poema inédito de Constança Guimarães

um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três__________duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe

| poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |

Constança Guimarães é escritora mineira e jornalista, autora de Ombros caídos olhando pro Inferno (Editora Urutau, 2017) e A sereia da Contorno e outras histórias (Editora Leme, 2017). Tem poemas e contos em publicações como Revista Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em guerra) e Revista Torquato.