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psicose

Nunca fui de confiar em gente sem pescoço, mas aquele era o único sujeito disposto a levar-me a um bairro tão próximo — no taxímetro dava menos de quinze reais e os motoristas que rondam a rodoviária costumam idealizar longas idas à zona sul, dando-se ao luxo de desprezar as corridas até o centro.

Ao abrir a porta traseira, reparei que estas poderiam ser mantidas trancadas pelo motorista. Prevendo um possível risco, deixei a mochila no banco de trás e sentei-me na frente. Era melhor mesmo estar perto, caso fosse necessário entrar em um combate corpo a corpo. Desde que entrou no carro, desleixado, sem nem colocar o cinto, fiquei de olhos nos movimentos daquele sujeito mal encarado, meio corcunda para o lado direito — o que deixava o lado esquerdo um pouco abaixado, de barba e bigode por fazer, com um daqueles chapéus que não sei dizer se é uma boina ou um boné sem aba.

Durante o trajeto, tentei ficar em silêncio, mas, após alguns minutos, ele puxou conversa. Com um grunhido emburrado, tentei puxar de volta, mas ele insistiu, achando que eu não tinha entendido, e eu cedi. Acabamos trocando duas ou três frases decoradas sobre a violência na cidade — no dia anterior haviam roubado um cara da TV e deu em tudo que é jornal, os bandidos não respeitavam mais ninguém. Apesar da conversa, eu ficava atento a cada mudança de marcha, quase me precipitei a impedi-lo quando ele foi pegar o rádio para entrar em contato com a central.

Após meu engano, fiquei relaxado por alguns momentos. No entanto, ao olhar pela janela, percebi que estávamos passando por um viaduto pelo qual não deveríamos passar — ao menos não pelo caminho que eu costumava fazer. Em um primeiro momento, cerrei os punhos e contraí cada músculo do corpo, pensei que ainda podíamos tomar o rumo certo, quem sabe cortando por trás do Passeio, ou pela Tiradentes. Mas foi então que ele começou a desacelerar, em pleno viaduto, local desconhecido e perigoso, afastado das ruas mais movimentadas. Eu precisava ser rápido, utilizando as armas que tivesse no momento — que se resumiam a uma caneta esferográfica e um pacote de balas de menta. Em um movimento, tirei a caneta do bolso, apertei-a contra o pescoço do safado e ordenei que acelerasse. Surpreendido em pleno pulo, ele começou a acelerar e tentou retrucar, disse-me que tinha família e que só estava tentando ganhar a vida. Não me deixei levar por aquele choro falso. Além do mais, para cima de mim é que ele não a ganharia. Ao alcançar quase cem por hora, puxei o volante para o meu lado, com toda a força possível.

O carro bateu no muro de contenção — por muita sorte não caiu do viaduto — e ainda girou duas ou três vezes antes de ser atingido pelo carro que vinha logo atrás. Eu, que estava de cinto, saí praticamente ileso. O pilantra, no entanto, que já devia estar de tocaia, pronto para me aplicar algum de seus golpes, morreu na hora, dizem que quebrou o pescoço com o impacto no volante. Eu duvido muito, aquele bandido nem tinha pescoço.

Rodrigo Domit nasceu no Paraná e é radicado em Santa Catarina, coautor do livro Vem cá que eu te conto (2010) e autor do livro Colcha de Retalhos (2011). Teve contos e poemas publicados em coletâneas no Brasil, Portugal e Alemanha. Edita o blog Concursos Literários, no qual são divulgados certames literários de todo o Brasil, de Portugal e de outros países lusófonos.

imprecisões de um legado

Se já não é bom sinal que uma ambulância vermelha esteja bloqueando o trânsito da avenida, que dirá agora que, de mais próximo, é possível ver que são duas.

Nessas ocasiões, a curiosidade, animal sem rédeas, arrasta nossa atenção para o meio dos escombros. Quase como autômatos, vamos farejando os detalhes do caos, de maneira a encontrar o que nos faça, em seguida, virar o rosto em reação de choque, isso faz parte da nossa natureza contraditória. É pagar pra ver e também pra deixar de ver.

Esta aqui é uma cena sem carros destroçados, sem cadáveres cobertos por lona, sem sangue acumulado em poça, nada há de matéria-prima para disseminação entre celulares. Mesmo assim não é o caso de subestimar o seu potencial de provocar abalos, esta aqui é uma cena em que o impressionante está nas sutilezas.

A garotinha rechonchuda tem todas as partes do rosto tomadas por um brilho úmido, fez-se ali profusão de lágrimas, alagamento de aflições. Já não chora, os olhos miram o nada, demoram-se bem abertos numa paralisia de hipnose, ela até talvez ignore o que a socorrista lhe sussurra ao ouvido. Mais ao lado, uma das ambulâncias está com as portas de trás escancaradas. Feito pedaço de língua saltado da boca, uma pequena parte da maca avança para fora, deixando ver sobre ela as pernas de alguém, aparentemente uma mulher idosa. Não, não deve ter sido atropelamento, isso tem mais a ver com mal súbito. Como se vê, de curiosos a peritos em investigação, vamos num pulo.

De volta à garotinha. Os cabelos dela mergulham em forma de cachos tão bem definidos que mais parecem esculpidos um a um. De fato, não foi tarefa daquelas concluídas em dois tempos, inclusive porque a tonalidade rósea do lacinho na cabeça combina muito graciosamente com o vermelho-claro do vestido e com o vermelho-escuro das sandálias nas quais se espalham carinhas da Minnie, degradê bem pensado, daí pressupondo o apuro afetuoso, o zelo em cuidar, o jeito aplicado de apresentar uma criança ao mundo.

A cena vai ficando para trás, por lá muitas dúvidas insatisfeitas, ocorrência inconclusa, nada resta senão torcer, ainda que a torcida, para o bem ou para o mal, seja quase sempre inútil, mentalização com efeito placebo. E assim, provavelmente inócua, a torcida persiste para além da próxima avenida. Que o penteado feito à custa do cuidado em demora não se consuma como um último legado.

Flávio Sanso foi finalista do concurso Off Flip de contos/2015 e 2016. Recebeu o Prêmio Rubem Braga pelo 2º lugar no concurso de Crônicas promovido pelo SESC/DF. É autor do romance A base do iceberg. Suas crônicas são publicadas no site www.flaviosanso.com.

esses bichos querem salvar a Terra

Irmãs crianças têm corpos de velhas.
Rapaz prende namorada em poço por dez meses para ficar rico.
Casa atormentada por demônios é demolida.
Homem engravida da namorada, os dois são transgêneros.
Pai é suspeito de organizar sequestro e tortura do filho.
Cansada de apanhar, mulher mata marido a marretadas.
Macaco acusado de roubo é amarrado e torturado.
Outro macaco, bêbado, ameaça clientes de bar com peixeira.
Um terceiro macaco é flagrado no Japão tentando copular com veado, e isto intriga cientistas.
Tênis encontrado com pé dentro.
Porco nasce com testículo no lugar dos olhos.
Motorista dá de cara com dinossauro gigante no meio da via.
Filhote de golfinho morre após ser tirado do mar para selfies.
Roupa curta pode chamar demônio.
Cadela vira mamãe de ninhada de gambás órfãos.
Estudo revela que mulheres de bumbum grande são mais inteligentes e vivem mais.
Padre mostra som de demônio sendo queimado vivo.
Chinês decide defecar em balde dentro de ônibus.
Suposta porta no sol sugere que estrela seja oca e abrigue aliens.
Famosos revelam seus fetiches sexuais.
Bode fica pendurado em cabos telefônicos.
Bola de vômito de baleia pode deixar casal rico.
Tops mostram vida fácil de modelo.
Cobra sai da privada e morde homem bem no pênis.
Dá pra melhorar o gosto do sêmen?
Mulher larga o emprego para amamentar o namorado.
Chocolates de ânus são o presente da moda neste dia dos namorados.
Mulher cria roupas com pelos pubianos de desconhecidos.
Superbactéria desencadeia apocalipse zumbi na Sibéria.
Repórter vê jovem morrendo e faz entrevista.
Mãe espirra leite após críticas por amamentar em público.
Como se forma o pum vaginal?
Mães transformam cordão umbilical em arte para recordar.
Galo gigante é do tamanho de uma criança de nove anos e detém recorde nacional.
Homem afirma ter encontrado cadáver de sereia à beira-mar.
Vídeo flagra alma saindo do corpo de mulher atropelada.
Sexo com robôs será mais popular do que entre humanos, diz cientista.
Indiano faz cirurgia e tira cauda de dezoito centímetros.
Homem acidentado é encontrado vivo em necrotério.
Mulheres têm dúvidas sobre o tipo ideal de vulva.
Síndrome provoca até cem orgasmos por dia.
Pedófilo flagrado com cento e trinta e sete mil imagens indevidas de crianças é poupado da prisão e vai começar uma família.
Homem perde seu membro sexual após prendê-lo em uma garrafa.
Após cirurgia, menina que nasceu sem vagina conta como foi perder a virgindade.
Mãe mata filho de sete anos quando ele descobre caso entre ela e avô.
Com promessa de fazer crescer, pastor agarra pênis de fiéis.
Criança de quatro anos é sacrificada em ritual de magia.
Esses bichos querem salvar a Terra fazendo amor com ela.

Jerome Knoxville é antipoeta e editor do gueto.

rainha em trapos

“Rainha em trapos”, chamavam-na. Antes andarilha, assentava-se agora em trono xexelento, lixo cenográfico de alguma companhia de teatro. A qualquer que passasse perto dela, encarando-a, concedia retribuir um sorriso condescendente e um aceno de mão, entendendo que a ela agradeciam algum favor.

Antes da aurora, levantava-se e ordenava ao sol que amanhecesse; antes do ocaso, o contrário: que anoitecesse. Em certa data, por capricho, decidiu que não haveria nem raiar nem cessar de raiar naquele dia, e ordenou ao Sol que nem ousasse despontar. Negou-se o Sol a obedecer simplesmente cumprindo seu diuturno trajeto.

— A esse rebelde, matem-no!

Daniel Batista de Siqueira trabalha atualmente como professor da rede pública do Estado de São Paulo.

a perversidade do injusto

João.

Um nome simples, comum. Ele imaginava que teriam sido exatamente esses os motivos para que seus pais lhe chamassem assim: para pouparem a eles mesmos o trabalho de pensar em um nome marcante, de significado, que contasse histórias. Provavelmente fora o primeiro nome que veio à cabeça de seus progenitores. João e só. Nem um sobrenome igualmente comum. Ao menos, ele não se lembrava.

Aliás, vai saber se foram mesmo os seus pais quem lhe chamaram João?! Supunha isso instintivamente, mas não se lembrava de seus pais. Acontece que, desde que “se dava por gente”, simplesmente acostumou-se a ter tal nome.

João estava morando há um ano em uma lata de lixo, na cidade de Vitória, no Espírito Santo. Já não se incomodava mais com o cheiro. E os lixeiros não levavam as suas coisas embora porque passaram a conhecê-lo.

E, mesmo quando ele se ajeitava – ou se arrumava – o melhor que podia, e saía em um passeio pela sobrevivência, as pessoas, curiosamente, pensava ele, além da tradicional indiferença e asco, tinham-lhe também medo. Medo! Era esse o fator que mais entristecia João: ele jamais cogitara fazer mal a alguém.

João era negro.

E um dia, em um dia de atrevimento – todos nós temos algum dia em nossas vidas em que o hormônio da adrenalina esteja eufórico, quem sabe, e então nos tornamos prazerosamente ousados. O que é que tem, afinal?

João não era desses. Mas resolve ser por um dia. E experimentar. Era um dia dentro de si que sentia sede de descobertas boas! Então, ele se permite. Afinal, sempre via os outros homens fazendo o mesmo…

Uma mulher passa, toda bonitinha. E ele assobia.

Instantes depois, João é violentamente morto.

Ela era branca. Ele, mendigo.

Caroline Fortunato, 21, é estudante de Letras na FFLCH/ USP, colunista no site Obvious, contista em revistas, como a Labirinto Literário, e tem um livro publicado de forma independente pela Ed. Livrorama.