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ypy, de Fred Di Giacomo

Ypy (tupi-guarani): Primeiro, começo, origem.

“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.” (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)

Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se na silhueta cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Rupave) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam as matas dos tapuy-ú. Um terceiro, casado, fizera sua roça na região dos grandes morros. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla oca. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Rupave chamou o segundo:

— Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Tumé Arandú engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas fogueiras de ervas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Japeusá, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Tumé Arandú não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Japeusá tinha sido esmigalhado.

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Sypave. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Rupave parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para trabalhar a roça, para rastrear as antas, para roubar o mel das abelhas e para caçar o tempo perdido. Tumé Arandú e Japeusá esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Rupave emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Tumé Arandú ou Japeusá. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Sypave todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, jacus e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Rupave sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga onças selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Sypave é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um tacape dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da oca. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Porâsý. Porâsý nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Sypave, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia:

— Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do tacape vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Rupave contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Porâsý? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Porâsý. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Sypave faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Rupave recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Sypave espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

— Eu preciso da vida dos meus filhos, Rupave. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Rupave sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos — e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Rupave espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Caupé, jovem viúva de seu filho Marangatu. Marangatu era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Caupé; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o negro da noite represado em seus olhos. Caupé brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Rupave a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas, o boato de que Rupave já não podia efetivar sua descendência. Sypave não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Rupave — 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Rupave conduz Caupé pelo braço. A jovem vermelha tem os cabelos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Uma saia de palha e um cinto de tucum tomam emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Rupave ordenou a Sypave que fosse dormir em rede distante, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Caupé. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Rupave assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção à rede do marido. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho jaguar que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Caupé se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Marangatu. Chamam-no Tupãberaba e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que firma-se, ironicamente, sobre a tragédia.

Tupãberaba não foi criado como o restante da prole de Rupave. Seus privilégios brotam do ódio que Caupé carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Marangatu livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Tupãberaba seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos vermelhos, cabelos brancos grossos e pele esbranquiçada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Tupãberaba. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Tupãberaba escuta Rupave sussurrando com Sypave.

— Sypave, feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Tupãberaba. Não adianta a bela Caupé insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu tacape.

— Rupave, meu marido, tens deixado a jovem Caupé assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

— Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Caupé! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nossa rede.

— Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, Rupave, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossa rede…

— Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu tacape!

Desesperado, o pequeno Tupãberaba procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da oca até estancarem na saída. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Caupé olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Rupave amoleça. Rupave inveja a velocidade com que Tupãberaba pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O Tupãberaba infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Rupave estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

— Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

Os dias passam na cama para Tupãberaba. De lá, ele vigia a janela, as queixadas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Tupãberaba achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Caupé culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Rupave sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Tupãberaba planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Sypave com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa eternamente.

Numa noite sem lua, foge para parte alguma.

O que irritava Tupãberaba é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha espalhado roças de mandioca pelas redondezas, tornado-se amigo dos bugios que enchiam o vazio da floresta de berros e procurado seus irmãos mais velhos entre os tapuy-ú. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões — pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Marangatu fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Caupé. Apreensivo, Tupãberaba pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Rupave a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.

Era costume da gente de Rupave refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Tupãberaba passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final do mito que narro se aproxima. Rupave, observado por Tupãberaba, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Caupé, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Rupave machucam as forças de Tupãberaba. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Caupé deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Tupãberaba sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Rupave em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Tupãberaba queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava — escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

| uma primeira versão de “Ypy” foi publicada no livro Canções para ninar adultos (Editora Patuá, 2012) sob o título de “Gênesis”. |

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia, caipira punk, nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Editora Reformatório, 2018) esteve finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti 2017. Tem sido convidado para debater literatura e narrativas multimídia em eventos como a Primavera Literária Brasileira, em Paris, a Feira do Livro de Frankfurt e a Campus Party. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê.

o novo cinema nacional, de Dirce Waltrick do Amarante

Para o Sérgio

Mostrou o roteiro ao companheiro, era o roteiro de um filme gótico à moda dos romances de Shirley Jackson.

O companheiro, acostumado com Pasolini e Godard, ficou em choque ao ler o que a companheira havia escrito. Havia enredo! Erro fatal!

A companheira tentou explicar que muita coisa muda do papel para a tela. Além disso, as cenas, que pareceriam a princípio serem bastante simples, poderiam se tornar complexas e repetitivas, como quando a personagem toma banho e ouve uma briga. “O diretor pode filmar só a água escorrendo do chuveiro”. O companheiro seguiu incrédulo. Ela então completou: “E por cinco minutos… só a água escorrendo”. Mas o companheiro seguia em choque. “Por 15 minutos”, prosseguiu a roteirista. O companheiro esboçou uma leve reação.

Depois de algum tempo de conversa e muitas reflexões estéticas, o roteiro ganhou corpo e o diretor ideal.

Durante 90 minutos a câmera parada filmou a água escorrendo do chuveiro, a qual mudava de cor conforme os raios solares incidiam nela. As cores foram do vermelho rosado ao azul e o filme foi intitulado “As cores de Yves Klein”.

Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina, ensaísta e tradutora.

ruindade, conto inédito de Sérgio Rodrigues

Diego é pereba. Íngua. Perna de pau. Inútil. Doença. Lepra. Comédia. Horrorosidade. Ameba. Bisonho.

Diogo joga o fino.

Quando chegam do campinho, idênticos, até as bicicletas iguais, o pai sempre sabe quem é quem. Como sabe?

— Tudo certo na pelada?

Diego é estrupício. Jaburu. Jaburu de capote. Jaburu de capote com muleta. Jacu baleado.

Diogo, eita moleque!

— Assim não dá! A gente passa a bola pra um achando que é o outro e se ferra.

Diego corre de ódio, pedala forte, voa ladeira abaixo e freia na poeira a um palmo do cruzamento cheio de caminhões zunindo. Diogo atrás, eufórico. Chegam sempre juntos.

— Tudo certo na pelada?

Enguiçado. Incapaz. Praga. Prego. Poste. Morto-vivo. Furúnculo. Tumor.

Hahaha, joga muito!

Com gilete, cuidado, culpa, sorrisinho, coração batendo forte: fio por fio, descasca o cabo de freio da bicicleta. Ficam uns poucos filamentos. O primeiro tranco e babau.

Degenerado. Imprestável. Retardado. Aborto. Aleijão. Ruindade.

No dia seguinte Diego chega em casa sozinho, chorando, e o pai se apavora. O choro não tem nada de encenado. A ideia era uma perna quebrada, não aquilo.

Todo errado. Cruz-credo. Deus me livre. Ruindade. Ruindade. Ruindade.

Sérgio Rodrigues é um escritor e jornalista mineiro que vive no Rio. Vencedor do prêmio de livro do ano do Portugal Telecom (atual Oceanos) com o romance O drible, em 2014, lançou este ano o volume de contos A visita de João Gilberto aos Novos Baianos. Entre os dez títulos que publicou, destacam-se ainda o romance Elza, a garota, o almanaque Viva a língua brasileira! e, como organizador, a coletânea Cartas brasileiras, todos editados pela Companhia das Letras. Sérgio tem livros lançados na França, na Espanha, em Portugal e nos EUA. É colunista semanal da Folha de S.Paulo e roteirista do programa de TV Conversa com Bial.

o resto é mar, Anna Monteiro

Luísa chegou lá em casa num dia de temporal, com mala, sacola e um guarda-chuva pingando. Na hora em que a campainha soou, meu pai tocava piano. Ele sempre ensaiava às tardes, porque trabalhava em bares durante a madrugada. Bossa nova, dedos ágeis se alternando nas teclas brancas e pretas. A baía da Guanabara na janela.

Minha mãe tinha a mania de não levar a chave de casa e colava o dedo na campainha, e eu corri para abrir a porta, porque meu pai não largava o piano de jeito nenhum.

A menina diante de mim, de mãos dadas com a minha mãe, era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Era minha prima e por causa de uma briga antiga entre a minha mãe e o pai dela, a gente nunca se conheceu. Tinha uns onze anos quando chegou lá em casa, era pequena, os braços fininhos, as pernas compridas e os cabelos em cachos. A chuva colou a camiseta em seu corpo e, assim que abri a porta, vi aqueles peitinhos que nasciam, os bicos duros se mostrando para mim. Foi só depois que percebi seus olhos um pouco inchados e um sorriso tímido. Eu a abracei apertado, depois peguei sua mão e disse, vem, vem conhecer a casa. Eu era um pouco maior que ela.

A mãe de Luísa tinha morrido. O pai dela, irmão da minha mãe, começou a beber violentamente, minha mãe dizia, ele cai bêbado por aí, a menina fica solta, não tem ninguém no mundo. E por isso Luísa foi morar conosco.

Eu a ajudava nas lições de casa, ensinava a jogar vôlei, levava para passeios de bicicleta.

De manhã cedo, na mesa do café, a vontade de abraçar Luísa vinha embalada pelo cheiro da pasta de dente, da colônia que ela usava, misturado ao leite e à manteiga passada no pão. Eu disfarçava, dava bom dia e comia em silêncio. Minha mãe lia o jornal, meu pai dormia, tinha chegado quase com o dia raiando. Luísa catava as migalhas da bisnaga com os dedos, os levava à boca e eu queria ser aqueles míseros pedacinhos de pão.

No ônibus para a escola, sacolejando pela rua cheia de buracos, a cabeça de Luísa balançava e caía nos meus ombros. Eu poderia estender meus braços e aconchegá-la, mergulhar meu nariz naqueles cachos, mas ficava imóvel, esperando o ponto para descermos.

Eu a espiava pela janela da minha sala de aula. A distração enquanto a professora enfileirava as orações, ou as equações, tanto faz. Os recreios eram separados, ela no sexto ano, eu no oitavo. Um tchau de longe quando ela me percebia através do basculante, o sorriso largo. A vontade danada de passar a língua naquelas pálpebras inchadas.

O começo da noite, a hora do jantar, as nossas séries preferidas. Eu num canto do sofá, Luísa no outro, os pés dela no meu colo, os meus no dela. Eu comprimia aqueles dedinhos compridos, a palma, ai, isso é tão bom, faz mais, e eu fazia, e ela sempre pedia mais, e eu fazia. E a gente poderia ficar assim a vida toda, seria bom se um meteoro atingisse a Terra naquele tempo, a onda que se formaria e que engoliria as montanhas, o parque, árvores, pedras, edifícios, carros, engoliria a gente e pronto, o pó, a poeira, o nada.

Luísa dormia no quarto ao lado do meu, o que deixava minha imaginação sair pela porta fechada, se esgueirar pelo corredor, atravessar a porta dela e então eu a via encolhida na cama. A camisola de alça fina, os cabelos espalhados no travesseiro. E de longe, da minha cama, me enfiava ao seu lado debaixo do lençol, alisava suas costas com ossinhos salientes, os quadris, os peitos, maiores à medida que o tempo passava e que agora cabiam perfeitamente nas minhas mãos. Roçava seu pescoço e sua nuca, e descia até as pernas e ia por esse caminho afora. No dia seguinte olhava Luísa na mesa do café, o leite quente, a manteiga no pão, os olhos inchados de sono, minha mãe lendo o jornal. E aqueles desejos todos me assaltavam outra vez. Luísa com um botão aberto. As migalhas. O silêncio.

E a gente foi crescendo, o corpo de Luísa foi mudando, ganhando volume, curvas, coxas. As coisas, essas mudavam pouco. Fazia sol, uns dias chovia. Eu gostava de ver a chuva bater na vidraça e daquele barulhinho de pingos caindo em cima de aparelhos de ar condicionado. A baía da Guanabara às vezes cinza, às vezes azul, às vezes até dourada.

Eu no segundo ano do ensino médio, Luísa, no oitavo. Os horários não coincidiam mais. Solidão ganhando as ruas dentro do ônibus que ainda sacolejava.

Então, num entardecer, naquela época em que as minhas fantasias andavam se esgueirando com mais frequência pelo corredor até o quarto de Luísa, ela me chamou. Eu fui. A veneziana entreaberta. Em algum lugar lá fora tinha uma lua.

Luísa tinha bebido um pouco, senti o hálito. Tudo bem, eu também bebia. E fumava às vezes. Sentei aos pés da cama. O piano do meu pai ao fundo. Fundamental é mesmo o amor. Os dedos ágeis. As teclas brancas e pretas.

Ela segurou meu pé e apertou, puxou os dedos. Aquela sensação boa tão conhecida. Comprimi os pés dela também com as duas mãos. Ela me olhou como se me atravessasse a pele, os músculos, espiasse os meus órgãos, esmagasse meu estômago. Aquelas duas bolas brilhando, as pálpebras de sempre, com a dobrinha. As mãos dela foram avançando pelas minhas pernas num roteiro que eu imaginei tantas vezes e que me fez fechar os olhos e perguntar você sempre soube que eu te amava, né?

Ela disse humhum, soube, desde o dia em que você abriu a porta para mim.

As mãos de Luísa seguiam sem obstáculos, sem meteoros. Leves, traziam arrepios que eu não imaginava que existissem. Eu cheguei perto dela, nariz com nariz, todas as sardas do mundo, a quentura da respiração. Ela abriu a boca, lambeu meus lábios.

Luísa ficou em cima de mim, desabotoou minha camisa.

Abriu meu sutiã, sugou meu peito, que era pequeno como o dela. Colocou a mão entre as minhas pernas, afastou minha calcinha e sentiu que eu estava toda molhada.

O piano do meu pai. O resto é mar.

Anna Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. Cursou jornalismo na Escola de Comunicação da URFJ e trabalha com comunicação e saúde, no Terceiro Setor. É autora de Granulações, da Editora Reformatório, publicado em 2018, seu romance de estreia, que conta a história de Pedro e Nina, um casal em crise depois de viver uma grande paixão. A narrativa alterna as vozes de seus protagonistas e a intimidade revela, pela visão de cada um, traços do outro capazes de complicar uma relação. E aquele amor simples, certeiro e apaixonado, torna-se tão complexo que aos poucos caminha rumo a uma impossibilidade. Acontece o que pode vir num relacionamento: a falta de comunicação que leva ao afastamento e à falta de intimidade. Em 2015, participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizado por Adriana Lisboa e publicado em e-book pela Editora Mombak. Uma paixão antiga são os cachorros. E aí entra na história o Bart, o daschund da autora que viveu quase 14 anos, que a inspirou a criar, em 2009, Bartiannas, o blog do Bart e da Anna, onde publica alguns textos.

fragmento do romance inédito ‘Brasília’, de Ricardo Lísias

1.

O paciente morreu algumas semanas depois. Mesmo assim, o primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi considerado um enorme sucesso. O professor Euryclides de Jesus Zerbini, chefe da equipe que esteve à frente do procedimento, preocupava-se sobretudo com uma possível rejeição do órgão, problema debatido em inúmeros cursos e congressos pelo mundo e que ainda não havia obtido nenhuma solução satisfatória pela comunidade médica. Não foi o que aconteceu. João Boiadeiro, o receptor, recuperou-se bem. O cuidado da equipe médica o protegeu do assédio e seu quarto no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo permaneceu um lugar calmo, em que as pessoas sorriam e falavam com ele em voz baixa e pausada.

— Que bom que agora está tudo bem, João — uma enfermeira repetia de vez em quando, com um sorriso sincero no rosto. — O transplante deu certo, parabéns.

Segundo os jornais, João Boiadeiro na verdade não sabia o que é um transplante. Ninguém se preocupou em lhe explicar e ele, com alguma esperança e muita resignação, não quis perguntar. Deu certo.

Talvez as coisas não tenham sido bem assim. A equipe do doutor Zerbini, sempre ciosa e com a voz baixa, conversou muitas vezes entre si perto dele, tanto antes quanto depois da operação. Alguns alunos (apenas os melhores) também ouviram inúmeras explicações naqueles dias. Meu tio, por exemplo, olhou diversas vezes para o paciente, que parecia acompanhar tudo muito atento. Ele entendia muita coisa, sim.

Cientes do histórico de depressão do primeiro brasileiro que recebeu um transplante de coração, médicos e enfermeiros sempre o animavam e, com a voz cheia de orgulho, cumprimentavam-no pelo sucesso da equipe. Quando o quarto ficava vazio, antes de dormir muitas vezes João imaginava a cena que os doutores descreviam uns para os outros: o coração saiu do doador e foi direto para ele, ainda batendo na bandeja. Não houve espera e muito menos qualquer tipo de parada cardíaca. Deu muito certo.

* * *

O prontuário médico de João Ferreira da Cunha, o nosso João Boiadeiro, tem apenas informações clínicas. Enquanto a imprensa francesa noticiava o apaziguamento das revoltas naquele final de maio, com uma gigantesca manifestação em apoio a de Gaulle, a nossa aqui deu bastante destaque ao transplante. Não houve, porém, nenhum tipo de esforço para conhecer a vida pregressa do rapaz melancólico e calado que viveu 28 dias com o coração de outra pessoa pela primeira vez no Brasil.

Até ali, diversas cirurgias haviam sido realizadas em cães. Nenhum passou mais de duas horas respirando com o coração de outro animal. O que fez a equipe do doutor Zerbini ter fé nesse tipo de transplante em humanos vivos no Brasil foi o sucesso com que o doutor Christiaan Barnard realizou o mesmo procedimento, no final de 1967, na África do Sul.

Zerbini se impressionou com o resultado. Muito infelizmente, Louis Washkansky, o primeiro homem a viver com o coração de outro, morreu 18 dias depois da operação, vítima de uma infecção. Esse incidente, por favor, não deve desanimar os outros médicos daqui em diante, repetiam todos. O caminho é a natural evolução do procedimento e dos remédios que, posteriormente, garantirão a vida dos pacientes. Foi o que aconteceu.

Se o colega do outro lado do oceano tinha conseguido, o que nos impediria também de ter o mesmo sucesso? Afinal de contas, a África do Sul nunca foi exatamente uma vanguarda na medicina, lembro-me do meu tio repetir isso com o rosto meio ambíguo. Normalmente as pessoas não viam a menor graça nesse tipo de tirada. Ele, por outro lado, às vezes quase engasgava de tanto rir. Quando ele morreu, fiquei triste de verdade, apesar de tudo.

João Boiadeiro deu entrada no Hospital das Clínicas depois de tentar se suicidar no Albergue Alegria, onde estava morando desde que chegara a São Paulo, dois ou três meses antes. O prontuário não diz como ele tentou tirar a própria vida, mas aponta um quadro depressivo causado por uma fraqueza. Ele a descrevia como cada vez mais crescente. Nos últimos meses, ondas de cansaço súbito o impediam de trabalhar na fazenda onde vivia no Mato Grosso com a irmã. Essa última informação não está no prontuário, mas sim nos jornais que meu tio guardou.

O Albergue Alegria teve o mesmo destino que seus hóspedes. É bastante difícil encontrar informações precisas sobre ele. Segundo os poucos registros que constam no Arquivo Público do Estado de São Paulo, funcionava em um galpão adaptado para receber pessoas que chegavam a São Paulo de trem na Estação da Luz e não tinham exatamente para onde ir. Algumas davam sorte e encontravam um parente com um cantinho na sala, outros percebiam que não conseguiriam nada melhor do que já tinham antes e voltavam para a sua cidade depois de uma semana no Albergue Alegria. Vários passavam meses ali, atrás de emprego, conversando e jogando cartas ou dominó. Certos moradores só saíam da cama quando os poucos funcionários os incitavam. No geral, iam dormir por ali mesmo, na calçada, já que a região era sua única referência. A depressão, portanto, era corriqueira. Dois homens procurados pela polícia política passaram três meses em segurança, depois de terem a feliz ideia de se misturar àquelas pessoas. Dali, foram transportados para a fronteira com a Bolívia e depois de subornar dois guardinhas sonolentos, fugiram do Brasil.*

Algumas coisas nunca mudam por aqui.

* Caso haja algum interesse sobre os dois e, mais ainda, quanto a esse tipo de ação durante a ditadura, quem os transportou foi a escritora Maria Valéria Rezende, que naquele momento tinha um documento diplomático emitido pelo Vaticano.

Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Publicou em 1999 o romance Cobertor de estrelas (Editora Rocco), traduzido para o espanhol e o galego. Em 2001 publicou Capuz (Editora Hedra), e, em 2004, Dos Nervos (Editora Hedra). Duas praças (Editora Globo, 2005) foi o terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006. É autor também do livro de contos Anna O. e outras novelas (Editora Globo, 2007), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, e O livro dos mandarins (Editora Alfaguara, 2009), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010. É autor ainda dos livros infantis: Sai da Frente, Vaca Brava (Editora Hedra, 2001), Greve Contra a Guerra (Editora Hedra, 2005) e A Sacola Perdida (DSOP, 2014).

três poemas do livro ‘Poemas do Golpe’, de Andri Carvão

Um povo que não enterra os seus mortos vive remoendo o passado.
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Um
povo
que
não
enterra
os
seus
mortos
vive
sendo
assombrado.
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Um povo que não enterra os seus mortos,
vive?

| elite miserável |

Cidadão
Cristão
Brasil
Servil

Herança rural
Questão cultural
Regime colonial
Atraso industrial
Casa senhorial
Sociedade patriarcal
Identidade nacional

Burocrata
Escravocrata
Primata

Política
Paleolítica

Da servidão
Da escravidão
Da prisão
Dentre outras formas de opressão

Pobre é povo
Classe média é povo
Povo é povo
Teleguiado por uma elite miserável

| na casa de armas |

— olá!
— eu quero uma arma, eu preciso de uma arma, eu quero uma arma!
— pra quê você quer uma arma?
— pra mataaar!
— pra matar o quê?
— uma arma de caça, pra caçar…
— pode ser mais específico? que tipo de caça?
— passarinhos e borboletas… brincadeira. ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…
— mas não temos estes bichos no Brasil…
— …
— mas que tipo de arma você quer? um rifle?
— um rifle, pode ser um rifle, eu quero um rifle de caça.
— olha, temos este aqui…
— aahh, que lindo! bela arma…
— …e também temos esta daqui (um pouco mais cara) alemã, uma similar, a vovozinha desta, foi usada durante a Segunda Guerra Mundial para matar judeus, homossexuais, ciganos, comunistas…
— agora eles vão ver uma coisa!
— eles quem, amigo?
— ora, veados, raposas, ursos, lebres brancas…

capa_golpe| poemas do livro Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019) | com lançamento sábado, 7 de dezembro, no Patuscada — Livraria, Bar e Café [link]. |

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há textos do autor nas seguintes publicações: Labirinto Literário, Libertinagem, Gueto, Aluvião, Originais Reprovados, Subversa, Ruído Manifesto, entre outras; foi colunista do site Educa2 e participou das antologias: Gengibre — Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos, Embaçadíssima — Antologia Tirada de uma Notícia de Jornal, ambas pela Editora Appaloosa, e 7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos [um manifesto contra o fascismo], organizado por Rojefferson de Moraes. Publicou Polifemo em Lilipute e outros contos, também pela Appaloosa, O Poeta e a Cidade (Edição Gueto #9), Puizya Pop & Outros Bagaços no Abismo, organizou o livro coletivo Marielle’s, ambos pela Scenarium, Um Sol para cada montanha (Chiado Books, 2018) e Poemas do Golpe (Editora Patuá, 2019).

dois contos breves de Flávia Helena

desaguar

Notou, primeiro, pelo seu tamanho em relação à vassoura.

Uma semana trabalhando naquela casa e não conseguia mais alcançar o alto do cabo.

Depois foram as roupas.

Tropeçava nas barras das calças, de tão compridas. Não conseguia usar os vestidos, porque as cavas do pescoço escorregavam pelos ombros.

Estava encolhendo. Rápido.

Viu que precisava ir embora, quando, num domingo, depois de fazer cocô, quase caiu no vaso e misturou-se às fezes que acabara de eliminar.

Não queria parecer ingrata. Sabia o quanto os patrões a haviam ajudado.

Se não fosse o seu Rogério, ela nem teria onde ficar quando veio daquele fim de mundo. E o quarto até que era bom. Tinha televisão, chuveiro quente. Eles também não pagavam todos os direitos, mas o salário não era dos piores.

Decidiu, então. Partiria sem se despedir.

Foi numa quarta-feira.

Acordou cedo. Preparou o café. Arrumou os quartos. Lavou a roupa. Tratou dos bichos. Varreu a cozinha. Ajeitou o closet da dona Patrícia. Adiantou o almoço. E notou que estava diminuindo cada vez mais depressa.

Não tinha o costume de deixar o serviço assim, pela metade. Só que, naquele dia, não teve escolha.

Se continuasse trabalhando ali, iria desaparecer.

Pequeninha que estava, escalou as portas do gabinete da pia. Mergulhou na cuba cheia de água e louça e entrou no ralo.

Saiu já na rua. Pelo bueiro.

* * *

palavras que entram pela boca

Passava as aulas dando tapas irritados no ar.

Não eram insetos, ao contrário do que se pode pensar. O que o garoto queria era espantar as palavras que não conseguia compreender.

No começo, a fim de se resguardar, tentou fugir para um canto da sala aonde elas não chegassem. Mas, advertido pelos professores, teve logo que se acomodar em uma carteira mais à frente.

Mesmo assim, passava o tempo todo distraído, como se não entendesse nada do que acontecia ali.

— Não é má vontade! É dificuldade mesmo. Quando nós fomos embora pro Japão, ele era pequeno. Mal falava. Foi alfabetizado lá, inclusive.

Apesar da justificativa da mãe, tentando explicar o comportamento do filho na escola, a coordenadora insistiu:

— Mas é necessário que o aluno interaja com a classe. Ele precisa se esforçar. Não tem como fugir pra sempre.

A sorte é que havia uma colega disposta a ampará-lo: Mariana.

Por uma semana, sentou-se ao lado do menino tentando ajudá-lo a fazer os exercícios, copiar as lições e, claro, aprender Português.

Com a menina, ele até se animou. Só que o ambiente não colaborava. Gente demais. Muita conversa.

Por isso, ela achou melhor tentar de outro jeito. Na praça em frente ao colégio.

Sozinhos, colocou, com a língua, algumas palavras na boca do garoto.

Os pelos do corpo todo, arrepiados, mostravam que ele começava a entender o novo idioma.

Três vocábulos foram suficientes.

| contos do livro Sem açúcar (Editora Penalux, 2016), contemplado com o ProAC 2015. |

Flávia Helena é professora de Literatura. É bacharel em Direito pela PUC-SP, licenciada em Letras pela USP e mestre em Teoria Literária pela USP. É autora da peça TRAMA, contemplada com o ProAC 2013, da obra de crítica literária O fabricante de textos (Editora Penalux, 2015), sobre o romance Budapeste de Chico Buarque e da coletânea de contos Sem açúcar (Editora Penalux, 2016). Tem contos e poemas publicados em diversas antologias. Faz parte do Coletivo Literário Martelinho de Ouro.