não percam a próxima chamada de poemas, de Pádua Fernandes

I

Recebemos poemas, folhas, sapatos e chuva ácida para a próxima edição da revista de poesia. Já publicamos sete edições que se autodestruíram assim que foram lidas. Os autores serão avisados quando chegar o pacote com a bomba. O conselho editorial não elaborará pareceres para textos não aceitos. Os conselheiros são especialistas em explosivos.

(aceitam-se poemas,
mas só os não aceitos
vão ao que interessa)

— É verdade que os poemas recusados exilam-se num gueto?
— Gueto na garganta.
— Qual é a cidadania do gueto?
— A guerra.

O currículo do editor-chefe registrou boletim de ocorrência sobre o sequestro da poesia? Não podemos confirmar. Fiquem atentos às nossas chamadas de textos, todas em branco. De que outra forma receberíamos o silêncio e o grito?

(aceitam-se poemas,
mas nos aceitariam
estes que interessam?)

— Como conversam a garganta e o gueto?
— A questão é que, onde há passos, há campo minado.
— A revista só aceita poemas inéditos?
— O futuro da terra: a luta pelo futuro.

Poesia talvez seja material físsil, mas os sobreviventes da explosão ainda não acordaram para confirmá-lo.

II

Currículo do editor-chefe: detonadores para instaurar o diálogo entre o país e o gueto.

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) publicou, entre outras obras, o romance Gravata lavada (São Paulo: Patuá, 2019), o livro de contos Cidadania da bomba (São Paulo: Patuá, 2015), o ensaio Para que servem os direitos humanos? (Coimbra: Angelus Novus, 2009) e os livros de poesia O desvio das gentes (São Paulo: Patuá, 2019) e Canção de ninar com fuzis (Bragança Paulista: Urutau, 2019).