três poemas de Flávio Morgado

capa_morgadoo pênalti e Quintana

a camisa polo,
signo de federação entre os pés perdidos,
anunciava o cuidado materno
numa quase inadequação
à zona de êxtase
da irresponsável gargalhada
_________________________de uma AK-47
recém tomada pela facção rival
— proibindo o vermelho, o é nós
e o translado.

no sobrado dos ratos
que mendigos naturalmente
tomavam como lar o pé da escada e
eu vi uma tia ser currada
pelo moço do gás eu morava

eu também tinha
uma estadia no inferno
e acreditava nos sonsos
pássaros de Mário Quintana:
que anunciam as horas
e o lírico, que adormecem
os brutos e são amansados
pelos eleitos
— os poetas,
que escondido, eu queria ser.

com o que sobrava do micro-ondas
os traficantes vencedores simulavam
uma partida de futebol. também era
copa do mundo. eu passava pra treinar.

— vai, galego,
toma tua vitamina de degradação
e segue teu rumo.

num poema vejo graça. salvo.

menos esse dia.
que o neto da D. Ana, a costureira,
o federado, visivelmente deslocado
(e por isso) foi obrigado a cobrar
o irrevogável pênalti com a cabeça
do segundo filho de seu Carlos,
um homem que lembrava de tudo

e que agora como ele,
irremediavelmente, eu também saberia

que passarinho era o caralho.

litígio à bandeira
aos meus companheiros de sala de aula

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
___________________________Zumbi, sem cabeça, tem rosto.
___________________________o goleiro Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.

54% da população deste país
é declaradamente negra
(e na primeira constituição republicana
vinha o apêndice sintático-racial “forro”)

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

somos os irmãos vis
do continente. infanticidas notáveis
de nossas origens. exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à própria beleza.

rever na bandeira o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
cor sobre os brasis
(melhores inquilinos da terra).
___________________________ou vermelho: resultado trágico desta equação.

que não seja,
já que até os tons
a tacanhez contextualiza.
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez do homem, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de fuder
— ou o que só entrou com a pica
na dita democracia racial.

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem-sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho: méier.
todo dia alguém nasce negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital: américa latina.

e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

— o mundo nos descabe é esteticamente.

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

como ser minha terra

sobre minha terra:
preciso Conselheiro
acordar sua verde mão
disentérica e generosa sobre os homens
e ver elas dadas às mil
falanges pretas e insurretas de Carlos Marighella.
preciso não temer minha fé em Sebastião,
em Tranca-Rua e na Reforma Agrária.
preciso despertar Darcy
(ouvi-lo atento como um Zarvos)
me deixar morrer índio
e indigesto ao registro.

(preciso testemunhar meu fogo perdido)

e tirar o pó dos reis
___________________________amola a faca, Galanga. arma o fronte, Brizola.
preciso dar sombra à bandeira.
ver uma filha acordar, por Olga.
por outro pra dormir, por Zuleide.
escrever por Carolina, Conceição
e o suicídio literário de um silêncio
— nítido constrangimento desta História.
preciso beber Lima e seu rancor
à burguesia. trazer à praça os poetas:
desonrá-los todos em uniformezinhos
da oficialiesca conformidade nacional
(incluindo seus jetons)
e enquanto acotovelam-se pela eficiência
do século, deixar com eles,
devidamente inflamado,
Roberto Piva e seu livre-arbítrio.

preciso tomar a minha rua
como um príncipe e como um capitão de areia;
juntar os meus, confessar o público
até ver o fútil esgarçar
ver tremer a espinha gerencial da tradição
em meio ao miasma rubro e enérgico
de um coro de nãos.

preciso dispor o meu campo
de ação e sonho
a algo que se abrace.
cumprir essa culpa surrada,
redimir à maioria
na volta perdoada do ausente.

ser a profecia de um padre cego
como ser minha terra.

preciso não me entender. e me permitir.

erigir ao cerne do hino,
num poema já escrito,
essa aporia comovente:

meu povo. meu abismo.

| lançamento sexta-feira que vem, 17 de janeiro, às 18h no Al Janiah. Rua Rui Barbosa, 269, Bixiga — São Paulo. |

Flávio Morgado nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro. Autor de um caderno de capa verde (2012), uma nesga de sol a mais (2016) e preciso (2019).