cinco poemas de Margarida Patriota

capa_delacaotempo de delação

Vi o sopro embaciar o vidro
Para o dedo traçar no bafo
O coração do amor proibido

Vi a ponta do punhal
Escorchar o tronco adusto
Riscar o manacá que eu amava

O sol inflamou o céu
Não prestou qualquer socorro
Nem se importou com isso

Dentes rasgaram carnes
Desmembraram gomos
Deceparam cachos, que eu vi

Flagrei a noite atropelando o dia
Pelotões de nuvens ladras
A assaltarem o luar

Vi a neve deflorar a campina
A hera assediar o muro
O mar abusar do penhasco

Vi sem asco o que delato
Antes que prescreva em juízo
O ardor dos fatos

luto

Em horas pluviosas
Langorosas, baudelairianas
Recolho-me dócil
Ao boudoir do meu spleen

Beijo a esfinge no console
Bocejo solilóquios no divã
No leque de pavão afago plumas
Aspiro com volúpia buquês murchos

Ao tilintar da sineta
Chávenas de porcelana flutuam
São os meus mortos
A tomar chá comigo

convite

Viesses a mim
Pisarias na juta
Que atapeta o meu solar

Verias as flores
Que bosquejo a bico de pena
Os meus mares de aquarelas

Ouvirias meu relógio de parede
Bater horas como um gongo
A chaleira apitar qual trem fugindo

Verias minhas conchas, caramujos
Conjuntos de azulejos, souvenires de coletas
Escavações, prospecções, enfim…

Para bem do acervo
Bom seria que viesses
Num dia chuvoso

penhora

Quando vierem me arrestar os bens
Indicarei os valiosos

Na prateleira da aventura
O escafandro
Com que imergi nas funduras
E recolhi a dor das ostras

Na do método e disciplina
O vaso para bonsai
Em que forcei um junípero
A se entanguir

Na dos frissons
A lupa por meio da qual
Acendi fogos sem artifícios
Com um filete de sol

telepatia

Através das membranas retráteis
Que nos domam as transparências
Trocamos mensagens cristalinas

Confiantes na recompensa
Do mútuo contato visual
Elucidamo-nos sem sermões

No alargar e contrair das pupilas
Fios condutores nos unem
Dialogamos por osmose

E quando afirmas que sou
Tua “menina dos olhos”
Formamos um globo ocular

| poemas do livro Tempo de delação (Editora Ibis Libris, 2019). |

Margarida Patriota, carioca radicada em Brasília desde 1976, tem trinta livros publicados e foi professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília. Desde 1997 conduz e apresenta o programa Autores e Livros da Rádio Senado. É detentora, entre outros, do prêmio do Instituto Nacional do Livro, de romance, e do João de Barro de Literatura juvenil. De uns anos para cá, tem dirigido seu lirismo à apreciação do leitor formado, com os poemas de Laminário, de 2017, a prosa de Cárcere privado, de 2019, e Tempo de delação, seu segundo livro de poemas, recém-lançado pela Ibis Libris.