certezas, de Sergio Leo

Acho que acabava de abrir uma garrafa de cerveja quando vi o primeiro crocodilo, ou assim me pareceu; como se um pedaço da carapaça pardacenta do bicho deslizasse acima da linha d’água por segundos, para submergir rapidamente em seguida. Não tive tempo de avisar Marina, distraída na popa da pequena lancha de motor discreto, nem Marcelo. Ele, apoiado no banco de madeira do barco — ou ligeiramente inclinado em minha direção, sorrindo, as duas imagens se confundem na memória — tagarelava, falando mal das nossas origens.

Creio que não cheguei a comentar sobre o bicho. Marcelo ou Marina, naturalmente, duvidariam da aparição de um réptil, tranquilo, a passeio em um canal europeu. Não me lembro se tiveram essa reação. Seria previsível, bem provável, mas, se aconteceu, não mudou a falta de rumo da conversa, frouxa, distraída.

É possível eu não ter mencionado o animal, e notado, apenas, as poucas garrafas plásticas de água mineral e latas de cerveja boiando, por perto. Deve ter sido, aliás, um comentário sobre canais e sujeira que levou Marcelo a falar das tantas vantagens de viver sob costumes da Holanda.

“Imagina se os holandeses, e não os portugueses, tivessem colonizado o Brasil”.

“O país seria um imenso Suriname”.

Marcelo riu; e levei um tapa no braço. Nada disso, camarada.

Eu não sabia nada de ocupação holandesa, nem imaginava o que Nassau fez em Recife e Olinda. De como era democrática a política no Brasil holandês. Do financiamento pioneiro aos usineiros de cana de açúcar.

Não, eu não conhecia nada, não tinha ideia, nem sabia se ele estava falando a verdade ou confundia a história. Mas, se progresso fosse financiamento a usineiro, o Brasil, hoje, seria uma Suécia.

Marina riu alto. Você é um idiota, ela disse.

Eu sempre fui um idiota. Não lembro se concordei, rindo também, ou se fiz algum gesto amistoso, enquanto aproveitava para me recostar no assento, entorpecido pelo calor, meio hipnotizado pelas oscilações do barco.

Talvez tenha sido, aquele, o momento em que vi o segundo crocodilo, algo que poderia ser o topo da cabeça do bicho, de olhos opacos, aflorar por um instante na superfície cinzenta do canal e desaparecer em uma espuma amarelada, fazendo rodopiar um copo de plástico também acinzentado. Uma janela amarela refletida na água tremulou, mais adiante, num movimento que pareceu, por um momento, provocado pela passagem de um bote, à direita do nosso, ou por algum animal submerso, grande, lento.

No restaurante, foi Marina quem passou cuspir no país em que nasceu. Alguma coisa sobre nossa incapacidade de usar lixeiras, a falta de regras e respeito aos outros. Ou isso das lixeiras ela havia dito no barco, já a caminho do hotel.

Complexo de vira-lata, eu disse. Vira-lata é elogio, ela respondeu. O vira-lata é independente, ladino, um sobrevivente que aprendeu a explorar ou evitar o ser humano, conforme o caso. Sem dívidas com a humanidade. Quem é submisso, de saúde frágil, bajulador e previsível é o cão de raça, o fifi da madame.

Marina era boa de argumentos. Mas, agora, já não lembro se foi mesmo ela ou Marcelo quem veio com essa história de vira-latas e cachorros com pedigree. Poderia ter sido ele. Lembro vagamente de ambos discutindo sobre vídeos de gatos no Facebook e como os detestavam mas não conseguiam deixar de vê-los, todos. É possível que essa história de gatos tenha surgido depois da conversa sobre vira-latices. Eu tinha abusado do vinho. E pensava, calado, como sobreviveriam os crocodilos, em canais urbanos, por mais limpos que fossem — e esses não eram limpos, nem de longe. Talvez os bichos estivessem acostumados, por anos de sujeira; talvez a sujeira os tivesse atraído. Fosse no Brasil, quem sabe, eu veria capivaras.

Não sei se saímos tarde do restaurante porque havíamos chegado tarde, ou porque nos demoramos no almoço; lembro que abri a porta para Marina, Marcelo veio atrás, os dois argumentavam, concordavam, e soltavam palavras desbotadas, que se dobravam sobre si mesmas assim que pronunciadas, e rachavam ao tocar o chão, seus pedaços bicados pelos pombos, em meio a migalhas de pão, restos de comidas, resíduos de turistas. A luz da tarde deixava reflexos amarelados nos olhos de Marina, tornava enrugada a pele de Marcelo, me feria os olhos.

Falavam, os dois, àquela altura, de uma notícia, lida no avião, sobre salários absurdamente altos de professores de ensino médio em alguma capital brasileira importante. Não me recordo se usaram exatamente esse adjetivo, mas acho que não prestaram atenção quando lhes disse que, convertidos em dólares, absurdo era o muito pouco que as escolas pagavam para ensinar.

Talvez eu nem tenha falado, só pensado nisso, ao ouvir de Marina que era compreensível pagar o triplo a funcionários do Banco Central. Marcelo, provavelmente, teria lembrado que trabalhava no Banco Central, antes de se aposentar, dias antes de nos convidar para aquela viagem. Ou semanas antes, eu não sabia com certeza.

Por cima dos ombros de Marcelo, eu via os lampejos do sol refletidos nas águas do canal, remexidas pelas embarcações. Eu enjoava. O canal parecia pulsar, num movimento estranho. E meus amigos, com sorrisos de dentes pontudos e movimentos nervosos, de réptil, me convenceram a terminar a tarde — ou começar a noite — numa coffee shop.

Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Prêmio Sesc de Literatura com o livro de contos Mentiras do Rio (Editora Record); publicou Ascensão e Queda do Império X, sobre o fiasco de Eike Batista (Editora Nova Fronteira), “Segundas Pessoas” (conto, e-galáxia) e contos nas revistas Pessoa, La Pecera e Flaubert. Foi curador da 3ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, e jurado do concurso de contos Machado de Assis (Sesc/DF); participou de duas exposições coletivas no Museu Nacional de Brasília. Trabalhou no Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo, Isto É Dinheiro e Isto É.