nada para contemplar, de Marcelo Maluf

Nada para contemplar além da imensidão silenciosa do deserto. Como havíamos chegado? Nem mesmo ele saberia dizer com precisão. Ele que sempre soube perceber os espaços, coordenar nossas vidas, que nunca deixou faltar nada a nossa casa, que sempre soube o que fazer, estava tão perdido quanto eu, tão sem saber quanto eu. Tão frágil quanto eu. Mas uma coisa era certa, ele quis que estivéssemos ali. E fez de tudo para que chegássemos ao deserto. Foi só depois que ele descaminhou. Se lhe perguntassem se tinha algum arrependimento na vida, a resposta era sempre a mesma: a de não ter sido um santo. Estávamos no deserto. Sem água há doze horas e ele não parava de repetir que me amava. Há três dias que só víamos areia e vento. Céu sem nuvens. E ele a repetir eu te amo, eu te amo, eu te amo. Apesar da sede e do sol eu ainda me mantinha lúcida. Comecei a compreender que poderia perdê-lo a qualquer momento. E pedi para que ele não dissesse mais. A boca poderia secar. A língua ficar pesada. Estávamos a sós. Enfim. Tínhamos desistido da vida na cidade, tínhamos desistido da vida em sociedade. Há três anos que vivíamos como nômades descobrindo e desistindo de lugares, não se fixando nem a terras, nem a pessoas. Só tínhamos a nós dois como cúmplices nessa jornada. Questionávamos, às vezes, se não era egoísmo vivermos assim sós. Ensimesmados. Mas Dalton sempre tinha resposta para tudo e logo ele nos convencia, a mim e a ele mesmo, de que o nosso estilo de vida era o menos egoísta de todos. Havíamos escolhido o anonimato e a não continuidade, ele dizia. Havíamos escolhido a certeza da impermanência. Havíamos escolhido todos e não alguns. “Hilda, querida, nascemos para servir aos outros, e só podemos fazer isso vivendo desta maneira”. Dalton sempre me convencia com seu modo lento e fino de falar. Foi por isso que me apaixonei por ele. Éramos jovens demais quando nos conhecemos. Mas Dalton sempre pareceu mais maduro do que sua idade. Vivia falando dos poetas e dos santos. Trazia na carteira um retrato de Garcia Lorca e uma imagem de São João da Cruz. Para ele, seus poetas preferidos. Gostava da coragem com que Lorca encarou a morte de frente e sempre achou burra a igreja por não compreender, verdadeiramente, homens como João da Cruz e Francisco de Assis. Ele se enchia de entusiasmo quando falava deles. Eu, ainda menina, mesmo sem saber exatamente por que, fui atraída pelo seu mundo e, aos poucos, descobrindo que aquele também era o meu mundo. Há vinte e cinco anos que comungávamos tudo. Mas no deserto, tudo aquilo era tão pouco. Só tínhamos a nós mesmos. E era de nós que teríamos tudo. De nós, a vida possível naquele mar sem fim de areia. Dalton perdia as forças. Falava mais lento ainda. Sintetizava sua declaração apenas numa única palavra: amor. A M O R. Desejei ser água, nuvem de chuva, casa de gelo, sereno e gota de orvalho. Para que ele me bebesse. Para que ele não secasse. Dalton sempre temeu sentir sede no deserto. Esse era o seu único medo. Não eram a insolação, os escorpiões e as tempestades de areia. Nada. “Tenho medo da sede, posso não me saciar”, ele dizia. Num ato de desespero, por que queria salvá-lo, beijei-lhe a boca de modo a deixar que minha saliva pudesse servir-lhe de água. Sua língua estava tão pesada e seca que tive que salivar muito para trazê-la à sua consistência natural. A sede começava também a tomar conta de mim. E quanto mais sede eu sentia, mais deserto ficava o deserto. Caminhávamos para não desfalecer e ser encobertos por areia. As mãos dadas. Seguíamos sem pronunciar qualquer palavra. Silenciávamos. Contemplávamos a nós mesmos naquela situação e chorávamos, mesmo sem lágrimas para escorrer. Há cinco dias que eu e Dalton estávamos perdidos no deserto.

Na manhã do sexto dia, Dalton me acordou fazendo um gesto de carinho nos meus ombros. Gesto seguido por cinco palavras: “Amor, Eu Não Sinto Sede”. Dalton tinha os lábios vermelhos, o rosto corado. Uma felicidade iluminava o seu corpo inteiro e contagiava o seu olhar e me contagiava, a ponto de eu também não sentir mais sede alguma. No sétimo dia, levantamos cheios de entusiasmo, seguimos dançando por entre as dunas. Não demorou muito para que a areia cedesse lugar ao oceano. E onde antes víamos escorpiões e tempestades de areia, passamos a contemplar peixinhos, baleias, cavalos-marinhos e ondas. De longe avistamos um humilde barco de pescadores. Dalton me disse com seu jeito fino e lento, que era provável que fosse apenas miragem. Nadávamos.

| conto do livro Esquece tudo agora (Terracota editora, 2012). |

Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Autor do romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório, 2015), livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.