coluna últimas páginas #2

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a segunda. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

A coleção de selos da infância

Rio de Janeiro, 23 de maio de 2020.

A minha filha completa hoje 15 anos de idade. Não passamos juntos o seu aniversário este ano, nem o meu, vinte dias atrás. Ela está com a avó no nosso apartamento em São Paulo e eu e a sua mãe estamos no Rio de Janeiro, confinados, há pouco mais de dois meses. O meu tratamento médico deve levar pelo menos mais um mês e saímos da casa dos meus pais apenas para ir ao hospital. Minha mãe, hipertensa e diabética, por outro lado, tem saído quase diariamente. Qualquer desculpa é motivo para ir à rua, como um tratamento dentário desnecessário para este momento. Já não ficamos mais perto dela nos ambientes comuns da casa, como sala e cozinha.

Mas a crônica deste sábado não é sobre a saudade da filha ou as dores de um coração aflito causadas por familiares irresponsáveis. Se bem que a causa é a saudade da filha, sim. Minha crônica de hoje é para lembrar a infância, tanto a de Amanda, quanto a minha — mais tarde faremos uma videoconferência, este sinal de novos tempos. Temos bastante coisas em comum, uma delas é um gosto especial por lupas. Amanda tem duas, iguais, com haste preta. Eu já tive três. A da infância mesmo, que acabo de encontrar em meu antigo quarto do apartamento dos meus pais. Junto com a lupa, daquelas baratinhas de plástico transparente e com riscos, sinais inequívocos de uso, recuperei de dentro das gavetas os dois álbuns grandes com a minha coleção de selos. Um álbum só com selos nacionais. Outro com os estrangeiros. Na lupa, em alto relevo transparente, a inscrição “Selos de todo o mundo”.

Uma segunda lupa, que serve também como peso de mesa, é uma meia esfera maciça, e ganhei na adolescência, de meu pai. Deixava em cima de uma das minhas escrivaninhas (cheguei a ter também três escrivaninhas em meu quarto, é um quarto grande, espaçoso mesmo dividindo-o, naquela época, com meu irmão caçula). A terceira lupa, muito semelhante às duas que a Amanda tem, perdi em algum momento esquecido, ou quebrou e joguei fora. De todo modo, meu desinteresse pela filatelia já era completo aos 13, 14 anos. Também só vim a usar óculos depois dos 40, então letras miúdas não eram problema. Hoje, além dos óculos (divirto-me escolhendo armações e admito ter dado uma desculpa esfarrapada quando a minha mulher precisou trocar seus óculos e eu escolhi outra armação para os meus sem necessidade), vivo pedindo uma das lupas emprestadas da Amanda, e aqui no Rio, em quarentena, depois de ter encontrado a pequena lupa de plástico, mesmo toda riscada, a tenho usado bastante, principalmente para ler revistas e jornais das décadas de 1980, 90 e anos 2000 que acumulei nesses anos e ficaram perdidas aqui.

Junto com a coleção de selo e a lupa, encontrei e guardei para levar para São Paulo duas pinças, uma de plástico preta e outra de metal, além de selos avulsos repetidos dentro de um envelope. A Amanda já guarda numa caixa, há uns três ou quatro anos, selos de correspondências que eu e a sua mãe recebemos, especialmente dos envelopes com livros que muitos autores nos enviam para a gueto. Sempre comentei sobre a minha coleção, que todo este tempo estava no Rio, e a incentivei, moderadamente, que se interessasse. Vejo que a prova mesmo de interesse será daqui a algumas semanas, quando eu retornar com essas maravilhas (ou quinquilharias, para uns) à nossa casa.

02_selo_de_gato_1A bem da verdade é somente uma: em mim o interesse por filatelia se renovou, os leitores já devem ter percebido nestas linhas o meu entusiasmo. Procuro, por exemplo, há semanas, selos de gatos (e este tema pode ser um apelo para que a Amanda participe comigo dessa incrível jornada filatélica! Nossa gatinha de um ano e pouco morreu há um ano, de uma doença pulmonar causada por um tipo de coronavírus). Se um leitor que colecione tiver selos repetidos desses animais supremos, por favor, mande cartas para a redação da revista, que é, por coincidência, o meu endereço. E não selem a carta, coloquem os selos dentro do envelope. Ficarei agradecido e escreverei uma crônica nova para contar o episódio e a alegria que sentirei, ou, se o meu plano funcionar, sentiremos, minha filha e eu.

Admito que dias atrás, voltando do hospital, cheguei a ir à esquina, na banca de jornal, perguntar se havia cartelas de selos. Nada mais anos 1980. O jornaleiro me olhou não sei se sem entender o que eu pedia ou se, tendo entendido, incrédulo; se ele for um aficionado por revistas de ficção científica deve ter pensado que eu era um viajante do tempo e estava perdido na rua Gustavo Sampaio, no Leme. Já vejo a história inteira à minha frente. Sou uma espécie de antropólogo que volta ao passado para pesquisar a época em que a humanidade ficou em quarentena no século XXI, mas, por anacronismo, procuro objetos que já não são desse mundo. “Volte 40 anos, senhor!”, diria o jornaleiro se estivesse certo sobre a minha identidade.

Agora é pensar no futuro, em uma nova coleção de selos, talvez temática, talvez sobre gatos (na verdade, nesse meio-tempo de escrita desta crônica, encontrei sites de colecionadores que vendem selos e fiquei bastante interessado em uns da antiga Alemanha Oriental), guardar a da infância, exatamente como ficou todas essas décadas, claro! E assim uma nova coleção requererá também uma nova pinça, novos álbuns e… uma nova lupa. Uma como a que vi numa lojinha de esquina numa das ruas estreitas de Veneza, perto da praça de São Marcos, onde entrei, dez anos atrás, para comprar uma caneta tinteiro, a mais em conta da loja porque o dinheiro nunca foi muito, apesar de aqueles terem sido dias melhores, caneta belíssima, a tenho na caixa ainda, um presente que me dei na única viagem que fiz à Itália. Outro dia descobri que a lojinha tem um site, que até vende para outros países, mas apenas da União Europeia, ou para os Estados Unidos. Terei que voltar lá, portanto, para ter a lupa da minha nova coleção de selos. Banalidades, reconheço. Há dias que precisamos delas. Enquanto isso, uso a lupa baratinha da minha infância.

PS.: Este texto me lembrou um heterônimo que criei exclusivamente para ser um cronista. Gostava da sua verve mais para humor do que para o trágico ou o grotesco da condição humana, que sempre apareceram na minha prosa ficcional. Ele se chamava Josué Francisco Fernandes. Talvez vocês tenham se esbarrado com ele por aí, pela rede.

DICAS DE LEITURA

1. Mais uma indicação de leitura de texto de Ailton Krenak, sempre necessário. Trata-se de “do tempo”, sua participação no Seminário Perspectivas Anticoloniais, Sesc Avenida Paulista, 6 de março de 2020.

Link: https://n-1edicoes.org/038

2. A pesquisadora Rosane Borges explica como o conceito de necropolítica se relaciona com racismo, a ideia da eliminação de um inimigo e as favelas. “O que é necropolítica. E como se aplica à segurança pública no Brasil”, 25 de setembro de 2019.

Link: https://bit.ly/2LPA60f

3. Pandemia democratizou poder de matar, diz autor da teoria da ‘necropolítica’. Filósofo camaronês Achille Mbembe estuda como governos decidem quem viverá e quem morrerá, por Diogo Bercito, na Folha de S.Paulo.

folha_spLink: https://bit.ly/2zX2X06
Link alternativo aberto: https://outline.com/2rktX2

 

4. Duas indicações de leitura (com comentários) de Giovanna Dealtry, professora da Uerj:

Z_cultural_ValeriaI. “De tudo que li sobre nós e a pandemia, esse depoimento da antropóloga feminista Valeria Ribeiro Corossacz, professora na Itália, me parece o mais lúcido e o menos preocupado com futurologias. Traz muito mais perguntas do que respostas. E é construído a partir do lugar da mulher.” Minha cidade: Espaço e tempo coletivos na Itália do coronavírus, de Valeria Ribeiro Corossacz.

Link: https://bit.ly/2Tvtpon

II. “Boaventura dos Santos é um dos grandes intelectuais do nosso tempo por entender que o pensamento intelectual precisa ser modulado, recriado a partir das novas urgências e, principalmente, não mais partindo da Europa para o resto do mundo. Como ele defende, esta é a época dos intelectuais da retaguarda e não das vanguardas. Um furo no ego da construção da figuração do intelectual. O intelectual da retaguarda, para além do intelectual orgânico, abdica da tarefa de ser a lanterna da época para seguir o fluxo sem rosto dos movimentos.” [e-book] A cruel pedagogia do vírus (Boitempo Editorial).

Link: https://bit.ly/36nqhQA

5. Coluna Arte fora dos centros, de Fred Di Giacomo. Lida dia 21, entrou aqui nas dicas aos quarenta e cinco do segundo tempo. Imperdível. “Amaro Freitas: o gênio do piano que o estado brasileiro não matou”, no Uol.

Link: https://bit.ly/2Tt6f23

DICAS DE INSTAGRAM

Prof. Claudinei Cássio de Rezende | @ccassior

07_puc_sp_arteClaudinei é professor de História da Arte e de Ciência Política. É também professor Doutor na PUC-SP e no MIS-SP. Em 2019, na PUC-SP, fiz seu curso de extensão “A Arte como expressão social da Renascença à Modernidade”. Seu Instagram é praticamente um complemento do curso. Nele, Claudinei coloca obras de arte com textos explicativos que, por si só, são aulas. Em tempo: o curso de extensão também vale muito a pena fazer, dura um semestre letivo.

n-1 edições | @n.1edicoes

A editora disponibiliza bastante material gratuito, de ficção e de não ficção, são contos, ensaios e artigos. Mas tem que garimpar.

POESIA

Ubiquidade, de Manuel Bandeira

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino;
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das coisas,
Serás no fim do universo).

Estás na alma e nos sentidos
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Petrópolis, 11 de março de 1943.

CITAÇÃO

“Luís XIII, aos oito anos, faz um desenho semelhante ao desenho feito pelo filho de um canibal da Nova Caledônia. Aos oito anos ele tem a idade da humanidade, tem pelo menos 250 mil anos. Poucos anos mais tarde ele os perdeu, já não tem mais do que 31 anos, tornou-se um indivíduo, não é mais que um rei da França, impasse do qual não sairá jamais. O que é pior do que ser acabado?” (Henri Michaux)

A Editora Patuá faz algo bem bacana, pede aos autores uma citação para colocar no cólofon dos seus livros, que é a nota final de um impresso. Encontra-se atualmente em um cólofon as seguintes informações: o nome do impressor e/ou do editor, o lugar e a data da impressão, às vezes o número da tiragem. A citação acima escolhi para o meu livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos, de 2018.

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revista_guetO1Somos um portal que acredita no poder da internet como ferramenta para compartilhar conhecimento. Financiar iniciativas desta natureza é uma oportunidade de contribuir para a transformação da cultura. Anuncie conosco ou seja um patrocinador fixo com sua marca vinculada a este projeto literário de sucesso, celeiro de novos autores em língua portuguesa. Também aceitamos apoio de pessoas físicas para mantermos a gueto no ar. Saiba mais no [link].

DICAS PARA ASSISTIR

Canal no YouTube de Noam Chomsky em português.

Link: https://bit.ly/Chomsky_tv_pt

Na página da Câmara Municipal de Matosinhos estão disponibilizados os vídeos do Festival Literatura em Viagem.

Link: https://bit.ly/cmm_fest-literato

Em 10 de dezembro, Clarice Lispector completaria seu centenário, e, em sua homenagem, a TV Cultura preparou um programa especial para trazer à luz a memória da escritora. Apresentado por Adriana Couto e disponível no YouTube.

Link: https://youtu.be/fs0Rt-_vkMM

OS LEITORES PERGUNTAM

Espaço aberto a perguntas dos leitores ao editor sobre qualquer assunto, literatura, coluna anterior, revista gueto, assuntos atuais e o que mais der na telha. Enviar para o e-mail editorgueto@gmail.com com título “Pergunta ao editor”, e o leitor aceita que, junto à pergunta, seu nome verdadeiro e o link para uma rede social, site ou blog de sua autoria, ou seja, que o identifique, sejam também publicados no espaço.

Fábio Paim pergunta: A pandemia pode ser o fim de muitas livrarias físicas que ainda resistem? Por outro lado, as pessoas estão aproveitando o distanciamento social para ler mais? Há alguma previsão sobre o efeito do Covid-19 sobre o mercado editorial?

Resposta: A pandemia será o fim de muitas coisas, ainda é cedo para mensurar o que vem por aí. Por outro lado, quem já lê, pode estar aproveitando para ler mais. Recentemente respondi questão semelhante numa entrevista, em que relatei que soube de algumas livrarias que estão vendendo bem até. Mesmo assim, a situação das grandes redes de livrarias, que já era complicada antes da pandemia, deve piorar. Com as editoras, a mesma coisa. A prioridade da maioria da população brasileira é comprar comida, e logo esta também será uma prioridade para quem costuma comprar livros com frequência. E aqui peço licença para repetir o restante de minha resposta, que considero indispensável dizer: O mercado livreiro é um setor que precisa de ações governamentais, não falo apenas a respeito dos livros didáticos, mas também de literatura, esta excentricidade quase absoluta no nosso país. Se tivéssemos hoje um governo de esquerda, ficaríamos melhor assistidos, todos nós. Mas esse governo de extrema direita é o pior que poderíamos ter em qualquer tempo da nossa história, porque o que fazem é necropolítica (no sentido colocado pelo filósofo, historiador e teórico político camaronense Achille Mbembe, de o Estado escolher quem deve viver e quem deve morrer).

PARA QUEM PERDEU

Entrevista ao Blog Études Lusophones, de Leonardo Tonus, em 29 de junho de 2019, sobre literatura, mercado editorial, Brasil e política [link] e entrevista para José Nunes no projeto “Como eu escrevo” em 6 de maio de 2018 [link].

A próxima coluna será publicada sábado, 30 de maio de 2020.