poema de Maraíza Labanca

Do livro A terra O corpo (Cas’a edições, 2021).

O pensamento em sua origem
— aqueles núcleos obscuros,
mais vastos que a terra, dentro,
lentamente,
têm o máximo de intensidade —
o influxo, na dosagem
de calor.

Restava equiparar as manchas
à irradiação do grande astro, ao fastígio
torturado de uma e outra.

Em que pese a sua forma,
uma aproximação rigorosa,
uma causa.

Porque a complexidade imanente
aos fatos concretos se atém,
progredindo da natureza do solo
extensa
à definição do que quer que seja

— sem leis —

Sujeita às perturbações locais,
a reações mais amplas,
às correntes, à monção
dos planaltos interiores:

são, no estio, atraídos ao entrar
dezembro pelas costas, desnudo,
irradiando toda a umidade
absorvida na travessia dos mares.

Canaliza-a, correndo em direção
àquele vento — um dizer natural, fora
de limites, prolonga-se, até que reabre,
outra vez, este intervalo:

a longa faixa de calmas,

o lento oscilar em torno,

o zênite,

levando a borda até os extremos,
de leste a oeste.

De súbito, mais íntimo, o destino
agitado dos alísios — irremediável —
chega de improviso, desnuda
a sua própria intensidade.

Os ares aquecidos entram.

Entrechocadas, uma e outra, de tufões
violentos, alteiam-se, retalhadas
de raios, nublando, em minutos,
o firmamento todo,

desfazendo-se,
logo depois, em aguaceiros fortes

sobre os desertos.

CAPA NOVA-supremoMaraíza Labanca nasceu em 1984, em Belo Horizonte. É doutora em Literatura Comparada pela UFMG e uma das editoras da Cas’a edições. Trabalha também com oficinas de escrita literária no Espaço a’mais. De sua autoria, publicou os livros Refratário (2012), Rés — livro das contaminações (com Erick Costa, 2014), Partitura (2018), Exceto na região da noite (2019) e A terra O corpo (2021).