coluna últimas páginas #1

ultimas_pag_2020Novidade inicialmente planejada para sair com exclusividade nas edições trimestrais da revista gueto, nas versões dos formatos PDF, MOBI E EPUB, esta coluna Últimas Páginas (o nome já diz, entrarão nas páginas finais da revista) trará crônicas e informações sobre literatura, arte, política e demais assuntos de interesse de seu colunista, nosso editor-chefe, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida. Mas a quarentena fez com que mudássemos os nossos planos. Pelo menos durante o confinamento, a coluna será aqui no portal e semanal, sempre aos sábados, para não alterar a programação das publicações semanais de segunda a sexta. Hoje, publicamos a primeira. Bem-vindxs!

Por Rodrigo Novaes de Almeida

CRÔNICA

Referências literárias

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2020.

Recentemente, numa entrevista*, me perguntaram quais seriam os escritores que teriam me influenciado. Dei uma resposta bonita, sem citar nomes, e saindo pela tangente. Eu disse:

Essa história de referências é complicada. Talvez para alguém mais jovem isso ainda seja mensurável. Aprende-se copiando muito. Mas depois de algumas décadas a humanidade inteira, de todas as épocas — os que viveram, os que vivem e os que ainda viverão —, estará sedimentada em você. Contudo, você pode continuar a ser pelo resto da vida aquele garoto copiando seus autores prediletos, coisa de fã, não literatura.

Mas a verdade é que eu não sabia mais para quem apontar o dedo: Ernest Hemingway, Fiódor Dostoiévski, Friedrich Nietzsche, Hermann Karl Hesse, Liev Tolstói, João Guimarães Rosa, Álvares de Azevedo, Castro Alves? Tolstói não seria, porque passei a ler os seus livros depois dos 30 anos, ao contrário de Dostoiévski, com quase todas as suas obras lidas e devoradas a partir dos 19. Evidentemente que cada um desses autores, e de muitos outros, me marcaram bastante, mas poderia dizer: é este aqui?; ou: não, espere, é aquele?

Não. Só recentemente descobri de fato quem seriam esses escritores que teriam me influenciado de modo que os imitaria durante os primeiros anos de escrita diária e, para o jovem ingênuo que era, séria.

Minha estada no apartamento dos meus pais no Rio de Janeiro durante essa quarentena, que já perdura dois meses, para fazer um tratamento médico, fez com que eu entrasse em contato com centenas de livros que havia deixado para trás, em meu antigo quarto. Essa é uma história que se repete com muitos filhos que saem da casa dos pais, e que sempre dizem: um dia volto para pegar. Um ano se passa, dois, e quando você se dá conta já se foi uma década inteira.

É essa a minha situação. Os livros estão aqui, os meses de tratamento vêm sendo difíceis, e há, além disso, a quarentena por causa do novo coronavírus, o Covid-19, e se não fosse a força e o amor da minha mulher ao meu lado não sei se estaria aguentando o tranco.

As horas passam lentamente, e o meu confinamento precisa ser ainda mais rígido por conta da gravidade da doença. Passo, portanto, os dias e as noites lendo e escrevendo a segunda parte do meu romance, Ensaio sobre a paisagem (com previsão de lançamento para 2021), que está estruturado de modo diferente de como fiz com a primeira parte. Pouco tempo atrás, um breve fragmento saiu na terceira edição da revista Capitolina, da escritora e editora Nara Vidal.

A fartura de livros e o excesso de morfina não me deixam concentrar na leitura de um único livro — ou talvez seja o sentimento de urgência que tomou conta da minha vida, para ler tudo o que eu possa e escrever tudo o que eu consiga caso a Fortuna não esteja mais diante de mim, e sim um vírus ceifador —, então vivo hoje com a cama, a mesa de cabeceira e o chão ao lado da cama cheios de livros, para a cada instante pegar um.

Até que um dia desses me lembrei dos meus diários e cadernos da adolescência e da juventude, manuscritos dos 17 aos 26, 27 anos, aproximadamente. Quanto mais para trás no tempo, mais curiosos ficavam os textos, porque não eram realmente literários, e sim relatos de acontecimentos, depoimentos, confissões, material suficiente para o deleite de um psicanalista.

Relendo todo esse material, vinte, vinte e cinco anos depois, descubro dois escritores que me marcaram profundamente naqueles primeiros anos de escrita, Henry Miller e o psiquiatra anarquista Roberto Freire. Hoje, existem poucos resquícios deles na minha literatura (o que considero bom e sinal de que fui bem-sucedido no longo processo para me tornar de fato escritor). O primeiro, imitava o estilo e os temas. Estava tudo lá, principalmente em trechos inteiros de sua obra autobiográfica romanceada Nexus, um dos livros da trilogia A crucificação rosada. Trópico de câncer também havia lido. Do Freire, Sem tesão não há solução, Ame e dê vexame e o romance Coiote foram minhas leituras ainda mais novo, com 15 e 16 anos. Mas era Miller quem eu imitava de forma descarada, até em seus gostos literários, especialmente por Nietzsche e Dostoiévski, dos 19 até perto dos 28, quando comecei a me desligar da produção de diários, ou seja, de uma escrita ainda autobiográfica (nada a ver com autoficção), para me dedicar à ficção, em particular aos contos. Um dado curioso é que os contos dos meus anos vinte que sobreviveram são justamente aqueles em que eu não tentei emular Miller.

Também já não escrevia poemas, algo comum de cometer na adolescência, uma produção horripilante que em algum momento mais tarde tive o bom senso de jogar tudo fora. Outra curiosidade é ter encontrado uma pasta com uns poucos poemas escritos aos 10 anos, que, relendo-os, decidi guardá-los, por serem mais autênticos do que os clichês dos anos posteriores. Um dia, em circunstâncias diferentes, torno público esse material da infância nem um pouco constrangedor.

Por outro lado, quando jovem, pensava que logo escreveria um romance — seriam anos de tentativas e erros, de romances abortados e muita frustração, até que escrevesse um que pudesse dizer: este será publicado!, o que aconteceu somente este ano. E as reviravoltas que o mundo dá, antes de lançar o romance, em breve a Editora Urutau lançará meu primeiro livro de… poemas.

01_feelingAssim, nesses meses de tratamento, enquanto salto de um livro para o outro, releio Sem tesão não há solução e os longos trechos de Nexus marcados a caneta em um passado distante. Além disso, fiz o download para o Kindle de Colosso de Marússia, livro de Miller que desconhecia, e o leio também. Fora jornais e revistas das décadas de 1980, 1990 e 2000. Fora dezenas de outros livros, de Antonio Candido a Carlos Drummond de Andrade, de Albert Camus a Theodor W. Adorno. Fora os quadrinhos recortados de veículos de imprensa, como os da Mafalda, de Calvin & Haroldo, Non Sequitur e As cobras, do Luis Fernando Verissimo, de quem sou fã e que nunca imaginei que estaria em um livro, uma coletânea, junto com ele (em dicas de leitura, a de número quatro).

DICAS DE LEITURA

1. Krenak, Ailton. O amanhã não está à venda (Companhia das Letras, 2020). Edição do Kindle.

krenak_covid19[TRECHO] “Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava que o mundo nos traria esse outro luto. Está todo mundo parado. Quando engenheiros me disseram que iriam usar a tecnologia para recuperar o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: ‘A minha sugestão é muito difícil de colocar em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a cem quilômetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida’. Então um deles me disse: ‘Mas isso é impossível’. O mundo não pode parar. E o mundo parou.”

Link: https://bit.ly/krenak_c-19

2. Harari, Yuval Noah. Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade (Breve Companhia, 2020). Companhia das Letras. Edição do Kindle.

yuval_covid19[TRECHO] “Nos últimos anos, políticos irresponsáveis solaparam deliberadamente a confiança na ciência, nas instituições e na cooperação internacional. Como resultado, enfrentamos a crise atual sem líderes que possam inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.”

Link: https://bit.ly/yuval-19covid

3. Contos de Quarentena (org. Mauro Paz, e-book) Participo com um conto chamado “Covid-19”.

capa (1)[APRESENTAÇÃO] Quando a realidade limita os horizontes, a literatura convida para passear. Essa foi a semente para a criação da antologia Contos de Quarentena. Organizada por Mauro Paz, a antologia tem como objetivo levar a literatura contemporânea para aqueles que estão em casa na luta contra a proliferação do Covid-19. A publicação tem distribuição gratuita na Revista Vício Velho. Está também disponível para download no site da Amazon.com.br — em kindle Unlimited ou pelo valor simbólico de R$1,99.

Links: Revista — https://bit.ly/3cwpgYL Amazon — https://amzn.to/2WSyNnU

4. Antifascistas: Contos, crônicas e poemas de resistência (orgs. Carol Proner e Leonardo Valente). Participo com um conto chamado “Cada palavra, uma morte”.

antifas_livro[TRECHO DA APRESENTAÇÃO] “Tendo como base a proposta geral da obra, foi dada liberdade temática, estilística e de formato a todas as escritoras e escritores convidados. Se necessário, crônicas poderiam extravasar seus limites para flertarem com artigos e ensaios, contos podiam parecer crônicas, e crônicas se aproximarem de contos, poemas ganharam carta branca para figurarem como desejassem seus poetas nas páginas, e ficção e realidade tiveram permissão para chegarem de mãos dadas ou bem separadas. A livre expressão em todas as suas dimensões foi mais um contraponto proposital ao engessamento conservador, limitador e classificador típico do fascismo de ontem e de hoje.”

Link para comprar: http://bit.ly/2W5fJSY

5. Printemps Littéraire Brésilien 2020

printemps_nao_ficcaoA gueto publica entre março e junho textos de ficção e de não ficção dos autores convidados da Printemps Littéraire Brésilien a partir do tema norteador deste ano: Brasil: (im)possíveis diálogos. Os textos vão ao ar primeiro individualmente no portal e depois serão reunidos em e-book (orgs. Leonardo Tonus e Christiane Angelotti) para download gratuito.

Link: https://revistagueto.com/tag/printemps2020/

6. Artigo na Folha de S.Paulo: “Brasil enfrenta duplo apocalipse com Bolsonaro e coronavírus, reflete Nuno Ramos”.

folha_sp[RESUMO] Revisitando a festa de seus 60 anos no início de março, em momento que já parece muito distante, artista e escritor, neste texto caleidoscópico, reflete sobre o bolsonarismo e a sobreposição do tempo da política e da pandemia no Brasil. Enfrentamos um duplo apocalipse ainda mais assustador por não sabermos se já se instaurou ou está por vir.

Link: https://bit.ly/2WqUuuP

7. “Diário da quarentena de Pedro Almodóvar”.

Link: https://bit.ly/almodovar_gueto

Semana que vem teremos mais dicas de leitura.

INSTAGRAM

A gueto ainda não tem Instagram. No futuro, quem sabe, abriremos um canal por lá, inclusive com IGTV em pleno funcionamento. Enquanto isso, indicamos alguns colegas parceiros que os nossos leitores podem ir conhecer.

Revista Philos | @revistaphilos

Capitaneada pelo queridíssimo e talentoso Jorge Pereira, esta revista das latinidades tem site e edições impressas. Tudo por lá é imperdível.

Revista Vício Velho | @revistaviciovelho

Editada por Carolina Hubert, é uma revista de literatura que consideramos irmã. No Instagram, a IGTV deles tem entrevistas com alguns dos autores participantes do e-book Contos de Quarentena.

São Paulo Review | @saopauloreview

Revista do jornalista, escritor, editor e artista plástico Alexandre Staut, um dos grandes amigos que fiz em São Paulo, quando trabalhamos juntos no grupo editorial que abarca as editoras Ibep (onde eu era editor) e Conrad e Companhia Editora Nacional (onde ele era editor). Seu livro Paris-Brest: Memórias de viagem e receitas deliciosas de um brasileiro pelas cozinhas da França (Companhia Editora Nacional, 2016), misto de romance de formação, diário de viagem e livro de receitas foi um dos melhores que li no ano passado.

POESIA

Na íntegra ou em fragmentos…

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia

(João Cabral de Melo Neto)

TRADUÇÃO

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Dublin por quatro anos e atualmente vive em Barcelona. Ele está com um projeto bem bacana. Recentemente, traduziu para o inglês três poemas meus: “Tocata e fuga funestas”, “Do filho malsucedido” e “Guerra civil”. Há outros poetas brasileiros já traduzidos e de outras nacionalidades.

O endereço é: https://poetrybilingue.wordpress.com/

CITAÇÃO

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“Sem tesão não se faz revolução.” (Roberto Freire)

OS LEITORES PERGUNTAM

Espaço aberto a perguntas dos leitores ao editor sobre qualquer assunto: literatura, coluna anterior, revista gueto, atualidades e o que mais der na telha. Será escolhida apenas uma pergunta por leitor, a ser enviada para o e-mail editorgueto@gmail.com com título “Pergunta ao editor”, e o leitor aceita que, junto à pergunta, seu nome verdadeiro e o link para uma rede social, site ou blog de sua autoria, ou seja, que o identifique, sejam também publicados no espaço.

FÓRUM DOS LEITORES

Por e-mail, identificando no título que é para este espaço, os leitores podem enviar comentários, elogios ou críticas a alguma publicação específica, coletânea, edição ou mesmo a algum autor. Os editores se reservam o direito de selecionar o que será publicado. A forma de identificação será a mesma da seção anterior.

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*Entrevista para Artur Gomes no site do Sebo do Jidduks: https://bit.ly/entrevista_gomes e Entrevista para Antônio LaCarne no Medium: https://bit.ly/medium_rna

A próxima coluna será publicada sábado, 23 de maio de 2020.