trecho do romance ‘O coração pensa constantemente’, de Rosângela Vieira Rocha

capa_coracaoNo ano que passou, vi repetidas vezes nos seus olhos a vontade de ter liberdade para viajar como eu, mostrando seus quadros e suas esculturas. A série de comentários meio ácidos que me dirigiu também não me passou despercebida. Viajando de novo? Mas você não para, mal acabou de chegar. Como assim, vai de novo para o Nordeste? Pensando em se mudar para lá? Não vai, não, senhora.

Eu ficava calada, mas sentia desconforto, urgência em sair de perto dela. Aquelas exclamações me perturbavam muito. Reconhecia a emoção que usualmente chamamos de inveja. Sentia tristeza, como se de repente tivesse ficado desprotegida, sozinha no mundo. Tive vontade de conversar sobre o assunto, mas faltou-me coragem. Podia parecer um golpe baixo, uma jogada de má-fé desfiar tema tão complexo com alguém nas suas condições. Mas me sentia injustiçada, pois ninguém melhor do que ela conhecia o meu esforço para chegar até aqui. Como é do meu feitio, fui pesquisar; só através do conhecimento consigo superar as fases ruins. O que é, afinal, a inveja? O que representa, que significado possui? Por que é tão malvista e ao mesmo tempo tão banal, se dela ninguém está livre? Quem pode ficar eternamente imune ao canto dessa sereia que nos puxa, nos puxa sempre para o fundo de nós mesmos?

As explicações de psicanalistas e psicólogos não me pareceram suficientes. A literatura também não ofereceu grande contribuição. Shakespeare confundiu ciúme com inveja, enfatizando o primeiro. O verdadeiro vilão não era Otelo, o ciumento, embora tenha cometido um crime, e, sim, Iago, o invejoso intrigante. Sem as mentiras de Iago, Otelo não teria matado Desdêmona. Seu ciúme foi tecido por Iago, fio por fio, de caso pensado. A prevalência do ciúme sobre a inveja e a confusão estabelecida criaram até uma alcunha para o ciúme, “o monstro de olhos verdes”. Resolvi buscar na filosofia, e encontrei em São Tomás de Aquino definições mais compreensíveis. Para os tomistas, o ciúme é diferente da inveja por exigir sempre três elementos, diferentemente da inveja, que exige dois. Invejar não é desejar o que o outro possui, material ou espiritualmente, como estamos habituados a pensar. Se não houver o desejo de retirar o bem do outro, de lhe fazer mal, trata-se de cobiça. Quanto à inveja, não existe “inveja boa”, “invejinha” ou “inveja branca”. É uma emoção que não admite adjetivos.

A questão da inveja se tornou complicada demais porque recebeu um julgamento moral desde o início dos tempos. Tão humana quanto qualquer outra, já que atinge todos, é uma emoção que pode ser sentida várias vezes ao dia. Por si só, não faz mal ao outro, como estamos habituados a pensar. “Olho gordo” é superstição, não tem valor real. E, segundo os tomistas, na maioria dos casos o que sentimos não é inveja e sim cobiça. Desejamos em muitos momentos imitar e assegurar para nós a qualidade do outro, o talento do outro, sua beleza, sua sorte, seus bens e tudo aquilo que nele valorizamos. Mas isso não significa que queremos subtrair-lhe algo. Cobiça seria o fruto de uma admiração profunda. Não cobiçamos nada que não admiramos. Sem o fascínio, é impossível cobiçar.

O investimento ético-moral que se fez no termo inveja dificulta muito as relações. Ninguém reconhece que a sente, a inveja é sempre do outro, pertence ao outro, nós a afastamos como se fosse indigno senti-la. Quando temos a coragem de reconhecê-la, enfrentamos a ressaca moral, o sentimento de culpa, nos sentimos seres sujos e de segunda categoria. Para nos defendermos dela, a projetamos quase sempre no outro, considerado o malvado, o invejoso, o pecador. O fato de ser considerada um dos sete pecados capitais fez com que se tornasse socialmente ainda mais reprovável.

Percebi a inveja — para dizer corretamente, a cobiça — de Rubi. Mas quem não a sentiria, consciente de que está no limiar da morte, diante de uma irmã mais jovem e saudável? Que espécie de supermulher seria essa, que vê as conquistas tão palpáveis do outro e não gostaria de estar também na mesma situação? Quem não quereria continuar vivo e fazendo o que gosta?

Passado o susto inicial de me sentir alvo de sua cobiça, e depois de compreender o que essa emoção realmente significa, senti compaixão e uma vontade imensa de dividir com ela minhas realizações, não as contar apenas, mas fazê-las também suas. Percebi que ela sofria muito por sentir o que sentia, mas não soube como lhe dizer que compreendia, que a “absolvia”, não tinha importância nenhuma, e que meu amor continuava absolutamente inalterado.

| trecho do romance O coração pensa constantemente, a ser lançado no final deste mês, pela Editora Arribaçã, PB. |

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB. Nasceu em Inhapim, MG, e mora em Brasília desde 1968. É autora de catorze livros, adultos e infantojuvenis. O coração pensa constantemente é o seu 6º romance para o público adulto. Nos últimos cinco anos, escreveu três romances: O indizível sentido do amor (Editora Patuá, 2017), Nenhum espelho reflete seu rosto (Editora Arribaçã, 2019) e O coração pensa constantemente, no prelo. Recebeu vários prêmios literários e tem contos e artigos em diversas coletâneas e livros acadêmicos. Participa ativamente do Movimento Mulherio das Letras. É colaboradora da revista literária digital Germina.