publicações

pré-lançamento de ‘Os gatos’, de Rodrigo Novaes de Almeida

Está em pré-venda de 10 dias (6 a 16 de abril) o mais novo livro do editor-chefe da gueto Rodrigo Novaes de Almeida. Quem comprar o livro durante esse período receberá o exemplar autografado.

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Link da pré-venda:

https://www.editorapatua.com.br/produto/261518/os-gatos-quinze-historias-extraordinarias-ou-ordi

Sinopse:

Nesta nova coletânea de contos, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida traz para os leitores quinze contos inéditos nos quais gatos sempre aparecem, como protagonistas, coadjuvantes ou mesmo em sentido figurado. São histórias que nos revelam desde fragmentos do cotidiano mais ordinário, para onde podemos direcionar o nosso olhar a fim de obter o simples prazer de voyeurs, até narrativas insólitas com todos os ingredientes da mais rica tradição dos contos de terror.

lançamento do romance ‘Dilúvio das almas’, de Tito Leite

O poeta e curador da revista gueto Tito Leite, autor dos livros de poesia Digitais do caos (2016) e Aurora de cedro (2019), estreia no romance revisitando tradição realista nordestina numa linguagem a um só tempo seca e lírica.

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___sobre o livro

Leonardo volta ao Nordeste, à Dilúvio das Almas, sua cidade natal, depois de muitos anos vivendo de todas as formas em São Paulo. É um sujeito relativamente culto. Pode-se dizer inclusive que é dono de um temperamento artístico. Mas o retorno ao sertão semiárido está longe de ser idílico: a violência e a ignorância que o fizeram migrar continuam ali, apenas com personagens renovados e algumas pequenas modificações no enredo. Escrito num tom por vezes filosófico e desencantado, que contrasta com o extremo realismo das cenas e a secura dos diálogos, este é um romance potente sobre como pode ser difícil reinventar o próprio passado.

___pré-venda

O livro está em pré-venda no site da Editora Todavia e nas principais livrarias do país. Saiba mais em:

https://todavialivros.com.br/livros/diluvio-das-almas

três poemas de Flavia Ferrari

anunciação

Não é possível olhar o alto
Se o ar ao redor está todo preenchido

O espaço pode ser este lugar sufocante
Nomeado
Mas não reconhecido

Não é fácil perceber o gosto
Se o que nos cabe é um pedaço ressequido
Sem a presença de um todo
Que nos faça acreditar

Não é prudente adormecer no caminho
Precisamos chegar e registrar o nome
Para que haja uma verdade momentânea
Da partida
Do motivo
Da carne viva

Não é comum os sons perderem a validade
Música esta que canta este tempo
Em que à memória parece ruído

Não é errado esconder-se
Da figura insana
Do momento não aguardado
Da convocação que não admite recusa

Mas não é prudente ausentarmo-nos
Todos os nossos sentidos são necessários
Mesmo que não haja espaço
Nem esperança
Nenhum movimento

Mesmo sem a tua companhia
Com a qual era fácil conseguir encontrar

sombras

A sombra que está fora de mim
Desaparece
No sol poente
Na tempestade
Quando anoitece

A sombra que está dentro de mim
Desperta
Na lembrança insistente
No medo sem nome
E sempre quando anoitece

súplica

O teu colo já foi meu
Teu abraço a minha defesa
Os teus lábios o meu gozo
As tuas histórias minha memória

Meu corpo ainda é teu
Todas essas coisas
Teu lugar na cama
À mesa

Aguardo esta vida humana
Para que a promessa de eternidade
Posta em palavras há tempos
Prevaleça
E possamos ser o Antes

Flavia Ferrari, de Santana de Parnaíba-SP, é poeta e professora. Escreve contos infantis desde 2014. Começou a publicar seus poemas em 2020, no início da pandemia, mas a escrita esteve presente em sua vida desde a adolescência. Teve poemas publicados pelo Toma Aí Um Poema, Escrita Cafeína, Editora Trevo, Projeto Enluaradas e Revista Literária Pixé. É autora do livro Meio-Fio: Poemas de Passagem (Editora Toma Aí um Poema, 2021).

círculo polar, poema de Beth Brait Alvim

aos 45 graus
de um salto
arranco lascas do meu couro derretido em ácido
e com os pés em carne viva chuto o lixo das esquinas de são paulo
bem alto
até cobrir a torre da catedral e de longe
saco uma foto do topo da bela dama que tem o ar de uma senhora medieva
com seu chapéu
de longe
à la coco chanel
o lixo de são paulo
mas são apenas restos sujeira excreção

apenas o cocô em zoom
os respingos da cultura ocidental
pintarolando as bordas dos pratos brancos dos que sentam à mesa
e arrebitam o charme de buñuel na ponta dos seus narizes pontiagudos de cristais de neve ácida
e mal escondem seu esgar de cera diante de tudo que não brilha
e não é branco
como a lua

então rio e choro rio e choro rio e choro
e grunho minha solidão nos buracos das bocas de lobo ardendo em febre
e toco gasolina e umas faíscas de um cano de prata até meu coração arder no fogo do inferno
em praça pública
e cavo sete palmos debruçada no cimento coberto de merda e rachaduras de um conserto mal feito de onde saltam pontas de estrelas feito pulgas famintas um estandarte de tangerina uma dançarina de cabaré antigo um ombro direito pisoteado pela madame cleci um espadachim seminu que sempre desce a rua da consolação o terceirizado nem aí com o serviço largado coçando o saco bem na cara do corre do centro o pipoqueiro do teatro que morreu de corona e os sem teto sem buraco sem cobertor sem prato sem papel higiênico sem água sem dois metros de distância sem vacina sem nada
e corro corro corro
e me afundo na areia revirada da represa imunda e deliro
atrás de ciscos e lascas de conchas de mil anos e me afogo
até esquecer esquecer esquecer
então esfrego com sal grosso minhas retinas nas pontas dos meus seios
e rasgo com os dentes embora moles meu útero seco para que a dor de doer sem pele sem mente sem sangue sem memória sem herdeiros
seja apenas o converter-me em ossos apaziguados
como baba de leite que jaz numa esquina qualquer
até explodir a lua cheia
e perder os sentidos de uma vez no seu
círculo polar

(In: Mulherio das Letras na Lua, Portugal, 2021)

Beth Brait Alvim é poeta, escritora e atriz, fez FFLCH-USP, especializou-se pela ECA- USP, e é mestre pelo Prolam–USP. Tem poesia e prosa em veículos nacionais e internacionais. Representou o Brasil nos VI, XVI e XVII Encuentros Bajo el asedio de los signos e no Festival International de Literatura de Sonora, 2020, 2021, ambos no México. Atua como júri e curadora, ministra oficinas, e se apresenta em saraus com Daniel Joppert e em performances multiartísticas com a Orquestra SPIO, sob a regência de Daniel Carrera. Tem resenhas literárias no antigo Entrelinhas da TV Cultura, vídeos sobre sua vida e obra e entrevistas na Rádio USP, na Rádio Unesp na Rádio Valentín Letelier de Valparaíso, Chile etc. Assinou direções teatrais, e participou como atriz em espetáculos; o mais recente, Mistério do Fundo do Pote ou Como nasceu a fome, de Ilo Krugli, do Teatro VentoForte, Em 2021 atuou, redramaturgizou e produziu o podcast História de lenços e ventos, de Ilo Krugli, para o Sesc Bom Retiro. Autora de Mitos e ritos (Scortecci Editora, 1987), Visões do medo (Escrituras Editora, 2007, Prêmio PAC-Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo), A febre e a mariposa (Editora Patuá, 2018), A noite e o meio (Editora Córrego, 2019), poemas. Ciranda dos tempos — espaços do desejo, 1ª ed. 2005, 2ª ed. 2006, ensaio sobre sociologia da cultura.

três poemas de Paulo Henriques Britto

dez sonetos sentimentais (X)

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.

(de Liturgia da matéria, 1982)

nenhum mistério (X)

Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços

de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.

Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.

É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.

(de Nenhum Mistério, 2018)

fim de verão (XIV)

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.

(de Fim de verão, com previsão de lançamento para 2022)

Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951) é professor de tradução e literatura na PUC-Rio. Publicou sete livros de poesia, dois de contos e três de ensaios. Traduziu mais de 120 livros do inglês, incluindo obras de ficcionistas como Jonathan Swift, William Faulkner, Henry James e Thomas Pynchon, e de poetas como Byron, Wallace Stevens e Elizabeth Bishop. Ganhou diversos prêmios literários, como o Portugal Telecom, o da Associação Paulista de Críticos de Arte e o da Fundação Biblioteca Nacional.

três poemas de Francisca Camelo

4:40

comportamento errante
foi por isso que ele a deixou
comportamento errante
e hoje aqui estamos
4:40
num bar onde as casas de banho
se transformam numa espécie de
casa de fados em cocaína
eu só bebo
mas ainda assim
inegável a beleza
de uma casa de fados
dentro do wc de um club
onde só passam techno
o saxofonista de jazz
apanhado a dançar
diz que gosta
esta repetição em loop
de alguma forma
recorda-lhe coltrane
hoje vim aqui
à procura de alguém
que não estava
há qualquer coisa que nietzsche escreveu
sobre o desejo da
necessidade a necessidade
do desejo (é demasiado tarde
para o citar em condições)
nos fados é obrigatório o desalento
e por isso a elaine dizia
98% dos dias não sei o que faço aqui
a sara dizia
a mim só me apetece chorar
e ela não falava da nostalgia do fado
de beber demasiado e tudo junto
referia-se sim a uma cicuta diária
essa espécie de vazio inconsequente
e por isso
interminável
teimosamente fingindo
saber o meu lugar no mundo
ignorante de bênçãos coroada de
amores sádicos mas tentando
recuperar as tropas
eu agarrava o copo e
explicava, ainda que
pisando armadilhas,
falhámos mas estamos aqui
falhámos mas olha para nós
tantos gatilhos
que nunca chegámos a apertar
isso só pode ser
uma vitória
uma meta
que nunca ninguém anunciou
o homem que eu queria
não apareceu
mas olha só
estou em casa sã
estou em casa salva
e afinal
não é o amor que resgata
sou eu
e o táxi que conseguiu aparecer
apesar da chuva torrencial

falta dizer o que
ninguém diz destas
mulheres errantes
é que a solidão é o preço
a pagar pela resistência:
a errância
está no adn
como língua nativa
às vezes seria mais fácil
aprender a brincar às donas de casa
ignorar o patriarca debaixo do tapete
e os anelares encontrados
debaixo da ponte
mas é mais difícil
matar um potro
que não foge em sentido único
e desse ponto de vista
o que nos mata
será também a única salvação.
sabes, o que não se diz
nunca sobre a errância
é que quando se diz errância
diz-se sobretudo:
liberdade.

a importância do pequeno-almoço

qualquer mulher sabe que
é preciso manter as tropas:
passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de
joelhos o sarro sai melhor
quem mais poderá explicar às crianças a ausência
do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe
o pão na mesa
se o sexo é político, imagina as lides da casa
lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue
fazer a cama quando vazia
reunir no prato os nutrientes necessários
para a capitalização do pai adúltero

depois de fazer o pequeno-almoço
as mulheres-âncora atracadas à enseada
assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o
primeiro / o anterior / o pai deste
para que agora – isto não é novo —
pelo menos quinze mil machos sigam audazes.
a ideia é a de sempre:
queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar
terras que já tinham nome
reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo
enterrar a semente bem funda no colo do útero
e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas
deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café
(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar
uma pirâmide de pó, não deixar que a água toque no funil, não
ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo
certo de ebulição, mas continuando,)
vertê-lo quente na chávena de manhã
sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa
colher fruta fresca valorizar a louça lavada
não regressar nunca
à sodoma abandonada
porque nessa
o café já esfriou

quem faz o pequeno-almoço
sabe de tudo isto
retorna a casa só e as mãos
sempre invisíveis
costuram dores como contas de rosário
nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios

só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:

é que sem elas
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.

quem me comeu a carne

era no tempo em que as famílias
ainda tinham arrecadações
limpavam os esqueletos mal dobrados
e pintavam as sebes antes
que os vizinhos vissem
ou que chegasse o outono

os filhos deitavam-se na palha
e enquanto dormiam
moíam dos pais a violência
pouco a pouco
como sementes de girassol
mal maturadas

às mulheres
cresciam enigmas vermelhos
nas pernas
e enquanto alastrava o verão
deixavam de saber andar
arqueadas com o peso da ira
que se deitava sobre elas

todas as noites
as mulheres rezavam:
meu deus
quem comeu a minha carne
os meus ossos
há-de roer.

(“4:40” e “a importância do pequeno-almoço” pertencem ao livro A importância do pequeno-almoço, Fresca Edições, 2020; “quem me comeu a carne” é inédito, 2021)

Francisca Camelo nasceu no Porto em 1990: é poeta e diseuse. É cofundadora d’A Bacana, contribuidora da Enfermeira 6 e tem poemas espalhados em diversas antologias e revistas em Portugal e no Brasil, tendo sido traduzida no México, Espanha e Alemanha. Autora de Cassiopeia (Apuro Edições, 2018); Photoautomat (Enfermaria 6, 2019); O quarto rosa (semifinalista do Prémio Oceanos 2019) e A Importância do pequeno-almoço (Fresca Edições, 2020).

seis poemas do livro ‘Ando caindo cada vez mais leve’, de Carla Andrade

morte

é essa navalha da sorte
(sem espada de São Jorge)
o mais incicatrizável corte
em quem não morre
é a culpa do mais forte
é o lorde de sangue porte
é a tripa que o vácuo torce
e nunca se contorce por si só

barricada

Do amor entulhei cada centímetro do fogo
cataloguei os arrepios bestiais
e a saliva escorre em vultos.
Mas agora as portas estão fechadas.
Com meu velotrol limpo o invisível entre os tacos
e os raios do sol asteca querem ser honrados
(esse sol também tão solitário).
Com medo, me lembro do poeta:
“Da vida não se sai pela porta:
só pela janela”.
E ela está escancarada.

os galos continuam tecendo a manhã

a criança pinta os pés
da galinha de esmalte
miúdos na bacia
de alumínio da mãe

o pai fala para o filho
que vai quebrar seu pescoço
se ele entrar no mar de novo

a criança quebra o pescoço da Barbie
a mãe fala que
não vai comprar outra
a mãe e a filha com as unhas pintadas

Os poetas não deixam em paz:
o mar
a galinha
as crianças
os pais

hoje, parece que os
galos cantaram menos.

depois da vacina

cortar as unhas afiadas
para escalar o poço da sarjeta
reconstituir todas as cabeças
oferecidas de bandeja
grudar os umbigos
no resto de placenta do planeta

destruir todos os espantalhos
esses que fingem ser humanos
não deixar atalho algum
de como voltar a este ano

carregar os ossos deslocados
de todos os antepassados
colar as partes em laços
nadar com os sargaços
fazer deles nossos braços
veias e passos

Aí, sim, encostar
as palmas das mãos
no rosto de Deus
e voltar como um raio
apenas um raio
mas não sozinha
viva pela primeira vez.

empatia mórbida

tenho a cabeça de alfinete
de uma abelha num repente
ao tentar cruzar
a porta translúcida
no poente de vidro
no chão
se acaba

tenho a cabeça espatifada
de um homem numa caraça
ao tentar puxar o ar puro
em caça à procura
com medo desse ar tão largo
e que na cama se acaba

somos parecidos
queremos trocar
no mais abissal
submarinos
venenos
ferrões

no pranayama
das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia
na arquitetura das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia

e andam varrendo todos os mortos
sem olharem para suas asas

besta

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo bicho dela senta
no canto do labirinto
do cérebro e se contorce
com o manto
de dez a quinze minotauros

Quando um homem bate em uma mulher
o olho dela vai pro canto
e tem a cor de azeitona
já mordida e com caroço

Quando um homem bate em uma mulher
todos os marimbondos do tórax
saem pela sua boca
mas ninguém vê

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo dela depena
e seu sangue ferve
numa bacia de prata
(os pedaços são dados aos cães
como se eles entendessem
o barulho minguado
da lua de suas tripas)

Quando um homem bate em uma mulher
ele sempre tem forma
de pino ou garrafa
e ela desfigurada

Quando o homem bate em uma mulher
ela sabe que jamais poderia ser um homem

| poemas do livro Ando caindo cada vez mais leve (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Carla Andrade é mineira e brasiliense, mas gostaria de ser do fundo do mar. Tem outros quatro livros publicados: Caligrafia das nuvens (Editora Patuá), Voltagem (Editora 7Letras), Artesanato de perguntas (Editora 7Letras) e Conjugação de pingos de chuva (LGE Editora). Alguns de seus poemas foram traduzidos para o italiano, espanhol e inglês. É jornalista e servidora pública.

trecho inédito do romance policial ‘Corpos hackeados’, de Andrea Nunes

Prólogo

Antônio nem suspeitava que aqueles seriam os seus dez últimos minutos de existência.

Com o documento de alta hospitalar finalmente assinado, sentia, na verdade, como se tivesse nascido de novo.

Ele passou a mão no queixo, os dedos brincando com a barba de três dias que negligenciara durante a internação, enquanto analisava tudo o que lhe acontecera.

Aqueles haviam sido os dias mais agitados de sua vida, pois tinha dado entrada num hospital beneficente para retirar uma pedra nos rins, que vinha incomodando-o há semanas, e fora muito bem atendido ali. Na verdade, bem atendido demais para os padrões da saúde pública brasileira.

Depois de uma bateria de exames, foi mandado para casa, deixando contatos para ser avisado quando surgisse uma vaga para a intervenção cirúrgica.

Ficou surpreso quando a moça de sapatos scarpins de verniz bateu em sua porta dois dias depois, lá na comunidade, dizendo que era do hospital. Não esperava que alguém viesse pessoalmente avisar sobre a vaga para a cirurgia. Nem esperava que essa vaga surgisse tão cedo.

A moça, jovem e educada, sentou-se na beira de sua poltrona com um maço de papéis na mão, e disse que, segundo as informações levantadas pela equipe de colaboradores do hospital, Antônio “atendia ao perfil econômico” da proposta que eles pretendiam fazer.

Antônio ficou cismado. Aliás, estava chateado: será que não iam mais tratar seu cálculo renal na cota beneficente? Será que o expulsariam do hospital, como acontecera com sua vizinha? Lembrou-se de que a coitada tinha ido extrair uma hérnia e descobriram que ela tinha plano de saúde, portanto não poderia se tratar de graça.

Bem, no caso dele não poderia ser isso, pois ele não tinha plano de saúde há muitos anos. Desempregado, vivia de biscates e virações para poder dar alguma contribuição nas despesas da filha Edilane, que vivia com a tia desde a morte da mãe.

Edilane era a coisa mais preciosa na vida de Antônio, e todo trocado extra que entrava no bolso ele destinava para comprar roupas novas para a menina, que estava ficando mocinha e precisava se arrumar melhor.

Foi por causa de Edilane que ele dissera “sim” para a moça dos sapatos de rica que o visitara naquele dia, com aquele sorriso esticado. Ele se lembrava, sobretudo, dos dentes. A boca arreganhada de simpatia parecia, na verdade, um tanto assustadora para ele. Antônio, que era um zé ninguém, vivendo à margem da sociedade, encandeou-se com aquela brancura dental. Não havia muitos sorrisos do tipo Colgate em sua vida.

Mas essa visitante era só o que eles chamavam de “aliciadora”. Um raminho insignificante da organização. Alguém que sabia que ele era um pai solteiro, devotado à filha e com grandes dificuldades financeiras. A mulher tinha até os registros da transferência da filha dele da escola particular para a pública, e o preço da aula de judô que ela havia pedido, mas que ele não pôde pagar. Essa aliciadora explicou que ele poderia receber um bom dinheiro se quisesse vender o rim. Na verdade, o processo seria bem simples, só precisava assinar uns documentos, umas procurações, coisa de rotina. Ia ser operado no mesmo complexo hospitalar onde comparecera para fazer os exames. O Hospital da Fundação Bio recebia pacientes do SUS porque era dedicado às atividades filantrópicas desenvolvidas pela Fundação. Mas Antônio seria operado num local diferente: a ala clandestina, que funcionava num bloco supostamente desativado do complexo hospitalar.

As autoridades que comandavam o local não teriam como suspeitar de que, numa ala onde só funcionava oficialmente a lavanderia hospitalar, funcionavam também pequenas salas de cirurgia clandestinas, camufladas sob o disfarce de área isolada para obras de reforma. Antônio daria entrada pelos canais normais do Hospital da Fundação Bio, mas, em vez de extrair a pedra no rim direito, seria discretamente removido para a ala clandestina para a extração do rim esquerdo, saudável. Passaria uma noite internado ali e, depois, seria transferido para a pousada que a organização mantinha perto do hospital, para a recuperação completa. Tudo parecia muito simples e organizado. Naturalmente, ele não poderia dizer nada a ninguém. Viveria muito bem com o outro rim, e poderia ter uma vida mais confortável, já que o dinheirinho daria para saldar as dívidas e ainda dar entrada no próprio negócio.

Não era isso que Antônio estava esperando, afinal? Pensou logo em Edilane, que arregalaria os olhos quando ele lhe comprasse aquela calça jeans de marca que havia visto outro dia, no shopping. Ela não pedira, é claro. Mas ele notara o olho comprido da menina quando passaram pela frente da vitrine, a cobiça da adolescente que a fizera interromper o passo por uma fração de segundo diante da peça de roupa. Depois, seu coração de pai encolhera ao ver o quão rapidamente ela se recompôs, desviando os olhos com fingida desatenção, para não ser flagrada desejando o que não era para o seu bico. Antônio odiou aquela resignação platônica de quem se habituara a não poder ter. Aquilo estava doendo cada vez mais: não poder dar pequenos luxos à filha. Mocinhas adoram se vestir na moda, e Edilane, por mais simples que fosse, não era diferente…

Quando ele assinou a papelada, não chegou sequer a ler aquelas letras tão pequenas. Estava pensando mesmo era no box que vira para alugar no mercado público, onde poderia montar seu armarinho quando a grana entrasse. Só Deus sabia como aquele dinheiro viria em boa hora.

A ficha de Antônio só caiu de verdade quando entrou no pequeno bloco cirúrgico clandestino. Deu por si somente quando percebeu as rodas da maca que o conduzia trepidando suavemente ao deslizar, as luzes redondas da mesa de cirurgia circundando sua cabeça, e dois pares de olhos frios por trás das máscaras cirúrgicas se aproximando, cercando-o como abutres que rondavam a presa.

O pânico o atingiu com força quando avistou os instrumentos cirúrgicos. Pelo amor de Deus, eles iriam mutilar seu corpo! Extirpariam um rim saudável, numa clínica clandestina que tinha o insuspeitado status de obra pública abandonada. E ele poderia morrer ali. Para todos os efeitos, seu corpo voltaria para a “ala oficial” do hospital e aquilo seria apenas uma fatalidade na extração desastrada do cálculo que ele tinha no outro rim!

Olhou de novo para o sinistro halo luminoso de luzes cirúrgicas em torno de sua cabeça e enxergou a cena tal como ela era: a auréola, o mártir, a penitência e a morte. Ele jazia impotente num altar forrado de branco, um cordeiro manso sacrificado em oferenda… ao quê?

A nada!

Nem morto ele seria alguém. Não haveria um minuto de glória sequer! Quem é que se importaria com uma coisa dessas? Gente pobre morria aos montes por falta de estrutura nesses hospitais…

Ficou surpreso por ter conseguido dar um pulo e correr. Não houve barreira humana nem física que tentasse impedi-lo, que o forçasse a ficar naquela sala de cirurgia.

Apanhou a calça que ficara pendurada na antessala do bloco cirúrgico, e meteu-a pelas pernas de qualquer jeito. Não houve tempo para calçar os sapatos, pois nesse momento começou a escutar os passos que vinham em sua direção, e entendeu que precisava sair dali. Mesmo estando naquele ambiente sombrio e deserto, seu senso de orientação o fez seguir na direção do barulho constante dos equipamentos da lavanderia industrial, que era por onde se dava a entrada daquela ala clandestina. Ele lembrava disso.

Guiando-se mais pelos sons e lembranças, ele se viu entrando pela única porta que dava acesso ao ruído metálico daquelas máquinas. Dali, atravessou um cubículo escuro cheio de sacos de roupas. Não atinava como tinham passado a sua maca por ali, mas se lembrava bem do cheiro ruim daqueles sacos. Estava no caminho certo. A porta que alcançou do outro lado dava acesso a um ambiente bem mais amplo e ventilado. Não havia funcionários ali, e ele atravessou aquela sala repleta de lavadoras e secadoras gigantes que emitiam rosnados ensurdecedores, correndo e se esgueirando como se fosse ele o bandido. Foi daquele modo que saiu da lavanderia e, consequentemente, do pavilhão abandonado.

Depois daquilo, ele não saberia dizer se correra por horas, ou por minutos. Os rostos e salas pelos quais passou ficaram registrados vagamente, como borrões em sua memória. Em determinado momento, notou que já havia alcançado a parte não clandestina do hospital, onde pacientes normais, médicos e enfermeiros circulavam tranquilamente. Mas se perguntava onde diabos ficava a saída.

Não demoraram a encontrá-lo, perdido na imensidão daqueles corredores. Percebeu que, ao abordá-lo, todos foram amáveis e compreensivos. Disseram que ele não precisava se preocupar, pois aquela era uma reação comum nas pessoas, que ficasse sossegado, porque eles compreendiam a desistência da cirurgia.

Antônio estranhara um pouco a insistência daquelas pessoas ao perguntarem se ele havia recebido visitas ou entrado em contato com alguém pelo telefone, nos momentos seguintes à sua escapada da ala clandestina, antes de ser localizado e reconduzido para o quarto onde antes aguardara a cirurgia, na ala oficial do hospital.

Ele não soube bem ao certo o motivo de ter ocultado daquele médico que o visitara no quarto o breve encontro que tivera com sua filha.

Antônio quase esbarrara com Edilane em sua “fuga” pelo corredor da enfermaria, poucos minutos antes de ser localizado pela equipe médica. Mas costumava ser muito cuidadoso com tudo o que dizia respeito à filha, e um pouco intuitivo também. Olhou nos olhos do médico e simplesmente decidiu que não era necessário contar que havia visto a menina depois de tudo o que passara naquele dia.

Mas o doutor parecia muito gente boa, e ele até relaxou um pouco durante a conversa. Falaram de futebol, do desempenho dos seus times no Campeonato brasileiro, e ele comentou que estava assinando sua alta. Acrescentou casualmente que, se Antônio mudasse de ideia nos próximos dias, talvez ainda estivessem precisando do rim. Prescreveu alguns analgésicos e calmantes, e disse que Antônio fizesse novos exames do cálculo renal em três meses. Ainda estava muito pequeno para precisar de cirurgia. Fez uma ligeira observação sobre a pressão arterial de Antônio, que sofrera um pico hipertensivo por conta da emoção, e recomendara mais duas horas de descanso com medicação anti-hipertensiva intravenosa. Depois, estaria liberado, acrescentou o médico, com uma piscadela.

Quando a enfermeira muito jovem entrou no quarto duas horas mais tarde, com um estetoscópio pendurado no pescoço, Antônio ficou satisfeito ao perceber que finalmente iria embora dali.

Ela aproximou-se com olhos muito tranquilos e, enquanto checava a auscultação cardíaca, comentou que a pulseira hospitalar que Antônio usara deveria ter caído durante a correria que ele empreendera nos corredores do hospital. Então, perguntou como estava se sentindo.

— Agora estou bem. Acho que minha pressão deve estar bem baixinha, porque estou até com sono. Meus olhos estão muito pesados — comentou Antônio, intrigado em perceber que sua voz também estava pastosa, a língua enrolando ao proferir cada palavra.

A jovem deu um sorriso rápido enquanto conferia o soro e informou:

— O senhor foi dopado com um calmante muito forte nessa medicação. Na verdade, é comum no protocolo hospitalar ministrar calmantes em crises hipertensivas decorrentes de descontrole emocional.

Ele ficou ligeiramente alarmado quando viu a moça suspender seu braço esquerdo, que estava tão inerte a ponto de ele mal conseguir mexer os dedos.

— Acho que a dosagem foi um pouco forte demais… — comentou, lutando para permanecer atento enquanto ela desembrulhava uma seringa e cutucava a axila do braço suspenso, aproximando a agulha do seu corpo.

— O que voschhê… colocou… nesshha injeção para mim? O que… exxtá… fazendo?

Os olhos da mulher assumiram um brilho frio que conseguiu arrepiar a nuca de Antônio, mesmo em seu estado de torpor. Ela levou a seringa vazia para o campo de visão dele, puxando o êmbolo de modo que se enchesse de ar, enquanto sussurrava:

— Na verdade, Antônio, como você vê, não há absolutamente nada nessa seringa. Só ar. E eu vou realmente aplicá-la em você agora, bem na sua axila.

Ele comprimiu os olhos pesados e sacudiu a cabeça:

— Nhã há nada aí? Mashhh… que diabo…

A frase foi interrompida pelo pequeno espasmo de dor que ele sentiu quando a agulha penetrou em sua carne, num ponto específico da axila esquerda.

— Não há modo mais eficaz de simular um infarto natural do que injetar ar no seu sistema circulatório bem nesse ponto, Antônio. Chama-se embolia gasosa.

A pupila de Antônio dilatava de pânico enquanto assistia, completamente inerte, a narrativa de seu fim, em tempo real, pela voz calma de sua assassina.

— Não se preocupe, você morrerá muito rápido. As bolhas de ar obstruirão seus vasos sanguíneos em instantes, e a morte será limpa e discreta.

Lágrimas se acumularam nos cantos dos olhos de Antônio. Não era mais possível distinguir se era dor ou medo. Ele engolia em seco de modo compulsivo, como se tentasse degustar os últimos segundos de consciência.

— Sabe por que adotamos esse método? É que nenhum perito médico legista, por mais minucioso que seja, procura por uma picada de agulha entre os pelos da axila de um infartado para averiguar se esse infarto foi provocado…

Sinopse

O futuro parece ter chegado mais cedo no Nordeste do Brasil quando uma das fundações mais ricas do país financia ali um projeto revolucionário sobre bioimpressão de órgãos humanos. Através dele, será possível implantar em pacientes com doenças terminais órgãos biológicos impressos em laboratório, dando a eles uma sobrevida inesperada. Mas, quando os pacientes voluntários desse projeto começam a morrer em circunstâncias misteriosas, aparentemente acometidos por um surto de perturbação mental, uma auditora da seguradora do hospital da Fundação e o cientista que desenvolveu o projeto mergulham numa corrida alucinante para desvendar quem está por trás de tais mortes. Para descobrir o enigma por trás dos assassinatos, os protagonistas precisarão compreender como pensam os inimigos do mais revolucionário projeto da Medicina atual, enveredando nos segredos do Corpo Humano escondidos no teto da Capela Sistina, e nos símbolos da Cabala. Precisarão também se deparar com as consequências filosóficas, políticas e psíquicas de reinventar o conceito de corpo através da engenharia genética. Se deslocando em cenários que variam do esplendor de Roma aos lúgubres cemitérios de um mundo pós-pandemia, terão de dar o melhor de si para desvendar essa trama, lutando contra suas limitações pessoais e seus próprios monstros. Na sua nova trama, Andrea Nunes une arte renascentista, tecnologia genética de ponta, tráfico de órgãos e outras das mais modernas formas de criminalidade contemporânea, lançando questionamentos inquietantes ao leitor sobre o bem, o mal, a ética e o que nos define enquanto Humanidade.

| trecho inédito do romance policial Corpos hackeados (Editora Cepe, no prelo; lançamento previsto para novembro de 2021. |

Andrea Nunes é promotora de Justiça em Pernambuco, membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror — Aberst, e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba. Publicou os romances policiais O Código Numerati, em 2010, A Corte Infiltrada (Editora Buzz, Prêmio Bunkyo de Literatura 2019) e Jogo de Cena (Editora Cepe, Prêmio Aberst de Literatura 2019). Andrea também recebeu a menção honrosa no prêmio Dulce Chacon da Academia Pernambucana de Letras — melhor escritora nordestina (2015). Participou da Printemps Littéraire Brésilien, a convite da Universidade da Sorbonne, palestrando sobre literatura entre os anos de 2015 e 2017 nas universidades da França, Alemanha e Portugal, e foi convidada pela Universidade de Kopenhague e pelo grupo de estudos em literatura brasileira contemporânea para o VII Colóquio internacional sobre literatura brasileira contemporânea, realizado em 2018 na Dinamarca, onde proferiu palestra sobre a literatura policial brasileira. Foi ainda indicada pelo colunista e escritor Raphael Montes como um dos sete novos autores brasileiros para ler e se divertir, na sua coluna no jornal O Globo do dia 17.07.2017.

poema de Maraíza Labanca

Do livro A terra O corpo (Cas’a edições, 2021).

O pensamento em sua origem
— aqueles núcleos obscuros,
mais vastos que a terra, dentro,
lentamente,
têm o máximo de intensidade —
o influxo, na dosagem
de calor.

Restava equiparar as manchas
à irradiação do grande astro, ao fastígio
torturado de uma e outra.

Em que pese a sua forma,
uma aproximação rigorosa,
uma causa.

Porque a complexidade imanente
aos fatos concretos se atém,
progredindo da natureza do solo
extensa
à definição do que quer que seja

— sem leis —

Sujeita às perturbações locais,
a reações mais amplas,
às correntes, à monção
dos planaltos interiores:

são, no estio, atraídos ao entrar
dezembro pelas costas, desnudo,
irradiando toda a umidade
absorvida na travessia dos mares.

Canaliza-a, correndo em direção
àquele vento — um dizer natural, fora
de limites, prolonga-se, até que reabre,
outra vez, este intervalo:

a longa faixa de calmas,

o lento oscilar em torno,

o zênite,

levando a borda até os extremos,
de leste a oeste.

De súbito, mais íntimo, o destino
agitado dos alísios — irremediável —
chega de improviso, desnuda
a sua própria intensidade.

Os ares aquecidos entram.

Entrechocadas, uma e outra, de tufões
violentos, alteiam-se, retalhadas
de raios, nublando, em minutos,
o firmamento todo,

desfazendo-se,
logo depois, em aguaceiros fortes

sobre os desertos.

CAPA NOVA-supremoMaraíza Labanca nasceu em 1984, em Belo Horizonte. É doutora em Literatura Comparada pela UFMG e uma das editoras da Cas’a edições. Trabalha também com oficinas de escrita literária no Espaço a’mais. De sua autoria, publicou os livros Refratário (2012), Rés — livro das contaminações (com Erick Costa, 2014), Partitura (2018), Exceto na região da noite (2019) e A terra O corpo (2021).

cinco poemas do livro ‘Quênia — Poemas de viagem’, de Michaela Schmaedel

* * *

Homem
do Kilimanjaro
eterno
recém-chegado
feito pedra
espreita o mundo.

Feito homem
sente a queda.

áfrica

A máscara
pendurada
na sala

que espanta
o mal infinito
que nos ronda

o agouro
que nos liga
ao divino

é também
uma maneira
de olhar
a boa sorte.

samburu

O barulho discreto
das folhas das árvores
junto ao rio.

Um elefante
come capim
no calor extremo
do pico-vulcão.

Homens consertam
a cerca entre risos
e observam:

a constância é uma
forma de resistência.

* * *

Círculos crescem
nas mãos das mulheres
do Quênia.
Lavam roupa
fazem comida
trabalham nas hortas
lojas mercados
de mel.
Levam o país nas mãos
as mulheres circulares
do Quênia.

nakuru

Árvores mortas
no lago
há muito tempo
a água parada
nenhum pássaro
ou ninho em andamento.

Desabitado coração
da paisagem.

capa_quenia| do livro Quênia — Poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), disponível no [link]. |

Michaela Schmaedel (1976) nasceu e mora em São Paulo, é editora de cultura e poeta. Autora dos livros Coração Cansado (Editora Penalux, 2020) e Quênia — poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), está presente na antologia As mulheres poetas na literatura brasileira (Editora Arribaçã, 2021). Escreve resenhas para jornais e revistas e faz a edição do podcast Poesia pros Ouvidos.