versão brasileira, de Nathalie Lourenço

Os estrangeiros eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
(Raul Seixas)

One-caipirinya-sir?, me perguntou a garçonete, uma garota tão redonda que parecia ter sido desenhada com nada além de um compasso, assim que eu e Erika nos sentamos. Era tudo um mal-entendido: primeiro porque eu falo português, segundo porque eu logo descobriria que aquilo mal poderia ser qualificado como caipirinha. Eram sucos de frutas com vodka, sakê, rum, qualquer líquido menos cachaça e qualquer fruta menos limão. Eu respondi a ela yes-please, sem contradizer o que minha própria cara vermelha sugeria. Sempre acontece de acharem que sou gringo. É o preço que pago por ter olhos azuis e pele tão branca que revela as veias da mesma cor. Erika deixou escapar uma risada assim que a mulher saiu, levando a mistura de gelo derretido e guardanapos deixada pelos ocupantes anteriores da mesa. Reconheci a expressão marota em seu rosto. Era algo que a gente fazia no início de namoro, desde que voltamos do intercâmbio na Austrália, onde nos conhecemos, mal saídos da adolescência. Isso de nos passar por gringos enquanto fazíamos as coisas mais corriqueiras, na pizzaria ou no mercado, pedindo ajuda no metrô, comparando no bar as cervejas locais com as da nossa fictícia cidade natal no interior do Canadá, disfarce perfeito para o sotaque apenas passável do nosso inglês. Começava assim, com esse olhar que ela estava fazendo, que incluía um levantar de uma sobrancelha quase invisível de tão loira, e a partir dali só falávamos em inglês entre nós e com os outros. Olhando para o céu, aceitei o papel com um simples isn’t-this-lovely-my-dear, que ela respondeu com um elegante yes-indeed, e fui preenchido por uma alegria que só poderia ser sentida por quem há muito não via o mar, enfurnado em sua gelada vila canadense. Era bom ver Erika sorrir.

O gosto de vodka barata se sobrepunha ao morango da so-called-caipirinya, fazendo meu rosto queimar ainda mais. A língua já enrolava, mas nós mantínhamos a conversa em inglês, comentávamos os pedidos das mesas ao lado, nos perguntávamos o que haveria nas pequenas ilhas ao redor da praia, observávamos o barco de pesca ao longe, nos perguntando quais seriam os peixes típicos deste litoral, tomando sempre o cuidado de não notar a mulher grávida que se bronzeava na areia. Depois de meses horríveis, experimentávamos o exotismo de sermos dois gringos pagando caro demais por um drinque ruim em um dia de sol. Comendo e bebendo sem pensar nas contas bancárias minguando, apesar de saber que os imaginários dólares canadenses nunca chegariam a cair. Nadamos no mar de águas escuras, eu com calção colorido e Erika com o maiô de corpo todo, escolhido para esconder as listras vermelhas que ilustravam sua barriga. A versão canadense de nós dois mergulhava e jogava a água pra cima, e se esquecia de renovar o protetor solar como crianças, e gritava oh-no-don’t-you-dare antes de ter a cabeça afundada pelo outro entre as ondas e emergir com as mãos no ar, prontas para a efusiva vingança. A versão canadense de nós dois poderia, ao fim de duas semanas, pegar o avião de volta para o Canadá, com nossos bronzeados que descascariam quase imediatamente, como se fosse efeito do choque térmico, onde contaríamos para colegas chamados Frances e Colin sobre nossas aventuras brasileiras e então voltaríamos para aquela vida imaginada, onde havia noites de jogos de tabuleiro e limpadores de gelo e onde os bebês tão esperados não morriam durante o parto.

O sol se pôs e tentamos puxar os aplausos, mas não era aquele tipo de praia. Pedimos the-check-please e entramos no carro, para procurar a pousada que meu cunhado tinha reservado, cuidando do check-in e toda a papelada. Vantagens de ter um agente de turismo na família. Dez anos atrás, essa brincadeira acabava logo, depois de uma ou duas horas, assim que o primeiro de nós deixasse escapar uma palavra em português. Desta vez era como uma partida de tênis perfeita, os dois jogadores lançando a bola para outro sem que nenhum errasse ou tropeçasse. A cada movimento a adrenalina aumentava: uma sílaba errada, um tropeço, um uau em vez wow estilhaçaria a vida boa e leve que conseguimos manter durante a tarde inteira. E assim nossa pousada virou our-inn, e como chegamos lá virou how-do-we-get-there. Quando nos apresentamos na recepção da pousada, Erika e Benjamin foram pronunciados como Ehricá e Béndjamin, com a conivência do meu sobrenome ambíguo. Não era tarde. O sono pesava nossos corpos pouco habituados a sun-and-salt, amolecidos pela vodka e uma leve desidratação. Dormimos sem desfazer as malas e posso jurar que sonhei em inglês.

Acordei com a pele ardendo e Erika me desejou good-morning, enquanto eu me besuntava de loção. It-was-obvious que o jogo ainda estava acontecendo. Ela tinha separado uma camiseta de turista que tínhamos comprado em Paraty uns dois anos atrás, e um chapéu de praia que me fez parecer o mais gringo entre todos os casais de gringos no breakfast, onde uma garota enorme de grávida servia o café. Pelo som ao redor, éramos os únicos brasileiros hospedados. Só meu cunhado mesmo conheceria esse segredo bem guardado, essa praia do tipo exportação. Era agradável ouvir diferentes línguas, os ritmos e tons misturados, instrumentos em uma mesma música. Propus que a gente skip-the-beach, pra dar um descanso aos meus ombros, que emanavam uma aura de calor. Teríamos ainda duas semanas de vacation pela frente. Praia do Alemão era o nome daquela vila pequena, pouco acima de Ubatuba. Nunca tínhamos heard-about-it até a indicação do nosso cunhado. Minhas férias já estavam marcadas para aquela época, quando a Erika voltaria da licença maternidade. Nós dois precisávamos sair de casa. Sair de perto daquele quartinho pintado de amarelo. Talvez achar um lugar bonito para espalhar o montinho de cinzas que tínhamos pensado em chamar de Talita. Mas a nossa versão canadense não estava em busca de um penhasco de onde jogar a tristeza. Nossa versão canadense queria apenas caminhar, tirar fotos, comprar quinquilharias. Observar the-locals e tomar açaí como se nunca tivéssemos visto aquela pasta roxa antes.

Mesmo com a gente protestando que just-bananas-please, a atendente colocou de tudo no açaí. M&Ms, leite condensado, leite ninho, frutas cristalizadas. Brazilian-Way, ela sorriu, entregando os dois potes, depois enxugando a mão no avental que cobria sua barriga. Os nossos dedos gelavam enquanto caminhávamos pela vila, que era muitas vezes bigger-cleaner-and-more-organized do que imaginávamos. Havia um hospital recém-construído, ainda cheirando a tinta, com pirâmides de cascalho e pedrisco ao redor. Todas as ruas eram asfaltadas, contrastando com os trechos de terra e vias esburacadas que havíamos tomado pra chegar ali. Canteiros cheio de flores dividiam a rua principal que beirava a praia. Havia uma estátua de Iemanjá pintada de branco e azul. Os barcos dos pescadores pareciam novos na ponta da praia. Um parquinho com os balanços rangendo ao vento. Tudo parecia brand-new. Era como se tudo ali tivesse acabado de se materializar. Caminhamos ao longo da praia de volta para a pousada. Erika parava de quando em quando para catar uma conchinha: look-how-pink-it-is. Não era temporada, havia uns poucos guarda-sóis espalhados aqui e ali, casais se bronzeando, e mulheres com grandes barrigas aproveitando as sombras naturais das árvores que cresciam ao longo da orla. Por que tinha que ter tantas grávidas ali? Ou era eu quem não conseguia deixar de notá-las? Felizmente, Erika estava compenetrada no chão de areia, a palma cheia de conchas miúdas, algumas lascadas, outras ainda presas aos seus pares, asas endurecidas de borboleta. Passamos o resto do dia dormitando e lendo sob a varanda da pousada e subimos para tomar um banho no chuveiro, que era excelente, melhor que o de casa.

No saguão, dois outros casais esperavam o horário do jantar. Um homem alto e ruivo, de bigode, brincava com os dedos da esposa, uma loira gordinha de pele fina. O outro casal era pequeno e mais velho e ainda vestia as roupas de praia. Os dois baixinhos abriram sorrisos quase simultâneos ao nos ver, enquanto os outros dois apenas acenaram. Anxious? Perguntou a baixinha, e como não tínhamos almoçado por causa do açaí, respondi que yes, estávamos com muita fome. Eles deram risada e logo começamos a conversar. Um dos casais era sueco, o outro, holandês. Ninguém pareceu duvidar da nossa canadensidade. Erika de repente ficou mais falante e animada. Fazer meia dúzia de brasileiros acreditarem que éramos de fora era uma coisa. Fazer o mesmo com gente que deveria ser muito viajada era harder-and-dangerous. Naquela meia hora ela falou de tudo: que eu era tradutor e ela era contadora, que não tínhamos filhos, que gostava da praia, mas odiava acampar e que sua mãe tinha tido câncer de útero, assim como a holandesa que gostava de dar detalhes demais. Era tudo verdade, tirando o Canadá. Meu orgulho pela performance de Erika só era atrapalhado pela impaciência dos suecos, que no momento interpretei como muita fome e alguma falta de educação. Enfim a dona da pousada apareceu dizendo que the-dinner-is-ready.

O salão estava organizado em três mesas pequenas, e cada casal seguiu para uma. Quem servia a comida era uma jovem de tranças pretas, com uma barriga tão avantajada que Erika, que se lembrava bem de como era tentar se mover com outro ser humano dentro de si, se levantou para ajudar, e pediu para que ela sit-down-a-little-bit. A moça parecia não entender muito bem, e Erika teve que gesticular até que ela se acomodasse. Que raiva da dona daquele lugar. Perguntamos, numa língua que misturava inglês e mímica, se ela deveria estar trabalhando, de quanto meses ela estava? Ela levantou as duas mãos, uma com todos os dedos à mostra, outra com apenas um escondido. Ela olhava para baixo o tempo todo. Pensei que estivesse com vergonha de estar sentada em vez de trabalhando. Ela nos perguntou where-you-from, num inglês decorado e precário. Tentamos contar sobre nossa cidadezinha fictícia onde havia um lago onde as crianças patinavam no inverno. Mas ela não parecia compreender e falar disso já não fazia Erika sorrir. Os outros dois casais viravam para olhar nossa mesa não uma vez, nem duas, all-the-time. Perguntei what’s-your-name e ela disse Miranda, levantando com dificuldade e indo servir as outras duas mesas. Levamos nossos próprios pratos para a cozinha, incomodados com a perspectiva de Miranda ter que carregar tudo aquilo naquele estado. A barriga da moça parecia um mundo e sua gravidade atraía os olhos de Erika. Nossa outra vida começava a falhar. Perdia altura, voltava ao chão. Éramos só um casal de brasileiros com uma caixinha cheia de cinzas no fundo da mala.

Que merda. Foram minhas primeiras palavras em português em quase dois dias. Foi assim que eu encerrei o jogo, entreguei os pontos. Que merda. Nossa versão brasileira precisava de uma bebida forte. Pegamos o que havia no frigobar, umas latas de Coca-cola e minigarrafinhas e passamos a noite cantando canções de ninar para Talita. Passamos todo o dia seguinte trancados, cortinas fechadas para bloquear a dor que a luz impunha aos meus olhos, abrindo a porta somente para receber o serviço de quarto. Os sons do hotel funcionando martelavam minha cabeça, insuportáveis. Foi nosso último dia em família. Eu, Erika e Talita.

Decidimos espalhar suas cinzas na praia ao amanhecer. Nossa versão brasileira caminhou até as pedras, com o mar batendo nas canelas, e tirou a tampa da caixa, não virou, não sacudiu, deixou o vento soprar e soprar até levar tudo. Ficamos um tempo segurando uma caixa vazia e olhando para o céu nublado e as árvores de troncos finos, inclinadas pelo vento como se tentassem fugir. Ainda estava frio e preferimos calçar os sapatos e caminhar de volta pela cidade. As lojas não estavam abertas, a padaria estava fechada, a banca de revistas também. Tudo estava quieto, tirando o hospital branquíssimo, na frente dele um carro com as portas da frente abertas. O casal de suecos conversava com a dona da pousada, que tinha nos braços o que me pareceu ser um cobertor enrolado, mas que se mexia e chorava. A sueca estendeu os braços e pegou a criança, a segurou longe do corpo por um segundo, como se a inspecionasse. Então a abraçou e entrou no carro enquanto o marido trocava gentilezas com a dona da pousada.

Na manhã seguinte, quem serviu o café da manhã não foi Miranda, mas outra mulher, esta também extremamente grávida. Perto da mesa que oferecia sucos e frutas cortadas, o casal de holandeses conversava com ela.

Nathalie Lourenço nasceu em 1984, é redatora publicitária, paulistana e autora do livro Morri por Educação (2017).

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