três poemas de Luciana Barreto

nunca é casto o fio do poema

Nunca é casto o fio do poema:
sangramos as pontas dos dedos
a cada palavra que soluça o grito
a cada flor calcinada no peito
no estalo seco da pólvora covarde.

Nunca é casto o fio do poema:
tombamos nossos olhos de espanto
a cada criança suspensa no vento
a cada jovem arrancado do voo
naquela mulher de face vazia.

Nunca é casto o fio do poema
– e nesse corredor de sustos de luas
[tonto minotauro acuado]
de súbito a ternura dos anjos
de novo a palavra em brasa.

toda palavra há de ser dita

Toda palavra há de ser dita
— seja em sua força de minério
— seja em seu voo de dálias
Signos sons sensações
rebentam as ondas
invadem o peito.

Toda palavra sustém um altar
E se a (des)palavra nos fere a face
o gosto se verte em desgosto
as flores pendem do jarro
o cacto seca de súbito
e o amor outrora madrepérola
desapontado escapa do mar
— e jaz na areia bruta
daquele dia sem sombras.

Toda palavra persegue o seu eco
— zonzo, móvel, estéril —
Mas o barulho difuso da rua
o brado de aço da bala
o grito agudo de mais uma Pietá
os cascos covardes da elite
devolvem à garganta
o osso o susto o calo
devolvem à sua face viva
(e de fronte suada)
a que veio o verbo inaugural:
a de que toda palavra há de ser dita.

antes no meio depois

Antes do fim do mundo
animais acuados corriam do fogo
passos metálicos avançavam insones
[a pressa cega a vedar as vidraças]
ruas noturnas corriam surdas
rostos sem nomes sumiam vagos
— e o céu se tomava de fuligem e ventos.

No meio do fim do mundo
o inimigo invisível invade os peitos
esquinas de pedra ardem ao sol
[almas evolando-se náufragas, lilases]
janelas pra dentro suspendem o tempo
ponteiros recuam e iluminam ternuras
peixes e aves retomam saltos, luas, mares
— e todo luto emerge impossível.

Depois do fim do mundo
aquela praça relembra os seus velhos
o menino redescobre peões e pipas
[os bancos ainda verdejados de limo]
Onde Teodora em seu pulôver de lã?
Onde Sophia em seu jaleco alvejado?
Muros calcinados circulam o vazio
— e a mais irreal das pombas recobra o seu voo.

Luciana Barreto, nascida no início da década de 1970, na cidade de Brasília, é formada em Comunicação/Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Tem mestrado e doutorado em Teoria Literária também pela UnB e desenvolveu pesquisas nos universos de Hilda Hilst, Dante Alighieri e Osman Lins, participando de congressos e publicando ensaios e artigos relacionados em livros e periódicos acadêmicos. Atua como professora universitária em Teoria Literária e Literaturas. Tem poemas em blogs e coletâneas e o seu primeiro livro, Nunca é casto o fio do poema, está prestes a ser publicado.