seis poemas do livro ‘Ando caindo cada vez mais leve’, de Carla Andrade

morte

é essa navalha da sorte
(sem espada de São Jorge)
o mais incicatrizável corte
em quem não morre
é a culpa do mais forte
é o lorde de sangue porte
é a tripa que o vácuo torce
e nunca se contorce por si só

barricada

Do amor entulhei cada centímetro do fogo
cataloguei os arrepios bestiais
e a saliva escorre em vultos.
Mas agora as portas estão fechadas.
Com meu velotrol limpo o invisível entre os tacos
e os raios do sol asteca querem ser honrados
(esse sol também tão solitário).
Com medo, me lembro do poeta:
“Da vida não se sai pela porta:
só pela janela”.
E ela está escancarada.

os galos continuam tecendo a manhã

a criança pinta os pés
da galinha de esmalte
miúdos na bacia
de alumínio da mãe

o pai fala para o filho
que vai quebrar seu pescoço
se ele entrar no mar de novo

a criança quebra o pescoço da Barbie
a mãe fala que
não vai comprar outra
a mãe e a filha com as unhas pintadas

Os poetas não deixam em paz:
o mar
a galinha
as crianças
os pais

hoje, parece que os
galos cantaram menos.

depois da vacina

cortar as unhas afiadas
para escalar o poço da sarjeta
reconstituir todas as cabeças
oferecidas de bandeja
grudar os umbigos
no resto de placenta do planeta

destruir todos os espantalhos
esses que fingem ser humanos
não deixar atalho algum
de como voltar a este ano

carregar os ossos deslocados
de todos os antepassados
colar as partes em laços
nadar com os sargaços
fazer deles nossos braços
veias e passos

Aí, sim, encostar
as palmas das mãos
no rosto de Deus
e voltar como um raio
apenas um raio
mas não sozinha
viva pela primeira vez.

empatia mórbida

tenho a cabeça de alfinete
de uma abelha num repente
ao tentar cruzar
a porta translúcida
no poente de vidro
no chão
se acaba

tenho a cabeça espatifada
de um homem numa caraça
ao tentar puxar o ar puro
em caça à procura
com medo desse ar tão largo
e que na cama se acaba

somos parecidos
queremos trocar
no mais abissal
submarinos
venenos
ferrões

no pranayama
das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia
na arquitetura das abelhas
morremos e nascemos
quatro relógios por dia

e andam varrendo todos os mortos
sem olharem para suas asas

besta

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo bicho dela senta
no canto do labirinto
do cérebro e se contorce
com o manto
de dez a quinze minotauros

Quando um homem bate em uma mulher
o olho dela vai pro canto
e tem a cor de azeitona
já mordida e com caroço

Quando um homem bate em uma mulher
todos os marimbondos do tórax
saem pela sua boca
mas ninguém vê

Quando um homem bate em uma mulher
o corpo dela depena
e seu sangue ferve
numa bacia de prata
(os pedaços são dados aos cães
como se eles entendessem
o barulho minguado
da lua de suas tripas)

Quando um homem bate em uma mulher
ele sempre tem forma
de pino ou garrafa
e ela desfigurada

Quando o homem bate em uma mulher
ela sabe que jamais poderia ser um homem

| poemas do livro Ando caindo cada vez mais leve (Editora Penalux, 2021), disponível no [link]. |

Carla Andrade é mineira e brasiliense, mas gostaria de ser do fundo do mar. Tem outros quatro livros publicados: Caligrafia das nuvens (Editora Patuá), Voltagem (Editora 7Letras), Artesanato de perguntas (Editora 7Letras) e Conjugação de pingos de chuva (LGE Editora). Alguns de seus poemas foram traduzidos para o italiano, espanhol e inglês. É jornalista e servidora pública.