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mais uma Maria, de Christiane Angelotti

Maria Luiza tinha apenas sete anos quando deixou a casa da mãe na cidade de Descalvado, interior de São Paulo. Daquela época ainda guardava na memória as brincadeiras com os irmãos menores na rua. Havia outras crianças também, mas não se lembrava mais delas. As risadas infantis, a poeira do chão de terra, a bola colorida rolando e levantando poeira. Dos dois irmãos só conseguia lembrar da fisionomia da irmã do meio, Maria Rita. Maria Rita, então com três anos, era a sombra de Maria Luiza. Onde ela ia a pequenina a seguia com seus passos trôpegos. Tomás era o bebê chorão. Dele, lembrava-se apenas de estar sempre no colo da mãe e de mamar. Talvez o leite fosse pouco, pois o pequeno esmurrava o peito da mãe e gritava e chorava. Maria Luiza vivia com raiva dele.

A mãe era uma mulher triste e cansada em sua memória. Fugira com os filhos de um marido alcoólatra que a espancava. Maria Luiza recorda dessas cenas, embora se esforçasse para esquecer. Mas eram delas que reteve mesmo os detalhes, para sua tristeza.

Não conseguia se lembrar do rosto do pai, apenas das cenas de violência, do barulho de garrafas quebradas e do medo que sentia quando ouvia que ele havia chegado em casa. E do cheiro dele também. Era um odor forte de álcool. E isso lhe causava repugnância, mesmo depois de tantos anos.

A nova vida era difícil. Raramente tinham algo para comer. A mãe trazia pão, mas era raro. O leite que ganhavam de vizinhos era diluído em água para alimentar os quatro. Por vezes, Maria Luiza não via a mãe comendo e, como era criança, nem imaginava que os adultos também comem. Quando a barriga doía de fome a mãe fazia uma mistura de água com açúcar e os colocava para dormir.

Uma manhã, a menina acordou com os gritos da mãe que sacudia o pequeno Tomás com força e desespero. O caçula havia morrido de fome. Era o que diziam aos cochichos os vizinhos que vieram à porta ver o que havia acontecido, alguns com olhares de julgo, outros de comiseração.

Após a morte de Tomás a mãe passou dias catatônica. Não falava com as filhas, não se levantava para nada. Maria Luiza preparava farinha de milho com água para as três.

Foi em uma tarde, dias depois da morte de Tomás, que bateram na porta do casebre de três cômodos, cozinha, banheiro e a sala que servia também de quarto para a família, três senhoras bem vestidas. Uma delas parecia ser conhecida da mãe, e vieram lhe fazer uma proposta. Até que ela se recuperasse da morte do filho e arrumasse trabalho, Maria Rita ficaria sob os cuidados de uma das senhoras e Maria Luíza ficaria com a outra. Prometeram-lhe escola para as meninas, roupas, comida e que seriam cuidadas como pessoas da família. Daquela tarde, Maria Luiza só se recorda do olhar da mãe, longe, como se estivesse sem vida, e do choro da irmãzinha que não queria soltar sua mão.

Maria Luiza viajou de carro com dona Solange e um motorista por tantas horas que não saberia dizer. Imaginou que sua nova casa seria longe. Comunicaram-lhe que era no Rio de Janeiro, que tinha praia, mar. Mas como ela nunca havia saído de sua região, não tinha muita ideia de onde estava indo morar.

Logo em sua primeira noite no novo lar, Maria Luiza dormiu em um quarto que disseram que seria seu a partir daquele dia, um dormitório sem janelas com um colchão e um pequeno banheiro, nos fundos da casa de Solange. A menina sentiu medo, pois foi trancada lá sem nenhuma instrução.

Na manhã seguinte recebeu um copo de leite e um pão com manteiga de café da manhã, roupas novas e itens de higiene. Recebeu também uma caneca de porcelana, prato e talheres que seriam de uso exclusivo dela, não podendo usar outros utensílios da casa para se alimentar.

Solange lhe apresentou seu marido, Jonas, os cômodos da casa e o cachorro Pepe. Passou a chamá-la de Marta. A menina estranhou e a mulher explicou que Maria era um nome muito comum e que teria novos documentos com o nome de Marta.

Em sua nova vida Marta aprendeu a limpar a casa, fazer a comida e lavar e passar as roupas. Marta tinha horários rígidos para acordar e fazer suas tarefas. Podia assistir televisão com o casal, sentada no chão, à noite, após deixar a cozinha toda arrumada, e apenas nos dias em que permitissem.

O tempo passou e o dia de ir à escola nunca chegou. Marta só podia sair de casa acompanhada de Solange para ir à feira e ao mercado. Enquanto limpava o quintal ou estendia as roupas no varal, via as crianças na rua brincando. Lembrou-se que era criança, será que poderia sair para brincar?

Na primeira vez que Solange a viu cumprimentar uma criança da vizinhança levou uma surra ao entrar em casa. E assim a menina foi tendo cada vez mais medo de Solange e de seu marido.

Jonas também batia em Marta. Se ela falava mais alto, se demorava para levar algo que pediam, se a comida ficava salgada ou o arroz passava do ponto. As surras dele eram as piores, pois ele batia usando um cinto.

O único momento de brincadeira de Marta era com o cachorro da família. Quando recebiam amigos a menina era trancada em seu quarto. Quando o filho do casal ia visitá-los com a esposa, a menina era proibida de interagir com eles. Certa vez ouviu Solange dizer ao filho que ela tinha problemas e quase não falava. A esposa dele, Graça, lhe dirigia um olhar gentil, mas nunca tentou saber mais sobre ela.

A vida de Marta era cerceada de todas as formas. Havia dias em que mal via a luz do sol, quando era castigada por algum mau comportamento e trancada novamente no quarto dos fundos.

Viver assim era quase um não viver. E Marta mal tinha ideia do que havia do lado de lá do portão. Nunca havia visto o mar, como fora prometido. Não sabia ler nem escrever.

Os anos se passaram. Pepe morreu. Marta sofreu muito com a perda. Já tinha quinze anos e sua vida era a mesma. Alegrava-se quando as crianças de Júnior e Graça chegavam para visitar os avós. Nessas ocasiões ela podia cuidar das crianças e brincar com elas. Alice, de cinco anos, era sua preferida, pois lembrava sua irmãzinha.

Mais cinco anos se passaram e Marta, agora com vinte anos, acompanhava Jonas na sessão de fisioterapia no hospital. Ele sofrera um derrame e tivera várias sequelas. “Bem feito!”, pensava Marta. Mas logo se arrependia, pois era ela quem cuidava de Jonas debilitado e trocava suas fraldas.

A família precisou contratar uma enfermeira para ficar durante o dia. Elza era seu nome. Ela tentava conversar com Marta, estranhava o fato de a jovem não conversar. Escreveu-lhe um bilhete, recebido pelas mãos trêmulas de Marta. A jovem não sabia ler. Picou o papel e jogou na descarga com medo de ser descoberta por Solange.

Pouco tempo depois Jonas veio a falecer. Elza não apareceu mais. Marta continuou a cuidar da casa sob os olhares de Solange. Permanecia trancada no quarto com frequência cada vez maior. Certa vez passou o final de semana trancada e sem comida.

No ano em que Marta completou vinte e dois anos, em uma manhã morna de outono, Solange saiu para fazer compras e não retornou. Marta achou estranho. Passaram-se dois dias. Ela não sabia usar o telefone e era proibida de atendê-lo. Fora espancada mais de uma vez por isso.

No terceiro dia, o filho de Solange apareceu. Marta soube que Solange havia sofrido um mal súbito na rua e morreu antes de chegar ao hospital.

Marta correu para o quarto dos fundos, trancou a porta e chorou.

| publicado originalmente na revista Vício Velho em setembro de 2019 [link]. |

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.

três poemas do livro ‘Inquietações em tempos de insônia’, de Leonardo Tonus

um homem de bruços

o tempo já não há.
há um homem na cama.

coladas ao lençol estão suas mãos.
a pulsação arterial é de 65 bpm.
a temperatura estável.
os músculos intercostais se contraem do homem
cujas costas arquejam
nu.

concentro-me em sua respiração.
no diafragma,
na boca que relaxa o gás carbônico,
o oxigênio de um mundo
que o abandonou,
ofegante.

deito-me ao lado do homem,
do rosto virado ao meu.

adivinho suas perdas,
profundas perdas no corte do pescoço
da mão suspensa
que acaricia seu corpo:

_____o corpo de um homem de bruços que expira
_____em seus lençóis de alfazema.

menino-pássaro

uma palavra morreu na calçada solitária.
uma palavra abandonada, no meio-fio,
que ninguém notara.

palavra cuja morte
nenhum jornal notificara,
tampouco eu, ao sair de casa,
e pisar o corpo inerte ainda morno da palavra
com a qual, há anos, no exílio, já não sonhava.

viver no exílio é viver o exílio das palavras
na possibilidade de todas, que é nenhuma.
acordar no exílio é acordar com as palavras
se sobrepondo uma a uma em nossas retinas,
girando a mistura de uma ilusão contínua.

à força de me aventurar pelas palavras
perdi seus rastros,
apaguei os vestígios de seus sonhos
que hoje sonho no eco oco
de um mundo mudo
sem ruídos.

há anos deixei de cantar a palavra
que às janelas emudeceu.
da copa das árvores silenciou a palavra
os órfãos epiléticos de meu bairro
que, pelas ruas frias e úmidas,
deambulam à sua procura.

repito: a palavra hoje morreu,
anônima,
às seis horas da manhã.

ela morreu sem pré-aviso,
devedora de sonhos aos pássaros
que de seus ninhos continuam a cair.
morreu a palavra alçando sonhos até as mãos
em sonho de um menino,
de um menino-pássaro,
sem palavras.

capa_inquietacoesfui. foste.

porque doravante serás o des-
reencontro:

_____tu,
_____meu país,
_____que um dia foste.

| poemas do livro Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019). |

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal, Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019).

certezas, de Sergio Leo

Acho que acabava de abrir uma garrafa de cerveja quando vi o primeiro crocodilo, ou assim me pareceu; como se um pedaço da carapaça pardacenta do bicho deslizasse acima da linha d’água por segundos, para submergir rapidamente em seguida. Não tive tempo de avisar Marina, distraída na popa da pequena lancha de motor discreto, nem Marcelo. Ele, apoiado no banco de madeira do barco — ou ligeiramente inclinado em minha direção, sorrindo, as duas imagens se confundem na memória — tagarelava, falando mal das nossas origens.

Creio que não cheguei a comentar sobre o bicho. Marcelo ou Marina, naturalmente, duvidariam da aparição de um réptil, tranquilo, a passeio em um canal europeu. Não me lembro se tiveram essa reação. Seria previsível, bem provável, mas, se aconteceu, não mudou a falta de rumo da conversa, frouxa, distraída.

É possível eu não ter mencionado o animal, e notado, apenas, as poucas garrafas plásticas de água mineral e latas de cerveja boiando, por perto. Deve ter sido, aliás, um comentário sobre canais e sujeira que levou Marcelo a falar das tantas vantagens de viver sob costumes da Holanda.

“Imagina se os holandeses, e não os portugueses, tivessem colonizado o Brasil”.

“O país seria um imenso Suriname”.

Marcelo riu; e levei um tapa no braço. Nada disso, camarada.

Eu não sabia nada de ocupação holandesa, nem imaginava o que Nassau fez em Recife e Olinda. De como era democrática a política no Brasil holandês. Do financiamento pioneiro aos usineiros de cana de açúcar.

Não, eu não conhecia nada, não tinha ideia, nem sabia se ele estava falando a verdade ou confundia a história. Mas, se progresso fosse financiamento a usineiro, o Brasil, hoje, seria uma Suécia.

Marina riu alto. Você é um idiota, ela disse.

Eu sempre fui um idiota. Não lembro se concordei, rindo também, ou se fiz algum gesto amistoso, enquanto aproveitava para me recostar no assento, entorpecido pelo calor, meio hipnotizado pelas oscilações do barco.

Talvez tenha sido, aquele, o momento em que vi o segundo crocodilo, algo que poderia ser o topo da cabeça do bicho, de olhos opacos, aflorar por um instante na superfície cinzenta do canal e desaparecer em uma espuma amarelada, fazendo rodopiar um copo de plástico também acinzentado. Uma janela amarela refletida na água tremulou, mais adiante, num movimento que pareceu, por um momento, provocado pela passagem de um bote, à direita do nosso, ou por algum animal submerso, grande, lento.

No restaurante, foi Marina quem passou cuspir no país em que nasceu. Alguma coisa sobre nossa incapacidade de usar lixeiras, a falta de regras e respeito aos outros. Ou isso das lixeiras ela havia dito no barco, já a caminho do hotel.

Complexo de vira-lata, eu disse. Vira-lata é elogio, ela respondeu. O vira-lata é independente, ladino, um sobrevivente que aprendeu a explorar ou evitar o ser humano, conforme o caso. Sem dívidas com a humanidade. Quem é submisso, de saúde frágil, bajulador e previsível é o cão de raça, o fifi da madame.

Marina era boa de argumentos. Mas, agora, já não lembro se foi mesmo ela ou Marcelo quem veio com essa história de vira-latas e cachorros com pedigree. Poderia ter sido ele. Lembro vagamente de ambos discutindo sobre vídeos de gatos no Facebook e como os detestavam mas não conseguiam deixar de vê-los, todos. É possível que essa história de gatos tenha surgido depois da conversa sobre vira-latices. Eu tinha abusado do vinho. E pensava, calado, como sobreviveriam os crocodilos, em canais urbanos, por mais limpos que fossem — e esses não eram limpos, nem de longe. Talvez os bichos estivessem acostumados, por anos de sujeira; talvez a sujeira os tivesse atraído. Fosse no Brasil, quem sabe, eu veria capivaras.

Não sei se saímos tarde do restaurante porque havíamos chegado tarde, ou porque nos demoramos no almoço; lembro que abri a porta para Marina, Marcelo veio atrás, os dois argumentavam, concordavam, e soltavam palavras desbotadas, que se dobravam sobre si mesmas assim que pronunciadas, e rachavam ao tocar o chão, seus pedaços bicados pelos pombos, em meio a migalhas de pão, restos de comidas, resíduos de turistas. A luz da tarde deixava reflexos amarelados nos olhos de Marina, tornava enrugada a pele de Marcelo, me feria os olhos.

Falavam, os dois, àquela altura, de uma notícia, lida no avião, sobre salários absurdamente altos de professores de ensino médio em alguma capital brasileira importante. Não me recordo se usaram exatamente esse adjetivo, mas acho que não prestaram atenção quando lhes disse que, convertidos em dólares, absurdo era o muito pouco que as escolas pagavam para ensinar.

Talvez eu nem tenha falado, só pensado nisso, ao ouvir de Marina que era compreensível pagar o triplo a funcionários do Banco Central. Marcelo, provavelmente, teria lembrado que trabalhava no Banco Central, antes de se aposentar, dias antes de nos convidar para aquela viagem. Ou semanas antes, eu não sabia com certeza.

Por cima dos ombros de Marcelo, eu via os lampejos do sol refletidos nas águas do canal, remexidas pelas embarcações. Eu enjoava. O canal parecia pulsar, num movimento estranho. E meus amigos, com sorrisos de dentes pontudos e movimentos nervosos, de réptil, me convenceram a terminar a tarde — ou começar a noite — numa coffee shop.

Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos Mentiras do Rio (Editora Record); publicou Ascensão e Queda do Império X, sobre o fiasco de Eike Batista (Editora Nova Fronteira), “Segundas Pessoas” (conto, e-galáxia) e contos nas revistas Pessoa, La Pecera e Flaubert. Foi curador da 3ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, e jurado do concurso de contos Machado de Assis (Sesc/DF); participou de duas exposições coletivas no Museu Nacional de Brasília. Trabalhou no Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Isto É Dinheiro e Isto É.

cinco poemas do livro ‘Incabível’, de Dani Rosolen

capa_incabivel55 kg a 50 kg

Desenhar à la Botticelli
ou Picasso?
que nada
minha referência
desde a infância
foi sempre a mesma
mulher perfeita
mulher palito.

50 kg a 47 kg

O grunhido da barriga é meu despertador
mas ainda é cedo
não passaram três dias
volto a dormir
à espera da hora certa de comer
é preciso ter horários e ser regrada, dizem os nutricionistas
eu só obedeço.

47 Kg a 38 Kg

Sair com os amigos era assim divertido
eles pegavam seus fast food na praça de alimentação
eu, minhas pílulas coloridas no nécessaire
não dá pra dizer quem era mais saudável.

38 Kg a 55 Kg

O descontrole se apossa de um jeito de mim
muitas vezes me pega desprevenida
em outras, sei que está me espreitando há tempos
eu sinto
e sou pouco
pouquíssimo corajosa
não o enfrento de maneira alguma
me entrego fácil
pra minutos depois me arrepender
com a boca cheia
e o coração vazio.

55 Kg

Doutor, estou de alta?
não.
doutor, existe alta?
não.
então qual a prescrição?
alimentar-se de esperança
sem restrições.

| poemas do livro Incabível (Editora Patuá, 2019); saiba mais no site da editora [link]. |

Dani Rosolen, 32, jornalista de São Paulo, escreve para elaborar o mundo dentro de si. Incabível é seu primeiro livro solo. Uma forma que encontrou de compartilhar os desafios e os pensamentos vividos durante a anorexia e a compulsão alimentar. Participou das coletâneas: Não Pretendia Causar Discórdia (Giostri, 2017), Eros Ex Machina (Alink, 2018) e Era de Aquária (2019, Oito e Meio). É integrante dos coletivos literários Discórdia e KriptoKaipora.

um país deserto e sem céu, de Franklin Carvalho

O ônibus que seguia para o sertão deu uma parada e ali subiu um senhor com aparência sexagenária que vendia pastéis e outros salgados. Na caixa plástica dos seus lanches exibia um grande adesivo com a frase “Arrependei-vos e crede no Evangelho”. Ele desfilou pelo corredor anunciando seus produtos e, nas cadeiras do fundo, encontrou dois homens seus conhecidos. Comentou com eles algum episódio de crime, e concluiu:

— Conheci um cidadão que foi preso e na cadeia havia um ferro quente, desses de marcar gado, e lhe gravaram na traseira uma letra. Devia ser assim até hoje. Deviam pegar cada preso e arrancar as unhas todos os dias, durante uma semana, de alicate.

Ele voltou e me ofereceu as peças de trigo que eu já havia recusado.

— O senhor é cristão? Não foi isso que Jesus sofreu?

Não precisei colocar mais detalhes, o vendedor já sabia que eu estava entrando na sua conversa sobre tortura. Sem aparentar qualquer surpresa argumentou que “no tempo de Jesus” já havia castigos.

— Sei disso, houve o caso de Maria Madalena, e Cristo se opôs àquela barbaridade.

— No velho testamento se castigava assim também!, afirmou o ambulante, já se adiantando para descer no próximo ponto, sem ouvir minha comparação entre os dois livros da Bíblia.

Uma mulher jovem do outro lado do corredor olhou para mim parecendo concordar com o que eu dizia. Lá atrás os dois amigos do pasteleiro mergulharam numa conversa cheia de risadas que eu não conseguia ouvir direito, mas que tinha expressões de contentamento com a brutalidade. Senti que eles precisavam rir enquanto faziam comentários carniceiros, e que era melhor não escutá-los. Prossegui a viagem crendo que nenhum daqueles valentes assumiria a tarefa de arrancar unhas, que delegariam a função a um miserável mal assalariado, como os governantes fazem, que contratariam um carrasco faminto para a manutenção da sua grande moral e do seu grande Deus.

No retorno a Salvador, num carro de frete, o motorista jovial falava também de temas de segurança pública. Eu vinha calado ao seu lado, a conversa dele era com um idoso que viajava atrás. O velho, que balbuciava contra os direitos humanos, mudou o assunto para a economia e disse que “era grande o rombo na Previdência”. O homem ao volante concordava mas desviou, e falou que o presidente da República fala muita bobagem, é fraco e não se comporta como um governante. Também condenou a “trambicagem” que fizeram para prender o Lula. O velho, desistindo, abriu uma Bíblia e começou a gaguejar na leitura de algum trecho sem começo nem fim.

Vontade de chegar em casa. Como no dia em que saí da Festa Literária de Cachoeira (Flica), em 2017, e peguei uma van de frete e, na viagem, fui submetido a um ritual cheio de “aleluias”. A produção da Flica tinha me oferecido transporte, mas eu me atrasei e voltei em condução improvisada. A van pegou engarrafamento na rodovia e eu até dormi, mas acordei no meio da noite, o som gospel em alto volume no carro. Quando o cantor elevava a voz, o motorista empolgado soltava o volante e erguia as mãos em transe. Mas chegamos.

Vontade de chegar em casa. No dia seguinte à Festa Literária de Cachoeira eu já estava em Maceió, para apresentação na Bienal do Livro da capital alagoana. Terminado o trabalho, fui passear pela orla, a lua cheia na praia serena, ao longo da avenida urbana. Vi na areia um grupo religioso, jovens com violão simulando um luau, mas o assunto era muito grave. Novamente muitos “aleluias”.

— Cada um promete fazer sua irmã deixar de ser imoral? Cada um promete lutar para que a universidade não seja ambiente de prostituição?

Segui pela calçada, conheci as barracas, a tapioca, alguns moradores de Maceió e regressei. No retorno comentei com alguns dos rapazes que desarmavam a cena religiosa: “Tem gente com fome! O Brasil precisa de revoluções em tudo”. Responderam com o código que tinham, excitados: “Jesus te ama”.

Vontade de chegar. Segundo as Escrituras, na casa do Senhor há muitas moradas.

Nota do autor: Título da crônica tirado da música italiana A casa de Irene, de Nico Fidenco, que diz “I giorni grigi sono le lunghe strade silenziose / Di un paese deserto e senza cielo.” (“Os dias cinzentos são como as longas estradas silenciosas / de um país deserto e sem céu.”)

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.

cinco poemas de Margarida Patriota

capa_delacaotempo de delação

Vi o sopro embaciar o vidro
Para o dedo traçar no bafo
O coração do amor proibido

Vi a ponta do punhal
Escorchar o tronco adusto
Riscar o manacá que eu amava

O sol inflamou o céu
Não prestou qualquer socorro
Nem se importou com isso

Dentes rasgaram carnes
Desmembraram gomos
Deceparam cachos, que eu vi

Flagrei a noite atropelando o dia
Pelotões de nuvens ladras
A assaltarem o luar

Vi a neve deflorar a campina
A hera assediar o muro
O mar abusar do penhasco

Vi sem asco o que delato
Antes que prescreva em juízo
O ardor dos fatos

luto

Em horas pluviosas
Langorosas, baudelairianas
Recolho-me dócil
Ao boudoir do meu spleen

Beijo a esfinge no console
Bocejo solilóquios no divã
No leque de pavão afago plumas
Aspiro com volúpia buquês murchos

Ao tilintar da sineta
Chávenas de porcelana flutuam
São os meus mortos
A tomar chá comigo

convite

Viesses a mim
Pisarias na juta
Que atapeta o meu solar

Verias as flores
Que bosquejo a bico de pena
Os meus mares de aquarelas

Ouvirias meu relógio de parede
Bater horas como um gongo
A chaleira apitar qual trem fugindo

Verias minhas conchas, caramujos
Conjuntos de azulejos, souvenires de coletas
Escavações, prospecções, enfim…

Para bem do acervo
Bom seria que viesses
Num dia chuvoso

penhora

Quando vierem me arrestar os bens
Indicarei os valiosos

Na prateleira da aventura
O escafandro
Com que imergi nas funduras
E recolhi a dor das ostras

Na do método e disciplina
O vaso para bonsai
Em que forcei um junípero
A se entanguir

Na dos frissons
A lupa por meio da qual
Acendi fogos sem artifícios
Com um filete de sol

telepatia

Através das membranas retráteis
Que nos domam as transparências
Trocamos mensagens cristalinas

Confiantes na recompensa
Do mútuo contato visual
Elucidamo-nos sem sermões

No alargar e contrair das pupilas
Fios condutores nos unem
Dialogamos por osmose

E quando afirmas que sou
Tua “menina dos olhos”
Formamos um globo ocular

| poemas do livro Tempo de delação (Editora Ibis Libris, 2019). |

Margarida Patriota, carioca radicada em Brasília desde 1976, tem trinta livros publicados e foi professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília. Desde 1997 conduz e apresenta o programa Autores e Livros da Rádio Senado. É detentora, entre outros, do prêmio do Instituto Nacional do Livro, de romance, e do João de Barro de Literatura juvenil. De uns anos para cá, tem dirigido seu lirismo à apreciação do leitor formado, com os poemas de Laminário, de 2017, a prosa de Cárcere privado, de 2019, e Tempo de delação, seu segundo livro de poemas, recém-lançado pela Ibis Libris.

feridas, poema de Maria Jorgete Teixeira

Somos silhuetas desmembradas
num rio que corre esgarçado entre
o nevoeiro de pernas azuladas pelo frio.
As memórias são portas sem casa dentro, sem
enseadas onde se arrimem os ombros doloridos.

Deito-me sozinha entre cardos.

Não estendo a mão porque não te chego e
a consciência disso é cruel.
Deixei de invocar o teu corpo.
Não sei se por cansaço
ou se não me chegavam já as metáforas do poema.

Ainda me visita o sobressalto.
A teia de lamentos agudos como sal nas feridas.

Maria Jorgete Teixeira nasceu no Cunene, Angola. Professora aposentada, vive na cidade do Barreiro, Portugal. Obras publicadas: O coração é puta sempre à espera (prosa poética, Alfarroba, 2015); Mulher à beira de uma largada de pombos, à volta das canções de José Afonso (conto, Alfarroba, 2017); A solidão das dunas (poesia, Amazon, 2019). Participou em várias coletâneas e escreve em jornais e revistas locais.