quatro poemas de Jeanne Callegari

diagnóstico diferencial

não é possível que não haja um nome
alguém deve ter estudado analisado
catalogado
no dsm-5 deve existir uma categoria só para você
e pessoas do seu tipo
que fazem as coisas que você faz
e dizem as coisas que você diz

pessoas como você não devem ser muitas
mas com certeza estão por aí
alguém ficou encucado ensimesmado
tomando notas
pensando de si para si
que interessante
como quem olha imparcial uma jararaca
prestes a dar o bote

não é possível que não haja um nome
eu não sei qual é, mas deve haver um nome
tenho certeza que há
um nome
para o que você é
e não é um nome muito bonito

agora fobia

já não lembro o calor
de sua pele
a pressão exata de seus dedos
o cheiro dos seus cabelos
a curva do ar no seu peito
exausto ao lado

eu tive medo, sim
tive saudade
mas inútil tentar deter com as unhas
a corrente
reter, com apelos
a luz da tarde

: um segundo de silêncio, então
pelo instante decisivo
do qual chegamos rente
e saímos sem alarde

depois percorrer os dias
noites e nostalgias
até um novo nome
onde hoje o seu arde

educada

não é que eu não queira
são indecentes essas coxas
e você sabe
o mínimo de tecido
que a sociedade aceita
alonga as pernas
de ginasta ouvindo
chet baker
e se eu não te mordo é por ter
boas maneiras
convém não atacar
quem nos dá casa
mas tome tenência
: mais dessa mirada
e eu esqueço
a etiqueta

syagrus coronata

assim como são usadas
todas as partes do licuri
syagrus coronata
palmeira de cocos
pequeninos da caatinga
e se faz
das sementes óleo, do miolo
do tronco, farinha
dos frutos alimentos colares
elixir
para a vista

e como
ao enjoar dos colares
as pessoas tiram e comem
puras
as sementes
uma
a uma
conta
por
conta
como quem
reza um terço

ocupar cada milímetro
do teu corpo — as pernas
gangorras que nos alçam ao teto
os braços
ganchos de nos atar à cama
as mãos operando o baile
em minhas frestas
os cabelos
dossel negro
em nossos olhos
o suor
a nos dar liga
e tempero
a boca um atlântico
— sede água
a expandir
dos meus lábios
as fronteiras

Jeanne Callegari é poeta, artista sonora, jornalista e produtora cultural. Publicou os livros Amor eterno 2 (Garupa e Pitomba!, 2019, contemplado com o ProAC — criação literária de poesia 2018), Botões (Corsário-Satã, 2018) e Miolos Frescos (Editora Patuá, 2015), os três de poemas, e Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Em suas apresentações ao vivo, pesquisa a relação entre palavra, ruído e paisagens sonoras. É criadora, curadora e poeta residente do Macrofonia!, evento de poesia e audiovisual ao vivo realizado desde 2017 em São Paulo.