fragmento do romance inédito ‘Ensaio sobre a paisagem’, de Rodrigo Novaes de Almeida

NA CLAREIRA

Saio da frente da escrivaninha e deixo o escritório. Não é um dia bom para escrever. Decido que preciso andar e respirar o ar de outono da montanha. Desço a colina coberta pela floresta de pinheiros. Observo o rio, abaixo, serpenteando o vale e cruzando a cidade. O céu está sem nuvens. Não venta. Sigo por um caminho de terra, estreito, margeado por raízes delgadas. De repente, estou em uma clareira diante de um grande jequitibá-rosa, com tronco espesso, cujos galhos nus se torcem uns sobre os outros. É a primeira vez que faço esse caminho para ir à cidade, evitando a estrada principal. A visão da árvore solitária me remete à decadência e ao pessimismo (ou à consciência de o alto idealismo ter cedido espaço definitivamente ao ceticismo). De qualquer forma, restou-nos pouca coisa; para ser exato, restou-nos nada. Antes havia os deuses, o destino, ou a expectativa de propósito, e a civilização. E se no lugar dos deuses colocamos a nós mesmos, a partir da busca do autoconhecimento, o lugar, por outro lado, não desaparecera. O último ato da tragédia é esse homem desprezível em pé na clareira ante o espanto de reencontrar o sagrado. Mas já é tarde para ele. Já é tarde para mim. Já é tarde para todos nós. A nossa espécie não tem futuro. Sento-me sob o grande jequitibá-rosa. O céu continua sem nuvens. Não há sequer uma brisa. Recordo não apenas os fatos, mas também as frases que escutei e li um dia. As horas passam, anoitece, e não tenho mais certeza se estou acordado quando um homem com vestes arcaicas se põe à minha frente; ele se apresenta: Marco Túlio Cícero. Interrogo-o sobre o seu país e a sua república, e ele faz o mesmo comigo, e nos regozijamos da nossa mútua curiosidade. Ele aponta, então, para a abóbada celeste, que, da clareira, só podemos ver uma parte ínfima. Mesmo assim, ele diz, nunca deixa de surpreender o espetáculo dessas pedras siderais, cujas magnitudes nunca pudemos conceber. Eu concordo e, ao mesmo tempo, me entristeço. Cícero percebe e me pergunta o motivo de eu ter ficado triste. Eu respondo que li as suas obras, conheci os seus pensamentos e a sua filosofia, e muitos que vieram depois dele o leram e o conheceram, e nos importamos com o que ele disse, e fizemos tantas coisas inspirados em suas palavras, mas, concluo, agora é tarde, erramos, fomos longe demais, perdemos tudo, a eternidade das nossas ideias e a imortalidade das nossas almas, e logo a espécie deixará de vagar, errante, por este mundo e não chegará aos outros lá fora — e aponto para o alto.

A visão desaparece, então desperto em meu tempo infinito e desisto de ir à cidade. Eu retorno para casa.

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor. Autor dos livros Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti na categoria Contos, em 2019, e A clareira e a cidade (Poesia, Editora Urutau, 2020), entre outros. É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores.