autores, de Myriam Campello

Tem gente que acha bobagem conhecer autor, tudo de bom deles está na obra, implicantes ego descomunal bestas que só, a pessoa física dessas criaturas não vale o esforço. Alguns sem dúvida despejaram obscenidades sobre mim como num terreno baldio à espera deles. Outros me afogaram em perdigotos tantos que quase me abriguei sob a marquise próxima. Nem todos tomam banho. Alguns de tão raivosos tive que abandoná-los mal cheguei. Um desconfio que me roubou dinheiro (pouco mas servia). Tem também os lamurientos ressentidos exigem atenção no braço e pedem sem cessar, bico aberto entre a ferocidade e o lamento, a parada mais dura para o leitor que veja neles uma espécie de deus. Eu os enxergo como são. Tanto os mais velhos se envoltos na túnica do nada como os jovens quando exibindo seus parágrafos de espuma: todos começando as frases com o pronome eu. Entre eles só não encontrei até agora assassinos confessos. Mas quando nessa água múltipla uma frase cintila e o peixe súbito espadana prata o êxtase me morde: sei que cheguei a uma espécie de fonte.

Sou farmacêutica vivo entre poções mas literatura é o meu vício fã de quem destila tramas personagens, aproveito todo lazer que as farmácias me deixam para ler e olhar de perto os criadores dessa gente que nasce do ar e no ar peregrina: conhecer em carne e osso os pais biológicos da história. Leio quando posso e que é sempre, escritora bissexta envergonhada mas nas páginas dos outros me esbaldo e vou fundo, bicando a vida no seu leito de rochas.

Ontem um jovem adentrou a farmácia procurando um produto e entre palavras outras confessou-se poeta. Em minutos subiu num pedestal himalaia planou entre as nuvens gordas do céu sem enxergar o resto, sequer a pulga à sua frente de olhos arregalados ante tanto esplendor – segundo ele eu. Ora, se fulano proclama-se escritor há que merecer o nome como um marceneiro suas tábuas. A palavra tem poder mas não faz de ninguém algo se algo antes não estiver ali, impureza dentro da ostra que a fricção da vida pode tornar pérola.

Se alguém então se declara poeta enrubesço pitanga como se se autoproclamasse santo ou sexy, qualquer raça superior a nós: simplesmente não se diz: os outros que pespeguem o rótulo sublime. É sempre um choque a honraria usada por pessoas mais distantes dela do que nós de Aldebarã.

Assim como há burros enfatuados sacudindo-se como cães no banho há os que levam suas vidas e calam suas dores. O livro de Sol Andradis foi condor invadindo meu espaço aéreo visão singular um grito susto inaudito de tão bom. Esbarrei por acaso no volume fino nunca ouvira falar de Marisol Andradis mas suas frases irromperam em mim como águas de trovão: catarata e estrondo. Nascera em Goiás mas anos fora tinham feito um shake da índole Brasil com outras terras sólida sofisticação compondo a liga de ouro em que engastar suas joias de som e innuendos. Em Sol a língua rodopiava móbil célere fundindo-se numa brincadeira keep walking de que só ela conhecia o segredo. Amassava batia e destilava gatoesapaticamente a poeira de estrelas. Depois do mato e do córgo atravessava-se a porta e pronto emergia-se em Friedrichstrasse Paris Amsterdam. Eu era um tal joguete das delícias do texto que a última página me impelia à primeira, de cada vez lia o livro três vezes. Depois de extasiar contudo Sol sumira deixando apenas um rabo de cometa atrás de si. O tempo passou sestro do tempo. Um dia, visitando a pequena editora de um amigo avistei a pasta volumosa. Ah, é uma autora de Goiás que transborda de todos os formatos, ele disse, mil e duzentas páginas vive em outro mundo, não há dinheiro leitor nem tempo hábil para semelhante mastodonte. Duvido que seja publicado.

Sumiu o ar que eu respirava: por pouco não ardi em febre: um alvoroço me fez dançar a alma. Inviável assim só podia ser Sol. Quer ver? Hesitei, caminhando na prancha da vontade e vendo os tubarões lá de cima. Como violentar um mundo deixado em confiança, invadir sem permissão sua alma escondida? Melhor não, falei. Ah como me arrependi do gesto burro. Tenho essas idiotices que depois me ferram mas aí é tarde. Por muito tempo remoí a besteira como um cão seu osso já sem fibra. A coisa não parou ali. Ao saber por artes da Internet que voltara ao país mandei e-mail, que tal uma entrevista para a Pharmacon literária? vou mesmo a Goiás, assim a conheço.

Baixei no alvo que era Sol como uma flecha trêmula. Um menino abriu a porta outro brotou por trás e então Sol. Dez anos a separavam da zombeteira Górgona do livro: sumira certa alegria irresponsável o excesso o não essencial: sobrara a quintessência brilhante alma de césio. Quando lhe perguntei de um novo livro a escuridão que tremulou por seu rosto foi motim contido à mão de ferro. Mas na fenda do instante vi abismo humilhações recusas a esperança reduzida a nada. Lágrimas enchiam meus olhos quando deixei o conjugado nunca mais vi Sol.

Fenda fresta fenestra para a alma, ponte entre carne e verbo, entrevistopalco. Miolo de pão marcando a floresta. Um pensamento sobe das profundezas. Conviver com autor é flagrar o furo para a polpa interior como um segredo mágico. Na matéria mortal se esconde a fonte do que talvez não morra: na matéria mortal dessora o que é perfeito. Jamais me arrependi de conhecê-los.

Um quis me vender um bonde outro uma rifa de queijo: aquele xingou minha mãe e me chamou de idiota: um ainda se picava e queria que eu fosse junto: tantos riram em minha cara que pensei vou desistir. Mas no fundo da água densa eu vislumbrava o mistério. Não é sempre que acontece mas quando acertam fulguram. Sempre me deram algo esses unicórnios malucos cavalos comuns tirante o chifre mas o chifre é tudo. Quando os conheço dou um pulo em mim mesma. Uma pedra se move. Espio embaixo e vejo em transumância aquilo que se chama vida.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e outros frutos (contos, 1996), Como esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.