coluna últimas páginas #5

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a quinta. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CITAÇÃO

“A criatura humana é dotada de fantasia, que acaba se tornando um dado real. Ninguém é mais realista que o visionário; ele dá um testemunho de si mesmo mais rico e mais complexo do que aquele que retém uma impressão sensorial da realidade que está observando.” (Federico Fellini)

CRÔNICA

Guido

Rio de Janeiro, 13 de junho de 2020.

Excepcionalmente, uma breve crônica do livro A construção da paisagem, de 2012, em parceria com Christiane Angelotti, sendo cada metade com crônicas de um e do outro.

Algumas crianças brincam na areia perto do mar. Cavam um buraco raso e constroem castelos que logo serão varridos por uma onda. Não existem mais tatuís na praia. As crianças não sabem quem são essas criaturinhas de nome engraçado.

Um casal de idosos passeia de mãos dadas pelo calçadão. Param num quiosque para beber água de coco. O sol de outono no fim de tarde é agradável. Ao longe, observam crianças brincando na areia perto do mar.

Guido vai à janela do seu apartamento. Espera um telefonema de Anita. Numa das mãos, um copo de uísque com duas pedras de gelo. A vista da orla de Copacabana o distrai. Aves sobrevoam as ilhas Cagarras. A superfície do mar encrespa. O vento, que mudara, agora traz consigo nuvens escuras. Choverá mais tarde.

Toca o telefone. É Anita. Guido conversa com ela enquanto o seu olhar se perde na paisagem. Crianças brincam na praia. Um casal de idosos bebe água de coco no calçadão. Guido desliga o telefone e vai à cristaleira repor o seu drinque. Anita não terá filhos com Guido. Não envelhecerão juntos. Começa a anoitecer.

POESIA

OS HOMENS OCOS
(de T. S. Eliot, tradução de Ivan Junqueira)

“A penny for the Old Guy”
(Um pêni para o Velho Guy)

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Forma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

MESA

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Urariano Mota para o portal Vermelho: O quinto episódio do livro Antifascistas — contos, crônicas e poemas de resistência (Editora Mondrongo, 2020), com a escritora Cristina Judar e os escritores Jeferson Tenório e Rodrigo Novaes de Almeida. Na matéria, trechos dos textos dos três autores, sem spoiler.

Link: https://bit.ly/5mesa_vermelho

DICAS DE LEITURA

1. Revista Pessoa: Crônica de Rodney Saint-Éloi Bicicletear, bicitar, bicitandar.

Link: https://bit.ly/rev-pessoa_rodney

unb_elbc2. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea é um periódico científico quadrimestral do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília.

Link: https://bit.ly/unb_elbc

3. O direito universal à respiração, de Achille Mbembe, tradução de Ana Luiza Braga, n-1 edições 2020. Mbembe é autor de Necropolítica.

Link: https://n-1edicoes.org/020

DICA PARA ASSISTIR

1. Visitas on-line do MoMA de NY no [link]. Toda quinta-feira uma visita nova.

APOIO E PARCERIA

Iniciamos nossa campanha de apoio à gueto no Catarse. Quem puder assinar, pode fazer a partir de R$ 10,00 mensais, o que nos será de muita ajuda. Faça parte da gueto, seja um patrocinador fixo e colabore para manter nosso projeto cultural. Ele é de todos nós.

Link: https://www.catarse.me/apoie_a_gueto

A próxima coluna será publicada sábado, 20 de junho de 2020.