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cinco poemas de Daniel Glaydson Ribeiro

não neste hoje depois de ontem

Chegou o momento de lembrar da fome
e da sede, porque ouviu-se uma orquestra
de estômagos e intestinos e das peles labiais
ressecadas e brancas, quebrando ao chão.

então foi preciso chamar os peixes,
trocar com eles uma ideia, encantá-los
e comê-los. e aprendeu-se a mergulhar
para colher as verduras submarinas.

e descobriu-se que havia carvão
e papel demais no convés,
e disso fizeram filtros e filtraram
a água do mar.

descobriu-se simultaneamente uma
infinidade de armas, munidas, enga
tadas, quase já miradas para suas
mesmas cabeças, mas nelas ninguém
tocou então, pois não havia polícia
nem milícia, juízes, tribunais, poderes
para acusá-les, então mantiveram-se sãos
e não houve assassínios.

deixaram-nas munidas, talvez mesmo
engatadas, para o caso de piratas,
companhias das índias ou marinhas.

esquizocapital

Era uma vez minha terra
tinha palmeira e palmares
hoje tudo queima
e a Flor-
esta
cinza pelos ares:

cinza que cobre estrelas
fumaça enforca dores
ouro-lama afoga gente
num rio tóxico
Rio Doce

os quilombos e as aldeias
que diziam “demarcadas”
são o intermitente cenário
de guerra das bandeiradas

minha terra, mina
nem sei mais se é terra ou veneno
e tudo continua sendo
para o progresso
de São Paulo.

distopia

o bicho banha-se no lixo
ornamenta seu peito com o perfume dos plásticos
faz-se distopia e viraliza

expõe o seu corpo para o estupro
nadando em milícias e metralhadoras
para compor novos mitos

sobrevoa a sobrevivência das paisagens
sapateando demência pelas aldeias
passando a boiada no vazio do gênesis

lágrima

o silêncio da voz que se fez lágrima
e foi
numa correnteza

como

…se ao poema coubesse ainda e apenas
lê-lo, com humana voz sem excesso
no ritmo puro do tempo disperso
como se houvesse raças e antenas,

numa ausência de qualquer artifício,
como se eu detrás duma cortina,
sumisse, e esta língua que imagina
já não fosse a máquina do início.

Tal como a luz do sol ou a da lua
as nuvens, os raios e tempestades
são sublime teatro-transcendência,

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;
língua é ruído de todas as vontades,
o poema: barulho-excesso-essência.

Daniel Glaydson Ribeiro é natural de Picos, Piauí; pai de Anita, Tarsila e Bento. Autor de Pulsão de língua (Recife: Selo Mirada, 2021). Coorganizou o Almanach Muda junto ao Grupo Ausgang de Teatro, quando publica o ensaio “Poesia Muda: Butes Ostranênio”. Outros diálogos, artigos e traduções constam em revistas e sítios no Brasil, Argentina, México e Cuba. Na tese de doutorado Carnifágia malvarosa: as violações na Suma Poética de Jorge de Lima (Teoria Literária e Literatura Comparada, FFLCH, USP), indicada ao Prêmio Capes, publica material renegado da Invenção de Orfeu. Hoje, é coordenador de Extensão e professor no Instituto Federal do Piauí, campus Cocal. Para um blog bissexto E-scritura.

dois poemas de Marcelo Torres

isso é hoje

A placenta em até uma hora
no mundo
bombas que atravessam
tudo em tramoias
intempestivas
pensamentos pendurados
no círculo
de rosas
essas mulheres
andam imersas
no líquido amniótico
de longos logradouros
os animais
nos lençóis
de sangue
uma festa junina
sem igrejas
a Sra. japonesa
com uma planta
imperfeita
corredores animados
com a vida saudável
não sabem
o quanto estão enganados
com seus trajes
amansados
de três cores
isso é hoje
catapulta/nauta
sem chamamentos
na noite precedente
estava em um despenhadeiro
quando uma travesti
esbarrou em mim
disse-me o quanto
meus olhos eram claros
como a morte

| poema do livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (Editora Córrego, 2020). |

* * *

se desejas
que os deuses voltem
invoque-os

na palavra bruta
na palavra essencial
na palavra fértil

na lavoura viva
o jorro do ser —
ferocidade, mel na noite

| poema do livro inédito A flama farta. |

Marcelo Torres publicou Vertigem de telhados (poemas, 2015) e nadar em cima da rua (poemas, 2015), pela Editora Kazuá, Páthos de fecundação e silêncio (poemas, 2017) e Poemas tímidos e gelatinosos (poemas, 2019), pela Editora Patuá. Sua obra mais recente é o livro Saindo sem avisar/Voltando sem saber de onde (poemas, 2020), pela Editora Córrego. Nasceu em Pernambuco na cidade de Palmares no mês de março de 1984.

dois poemas de Alessandra Martins

capa_sankofarespeite as mina preta

Sou vista há mais de 500 anos
como só corpo, só prazer.
Ela é branca pra casar,
eu mulher preta
pra escondido comer.

Preto, sei que a igualdade racial
não chegou pra mim nem pra você,
mas por eu ser mulher preta aumentam
mais ainda os paranauê.

Se põe no meu lugar, pra você ver.

Tive quinze filhos,
sofria dentro de casa,
enquanto meu marido
por aí batia as asa.
Me traía, violentava e
ainda me xingava.

Maldita sociedade — só maldade.
Quanto maior a melanina,
mais se aumenta a solidão.
É solidão…
porque parece que só sirvo
para lavar suas roupas,
fazer sua comida,
ser comida,
limpar seu chão.

Meu beiço, meu nariz,
meu cabelo
te incomoda?
Na primeira oportunidade
me troca
por uma padrãozinho,
na moda.

Ascensão, high society,
crescimento profissional.
Não quer uma preta do lado,
pois pode pegar mal.

Não sou de confusão.
Não vim para arrumar “treta.”
Mas estou aqui para dizer.
Respeite as mina!
Respeite as mina preta!

orgulho negro

Tenho orgulho de mim,
deixei de ser prego,
agora sou marreta,
pois já senti o que é ser
rejeitada,
cuspida, negada, maltratada.
Somente por ser preta.

Tenho orgulho da minha pele,
da minha carapinha.
Do afro que uso, dos meus
traços marcantes.
Minhas origens espetaculares,
dos colares, turbantes.

Tenho orgulho dos
guerreiros, dos sábios,
rainhas e reis verdadeiros.
Das minhas tranças,
das crenças,
das danças, comidas
e extravagâncias.

Tenho orgulho da minha raça,
da luta do meu povo.
Da liberdade conquistada,
da briga pela igualdade,
da insistência, resistência.
Do ontem lembrado
com tristeza, mas com orgulho.

Resistiram e chegaram
Vivos ao cais.
Tenho orgulho da esperança,
Força e coragem
que tiveram
meus ancestrais.
Orgulho Negro!

| poemas do livro Voa, Sankofa, voa! (Chiado Books, 2021), disponível no [link]. |

Alessandra Martins é natural de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. É poeta, educadora e autora do livro Voa, Sankofa, voa!, publicado pela Chiado Books, em que usa a literatura marginal para denunciar o genocídio da população negra, a falsa democracia racial brasileira e os estigmas e estereótipos que são postos sobre o corpo negro em diáspora africana. No entanto, juntamente apresenta a exaltação da beleza negra, do orgulho e o regaste da ancestralidade.

piromaníaca, de Laura Elizia Haubert

capa_furacaoEla sentia intenso prazer quando via alguma coisa queimando à sua frente. Havia algo naquilo, aquela cor que só o fogo tem, aquela imensidão que só o fogo tem. Como é que as outras pessoas não ficavam assim, hipnotizadas? Como resistiam à vontade insana, que a fazia coçar os pulsos, de querer queimar tudo? Aquele instinto desgovernado era mais forte que ela, um negócio primitivo que se remexia por dentro e a fazia ficar mal quando não conseguia queimar. Se ela não queimasse algo não se sentia viva. Chegou ao ponto de não poder dormir à noite.

Não se recordava direito de como aquela obsessão tinha começado. E isso importava? Talvez não mais. O que importava é que, como os pequenos hábitos de infância que se tornam importantes, ele se manteve pelo resto de sua vida. E provavelmente a última coisa na qual pensaria antes de morrer, dali a 67 anos, é que ela gostaria de ser devorada pelas chamas de vez.

Se não se lembrava do começo, pelo menos se lembrava, com certo prazer, de quando recolhia as folhas de árvores e papéis do lixo caídos no quintal, até formar uma pilha enorme para queimar. E arder, arder, arder. E ninguém estranhava, ninguém imaginava o prazer que ela ocultava, o que acontecia à noite, ali do lado de casa, no terreno baldio, onde ela se infiltrava escondida para jogar o saco de lixo no latão gigante e, com muito furor, acender um fósforo e lançá-lo para o fundo, vendo as chamas estalarem.

Às vezes, quando estava assistindo o fogo crepitar, sentava-se tão paralisada que parecia uma escultura. O que ela via de tão fascinante? Não se sabe. Mas seus olhos tinham interesse pelo fogo, e seu corpo era desejo de fogo, e ela inteira queria ser fogo, bem lá no fundo, embora soubesse que não era possível ser assim tão quente.

Quando se esgueirava para entrar no terreno, tomava cuidado para não ser vista nem antes, nem durante, e nem depois. Não queria ter de explicar o que não conseguia explicar sequer a si mesma. Não queria ter de acalmar a mãe dizendo que não estava doida para matá-los à noite, muito menos se defender dos vizinhos que comentavam sobre os prováveis drogadinhos que vinham ali usar o espaço vazio para se aquecer e fumar ou injetar.

— Coisa de drogadinho, isso aí. Você sabe, agora que eles se espalharam pela cidade, a gente não tem mais sossego — dizia Dona Lurdes, indignada, toda vez que passava na frente do terreno baldio.

E ela, muito quieta, via que Dona Lurdes tinha uma coisa má à sua própria maneira; por isso nunca dava nenhuma resposta, por mais que desejasse.

Sua vida ia seguindo, até que um dia, lá por novembro, alguém levou seu latão embora. E ela não queria se arriscar a queimar os papéis e folhas direto no solo, porque o fogo poderia se espalhar pelo mato seco e logo estaria queimando o terreno inteiro, e quem sabe acabasse por queimar sua casa.

Aquela tinha sido uma semana perturbadora. Ficou amuada, seus sonhos não eram sonhos, eram pesadelos, e quando acordava se deparava com a infelicidade. Nos primeiros dias, resistiu com bravura, mas foi se deixando levar, o humor caiu, a esperança caiu, e ninguém conseguiu entender por que ela estava daquele jeito. Ninguém, exceto seu pai.

Ela não sabia, mas o pai conhecia seu hábito escondido. Ela não sabia, mas quando ia se deitar, o pai jogava água fria nas cinzas e ficava à espreita para ter certeza de que o latão não ia virar e botar fogo no mato, e botar fogo na casa, e botar fogo no bairro todo.

Então, quando levaram o latão embora, ele com discrição tratou de arranjar outro. No sábado, convidou a filha desanimada para tomar um sorvete e fez questão de passar na frente do terreno, mesmo a sorveteria sendo para o outro lado, para que ela pudesse ver o novo objeto. E ela viu, e ela sorriu, e ele sorriu, e ninguém disse nada.

| conto do livro Doce olho do furacão e outras fúrias (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia na Universidad Nacional de Córdoba. Graduada e mestre em Filosofia pela PUC-SP. Já participou de várias revistas literárias, entre elas Revista Subversa, Revista Gueto, Revista Ruído Manifesto e a Revista Ponto do SESI-SP. Publicou, em 2017, pela Editora Patuá, o livro Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul; em 2019, Memórias de uma vida pequena, pela Quintal Edições; e, em 2021, pela Editora Penalux, Doce olho do furacão e outras fúrias. Atualmente, vive em Córdoba, na Argentina.

três poemas de Carolina Rieger

dueto

o vento zomba da carne
espanca a pele e a anca
rasga à navalha a pelanca
o vento zumbe na cara
e esbraveja no ouvido
esfarrapa à farpa a entranha
vento e ventre a grunhir
vazando a víscera vazia
a fome e a noite fria

um uivo

ah, essa coisa de fazer poesia
e trazer tantos lobos para fora do covil
e lobas, todas no cio,
e tantos e tantos vazios
ah, essa coisa vã que é fazer poesia
e que não fala, uiva
e chora e sangra
estrangeira e nativa
numa ilha igual a todas as outras ilhas…
ah, essa coisa inútil que é fazer poesia
e ser um desnudamento tão íntimo
que de tão íntimo desnudamento
é igual em todos os falantes
ah, coisa inevitável
que é fazer poesia

as Mulheres e suas Crianças

desbravando o estreito do tempo
Elas ficam prenhes
não só de filhos
não só de amores
prenhes de sonhos
e de perpetuação
na barriga nascem cidades
as leis e seus reis
não há outro meio à força motriz
da barriga nasce a história
nasce toda a gente
nasce um país
o futuro é umbilical
seio e noite insone
em ladeiras pedregosas
caminham as Mulheres
suas Crianças a tiracolo
por ladeiras pedregosas
fogem dos algozes
as Mulheres e suas Crianças

Carolina Rieger nasceu em São Paulo, capital, e mora em Osasco. Formada em Filosofia pela USP, mestra e doutoranda em História da Educação pela PUC-SP. Publicou Irmãos Koch, think tank, coletivos juvenis — a atuação da rede libertariana sobre a educação (Edições 70, Editora Almedina, 2021). Publicou poemas e contos em coletâneas, fanzines e revistas. Seu primeiro solo de poemas é Carnaval (Editora Patuá, 2017), que lhe rendeu uma colocação entre os 10 finalistas do Prêmio Guarulhos de Literatura 2018. Em 2019, ficou em 3º lugar no mesmo prêmio. Está com seu próximo livro, De temer a morte, pela Caravana Editorial, no prelo. Estes três poemas são dele.

‘Goethe e seu tempo’ (Editora Boitempo, 2021), de György Lukács

goethe_tempoGoethe e seu tempo, de György Lukács, traz um conjunto de cinco ensaios do filósofo húngaro escritos durante a década de 1930 e dedicados à obra de Johann Wolfgang von Goethe.

Considerado um dos pontos culminantes da literatura humanista burguesa, Goethe tem sua trajetória esmiuçada e contraposta à de outros contemporâneos seus, em uma análise engajada do grande romance moderno e de seu conteúdo progressista.

Os dois primeiros textos tratam de obras específicas de Goethe e sua construção, ao passo que os três seguintes discutem o contexto social e literário no qual o escritor estava imerso, propondo percepções originais a respeito das motivações, contradições e desafios enfrentados por sua obra.

Trecho de “A teoria schilleriana da literatura moderna” (p. 123)

“A teoria da literatura moderna, da fundamentação de suas particularidades e da razão de ser dessas particularidades, desenvolveu-se, desde o aparecimento da classe burguesa, sempre em estreita conexão com a teoria da Antiguidade. Seria preciso que o domínio da classe burguesa estivesse bem consolidado, que tivesse se tornado óbvio, para poder produzir uma teoria da literatura moderna sem esse paralelo histórico, puramente a partir das condições externas e internas do surgimento dessa literatura. Contudo, no momento em que as bases econômicas da sociedade burguesa se tornaram óbvias, a ideologia burguesa já estava ingressando no período da apologética: ela não dispunha mais de suficiente desenvoltura e intrepidez para investigar de modo cientificamente imparcial as possibilidades ideológicas e artísticas de sua literatura com base em uma análise crítica de seus pressupostos e suas condições sociais. O grande período da teoria burguesa da literatura, que chega a um término com a poderosa síntese histórico-mundial da história da literatura e da arte na Estética de Hegel, baseia-se do começo ao fim na concepção da Antiguidade como o cânon da arte, como o modelo inacessível de toda arte e literatura.”

Continua a leitura do trecho em PDF [AQUI]

Ficha técnica

Título: Goethe e seu tempo
Título original: Goethe und seine Zeit
Autor: György Lukács
Tradução: Nélio Schneider, colaboração de Ronaldo Vielmi Fortes
Revisão da tradução: José Paulo Netto e Ronaldo Vielmi Fortes
Editora: Boitempo
Ano de lançamento: 2021
Mais informações no site da editora [AQUI]

cinco poemas de Jéssica Iancoski

rolos de papel filme

como ybá
secando longe do pé

dedos esticados
pela ganância branca
formam uma linha
do polegar ao mundinho

movimentos de pinça
roubam a tangerina
tentando extrair
a seiva interina

sem que saibam
robôs descascam
o firmamento

frutos envoltos em etileno
enrolam horizontes
em rolos de papel filme

um só lamento para o soterramento

enquanto cipós
se lançam do alto
das copas
buscando
a semente

pessoas
trocam de nome
tentando aceitar
a mente

yby seria só a terra
mas homens infelizes
impuseram o chão

pilares

antes do sol
uma mãe
e os seus seis filhos
se levantam e
erguem as mãos
para um deus mudo.

sem que saibam
sustentam o peso do mundo
para que um dois ou três
homens sem rostos subam
até a tez
da lua.

enquanto suas
mulheres cantam agudo
sobre as noites mais escuras
de um eclipse profundo.

e os pobres escutam
com seus rostos evaporados
em multidões
enquanto aguardam
esmagados
a própria vez.

os dez dedos do silêncio

o silêncio
se agarra
com seus
dez dedos
de estrangular
às setes verte
bras cervicais
do pes
coço

entalado
como osso
nem sobe
nem desce
endurece
como carne
e como câncer
de laringe

pendurados
em correntões
refrigerados
em açougues
da freguesia
podre

plunct plact zum

paredes são concreto
e argamassa da mais
lisa indiferença
soldando nomes
em bloco de dígitos
e renda por cabeça.

chão é asfalto
e pixé da mais
espera violência
derretendo nomes
sob sóis sempre
mais quentes.

miolos são gente
e água da mais
juvenil anarquia
descarregando nomes
próprios entre portas
— tiros por pente
per capita.

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc.) e internacionais. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 16 anos de idade. É editora do Toma Aí Um Poema — o maior podcast lusófono de declamação de poesia e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Contato: www.jessicaiancoski.com | @Euiancoski

não venhas sorrateiramente a nós…, poema de Rodrigo Novaes de Almeida

“Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.”
Dylan Thomas (!914-1953)

Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia,
Que os cantos e as danças avancem a tarde ainda;
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

E ele penderá sempre ao absurdo, fim da alegria,
Quando a humanidade já não for mais bem-vinda;
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.

É injusto o apagar da espécie cuja ousadia
Foi ferir gravemente o mundo e se colocar na berlinda?
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

Não é sem propósito destruir sua única moradia,
Matar a todos ao redor e deixar tudo cinza?
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.

A gravidade do tempo presente é a nossa comédia,
Outrora o calor de uma mãe a nos afagar, tão linda;
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

Conterá um mal com outro mal sem misericórdia:
Assim é a terra sem-par quando se faz desavinda.
Não venhas sorrateiramente a nós ao meio-dia.
Oscila, oscila o pêndulo de forma simples e fria!

São Paulo, 26 de julho de 2021.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020) e Do amor e de outras tristezas: histórias de violência e morte (Contos, Editora Urutau, 2021), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.

ponte do silêncio, crônica de Luciana Pinsky

Carro, estrada, cheiro de carro, calor, náusea, parar (vai, vai), vomitar. Por vezes dava para controlar. Mas tinha de olhar para frente, só para frente, como minha avó me ensinou: “Não desvie o olhar. Encare lá para frente e não vire o rosto. Só pare quando chegar”. E funciona até hoje. Quase sempre.

E o trânsito? O carro estático, minha mãe reclamando da marginal, podia ter voltado de ônibus, mas essa hora é perigoso, filha. Trem vai rápido. Mas não resolve, ele para a 2 quilômetros de casa. Tornei-me independente quando descobri a bicicleta para trajetos urbanos. Mas e para ir mais longe?

Por mais que adorasse viajar, estar em outros lugares, minha relação com carro sempre foi conflituosa. Era o mal necessário para chegar onde queria, na falta de transportes mais civilizados (e que não me enjoassem).

Isso até o dia da ponte João Dias.

Ele dirigia. E dirigia devagar. Como devagar sempre tocou a vida. Falava devagar, ria devagar, gostava devagar, desgostava mais devagar ainda. Eu estava ao lado, por vezes ouvia o que me dizia, mas basicamente curtia a viagem lenta por uma marginal excepcionalmente livre. Talvez por conta do momento incomum.

A ponte do Jaguaré, escuríssima. Na cidade universitária podia fazer o anel, chegar em algum lugar da Praça Panamericana, talvez um sanduíche, a fome crescia. Só pensei. Na Rebouças vertigem, mas não enjoo. As luzes vinham e passavam, traços de outros veículos — uma cor, um zumbido — mas nada ficava lá com a gente.

Cidade Jardim? Como cheguei aqui? Você me contava de um filme que viu. Ou era livro? Sonho? Sonho sim. Eu entrava no sonho e já não sabia se estava no seu sonho ou na avenida. Avançamos. Ali sairíamos para Bandeirantes, com sua discreta mas indisfarçável inclinação rumo a outros lugares. Não. Você seguiu. Qual minha avó, sem virar. Exceto que seus olhos, de soslaio, procuravam-me. “Cuidado para não enjoar”, quase alertei. Mas não. Ele que sabe de si, quem sabe é homem que não se abala?

Ponte do Morumbi leva à minha irmã, ia comentar. Mas a boca só murmurou o calor de agosto. Até onde iríamos? Tem combustível para tanto? Será que não faríamos falta, será que pendurei a roupa da máquina, será que as frutas vão estragar? Fechei os olhos e frutas, roupas e falta desapareceram.

E daqui para frente pouco lembro. Lembro sim, mas não há palavras, porque palavras não chegam. Em uma São Paulo tão barulhenta são poucos e inconfundíveis seus silêncios. Precisamos deles. Por isso, peço, imploro. Por favor, Prefeito, mude o nome dela. Não é João Dias. É ponte do Silêncio.

Luciana Pinsky é, originalmente, jornalista, com passagem pela revista Época e pelo jornal Valor Econômico, entre outras publicações, e se enveredou para a ficção, especialmente para crônicas. Publicou um romance, Sujeito oculto e demais graças do amor (Editora Record). Atua, desde 2005, como editora de livros pela Contexto. E mantém seu blogue de textos ficcionais: http://www.altamentecronicavel.com.br/

três poemas de Demetrios Galvão

a sorte se esconde no amanhã

quando o motor pega no tranco
e o clima pesa sobre os ombros
penso na vida de minhas gatas
e imagino o que elas sonham
essa imagem preservo por dias
emolduro e guardo

calculo o que vejo
meço, peso, observo
a febre dos animais
a alegria dos peixes
a conversa das estrelas…

sei que as sementes da voz
se expandem na boca do tempo
e que não há fundamento maior que a coragem

— o amanhã traz uma sorte desconhecida.

farrapos da imprecisão

é privilégio dos vivos ter lembranças
coisas guardadas onde não sabemos onde:

de um avô, lampeja a velhice esbranquiçada em passos bem curtos
com palavras que não criavam raízes dentro da frase.
do outro, a matéria dos olhos assertivos-esverdeados
semeando a terra, plantando cajus e lutando contra as formigas.

de uma avó, ficou a potência de uma mãe de muitas mulheres
que não tiveram a sua mesma força.
da outra, a doçura-alegre de quem gostava de bananas
e nos enchia o bucho de coisas boas.

— o que fica, são os farrapos da imprecisão
alguns fleches não revelados da máquina.

reabitar 2

1

a esperança
desafia a gravidade
e levanta os mortos

reanima os segredos da casa
com o toque do invisível

perturbamos
os domínios da morte
com nossa felicidade.

2

o irromper da luz
e sua energia
intangível

magnetismo
que me faz
manter os olhos
no nascente

e imaginar um lugar
que deus
não conheça.

Demetrios Galvão (Teresina-PI) é poeta, editor e professor. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017), Reabitar (2019) e do objeto poético Capsular (2015). Tem poemas publicados em diversas antologias, revista literárias e é coeditor da revista Acrobata, em atividade desde 2013.