu rosto.
daqui parece um sorriso

sesmarias

1% dos mais ricos do mundo detém a mesma
riqueza que o resto dos 99%.

seis brasileiros concentram a mesma renda
que 50% dos mais pobres.

nos EUA a média diária de consumo de água
per capita é de 575 litros enquanto na Etiópia
é de 15 litros.

dez multinacionais têm mais capital que 180 países.

mulheres recebem, em média, salários 30% menores
que os homens quando ocupam os mesmos cargos
e com a mesma formação.

o motorista do Dr. Mansur
é filho do motorista do pai do Dr. Mansur.

aquele zé-ninguém puxando conversa com a
madame. se o coronel manda apagar não dá nada.

advogados só podem despachar com magistrados
às 3as e 5as, das 14hs às 17hs (alguns
não atendem mesmo).

você sabe com que está falando?

pão nosso

com tanto amor
totalitário
pingando
de vossa excelência

este que vos fala

tão menor
tão merecedor
de amparo
piedade e esmola

só poderia

agora
na ágora
do corpo

replicar com
ódio

| poemas do livro Corvos contra a noite (Editora 7Letras, 2020). |

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza em 1980. É defensor público e participou de antologias do Brasil, EUA e Portugal, além de ter publicado em diversas revistas, como Inimigo Rumor, Cult, Sibila, Escamandro, Modo de Usar & Co, Gueto, Zunai, dentre outros. É autor dos livros de poemas Primeiro as coisas morrem (2004), Nenhum nome onde morar (2014) e Corvos contra a noite (2020), todos pela Editora 7Letras (RJ).

o capador, de Leonardo Almeida Filho

Pode perguntar por aí a quem quiser e vão lhe confirmar. Todo mundo dessas bandas conhecia o sujeito. Conhecia de vista, pois Zé Firmino era homem de poucas palavras, um bruto com pouca história. Pela profissão que tinha, e que todos comentavam ao pé da orelha, com medo, até que se mostrava muito, pois era sempre possível encontrá-lo no bar do Peixoto, na esquina da 11 de Setembro. Não estivesse por ali, era só bater na casa dele. Não tinha erro. Não se escondia de ninguém. Mas isso foi antes, bem antes de ele ganhar fama e se tornar lenda por estas bandas. Desapareceu, virou um fantasma que metia medo em todo mundo. Seu paradeiro tornou-se um mistério. O que se sabe é que ele levou muita gente para o outro lado. Era um cabra frio. Dois olhos gelados que quando grudavam na gente dava um arrepio ruim. E é curioso notar que ele até que não tinha a cara feia, era bem apessoado, imberbe, traços finos, quase femininos, o que aumentava ainda mais a curiosidade: de onde vinha tamanha crueldade? Tinha a merecida fama de maior matador dessas redondezas e ninguém se metia com ele, nem a polícia, que fazia vista grossa àquela sucessão de defuntos que eram manchete de jornal, aqui e ali, de Santana à Freguesia de Água Funda. Quase todos na conta do Zé Firmino, normalmente pequenos proprietários em litígio com algum poderoso, um amante justiçado, um político em ascensão, um devedor inveterado. Quando aparecia um corpo de homem, só de olhar, já se sabia de quem era o trabalho. Essa sabença era fácil de ser sedimentada no conceito das gentes, uma vez que o matador costumava assinar sua obra arrancando os ovos do finado. Assim como lhe digo. Zé Firmino decepava o saco de todo o macho que eliminava, sem exceção. Capava o cabra como se capa um boi. Ele não se metia com mulheres, nem crianças, tinha lá seu código de ética. Quando o padre de Santa Rita foi encontrado no fundo da casa paroquial, isso há muitos anos, o que mais chamou a atenção não foi o fato de ele ter sido assassinado com um tiro certeiro de escopeta. O vigário era carta marcada para morrer, mexia com gente poderosa dali, defendia um bando de sem terras, comprava briga com fazendeiros e políticos, diziam que era comunista, não tinha medo de ninguém, acreditava que Jesus estava ao seu lado e o protegeria. Não protegeu. O que chocou mesmo foi encontrá-lo com a batina levantada até o pescoço, o rombo no peito, e a surpreendente ausência dos ovos, além da poça de sangue em que dormia o frio sono dos defuntos. Padre Baggio deve ter sido a primeira encomenda de Zé Firmino, pois foi o primeiro defunto capado que se tem registro. Discutia-se o porquê desse jeito de matar. Isso não é comum, pelo contrário, ninguém, por mais cruel que seja, sai por aí dando-se ao trabalho de castrar defuntos. Então, por que ele fazia isso? Discutia-se nas barbearias, nos bares, nas feiras. Uns sugeriam que ele queria dizer que era mais macho que suas vítimas. Outros inventaram uma história, nunca confirmada, de que ele havia sido casado e que a mulher lhe passara uns cornos bem passados e era por essa razão que ele deixava marcada a sua vingança arrancando os bagos de todo o macho que matava. Havia até quem jurasse de pé junto que ele, num ritual de bruxaria, comia a iguaria frita, com farofa, porque acreditava que ia lhe dar mais brabeza. A verdade é que ninguém nunca soube o motivo dessa estranha mania do grande pistoleiro da região de Santana do Faro, conhecido por muita gente como O Capador.

* * *

Gilvan, o Bacamartinho, era vereador em Goiana, cidadezinha localizada exatamente no meio do caminho entre Recife e João Pessoa. Sujeito gordo e suarento como meu primo Julião, casado com Marina, e tão safado quanto. Cabra sem palavra, enrolador de marca maior, cheio de noveora, um vaselina completo. Filho do finado Pedro do Bacamarte, Gilvan acabou se elegendo vereador às custas do bom nome do pai que, durante muitos anos, foi também vereador do município e que, embora não tivesse feito grande coisa, também não tinha feito grande merda na investidura do mandato. Acreditando que filho de peixe é sempre peixinho, um punhado de eleitores o colocou na câmara local, lugar que, no fim das contas, ele pouco frequentava, preferindo sempre a companhia das quengas, dos bares, dos arrasta-pés da região. Foi justamente num desses assustados que desgraçou-se ao se engraçar por uma mocinha das coxas grossas, olhar molhado e lábios de pão doce. Juliana, dos olhinhos negros e levemente estrábicos, era filha única do velho coronel Alceste, neto de antigo usineiro e proprietário de um pedaço de terra fértil por ali. Homem rígido, de moral com mofo e limo, de costumes mais antigos que cagar de cócoras, sujeito-homem de palavra e zelo, Alceste tinha em Juliana a sua princesa, sua menina preciosa. Gilvan acabou se metendo com a morena errada. Quando ela comunicou, entre soluços sinceros, que as regras estavam atrasadas e que um filho seu estava a caminho, Gilvan, para desespero da mocinha, negou-se a reconhecer a paternidade da criança. Juliana pariu o filho do vereador já na zona, a casa de Lizete Rabada, para onde foi encaminhada pelo próprio pai, depois de aplicar-lhe uma surra e cortar-lhe os cabelos. Com espuma no canto dos lábios, disse ele à filha ao empurrá-la para fora do carro: Para mim, você morreu, desgraça. Mas as coisas não ficariam assim, impunes. Há uma lei maior na região: a lei da vingança. Por ali, safado não se cria, é o que dizem. Aqui se faz, aqui se paga, todos repetem. Espalharam que o Coronel Alceste deixou que as coisas esfriassem um pouco e foi procurar Zé Firmino com o trabalho: eliminar Gilvan Bacarmartinho.

* * *

Nessas terras de meu Deus, não existem segredos que perdurem. Quem quiser que se engane, eu não. Essas coisas não se escondem por muito tempo, são sussurradas pelos cantos, parece que pulam dos espinhos do mandacaru para o vento, e desse para as frestas nas portas de madeira, chegando aos ouvidos do povo que, para esse tipo de assunto, nunca dorme. Coisas assim não se guardam facilmente, acabam vazando como infiltração no teto, na parede, fazem mancha, anunciam-se pelo mofo, pelo cheiro ruim que exalam, e assustam. Podem até não ser verdadeiras, mas quem se importa? Foi assim que cantaram, não sem uma gota de sadismo, ao pé do ouvido de Gilvan: “Estão dizendo por aí, soube agorinha, que contrataram Zé Firmino para matá-lo, visse? Andasse bulindo com quem não devia. Se eu fosse tu, fugia daqui, ia para bem longe, sumia.” Consciência é um embornal onde a gente guarda as coisas que não tem orgulho de ter feito. Vira e mexe, estão lá, hibernando, a vergonha, o arrependimento, o medo. Lembrou-se logo de Juliana e do velho coronel Alceste. Era coisa dele, engoliu em seco. A notícia caiu-lhe feito um tiro de bacamarte numa noite de silêncio, espantando grilos e corujas, tirando todo o sossego do vivente. O vereador sabia muito bem de quem se tratava e, num ato reflexo, movido pelo instinto inconsciente de preservação, levou imediatamente a mão aos ovos, pousando os dedos sobre eles, apertando-os com carinho e muito medo, como se o pânico antecipasse o corte entre as suas pernas. Eram as primeiras das incontáveis horas de pavor que ele teria pela frente. A situação exigia que ele adotasse medidas extremas, alheias à sua índole. Gilvan não era de briga, nunca foi. Não passava de um mau caráter, de um frouxo. Sempre fora assim, um covarde. Passou a andar armado e deixou de frequentar as festas, os bares, os prostíbulos. Tornou-se arredio, quase um monge. Era comum pegá-lo em silêncio, em local público, postado estrategicamente num canto que lhe possibilitava a visão de todo ambiente. “Não se sabe de onde vem o tiro”, ele dizia, “mas virá”. E ele acreditava nisso, pois a fama do matador Zé Firmino era de total eficiência. Ordem dada, ordem cumprida. Serviço encomendado, defunto entregue e, ele tremia ao pensar, os ovos cortados. Era esse o motivo para o seu grande desespero, ser encontrado com as pernas abertas, capado, humilhado, emasculado, exposto a Deus e ao mundo como um sub-homem, um eunuco, uma coisa desprezível, um maricas, um baitola. “Não!” Ele se dizia baixinho, “isso não. Um homem deve morrer homem, inteiro.” Redobrou o cuidado, passando a não sair de casa. Perdeu o apetite, mergulhado que estava na paranoia absoluta. Qualquer barulho o deixava em estado de alerta, perdia o sono facilmente. Quantas vezes, durante a noite, vigiava, à janela, o movimento na rua deserta. Para Gilvan Bacamartinho, a vida perdera todo o sentido, tudo agora era apenas medo, não de morrer, que fique claro, mas de perder as partes e virar notícia em toda Goiana, Santana do Faro, Freguesia de Água Funda. Quando imaginava o jornal anunciando a sua morte, sentia calafrios terríveis, pois se via na primeira página, estirado, olho fixo no nada, capado, e todo o populacho nas feiras, nos mercados, nos puteiros, comentando e sorrindo de sua imolação. Viraria motivo de chacota. Foi quando ouviu o barulho de passos sobre as folhas secas da mangueira, no fundo do quintal. Levantou-se da cama num pulo. “Era Zé Firmino”, ele pensou e tremeu. O coração acelerado, o suor na testa, a arma engatilhada. “É Zé Firmino”, falava baixinho, “o matador infalível, uma cinquentena de machos capados no currículo, impossível escapar”. Tudo isso lhe vinha à mente, enquanto os olhos arregalados tentavam enxergar alguma coisa na escuridão do quintal. Apenas sombras que ele confundia com uma figura humana caminhando em direção à casa. Mas o barulho de passos era real, ele se dizia, e se encolhia com uma mão entre as pernas, protegendo seu tesouro, e a outra no .38 que pertencera ao velho Pedro Bacamarte. Um ruído na lateral da casa, perto do tanque de lavar roupa. Ele teve a impressão de ouvir alguém forçando a porta. “É ele, é ele”. Desesperou-se. Gilvan abriu a porta da sala e saiu correndo feito um louco pela rua.

* * *

Disseram as testemunhas que o vereador veio correndo desembestado pela calçada, parou em frente ao bar. Não falava coisa com coisa, assustado, tremendo como vara verde. Afirmava que Zé Firmino estava atrás dele e pedia que não permitissem que ele tocasse em seu corpo. “Não deixem que ele me toque, não deixem”, repetia. Encostou o trinta e oito na testa e puxou o gatilho. A gente não pôde fazer nada, disseram. A polícia não encontrou nenhum sinal do matador, apenas um casal de gatos no quintal.

* * *

Meses depois da morte de Gilvan Bacamartinho, a polícia de Recife, seguindo uma denúncia anônima, invadiu um endereço na comunidade da Baixa da Égua, perto do rio, região de mangue. Segundo a denúncia, na casa de porta cor-de-rosa, a única do lugar com essa cor, se escondia o tal Zé Firmino. Os policiais o encontraram na rede, fumando calmamente. Não esboçou reação alguma: fumando estava, fumando continuou, como se nada estivesse acontecendo. Chamou a atenção dos policiais o fato de que o afamado e temido assassino era, na verdade, um sujeito de baixa estatura, franzino, corpo miúdo e gestos muito suaves. Nada que impusesse temor a quem quer que fosse. Não havia nele nenhum sinal de violência, era pura delicadeza e gestos afetados. No armário da cozinha, trinta e sete potes de vidro, cheios de formol, preservavam trinta e sete pares de testículos: era a prova inconteste de que o grande matador finalmente fora encontrado e preso. Mas a mais chocante descoberta desse dia aconteceu no IML, durante o exame de corpo de delito: Zé Firmino era, na verdade, uma mulher de nome Maria Rita das Dores dos Anjos, paraibana de Uiraúna, procurada há anos pelo assassinato do marido, de quem arrancou os ovos depois de meter-lhe uma peixeira no bucho e expor-lhe as tripas. Vizinhos disseram, à época, que Raimundo Nonato espancava regularmente a mulher, que um dia reagiu e sumiu no mundo.

* * *

Maria Rita afirmou ao delegado que nunca ouviu falar em Gilvan Bacamartinho.

Brasília, julho 2020 (ano da pandemia).

Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, 1960), professor universitário, escritor, reside em Brasília. Publicou O Livro de Loraine (contos, Imprell/PB, 1998), logomaquia (edição do autor, 2007), Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito (EdUnB, 2008), Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem (Hinterlândia, 2010), Nebulosa fauna & outras histórias perversas (contos, Editora e-galaxia, 2013), e pela Editora Patuá, o livro de poemas Babelical (2018) e o romance Nessa boca que te beija (2019).

prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura

mix_literarioO Mix Literário, programação sobre livros e LGBTQIA+ apresentada anualmente durante o tradicional Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade, entra em sua terceira edição com uma novidade importante. Em ano de pandemia e indecisão política, promove mais uma ação que promete fortalecer o meio, o Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura, destinado à publicação em livro de uma obra literária inédita que tenha como foco a diversidade.

Segundo Alexandre Rabelo, escritor e idealizador dessas ações, “a obra de Caio alcança muitos leitores para além de suas narrativas mais biográficas como homem gay. Talvez isso não seja um acaso, já que nutria uma profunda ligação com a força do feminino, seja em grandes personagens, seja em sua relação com grandes damas de nossa literatura. Essa perspectiva é muitas vezes tomada como seu eixo de resistência, como em ‘Dama da Noite’. Além disso, Caio foi um dos primeiros autores queer brasileiros a receber reconhecimento geral, mesmo assumindo publicamente sua sexualidade. Sobretudo, Caio era muito atento a novas vozes dissidentes, tendo resenhado grandes estreias como as de João Silvério Trevisan, Ana Cristina César e Claudia Wonder.”

caio_fernando_abreuO prêmio, de abrangência nacional, será realizado em parceria com a Editora Reformatório, casa que acolherá a obra com um contrato exclusivo de publicação. As inscrições são abertas não só a autores estreantes, como também aos que já publicaram livros e têm uma obra inédita na gaveta. Os gêneros aceitos são romance, conto, crônica e poesia, valendo as linguagens híbridas. Marcelo Nocelli, editor da casa, avalia a importância dessa ação para um reconhecimento ainda maior de uma literatura de matriz queer por parte do meio editorial brasileiro: “A literatura, entre tantas outras disposições, também tem o compromisso de registrar o seu tempo, pois ela é um reflexo da sociedade, e nada mais importante neste momento que mostrar a diversidade, representá-la como algo natural que é, eis o trabalho desta literatura queer — por enquanto — normatizar estes personagens muito além das suas sexualidades, apresentá-los por suas vivências naturais como as de todo mundo, seus conflitos e angústias internas, afinal, até o ponto em que um leitor heterossexual mais conservador não estranhe ao ler que dois personagens homens se apaixonaram, e assim as grandes editoras parem de reservar uma pequena caixinha escondida para esta literatura.”

Para ler o regulamento e obter mais informações, acesse:
https://www.mixbrasil.org.br/mix/mix-literario-2020/

coluna últimas páginas #9

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a nona. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Confissões de um escritor em quarentena

Rio de Janeiro, 11 de julho de 2020.

Há alguns anos sempre me pergunto se o que estou para escrever é realmente importante, se não para os outros, ao menos para mim — principalmente para mim. Faço assim com os poemas, os contos e as crônicas, e com o romance que terminei poucas semanas atrás e está guardado esperando uma última leitura antes que eu vá procurar uma editora que o publique.

capa_urutau-1Desse modo, passei a escrever bem menos e a ler bem mais, tanto os clássicos quanto os colegas contemporâneos. Poesia, então, é bastante raro escrever, e se tivesse dado tempo para o meu poema “Tocata e fuga funestas” entrar no livro A clareira e a cidade (Editora Urutau, 2020), eu não pensaria em escrever outro livro desse gênero e estaria satisfeito com esta obra que encerra, de certa forma, toda a minha filosofia, que é também, como escreveu em outro sentido Tito Leite no seu posfácio, uma antropologia.

Já o romance é algo que não me dá prazer escrever. A necessidade — e a urgência — de escrever este, o qual dei o nome de Ensaio sobre a paisagem, tem a ver com o fato de nunca ter publicado um e de achar a experiência necessária, pelo menos antes que o romance como gênero morra definitivamente (como tudo mais, se não a nossa espécie inteira, esse mundo erigido pelo humanismo nos últimos séculos, séculos estes que assistiram à ascensão do romance). Por outro lado, é uma experiência que deve se repetir no futuro, porque outras questões se abriram e precisarei retomá-las. A urgência, todavia, teve a ver com a descoberta do câncer, e este é de modo particular um ano de urgências, por estar passando ainda por ele e por ter passado, durante o final da quimioterapia no mês passado, pelo novo coronavírus da famigerada e mortal Covid-19 (achei que os sintomas fossem da quimio, mas a médica que identificou no meu pulmão o coronavírus analisando a tomografia disse que alguns remédios do tratamento teriam atacado o coronavírus, então talvez estar fazendo quimio no momento em que peguei Covid-19 tenha sido um golpe de sorte do destino, como se costuma dizer, e salvado a minha vida). Se o ano de 2020 fosse uma pessoa, eu diria que ela está tentando me matar. Sendo assim, precavido que sou, como daqui a poucos dias passarei por uma cirurgia (por isto este balanço de minhas atividades na forma de crônica hoje), fiz questão de deixar todos os meus arquivos com originais em andamento arrumados — além do arquivo do romance, há o de crônicas e o de contos.

E sobre o arquivo de contos, o que tenho a dizer?

O conto é o gênero em que me sinto à vontade, é nele, ao escrever, que sinto também prazer, e é para ele que volto minha atenção e faço os meus estudos mais diligentes. Daí também a importância de escrever menos e refletir sempre se uma ideia vale realmente a pena ser colocada no papel (ainda uso papel e caneta [no lugar da pena supracitada, que, mesmo para mim, seria anacrônica demais] para escrever a primeira versão de um texto). Gostaria de voltar agora, nestas semanas de confinamento e de tratamento médico, ao conto (estou com alguns inéditos e acredito que, para um livro, eu esteja na metade do caminho), mas a necessidade — e não a urgência, neste caso — me colocou diante dessas crônicas que tenho escrito nos últimos dois meses, primeiro para trabalhar sobre temas mais brandos do que vinha fazendo no romance, ou que desenvolveria no conto, e depois porque percebi que seria uma forma mais direta de refletir sobre tudo o que estamos todos vivendo neste período sem ser fatalista (no conto ou no romance eu seria um deus do flagelo) e de poder conversar a respeito com os leitores quase simultaneamente.

O romance não sei quando será publicado, talvez no ano que vem ou no outro — é o segundo que escrevo —, e diferentemente do anterior, abortado e com trechos que eram já nas primeiras versões verdadeiros contos indo parar no Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), este novo romance está pronto. Mas por ora ficarei à disposição do recém-lançado livro de poesia, o primeiro, como eu já disse, a encerrar minha filosofia, e isto num gênero que considero difícil, ou, colocando de outro modo, num gênero feito para os raros, e que eu ouso entregar-me apenas excepcionalmente.

HOJE, LIVE DE LANÇAMENTO

insta_liveO meu livro mais recente, A clareira e a cidade, já está disponível para pré-venda no site da Editora Urutau no [link]. Hoje, às 19h, participarei de uma live de lançamento no Instagram da editora. Estão todos convidados para assistir e brindar comigo. O posfácio do livro é do poeta Tito Leite, curador da revista gueto. Saiba mais [aqui].

“A verdade nunca é uma chave, mas um enigma que tem seu sustentáculo numa clareira de luzes e sombras. Nessa direção, de forma leve e meditativa, algumas questões filosóficas ganham densidade nas mãos do poeta — pois a poesia, qual a filosofia, também começa do espanto; tirando, todavia, dos estrondos de seu íntimo e das coisas todo o nó da garganta.” (Tito Leite, no posfácio)

CITAÇÃO

achille-mbembe“Acredito, por fim, que nosso mundo se divide em dois. De um lado, há aqueles que, como eu, estão convencidos de que somos apenas passantes, que caminham sabendo que caminhar é procurar na incerteza e no desconhecido. Do outro, há os que acreditam deter as verdades sobre todos os fatos, e buscam impor essas verdades a todos, pouco importando a diversidade das experiências e das situações. O abismo entre nós não cessa de aumentar.” (Achille Mbembe em “Carta aos alemães”, Goethe-Institut)

DICAS DE LEITURA

1. Uma boa oportunidade, ensaio do filósofo Jacques Rancière, em tradução de Peter Pál Pelbart, no site n-1 Edições, sobre a pandemia e pós-confinamento.

Link: https://n-1edicoes.org/039-1

2. “Mike Davis sobre os crimes do socialismo e do capitalismo”, entrevista na revista Jacobin.

Link: https://bit.ly/jacobin_davis

boaventura-livro3. Duas obras da coleção Pandemia Capital, da Boitempo Editorial, em e-book: A cruel pedagogia do vírus, de Boaventura de Sousa Santos, e A arte da quarentena para principiantes, de Christian Ingo Lenz Dunker, respectivamente nos links:

Link para Boaventura: https://amzn.to/31QkS4x

Link para Dunker: https://amzn.to/3dVJKu1

DICA PARA ASSISTIR

1. “História: Direto ao Assunto”. Documentários socioculturais. Data de lançamento: 22/05/2020. Sinopse: Aulas curtas de história que usam infográficos e imagens de arquivo falam sobre avanços da ciência, movimentos sociais e descobertas que mudaram o mundo. Episódios com cerca de 20 minutos. Disponível na Netflix.

POESIA

NA BAIXA ANDALUZIA
(de João Cabral de Melo Neto)

Nessa Andaluzia coisa nenhuma cessa
completamente de ser da e de terra;
e de uma terra dessa sua, de noiva,
de entreperna: terra de vale, coxa;
donde germinarem ali pelos telhados,
e verdadeiros, jardins de jaramago:
a terra das telhas, apesar de cozida,
nem cessa de parir nem a ninfomania.
De parir flores de flor, não de urtiga:
os jardins germinam sobre casas sadias,
que exibem os tais jardins suspensos
e outro interior, no pátio de dentro,
e outros sempre onde da terra incasta
dessa Andaluzia, terra sem menopausa,
que fácil deita e deixa, nunca enviúva,
e que de ser fêmea nenhum forno cura.

2

A terra das telhas, apesar de cozida,
não cessa de dar-se ao que engravida:
segue do feminino; aliás, são do gênero
as cidades ali, sem pedra nem cimento,
feitas só de tijolo de terra parideira
de que herdam tais traços de femeeza.
(Sevilha os herdou todos e ao extremo:
a menos macha, e tendo pedra e cimento.)

A próxima coluna será publicada sábado, 18 de julho de 2020.

desculpas, conto do livro ‘Velhos’, de Alê Motta

capa_velhosSou preto e sou velho. Diferente da maioria dos pretos no Brasil, sou rico. Moro num condomínio sofisticado, num bairro de brancos que acham muito esquisito a minha família preta morar ali.

Tenho setenta anos e pratico muitos esportes. Gosto especialmente de corrida.

Dia desses fui correr até a beira da praia. Na segunda quadra após o condomínio, passei em frente ao posto de gasolina. No momento em que passei, acontecia um assalto.

Dois dentes quebrados, três costelas fraturadas, as maçãs do rosto raladas, nariz sangrando, braço esquerdo luxado. Cusparadas na cara, tapas na orelha, vários socos no estômago.

Uns brutamontes me agarraram, me esfregaram no chão de asfalto e me levaram para a delegacia como suspeito.

Meu advogado-branco veio me socorrer. Sou médico, sou dono de uma clínica, tenho três especializações, dou aulas, tenho vários livros publicados, falo quatro idiomas.

Até agora ninguém me pediu desculpas. Ficam repetindo que eu sou preto, nem pareço um velho e estava correndo, como iam saber que eu não era um marginal?

| conto do livro Velhos (Editora Reformatório, 2020). |

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020).

Brasil: (im)possíveis diálogos #26

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Alerta Brasil

Por Mariana Salomão Carrara

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Nunca trabalhe
nem tome um café sozinho
onde houver uma escola um recreio.
As crianças têm mania de gargalhadas
sem merenda sem pai sem país
Nunca trabalhe
com as gargalhadas ao fundo
espicaçando a sua tarde
sem merenda sem país
O seu ouvido paralisado
gargalhadas
Sua mão gigante:
o gira-gira paralisado
paralisado o pega-pega
Silêncio! o seu grito
o recreio paralisado:
Atenção, crianças,
o futuro acabou.

Mariana Salomão Carrara é paulistana, Defensora Pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos (Delicada uma de nós — Off-Flip, 2015), e os romances Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017), e Se deus me chamar não vou (Editoras Nós, 2019). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-Flip (2012), Sesc-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, Josué Guimarães e Ignácio de Loyola Brandão. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar. Integra o Coletivo literário Água na Peneira.

três poemas de Alice Vieira

BREVE GLOSSÁRIO DO INTRADUZÍVEL EM RUSSO

I

туча [tútcha]:

uma nuvem — carregada —
será a tristeza ou
um lance de dados
façam suas apostas se

um poema, um coágulo

II

Cоловей-Pазбойник [Soloviei-Razbôinik]:

teu nome, poeta
tua mão assassina
num imbróglio
homem-pássaro
fogem de ti
como da morte
tua canção avilta
teu silvo anuncia
uma sombra
um sabre de batalha

NUNCA ENTENDI QUEM ESCREVESSE ROMANCES

Nunca entendi quem escrevesse romances.

Canta, corpo
salvo você
quem me fabrica?
quem azula um risco
na cútis
quem afunila a matéria
suspensa
ao perigoso estrondo?

PROMETEU

quem perde o medo de morrer não perde
nada
puir o rosto e o invólucro
para exibição aos meus pares
espera-se que eu, às vezes,
me veja refletido
espera-se que eu, às vezes,
faça menos barulho
não atrapalhe
o sono dos outros
quem perde o medo de morrer
não reconhece
o fogo sagrado
não dá aos homens
dissolutas

mãos de pedra

Alice Vieira mora em Belo Horizonte desde 2009. É doutoranda em Estudos Literários pela UFMG. Tem poemas publicados nas revistas Germina (2016), Em Tese (2018), Gueto (2018) e Ruído Manifesto (2019). Publicou, em outubro de 2018, seu primeiro livro de versos, intitulado {Open Source}, pela Editora Penalux. Em 2019, fez parte da coletânea Poemas Reunidos I da revista portuguesa A Bacana.

Brasil: (im)possíveis diálogos #25

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Resíduo

Por Ana Squilanti

printemps_ficcao
Vitor Rocha

Toca o interfone na cozinha e eu já me preparo para dizer que não pedimos comida, nem estamos esperando alguém. Seu Geraldo sonda se está tudo certo aqui. Vi vocês na câmera de segurança subindo as escadas do prédio, chinelos nos pés e moletom, os moletons surrados desbotados que usamos para ficarmos em casa. Ultimamente só ficamos em casa.

Vi pelo visor você e a Marina subindo correndo, pulando degrau e parando em frente ao 82, a Marina levando uma vassoura na mão, o morador para fora do apartamento, a outra moradora mulher mãe da criança, ela e a criança deviam estar para dentro. Elas estavam dentro? Sim, estavam bem.

Deu para ver o lábio dele sangrando também, Geraldo? Deu nada, a imagem aqui é preto e branco, de baixa qualidade, feito TV antiga em visor de pouca polegada. Ele sangrava, cortou a gengiva, sabe se lá como, escorria fino pelo canto da boca, ele só foi perceber quando indiquei. Manchou a manga da camiseta limpando.

Subimos ao ouvirmos os gritos, mais de um, em sequência espaçada. Marina dançava ao som da música enquanto cozinhava, quando um PARA foi dito e não fazia parte do texto. Depois soaram umas batidas descompassadas da bateria, percussão essa banda não usa, falei: diminui. Ela desligou a caixa e ouvimos uma porta ser esmurrada, um grito outro, VAI EMBORA. Não esperamos dizerem SOCORRO para subirmos com qualquer coisa que virasse arma. Era voz de mulher. VAI EMBORA. Mandando homem para fora. VAI EMBORA, GUILHERME.

Só que quem sangrava era o Guilherme, que eu acabara de descobrir o nome, o lábio rosado o olhar assustado, desculpa, meninas, ele pediu e abaixou a cabeça quando nos viu aparecer na esquina do hall. Foi uma briga acalorada demais, o fogo chegou em vocês lá embaixo, no… 63? Desculpa.

Deu para ouvir os gritos aqui mais embaixo também, Geraldo me conta. Alguns vizinhos ligaram na portaria saber o que acontecia. Eu me pergunto por que somente nós socorremos? Briga de marido e mulher, ele talvez respondesse. Foram seis denúncias no prédio nos últimos tempos.

Seis? Seis casos de violência doméstica. A polícia veio em dois, eu chamei em um. Em três foi verbal, nos outros foi para o físico. Vaso quebrado, garrafa jogada pela janela, um braço luxado. Os casais não têm conseguido conviver direito na quarentena, é tempo junto forçado demais.

No 15 a briga começou por louça e no 94 pela velocidade que um deles trocava de canal. O 123 está com vazamento no cano do banheiro, mas quem brigou entre si foi o 113. Está tudo bem aí, meninas, com vocês? Sim, está. Mulher com mulher não tem dessas, né? Até tem, não aqui. Eu olho de esgueio para a Marina, que divide o interfone comigo, duas orelhas para o alto-falante, os corpos perto. Ela aperta minha cintura.

Geraldo soa preocupado do outro lado, sinto ele tirando as pelinhas laterais à unha enquanto fala. Se você quiser ligar para saber como as pessoas realmente estão tem que ser em código, Geraldo, ou então a verdade se perde, mal acha caminho.

Treinamos. Desligo o interfone. Ele toca novamente.

— Alô! Aqui é da portaria.

— Oi, seu Geraldo.

— Oi! Tivemos alguns casos de violência no prédio, estou ligando para saber se você está bem. Quando eu perguntar do seu lixo domiciliar, você diz que pode continuar a descer com ele, se estiver tudo ok com a senhora, e se não estiver, me diz que prefere que busquemos no andar, aí a gente vê o que pode fazer. Você precisa que peguemos o lixo?

— Obrigada, Geraldo, eu cuido dele.

— Certo! Boa tarde.

Coloco o fone no gancho, a orelha feliz de ficar longe dali, doída do tempo pendurada, doída de tudo que ouviu. Marina tem a orelha vermelha também, tem a mão ainda na minha cintura, a mão que agora treme e desce pro punho, aperta minha palma, a ponta dos dedos. Ela estica as duas mãos para os restos de fruta na pia, passados demais para virarem suco, para a caixinha vazia de leite, e eu vou ao banheiro e trago a sacolinha de lá, pego umas garrafas e embalagens de salgadinho do pé do sofá.

Jogamos tudo no saco preto de cem litros no latão, até o imaterial que despejamos há pouco uma na outra, depois de presenciarmos a briga dois andares acima. Damos dois, três nós, bem fortes, na boca do saco, checamos se nada dali escorre, e descemos juntas com o lixo.

Ana Squilanti nasceu em Indaiatuba, interior de São Paulo, em 1989. É escritora, roteirista e farmacêutica. Seu primeiro livro Costuras para fora (Editora Nós, 2019) foi contemplado pelo Edital de Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de SP.

mais um lapso, poema de Ellen Maria M Vasconcellos

Eu tenho medo
que eu desapareça
não só por um tempo
o que já é uma ideia ruim
mas totalmente compreensível
que você se esqueça de mim por um par de semanas
faz parte do rebuliço diário
um esboço efêmero do que seria ser um corpo finado

mas pelo bem da verdade
ninguém quer ser visto ou lembrado
o tempo todo
nenhum homem ou mulher
merece sofrer de lucidez eterna
(um viva aos lapsos mnemônicos)
até eu mesma me escondo
de mim mesma às vezes
e também me esqueço tantas vezes
perdida em outros trajetos
mais interessantes

o que é curioso pensar:
a consciência como algo que nos impomos
para lembrar de si e não se perder
para sempre nos outros
nos percursos entre as palavras e as coisas

mas só de pensar já me estremece
a ideia de desaparecer
não o corpo (este
o perdemos sem nenhum mistério)
mas o pensamento
que você me perca
que eu não exista em nenhum
pensamento

o para sempre mesmo
não me interessa
ninguém vive para sempre
nem mesmo as obras primas das obras
são primas para todas

o para sempre real mesmo
nem realmente existe
o planeta não dura esse tanto
e o tempo é uma teoria que não resiste
fora do nosso contexto histórico

(li em algum lugar
que o calendário dos despertos
é tão arbitrário quanto o tempo dos sonhos
para quem está dormindo é outro regimento
ainda que o corpo por dentro siga contando
para outras tribos é outra coisa)

o que eu estava dizendo
é que tenho medo que eu desapareça
mas não é nem bem isso
ou mas não é só isso
porque eu posso não desaparecer
mas me converter em outra coisa
uma vez falamos sobre a possibilidade
era uma lei da física
o corpo que se desintegra e vira adubo
para outra matéria
e nada é como antes

tampouco quero ser certo tipo de lembrança
como cada vez que você pensa no seu passado
(e nós não pensamos nele tanto assim
porque a vida é mesmo urgente)
quando você pensa nos livros que leu
no período de tanto a tanto dos anos x e x+1
vem uma notinha do editor ao pé da página
para o período em que ela
— no caso eu —
também esteve lá

os livros emboloram
(vivemos num país úmido)
e caem para outras prateleiras
e se perdem voluntariamente
entre caixas de mudança
ou às vezes desejamos
com toda nossa vontade
que um livro se perca sozinho
e ele se perde como países

tem as teorias que caem também
em desuso porque nascem outras
que combinam melhor com o novo tempo
um pensamento muito capitalista e enciclopédico
um pensamento muito de seu tempo

daí também existe ainda outro risco
que na verdade é o risco mais provável
que eu seja substituída
e isso já é praticamente uma consequência
do meu desaparecimento
uma substituição é atributo
de quem aparece o tempo todo
ou ao menos
muito mais tempo do que eu presumo

que meu medo é um medo justo
e tal como são todos os medos
ele desaparece às vezes
quando me vejo em algum verso
de algum texto seu
e ganho forma

e aí me vem um pensamento
o contrário de medo não é coragem
mas convicção
de que eu ainda existo
de que eu não desapareci
e nesse momento
eu volto a ocupar a fileira
da biblioteca que fica bem diante
dos meus e seus olhos (úmidos)

todo medo é genuinamente
pessoal e intransferível
e por isso a convicção é tão tola
quanto o próprio medo

meu medo
é que eu deixe de ocupar
um espaço e um tempo
como às vezes se deixa
de acreditar na ideia
do amor infinito
uma utopia é sempre baseada na realidade
apesar de tudo o que em contra
já foi dito e feito

o meu medo do desaparecimento parece
(como tudo o que nos move
não pra frente mas pra cima)
sem querer querendo mais um desejo
de mesmo que mínimo, mas não mísero
de vez em quando ainda
te causar um assombro
um arrombamento.

Ellen Maria M Vasconcellos nasceu em Santos e atualmente vive em Brasília. É doutoranda em literatura latino-americana pela USP, mestra, graduada e licenciada em Letras português e espanhol pela mesma universidade. Além de tradutora literária freelancer, é editora de materiais didáticos e literatura em línguas estrangeiras (espanhol e inglês). Também é autora dos livros de poemas Chacharitas & gambuzinos (edição bilingue, 2015) e Gravidade (2018), ambos publicados pela Editora Patuá. Contato: [link]

coluna últimas páginas #8

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a oitava. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Educação cinematográfica

Ou o meu cinema afetivo

Rio de Janeiro, 4 de julho de 2020.

Dentre as minhas lembranças da infância estão as de assistir aos filmes de Charlie Chaplin nas sessões de cinema do Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro. Anos mais tarde, assistiria a todos novamente.

Chaplin, que tinha obsessão por Napoleão Bonaparte e sonhava em interpretar Hamlet e Cristo, só deixou de lado o imperador francês quando Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha e ele fez, por meio da sátira, o anti-Hitler (O grande ditador). Poucos anos antes, já tinha denunciado essa nossa sociedade movida pelo lucro financeiro em Tempos modernos. O famoso e milionário cineasta jamais esqueceu a infância paupérrima, cuja vivência possibilitou a criação de um dos personagens mais famosos do cinema, Carlitos.

Adolescente, visitando locadoras de fita VHS, eu daria continuidade a minha educação cinematográfica, desta vez pensada para este fim, com películas de Glauber Rocha, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman, Woody Allen, Quentin Tarantino, Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Roman Polanski, Bernardo Bertolucci, Pier Paolo Pasolini, François Truffaut, Jean-Luc Godard, David Lynch, Krzysztof Kieślowski, etc.

Às vezes, dedicava semanas inteiras a um único diretor. Aliás, algo que fica escancarado para mim hoje, mas que na época não era evidente: todos são diretores homens, não há mulheres cineastas na minha formação cinematográfica. Até que ponto esse é um meio machista ou seria eu o machista, mesmo com todos os cuidados e o esforço de desconstruir o machismo estrutural em mim? É verdade, porém, que essa minha preocupação só passou a ser uma realidade na última década.

Na faculdade de Filosofia na URFJ, aos 19, 20 anos, dei continuidade aos aluguéis, agora de DVD, e tive a oportunidade de assistir aos filmes do Glauber Rocha no IFCS, com direito a palestra de sua mãe, Dona Lúcia, uma das fundadoras da Fundação Tempo Glauber. Lembro-me também de naquela época, em meados da década de 1990, ter comprado de um colega um livro com roteiros de filmes do Fellini que tenho até hoje, chamado Fellini visionário, editado pela Companhia das Letras. Eu gostava de escrever roteiros de curtas, que não sobreviveram aos anos. Foi do cinema que trouxe para os meus contos um detalhe dos mais importantes: o corte. Neste livro tem também um ensaio do Glauber a respeito do cineasta italiano.

Já durante a faculdade de Comunicação, assistiria no cinema que existia na rua Prado Junior, em Copacabana, ao filme Morangos silvestres, de Bergman. Lembro de ter saído da sala enxergando uma Copacabana que parecia irreal e extemporânea.

Mais tarde, quando já não existiam mais locadoras e os filmes estavam na internet de alta velocidade para serem baixados em centenas de milhares de sites piratas, reveria quase todos os filmes da juventude e de outros cineastas como o polêmico Lars von Trier e o ótimo Paolo Sorrentino.

* * *

la_grande_bellezzaAtualmente, o meu diretor preferido e de quem sempre que posso revejo os seus filmes é o Paolo Sorrentino. La grande bellezza [A grande beleza] ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Globo de Ouro em 2014. Nesta película, acompanhamos o jornalista Jep Gambardella flanando por uma faustosa Roma. Autor de um livro de sucesso na juventude, o personagem, tendo acabado de completar 65 anos, faz uma análise de sua vida.

Outros filmes dele que costumo rever são:

La giovinezza [A juventude], que narra a história de um maestro aposentado de férias com sua filha e seu melhor amigo cineasta em um spa para milionários nos alpes suíços; com Michael Caine e Harvey Keitel.

Loro [Silvio e os outros], sobre o magnata da mídia e político Silvio Berlusconi.

Il Divo [A Vida Espectacular de Giulio Andreotti], filme biográfico sobre Giulio Andreotti, que exerceu sete mandatos como primeiro-ministro italiano e era chamado de Divo ou Belzebu.

Paolo Sorrentino também é o realizador de duas séries excelentes: The Young Pope e a continuação The New Pope. Na primeira, um jovem estadunidense charmoso e misterioso, interpretado por Jude Law, se torna o Papa Pio XIII. Diane Keaton também participa da série. Destaco o ator italiano Silvio Orlando, que interpreta o cardeal Angelo Voiello, secretário de Estado do Vaticano. A continuação tem John Malkovich como um aristocrata inglês que é colocado no trono papal e adota o nome de João Paulo III, enquanto o Papa Pio XIII está entre a vida e a morte em coma. Ambas estão disponíveis no HBO.

LANÇAMENTO

capa_urutau-1O meu livro mais recente, A clareira e a cidade, já está disponível para pré-venda no site da Editora Urutau no [link]. Sábado que vem, dia 11, participarei de uma live de lançamento no Instagram da editora. Estão todos convidados para assistir. O posfácio do livro é do poeta Tito Leite, curador da revista gueto. Saiba mais [aqui].

“Um convite aos leitores para pensarem além dos escombros de toda estrutura unidimensional, e quem sabe enxergar outras clareiras e mergulhar nos guetos das nossas cidades, deslumbrando um mundo melhor, em que a poesia é o corpo sensual do saber / que escapa.” (Tito Leite, no posfácio)

DICAS DE LEITURA

1. “A nebulosa fascista”, texto de Umberto Eco, publicado originalmente na Folha de S.Paulo em maio de 1995. Disponibilizamos em PDF para download livre.

Link: https://bit.ly/fasci_eco

2. “O que está acontecendo no Brasil é um genocídio”. Entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiro de Castro (tradução de Francisco Freitas), no site n-1 Edições.

Link: https://n-1edicoes.org/070

DICAS PARA ASSISTIR (OU OUVIR)

1. Projeto Hora da Leitura da PUC-RS com leitura de textos em poesia e em prosa. Confira a lista de reprodução no canal do Youtube no [link].

2. Terra em transe — Filme de Glauber Rocha de 1967. Disponível completo no Youtube no [link].

3. Satyricon — Filme de Federico Fellini de 1969. Disponível completo no Youtube no [link].

4. Asas do desejo — Filme de Wim Wenders de 1987. Disponível completo no Youtube no [link].

CITAÇÃO

“O que é um escritor, senão um sujeito criminoso, um juiz, um executor? Não fiquei versado na arte da decepção desde a infância? Não estou crivado de traumas e complexos? Não tenho sido manchado com toda a culpa e pecado do monge medieval?

Que coisa mais natural, mais compreensível, mais humana e perdoável do que as monstruosas agitações do poeta isolado? Tão inexplicavelmente como entravam na minha esfera, eles partiam, esses nômades.” (Henry Miller, Nexus, tradução de Hélio Pólvora)

POESIA

O HOMEM E A MORTE
(de Manuel Bandeira, em Antologia poética)

O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
— Quem bate? Ele perguntou.
— Sou eu, alguém lhe responde.
— Eu quem? Torna. — A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver — uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
— Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: — A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
— Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror…
És mesmo a Morte? Ele insiste.
— Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou…
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.

7 de dezembro de 1945.

APOIO E PARCERIA

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A próxima coluna será publicada sábado, 11 de julho de 2020.