cinco poemas de Nic Cardeal

anatomia

Pesquisadores descobriram que os ossos dos camaleões brilham no escuro através da pele.
Os peixes têm ossos finos chamados espinhas.
As borboletas são revestidas por uma espécie de armadura que segura suas asas.
Os ossos dos homens quebram fácil com o passar dos anos.

Camaleões mudam de cor.
Peixes mudam de águas.
Borboletas mudam de flor.
Homens mudam de ideia.

Os camaleões fazem coisas absurdas com os olhos.
Os peixes fazem coisas absurdas com as brânquias.
As borboletas fazem coisas absurdas com as asas.
Os homens fazem coisas absurdas com os homens.

Camaleões são solitários.
Peixes morrem pela boca.
Borboletas são lagartas a caminho do céu.
Pesquisadores não sabem por que os homens demoram tanto para ver com o coração.

comportamento

Cientistas descobriram que borboletas bebem as lágrimas das tartarugas,
as lagartixas conseguem regenerar a cauda perdida para o predador,
os pinguins são capazes de se consolar uns aos outros, diante da perda dos companheiros,
humanos não sabem para que serve a empatia.

Tartarugas não têm nenhuma pressa em viver,
lagartixas são hai-cais de jacarés,
pinguins vivem toda a vida com o mesmo amor,
borboletas vivem duas vidas consecutivas,
poetas são colecionadores de esperanças.

Tartarugas gostam tanto de ficar em casa, que carregam a sua nas costas,
borboletas ficam em casa/casulo, quietinhas, durante boa parte da vida, sem reclamar,
pinguins sabem a importância de um abraço quando perdem o amor/sua casa,
os homens não entendem o que significa ficar em casa.

— Cientistas não sabem dizer se haverá futuro depois de amanhã —

quase agora

Depois a gente esfrega o chão
recolhe os tapetes
ergue os varais com as toalhas e os lençóis
corta a grama que já extrapolou os limites
abre as persianas e deixa chegar outro sol

depois a gente corta o fio
afia a navalha
estende o cordão entre as paredes
pendura as fotografias que sobrarem no baú
precisaremos afinar o olhar — o jeito certo de olhar —
para não perder nenhuma palavra desviada
daqueles olhares estancados da vida
como meros ingredientes do nada

depois a gente chora
enxuga o leite derramado
diz o amor engolido a sete chaves
corre o risco de perder a hora, o trem, a viagem depois do fim
e recolhe cada um dos abraços deixados de lado
na cama, na poltrona, na cadeira da cozinha, sobre o armário
empilha um por um, dobrados e cobrados,
nunca dados, os beijos desejados

por ora, resta-nos a máscara
o lábio amargo
a garganta seca
luvas guardando dedos sem anéis
em mãos mil vezes lavadas em água, sabão e desespero

por ora, já é quase agora
essa pobre senhora desconhecida
estendida no varal entre razões escusas
a vida — por um fio.

ao sair, apague a luz

O país em delírio coletivo
o rei, insano, proferindo brados loucos,
carregando consigo vassalos ensandecidos,
enquanto nós, parecendo poucos,
nada conseguimos,
estáticos, trancafiados em nossos desesperos tantos.

De que adianta a minha casa guardada
se lá fora tanta gente dando a cara ao tapa
da morte — já tão forte —
procurando-nos de porta em porta?

A vida suplicando trégua,
a vida sussurrando rouca:
— haverá melhor caminho para o nada?

subnotificado

Onde um corpo se deita não há mais lugar para a esperança,
nem espaço suficiente para a coleção de ontens,
lembranças já não servem ao corpo findo,
roupas novas, sapato gasto, gravata apertada,
a rosa, o girassol, o cravo, a margarida
— que serventia têm flores mortas atiradas sobre um corpo que se deita? —

Um corpo é só mais um corpo
deitado na solidão perene,
sem saber do dia ou da noite,
a que horas passa a lua céu acima,
ou se águas caem céu abaixo regando a terra.

Um corpo é mais um corpo
entre corpos e mais corpos e outros corpos,
sem dizeres, sem lágrimas, nem lápides,
sem a reza, nem o credo ou o poema derradeiro,
um corpo é mais um nu sem a alma
— a quantas saudades de distância fica a história desse ‘mais um’ corpo que se deita? —

Nic Cardeal, catarinense radicada em Curitiba/PR, é autora de Sede de céu — poemas (Editora Penalux, 2019), e aguarda a publicação de seu próximo livro, de contos e crônicas, em fase de costuras e remendos. Já publicou textos em 29 antologias/coletâneas — 24 no Brasil, 4 em Portugal e 1 na Alemanha. É integrante do movimento Mulherio das Letras desde a sua criação. Possui textos publicados em diversas revistas e/ou blogs eletrônicos, tais como: Scenarium Plural; Blog do Menalton — Literatura; Revista Gueto; Germina — Revista de Literatura e Arte; Revista Virtual Cultural Carlos Zemek; além de atuar, como autora/colaboradora, na Revista Feminina de Arte Contemporânea Ser MulherArte. Escreve porque, assim como são imensas as suas insuficiências, também é profunda a necessidade de dizê-las.