coluna últimas páginas #4

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a quarta. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Briga

Rio de Janeiro, 6 de junho de 2020.

Todo dia, às seis horas da manhã, ele toma quatro remédios. Todos os dias, ele pergunta à mulher: é só a morfina? Esta é uma das seis vezes do dia em que ele precisa tomar sua medicação.

Eu e Christiane brigamos há cerca de vinte minutos. Ela me mandou calar a boca e tapou as orelhas com os fones de ouvido. Está sentada na cama com o computador no colo. Estou de frente para ela na escrivaninha, a tela do meu computador está aberta num site com alguns poemas de Leonard Cohen. Mais cedo li uma matéria noutro site sobre sua estada em uma ilha grega. Fui parar lá porque buscava informações sobre Henry Miller. Estou lendo um livro seu que se passa na Grécia. Ele esteve na mesma ilha em que o Cohen morou e falava, no livro, de seu encontro com Giorgos Katsimbalis. Anotei uma passagem em um dos meus blocos ou cadernos. Estou com vários blocos e cadernos em uso esses dias. É tudo provisório aqui, em meu antigo quarto na casa dos meus pais. Confinados há mais de dois meses, ontem mesmo comentávamos como todo esse tempo brigamos pouco. As brigas agora são completamente tolas e logo esquecemos. Desta vez, estamos no momento que antecede as pazes. Sobre a tela do monitor percebo que ela olha para cá, ela olha para mim e espera que eu tome a iniciativa, que eu peça desculpas por algo que já não me lembro mais. É verdade, tem cerca de vinte minutos que brigamos e eu já não me lembro mais o motivo da briga. Então estou quieto, com os poemas do Cohen diante de mim e um livro de crônicas do Carlos Drummond de Andrade nas mãos. Li outro dia uma dessas crônicas, era sobre passar os dias de Carnaval recluso. Chamava-se “Ficar em casa”, e tinha pensado em reler, antes de escrever sobre o nosso confinamento há tantas semanas num quarto cheio de lembranças. Não tem muito a ver uma coisa e a outra, semelhantes mesmo apenas os vazios e os silêncios. Passar os dias velando objetos antigos que ficaram abandonados neste quarto e paisagens que não podemos mais visitar senão em nossa memória. Não consigo me concentrar quando a Christiane briga comigo. Eu não disse, mas umas dez linhas acima ela quebrou o nosso silêncio. Não foi para pedir desculpas, evidente que não, a culpa desta vez foi minha, mesmo que eu não me lembre mais. É que combinamos trocar de vez em quando de lugar, ela quer vir para a escrivaninha e eu devo ir para a cama. Para mim, tanto faz. Eu me esparramo na cama — livros, blocos, cadernos, estojo etc. são extensões do meu corpo, que é também espírito — e fico bem sentado lá até de madrugada. Ok… preciso colocar um ponto final nesta crônica. Vamos trocar de lugar. Antes, vou pedir desculpas pelo que fiz.

CINEMA NA QUARENTENA

Um projeto deixado de lado

Ou da sincronicidade com o sr. David Lynch

Bom dia! Hoje é sábado, dia 6 de junho de 2020. Aqui no Rio de Janeiro faz uma linda manhã ensolarada e não muito quieta. Parque as ruas não estão vazias, embora um vírus mortal esteja no ar e não exista vacina. Uma ou duas pequenas nuvens no céu; 21 graus Celsius. Tenha um ótimo final de semana.

Uns dias atrás, em vinte e quatro horas transcorridas percebi cinco sincronicidades acontecendo comigo. Não foram coincidências. Cheguei a anotar em um dos blocos ou cadernos, mas não encontrei o comentário para enumerá-las aqui. Admito que não me esforcei muito a procurar, porque este texto não é a respeito delas, e sim do que seria uma sexta sincronicidade.

Uns dias atrás também, comentei com a Christiane uma ideia que eu pensava em colocar em prática aproveitando ainda o confinamento: escreveria e publicaria uma série de textos descrevendo boletins meteorológicos diários e de diferentes lugares, ou de um único lugar a cada dia, ou do lugar onde estamos confinados todos esses dias — que se tornaram semanas, que se tornaram meses — como se fossem fotografias instantâneas. Aliás, para o projeto, eu compraria uma máquina de retrato Polaroide moderna, imitação com diversas melhorias tecnológicas daquelas máquinas antigas, a fim de fotografar o céu para que a foto servisse de ilustração ao texto.

A Christiane me disse para continuar tendo ideias, para anotar todas elas no caderno ou no bloco, e guardar. Se daqui a algumas semanas eu ainda considerar tais ideias boas, aí sim levá-las adiante.

Eu não me lembro como descobri o projeto do sr. David Lynch; foi, se não me engano, na véspera de anteontem. Ao vasculhar o meu histórico de navegação da internet para refazer o caminho da descoberta, constato ter ocorrido antes de Eduardo Viveiro de Castro começar a me seguir no Twitter (eu havia compartilhado uma entrevista dele a um veículo francês, e ele reparou). Depois disso, ou para além disso, perdi o rastro e desisti de vasculhar mais a fundo como cheguei na matéria sobre os boletins meteorológicos do sr. David Lynch. O que importa é que descobri o projeto. Nele o diretor de cinema fornece um relatório detalhado do clima de Los Angeles, olhando pela janela do seu escritório.

david_lynchO seu canal do Youtube se chama David Lynch Theatre, e ele começou os vídeos com os boletins meteorológicos diários em 11 de maio. Li uma reportagem que compara o cenário onde Lynch faz a gravação com o escritório em que seu vice-diretor do FBI, personagem de Twin Peaks, Gordon Cole, trabalha nos casos de suspeitos de assassinato. Eu não saberia dizer, porque tenho essa lacuna no meu currículo de telespectador. Nunca vi Twin Peaks. Do sr. David Lynch, assisti aos filmes e aos curtas. Embora ele não tenha dirigido um longa-metragem há 13 anos, ele vem lançando vídeos no Youtube, na Netflix e em outros sites de streaming, vídeos como What Did Jack Do?, em preto-e-branco, com 17 minutos de duração. Estreou em 8 de novembro de 2017, na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, em Paris. Mais tarde, foi lançado na Netflix (20 de janeiro de 2020).

Mais dois projetos de David Lynch para assistir: What Is David Working on Today? e Fire (Pozar). A sincronicidade com o sr. David Lynch, porém, fica por conta dos boletins meteorológicos.

CITAÇÃO

“Gosto muito mais do monólogo do que do diálogo, quando ele é bom. É como ver um homem escrever um livro expressamente para você: ele escreve, lê em voz alta, representa alguns pedaços, revê o que escreveu, saboreia o que fez, fica feliz consigo mesmo e feliz em ver que você está feliz também, e em seguida rasga tudo e joga os pedacinhos no vento. É uma performance sublime, porque enquanto está ligado, você é Deus para ele – a menos que você seja um imbecil insensível e impaciente. Mas no tipo de monólogo ao qual me refiro, isso nunca acontece.” (Colosso de Marússia, de Henry Miller)

POESIA

ACTO SEGUNDO

Do tirano o golpe já suspende;
E, como se a vontade lhe morresse,
Por momentos sem vontade permanece.
Bem como tempestade que caminha
No meio dum silêncio temeroso.
Em que as nuvens parecem que pararam
E os ventos em tumulto emmudeceram,
Ficando terra e céu sem terem voz,
Mas de repente rebenta a trovoada,
Rasgando o ar, assim o cruel Pirro,
Excitado de novo p’ra a vingança,
Como os ciclopes batendo na couraça
De Marte p’ra durar eternamente,
Cai sôbre Priame sem dó nem piedade!
Oh! Fortuna perversa! oh! dissoluta!
E vós, oh! Deuses, seu mortal poder
Aniquilai! Quebrai-lhe a roda!
E lá do alto do céu precipitai-a
Às profundezas torpes dos demônios.

(fragmento de Hamlet, p.75, de William Shakespeare, em uma edição com mais de 100 anos, do Porto, Livraria Chardron, 1918. Tradução de Dr. Domingos Ramos)

DICAS DE LEITURA

capa_jacobin1. Revista Jacobin, já salvei em favoritos. Como eles se apresentam: “A revista Jacobin é uma voz destacada da esquerda radical no mundo. Agora, em português, contribui no Brasil para uma perspectiva socialista na política, economia e cultura. Além da revista semestral, Jacobin Brasil chega com uma plataforma digital de agitação e propaganda.” Como Noam Chomsky a apresenta: “O surgimento da revista Jacobin tem sido uma luz em tempos obscuros. Cada edição traz debates vivos, profundos e análises de temas candentes, de uma perspectiva lúcida, oxigenada e rara de ser vista na esquerda. Uma contribuição realmente impressionante à sanidade — e à esperança.”

Link: https://jacobin.com.br/

cover_issue_1505_pt_BR2. Primeira edição da revista Sul Global, publicação cientifica do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ e da qual o professor Leonardo Valente é editor-chefe. Uma nova revista plural, ética e voltada para a produção científica de grande impacto e relevância. Artigos como “As alterações climáticas como reestruturadoras do Sistema Internacional e como catalisadoras de mudanças da Ordem Mundial”; “Considerações sobre a política externa no governo Bolsonaro e as relações EUA-Brasil”; “A sofisticação do neogolpismo: das manifestações de 2013 à destituição de Dilma Rousseff”; etc.

Link: https://bit.ly/sul_global_1

DICAS PARA ASSISTIR

1. #Literatura em casa. Professor da Sorbonne Université e idealizador e organizador da Printemps Littéraire Brésilien, Leonardo Tonus está dando aulas gratuitas sobre literatura em lives no final de semana. Aos sábados no Facebook e aos domingos no Instagram. Cada aula tem um tema central, único, de análise literária, que podem ser vistas também no seu canal no Youtube. Literatura em casa tem material de apoio no [link].

2. Material do Centro de Formação do Sesc está disponível no Youtube; Luiz Gama, Milton Santos e Lélia Gonzales são tema das aulas. Link da matéria [aqui].

3. Porque não podia faltar Ailton Krenak nas dicas: Le Monde Diplomatique Brasil, programa Vozes da Floresta, com… Ailton Krenak, no [link].

TWITTER

“O PT ficou 14 anos no poder e nunca fez nada contra a Covid-19. Agora é culpa do Bolsonaro?”

A frase é de Emilia Dourado, no Twitter, fazendo a melhor ironia desta semana.

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A próxima coluna será publicada sábado, 13 de junho de 2020.