s/título, poema de Carlos Emilio Faraco

Redigi o rascunho do meu testamento…
Só tenho a deixar-lhes coisas
Que se configuram breves
Como momentos
Fugazes — posto que humanas:
Uma estrela que me pinga no olho,
Fugida de um poema do Leminski;
Uma pedra-conceito furtada de Drummond;
De Marina Colasanti, um beijo branco de vison.
O brilhante vem dos olhos impossíveis de Diadorim
(Tenho uma certeza funda de que suas palavras
Foram pra mim. Assim sendo, posso legá-las a vocês).
Retiro de uma rasa gaveta — não as tenho fundas —
Um caderno de caligrafia
Cheia de aa redondos e ii com seus pingos devidos
Testemunho de uma professora
Que — perspicaz — tentou me moldar logo, logo,
Aparando as arestas da letra
(Deixo aos descendentes dela esse atestado do seu fracasso).
Somente a Insônia — esta pantera surripiada de Augusto dos Anjos —
Foi minha companheira inseparável.
O sono?
Eu o compro em comprimidos:
Minha pequena morte diária é pura maquiagem
E a deixo para os que vivem de hiatos.
No mais,
Falto de sono,
Enterrei a pretensão de ter em mim
Todos os sonhos do mundo.
Eis o meu legado: recortes.
Arlequinal?

| outros poemas de Carlos Emilio Faraco publicados na gueto [aqui] e [aqui]. |

Carlos Emilio Faraco é professor aposentado. Autor de obras educacionais e de um livro de poemas. Comete textos no Facebook. Ancião brasileiro (71 anos) esperando o gigante amanhecer.