dois poemas inéditos de Julia Raiz

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Conheci o enfant terrible
quando ele ainda não era poeta ou músico ou carpinteiro
como José, o pai biológico de Jesus
Jesus Ricardo, o moleque aqui da rua de baixo
O enfant terrible foi do berço pro engatinho em 30 segundos
e já estava de pé mesmo que ainda chorasse
porque não podia confiar em suas pernas moles como
ficam as minhas se assisto Vertigo do Hitchcock
Ergueu os bracinhos de provolone trançado
e pediu ao mesmo tempo regaço e uma xícara cheia de café puro
Sem açúcar
Eu disse: isso vai te fazer mal
Ele respondeu: “eu quero” é a minha sentença
Existem outras, eu hesitei em busca de uma resposta mais precisa
“Eu agradeço”, por exemplo
mas nem eu acreditei no que estava dizendo
Ele teria dado de ombros
se já soubesse que o cinismo se dá principalmente
nos corpos que se movem pouco
Depois voltou ao chão e antes que fosse brincar com as ferramentas
passei repelente em suas perninhas de maria-mole
fazendo cócegas em seus pés o que me deu muito prazer
mas também plantou em minha mente uma cena perturbadora
de meu pai assistindo um vídeo meu dançando completamente nua
na praia fazendo movimentos que lembravam a postura do leão
na Hatha Yoga enquanto atrás de mim um velho
se dividia entre assistir a cena e segurar seu chapéu moralista
que teimava em ir embora
O enfant terrible agora desmontava pequenos objetos
e espalhava suas pecinhas férreas por todos os lados, destruíra:
o controle do som estéreo, meu par de brincos favorito e a pistola
que Rimbaud tinha usado em sua expedição pela Filadélfia
Já demonstrava o enfant terrible um impulso irrefreável
por desmontar coisas para refazê-las a seu próprio modo
O problema é que não sabia montá-las de volta
ou melhor
não sabia fazer delas algo mais eficaz do que tinham sido
Por isso enjoava rápido com uma careta que ia do sorriso
ao choro iminente e o tédio crescia mais veloz do que ele mesmo
Tudo parecia escrito numa lasca de vidro
Mas as fraldas de pano preto lhe caiam muito bem
e quando dormia era bonito como nada e heroico
como um verdadeiro Power Ranger

cleo, a cleptomaníaca

não queria começar com:
sou cleptomaníaca
mas minha estirpe é a da mais tosca
estão a salvo os isqueiros e biscuits
prefiro o que vocês têm rondando de moto a cabeça
entro onde estão à noite (não estão em suas camas, posso garantir)
e levo tudo, passo meu longo braço derrubando o que encontro
pra dentro de um saco de lixo azul-celeste que carrego no ombro
feito um ladrão da Turma da Mônica
pego de ímãs de geladeira à certidão de nascimento dos seus primogênitos
sei dos melhores horários porque sei quais de vocês
têm espíritos fortes que plainam por outras dimensões sozinhos
e quais levam companhia
quais têm liberdade de movimento
mas com materializações pequenas de alma
e quais continuam em vigília conversando com fantasmas
quando deveriam estar bem despertos
o amor não é nada mais do que o proveito da oportunidade
sinto quando abrem ou fecham suas pesadas portas na minha cara
ou quando dizem mentiras nadando com os amigos
em piscinas redondas e querem que eu assine contratos
que pingam no chão de mármore
por isso tenho cada vez menos pena de roubar de vocês
uma árvore também roubou de mim
porque cresci de frente pro bosque seus ramos vingavam fortes
se alimentando da minha energia vital
em troca não me dava coisa alguma
e quando eu subia alto em seus galhos
não fazia nada que pudesse me salvar de cair
as árvores não sentem remorsos
elas nem conversam entre si sobre isso
não têm a mesma preocupação que eu tenho
de escrever sobre o dia que um de vocês me lançou
um pedido de socorro:
“venha, leve tudo o que eu tenho, por favor,
não aguento mais todas essas coisas”
por isso eu acho que no final das contas
faço um favor a vocês
e por isso até deveria ser paga
talvez devesse ser essa mesma a minha profissão

Julia Raiz é escritora e pesquisadora dos estudos feministas da tradução. Edita os blogs literários totem & pagu, firma de poesia, e Pontes Outras, dedicado à tradução de literatura escrita por mulheres. Em Curitiba faz parte do coletivo de escrita membrana. Seu primeiro livro diário: a mulher e o cavalo saiu em 2017 pela ContraVento Editorial. Lançou o megamini p/ vc pela Editora 7Letras em 2019. [ @julia.raiz ]