Brasil: (im)possíveis diálogos #20

A gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente aqui no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Lockdown

Por Lucius de Mello

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Vitor Rocha

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito — não fosse pelos meus sonhos ruins.” (Shakespeare, Hamlet)

O pôr do sol engaiolado está ainda mais distante da lua mascarada. Estrelas em quarentena pouco se expõem à sacada do Cosmos para ver a posse do verme na cova rasa, ainda quente. Trôpega, a larva à terra desce cavoucando delícias, sob a rampa de torrões pisados e remexidos, até alcançar o berço esplêndido na escuridão. Só ali, bem no fundo, as margens parecem plácidas. Na superfície, em raios fúlgidos, a imagem da tristeza resplandece. Uma luz artificial estica as horas com holofotes intensos. A claridade postiça termina de apagar o crepúsculo de cores laranja, ouro, quindim, rouge com violeta que desaparece no horizonte. Horizonte? Onde? No buraco, responde uma voz masculina ao ouvir o lamento de um filho que acabara de enterrar o pai. Enterramos o seu Brás, grita para todos ouvirem. Gigante pela própria natureza, o defunto é grande, precisa dessas centenas e de outras milhares de sepulturas para o descanso final. Paz no futuro? E a vergonha do passado? Cada corpo que eu sepultei hoje aqui é um pedaço do Brasil, proclama o homem ao levar a pá ao peito. Horizonte, onde? Cadê? E daí? Enquanto isso, o verme, dono de impávida indiferença, começa o farto e sinistro banquete.

O impacto do vírus mortal abre crateras ao luar. São Jorge de gesso guarda uma delas. Antes da meia-noite o cemitério não fecha. Ainda falta terminar o serviço funerário de pelo menos dez vítimas da Covid-19. Comovido com o destino do seu Brás o orador está ali para trabalhar. Conta que acabara de ser contratado, temporariamente, pela prefeitura de São Paulo para reforçar o exército de coveiros no movimentado sepulcrário. Que era pago só para enterrar números, mas impressionado com o genocídio e com a conta que nunca fecha, decide fazer do “bico” no reino do corvo papel bem mais complexo do que o de assistente da morte. E naquela arena sombria improvisa um revolucionário monólogo: Todos os crânios enterrados esses dias no Brasil sou eu! Vou falar por eles! Defendê-los desse crime bárbaro contra a humanidade! Sou o velho e a vovó da casa de repouso, o morador da favela, o negro, o índio, o morador de rua, o médico, a técnica de enfermagem, o motorista do ônibus, o motoboy, a sua mãe, seu irmão, sua namorada, seu marido, a professora, o pipoqueiro, o bêbado e o equilibrista, o Blanc, o Sérgio Sant’Anna, o cientista… O crânio que ainda não veio… Ou aquele que nem sabe quem é… Essas valas não representam o fim. Elas são trincheiras! O discurso só parava quando o companheiro de cena dava um cutucão: Oh, maluco, quer ser demitido? Vamos cavoucar!

O coveiro de 24 anos tem um grupo de teatro amador na periferia paulistana. Foi obrigado a trancar a faculdade de filosofia por não ter condições financeiras para pagar as mensalidades. Branco, magro, com cabelos pretos e longos até os ombros, usa uma barba rala e um cavanhaque que lembram um homem do século XVI. Beleza elisabetana florescida em semente paraibana que, na maior parte do tempo, fica escondida sob o figurino de plástico e tecido branco celeste. Mesmo na cápsula de segurança o coveiro, mais oráculo que angélico, empenha-se em confortar os parentes dos mortos e fazê-los entender que muitas vidas poderiam ter sido salvas não fosse a prepotência do presidente do Brasil e de alguns políticos em não dar crédito à voz da ciência e tratar a pandemia como uma gripezinha. Daria tempo de ter salvo milhares de brasileiros, milhares, se o mal fosse encarado como inimigo real antes de ter chegado por aqui. Apesar da armadura sufocar o som, o coveiro-ator consegue projetar a voz e se fazer ouvir.

Ele não hesita em se jogar nos braços das ideias e das palavras. Conversa baixinho com os fantasmas dos mortos. A verdade precisa ser conhecida. Sim, era fake news, dona Maria! A tragédia quer um prólogo póstumo! Os colegas dizem que é loucura, imaginação, circo. Mas ele sabe que precisa intervir na cena, que tem mais talento para artista do que para ilusionista de cadáveres. Naquele teatro de mil fossos, o ator emociona-se com as famílias e procura conhecer e interagir com seus dramas. Dribla o chefe, o relógio, as novas regras da necrópole, busca acolher aquelas pessoas entristecidas, machucadas pelo adeus fugaz e glacial; arrisca-se para tratá-las com a nobreza que elas merecem. Quer restituir-lhes a tão apagada coroa da dignidade.

Brilho mesmo tem as luzes dos drones e helicópteros que estão muito acima das cabeças. Os enterros em série são transmitidos on-line e podem ser assistidos na palma da mão. Triste ironia para quem chora os seus mortos e que mal pode chegar próximo ao caixão lacrado. Alguns coveiros comentavam os bastidores da cena vendo tudo no próprio celular. Já o subversivo funcionário tinha os olhos voltados às famílias quebradas, incompletas, muitas vezes representadas por uma única pessoa.

— Por favor, me deixe ficar mais cinco minutos perto da minha mãe, não consegui me despedir dela. Gravei uma mensagem de áudio e enviei para o celular do médico da UTI, pedi para colocarem pertinho do leito para que assim minha mãe pudesse me ouvir mas não sei se de fato atenderam ao me pedido. Seja gente, seu coveiro, implora uma filha inconsolável…

Todos que pedem, ele atende. Discute com os colegas, produz argumentos, coloca o emprego e a vida em risco. E o caixão lacrado da dona Albani fica alguns minutos a mais sob o olhar da herdeira desolada. A mulher pergunta pelo nome do funcionário solidário, quer levá-lo no coração. Mas ele se recusa a revelar: Minha identidade? Pode me chamar de Lockdown — sou poeira da poeira do barro das botinas dos coveiros de Hamlet. O personagem que represento aqui nessa tragédia é a minha humilde homenagem aos dois assistentes da morte que nasceram da pluma de Shakespeare e, com humor e sagacidade, ajudaram o príncipe a pensar, refletir, diz seriamente, cuspindo terra, atolado entre crânios.

O próximo! ordena o chefe dos coveiros. Lockdown logo pergunta: Era sua noiva? 22 anos! Como se chamava a sua musa? Beatriz. Era trabalhadora da saúde. Será minha rainha eternamente, nos casaríamos mês que vem, respondeu o jovem completamente abalado. Ela se contaminou no hospital e em uma semana morreu, mesmo no respirador. Eu tive mais sorte. Também sou enfermeiro. Só você veio acompanhar o enterro? Eu e a irmã dela… A ordem é chegar e enterrar mas vamos dar dez minutos para a última cena dessa história romântica. O noivo se aproxima do caixão e, baixinho, faz uma emocionada declaração de amor. Os colegas de Lockdown aproveitam para beber um copo de água e ele improvisa uma trilha sonora para a cena derradeira de Marcelo e Beatriz. Interpreta Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc. O compositor também tinha morrido, naquele mesmo dia, vítima da pandemia do coronavírus:

“Batidas na porta da frente, é o tempo. Eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Mas fico sem jeito, calado e ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei. Num dia azul de verão, sinto o vento. E há folhas no meu coração, é o tempo… Recordo um amor que perdi, ele ri… Diz que somos iguais, se eu notei… Pois não sabe ficar e eu também não sei… E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos, que amores terminam no escuro, sozinhos. Respondo que ele aprisiona, eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto. E o Tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver…”

Viva Beatriz! Palmas para a enfermeira, pede o coveiro às poucas pessoas que estavam espalhadas pelo cemitério e os minguados aplausos acontecem. Era o que faltava para completar o teatro de Lockdown que pensa no bis e também é atendido. Alguém ainda brada: bravíssima! Quanta apoteose no apocalipse. O ator se enfia na cova e, de lá do fundo, reverencia sua rara plateia. Lembrem-se, há algo de maligno no reino do Brasil! finaliza com tom professoral.

Antes da descida do caixão de Beatriz, Marcelo pede ao coveiro para retirar do fundo da vala um objeto que lhe causa estranheza. O que é isso? pergunta o noivo. Lockdown pega, limpa bem com as mãos e esclarece: O que sobrou do crânio de uma vaca! O bicho deve ter morrido aqui há muitos anos. Toma! Segura! E joga a cabeça da ossada bovina para o enfermeiro. Marcelo olha fixamente para a máscara branca de gado e, envolvido por um breve silêncio, parece hipnotizado por aquele fóssil composto de cálcio e fósforo. Acorda, Hamlet! Sua Ofélia vai partir, instiga Lockdown. O rapaz coloca a caveira ao lado dos próprios pés e joga margaridas sobre o caixão da amada.

A enfermeira é enterrada. Sem olhar para trás, Marcelo e a cunhada deixam o trágico teatro. Lockdown pega novamente o crânio da vaca e observa os ossos tortuosos e cheios de fissuras, os côncavos que assinalam o lugar dos olhos, das narinas ofegantes, os vazios agora escavados na face… Se você ainda tiver alguma dúvida pode perguntar que eu esclareço, diz ele ao fragmento de ossada com prazerosa ironia. Depois, prende a cara descarnada do animal numa pequena cruz de madeira sob os olhares da próxima família e começa outro monólogo: Precisamos corrigir nossos caminhos, mudar a rota que nos trouxe a esse inferno. Seguir o rastro da poesia, as pegadas dos poetas… Quem, de fato, matou esses brasileiros? O vírus ou a indiferença desse governo?

De mãos dadas com o teatro e a morte, Lockdown deixa o cemitério à meia-noite com o pelotão de coveiros. Alguns vão embora de carona na van da prefeitura, outros de moto ou de bicicleta. Lockdown segue a pé e solitário porque mora perto do trabalho. Chega em casa, toma um banho frio, bebe uma cerveja, come um sanduíche e vai deitar na rede da varanda. Fuma o último cigarro daquele longo dia, até ensaia abrir um livro mas, morto de cansaço, adormece pensando no amor roubado de Beatriz e no reino de esqueletos chamado Brasil.

Lucius de Mello é doutorando em Letras na Sorbonne Université — Paris e na Universidade de Sao Paulo. Escritor e jornalista. Segundo lugar no Prêmio Jabuti (2003), na categoria melhor reportagem/biografia, com o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro (Objetiva, 2002; Planeta, 2015), obra em processo de adaptação para série de TV, nos Estados Unidos, renomeada Madame Eny, em co-produção brasileira e americana para plataforma de streaming. Autor do ensaio Dois irmãos e seus precursores — o mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum (Humanitas, 2014), resultado da dissertação de mestrado defendida na USP (2013). Sua pesquisa de doutorado investiga o sonho de Balzac de escrever uma Bíblia Mundana, tomando como base as influências e as conexões entre A Comédia Humana e a narrativa bíblica. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (LEER-USP). Autor convidado da Primavera Literária, Paris (2020).