ode às poetas e aos poetos, de Marcella Wolkers e Andri Carvão

Poema do livro DE QUATRO — Poemas a quatro mãos de Marcella Wolkers e Andri Carvão [no prelo].

Madrinha
Puxei teus dotes de fada-poeta
Mas queria mais!
Ter a sua mão doce
Pras palavras
E para os quitutes
É que às vezes sou amarga e erro a mão…

Minha madrinha dos Velho Goiás
Ainda hoje me lembro do seu quarto
Do seu quintal
Da sala
Da água do rio passando por debaixo da ponte
Dos paralelepípedos do chão onde tropecei em criança
Do coração de gesso rosa que comprei
Como souvenir para dar à minha mãe
Do frango caipira com pequi
De você ali em todo lado
E ainda comigo aqui

Me conta os causos das vielas
Pinta no meu peito uma aquarela
Borda-me de amor
E de simplicidade
Cora-me com a sua frontalidade…

Madrinha minha de Goiás Velho
A sua afilhada te ama
E juro que ainda volto a pisar na sua casa

Puxei teus dotes de fada-poeta
Mas queria mais!
Ter a sua mão doce
Pras palavras
E para os quitutes
É que às vezes erro a mão…

Bora chupar jabuticaba
E roer uns caroços de pequi?
Você me faz um doce de pau de mamão
E eu te digo como anda o meu coração

* * *

Fui pra Pasárgada e lembrei de você
Tosse tosse tosse
pra dar ritmo ao tango argentino
Trilha do seu viver desenganado
por mais de 80 primaveras
Ansiando pela indesejada das gentes
na cinza das horas
Andorinha andorinha à toa à toa
Os sapos e o porquinho da índia
no beco dos meninos carvoeiros de pernas estúpidas
Carnaval
ô libertinagem boa
Belo Belo
Assim eu quereria o meu último poema

* * *

Eu queria morar nos olhos teus
Como os peixes verdes do teu poema Adeus

Queria que as palavras não se gastassem nunca
Mas elas são notas
E quanto mais dei de mim
Menos deu de si, quem muito amei

És um Génio.
Eu… acho!

Bem sabias que o amor é ave que se vai
Que tudo se apequena num quadro com moldura
Que com o tempo o amor
Perde a doçura…

Que a água seca
Acreditas que não há mais nada nele que me peça água?
Que se tremo,
É de tristeza
Por já não ser tão amada?

Tu sempre tiveste razão
Não há mão na mão
Há pés, mas não há chão…

Se ao menos eu tivesse a esperança verde dos teus olhos de poeta
Para voltar a acreditar no Amor…

Se isto fosse um Até já.

Saio, de algibeiras rotas e vazias.

Adeus…
Escolha seu sonho menina
Ou isto ou aquilo não importa
No espelho da minha retina
A janela é a porta

Viagem numa vaga música
Retrato natural em mar absoluto
A poeta não é poetísica
Espectros de luto

Romanceira inconfidente
Sem solombra de dúvida
Meu amor no mar imanente
Vívida vida vivida

* * *

Suas poesias
Cantadas no vinil
Giram dentro de mim
Poetinha vagabundo
Saravá!
Disseste que a mulher de Touro é exclusivista
E eu como boa taurina
Boa de cama e de mesa
Nasci com a gentileza
E com o sangue no olhar
Sou a rosa com cirrose
De brincos de espinhos
Eu gosto de água
Mas bebo muito mais dos vinhos

Poetinha da pesada
Do bom samba
Das belezas
Das tristezas
Dos sonetos
Dos amores amiúde
Do que tudo pode
Do que nada pude…

Saravá

E que seja!
Porque tudo é eterno
Enquanto dure

* * *

Do barco bêbado atiro as vogais
Uma temporada no inferno das iluminações
Duas vidas vividas num só corpo
Uma vida não basta se somos vários
se somos vastos
se somamos multidões
O estro lírico púbere e o aventureiro sem limites
Se o marido da outra é poeta ele é meu
Tão meu
Todo meu
Mesmo que eu leve um tiro
Mesmo que eu cante e dance sapateando sobre a mesa
Mesmo que eu urine na taça de cada um de vocês
Absinto muito mas não sinto nada e sinto demais
Minha vida não é os cafés
Minha vida não é os cabarés
O menino bonito e sedutor demoníaco não vai se enforcar
De túnica branca traficando armas na África deixa um pacote de cartas à irmã enquanto se amotinam vogais no barco bêbado

* * *

Já to disse tantas vezes
Que adoro-te
Já pulei tantas vezes no teu doce mar
E de tanto afogar-me em minhas amarguras…
Tenho vergonha de pedir-te um novo conselho…

Mergulhar nesse aMar ou não mergulhar?
Pulo de cabeça?
Ou esqueço todos os corais bonitos que vi?
Todas as estrelinhas marinhas
Todos os cavalitos
Anêmonas
Água-vivas
Lapas
Pérolas
Mexilhões
Berbigões
Amêijoas…

Almejo saber!

Será que ele gosta da Ostra
E não de mim?

Neste instante sinto-me tão pequenina como a tu menina do mar
Carregada no balde

Cuida de mim
E do meu coração que é um búzio quebrado sem nada dentro.

* * *

Fechada no quarto
Apartada enfim
Me parto
Em mim

Marcella Wolkers nasceu em Goiânia (GO), Brasil e reside em Portugal há 21 anos. Tem quatro obras lançadas assinadas como Marcella Reis, coordenou três antologias e participou em mais de 30. A autora é membro acadêmico da ALAF (Academia de Letras e Artes de Fortaleza), conquistou alguns prêmios literários no Brasil e em Portugal e tem formação profissional em CENFA (cenografia, figurinos e adereços — Ofícios do Espetáculo pela Escola Circense Chapitô), além de Técnica em Acção Educativa.

Andri Carvão cursou artes plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte [SP]. Graduando em Letras pela Universidade de São Paulo, há colaborações do autor em diversas revistas e coletâneas. Suas últimas publicações foram Um Sol Para Cada Montanha (Chiado Books) e Poemas do Golpe (Editora Patuá). Integra o Coletivo de Literatura Glauco Mattoso, criado pelo prof. Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, apresenta poetas e poetos no Simpósio de Poetas Bêbadxs em parceria com Thiago Medeiros e é um dos idealizadores do Ping Poesia juntamente com Noélia Ribeiro e José Danilo Rangel.