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selecionados da edição impressa n.2 da revista gueto

capa_gueto_impressa_2Em novembro de 2021 a Gueto completa 5 anos. Neste período, publicamos novos autores e autores consagrados, com o objetivo de divulgar a literatura contemporânea em língua portuguesa. Selecionamos 20 autoras e 20 autores, em poesia e em prosa, publicados no portal no biênio 2019-2020. Esta será, como a primeira, uma edição comemorativa de um trabalho coletivo entre escritores, poetas, curadores e editores.

Agradecemos aos editores Eduardo Lacerda e Pricila Gunutzmann da Editora Patuá pela parceria mais uma vez e ao artista visual Leonardo Mathias pela capa desta segunda edição.

A seguir, os selecionados:

CONTO

1. Adriane Garcia | #Minicontos para futuro nenhum
2. Alexandre Arbex | O ofício da fome
3. Ana Bárbara Pedrosa | Num motel em Loures
4. Christiane Angelotti | Mais uma Maria
5. Dirce Waltrick do Amarante | A diplomacia em banho-maria
6. Fábio Mariano | Infierno
7. Fred Di Giacomo | Ypy
8. Hugo Almeida | Ó
9. Laura Elizia Haubert | Laços
10. Liliane Prata | A culpa é dos poetas
11. Marcelo Maluf | Nada para contemplar
12. Myriam Campello | Obscura Veneza
13. Natalia Timerman | Sábado
14. Rafael Gallo | A única estação
15. Roberto Menezes | De quando a verdade me levantou do chão
16. Rosângela Vieira Rocha | O trovador de Toledo
17. Sergio Leo | Tarzan, o filho do alfaiate
18. Sérgio Tavares | Cruzadismo
19. Tiago Germano | Germes
20. Veronica Stigger | Fantasmas

POESIA

1. Alberto Bresciani | Nomes escritos às ostras
2. Alice Vieira | Prometeu
3. Andri Carvão | O poeta pobre
4. Carlos Emilio Faraco | s/título
5. Francesca Cricelli | Poema para a fiandeira de Remedios Varo em Les feuilles mortes
6. Isabella Martino | Começos
7. Laura Erber | Circunstância da luz
8. Leonardo Tonus | Notas esparsas para um mundo áspero
9. Manuella Bezerra de Melo | s/título
10. Marcelo Labes | A fábrica
11. Maria Esther Maciel | A vida ao redor
12. Maria João Cantinho | Abate diário
13. Matheus Guménin Barreto | O que vale um poema
14. Prisca Agustoni | A fera, primeira parte
15. Rafael Mendes | Resposta a Kaváfis
16. Reynaldo Damazio | s/título
17. Rodrigo Novaes de Almeida | Tocata e Fuga funestas
18. Susanna Busato | Entre
19. Tatiana Pequeno | Abençoados
20. Tito Leite | Acaso

A edição está em pré-venda no site da Editora Patuá neste [link]

três poemas de Laís Araruna de Aquino

nós só compreendemos muito tempo depois

é perto das quatro, o sol incide
obliquamente sobre as palmeiras
o vento rege uma canção entoada pelos
pássaros e cigarras —
aquela que veio de nenhum passado

agora, uma ave branca cruza o silêncio
nós só compreendemos muito depois
esta paisagem, este corpo, esta travessia
compreendemos numa estação diversa
quando as folhas estão secas no chão
ou sabem à resina

tudo está calmo e quieto
mas ninguém sabe os mundos que o coração
do homem abriga
os bois se juntam no pasto
e tangem os rabos contra as moscas
também meu coração tange algo
que não sei nomear

estamos no presente como em um lago
onde pousamos os pés
e não sentimos o assoalho
e de repente se faz muito tarde

quando desejamos regressar
e abrimos a porta da memória,
há um caminho que muda
a cada entrada

então, na curva de tantos dias,
deixamos um pouco do passado
agora, o musgo cresceu
range a porta

damos talvez por uma falta
mas não saberíamos dizer
mesmo isto —
nós só compreendemos muito depois

o cheiro da tangerina

todas estas coisas são muito antigas
a tarde
o sol
a meio caminho do horizonte
um homem
sem outra companhia que seu pensamento
navegando na tarde imóvel

todas estas coisas são muito antigas
o cheiro da tangerina
impregnado nas unhas
as cortinas esvoaçando na sala
os poliedros de luz que o sol faz no assoalho

tudo isto é muito antigo
a tua silhueta
contra o anteparo da janela
o halo distante da lua
na noite ausente

muito antigos
um homem
e a vontade de núpcias
impossíveis com o universo

à luz da manhã todas estas coisas começarão mais uma vez
e a manhã e tu mesmo estarão sob o sol
sem o frescor da criação

meditação em Ouro Preto

chove
e ao tombar a chuva sequer descreve uma melodia
o silêncio do estio retumba em praças lúgubres
e o tempo escoa no ciciar da noite sem cortejo algum
as esferas estão vazias e nada acolhe o teu desejo
a tua carne jaz triste em um colchão de hotel
entre os pilares inexistentes do dia, não irrompe
um bocejo de tédio dos deuses ou dos bêbados
o coração do tempo se profanou definitivamente
escutas apenas uma pancada forte nas paredes
mas não há ninguém do lado de fora

são as paredes do teu corpo que estertoram

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É autora de Juventude (Editora Reformatório, 2018), vencedor do Prêmio Maraã de Poesia 2017.

nove, poema de Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida

Quem é que poderia imaginar que ela seria nove ao invés de dois. Que a vida seria a linha em redemoinho permanente. Que seu corpo seria o fio de um discurso muito longo girando ao redor do mesmo tema. Quem é que poderia imaginar que ela seria a única personagem do livro que eu escreveria. Quem é que poderia imaginar que assim é que ela viveria para sempre. Que sexo era só o que seria diversão. Quem é que poderia pensar que ela viria caminhando em direção oposta. Quem é que poderia imaginar que ela declamaria versos em voz alta. Quem é que poderia imaginar que ela voaria como pássaro selvagem na floresta não tão encantada assim. Quem é que poderia pensar que ela seria capaz de falar duas línguas ao mesmo tempo. Quem poderia pensar que ela se dedicaria à pesquisa de fundamentos básicos da sociologia. Que driblaria questões que não eram físicas. Que teria pleno domínio de arte e matemática. Quem poderia imaginar que ela tomaria duas doses de conhaque na primeira noite de inverno. Quem é que poderia imaginar que ela teria este longo cavanhaque. Que dela seria um cavalo chamado Oberon. Quem é que poderia imaginar que ela trocaria a noite pelo dia. Quem poderia imaginar que um dia ela vestiria quimonos e gravatas. Quem é que poderia imaginar que o que ela mais desejaria na vida era ter destino comum. Tal qual no primeiro dia em que saiu de casa para andar de bicicleta. Quem é que poderia imaginar que um homem inteiro não seria feito de meias palavras. Que o que ele diria ontem seria o que hoje ele silencia. Quem é que poderia imaginar que a casa é o que restaria onde ela já não mais estava. Quem é que poderia imaginar que haveria vento deslizando na superfície da terra. Quem é que algum dia poderia pensar que uma nuvem faria sombra na topografia. Quem é que algum dia poderia imaginar que haveria flores no jardim de todos. Quem é que poderia imaginar que dali a poucos minutos alguém partiria para nunca mais voltar. Quem é que poderia imaginar que ela seria um só. Que às vezes ela seria ele. Que ele nunca estaria fora dela. Quem diria que a vida seria feita de milhares de fragmentos. Quem diria que um dia isso tudo passaria. Quem é que poderia imaginar que haveria tanto drama na última hora. Quem é que poderia imaginar que ela teria o mínimo de disciplina. Para colocar talheres sobre a mesa. Para organizar livros na estante em ordem decrescente de tamanho. Para levantar hipóteses, para relembrar isso e aquilo outro. Quem diria que ele vestiria saia plissada no verão. Quem diria que dali a poucos dias seria um vestido verde. Quem diria que um dia ela ainda colecionaria pesos de papel. Quem é que poderia adivinhar que ela iria gostar de Picasso, mas não de Pissarro. Quem poderia pensar que não haveria regra sem exceção. Quem diria que o mínimo de perspectiva seria fundamental para atravessar a rua. Quem diria que o traço no desenho seria diagonal. Que qualquer julgamento seria sempre parcial. Que o sentimento seria mútuo ocasionalmente falando. Quem quer que fosse imperador. Quem é que poderia imaginar que ela não teria coragem. Quem é que poderia duvidar que ela teria medo. Que daqui para a frente nada seria como antes. Que ela não seria igual a ele. Quem diria que ela não teria cílios postiços. Quem é que poderia imaginar qual seria a cor dos olhos dele. Quem diria que não haveria mais tempo para pensar no primeiro dia do ano. Parábolas seriam feitas disso. Antenas parabólicas também. Quem é que poderia imaginar que ontem de madrugada ela voaria tão alto. Quem é que poderia imaginar que ela cairia da escada antes do final do dia. Que aquela que não era ela que ali estava na minha frente. Quem é que poderia imaginar que ela teria dois casamentos na vida. Que o amor também seria feito de desencanto. Desencontros seriam fenômenos relativamente comuns. Quem é que poderia imaginar quantos anéis ela teria nos dedos. Quem é que poderia pensar na luz acesa hoje cedo. Quem é que poderia ter lembrado disso. Quem é que poderia imaginar o que ele levaria no bolso do casaco. Quem é que poderia imaginar que ele sairia de casa para nunca mais voltar. Que deixaria um par de sapatos para trás. Além de quadros na parede traje esporte fino e outras recordações. Quem é que poderia pensar que ela embarcaria no próximo trem para Genebra. Quem diria que ela teria fôlego para atravessar a longitude do corredor. Quem é que poderia imaginar qual seria o resultado final do exame laboratorial. Quem poderia saber qual seria o diagnóstico final. Quem é que poderia imaginar que ela cruzaria um oceano inteiro a nado. Que haveria ritmo nas braçadas. Quem diria que ela não saberia de nada, mas que também não almejaria nada além disso. Quem é que poderia imaginar que ela viveria setenta e dois anos e dois dias. Que a vida passaria como um suspiro na janela. Que hoje ela teria um monóculo inglês na mão direita. Que depois o monóculo ficaria guardado na gaveta do aparador. Quem é que poderia pensar que ela também colecionaria mapas, além de pesos de papel. Quimeras e o que mais. Do que ela seria capaz se não tivesse medo. Quem é que poderia imaginar que sobraria sempre um minuto do tempo que se perdeu em pensamento. Que de antigas memórias viria uma jaqueta de veludo novinha em folha. Quem é que poderia pensar que ela escreveria uma carta tão longa em plena sexta. Quem diria que seria uma carta de amor monumental. Que o conteúdo da carta seria puramente sentimental. Que ela seria personagem principal. Quem é que poderia falar de seu próprio destino. Quem diria que ela ainda veria tantas crianças correndo no meio da rua. Quem seria a mulher com quem trocou meia dúzia de palavras hoje de manhã. Quem seria o homem que cuidava dela no hospital. Quem seríamos nós às cinco da tarde. Quem seríamos nós quando a noite cai. Quem é que morre quando o outro nasce. Quem poderia pensar que dali a meia hora já seria outro dia. Quem poderia pensar que ela não voltaria atrás. Quem é que poderia imaginar o que viria adiante. Quem é que poderia pensar no que sempre acontece de repente. Quem pensaria igual, quem pensaria diferente. Quem saberia dizer o que não sente. Quem ela pensaria que era ele agora mesmo. Quem poderia imaginar que ela não fosse dourada. Que não tivesse nuvens nos olhos. Quem é que poderia imaginar que ela não teria eira nem beira. No que pensaria ela ao abrir a janela do quarto. No que pensaria ela ao pensar nele e vice-versa. Quem é que poderia imaginar que ela seria mestre na arte de desaparecer sem dar notícia. Que faria um curso de caligrafia japonesa. Quem imaginaria que um dia ela seria assim. Quem seria ela despindo as roupas no banheiro. Quem seria ela fechando os olhos depois de apagar a luz. Quem seria ela nos braços dele. Quem seria ele aos olhos dela compasso e espera. Quem teria sido ele na noite passada. Quem é que poderia imaginar que ela não soubesse disso. Quem é que poderia pensar no que não faz falta. Quem é que poderia imaginar que ela faria uma anotação qualquer. Que depois disso ela apagaria a luz de novo. Quem é que poderia imaginar que ela ficaria em silêncio. Quem é que poderia imaginar qual seria a direção do vento. Quem é que poderia imaginar que um dia ela sairia correndo na direção do mar. Quem é que poderia imaginar qual seria a hora exata em que isso aconteceria. Quem poderia dizer que horas eram quando ela não voltou mais.

Maria Fernanda Vasconcelos de Almeida é formada em Cinema pela Fundação Armando Alvares Penteado — FAAP e funcionária do Itamaraty desde 1994. Já morou em Berlim e Nova York, atualmente reside em Londres. Colecionadora de palavras, profundamente interessada em tudo aquilo que acontece ao redor.

fragmento do romance ‘Elas marchavam sob o sol’, de Cristina Judar

Elas marchavam sob o sol (Editora Dublinense, 2021)

capa_sob_solMortas podem ser as pessoas, mortas podem ser ideias e revoluções enterradas às pressas, antes que floresçam e mudem definitivamente a ordem das coisas.

Mortas podem ser as mulheres, enterradas vivas pelo fato de não serem vistas, quando, de fato, elas são os planetas, as deidades, o fundo do mar, tudo o que é incontável ou impossível de se medir.

Uma lenda que trago comigo: em um passado remoto, havia uma velha, ela vivia em um deserto e soprava ossadas que encontrava pelo caminho. Havia velas acesas no interior do seu corpo antigo.

Ao despejar sobre as ossadas o calor das suas entranhas, a velha as preenchia com carnes e narrativas que delineavam formas nada correspondentes às necessidades de consumo dos homens.

Desertos são oceanos extintos: os esqueletos se transformavam em conchas e somente depois se tornavam corpos. Esse era o seu pequeno milagre.

Ela sempre se assombrava com o acúmulo de ossos sobre o chão. Em posições variadas, eram favoráveis ao reconhecimento de que haviam pertencido a mulheres.

A velha caminhava entre eles como quem não quer pisar em ovos, ela era uma jardineira de flores calcificadas. Naquele canteiro sem água, havia um registro raro e diversificado. A secura pode conter germinações e reter temporalidades, embora sejamos convencidos a acreditar no contrário.

Dia a dia, a velha regava suas joias inertes com o ar e o fogo, com um passear ritmado e um canto que, de tão rouco, parecia ter nascido no início do mundo. Naquele lugar em que todos os acontecimentos são ideias não projetadas na realidade linear, pólen em suspensão, raio de sol sem parada fixa. Ela observava as ossadas como se as acariciasse.

Exalava chamas e reconstituía o que estava perdido — não apenas os corpos, mas a beleza oceânica deles, aquela que está contida no movimento e os define na ausência de limitação, na geometria dinâmica das ondas, no cheiro do sal.

Elas marchavam sob o sol, lançado 4 anos depois de seu último romance, apresenta narrativa sobre aprisionamentos relacionados ao feminino e a corpos dissidentes. Saiba mais no [link].

Cristina Judar nasceu em São Paulo, é escritora e jornalista, autora do romance Oito do Sete, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano. Escreveu o livro de contos Roteiros para uma vida curta (Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e as HQs Lina e Vermelho, vivo. Seus textos curtos também figuraram em diversas antologias publicadas no Brasil e no exterior. Elas marchavam sob o sol é o seu segundo romance.

o assédio, de Cecília Barreira

Entrara na empresa. Estava feliz. Não era mal paga. Era a mais nova dos trabalhadores.

Foi apresentada ao chefe.

Já devia ter os seus cinquenta anos. A barriga consistente abria-se à medida que os cabelos ralos mostravam a careca oblonga.

Maria queria fazer tudo bem.

O chefe exigia que ela ficasse a trabalhar com ele no fim do expediente.

Ela achava natural, apesar de cansativo.

Começou por lhe fazer perguntas pessoais.

Ela, tímida, não abria jogo.

Respondia com um sim.

Depois pretendia levá-la a casa.

Mentia, dizendo que tinha carro.

Um dia quase que a obrigou a comer qualquer coisa num bar após o trabalho.

No local, cheio de gente, colocou uma perna junto das delas. Apalpou-a.

Maria, incomodada.

Não sabia o que fazer.

Confidenciou com a maior amiga.

Ela referenciou o assédio.

Maria não queria perder o emprego.

Começou a reagir mal quando ia para o trabalho.

O chefe, sempre de olho nela.

Os restantes colegas riam-se devagar.

Não havia solidariedade.

*

Chegara mais um fim de tarde.

Ela pediu ao chefe para ir a uma consulta.

Ele disse que a acompanhava.

Maria abordou o constrangimento de tal situação.

— Eu sou o teu maior amigo — respondeu a arfar.

Ela saiu sem se despedir.

Estava nos limites do desespero.

Pediu a um amigo que aparecesse no escritório para se passar por namorado.

Rui assim fez.

O chefe olhou-o com desdém.

Chamou-o.

— Quanto queres para deixares de namorar com ela?

— O quê?

— Sim. Diz uma quantia.

— Nunca.

— E se eu te der 20.000 euros, pode ser?

— Bem… Não sei. é muito dinheiro.

— Dá-me o teu IBAN.

— Ok.

*

Maria perguntara a Rui como tinha sido.

Ele esquivava-se.

Ia para o trabalho exausta, em risco.

Estava tão frágil que deixara de comer.

O chefe ordenou levá-la a um hospital.

Ela trémula, aceitou, chorando para dentro.

Levou-a para um apartamento sujo e esconso.

Serviu-lhe um whisky.

Ela negou a bebida.

Pegou nela e pô-la na cama.

Ela colocou-se em posição umbilical.

Um outro homem entrara no apartamento.

Pareciam discutir.

Passado um bom bocado despiram-na abruptamente.

Sem alívio, sofreu violações várias.

Sentia-se morta, com dores.

Depois, levaram-na para um sítio ermo. Sem nada.

E aí a deixaram de qualquer maneira.

Nem sequer tinha uma identificação.

As feridas alojavam-se no corpo, na alma, nas vísceras.

Para ali ficou.

Nunca mais se lembrou de nada.

Cecília Barreira é professora de Cultura Portuguesa Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Autora de poesia, ensaio e conto. Pertence ao PEN Club português. Em 2021, publicou o livro de contos Sangue Suor Lágrimas. Também de poesia, Incêndio, da Poética Edições. Publica regularmente recensões críticas e ensaio em várias revistas.

Arnaldo e Dirceu, de Thaíse Santana

“Enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas.”
(Jeremias 17:9)

No final da antiga Rua do Ouro, há uma ponte. Embaixo da ponte, um rio. O Rio das Velhas lambe as casas velhas. Casas encardidas onde há velhas na janela. Num casarão imponente, avistamos a placa “Medeiros Brito Advocacia”. Dentro ali, dois amigos trabalham e conversam e partilham o dia. Mais que isso, Arnaldo e Dirceu partilham memórias, segredos, a vida.

A Medeiros Brito foi criada pelos avós de Arnaldo, que foi mantida pelos seus pais e agora pertence-lhe. Arnaldo é o mais bem sucedido advogado da cidadezinha. Um homem arguto e de coração sensível. Costuma ajudar as pessoas, inclusive, advogados em início de carreira (ainda que não haja tantos como ele). O seu coração vai explicar a origem da sua amizade com Dirceu.

Há vinte anos, Arnaldo sofreu o infortúnio, que mais cedo ou mais tarde, chega a todas as gentes: a morte de um ente querido. O seu pai, o doutor Antônio de Assunção Medeiros Brito sofreu um infarto fulminante e fez a longa passagem. Não teve tempo de se despedir da família. Na triste ocasião, Arnaldo estava fora da cidade. O filho único do doutor Antônio e da Dona Maria Amélia voltou às pressas, para cumprir os rituais fúnebres.

Contudo, foi difícil para Arnaldo seguir os ritos da sua vida. Estar vivo é uma benção, ele acredita, mas sabe também que esta benção exige muitas obrigações. Ainda mais quando se é o herdeiro dos negócios da família. Por isso, Arnaldo buscou ajuda médica. Perdas e ganhos chegaram de mãos dadas à sua vida e o pobre Arnaldo (nem tão pobre assim, é verdade) não soube lidar com os eventos paradoxos. Seu coração é demasiado sensível.

Durante nove meses, Arnaldo frequentou, religiosamente, o consultório do doutor Haroldo de Carvalho. Nessa ocasião, conheceu Dirceu. Homem franzino, de vinte e pouco anos, de voz aguda e vacilante. Dirceu era branco, de uma brancura que se enxerga ao longe. Bem educado e mal vestido. Suas vestes contrastavam com o ambiente de trabalho. Por outro lado, o seu corpo exalava um cheiro de sândalo, de algum perfume francês.

Dirceu era o assistente do doutor Haroldo e também estudante de Direito, graças à ajuda do patrão. Nas horas vagas, era leitor de Flaubert e Baudelaire. E no dia a dia, cumprimentava os colegas com salut, despedia-se com au revoir, num gesto de quem agita águas rasas para parecer profundo.

— E por que não medicina?, questionou Arnaldo, enquanto entregava a Dirceu o documento para o preenchimento da ficha.

— Quero combater as injustiças desse mundo.

Dirceu não soube, mas naquele momento, conquistou o coração do advogado. Após trocarem outras palavras, Arnaldo se encaminhou ao sofá, e ali aguardou sentado, pacientemente, enquanto Dirceu preenchia a sua ficha. Disfarçadamente, o recepcionista olhava o paciente, examinando as suas roupas, o sapato, o cabelo. Quando terminou de preencher a ficha, autorizou a entrada de Arnaldo. Este agradeceu e adentrou à sala de atendimento.

Passam-se vinte anos após esse encontro. Arnaldo e Dirceu estão no escritório conversando sobre uma festa de aniversário. É o centenário da Medeiros Brito que se aproxima, e Arnaldo quer celebrar a longa e frutífera existência da empresa. Elege Dirceu para liderar a organização do evento e assegura-lhe que a sua secretária estará a postos, para executar tudo o que for preciso. Dirceu pensa que organizar festas não é tarefa para um homem da sua posição. No fim das contas, ele se contenta e aceita a incumbência.

Os dias passam e algo curioso acontece no escritório. Alguns funcionários começam a receber bilhetes anônimos. Quem os recebe, não se ofende, mas lê e joga fora, imediatamente, como se não quisesse fazer parte da trama misteriosa. O perigo ronda o escritório Medeiros Brito durante alguns dias, e logo, vai embora.

Numa bela tarde de sexta-feira, quase fim de expediente, Arnaldo é surpreendido por uma visita agradável. Recebe em sua sala uma colega de trabalho, também advogada da Medeiros Brito. Ana Cláudia foi, um dia, muito mais que colega. Hoje, ela é alguém da confiança de Arnaldo. Eles conversam por alguns minutos e ela despede-se, já saindo da sala. Arnaldo tenta voltar ao trabalho, mas o seu pensamento está distante, confuso.

Os dias que antecedem à festa exigem de Dirceu um tempo ainda maior de trabalho. Ele está sobrecarregado, a ponto de não sair do escritório antes das vinte horas. Do outro lado, Arnaldo se prepara para ir embora. Antes de sair, passa na sala do amigo. Dirceu nota Arnaldo um tanto taciturno, e demonstra preocupação com a sua saúde . Arnaldo diz que está tudo bem, e num gesto solidário, libera Dirceu do trabalho.

— Mas é só hoje, adverte Arnaldo sorrindo.

Dirceu agradece e apaga as luzes. Os dois saem juntos do escritório. Antes de chegar no carro, Dirceu percebe o seu retrovisor quebrado.

— Caralho! Quem fez isso?, pergunta Dirceu atordoado.

A noite está calada. Àquela hora, já não há velhas na janela. Então, ele mesmo vai em busca de reposta. Dirceu corre para averiguar o acontecido. Quando, finalmente, aproxima-se do veículo, ele sente um impacto. Um tiro.

Thaíse Santana nasceu em Itabuna, Bahia. Autora de Mulher-Palavra (Editora Patuá, 2021). Professora, pesquisadora, ativista e mediadora de leitura. Mestra e doutoranda em literaturas. Tem artigos publicados em revistas científicas e poemas publicados em antologias literárias. No Instagram, usa o perfil @thaisesantanasou, onde compartilha fragmentos de sua vida-escrita.

torta de ervilhas, de Julliane Albuquerque

Com a respiração ofegante, a coluna curvada e sacolas de supermercado nas mãos, Ana sobe degrau por degrau. É a segunda vez naquele mês que o elevador entra em manutenção. Ela para por um instante no segundo andar, encosta as compras no chão, respira, olha para os degraus acima e toma nos braços a comida da ceia. Dos sacos para o armário ou para a geladeira, Ana organiza legumes, carnes e latas de ervilha. Uma das latas desequilibra, rola pelo chão e entra por baixo da mesa da cozinha.

Ana reequilibra as latas que ainda estão em mãos, empilha dentro do armário e ouve a lata caída rolar de volta até seus pés. Ela fecha a porta do armário, agacha para pegar a lata e vê uma espécie de mangueira cinza por debaixo da mesa. Não é uma mangueira, é uma tromba, uma tromba de elefante. Agachada, com uma lata de ervilha em mãos e de frente para o filhote daquele animal imenso, Ana respira fundo e solta o objeto em sua direção outra vez. O elefante agarra, equilibra na ponta da tromba, sacode para os lados e deixa a lata cair. Ana ri. Ele segura a lata novamente e a empurra de volta para Ana.

Com as ervilhas numa mão e a outra esticada até a gaveta, Ana alcança um abridor de latas. Aos poucos, o elefante caminha até a comida. Enquanto ele mastiga, Ana aproxima as mãos de sua cabeça, suas orelhas gigantes, sua pele áspera. O bicho retribui o carinho com a tromba. Aos cinquenta e quatro anos, a pele de Ana é fina, mas também tem rugas. No chão, ao lado do animal, o corpo magro e opaco dela parece ainda mais frágil. Ele estica a tromba por baixo do fogão como quem tenta alcançar algo e alcança.

É uma fotografia do Natal passado. Ana vê a mesa da casa da mãe, o peru recheado, a torta de ervilhas, seu irmão mais velho, sua cunhada, seus dois sobrinhos. Ana lembra que a mãe não costumava sair nas fotos da sala porque estava sempre na cozinha. É a primeira vez que ela fica responsável pela ceia. Sua mãe não está nem na foto, nem na cozinha. No seu lugar, tem um animal enorme. É difícil cozinhar com um elefante no caminho.

Julliane Albuquerque nasceu em Alagoas e hoje mora no Rio de Janeiro. É mestre em Ciências Sociais pela UFF e bacharel em Direito pela UERJ. Publicou textos em revistas como Ruído Manifesto e Mallarmargens, além de ter produções visuais com repercussão em veículos como Catraca Livre, Sputnik Brasil, Ideia Fixa, Revista Azmina, entre outros. Reúne seus trabalhos em jullianealbuquerque.com

27 pássaros, poema inédito de Moema Vilela

minha amiga faz origamis
do outro lado do telefone
ela está no vigésimo sétimo pássaro
eu, no quarto dia sem fumar
numa casa sem eletricidade
estamos fazendo companhia uma a outra
esperando o fim dos tempos passar
_________em um grande rasante no céu

no viva-voz ouço sua respiração
as unhas marcam as dobras no papel
quando ela chegar a mil
_________poderá realizar um desejo
embora eu não esteja fazendo tsurus
também sigo concentrada
em não perder de vista meu desejo
_________e seus pássaros

vê que não é de cigarros que falo
ao convocar a imagem dessa grande abstinência
em que até a espera perdeu seu lastro
_________esperar o quê, pelo quê?
ficamos com o como
estamos fabricando o futuro
sem rasgar nem usar a tesoura
juntas até que a bateria acabe

enquanto o fim do mundo percorre sua trajetória
_________desenfreada entre os planetas e as estrelas
escuto a noite e a minha amiga
_________dedicada a não perder de vista
o que ainda temos

Moema Vilela é autora de A dupla vida de Dadá (Editora Penalux, 2019), Guernica (Edições Udumbara, 2017), Quis dizer (Edições Udumbara, 2017) e Ter saudade era bom (Editora Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura. Publicou contos e poemas em revistas e jornais e em coletâneas como De tudo fica um pouco (Editora Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da memória (Edipucrs, 2014), Antologia Um (Edipucrs, 2017), Mulherio das Letras (Costelas felinas, 2017), entre outras. Graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Doutora em Letras pela PUCRS, é professora nos cursos de Escrita Criativa e Letras na PUCRS.

o itinerário da bala perdida, poema de Leandro Rodrigues

capa_domofoa bala perdida
não tem nada de perdida

tem alvo certo
gps
endereço

a bala perdida
nunca se perde

_______rasga a noite
_______é medida
_______distância e opressão

_______cala o grito
_______da pobreza

_______está na pele negra
_______e se veste de não

a bala perdida
sempre encontra

_______o corpo vivo
_______da escravidão

| poema do livro Do Mofo & Suas Simetrias (Editora Patuá, 2021). |

Leandro Rodrigues (Osasco, 1976) publicou os livros Aprendizagem Cinza (Editora Patuá, 2016), Faz Sol Mas Eu Grito (Editora Patuá, 2018) e Todas As Quedas São Livres (Editora Penalux, 2020), além de participar de diversas antologias: O Casulo (2016), Hiperconexões 3 (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019), 70XCaio (2019), Clausura (2020), entre outras. Em 2020 venceu o 4º Prêmio Guarulhos de Literatura na categoria Poesia com Do Mofo & Suas Simetrias (então inédito). Teve poemas traduzidos e publicados na Espanha e nos Estados Unidos (Antologia de poesia brasileira contemporânea da revista DUSIE nº 21 da UCLA).

quando dormires, cantarei, de Krishna Monteiro

“Pois aos galos de briga, aos falcões de caça e a todas as aves que, pelas mãos do homem, foram forçadas às lides guerreiras, também será possível armar como cavaleiros.” (Tratado medieval de falcoaria e outras artes, 1386)

capa_KrishnaPisou na arena e notou apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras. Férrea, brilhante, pontiaguda, a couraça de seu oponente recobria toda a extensão da cabeça e dos membros inferiores. Pensou em si mesmo, em suas armas. Pensou também na razão para as mãos nas arquibancadas estarem tão inquietas: levantavam nuvens de poeira, debatiam-se e apunhalavam o ar, em nada recordando aquelas que, em outros tempos, iluminadas por labaredas, faziam nascer pássaros negros sobre a tela de uma parede branca. Elas, as mãos, sempre o intrigaram. Pensa: “Além de voarem feito aves com plumas de sombra, as mãos também gritam como corvos. Devem ser suas irmãs”. Os gritos das arquibancadas crescem ao redor, o outro o provoca, agitando para a direita e para a esquerda a capa, a cauda multicor. Mas não seria pego nessas artimanhas. Contenta-se em acompanhar seu duplo com movimentos pendulares do pescoço, protegendo o flanco, terçando armas, levantando a asa direita como um escudo ou uma barreira edificados bem acima da linha da cabeça. “Cuidado com a cabeça”, dizia Conceição. “Se a agulha a picar, nosso esforço não valerá de nada.” Lembra-se de como Conceição e o menino manejavam cuidadosamente os golpes da agulha de maneira a contornar seu crânio, a evitar ferir as vértebras da coluna, e ao mesmo tempo quebrando e rompendo a resistência da casca e do invólucro no interior do qual ele flutuava. Via, submerso, como a totalidade daquilo que conhecia estava prestes a se fragmentar, despedaçar. O envoltório estilhaçou. O fluido escoou. O primeiro fôlego penetrou na raiz de seus pulmões. Firmou pela primeira vez os dois pés bambos, sentiu-se aninhado entre as palmas de duas mãos. E elas o elevaram até a mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, o conduziram — e tudo era brilho — até a brandura espelhada no rosto de Conceição. Pensa: “Como eram lisas as mãos do menino naqueles tempos”. Na arena, a multidão de mãos aperta o cerco em torno dele e de seu oponente, forrando o chão com uma chuva de papéis verdes que lembravam as folhas das árvores. O outro o olha de cima, cisca riscos enfurecidos sobre a terra, esgrime a ponta do bico em busca de uma brecha onde cravar o primeiro golpe. Carrega, entretanto, por trás das próteses e proteções metálicas que revestem sua cabeça, uma expressão estranhamente perdida. O palavrório das mãos fica mais e mais alto, ele persegue e acompanha seu duplo com total simetria de movimentos. E antes que pensasse em tentar recuar, sente a pressão de duas palmas no baixo-ventre e se vê subitamente alçado ao espaço, voando a contragosto em direção aos gumes e às adagas. Uma. Duas. Três. Afasta-se arquejando depois da quarta estocada. Esfrega os olhos, sente um filete rubro e espesso escorrer pelo pescoço. Olha adiante: à sua imagem e semelhança, as penas do outro também ostentam o mesmo colar de sangue. “Pode ser que ela o acolha, pode ser que o mate”, Conceição dizia. “Trata-se do filho de outra mãe, ninguém sabe quais serão suas penas.” Conceição e o menino o pousam no solo, os domínios que agora pisa parecem se expandir ao longo de extensões sem limites. Atrás de uma malha de fios prateados, trançados até alturas a perder de vista, um par de asas se ouriça ao pressentir sua chegada. Se soubesse a palavra exata para defini-las em seus tons e cores, ele diria: “Madrepérola”. Mas só mais tarde a aprenderia. Atentas, desconfiadas, destemidas, as asas madrepérola se engatilham em postura defensiva. Sem sequer compreender a perigosa linha de fronteira sobre a qual se aventurava, ele atravessa e salta; as asas se retesam, para uma fração de segundo depois relaxarem, desabrocharem, aninhando-o no interior de uma textura muito semelhante à das pétalas. Uma escuridão densa e acolhedora o abraça, e ele se pergunta se não haveria retornado para o interior do invólucro de onde a mulher e o menino o expulsaram. Mas lá tudo era líquido, e aqui somente há um ar impregnado de reconhecimento. Além disso, não existiam lá esses estranhos seres esféricos que aqui o rodeiam recobertos por uma penugem amarelo-ouro. No escuro, ele se viu cercado por olhos curiosos, cintilantes, pequeninos: olhos em tudo distintos destas duas órbitas chamejantes que — ele sabe — querem hoje, nesta tarde, e a todo custo, destruí-lo. O outro enxuga com a ponta das asas o vermelho que brota do peito, toma fôlego, afia os esporões no chão. E ele, ao examinar reflexivo o duplo e sua triste figura perpassada por tremores, se dá conta de que nada poderá restar além de uma única alternativa. Pois atrás, às suas costas, já crescem e se aproximam as mãos. Atrás de si, ergue-se a intransponível barreira de mãos: lúgubres, calosas, insensíveis. “Cedo ou tarde irão empurrar-me”, pensa. Então se antecipa.

Pousa sobre o outro como uma farpa, cravando o mais fundo possível as pontas das esporas (eram curvas como espadas mouras). Ouve um estalido seco e sente algo se partindo. Faz como aprendera, como estava escrito: a asa direita é o escudo que apara os golpes; a esquerda é a espada que sibila; e do céu e do solo e de todos os lados o corpo trovejará, lembrando tempestades vingativas de granizo: assim estava escrito. Percebe que o outro já se afasta, o rosto assustado e lívido. Com o pé direito, prende-o junto a si, e, manejando sabiamente a espora esquerda, abre na barriga dele uma série de incisões precisas. Uma. Duas. Três. Ouvia, podia ouvir algo se partindo. Conceição contava e partia as espigas de milho, e aquelas sementes caindo sobre ele e os outros, e a cor do milho se confundindo com a de seus corpos, e as bocas colhendo o alimento que se espalhava na terra e por entre as ervas. Circulando protetoras ao redor, ceifando e ciscando, elas, as asas madrepérola. E quando o sol definitivamente se reclinava, quando os irmãos se recolhiam atrás da tela de fios prateados e a respiração compassada de seus corpos era tudo o que persistia na noite, então ele os via se materializarem, alçarem voo: pássaros com plumas de sombra, planando sobre as paredes brancas da cozinha. Diante das labaredas do fogão a lenha, as mãos de Conceição esvoaçavam. Tiravam rasantes sobre a plateia da casa e da vizinhança, amontoada nos bancos e nas mesas, assistindo quase sem piscar às evoluções daquele teatro de aves negras.

Sobre o solo, seus pés frios. À sua frente, o inimigo exausto, exaurido. Opacas são as cores que colorem o mundo, a visão se embaça, e por um momento ele julga lutar contra dois ou três. Mas percebe que agora o duplo, em vez de atacar, em cima dele cai e se apoia como numa bengala, e que sobre o corpo do outro ele também se deixa desfalecer, ambos rodando em torno de um eixo imaginário, pisando e se desfazendo em uma poça feita da essência deles mesmos. “Não é para se ver”, diz ele para seu reflexo no líquido. “Não é para se ver”, Conceição dizia. O corpo jazia estirado dentro do caldeirão, seu dorso cortado por um talho através do qual o último fôlego escoava. Friccionando sua pele em cadência impiedosa, os dedos de Conceição arrancavam as penas, lançando-as ao ar. A luz as atravessa antes que elas pousem; ele reconhece sua cor, sua textura, procura a palavra exata para nomeá-las e de repente diz para dentro de si: “Madrepérola”. Pois agora a aprendera e a conhecia. “Não é para se ver”, Conceição dizia ao menino: “Esta cozinha está infestada”. As próximas tardes, os seguintes dias, elas lhe trariam o humor cíclico dos ventos: gélidos, vagarosos, inflamados. A roda dos ventos girava, ao redor dela as estações se sucediam, e ao fugir e dar as costas à mulher e às suas mãos ele se sentia capaz de passadas cada vez mais longas. As fronteiras do mundo diminuem. A tela de fios prateados se aproxima. Um dia, para sua surpresa, viu-se erguido ao ar: era seu próprio bater de asas. E ao pousar numa trave de madeira contemplou orgulhoso os dois membros, revestidos de plumas multicores e pontiagudas.

O duplo o olha. Como Conceição o olhava. O duplo o rodeia. Como ela, de longe, o rodeava. Quando trazia a chuva de milho. Quando, sorrateira, se aproximava. Recolhido em suas feridas, o duplo o estuda de relance. Carregaria como ele o peso da lembrança? O corpo no caldeirão, as penas pisoteadas: ao recordá-las, distanciava-se, voava para longe de Conceição. Mas ela insiste, invade seus domínios, abre a cancela, senta num canto sobre a palha e lá se enreda em reflexões, cercando-o com o peso do olhar. O duplo manca, tem a perna direita esmigalhada. As mãos gritam e se espremem na arena. Então o bote, o salto de duas mãos quentes como chamas, e ele surpreendido e capturado entre os nós daquela malha de dedos: distingue um ponto em carne viva nas palmas de Conceição, fustiga-o com uma sequência de bicadas rápidas, tentando, inutilmente, se libertar (o duplo empalidece e se contrai).

Entram na cozinha, ele erguido metro e meio acima do chão. Do alto, engaiolado entre dedos e palmas que o sustêm, vê correr um desfile de coisas que não sabe nomear: panos, artefatos, objetos dependurados. O peito pulsa, bate em disparada, e talvez por sentir e temer aquela cadência as duas mãos começam a baixá-lo. Descem-no, ofertam-lhe uma cuia cheia de grãos dourados, e ao provar o primeiro ele percebe que era da mesma matéria dos que, nas tardes e manhãs, caíam sobre seu dorso e o de seus irmãos. Come e devora o milho, ao mesmo tempo que sente, roçando em vaivém nas penas das costas, a carícia dos dedos de Conceição. “Não é para se ver”, diz ela ao menino que já rondava. “Queremos estar sós.” Ao limpar a vasilha, é novamente colhido pelas mãos. E Conceição mostrando, falando e ensinando nomes, descerrando e catalogando o mundo, tudo era brilho: a imagem de São Benedito, guardião da cozinha e atrás da qual se escondiam os fósforos; a moringa d’água, tendo ao lado a caneca amassada de alumínio; panos de prato bordados, azulejos verdes vindos do outro extremo do oceano; o fogão a lenha, forja que respira e ilumina; e ele — a partir daquele instante — trilhando caminhos abertos pela mulher de cabelos-plumas-cinza-prateadas, seguindo seus passos desde o raiar do sol até o cair do dia, todos os dias.

Fala para si mesmo que, se o duplo continuasse vagando daquela maneira ingênua à sua frente, guarda aberta, asas arqueadas, passos sem alicerce nem objetivo, era questão de tempo até tudo chegar ao fim. Decide esperar. O sangue do outro escorre e empapa a areia. “Desse jeito, logo tombará como um saco vazio”, pensa. Melhor esperar. Sabe que também está ferido, mas os anos na arena lhe ensinaram que, até certo limite — que era tênue, e cuja identificação precisa diferenciava os grandes combatentes —, havia retorno e cura para qualquer chaga. Olha para o rastro de sangue do outro. Calcula. Atrás da cabeça do duplo, nuvens correm pelo céu, enquadram seu perfil num grande panorama azul. Era como se as formas das nuvens, seus desenhos e relevos, se agrupassem e envolvessem aquela cabeça que lembrava uma auréola ou o prenúncio do sacrifício. Mas um dos cúmulos-nimbos escurece, assume uma feição pontiaguda; e antes que pudesse respirar ele sente algo cravejar como um pino em brasa na barriga. Depois de ser erguido e atirado ao chão, depois de se levantar e ver que o outro ria um riso suicida, depois de constatar como na verdade eram agourentas as nuvens e que a areia agora se ensopava com seu próprio sangue, deduz que ele, também ele, havia cruzado o ponto de não retorno.

O menino gritava nas madrugadas. Quando fora entregue ainda criança numa cesta e Conceição o abrigara nos mesmos lençóis em que dormia, o choro era afogado em gotas d’água com açúcar pingadas uma a uma entre os dentes, que trincavam, rangiam. Porém, com o tempo, com o girar da roda dos ventos, os berros daquele que crescera e já passara para a cama ao lado se intensificavam, ressoando em todo o seu terror às quatro da manhã, como o apelo de um ser aprisionado em algo que não compreendia. De nada adiantou a estátua à sua cabeceira — “É para proteger”, disse Conceição ao colocá-la; de nada serviram as rezas, as benzeduras, as infusões de sálvia; pois os gritos ecoavam, persistiam, acordavam toda a casa. Até que uma noite, correndo a mão direita naqueles cabelos lavados por um suor frio, Conceição puxou não sei de onde uma canção esquecida, cujo último verso era assim: “Quando dormires, cantarei”. Sozinha com o menino entre paredes carregadas de lembranças (só os dois restavam, os demais haviam partido), notou que os braços dele se descruzavam e enfim pendiam soltos, e que todo o seu corpo virava para o canto, adormecia. Puxou a cortina. Espiou pela janela. Viu que a manhã já se ensaiava.

Empoleirado do lado de fora sobre uma ripa, também ele ouvia a música. Sentia que uma luz gestada a partir das entranhas da noite, crescendo em intensidade atrás das cristas dos montes, clareava não só e cada vez mais o terreiro, o pilão, a máquina de moer cana, mas também o interior dele, puxava para fora dele algo que sempre existira: um querer, uma força ancestral, um estremecimento adormecido. Algo que agora, por razões misteriosas, comichava, insuportável, mais e mais intenso, correndo como uma ânsia por suas veias em direção à garganta, para então quase estourar como um espasmo, um arrebatamento, uma vontade inexorável e incompreendida. Firmou os pés no poleiro. Encheu o peito, sentiu algo florescer dentro dele. Viu através da janela a silhueta de Conceição acarinhando o menino. E, quando o grito finalmente explodiu e saltou de sua garganta, ecoando sobre os cumes dos telhados, acordando todos os vizinhos, ele pôde perceber que, à semelhança da mulher em vigília, todo o seu ser parecia afirmar: “Quando dormires, cantarei”. Repetia a plenos pulmões o verso. Cantava. O sol nascia.

O golpe atinge em cheio a cabeça do duplo. Arranca a cobertura metálica que reveste seu rosto, fazendo com que a proteção cor de bronze voe longe como um elmo que se arremessa aos ares. Mas a reação não tarda: o contragolpe relampeja, retorna desesperado, e duas são agora as cabeças descobertas, os bicos despidos, os pares de olhos nus e ofuscados. Esvaindo-se em sangue, cada vez mais fracos em meio à histeria de mãos que os infernizam, os dois trocam vergastadas a esmo. Uma a uma, as peças de suas armaduras quebram, tombam sobre o solo, e ele pensa: “Parece que foi ontem”. Num ontem hoje distante e perdido no tempo, seguia os passos de Conceição no assoalho da cozinha. Curvada sob o peso de uma braçada de lenha, ela se arrasta em direção ao fogão — o acende, o assopra, o alimenta, sorri ao ouvir o estrondo das fagulhas que bailavam. Senta-se contemplativa ao pé do fogo, morde uma broa, dividindo-a com a boca e as asas aninhadas em seu colo. Não percebe o vulto, treva na tela das paredes; não nota, lúgubres e calosas, as duas mãos que se esgueiravam. Quando pressente o rondar do menino, pensa em dizer-lhe “Não é para se ver”, mas aquela presença já se evanesce. E, mordiscando a broa de milho, Conceição conclui que os gritos que julgara ter ouvido eram apenas silvos do vento que sacudia o telhado e suas vigas.

No quintal, o menino aperta a garganta dele, sufocando o último dos pedidos de socorro. A outra mão desce até a terra, manuseia uma série de artefatos brilhantes nunca antes vistos. A mão ergue uma peça (longa, recurva, de ponta aguçada) e a encaixa em sua espora esquerda: a perna agora lhe pesava. E essa sensação de peso quase intolerável recobrindo os dois pés e a cabeça, pressionando como um fardo o pescoço, fazendo com que seu corpo, livre, solto no terreiro, tombasse e oscilasse para os lados, quase não suportando o capuz, as escarpas e os punhais de aço. Cai. Por entre os furos da cota de malha, ouve risos abafados. Olha para a cozinha. Quer chamar Conceição, comer o milho, descansar novamente aos pés da mulher e de São Benedito. Mas ela não lhe ouve. Há tempos já não ouve. Conceição atada, esterilizada, presa à cadeira com ombros inertes e a cabeça macilenta mergulhada em neblinas.

O golpe de sua perna esquerda acerta a cabeça do duplo, que tomba de joelhos. Mas ele sequer percebe a queda do inimigo. Fita um ontem distante, um quintal, as mãos do menino: naquela tarde, elas carregam cortes e cicatrizes que nem sempre existiram. Vê uma terra recortada por arames, em que mãos novamente o erguem, mas de outra forma: com a técnica de um soldado e o rigor de um mestre armoreiro. Sente o garoto — ou quem ele se tornara — limpar e polir a veste metálica. Repara que ele traz um dente de alho nas duas palmas. Aceita, bica, engole a oferenda, um fogo queima sua barriga: nota então subir-lhe um gosto, uma segurança, uma raiva surda e um querer de rinhas. A armadura de couro e bronze é bela. Os treinos se sucedem. Numa longa sequência de fins de tarde, são apresentadas manhas, golpes, técnicas. Jeitos de sangrar e resistir. A armadura parece se nutrir da carne dele, perfeitamente integrada ao pescoço e aos membros inferiores. Agora leve, flexível como uma segunda pele, ajustada quase com a minúcia e o cuidado de um ourives. O menino o põe no colo. Aponta para um círculo riscado no quintal. Juntos, caminham naquela direção. As mãos o baixam. Ao olhar para os lados, sente-se cercado por centenas de outras mãos. Pisa pela primeira vez na arena, e por um momento julga estar diante de sua própria imagem refletida. Mas ele permanece estático, enquanto o ser à sua frente se mexe: agita, como uma flâmula de guerra, uma cauda feita de todas as cores. Pisa na arena. Nota apreensivo que o outro tinha esporas curvas como espadas mouras.

O duplo já não respira. E ele, pisando por cima daquele corpo inerte, tenta caminhar em direção ao último reflexo da casa e da cozinha. Vê Conceição encolhida junto ao fogão a lenha. A velha treme, revira uma acha, as labaredas estouram, brilham, o sol já se reclina. Solitária, sem a plateia de dias idos, Conceição eleva as duas mãos ao ar. E ele pensa: “Não é para se ver”. Mas enxerga o primeiro deles, suas asas, suas plumas de sombra envergadas, seu dorso que esvoaça traçando curvas nas paredes. Conceição contempla as próprias mãos. Outros pássaros levantam voo: lembram, ao planarem pelo teto, pelo chão, por todos os lados, uma revoada de aves migratórias em busca do calor. Negros como corvos, eles gritam, dançam ao redor do fogo. Suas figuras, ao crescerem de tamanho, recobrem pouco a pouco o teto, as panelas, as colheres de cobre e os tijolos caiados. Estendem-se sobre panos, artefatos, sobre o verde oceânico dos azulejos, e, unidos num único corpo, fundidos de súbito num todo, descem e escurecem, pousando até mesmo sobre o santo protetor. A noite quebra as vidraças. Envolve as ervas. O milho. O pilão, a máquina de moer cana. Banha a terra, seus tons de madrepérola. E um invólucro, muito semelhante àquele do qual a mulher e seu filho o expulsaram, ergue novamente suas paredes. Denso e escuro, o fluido sobe-lhe pelas pernas, pelo dorso, pelo pescoço. Os contornos do quintal desaparecem. Um vulto se desenha na escuridão. O envoltório se fecha, o último fôlego escapa da raiz de seus pulmões. Tenta firmar os dois pés bambos, mas flutua; e à deriva, suspenso naquele líquido, ainda consegue ouvir o som: o giro da roda dos ventos, sua engrenagem, seu sopro glacial, avançando pela terra como o galope de legiões em marcha.

Krishna Monteiro é escritor e diplomata. Viveu no Sudão, Reino Unido, Índia e Tanzânia. O conto “Quando dormires, cantarei” está no livro O que não existe mais (Tordesilhas Livros, finalista do Prêmio Jabuti 2016 na categoria Contos e lançado na França). Em 2018, publicou o romance O mal de Lázaro (Tordesilhas Livros). Tem contos traduzidos em revistas do México, Reino Unido e França e integrará coletânea em chinês de autores de língua portuguesa, a ser lançada em 2022.