posta restante, poema inédito de Mariana Ianelli

Ainda estás aí? Em que recanto estás?
(Rainer Maria Rilke)

I.

Tornaremos a nos conhecer
Diferentes de quem fomos
Mas qual viagem não nos muda?
Esqueçamos os códigos criados
Para escoteiros doutro mundo
Esqueçamos a tristeza humana
Se já éramos como estranhos
Se o amor se nos antecipou na morte
Tornaremos a nos conhecer
Como corações de novo livres
Para um encontro às escuras
Será outro começo para o tato
Será uma nova intimidade nossa
Um presépio advindo de despojos
Será afinal o descanso da prosa
O riso debulhado de um corpo
Um canto em ondas uma fragrância
Estaremos na cidade das nossas sombras
Com lampiões molhando em calma
A pedra da ponte entre as ruas
E as lidas e as lutas da pequena vida
Não serão mais moinhos nossos
Nosso trabalho de ser girará
Nos arbustos doces de morangos
Na fabulosa proximidade da lua
Em caminhos de água e superfícies
Onde ainda agora se projeta a nossa dança

II.

Quisera te dizer que nada vibra
Que nada continua ao fechar-se o livro
Diria até que histórias terminadas
São histórias finalmente redimidas
Se por algum atalho te apazigua
Isso de um dia rebentarmos em nada
E toda dor de beleza ou de crueza
Perder seu eco entre estrelas goradas
Mas e se por acaso eu te dissesse
Que mesmo depois existe música
Depois de depois das mãos pensas
Depois de depois do fim do mundo
E se eu te dissesse que existe um arroio
Um pensar imparável de nuvens
Pétalas chovendo em outubro
Um gozo nosso gozando em outros corpos
E se eu te dissesse que existe um jorro
Depois de depois do sangue estanque
Depois de depois da casa oca
Que nenhuma solidão é sem testemunha
E que outros poetas também já o disseram
E outros ainda alcançaram pelo faro
Nosso pulso latejando transplantado
Meu rosto e o teu rosto em holograma
Sobre um rosto que ainda virá
Arruinaria teu suicídio e o meu
A respiração dessa vida além da paz?

III.

É a canção do eterno infante
É o alento que insufla essa canção
É a doçura final do soldado
Uma água dourada de chá com peixes
Onde todos nós bebemos mais a lua
É nossa chance adubada nos jardins
Entre cigarras e mariposas
Nosso longo amor fantasmagórico
Na aurora ainda úmida de escuro
Nosso brincar sem mais propósito
Como brinca a natureza quando isenta
Se regozijando por seus meneios e aromas
É minha alma errando por Amsterdam
É tua alma pelas tardes de Lisboa
Todos os nossos instantes miraculosos
Na corda bêbada continuando
É a ampla noite que nos inicia
Que nos alfabetiza na língua dos cânticos
É a nossa alma no ar salmeado de Ouro Preto
E nos mares dos poemas que amamos
No empíreo a partir de uma viola
No precipício à sombra de olhos mexicanos
Embora soe obscuro dizer
Expressar-nos será claro nesse idioma
Coincidirá com o vasto sono humano
Nesta madrugada sem palavras
Nuançada de um sem número de sons

Mariana Ianelli nasceu em São Paulo, em 1979. Em 2016, tornou-se mãe de Yolanda. É autora de onze livros de poesia, o mais recente deles Terra Natal (Editora Cousa, 2021). Tem três livros de crônicas e dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 e foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia. Escreve crônicas aos sábados na revista digital Rubem e no site do jornal Rascunho.