coluna últimas páginas #6

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a sexta. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

O poeta e o cometa

Rio de Janeiro, 20 de junho de 2020.

“A história é cemitério de mundos, notando-se que uns tantos acabaram de morte tão acabada que nem sequer figuram lá com uma tabuleta, não se sabe que fim levaram as cinzas.” *

Carlos Drummond de Andrade descreveu, em uma crônica de 1962,** a passagem do cometa Halley em 1910, quando ele tinha 7 anos de idade. O poeta falou sobre o belo espetáculo e os temores e o maravilhamento das pessoas. Lembrei-me de meus 10 anos, em 1986, eu havia ganhado uma luneta dos meus pais, laranja, para ver o mesmo cometa e foi uma decepção. Ao contrário de 76 anos antes, o Halley quase não foi visível a olho nu. Mesmo assim, aquelas semanas lendo notícias de astronomia nos jornais me marcaram para toda a vida.

A paixão pela astronomia aumentou ano após ano, embora eu não tenha seguido uma carreira na área, por saber que não era tão bom em matemática e nas demais ciências exatas quanto nas humanidades. A curiosidade, como leigo, porém, prosseguiu todo esse tempo; saber mais sobre os planetas, as estrelas, as galáxias, os buracos negros e os de verme, os universos infinitos e a elegância das teorias mais fantásticas, todas essas maravilhas estiveram, mesmo agora, associadas à beleza poética e sublime da existência, sem que eu precisasse, para isso, de um deus, mas apenas da ciência ao meu lado.

Não foi coincidência passar a mesma tarde lendo, além de Drummond, sobre viagens espaciais em revistas Geográfica Universal que o meu pai, médico, recebia gratuitamente nas décadas de 1970 e 1980 da Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A. Um futuro do passado que se mostrava admirável aos olhos da criança que fui e da qual me lembro hoje, e que agora se mostra, de forma incontestável, perdido.

05_retrofuturismo-Klaus-Bürgle2Em uma edição de outubro de 1984, dois anos antes, portanto, da passagem do cometa, encontro uma matéria sobre projetos espaciais que descreve as naves que estavam sendo construídas para encontrá-lo. A Agência Espacial Europeia planejava colocar sua nave a mil quilômetros do núcleo do cometa. Achei curioso seu nome, Giotto, homenagem ao artista italiano que pintou, em 1301, o cometa no quadro Adoração dos magos. A URSS planejava lançar duas sondas e o Japão, uma. A agência estadunidense, por sua vez, tinha o projeto de uma vela solar giratória, semelhante a um helicóptero, e cada lâmina teria sete quilômetros de extensão. Por falta de verba, foi abandonado. O novo plano consistia em redirecionar uma sonda que se encontrava em órbita de Vênus desde 1978.

Uma outra matéria, em edição de junho de 1980, descreve o ano 2000; ou seja, vinte anos à sua frente e vinte no nosso passado. Diz um trecho: “Para as duas últimas décadas do século estão previstas atividades de construção de estruturas em órbitas terrestres, o que culminará com a instalação de uma gigantesca usina solar para fornecimento de energia ao nosso planeta.” Falava-se de pelo menos 500 trabalhadores espaciais gerando 5 mil megawatts de energia elétrica. Eu me lembro dos meus olhos, criança, brilhando ao ler essas matérias. Há poucos dias encontrei também meus cadernos em espiral com recortes de jornais daqueles anos sobre tudo que dissesse respeito ao espaço.

A explosão dos ônibus espaciais dos EUA Challenger, em 1986, 73 segundos após o seu lançamento, e Columbia, em 2003, no regresso da missão, o colapso da URSS em 1991 e o fim da Guerra Fria mudaram significativamente os rumos do que costumávamos chamar de corrida espacial. Os avanços científicos decorridos disso resultaram em maravilhas do nosso mundo, em áreas que vão da medicina à tecnologia da informação.

Atualmente, damos como feito o lançamento do primeiro foguete tripulado por uma empresa privada, a SpaceX, de Elon Musk, que outro dia se manifestou no Twitter contra a quarentena para combater a pandemia da Covid-19. O retrocesso e o atraso são um fosso de quarenta anos entre o futuro que sonhávamos quando criança e o nosso mundo, que não é eterno, mas apenas mais um prestes a acabar.

* e ** (Carlos Drummond de Andrade na crônica “Fim do mundo”, de 1962. Do livro A bolsa e a vida [Editora Record, 2008])

CITAÇÃO

“Nós vemos o mundo uma única vez, na infância. O resto é memória.” (Louise Elisabeth Glück, poeta e ensaísta estadunidense)

POESIA

PERGUNTAS PARA A HORA DO CHÁ
(de Nicanor Parra, tradução de João Carlos Martins)

Este senhor distraído parece
Uma figura de museu de cera;
Olha através de cortinas puídas:
O que vale mais, o ouro ou a beleza?
Vale mais o riacho que se move
Ou o gramado cravado na ribeira?
Distante se ouve um sino
Que abre mais uma ferida, ou que a fecha:
É mais real a água da fonte
Ou a mulher que se olha nela?
Nada se sabe e as pessoas continuam
Construindo castelos de areia.
O copo transparente é superior
À mão do homem que o criou?
Respiramos uma atmosfera cansada
De cinzas, de fumaça, de tristeza:
O que foi visto uma vez não volta
A ser visto igual, dizem as folhas secas.
Hora do chá, torradas, margarina,
Tudo envolto numa espécie de névoa.

DICAS DE LEITURA

1. Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2019).

manual_antifa_01[TRECHO] “Até serem homogeneizados pelo processo colonial, os povos negros existiam como etnias, culturas e idiomas diversos — isso até serem tratados como ‘o negro’. Tal categoria foi criada em um processo de discriminação, que visava ao tratamento de seres humanos como mercadoria. Portanto, o racismo foi inventado pela branquitude, que como criadora deve se responsabilizar por ele. Para além de se entender como privilegiado, o branco deve ter atitudes antirracistas. Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar.”

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Djamila está à frente da coleção Feminismos Plurais (em parceria com a editora Pólen Livros), que traz para o grande público questões importantes sobre representatividades e outros temas atuais.

Link: https://bit.ly/femi_pluri

2. Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro na Philosophie Magazine: “Ce qui se passe au Brésil relève d’un génocide.”

Link: https://bit.ly/philosophie_EduVC

DICAS PARA ASSISTIR

1. Unesco disponibiliza mais de 80 filmes indígenas gratuitamente no [link].

2. Cinema e poesia: Godard face a Pasolini, por Georges Didi-Huberman (98 minutos, 2014). Legendas em português. No [link].

INSTAGRAM

Kurt Vonnegut Museum & Library | @vonnegut_library

Um Instagram sobre Vonnegut. Isto é tudo!

RESENHA

das_pequenas_2Resenha de Geraldo Lima no Jornal Opção: “A narrativa ácida e inquietante de Rodrigo Novaes de Almeida”. Os contos provocam o desassossego, a reflexão sobre a natureza humana e suas atitudes, às vezes, desprovidas de lucidez e compaixão.

Link: https://bit.ly/rna_opcao

A próxima coluna será publicada sábado, 27 de junho de 2020.