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dois poemas do livro ‘Meia lua soco’, de Tomaz Amorim Izabel

bate a foto
em voo pobre
sem asas
um peito que não arfa
passa batido
sem compromisso
como um ônibus que não para
no ponto vazio
bate a foto de cima
vê como um cometa
gente prédios esquina
a cidade fervilha
mas sem charme que
na extensão do planeta
a distinga
está ali como também poderia
estar uma cordilheira
ou um bando de ondas
um ponto nublado no mapa
bate a foto
sem escutar nada
lá no alto ou embaixo
das milhares de árvores
só vê o granulado das copas
ovaladas
não vê embaixo de uma delas
em tarde clara de novembro
a barriga grávida
e cravejada
a primeira no galho
prestes a desabar

* * *

um casal sentado num banco
ela com cachos brilhantes
ele em camisa verde-oliva
interrompidos em seu romance
pelo romance maior com a lua
iluminada
de lá
de volta
olhar nenhum
pedras e poeira e luz solar
sem atmosfera que a reflita
lembrança de um outro mundo
o amor

Tomaz Amorim Izabel, 32, pesquisa sobre e escreve literatura. Meia lua soco é seu segundo livro de poemas e será lançado no fim deste mês pela Editora Primata.

fantasmas, de Veronica Stigger

O que se vestia de bailarina virou polícia; o que tinha ideias revolucionárias, também; a que lavava o cabelo com leite, advogada de causas perdidas; o comunista, carola; o de língua presa, chef; o mais pirado, dono de pizzaria; o que viera do centro do país, agrônomo; o bonitão da turma, médico em Estrela; a que amava os esportes, vegana; a de rosto redondo, arquiteta; o ruivo, também; o que não tinha os mamilos, contador; o que não brigava com ninguém, publicitário; a que brigava com todo mundo, técnica do Tribunal de Contas da União; o que misturava lambada com Frank Sinatra, ginecologista; a mau caráter, escritora; o discreto, fotógrafo; a fofoqueira, tabeliã; o atencioso, como era de se esperar, professor; a Branca de Neve, proctologista; a que quase não falava fugiu para a Austrália; a crespa alisou os cabelos; o liberal continuou liberal; o grandalhão está estudando húngaro; o piadista ainda sonha em ir para a Tailândia; o que tinha cabelo de Príncipe Valente, para o Canadá; os dois que tinham doenças congênitas morreram aos 30 e aos 44 anos respectivamente; há ainda o que comprou uma casinha numa praia em Santa Catarina; o que se perdeu na Patagônia; o que vai sempre esquiar em Bariloche; o que foi morar na China; a que se escondeu em São Paulo; o que foi parar numa capital do nordeste; a que se encontrou em Brasília; o que se mudou para o interior do Rio Grande do Sul; o que voltou a morar com os pais; o piloto de avião; a ecologista; o bancário; a dentista; a defensora dos animais; a cuidadora de velhinhos; o gerente da loja de eletrônicos; o diretor da firma; o analista de sistemas; o engenheiro; a esportista; o treinador de futebol; as arquitetas; os arquitetos; as advogadas; os advogados; a professora universitária; o professor de línguas; a herdeira; o mendigo. E havia o Sandro, de cujos rosto e sobrenome ninguém se lembra, mas que, durante muito tempo, se sentou ao meu lado nas aulas.

Veronica Stigger é escritora, crítica de arte e professora universitária. Tem doze livros publicados. Entre eles, estão Opisanie świata (2013), Sul (2016) e Sombrio ermo turvo (2019).

cada palavra, uma morte, de Rodrigo Novaes de Almeida

capa_mondrongo_antifaNaquele tempo, não tínhamos dimensão de nossa ruína. As instituições democráticas ainda pareciam funcionar. Tivemos eleições para escolher nossos representantes do legislativo e do executivo. Alguns poucos já denunciávamos que as arbitrariedades cometidas pelos três poderes nos levariam à ruptura do tecido social e à barbárie. Não nos escutaram. Diziam que era exagero. Então, aconteceu. Já são trinta e três milhões de mortos. A guerra civil fragmentou o país. As organizações internacionais nada puderam fazer para evitar a catástrofe. Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia não se entendem mais e travam suas próprias guerras que, apesar de permanecer na esfera econômica, atualmente vêm acompanhadas da ameaça nuclear. Logo o planeta se tornará um deserto radioativo e estaremos todos mortos e bem, porque a extinção da espécie será melhor do que o inferno que criamos para nós.

Antes da guerra eu era professora de História. Ninguém pode saber disso nos dias de hoje, eu não seria estúpida de contar e não há mais registros que nos comprometam — há anos o Ministério da Educação deixou de existir. O Brasil tornou-se a terra arrasada que os fundamentalistas neopentecostais tanto desejaram. Agora, pertencer a um templo é obrigatório e o sincretismo religioso que se manifestava em diferentes campos da nossa cultura também não existe mais. Não sei por que ainda penso nessas coisas. Talvez por nunca ter esquecido, quando entrei pela primeira vez no templo para o qual fui designada, a náusea terrível e inexorável que senti. Eu pressentia que a vida a partir daquele momento, com essa gente no poder, seria uma lenta putrefação.

Sobre os escombros do que restou do país, partes das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sobrevivo como carteira. A empresa dos Correios precisou ser reestatizada pelo governo de extrema direita, depois que os investidores estrangeiros foram embora, esse mesmo governo que provocara todo o mal através do qual passamos. Primeiro perseguiu todas as lideranças de esquerda, e as matou. Depois, as de direita que o apoiaram; a direita rentista, neoliberal, que se acreditava herdeira da longa tradição da burguesia que, um dia, em um passado agora apagado dos livros e que os fundamentalistas dizem nunca ter existido, inventou o Iluminismo.

Hoje não carrego cartas comuns em minha bolsa, mas um desses telegramas do governo central. Todos sabemos do que se trata. É a morte. Ou, antes, a notícia da morte de alguém amado para seus entes. Neste caso, para o senhor e a senhora Araújo, um casal de idosos pelo qual tenho afeição. Eu os conheci há alguns meses, quando passei a fazer as entregas no distrito que residem. Oferecem-me biscoitos e, às vezes, chá. São muito simpáticos, e sofrem por não ter notícias do filho desde o início da guerra. Eles têm esperança de que esteja vivo em algum lugar do Norte, onde as batalhas continuam. O rapaz foi lutar contra o regime que neste momento nos mantém reféns. Foi lutar por democracia e Estado laico. A senhora Araújo contou-me a história do filho tempos atrás, e eu disse que não a revelasse a mais ninguém, que não deveria ter me contado, pois era um risco desnecessário e ela e o marido poderiam ser presos apenas por proferir tais palavras. Então a senhora Araújo me respondeu de forma doce que não tinha medo, que era o medo a verdadeira arma desse governo e que ela não se renderia, como o filho não se rendeu e foi lutar por liberdade. Nesse dia, eu chorei, e choro agora porque sei que trago a morte de seu filho para sua casa.

Toco a campainha enquanto enxugo as lágrimas. A porta é aberta e vejo o casal. A senhora Araújo sorri ao me ver. Eu tento sorrir de volta, mas acho que não consigo. Tiro o telegrama da bolsa e entrego para o senhor Araújo, não quero que seja ela quem segure a morte do filho nas mãos. Mas o senhor Araújo lê o remetente e entrega o papel para a mulher. Ela abre o telegrama e, enquanto lê a breve linha, lembro-me que não lhes dirigi a palavra, nem ao menos um bom-dia. A senhora Araújo lê devagar aquela única linha, cada palavra, uma morte a respeito da morte do filho que não havia se rendido, que foi lutar por liberdade, democracia e Estado laico. Eu começo a chorar outra vez. O senhor Araújo me olha e em seus olhos enxergo o terror, um terror definitivo, mesmo depois de todos esses anos de execuções, torturas e genocídio dos nossos povos, porque éramos muitos antes. A senhora Araújo entrega o telegrama para o marido, que lê: « Teu filho, um traidor, foi morto pelos heróis da pátria em nome de Deus. » Era assim que o governo central tripudiava dos familiares de insurgentes, sempre que conseguia identificá-los. Logo o símbolo da traição seria pintado com tinta vermelha no muro da casa e eles se tornariam párias, mas o degredo não perduraria. A marca também significava que a milícia poderia entrar e fazer o que bem entendesse com quem morasse ali. Seriam mortos por alguma alma cristã com sede de sangue. No entanto, neste instante, não há mais ninguém na rua. O senhor Araújo dá três passos para trás, cambaleando. Sua mulher está encolhida, como se protegesse o próprio útero velho e vazio. Ele murmura:

— Nosso filho está morto, Anna?

Ela responde:

— Como este país, Otávio.

| este conto faz parte da coletânea Antifascistas, à venda no site da editora [link]. |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores. É autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do Prêmio Jabuti, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros.

sete haicais de Maria Valéria Rezende

Nasce toda verde,
vermelha renasce a folha,
logo será ouro.

* * *

Preso em saco plástico
último frêmito de asas —
morre a borboleta.

* * *

De ponta-cabeça
céu vira mar, mar é céu —
e o céu tem marola

* * *

A casa vazia
sem cheiro nem som, revive;
chegou a criança!

* * *

Ouço um chilrear —
há uma criança e há pássaros —
de quem esse canto?

* * *

Goiabas maduras —
corro a colhê-las — os pássaros
acordaram antes

* * *

Estrada longa
margeada de cajueiros
— água na boca.

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos, São Paulo, onde viveu até os 18 anos. Em 1965, entrou para a Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho. Dedicou-se sempre à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, no meio rural, até 1986 e, desde então, em João Pessoa, onde está até hoje. Compre os livros da autora em sua loja virtual no [link].

ressonância órfica, de Luci Collin

Vamos nessa viagem ao pantanal ao matagal ao bananal ao quintal, por favor, diz que concorda comigo. A gente paga em 12 (doze) vezes sem furos e nem sente. Dessa vez a gente leva pouca bagagem. A gente faz fotos belíssimas e em todas os olhos sempre abertos e nunca vermelhos. Prometo que será lindo. Podemos fazer amor no pântano, imagina que maravilha, entre jacarés a nos assistir, curicacas, piranhas abençoando nosso conluio, corumbás-de-asa-chaleira, leões, como assim É savana? Como não tem? Tem sim, basta estarmos dispostos desinibidos vitaminados determinados que tem SIM.

Pensa: sexo artesanal ortogonal emocional irracional fraternal tridimensional descomunal meridional fenomenal confessional devocional carnal excepcional passional marginal cardinal multifuncional proporcional infraconstitucional venal transcontinental tradicional patronal setentrional informacional original unidirecional adicional seminal multinacional sensacional profissional atitudinal organizacional diagonal regional ficcional

Garanto que será inesquecível e completo, será insubmisso e regenerador. Pensa, por que não? Vamos nadar no mar morto, ártico, vermelho, balsâmico, no oceano abísmico, vamos galopar na via ápia láctea sépia arterial pública. Seremos inclusive públicos e únicos, faz um esforcinho, amor da minha vida, quebra o vidro, rompe o lacre, pisa na grama, flana, frequenta, aumenta o volume, sacode a poeira, se tiver vontade boceja. Não diz simplesmente “deixa disso!”. Vamos viver com a intensidade dos grandes, pensar grande, meu benzinho.

Imagina: podemos ir às compras, receber descontos, concorrer ao carro, dar depoimento de satisfação, sair no jornalzinho do bairro com foto e tudo, ganhar amostra grátis, ficar por dentro dos lançamentos, passar cartão, receber troco, doar moedinhas, jogar uma moeda na fonte, contribuir com grandes causas, derrubar suco na roupa, receber panfletos, anúncios, filipetas, convites para uma peça de teatro infantil, cupom pra almoço por quilo, vale-ducha, tomar um sunday duplo, jogar mini-golfe, pegar um cineminha, provar uma bermuda jeans.

Basta um gesto seu que eu largo tudo, nem hesito, desisto completamente de sucesso fama louros pódio, largo emprego e nem questiono nem bufo, rompo com a família nem que não tenha, saio da fila que nunca chega mesmo a minha vez, abandono o cargo de confiança, largo vícios quaisquer que sejam, cigarro boêmia chiclete roer unhas, adoto novos hábitos, nunca mais implico, nunca mais assobio, não uso diminutivos, nunca mais ronco, nunca mais praguejo, não deixo queimar a comida, não deixo comida no prato, tomo a vacina, nunca mais palito o dente, compro roupa nova, faço regime e emagreço, faço dieta e engordo finalmente, vou pra academia, mudo de estilo, mudo o penteado, corto, deixo crescer, compro um carro, vendo o carro, compro uma bike e, sim, uso capacete sempre, vendo os meus discos e livros que afinal pra que que a gente guarda tanta coisa, torno-me minimalista, doo órgãos, troco a mobília, monto um aquário com galeão afundado, jogo fora as estátuas, rasgo cartas antigas, ando só a pé, nunca mais furo fila, nunca mais falo com a boca cheia, passo a gostar de berinjela, faço exame de sangue um hemograma completo, aprendo a fazer baliza tricô biscoitos planilha, volto pras aulas de inglês, mando cartões de natal, passo a limpo a caderneta de telefones, encero o chão da sala da área da varandinha, conserto o cano, arrumo a gaveta, queimo as fotos antigas, me desfaço da coleção de chaveiros, de autógrafos, de revistas, de selos, de posters, de esperanças, de dores, de arritmias — basta uma palavra sua.

Considera: o grau de satisfação conseguida, as estatísticas, os gráficos comprobatórios, a eficácia, a metodologia executiva, as minúcias, os lucros, as bolsas e financiamentos, os desafios, as regras claras do edital, a logística mais que propícia, os sistemas de informação, a produtividade dos sentimentos, as cláusulas vigentes e as destituídas, os fatores humanos envolvidos, a liderança, a inovação, o incremento no currículo, as voltas que dá o sol.

Amor não diz que a vida é complicação! Talvez na próxima quinta VOCÊ venha EU volte, o preço da passagem baixe, EU diga VOCÊ cale EU silencie perante a banda VOCÊ fale pelos cotovelos EU abaixe a cabeça talvez na quarta VOCÊ erga a cabeça talvez na terça EU saia antes e VOCÊ consiga ficar mais um pouco talvez os relógios todos atrasem os sinos não soem as andorinhas não cheguem as mariposas caiam no esquecimento a juventude passe talvez a velhice toda seja abortada e EU dance na frente da polícia e VOCÊ durma no topo da montanha em neve e EU cisme que o alaranjado é o mais bonito e VOCÊ confie na revolução dos astros talvez na terça talvez no sábado pela manhã talvez na casa da praia no meio da floresta na rua em dia de grandes promessas na esquina onde marcamos seria, poderia ser inevitável a perda.

Evita: dizer que maçada, seu soubesse tinha ficado em casa, nada como o travesseiro da gente, tá salgado demais, tô com uma dor na perna esquerda, minha úlcera hoje tá me matando, minha vida hoje tá me matando a saudade é corrosiva as prestações vão vencer e eu não acredito no sistema que porre que tédio, evite a todo preço dizer que nada é tão ruim que não possa piorar e, por favor, por obséquio, por gentileza, por fineza, não venha com leis de murphy leis delegadas leis imperiais leis de seno e cosseno leis de trânsito leis de newton leis do universo em movimento.

A lista que me pediste dos motivos porque te quero (separados por vírgulas): quero porque te quero, quero porque te quis sempre, quero porque quis querer-te, quero porque esperei para poder querer tanto, quero porque tanto esperei para ter o que era ter-te, quero porque ter-te era tanto e era o tanto que eu quero, quero porque querer-te era o querido desde sempre, quero porque o desde sempre fez-se ter-te, quero porque os motivos se fizeram quando esperar era já ter-te, quero porque quis-te.

São dez
São dez direções que me levam a uma única
A minha pessoa mais íntegra no em mim que só existe com você.
O último recurso seria amar-te menos. Mas já tentei tratamento terapia benzedeira greve de fome greve de cama greve de mim e não
consigo.

Luci Collin, curitibana, é ficcionista, poeta e tradutora. Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais Querer falar (Finalista do Prêmio Oceanos 2015), A palavra algo (Prêmio Jabuti 2017) e Rosa que está (2019). Participou de diversas antologias nacionais e internacionais (EUA, França, Alemanha, Bélgica, México, Argentina, Peru, Uruguai). Traduziu Gertrude Stein, Gary Snyder, E. E. Cummings, entre muitos outros.

poema inédito de Constança Guimarães

um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três__________duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe

| poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |

Constança Guimarães é escritora mineira e jornalista, autora de Ombros caídos olhando pro Inferno (Editora Urutau, 2017) e A sereia da Contorno e outras histórias (Editora Leme, 2017). Tem poemas e contos em publicações como Revista Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em guerra) e Revista Torquato.

meia de leite, de Manuella Bezerra de Melo

Sentiu um arranhão áspero, mas também suave no seu rosto. O sonho não era dos melhores, contou-me, por isto acordar pareceu-lhe bem. Fidel estava à sua frente, tão cinza como sempre. Os seus olhos azuis eram sedutores. Bem sabia que este lambia a sua cara porque desejava recompor o seu prato de ração, fez como fazem os gatos: pedem sem rodeios, incomodam sem o receio humano de não serem amados por isto, com as suas belezas e incômodos. Fidel tinha a certeza de que banalidades como a interrupção do sono não mudariam um sentimento de afeto profundo. Tinha as certezas que faltavam à Isabella, que já me contou o quanto aprende com ele. Beijou-me a testa e levantou-se. Sonolenta, vi-a caminhar até o saco de ração. Proveu a tigela, sentou-se à beira. Descabelada, vestia um pijama de flanela com motivos infantis, apreciou a fome de Fidel enquanto tirou a camisola por uns instantes. Pôs os seios à mostra para o sol. Condiziam: seios não tão jovens para uma mulher não tão jovem, seios não tão velhos para uma mulher não tão velha. Estava satisfeita. Por acaso, a luz era um evidente remédio, há de aproveitá-la.

* * *

Quando Isabela entrou na minha vida pareceu diferente desta que é agora. Sem juízo de valor, apenas diferente. Mantenho-me ao seu lado pela sua impressionante capacidade de se modificar a si, de mostrar fragilidade, da própria reinvenção, como quem cria todo dia um novo personagem. Não é do tipo que se arrepende, só arremessa o corpo. Quando desiste, avisa, não desperdiça tempo. Mas como fazer uma mulher desta estatura imensa ver-se tão enorme quando ela só se consegue percecionar pequenina?

* * *

Ela não gosta quando lhe chamam de guerreira, diz que não foi feita uma consulta para lhe dar esta condição, que nunca pediu esta patente. Mas o que ela não aceita é que há certas coisas que nós somos ainda que odiemos sê-lo. Enquanto o mundo corre atrás das suas patentes, ela rejeita-as. Só queria não tê-las, só queria não precisar de lutar, queria uma vida banal, sem armaduras nem capacetes, sem escudos nem batalhas. O cansaço vem-lhe todos os dias às 21h. Apaga-se ao meu lado como quem confia, deixando à mostra o seu flanco para o inimigo.

* * *

Um dia ensolarado, vi-a passar a pé com uma sacola. Tentei fazer com que ela percebesse que eu a tinha visto. Caminhava como quem se defende; atenta, erguida, ereta. Não tinha tempo para plenitudes, contemplações. Na cidade, em setembro, a árvore de um fruto especial florava e despejava fragmentos violeta no chão das ruas do bairro. Avistei-a a dobrar a esquina embaixo de um jambeiro, em cima de um tapete que, sem fim, era um guia, um caminho a ser seguido na trilha. Decidi esperar. Não sabia muito bem o que esperava. Supus ou convenci-me que ela apareceria novamente. Em alguns dias até me esqueci, pareceu-me delírio. Cheguei a duvidar que ela existisse. Algumas situações da vida podem parecer alucinatórias. Talvez eu tenha tentado inventar uma mulher. Nem saberia explicar o que poderia ter de especial alguém que vi passar uma vez na rua de casa, mas as nossas abstrações são o nosso traço mais bonito, alguém se torna magnífico por aquilo que nem mesmo se pode ver. Pude ler no seu andar, o de Isabella, o seu propósito de vida, ou deduzir, ou especular. Não era possível saber muito sobre ela, mas era possível desvendar seu propósito. Era possível que tivéssemos propósitos similares, acreditei.

* * *

Hoje Fidel veio lamber-me a mim. Eu já estava um pouco acordado e pela manhã todo o gato percebe quando o seu corpo já está próximo de despertar. O facto é que Fidel me lambeu uma vez só até eu abrir os meus olhos. Levantei mas fui primeiro à casa de banho. De pé, urinei a minha sensação de gozo matinal. Depois alcancei o saco de ração, encostei-me na parede e despejei na tigela. Terminei o meu sonho ali mesmo, de pé ao lado do Fidel, que não gosta de comer sozinho pela manhã. Isabella seguiu deitada. Voltei até à porta do quarto e de pé olhei-a. Dormia com a barriga para cima e as mãos sobre as coxas. Não estava totalmente entregue. Isabella vivia à espera da próxima guerra. Ela não queria, mas sabia que viria porque sempre chegava a hora.

* * *

Quando tinha nove anos, Dona Carmen casou-se outra vez. O pai biológico de Isabella é um vagabundo aproveitador de mulheres. Até que um dia dona Carmen mandou-o embora, Isabella tinha menos do que dois anos. Ficou sozinha até conhecer Gonçalo, tão gentil, carinhoso, atencioso com a sua filha, que na altura necessitava de uma referência paterna. Eis que chegou a hora, aos nove anos Isabella foi violada pela primeira vez, dentro de casa, em cima de seus lençóis cor-de-rosa. Aconteceu como um ritual de sacrifício. Assim que a Dona Carmen comentou que Isabella tinha ganho a sua primeira menstruação, ele esperou uma semana e numa oportunidade sozinho com a menina trancou-a e disse que agora ela já era uma mulher. Um dia, bebeu seis copos de vodca explicou os detalhes. Ele segurou-a de costas e a violou-a pela vagina e pelo ânus, com o pênis e outro objeto que ela ainda hoje não sabe dizer qual foi. Tinha os olhos fechados, o maxilar latejava dormente de tanto que apertava os dentes. Quando se sente desprotegida, até hoje lhe doem os maxilares. Num momento, virou-a de frente para ejacular. Consumado, espalhou o seu gozo com as mãos por onde deveriam estar os seus peitos, eram uma amostra quase imperceptível deles, e pela cara, enfiando os seus dedos sujos na sua boca pequena e roçando-os na língua. Pronto, agora Isabella era mulher. Desde então para todo o sempre, ser mulher foi sinônimo de dor, desespero, imundice, asco, ódio.

* * *

Vivo na Rua Amorosa, na esquina há uma padaria e era lá que estava, a tomar café sozinho numa mesa para quatro pessoas, quando avistei uma mulher de costas. Era só uma mulher que nunca tinha visto, mas não exatamente. Na verdade não havia reconhecido Isabella, de quem eu ainda não sabia o nome. Tinha cortado os cabelos, e do ângulo que avistei estava magra demais para ser a mulher que vi passar debaixo do jambeiro na esquina da Rua. Ou talvez já a tivesse esquecido, haviam passado meses. Sete, oito¿ Mas o esquecimento foi embora tão depressa ela virou o corpo para o lado direito, onde estava posicionada minha mesa. Não vou dizer que parecia cena de propaganda de shampoo porque talvez eu tenha inventado isto para mim mesmo como uma criança inventa os seus monstros no armário. Mas sim, ela virou-se quase em câmera lenta e piscou os olhos, os cabelos moveram-se devagar, esvoaçantes na minha direção. E ainda que pareça ridículo, foi nessa descrição patética de romance que os nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Poderia dizer que ela estava muito sedutora, mas a verdade é que ela nem é sedutora, ao menos não assim, à primeira vista. Eu vi que encontraram os olhos, mas ela jamais admitiria. Isabella não olha nos olhos dos desconhecidos, e muitas vezes não olha também dos conhecidos. De repente, ela volta-se imediatamente para o outro lado e senta-se no balcão de costas pra mim, de frente para a porta. A não ser que eu entrasse e saísse de novo da padaria poderia cruzar novamente o seu olhar. Isabella sabe defender-se. Segui de longe a observá-la e tentei não invadir o seu espaço. Seu pedido, pão com manteiga e uma meia de leite ‘com mais café do que leite’, ouvi-a dizer. A cadeira ao seu lado no balcão ficou vaga e sentei-me devagar com a cautela de quem joga um jogo desconhecido. Ela seguia de costas, calça jeans, camisa branca, os chinelos e os cabelos emaranhados decretavam o descuido de quem sai de casa para tomar um café na padaria e não deseja ser incomodado. Certamente morava próximo dali. Arrisquei uma conversa com o empregado sobre a troca da marca do café. Disse que o novo grão era muito amargo. Ponto. Ela virou-se para discordar: “Gosto deste, não troquem!”.

* * *

Num domingo de sol Isabella decidiu ir à praia. Enquanto trocava de roupa no quarto, o telefone de casa tocou. Atendi e Dona Carmem anunciou:

— Avise-a, por gentileza, que o pai morreu ontem à noite.

— O que aconteceu?, perguntei assustado.

— Matou-se enforcado.

Isabella parou à beira do corredor. Pôde ver os meus olhos arregalados, telefone na mão, o silêncio.

— Meu pai morreu?

— Sim.

* * *

Após consumar o ato, Gonçalo mandara Isabella ao banho. Ela esfregou o seu corpo até deixar parte dos braços com ferimentos. A sua vagina de criança estava ferida, o seu ânus sangrava. Colocou um absorvente, vestiu o pijama de flanela com motivos infantis, deitou-se no tapete ao lado da cama e dormiu exausta, como um desmaio. Quando Dona Carmem chegou Isabella já estava recolhida. Nada parecia fora do comum, era uma noite qualquer, mas não era. Daquele dia em diante, Gonçalo violou Isabella todas as semanas durante seis anos interruptos.

* * *

Depois daquele dia passei a frequentar a padaria diariamente na intenção de reencontrar Isabella. Cheguei a vê-la várias outras vezes por lá, cumprimentava-a como um vizinho educado. Um balançar de cabeça, uma mão suavemente levantada ao longe. Sem sorrisos ou insinuações. Ela andava como anda um trovão, pisadela forte, densa. Mulheres assim não aceitam serem surpreendidas. Depois de algumas semanas, não estou certo de quantas, pedi um pão na chapa e sentei-me ao balcão. O local estava cheio, diferente dos outros dias, posicionei o flanco de costas para a porta. Logo ficou vago o banco ao meu lado, ela sentou-se. Não levantei a cabeça, mas reconheci as sapatilhas. Mantive os olhos no telemóvel. O meu pão chegou, pedi um refrigerante de limão.

— Não gostas mesmo do novo grão?

Era ela, falava comigo pela primeira vez.

— Não, é amargo demais.

— Não podemos iludir-nos que a vida é doce.

Eu sorri um sorriso médio. Ela sorriu pequeno. Ela sorriu um sorriso que quase não se notava, mas pude ver que estava lá.

* * *

Quando o pai de Isabella se matou, ela não esboçou muita reação. Voltou para o quarto, tirou o maiô, vestiu o pijama de flanela com motivos infantis. Deitou-se na cama com um livro qualquer. Fui até sua beira e perguntei-lhe se havia algo que pudesse fazer. Perguntou-me se poderia ligar para o seu irmão para saber do enterro. O pai de Isabella achava-se esperto, mas era um canalha. Passou seis anos com Dona Carmem explorando-a diariamente. Dormia até meio dia todos os dias, não procurava emprego, não fazia comida, não lavava uma chávena. Às vezes fingia sair para procurar emprego e sentava-se no bar para passar o tempo até poder voltar para casa e passar o resto do dia a ver futebol na televisão. Era um embuste, um encosto, mas quando Isabella pensava nele tinha-lhe afeto, como quem agradece por nunca a ter violado. Ele perto de Gonçalo tinha-lhe ternura de pai, e no fundo talvez ela acreditasse que nunca tivesse acontecido caso ele não tivesse ido embora. Mas quando Dona Carmem o mandou embora, em menos de seis meses ele arranjou outra esposa, em menos de um ano ela estava grávida. Em menos de 10 anos ele estava na quarta esposa grávida. Isabella tinha três irmãos, um de cada esposa. Adélio, três anos mais jovem que ela, Priscila, a do meio, e Ana, uma miúda. Foi para o Adélio que telefonei quando o Patrício morreu.

* * *

Passamos semanas a encontrar-nos na padaria. Sentávamo-nos nos mesmos bancos e conversávamos sobre pão, café, sobre o carro do ovo que passava às quartas-feiras pra acordar a vizinhança. Nesta altura eu já sabia o seu nome, já tinha podido ver parte dos seus dentes e percebido que havia doçura escondida no meio daquele peso todo.

— Percebi que já não tomas mais café.

— O café é amargo, Isabella.

— Eu gosto do amargo.

— Eu gosto de evitar o amargo.

— Tenho café de outra marca em casa. Queres?

Subimos as escadas, três lances. Entramos devagar, em silêncio. Sentei-me no sofá cor de telha. Havia uma janela com luz, plantas com flores, uma estante com livros, havia um gato.

— Como se chama?

— Fidel.

O Fidel ronronou, esfregou-se na sola do meu sapato. Isabella trouxe o café. Bebemos em silêncio.

— Por favor, se me quiseres tocar pergunta-me primeiro se podes.

— Posso tocar no teu rosto, Isabella?

— Sim. Sou mulher desde os meus nove anos.

Manuella Bezerra de Melo é jornalista, escritora e investigadora. É mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas e doutoranda em Modernidades Comparadas; Literaturas, Artes e Cultura pela Universidade do Minho. Autora de Pés pequenos pra tanto corpo (Editora Urutau, 2019).

três poemas inéditos de Leonardo Tonus

enquanto berram pelos telhados
mitos fundantes de uma arte imperativa,

enquanto imaginam nacionalidades encasteladas
em seus bunkers genocidas,

sangram pelos pés de Paulo Nazareth
os gritos de uma memória
sem a memória
de seus gritos.

silêncio em pedra
de uma memória polida
(quase) sempre generosa,

exceto em meu país.

* * *

como se desvencilhar da filosofia que nada concebe,
que só concebe a vida, sem vida,
que não se concebe enquanto prática de vida?

estaremos condenados a nos equilibrar
em suas ridículas pernas de pau,
a nos arrastarmos, trôpegos, mundo afora
com seus eternos aforismos,
por acharmos a terra rude demais
selvagem demais
aos nossos confortáveis pés
moldados na rigidez de velhos conceitos?

dos sonhos despiram-se as palavras,
do gesto libertário que a literatura inspira:

a sua capacidade de imaginar.

* * *

desdobro das vogais
suas almas
indisciplinadas
e
do verso
ergo a palavra—
grito
por ainda não a saber,
palavra.

às vezes faltam às palavras
a coragem de simplesmente serem,

palavras.

Leonardo Tonus é professor em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesia intitulada Agora vai ser assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Seu livro mais recente é Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019).

três poemas de Armando Freitas Filho

Quem com ferro
__________alcança
os olhos abertos
da ferida.
_____Quem com os olhos
fura
_____a bandeira de vento
_____a blusa azul da manhã
_____que mesmo assim continua:
brisa ou
_____barco à vela
sobre o mar
_____ave, avião
com suas asas de viagem
voando como qualquer nuvem
de pensamentos no céu.
_____Quem com olhos
de ferro
_____procura
o rosto do meu corpo
quem com as feras
__________se lança
no rio do meu coração
em vão
_____quem com ferro?

* * *

Como um dia perdido
dentro da vida
__________como um dia
esquecido na lembrança
que abandona
__________todo o seu vento
o tanto de sol
que entra no pedaço da tarde
parada sobre o quintal
este dia
_____se repete
entre tantos
_____e chega
até a mim
_____repentino
com a sua sombra a esmo:
o mesmo vento
o mesmo sol que bate
na mesma tarde e anda
no chão de agora
__________perdido
como o dia de dentro
como o dia de antes
com a sua luz que alcança
a vida
__________deste momento.

* * *

Terra —
_____a nuvem se decifra no céu
o sono some no sonho
que logo se soma
a outro desenho, a outro
desígnio, cisne de signos
ou sino de neve
ou hino de névoa
no céu, as nuvens
seguem e cegam
o olho de mel do sol.

Terra —
_____aqui, no chão, a sombra
calça suas luvas
ao avesso, alça
nos ombros, armários de carvão
aqui, tão perto do coração
tão junto do peito
na beirada de pele e de pedra
do corpomar do planeta
minha vida se abraça com o espaço
de cada dia, e passa.

Armando Freitas Filho é poeta. em 2003 publicou Máquina de escrever — poesia reunida e revista (1963–2003), no qual comemora 40 anos de carreira. Recebeu, em 1986, com o livro 3×4, o Prêmio Jabuti e em 2000, com o livro Fio terra, o prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional. Em 2001 ganhou a Bolsa Vitae de Artes. Em 2006 publicou Raro mar. Em 1979, publicou o ensaio “Poesia vírgula viva”, no livro Anos 70 — Literatura, no qual faz um panorama da poesia brasileira desde os anos 50. É o organizador da obra de Ana Cristina César.

quatro poemas inéditos de Katia Marchese

mil impiedades por dia

Sob um céu
implacável,
o azul desolava
os rostos.

Ninguém plantou
as flores da morte
naqueles corpos de agosto.

artifícios da memória

O sangue explodia dos pulsos,
formava teias vermelhas
que subiam aos céus.
(na mesma hora
o estrondo da pedreira)
Eunice calou a cena,
pedra que aderna
dentro da cabeça.

No morro São Bento,
corre aquele silêncio,
que preenche as ruas
depois dos desaparecimentos.

repertório

Pavões azulando o espaço,
não me traga problemas, Eugenio.

As coisas são como são,
nenhum homem presta, Iracema.

istambul

O céu cobalto
sobre a mesquita.
A pino, o sol das dores
cintila a fina lua e a estrela.

Tira o punhal
e colhe jabuticabas.
É o que resta.

| poemas de O azul é vingativo, plaquete ainda em construção. |

Katia Marchese é de Santos, 1962. Está nas coletâneas Senhoras Obscenas I e III (Benfazeja, 2017 e Editora Patuá, 2019), Tanto Mar sem Céu — Laboratório de Criação Poética (Lumme, 2017), Casa do Desejo — A literatura que desejamos (Editora Patuá, Flip 2018), Poesia em Tempos de Barbárie — org. Claudio Daniel (Lumme, 2019), Hiltinianas vol.1 (Editora Patuá, 2019), entre outras. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Musa Rara, Portal Vermelho, Zunái, Ruído Manifesto, Jornal Tornado — Portugal e Jornal Rascunho. Participa do coletivo O Ateliê de Poesia. Publicou a Plaquete Por favor diga meu nome (produção gráfica Uva Costriuba, 2019). Fez o curso de Escritores do Clipe em 2019 na Casa das Rosas, Museu Haroldo de Campos de Poesia e Literatura SP. Contemplada no Edital do Governo do Estado de São Paulo Proac Poesia 2019, com o projeto do livro Mulheres de Hopper, e lançamento previsto para dezembro de 2020. Mora em Campinas.