dois poemas de Armando Martinelli

o real e as palavras

Vago por entre prédios inacabados
Com seus ferros expostos ao céu
Feito garras
Feito estátuas que imploram sentidos

O cartaz no prédio das Letras tem a foto de um pássaro
Perdido
Com anilha
Procura-se

Vago por entre livros catalogados em inscrições numéricas
Por entre poetas a falarem sobre poetas
Por entre as palavras que Pina não diz serem suas
Por entre o real que ele não reconhece

Vago sem anilha
Sem inscrições numéricas
Sem tradução

Em paz.

o observador

O bote que se vê distante não é o bote que se vê agora
Atravessa a rua de costas
Avistá-los ao meio-dia é muito sem graça
Na hora do almoço para não atrasar o trabalho
O relatório das conformidades precisa chegar até as 14h15

Pinta o cenário com os dedos
Faíscas a contornarem segredos
Aponta o camelo a beijar o sol
Brilho difuso
Perfeitamente libidinoso
Perfeitamente natural

Fome não tem vírgula
Não tem respiração
Pausa é alimento de outra esfera
Diria o profeta embriagado

Na sociedade do espetáculo
Imagem e realidade dançam conforme o ângulo
Tudo imediato

O observador perde o sinal
Agradece em silêncio
Só quer deitar na rede estilo Macunaíma
Amar sem fronteiras
Bem longe de qualquer interferência.

Armando Martinelli é jornalista. Gosta de escrever poemas, contos, roteiros cinematográficos, peças de teatro, misturar ficção às realidades banais. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro livro, Recital das Reticências, saiu em 2018 pela Editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp; entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia, previsto para ser lançado até o final de 2020.