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poema de Maraíza Labanca

Do livro A terra O corpo (Cas’a edições, 2021).

O pensamento em sua origem
— aqueles núcleos obscuros,
mais vastos que a terra, dentro,
lentamente,
têm o máximo de intensidade —
o influxo, na dosagem
de calor.

Restava equiparar as manchas
à irradiação do grande astro, ao fastígio
torturado de uma e outra.

Em que pese a sua forma,
uma aproximação rigorosa,
uma causa.

Porque a complexidade imanente
aos fatos concretos se atém,
progredindo da natureza do solo
extensa
à definição do que quer que seja

— sem leis —

Sujeita às perturbações locais,
a reações mais amplas,
às correntes, à monção
dos planaltos interiores:

são, no estio, atraídos ao entrar
dezembro pelas costas, desnudo,
irradiando toda a umidade
absorvida na travessia dos mares.

Canaliza-a, correndo em direção
àquele vento — um dizer natural, fora
de limites, prolonga-se, até que reabre,
outra vez, este intervalo:

a longa faixa de calmas,

o lento oscilar em torno,

o zênite,

levando a borda até os extremos,
de leste a oeste.

De súbito, mais íntimo, o destino
agitado dos alísios — irremediável —
chega de improviso, desnuda
a sua própria intensidade.

Os ares aquecidos entram.

Entrechocadas, uma e outra, de tufões
violentos, alteiam-se, retalhadas
de raios, nublando, em minutos,
o firmamento todo,

desfazendo-se,
logo depois, em aguaceiros fortes

sobre os desertos.

CAPA NOVA-supremoMaraíza Labanca nasceu em 1984, em Belo Horizonte. É doutora em Literatura Comparada pela UFMG e uma das editoras da Cas’a edições. Trabalha também com oficinas de escrita literária no Espaço a’mais. De sua autoria, publicou os livros Refratário (2012), Rés — livro das contaminações (com Erick Costa, 2014), Partitura (2018), Exceto na região da noite (2019) e A terra O corpo (2021).

cinco poemas do livro ‘Quênia — Poemas de viagem’, de Michaela Schmaedel

* * *

Homem
do Kilimanjaro
eterno
recém-chegado
feito pedra
espreita o mundo.

Feito homem
sente a queda.

áfrica

A máscara
pendurada
na sala

que espanta
o mal infinito
que nos ronda

o agouro
que nos liga
ao divino

é também
uma maneira
de olhar
a boa sorte.

samburu

O barulho discreto
das folhas das árvores
junto ao rio.

Um elefante
come capim
no calor extremo
do pico-vulcão.

Homens consertam
a cerca entre risos
e observam:

a constância é uma
forma de resistência.

* * *

Círculos crescem
nas mãos das mulheres
do Quênia.
Lavam roupa
fazem comida
trabalham nas hortas
lojas mercados
de mel.
Levam o país nas mãos
as mulheres circulares
do Quênia.

nakuru

Árvores mortas
no lago
há muito tempo
a água parada
nenhum pássaro
ou ninho em andamento.

Desabitado coração
da paisagem.

capa_quenia| do livro Quênia — Poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), disponível no [link]. |

Michaela Schmaedel (1976) nasceu e mora em São Paulo, é editora de cultura e poeta. Autora dos livros Coração Cansado (Editora Penalux, 2020) e Quênia — poemas de viagem (Cas’a edições, 2021), está presente na antologia As mulheres poetas na literatura brasileira (Editora Arribaçã, 2021). Escreve resenhas para jornais e revistas e faz a edição do podcast Poesia pros Ouvidos.

mamba negra, de Myriam Campello

Ela era a ____ da minha vida. Então quando acercou-se naquele dia e disse, Sei que me ama e sou perfeita para você mas adeus, suas palavras se chocaram contra a porcelana chinesa de meu peito, ribombo vindo do céu que eu julgara azul, quedei espatifada no chão silencioso, até hoje encontro cacos de mim sob móveis distantes, pequenos fantasmas cobertos de poeira, só os olhos de fora, é uma ____.

No segundo anterior nada previa o golpe mas quando ele chega ____, não se enganem, ou está de tocaia quando é você que o inflige, que o desfere de própria vontade, todos guardamos em nós o carrasco e a vítima, basta soprar o vento da Fortuna, nunca entendi porque razão um sentimento sublime honroso e ____, que te entretece às fibras de outro ser, poético para dedéu, cheio de significados, traz consigo essa carga de morte.

A mamba negra é um ofídio belo boca e língua pretas, resoluto, avesso a mimimis, quando pica o sujeito ele estrebucha e resta onde quedou-se, tal a violência do arremate. A África subsaariana sabe que a Dendroaspis polylepis vale cada centavo do seu bote de ouro. Os zulus, peritos na questão, chamam a poderosa de “morte que anda”.

Bem, o amor não é qualquer ____ ou poça dágua que se supera com um passo mais amplo e sim algo de porte, exige todos os seus ____, perde-se anos remendando a alma, o fato é que ali estava eu e ali ela como no duelo final de um bang-bang, só que desta vez seria eu quem morreria, isso dói mais do que quando morre o outro, quando o outro morre também dói mas menos.

Inútil questionar um ser que já levantou velas. Fala-se a uma parede como se fosse dotada de audição. Perguntei apaixonara-se alhures? novo amor vencera o sólido sentimento que nutria por mim? Quando te respondem com o silêncio é melhor pensar rápido. Ela por sua vez quis saber por que parei de seduzi-la. Depois do primeiro segundo o sangue me ferveu. Sou professora as contas me perseguem, trabalho muito para esticar a grana, tarefas extras bico faço tudo para transformar o nada em alguma coisa por mais tênue que chegue ao fim do mês. E carreira, expectativas que atormentam alguém fora da curva, e o martelar das coisas práticas que é sempre um juggernaut me esmagando. Parei de seduzi-la? Acaso sou um mandarim coçando o saco e contemplando os lótus, forrado de dinheiro e com tempo sobrando? Você é uma ____ ____ ____ ____, reagi mortalmente atingida.

Só duas gotas de veneno bastam à mamba para fazer um adulto comer terra, pois lhe faltam palavras. A pobre cobra podada de oratória precisou desenvolver seu próprio método de inserção ____, mudo mas eficaz como uma frase humana no momento propício. Nessa linguagem cristalina e de gramática fácil passou a interagir garbosamente com o resto do planeta e se deu bem, os homens entendem a beleza da simplicidade. Havendo mais serpentes assertivas assim a vida fluiria numa ordem impecável.

Eu tomava o pontapé sem mais aquela e a culpa ainda era minha?! Vivemos num mundo injusto, de regras desalmadas. Equilibrar bolas no nariz terminar a tese congressinhos básicos exigências diversas tudo isso pode desde que me vista de Arlequim, foca amestrada em momento sabático. Nunca se sabe o rumo dessa barcarola, o que deseja, ao que aspira no ____ seguinte. Uma amiga esmerou-se em lingeries feitas para derreter um monge empenhado em seus votos, mas o marido, depois de uma discussão de monta no escritório, chegando em casa olhou-a como ao primo que lhe dava birra e teve dor de cabeça. Outra empapelou o apartamento com bilhetes ternos mas entre estes e o amado irromperam as exigências ferozes da síndica no corredor, causando no homem tal distúrbio que entrando pela porta só enxergou nos bilhetes ordens da generala. A criatura de quem nos despedimos de manhã dificilmente é a mesma que nos volta. Atentem para o clima geral olho no olho antes de se lançarem a recursos voláteis, a vida é cruel ¬¬com as esperanças, ninguém tem o mínimo sossego, mais prudente dormir com um olho aberto do que fechar os dois e acordar na Geena.

A velocidade da mamba é outro atributo ____, vai direto ao ponto e larga o morto no chão, não quer saber, busca novas terras, tristonha pelo que deixou mas contentíssima com a viagem presente, não devemos julgá-la. É rápida e concisa ao matar não por querê-lo e sim por seu viés fisiológico ao enfrentar questões complexas. O passado é uma pele à espera da pele futura, é preciso largá-lo, diz a natureza, uma nojenta que só faz acompanhar com os olhos a descida humana para o abismo. Motherfucker!

Mas não percamos a pouca compostura só porque a alma imortal é sinuosa. Os amantes mentem desmentem negaceiam e torcem tudo como a um lençol lavado pingando suas águas. Bons tempos aqueles em que o rubor do outro nos guiava. Agora ficam todos em sua própria cor, imperturbáveis, peregrinos austeros acima de suspeita. Quando perguntei pela segunda vez à moça próxima se conhecia fulana, ela titubeou gaguejou e engatou três frases ____ antes de dizer “pessoalmente não”, leve variação para quem ontem mesmo afirmara desconhecer fulana ponto. Embora distraída tenho ouvido fino para dissonâncias, a mentira é musical em sua própria força, pesco-a no fundo do mar se for preciso, para outras coisas durmo em pé mas nisso sou um porco das trufas. Desenterro essa morte pelo faro ainda que sobre depois muito pouco de mim.

Não costumo brigar contra a paixão alheia, crime sem assassino, ferrou está ferrado, o jeito é se mandar comece o luto, nada como a sucessão dos dias, nada como os prados verdes que te esperam, nada como o nada. Essa atitude ____ serena sábia budista desprendida só acontece porque antes que eu contrate um jagunço para me trazer o coração pulsante e traidor, um demônio atento espeta-me com o garfo e me lembra minhas próprias perfídias no terreno. Aceitação cristã deve ser isso.

A neurotoxina da mamba vale uma ode à perfeição da química. Desliga o sistema nervoso do sujeito como quem puxa uma tomada e detém tudo por onde se entranha, trem para o beleléu. Ruma ao contrário com certeza olímpica mas todos querem um lugar nessa viagem. A humanidade, sabemos tão pobrinha que não pode recusar o sentimento só por este ser uma ventoinha desvairada. É ____! Muitos pronomes possessivos cingem tal temática embora o amante não possua coisa alguma de seu, sequer um botão velho esquecido no bolso. Com sorte ele arrasta essa riqueza até à próxima esquina e ali fica, desde que não se distraia, o amor não vale mesmo o pão que come. Portanto amem. Mas sempre um olho no bandido outro no guarda.

2019

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.

‘Certos casais’, de Hugo Almeida, abre a coleção Rosa Manga da Laranja Original

capa_casais

A Editora Laranja Original vai lançar no dia 27 de setembro Certos casais, de Hugo Almeida, organizador das coletâneas Nove, novena: variações (Olho d’água, 2016) e Feliz aniversário, Clarice (Editora Autêntica, 2020), e autor do conto “Ó”, publicado na revista Gueto nº 2. Com ele, a editora inaugura uma nova coleção, Rosa Manga. Leia aqui uma entrevista com o escritor.

Dividido em duas partes, Livro I e Livro II, Certos casais traz nove contos inéditos, alguns escritos há 30 e outros 20 anos. No entanto, o autor fez ajustes nos textos antes da publicação. A “live” de lançamento será na página do YouTube da Laranja original, na próxima segunda-feira (27/9), a partir das 19h30.

“No primeiro dos livros que formam este Certos casais, uma zona de sombra perpassa as histórias e faz o olhar desconfiar do que vê ou a pele desconfiar do que sente”, afirma na contracapa o escritor Francisco de Morais Mendes, autor de Sacrifício e outros contos. “O conjunto ganha uma textura de romance sem perda da autonomia e da consistência dos contos”, acrescenta. Na orelha, a escritora e tradutora Beatriz Magalhães, autora do romance Caso oblíquo, observa: “Para além da autonomia, ambos, o Livro I pelo entrelace e o Livro II pelo teor, podem ser tidos como minirromances”. No livro II está a história trágica do casal Curie, Marie e Pierre.

Mineiro residente em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952) tem mais de dez livros, entre eles o romance Mil corações solitários (Prêmio Nestlé 1988) e os infantojuvenis Viagem à Lua de canoa [incluído no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) de 2011], Todo mundo é diferente, Porto Seguro, outra história e Meu nome é Fogo. Doutor em Literatura Brasileira pela USP, organizou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios. Certos casais é seu quarto livro de contos. Os outros são Globo da morte (1975), Em teu seio Liberdade (1985) e Cinquenta metros para esquecer (1996).

cinco poemas de Daniel Glaydson Ribeiro

não neste hoje depois de ontem

Chegou o momento de lembrar da fome
e da sede, porque ouviu-se uma orquestra
de estômagos e intestinos e das peles labiais
ressecadas e brancas, quebrando ao chão.

então foi preciso chamar os peixes,
trocar com eles uma ideia, encantá-los
e comê-los. e aprendeu-se a mergulhar
para colher as verduras submarinas.

e descobriu-se que havia carvão
e papel demais no convés,
e disso fizeram filtros e filtraram
a água do mar.

descobriu-se simultaneamente uma
infinidade de armas, munidas, enga
tadas, quase já miradas para suas
mesmas cabeças, mas nelas ninguém
tocou então, pois não havia polícia
nem milícia, juízes, tribunais, poderes
para acusá-les, então mantiveram-se sãos
e não houve assassínios.

deixaram-nas munidas, talvez mesmo
engatadas, para o caso de piratas,
companhias das índias ou marinhas.

esquizocapital

Era uma vez minha terra
tinha palmeira e palmares
hoje tudo queima
e a Flor-
esta
cinza pelos ares:

cinza que cobre estrelas
fumaça enforca dores
ouro-lama afoga gente
num rio tóxico
Rio Doce

os quilombos e as aldeias
que diziam “demarcadas”
são o intermitente cenário
de guerra das bandeiradas

minha terra, mina
nem sei mais se é terra ou veneno
e tudo continua sendo
para o progresso
de São Paulo.

distopia

o bicho banha-se no lixo
ornamenta seu peito com o perfume dos plásticos
faz-se distopia e viraliza

expõe o seu corpo para o estupro
nadando em milícias e metralhadoras
para compor novos mitos

sobrevoa a sobrevivência das paisagens
sapateando demência pelas aldeias
passando a boiada no vazio do gênesis

lágrima

o silêncio da voz que se fez lágrima
e foi
numa correnteza

como

…se ao poema coubesse ainda e apenas
lê-lo, com humana voz sem excesso
no ritmo puro do tempo disperso
como se houvesse raças e antenas,

numa ausência de qualquer artifício,
como se eu detrás duma cortina,
sumisse, e esta língua que imagina
já não fosse a máquina do início.

Tal como a luz do sol ou a da lua
as nuvens, os raios e tempestades
são sublime teatro-transcendência,

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;
língua é ruído de todas as vontades,
o poema: barulho-excesso-essência.

Daniel Glaydson Ribeiro é natural de Picos, Piauí; pai de Anita, Tarsila e Bento. Autor de Pulsão de língua (Recife: Selo Mirada, 2021). Coorganizou o Almanach Muda junto ao Grupo Ausgang de Teatro, quando publica o ensaio “Poesia Muda: Butes Ostranênio”. Outros diálogos, artigos e traduções constam em revistas e sítios no Brasil, Argentina, México e Cuba. Na tese de doutorado Carnifágia malvarosa: as violações na Suma Poética de Jorge de Lima (Teoria Literária e Literatura Comparada, FFLCH, USP), indicada ao Prêmio Capes, publica material renegado da Invenção de Orfeu. Hoje, é coordenador de Extensão e professor no Instituto Federal do Piauí, campus Cocal. Para um blog bissexto E-scritura.

dois poemas de Marcelo Torres

isso é hoje

A placenta em até uma hora
no mundo
bombas que atravessam
tudo em tramoias
intempestivas
pensamentos pendurados
no círculo
de rosas
essas mulheres
andam imersas
no líquido amniótico
de longos logradouros
os animais
nos lençóis
de sangue
uma festa junina
sem igrejas
a Sra. japonesa
com uma planta
imperfeita
corredores animados
com a vida saudável
não sabem
o quanto estão enganados
com seus trajes
amansados
de três cores
isso é hoje
catapulta/nauta
sem chamamentos
na noite precedente
estava em um despenhadeiro
quando uma travesti
esbarrou em mim
disse-me o quanto
meus olhos eram claros
como a morte

| poema do livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (Editora Córrego, 2020). |

* * *

se desejas
que os deuses voltem
invoque-os

na palavra bruta
na palavra essencial
na palavra fértil

na lavoura viva
o jorro do ser —
ferocidade, mel na noite

| poema do livro inédito A flama farta. |

Marcelo Torres publicou Vertigem de telhados (poemas, 2015) e nadar em cima da rua (poemas, 2015), pela Editora Kazuá, Páthos de fecundação e silêncio (poemas, 2017) e Poemas tímidos e gelatinosos (poemas, 2019), pela Editora Patuá. Sua obra mais recente é o livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (poemas, 2020), pela Editora Córrego. Nasceu em Pernambuco na cidade de Palmares no mês de março de 1984.

dois poemas de Alessandra Martins

capa_sankofarespeite as mina preta

Sou vista há mais de 500 anos
como só corpo, só prazer.
Ela é branca pra casar,
eu mulher preta
pra escondido comer.

Preto, sei que a igualdade racial
não chegou pra mim nem pra você,
mas por eu ser mulher preta aumentam
mais ainda os paranauê.

Se põe no meu lugar, pra você ver.

Tive quinze filhos,
sofria dentro de casa,
enquanto meu marido
por aí batia as asa.
Me traía, violentava e
ainda me xingava.

Maldita sociedade — só maldade.
Quanto maior a melanina,
mais se aumenta a solidão.
É solidão…
porque parece que só sirvo
para lavar suas roupas,
fazer sua comida,
ser comida,
limpar seu chão.

Meu beiço, meu nariz,
meu cabelo
te incomoda?
Na primeira oportunidade
me troca
por uma padrãozinho,
na moda.

Ascensão, high society,
crescimento profissional.
Não quer uma preta do lado,
pois pode pegar mal.

Não sou de confusão.
Não vim para arrumar “treta.”
Mas estou aqui para dizer.
Respeite as mina!
Respeite as mina preta!

orgulho negro

Tenho orgulho de mim,
deixei de ser prego,
agora sou marreta,
pois já senti o que é ser
rejeitada,
cuspida, negada, maltratada.
Somente por ser preta.

Tenho orgulho da minha pele,
da minha carapinha.
Do afro que uso, dos meus
traços marcantes.
Minhas origens espetaculares,
dos colares, turbantes.

Tenho orgulho dos
guerreiros, dos sábios,
rainhas e reis verdadeiros.
Das minhas tranças,
das crenças,
das danças, comidas
e extravagâncias.

Tenho orgulho da minha raça,
da luta do meu povo.
Da liberdade conquistada,
da briga pela igualdade,
da insistência, resistência.
Do ontem lembrado
com tristeza, mas com orgulho.

Resistiram e chegaram
Vivos ao cais.
Tenho orgulho da esperança,
Força e coragem
que tiveram
meus ancestrais.
Orgulho Negro!

| poemas do livro Voa, Sankofa, voa! (Chiado Books, 2021), disponível no [link]. |

Alessandra Martins é natural de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. É poeta, educadora e autora do livro Voa, Sankofa, voa!, publicado pela Chiado Books, em que usa a literatura marginal para denunciar o genocídio da população negra, a falsa democracia racial brasileira e os estigmas e estereótipos que são postos sobre o corpo negro em diáspora africana. No entanto, juntamente apresenta a exaltação da beleza negra, do orgulho e o regaste da ancestralidade.

piromaníaca, de Laura Elizia Haubert

capa_furacaoEla sentia intenso prazer quando via alguma coisa queimando à sua frente. Havia algo naquilo, aquela cor que só o fogo tem, aquela imensidão que só o fogo tem. Como é que as outras pessoas não ficavam assim, hipnotizadas? Como resistiam à vontade insana, que a fazia coçar os pulsos, de querer queimar tudo? Aquele instinto desgovernado era mais forte que ela, um negócio primitivo que se remexia por dentro e a fazia ficar mal quando não conseguia queimar. Se ela não queimasse algo não se sentia viva. Chegou ao ponto de não poder dormir à noite.

Não se recordava direito de como aquela obsessão tinha começado. E isso importava? Talvez não mais. O que importava é que, como os pequenos hábitos de infância que se tornam importantes, ele se manteve pelo resto de sua vida. E provavelmente a última coisa na qual pensaria antes de morrer, dali a 67 anos, é que ela gostaria de ser devorada pelas chamas de vez.

Se não se lembrava do começo, pelo menos se lembrava, com certo prazer, de quando recolhia as folhas de árvores e papéis do lixo caídos no quintal, até formar uma pilha enorme para queimar. E arder, arder, arder. E ninguém estranhava, ninguém imaginava o prazer que ela ocultava, o que acontecia à noite, ali do lado de casa, no terreno baldio, onde ela se infiltrava escondida para jogar o saco de lixo no latão gigante e, com muito furor, acender um fósforo e lançá-lo para o fundo, vendo as chamas estalarem.

Às vezes, quando estava assistindo o fogo crepitar, sentava-se tão paralisada que parecia uma escultura. O que ela via de tão fascinante? Não se sabe. Mas seus olhos tinham interesse pelo fogo, e seu corpo era desejo de fogo, e ela inteira queria ser fogo, bem lá no fundo, embora soubesse que não era possível ser assim tão quente.

Quando se esgueirava para entrar no terreno, tomava cuidado para não ser vista nem antes, nem durante, e nem depois. Não queria ter de explicar o que não conseguia explicar sequer a si mesma. Não queria ter de acalmar a mãe dizendo que não estava doida para matá-los à noite, muito menos se defender dos vizinhos que comentavam sobre os prováveis drogadinhos que vinham ali usar o espaço vazio para se aquecer e fumar ou injetar.

— Coisa de drogadinho, isso aí. Você sabe, agora que eles se espalharam pela cidade, a gente não tem mais sossego — dizia Dona Lurdes, indignada, toda vez que passava na frente do terreno baldio.

E ela, muito quieta, via que Dona Lurdes tinha uma coisa má à sua própria maneira; por isso nunca dava nenhuma resposta, por mais que desejasse.

Sua vida ia seguindo, até que um dia, lá por novembro, alguém levou seu latão embora. E ela não queria se arriscar a queimar os papéis e folhas direto no solo, porque o fogo poderia se espalhar pelo mato seco e logo estaria queimando o terreno inteiro, e quem sabe acabasse por queimar sua casa.

Aquela tinha sido uma semana perturbadora. Ficou amuada, seus sonhos não eram sonhos, eram pesadelos, e quando acordava se deparava com a infelicidade. Nos primeiros dias, resistiu com bravura, mas foi se deixando levar, o humor caiu, a esperança caiu, e ninguém conseguiu entender por que ela estava daquele jeito. Ninguém, exceto seu pai.

Ela não sabia, mas o pai conhecia seu hábito escondido. Ela não sabia, mas quando ia se deitar, o pai jogava água fria nas cinzas e ficava à espreita para ter certeza de que o latão não ia virar e botar fogo no mato, e botar fogo na casa, e botar fogo no bairro todo.

Então, quando levaram o latão embora, ele com discrição tratou de arranjar outro. No sábado, convidou a filha desanimada para tomar um sorvete e fez questão de passar na frente do terreno, mesmo a sorveteria sendo para o outro lado, para que ela pudesse ver o novo objeto. E ela viu, e ela sorriu, e ele sorriu, e ninguém disse nada.

| conto do livro Doce olho do furacão e outras fúrias (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia na Universidad Nacional de Córdoba. Graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Já participou de várias revistas literárias, entre elas Revista Subversa, Revista Gueto, Revista Ruído Manifesto e a Revista Ponto do SESI-SP. Publicou, em 2017, pela Editora Patuá, o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul; em 2019, Memórias de uma vida pequena, pela Quintal Edições; e, em 2021, pela Editora Penalux, Doce olho do furacão e outras fúrias. Atualmente, vive em Córdoba, na Argentina.

três poemas de Carolina Rieger

dueto

o vento zomba da carne
espanca a pele e a anca
rasga à navalha a pelanca
o vento zumbe na cara
e esbraveja no ouvido
esfarrapa à farpa a entranha
vento e ventre a grunhir
vazando a víscera vazia
a fome e a noite fria

um uivo

ah, essa coisa de fazer poesia
e trazer tantos lobos para fora do covil
e lobas, todas no cio,
e tantos e tantos vazios
ah, essa coisa vã que é fazer poesia
e que não fala, uiva
e chora e sangra
estrangeira e nativa
numa ilha igual a todas as outras ilhas…
ah, essa coisa inútil que é fazer poesia
e ser um desnudamento tão íntimo
que de tão íntimo desnudamento
é igual em todos os falantes
ah, coisa inevitável
que é fazer poesia

as Mulheres e suas Crianças

desbravando o estreito do tempo
Elas ficam prenhes
não só de filhos
não só de amores
prenhes de sonhos
e de perpetuação
na barriga nascem cidades
as leis e seus reis
não há outro meio à força motriz
da barriga nasce a história
nasce toda a gente
nasce um país
o futuro é umbilical
seio e noite insone
em ladeiras pedregosas
caminham as Mulheres
suas Crianças a tiracolo
por ladeiras pedregosas
fogem dos algozes
as Mulheres e suas Crianças

Carolina Rieger nasceu em São Paulo, capital, e mora em Osasco. Formada em Filosofia pela USP, mestra e doutoranda em História da Educação pela PUC-SP. Publicou Irmãos Koch, think tank, coletivos juvenis — a atuação da rede libertariana sobre a educação (Edições 70, Editora Almedina, 2021). Publicou poemas e contos em coletâneas, fanzines e revistas. Seu primeiro solo de poemas é Carnaval (Editora Patuá, 2017), que lhe rendeu uma colocação entre os 10 finalistas do Prêmio Guarulhos de Literatura 2018. Em 2019, ficou em 3º lugar no mesmo prêmio. Está com seu próximo livro, De temer a morte, pela Caravana Editorial, no prelo. Estes três poemas são dele.

‘Goethe e seu tempo’ (Editora Boitempo, 2021), de György Lukács

goethe_tempoGoethe e seu tempo, de György Lukács, traz um conjunto de cinco ensaios do filósofo húngaro escritos durante a década de 1930 e dedicados à obra de Johann Wolfgang von Goethe.

Considerado um dos pontos culminantes da literatura humanista burguesa, Goethe tem sua trajetória esmiuçada e contraposta à de outros contemporâneos seus, em uma análise engajada do grande romance moderno e de seu conteúdo progressista.

Os dois primeiros textos tratam de obras específicas de Goethe e sua construção, ao passo que os três seguintes discutem o contexto social e literário no qual o escritor estava imerso, propondo percepções originais a respeito das motivações, contradições e desafios enfrentados por sua obra.

Trecho de “A teoria schilleriana da literatura moderna” (p. 123)

“A teoria da literatura moderna, da fundamentação de suas particularidades e da razão de ser dessas particularidades, desenvolveu-se, desde o aparecimento da classe burguesa, sempre em estreita conexão com a teoria da Antiguidade. Seria preciso que o domínio da classe burguesa estivesse bem consolidado, que tivesse se tornado óbvio, para poder produzir uma teoria da literatura moderna sem esse paralelo histórico, puramente a partir das condições externas e internas do surgimento dessa literatura. Contudo, no momento em que as bases econômicas da sociedade burguesa se tornaram óbvias, a ideologia burguesa já estava ingressando no período da apologética: ela não dispunha mais de suficiente desenvoltura e intrepidez para investigar de modo cientificamente imparcial as possibilidades ideológicas e artísticas de sua literatura com base em uma análise crítica de seus pressupostos e suas condições sociais. O grande período da teoria burguesa da literatura, que chega a um término com a poderosa síntese histórico-mundial da história da literatura e da arte na Estética de Hegel, baseia-se do começo ao fim na concepção da Antiguidade como o cânon da arte, como o modelo inacessível de toda arte e literatura.”

Continua a leitura do trecho em PDF [AQUI]

Ficha técnica

Título: Goethe e seu tempo
Título original: Goethe und seine Zeit
Autor: György Lukács
Tradução: Nélio Schneider, colaboração de Ronaldo Vielmi Fortes
Revisão da tradução: José Paulo Netto e Ronaldo Vielmi Fortes
Editora: Boitempo
Ano de lançamento: 2021
Mais informações no site da editora [AQUI]